The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz

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Title: As Farpas (Janeiro 1878)

Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz

Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092]

Language: Portuguese

Character set encoding: ASCII

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[Illustration: ECA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGAO--AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL

DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878

Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder,
da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande
universo, e da adoracao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON




SUMMARIO


A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, Jose de Alencar,
Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
d'aquella dama. A nossa resposta. Nao, a mulher portugueza nao sabe
fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
litteratura feminina e a cozinha de minha avo.--Da influencia dos hymnos
sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
A intervencao do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. nao e o velho
Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
situacao politica. As ultimas sessoes parlamentares. Alguns perfis. Os
partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governacao.

No breve espaco dos ultimos quinze dias a humanidade pagou a morte um
pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
Deixaram de existir, em Franca Raspail e Courbet; na Italia Victor
Manuel, no Brazil Jose de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forcas
sociaes do mundo moderno, a porcao mais fecunda e mais gloriosa da
grande alma do povo.

Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tao vastas e tao
profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
pode-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, nao como uma dependencia
da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
Ville a Republica de 48.

Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
instituicoes politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboracao official. Recusou
todas as distincoes honorificas, todos os cargos publicos, todos os
diplomas scientificos ou litterarios. As suas observacoes astronomicas,
os seus trabalhos de chimica, as suas applicacoes do microscopio ao
estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
isolamento austero da independencia o do sacrificio.

Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
e do Bernardo Palissy.

A academia franceza, commovida com uma tao exemplar grandeza d'alma,
resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
homem que mais servicos tinha prestado a sciencia e a humanidade.

Guizot, entao ministro da instrucao publica, interveio na resolucao da
academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
rebeliao_.[1] O chefe do partido conservador francez nao podia esquecer
que fora esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
em plena Restauracao, ousara fulminar a votacao da lista civil com a
phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
cadeia: "Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
todo o cidadao que ousasse pedir a Franca 14 milhoes para viver."

[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
desgraca de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]

E que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
egualmente o braco constantemente pronto para resistir.

Portentosa existencia, que ficara na historia entre as mais bellas e
mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae a
carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comecou por ser um
theologo. Era porem de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
dezenove annos, acabou por alcancar a gloria immarcessivel de ser
condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
liberdade de pensamento!

O poder espiritual do mundo moderno era representado em Franca por uma
trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a forca do sentimento; Raspail, a
forca do trabalho; Littre, a forca da philosophia.

D'esses tres anciaos o primeiro que desceu ao tumulo e o que mais
fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
sao d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
nenhuma outra parte e mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
as ideas radicaes, que sao as sentinelas avancadas da civilisacao, tao
raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
mocidade mais vivaz e intelligente esta defendendo no parlamento e no
jornalismo as opinioes mais retrogradas, onde finalmente o futuro nao
tem partido.

Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseveranca e a firmeza no
coracao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeicoamento dos seus
similhantes!

Que todos os que sao mocos e fortes se inclinem sobre esta campa onde
repousa um triumpho, e reflictam, que e na pedra tumular de Raspail que
deverao agucar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
consciencia e pela verdade!

       *       *       *       *       *

Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
ideal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
instituicoes sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
derrocar pela pintura a inspiracao da antiga arte assim como derrocou
pelo uso do poder executivo a columna da praca Vendome. Louvavel
empenho, porque Courbet considerava essa inspiracao uma fonte envenenada
para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
symbolo ultrajante para a dignidade humana.

A demolicao da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
palavras tao resentidas e acerbas, nao podera deixar de ser um dia
olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
principios de justica social constantemente professados pelo immortal
artista.

Courbet foi condemnado a pagar a reconstituicao da columna. Breve porem
soara a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
puerilmente que se deve ser

_Fier d'etre francais
Quand on regarde la colonne!_

Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
comprehendera em pouco tempo que e uma injuria ao seu bello destino na
obra da conciliacao humana a ostentacao orgulhosa de um monumento que o
distico diz ser: _levantado a gloria do grande exercito por Napoleao o
Grande!!_

Paris, qua vae na proxima exposicao celebrar dentro do regimen
republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
municipio acaba de votar 546 contos de reis para os seus
estabelecimentos publicos de instruccao primaria ao anno corrente, Paris
que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos a reorganisacao
dos seus lyceus, nao podera manter em pe por muitos annos mais, em uma
das suas pracas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
aspiracoes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
nodoas da civilisacao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
direitos do homem, a sujeicao da Franca aos caprichos de um despota em
cuja fronte as justicas da historia estamparam ja o ferrete da ignommia.

A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradicoes marciaes
da geracao actual o sol de Austerlitz.

Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravara,
ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendome e
pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
sera uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
pratica dos seus actos a opiniao do seu tempo.

       *       *       *       *       *

Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
de Godofredo de Bulhoes. Poderia como elle decepar de um so golpe da
espada a cabeca de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
elle uma cruzada,--a cruzada de Novara ate Roma, como elle chegou a
terra promettida; morreu moco como elle, como todos os heroes que tendo
realisado na terra uma grande missao, se sentem de repente invadidos na
alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmoes mais rijos as
altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
encanto e com mais prestigio a fadiga, ao perigo, as mulheres e a morte.
Era evidentemente um forte. E como a forca e o maior de todos os
attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tao
contradictorias sympathias e tao heterogeneas affeicoes: foi o amigo do
Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

Feliz homem!

       *       *       *       *       *

A morte de Jose de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tao
notavel nos ultimos tempos pela cooperacao dos seus poetas e dos seus
pensadores.

Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidao desviou por tantos
annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
organisacao moderna do trabalho livre e ao mesmo tempo a creacao de um
novo elemento social--o povo.

Jose de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
decide da sorte dos imperios.

Elle, que alcancara um dos mais luminosos logares entre os homens mais
celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
procedera da roda dos expostos.

Esse engeitado era a personalisacao mais gloriosa da soberania do
trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
da arte a sua larga espada de justica, vestindo a tunica e a dalmatica
azul, calcando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
fazendo-se ungir e sagrar pelas multidoes como os antigos eleitos do
senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: "Deus te elegeu para
reinar sobre a sua heranca e para livrar os povos das maos dos seus
inimigos."

       *       *       *       *       *

Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
consolacao de cumprir um destino, consolacao compensadora de tantas
amarguras e de tantos sacrificios, nao foi concedida na terra aquella
natureza essencialmente desgracada.

Tinha um incomparavel poder de applicacao e de estudo e ninguem possuia
em Portugal uma provisao mais copiosa de nocoes e do factos. Foi o
collaborador do Alexandre Herculano nas investigacoes da historia
nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
nossos costumes e das nossas tradicoes. Era archeologo, diplomatico,
jurista, bibliographo. Nao havia inscripcao truncada na epigraphia nem
texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresenca de quanto
tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
incessante. Era um tomo de erudicao vastissima, assombrosa, que ninguem
consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
da lingua.

Faltava-lhe porem no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
generalisacao. Nao sabia tirar dos factos as leis de que elles sao a
funccao. Nao sabia correlacionar. Nao tinha o poder creador. Por esse
motivo a isolacao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsao de energias
concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
estava condemnado a submetter-se para ser uma forca na civilisacao,
repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
aggravada por uma falsa educacao.

Essa capacidade tao prodigiosa de contensao, de investigacao, de exame,
de absorpcao de ideas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
infancia, nao poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
da sua inquieta o attribulada existencia.

A indifferenca perante o conflicto e uma nobre virtude. Raros a possuem.
O que succede com as naturezas vulgares e que a nossa resolucao boa,
conscientemente reflectida, reforcada na mais legitima compenetracao do
dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nos
precisamos de reagir sobre nos mesmos com toda a forca da nossa coragem
para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosao da
crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
vamos lancar ao coracao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
virtude, tao rara, tao viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
no estado de uma exageracao pathologica. O conflicto na convivencia
social nao somente lhe nao repugnava mas attrahia-o--como succede as
mulheres nervosas.

Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creanca. As
suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
pela mesma rasao de que ninguem teve egualmente a compaixao mais facil.
Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
sessoes da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
de Lettras nao conheceram senao metade d'essa physionomia tao
caracteristicamente meridional nos tracos moraes como nas formas
physicas.

Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
quaes aquella humilde casa de litterato, tao hospitaleira e tao pobre,
tinha altractivos que nao podiam propornionar as exigencias dos
philosphos e dos principes, os mais brilhantes saloes de Lisboa. Era
preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
nervosismo do seu coracao com a mesma prodigalidade cem que nas
assembleas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
imperfeitamente orientado.

Quando alludia a sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
alegremente a pe nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
descrevia as madrogradas da caca as perdizes no monte de S. Felix, ou as
outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dancar pelos caminhos as
bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em solucos,
estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
sitio amado, uma velha cancao querida.

Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.

Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou ate o seu ultimo
dia. Ha cerca de um anno padecia uma dor sternalgica, symptomatica do
aneurisma. Esta dor lancinante, que o privava do movimento, forcando-o a
parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se a pressa um medico.
Inutilmente. Elle estava morto.

Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
acrescentar que a reputacao tao frequentemente discutida d'esse
traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipioes
illustres e dos Catoes celebres achem sempre nos seus heroes tantas
qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
maledicencia.

       *       *       *       *       *

Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigao_--publicou o _Diario da Manha_
o folhetim seguinte:

_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educacao--Um programma de
ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipacao das
mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
caldo_.

Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nos
deixaria de ler com a maxima attencao um artigo escripto pelo sr.
Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
de certo. E para que se nao diga com verdade que o grito afflictivo do
paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgao, pedindo-nos caldo, nao foi
ouvido por uma so mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe nao so _caldo_, mas
tambem _luz_, que o alumie nas suas investigacoes acerca d'um assumpto,
que e realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue a
nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nos, tao tremenda
responsabilidade.

Se o assumpto de que se trata, nao fosse realmente grave,
contentar-nos-hiamos com o praser que nos da sempre a leitura dos
escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: E pena
que os escriptos do sr. Ramalho nao sejam mais succulentos! sao como os
caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
depurados ate a transparencia, muito aromatisados ... mas sem
substancia.

Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
sempre de nos, que nao tem rasao para nos querer mal; e que como filho,
esposo e irmao de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmao,
deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouca-me pois.

Nao ensine a sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
faz esse alambicado caldo francez, tao purificado, que por fim como o
proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor a
sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
nossas avos, e como nos todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formacao das suas
ideas, e, como s. ex. diz a sua alimentacao, nao esquecamos que foi
comendo esses caldos e quasi so com elles, que os energicos e valentes
portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
Africa, e na Asia praticaram accoes de tao prodigioso valor. E descendo
a historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
lidadores da epopea da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
nacional e entao infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
incommodasse com a dyspepsia nacional. E so com caldo, e com broa que
todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
supportam, sem cansaco, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
os mais rudes trabalhos; e comtudo nao soffrem de dyspepsia. Sera por
terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem e
preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
rasoes, visto que e o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

A dyspepsia nao e em Portugal uma doenca nacional, e quasi privativa dos
homens das classes elevadas--e quer que lhe digamos porque? Porque elles
teem com raras excepcoes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemaes fazem
consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
portuguezes vao descancar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
das tavernas, onde e considerado heroe aquelle que come e bebe mais
brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
chama dar uma salva real! Desculpa-os porem o axioma do nosso codigo de
educacao: que e preciso dar muita cabecada para vir a ser homem serio.

Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nos, todos os perigos porque
passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, ate que
chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
lhes regenerar os costumes, e vera que, quando chegarem a ser chefes de
familia, seu natural destino, nao precisarao de encontrar na esposa o
braco forte que lhes seja amparo, e terao o estomago sao como em
criancas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle nao
seja perfeitamente transparente, e ate quando tenha seus vestigios de
gordura. Faca isto que lhe pedimos, e todas nos bemdiremos o seu nome,
pois d'este modo tera prestado um importantissimo servico ao seu paiz.

O seu programma para a educacao das mulheres parece-nos excellente para
a Franca, Inglaterra e outros paizes onde as meninas sao educadas nos
collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creancas que os
frequentam comem e dormem em casa, essa educacao que nos habilita a ser
boas _menageres_, ja que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
recebemol-a nos todas com o exemplo e licao de nossas maes.

Em Portugal onde todo o servico domestico e geralmente feito em casa,
todas nos sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que nao
fazem esses servicos sabem como elles sao feitos, pois desde criancas os
viram fazer. O que nao sabemos, la isso nao, e _differencar os
differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
considerarmos, como ate agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

Em quanto a nossa educacao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
as mulheres sao mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
sobrias e economicas, mais submissas a vontade do marido que nos, e toda
a eloquencia do sr. Ramalho nao e capaz de abalar sequer a nossa
conviccao.

Em Franca e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
profissao--enfermeiras, aqui nao as ha senao nos hospitaes, e nem se
lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
seja mae, esposa, filha, irma, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
energicos e audaciosos.

Para sabermos fazer prodigios de economia nao precisamos de nos alistar
n'uma escola ingleza, e, se o nao soubessemos, a primeira mulher do povo
que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pode
sustentar uma familia com 18$000 reis por semana, mas n'essa familia--o
chefe, que trabalha do nascer ao por do sol, sustenta-se comendo tres
tigellas de caldo que lhe custam 10 reis cada uma, 20 reis de sardinhas,
e 10 reis de broa por dia: total 90 reis.

Convenca os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
alimento e muito sufficiente para lhes conservar robustas as forcas
vitaes, e vera como nos todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
casa deixara de ser uma _loba_ para se transformar n'uma _burra_.

Mas se considera como o ideal da perfeicao na mulher, ser ella o _braco
forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pao dos filhos, em quanto os
maridos ficam em casa cosinhando: ja ve que para qualquer de nos
realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

A educacao intellectual das mulheres, quando ellas se nao dediquem a ser
mestras, pode, e ate deve, assim como a moral, receber, como complemento
necessario, as licoes dos homens de quem forem esposas. Assim
reconhecendo no marido superioridade em tudo, ate mesmo nos
conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
respeito que a religiao e a sociedade nos impoem como o primeiro dever
da esposa.

Em quanto a emancipacao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
inglezas--nos, menos profundas pensadoras, nao o queremos.

Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mae, nos
ensina a todas, que a nossa missao na terra, e saber soffrer e amar, por
isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
acaba de nos fazer soffrer as dores da maternidade, e abencoamos
reconhecidas a mao que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
mao e a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixao,
encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
como ate agora, poderia ser apresentada como modelo as nacoes mais
civilizadas da Europa.

Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
irma e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
sua robustez physica, a sua grande cabeca na qual o chapeo de Thiers ou
de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhacos dos
circos o trabalho de fazer rir o publico.

Em paga de todos os favores, que lhe peco, prometto fazer-lhe so um, mas
esse importantissimo.

Nao dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
sr. Ramalho, senao julgal-o-hiam tao criminoso como quem maldiz dos
seus.

Sua

_Irma de Caridade_

       *       *       *       *       *

Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
effectivamente e escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
e para nos de um valor inestimavel. Este folhetim e a mulher. Nao somos
ja agora nos que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
retratar. E ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
acquisicao da nossa galeria. Nao somos nos que a descrevemos, que a
phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
lapis suspeito de inhabilidade ou de ma fe. Veem que e ella mesma que
apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

Ahi a teem! E assim que ella e. Nao ha artificio, nao ha preparo, nao ha
processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
mesma. Reparem bem, meus senhores, que nao e Proudhon que a descreve,
nao e Coubert que a pinta, nao e Offenbach que a poe em musica. E ella
mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

O que estaes contemplando e a obra da direccao mental que nos mesmos
imprimimos ao nosso tempo, e o fructo legitimo e authentico da
philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de ideas que
temos produzido e impulsionado: e a nossa mulher tal como nol-a fizeram
os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
Revede-vos na vossa obra.

Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
de po de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
recitacao ao piano e de tacoes Luiz XV, de collegio nacional e de
_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

Vede que lucidez de razao! que firmeza de criterio! que contensao de
raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
intellectuaes a circulacao facil e viva atravez da rede dos nervos
encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sa que tao
vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
de pensar podeis ajuizar com seguranca da sua forte maneira de viver.
Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vos
mesmo pelo que lhe ensinastes.

       *       *       *       *       *

Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
interprete, dirigi-se as _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

O que sao as _Farpas_ com relacao as mulheres?

As _Farpas_ sao a publicacao periodica--unica em Portugal--que em
artigos consecutivos desde a sua apparicao ate hoje se tem
constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica a
reconstituicao dos costumes e a reorganisacao da familia segundo o
criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituicoes perante a
dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijao physiologico
e social; teem dado como base a emancipacao da mulher a instruccao
pratica, tao defficiente, e a alta cultura do espirito, tao
negligentemente descurada na antiga educacao; teem-lhe ensinado que e
aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrira o segredo de
ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
collaboracao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
indispensavel a fixacao do nosso destino; teem pedido instantemente para
ella a fundacao de novas escolas de ensino especial e de ensino
superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
presente de uma infinidade de theorias, de nocoes, de projectos, de
systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--e
claro--mas demonstrando uma dedicacao excepcional, por isso que nenhuma
das publicacoes periodicas que precederam esta se dirigiu jamais as
mulheres a nao ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

Depois de publicados cerca de quarenta volumes da collecao das _Farpas_
uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
o seguinte conselho como resumo da opiniao collectiva de todas as damas
portuguezas:

"Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhacos dos circos_ o
trabalho a que ate aqui se tem dado de fazer rir os outros!"

Este simples conselho e como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
Elle de per si so basta para nos convencer de que a educacao das
senhoras portuguezas nao so e igual--como a auctora modestamente
formula--a das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pode mesmo
considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
Girardin, Lady Morgan nao tiveram nunca para dirigir a um escriptor
qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tao lucida, tao conceituosa,
tao profunda e ao mesmo tempo tao finamente aristocratica, tao
nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que nao somos
mais que _um palhaco de circo_, opiniao profundamente philosophica. E
talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
lessem. E natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
recordacoes perdidas da sua carteira ou do seu coracao, um pequeno meio
qualquer de nao chamarem completamente palhaco com todas as suas cinco
lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-c-o_ a um homem a quem os
seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
e da sua propria dignidade uma comprehensao diversa, que nao podemos
deixar de attribuir com orgulho patriotico a influencia local da rua de
Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

Nao e menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
chimica culinaria as meninas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
effectivamente a instrucao que nos pretendemos que se lhe deve dar; se
sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missao da mulher
e, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missao, sua
excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
nutricao, a evolucao cellular, a relacao existente entre os phenomenos
da nutricao e do desenvolvimento, do movimento e da combustao; se nos
mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
pelas suas classificacoes mais genericas, os que fornecem o calor e a
forca e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada a hygiene,
pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
substancias alimenticias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas licoes e conferencias, pelo
sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentacao insuficiente, pelos
srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
tintura--alguma das nocoes em que se basea a theoria da cosinha, que e
um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
seu voto n'esse caso poderia ter discussao.

A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
assumpto da ao seu voto um caracter irrevogavel, que nao pode infundir
nos adversarios senao admiracao e respeito.

E inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
hora, ja dormindo, ja caminhando, ja executando um trabalho mental ou
muscular, para regular sobre este dispendio a racao alimentar de cada
individuo. E inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
dos diversos alimentos e da quantidade de forca e de calor desenvolvida
pela oxydacao d'elles. E inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
nos tenham mostrado pela comparacao das estatisticas da salubridade nas
campanhas da Crimea e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
alimentacao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. E inutil que
pelo estudo de iguaes estatisticas com relacao a alimentacao de
operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
qualidade da alimentacao resulta o augmento ou a diminuicao de 20 a 30
por cento no trabalho de cada homem. E inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
nos tenha dito: "Quantos factos na vida das nacoes attribuidos pelos
historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
simplesmente na cosinha das familias!". E inutil que toda a sciencia
tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
nervinos e uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
nosso tempo; que e indispensavel perante a moral e perante a justica
melhorar a alimentacao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisicao
dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
economia. E inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisacao e
de associacao chamar a attencao das mulheres para o estudo e para a
resolucao d'esse grave problema cuja sede e a cosinha. E inutil tudo
quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
empyricamente do que por tel-o visto fazer a cozinheira da sua avo.

Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradicao sobre os methodos
de deitar a carne a panella nas cosinhas da sua rua este argumento
supremo: Foi com essa panella a frente que os portuguezes contiveram em
respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abracados a
travessa do cosido que nossos avos descobriram a India e que os paes de
uns de nos resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Cafe Anglais_.

Em presenca d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
perfeita educacao da mulher portugueza. Continue sua excellencia
imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
vestido e que sabe tambem--o legitimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
mais--notem--sua excellencia faz doce! Nao! positivamente nada se nos
offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Nao precisa de saber mais nada.
Ahi tem sua excellencia uma opiniao que lhe garantira "as solidas
virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
enthusiasmos da paixao":--sua excellencia gosta de assucar!

Quem sabe se nao sera por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vao beber
licores para os botequins?

As maes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
ellas mesmas nao a opiniao do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
agua fria; nao fazem doce, fazem gymnastica, e nao ensinam os filhos
unicamente a comer marmelada, a ir a novena e a nao metter os pes nas
pocas; ensinam-lhes o cricket, a natacao e o _box_, dao-lhes desde a
idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
vao para os botequins, nao costumam encarregar os criticos de lh'os ir
la buscar.

       *       *       *       *       *

Sua excellencia nao se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
segundo os preceitos de Liebig, que nos lhe aconselhamos suppondo que
Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
d'isso do que o Antonio das Mocas, celebre inculcador de cosinheiras,
encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
arte culinaria. Sua excellencia nao so nao quer fazer caldo em termos
para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
pratos e os copos, determinar a differenca de cor nos estofos do salao e
da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto a sociedade
conjugal um servico igual aquelle que recebe d'ella em protecao, em
trabalho e em forca. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funccoes que sua
excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma nao tivesse a
bondade de nos explicar que a occupacao para que se reserva e a de
_abencoar agradecida a mao que prende as suas algemas de escrava_ (!)

O que nos parece e que esse mister exclusivo de sua excellencia nao
promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
algemas!

Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abencoar os ferros, a
jogar a bisca. O nosso temperamento nao nos permittiria estar a dar-lhe
constantemente o grilhao a abencoar; quereriamos ter a faculdade de
poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma boa rolha.

       *       *       *       *       *

O folhetim de sua excellencia termina com uma allusao pessoal a nossa
robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
licenca para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

Eu--pois que e bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
linhas, nao me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calcada dos
Clerigos. Nao, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirara d'este facto
a conclusao maliciosa de que nao tomei cha em pequeno. Que sua
excellencia nao hesite um momento em tirar tal conclsao! E ate favor que
me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
que nao tomei ease cha.

Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouco:--o phosphato de cal,
que eu ingeria em grandes dozes.

A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, nao tinha saguao,
nao tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, nao
tinha pia.

A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
Primeiro ser saudavel; Segundo nao ser conhecida. No interior da sua
casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
fechar de memoria d'homems as 10 horas da noite, o mais tardar. Nao se
desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execucao
esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graca, de que era
modelo a incomparavel cosinha da minha avo,--aberta ao nivel do pateo
defronte do poco, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
onde se espanejavam os capoes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
agricolas; as prateleiras da louca reluzente; o cortico da barrela e a
masseira do pao a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mocos da lavoura tendo
em cima a grande celha com a bracada verde dos frescos legumes picada
com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervencao periodica
do mendigo de estrada, de alforge ao pescoco, que vinha encher a sua
escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensacao de tepido aconchego, de
suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
contadas a lareira; infundia o respeito da tradicao; dava o amor da
familia; explicava o amor a, terra da patria pela dedicacao as quatro
bracas de solo cobertas por esse velho tecto.

A cosinha de minha avo era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
os mais bellos quadros da escola flamenga, tao penetrados como sao da
poesia domestica, nao poderam dar-me jamais senao uma ideia desbotada e
fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
havido em Portugal nao pode senao fazer-me sorrir comparada a obra
modesta de minha avo, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
educacao das suas filhas, para a fixacao do respeito, da veneracao e da
saudade eterna dos seus netos.

A minha robustez physica e o mais contraproducente dos argumentos que a
minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mae. A minha
robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raca de mulheres, que os
nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
vezes empallideceram nos bailes e nao tiveram nunca de que corar aos
folhetins dos periodicos.

       *       *       *       *       *

Terminando, agradeco de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
escriptora minha patricia, mas peco licenca para os nao seguir.
Continuarei a fazer rir os outros, o que me nao impedira de fazer tambem
chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

       *       *       *       *       *

Por occasiao da visita de el-rei a Escola Polytechnica funccionou o
telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!

Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _Uniao e
Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
Emquanto a astronomia tocava cornetim e natural que, em compensacao, a
arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

A unica cousa que extranhamos e que o Observatorio nao observasse entre
as suas pecas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
parece-nos um abuso que o principe nao levara a bem.

Reflectiu por acaso o Observatorio no que e o hymno para um cerebro
coroado? Cremos que o Observatorio nao desceu ainda com as suas
conjecturas ao fundo d'esse abysmo. E horroroso.

Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
O observatorio faz certamente ideia do que e ter zumbidos, nao e
verdade? Pois ter hymno e peor. E ter constantemente, durante toda a
vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doenca
chronica, como affeccao incuravel do nervo acustico, a audicao do mesmo
trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente a loucura.

Que o Observatorio se compadeca do infeliz principe condemnado a tao
incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
faltas de dinheiro, ha de ter constipacoes, ha de ter dores de dentes,
ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
as regioes da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que nao ha outro
remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
sejamos justos! A providencia collocou-nos na mao o cornetim. O monarcha
presta-nos submissamente o seu real ouvido. Nao abusemos d'esse
instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabecas! Somos
cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_

E a posteridade nos abencoara.

       *       *       *       *       *

Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
hydra da reaccao desapparecera da orbita dos conflictos do poder
politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
manha nas secretarias do Terreiro do Paco, perguntavam angustiadamente
uns aos outros:

--Nao viram por ahi a hydra?

Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
entumeciam de impaciencia por nao poderem esmagar o monstro; e o sr.
Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhacao na sua
dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
imperfeito do verbo Mexer.

       *       *       *       *       *

N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
presidente do conselho, tomou uma resolucao heroica: determinou ser
hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
suas funccoes de bicha ultramontana com as suas funccoes administrativas
de homem de estado. Pela manha s. ex. governa. De tarde s. ex. rabea.

Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para
salvar a situacao da falta da hydra:

       *       *       *       *       *

O servico dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
Catholicos e nao catholicos eram levados para o cemiterio municipal
pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
questao canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
como uma instituicao municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
que desejassem repousar em terreno sagrado, e nao benzessem as
d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
Nao tinha jamais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
podia-se morrer em Lisboa so pelo gosto de ser tao tranquillamente
enterrado.

N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua forma de hydra e
determina em favor da morte catholica a creacao de um muro similhante ao
que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento a portaria de s.ex. e
discutir o modo de levantar o muro. Propoem-se a tal respeito varios
alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

       *       *       *       *       *

Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
de facto n'essa cavalheiro todas as condicoes que se requisitam para o
triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispoe da primeira
cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
uma formula. A sua formula e esta: "..._O bucentauro do progresso
rasgando os flancos da montanha_ ..." Sempre que esse homem terrivel
arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
auditorios a sua formula, a victoria e d'elle. A sua existencia tem sido
uma serie nunca interrompida de triumphos, alcancados pela sua
cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
theses de doutoramento, na exhibicao das provas do seu concurso para
lente da universidade, nas reunioes das associacoes operarias e
phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
e de Lisboa e Acores, nas suas eternas preleccoes sobre o terceiro
estado, e finalmente na discussao do muro Guillomin da morte catholica
ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama.

       *       *       *       *       *

Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensao scientifica e
philosophica do phenomeno social da religiao e do facto biologico da
morte,--comprehensao egualmente haurida do ja alludido bucentauro
rasgando os supracitados flancos,--que s.ex. o sr. doutor convenceu a
vereacao lisbonense a approvar nao so a creacao de um muro--o que a
hydra parecera sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
ainda parece pouco.

O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
fecharao o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
aquelles que morrerem fora do gremio da religiao catholica apostolica
romana.

       *       *       *       *       *

Nos suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
infinito onde para a vida; que o cadaver deixava de ter uma religiao,
cessava de pertencer a igreja, para pertencer exclusivamente a chimica.
Suppunhamos que o cemiterio, considerado nao so pelo seu lado civil mas
mas principalmente ainda pela intencao do seu instituto christao, era o
campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
discrepancia de ideas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansao
eterna do perdao e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
orbe pela larga bencao incondicional de Jesus.

Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joao, e puramente um
recinto de caracter official, destinado a fermentacao exclusiva das
podridoes privilegiadas.

Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
as suas calcas de galao de ouro duplamente retesadas pela inchacao e
pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
no peito, o espadim ao lado, o chapeo armado aos pes, o cordao da ordem
terceira de S. Francisco a cinta, vae legitimamente e no uso do mais
sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
resurreicao da carne, como esperou na vida a hora da sua reparticao. No
dia da chamada geral no valle de Josaphat elle pora na cabeca o seu
chapeo de bicos e ira tomar o competente logar na gloria eterna, na
bancada dos conselheiros, a mao direita de Deus Padre Todo Poderoso.

Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado a luz no cano
do esgoto, tu que nao conheceste pae nem mae, producto espontaneo da
grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre a superficie
do pantano, tu que nao recebeste baptismo, nem confirmacao, nem ordem,
nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
o ceo e que a igreja confere por uma tarifa de precos superiores aos
teus capitaes, tu, nao tinhas no cemiterio de Lisboa senao um logar
usurpado, roubado indignamente as pessoas de bem. Estoiraste para um
canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fora dos
sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. Es como um cao. A tua natureza
humana nao e a da outra gente. A tua podridao nao e a da cabelleira do
sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu es uma besta.
Es peior ainda: es um impio. Vao conceder-te agora um quintal para ires
para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
te fazem estes bons senhores em te nao remetterem as equarissagens para
o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
poderiam achar uma applicacao pratica e decente. Poderias aspirar na tua
outra vida a abotoar com os teus ossos as calcas do sr. marquez de Avila
e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
te destinam nada mais seras do que um eterno objecto de execracao e de
horror para os teus concidadaos. Quando passarem por cima da tua cova os
homens serios, a quem esta promettido o ceo sob a palavra de honra do
padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirao sobre a tua
dissolucao infecta. As maes passarao de longe, correndo, com os seus
filhos pela mao, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hao com as
suas finas maos pallidas e rezarao os esconjuros mais efficazes no fundo
tepido dos seus ligeiros _coupes_. Assim com as abencoadas sepulturas
dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dara os horrendos
enguicos. E eu te affirmo que ainda havemos de ver aquelles que eram
cegos e que recuperaram a vista abracando-se as sagradas reliquias de um
bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
vegetacoes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
preverso! Finalmente seras detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creancas, pela
cidade inteira.

E cuidas tu, miseravel, que poderas encontrar um dia na eterna justica
inviolavel a compensacao d'este despreso systematisado, d'este rancor
que e um regulamento municipal, d'este odio que e uma lei do reino? Como
te enganas! O que tem de te succeder e irremissivelmente o seguinte:

No dia do juizo final tu ouviras na profundidade do teu estrume o
canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
anjo que desde o principio do mundo tera estado a recolher no pulmao
para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
os bramidos do mar, todas as erupcoes dos vulcoes, todas as quedas das
catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovao e do raio.
Nao teras remedio senao acordar,--quer queiras, quer nao--do teu pesado
somno da materia bruta. Seras levado a revista do grande valle por dois
ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hao
com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: "Vocemece ha de
ter a bondade de passar ali para a mao esquerda de Deus Padre porque e
condemnado." Tentaras escapulir-te, safar-te para a podridao de que
tinhas vindo. Appellaras para o juiz supremo. O arbitro da eterna
justica inquebrantavel cravara em ti os seus olhos. Tu o veras tambem a
elle, com a sua longa barba que envolvera toda a terra, o seu bigode de
interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
dedos, chisparao os raios na amplidao infinita. Ouviras a sua grande
voz, cujas sylabas cairao na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dira:--"Deram-lhe o
baptismo? Nao. Deram-lhe a confirmacao? Nao. Deram-lhe a penitencia?
Nao. Deram-lhe a absolvicao da culpa? Nao. Nao lhe deram nada. O
cherubim tem razao. Passe para a mao esquerda." Entao passaras para a
esquerda. O teu anjo custodio abrira um alcapao aos teus pes e gritara
para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--"Fogo eterno para
um!" Depois do que, te tocara com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
o espaco como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
sombria feita de lama, ate te submergires no tremendo abysmo, na punicao
eterna. E sera por todos os seculos dos seculos, sem fim jamais.

Eis ahi tens o que te espera, segundo a religiao do dr. Jardim e outros.
Religiao bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
maos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
Bem diversa da d'aquelles christaos da igreja primitiva, que assombravam
Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
que os pagaos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
os conduzirem a sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E nao
resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
primeiros christaos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagaos
pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
sacrificio bastava ser desgracado. Por isso disia o imperdor Juliano que
fora a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
contribira para o estabelecimenlo e para a propagacao do christianismo.

       *       *       *       *       *

Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos ver como s. ex. o
ministro do reino resolvera os conflictos promovidos contra elle mesmo
por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
n'outros termos--a attencao do seu genio. Eis um dos casos sobre que
pretendemos consultar s. ex:

       *       *       *       *       *

Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
nao querendo enterrar-se de todo por uma so vez, resolvia enterrar-se
por partes e dar a terra uma das suas pernas para a terra se ir
entretendo.

N'esta hypothese pergunta-se:

Onde e que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
o capricho de descartar-me?

Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo
indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
escripto, me prescrevera o logar destinado por s. ex. para os membros
impios e locomotores.

A isto porem replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da
direita, quer se trata da esquerda, e boa catholica apostolica romana.
Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei a pia
baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
lingua latina, que ella a esse tempo ainda nao tinha tido tempo de
aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
parocho se ella acreditava na communicacao dos santos, na resurreicao da
carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
tinha ido com o seu respectivo pe e com o pequeno apendice que era o
resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia ate hoje bem
varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
crencas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
compete na funeral mansao. Ella porem, ex'mo. sr. doutor, apezar de
todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca ate hoje
contradisse--que me conste--as declaracoes latinas feitas em seu nome
por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto e catholica,
e tem direito a sepultura sagrada na terra e a bemaventuranca no
paraiso. O sr. Jardim nao pode de modo alguma mandal-a para o cemiterio
dos atheus.

       *       *       *       *       *

Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete a
funeral jazida de uma das minhas pernas e o cemiterio catholico. A essa
resolucao tenho egualmente de oppor-me com os fundamentos seguintes:

Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissao, a missa, a
communhao, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
nao significa da parte da minha perna uma affirmacao religiosa mas sim
uma affirmacao civil.

Pelas leis do reino a religiao catholica apostolica romana nao e
facultativa, e obrigatoria. A minha perna nao pode entrar no estado sem
ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
substitua o assento baptimal para a consignacao do nascimento, a minha
perna nem sequer portugueza pode ser emquanto nao for baptisada! Em todo
o decurso da vida civil, ella nao pode dar um so passo sem primeiramente
demonstrar que e catholica. Sem a certidao de baptismo, primeiro, sem o
attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
sacramentos depois, ella nao pode fazer exame de instruccao primaria;
nao pode matricular-se em nenhuma das escolas; nao pode entrar no
exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
na magistratura, nem na representacao nacional. Nao sendo catholica nao
pode ter nacionalidade, nao pode ter profissao, nao pode ter estado, nao
pode ter mulher, nao pode ter filhos, nao pode nem ao menos ter nome!

A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta a minha perna
antes de a deixar penetrar, se ella e catholica, exactamente como se lhe
pergunta se ella esta isempta do recrutamento e se e vaccinada.

Desde que veiu a luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
nascer, pertence irremissivilmente a igreja. Sem previa licenca da
igreja ella nao pode dar um unico passo para dentro do estado ou para
dentro da familia. Esta simples aspiracao, tao modesta: ser filha de meu
pae e de minha mae--a minha perna esta prohibida de a ter sem que a
igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
minha emquanto a igreja nao disser tambem que sim. De sorte que, quando
eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
deveria dizer em linguagem litteral, para me referir a minha perna,
era--a perna da igreja.

Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
perna da faculdade de escolher uma religiao, chumbando-lhe elle mesmo o
catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religiao. Pelo facto de
ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
anno, de commungar pela Paschoa da Resurreicao, de jejuar a sexta feira,
de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna nao esta na
religiao, esta apenas na lei civil, esta na carta. Em quanto a crencas
religiosas, o mais que se podera dizer da minha perna, apezar de
baptisada, de jejuada, de confessada, etc., e que ella e cartista.

Como porem a creacao das duas especies de cemiterios imaginados em
Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila nao pode ter por fim
separar os cidadaos que obedecem a carta dos cidadaos que lhe nao
obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
sua transgressao,--e claro que nao pode ser unicamente pelo facto de
estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
designar a sepultura sagrada.

Em conclusao final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
outro nao catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella e
effectivamente catholica ou se nao e catholica, acha-se no caso especial
de nao poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim nao mandar o
contrario.

Ora succede que todos os cidadaos portuguezes, sem excepcao alguma, se
encontram precisamente nas mesmas condicoes em que se acha a minha
perna.

Nao se pode affirmar que alguem e catholico ou que o nao e emquanto a
creacao do registro civil nao assegurar a cada cidadao a livre faculdade
de exercer ou nao qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
padre, morrer sem padre.

       *       *       *       *       *

Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Pacos da Camara na Praca Nova,
esquina do Laranjal

Porto

Excellentissima camara e minha boa senhora. E cheio dos maiores cuidados
pela preciosa saude de v. ex. que lancamos mao da pena para, em nome de
todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasiao da cerimonia
inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras.

Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que
tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razoes para nao se dignar de
comparecer.

Por convite da direccao da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
reunimo-nos na estacao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
pelas 11 horas da manha. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, a entrada da nova
ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
presenceamos desde Gaya ate a estacao de Campanha e do qual procurarei,
certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.!

Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
uma perola azul, abraca amorosamente a natureza e banhava a paizagem
n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
maritima, salgada e humida, ate os montes longinquos do lado opposto,
levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisacoes do sol.
Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
reluzentes, forrados de faianca, outros barrigudos, sombrios enodoados,
fazendo fincape para nao cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cor de rosa,
com chamines bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
murmurosas frescuras das quintas de Quebrantoes, da Oliveira, da
freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuracao
de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
torreoes e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
venezianamente na agua.

Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebracao da
ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetacao
humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regioes do
paiz estavam ahi reunidos. Para que?

Para celebrar um puro facto scientifico--a solucao de um problema de
mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que
phenomeno! que revolucao!

Ha bens poucos annos ainda so o fanatismo religioso tinha o poder de
determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
de Guimaraes, a senhora da Nazareth, a senhora do Cabo. Os peregrinos
iam entao solicitar a intervencao milagrosa dos bons santos nos seus
casos pathologicos, nas suas ambicoes pessoaes, nas suas questoes
domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
os tristes iam pedir consolacao, os turbulentos iam pedir paz, e os
mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoco, a
longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no po dos
caminhos, iam simplesmente a beira das estradas pedir pao em troca de
plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

Os peregrinos a ponte sobre o Douro nao eram movidos por interesse algum
pessoal.

Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia ja uma
funccionalidade diversa.

Um poder absolutamente novo, que nao e o poder religioso nem o poder
politico, com quanto nao affirmado ainda nas instituicoes, revela-se ja
por este facto na comprehensao dos espiritos. Esse novo poder,
irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
nomes teem gerido ate hoje a direccao da sociedade, e na esphera
espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

A ponte sobre o Douro e a mais bella e a mais perfeita expressao
symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
que ha exemplo na historia das manifestacoes do applauso publico. Era
tao superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisacao,
que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinccoes
de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
A direccao da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
convidar para o banquete que se seguiu a solemnidade da inauguracao os
individuos representantes das opinioes mais extremas, o mundo official e
o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
revolucionarios. Estes personagens tao justamente surprehendidos de se
acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoco
cujos convivas nao tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
episodicas de opiniao, havia um sentimento de attraccao commum, de
conciliacao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
forca anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
aperfeicoamento e para a felicidade.

Nao foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas nao foram tambem
os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
dirigido ate hoje a humanidade na sua ascencao atravez da historia. Foi
elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
remansos da paz, nos recolhimentos da applicacao e do estudo o que
determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
das sociedades.

A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
instituicoes.

Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
estreitamente enlacadas agora por um abraco de ferro, eram separadas por
um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nos agora nos
reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
nossos paes e os nossos avos espingardeavam-se convictamente, decidindo
com o sacrificio das suas vidas a questao de palacio a esse tempo
debatida entre dois principes.

A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. E evidente que
progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
affirmacao d'esse progresso.

A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandoes de toda a
especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este
seu novo hospede? Nao lhe apparecendo!

V. ex., que tem dado a esse espinhaco os tratos mais violentos e mais
irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.
que tem desengoncado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
pes da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos
do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
ex.--dizemos--nao teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
extraordinaria manifestacao de estima de que ainda foi objecto uma
cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece
completamente qual e o espirito municipal das modernas sociedades
democraticas, que v. ex. esta cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
abaixo da missao em que foi investida pelos suffragios da populacao
portuense, tao energica, tao intelligente e tao progressiva.

E possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque e que v. ex.
nos nao preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a
sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
telegraphico nos, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
resignacao para o desgosto de a nao vermos no espirito.

Acceite minha senhora a expressao dos nossos sentimentos, tao cordeaes
como aquelles que v. ex. nos nao exprimiu.


       *       *       *       *       *


Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

Eis o que ao depois occorreu:

       *       *       *       *       *

A pacata bestinha da governacao andou a monte por alguns mezes,
choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacoes do sr. Barros e
Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
estadista e cavalleiro. Para onde e que s. ex., coberto de zelo e de
suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das
maos na redea e com a outra mao sobre a carta constitucional.

Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
bambeavam dubitativamente a cabeca, e do alto das montanhas, com a mao
aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

--Nao. Para onde elle vae e para a senda de Cacilhas a Cova da Piedade.

E deixaram-o ir.

       *       *       *       *       *

Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
orelha, baixando a cabeca, cravando os olhos sinistros nos cascos
deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
perfidia das ras o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
abysmo,--sempre com uma das maos na carta, mas ja tem a outra mao na
redea.

       *       *       *       *       *

Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
cavalgadurinha do Estado principiou entao a dar terra para feijoes,
retrocedendo para casa e bebendo o espaco com o freio nos dentes e com a
saudade da mangedoura na alma.--Tao poderoso e fecundo e o ascendente
moral que exerce o principio sagrado da racao sobre as actividades
officiaes!

       *       *       *       *       *

Quando as boninas e os representantes da nacao tornaram a ver a burrinha
do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulacao entre os
circumstantes que a porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
sr. Jose Dias Ferreira.

Empolgando com mao dextra e firme a camba do freio a alimaria do poder,
o sr. Jose Dias exclamou triumphante e glorioso:

--A mim, rapazes!

E gritando em coro: "Ave, Jose vencedor!"--os rapazes foram a elle.

       *       *       *       *       *

Eis senao quando, que hao de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
assim elle mesmo?

Atonitos elles veem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
burra ja nao esta devoluta, que a albarda tem gente em cima!

Effectivamente emquanto o sr. Jose Dias intrepido segurava a redea, o
sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

       *       *       *       *       *

O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisoes
do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a
Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de coro e o
seu devido rape; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumacada de algodao
para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixoes cheio de
dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
estes virados com o de dentro para fora, e appareceu por ultimo o sr.
Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
commissao da exposicao de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a
delicada umbela de linho cru forrada de tafeta azul com a qual s. ex.
abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paco ate a rua do Duque
de Braganca a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave
auctoridade, e a sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafeta
azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
durante alguns mezes e querendo obviar a repeticao d'essa
intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
bolsa do alforge ministerial.

Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jose Dias do alto da burra,
enfiou a trote marcial provincias da publica administracao em fora.

       *       *       *       *       *

E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tao somente no mesmo
logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidao, a chapinhar com
arnica o seu galo.

       *       *       *       *       *

Na semana seguinte aquella em que estes successos occorreram houve
jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornara a apostar contra o nobre
estadista sem a condicao previa de que se sobrecarregue com mais alguns
kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.


       *       *       *       *       *


Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessoes da camara dos senhores
deputados:

       *       *       *       *       *

Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
os parapeitos ate ao tecto.

Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna tracada sobre
o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

Serve de secretario, lancando apontamentos a uma larga folha de papel um
individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
dor--Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro.

Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
encasados nos seus _fauteuils_. Nao teem uma apparencia espirituosamente
feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaco
com a expressao passiva e tao caracteristicamente pacata dos individuos
calidos quando instalados em decoccoes emolientes de alfavaca de cobra.

No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das maos sobre o
coracao, a outra mao alongada patheticamente no espaco, esta orando.

Em torno do tribuno agrupam-se em pe varios representantes da Nacao.

Uns rolicos, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforco.
O abuso do feijao suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
Robespierre--Sao os empaturrados da coisa publica.

Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lividas, os pes
mettidos para dentro, as calcas esbambeadas pelas joelheiras dos
sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calcas e que
descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--Sao os espinhelas
cahidas do systema que felizmente nos rege.

No fundo escuro da bancada sobresaem da cor sombria dos vestuarios de
inverno duas maos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripcao ou uma
sentenca de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
inoffensivamente, n'uma abstracao magnanima.

--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz e pungente, elegiaca,
lacrimejante--Sr. presidente! onde nao ha religiao nao ha dignidade.

Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
cabeca.

Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
estao ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade e uma
resultante da religiao. E todavia e a religiao que obriga esse pallido
mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplacao,
a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
submetter-se pela humilhacao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
resignar-se. E e pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
sanguineo e robusto a caminhar na direccao opposta a d'esse anemico, a
constituir a familia, a luctar, a nao perder tempo em contemplacoes e em
extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
botas novas nao caem do ceu cob a forma de mana, caem unicamente do
trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porem estao
ambos de accordo emquanto a allianca indissoluvel da dignidade de um e
da religiao do outro perante o principio transcendente da rhetorica
constitucional.

Diz mais o orador:

--"Sr. presidente!--e a entonacao do tribuno continua a ser lacrimosa e
pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
investigacoes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
inventando religioes para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
isto porem nao apagou na minha alma a doce esperanca que n'ella lancaram
aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
porque elles serao consolados".

E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
camara:--"Muito bem! muito bem!"

A morbida corrente intellectual do pessimismo allemao representado por
Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppoe o naturalissimo de Darwin
e as poderosas systematisacoes de Spencer, a Franca oppoe o positivismo
victorioso de Augusto Comte e de Littre. Em Portugal, onde estas
questoes nao foram nunca ventiladas senao por pobres escriptores
desconhecidos em periodicos tao desconhecidos como elles, a camara dos
srs. deputados ouve pela primeira vez a solucao official d'esse debate.
Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
Mill e de Littre, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
alma virginal do sr. Manuel d'Assumpcao. E a comprehensao mais perfeita
dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
crencas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna nao
queria evidentemente senao uma coisa: apagar a esperanca na alma d'este
moco. Pois ficara sabendo que o nao conseguiu. A camara dos deputados da
nacao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
collocando-lhe em cima o sr. Assumpcao e a esperanca da sua alma, no
meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

E, nao obstante, querem dizer alguns que a politica nao e mais do que a
applicacao da philosophia a direccao pratica das sociedades.

A politica de Bismark e um grande poder social porque atraz d'elle esta,
como o peito pelo outro lado da couraca, a disciplina philosophica de
Kant, de Hegel e de Hartman.

Danton, a alma da Revolucao, era na esphera executiva o instrumento da
philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
grande movimento cahiu com a cabeca de Danton, guilhotinado pela
indisciplina mental.

Foi ainda a anarchia das ideas, resultante da falta de um methodo
philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

Finalmente para que a democracia se fundasse em Franca sobre bases
definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que e o filho
triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton e o
filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

Na Italia o que e a politica actual, que libertou e unificou a grande
peninsula, senao a somma das expeculacoes de uma longa serie de
pensadores, desde Dante, o vidente, ate esse taciturno Leopardi, que foi
o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
politico do imperador Guilherme?

Em todos os estados actualmente em dissolucao qual e a causa do mal
senao a perturbacao da mentalidade pelo empyrismo da politica
arbitraria? Sera preciso citar a Turquia? Sera preciso citar a Hispanha?

Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
vigor intellectual, que em poucos annos despedacara todos os velhos
preconceitos e todas as caducas instituicoes que embargarem a sua
ascencao politica. O federalismo, forma definitiva da civilisacao na
peninsula iberica, esta-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
pouco e pouco o caracter de uma opiniao partidaria. E um resultado
philosophico, que em toda a Hispanha esta sendo pacificmente revisto e
contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
linguistica, pela historia. Quando esta idea chegar ao cabo da sua
elaboracao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
actuara sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma forca da natureza.

Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tao
experimentalmente e tao evidentemente os seus dominios sobre o destino
humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
maioria a condemnacao da critica e do pensamento moderno; declara-se
indissoluvelmente abracada a theologia; e a todas as conquistas da
sciencia no presente seculo ella oppoe triumphantemente a posse d'esta
nocao: "Bemaventurados os que soffrem porque elles serao consolados."

A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tao patente de
esphacelamento cerebral.

Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
caturras?--E unicamente o que perguntamos.

       *       *       *       *       *

O medo como a camara pensa da-nos a justa medida do modo como a camara
governa. Ha muitos annos que ella nao toma uma unica medida tendente a
coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforcos da progressao
social.

A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituicao politica, esta por
fazer.

A liberdade religiosa nao esta regulamentada de modo que torne effectivo
o principio em que se funda.

A distribuicao racional do imposto ainda nao foi definida.

Finalmente a organisacao da instruccao publicia, esse elemento vital de
uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
Turquia esta muito adeante de nos.

Os parlamentos, sem direccao mental, sem criterio scientifico, sem
destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
dissolvem-se na banalidade.

As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente as
camaras uma grande concorrencia de ouvintes que nao recebem ahi senao as
mais perigosas licoes de cynismo e de immoralidade.

Das duas coisas uma: ou o espirito publico esta bastante corrompido para
assimilar sem perturbcao do seu organismo a entoxicacao d'esses
exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado a dissolucao; ou a
burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
cair como caiu em Franca o segundo imperio por effeito de um movimento
similhante aquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolucao do despreso_.

A similhanca de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
circulacao intellectual. Os partidos politicos sao os centros nervosos
do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
funccionar. Ora qual e o estado dos partidos politicos em Portugal?

       *       *       *       *       *

Ha um partido que esta hoje no poder. E um partido conservador. E
catholico, e monarchico, e auctoritario, e proteccionista, e
militarista, e unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religiao do Estado;
quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
permanente com os seus respectivos canhoes Krupp e a sua competente pena
de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direccao e de
governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundicao de typo, uma fabrica
de cordas, uma photographa, etc.

Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
pelas suas ideas nao formam realmente senao um partido unico: o partido
opposicionista. Que differenca ha entre este partido na opposicao e o
partido actualmente no governo? E revolucionario? Nao: e egualmente
conservador. E racionalista? Nao: e egualmente catholico. E
evolucionista? Nao: e egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
industria e a liberdade do commercio? Nao: quer egualmente a proteccao
das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
magistratura anarchica, a instruccao cahotica, o suffragio corrompido, o
governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
a photographia, a cordoaria, a fundicao, etc.

A unica opiniao que a opposicao diz ter e que ella accusa o governo de
nao professar e a opiniao abstracta da economia, da ordem, da moralidade
e do progresso. Como porem todos os governos, qualquer que seja o
partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
perante a accusacao de nao servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alias nao
podem constituir principios de programma, sao communs a todos os
partidos ou nao sao especiaes de partido nenhum.

Os partidos portanto nao se differencam senao pelos nomes dos individuos
mais ou menos numerosos do que elles se compoem. N'esta ausencia
completa de ideas contrapostas o governo em Portugal, versando
constantemente sobre si proprio, da-nos o espectaculo de um organismo
vivo isolado na creacao, alimentando-se na sua propria substancia e
digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

       *       *       *       *       *

Deixando de ser uma lucta de principios e de ideas a politica
converte-se fatalmente em uma questao de compadres.

O compadrio elevado a cathegoria de instituicao nacional, domina tudo,
corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que nao podem conquistar o
appoio da opiniao pelas ideas que representam, procuram manter-se pelo
appoio dos compadres que favorecem. E na proporcao exacta do numero dos
compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
diminue de adeptos, progride ou retrograda na confianca da coroa e no
favor da urna.

O dogma fundamental do compadrio impoe-se por tal modo que transforma
todas as outras nocoes moraes segundo o criterio de que elle e a
expressao. Transforma a justica, a honra, a probidade, a propria
consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
commetter a mais vil e a mais nefanda das traicoes politicas!

Despachando o compadre mais servical com exclusao do adversario mais
competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidao e
de lealdade. E ninguem ve quanto ha de profundamente subversivo da ordem
moral n'este simples facto tao vulgar, tao frequente, tao despercebido:
a exclusao da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
e commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pode ser reo
deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violacoes do direito
e todas as affrontas da justica. E um roubo violento e descarado,
aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
insulto ao trabalho, com o escarneo a moral, com o ultrage ao dever.

Na politica portugueza, que tem o seu calao como as mulheres publicas e
como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisao
correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opiniao diz
apenas:--E fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
compadre, vou para o partido d'elle.

O officio do governo e servir o paiz. Como porem o paiz, por effeito do
machinismo eleitoral, e representado constantemente pelos compadres do
governo, o officio do governo em ultima analyse nao e mais do que servir
o compadre. Esta no seu destino. Gracas aos elementos de corrupcao de
que o governo dispoe, o cidadao, nao votando como cidadao mas votando
como compadre, da o primeiro impulso que poe em movimento toda a
engrenagem do systema: elegendo o compadre e elle mesmo que funda a
tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

A sociedade esta a merce do compadre. E se ha poder que possa
contrabalancar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
esse poder e unicamente--o da comadre.

A aptidao provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensao e o mais
rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
real; compadrice, comadrice--eis tudo.

       *       *       *       *       *

Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
decadencia e tanto mais lamentavel quanto e certo que a sociedade que
ella tem por fim dirigir esta na anarchia economica e tende para uma
miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
quatro ou cinco individuos de opinioes radicaes: republicanos,
socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
sejam homens profundamente convictos e determinados a peleja de cada dia
e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
resistir, nao ja pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisacao. E das
concessoes mutuas e successivas, feitas, ja ao principio da ordem pelos
revolucionarios impacientes, ja ao principio do progresso pelos
conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixoes e dos
mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

       *       *       *       *       *

Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
sollicitamos, resta-nos entao adoptar o expediente ultimamente proposto
pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
caiar o palacio das cortes, branquear por fora o parlamento--_dealbatum
sepulchrum_!







End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz


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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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