The Project Gutenberg eBook, A Paranoia, by Julio de Mattos


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Title: A Paranoia

Author: Julio de Mattos

Release Date: December 28, 2004  [eBook #14503]

Language: Portugese

Character set encoding: ISO-8859-1


***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PARANOIA***


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A PARANOIA

Julio de Mattos

ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

  _...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo
  querito della pura pazzia._

EUGENIO TANZI

Lisboa
Livraria Editora
Tavares Cardoso & Irmo
5, Largo de Cames, 6

1898







A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS




PREFACIO


Ao passo que na sua maioria as doenas hoje estudadas pelos alienistas
pertencem no fundo  pathologia interna, e s pelo predominio, mais
apparente s vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se
apropriaram a designao de _mentaes_, os delirios systematisados,
esses, pela ausencia de caracteristicas leses, pela falta de privativas
causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes
objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose
por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da
psychiatria.

Isto  dizer que a observao clinica no pde, ella s, determinar a
gnese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os
somaticos e etiologicos , no caso sujeito, impraticavel.

Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do
ambicioso, que os alienistas buscaram at ha pouco surprehender a
pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus
trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das
sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se no fez, por
confisso dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o
problema posto.

Por outro caminho,--introduzindo no controvertido thema a criterio da
evoluo, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes
pshychiatras.

Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na
sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do
delirante, considerado, no em si mesmo, como individuo, ou nos seus
ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas
anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de
uma especie em plena evoluo.

Na sua marcha normal no segue o Espirito ao acaso, mas
_progressivamente_ por linhas de ideao desde muito entrevistas, seno
inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle
no segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas
ideativas?

Se a dissoluo da memoria se apagam primeiro os factos recentes e s
depois os remotos, primeiro os nomes e s por ultimo os adjectivos e os
verbos; se na dissociao da motricidade se perdem em primeiro logar os
actos conscientes e s por fim os habituaes e instinctivos; se na
desaggregao affectiva so os primeiros a fazer naufragio os
sentimentos altruistas e s em derradeiro logar se extinguem os
egoistas,  possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente
conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,
n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escla italiana, isto se
d, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestao.




PRIMEIRA PARTE

Historia dos delirios systematisados



I--PHASE INICIAL

De Areteu a Esquirol--Confuso dos delirios systematisados com a
melancolia--A monomania intellectual e as suas frmas depressiva e
expansiva.


Se conheceram os delirios systematisados, no deixaram d'isso documento
os escriptores que precederam a nossa era.  smente a datar do primeiro
seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e
inequivocas referencias aos perseguidos.

Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes
medicos: Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos
adquirem um redobramento de finura e de penetrao que os torna
suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte
disposies hostis[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos
mesmos doentes, affirmava que muitos experimentam uma desconfiana
continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas[2].

  [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la
  folie,_ pag. 10

  [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.

A confuso que n'estas passagens se nota entre perseguidos e
melancolicos, subsistir, como veremos, at muito perto de ns e merece
explicar-se desde j.

Definindo a melancolia animi angor in una cogitatione defixus, Areteu
caracterisava esta doena por duas ordens diversas de factos a que dava
igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de
angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepo,
delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione
defixus_). Pouco a pouco, porm, a considerao de um delirio limitado
foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental
depressivo na caracterisao da melancolia, como se v nos auctores que
succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia
da mania, elles no o faziam pondo em contraste os estados emotivos que
acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio 
limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle  multiplo,
geral e dispersivo.

Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o
elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opinies
que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos
equivalentes. Assim Sennert a definia: Uma concentrao da alma sobre a
mesma ida ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi
exclusivo.[1]

  [1] Vid. Morel,_Trait des maladies mentales_, pag. 54.

Nenhuma ida de emoo depressiva e dolorosa se encontra n'esta e
analogas definies, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura
como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,
restando apenas da antiga definio o conceito de um espirito absorvido
_in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo
XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu
ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os
megalomanos, porque uns e outros so, no dizer de Sennert, doentes cuja
razo se acha pouco alterada ou apenas alterada em relao a um
objecto, isto , por definio, melancolicos. Entre estes collocava o
auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo
e cuja razo, _s parcialmente lesada_, lhe permittia dissertar
perfeitamente sobre as mais graves questes. Plater, ao lado dos
melancolicos sitiophobos receiando envenenamentos e accusando de
hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos, collocava doentes
possuidos das idas de opulencia e de realeza.

A unidade do delirio e no a natureza d'elle ou das emoes que o
acompanham, constituia no seculo XVII, como se v, a caracteristica dos
estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que na
melancolia o delirio  muitas vezes alegre.

Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no
quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os
delirios de perseguies e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o
delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
descreveu como frma d'esta vesania um delirio parcial exaltado com
paixo excitante.

A primeira metade do nosso seculo no trouxe modificao sensivel a
estas idas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
triste, _tristimania_, outra alegre, _amnomania_. Pinel admittia
igualmente duas frmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
caracterisadas por um delirio parcial. Nada mais inexplicavel, diz
elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas frmas
oppostas da melancolia.  algumas vezes uma exploso de orgulho e a
ida chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternao profunda e
mesmo o desespero[1].

  [1] Pinel, _Trait mdico-philosphique sur l'alination mentale_, pag.
  165.

Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
idas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
propriamente dita_. A _lypemania_, que no  seno a _tristimania_ de
Rusch ou a melancolia de frma depressiva de Pinel, comprehende entre
outras variedades o delirio de perseguies, ainda ento innominado; _a
monomania propriamente dita_, que equivale  _amnomania_ de Rusch e 
melancolia de frma expansiva de Pinel,  por elle definida um delirio
parcial ou monomania alegre, e comprehende os delirios de grandezas,
no s o idiopatico, mas, como se v nos casos que aponta, o
symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda no descripta.

Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
transmittiu-a, reforada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
lhe succederam na primeira metade d'este seculo.  documento d'isso o
extraordinario successo da doutrina das monomanias, alis
psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
perigosa.

No seu _Tratado das Doenas Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introduco no diccionario
da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo 
confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
significaes diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
ora obsesses e impulsos, isto , um conjuncto de factos heterogeneos e
de significao clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
mesmo que a melancolia dos antigos--uma affeco parcial do
entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expanso, a palavra
_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
sentido de exprimir uma doena, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoes
procedentes de idas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
classificao.

De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
significado que Areteu lhe dera, chamaram a um s grupo delirios do
caracter diverso e lanaram assim na sciencia uma grande confuso,
Esquirol no fez seno augmental-a pela creao das monomanias.

Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
duvida, objeces foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
a uma s ida, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
solidariedade das funces mentaes, contradictada pela doutrina. Todas
as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma ida falsa
invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
outras, de sorte que sob um delirio preponderante vem-se estabelecer
delirios secundarios e derivados que no tardam a invadir todo o
intendimento[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: Pde
acaso limitar-se o circulo d'aco em que uma ida dominante deve
exercer ou realmente exerce a sua influencia? E mais tarde ainda: O
delirio dos monomanos no  nunca to circumscripto como se pretendeu; a
verdadeira monomania  rarissima![2] Todavia, a criticas d'esta ordem
redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
que a leso de uma faculdade no podesse fazer-se sentir sobre as
outras; para elles, a monomania designava uma leso parcial e
preponderante, mas no unica e independente, das faculdades.

  [1] Falret, _Des maladies mentales_

  [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_

Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
dizendo-se que os alienados no deliram nunca sobre um s objecto, mas
que sempre n'elles h perturbaes da sensibilidade e da vontade. Mas,
se assim no fosse, os monomaniacos no seriam loucos.[1] Pelo seu
lado, Marc escrevia: Nunca os que crem na existencia das monomanias
pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
monomaniaco. Reconhecendo que o delirio  raras vezes limitado a um s
ponto, crem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
grupo distincto.[2]

  [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.

  [2] Marc, _Trait pratique des maladies mentales,_pag. 351.

Voltemos, porm, ao nosso restricto assumpto.

A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
limitado de natureza alegre ou triste, no  seno a _melancolia_ dos
antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extenso dos
conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
um delirio parcial e fixo.

Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
entrevistas por Pinel, mas s definidas por Esquirol, a _estupidez_
descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
encontramo-nos em face da classificao das psychoses que at ao meiado
do nosso seculo a Frana inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
classificao, no teem logar distincto e proprio, como se v, os
delirios systematisados: o de perseguies  descripto como uma
variedade lypemaniaca, e o de grandezas  confundido com as
manifestaes symptomaticas de outras doenas mentaes.



II--PHASE ANALYTICA

De Lasgue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de
perseguies; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrcktheit
secundaria; a Verrcktheit originaria--Comeo de interpretao
pathogenica.


Foi Lasgue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
delirio de perseguies para eleval-o  dignidade de especie
pathologica entre as alienaes mentaes.

No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
comea por notar que as idas de perseguio apparecem como episodio
symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
_delirios parciaes_; na doena, porm, que elle descreve pela primeira
vez essas idas no so um syndroma fortuito, mas um facto constante e
essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
resto, como titulos  autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
evoluo caracteristica.

Estudando a marcha do delirio de perseguies, Lasgue reconhece-lhe
dois periodos: um, _de incubao,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
victima de hostilidades cuja origem no sabe ainda determinar; outro,
_de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.
Ao principio o doente no exprime a ida de uma perseguio seno com
uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo
que ella  _absurda_; mais tarde, porm, a duvida esbate-se e o systema
delirante apparece definitivamente formado. A durao do primeiro
d'estes periodos  essencialmente variavel: to rapida em alguns doentes
_que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e
arrasta-se em outros, que s _muito gradualmente_ e por uma _progresso
bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construco do seu romance
delirante.

Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasgue que elle _se
no parece em nada com a inquietao ainda a mais viva do homem normal_;
 indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem
presentir a invaso das doenas graves_. O periodo de estado, esse, 
como a _florao_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se
pelo reconhecimento dos perseguidores--a policia, o jesuitismo, os
magnetisadores, a maonaria, os physicos, etc.

Passando ao estudo dos symptomas, Lasgue pe em relevo o papel que
desempenham na doena as falsas sensaes auditivas. O orgo do
ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensaes
sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos
de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que
naturalmente se produzem,--a passagem de um trem, os passos de uma
pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, so
objecto dos seus commentarios.[1] Fallando, em seguida, das
allucinaes auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio
de perseguies;_ e accrescenta: Basta que um doente accuse vises para
que eu no hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de
delirantes[2]. Na mesma ordem de idas escreve ainda: Qualquer que
seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinaes pertencem sempre
ao quadro das auditivas; no  demais a minha insistencia sobre este
caracter, que considero pathognomonico[3]. Todavia as allucinaes do
ouvido, to importantes e de to vasto papel, no so para Lasgue um
phenomeno constante na psychose que descreve: A allucinao do ouvido,
diz elle, no  nem a consequencia obrigada, nem o antecedente
necessario do delirio de perseguies[4]. Os perseguidos podem, segundo
elle, no experimentar nunca allucinaes; limitando-se a _fundar
induces delirantes sobre sensaes anditivas reaes_, alguns ha que
percorrem _todos os periodos da doena_.

  [1] Lasgue, _Le dlire des perscutions_ in _tudes mdicales_, tom.
  1., pag. 554.

  [2] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555.

  [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555.

  [4] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555.

Lasgue no refere allucinaes alm das auditivas: As outras sensaes
de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impresses
nervosas[3]. De resto, estas mesmas impresses devem antes lanar-se 
conta do hysterismo que  do delirio de perseguies: As mulheres, diz
elle, offerecem os exemplos mais frequentes--sopros internos, subitos
calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros
accidentes to moveis da hysteria[4].

  [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 556.

  [4] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 557.

Como a symptomatologia e a marcha da doena, a pathogenia d'ella mereceu
tambem as attenes de Lasgue. Segundo elle, o delirio procederia
sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensaes
anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente
elaborao logica. A crena n'uma perseguio, diz elle, no  seno
secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicao a impresses
morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem 
mesma causa[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago
mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi
invariavel que caracterisa a doena em plena florao. O facto inicial
seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbao emotiva, o
phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.
, diz Lasgue, depois de um certo tempo de preoccupao e de
resistencia que o alienado procura remontar  causa dos seus
soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transio
faz-se ento por este invariavel raciocinio: os males que soffro so
extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas
concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em
condies extranhas que no dependem nem da minha saude, nem da minha
posio, nem do meio em que vivo:  preciso que alguma coisa de
exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou
desgraado: s inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,
crr que intenes hostis so a causa das impresses que
experimento[2].

  [1] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 552.

  [2] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 552.

Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisao delirante,
a doena deixaria, segundo Lasgue, de acompanhar-se de _grandes
perturbaes de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando
constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e
auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa
egualdade de humor_ Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia
continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganas[3].

  [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 551.

Occupando-se da etiologia, Lasgue nota que o maximo de frequencia do
delirio de perseguies se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta
psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,
25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam
perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa
insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeio de
sabr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relao ao
caracter anterior do doente, Lasgue nota que os espiritos mais timidos
no so os mais predispostos; no delirio de perseguies v o eminente
clinico, no o exaggero de uma prvia tendencia natural, mas um
_elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem
equivalente no estado de saude._

Procurando apenas estabelecer um typo clinico e determinar os
caracteres que devem entrar na sua definio, o notavel alienista
declara abster-se de estudar a marcha decrescente da doena e as suas
indicaes therapeuticas.

Tal  nos seus traos capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria
memoria de Lasgue.

Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde
1853 umas importantes observaes sobre a historia dos perseguidos,
affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam
por delirar n'um sentido ambicioso.

Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de
generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observao de Morel tinha,
contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que
elle chamava a transio da _melancolia depressiva_  _melancolia
ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se
julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos
criminosos, acabaram por crr-se grandes personagens; pelo seu lado,
Esquirol notra tambem desde 1838 que da hypocondria pde passar-se 
_lypemania_ e d'esta  _monomania da vaidade_, apresentando como
exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois
perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um
alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em
constante imminencia de morte por envenenamento, no ingerindo seno
alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crr-se
igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observaes de Esquirol
figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de
saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das
perseguies, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por
parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crr-se filho de
Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas
observaes no desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que
um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro
a vr n'uma tal successo de delirios, no apenas um curioso accidente,
mas uma verdadeira lei de evoluo vesanica, segundo a qual a passagem
regular da hypocondria ao delirio de perseguies e d'este ao delirio
ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a
affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios
hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, no
constituiriam seno _tapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena
distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicao dos
_Estudos Clinicos_ em 1853 at  do _Tratado das Doenas Mentaes_ em
1860.

Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,
notaram a successo de delirios diversos, nomeadamente de perseguies e
de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou
incomprehenso do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se
preoccupou com a interpretao do phenomeno. S em 1869 Foville,
retomando a questo na sua excellente memoria sobre a _Loucura com
predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a
passagem--to frequentemente observada agora que a atteno dos clinicos
incidia sobre ella--do delirio de perseguies ao de grandezas.

Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,
o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas pde apparecer a
titulo episodico na maioria das doenas mentaes e com mais ou menos
relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,
Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste
inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial
e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,
este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

A loucura parcial, que importa no confundir com a monomania de
Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienaes caracterisadas
pelo conjuncto d'estes caracteres: presena de um delirio systematisado,
ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de
perturbaes sensoriaes, e chronicidade.

O delirio de perseguies descripto por Lasgue  um dos representantes
d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle
define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,
associando-se a allucinaes chronicas e, no seu periodo de estado, a
idas de perseguio.

Em rigor, nem o termo  novo, porque antes o tinham empregado, entre
outros, Broc e Dogonet, nem a definio da doena absolutamente
original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um
delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no
trabalho de Foville  a maneira de estudar a gnese do delirio de
grandezas e as relaes d'elle com a doena de Lasgue.

Segundo Foville, na loucura parcial, de que so esclas o delirio de
perseguies e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz
a concepes delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de
factos manter entre si relaes diversas, que importa muito considerar
para a comprehenso da pathogenia. Ou as concepes delirantes se
apresentam primeiro, apparecendo as illuses e allucinaes como um
facto secundario da doena, ou, pelo contrario, a esphera sensorial 
primitivamente affectada e s depois irrompem as concepes chimericas.

Ora, segundo Foville, no  de modo nenhum indifferente para a natureza
mesma da doena que a successo das duas ordens de symptomas se realise
n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante , em regra, um
perseguido que pde tornar-se megalomano, ao passo que o
delirante-allucinado  mais vezes um megalomano que pde vir a ter idas
de perseguio. A razo d'isto, no dizer de Foville, vem de que na
loucura parcial as allucinaes primitivas so, como estabelecera
Lasgue, preponderantemente, seno exclusivamente as do ouvido, de um
caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem
um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante
mais frequente que a do delirante-allucinado,  tambem mais vulgar o
perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

Posto isto, que serve para mostrar que no  meramente accidental a
passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,
deriva  explicao do modo intimo por que ella se realisa.

A transio (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguio ao
de grandezas opera-se, ao vr de Foville, por um processo logico.
Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as
proprias allucinaes a inimigos desconhecidos, contentando-se com
explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos
lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem no
podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a interveno de
pessoas influentes e altamente collocadas; essas s, portanto, so as
instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo
que no succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem
cercados; suppem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os
protegem. Esta ordem de idas imprime desde ento o seu cunho ao
conjunto das concepes e allucinaes: os doentes fallam de grandes
personagens que vem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos
individuos, que os cercam e crem que imperadores, imperatrizes e
principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio
melancolico as idas de grandeza adquirem realmente uma importancia
preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados
pela desproporo entre a sua posio burgueza e o poder de que devem
dispr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o
apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem
explicar o encarniamento com que so perseguidos, alguns d'estes
doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente so to pouco
importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu
atormentado espirito: no  j a dos outros, mas a propria personalidade
que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,
dizem elles,  preciso que um alto interesse se d, e isso s se
comprehende porque elles faam sombra a gente rica e poderosa, porque
tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posio de que
fraudulentamente os despojaram, porque pertenam a uma classe elevada de
que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque
no sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque
pertenam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real[1].

  [1] Foville, _La folie avec prdominence du dlire des grandeurs_, pag.
  345.

E accrescenta: Estas idas tero, sobretudo, tendencia a produzir-se
nos casos em que, j antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu
orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do
mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta f n'uma
origem illustre, que esta crena n'uma imaginaria fortuna 
relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que vem a cahir na
loucura. So elles principalmente os preparados para s idas de
perseguio juntarem um novo romance em que dominam as concepes de
grandeza, as substituies ao nascer, as confuses de pessoas[1].

  [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.

Como se v, Foville no faz seno seguir a orientao psychologica de
Lasgue, que explicava pela interveno de um raciocinio a passagem, no
delirio de perseguies, do periodo prodromico ao de estado. Um processo
logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo
Foville,  gnese das idas ambiciosas que derivam de um delirio
persecutorio.

Mas no  este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de
grandezas pde produzir-se; algumas vezes succede que as concepes
ambiciosas se installam primitivamente, dando-se ento o caso de
surgirem depois idas de perseguio, por _uma sorte de propagao
regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as
situaes._ Qual  agora o mecanismo de transio?  difficil, escreve
Foville, crr-se um doente na posse de direitos  fortuna e ao mando,
figurar-se descendente de uma familia illustre, e no se sentir vexado
pela modestia da posio que occupa ou pela exiguidade dos recursos de
que dispe. N'isto v elle um signal de injustia, que attribue  aco
de inimigos poderosos; cr-se, pois, victima de manobras hostis e
fabrica assim um systematico delirio de perseguies, secundario agora e
consequencia das idas de grandezas[1].

  [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.

 ainda, como se v, um processo logico o destinado; segundo Foville, a
explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguies; toda a
vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de
partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a
dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideao.

Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a
allucinaes de caracter agradavel e lisongeiro, so extremamente raros;
a interpretao dos erros sensoriaes, isto , um processo consciente e
reflectido,  ainda d'esta vez origem da doena.

Referindo-se  doutrina de Morel, Foville declara no a acceitar, porque
o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle
auctor, dos delirios de perseguies e de grandezas, s excepcionalmente
o encontrou.

De quanto vem de ser exposto a concluso a tirar  esta:

Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de
estado, se combina sempre com idas de perseguio, que 
invariavelmente acompanhado de allucinaes auditivas e que tanto pde
originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio
persecutorio, como nascer _d'emble_. No sendo um episodio morbido, nem
mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque pde ser e 
muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doena com foros de
autonomia e direitos a uma designao privativa: a _megalomania_.

Tal , em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio
parcial de grandezas.

Depois dos importantes trabalhos de Lasgue e Foville, a psychiatria
franceza no nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que
tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o
conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand
du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguies_, em 1871, valioso,
certamente, pela copia de observaes e pelos detalhes de analyse
clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o
contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: A despeito da sua
extrema frequencia e dos seus to claros caracteres distinctivos, o
delirio de perseguies achou-se confundido com a melancolia de Pinel,
com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; 
ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para
o constituir _de toutes pices_ e fazer d'elle uma _especie_ 
parte[1]. Dezenove annos antes fizera Lasgue, como vimos, o que n'esta
passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepo feita
dos capitulos consagrados ao tratamento,  medicina legal e ao contagio
do delirio, que nada teem que vr com a constituio scientifica da
doena, no  seno um desenvolvimento da memoria de Lasgue, cuja ordem
de exposio adopta e cujas expresses mesmo no raro se apropria.

  [1] Legrand du Saulle, _Le Dlire des perscutions,_ pag. 11.

Como Lasgue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de
perseguies: um, de comeo, exteriorisado por uma _inquietao
indefinivel e de nenhum modo comparavel  do homem normal que tem um
grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela
definitiva systematisao das idas delirantes formando um _romance_
invariavel para cada doente.

Como Lasgue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietao do primeiro
periodo comparando-a  _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que so muitas vezes
os precursores de graves doenas communs, mas que em si mesmos nada teem
de preciso.

Como Lasgue, Legrand du Saulle explica a transio do primeiro ao
segundo periodo por um acto de reflexo do perseguido, por um verdadeiro
raciocinio. O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos
outros que no so naturaes as inquietaes e angustias que experimenta,
que lhes no encontra causa no meio em que vive, no estado da propria
saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes
infortunios, mas sabia o motivo d'elles e no eram os mesmos os seus
soffrimentos, no tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este
mal-estar to grande, estas impresses to penosas e to injustificadas
devem ter uma causa secreta. E  assim que o doente se sente
naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em
perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer[1].

  [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.

Como Lasgue, Legrand du Saulle d na symptomatologia da doena um logar
preponderante s allucinaes auditivas, precedidas frequentemente de
illuses do mesmo sentido. O doente, escreve o auctor, comea por dar
uma falsa significao aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se
abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao p d'elle,
os passos de alguem, tudo  materia do delirio. As verdadeiras
allucinaes s comeam, em geral, mais tarde e n'uma epocha
variavel[2].

  [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.

Como Lasgue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinao na
doena, que, sendo, em regra, incuravel, pde terminar pela cura n'uma
quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como
Lasgue, que a doena  mais frequente nas mulheres e se realisa
preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.
Algumas consideraes que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e
as _perseguies infantis_ so de um caracter vago. Como se v, em tudo
quanto pde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de
perseguies--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du
Saulle no faz seno seguir a memoria de Lasgue.

Vamos vr que n'um ponto de maxima importancia, no tratado pelo
eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,
Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me  passagem
do delirio de perseguies ao de grandezas, explicada, como vimos, por
Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. Depois, diz elle, de
ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,
depois de ter sido victima de tantas intervenes devidas  magia ou ao
electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como
podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza?  preciso
admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um
alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido
necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade
verdadeira, que s pde existir nas mos de millionarios, de ministros e
de imperadores: quem ordenou tudo , pois, um grande senhor ou um
notavel personagem. Um outro perseguido pensar: Armam-me redes, mas eu
evito-as; expem-me a coalises formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;
attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto
poder vela por mim e me protege; esse alguem  o chefe do estado. Eis, a
partir d'aqui, toda uma ordem nova de idas imprimindo uma outra
direco s concepes delirantes e s allucinaes. O perseguido no
cessa desde ento de fallar em ministros, em familias reinantes, na
crte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o
cercam e affirmando que Napoleo lhe envia mensagens, que Trochu o
chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.
N'uma palavra, encontramo-nos em presena de idas de grandeza
pathologicamente juxtapostas, porque as perseguies no cessaram, os
inimigos existem ainda[1].

  [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.

Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros
sobre a personalidade dos outros; pois vamos vr que uma nova
transformao se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vo
dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco
o raciocinio do doente: As operaes dos meus inimigos, pensa elle, so
to desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos so
infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me
mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado
n'uma situao modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima 
dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado
do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que
se suppe. E nem pde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhaes
odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um
interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,
principes ou imperadores, e , portanto, dos mais consideraveis. Mas
ento fao eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o
meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha
cora. Eu no sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi at
hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome
de que uso no  o meu, os que teem feito de meus paes no so da minha
familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleo, sou o duque
de Orleans ou chamo-me D. Carlos[2].

  [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.

Para no deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara
a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos
naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: Se o perseguido no tem um
acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma
situao indecisa, de uma paternidade no confessada ou de uma educao
mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com
que perniciosos elementos no crescer o seu delirio, com que
apparencias de verosimilhanas no fallar elle a todos da sua
imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?![1]

  [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.

Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio
de perseguies se observam concepes hypocondriacas; estas, porm,
como as de grandeza, no constituem para elle uma phase evolutiva, mas
apenas um _acompanhamento_ ou _complicao_ da doena de Lasgue.

Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle  a que se
refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguies
idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na
paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicaes pelo chumbo e
pelo sulfureto de carbone.

No terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem
notar que elle soube pr em relevo dois factos interessantes,
ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a
existencia em muitos perseguidos de allucinaes auditivas bilateraes de
caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e
a tendencia d'estes doentes  formao de _neologismos_ e de um
incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

       *       *       *       *       *

At aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na
ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemes comprehenderam
os delirios systematisados.

Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no
seu _Tratado de Doenas Mentaes_ cuja appario remonta a 1845, mas que
s vinte annos depois veio a ser conhecido em Frana pela traduco
Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente
professor de Zurich, sob a denominao de _Verrcktheit_, os delirios
parciaes que alguns annos mais tarde Lasgue e Foville haviam de elevar,
dando-lhes nomes privativos,  cathegoria de especies em nosographia
mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripo
de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos
perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizar pelas
transcripes que seguem.

Referindo se s concepes que so o nucleo mesmo do delirio e o seu
mais apparente symptoma, Griesinger escreve: So umas vezes idas
activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posio elevadissima e
tem um grande poder:  Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,
reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de
Deus ou descobriu o movimento perpetuo,  o dominador de toda a natureza
e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes so idas
passivas: os doentes crem-se lesados, dominados, submettidos ao poder
d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos
inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maonicos fazem lhes mal,
so possessos do diabo, esto condemnados a supplicios eternos, e
roubados nos seus bens mais caros, etc.[1]

  [1] Griesinger, _Trait des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.
386.

Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: As illuses e
allucinaes em nenhuma outra frma de loucura so to frequentes como
na _Verrcktheit;_ em grande numero de casos so ellas principalmente
que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam
com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se ento a
accessos de colera[1]

  [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformaes
de personalidade, diz Griesinger; Involuntariamente o alienado refere
tudo ao seu delirio, e  d'este ponto de vista que julga todas as
coisas ... As concepes falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir
um elevadissimo grau, a partir do qual o doente no considera as coisas
do mundo externo seno de um modo inteiramente pervertido ... Alguns
d'estes doentes parecem crr que a sua verdadeira personalidade anterior
deixou de existir[2]

  [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.

Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma
longa durao, escreve o eminente alienista: Por vezes a linguagem
ordinaria no basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo
que construe, ao menos para traduzir as suas concepes delirantes, um
vocabulario especial, que elle cr ser a linguagem primitiva, a
linguagem dos ceus[3]. Ainda a proposito da exteriorisao do delirio,
Griesinger nota que por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu
systema geral de absurdos[4].

  [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

  [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor
allemo: Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do
mundo externo, ou so capazes de amar e odiar como antes; podem
morrer-lhes os paes e os amigos, pde ser-lhes subtrahido o que mais
estimavam, pde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a
familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoo, se alguma
sentem. Um s ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que pde
abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reaco da
vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idas fixas e logo
elles se irritaro e entraro em colera; acariciem-se, pelo contrario,
as suas concepes e elles mostrar-se-ho contentes[1].

  [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Crmos que as citaes precedentes bastam para demonstrar que Griesinger
conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripo que
d'elles faz, como quadro symptomatico _d'aprs nature_,  nas suas
linhas capitaes e at em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais
tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, no conhecendo
os trabalhos do professor allemo, tinham, comtudo, diante de si
analogos modelos.

Mas se a descripo symptomatica  a mesma, a _interpretao
nosographica e pathogenica_  profundamente diversa, porque, ao passo
que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como frmas
primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vr, frmas
secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

O que , com effeito, a _Verrcktheit_ do psychiatra allemo? Sob este
nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,
embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por
completo a situao afectiva que caracterizava a frma mental no seu
comeo, o doente no cura, e em que a alienao consiste n'um pequeno
numero de concepes delirantes fixas que elle acaricia de um modo
particular e constantemente repete[2]. E accrescenta: A _Verrcktheit_
 _sempre_, pois, uma doena _secundaria_, consecutiva  melancolia ou 
mania[3]. _Residuos de estados de exaltao ou depresso,_ diz ainda em
outro logar, constituem a _Verrcktheit_ que, por isso mesmo, elle
colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da
demencia.

  [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

  [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

Na direco de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo
tempo os alienistas allemes. O delirio parcial, escrevia Albers em
sobretudo uma frma de terminao da loucura com excitao ou depresso
geraes; quando se encontra esta frma, uma das duas existiu
anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_[1]. Fallando da
metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase
de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno que ella
suppe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das
quaes no pde _nunca_ produzir-se[2]. Em 1859 Neuman considerava a
_Verrcktheit_ uma cura com perda de substancia da intelligencia, isto
, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario
ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

  [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

  [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

Crmos inutil proseguir em citaes. As precedentes bastam a dar-nos uma
clara ida da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo
a psychiatria allem d'esta epocha. Suspensas na sua evoluo para a
demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas frmas expansivas
ou depressivas da _Verrcktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de
perseguies.

Em contraste, porm, com estas idas, que durante vinte annos dominaram
absolutamente a psychiatria allem, descreveu Snell em 1865, baseando-se
em dez casos de observao pessoal, uma nova frma de loucura
essencialmente caracterisada pela appario primitiva de estados
allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e
depressivo.

Esta frma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_,  inteiramente
distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idas de perseguio
e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias
ambiciosas succedem s de perseguio realisa-se uma metamorphose da
personalidade vesanica. A evoluo d'esta frma  essencialmente
chronica e o seu prognostico infausto. A adopo do termo francez
_monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,
no conduz nunca  demencia, como a do termo allemo (derivado de
_Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) pe em relevo a importancia das
allucinaes.

Acceitando este modo de vr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da
excessiva e precipitada generalisao das suas idas pathogenicas e
acaba por admittir, ao lado da _Secundre Verrcktheit,_ uma _Primre
Verrcktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lio de abertura do
seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria
allem: ctualmente no considero j como frmas secundarias as
alteraes peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio
e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes
estados que denomino _Primre Verrcktheit._

Perfilhando as idas de Griesinger sobre a _Primre Verrcktheit,_
descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma
variedade congenita d'esta frma sob a designao de _Originre
Verrcktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo
so desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente
phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,
originariamente enfermos.  na puberdade que os delirios, de longa data
preparados, fazem exploso. Sander nota as tendencias remittentes da
_Originre Verrcktheit_ e observa que a demencia est muito longe de
ser um dos seus modos de terminao.

Como se v, a primitividade ou protognese dos delirios systematisados,
admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes,  agora
acceite pela psychiatria allem, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865
mandava admittir _quand mme_ uma preexistente psychose maniaca ou
melancolica em todos os delirios de perseguio e de grandeza.

No morreu, como veremos ainda, a _Secundre Verrcktheit,_ a despeito
de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera
clinica foi estreitecendo  medida que alargava a da _Primre
Verrcktheit_.

       *       *       *       *       *

Voltemos aos trabalhos francezes.

Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos  publicao da
sua memoria sobre o delirio de perseguies, Lasgue foi conduzido pela
ulterior observao clinica dos factos a modificar uma das affirmaes
que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os
perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto,
dizia ento, de no ter visto um s reagir por um acto de vingana,
Lasgue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam
armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como
Verger, como Teulot, as suppostas perseguies. Perito em mais de uma
ruidosa questo medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem
de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das
aggresses brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos
alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idas, o
celebre psychiatra achou que o delirio de perseguies comporta duas
variedades, correspondendo aos modos de reaco dos doentes: uma
_passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se
defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes
suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se s
auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se
mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e
respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando at. Aos
doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasgue o nome, depois consagrado,
de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicao do seu modo
especial de reagir deve ser pedida, no a condies privativas do
delirio, mas ao caracter moral preexistente  vesania.

Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguies o mesmo
espirito de analyse que desenvolvera na creao da frma _passiva_ ou
commum, Lasgue fez a proposito as seguintes indicaes de uma justeza
clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam 
personificao do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
reaes no so, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
doentes, uma vez achado o seu perseguidor, no o esquecem mais, no o
abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
valia justifiquem sentimentos de odio e de vingana contra outros
individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinao dos
factos que apontam como provas de perseguio: uma pedra achada  porta,
um lenol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
passa. De resto, Lasgue observou que, excepo feita do modo de reaco
delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evoluo pathogenica.

Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguies, o notavel
professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripo
clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
a unidade da doena persistiu, no tendo alcance nosologico, mas apenas
medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

Ulteriores trabalhos, porm, vieram quebrar, dentro da propria Frana,
essa unidade do delirio de perseguies.

Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
profundamente divergem; symptomas, evoluo, etiologia--tudo n'elles 
differente. Uns, em verdade (e so esses os que Lasgue notou), apenas
no modo de reaco delirante se separam do typo classico dos perseguidos
passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
como estes, offerecem idas systematicas de perseguio alimentadas por
erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinaes auditivas; na
marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alterao
de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
perseguies, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
historia ancestral e pregressa identica  dos perseguidos vulgares. Com
razo, portanto, fez Lasgue d'estes perseguidos activos os
representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
perseguies. Outros, porm, no offerecem do quadro d'esta psychose
seno as idas systematisadas de perseguio, divergindo em tudo o mais:
na symptomatologia, porque as suas concepes morbidas no se apoiam em
erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
ancestral e anamnestica no  a dos outros perseguir, dos, activos ou
passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

A doena de Lasgue no comporta esta cathegoria de
perseguidos-perseguidores; foroso , pois, no dizer de Falret,
acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
idas do eminente clinico de Salptrire, seu mestre, insistindo no
diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
A proposito da etiologia escreve: Estes doentes, em vez de apresentarem
desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguies
ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
aos alienados hereditarios: alteraes de caracter, desigual
desenvolvimento das funces intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbaes mentaes
passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
perverses genitaes e outras. O passado d'estes doentes , n'uma
palavra, no o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
hereditarios[1].

  [1] Pottier, _tude sur les alins perscuteurs_, pag. 3

A proposito da ausencia de allucinaes n'estes doentes, diz Pottier:
Imaginou-se que as allucinaes auditivas, escapando a uma observao
superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
escrupuloso. No  assim, porm. Ns crmos, ao contrario, que, na
direco actual das idas, se teem admittido allucinaes no
demonstradas ou se teem tomado como allucinaes simples phenomenos de
interpretao delirante, illuses ou mesmo impresses procedentes do
mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
sensorial se encontra muitas vezes exaggerada[2].

  [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

Sobre a evoluo do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: Ha
periodos de remisso prolongada e de intensa exacerbao, mas nenhuma
evoluo progressiva ... Estes alienados so, em regra, muito orgulhosos,
mas no chegam, como os outros perseguidos,  megalomania, ao delirio de
grandezas, emfim, a uma verdadeira transformao da personalidade[1].

  [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. Observem-se
attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
estudem-se as observaes j publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se do de tempos
a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
um ataque, quer por influencia de leses consecutivas[2].

  [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
conseguem fazer perfilhar as suas idas por um grande numero de pessoas,
chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
explicao d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que no
 em si mesmo absurdo, que se no apoia em estados allucinatorios, mas
que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
circumstancias possiveis, cuja veracidade no  facil contestar ou mesmo
pr em duvida.

Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
cathegori d'estes doentes; uma outra  formada pelos _perseguidores
hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
seguido, hostilisam o medico assistente.

As idas de J. Falret fizeram carreira em Frana, onde os
perseguidos-perseguidores so geralmente considerados como exemplares de
loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
psychicas hereditarias. Nas suas _Lies clinicas sobre as doenas
mentaes_, Magnan presta um largo apoio  doutrina de Falret, fazendo
apenas reservas sobre dois pontos: as allucinaes, que elle admitte a
titulo de excepo, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em Frana o
delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos
auctores,  maneira de Lasgue, consideram aquelle delirio uma simples
variedade da _Verrcktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao
lado do delirio de perseguies, outros, como Arndt, Kraepelin e Schle,
fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._



III--PHASE SYNTHETICA

De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A
loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
Verrcktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
insanity--Determinao pathogenica.


Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se
esforava por elevar  cathegoria de frmas nosographicas autonomas os
delirios de perseguies e de grandezas, esboara a doutrina segundo a
qual taes delirios no seriam seno manifestaes de uma doena ou, mais
precisamente, transformaes progressivas da loucura hypocondriaca.

Da ida inicial de um compromisso da saude, caracteristica da
hypocondria, passaria o doente, generalisando,  ida de um compromisso
da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica
do delirio de perseguies. Este seria uma simples manifestao da
hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma
hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se
assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: Fallando da hysteria,
disse eu que esta nevrose pde percorrer as suas phases mais
extraordinarias sem que a alterao das faculdades intellectuaes e
afectivas se torne uma consequencia forada. A hysteria larvada, se
assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre
exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma
reflexo pde applicar-se  hypocondria. Para d'isto nos convencermos,
basta examinar at que ponto o temperamento dos individuos com delirio
predominante de perseguies est sob a influencia d'este estado
nevropathico[1]. E mais adiante: Quando elles (os hypocondriacos)
chegam  supposio de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo
menos, substancias que lhes produzem as sensaes de que se queixam;
quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias
occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria
policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vo entrar _na
phase d'este delirio especial_ que a designao de _delirio de
perseguies_ melhor do que todas exprime[2].

  [1] Morel, _Trait des maladies mentales_, pag. 706.

  [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminao
frequente do delirio de perseguies. Fallando dos megalomanos,
escrevia: E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de
contentamento e de vaidosa satisfao que  proprio das idas
systematicas de grandeza, elles no lograram collocar-se de um modo fixo
e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura seno com a condio de
passarem por todas as peripecias do delirio de perseguies, e de terem,
as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos
hypocondriacos[3].

  [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

Para explicar a passagem do delirio de perseguies ao de grandezas,
Morel no invocava,  maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_
mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma
alterao no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia
procurar a chave d'este phenomeno _to frequente quanto assombroso para
os homens alheios  medicina e desconhecedores das leis dos organismos
doentes._

Esta doutrina, integrando os delirios de perseguies e de grandezas na
hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,
naturalmente destinada a no encontrar seguidores entre os
contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia
geral a da multiplicao das frmas nosographicas. O estudo minucioso
dos symptomas absorvia as attenes, relegando a um plano subalterno o
das causas e da evoluo das doenas. Embora combatidas quasi desde a
sua introduco na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam
ainda ento: o delirio de perseguies era uma monomania, o delirio de
grandezas, outra. O _Tratado_ de Marc, o mais cotado dos livros
classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a
memoria de Foville, que atraz citmos, tem a data de 1869, como tem a de
1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem dmos ida no
capitulo anterior.

Isto  dizer que no foi comprehendida a maneira de vr de Morel sobre
os delirios systematisados, como o no foram outros pontos de vista
d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da
psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias
Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental
franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das
idas.

 s em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de
Morel, que as idas d'este psychiatra a proposito dos delirios
systematisados so retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
Grente.

Escripto sob a evidente inspirao de Magnan, esse trabalho destina-se a
provar com o apoio dos factos, que no existe _um_ delirio
hypocondriaco, _um_ delirio de perseguies e _um_ delirio de grandezas,
mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles no so seno
phases evolutivas. Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os
delirios da vesania; seguiremos n'uma observao attenta a gnese e a
evoluo d'estes delirios; e, por concluso d'este trabalho, esperamos
que em vez d'essas _monomanias_, to artificiaes e to confusas, de
certos auctores, apparea claramente, emfim, _uma s e mesma especie
morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_[1].

  [1] Grente, _Le dlire chronique_, pag. 10.

O que , verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Grente, uma
doena que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denunca
nos seus casos typicos e eschematicos pela successo regular de tres
periodos: um de concentrao dolorosa do espirito; um de expanso; e um
mixto ou de transio entre os dois. Se a doena se prolonga
sufficientemente, a demencia  o seu termo natural.

O terreno hypocondriaco em que, segundo Grente, o _Delirio Chronico_
mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer,  caracterisado
essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi
sempre hereditaria, por uma perverso dolorosa da sensibilidade mental,
n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservao
permanente, uma sorte de habitual _ruminao_ interior de estados
physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,
sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. , pois,
um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas no  um
alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma aco de _contrle_.
Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que
a preoccupao dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente
e o desligue das relaes normaes com a sociedade. A hypocondria simples
torna-se ento loucura hypocondriaca. E  d'ela que vae sahir o periodo
inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.

Este periodo  caracterisado por uma concentrao dolorosa do Eu, de que
procedem idas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que
vara com a intelligencia, a educao e o meio do doente. As falsas
concepes hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras
germinam: a crena n'uma hostilidade dos homens (delirio de
perseguies) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).
Perturbaes da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinaes
auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma durao que
pde ser muito longa.

Mas, pouco a pouco, a dr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,
enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reaco se d em
sentido contrario. Ento, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas
angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma
restea de sol: entre as idas depressivas surgem idas de grandeza,
ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.
Esta confuso de elementos apparentemente contradictorios, de idas e
sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo
periodo, chamado, por isso, mixto ou de transio.

Como a dr moral e as idas depressivas definem o primeiro periodo, a
plena beatitude de espirito e as idas ambiciosas definem o terceiro.
Lentamente, as emoes e as concepes expansivas do periodo mixto vo
tomando crescente logar no espirito vesanico  custa de uma reduco na
intensidade e numero das emoes e idas depressivas, que acabam por
desapparecer. Ento, um delirio de grandezas de colorido mystico ou
humano, versando sobre a graa, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas,
sobre posio social, se estabelece definitivamente, caracterisando na
sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.

Esta lenta evoluo da vesania--to lenta que pde cobrir dezenas de
annos, no se faz sem que a mentalidade soffra nas suas foras vivas e
productoras. E assim, o seu termo natural  a demencia, quer simples e
apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam
perturbaes da sensibilidade e falsas concepes desconnexas e
dissociadas.

Tal , summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo
Grente,

Nem sempre, porm, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este
modo regular e eschematico; no raro apparecem casos em que a evoluo
descripta no tem logar: pde, por exemplo, o periodo depressivo,
representado por um delirio de perseguies, extender-se por toda a vida
do doente que no chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico
do terceiro periodo; pde do periodo mixto passar um outro doente 
demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua
pureza; pde acontecer que a doena suspenda a sua evoluo n'um delirio
hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e
estereotypando-se; emfim, pde mesmo dar-se uma regresso, voltando o
doente do delirio ambicioso ao de perseguies. Como todas as doenas,
comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete 
clinica registrar; esses casos, porm, no invalidam o _typo_ descripto
sobre exemplares completos.

Como se v, n'esta synthese clinica retoma Grente as idas fundamentaes
de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expresses
symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela
successo de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial,
angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a
differena, entre os dois psychiatras, est em que Morel chamava
_Loucura hypocondriaca_ ao que Grente denomina _Delirio Chronico_,

Vejamos agora a pathogenia da doena, tal como a comprehende este
psychiatra.

De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas
as psychoses funccionaes: No  vesanico, diz elle, quem quer: 
precisa uma longa incubao; so precisas, pelo menos, duas geraes que
preparem o terreno[1]. No,  claro, duas geraes de delirantes
chronicos, mas de nevro e psychopatas. So umas vezes, explica,
nevroses, outras vezes intoxicaes chronicas, outras ainda anomalias da
intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se no prestaria,
talvez, atteno, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho
sobre o individuo e os seus descendentes[2]. A tara hereditaria cria a
predisposio; para determinar a doena qualquer abalo moral  bastante.

  [1] Grente,_Obr. cit._, pag. 8.

  [2] Grente,_Obr. cit._, pag. 9.

Mas, por outro lado, importa em relao ao _Delirio Chronico_ attender 
natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos,
dispensa-nos de insistir sobre este ponto:  sabido que para Grente,
como para Morel, essa feio peculiar consiste na hypocondria.

Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a
_leso,_ no sentido psychologico do termo.

Ora, segundo Grente, nenhuma duvida pde existir a este proposito. 
sempre, diz elle, uma alterao do senso emotivo,  a alterao do
sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal
direco s perturbaes da sensibilidade e s idas delirantes; esta
alterao , pois, a _leso essencial e caracteristica ao delirio
chronico_[3].

  [3] Grente,_Obr. cit._, pag. 24.

Cremos ter dado uma ida sufficiente da doutrina exposta por Grente.
Uma psychose, de origem hereditaria, de evoluo de ordinario regular e
tendo por leso primitiva uma perturbao do sentimento, integraria como
syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguies e
ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenas autonomas, sob
a designao de monomanias; _Delirio Chronico_  o nome d'essa psychose.

Dissemos que Grente se inspirou nas idas de Magnan; e talvez
podessemos mesmo affirmar que aquelle no fez seno expr no seu
trabalho, que  uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre.
De facto, no s a designao de _Delirio Chronico_ tomada por Grente
para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas
suas lies oraes, mas foram colhidas no servio e sob a direco
d'este, no asylo de Sant'Anna, as observaes clinicas da these.
Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na
Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais
tarde nas suas _Lies Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma
doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por
Grente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao
seu discipulo uma absoluta liberdade de opinio?  isso possivel; mas
no  provavel que Grente abusasse de tal liberdade at ao ponto de
cobrir com a designao consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em
mais de um ponto contraria  d'este. O que nos parece mais acceitavel 
que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de
Magnan uma evoluo durante o periodo que vem da these de Grente 
discusso da Sociedade Medico-Psychologica.

Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem
muito.  o que vamos vr.

Ao passo que Grente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_
de uma predisposio quasi sempre hereditaria e preparada atravez de
geraes, Magnan affirma que um tal facto  excepcional e que, de
ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara
nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. O _Delirio
Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sos de
espirito, no tendo at ento apresentado perturbao alguma
intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto,
porque tal particularidade basta para separar immediatamente os
delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a
infancia perturbaes que os fazem reconhecer[1].

  [1] Magnan, _Leons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.

Ao passo que Grente, seguindo a tradio de Morel, admittiu como
constante uma phase inicial hypocondriaca na constituio do _Delirio
Chronico_, Magnan no a acceita seno a titulo excepcional. Para Morel,
escreve o medico de Sant'Anna,  preciso que elles (os perseguidos que
se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a
hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestao
dos hereditarios degenerados, no parece provavel que o
_hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres
bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_[2].

  [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.

Emfim, emquanto Grente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio
Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evoluo
se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do
_Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito,
de ter admittido na evoluo do _Delirio Chronico_ quatro periodos
nitidamente desenhados--o _de incubao_, o _de perseguies_, o
_ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: Estes periodos succedem-se
irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pr
fra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emble_ se torna
perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois
perseguido[3].

  [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.

So estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio
Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou
Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o
tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evoluo systematica_  a
designao adoptada por este psychiatra nas suas _Lies Clinicas_.

Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria so relegados os
casos, to numerosos, de delirios systematisados de evoluo irregular
que Grente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e
que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A
resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos
debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a
doutrina do _Delirio Chronico_.

Digamol-o desde j: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a
synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos,
suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo
todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubao_), se tornam
depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lanam n'um delirio
systematisado de hostilidades (_periodo de perseguies_), fabricam mais
tarde ainda idas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem
n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepes falsas se
esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou,
repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porm, desde todo o
principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do
_Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou
que _o delirio de grandezas s n'um tero dos casos succede ao delirio
de perseguies_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmao
que varios alienistas--Christian entre outros--apoiaram: ao passo que
para Magnan o delirio ambicioso  um periodo inevitavel do _Delirio
Chronico_, para Falret elle no constitue seno um episodio fallivel da
evoluo vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem
juxta-por-se ao de perseguies. Se todo o alienado que entrou, no
_d'emble_, mas aps uma phase mais ou menos longa de incubao, no
delirio de perseguies, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso,
Magnan teria, talvez, razo, affirmando a existencia de uma _Psychose_
na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um
papel evolutivamente similhante ao da _suppurao n'nuna erupo
variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado pde
perpetuar-se no delirio de perseguies sem jmais esboar uma ida
ambiciosa, tal _Psychose_ no existe: a synthese clinica legitima no 
o _Delirio Chronico de evoluo systematica,_ mas o _Delirio de
Perseguies,_ que pde ou no, _sem mudar de natureza_, complicar-se de
um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de
alienistas illustres, a objeco de Falret parece decisiva contra a
doutrina actualmente professada por Magnan.

Notemos de passagem que o argumento de Falret no attingiria a doutrina
de Grente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_  maneira d'outras
doenas, comportaria casos de evoluo irregular, anomala, entre os
quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salptrire.

J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo
irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de
perseguies e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo
elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem
sem ter attingido a demencia.  mister dizer-se, para avaliar este
argumento, que Magnan no toma a palavra _demencia_ no restricto sentido
de abolio das faculdades, mas na accepo mais larga de
enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se
_estereotypa_ (o que  de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se d
mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral 
j, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doena no faz seno
aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em
que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam,
no dever parecer seno legitimo. Em todo o caso,  n'este sentido que
o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase
terminal da sua Psychose.

Manifestando uma grande incomprehenso das idas do medico de Sant'Anna,
alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio
Chronico_, affirmando que muitos vesanicos so ambiciosos antes de serem
perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguies sem terem
passado por uma phase de incubao; que alguns, emfim, s
intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos
estes casos so conhecidos e de observao diaria; mas, desde que Magnan
os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fra do quadro do
_Delirio Chronico_,  evidentemente absurdo invocal-os contra a
legitimidade d'esta psychose.

Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evoluo systematica_, ha
os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emble_. E as distinces
entre aquelle e estes so, segundo o eminente alienista, to profundas
quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do
prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa
evolutivamente pela successo regular e irrevogavel de certos periodos,
sendo o primeiro de incubao, os delirios polymorphos teem uma evoluo
irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparao. Emquanto,
sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para
constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em
individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos so
eminentemente hereditarios e s podem realisar-se em degenerados, quer
dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio
mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de
psychose progressiva e cyclica,  absolutamente incuravel, os delirios
polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

 evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da
Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por
Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para
ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de
um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crem victimas
de injustificadas hostilidades, de doentes que aps semanas de um
delirio qualquer ambicioso ou de perseguies, surgem curados para
recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,-- evidente,
diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia
do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a
uma cathegoria diversa e no so seno episodios mais ou menos longos e
interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

A doutrina do medico de Sant'Anna no pde ser combatida seno pela
demonstrao de que as differenciaes por elle feitas entre os
delirantes chronicos e os delirantes degenerados, so infundadas. Mas
como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciao , _ao menos
n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso
de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao
lado de doentes que incubam um delirio de perseguies e d'este passam
para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental
(_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos,
irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por
vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios
degenerativos_ de Magnan), o ataque  synthese clinica do medico de
Sant'Anna s pde ser feito de um ponto de vista mais alto,
demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas
_allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um
mesmo fundo.

Sglas viu isto--e s elle parece tel-o visto--quando na Sociedade
Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan
apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

Demonstrar esta proposio seria evidentemente destruir  doutrina de
Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados
hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de
um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a
demencia, toda a differena entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios
polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variaes de
prognose, o que no  bastante para estabelecer _especies_ morbidas
distinctas.

Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios
systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes;
cremos, porm, que s Falret e Sglas produziram contra a legitimidade
clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.

Mas no insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a meno
especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expr a
maneira de vr de Rgis.

Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do
_Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distinco
existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo
que as primeiras se caracterisam pela presena constante e essencial de
um elemento affectivo, _excitao_ na mania e _depresso_ na melancolia,
a segunda manifesta-se por simples perturbaes intellectuaes e moraes
sem participao, a no ser accidental e episodica, da emotividade. A
excitao e a depresso, affirma Rgis, so tanto a fundamental
caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes s ellas
existem n'estas doenas: tal  o caso das manias e melancolias sem
delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltao ou diminuio do _tonus
emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O
contrario d'isto se d na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos
extenso caracterisa n'este caso a alienao, que s por momentos pde
acompanhar-se de crises ephemeras de excitao ou depresso, analogas s
dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a
melancolia, accrescenta Rgis, sendo muitas vezes idiopathicas, so, no
raro, meros symptomas d'outras doenas mentaes, como a hysteria, a
epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ 
sempre idiopathica, essencial.

Ora,  n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se
integram, segundo Rgis, a titulo de manifestaes e de estadios
evolutivos.

No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres
periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio
hypocondriaco_; outro de _interpretao_, revellado pelo _delirio de
perseguies_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a
pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de
_transformao pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As
allucinaes, sobretudo auditivas, so o symptoma dominante da _Loucura
parcial_.

Quanto  etiologia, sustenta Rgis que a doena  constitucional, faz
parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de
quaesquer circumstancias; isto  dizer que _Loucura parcial_ 
eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, ella attinge de
preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias 
mysantropia e ao orgulho[1]

  [1] E. Rgis, _Manuel pratique de mdecine mentale_, 2 ed., pag. 228.

Como se v, a _Loucura parcial_ de Rgis mantem relaes profundas de
similhana com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_
de Grente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside s tres
syntheses clinicas.

       *       *       *       *       *

Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua
phase de synthese clinica e de interpretao pathogenica, vejamos,
retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde
que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou
na existencia de delirios _primitivos_ de perseguies e de grandezas.

Antes, porm, seja-nos licito dar uma explicao sobre a marcha a
seguir.

Delimitar um assumpto  a primeira das condies a preencher para
tratal-o scientificamente; a segunda,  possuir uma nomenclatura
definida e precisa. Ora, no satisfazendo a uma s d'estas duas
condies os trabalhos allemes sobre os delirios systematisados, a
impresso que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, , sem
exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. No o dizemos ns: por
esta ou analogas expresses disseram-no em 1887 Sglas e recentemente
Kraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam
do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha
vinte annos esta queixa: Acabaremos por nem mesmo entre ns,
psychiatras, nos entendermos; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi
todos os alienistas allemes que tomaram parte na discusso aberta sobre
a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

De facto, a extenso do assumpto varia de auctor para auctor; restricta
para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que
os alienistas francezes, ella  to vasta para outros, para Cramer, por
exemplo, que parece estar contida l dentro a psychiatria inteira. Por
outro lado ainda, a nomenclatura  vaga e  confusa: vaga, pela
multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto;
confusa, pela variedade de significaes de cada termo para cada auctor.
_Wahnsinn, Verrcktheit_ e _Paranoia_ so as palavras com que na
litteratura allem apparecem designados os delirios systematicos
descriptos pelos franceses; estes termos, porm, ora figuram como
synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo
ainda que o ultimo  pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido
restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

N'estas deploraveis condies de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem
rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposio
das doutrinas allems cerca dos delirios systematisados, seria,
evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e
difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis
porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer
historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

A expresso _delirio systematisado_, empregada por opposio  de
_delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idas
morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos;
assim comprehendida, esta expresso no allude, nem mesmo remotamente,
quer  _origem_ d'essas idas, quer  _natureza_ e _grau_ da affinidade
que as liga, quer, emfim,  sua _evoluo_. N'este sentido, to
systematisados so os delirios protogenicos como aquelles que succedem a
estados affectivos, tanto os que constituem doenas como os que apenas
representam syndromas, tanto aquelles em que as associaes morbidas so
activas e fortes como aquelles em que ellas so examines, passivas e
frouxas, tanto os que marcham para a extinco pela demencia como
aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por
accessos.

N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e
_secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e
_intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a no ser nos casos
extremos de mania, de demencia, de confuso mental e de idiotia, todos
os delirios sero mais ou menos systematisados, at os que se geram na
imbecilidade, at os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos
iniciaes da paralysia geral, o que no far espanto, se nos lembrarmos
de que a systematisao associativa  o fundamento mesmo de toda a
actividade mental. _Verrcktheit_  o termo empregado pela maioria dos
auctores allemes para, exprimirem este sentido geral dos delirios
systematisados; e se estes, como  de regra, se associam a illuses e
allucinaes, o termo _Wahnsinn_  synonimamente empregado, se bem que
com menor frequencia.

Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e
restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos
implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido
exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para
comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.
Na accepo restricta do termo, s so systematisados os delirios que
no teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania
ou melancolia), e que na sua evoluo progressiva ou remittente, mas
sempre continua e chronica, no offerecem tendencias para a demencia.
Tal o delirio de perseguies, typo-Lasgue; tal o delirio ambicioso,
typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos
a que o termo _systema_, pedido  technologia das sciencias
physico-mathematicas, implica a ida de uma fora _activa_ e
_persistente_ de attraco ou de affinidade (_systemas planetarios,
systemas de crystalisao_); por analogia, na esphera psychologica o
_systema delirante_ deveria resultar de uma fora _viva_ e _permanente_
de associao das idas, tal como se d smente nos delirios primitivos,
idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes.
_Paranoia_  o termo com que de preferencia exprimem os auctores
allemes contemporaneos este sentido restricto dos delirios
systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no
mesmo doente; e assim corresponde inteiramente  _loucura systematizada_
dos francezes, na qual esto comprehendidas as syntheses de Morel, de
Grente e de Rgis.

Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta
accepo restricta e determinada, o desviam d'ella no raras vezes (o
que  uma causa de confuso) para tomal-o no sentido geral e como
synonimo de _Verrcktheit_ ou _Wahnsinn_;  o que faz, por exemplo,
Krafft-Ebing que, no admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose
degenerativa_) seno a frma primaria, idiopatica e chronica, no duvida
empregar as expresses de _Paranoia epileptica_, de _paranoia
masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como no deixa de occupar-se
em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das
psychoneuroses_). Note-se, porm,--e isto far cessar toda a
confuso--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral
pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o
determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem s ou, quando
muito, acompanhado de um termo que faz alluso a accidentes evolutivos
de chronicidade ou ao contheudo das idas delirantes, como nas
expresses _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia
persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_
uma _Verrcktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa
determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primre
Verrcktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado
primitivo e chronico, a sua especie est definida, o seu logar marcado
na classificao, importando apenas, quando importe, designar-lhe a
_variedade_.

Posto isto, diremos que  sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e
doutrina equivalente em extenso  _loucura systematisada_ dos francezes
que primeiro vae recahir a nossa atteno. Claro est que este modo de
limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos
inhibe de dar na historia das doutrinas um logar quellas em que o
assumpto se toma n'uma extenso maior; esse logar, porm, deve ser o
ultimo, no s porque assim o exige a clareza da exposio, mas porque
s depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e
chronicos, cerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos
definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,
cuja controvertida existencia  um thema de infinitas e obscuras
divagaes.

Quanto  terminologia por ns adoptada n'esta exposio, diremos que,
podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primre
chroniche Verrcktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da
primeira, no s por um motivo de simplicidade, seno pelas razes que
os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem
grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua
expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;
emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras
derivadas, adjectivos e adverbios.

Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a
doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a
desenvolveu e aprofundou.

  [1] _ber Monomanie_, 1863.

  [2] _Arch. f. Psych._, 1867.

  [3] _ber eine specielle Form der primre Verrcktheit_, 1868-69.

  [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da
Paranoia: a perturbao ideativa  o facto inicial, independente de
estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou
expansivos que no curso d'esta psychose se observam, no so seno
secundarios e determinados pelo contheudo das idas hypocondriacas, de
perseguio ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal
insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a
debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos,  prvia e no
consecutiva, e no pde, por isso, servir para caracterisar a psychose,
mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das
allucinaes na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem
algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia
reside na perturbao ideativa, na anomalia conceptual que, por si s e
independentemente dos erros sensoriaes, gera as idas delirantes
destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As
idas de perseguio e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,
como notara Morel,  hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se
_d'emble_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico est no modo
de formar as idas, no de as associar, o que explica a persistencia do
raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro
clinico d'esta psychose as _obsesses_, que, no offerecendo a marcha e
evoluo das idas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,
uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creao de uma variedade,
_Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura
obsessiva ou das idas fixas.

At aqui, como se v, a doutrina de Westphal no differe essencialmente
das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na
sua classificao da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna
uma ida que o separa dos seus predecessores francezes e allemes: de
facto, ao lado da frma _hypocondriaca_, j conhecida desde Morel, da
frma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da frma
_chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emble_ se
produzem idas de perseguio e de grandeza, admittiu Westphal uma
frmia _aguda_, caracterisada pela subita ecloso de allucinaes
principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de
idas de perseguio e levando o doente ora  incoherencia e confuso
mental (_Verwirrtheit_) com impulses, ora ao stupor,  prostrao e aos
estados catatonicos de Kahlbaum.

A creao d'esta frma _aguda_, que est fra dos limites por ns
traados ha pouco  Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemes,
das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este
capitulo da psychiatria. Comquanto no tenhamos de occupar-nos agora
d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde j uma referencia, no s
para no deixarmos incompleta a exposio das idas de Westphal, mas
para marcarmos a origem historica de uma corrente de idas que teremos
de estudar e precisar mais tarde.

Notaremos, por fim, que Westphal s  frma _originaria_ reconhece um
fundo degenerativo.

Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relaes entre as idas delirantes e os
estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem
logar na mania e na melancolia.

  [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as
idas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de
interpretao_ das emoes iniciaes depressivas ou expansivas, na
Paranoia, ao inverso, as idas delirantes so primitivas e os estados
emocionaes secundarios,--meras reaces do sentimento sob o contheudo
das idas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que no acceita a
frma _aguda_ da Paranoia.

Em 1879, Schaefer[1] continuou as idas de Westphal, pondo, comtudo,
n'um relevo maior o papel das allucinaes e illuses.

  [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idas
delirantes so acceites pelo doente como realidades e n'este sentido
constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade
psychica, no deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes
n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, do-lhe
uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam
para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por
n'elle abolir o _senso critico_.

Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as frmas da Paranoia
descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de
partida as allucinaes.

No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio
processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da
Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasgue, para
quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade
(_frma activa_) do delirio de perseguies.

  [2] _Studien ber primre Verrcktheit_, 1879.

No seu _Tratado_, cuja primeira edio remonta a 1879, fez Krafft-Ebing
da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.
Paranoia e loucura systematisada so termos e noes equivalentes;
assim, separando-se de Westphal, regeita a frma aguda da Paranoia e
desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede  maneira
dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina est em dar
 Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de
consideraes conduzem Krafft-Ebing a este modo de vr; a gnese e a
evoluo da doena, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos
doentes, por outro. Nem o modo de appario, nem a marcha permittem
considerar a Paranoia uma doena accidental, como o so as
psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose
constitucional, uma doena de um cerebro tocado quer pela
hereditariedade, quer por graves affeces capazes de irreparavelmente o
enfraquecerem. De facto, sem obnubilao de consciencia, sem alterao
fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem
exaltado, e a despeito da integridade das frmas do raciocinio, o
paranoico v o mundo erradamente e  incapaz de corrigir quer as suas
idas, quer as suas falsas percepes. As idas delirantes, no
procedendo do exterior, nem resultando de emoes preexistentes pelo
mecanismo psychologico da reflexo, vem do inconsciente e impem-se ao
paranoico, do mesmo modo que se lhe impem os erros sensoriaes: um
excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, so,
pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evoluo, sem
tendencias para a demencia ou para a cura,  essencialmente chronica. De
resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes no so
seno as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)
implica uma forte predisposio congenita ou adquirida. Por outro lado,
a historia de todos os paranoicos (e no s, como pretendia Westphal, a
dos originarios de Sander)  a dos desequilibrados, dos candidatos 
loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doena
representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter
preexistente, no podendo entre ella e o estado normal traar-se, como
nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idas delirantes,
descrevendo uma frma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e
uma frma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e
notou o sabio professor de Graz que estas frmas podem observar-se
isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na
descripo da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e
progressiva das idas hypocondriacas s de perseguio e d'estas s de
grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evoluo
dar-se-hia n'um tero dos casos da doena.  de notar que Krafft-Ebing,
ao inverso da maioria dos auctores francezes, no concedeu ao raciocinio
o minimo papel na transformao pessoal, que se realisa pela passagem do
delirio de perseguies ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo
o eminente professor, toda a evoluo da doena.

Pde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da
Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na
Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem
de idas, os psychiatras allemes que lhe succedem, nada accrescentam a
esta construco synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e
profunda.

Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos
que Westphal, Schaefer e outros incluiam na frma aguda da Paranoia.

Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idas de Krafft-Ebing sobre
o papel do inconsciente na gnese dos delirios paranoicos. Os factos
morbidos obedecem, no fundo, s leis reguladoras dos factos normaes;
ora, no estado physiologico,  da esphera inconsciente que procedem os
factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios
primitivos  tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idas e
conceitos falsos. As idas delirantes, como as idas justas, no so,
definitivamente, seno resultados finaes, complexos e conscientes de
actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differena
est em que nas idas delirantes a actividade molecular das cellulas
corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a no existirem,
como no existem na Paranoia, modificaes anatomicas profundas, os
processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente no far
seno raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez
dos paranoicos no  seno isto. Mas no so susceptiveis d'esta
explicao os casos em que o delirio tem por base as allucinaes e
illuses; o inconsciente no representa aqui um papel. Para dar conta
d'estes casos,  necessario admittir no cerebro um estado de
enfraquecimento, que o predispe  falsa interpretao das percepes ou
das excitaes sensoriaes; n'esta ordem de idas, Scholz d aos delirios
de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que
elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescena das doenas
febris.

  [1] _ber primre Verrcktheit_, 1880.

Em 1882, Jung[1] reeditou as idas de Westphal e de Fritsch sobre a
diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva
ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu
o facto  extenso que todos os dias toma a degenerescencia physica e
mental da nossa especie. Isto denunca um accordo entre este auctor e
Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doena.

  [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as
idas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a uma profunda e
duradoura transformao do Eu, essencialmente evidenciada por uma
anomala comprehenso e elaborao das impresses internas e externas.
Sem obnubilao da consciencia e sem vivas emoes que lhe perturbem o
curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idas
delirantes, que se lhe impem e que elle  incapaz de corrigir; esta
_invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--, pois,
a base e o terreno de evoluo da Paranoia, que, porisso mesmo, no
representa um mero accidente na vida de um homem so, mas uma doena
_constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade
psychica. Todas as relaes do Eu com o exterior se encontram
radicalmente pervertidas no paranoico; e isto no tanto pela
interferencia das allucinaes, que so apenas symptomas, como pela
caracteristica tendencia do doente  _comprehenso egocentrica do
mundo_. E no s as relaes do Eu com o meio ambiente, mas as que elle
mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, s frmas
_persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,
descrevendo-a minuciosamente, a frma _hypocondriaca_,

  [1] _Comp. der Psych._, 1883

Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,
que considera uma frma de _loucura moral_. Baseia-se para essa
separao em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinaes nos
alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos
para se elevarem  noo de direito, como facto objectivo, o que
denunca uma suspenso de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,
tal como se d nos criminosos.

Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal
de frma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora
da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presena ou ausencia habitual de
uma depresso primitiva indicar se a hypocondria symptomatisa um estado
melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio
ideogenico. Este modo de vr projecta uma luz intensa no assumpto,
fazendo s idas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os
tempos vinha sendo feita s idas de perseguio e de grandeza, que no
so, alis, privativas da loucura systematisada. Um delirio de
perseguies pde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia
ou secundariamente estabelecer-se aps elle, como um delirio de
grandezas pde ser a expresso de um accesso maniaco; mas, ao lado
d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.
O que distingue estes casos  a leso primitiva: da sensibilidade nos
primeiros, da ideao nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora
expresso de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora
manifestao de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual
serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este
ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, no
seria seno uma perturbao das relaes do Eu com o corpo ou com as
impresses internas, analoga  perturbao das relaes d'elle com o
mundo externo ou com as impresses sensoriaes. E assim se comprehende
como, ao lado das frmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no
quadro da Paranoia um logar  frma _hypocondriaca_, a despeito de uma
errada tradico que espirito faz surgir como inseparaveis as idas de
hypocondria e de melancolia.

  [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

Meynert expz, em 1890, nas suas _Lies Clinicas_ uma interessante
doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores
allemes. Para o sabio professor de Vienna esta psychose no
representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas
a perturbao de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos
que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idas. Os affectos
originarios, escreve, so os de defeza e de conquista. Os primeiros
esto em relao com o sentimento de uma influencia externa; os segundos
com o sentimento de uma fora que actua sobre o exterior. So processos
physiologicos ou, antes, indispensaveis funces biologicas do
organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a
movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas
necessidades, mas succumbiria sem resistencia s nocivas aces d'essa
mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de
affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por
defeito de apropriao, morreria  falta de satisfao das proprias
necessidades. Na illimitao das idas de defeza da creana inexperiente
e timida encontra-se esboado physiologicamente o delirio de
perseguies, como o de grandezas se encontra na mesma creana, quando
tenta soprar  lua para apagal-a como se fra uma vela. O delirio de
perseguio inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na
melancolia, isto pde representar uma relao restabelecida entre este
sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia
conclue-se para a perseguio. Eu vou, porm, mais longe: o que
immediatamente se associa ao sentimento de angustia,  o perigo. Perigo,
antes de tudo, de uma doena illusoria, na hypocondria simples; perigos,
nas idas de violencia, em connexo com a chamada angustia
neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta--infeces,
venenos; perigos, creados por ns proprios, como quando receiamos, por
impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este  o delirio de perigo. O
delirio de perseguio refere-se, porm, a uma influencia procedente
d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens
excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza  n'este caso
_anthropomorphisado_: como as suas aggresses procedem de um impulso
humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos
sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar no 
especial de um estado de doena; o delirio que se lhe refere  popular,
diffuso, quanto pde sel-o, por exemplo, a crena na religio natural.
Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,
o oceano, o fogo so assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,
como o homem explica as suas aggresses ou conquistas sobre o natureza
como resultados de disposies que o estimulam, pensa elle que tambem as
vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de
seres mais perfeitos. Com razo disse um dos mais profundos pensadores
da poca da encyclopedia que o _homem creou os deuses  sua imagem_[1].

  [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.

Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguio,
Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e
como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se
hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam
n'um fim geral de conservao, as duas ordens de delirios, persecutorio
e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de
defeza e de conquista? Meynert no hesita em responder que elle procede
de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por
_sensaes hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O
doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoo intensa,
associando-se a todas as percepes, crearia um estado particular de
consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma
_hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era
para Grente, o fundamento da Paranoia.

Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert no liga uma grande importancia 
hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noo
psychiatrica da degenerescencia no tem seno um frio e reservado
acolhimento. Para Meynert a etiologia no fornece, nem fornecer nunca a
base de uma classificao natural das psychoses; essa base tem de ser
procurada na anatomia pathologica, na leso do cerebro. Na Paranoia essa
leso seria um processo atrophico do manto cerebral.

O conceito da degenerescencia psychica no encontra em Mendel[1] melhor
acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um
extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu
fros de degenerativa  frma originaria de Sander.

  [1] _Die Paranoia_, 1883.

Pelo seu lado, Schle[2], em 1886, s considerou francamente
degenerativas as frmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas
no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,
entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

  [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.

Mendel, distinguindo a obsesso da ida delirante, separa da Paranoia a
frma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] v na loucura
obsessiva uma frma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle
a obsesso e a ida paranoica teem a mesma gnese: uma e outra surgem
primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com
effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam
_invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na
Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes
at aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,
to vasta  na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; no
accrescentariamos, porm, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como
conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.
Passemos, pois,  exposio dos trabalhos em que um tal conceito se
altera pela integrao de uma frma _aguda_, sem precedentes quer em
Frana, quer na Allemanha, antes de 1878.

  [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.

Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma
variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e
apresentando na sua marcha ora a confuso mental da mania, ora a
depresso stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor
de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo
rudemente combatida por Fritsch e outros.

Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar
idas, accentuemos, antes de tudo, as differenas que separam as frmas
aguda e chronica da Paranoia.

Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do
proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a frma
chronica: de um lado, a primitividade das idas delirantes, que ao
espirito se impem  maneira de obsesses; do outro, a integridade da
associao logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes
 demencia.

Na frma aguda, o contrario teria logar: as allucinaes seriam o facto
primordial, e a associao das idas achar-se-hia fundamentalmente
compromettida quer por um exaggero at  fuga, quer por um affrouxamento
at  suspenso. Na frma chronica, as allucinaes, constituindo um
symptoma secundario e mesmo fallivel, so tributarias das idas
delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no
delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na frma
aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as
allucinaes teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de
perseguio sob vozes hostis, de grandeza sob audies lisongeiras).
Quanto  associao das idas, no ha na frma chronica mais do que um
desvio inicial de orientao, sem compromisso da consciencia e sem perda
de lucidez; pelo contrario, na frma aguda a precipitao das idas
poderia levar o doente  incoherencia e  dissociao da mania, como o
affrouxamento do seu curso o poderia conduzir  fixidez melancolica ou
mesmo, sob a aco inhibitoria de allucinaes terrorisantes, a estados
de catatonia. Estas differenas de marcha implicam naturalmente a de
prognostico: a frma chronica no cura e no conduz por si mesma 
demencia; pelo contrario, a frma aguda terminaria umas vezes pela cura,
outras pela abolio das faculdades.

Assim, tanto a subordinao dos symptomas como a terminao separam as
duas frmas. O que as une ento? O contheudo das idas delirantes, que
so sempre, n'uma e n'outra, reductiveis s tres conhecidas cathegorias:
hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo s duas ultimas.

 este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o
trao clinico de ligao entre esta frma e a outra. Que exista uma
perturbao de consciencia ou at mesmo uma inconsciencia mais ou menos
duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinaes em massa de todos
os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,
como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideao:
persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,
o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com
predominio de allucinaes seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,
no quadro da Paranoia entram no s os delirios systematisados, mas at
os dissociados e incoherentes, uma vez que as idas de perseguio ou de
grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns
escrevem.

 necessario, entretanto, reconhecer que Schle, achando, talvez,
demasiadamente frouxo, como unico lao de unio entre frmas por muitos
symptomas diversas e at antinomicas, o contheudo das idas delirantes,
tenta a approximao das duas Paranoias sobre um terreno de evoluo,
notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes quelles a
transio se pde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,
com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os
symptomas que separam as frmas chronica e aguda, Schle escreve: Estas
differenas, porm, caracterisam apenas os casos extremos do delirio
systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que
manifestamente se revella o parentesco d'estas duas frmas. De modo que
o importante grupo da frma aguda no  seno a repetio da frma
chronica:  um delirio de perseguio, uma interpretao delirante com
erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda
possiveis ao principio as percepes exactas. Ao mesmo tempo que a
consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de
frma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as
percepes exactas das allucinaes que se unem e entre si se prendem
systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo
por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas pde
tambem mudar, como acontece nos casos de affees agudas e febris: as
allucinaes tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se ento de um
d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a frma chronica
apresenta muitas vezes exacerbaes que no so, pela frma e pelo
fundo, seno o delirio systematisado com allucinaes; o comeo,
sobretudo, da doena offerece este aspecto. O delirio systematisado
agudo, quando no cura, torna-se uma frma chronica com allucinaes e
systematisao parcial. Todas estas transies demonstram que as
differenas notadas no so essenciaes e que estas frmas, apesar de
variadas, so visinhas[1].

  [1] Schle, _Trait clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
122.

A citao que acabamos de fazer, synthetisando as idas de quantos
acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
erudita, mas inutil _talage_ de nomes proprios; por ella se fica
sabendo o que pensam do parentesco das duas frmas os que, desde
Westphal, as admittem ambas. Entretanto, no ser ocioso fixar idas
sobre este ponto por uma nova e caracteristica citao de Schle: Uma
analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenas entre
todos os casos que entram n'este grupo to consideravel de psychoses,
direi mesmo, d'este grupo que  de todos o maior. Assim, devem
distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
approximam das psychonevroses (melancolia e certas frmas de stupor com
allucinaes). Estas relaes devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
melancolia, pela mediocre importancia da perturbao primitiva do humor,
que  n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
domina toda a doena; entretanto, o delirio systematisado agudo contm
tambem um grupo demonomaniaco, o qual no s apresenta um sentimento
depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
depresso, de caracteristica diminuio do sentimento da personalidade,
de illuses e de allucinaes de caracter triste. O mesmo acontece com o
stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) pde nitidamente
distinguir-se do delirio systematisado agudo, que no apresenta as
caracteristicas ausencia de percepo e falta absoluta de vontade; mas o
stupor com allucinaes (_pseudo-stupor_) est evidentemente ligado 
variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
este estado a frma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
stupor com allucinaes; a gnese e a marcha da doena permittiriam uma
e outra coisa. Assim, pde definir-se e conceber-se todo este grupo do
delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetio de certas
psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
sonho)[1].

  [1] Schle, _Obr. cit._, pag. 123.

Estas palavras de Schle, pondo em relevo a immensuravel extenso da
Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemes, permittem-nos
interpretar expresses, alis frequentes, que parecem meros jogos de
termos, que um accidente de composio typographica juntou: tal, por
exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. S quem tiver em
vista que a frma aguda integra situaes mentaes que vo desde a
obnubilao at  fuga das idas, desde a somniao at  catatonia,
pde comprehender que um termo creado para exprimir a ida de
_systematisao_ se adjective por uma palavra synonima de
_incoherencia_.

Como j dissemos, a ida de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemes, foi
vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
e adversarios d'essa ida constituem hoje duas esclas nitidamente
separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se no dissessemos de
que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
clinicos expostos como pertencendo a esta frma. Que pathogenia teem e
que logar occupam na classificao das psychoses, uma vez eliminada a
Paranoia aguda, os delirios, to numerosos, em que idas de perseguio
e de grandeza surgem sem systematisao completa, sem coherencia at,
acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evoluo
irregular e marchando tantas vezes para a cura?

A resposta a esta questo, j formulada, talvez, no espirito do leitor,
vae permittir-nos completar a differenciao das duas esclas, pondo em
mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda esto
fra da Paranoia, porque so diversos d'ella pelo comeo, pela
terminao, pela hierarchia mesmo dos symptomas, no basta, porque
precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extenso que
uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
abranger novos grupos de factos clinicos. Schle, Mendel e Cramer (para
no citarmos seno os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e at apparentemente
contrarios os casos _extremos_ das duas frmas, sustentam, comtudo, que
a fuso d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transio_, em
que os motivos differenciaes se esbatem.

Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
importa considerar este argumento. E  por isso que no podemos
prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

Fritsch, um dos primeiros a combater a noo da Paranoia aguda, designou
esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confuso mental, fazendo-os
depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
hemispherios cerebraes, que pde observar-se como syndroma ou como
complicao da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idas delirantes e
allucinaes; estes symptomas communs, porm, no so da natureza,
segundo Fritsch, a permittir a confuso entre uma _doena_, de marcha
gradual, em que se d uma transformao da personalidade, e um simples
_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
funccionaes e organicas.

Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que  Paranoia d um logar entre as
degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
reconhece por causas as doenas febris, infecciosas, neurasthenisantes;
a sua caracteristica  um enfraquecimento cerebral _d'emble_, ou
passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
de systematisao delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
 Paranoia , pois, impossivel.

Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
A primeira d'estas psychoses  uma confuso mental devida a um
esgotamento agudo do cerebro; a segunda  um delirio pouco coherente, da
marcha rapida e terminao favoravel, em que as allucinaes representam
o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idas falsas.
A distinco entre estas duas doenas no parece muito nitida; como quer
que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformao da
personalidade, sem obnubilao da consciencia e sem perturbaes
fundamentaes do humor.

Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicaes
medicamentosas ou outras; a obnubilao da consciencia e a confuso
mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
d'este delirio.

  [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.

Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, so por elle estudados sob
o nome da _Amencia_, especie de confuso mental, ora idiopathica, ora
symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
por excitao acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
maniacos, agudos e sobreagudos.

  [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.

As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenas febris,
puerperio, intoxicaes, traumatismos, molestias infecciosas, outros
ainda. A hereditariedade no exerceria seno um papel subalterno. A
marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminao far-se-hia pela
morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
resto, a Amencia pde complicar grande numero de psychoses, no sendo
raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
porm, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
propria. Da Amencia no pde passar-se a outra psychose que no seja 
demencia, termo natural das psychopatias que no curam.

Tal , pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designao
representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
cobertos no seriam seno expresses de uma asthenia cerebral, quer
idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
diversa, no s pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
da Paranoia em algum dos periodos d'esta,  incontestavel; que devamos
confundir as duas entidades morbidas , porm, insustentavel, porque,
desde os symptomas at s causas, desde a marcha at  terminao, tudo
se conspira para as separar.

Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, no seriam, pois,
exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
_Amencia_, n'uma palavra, de _confuso mental_ asthenica. E a mistura
possivel dos symptomas agudos d'essa confuso com os symptomas chronicos
da Paranoia, no significam, como pretende Schle, a passagem ou
_transio_ entre duas frmas de uma mesma doena, mas a _coexistencia_
de duas psychoses distinctas n'um unico doente.

Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
historia dos trabalhos germanicos.

Vimos quanto esta noo dominante nos inicios da psychiatria allem, foi
perdendo terreno  medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
no chegou nunca a desapparecer, graas  tradio; mas o conceito de
Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
Esta seria uma doena; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
melancolia ou da mania, uma _tape_ d'estas psychoses na sua marcha para
a extinco definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situao
mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
incompleta_.

E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
to movimentado, to independente, to cheio de cambiantes evolutivas, e
o estado predemencial, to pallido que os seus symptomas no so j
seno residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas,
taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximao pathogenica ou
nosologica era, com effeito, possivel.

Mas comprehende o leitor que esta situao tenha variado a partir do
momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da frma
aguda. Desde que no repugna admittir que da confuso mental se passe 
Paranoia, menos repugnar crr que a ella se trasite da mania e da
melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a frma aguda da
Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.

       *       *       *       *       *

Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
delirios systematisados; so elles, porm, de um to grande valor
intrinseco e de uma to alta originalidade, algumas vezes, que o seu
logar na historia contemporanea est definitivamente marcado.

A primeira memoria a citar sobre o assumpto  a de Buccola: _Sui delirii
sistematisati_. No tanto pela novidade das proprias idas como pela
clareza com que expe e commenta as doutrinas germanicas, ainda ento
quasi desconhecidas fra do paiz originario,  notavel este trabalho do
mallogrado escriptor italiano.

Na debatida questo da gnese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
Krafft-Ebing a constante prioridade das idas sobre as allucinaes, do
desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. A gnese do delirio,
escreve, no  em todos os casos nitidamente delimitada e no sabemos
definitivamente se as allucinaes precedem ou succedem sempre o
desenvolvimento das idas delirantes e se estes devem considerar-se
tentativas de interpretao ou antes,  maneira de Samt, productos da
vida psychica inconsciente[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
assentam os delirios systematisados,  Buccola decisivo, affirmando com
Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vr,
apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
a doena , maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
comquanto capaz de remisses.

  [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
vol. VII.

O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
conceitos francezes, a denunca de um mundo novo a explorar. E desde
logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
originalidade imprevistas.

Pondo de parte todos os trabalhos (e so numerosos) que se limitam, como
o de Buccola, a expr ou a commentar as idas germanicas, faltaremos
smente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
modificaes evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idas
so a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.

O trabalho dos dois primeiros escriptores  dos mais importantes e, como
vae vr-se, dos mais originaes.

Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado so conceitos
diferentes, noes que importa no confundir: o delirio systematisado 
um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a
Paranoia representa uma _constituio morbida_, que o atavismo explica.
Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a
Paranoia pde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os
auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto , desacompanhada de
delirio.

O que  ento a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem
e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela meno dos
seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo
exame das suas origens.

Descriptivamente definida, a Paranoia  para Tanzi e Riva uma psychose
funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio
das mais elementares operaes intellectuaes, no implicando nem uma
gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi
sempre de allucinaes e idas delirantes permanentes mais ou menos
coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional
constatavel ou de qualquer condio morbida emotiva; que tem uma
evoluo nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e
que, em geral, no tende por si mesma para a demencia[1].

  [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,
  pag. 293.

A analyse d'esta definio, que a pathogenia tem de completar, permitte
reconhecer, antes de tudo, a posio dos auctores em face das diversas
doutrinas allems. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de
marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade
morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doena os
delirios systematisados _secundarios_, que succedem  mania e 
melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escla de Westphal.
Constatando, alm disso, a ausencia, na gnese da psychose, quer de
causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbaes morbidas de
sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio
intellectual, que no pde tomar-se, porque  primitivo,  conta de
interpretao de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia no
implica uma desordem geral, mas ideativa, no tendendo por si mesmo para
a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma
_degenerescencia intellectual_.

Como se v,  ao lado de Krafft-Ebing e em opposio a Schle e a Mendel
que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de
todos os psychiatras, assim franceses como allemes,  na affirmao da
no essencialidade das idas systematisadas na Paranoia; esta  a parte
original e absolutamente imprevista da definio. Contrariamente s
idas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia no 
sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um
delirio systematisado.  uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,
creando a designao de _mattoide_, Maudsley, fallando de um
_temperamento vesanico_, Moreau, traando a zona indisdincta das
_fronteiras da loucura_. O que , pois? Um excesso de subjectivismo
alterando fundamentalmente as relaes do individuo com o mundo
exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,
radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para
interpretar as coisas e os homens nas suas relaes objectivas, o
paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, v tudo erradamente,
como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, 
no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o
interessam, as que com elle directamente se relacionam; a
_egocentricidade_ , pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_
do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado
persecutorio, ambicioso ou erotico, elle pde ficar quem, no dominio
das idas falsas, mas no absurdas, chimericas, mas no ainda
inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os
auctores illustram de uma maneira magistral.

D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se
pensarmos que a evoluo intellectual da humanidade se faz no sentido de
um subjectivismo decrescente, isto , de uma subordinao cada vez maior
do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de
subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regresso, e o
paranoico, portanto, como um documento de atavismo.

Tal , na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever
applicar a designao de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o
paranoico  muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do
que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.


No  em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relao ao tempo em
que se produz, que uma ida pde considerar-se morbida; a pathologia do
conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_ [1]. E, de facto,
idas e opinies que hoje so delirantes, foram modos de vr correntes
em pocas mais ou menos afastadas. Mas no se conclua d'aqui que 
paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram
remotos antepassados.

  [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.

Que um negro, uma creana ou um inculto camponez tenham do Universo uma
grosseira concepo anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,
porm, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que
denunca um desvio paranoico da ideao. Que um rude marinheiro
analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradea
com offerendas uma viagem feliz, no  caso para espanto; que faa o
mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideao paranoica. As
raas, as idades e as classes (que so raas sociaes) teem cada uma a
sua psychologia; e  dentro d'ella e pelos principios d'ella que os
conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenas dos da sua
raa, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,
no  um paranoico, por falsas que essas crenas sejam; para que possa
fallar-se da Paranoia  preciso que uma _regresso_ ideativa se realise.

Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros
pontos. Por agora resta-nos smente resumir a documentao do atavismo
paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.

Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crena profunda e
inabalavel dos paranoicos nas suas concepes delirantes, mau grado
todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia
dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;
essa crena, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,
resistente s suggestes do mundo objectivo,  verdadeiramente uma
_f_--to integral e to pura como a das velhas almas religiosas em face
dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente
proporcional ao seu fundamento logico, a f paranoica no encontra hoje
equivalente a no ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.

Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia
encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idas de
perseguio, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os
tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em pocas anteriores 
constituio do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.

Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico
representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de
anomalias _psycho-sexuaes_ que s nos imbecis se encontram com a mesma
frequencia e frma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras
cambiantes, essas anomalias, se no produzem o effeito da impotencia
material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. A
extraco forada de esperma por machinas electricas, a copula
imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes
nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os
auctores, das condies de inferioridade sob o ponto de vista da
existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes
do que qualquer outro alienado[1].

  [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos
de procedencia atavica evidente: taes so os que se designam pelas
expresses syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. Os complicados
arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,
as interpretaes phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,
os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, do ao
delirio uma cr to viva e to grotesca, dizem os escriptores italianos,
que o fazem reviver nas mais remotas phases da evoluo historica da
cultura. Lembram a escripta cuneifrme e hyerogliphica exprimindo
material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservao dos
amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificao dos phenomenos
naturaes, as evocaes d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da
magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do
mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas sries de factos,
encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos
primitivos, exprime uma condio psychica commum[1].

  [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de
resumir.

A ida de uma constituio paranoica, essencialmente degenerativa,
recebe n'elle a consagrao pathogenica. A Verrcktheit de Krafft-Ebing
e da sua escla  ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,
estabelecida pela clinica, no encontra uma clara interpretao; a
Paranoia de Tanzi e Riva  pura e simplesmente uma degenerescencia
intellectual, que a doutrina da evoluo permitte comprehender. A
Verrcktheit era com os allemes um conceito _medico_; a Paranoia, que
d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os
italianos, uma doutrina _anthropologica_.

Mas no se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idas, seja
dito de passagem, deram a sua adheso Amadei, Tamburini, Morselli e
outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.
Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia
secundaria_--um velho thema visto a uma nova luz. De facto, no  a
primitiva concepo de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia
secundaria do auctor italiano no  Secundre Verrcktheit do allemo,
uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado
feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia;  antes uma frma
hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e
da degenerescencia.

Demos, porm, a palavra ao escriptor italiano: A Paranoia secundaria
diz elle,  uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter
paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental
invasora, como terminao de uma psychonevrose que, desarranjando o
equilibrio de um cerebro j de si invalido, refora processo
degenerativo, abreviando-lhe a evoluo e concentrando n'um mesmo
individuo os caracteres de um srie pathologica[1].

  [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.
  XIII, pag. 61.

Como d'esta definio se v, a Paranoia secundaria implica uma inicial
degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;
mania ou melancolia, no faz seno aggravar e tornar manifestas. Sem a
interveno accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos
avanada que na Paranoia primaria, no se accentuaria n'um delirio
systematisado; dado, porm, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se
o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha
concepes delirantes e tendencias para a demencia.

Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas
evolues morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou
mais individuos da especie, pde admittir-se que a Paranoia secundaria
representa n'um s individuo o que faz a psychonevrose na especie. A
Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma
disposio precedente, apressado por uma doena mental qualquer, as mais
das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia
secundaria no seria, como se pretende, uma psychonevrose que,
caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idas
falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia
secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em
si mesmo, no chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto
da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a
appario de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um
espirito j invalido, occasionando a manifestao de um processo com
apparencias degenerativas, que por si s talvez se no accentuasse.
Aconteceria, n'uma palavra, como nas frmas de Paranoia illustradas por
Leidesdorf, que se originam em graves doenas da infancia, em
traumatismos, etc., e nas quaes, todavia,  necessario admittir uma
predisposio, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,
nem as doenas infantis ou outras determinam ulteriormente a appario
da Paranoia. Por maioria de razo, uma doena mental como a mania ou a
melancolia poder determinar o apparecimento de uma doena affim,
baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e
guiando  demencia, que ter sempre o caracter paranoico. O exhaurimento
cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos
degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que no  a
verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia[1].

  [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.

Tal  a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,--profundamente
diversa, repetimol-o, da theorisao de Griesinger.

Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua to original
concepo.

Fazendo da Paranoia secundaria uma frma hybrida, Tonnini procura
demonstrar que ella no  uma psychonevrose genuina e que no  tambem
uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma
e de outra.

Que no  uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor
italiano, tres ordens de razes: a primeira, no faltar nunca ao delirio
o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que so seus habituaes
companheiros; a segunda, ser s vezes o delirio muito menos a
continuao do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,
do que um delirio novo procedente de disposies paranoicas, como se v
n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo 
melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de
fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a
Paranoia primaria, a no ser pela consulta dos anamnesticos.

Que a Paranoia secundaria no  uma degenerescencia pura e simples,
resulta das seguintes consideraes: a primeira  a presena do elemento
affectivo, de expanso ou depresso, que falta na Paranoia primaria,
evidentemente degenerativa; a segunda  a marcha e terminao, que so
diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,
refere-se  hereditariedade que  sempre menos pesada na Paranoia
secundaria que na primaria.

 concluso geral do trabalho de Tonnini  esta: No sendo uma
psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia
secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes
dois processos, Constitue um trao de unio entre elles e demonstra que
os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se no sujeitam a
uma rgida classificao, mas teem entre si relaes variaveis, que
podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico[1].

  [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.

       *       *       *       *       *

Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte
historica do nosso estudo, por isso que s a Frana, a Allemanha e a
Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas
originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos
trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.

A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,
sobretudo, caracterisada pela investigao minuciosa dos symptomas e das
causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de
pathogenia que to apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.

A noo de _monomania_, com a significao que lhe davam Esquirol e os
seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia
nos seguintes termos: A monomania ou loucura parcial  caracterisada
por uma illuso particular ou erronea convico do intendimento,
determinando uma aberrao do juizo; o monomaniaco  incapaz de pensar
correctamente sobre objectos relacionados com a sua illuso especial,
embora sobre outros assumptos no manifeste apreciaveis desordens do
espirito[1].

  [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.

Merc dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo
_monomania_, comeou em 1858 a ser substituido pela expresso
_delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os
delirios systematisados. Mas a designao nova no implica uma
pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas
_concepo falsa_ ou _ida delirante_, sem referencia a origem. Segundo
Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como
algum tempo pretendeu Griesinger.  o que manifestamente exprimem estas
palavras: A concepo falsa (_delusion_)  muitas vezes o ultimo
symptoma na morbida successo dos phenomenos mentaes; ella pde ser, com
effeito, o reflexo de uma emoo, e, embora estrictamente signifique
desordem intellectual, pde ser o resultado e o mero symptoma de uma
desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional
insanity_) no raro termina por uma perturbao conceptual (_delusional
disorder_)[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os
auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que
poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.

  [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4. ed.,
  pag. 204.

Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel  tradico
dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da
_Pathologia do Espirito_: Comquanto a monomania intellectual succeda
muitas vezes  mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este
desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo
progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter[2].

  [2] Maudsley, _Pathologie de l'sprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).

O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relao ao
assumpto que aqui versamos,  a descripo que elle faz, sob o nome de
_nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os
portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre
hereditaria, so seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande
_egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,
no delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio
social a que se no subordinam, antes constantemente chocam.

Em Clouston, cujas interessantes _Lies_ remontam a 1883 e tiveram nova
edio em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de
_monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doena, Clouston
encontra-lhe quatro: a predisposio individual, a mania aguda, as
intoxicaes e traumatismos, e, por ultimo, as sensaes falsas. Como se
v, a _delusional insanity_  tanto um delirio systematisado primitivo
como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.

O que em Clouston merece atteno  a sua maneira de definir a
_delusion_ ou conceito delirante  maneira dos italianos, isto ,
fazendo intervir o criterio evolutivo. A educao, a idade, a classe e
mesmo a raa, at um certo ponto, determinam se uma crena errada  ou
no um conceito delirante[1]. Assim, a noo morbida, a ida
pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se uma crena
n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educao e
raa da pessoa que a expressa[2].

  [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2 ed., pag. 243.

  [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.

Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expe
em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns
alienistas allemes, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a
assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificao dos
delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as
variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.

  [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.

No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,
todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.

  [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.

No conhecemos, seno por ligeiras noticias de Tanzi e de Sglas, a
litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, no  ella
nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.

Parece que os mais importantes trabalhos so os de Rosenbach, em 1884, e
de Greidenberg, em 1885.

O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemes, a
gnese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a
debilidade mental. As illuses e allucinaes seriam secundarias e no
primitivas na evoluo d'estes delirios. As idas de grandeza no
derivariam, por um processo logico, das idas de perseguio, mas seriam
contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as
idas ambiciosas pem em relevo, est j indicado nas idas de
perseguio.

O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria
aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra
adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia
quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de
enfraquecimento cerebral.




SEGUNDA PARTE


EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

METHODO A SEGUIR

Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados--Exame
critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrcktheit
aguda e secundaria--Determinao final do conceito anthropologico de
Paranoia.


Todo o extenso caminho ascensional at agora andado nos apparece, da
altura attingida, como uma linha de ideao que, partindo do exame dos
delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituio
intellectual dos delirantes.

Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio
symptomatico a orienta,  cada delirio uma doena--que se chama
melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguies
ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de
_extenso_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idas delirantes. Mais
tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto  psychiatria
pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a viso do assumpto,
fazendo pensar no terreno especial de que as concepes falsas emergem;
no ha ento tantas doenas distinctas quantos os delirios, mas, formada
pela convergencia da noo symptomatica de delirio e do conceito causal
de predisposio, uma s doena de variaveis aspectos clinicos,
successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,
loucura parcial, delusional insanity e Verrcktheit. Emfim, a tentativa
de explicar pela doutrina geral da evoluo psychica a natureza da
predisposio delirante origina o conceito de Paranoia como expresso de
um desvio regressivo, de uma constituio atavica da intelligencia.

Analyse, synthese e interpretao pathogenica--taes foram, pois, na
marcha historica do assumpto que nos occupa, as _tapes_ seguidas pelo
espirito scientifico.

Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea,
foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos,  maneira de dois
pontos, o primeiro e o ultimo termo das sries de doutrinas, traamos
entre elles a mais curta distancia, como se a filiao das idas se
houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porm, as theorias
nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasgue e de
Foville a minuciosa descripo clinica dos delirios systematisados de
perseguio e de grandezas, j o cerebro allemo, que os tinha
entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
organisaes intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
parallelismo entre as evolues logica e chronologica das idas,
misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em Frana com
Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasgue e em Foville,
tentando filiar n'uma autoobservao consciente as idas delirantes.

, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
questo que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, alis necessario e
legitimo, est indicando que a historia, no sendo aqui, como as
sciencias exactas, uma simples exposio chronologica dos erros e
illuses que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
complicada e suggestiva revista de opinies, carece de ser completada
pela critica. J no que apenas parece uma na e secca exhibio de
doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
contradictorias affirmaes a filiao das idas;  preciso, comtudo,
que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
theorias e os pontos de vista individuaes ou de escla em face dos
factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.

Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.

Acceitando nos seus traos fundamentaes a doutrina anthropologica da
Paranoia--inevitavel corollario da theoria geral da evoluo
psychica--tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
precederam; n'este sentido reforaremos e ampliaremos com novos dados e
novos pontos de vista a argumentao dos psychiatras italianos.

Antes, porm, uma tarefa se nos impe: a de examinar as questes do
Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrcktheit,
sobre as quaes so ainda hoje em Frana e na Allemanha to vivos e
accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vr, definitivamente encerrado.



I--O DELIRIO CHRONICO

A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios
polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso no e
vulgar; a passagem  demencia  excepcional--O delirante chronico  um
degenerado; importante observao pessoal--A prognose dos delirios
polymorphos  muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de
Delirio Chronico no espirito de Magnan; gnese do segundo.


O delirio chronico de evoluo systematica, tal como nas paginas,
anteriores o descrevemos, no  no espirito de Magnan uma formula
eschematica ou uma abstracta construco destinada a fazer comprehender
um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observao no
faria seno confirmar.

Recordemos que duas circumstancias--uma d'ordem etiologica, outra de
natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
consiste em que ella ataca na idade mdia da vida individuos at ento
perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
ordem invariavel--o de incubao, o de perseguies, o megalomano e o
demencial.

Pelo que respeita  primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: O
delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sos de
espirito, no tendo at ento apresentado nenhuma perturbao
intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
desde a infancia apresentam perturbaes que os fazem reconhecer[1]. Em
relao  marcha dos symptomas no  menos explicito o medico de
Sant'Anna: Estes periodos (incubao, delirio de perseguies,
megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
modo, de sorte que pde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
_d'emble_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
ambicioso, vem a ser depois perseguido[2].

  [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.

  [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
dos severos moldes traados, ou so meros symptomas de uma affeco
mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
_polymorphos_ ou _multiplos_, em atteno ao seu contheudo, de _delirios
d'emble_, em vista da sua brusca appario, ou ainda de _delirios
degenerativos_, olhando  etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
Chronico: emquanto este  absolutamente incuravel, comportariam
aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
pois que, expresses de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
embora possam tambem recidivar.

Estamos, como se v, em face de uma doutrina clara, precisa, de
contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
Isto nos facilita a critica.

 indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
perseguies, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
acabando pela demencia. At ao segundo d'estes quatro periodos da
evoluo morbida, no differem taes doentes dos perseguidos de Lasgue e
de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
delirio, por uma phase preparatoria de concentrao e de inquietude
mental; o que os separa d'estes  a ulterior passagem ao delirio
ambicioso, j observada por Foville, e, por fim,  demencia. Ora, se
esta passagem , como pretende Magnan, fatal e necessaria, s o Delirio
Chronico  nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella  fortuita
e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
perseguies.

O que diz a observao clinica? Vamos vr que o seu depoimento est
longe de ser favoravel a Magnan.

Pelo que respeita  passagem do delirio de perseguies ao de grandezas,
affirmou J. Falret que ella no s ho  constante, mas est longe de
ser vulgar, pois apenas se realisa n'um tero dos casos; pelo seu lado,
Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transio se observa smente
n'um tero dos casos de Verrcktheit, isto , do conjuncto dos delirios
systematisados de evoluo chronica; e Christian pretende mesmo que
nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
exclusivamente de perturbaes da sensibilidade genital. A longa
experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmaes;
de resto, so conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
delirio de perseguio durando vinte, trinta e mais annos e terminando
pela morte do doente, sem que em to largo periodo tenham surgido idas
ambiciosas.

Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas est longe de
ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia  um
facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a atteno dos
alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos 
dissoluo mental que  o termo vulgar das outras vesanias; e os
observadores allemes e italianos consideram mesmo to caracteristico
este facto do no abaixamento de nivel intellectual na Verrcktheit e na
Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definio da
psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
se observa. Um d'esses casos  um official reformado do exercito que
conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; so to
inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
de delirio systematisado so impotentes, no dizer de grande numero de
observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
apparece,  antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
intercorrente que deve attribuir-se.

Resumindo: no  fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
nos perseguidos que, alis, incubaram o seu delirio;  excepcional a
terminao pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evoluo
vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.

O perseguido-megalomano-demente , pois, menos commum que o perseguido,
tal como vem sendo descripto desde Lasgue e J. Falret; pelo que, fazer
do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguio,
seria inverter abusivamente as noes recebidas em nosologia, tornando
_especie_ o que  apenas _variedade_.

Examinada a questo do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
ponto de vista da etiologia.

Como foi dito, o delirante chronico no , no dizer de Magnan, um
degenerado: pde ser um predisposto, mas no  um candidato  loucura;
pde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
sobre todas as doenas mentaes, mas no apresenta at  invaso do
delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
d'estes  sempre polymorpho, _d'emble_, frouxamente systematisado, no
tendo a longa durao do delirio chronico, nem o seu crte regular em
periodos de irrevogavel successo.

Esta maneira de vr, em radical opposio com as affirmaes dos
psychiatras allemes e italianos sobre a Verrcktheit e a Paranoia (em
que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
se acha contido) merece ser examinada.

 evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questo s
pde fazer-se discutindo a noo da degenerescencia, que no  identica
para todos os psychiatras, que no tem o mesmo alcance em todos os
livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porm,
desde j que J. Sglas combateu vivamente, em nome da observao
clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evoluo caracteristica
do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
technologia da escla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
acceitando a doutrina de Magnan emquanto  evoluo do Delirio Chronico,
se afasta resolutamente do mestre emquanto  etiologia, affirmando que
grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
seguros da degenerescencia e que no desdizem da pesada herana que
muitas vezes incide sobre estes doentes.

Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observao
pessoal que pde juntar-se aos de Sglas.

Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
actualmente 45 annos de idade, e a quem j em outra publicao nos
referimos. O periodo de incubao delirante, a que accidentalmeme
assistimos, merc das relaes que ento mantinhamos com um irmo,
remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguies achava-se
installado, fazendo-se acompanhar de allucinaes auditivas e provocando
da parte do doente reaces violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafs,
_pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
1883, apresentando ento, de mistura com o delirio de perseguies,
idas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e s um anno depois
comeou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
social; as perseguies soffridas e a sequestrao, _o mais infame de
todos os crimes at hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
defendia os dogmas christos, e do Rei, que defendia a ordem social
existente. Lentamente, as idas ambiciosas foram dominando o delirio de
perseguies, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
sequestrao; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.

Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
apparentemente so, que era um bom guarda-livros, que sustentava a me,
que mantinha regulares relaes sociaes, que se governava
financeiramente bem, a psychose atravessou, na successo assignalada por
Magnan, os periodos de incubao, de perseguies e de megalomania, sem
a presena episodica de idas hypocondriacas, eroticas ou outras que
podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente 
um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
noo da degenerescencia. A hereditariedade  n'elle convergente e das
mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
_me_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
aos 70 annos; um _tio materno_  disforme; um outro _tio_ materno, mal
dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
fraudulenta; um _irmo_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
_irm_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
leituras para que no tinha preparao e evitava o commercio das
mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
e uma notavel _asymetria facial_.

Este caso, que em nossa propria experiencia  o mais nitido, seno 
mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evoluo precisa e
irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idas d'este
psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.

Encaremos agora a durao e prognose comparadas do Delirio Chronico e
dos delirios polymorphos.

Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
Chronico a titulo de phase terminal da sua evoluo;  dizer que a
psychose se installa definitivamente e o seu prognostico  sempre
infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
durao limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
benigno. Ser isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
sua evoluo, no  menos verdade que ha, ao lado dos que assim
terminam, um formidavel numero de casos de uma durao perpetua,
tendendo, se tendem, para a demencia to lentamente como o Delirio
Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain no
hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
essencialmente chronica_. , de resto, o que a experiencia nos ensina:
ou se fixem n'um pequeno numero de idas ou percorram toda a gamma dos
conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
tranquillisador _a gurira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
delirios _d'emble_, reserva-nos por vezes decepes crueis; muitos
casos conheo, por minha parte, em que _a n'a jmais guri_. De resto,
as pretendidas curas dos delirios systematisados no so, as mais das
vezes, seno apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepes
para obter a liberdade, o que no  excessivamente raro nos manicomios,
quer porque, desapparecendo realmente as idas morbidas, subsiste a
disposio a creal-as de novo, isto , subsiste a mentalidade
paranoica--a verdadeira doena, no fundo.

Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
evolues diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
Frana se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrcktheit, 
perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successo dos delirios
n'um mesmo alienado,  tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
grupo nosologico bastantemente differenciado--pela evoluo, pela
pathogenia e pelo prognostico--dos delirios systematicos dos
degenerados, eis o que no pde acceitar-se.

Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
no crssemos dever insistir n'um ponto, s ao de leve tocado na parte
historica d'esta monographia: que anteriormente  concepo actual do
Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
Grente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
Verrcktheit de Krafft-Ebing.

 certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Sglas punha em
evidencia as contradies entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
de vista aos seus discipulos,  licito acreditar que estes os acceitam
e propagam nos seus escriptos. No  s Grente que n'uma these de 1883,
escripta no servio da admisso e feita de casos clinicos ahi colhidos,
expe, sob a designao de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
pontos capitaes se oppe  que Magnan apresentou em 1887  Sociedade
Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lies
Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
Grente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
evoluo da infancia; e, n'um artigo publicado j em 1889, o meu collega
Magalhes Lemos, que alis viveu perto de dois annos na intimidade
scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
Delirio Chronico um caso que se iniciou por idas ambiciosas de colorido
erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
opposio com o mestre, antes cr cada um interpretal-o; nem descobrindo
signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
achando possivel a inverso evolutiva das phases habituaes d'esta
psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
d'escla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idas de
Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico  o
equivalente da Verrcktheit e da Paranoia.

A inevitavel concluso a tirar d'estes factos  que realmente no
espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
de apparecer-nos duplo  distancia de alguns annos. Infelizmente, o
actual no vale o antigo.

Mas, porque passou Magnan da larga concepo de 1883 para a de hoje, to
estreita, to geometrica e to rgida que os factos se lhe no
acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
s pde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
tem de ser, quanto  gnese, improvisado; quanto  marcha, irregular e
descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
caleidoscopico e multiforme; quanto  durao, ephemero ou pelo menos
curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto 
associao das idas, de uma frouxa systematisao, porque esta, quando
completa, representa uma demorada concentrao d'espirito, incompativel
com a ideao salturaria do degenerado. Pertencem, pois, 
degenerescencia os delirios _d'emble_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
_sub-agudos_ e, por fim, os que no revellam seno uma _fraca tendencia
 systematisao_. Os no-degenerados s podem delirar de um modo
diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
marchar por _tapes_ de irrevogavel successo; de durar a vida do
doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idas; de ser,
emfim, contnuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_  a
antithese completa e integral do delirio dos degenerados e s n'estas
condies pde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
dissociou-se, pois, no em vista dos factos, mas da theoria, passando o
que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
actual, e os casos _frustres,_--a grande, a formidavel massa dos casos
clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.

Mas, por outro lado, no sendo o desequilibrio mental seno a
consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
_impregnao hereditaria_, o _Delirio Chronico_ s deve realisar-se em
individuos normaes e vlidos para que, ainda no ponto de vista da
etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppem-se totalmente.

Tal , a meu vr, a gnese da actual noo de _Delirio Chronico_.
Tentando impr-se em nome dos factos, como induco clinica, ella
procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
degenerescencia, que est longe, como adiante veremos, de poder
acceitar-se sem restrices.



II--A VERRCKTHEIT AGUDA

Dois grupos de psychoses sob a mesma designao: a confuso mental e os
delirios polymorphos--A Verrcktheit e os delirios incoherentes; critica
das opinies de Schle--A Verrcktheit e os delirios systematisados de
marcha aguda; critica das opinies de Krafft-Ebing--Observao
pessoal--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit.


Duas ordens de factos, a meu vr inteiramente distinctos, se encontram
englobados na Verrcktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
que smente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, s vezes,
pelo excessivo predominio de allucinaes differem da Verrcktheit
chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schle e de
Cramer, no se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
estuporosa.  isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
defendem a Verrcktheit aguda.

Os primeiros d'estes delirios, no implicando nem uma obnubilao da
consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expanso ou
depresso, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
e uma evoluo irregular,  certo que elles manteem sempre aquella
activa coordenao logica das idas que constitue o _systema delirante_.
Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
acompanhando-se de alteraes affectivas, impem-se pela anormal
associao das idas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
ora convergem na determinao de estados catatonicos, segundo a
imprevista direco das allucinaes, sempre renovadas.

Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que 
identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma interveno
preponderante do elemento allucinatorio, , ao que penso, cahir n'um
erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia so
infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
identidade das idas morbidas no  razo para que confundamos, por
exemplo, os delirios de perseguio da melancolia e da Paranoia ou os
delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
de allucinaes, ainda quando identicas, como as zoopsicas, no  razo
para que no distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
hysterico. As idas delirantes e as allucinaes da Verrcktheit so as
de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
mental s conseguiu sahir por successivos esforos de analyse. No so
os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenao e a
sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.

Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
grupos de delirios, que alguns auctores allemes reunem sob a designao
de Verrcktheit aguda.

Comecemos pelos delirios systematicos.

A psychiatria allem, creando os termos de Verrcktheit e Wahnsinn para
designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenas entre
os que se impem pela coordenao dos conceitos morbidos e os que se
denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia to complicada e to
longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrcktheit d'hoje
no  o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
Griesinger, como o Wahnsinn no  o delirio exaltado e optimista de que
o mesmo auctor traou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger at
Westphal, os dois termos conservaram, atravs de todas as vicissitudes,
um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confuso
principiou smente quando o professor de Vienna, creando a variedade
aguda da Verrcktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
systematicos e at dissociados em que as allucinaes desempenham um
papel dominante. Ser licito manter uma tal confuso?

J na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe no s os
argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrcktheit o
hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
grupo das psychonevroses. No reeditaremos essa vigorosa critica;
examinaremos, porm, os argumentos com que Schle pretende justificar a
opinio contraria.

No contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
Verrcktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
sustenta, porm, que ha casos de transio em que ellas se esbatem,
ficando ento a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.

A confisso, por parte de Schle, de que so justas as differenciaes
notadas pelos adversarios da escla de Vienna entre a Verrcktheit e o
Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
 um facto importante e que deve registar-se, porque essas
differenciaes referem-se, como vimos,  coordenao dos symptomas, 
etiologia,  marcha,  pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
definir uma entidade nosologica. A coordenao symptomatica, porque,
enquanto na Verrcktheit as idas delirantes formam systema e as
allucinaes occupam um logar secundario ou at nullo, no Wahnsinn o
delirio  incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; 
etiologia, porque, emquanto a Verrcktheit se installa sem causa
exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
 marcha, porque, tendo a Verrcktheit uma evoluo essencialmente
chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
morte;  pathogenia, porque, emquanto a Verrcktheit se interpreta como
um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn  uma doena
accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
outros se juntam ainda: ao passo que na Verrcktheit as allucinaes,
predominantemente auditivas, so determinadas pelo curso do delirio,
dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idas, que
provocam a appario das imagens, no Wahnsinn succede que  o
automatismo dos centros sensoriaes que determina as idas delirantes,
por esse facto variaveis, movedias, dissociadas; tambem, ao passo que
na Verrcktheit o elemento affectivo no s  secundario, mas tende a
apagar-se com os progressos mesmos da doena, no Wahnsinn, embora
igualmente secundario pela gnese, pois  determinado pelo contheudo das
idas, esse elemento representa um papel importante, merc das vivas
allucinaes emergentes de todos os sentidos.

Para diminuir o valor d'este quadro de differenciaes nosologicas, ao
mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
no s que na chronica evoluo da Verrcktheit se observam phases
agudas de Wahnsinn, mas que d'este se pde passar quella, o que, a seu
vr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.

Examinemos o valor d'estes argumentos.

Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
dos factos invocados por Schle, pois mais de uma vez temos observado
episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretao
muito diversa da que lhes d o celebre medico de Bade.

Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como no fazendo
parte integrante da evoluo da Verrcktheit, mas coexistindo com ella a
titulo de complicaes ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
etiologia e uma marcha autonomas. Porque no? Nenhuma razo h, dizem
Tanzi e Riva, para crr que o cerebro de um paranoico possa oppr s
causas das doenas intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
individuo normal  incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor[1]. Assim
pensamos tambem, recordando os casos de observao pessoal.

  [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.

Um d'estes, notavel entre todos,  o de um paranoico-originario, que j
aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idas de
perseguio, nem a hyperbolica opinio dos seus meritos lhe embargaram o
passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexo, desconfiado,
phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho at delegado de
procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
fraco,  metropole, systematisava o seu delirio at ao ponto de viver s
e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
noite s fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
encadernar uns livros, foi por este traioeiramente aggredido, recebendo
na cabea um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
allucinaes auditivas, que at ento parecia no terem existido,
irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
luxao. Simultaneamente, illuses visuaes, confuso constante de
pessoas, rejeio de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
persistiu algum tempo n'esta situao; rapidamente, porm, idas de
grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo ento, fabricando uma nova
religio, crendo-se superior a Christo, e comeou a manifestar idas
eroticas e allucunaes visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
mulheres nas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idas
hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no cho,
beijando os ps dos companheiros, chorando, pedindo perdo a todos,
rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
demencia com accentuada desnutrio. Por mezes persistiu n'este estado,
indifferente a sollicitaes naturaes, deitado sobre bancos ou no cho
da enfermaria, movendo-se como um automato, no respondendo a ninguem.
Julguei-o ento perdido e cheguei a consignar com segurana esta
impresso clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmo para que venha
buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinaes, que
podia viver fra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
tempo depois. Isto passou-se em 1884; de ento at hoje fez o doente
duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
quadro que vimos de esboar. Conta-me um irmo que o aggravamento da
doena se manifesta sempre por uma subita exploso de allucinaes,
succedendo a excessos venereos e alcoolicos.

Como interpretar este caso?  evidente que os defensores da Verrcktheit
aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta frma clinica; os que
a combatem, porm, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
Asteniche Delirium de Mayser, na confuso mental, emfim.

Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
concepes delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
perseguies e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
aguda que no pertence ao quadro da Verrcktheit, fariam valer o estado
de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrio,
appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.

Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
allucinaes explica de sobra, no seria difficil acceitar o diagnostico
de Verrcktheit, pois que nem a systematisao dos conceitos se perdeu,
nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
reaco em face dos erros sensoriaes.

Mas  j muito difficil explicar n'esta ordem de idas a phase de
espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no cho, a abater-se
diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
pedir perdo de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
esgotamento e de asthenia,  mais facil explicar por ella do que pela
acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
o responsavel de subitas invases allucinatorias, acompanhadas de
reaces emotivas de uma viva feio depressiva e anciosa em paranoicos
averiguados. Assim, na interpretao do caso que citei, como de todos os
de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
invocar uma complicao psychonevrotica (seja qual fr o nome preferido
para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrcktheit pela creao de
uma obscura variedade aguda.

Entretanto, comprehende-se que esta questo seja de certo modo
secundaria para ns que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
Paranoia e de Verrcktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas no
necessaria expresso symptomatica d'aquella.

Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
acompanhem ou no de allucinaes; que conservem sempre ou percam por
algum tempo a sua costumada systematisao--eis o que nos no preoccupa
excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituio
mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo at
existir independente d'elles.

 tempo, porm, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schle em
defeza da Verrcktheit aguda.

Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrcktheit offerece
algumas vezes uma phase inicial aguda.

Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
Schle, proclamando que a transio do hallucinatorischer Wahnsinn 
verdadeira Verrcktheit jmais se realisa. Por nossa parte nunca a
observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
s, a contestal-a. Em materia de facto, pde uma unica observao
positiva ter mais alta significao que toda uma longa experiencia
negativa; e  certo que no s muitos dos modernos alienistas affirmam
ter observado casos analogos aos de Schle, mas j em Delasiauve
encontramos a affirmao clara de que a _confuso mental_ offerece na
sua symptomatologia idas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
verdadeiro _delirio parcial_.

Mas se nos no repugna acceitar a realidade dos casos em que Schle
baseia o controvertido thema da Verrcktheit aguda, cremos que elles
podem interpretar-se de um outro modo. Porque no admittir, por exemplo,
na comprehenso d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
qual uma etiologia privativa e uma evoluo especial--nascendo o
primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
marchando o primeiro para a extinco, e o segundo para a chronicidade?
No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
esgotantes provocariam a appario de um confuso delirio sensorial, como
outras determinariam a mania ou a melancolia; smente, a psychonevrose,
abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
cura, apressaria a maturidade paranoica, isto , o momento psychologico
da ecloso de um delirio systematisado.

Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrcktheit no so conceitos
equivalentes, a admisso de uma variedade aguda da segunda de modo
nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.

Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
evoluo por vezes muito rapida, apparecendo sem preparao,
acompanhando-se de multiplas allucinaes e terminando pela cura,
manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisao.

Pertencem estes delirios ao quadro da Verrcktheit? Parece-nos que a
resposta affirmativa se impe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
frisantemente com a dos casos em que as concepes morbidas se
perpetuam, cobrindo dezenas de annos,  certo que lhes no falta um
unico dos caracteres essenciaes da Verrcktheit: nem a egocentricidade
das idas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
ambiciosas, nem a coordenao d'ellas em systema, nem o predominio das
allucinaes auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. ,
pois, a estes delirios, conhecidos em Frana pelos nomes de
_polymorphos_ ou _d'emble_ que exclusivamente conviria, a meu vr, a
designao de Verrcktheit aguda.

Os que, como Krafft-Ebing, no admittem esta frma, so constrangidos,
todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrcktheit e na sua marcha
por vezes subaguda, o que, no fundo,  conceder aquillo que
ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
Verrcktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
portanto, inevitavel.

Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto  certo que na
Verrcktheit vemos apenas uma possivel manifestao da Paranoia.

Quando entre os delirios systematisados (Verrcktheit) e a constituio
mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negao da doutrina
que faz da segunda uma doena de evoluo essencialmente chronica e
incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
encarregam os factos de pr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
exactido da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
systematisados podem revestir a frma aguda e curar; o que  chronico,
porm, e no cura jmais  a anomala organisao psychica de que elles
no fazem seno traduzir a maxima intensidade ideativa. Pde ser aguda e
curar a Verrcktheit; o que  chronico e no cura  a Paranoia.



III--A VERRCKTHEIT SECUNDARIA

Os delirios systematisados que succedem s psychonevroses; sua
interpretao pathogenica--A opinio de Tonnini; modificao
introduzida--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit.


A extenso com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
thema da Verrcktheit secundaria, to caro aos allemes, permitte-nos
agora limitar muito as consideraes de ordem critica a fazer sobre
elle.

Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
_Existir uma Verrcktheit primaria?_ comeou a ser substituida por esta
outra: _Existir uma Verrcktheit secundaria?_ E ns vimos, com effeito,
que a extenso d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
d'aquella. Entendamo-nos, porm: se os delirios systematisados que
succedem  mania e  melancolia de longa durao, no merecem realmente
um logar no quadro clinico da Verrcktheit, que  uma doena
constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que so apenas
estados terminaes prefaciando a loucura e revellando j, pela sua mesma
inactiva e apagada coordenao, um enfraquecimento cerebral, 
indiscutivel que a observao clinica nos permitte uma ou outra vez
surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
manifestaes maniacas, melancolicas e at mesmo apparentemente
demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados no o so
tanto, comtudo, que os no tenham observado psychiatras de todos os
paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
classificaes?

A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
Tonnini: Estes delirios so paranoicos; e a psychonevrose que os
precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
 possivel que, a no se realisar a incidencia perturbadora do elemento
emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
evoluo sem manifestaes delirantes, comquanto houvessem de
caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
egocentricidade. Vulneravel, porm, elle no pde resistir s causas que
nos espiritos sos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
portanto. O que dever succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
apressar aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
e que tem por expresso intellectual um delirio systematisado. J em
manifesto desequilibrio e j canado pela passagem tormentosa da
psychonevrose, o cerebro no poder dar a este delirio secundario a
forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
ainda a fora psychica precisa a uma evoluo que pde ser longa e de
certo modo movimentada.  n'este especial sentido que, a meu vr, a
Verrcktheit secundaria deve ser admittida.

Note-se, porm, que dizemos Verrcktheit e no Paranoia, no que
divergimos de Tonnini. E esta divergencia no  s de frma, mas de
fundo, no apenas de nomenclatura, mas at certo ponto de interpretao.
Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposio
vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
preexiste  psychonevrose, embora tendo uma frma mitigada e revestindo
at ao advento d'esta uma feio mal definida, um verdadeiro typo
indifferente. A psychonevrose que, na interpretao de Tonnini,
contribuiria essencialmente para a constituio da Paranoia, no faz, a
meu vr, mais do que accentual-a, provocando a Verrcktheit, isto ,
imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
grave seria a que mais rapidamente chega  maturidade, a mais precoce, a
que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto ,
pela _Verrcktheit originaria_; a menos grave seria a que s attinge a
maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
manifesta pela _Verrcktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
casos, como cm todos, a anomala constituio cerebral que na essencia
caracterisa a Paranoia,  congenita. E eis porque eu no hesito em
acceitar uma _Verrcktheit secundaria_, como no hesitei em admittir uma
_Verrcktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
_chronicidade_ essenciaes da Paranoia.



IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erros doutrinarios de Lasgue e Foville sobre a interpretao
pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
psychiatria franceza--A autoobservao e o raciocinio no representam um
papel na gnese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.


Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
procurada, dos delirios de perseguies e de grandezas, um ha que,
embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em Frana,
com manifesto prejuizo de uma s pathogenia: refiro-me ao que faz
intervir na gnese d'estes delirios a autoobservao e o raciocinio do
doente. Lasgue, affirmando que o perseguido, normal at ao momento da
invaso da doena, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, no sem hesitaes, por
encontrar na hostilidade dos homens a interpretao dos seus
soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
soffridas.

Repetida como uma sorte de _clich_ por successivas geraes de
alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que s Morel
repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim  que,
embora sem um s caso em apoio, Magnan,  maneira de Foville, enumera o
_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transio, no Delirio
Chronico, da phase persecutoria  phase ambiciosa.

Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relao ao delirio de
perseguies a que primeiro se applicou.

Segundo ella, o perseguido, como um homem so, abruptamente assediado de
obscuras emoes dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
est a que, por successivas e mais ou menos demoradas excluses, elle
acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguio.

A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
ella  radicalmente falsa.

Em primeiro logar, a observao clinica protesta contra, a normalidade
do perseguido anteriormente  invaso do delirio, proclamando-o no s
um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
candidato  loucura,

Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
releve-se-me a expresso, Magnan reclamava para os delirantes
systematisados uma ancestralidade vesanica de duas geraes, pelo menos;
e esta ida, j antes emittida por Morel,  a que sempre dominou as
psychiatrias allem e italiana, accordes em acceitar como
hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jmais se
estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
encontrassem seguras manifestaes de exaggerado subjectivismo, de
autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e s vezes
chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto no
fosse bastante para condemnar a ingenua supposio da normalidade de um
espirito, que manh fabricar, sem causas determinantes, um absurdo e
tenacissimo delirio, surge no raro no perseguido a estygmatisao
physica da degenerescencia.

Em segundo logar,  absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
doena seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoo de que se encontre
excluido, como nos prodromos de outras affeces, um elemento ideativo.
A experiencia diz precisamente o contrario.

Quando o perseguido comea, no periodo chamado de incubao do delirio,
a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
o interrogam, fal-o j por desconfiana do meio, que reputa hostil. 
certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoo egocentrica, essa
desconfiana, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
caracterisou sempre; agora, porm, ella tornou-se definido _sentimento_
pela clara appario no espirito de uma _ida_ de hostilidade e de
perigo. A inquirio perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
mal-querena dos outros, a ecloso, emfim, das illuses sensoriaes,
tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _ida_ que a
orienta, que lhe imprime uma direco, que a conduz. A illuso auditiva,
phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinao ha de
surgir, suppe j um erethismo sensorial a que preside, consciente e
nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _ida_
de uma hostilidade exterior. E  mesmo,  justamente porque essa
ida est presente no espirito e se lhe impe que o perseguido
paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querena,
interpretaes aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
cahindo sinceramente n'uma petio de principio, o perseguido prova que
no seu cerebro existe uma ida que o tyrannisa, que o empolga, e que,
tornada um centro de associaes psychicas, lhe vicia o raciocinio.
Que essa ida, como todas, proceda de preexistentes emoes, eis o que
no contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas s depois que
ella espontaneamente appareceu na consciencia  que o delirio se
iniciou. No , pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
immediata d'este.

O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situao
paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial  d'ordem emotiva, pois
que se reduz a uma depresso consciente, que estados de cenesthesia
morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
do que fra, a dr moral invade-o, e  ao fim d'algum tempo d'esta
situao anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
interpretao do novo modo de ser, quer como adequada expresso ideativa
de um sentimento geral de impotencia. As idas de crime, de peccado, de
doena incuravel, de miseria, de incapacidade, de possesso, n'uma
palavra, todas as idas que formam o contheudo do delirio melancolico,
so ulteriores  depresso dolorosa, que  o facto morbido primitivo.
Essas idas no procedem do inconsciente, no irrompem de obscuras
emoes por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
consciente sentimento de dr, que tem as suas raizes em phenomenos
somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que  exacto, e
torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
perseguido, esse, sente mudado em relao a si o mundo exterior, o que 
falso, o que presuppe uma ideao anormal e, portanto, um comeo de
delirio, que a observao objectiva apenas ajudar a systematisar.
Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
dr, que  a expresso consciente de perturbaes cenesthesicas, se
concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
egocentrico e autophilico, partindo de uma ida chimerica de
hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
_primitivamente_.

A autoobservao e o raciocinio na gnese do delirio de perseguies no
passam de miragens do espirito. No perseguido a atteno  dirigida em
sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formao do
delirio,  por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
relaes entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica , pois,
precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasgue; a verdade
 que o delirio surge  sua hora, como o fructo amadurece e o gro
germina: espontaneamente, fatalmente.

Vejamos agora o que se d com o delirio ambicioso que succede ao de
perseguies.

Haver n'este caso, como pretendia Foville e como  saciedade se tem
repetido, uma transformao consciente e raciocinada?

O que acabamos de dizer sobre a direco exclusivamente objectiva da
atteno do perseguido, faz desde j suppr o contrario. A attitude
reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
hostilidade do meio, no est nos habitos do perseguido; por outro lado
ainda, no  de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel f, que dispensa
interpretaes e as rejeita mesmo.

Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
abundam. Assim, a observao permitte affirmar que no s o perseguido
nunca formla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
n'este sentido, invariavelmente responde: _No sei_. O absurdo de uma
perseguio sem causas, de uma hostilidade immotivada no choca esta
ordem de doentes; e  debalde que se tenta dirigir-lhes a atteno para
o exame de um assumpto que parece no os interessar. Absorvidos pelas
allucinaes ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggresso
implacavel, os perseguidos no sentem a necessidade de inquirir as
razes d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
para os impacientar, quando os no leva a entrevr no solicito
observador um cumplice de imaginarios inimigos.

Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
explicao de precedentes perseguies, nada seria mais facil do que
provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformao
de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano
seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
francez, elle se dir um dia, isto , que, no podendo haver
perseguies sem causa, o encarniamento dos seus inimigos deve
naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
elle o , talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
religio, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
a verdade  que suggestes d'esta ordem no s no abalam os perseguidos
que, alis, se tornaro mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
vezes, no comeo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
conseguindo apenas provocar dos doentes contestaes como estas: que no
esto doidos para desconhecerem a sua situao; que no admittem
zombarias; que as historias phantasticas so boas para entreter creanas
e idiotas; que no  digno escarnecer de quem soffre.

, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
observao que o delirio de grandezas apparea como tentativa feita para
explicar perseguies soffridas. A ida ambiciosa, como a de
hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
delirio de grandezas pde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
perseguies: que elle irrompe  sua hora, como o fructo amadurece e o
gro germina.

 s depois de installado por um processo a que so extranhos o
raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servir para explicar
o de perseguies, como este, por sua vez, servira ao doente para
interpretar os factos da sua vida anterior.  s a partir do momento em
que se cr excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.

Note-se, porm, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio s
idas de perseguio, que esclarece e interpreta,--bem longe de as
radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
proveito proprio.

Tal  o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
como se v, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
um esforo da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
nosographica do delirio systematisado de perseguies seria inteiramente
chimerica; e todo o esforo de Lasgue para o destacar da melancolia
delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
as possiveis differenciaes symptomaticas, identificaria
definitivamente as duas doenas.

Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos ento interpretar as
hesitaes dos perseguidos e megalomanos na exhibio dos respectivos
delirios.

Por mal comprehendido, esse facto contribuiu no pouco para acreditar a
phantastica doutrina da gnese consciente e reflexiva dos delirios
systematisados. A hesitao, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
opinio que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
_hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
accidentaes perturbaes emotivas.

Veremos opportunamente que a interpretao do facto  muito outra; que
essas hesitaes no so seno o resultado da lucta que se exerce entre
idas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
educao e at um certo tempo impostos pelo meio social.

De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
psychiatras francezes, da inquietao dos perseguidos no periodo inicial
da doena.



V--AS ALLUCINAES E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erro de Foville sobre as relaes dos delirios systematisados com as
allucinaes; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga ida
de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
ida--Primitividade da concepo sobre a allucinao nos delirios
paranoicos--Uma rectificao de Magnan.


Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
allucinaes auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
as perturbaes da sensibilidade especial precedem as idas delirantes,
servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmao.

Lasgue, sustentando que as allucinaes auditivas, unicas, segundo
elle, compativeis com o delirio de perseguies, no so nem o
antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
perceptivos na mais commum das frmas delirantes da Paranoia.

Retomando, porm, annos depois a questo, Foville admittiu para ella
duas ordens de solues, desigualmente frequentes: uma, relativamente
rara, em que o delirio  primitivo e as allucinaes secundarias; outra,
muito commum e, no delirio de perseguies, constante, em que a relao
inversa se realisa.

O delirio, dizia elle, pde ou principiar _d'emble_ pelos conceitos ou
affectar primeiro as sensaes e extender-se depois s idas de um modo
secundario[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: N'este
ultimo (primitividade das allucinaes) as funces puramente
intellectuaes no so, desde o comeo, intrinsecamente lesadas, antes
continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
exactos, o producto das suas operaes  normal e sensato; quando, pelo
contrario, se exerce sobre dados falsos, isto , sobre sensaes
imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinaes e illuses, o
producto encontra-se forosamente em contradico com a realidade. O
delirio das sensaes tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
funccionar smente, quando no  induzida em erro. Tal  um dos modos de
produco e, no hesitamos em crl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
loucura parcial ... Mas esta ordem na successo dos phenomenos morbidos,
embora a _mais frequente_, no  constante. Acontece tambem _algumas
vezes_ gue a perturbao comea por concepes erroneas, que succedem a
uma ida fixa na ausencia de qualquer allucinao. N'este caso ainda,
faz-se ordinariamente uma propagao analoga  que indicamos ha pouco,
mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepes delirantes
transformam-se em sensaes falsas, o delirio extende-se s percepes;
o doente torna-se allucinado, porque era j delirante, em vez de
tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado[2].

  [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

  [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

Por muito singular que se nos affigure, este modo de vr de Foville
sobre a primitividade das allucinaes na Paranoia persecutoria teve um
exito s comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
pelos alienistas francezes, este novo _clich_ pathogenico perpetuou-se
como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinao pde
tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideao
pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
d'emble_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
capazes de fabricarem um delirio sem preparao, e de serem, portanto,
megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.

Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relaes da
allucinao com as idas morbidas nos _delirios d'emble_ e no _Delirio
Chronico_, se exprimia Legrain: O mecanismo segundo o qual se produzem
as allucinaes, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas so
essencialmente primitivas; todo o delirio  construido sobre ellas, e se
ellas no existissem, o delirio, que lhes  consecutivo, no existiria.
Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinaes formam-se de
um outro modo. So symptomas contingentes da doena, no a sua base
immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
allucinaes. Quando estas complicam a scena morbida,  o proprio
delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
erethismo; o cerebro anterior elabora as idas delirantes e evoca as
imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas vem
representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que so
interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinao
encontra a sua causa directa n'uma srie de idas delirantes que a fazem
nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
parte dos centros anteriores, em que  elaborada a ida delirante, ganha
as regies posteriores do cortex, em que a imagem  evocada, depois
volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
delirio e se impe como realidade ... Muito outra  a allucinao no
Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regies
posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma leso local, lentamente
progressiva, a produz; ella  a expresso funccional de uma leso
anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regies anteriores, que
surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
equilibrio, da sua ponderao, interpreta-a como um facto real e deduz
d'ella concluses logicas, que so as primeiras idas delirantes. V-se
ento evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lanando uma
perturbao na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
suas energias. No degenerado, a adheso no delirio  plena e inteira
desde o comeo; no delirante chronico ella no  seno lenta e
progressiva, fazendo-se a systematisao pouco a pouco, merc de
persistentes allucinaes[1].

  [1] Legrain, _Du dlire chez les dgnrs_, pag. 141.

Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expresses de _cerebro
anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citao
precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
novas.

Ser necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
primitividade das allucinaes nos delirios paranoicos  ainda uma
fico, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?

 incontestavel que, encarando de um modo geral as relaes possiveis
dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, so legitimos e a cada
passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
provocam as allucinaes, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
e ponto de partida. Isto  de tal modo reconhecido que os ultimos
d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrcktheit),
que inculca uma coordenao ideativa. Smente, a experiencia clinica
ensina que os deliros sensoriaes ou so absolutamente dissociados e
dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenao, ao passo que os
delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
variedade litigante, evolucionar sem a interveno de estados
allucinatorios.

De resto, o depoimento da clinica no seria difficil de prevr.
Allucinaes nascidas _sur place_, sem uma ida que as provoque e lhes
fornea o contheudo, s podem ser, como alis nota Legrain, autonomicos
effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
as corrige e nenhum delirio  ento possivel, ou, perdido o _contrle_
normal, elle as acceita e delira, no n'um sentido determinado, mas em
tantas direces differentes quantas as allucinaes, cujo contheudo
nenhuma razo ha para no suppr variavel e proteiforme como nos
delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicaes e das
nevroses. Sem a direco superior de um conceito ou, para fallarmos a
linguagem de Magnan e Legrain, sem a interveno provocadora do cerebro
anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regies
superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideao; se,
com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle no
poder ser seno, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
alguma coisa de tormentoso e incoherente.

Assim, nem _ posteriori_, isto , tomando para base a clinica, nem _
priori_, isto , partindo da doutrina da percepo,  licito acceitar a
primitividade das allucinaes nos deirios systematisados.

Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
affirmao de Foville, retomada pela escla de Sant'Anna.

Fallar, como Legrain, de uma leso anatomica dos centros sensoriaes no
delirio de perseguies, , evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
pois que jmais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regies
do cortex. Perturbaes d'ordem dynamica, alteraes funccionaes,
desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da
physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,
empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,
esse erethismo?

No o diz o escriptor citado, e  lamentavel.

Excluidas, naturalmente, as intoxicaes e as asthenias cerebraes, que
so as causas mais frequentes de estados allucinatorios, no vejo que
nos fiquem para explicar a sobreexcitao funccional dos centros
sensoriaes seno as idas, delirantes; postas estas de parte, nada
resta, a invocar na interpretao do phenomeno,--to importante, alis, e
to essencial, no dizer da escla franceza, que n'elle repousa a doena
inteira.

Passemos, porm, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e
admittamos por um instante que uma causa, ainda no definida, vem
provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um
erethismo de que o cerebro anterior no partilha. O que nos diz a
theoria da percepo que deveria succeder n'esta hypothese?
Surprehendidas pelas extranhas sensaes exportadas d'esses centros
hyperfunccionantes, as regies superiores da intelligencia entrariam com
ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e
normalidade d'essas regies, a que incumbe a funco suprema do
_contrle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correco, a
rectificao definitiva dos erros sensoriaes.  isto, como se sabe, o
que acontece nos casos de illuses e allucinaes em espiritos normaes.
Fallar da integridade de uma razo, que constroe um delirio sobre
percepes falsas,  um perfeito no-senso; admittir a normalidade de
uma regio de _contrle_, que centros subordinados perturbam e vencem, 
cahir n'uma grosseira contradico. Por si ss, dil-o a experiencia
clinica e ensina-o a theoria da percepo, os erros sensoriaes no
falseiam os juizos, porque, para corrigir as illuses e allucinaes,
dispe o cerebro de recursos, que vo desde a elementar contraprova da
aco de um sentido pela dos outros at ao testemunho alheio e ao
confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos
e sentimentos, que  o fundo mesmo da personalidade s.

Se os erros sensoriaes no so corrigidos, mas acceites e elaborados
como realidades objectivas,  que uma d'estas duas hypotheses se d: ou
o allucinado no empregou os recursos de rectificao e _contrle_ da
percepo exterior, porque, delirante j, viu nas allucinaes uma
confirmao dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o
insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por
vencer os argumentos da razo.

Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguies?
Segundo o antigo ensino da escla de Sant'Anna, de que Legrain  um
interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emble_,
que so degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que so
normaes at  invaso da doena.

 inutil repetir que no acceitamos esta distinco, e que a primeira
das hypotheses formuladas  para ns a que tem logar em todos os casos
no s de delerio de perseguies, mas dos outros delirios
systematisados.

Analysemos, comtudo, as affirmaes de Legrain em relao ao Delirio
Chronico.

Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasgue para o perseguido) que o
delirante chronico  um ser normal at  invaso da doena, Legrain
compraz-se em vr na incubao d'esta uma lucta da razo com os morbidos
elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim
dizer, o seu delirio,--espontanea manifestao de um desequilibrio
preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e
raciocinando sempre.  a velha doutrina. Mas como de um raciocinio s
podem surgir concluses falsas quando as premissas o so tambem,
Legrain,  maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illuses e
allucinaes, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento
morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior
deduzir, emfim, o delirio.

Acabamos de vr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,
que a incapacidade de corrigir percepes erradas implica deficiencia de
senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem
mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinao
invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a concluso, pois
que a derrota denunca a fraqueza e inferioridade d'essas energias.

Mas ser verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illuses e
allucinaes incessantemente originadas nos centros sensoriaes
sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain
pretende, as illuses e allucinaes so para os perseguidos, como para
todos os paranoicos, pontos de apoio e no de partida do delirio,
confirmaes e no elementos formativos d'elle, eccos dos erros
conceptuaes e no o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas
derivados e no phenomenos essenciaes e primitivos.

A demonstrao d'esta verdade clinica no ser difficil, nem longa.

Uma s passagem de Magnan a far. Fallando do que se passa no chamado
periodo de incubao do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus
ultimos trabalhos o eminente observador: Os doentes experimentam um
mal-estar, um descontentamento que no sabem explicar-se; tornam-se
apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanas_
na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem
menos appetite, menos aptido para o trabalho e para os negocios. N'esta
poca poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco
_parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os
_desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idas
variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a
pouco e dando logar, emfim, a interpretaes delirantes ... O doente
persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue
s _concepes penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a
tudo o que no parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes
acontecimentos no o commovem, as perturbaes politicas deixam-no
indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia no o
emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam
com as suas preoccupaes penosas, que as justificam, adquirem uma
importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de
o saudar, v n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra
ao p d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma
cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As
provas de benevolencia e de afeio tornam-se zombarias, e o proprio
silencio  uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco;  hesitao
succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas
convices tornam-se inabalaveis. N'estas condies, o doente, sempre em
guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversao uma phrase que se
attribue--eis a interpretao delirante; ou se cr aggravado por uma
palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma
injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illuso. Depois, a
_ida constante de uma perseguio_, a tenso incessante da
intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da ida_, a
imagem tonal; n'uma palavra, a allucinao auditiva produz-se[1].

  [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

No  possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a
primitividade do delirio e a secundariedade da allucinao. Todo o
commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro
_d'aprs nature_.

A questo de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinio
diametralmente opposta  de Legrain, que em 1886 se dava como interprete
da escla de Sant'Anna,  secundaria para ns e sem interesse para a
sciencia.

Cremos que n'este caso, como no de Grente, Magnan se contradicta a si
proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edies successivas e todas
differentes.

Felizmente, e  isto o que nos importa notar, a correco introduzida
ultimamente no capitulo das relaes entre os erros perceptivos e
conceptuaes,  conforme  verdade clinica.



VI--AS OBSESSES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

A inquietao dos perseguidos e as hesitaes de certos paranoicos na
exhibio do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica
das obsesses; sua inexactido--Idas do auctor; inesperada confirmao
d'ellas por J. Sglas--A obsesso  um delirio systematico abortado;
este  uma obsesso progressiva--Demonstrao; analyse dos factos--Como
se frma o Eu; estratificaes systematisadas--A personalidade e as
subpersonalidades; o atavismo.


Se as idas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, no traduzem
um esforo de reflexo exercendo-se sobre estados emotivos, nem
reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
concluso se impe de que ellas surgem na consciencia  maneira de
obsesses.

Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemes e italianos,
esta affirmao est de tal modo em desaccordo com as radicadas
tradices da escla franceza que no ser sem vantagem discutil-a.
Antes, porm, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes no
lograram explicar seno phantasiosamente e em contradico com os dados
mais positivos da observao clinica, recebem uma interpretao
simplicissima: refiro-me  inquietao dos perseguidos quando o seu
delirio aponta, e s hesitaes de grande numero de paranoicos na
exhibio dos seus conceitos falsos.

O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
francezes ao vago mal-estar precursor das doenas graves, no , em
realidade, mais do que a natural reaco emotiva do Eu, subitamente
empolgado por uma ida penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
constituir, como a anciedade melancolica, uma situao primitiva de que
surgiro os erros conceptuaes,  um estado secundario, um effeito mesmo
da presena inesperada de uma ida depressiva no campo da consciencia.

Em que consiste, de facto, essa inquietao? Definitivamente e no
fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisao de uma
defeza suppe a ida de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
duvida, essa ida s se ter transformado n'um conceito e recebido a sua
inteira systematisao, quando se houver feito o reconhecimento do
inimigo e das causas da aggresso; a partir, porm, do momento em que
obsessivamente ella irrompe e se impe ao espirito, a inquietao
apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.

Quanto s hesitaes, tantas vezes observadas, do paranoico na
exteriorisao do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
educao, a ida delirante  para o Eu alguma coisa de extranho e de
interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reaco emotiva, ir ainda
remodelar toda a sua precedente orientao pensante, no sem
difficuldades e combates; a hesitao em affirmar o delirio , pois, o
resultado da novidade e extranhesa das idas que o formam. Longe de ser,
como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
procura cotejal-as com os actos, essa hesitao traduz o esforo penoso
e vacillante de adaptao do Eu a uma nova ordem de idas, que elle v
surgir e cuja origem desconhece. O paranoico no duvida, porque no
critica. Como a victima de uma suggesto hypnotica activa no procura
evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, s suas
habituaes inclinaes, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
querido, o paranoico, longe de tentar a correco da sua ida falsa,
cuida em reforal-a pela interpretao delirante dos factos.

Mas s vezes succede tambem que j o delirio se encontra systematisado e
ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
soliloquio. A razo d'este facto est em que o doente, reconhecendo,
pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
idas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discusses que
provocaria, exhibindo-o.  o conhecido caso de alguns crentes que, em
vez de propagarem a sua f, penosamente conquistada em repetidas luctas
interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
systema das suas convices religiosas.

Mas eu prevejo uma objeco a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
obsesses  justamente o de no serem integradas na consciencia, de
subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposies preexistentes,
n'uma palavra, de no formarem systema?

A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.

Westphal, definindo a obsesso _uma ida que, sem precedencia de um
estado emotivo ou passional, se impe  consciencia do doente contra a
sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
primeiros a proclamar a irreductivel systematisao da ida obsessiva.

Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
obsesses, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
expresso, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
esfora o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsesso pathologica _um modo
de actividade cerebral em que uma palavra, uma ida, uma imagem se
impem ao espirito sem interveno da vontade e com uma angustia
dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle  sempre um
syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
Internacional de 1892 as mesmas idas, affirmou no s que as obsesses
so _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _no acompanham de
allucinaes_ e se _no transformam nunca em outras doenas mentaes_,
embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evoluo se possam
_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
Congresso as concluses do Relatorio de Falret foi como a consagrao
official da doutrina que faz da ida obsessiva um facto insusceptivel da
assimilao, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
consciencia jmais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
emotividade perpetuamente lana o seu grito de alarme.

Ser, porm, rigorosamente assim?

Reconhecendo que a nossa experiencia  curta e a nossa auctoridade
nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
convico, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.

Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a ida
obsessiva no pde ser, nem  na vida mental um elemento inerte, e que a
sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisaes_
que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos ento,
entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no
Eu com uma dse propria de fora systematisante. E a ida obsessiva,
extranha  consciencia pelas suas origens confusas, no  essencialmente
diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da
cerebrao inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma
affinidade com esses factos, pela sua mesma fora systematisante (de que
as leis de associao no fazem seno constatar a existencia e denunciar
parcialmente as orientaes), idas, emoes, desejos, impulsos, novas
imagens mentaes, em summa.

Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa
consciencia,_ a obsesso, representando um comeo de _dissociao
pessoal_, uma sciso do Eu por dois grupos antinomicos de
systematisaes psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma
_obnubilao da consciencia_ individual, pois que esta no pde
comprehender-se seno como synthese de estados psychicos harmonicos e
expresso da unidade do Eu.

Este modo de vr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com
profuso de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lies
sobre as doenas mentaes e nervosas_ de Sglas, publicadas em 1896. Este
imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob
ser-nos lisongeiro, depe grandemente em favor da justeza das idas que
defendemos.

A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas
conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da ida
imposta, est longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,
elle depende da extenso maior ou menor que tomam as systematisaes
pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reaco
emotiva se limita a uma passageira e leve inquietao de espirito;
outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,
duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal
collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsesses,
affirmando que, em igualdade de circumstancias, a ida fixa de matar
repugnar muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.
Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,
no fundo, a uma identidade absoluta de disposies affectivas e moraes,
no pde nunca affirmar-se com segurana em dois individuos ou n'um s
em periodos diversos. Dizer que uma ida obsessiva repugna, pelo seu
contheudo, mais ou menos que uma outra,  dizer que as systematisaes
provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em
ultima analyse, porque as systematisaes normaes com que ellas entram
em conflicto na consciencia so diversas ou desigualmente organisadas. 
medida que a ida obsessiva, quer por fora propria, quer por frouxido
das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisao, a
dissociao do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a
_angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reduco, que
theoricamente  zero, ter sido attingido, quando no campo da
consciencia no existam systematisaes que directa ou indirectamente
no sejam provocadas pela ida obsessiva.

Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisaes
normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais
fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisaes
pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,
e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de
estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as
obsesses impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo
Eu se frma, tendo por substracto associaes pathologicas, isto , um
delirio systematisado.

Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboamos em 1892 e
exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no comeo de 96,
contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre
obsesso e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,
esses contrastes no o so menos no campo da clinica, onde Tamburini,
Stephani, Sglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente 
cathegorica affirmao de J. Palret, que existem allucinaes sensoriaes
e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idas
obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsesso e o delirio
approximam-se pela communidade de origem: a obsesso seria, na ordem de
idas que sustentamos, um comeo de delirio systematisado, como este
seria uma obsesso progressiva, desenvolvendo-se  custa de successivas
associaes. N'este sentido se interpreta sem esforo a expresso de
_paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a
obsesso.

Mas, porque reputamos fundamentaes estas idas, procuraremos dar-lhes
aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.

O phenomeno pathologico da obsesso tem, como nota Dallemagne, um
representante physiologico no facto banal de uma ida indifferente que,
sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo
disparatadamente o curso das nossas preoccupaes e desapparecendo um
instante depois. No ha aqui, em verdade, nem angustia, nem
irresistibilidade; ha, porm, o phenomeno da emergencia inexplicavel e
extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idas no provocou. A
systematisao no existe tambem: um momento presente na consciencia, a
ida desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porm, que
a ida extranha pertence  cathegoria das impulsivas, e concedamos que o
acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, 
linha frrea um companheiro de viagem.  evidente que o novo caso
differe muito do anterior. Em primeiro logar, a ida tem desde logo um
comeo de systematisao, por isso que mentalmente nos representamos uma
scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens
sensoriaes, sentimentos, emoes, idas de leis e principios moraes,
idas de sano penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da
ida primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor
deveria dizer-se, as systematisaes normaes, mais ou menos organisadas
e resistentes, repellem a systematisao anomala e intrusa. Esta,
todavia, no desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as
reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,
dando-nos um instante de inquietao, um sobresalto, um comeo de
angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,
n'uma agitao momentanea do pulso. Mas figuremos que a ida se reproduz
ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisao, que ella provocou
no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das
systematisaes normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovao
deriva o prolongar-se na consciencia a presena de uma systematisao
anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras faro
nascer o impulso; e este, se as systematisaes normaes o no conseguem
desviar n'um sentido diverso (a convulso, o espasmo, o toque d'uma
campainha de alarme, o grito de aviso) acabar por ser satisfeito,
provocando uma _dtente_, um allivio.

Os caracteres da obsesso pathologica--origem invluntaria, angustia,
irrisistibilidade, satisfao consecutiva, esto realisados, O que
provocou a appario d'estes caracteres? Em primeiro logar, as
systematisaes determinadas pela ida obsessiva, em segundo, a lucta
d'ellas com as systematisaes normaes. Se a ida obsessiva fosse
incapaz de provocar systematisaes, se fosse indifferente, ter-se-hia
dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro
figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se no tivesse realisado
entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, no existiria
angustia concomitante, nem satisfao consecutiva. A obsesso deu-se,
pois,  custa, de uma dissociao parcial e transitoria do Eu. Alarmada
e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo;
clara ao principio, ella obscureceu-se um instante--aquelle precisamente
em que todo o vasto e harmonico systema de idas, de affectos e
impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
creado pela ida imposta.

Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
de resto; o quadro dos symptomas da obsesso  em todos os casos o
mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisaes pathologicas
e normaes.  n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsesso;
tudo o mais  secundario e derivado.

Imaginemos, por exemplo, que a ida de matar surge no espirito de um
criminoso-nato. No encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
resistencia, a longa srie de systematisaes que se comprehendem na
designao synthetica de _senso moral_, essa-ida exteriorisar-se-ha de
um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, ento, de impulso
morbido, mas no ser licito pronunciar o nome de obsesso.

Figuremos ainda que uma ida, embora no derivada do jogo normal e
logico do pensamento,  de natureza a lisongear os nossos gostos, as
nossas aspiraes, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
systematisaes, s vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
irromper no nosso espirito, no provocam, todavia, uma lucta,  o estado
de espirito assim creado no pde chamar-se obsesso. Tal  o caso da
_rverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideao em que,
a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se no
sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da ida de opulencia, e
no partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito no 
obsessivo, porque no provoca urna _lucta_ de systematisaes.

Esta , pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
obsesso:--aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas no poder
essa lucta, que de ordinario se renova, dando s obsesses um caracter
_intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisaes
pathologicas, o que equivale a dizer--pela constituio de um delirio?
Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a ida
obsessiva , na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
systematisaes organisadas, capazes no s de vencerem a resistencia
das systematisaes normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.

J a victoria intermittente da obsesso sobre as systematisaes
normaes denunca a existencia de ignoradas estratificaes psychicas,
to extensas e importantes, comtudo, que podem por fora propria ou por
fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociao do Eu e n'um
dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
a sua fora e menor ao mesmo tempo a das systematisaes normaes
inhibitorias, e o triumpho ser definitivo, porque toda a esphera
consciente no conter mais do que associaes pathologicas. Teremos o
delirio systematisado; e ento, bem evidentemente, a dissociao do Eu,
que na obsesso  passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se 
personalidade normal vencida uma outra vencedora.

Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evoluo
permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituio, a
personalidade humana encontra-se successivamente representada por
systematisaes psychicas de uma complexidade crescente, isto , por
associaes e inhibies cada vez mais extensas, traduzindo a aco do
mundo sobre o Eu e a reaco d'este sobre o mundo. Cada nova
systematisao formada, integrando elementos psychicos,  uma satisfao
dada s naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibio realisada,
dissociando elementos psychicos, provoca a formao de outras
systematisaes em que ellas vo achar novamente logar e novamente
satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, merc da
hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
estratificaes systematicas de idas, de emoes, de impulsos, n'uma
palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.

As estratificaes mais recentes so tambem as menos organisadas e as
mais instaveis; os systemas de que ellas se compem, contrariando em
grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
subsistem n'um equilibrio que s o tempo tornar estavel. Mas o tempo,
quando se trata de evoluo, no  a vida de um individuo,  a de
geraes seguidas; , pois, necessario para que a estabilidade psychica
de uma personalidade se realise que a herana se faa sempre n'um mesmo
sentido, que a orientao ou finalidade do espirito no seja perturbada.
Se este facto se no d, a estratificao mais antiga sobreleva a mais
recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
, pois, n'um dado momento a juxtaposio de subpersonalidades relegadas
para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
representa as ultimas acquisies de uma civilisao, est a _especie_,
que representa todas as systematisaes procedentes da aco lenta do
meio, capitalisada pela herana.

N'esta ordem de idas, as obsesses e os delirios systematisados
apparecem-nos _como resurreies parciaes e mais ou menos extensas de um
Eu ancestral_.  da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
recente formao que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
obsesses e o allivio que lhes succede quando a _dtente_ se realisa, do
outro, a _inquietao_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convico,
uma crena, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
emfim, _ quoi s'en tenir_.

Mas como, repetimol-o, a lucta  tanto menos intensa quanto mais forte 
o Eu ancestral e mais instavel o de recente formao, a _angustia
obsessiva_ e a _inquietao paranoica_ podem reduzir-se a
insignificantes propores: tal  o caso dos impulsos nos criminosos
habituaes e dos delirios _d'emble_ nos paranoicos originarios.



VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

Extenso do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas
de degenerescencia; opinies diversas--A degenerescencia e a observao
clinica; modo de vr de Magnan; opinio de Krafft-Ebing--Necessidade de
um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definio de
Morel; o seu defeito essencial--A noo do atavismo em psychiatria; as
idas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e
Riva; documentos justificativos--A Paranoia  uma degenerescencia.


Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
obscuro e vago a noo da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
conjuncto de contradictorias opinies sobre a sua mesma extenso e sobre
as suas origens.

Que psychopatas abrange a degenerescencia?

Emquanto certos auctores,  maneira de Mendel, s consideram degenerados
aquelles que, pela presena de estygmas physicos de uma extrema
decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
que seguindo a tradio de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funces
psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
superioridades de intendimento.

O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
somaticamente estygmatisado, a degenerescencia  um conceito inerte, sem
valor em clinica e sem applicaes em nosologia psychiatrica.
Suggestivo, o ponto de vista dos segundos , todavia, impreciso, como o
revella a comparao dos auctores, pois que, os mesmos loucos so,
segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos
degenerados. Assim, emquanto para Magnan no so degenerados uns certos
paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing so-no todos,
como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores
allemes e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam
para Magnan um grupo de transio entre os degenerados e os
psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra
francez so sempre degenerados, no passam aigumas vezes para Morselli
de neurasthenicos vulgares.

Este grave desaccordo sobre a extenso do conceito, repete-se desde que a
questo etiologica se aborda.

Que origens reconhece a degenerescencia?

Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a
hereditariedade na produco dos degenerados, outros responsabilisam,
como Cotard, as doenas infantis, como Boucherau, as doenas do feto, ou
ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreao.
Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando,
todavia, preponderante e typica a hereditariedade,

Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses
degenerativas, quando se sabe que ella  a causa por excellencia de
todas as doenas mentaes, seria necessario possuir-se um meio de
determinar _ priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples
_predisposio_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias
psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde comea o
que Magnan denomina a _impregnao hereditaria_.

Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio
para separar as loucuras degenerativas das que o no so: todas as
frmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herana
pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as
exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica,
denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos
dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias
hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e
Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os
caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu
portador; e, quando a herana morbida no podesse ser incriminada,
outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_.

Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _ priori_
parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposio_ acaba e
a _impregnao_ comea.

Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas
duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar
a impregnao hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a
pratica nos depara s vezes alienados que, tendo, alis, uma pesada
herana psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herana
convergente, exhibem frmas nosologicas insusceptiveis de se
distinguirem,--quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela
terminao, das psychonevroses puras, isto , das loucuras accidentaes,
das loucuras dos simples predispostos.

Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter
univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse
clinica, at onde ella pde ser feita, no surprehende mais do que uma
psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede,
no raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou me alcoolicos.

Dir-se-ha, talvez, que n'estas consideraes abusivamente restringimos o
papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses
ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar
tambem, pelo menos, das nevropatias.

Mas quem no v que n'este novo terreno o problema se complica sem se
resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam smente as
psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando,
as diatheses,  seguro que jmais se determinar _ priori_, onde a
_predisposio_ termina e a _impregnao_ principia.

Tacita ou explicitamente  isto reconhecido pelos proprios auctores que,
 maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam  degenerescencia uma
pluralidade de causas. Buscando na observao clinica dos symptomas e na
marcha das affeces mentaes os indicios da degenerescencia,  evidente
que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.

Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos
vr, immediatamente surge.

Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica
devero ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?

A este proposito um evidente desaccordo recomea. No sendo as doenas
mentaes em si mesmas seno anomalias do espirito, o problema posto  o
de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?

Magnan no hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invaso
da psychose. Ouamos as suas proprias palavras: O grande grupo dos
predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial,
invariavel, pathognomonico: at ao dia em que cahem na loucura, os
doentes que o formam so julgados _normaes_; comparados aos individuos
que nunca se tornam alienados, nenhuma differena apparente revellam. 
que n'elles a predisposio no adquiriu ainda um grau sufficiente para
se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposio  latente e
no produziu seno um resultado: fazer do cerebro um logar de menor
resistencia e um terreno favoravel, crear uma situao em virtude da
qual as causas de desorganisao do equilibrio intellectual tero uma
influencia mais marcada do que em outros e uma aco mais duradoura e
mais energica. O factor _predisposio_  evidentemente muito variavel
como importancia; o seu valor no pde apreciar-se,  falta de criterio
proprio, a no ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a
resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razo inversa da
importancia do factor _predisposio_ ... N'uma outra grande diviso dos
predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e
moral  completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo
facto da aggravao progressiva do factor _predisposio_. Este grupo
comprehende os predispostos com _degenerescencia_[1].

  [1] Magnan et Legrain, _Les dgnrs_, pag. 58.

Nada, como se v, apparentemente mais claro: emquanto o simples
predisposto  um ser _normal_ at  invaso da doena psychica, o
degenerado  _ab ovo_ um ser anormal. Resta smente determinar em que
essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito:
Nos degenerados, a predisposio, qualquer que seja a sua natureza
(hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbao profunda das
funces psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles
notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos
instinctos e das inclinaes, quer de todas estas espheras ao mesmo
tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e
agrupar  parte. Alm d'isso a tara degenerativa, de que so portadores,
traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significao vem
junctar-se  das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas
so permanentes, nascem com o individuo e s com elle se extinguem. Em
caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de
cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por
accumulao de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem
sel-o, comtudo, algumas vezes pela interveno de momentos etiologicos
potentes, cuja aco desorganisadora se exerce sobretudo nas pocas da
evoluo cerebral, isto , na primeira infancia: doenas agudas graves,
taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de
leses cerebraes irreparaveis. Pde-se admittir ainda a aco
degenerativa das doenas fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de
todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os
centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer
que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos
so identicos, e entre si comparaveis; so portadores de caracteres
clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e
significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes
directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptides
cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situao mental inferior; so
seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situao
mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funces
cerebraes acha-se destruido e no pde recuperar-se. Fra mesmo dos
casos de verdadeira alienao, esta falta de equilibrio  flagrante.
Quando deliram, as suas concepes revestem caracteres pathognomonicos:
surgem s menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade
do equilibrio mental. Fra das causas moraes, cuja influencia  aqui
preponderante em razo da extrema emotividade particular d'estes
individuos, os proprios momentos physiologicos--a puberdade, a
menopause, os menstruos, a prenhez, so causas de perturbao cerebral.
N'elles, as doenas geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o
cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes
no teem uma evoluo propria: affectam todas as frmas possiveis e
substituem-se com a maior facilidade. A systematisao e a coheso das
concepes delirantes  muito fraca. No existe nenhuma tendencia 
systematisao progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara so
candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer
post-delirante[1].

  [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62.

Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque
resumem toda a doutrina da Escla de Sant'Anna sobre o assumpto, no ha
verdadeiramente, como poderia parecer, um s criterio, _ posteriori_, o
estado mental predelirante, para determinar a presena da
degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisao
psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel
desequilibrio de funces cerebraes, apparece-nos a estygmatisao
somatica, a feio polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda,
a desproporo entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto,
e o effeito que ella produz.

Ora, no  inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios.

Se o degenerado , como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o
grau de predisposio  inversamente proporcional ao das causas
occasionaes, porque no  degenerado o delirante chronico, no qual uma
vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa?
Responder Magnan que o delirante chronico  normal at  invaso da
vesania. Mas quem no v que, se o eminente alienista se no engana,
affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como j
vimos tambem, a estygmatisao physica apparece algumas vezes nos
delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das
anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisao
progressiva do delirio, que a exclue?

Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico  a principal
caracteristica das degenerescencias, porque no considerar degenerados
os hystericos e os epilepticos, to profundamente desharmonicos sempre
no manifestaes da vida cerebral?

O criterio clinico de Krafft-Ebing  mais extenso que o de Magnan. A
presena de um estado de desequilibrio mental antes da invaso da
doena, sendo para o psychiatra allemo de uma altissima importancia,
no constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e
imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito,
a distinco entre os predispostos simples e os degenerados,
Krafft-Ebing escreve: Pde ser objecto de discusso saber se um
individuo normal at ao apparecimento da psychose, mas procedente de
gerao psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo[1]. O
valor maior ou menor da causa occasional pde servir para dissipar as
duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das
psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua ecloso
espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este
criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presena de um
desequilibrio mental anterior  psychose, alarga o ambito da
degenerescencia, introduzindo ahi doenas, que Magnan excluiria sob
pretexto da normalidade do individuo at  invaso d'ellas. Esto n'este
caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos.

  [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_,
  trad. It., vol. II, pag. 3.

Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos
signaes das psychoses degenerativas, no que  seguido por consideravel
numero de psychiatras.

Os confrontos e citaes feitos bastam para mostrar como so numerosas
as dissidencias dos auctores sobre a constituio nosologica do grupo
dos degenerados.

Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia no  uma doutrina
medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vr, tem
tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinio;
proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos
theoricos da psychiatria se devem precisamente  introduco d'esse
conceito, que, ainda vago e controvertido, pde, comtudo, precisar-se.
Porque, devemos notal-o, se as divergencias  hora actual so muitas,
no so poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os
pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a ns se
nos affigura  que todas as difficuldades e todos os debates n'este
assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e
superior.

Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas
manifestaes clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta
noo como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle
fosse tributaria, quando a verdade  que, referivel a todos os seres
vivos, ella pertence  biologia, onde tem um significado que no 
licito esquecer, e que, nos seus traos essenciaes, dever subsistir,
quaesquer que sejam as suas applicaes.

Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental
essa noo, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e
este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso no permittiu
a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinao, em si
mesma necessaria e eminentemente philosophica.

O que , na sua inicial accepo biologica, a degenerescencia? O desvio
pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades
caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a
degenerescencia no pde, pois, significar seno a inferioridade do
individuo em relao ao typo natural humano. Mas qual  esse typo? Foi a
este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo
theologico: esse typo, conservado nas tradies sagradas, teria sido o
homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeies
especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a
condies degradantes de lucta com a natureza.

A concluso a tirar d'este modo de vr, seria que todos os homens so
degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, no
foi seno introduzindo abusivamente a noo de _doena_ no conceito de
degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_.
A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
especificamente perfeito, que as condies, para elle novas, de
conflicto com o mundo comearam a degradar,  evidente que essas
condies, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
caracteres, que a hereditariedade transmitte, so causas para todos
elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou so sempre morbidos
ou no o so nunca.

Para escapar a esta concluso, distinguiu Morel entre si essas causas
degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
_raas_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, s os ultimos
constituiriam degenerescencias, segundo Morel.

Faz d vr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram at ns,
reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.

Quem no v que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
seja, podem, por condies imprevistas de cruzamento, progredir ou
attenuar-se? E, sendo assim, quem no v tambem que uma anomalia de
ordem psychica ou moral pde tanto desvanecer-se nos descendentes como
transmittir-se e accentuar-se at  monstruosidade? O proprio Morel,
reconhecendo a tendencia da natureza  reconstituio do typo especifico
normal, admittiu a _regenerao_ ao lado da _degenerescencia_. A
monstruosidade no , pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
infelizes condies geradoras.

Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela interveno de um extranho
elemento religioso,  certo que a sua maneira de atacar o problema  a
unica legitima.

, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
de ser definida em anthropologia. Smente, esse typo tem de ser
procurado, no nos dominios da tradio e para traz de ns, mas no
terreno da previso scientifica e para diante. No sendo o homem
primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu s humildes propores
de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo 
um ideal para que podemos suppr que a humanidade caminha e de que, na
sua evoluo, procura incessantemente approximar-se.

Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
phantasia? Surprehendendo as linhas de evoluo physica e psychica da
nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem at hoje.
Assim, para s fallarmos da evoluo psychica, nota-se que,
intellectualmente, o homem partiu da ideao theologica para attingir a
scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da aco,
procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
Conhecida esta orientao, est achado o meio de approximadamente
constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
anthropologico do termo.

Este sentido, porm, no  precisamente o da psychiatria.

Anthropologicameme considerada, a loucura  sempre uma degenerescencia,
porque em todas as suas multiplas frmas implica um desvio regressivo,
total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
que definimos.

Psychiatricamente, porm, no  assim. Se o desvio  reparavel dentro da
vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura no se
considera degenerativa; -o, pelo contrario, se constitue um estado
irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.

Mas j nas loucuras no degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolvero na
descendencia, merc da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
_hereditarias_. Por outro lado, nas frmas degenerativas menos graves, a
regenerao  ainda possivel, merc de cruzamentos felizes, pois que a
hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto 
dizer que a distinco psychiatrica das psychonevroses e das
degenerescencias no tem nada de absoluta, desde que, em vez de
considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
proximos.

Dizer com Magnan que o _atavismo_ no implica degenerescencia, porque um
typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado  um
_doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
fizeram os o contemporaneos da poca por elle representada, ao passo que
o segundo marcharia para a extinco pela infecundidade,  commetter um
duplo erro: no comprehender que o atavismo humano  sempre parcial e
incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
ancestraes, e no reconhecer que a regenerao aos degenerados
superiores se torna, em certas condies, possivel. Pois  acaso fatal
que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que so para Magnan
incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?

E esse phobico e esse impulsivo no so, pelo facto mesmo do seu
_terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
parcial?

Comprehende-se que, a no fazermos um livro do que deve ser apenas um
final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender consideraes, que
o assumpto comporta, mas que se no prendem immediatamente com o nosso
thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
delirantes systematisados, justifica largamente a concluso de que a
Paranoia  uma degenerescencia.




BIBLIOGRAPHIA


TRABALHOS FRANCEZES:


FOVILLE--_La folie avec prdominence du dlire des grandeurs_;

GARNIER--_Des ides de grandeur dans le dlire de perscutions_;

GRENTE--_Du dlire chronique_;

KRAVAL--_Des dlires plus on moins coherents designs sons le nom de
Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX);

LEGRAIN--_Du dlire chez les dgnrs_;

LASGUE--_Le dlire de perscutions_;

MAGNAN--_Le dlire chronique  evolution systematique_;

MAGNAN--_Leons cliniques sur les maladies mentales_;

MAGNAN ET LEGRAIN--_Les dgnrs_;

RGIS--_Manuel pratique de mdecine mentale_;

SGLAS--_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII).



TRABALHOS ALLEMES:


CRAMER--_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg.
Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II);

FRITSCH--_Die Verwirrtheit_ (Jahbcher f. Psych., vol. II);

KRAFFT-EBING--_Lehrbuch der Psychiatrie_;

KRAEPELIN--_Compendium der Psychiatrie_;

MEYNERT--_Klinische Vorlesngen ber die Psychiatrie_;

MENDEL--_Paranoia_ (Real Encyclopedie);

MERKLIN--_Studien ber die primre Verrcktheit_;

SCHLE--_Klinische Psychiatrie_;

SALGO--_Compendium der Psychiatrie_

WERNER--_Die Paranoia_.



TRABALHOS ITALIANOS:



AMADEI E TONNINI--_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le
malattie nervose, 83-84);

BUCCOLA--_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII);

TANZI--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x);

TANZI E RIVA--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII);

TONNINI--_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII).



TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS:


CLOUSTON--_Clinical lectures on mental diseases_;

HAMMOND--_A Treatise on insanity_;

HAC TUKE AND BUCKNILL--_A Manual of Psychological medicine_;

MAUDSLEY--_Pathlogy of Mind_;

SPITZKA--_A Manual of Insanity_.




INDICE

PREFACIO



PRIMEIRA PARTE

HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS


I--PHASE INICIAL

De Areteo a Esquirol--Confuso dos delirios systematisados com a
melancolia--A monomania intellectual e as suas frmas depressiva e
expansiva.


II--PHASE ANALYTICA

De Lasgue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de
perseguies; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrcktheit
secundaria; a Verrcktheit originaria--Comeo de interpretao
pathogenica.


III--PHASE SYNTHETICA

De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A
loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
Verrcktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
insanity--Determinao pathogenica.



SEGUNDA PARTE

EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA


I--O DELIRIO CHRONICO

A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios
polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso no 
vulgar; a passagem  demencia  excepcional--O delirante chronico  um
degenerado; importante observao pessoal--A prognose dos delirios
polymorphos  muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de
Delirio Chronico no espirito de Magnan; gnese do segundo.


II--A VERRCKTHEIT AGUDA

Dois grupos de psychoses sob a mesma designao; a confuso mental e os
delirios polymorphos--A Verrcktheit e os delirios incoherentes, critica
das opinies de Schle--A Verrcktheit e os delirios systematisados de
marcha aguda; a critica das opinies de Krafft-Ebing--Observao
pessoal--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit.


III--A VERRCKTHEIT SECUNDARIA

Os delirios systematisados que succedem s psychonevroses; sua
interpretao pathogenica--A opinio de Tonnini; modificao introduzida
--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit.


IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erros doutrinarios de Lasgue e Foville sobre a interpretao
pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
psychiatria francesa--A autoobservao e o raciocinio no representam um
papel na gnese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa.


V--AS ALLUCINAES E OS DELIRIOS PARANOICOS

VI--AS OBSESSES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

Extenso do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas
de degenerescencia; opinies diversas--A degenerescencia e a observao
clinica; modo de vr de Magnan; opinio de Krafft-Ebing--Necessidade de
um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definio de
Morel; o seu defeito essencial--A noo do atavismo em psychiatria; as
idas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e
Riva; documentos justificativos--A Paranoia  uma degenerescencia.


BIBLIOGRAPHIA



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is also defective, you may demand a refund in writing without further
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including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
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Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://www.gutenberg.org/about/contact

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