Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by Duarte Galvo

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Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Author: Duarte Galvo

Release Date: March 20, 2006 [EBook #18026]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. ***




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Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)


Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR

DUARTE GALVO


_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1906




Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador

_Mello d'Azevedo_




Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)


Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR

DUARTE GALVO


_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1906




PROLOGO


A Chronica de Duarte Galvo  a lenda de Affonso Henriques, do fundador
de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradies;
agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que
apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram
convenes sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o
livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de
fabulas. As brigas com a mi, a violencia feroz com o legado de Roma
offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.

Na Chronica ha lenda e tradio a par de narrativas baseadas em factos.
As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e
porfiadas com os sarracenos, todo esse esforo enorme para augmentar o
reino e garantir-lhe a independencia so factos averiguados.

A bella tradio a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da
palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente,
guardado pelo corvo, so lendas ou tradies antigas acreditadas j na
funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por
antiquissimos escriptos. A descripo do casamento de D. Mafalda, filha
de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto
mui antigo que o chronista soube approveitar.

 interessante attender  maneira como os historiadores trataram do
fundador do reino; Duarte Galvo no comeo do seculo XVI; Antonio
Brando no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos
de trabalho vo crescendo, e o entendimento humano apura-se; v-se mais
e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. No
devemos esquecer que Duarte Galvo foi uma summidade no seu tempo.
Antonio Brando foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual
maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira
como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos
que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de atteno.

Sobre Duarte Galvo  bem que se leia a noticia que vem publicada no
dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
CXXVII).

==Galvo (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517
carregado (como diz Joo Pinto Ribeiro) (a) de annos, de prudencia, e
de autoridade. no mar da Arabia, na ilha de Camaro, indo de mandado
del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

El-Rei D. Joo II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a
Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmo, Rei naquelle
tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade.
E se bem o achasse j solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia
abalizados servios, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez
voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara
Damio de Goes, servio os dous Reis, D. Joo II. e D. Manoel em muitas
Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano,
seu filho, e dos Reis de Frana e Inglaterra, e em outros muitos
negocios, de que sempre deo boa conta. O referido Goes j em outro
lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, o demais das
calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava. Tendo sido os
Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o
anno de 1145 por proviso del-Rei D. Affonso Henriques at o tempo
del-Rei D. Affonso V. o Prior mr de santa Cruz D. Joo Galvo, (assim o
escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio
de Chronista do Reino a seu irmo, Duarte Galvo, pelos annos de 1460,
ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores
Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo. Por ordem
del-Rei D. Manoel comeou, mas no proseguio, as Chronicas dos Reis,
seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mr
importancia foi homem por sua doutrina asss desperto e mui
sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina.

_Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle
qualificado por Damio de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina
Joo Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leo. Publicou-se
modernamente:

_Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso
Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvo, Fidalgo
da Casa Real, e Chronista Mr do Reino. Fielmente copiada do seu
original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida
 Magestade sempre Augusta del-Rey D. Joo V. nosso Senhor por Miguel
Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC.
XXVI._==fol.

Nesta Chronica, que Duarte Galvo _diz_, que fez de novo (so palavras
de Damio de Goes) falto muitas cousas, que no chegro  sua
noticia. O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que
Goes dissera, que Duarte Galvo a fizera de novo. Mas esta assero,
como se v claramente, s pertence ao mesmo Galvo, a quem Goes a
attribue. O qual porm nisto mesmo se enganou, visto que o referido
Galvo no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel,
assim lhe falla: Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que alm da
materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa
de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar
escritos alhos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos: O que se
ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvo
smente lhe _apurra a lingoagem antiga em que estava escrita_.

E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dar
conta a Deos de macular a fama de to illustres duas pessoas, como foro
a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho. Acudio
a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brando na terceira Parte
da Monarchia Lusitana. Andr de Resende s diz que Duarte Galvo a
escrevra: porm Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de
outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de
Goes, cahio depois Gaspar Estao, dizendo assim:

Como escreve Duarte Galvo na Chronica del Rei D. Affonso Henriques,
que elle compz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual
elle no foi autor, seno apurador do antigo lingoage, em que andava,
como diz Joo de Barros. Espantame dizer Duarte Galvo (no principio
desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Ferno Lopes,
Escrivo da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mr
da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis t seu tempo como
prova Damio de Goes. Rui de Pina, Andr de Resende, Duarte Nunes do
Leo, e muitos outros de grande autoridade o do por Autor da sobredita
Chronica==.

Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias
desta Chronica. A marcada B--12--8 tem no final a data 1568. Bello
exemplar  a B--4--2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca
a B--4--4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi
doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII
possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas
notas e explicaes do texto.

Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os
taes quatro capitulos riscados para a primeira edio. Parecem estes
codices ter pertencido a particulares, no a institutos religiosos: no
lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em
Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.

Antes d'isto a publicao da _Monarquia Lusitana_, pde suppr-se,
tornra inutil a impresso ou publicao da chronica de Affonso
Henriques por Duarte Galvo. Mas, talvez por causa dos taes capitulos
continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da
impresso, se fizeram copias. Esta a razo de por todos os archivos se
encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvo.

Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto
(1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observaes seguintes.




Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
Galvo


A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvo, foi estampada pela
1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.

O original desta Chronica diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana,
se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma
_copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos.

A simples inspeco da mesma Chronica impressa denuncia a incorreo da
assero de que a copia fiel gozou da luz publica.

No Prologo ao Leitor falla Miguel Lopes Ferreira do modo
seguinte:--Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a
verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir  malicia do Autor,
seno a que naquelle tempo devia de ser esta a tradico, que havia
entre ns, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a
passavo a outros, em que, como  natural, cada dia se vai desfigurando
e perdendo sua frma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente
o Dr. Fr. Antonio Brando, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque
examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.

Algumas pessoas me aconselhavo que lhe fizesse notas, porm segui o
parecer de outros, que assentro, que como esta Chronica se imprimio
para os que sabem, (Curiosa razo! Smente os sabios devio lr a
Chronica; e no haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles no
ignoro pela lio de Fr. Antonio Brando o que  tradio errada. Sahe
pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu
Duarte Galvo.

Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. No foi to brando em sua qualificao
dos pontos encontrados com a verdade, o Censor Regio por cuja alada
teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura to leniente
e delicado. So suas palavras:

Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvo,
e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em
fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se
conservo manuscriptas, e do outro no posso deixar de lhe no accusar a
negligencia com que se houve na composio desta Chronica, porque parece
que no fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo
riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr.
Antonio Brando Chronista Mr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia
Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo...

A mutilao da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

Mas j no estava na mo de D. Jos Barbosa, ou de quem quer que foi que
riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificao de saber
quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que
El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da
Monarchia Portugueza.

J em 1600 tinha Duarte Nunes de Leo impresso suas Chronicas dos Reis
de Portugal, e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle
dedicado um capitulo inteiro ao texto e  _refutao_ das fabulas da
_Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a
substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua frma original.

Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido
incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovo
Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos
Reis de Portugal, cuja publicao devemos  Academia Real das Sciencias
de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o--1824). Ahi
encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e
encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais
franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz
idear Duarte Galvo. Devem bem de notar os Reis e os Principes
Christos diz Acenheiro, estas faanhas do Cardeal e Bispo, e quanto
devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justia e
verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez.

No  comtudo do nosso intento entrarmos na discusso da veracidade da
narrao do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza
nos metteria para a qual no temos foras.

Numerosas so as duvidas que obscurecem a historia dos comeos da
Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mi de
D. Affonso Henriques--seu casamento com D. Fernando Peres de Trava,
Conde de Trastamara, que a seu proprio irmo D. Vermuim Peres, (com quem
j era casada) a usurpou,[2]--suas desavenas com seu filho e guerras
que contra elle suscitou,--a jornada que por causa do exito de uma
destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;--a priso a que D. Affonso
Henriques condemnou sua mi e desavenas que por este respeito teve com
o Papa:--todos estes so pontos que to tenazmente se tem affirmado,
como fortemente combatido.

Todavia a um e outro ponto j a bem instituida critica tem feito devida
justia; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D.
Thereza (pelas doutas Dissertaes de Antonio Pereira de Figueiredo, no
Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa--1825),
assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripo de seu tumulo, como
ainda hoje se v em Pao de Souza, o que tambem devemos  mesma
Academia) so pontos j reconhecidos como demonstrados. Mas tanto
nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos
que ajuntamos, ha lugar para contestao, na qual no quizeramos aqui
entrar: por no termos outros fins em vista alm da integrao do texto
d'um dos nossos antigos Chronistas.

No podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de
Leo na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que
temos indicado frma elle uma cada, cuja mutua e necessaria dependencia
julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegaes
d'um s facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo
d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fra 2.^a vz casada,
nunca teve desavenas com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella
contra elle, e que nem Egas Moniz fra offerecer-se a este com a corda
ao pescoo, nem D. Affonso Henriques prendra sua mi, nem o Papa tivera
motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes
se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do
offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a
verdade de toda a narrativa de Galvo.

Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas
allianas de sangue da Snr.^a D. Thereza ero para elle effectiva
salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa
mesma pagina, no acha elle absurdo em traspassar todo esse monto
d'infamias  propria _irm_ dessa mesma princza, com quem igualava em
nobreza!

Algumas das suas razes no deixo de ter seu xiste. O dito Snr. D.
Affonso (o 6.^o de Castella) como Catholico Rei que era, quando lhe
morria uma mulher, casava logo com outra! E daqui funda elle motivo
para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmo (mi de D. Thereza) fra sua
legitima esposa, que no concubina. Quanto s circunstancias que
poderio afianar alguma exactido em Duarte Galvo, contentar-nos-hemos
com dizer que foi filho de um secretario de D. Joo 1.^o e de D. Affonso
V, e irmo d'um Bispo de Coimbra, e Escrivo da paridade do ultimo
citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. Joo 2.^o, e alem de
Chronista-mor, foi encarregado de varias misses importantes. Temos
portanto que nem relaes nem occasio pessoal lhe faltro para
certificar-se do que era verdade.

Sobre o Bispo _negro_ no deixa de parecer especiosa a explicao que
offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:--

Muitos monges foro tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de
Bispos: e como no depunho o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se
compunha  imitao do seu Prelado. Deste tempo ficou na S de Coimbra a
mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de
Nao, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de
quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a
despeito de sua mi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de
Coimbra, que postulavo para Bispo daquella S o Arcediago da mesma _D.
Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge
nunca depz o habito dos _Negros_ como ento chamavo aos que
professavo a Religio de S. Bento, e os Conegos da S de Coimbra
vestio branco, em razo das grandes sobrepelizes que ento uzavo; os
mal affectos dizio que tinho naquella S um _Bispo Negro_, para no
dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo.

Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

Mas esta explicao, recebida com cautella em quanto aos factos
allegados, no deve ter-se seno em conta de conjectura.

A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada
sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de
Duarte Galvo que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje
existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos
tempos do Chronista-mor, e na encadernao e riqueza das iniciaes
illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartio Real; e
coincide, na discripo que fez Pedro de Mariz no Prologo  sua
intentada edio da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os
Codices que se guardavo na Torra do Tombo.

A copia  verbal, mas no julgamos conveniente conservar a orthographia
daquelles tempos.

Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
D. Affonso Henriques por Duarte Galvo, que se encontra nas Bibliothecas
Manuscriptas. A maior parte so compilaes.

Igual advertencia fazemos em quanto s copias que por ahi ando (e
algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

Na presente edio os quatro capitulos entram na sua competente altura.

_G. Pereira._




CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO
HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA POR DUARTE GALVA,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA

 MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOA V. NOSSO SENHOR

POR MIGUEL LOPES FERREYRA

LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.

M. DCC. XXVI.

_Com todas as licenas necessarias_.




SENHOR


Prostrado aos Reais ps de V. Magestade, lhe offereo a Chronica do
Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques
decimo quinto Av de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo
Duarte Galvo, to estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os
grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D.
Manoel quinto Av de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior
admirao a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a
sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que
desta srte animado possa continuar com a impresso das outras Chronicas
dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V.
Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.

_Miguel Lopes Ferreira._




AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*FERNO TELLES DA SILVA*

Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso
Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vdor de sua fazenda, Embaixador
extraordinario  Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e
Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.


Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso
Henriques a El-Rei Nosso Senhor, no podia ter duvida em que fosse Vossa
Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os
Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos
em que elles respondiam, justamente dezejo a proteco de Vossa
Excellencia para um Oraculo to Soberano, que o merece ser de todo o
mundo. A proporo  o que mais se deve de procurar, e sendo assim, no
pde Vossa Excellencia accuzar a confiana, com que lhe peo, offerea
este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois  para este fim um meio
to proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para
lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes
experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de
toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como
desejo.

Criado de Vossa Excellencia

_Miguel Lopes Ferreira_




MIGUEL LOPES FERREIRA

AO LEITOR


Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal comeo a satisfazer a promessa
de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que at agora se
conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez
tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvo
falleceu na Ilha de Camaro a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e
dezasete. A authoridade de quem a escreveu no  menor, porque o Pai
deste Chronista foi Ruy Galvo, Secretario, e Escrivo da Puridade de
El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares to grandes, e to immediatos
 Magestade, que suppem illustre a quem os exercita. Duarte Galvo seu
filho foi do Conselho dos Reis D. Joo o II e D. Manoel, Chronista Mr
do Reino, Alcaide Mr de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e
Embaixador a Frana, e Alemanha, e ultimamente ao Preste Joo, levando
em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha
passado  de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da
sua verdade. O irmo deste Chronista foi D. Joo Galvo, que depois dos
maiores lugares da Congregao de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da
mesma Cidade, lhe fez merc El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de
Arganil, que at agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra
passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos
encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a
malicia do Author seno a que naquelle tempo devia de ser esta a
tradio, que havia entre ns mal fundada no principio, e peior
continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como  natural,
cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua frma verdadeira. Estes
descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brando na
Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no
segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me
aconselhavam, que lhe fizesse notas, porm segui o parecer de outras,
que assentram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,
elles no ignoram pela lio de Fr. Antonio Brando, o que  tradio
errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da srte que
a escreveu Duarte Galvo, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index
para utilidade de todos. Agradea o leitor o meu cuidado, que brevemente
lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,
e entre ellas a de El-Rei D. Joo o II que escreveu Ruy de Pina, to
rara como desejada.

_Vale._




PROLOGO

DO AUTHOR

Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
Galvo Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
louvor destos mesmos Reis de Portugal.


Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
obrarem virtudes, para que meream a Deos no outro mundo, e neste leixem
de seu tempo memoria, no smente, que viveram o que as animalias tem
por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que 
proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para ns
necessario nos  nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
maior obrigao de seu carrego, que  serem Reis postos por Deos, para
regedores principaes na terra sobre os outros homens para execuo, e
exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposio para
obrar virtudes por muito que naa com a pessoa no pde ser comprida,
nem haver perfeio seno por ajuda, e graa Divinal. Grandes e
perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graa, com os Reis
vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com to clara mostrana de
os querer honrar, e escolher para seu santo servio, exalamento da sua
Santa F, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, at em si
mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graa, e poder a vossos
Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
Christandade, alcanram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
seus Reinos, e esto ento poucas idades, que se as contarmos parece mui
pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
servio em especial de punhar pela F vossos Antecessores fossem sempre
mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
se grandemente manifesta no grande louvor, e no menos mysterio de
vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
concludem, e claramente mostram no menos, que vosso Divino nome ser
Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
parecer adulao o que digo.

Primeiramente vossa successo nestos Reinos por nosso Senhor to
claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
precediam, segundo seus ocultos Juizos, porm sempre justos, e escuza-me
o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso corao para seu
servio, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lanado
fra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse s o verdadeiro de sua
Christ Religio, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devao, e
cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
em as partes Dafrica, do que no satisfeito vosso manhanimo corao, e
desejo, que sempre ha por menos o muito de to santas emprezas, no
leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
Christandade contra os Turcos, e por Capito della D. Joo de Menezes
Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capito da Cidade de Tanger, mui
dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, at que se vio feito
por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
sabidas, nem de ns conversadas, o que nem aquelle gro Rei Alexandre
Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
parte Deuropa, nem Romos, que todos os outros passaram em senhorio,
poderam alcanar trabalhando-se desso, como se l, nem esso mesmo fazer
vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em to breve espao se
fizesse de uma s viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
parte no sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
mos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prgao dos Apostolos,
para notificao de nossa F, renovada s gentes, que apoz seus peccados
depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
houveram, e de necessidade ho de haver, segundo affirma Santo
Agostinho, que em tempo dos Apostolos no foi prgada a F de Christo
por todo o mundo, nem at seu tempo, quatro centos annos despois, dando
logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
Cativos, que se de l traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
universal manifestao havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora asss
confirma por vossa navegao e conquista o qual mysterio traz consigo
grande mostra, e pronostico de ser, no smente para convertimento de
muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os comeos, e
proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
singulares obras, e virtudes mui compridas, se to facil me fosse
poder-lhe dar cabo, quo facil me  achar-lhe comeo, e se a elle no
aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficar tempo, e lugar para com
sua graa se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
todo, Senhor, -me forado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
necessaria  presente materia, a qual , mandar-me V.A. mui
afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
dos tempos, no s em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
no achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como  meu desejo para vosso
servio, e na confiana que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
para nella presumir sufficiencia no mais de atrever, que quanto est
conhecido, que to grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
graa Divinal, no pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
prasmo deve de folgar achar-se vencida de to excellente materia, cujo
mui estimado pezo mais  de culpar quem no queira, que quem no possa
leva-lo; porque ainda no leixar de precalar muito louvor, e
contentamento quem de to nobres, e louvados feitos fizer lembrana, que
foram, posto que no abaste dinamente faze-la de quo louvados foram,
pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se pde estimar,
que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
servio menos da maneira, e estimao de meus servios; porque certo
amor, e vontade, sobeja no acha servio minguado, nem devem de mais
para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, no devem tolher
atrevimento, maiormente quando por algumas rezes necessarias a seu mais
servio se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
descobrimento, e renovao de cousa cerca perdida, que tanto devia
estar s, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
que vossos Reinos tem, e logram, no que no menos, que em todas outras
cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
muitas virtudes, e no invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
quer-que lem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
mim juizos de muitos; porm pois V.A. o ha tanto por bem, e servio seu,
e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
que haverei ante elle grado se no de sufficiencia, ao menos de
obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me no atrevo
fazer, me no pude, nem soube negar.




LICENAS

DO SANTO OFFICIO


Vistas as informaes, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do
Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvo, e depois de
impressa tornar para se conferir, e dar licena para correr, sem a qual
no correr. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

_Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._


DO ORDINARIO


_Approvao do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso
da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada
Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento
do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da
dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da
mesma Ordem nestes Reinos, &c_.


Illustrissimo e Reverendissimo Senhor


Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
Rei de Portugal, a qual quer dar  estampa Miguel Lopes Ferreira,
dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
daquelle seculo dourado, em que Portugal no bero da sua infancia, com
maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
despedaar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
sentidissimo de Mafoma, em to perfiados recontros, e em to sentidas
batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um s
Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroados, os seus
Reis vergonhosamente vencidos, e s Portugal gloriosamente triumfante, e
senhor pacifico no s das terras, que pela repartio dos Estados
tocavam  sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam  de Hespanha,
porque de umas, e outras,  fora de forte brao, e duro ferro fez
largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
sempre daquelle destemido Capito, e valerosissimo Heroe D. Affonso
Henriques, que efficazmente soccorrido da mo Omnipotente do Senhor dos
exercitos, na miraculosa appario do Campo de Ourique quando batalhou
com cinco Reis Africanos, ficou seu valente brao revestido de uma
fortaleza to desmedidamente grande, que j vibrando a lana, nunca
tirou bote, que no fosse inexoravel desizivo da morte, j empunhando a
espada no descarregou golpe, que no fosse infeliz Parca da vida. E
sendo tal o esforo de seu brao, que o manejo das Armas, no era menos
o valor do seu corao para o exercicio das virtudes: porque foi
constantissimo no da Justia administrando-a, e fazendo-a guardar
rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
embaraasse as execues de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
empunhada representava um vivo simulacro da Justia. No da Humildade foi
singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
despojas das batalhas, (e no foram poucos) primeiro os enfardelavam os
soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
porque at destes repartia seu nobre corao com os que o ajudavam a
vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
no cabendo j nos limites de seu estado, l se dilatou para o Hospital
de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fra
em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaa, aos quaes dotou
de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religio, todo
este livro  breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
adiantando-se este tanto nos seus augmentos que no cabendo na esfera de
sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que j tinha, se separou com
a differena de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
outra com o distintivo de Occidental que  o sitio deste Reino a
respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria l
tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
foi o primeiro em Portugal; mas sem questo, deve o seo glorioso
augmento  Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
Magestade do Senhor Rei D. Joo o V no nome que somando na linha de
todas suas aces sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa S Patriarcal,
realando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
Reverendissimo Senhor D. Thoms de Almeida da Nobilissima Casa de
Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso corao de que o nome
da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, t o Occaso onde fenece: A
Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine.

To gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas aces do
Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e 
mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admirao. Este o
meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
1726.

_Fr. Jos de Sousa_.


Vista a informao, pde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
depois de impressa tornar para se conferir, e dar licena que corra,
sem a qual no correr. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.


DO PAO


_Approvao do Reverendissimo P. Mestre D. Jos Barbosa, Clerigo Regular
da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragana, e
Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.


SENHOR


Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques,
que compoz Duarte Galvo, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes
Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos
Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro no
posso deixar de lhe no occultar a negligencia com que se houve na
composio desta Chronica, porque parece que no fez exame algum para o
que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e
tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brando Chronista mr deste
Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se pde imprimir sem
escrupulo. Vossa Magestade ordenar o que fr servido. Nesta Casa de N.
Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

_D. Jose Barbosa C.R._


Que se possa imprimir vistas as licenas do S Officio, e Ordinario, e
despois de impresso tornar  Mesa para se conferir, e taxar, que sem
isso no correr. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

_Pereira.--Galvo.--Teixeira.--Bonicho._




_Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques,
primeiro Rei de Portugal_




CAPITULO I

_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
Condado com certas condies_.


Comeando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
quelle guiador de seus nobres, e virtuosos coraes Espirito Santo, que
assi participou com elles de sua infinda graa para as obras, me queira
dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrana, por tal que
no paream falecidas minhas palavras na grande excellencia de to
louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho ser o meu
esforado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para to alto
cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
immenso louvor no menos se ver ao diante acrescentado, e conformado
pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, so
por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques,  forado
recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
Santa F Catholica, de que ento a Espanha estava occupada, a cuja mui
devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
ser servio de Deos, e salvao de suas almas, participarem de suas
santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
senhores, a saber, o Conde D. Reymo de Tolosa, grande senhor em Frana,
e o Conde D. Reymo de S. Gil, de Proena, e D. Anrique sobrinho deste
Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irm, e Del Rei
Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
El-Rei D. Affonso recebidos.

Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforado Cavaleiro, e no
menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proena, e tendo
El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimo de Tolosa, de que
depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
cazou com o Conde D. Reymo de S. Gil, de Proena; outra chamada D.
Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra at o Castello
de Lobeira, que  uma legua alm de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
chamado o Condado de Portugal, com tal condio, que o Conde D. Anrique
o servisse, e fosse s suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
doente, ou tivesse legitimo impedimento a no poder l ir, lhe mandasse
um dos mais principaes de sua terra a seu servio com trezentos de
cavalo, no havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
seus successores com muito esforo, e valentia por muito arriscados
perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se ver, e que no
querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
aprouvesse, como de cousa sua propria.




CAPITULO II

_Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
donde se chamou Portugal_.


Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis
de Portugal, que at agora foram, e a causa porque a terra se chamou
Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de
Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo
Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso
mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora
 Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado
Portugal. E era ento naquelle tempo costume, que todos os filhos dos
Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos,
e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de
Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha;
porm elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D.
Affonso, at que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de
Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de
Portugal, cuja gerao veio de Reis, assi da parte do pai, como da mi,
que segundo j dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que
foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D.
Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mi,
era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja,
por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal,
pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalar, que de Nobreza, e
Realeza de sangue no menos, que de excellentes virtudes, fossem em
tanto gro illustrados.




CAPITULO III

_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
foi so por milagre de N. Senhora da aleijo com que naceo_.


Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
del-Rei de Castella como dito , vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
mui esforado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
sua terra, e a quem tinha feito muita merc, chegou ao Conde pedindo-lhe
que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
grande, e fermoso, que no podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
com as pernas to encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
que nunca poderia ser so dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
Senhor de mil noventa e quatro.

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou  pressa, e
veio-se a Guimares onde o Conde estava, e pedio-lhe por merc que lhe
desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
prometido. O Conde lhe respondeo que no quizesse tomar tal carrego;
porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: Senhor, antes cuido eu
que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja: E o
Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
de o encarregar em semelhante criao, por causa da aleijo da criana,
com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criana to
fermosa, e com tal aleijo, houve mui gro d della, e confiando em
Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, no com menos
amor, e cuidado como se fora so.

E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo j o Menino de cinco annos,
lhe appareceo nossa Senhora, e disse: D. Egas dormes. Elle a esta voz,
e viso acordando respondeo. Senhora quem soes vs. Ella disse: Eu
sou a Virgem Maria, que te mando que vs a um tal lugar,, dando-lhe
logo os sinaes delle, e faze hi cavar, e achars hi uma Egreja que em
outro tempo foi comeada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
a Imagem e a Igreja feita  minha honra; esto feito fars hi vigilia
poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecer, e ser
so de todo, e no menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
da F.

Desaparecida esta vizo ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
como vassallo que com so, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
cousas, e tanto que foi manh levantou-se logo, e foi-se com gente
quelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
mandra.  qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e so das pernas de toda
aleijo, como se nunca tivera nada della.

Vendo D. Egas este to grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
muitas graas, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
sempre, at que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle j de tal idade,
que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devao o
Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
ultra mar, e bautizado no Rio do Jordo, porm por mais verdade achei
ser seu nacimento como disse.




CAPITULO IV

_Como o Conde D. Anrique adoeceo  morte, e das palavras que disse a seu
filho ante que falecesse_.


Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforado cavaleiro, muito amador
da Justia, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devao fez
a S de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pz em
ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licena do Santo
Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
(1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar  Caza Santa de Jerusalem,
conquistada havia quatro annos de Christos, novamente pelo Duque
Gudufre de Bulho, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christos, e possuida de
Mouros, e quando de l veio trouxe este Conde muitas reliquias de
Santos, entre as quaes foi um brao de S. Lucas Evangelista, que por
filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que ento era Bispo
de Braga, deu parte delle  S da dita Cidade, o qual elle recebeo em
mui grande dom, e o pz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem no lhe cessaram guerras com
os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra at chegar a Estorgua, a qual
tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pes, e
vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pz em tanto
aperto, que se lhe no podiam defender, e lhes foi forado
preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
primo chamado Emperador, lhes no soccorresse at quatro mezes, elles
lhe entregassem a Cidade de Lio com todas as rendas, e senhorio que
El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
modo, que bem conheceo no haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
muito de Cavaleiro entendido, e esforado em esta maneira.

Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu corao minhas
palavras como de pai a quem aps estas j no has douvir outras. Deves
filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os mos
sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
porque conservao  dos bons, e pungimento dos mos, pelo qual filho
more sempre em teu corao vontade de fazer justia, virtude  que dura
para sempre na vontade, e coraes dos justos, e d igualmente seu
direito, que  o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
regimento podem alcanar, que todo o governo, e bem commum consiste
principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
como os bons pela justia se fazem milhores recebendo premio, e galardo
de suas boas obras, assi os mos vem a ser bons, ou a menos cessam de
seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobia,
nem outra nhuma afeio leixes de fazer justia, que o dia que um s
palmo a leixares de fazer logo no outro se arredar de teu corao uma
braada.

Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justia, e
direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
merc, e se o contrario, d-lhe pena segundo seu merecimento, por os
outros tomarem castigo, no consintas em modo algum, que os teus sejam
soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perders teu preo, e
estimao se taes cousas no vedares; mas segue todavia justia temendo,
e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
Deos em tua ajuda, ters as gentes para teu servio, e sem ella no ha
poder, nem saber que te aproveite, de sua mo somos isso que somos, e o
que temos no teriamos, se da sua mo, e bondade o no tivessemos, e
portanto trabalha-te por conservar em seu servio. O que tiveres, e de
toda esta terra que te eu leixo Destorgua at Lio no percas della um
palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
corao um pouco; porque sejas esforado, e sem medo: aos fidalgos s
companheiro, e d-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandars que te
faam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
torna, e no a percas, e daqui conquistars toda a outra terra adiante,
ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vo enterrar a Santa
Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
beno; porque sejas como filho de beno a servio de Deos com muita
honra prosperada.




CAPITULO V

_Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
Principe, e levando-o a enterrar se alou em tanto a terra com sua mi
Dona Tareja_.


Desta doena se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes,
e cinco dias antes que o prazo de Lio fosse acabado. Seu finamento foi
no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle
faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito
annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse
mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lanar, e
perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se
ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por
isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem
perda, e ento se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse
enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de
Lio que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha no
poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei
D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmo filho do
Conde D. Reymo de Tolosa, e de Dona Urraca irm de sua mi a Rainha
Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e ento se foi a
Portugal, e no achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alara
com sua mi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D.
Fernando Conde de Trastamara seu irmo delle lha tomou, e cazou com
ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D.
Tareja, e do Conde D. Anrique j finado, que elle tinha em sua casa, que
chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um
Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que
havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Ferno Mendes. Este Conde D.
Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem
de Espanha que Rei no fosse, e por esta causa se alou toda a terra ao
Principe D. Affonso Anriques com sua mi.




CAPITULO VI

_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
vencido, e como tornando outra vez  batalha o venceo, e prendeo, e a
sua mi com elle_.


Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que no tinha onde se acolher,
e que sua mi to pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes
vemos as mis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe
furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da
Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a
seu padrasto, tanto que vieram ambos  fala com a Rainha Dona Tareja de
presente, e disse o Conde D. Fernando: Principe no nos afadiguemos
mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vs quando
quizerdes, e ou vs vos sahireis de Portugal, ou eu. Respondeu o
Principe D. Affonso. No devia de aprazer a Deos tal cousa que vs me
queirais deitar fra da terra que meu pai ganhou. E acodio a Rainha sua
mi dizendo. Minha  a terra, e ser que meu pai ma deu, e ma leixou.
Disse ento o Conde D. Fernando a ella No andemos mais neste debate,
ou vs vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso
filho, se mais poder que ns.

Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se juntar em
Guimares em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para
peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: Comvosco quero eu ir 
batalha; porque tenhais mais rezo de fazer mais por meu amor, e
trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior
poder temos que elle.

A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lanado do
campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimares encontrou com
D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e
quando D. Egas o vio disse: Que  esto Senhor, como vindes vs assi.
Respondeo o Principe: Venho mui desbaratado, que me venceu meu
padrasto, e minha mi, que hi era com elle. Disse ento D. Egas: No
fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu
comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa
mi, recolhei a vs toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a
peleijar. Respondeo o Principe: Praza a Deos que assi seja.

Tornram ento  batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu
padrasto, e sua mi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou
logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais
entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para
sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O
Principe D. Affonso poz ento sua mi em ferros e ella vendo se assi
preza, disse. Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra,
e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso
que prezo sejais vs assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas
pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores
em meu ventre, e fra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a
Deos praza que assi seja. E depois aconteceo a este Principe D. Affonso
sendo j Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de
Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lio, como se ao diante
dir, dizendo todos, que lhe acontecra por lho assi mal dizer sua mi.




CAPITULO VII

_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
Castella, chamado Emperador como seu av, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam aladas por sua mi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra_.


Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a no
queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pde a El-Rei D.
Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu av, em
que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
seu era, como pelo que devia  virtude em acudir por uma sua tia posta
fra de seu marido, e em prizo to deshonesta lhe pedia, que a quizesse
vir livrar, pois no tinha a quem com mais rezo se soccorresse, e lhe
podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
e de Lio, e de Arago, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
prizo, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e ento se vieram todos para
o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
lugar que chamam Val de Vez, entre Mono e Ponte de Lima, e ali
esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
peleija, e to grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lanadas, e
sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
logo dalli levando comsigo sua mi preza, e todos os lugares que se
levantram contra elle os tomou por fora, e tratou asperamente os que
os tinham.

Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mi, El-Rei Achi Mouro
veio guerrear Coimbra com grande multido de Mouros que ao juizo de
todos passariam de trezentos mil de p, e teve-a cercada muitos dias
combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforo, e ajuda
de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastana em
quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
sentindo a abondana de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
e levantram o cerco destruindo pes, vinhas, olivaes, e foram-se
perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
valia o vinho pelo preo dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).




CAPITULO VIII

_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimares, e como D. Egas Moniz
lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.


A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado
Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle
houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe
havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto
conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada
que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimares onde cercou
o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vlla
estava bastecida, que a poucos dias a tomra El-Rei de Castella se
tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o
grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e
nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manh cedo, sem
levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei,
e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se
poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua
reverencia, e beijou-lhe a mo; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que
vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; ento se apartram
ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lanar sobre aquella
Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu
primo porque lhe no queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como
era rezo, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinao era
leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com
ella.

Respondeo entonces D. Egas, e disse: Senhor no fostes bem aconselhado
virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo  tal
Cavaleiro como vs bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e to
boa afra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que
grande ser o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forar, e tomar a
Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras
que com vosso primo houvestes, elle foi sempre to suspeitoso, e receado
de vs, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada
dia de se ver nelles comvosco, como se ora v, que toda sua terra e
Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem
providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo est que
a meu entender, outra mais gente da que est, dentro, se nella podesse
caber teria abastana para muitos annos de cerco, pois estando vs tempo
sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer
trovao a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que
to vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que
vosso primo vos conhea senhorio, e v a vossas Cortes, certo a mim
parece rezo, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui
para vossa terra, que no parea que vosso primo por fora, nem
rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que v a vossas Cortes
onde vs quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem. Quando
El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de
D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e
depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa
mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera
fazer.




CAPITULO IX

_Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarez,
e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas
Moniz_.


Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com
toda sua Corte, como ficra a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio
partir El-Rei, e espantando-se muito porque no sabia a causa, perguntou
a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de
El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou ento
tudo o que era, e como a causa passra; ouvindo o Principe esto, houve
grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto,
que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: Senhor no
haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito
servio; porque El-Rei de Castella por fora vos tomara, segundo
estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa
defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o
senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto
 menagem que fiz a El-Rei de Castella no vos d desso nada, que assi
como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a
graa de Deos.




CAPITULO X

_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
Guimares_.


Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
s Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
molher, e filhos, e chegram a Toledo, foram decer ao Pao onde El-Rei
estava, e ali se despiram de todolos panos seno os de linho, e sua
molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalaram-se
todos, e pozeram senhos baraos nos pescoos, e assi entrram pelo Pao
onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou ento
D. Egas Moniz, e disse.

Senhor estando vs em Guimares sobre o Principe vosso primo meu
Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
pessoa e honra quelle tempo corria grande risco de se perder por na
Villa no haver mantimentos, nem percebimento algum para defenso, se
lhe vs tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
ir a vs, e fazer esso que fiz. Recontando dahi vante perante todos
cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: Por causa
desto Senhor me venho presentar ante vs, e eis aqui estas mos com que
vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
aqui minha molher, e estes moos meus filhos para se vossa ira houver
por maior minha culpa que a vingana do meu corpo s, por esta molher, e
por estes moos a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
apiedar-se, seja vossa indinao satisfeita, prestes Senhor vos trago
tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um s vingana de
muitos, do pai, da mi, de seis filhos quejanda vossa merc for, no me
pezar que vossa sobeja vingana faa maior meu cumprimento, e que se
diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou.

Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
que ahi estavam lhe disseram, que tal no fizesse, que no tinha rezo
de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
enganar, e que antes por seu bom nome tinha razo de lhe fazer muita
honra, e merc, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
depois de lhe fazer muitas mercs o mandou livremente elle, e sua
molher, e filhos tornar para Portugal.




CAPITULO XI

_Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella
se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto
juntou gente, e foi tomar Leiria_.


Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre
de sua menagem, e com sua graa veio caminho de Guimares, e ante que
ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a
receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora
cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque
sempre esperra que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para
sempre, e tudo smente por seu respeito, ou servio, e assi quanto lhe
estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua
vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as
mos, e o Principe as tirou a si, e abraou-o mui de vontade com grande
gazalhado parecendo-lhe com muita rezo que tal obra, e merecimento mais
merecia ser recebida com mostrana de muita honra, e agradecimento que
sobgeio, e assi vieram ambos fallando com muito prazer at Guimares,
onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de no cair em outra
tal mingua, e desastre de se ver cercado, e no apercebido como dantes,
comeou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para
sua defeno lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus,
passram alguns dias.

E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem
proveito, pois se no occupava em mais, que no que tinha mandado aos
seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra
dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo
rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui
bem defendessem tomou-o por fora, e os mais dos Mouros que ahi achou
andram  espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de
Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devao, e
fez a elle, e ao Moesteiro doao della no temporal, e espritual, e o
Prior lha teve em mui grande merc; e pondo-lhe logo por Alcaide no
Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D.
Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada
pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e ento se tornou para
Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de
despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a
era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.




CAPITULO XII

_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
Moniz, e do seu enterramento, e da muita devao dos Cavalleiros
daquelle tempo_.


Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezes que
a Estoria no declara, consirando elle, que no devia, nem podia milhor
empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganhram, que em servio de
nosso Senhor de cuja mo a tinham rcebido, e como no havia ento nhum
servio de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
guerreados, e lanados fra della, segundo fora sempre seu proposito, e
vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
rezes, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
chama Estremadura, que era sob seu senhorio, no haveria poder de se lhe
defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de to boa
gente, que era bastante para peleijar com elle.

E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo  morte D. Egas Moniz seu Aio,
e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo  a
morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu servio, e
se mostrarem virtuosos, e bons, no smente em vida, mas depois de
mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
queridas, e lembradas. Ento mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Pao de Souza, que elle mesmo
fez, e o seu moimento est dentro da Capella que se chama do Corporal,
ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede no est se no um moimento
baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz to nobre, e honrado
Cavalleiro.

Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Pao, e o de S.
Martinho de Cucujes quem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
possesses, e guarneceo de grandes ornamentos, no que  bem de notar, e
seguir a muita devoo dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra to
santa, e quasi do Reino a dentro sendo ento o Reino mais pequeno, e
menos rico, no se descuidram por esso de todo o servio de Deos,
conhecendo que o servio de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
nhuns Paos, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
para as Almas, que para os corpos, lembrando-se smente dos corpos o
enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
deixar de ser.




CAPITULO XIII

_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
sentaram seus arraiaes um  vista do outro_.


Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito , o Princepe D.
Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de to
honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiana; seguio avante o que
ia fazer, por servio de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
que agora ainda hi ha, e ento seriam maiores, e sahindo dellas comeou
a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
mandando seus alvites, que elles entre si ho por homens de santa vida,
que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem 
terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
muita em sua ajuda de Mouros dquem, e dalm mar, e outras gentes
barbaras, que era infinda a multido delles em tanta desigualana dos
Christos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes no achamos escritos, e
vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforo, e vontade de
servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
que se hora chama Cabeas de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
Ermida, e nella um Irmito. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentram seus
arraiaes um  vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
de mil cento e trinta e nove (1139).




CAPITULO XIV

_Como os Portuguezes vista a multido dos Mouros requereram ao Principe
D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez
sobre esso_.


Os Christos que eram com o Principe, vendo a grande multido dos Mouros
sem conto, comearam de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui
grande desigualana, que havia delles aos Mouros. Ento se foram ao
Principe, e lhe disseram: Senhor quem sua carga compassa pde com ella,
e vs vedes bem a multido de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e
cuidardes de com to pouca, como tendes peleijar com elle,  cousa fra
de toda a rezo, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda
valentia, nem se deve haver por servio de Deos, antes por muito seu
desservio para tamanha aventura, e risco de uma s ora o senhorio de
Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a
todos parece, e no com mingoa de corao, e vontade que em ns nunca
achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha.
Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e
posto que nelle s houvesse o esforo que a toda a Oste compria, lhe
pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos
ajuntados, assi comeou.

Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a teno e
desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua
santa F Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando
ns j em vista dos que viemos buscar, ser grande mingua, e ainda
poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, no peleijando,
que peleijando receaes se fogissemos s batalhas a que nos Deos, e
nossas vontades to acerca trouxeram, que j nosso recolhimento no
podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade
nunca abrio mo dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem
lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos
quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com
estes imigos da F, e os venceram poucos, pois no  agora menos
poderosa a mo do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do
que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos
Princepes, e Senhores Christos, em semelhantes casos, e tanto mais da
ventagem de nossos imigos; deve nosso corao, e esforo quanto temos
mais justas causas, e rezo de peleijar. Ns peleijamos por Deos, pela
F, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,
pela falsidade. Ns por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e
furtada, e querem furtar. Ns pelo sangue, e vingana de nossos
Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Ns por
poer nossos pais, nossas mis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com
liberdade, elles a ns todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia
tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christos por
nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu
desfazimento, e destruio, no desfaleamos a vontade do Senhor Deos, e
a tamanho bem nosso; oh quanta merc nos Deos faz Cavalleiros, e a
quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e
feito to glorioso, quanto Cavalleiros no poderiam, nem saberiam mais
desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por ns, peleija sua, e
nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa F, em que nos elle
salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais
seguros de galardo, matando, ganharemos terra, e honra temporal,
morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a
nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a ns para sempre, a quem
se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a
Christo, que o seu proprio por ns espargeo, nem que podemos fazer neste
mundo por elle, que muito mais, o primeiro no fizesse por ns, elle
sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de
Deos, e ns filhos de homens, ainda por elle no faremos por onde filhos
de Deos pareamos? Elle padeceo por ns, s nu, e despido, sem galardo,
e ns cubertos de armas, e acompanhados, e com galardo, muito maior que
merecimento, receamos peleijar por quem assi por ns morreo, para que
nos fez logo Deos, para que nos teve amor to sobejo, que por remir to
ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por ns,
e ns possamos fazer por elle) feito tudo s por ns, e para ns, que
Deos nada lhe faz mister? Certo no  de homens, nem de Cavalleiros, e
muito menos de Christos, e mais ns Portuguezes recearmos trabalho, que
nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre
segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita F, e
muita Esperana, em N. Senhor, o dia de amenh em que com sua graa
venceremos a batalha, ser de tanto prazer para ns, e nos aprezenta
tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,
faz ligeiro o trabalho; no cureis de nhumas rezes, nem temores que a
lembrana de Deos s, e de tanto bem nosso, no los deve lanar fra de
nossos coraes. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai
com muito prazer, e descano o dia damenh, to ledo, e de prazer, como
nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de
Deos, e sua graa ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como
sempre o  com os seus, e elle por sua piedade no-lo dar feito, e
vencido, em nossas mos, e de manh prazendo a elle acabareis de
confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de
saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque
com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde
me faa mester vossas mos, e ajuda.

Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e to confiado
esforo do Principe, foram assi todos esforados, e animados de um
corao para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser
trespassado em cada um o mesmo esforo, que no Princepe viam,
responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,
elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde
elles decendiam.




CAPITULO XV

_Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques,
posto na Cruz como padeceo por ns_.


Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em
seu arraial, o Irmito que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a
elle, e disse-lhe: Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que
pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas
ledo, e esforado, elle te far de menh vencer El-Rei Ismar, e todos
seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires
tanger uma campainha que na Irmida est sairs fra, e elle te
apparecer no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores. (E j antes
desto elle tinha feito, e dotado com grande devao o Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra,  honra da morte e paixo que N. Senhor recebeo na
Cruz, pelo qual  de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por
onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se
partio o Irmito, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e
disse: Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas
obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti s conheo, e tenho em
merc os grandes bens e mercs que me tens feito, e fazes em me mandares
prometer to grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te
servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os
quaes, por serem contra ti, eu no quero paz, nem os ter por amigos, e
pois em quanto viver, me no heide partir de teu servio  tua infinda
piedade peo que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo
da linhagem humanal no seja poderoso para torvar teu santo servio, nem
fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos.

E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se
a Deos, e  Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando
foi uma hora, ante menh tangeo-se a campa, como o Irmito dissra, e
ento o Princepe saio-se fra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse,
e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo
que dissra o Irmito, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande
prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmao
do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre
outras palavras falado alguma sobre corao, e espirito humano dizendo:
Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma
duvida creio, e espero em ti firmemente. Esto mesmo no  para leixar
de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe
D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser
conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e
merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por
ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S.
Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados,
e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto
atgora, e ser para sempre; tudo  para crer que N. Senhor queria, e
faria a Princepe to virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis to
virtuosos, para tanto seu servio, e da santa F Catholica, e por suas
cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrana de
escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada
fama.




CAPITULO XVI

_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.


Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
esforo, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar s
trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
levantados, e comearam-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devao, e alegria.
Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de p, e na reguarda fez
outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de p; uma
das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de p, outra az fez de
outros tantos, que eram por todos dez mil homens de p, e mil de
cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonalves,
que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Loureno
Viegas, e a D. Gonalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
Egas Moniz j finado, e a direita a seu irmo Martim Moniz.

No cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
correndo por todos a anima-los, e esfora-los, chamando-os por seus
nomes, trazendo-lhe  lembrana o que lhes tinha falado, e encomendado,
e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
dos Christos, maiormente indo acompanhados da graa de Deos
resplandeciam e reluziam to grandemente, que ainda que poucos fossem,
no havia poder maior que os no temesse.

Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
gente mui grossa, assi de p, como de cavallo, e quando os Senhores e
grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
multido delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: Senhor,
ns vimos a vs que nos faais uma merc, a qual ser grande bem, e
honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
gerao. O Princepe lhe respondeo que dissessem, que no havia cousa,
que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade no fizesse, elles
disseram: Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede , que vs
consintais que vos faam Rei, e assi havero mais esforo para
peleijar. Respondeo elle e disse:

Amigos seres irmos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vs, por
sempre ser de vs mui bem servido, e guardado, e porque desto me
contento muito, no me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
irmo, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
imigos da F, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, no
so convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vs sede mui
esforados, e no temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja F
somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
como elle fez por ns, nos ajudar contra estes imigos, e os dar
vencidos em nossas mos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje ,
ser nosso Capito, e valedor nesta batalha. Responderam elles todos:
Senhor praza a Deos que assi seja, e no menos o esperamos de sua
graa, porm para elle ser milhor servio de vs, e de ns neste feito,
e em todos os outros adiante,  mui necessario que vos alcemos por Rei,
e no deve uma s vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
pedimos, e desejamos. O princepe vendo-se to aficado delles, disse que
pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Ento todos o
levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: Real, Real,
por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal. Anno de Christo de mil
cento e trinta e nove (1139).




CAPITULO XVII

_Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu
batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento
della_.


Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe
foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os
senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares
ordenados, e sem mais tardana, moveram contra os Mouros que j vinham
contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu
Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez
assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia
diante ferio um Mouro da lana, de tal sorte, e encontro, que deu logo
com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram 
segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos
Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Ento D.
Loureno Viegas, e D. Gonalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a
El-Rei mui esforadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas
as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmos, Capites das
azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforados
Cavalleiros que eram, fazendo grande matana nos Mouros.

Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui
grande de corpo, e de mui assinada valentia, de fora grande, e corao
muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se
topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha to bravamente
peleijada, que durou at horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia
to quente, e tanto p naquelle tempo, que cada uma destas cousas com
pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D.
Affonso to esforado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforo, como
nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multido de Mouros
afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo to grande vencimento, qual se
no deu, de to poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi
vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e
mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres
pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christos foi a
vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz
Capito da az direita, e D. Diogo Gonalves, homens mui principaes.

No se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza
deste vencimento, como j vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando
Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros
Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo
Lentullo Capito de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a
maior que o Sol nunca vio sendo os Romos onze mil de p, a fora a gente
de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo
com gente to cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles
cem mil no desbarato, dos Romes smente cinco morreram, e feridos no
passaram de cento, donde se escreve, que os Romos houveram vergonha, e
se riram de si mesmos por tomarem armas para to vil gente, da qual
segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o
que em mui maior gro, e desigualana se deve estimar, e dizer desta
vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e
menos dos Christos, como pela valentia, e animosidade, e seita
contraria dos infieis, e alm desso vezados s mesmas guerras nossas, e
a muitas vitorias havidas contra ns, com que se tinham feito vencedores
da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo
Lentullo para c, no acho vitoria destas mais assinadas, que foram;
porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que
disse.




CAPITULO XVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.


Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
como  de costume fazerem os Reis se forados necessidade lhes no vem,
e estando assi no campo, em lembrana da grande merc que lhe Deos
naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
um dos Escudos em relembrana da morte e Paixo de Jesu Christo, vendido
por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
que se no podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
dinheiros, e desta maneira se trazem agora.

Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
era um bom quinho de gente que chamavam Moaraves, os quaes eram
Christos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
disse-lhe: Oh Senhor Rei, e vs outros nobres vares que sois filhos da
Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
Christos irmos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
tratar como vs mesmos; ora vos peo senhor, pois so da Lei de Christo
como ns, sejam soltos, e livres da prizo. E El-Rei que era muito
sogeito a toda rezo, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christo,
outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
de cativeiro.

Vinham entre estes Moaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
vida, os quaes contram a El-Rei como j estiveram no cabo da terra do
Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer meno de to
glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
e seu Corpo guardado dos Christos, e depois em seus lugares contarei
como foi trazido quelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e no se podendo achar da
primeira, foi achado da segunda, e foi trazido  Cidade de Lisboa.




CAPITULO XIX

_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
matar S. Vicente depois de muito atormentado por prgar a F de
Christo_.


Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora  no Reino de Arago,
de nobre linhagem, de F, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmo de S. Loureno, e sendo
enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valena, o
qual por ser empachado na lingoa, em prgaes, e muitos outros autos do
servio de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era ento Emperador de
Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
persecuo contra Christos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
qual estando em a Cidade de Valena, tanto que soube da vida de S.
Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prgavam,
os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
ameaos pelas obras que faziam, e prgavam, e S. Valerio por ser j
velho, e empachado da fala, como dito , comeou a responder mano, e de
vagar.

Disse ento S. Vicente a S. Valerio: Padre no cumpre aqui resposta que
seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz. S.
Valerio respondeo: Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
minhas vezes cometido. Ento S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
com tanto fervor, e constancia pela F de Christo, que Daciano mui irado
o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
ento morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
lanassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuao de
tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e no
caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.

Sabendo sua morte Daciano ainda ento se no doeo delle, se no de sendo
vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: Pois em vivo o no venci,
morto o vencerei, e desfarei. Mandou ento lanar o Corpo s aves, e
animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos to guardado, que nhuma
lhe poz boca, antes de Corvos que al no buscavam, foi um visto
guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
sanha, e crueza dantes demais: Se nem morto o poderei vencer. Ento
mandou atar uma grande m ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra no pudra; mas o
Corpo de S. Vicente milagrosamente veio at  terra primeiro que o mesmo
barco, que o foi deitar, e alli por sua revelao foi sabido e recolhido
seu Corpo dalguns Christos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: Oh
Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
morto.




CAPITULO XX

_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi l buscar, e no o podendo achar
se tornou para Coimbra_.


Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
que chamavam Abdenamer, o qual comeou a conquistar, e sobgigar por
Espanha assi Mouros, como Christos, no achando Santuario de Christos,
que no destruisse, nem ossos de Martyres, que no queimasse, e andando
nesta conquista foi ter a Arago, e a Valena, e os homens que tinham o
Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
fazia s Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
guiar quelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
trouxeram, estiveram continuadamente com elle at que por alli chegou um
Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
Reino de Fs a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
disse, que andando por alli de noite achra certos homens guardando
aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.

El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
falado e affirmado os dous velhos Moaraves de como estiveram no mesmo
lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devao, que apagava em
seu corao todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
l fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda ento era de Mouros. Quando
El-Rei D. Affonso vio que no podia achar este Santo Corpo, como quer
que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar  vontade de Deos, que por
ento parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.




CAPITULO XXI[4]

_Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei
Dom Affonso Henriques sobre a priso de sua mi, e o que nisso passou
com o Bispo_.


Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mi se
enviou muito querelar ao Santo Padre da priso em que a tinha seu filho
tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e
muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de
Coimbra que ento l estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados
para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mi da priso, e no o querendo
assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.

Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar
as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo:
Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mi preza? Que fosse
bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo
algum a soltaria, porque o havia assim por mais servio de Deos e bem de
seu Reino. Quando o Bispo vio que outro recado no podia nem esperava
achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha
mandado, e ento excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.

Quando veio pela manh disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua
terra, do que sendo mui irado se foi  S, e fez entrar todos os Conegos
no Claustro em Cabido, e disse-lhes: D'entre todos me dai um Bispo.
Elles responderam todos: Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?
Disse El-Rei: Esse, que vs dizeis nunca aqui ser Bispo em todos meus
dias; mas pois assim , sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei
quem faa Bispo. Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir
um clerigo que era negro, e disse-lhe: Como has nome? O clerigo
respondeu: Hei nome Martins.--E teu pai como se chamava.--Colleima
disse elle. El-Rei perguntou-lhe: s bom clerigo, ou sabes bem o
officio da Igreja? E elle respondeu: No ha ahi melhores dous na
Hespanha, nem que o melhor saibo. Ento disse El-Rei: Tu sers Bispo
Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa. Senhor, disse elle
eu no sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer. Acudio El-Rei:
Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo
m'a digas, seno eu te cortarei a cabea com esta espada. E o clerigo,
com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.

Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe
o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a f.




CAPITULO XXII

_Aqui falla Duarte Galvo autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.


A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
assim poder parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
exorbitancia. No que certo, assim como se no pode negar cousas de tal
modo feitas serem fra do que os homens devem, assim se no pode deixar
de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fra dos outros homens; que
o Rei no  Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o corao do Rei  na
mo de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
faa nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
que seja fra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
nosso saber, nos leva muitas vezes por onde no queremos ao que mais
devemos querer, assim  de cuidar que dispensa occultamente, sempre
porem justamente, como se faa s vezes o que parece que no deve ser,
porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.

Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
muito misterio de seu servio, e exalamento da santa f; como elle seja
louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razo
pde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
assim este bispo como figura j ento prognosticada do grande misterio
que s por mo de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
navegao e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na f de
Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado ento
neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se v manifestado e comprido em
mui e muitos outros, por mo dos successores de quem aquillo fz. Assim
que era El-Rei D. Affonso posto ento nos comeos destas cousas, tendo
Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
bens e ajudas, como no creremos que dispensando com a ordem que deu
geralmente entre os homens, inspirasse no corao de El-Rei D. Affonso
que houvesse por bem fazer assim por ento aquellas cousas, e as
fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
mostrana d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
com impedimentos humanos contrarios a tal disposio e juiz divino?

Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se mataro,
por em seus corpos no consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
Sanso, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
por certo que o virtuoso corao destes no podia obrar tamanho mal como
 matar-se, seno pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
por Deos, e nas mos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas no carecero neste
mundo de alguma punio,  de cuidar que ordena Deos isso por que se
conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
fizesse, maiormente no sendo as tribulaes e penas deste mundo
condenao para o outro, mas provao ou mezinha por de um muito bom rei
fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrana e
conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
males que neste mundo nos apresso para Deos nos empuxo; pelo qual os
similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
D. Affonso Henriques, no os queiramos assim ligeiramente julgar, que
no remettamos o intrinseco delles quelle Supremo Saber do Senhor Deos,
por cuja providencia se no faz nada neste mundo sem causa, e assim no
nos far novidade nem espanto l-los nem ouvi-los.




CAPITULO XXIII

_Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a priso de
sua mi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou
em Coimbra_.


Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso
Henriques no queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua
mi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo
Padre, e toda a Crte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe
enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a f, e corrigisse de
quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Crtes dos Reis de
Hespanha, que sahio a recebe-lo mui honradamente. E vindo j o Cardeal
perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
dissero-lhe: Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em
desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes. Disse
El-Rei. Ainda me no arrependo. Elles proseguindo mais avante pela
nova do Cardeal, disseram: Senhor, todos os Reis por cujas terras vem,
segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provo para lhe beijarem
a mo. Disse ento El-Rei: No sei Cardeal nem Papa que a Coimbra
viesse, e me tendesse a mo para lh'a beijar em minha casa que lhe eu
no cortasse o brao pelo cotovello com esta espada, e disto no podia
escapar.

Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande
receio, e El-Rei no quiz sahir fra a receb-lo. O que logo o Cardeal
teve a mo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaova onde
El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: Pois,
Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma
para estas hostes que to a miude fao de dia e de noute contra Mouros?
Dom Cardeal amigo? Se vs por ventura me trazeis algo que me ds,
dai-mo, e se me no trazeis nada, tornai-vos vossa via. Senhor, disse
o Cardeal: Eu sou vindo a vs da parte do Santo Padre para vos ensinar
a f de Christo. Respondeu ento El-Rei: Certo assim temos ns outros
c bons da f nesta terra como vs l em Roma, e portanto bem sabemos
como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por
obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a gerao
humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu no mortal,
e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo so Tres Pessoas realmente
distinctas em uma s essencia. Esta f temos e cremos firmemente to bem
como vs l em Roma; pelo qual no havemos por agora mister de vs outra
doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes
mister, e de manh, se Deos quizer, eu e vs fallaremos.

Foi-se ento o Cardeal para a pousada, e mandou logo pr cevada s
bstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da
cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da
guisa que ante manh andou duas legoas.




CAPITULO XXIV

_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
escondida, cavalgou a ps elle, e do que depois de alcanado com elle
passou_.


Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manh, e disse a seus cavalleiros:
Vamos ver o Cardeal. Disseram elles: Senhor, ante manh se foi daqui,
e deixou excommungado a vs e a toda vossa terra. Disse assim El-Rei:
Sellem-me  pressa tal cavallo: e cingio sua espada, e cavalgou a
grande pressa quanto pode aps elle. Seguio-o todos, mas elle, segundo
era melancholico, no quiz esperar por ninguem, e foi alcanar o Cardeal
em um lugar que chamo a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
como chegou a elle lanou-lhe mo do cabeo, e com a outra tirou a
espada, e alou o brao com ella, dizendo: D a cabea, traidor,
querendo-lh'a cortar. Dissero quatro cavalleiros, que ahi chegaro com
elle: Senhor, por merc no queiraes tal fazer, que se matardes este
Cardeal cuidaro de todo em todo que sois herege. Disse ento El-Rei:
Por essa palavra que ora dissestes, vs lhe daes a cabea; mas pois
assim , disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vs desfazei quanto fizeste, ou
c vos ficar todavia a cabea. Senhor disse o Cardeal no me
queiraes fazer mal, e toda a cousa que vs quizerdes eu a farei de boa
mente. O que eu quero que vs, disse El-Rei faaes,  que
descommungaes quanto excommungastes, e que no leveis daqui ouro, nem
prata, nem bestas seno tres que vos abastaro, e mais que me envieis
uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vs
por agora, e porem vs deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
Irm, em prenda at que a letra venha, e se ella at quatro mezes aqui
no fr que eu lhe corte a cabea. A tudo, disse o Cardeal que lhe
aprazia, e assim ficou de fazer. Ento lhe tomou El-Rei quanta prata e
ouro lhe achou e bstas, e no lhe deixando mais de tres que levasse, e
disse-lhe: Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este  o
servio que eu de vs quero, e todavia venha a letra. E isto acabado
ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
tomei, e todas por servio de Deos contra os inimigos de nossa f; e
para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
mingoado e me faz mister para mim e para os meus. Foi-se ento o
Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se pde conhecer quanto maiores foro
seus feitos e valentia do que se acho escriptos, porque em nenhum cabo
faz a historia meno que fosse ferido nem uma s vez de tantas nem em
que lugar.

Mandou El-Rei logo um escudeiro  Corte de Roma a saber l o mais
encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes l dizio
delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lr a
esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegra de
Portugal, e o Papa soubra como hia, lhe perguntou como passra com
El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
e como lhe ficra de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe no
pertencia, smente  S apostolica, nem era dado a elle nem a outro
nenhum prometter nem ficar por tal caso.--Senhor Santo Padre! disse o
Cardeal: Eu no digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fra minha eu
lh'a deixra e dra de boa mente por escapar de suas mos; que se vs
vireis sobre vs um cavalleiro, to forte e to espantoso como elle ,
ter-vos uma mo no cabeo, e outra alada para vos cortar a cabea, e o
seu cavallo no menos alvoraado, ora com uma mo ora com outra cavando
a terra, parecendo que j me fazia a cova, vs dereis a letra e o Papado
por escapardes da morte; e portanto me no deveis de culpar. Ento lhe
outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
que elle havia mister da Crte lh'as fazia e acabava com o Papa.

E fz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
escrivo que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.




CAPITULO XXV

_Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio
tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou
Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos
Mouros_.


El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso
Anriques como j dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear
Christos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou
muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a
Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, at chegar a Leiria,
a qual combateo to fortemente, que entrou por fora matando os mais dos
Christos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de
Santa Cruz ahi leixra por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no
Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo
para suas terras, fazendo tudo esto com tanta prea, e trigana, que
El-Rei D. Affonso estando em Coimbra no teve tempo para soccorrer, e
vir  batalha com elles.

Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta
annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio
homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D.
Affonso com muita devao, e vontade tinha dado, tomou em si grande
pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear s terras de
Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em
quanto assi o Prior l andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande
pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre
ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu to
boa esquena, que por fora a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui
bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do
Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior
a quem elle dantes dera a Villa lha no guardra bem, poz em ella, e no
Castello tal guarda, como compria para sua defenso, que lha no
podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a
Coimbra.




CAPITULO XXVI

_Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e
assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
Anrique de Lara_.


Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de
Santa Cruz, e disse a El-Rei: Senhor vs dstes a esta vossa Egreja a
Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para
ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porm por nossos
peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto
nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de
andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de
Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vs, eu, e meus amigos, o feito
de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mos. El-Rei havendo sobre
esso concelho, e vendo como os negocios temporaes no convinham a tal
Habito, e religio, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que
todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal
ficasse sempre aos Reis de Portugal.

Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra,
foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D.
Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes
respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta
linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, no havia molher
nhuma de linhagem de Reis a que elle no fosse mui chegado em
parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas
virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste
cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e
quorenta e seis annos (1146) havendo j sete annos que fora levantado
por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se no
achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como
foram, se no poz aqui mais, que smente cazar El-Rei, e o tempo em que
cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo
depois para tomar a Villa de Santarem.




CAPITULO XXVII

_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.


Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miamidas entraram por
Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento
quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo
j oito annos que depois de alado por Rei reinava, o qual havia muito
que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,
por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a
milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastana de seu assento, que da
parte do Oriente a vista dos homens no se pde fartar de ver a
fermosura dos campos mui chos, abastados de muito po, correndo por
elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao
meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaoso, e ao Norte
contra os Montes, grande avondana de vinhas, e olivaes, pelo qual
falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado
assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui
magoado, e todo penoso em seu corao por a ver em poder de Mouros, e
no poder toma-la, com quanto trabalho j tomra sobre ella, porque a
Villa no era to grande de manter, nem defender, aos que dentro
estavam, nem to pequena, que se pudesse furtar de poucos, lem desto,
era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que
os Mouros chamam Alfo, porque parecia deste cabo cham, em respeito do
outro cerco que  sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente
fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christos que tinham cativos,
com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que
lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e
temerosa, porque lanavam por alli os que eram condenados por sentena 
morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo  ribeira do Tejo, e da parte
do Sul por rezo da propriedade da terra esbarrondada que seubre
chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e no se podia por alli
haver entrada ao lugar, se no por recaios, e da parte do Norte no
menos est afortalezado, pela grande altura do Monte que  pedregoso, e
aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma
maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de
muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, no podia El-Rei D.
Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,
que j de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus
lugares.

Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a
grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe
El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a
outra, demais que estes campos eram to cheos de pavez, e insoas, nem se
podiam andar, se no por barcas em tempos certos: por onde a Villa era
to grave de filhar, que seu av El-Rei D. Affonso de Castella nunca a
pudera tomar, seno por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem
Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que
parecer cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa
foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com to pouca gente, e como
quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia
tomar por fora, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta
cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande
perigo, e receo.




CAPITULO XXVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
Santarem mandou l a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
teve com os seus para ir sobre ella_.


Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre
Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava,
como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu
grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se
rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas
com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este
negocio, e conselho l, para que visse, por qual parte, se podia a Villa
furtar, e entrar mais descanado, e seguramente, o qual indo l, e
assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de
grande engenho, e esforo que era, e da tornada falou com El-Rei em
segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que
fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua
bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o
fez depois, porque era to bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto,
que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe
pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.

El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforo, porque entendia,
fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, no sendo
primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com
grande segredo, que no quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em
seu Pao, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um
dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Loureno Viegas,
e D. Gonalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e
contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer,
mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em
tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem,
nem  partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Pao, e
vindo pela rua da figueira velha chegando  Praa disse uma velha
regateira contra as outras: Quereis vs saber, o que El-Rei com
aquelles seus companheiros falou disseram ellas: Que falou? Falou
disse ella, como fossem furtar Santarem. El-Rei que passando ouvio
tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante
sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se at o Pao, e
como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: No atentastes no que
disse aquella velha, certo se algum de vs se apartra de mim, eu
cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a
cabea, sem o merecer.




CAPITULO XXIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
hora lhe foi revelado l em Frana, onde estava_.


Depois desto fez El-Rei prestes smente os seus continuos de sua caza, e
alguns poucos de Coimbra, com Gonalo Gonalves, e assi mantimentos que
lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a
falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha
grande e singular devao, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi
como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha
ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito
afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade
que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu servio, e que
esta couza tivesse em grande segredo. Ento se partio El-Rei uma segunda
feira no sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o
comunicara, e levaram o caminho to revessado, e encuberto que os Mouros
no houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em
Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e
foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse
dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em
diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada at tres dias,
que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a
seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro
saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,
tornou  quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da
li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmo bastardo
del-Rei, que fora j em Frana, ia falando com elle dos muitos milagres,
que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que ento era
vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

Ento El-Rei movido a devao pelas couzas que lhe seu irmo assi
contava, disse: Eu  honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle
Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.
Bernaldo, que vs dizeis, e eu lhe d toda esta terra para a sua Ordem
quanta vejo daqui at o mar, e que faa um Moesteiro em que Frades da
sua Ordem vivam a servio de Deos, e porque ella seja mais acrecentada.
E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,
logo lhe a elle foi revelado l em Frana, onde estava esta promessa
del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle
Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de
todalas couzas, segundo depois foi, e  agora um dos grandes, e ricos
Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelao mandou logo
tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora
revelado, ento todos cantando: Te Deum Laudamus, foram  Egreja dar
graas a Deos, e mandram logo partir certos Monges para Portugal com
livros da sua regra, e ordenana, e os que quizessem, viessem para alli,
os quaes em se comeando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram
posse pela ordem da Doao que lhe El-Rei fizera, comeando hi de viver,
segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve
que fosse sempre depois, e agora neste tempo.




CAPITULO XXX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
Santarem, e das rezes que disse a todos_.


Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira at
noite, e dahi abalaram ao sero andando toda a noite, at a mata que
est sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, ento concirou
El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe
uma falla nesta maneira: Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais
verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos
trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de
que cerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos  nossa Cidade
de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de
a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que
parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera
de mui boa vontade, porm no quiz, nem escolhi mais que vs soes, em
que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e
valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vs, tal, e
to firme confiana, que com a graa de Deos, ei j por feito o que
vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias no
menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza
tanto prazer, que j me no parece termos nisto mais pejo, que a detena
deste dia, que passe azinha, para com a graa de N. Senhor nos irmos a
noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se
esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de ns, para dez
esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem
no menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da
gente.

Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforo dos
nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai
as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta
entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiaro mais os imigos, em cuja
matana de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam
pouco ha de fazer. Vs a nhuma pessoa no perdoeis, nem deis vida, nem a
homem, nem a mulher, moo, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,
todos andem  espada, e esto fazei com grande e trigozo esforo, que
Deos ser ahi em nossa ajuda, para cada um de ns matar cento delles, e
hoje, e  menh fazem por ns orao geral o Prior, e todos os Conegos
do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que
vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que
lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro
receberem, me perdoe Deos esta mentira, que cinte lhe disse, porque lhe
esforasse os coraes, e vontades; assi meus amigos vos esforai, e
peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por
mi, e por vs, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com
vosco, que no pde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me
aparte de vs, como vejo que fareis por mi.

Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus coraes, para
ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre
si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,
apartaram-se com elle, e disseram. Senhor vossa pessoa, no ir com
nosco, que se formos vencidos, nossos imigos no havero tanto louvor,
nem que morramos delles, ou todos, no  muito de curar, salva vossa
pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria
perder-se Portugal, e leixando-vos ns entrar em tamanho perigo, seria
nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que
tendo tal Rei consentiram perde-lo. El-Rei respeitando o que lhe assi
diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: Oh
amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vs tais
Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu
desta vez em ella morra.




CAPITULO XXXI

_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
Santarem, e dos sinais que pareceram_.


Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforou muito
mais os coraes; viram uma estrella grande ardente com grande raio
correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
Villa  em vossas mos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
semelhana de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
acezas, desde o cabo at  cabea. O que esses mais sabedores antre os
Mouros, intrepetram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
Estremadura era.

Sendo j El-Rei com os seos perto da Villa, lanaram-se em um valle
encuberto, e escuso, to acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
sentimento.

Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
grande devao ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
Conigos oraes publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
devotamente dizia: Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
fora humana fizeste cair os muros de Jeric, e a rogo, e voz de Jezo,
mandaste estar quedo o Sol de seu curo contra Guabao, pesso  tua
infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
ajude sua teno, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
teu servio, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa F, e
por tal que a uja seita de Mafamede seja lanada fra della, e o teu
santo nome seja sempre hi louvado.




CAPITULO XXXII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
Santarem, e foi entrada, e tomada_.


Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam
que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais
desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando
naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre
Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas
della, que so doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem
Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto
que por onde levaram teno de escalar, achassem o contrario do que
cuidavam, porm Deos a cujo poder no pde haver contrario, lhe tornou
em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no
lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo no haver ahi
nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalo, feito
de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo
muro requerendo s velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christos
leixram-se estar quedos, em um po, que hi estava, at lhes parecer que
as velas poderiam adormecer.

E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto,
e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma
aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo
havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e
de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a
escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo
levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e no
sendo ainda mais de tres sobre o muro, no leixaram as velas de acordar,
e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como
desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda
ahi_. Respondeo ento D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e
tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro
tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a
cabea, e deitou-a aos de fra, para mais seu esforo, e seguro, e nesto
a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christos, e no sendo
ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda
correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os
Christos, vieram s cutiladas bravamente os nossos por darem comeo, e
entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais
crecesse.

D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patro de
Espanha; e El-Rei tambem do p do muro, altas vozes acodio: Santa Maria
Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos. Bradando
aos seus, que eram em cima do muro. Matai-os: andem  espada todos, que
no fique nhum, e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas
partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.

Era j tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se no podiam
entender, El-Rei disse ento aos seus mui apressado: Faamos ajuda aos
nossos, e tenhamo-nos  parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonalo
Gonalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do
ceicego, que no possam os Mouros vir por l, e tomar primeiro a entrada
da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro  nossa mingua, e
deshonra. Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu servio lhes
mudou em melhor, e mais seguro sua teno, e fadiga, que onde se
trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas
que fizeram, duas ss abastaram para tudo, porque sobiram at vinte e
cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado
que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou
El-Rei a p com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas,
com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graas a Deos.

Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo j
dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter,
acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se
acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e
moos trazidos  espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que
parecia serem alli mortos grande multido de gados. Todos os que
escaparam de no serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e
ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos,
tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de
grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos,
primeiramente D. Mem Moniz Guarda mr del-Rei, e delle mui querido,
filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmo del-Rei bastardo, e D.
Loureno Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonalo de Souza, e
outros nobres homens.




CAPITULO XXXIII

_Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e
El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.


Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mr della,
escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto
mais pde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada,
e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido,
segundo muitas vezes o corao sente dante mo, e advinha as cousas, que
seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles
mostrram no cair em couza de to longe enxergada, e tambem por desviar
El-Rei do sentido de ms novas antecipado; e disse ento El-Rei: Se
aquelle que vem  Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos
cavallos: Santarem  tomado; e se no derem de beber, Santarem 
cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro. Os de cavallo
chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de
sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomra a Villa, e
da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e
todos os Mouros houveram grande pezar, no s pela perda desta Villa,
mas de outras a que a perda desta dava cauza forada.

El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide,
leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito
prazer, onde contando  Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe
acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: Dou a Deos dos
Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas so sabidas, e
conhecidos; que no tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder
em outro tempo os muros de Jeric, como se l derribados, nem estar
quedo o Sol por rogo de Josu um dia todo, em comparao da piedade, e
misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um to forte lugar
tomado com to pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas
maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar
neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as
portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devao,
e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora,
como todo o al, ento deu no esprito quejandas agora no saberia dizer:
mas dos ousados esforos, e cometimentos, que se na tomada da Villa
fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque no  em mi dize-lo.
Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de
Santa Eyrea, lhe pozeram os Christos nome de Santarem, que vem de Santa
Eyrea Martyre que a ella veio ter.




CAPITULO XXXIV

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.


Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
disse, e no para descanar, nem repousar seu corao, que nunca cessava
de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
vitoria aproveitada com tempo d azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
Santarem at o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
que se segue.

Chegando El-Rei a terra onde Lisboa est situada, pareceo-lhe milhor
guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
D. Ferno Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por fora, se
por preitesia no o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de Frana, para guerrear os
infieis por servio de Deos, e vindo assi todos de mar em fra demandar
terra  rocha de Sintra.

Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegao de to grande
frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes j a frota toda pousava,
vieram ento a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
responderam, que eram Christos partidos de suas terras para virem
guerrear por servio de Deos os Mouros imigos de sua santa F. Nesta
frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
no falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem Frana, ao
outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

Sabendo El-Rei pelos que l mandra como eram Christos, e da teno que
traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
lhe fazer tanta merc, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
por ello em seu corao muitos louvores, pelo qual lhes enviou
mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
movimentos, e teno de suas boas vontades, que traziam para servir a
Deos, e que fossem bem certos que no sem misterio seu, e vontade, elles
eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
servir, e comprir seus desejos, e devao, e no menos accrescentar suas
honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados no
mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
guerra, e dano aos Christos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
suas Nos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
haver muitos mantimentos em abastana, e pois ao Senhor Deos aprouvera
sem irem trabalhar mais longe, traze-los to perto de tamanho azo, e
oportunidade para o que vinham buscar, no leixassem esta empresa por
Deos to querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas foras, como
elles bem veriam.

Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, at que vieram
concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade,  condio que sendo
tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora est
o Moesteiro de S. Vicente de Fra, e os Inglezes, e outras gentes
tomaram a parte do Ponente, onde ora so os Martyres. Durou o cerco
perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
cerco grandes escaramuas, e fortes combates, em que se matavam muitos
Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christos,
edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente 
honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
 chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas esto agora dentro dos
muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
Portugal, como se adiante dir, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
a Mouros, no era sua cerca maior, que quanto se ora v, e chama cerca
velha.

Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que  aos
vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
grande determinao combatida, dando o Senhor Deos tanta graa aos
Christos, que seu esforo, e gram devao de peleijar por seu servio,
passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
debalde, e Deos no servido, se a Cidade se no tomasse, e assi com este
fervor, e mui animosa determinao, poendo em fim o que os seus devotos
coraes tanto desejavam, entraram a Cidade por fora.

Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
peleijando j os Mouros com estremada desesperao, e vontade de querer
antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
paes, parentes, e amigos, e assi os Christos no com menos indinao
por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi to
grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
trazidos a ferro, que  escuzado cuidar quo poucos ficram.




CAPITULO XXXV

_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.


Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
com grande procisso se foram  Mesquita onde ora est a S edeficada, e
depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
consagrada, e instituida  honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por S Cathedral, se ao
Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
outros Capites, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
disse-lhes. Amigos bem sabeis como concertmos se nos Deos desse a
Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
de a tomarmos, muitos louvores, e graas lhe sejam dadas, vs escolhei,
e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vo partir a Cidade, e assi
todalas cousas que dentro, e fra della houver, e forem achadas.

Vendo esto aquelles Capites, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinao delles foi, que pois
partiram de suas terras, e foram alli vindos, s com teno de servir a
Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, no queriam haver
Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais no lhes parecendo
cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
de Christos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
izentamente, e s suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
com os Capites, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
se espediram delle com muita sua graa, e os que ficram para morarem na
terra escolheram para sua povorao vivenda a Atouguia, e Lourinh, e
Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
daquelles que a povoaram havia nome Rolim, no que por esso fosse Childe
Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
frota vinha, o qual no  de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
com rezo se devera partir com elle ficando na terra, mas  bem de crer,
que fosse outro algum Capito Fidalgo seu parente, com que folgassem de
ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desento, e hoje em
dia seus sucessores, bem mostrram sua cavallaria, e fidalguia com muita
honra, e servios feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
destas gentes povoaram Almada, e pela nomeao deste nome se mostra que
foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
linguagem Ingreza , vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
nome, lhe chamram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
de um Cavalleiro Alemo por nome Anrique, sendo muita razo, que os
Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
gloria por Deos manifestada, se faa louvada meno, pois se faz de seus
temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
mereamos, no chega  gloria, e louvor do premio, que no outro ante
Deos se alcana.




CAPITULO XXXVI

_Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemo que morreo
quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.


Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos
naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se
a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora 
chamada S. Vicente de Fra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemo
chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto
naquelle combate peleijando mui esforadamente, e sendo assi enterrado
naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos  mui preciosa a morte dos seus
Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de
Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro
Anrique muitos milagres de que alguns smente por mostra brevemente
diremos.

Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e
mudos de seu nacimento, e indo um dia  sepultura daquelle Cavalleiro
deitaram-se apar delle com grande devao, pedindo em suas vontades, que
por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e
misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos,
e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos
de Romeiro, trazendo na mo um bordo de palma, e falou quelles
mancebos, dizendo-lhe: Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi,
e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui
jazemos, ganhastes do Senhor Deos graa, a qual  com vosco. E dito
esto desapareceo; elles ento acordaram, e achando-se sos de todo,
ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara,
comearam a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera
pelos merecimentos deste Cavalleiro.

E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graas, e
louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta,
por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro
Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de
Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas
vezes, que quellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre
com muita affeio, e saudosa lembrana deste Santo Cavalleiro Anrique.




CAPITULO XXXVII

_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
de Lisboa muito ferido morrera_.


Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
dizendo-lhe: Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christos enterraram o
meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, no
deve ser apartado na sepultura. Do que aquelle homem bom nada curou, e
vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestao to pouco curou
desso, como da primeira, ento lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaando-o com
palavras de grande medo, se logo no fosse comprir o que por tantas
vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
levantou logo de noite, e foi com candeias  sepultura onde jazia o
Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si s e lhe fez uma cova
a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
veio pela menh, achou-se o velho to so, e sem canasso do trabalho da
noite passado, sendo impossivel por sua canada idade pode-lo fazer,
como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
todos muitos louvores a N. Senhor.




CAPITULO XXXVIII

_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
Deos por elle fazia_.


Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondana de sua infinda
benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
servio deste Cavalleiro Anrique, appareceo  cabeceira de sua sepultura
uma palma semelhante quella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
mos; assi comeou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo to grande, e famoso milagre,
louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
deitavam ao colo logo eram sos a essa hora, de qualquer infermidade que
tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
aquelle p, e assi mesmo se achavam logo sos das dores que tinham, e
tanta foi a continuao da muita gente que vinha tomar daquella palma,
que a pouco tempo no ficou nada della sobre a terra, at por no porem
boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
tinha El-Rei nelles mui grande devao, que se sentia em si algum
abalamento de doena deitava-se em orao sobre seus jazigos, e
achava-se logo remediado.




CAPITULO XXXIX

_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e
quem foi o primeiro Bispo della_.


Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle
era, e disse-lhe: Amigos meus eu at agora como vistes depois de tomada
esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens
temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezo, no em dignidade, nem
em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles,
que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido,
segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza
da condio humana sem o temporal no pde vagar no espiritual, agora 
muita rezo que no tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos,
e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e
regedor da Egreja Cathedral. Louvaram todos o que El-Rei dizia, e ento
foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito
boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei
logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da
eleio do Bispo, que por servio de Deos novamente fizera, pedindo a
Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e
outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdes,
indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado
veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: Bispo estas
duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo ns ainda esta
Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N.
Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas
comeando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora. E ento o dotou
de muitas possees, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa
viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem
mais azo, e devao de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes
indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa
Maria dos Martyres.




CAPITULO XL

_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
Vicente de Fra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.


E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de
Fra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capelles
Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a
Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com
elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem
um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei
sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle
dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe
que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser
caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido;
aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo
para o Moesteiro.

Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da
Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro no tivesse nhum especial
poder, o que no querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os
seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez ento Prior um Conego
Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi
tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi
vaguanos, e fra de Suprior, por muita devao que tragam, e presumam
no ho graa para durar  ordem, e servio de Deus, determinou de
mandar ao Moesteiro do Banho que  da Ordem dos das sobrepelizes por um
Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual
assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei
ento mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia
nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a
poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro
Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que
estas cousas que dissemos fossem feitas por espao de tempos, em vida
del-Rei D. Affonso, ns contamo-las aqui juntas por pertencerem  tomada
de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo
seguintes  sua tomada.




CAPITULO XLI

_Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura,
e Alem do Tejo_.


Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se j disse,
logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e
quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e
Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram
de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve
assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas
gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruio em os Mouros,
tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares
at chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros
pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que
El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de
combatido e tomado por fora destruiram o logar, e deixaram-no, matando
muitos Christos, e levando muitos delles cativos.

El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, no se quiz
levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo ento
fortemente com engenhos, e artilharias, at que a tomou por fora, e
pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos
os Mouros de Beja andaram  espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja
tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155).
Feita assi esta destruio nos Mouros, e havidas estas vitorias nas
terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui
bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem
defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande
prazer, pelas mercs, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos
contra Mouros dera.




CAPITULO XLII

_Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona
Mofalda_.


Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido
cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um s
filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento
de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforado Cavalleiro,
e valente, e depois que Reinou, no menos bom, virtuoso, e esforado
Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu
logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que
foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a
outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lio; a
terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe
Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito
cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde
D. Reymondo de Barcelona viesse  Cidade de Tuye, que era del-Rei D.
Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Ento se
partio El-Rei para l com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros,
levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegram a Tuye dez
dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D.
Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para
elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui
luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados
Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam
com elle D. Joo Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D.
Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e
o Conde D. Vasco, D. Gonalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e
outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o
Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e
gazalhado, trazendo-o consigo at o Pao, alli descavalgram, e se foram
logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez
grande reverencia  Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido,
e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para
onde haviam de comer.

Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com
elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas,
e desque acabram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram
grandes danas. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas
pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle no quiz, se no que
se espedice s da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle at porta do
Pao onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha j ahi cavallo para ir com o
Conde; mas o Conde no o quiz consentir em nhuma maneira; ficou ento
El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com
o Conde at sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que
dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em
quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, comeram a fallar no
trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o
concertar at dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento;
no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros
de uma parte e da outra, foi lida  Rainha, e Ifantes uma Procurao de
D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu
nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D.
Affonso. E vista a Procurao, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o
Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mo, e assi a Ifante, e
ento os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como
manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua
filha ao Conde, que a levasse consigo at onde houvessem de ser feitas
as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e
Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde,
e aos seus fez mercs de modo que elle, e todos os que com elle vinham
partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante
consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua
gente, e Corte.




CAPITULO XLIII

_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.


Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
aquelles lugares, que ganhra aos Mouros, provendo-os das couzas, que
lhe compriam para sua defeno, como fossem governados em justia, e
estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
cinco annos (1165) havendo j El-Rei setenta e um de sua idade, veio
recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
Castello eram mui frtes, filhou-a por fora, e desque teve a Villa
socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
Cavalleiros, e alguma gente de p, e besteiros, e chegando a Palmella, e
estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
sessenta mil de p, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christos.
Teve-se El-Rei traz um cabeo, e vendo os que eram com elle tanta gente,
comeram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
Dazeito, e tomassem em ella algum lugar frte para se deffenderem, at
ir recado aos do arraial.

El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multido dos
Mouros; porm esforando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
seus em esta maneira: Que esmaio  este amigos, ou que nova
desconfiana do Senhor Deos, nem que vedes vs agora de novo, para tanta
torvao; estes muitos, que vedes so os que vs muito menos, dos que
ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos ns peleijando, e
vencendo,  cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
Mundo, para todo em uma s hora, fugindo perdermos, certo que
ouvindo-vos, o que ouo, se vos a todos no conhecera, podera mal
cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
campo Dourique, e em outros lugares, no ponhaes ante vs meus amigos,
quantos mais so, que ns, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
quem peleijamos, so muito menos que ns; o medo, em que os Deos j poz
para ns maiormente se dermos nelles de sobresalto, far que lhes
pareamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
que so, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por ns sempre
contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforo contra ns. Ora havei
Cavalleiros, que mingua de f, mingua de crena, nos encurta o esforo,
mal concorda no corao de Christo esmaio com ardideza, mal no Christo
desconfiana com f, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
poucos so os que peleijam, no tem hoje estes nossos imigos em seus
coraes, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem no ficar destroo,
nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
como prezentes ante si no ponham, este de agora, que com a graa de
Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, no vos venham por
sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
contrario, e pois por tantas, e to milagrosas vitorias, que sobre nosso
poder, por sua piedade nos deu, temos to sabido nada ser a elle
impossivel, no devemos nada temer, vamos logo com sua graa, que nos
sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendo, e ver
se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
ordenou para mostrar mais seu gram poder, com to poucos me aqui
acertasse, eu determino por seu servio, hoje neste dia, de vencedor, ou
de morto me no partir do campo.

Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle to grande
confiana, e determinao, todos mui esforados com suas palavras, e
esforo, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
no faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
logo nelles. Vinham j pelo infesto acima, a cerca, e no haviam mais
que tardar. Abalou ento El-Rei  pressa com grande corao, e esforo,
e todos com elle, em se mostrando fez dar s trombetas, e foram ferir
nos primeiros to rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
que seria muita mais gente, foi o medo em elles to grande, que
comearam logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande corao,
e esforo ajudado por nosso Senhor, por cujo servio se aventurava.
Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que l ficaram, que logo fossem
todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
boa andana, que Deos dera a El-Rei, e no menos tristes, por se no
acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
desbarato dos seus Mouros, e os Christos juntos contra si, tendo
perdida a esperana do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
dello, e assi houve a Villa de Palmella.




CAPITULO XLIV

_Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D.
Fernando de Lio seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D.
Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.


Sendo El-Rei D. Fernando de Lio casado com Dona Urraca, filha del-Rei
D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se
della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem
sem dispensao, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que
se fez desta Rainha Dona Urraca no achamos escrito, salvo, que houve
della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi
Rei de Lio. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, ps em
sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por
ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lio, e ajuntando suas gentes
para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pes, e vinhas, e
fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os
Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que
El-Rei D. Affonso de Portugal tomra Badalhouse, enviou lhe a dizer por
seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu
Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha no havia de leixar, e
ento o dezafiram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lio
ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com
elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irm chamada Dona Urraca
Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando.
Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo ento ambos
vassallos deste Rei D. Fernando de Lio, dezavindos del-Rei de Castella,
e vindo j acerca disseram a El-Rei D. Affonso.

Senhor, aqui  El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi ,
disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem
buscar, bem  que nos achem l fra em campo comsigo. Ento se armram
todos, e sahiram fra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso
como os seus se embaraavam j com D. Diogo o bom, e com D. Fernando
Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e
El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fra da
Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho no ficra
bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo
topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a
perna esquerda del Rei, o qual no deixou por esto de chegar aos seus a
ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, no podendo mais sofrer-se
cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de
quebrar de todo, de modo que os seus no poderam mais levanta-lo, nem
poer a cavallo, e ento Ferno Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi
dizer a El-Rei D. Fernando: Senhor ali js El-Rei D. Affonso com uma
perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas
mos do que eu cuidava.

Chegou ento El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o
viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de
ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; no se podendo
valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam  Villa,
entrram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se j o
dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo
tudo falece, como falece o Capito. Levou assi El-Rei D. Fernando
consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem penar da
perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si,
fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse
a terra da Corunha, que  do Minho, at o Castello da Lobeira, uma legoa
lem de ponte Vedra, e porcima pelos chos de Castella, aquella terra,
que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no comeo da Estoria se
disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se
tornasse a sua prizo; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que
lhe prazia.

Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem,
El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui
bem so da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por no tornar a
menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis
antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis
annos (1166), dia Dasseno, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e
discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo
menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna,
foi sempre atribuido ao que sua mi lhe rogou, quando a poz em prizo,
segundo atraz nesta Estoria se contem.




CAPITULO XLV

_Em que fala, e amoesta Duarte Galvo Autor, quanto se devem escuzar as
maldies dos pais, e mis aos filhos_.


O pezar que me faz, e a todos far vendo este dezastre del-Rei D.
Affonso Anriques, me faz falar contra as maldies dos pais, e mis, que
ameude se lanam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com
muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou
Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o
nome em que se conclue, e encerra a maior obrigao e ajuntamento de
reverencia, e amor que pde haver, antre ns, nem de ns para elle, por
onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mis,
segundo por Deos lhe  distintamente mandada escuzar de os provocar a
semilhantes maldies, antes recea-las muito, e teme las, por injustas
que sejam, como se diz das excommunhes, que desprezando-as haver por
ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que
mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos,
porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo
ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter
injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na
terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem
os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mis, quanto a lei de justia,
e ordenana de Deos, lho devem ainda por grande obrigao de natural
reverencia, e amor.

E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes
maldies, quanto mais idade, e entender tem, concirando que so homens,
e pais de homens, e que elles poderiam j fazer outro tanto a seus pais,
e mis, maiormente que os erros dos filhos no podem ser to danosos,
que muito mais no sejam as maldies dos pais, lanando-se sempre por
humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada
ira, no procedesse, no haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e
mis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho:
M morte te mate, vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam,
e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos,
leixemos a vingana a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de
que aos outros devemos tomar que so pais, e filhos, os quais toda a
rezo obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas
paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com
elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa to crime como 
desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como  aos
filhos, que lhe deu, por beno, fazerem filhos de maldio, a qual por
esto s tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para
fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo,
em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como
filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro no possamos,
se no pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos
que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e
estrangeiro, e no del-Rei D. Affonso, que sendo to virtuoso, e todos
seus feitos sempre com virtuosa teno, e de servio de Deos, no leixou
maldio de mi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na
fazenda, e na honra, a filho to virtuoso.




CAPITULO XLVI

_Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
os desbaratou e venceo_.


Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens,
e outras horas em carros como j em cima dissemos, veio-se para
Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da
perna, e da preitezia e menajem que ficra com El-Rei D. Fernando de
Lio por cuja causa, no cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa
poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias,
tomaram os Mouros ousadia, e esperana grande de se vingarem, e fazer
grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou
grande multido de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e
atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por
onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava,
destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christos s barreiras a
escaramuar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

El Rei D. Affonso por no poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era
mui enojado em seu corao acostumado a vencer nos campos, e cercar, e
no ser cercado, pelo qual determinando de sair fra em carro, a lhes
dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era
bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros,
concelhos ambos muito fra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e
por tanto lhe respondeo, e disse: Amigos no cumpre agora ver se
sairemos, ou no; mas  tempo de tomardes tal esforo para peleijar, que
eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa
vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fr como sempre fiz,
e se pela ventura alguns tiverem receo, o que no cuido, fiquem na
Villa, e no vo l que eu no poderei sofrer j mais tanta vergonha.
Ento acordaram que era bem sair fra em toda maneira, e estando j
prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes
havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso
como El-Rei D. Fernando de Lio seu genro, vinha com muita gente, o qual
por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se
quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezo estar delle
queixoso, por buscar azo de no cumprir a menagem que lhe tinha feito de
tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, no olhando nada
desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado
El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar,
e andando ento a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos,
(1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como
El-Rei D. Fernando de Lio era acerca, e que em poucos dias seria com
elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezo
da menagem a que no fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou
de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte
quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda
del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio
ento El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e
depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de
muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.

Assi se foram os Mouros destroados fogindo quanto mais podiam. El-Rei
D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D.
Affonso descercado, no quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e
esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que
tomasse prazer, e nada receasse delle, que no abalra, nem vinha a
outra cousa, se no s por o descercar, e pois os Mouros j eram idos,
que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello
muitas graas, e  que desque foi prezo na batalha que houve com este D.
Fernando de Lio seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver
prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes
soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, no podia estar que
mui enxergadamente se no entristecesse, mas porque deste tempo at que
o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, no achamos outra cousa que
de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui
trazido.




CAPITULO XLVII

_Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o
foram buscar_.


J antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques
foi por si com grande cuidado, e devao, buscar o Corpo de S. Vicente,
e no o pde achar havendo j vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa
era em poder de Christos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque
tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram
feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e
trez annos, (1173) ento, certos homens de Lisboa, com grande devao,
vendo que j podiam ir seguros quelle lugar onde o Corpo de Vicente
jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e
foram-se l sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e
desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em orao, mui devotamente a
Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso
Martyr; a poz esto comearam a cavar, e aprouve a N. Senhor que o
acharam, e dando-lhe muitas graas e louvores, o tomaram com muito
prazer, e devao, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli
mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em
desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o
tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento
tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda
sua vista, e foi so como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes
merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado,
e perigoso, e reafa muito grande, foi visto to cho e mano fra do
acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fra em qualquer outro
lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com
muito prazer a salvamento.




CAPITULO XLVIII

_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na S de Lisboa_.


Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, no quizeram logo tirar
fra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por fora, e
aguardando a noite levaram-no escondidamente  Egreja de Santa Justa, o
qual sendo logo sabido ao outro dia pela menh, segundo Deos no quer
sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
era bem de o poerem em S. Vicente de Fra, e outros, que mais rezo era
estar na S, e neste debate D. Gonalo Viegas Adiantado mr de
Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quo errada cousa era,
arguir-se mal e arroido sobre cousa to santa e devota, que mais com
rezo deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroo da gente, e que esperassem
at que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua merc fosse nesso. D.
Roberto Daio da S homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a S, que era a
principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
aprouve dar lho, e ento os da S, com toda outra Clerezia mui ledos,
foram por elle, e o levaram mui honradamente em procisso, acompanhado
de toda a gente da Cidade dando todos muitas graas, e louvores a N.
Senhor, e assi foi trazido, e posto na S, onde ora jaz. Os Conegos de
S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
santo Corpo, mas no lhe foram dadas.

Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
honrar seu Reino com to preciosas Reliquias, mandando outra vez quelle
lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
ainda l alguma cousa delle. Foram l, e feita toda diligencia, acharam
ainda um pedao do testo da cabea, e pedaos pequenos desatandados do
Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na S, o Corvo o
qual, segundo j dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado s
aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
depois de posto na S, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
quem o no queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mr,
e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moo chamado
Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
ento seu pai do moo quando vio tamanho pezar ao moo seu filho,
lanou-se em orao de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
Vicente, e foi logo o moo so de todo, como dantes era; e da li nunca
mais ninguem ouzou de fazer nojo quelle Corvo, o qual foi hi visto por
muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).




CAPITULO XLIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho
seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezes que lhe sobre
ello disse_.


Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com
El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do
Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.
Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra
cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento
da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que lem desto seria
cousa honroza, se com a defeno della, se asss se ganharem mais alguns
Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns
do seu Concelho lhe disse assi: Filho tu sabes bem quanto trabalho
tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com
El-Rei Albojaque j ser acabada, hei por certo que os Mouros, no
estaro quedos, e guerrearo esses Lugares que delles ganhei em
Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e j me foi
falado e requerido que entendesse na defenso delles, pelo qual eu
cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por
sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande l em
pessoa, e esto por duas rezes, a primeira, porque sabes que est meu
cazo de no poder cavalgar em besta por no ir s Cortes del-Rei D.
Fernando, o que eu no fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo
traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a
segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hs de
ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos
entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer,  bem que j agora
commeces, e o faas.

Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as
mos, dizendo: Senhor, eu vos tenho em mui grande merc esto, que me
encarregais, e espero em a graa do Senhor Deos com os bons Senhores e
Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu servio, e vossa vontade,
e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja
vossa merc querer que se faa logo; porque quanto mais cedo for tanto
porei a terra em milhor estado, e defenso. El-Rei respondeo que lhe
prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e
quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir
com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;
esso mesmo fizeram ordenanas, e Regimentos que o Ifante havia de ter no
feito da guerra, que havia de comear.




CAPITULO L

_Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.


Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi
assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de
asss fermoza, e ataviada gente de armas, e de bsteiros, e pies, e
outros todos com grande mostra de corao, e mui ledos para ir com o
Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em
tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de
Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus
Paos a p, e veio at ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros
Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dlem, e chegando ao
meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: Senhor esto e assaz de vossa
vinda, no tome vossa merc mais trabalho, mas lanai-nos vossa beno,
e com a graa de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e
Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que
sempre endereou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos
ajudar em tal modo que vosso corao seja ledo, e descanado. Respondeo
El-Rei: Filho vs fazeis muito bem, mas crede que me  to grave vossa
partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter
continos comigo, que ainda que vs, e elles fosseis a cavallo e eu
sempre a p, parece-me que no enfadaria, nem cansaria tanto, que muito
mais no faa, como faz este apartamento; mas pois  forado, pesso a N.
Senhor em cujo servio his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda
de guiza, que por vs seja sua santa F acrecentada, e seus imigos
lanados fra da terra, que nossos antecessores ganharam. Esto assi
passado, quantos ahi estavam foram beijar a mo a El-Rei, e se
despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio
beijando-lhe as mos. El-Rei lhe lanou sua beno, e se tornou para a
Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.




CAPITULO LI

_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
guerreando os Mouros at Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
os Mouros peleijasse_.


Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o
Ifante a todos que lhe parecia bem no irem juntos, e que para irem mais
folgados, fosse cada um  sua vontade, por onde mais quizesse, porm que
se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de
Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e
passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a
cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que
chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e
todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por
sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar
folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros
nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,
pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Ento mandou
chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia
as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam
tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de
gente, que para sua defenso lhe fazia mister.

O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados
de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)
e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se comearam
de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os
Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,
contra Sevilha, at que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e
Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui
desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de
Mouros, nunca fora guerreada de Christos, quanto mais ouzarem de chegar
to a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e
pozeram-se todos  saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os
Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando
muitas graas a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir
contra aquelles infieis seus imigos, mandou ento chamar os Grandes, e
outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: Quero-vos
amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu fao.
Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos esto
aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o
Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mos o porque viemos, cousa
com que elle seja mui servido, e vs grandemente honrados, que por eu
ser novo nestas cousas, e vs que comigo vindes Cavalleiros, em ellas
to provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,
pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de
menh vamos a elles, e assi a ordenana que a nossa gente hade levar,
que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade
fazer, nem meter-vos esforo para esso, conhecendo-vos que sois tais, e
que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,
e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que
soies mais para dar desso ensino e esforo, que toma-lo de ninguem; hei
por asss lembrar-vos, que ponhaes em vossos coraes o mais que tudo
vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a F de N.
Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de ns filhos, a elle
que nos tanto amou, a elle em cujo servio se no perde trabalho: nos
encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em ns o querer,
nos cumpra o poder que faamos com sua graa de menh, por onde corram
de ns taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descanado, e vejam
todos que para parecer eu seu filho, e vs seus Cavalleiros, e amigos,
no faz mister ser elle presente. Com estas palavras do Ifante folgaram
todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: Senhor, ns todos
somos vossos, e por servio de Deos e vosso faremos neste feito quanto
em ns for, e vs podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua
ajuda vs ganheis muita honra para vs, e para ns, e desagora ordenai
logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em
que lugar ha de ir, e estar.




CAPITULO LII

_Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.


Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o
haverem de fazer, e ordenram de toda sua gente cinco azes, a primeira
fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira
reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e
trezentos de cavallo, a fra os corredores que agora chamam ginetes. O
Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram
hi com elle D. Joo Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonalo, e D. Pero
Paes Alferes, que ento naquella ida servio o Ifante de seu officio, e
D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonalo de
Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda,
com outros seiscentos a D. Loureno Viegas, a az direita levava D. Pedro
das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde
D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de p
pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros
quizessem dar nella, e da gente de p no lemos conto, nem repartio
acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia,
foram metidos mil e quinhentos homens de ps. s azes foram dados dous
mil, e os mais com a carruagem como dito .

Tanto que essa ordenana foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que
fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque
naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os
Condestabres. Ao outro dia ante menh, fez o Ifante dar s trombetas,
foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenram suas azes,
e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e
assi todos os outros, e foram todos em ordem at chegarem aonde os
Mouros estavam, e logo sem mais detena foram dar, e ferir em elles. Os
Mouros receberam-nos mui esforadamente; ao juntar houve logo muitos
derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo
campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os
Mouros carregaram tantos delles, que se no fora soccorrida, em modo
algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonalo de Souza, e D. Loureno
Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a
gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D.
Ramiro, Capites das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e
antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui
brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o
esforado peleijar dos nossos, que por fora fizeram juntar-se onde
estava o pendo de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem
mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lana como de espada
peleijando mui esforadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo
D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendo de
Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes
que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e
leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo
parece custumada travou no Alferes, e como era foroso deu com elle, e
com o pendo em terra.

Nesto os Mouros, que com algum esforo, ou vergonha de ver ainda o seu
pendo levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado
comearam todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles
matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a
pressa nos Mouros, que no poderam cerrar a porta, e os nossos entraram
de volta com elles. Os Mouros que tinham j a ponte passada, por
tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalados dos nossos, deram
tanto empacho e torvao aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e
despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matana, e em
muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros,
feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue,
segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra
muito maior. O Ifante feito este to grande desbarato dos Mouros,
tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual
acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e
outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e
outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos
foram delle mui contentes.




CAPITULO LIII

_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.


Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
defeno, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
nella ficaram alguns com medo de a no poderem defender, se partiram
della para outros lugares de Christos, e os Mouros sabendo certo como a
Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
no tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
chegaram a pr cerco sobre ella. Os poucos Christos que dentro estavam,
corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
esforo, que os imigos a no poderam tomar to de ligeiro, como traziam
por certo, e assi por sua multido, e os defensores da Villa serem
poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
fazendo conta, que ainda que a no tomassem, logo em chegando a
tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despao, e
comearam trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
cumpria.

Quando os de dentro da Villa viram a determinao, e assento dos Mouros,
tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
cavallo, o qual como foi noite saio-se fra da Villa com tal tento, e
avizo, que no houve sentimento, nem torvao dos do arrayal, e a carta
que levava era que os da Villa se encomendavam em sua merc, e lhe
pediam que lhes acorresse em to grande fadiga e trabalho em que
estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruio nos Mouros
por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
que para andarem correndo a terra, no era bem perder-se tal Villa, como
era Beja. Ento pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente at
mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de ps
elle o milhor que podessem direito a Beja.

Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: Que cousa
Senhor ser irdes vs em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
que me eu no ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, at agora me sempre
achei. O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Ento ficou D. Pero
Paes com a gente, e deu de sua mo a bandeira a um seu sobrinho, por
nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
Lugares, e caminhos, que os Mouro no poderam haver novas delles, e
passaram pelo vo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
Mertola, tinham escuitas no vo, e vieram dar novas  Villa, e porque o
Ifante passava ao Sero, e a Villa era mui forte, no temeram os Mouros
de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de p, e de cavallo
fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo vo das Asenhas
passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo no ser outrem
se no o Ifante D. Sancho.

Havido este recado, foi muito grande alvoroo no arraial dos Mouros, e
uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
aguardarem, e peleijarem com os Christos. O Ifante tanto que veio aos
chos do Campo Dourique, disse aos seus, que se no trigassem a andar
por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
mao, e vinham trabalhados, e por causa desso no poderam chegar  vista
dos imigos se no a ora de Tera. Tinham os Capites dos arraiaes,
especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandram logo
essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornram logo  pressa com
elle a seus Capites, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
arraial, por escuzarem vergonha de no esperar, mostraram grande
esforo, e teno de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a coraes
encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
incerto alvoroo dos Mouros deu espao para o Ifante poder chegar sem
elles poderem al fazer, se no esperar, e sair-se fra do arraial, to
acerca viam j o p da gente dos Christos.

Quando o Ifante chegou estavam j os Mouros com suas azes prestes, e sem
mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espao
que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros no poderam
sofrer o grande esforo, e combate dos nossos, e comeram a fugir, e
foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
dous Capites Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
seu arraial fra da Villa, sem querer entrar nella, at que chegasse a
outra gente sua, que elle mandra que o seguisse. Os da Villa sairam
fra, e trouxeram-lhe servios desso que podiam. O Ifante os recebeo com
muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforo, e
bondade que tiveram em defender a Villa, sendo to poucos.

Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dasceno de N.
Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almanor,
mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixar a
Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
Mouros de toda aquella terra, e contar de uma entrada que El-Rei Guami
Mouro, e um seu irmo fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
prezo em Porto de Ms, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
Roupinho.




CAPITULO LIV

_Como os Mouros cercaram Porto de Ms, e foram desbaratados por D. Fuas
Roupinho Alcaide do Castello_.


Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
de socego, parecendo-lhes que com a occupao que l teria, elles podiam
a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora 
Caceres, e Valena, que chamavam Guami, e um seu irmo com soma de gente
das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christos,
at chegar a Porto de Ms. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
se no saia se no para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
roio de Porto de Ms, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinho de gente,
e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Ms, e vendo o
Castello to pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate to
profiado, que dureu at noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
feridos, e assi da parte dos Christos houve danno asss, e durando o
combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

       *       *       *       *       *

Amigos posto que ns aqui sejamos muitos, porm eu vos rogo, que vos
rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazer a
Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vo, e vs sede certos,
que os que eu leixei no Castello so taes, que se defendero bem, ainda
que creio que os Mouros de os ter em pouco, no cessaro do combate at
que a noite os desparta, e esso  o que eu mais desejo, porque ento do
caminho e combate mais canados se lanaro a repouzar, e dormir, e ns
ante menh daremos nelles, e os desbarataremos.

E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
ao sono, e no menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraarem antre si, e
desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmo com elle, e outros
muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
e gazalhado, e mandou meter em prizo a El-Rei Guami, e todos os que com
elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
batalha fez grandes mercs, como cabe aos Principes fazer por servios,
e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Ms aos vinte dias do mez de Maio,
era de mil cento e oitenta annos (1180).




CAPITULO LV

_Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
tomou delles nove Gals_.


Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou
aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi
andavam nove Gals de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome
Joo Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella
Costa, que fosse sua merc manda-lo remediar. El Rei havendo este
recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e
fizesse armar Gals, e que fosse elle por Capito, para ir peleijar com
os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus
officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e
outra para a Cidade, de como o mandava l para armar aquella frota, e
por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto
que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa,
e como chegou deu a Carta del-Rei  Cidade, e as outras aos officiaes
daquelle carrego, e logo  pressa se deu ordem para se armar a frota, e
como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de
Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal
continuadamente, continuavam mais as Gals dos Mouros, e faziam sua
guerra, as quais havendo l nova da Armada que se fazia, vinham tambem
contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo,
houveram vista da frota dos Christos, e sem mais detena se foram
aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que
os Mouros foram desbaratados, e todas suas Gals tomadas. Esto foi na
era j dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho.
Tornou-se ento D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a
qual como era rezo foi recebido.




CAPITULO LVI

_Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei
D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.


Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo
muitas vezes, pequena boa andana engana para dezaventura maior,
escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde
o mandra, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao
redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Gals
para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu servio, elle
os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em
servio, e que assi o fizesse, escrevendo  Cidade sobre esso, e visto o
recado del-Rei armaram logo uma soma de Gals, e D. Fuas, foi Almirante,
e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar
que hi fizessem nada achamos escrito, e ento D. Fuas teve Conselho do
que fariam, e acordram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam
Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes
com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornram para
Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e
contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados,
com no menos alvoroo, sem tento, o que no consente rezo ser sempre
ditozo, se fizeram prestes para tornarem l.

Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de
mais adiante, mandram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e
tambem das partes da Espanha, e ajuntram cincoenta e quatro Gals, e D.
Fuas no sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois
achou-se l com Gals dos Mouros, e pela grande corrente lanaram-se as
nossas Gals sobre a frota dos imigos, e no poderam os nossos al fazer,
se no peleijarem com elles, e assi aferrram, e peleijaram muito
espao. Mas pela grande desigualana, e os Mouros serem muitos mais
foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles
o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era
de mil e cento e oitenta annos (1180).




CAPITULO LVII

_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
que veio a soccorrer seu filho_.


Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
sua defenso, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dquem, e dalm mar, e segundo
diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, no era em
memoria at aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fs, e outros Reis
Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se no acham escritos, e
vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
um Domingo, dia de S. Joo Bautista, sete dias por andar de Junho, era
do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e 
Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
de Pompeo, e  Tera feira se ajuntram todos na Redinha, e  Quarta
feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentram seu raial, e esta conta
da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
quer que um letreiro dos que esto no Convento de Thomar, desvaire algum
tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de p, poderia passado o
Tejo de tanta multido apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, no tendo
comsigo gente, que com rezo podesse peleijar com tanta multido de
Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
defender, e segundo achamos escrito ainda ento a maior parte de
Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
de Alfam, at Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
a defenso saio-se fra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
redor, e ento repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
lhe pareceo haver de ser mr pressa, e ao outro dia pela menh Quinta
feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
aquella Estoria achada em Santa Cruz, como j disse, e em chegando,
tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
desprezo, e fez logo dar s trombetas, e mover toda sua gente, e
combater o palanque.

Foi o combate to forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
arravalde de fra do palanque at torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
maior praa, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
sofreram os Christos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
desde pela menh at noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto  pressa, que aos tres
dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Ms.
Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso no leixram por esso
seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
ao quinto dia foi o Ifante e os seus to afincados dos Mouros, e postos
em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
dos Christos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
todo mui esforadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que no
foram entrados, e j no tinham modo de defenso, se no desemparar o
palanque, e acolher-se cerca; mas o Senhor Deos, que  poderoso em
todalas cousas, quando se os homens em ellas no sabem, nem podem valer,
ento acode elle com sua ajuda, porque se ento mais conhea, e poz tal
medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
comearam a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
desmandar-se, quando se menos pde reger, e os Christos vendo os raiaes
dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de p do
Ifante contra elles, e os Mouros se afastram para um Lugar, que se
chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
todos a cavallo, e juntos com El-Rei dram nos Mouros, fazendo nelles
grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus to grande desbarato.

Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
seus, e achram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
entrram na Villa mui ledos, dando muitas graas e louvores a N. Senhor.
Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porm
por ainda ficarem mui muitos de tanta multido foram poer arraial acerca
Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
lhe poderem empecer, e depois se alaram dali, e foram-se a Aruda, e
destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a no podiam tomar, houveram
Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e ento se
partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.




CAPITULO LVIII

_Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira,
com D. Felippe Conde de Frandes_.


Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve
alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o
Infante D. Sancho seu filho, e como quer que j tenhamos dito,
juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas
cazara com El-Rei D. Fernando de Lio, e outra com o Conde D. Reymon de
Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita
de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu
cazamento, e de suas Irms passante de vinte e cinco annos, em que
parece, que ainda esta Dona Tareja no era nacida, ou havia pouco que
nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, no achamos escrito
cousa para dizer de certo, smente que desta tornada del-Rei D. Affonso,
de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona
Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e
outra muito nobre gente, e bem luzida, e Nos mui bem guarnecidas, 
Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se
com sua filha para l, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens
principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela
Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com
muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeio, e
assi a Ifante por novas da saude, e disposio do Conde, e de seu
estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito
honradamente, mandando com ella em outras Nos dos seus naturaes alguns
Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de
linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte
e tres annos.




CAPITULO LIX

_De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
escritas_.


Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre  temporam, por
tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
visse falecer. To conversado, e affeioado trazia o esprito na materia
de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doena o
Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
antigos em valentia de foras, e corao mui grande, nem que na
Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
Mouros, cujos mui notaveis feitos no  duvida acharem-se muito menos
postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
sua Estoria se pode asss comprehender, porque em ella se no faz meno
de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
tempo.

Teve este muito esforado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforo de Julio Cesar, e a
segurana mui confiada de Publio Cipio Africano, em tanto gro, que
todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse j feito, e o que
mui deficil se acha sendo to activo. Era cheio de muita f e devao,
sem a qual toda cavallaria no Christo,  deslouvada, e ainda muitas
vezes danoza, e com rezo mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
Rei, tendo tamanha occupao de guerras to santas, e meritorias, contra
os infieis, que asss bastavam para muito merecer ante Deos, no leixou
por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
de muita renda, e ornamentos com muito servio e acrescentamento do
culto Divino, de que hoje em dia so principaes o Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaa, leixando manifesto exemplo
aos menos devotos, que occupao de servir a Deos em uma cousa, no
tolhe por esso, mas antes d graa e poder para muitas outras.

E em uma Chronica achei, que elle comeou a Ordem de Santiago, e deu ao
Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
herana, e tanta renda, porque dsse cada dia a todos os enfermos de
enfermaria mantimento de po, e vinho, para que o metessem cada dia em
oraes, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devao, foi mui
amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christo, e
outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Mono, e Ponte de
Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito , no
contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
Lisboa at Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
fortes, e grandes.




CAPITULO LX

_Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em
que se finou, e onde foi sepultado_.


Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus
feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e
esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum
tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no
modo que o foi, lhe no fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi
para servio de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que
se tal no fora, no sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja
louvado, agora , porque como diz Aristoteles, o principio  mais, que o
meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmo D. Joo
Galvo, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra,
Escrivo da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja,
que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras
daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer
deve ser havido.

Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos
modos, porm tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei
que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu
Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de
Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulho; e por
morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des
ento foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei
quorenta e seis annos, e sendo alado Rei em idade de quorenta e cinco
annos, que so assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos
aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a
perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christos, tolhendo N.
Senhor a este virtuoso Rei, que no visse to grande pezar, quem lhe
tanto mereceo empunhar pela sua Santa F.

Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo
de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de
Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui
sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus
Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo
enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas
mos dos Anjos,  gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de
fra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro
Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.


     DEO GRATIAS




INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS


A


Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christos, e abrazou muitos
Santuarios.

Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco
com grande perda.

Affonso (D.) Rei de Lio foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha
del-Rei D. Affonso Anriques.

Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja
com o Conde D. Anrique.
   vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.

Affonso Anriques (D.) Quando naceo.
   entregue a Egas Monis para ser seu Aio.
   apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijo
    com que naceu.
  Acompanhou a seu pai defunto at o lugar onde o sepultram.
  Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.
    Reymo por lhe tomar Lio, mas logo se reconciliram.
  Peleja com seu Padrasto, e  vencido.
  Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle
    a sua Mi.
  Alcana a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella
    chamado Emperador.
   cercado em Guimares por D. Affonso de Castella.
  De como levantou o cerco.
  Conquista Leiria, e Torres novas.
  Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.
  Sentio muito a morte de Egas Monis.
  Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeas de
    Rei.
   despersuadido pelos Soldados a no commetter a batalha do campo de
    Ourique, mas elle os anima para o conflito.
  Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da
    batalha.
  Antes da batalha  levantado Rei.
  D-se a batalha, e sae vitorioso.
  Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.
   informado do lugar onde est o Corpo de S. Vicente Martyr.
  Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o no acha.
  Toma Leiria aos Mouros.
  Faz doao a S. Theotonio de Leiria, e Arronches smento no espiritual.
  Caza com Dona Mofalda.
  Intenta tomar Santarem.
  Manda por Martim Mohs levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.
  Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.
  Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.
  Escala esta Villa, e se fez Senhor della.
  De que modo rendeo a Deos as graas pela tomada desta Villa.
  Ordena cercar Lisboa.
  Exhorta aos estrangeiros que chegram na Armada para a conquista de
    Lisboa.
  Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.
  Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.
  Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fra, e quem foi?
  Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e
    Serpa.
  Dos filhos que teve.
  Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que
    vinha com procurao de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda
    filha do mesmo Rei.
  Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.
  Conquista Badalhouse.
  Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lio, e sahindo a
    pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de
    Badalhouse.
  Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade
    concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.
  Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando
    se celebrou este acto.
  Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.
  Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.
  Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por
    Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.
  Aces illustres, que obrou.
  Annos, que viveo.
  Dia, e anno da sua morte, e onde est sepultado.

Alanquer  conquistado por D. Affonso Anriques.

Albojame Rei de Sevilha  desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.
Affonso Anriques.
  Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.

Alcacere  conquistado por D. Affonso Anriques.

Almada, diversos nomes que teve.

Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho,
e  desbaratado.

Arronches  tomado por So Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.

Auzery Alcaide mr de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita
Villa.

Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.


B


Badalhouse  tomado por D. Affonso Anriques.
  No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta
    causa  prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lio, e recupera
    outra vez Badalhouse.

Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.
Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mi do
mesmo Rei.
  A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado
    Emperador.
  A do Campo de Ourique.
  A de junto de Palmella.
  A de Inxarafe alcanada pelo Infante D. Sancho.
  A de Beja alcanada pelo mesmo Infante.
  A de Santarem onde  destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.

Beja  conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.
   cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e
    levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.

Bernardo (S.) Estando em Frana soube por illustrao Divina o voto que
fizera  sua Religio D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.


C


Cezimbra  conquistada por D. Affonso Anriques.

Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que
ajudou conquistar Lisboa.
  Passou  Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.

Coimbra  cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.


D


Daciano Martyrizou a S. Vicente.

D. Diogo Gonalves morre valerosamente na batalha de Ourique.


E


Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.
  Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um
    lugar, onde achar uma Igreja sua onde ficar livre da aleijo com
    que nacera, e assim sucedeo.
  Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez
    levantar o cerco de Guimares.
  Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela
    menagem que lhe tinha feito em Guimares.
   livremente despedido pelo dito Rei.
   recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de
    Castella.
  Da sua morte, e onde est enterrado.

Elvas  conquistada por D. Affonso Anriques.

Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou
com o Conde D. Reymo de S. Gil de Proena.

Evora  conquistada por D. Affonso Anriques.


F


Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei
D. Affonso Anriques.

Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.
Anrique.
  Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal
    por elle contra El Rei D. Affonso Anriques.
   prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.

Fernando (D.) Rei de Lio cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso
Anriques.
  Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.
  Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.

Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Ms.
  Alcana uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Gals.
  Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.


G


Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.

Gonalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.
  Achou-se na conquista de Santarem.
  Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de
    Barcelona D. Reymondo.
  Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a
    seiscentos homens de cavallo.

Gonalo Viegas (D.) adiantado mr da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo
que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente
quando chegou a Lisboa.

Gualterio frade Flamengo  nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.
Vicente de Fra por D. Affonso Anriques, e no permanece.

Guimares  cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.
  Levanta o sitio por persuaso de D. Egas Moniz.

Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fra 
eleito Bispo de Lamego.


I


Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal
no logar donde est a Igreja Parochial dos Martyres.

Ismar (El-Rei) com quatro Reis  vencido na batalha de Ourique sendo o
numero dos inimigos muito superior ao dos Christos.
  Toma Leiria.

Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso
Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.


J


Joo (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei
D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona
assistindo este com procurao do filho.
  Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.


L


Leiria  conquistada por D. Affonso Anriques.
   tomada por El-Rei Ismar.

Lisboa  cercada por D. Affonso Anriques.
  Em que dia, e anno foi ganhada.
  Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.

Loureno Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.
  Achou-se na conquista de Santarem.
  Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.


M


Martim Moniz filho de Egas Moniz Capito de uma Az na batalha do Campo
de Ourique peleja valerosamente.
  Morre na batalha.

Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capito na batalha de Ourique.
   mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de
    Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei
    para poder ser conquistada.
  Acha-se na conquista de Santarem sendo j Guarda mr del-Rei.
  Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.

Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy
onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.

Moaraves so prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes
informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr
S. Vicente.

Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso
Anriques.

Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo
filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.

Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes
Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.

Mosteiro de S. Vicente de Fra. Nelle, antes de ser fundado, ps o seu
arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa.
  Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.

Moura  conquistada por D. Affonso Anriques.


O


Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.


P


Payo Guoterres  feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio
quando foi conquistado por D. Affonso Anriques.
   prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei
    Ismar.

Palmella  conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em
uma batalha aos Mouros de Badajs.

Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques
quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.

Pedro Affonso (D.) Irmo bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na
conquista de Santarem.

Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e
cincoenta cavallos.

Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de
Santarem.
  Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.
    Reymondo.
  Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

Porto de Ms  cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas
Roupinho.

Portugal  dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.
Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.
  Porque tomou este nome?


R


Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
  Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se
    compunha de duzentos e cincoenta cavallos.

Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procurao de seu filho a Dona
Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este
cazamento.

Roberto (D.) Daio da S de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa
Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na S.


S


Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Ferno Mendes.

Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi
jurado em Coimbra.
   mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroo
com que recebeo esta ordem, e o que executou.
  Alcana uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.
  Alcana outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.
   cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com
    quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de p, e sendo soccorrido
    por El-Rei seu pai  desbaratado com todo o exercito.

Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques
determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.
   escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.
  Porque tem este nome.
   cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso
    Anriques.

Serpa  conquistada por D. Affonso Anriques.

Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.
Affonso Anriques quiz tomar Santarem.


T


Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como
Condado.
  Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,
    e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmo de Vermuy Paes.
   prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso
    Anriques.

Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.
Felippe Conde de Frandes.
  Como foi conduzida para aquelle Condado.

Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.
  Faz-lhe doao D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches smente no
    Espiritual.
  Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e
    lhe pe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.
  Faz orao com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de
    Santarem.

Thomar. O seu Castello  cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.

Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?
  O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.

Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.

Trancoso  tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.


U


Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza
com o Conde D. Reymo de Tolofa.

Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de
Lio.

Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irm de D. Diogo o bom Senhor
de Biscaya cazou com El-Rei de Lio D. Fernando.


V


Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.
Anrique.
  Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.

Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.
  O seu Corpo  trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi
buscar D. Affonso Anriques, e o no achou.
  Como foi achado o seu Corpo, e collocado na S de Lisboa.

Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.




TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES

O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaa


Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos
magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, &
Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus
vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum
Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi
hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce
extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in
agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum
habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter
multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi
dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod
audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in
meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum
JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me:
Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud
contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem,
ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra
librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse,
confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque
potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video,
accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo,
dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui.
Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum,
quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto,
vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, &
super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam
decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata
ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum
audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi
sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi,
egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem
suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, &
mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem,
secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus,
egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem
versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum
oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole
signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, &
altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos
fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto,
relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio,
lacrymisque abund missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum
meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim
Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam
ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris
Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata
a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae
aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo
apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni
tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc
certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis
pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem,
ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid
petierint, liber concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum
& Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi
stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant
successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum
genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi
Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec
audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam
mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam
promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi,
& si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in
successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve.
Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam
misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos
in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego
fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro
ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus
tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut
scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera
Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super
serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in
generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit
maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta
Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII.

Ego Aldefonsus Rex Portugaliae


_I. Colimb. Episcop.--I. Bracharens. Metropol.--T. Prior.--Ferdinandus
Petri Curiae Dapif.--Petrus Pelag. Curiae Signifer.--Velascus
Sancij.--Alfonsus Menen. praef. Ulis.--Gondisalvus de Sousa procur.
Imn.--Pelagius Menen. procur. Visen.--Suer. Martin. procurar.
Colimb.--Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.


_Cuja significao em Portuguez  a seguinte_


Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande
Rei D. Affonso, diante de vs Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e
Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz
de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mos,
que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor
JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu
exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a
Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos
milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multido, estava
atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam
alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que
ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda
um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,
abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeo, e disse entre mim mesmo. Mui bem
sabeis vs, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta
guerra contra vossos adversarios, em vossa mo est dar a mim, e aos
meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas
estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um
homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem
confiana, porque vencers, e destruirs estes Reis infieis, e desfars
sua potencia, e o Senhor se te mostrar. Estando nesta viso, chegou
Joo Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,
porque est aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe
respondi) se  Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que
no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom corao, vencereis, e
no sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre
vs, e sobre vossa gerao depois de vossos dias os olhos de sua
misericordia, at a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a
successo, mas nella assim diminuida elle tornar a pr os olhos e ver.
Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a
campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,
guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fra do
Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.
Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o
Embaixador, e quem o mandava; e como posto em orao aguardasse o som,
na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela
sahi fra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,
um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora
se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de
repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,
e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia
grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos
Anjos. Vendo pois esta viso, pondo  parte o Escudo, e espada, e
lanando em terra as roupas, e calado me lancei de bruos, e desfeito
em lagrimas comecei a rogar pela consolao de meus vassallos, e disse
sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura
accrescentar f a quem tem tanta? Melhor  por certo que vos vejam os
inimigos, e cream em vs, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos
conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim
vos conheo agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da
terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas
orelhas indignas ouviram, me disse. No te apareci deste modo para
accrescentar tua f, mas para fortalecer teu corao neste conflito, e
fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,
porque no s vencers esta batalha, mas todas as outras em que
pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Achars tua gente alegre, e
esforada para a peleja, e te pedir que entres na batalha com titulo de
Rei. No ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede
facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e
quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo
meio seja meu nome publicado entre as Naes mais estranhas. E para que
teus decendentes conheam quem lhe d o Reino, compors o Escudo de tuas
Armas do preo com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui
comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na f, e amado
por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o
adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais to grande
misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me
prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que
tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,
e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.
Consentindo nisto o Senhor, disse: No se apartar delles, nem de ti
nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes
searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.
Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiana, e suavidade
me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.
Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mos.
E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em
honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco
Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por
timbre a Serpente de Moyss, por ser figura de Christo, e este seja o
tropheo de nossa gerao. E se alguem intentar o contrario, seja maldito
do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a
presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
cento e cincoenta e dous.

Eu El-Rei D. Affonso.


_Joo Metropolitano Bracharense.--Joo Bispo de Coimbra.--Theotonio
Prior.--Ferno Peres Vedor da Casa.--Vasco Sanches.--Affonso Mendes
Governador de Lisboa.--Gonalo de Sousa Procurador de entre Douro e
Minho.--Payo Mendes Procurador de Viseu.--Sueiro Martins Procurador de
Coimbra.--Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.


Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques




INDICE DOS CAPITULOS


I--Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
Condado com certas condies.

II--Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
donde se chamou Portugal.

III--Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique,
que foi so por milagre de N. Senhora da aleijo com que naceo.

IV--Como o Conde D. Anrique adoeceo  morte, e das palavras que disse a
seu filho ante que falecesse.

V--Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
Principe, e levando-o a enterrar se alou em tanto a terra com sua mi
D. Tareja.

VI--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
vencido, e como tornando outra vez  batalha o venceo, e prendeo, e a
sua mi com elle.

VII--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso
de Castella, chamado Emperador como seu av, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam aladas por sua mi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra.

VIII--Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimares, e como D. Egas Moniz
lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.

IX--Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre
Guimares, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso
fez D. Egas Moniz.

X--Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
Guimares.

XI--Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de
Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual
apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.

XII--Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
Moniz, e do seu enterramento, e da muita devao dos Cavalleiros
daquelle tempo.

XIII--Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar,
que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
sentaram seus arraiaes um  vista do outro.

XIV--Como os Portuguezes vista a multido dos Mouros requereram ao
Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe
fez sobre esso.

XV--Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso
Anriques, posto na Cruz como padeceo por ns.

XVI--Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes
para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.

XVII--Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de
Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande
vencimento della.

XVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida
acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli
acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que
ahi foram tomados.

XIX--Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e
mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prgar a F de
Christo.

XX--Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de
S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi l buscar, e no o podendo
achar se tornou para Coimbra.

XXI--Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a
El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a priso de sua mi, e o que nisso
passou com o Bispo.

XXII--Aqui falla Duarte Galvo autor como este feito d'El Rei D. Affonso
Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados.

XXIII--Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a
priso de sua mi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles
se passou em Coimbra.

XXIV--Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
escondida, cavalgou a ps elle, e do que depois de alcanado com elle
passou.

XXV--Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique
veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e
tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar
Leiria aos Mouros.

XXVI--Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz,
e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
Anrique de Lara.

XXVII--Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou.

XXVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
Santarem mandou l a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
teve com os seus para ir sobre ella.

XXIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
hora lhe foi revelado l em Frana, onde estava.

XXX--Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
Santarem, e das rezes que disse a todos.

XXXI--Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
Santarem, e dos sinais que pareceram.

XXXII--Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
Santarem, e foi entrada, e tomada.

XXXIII--Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para
Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa
Santarem.

XXXIV--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a
tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.

XXXV--Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade
de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes
Estrangeiras.

XXXVI--Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemo que
morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.

XXXVII--Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
de Lisboa muito ferido morrera.

XXXVIII--Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos
milagres que Deus por elle fazia.

XXXIX--De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa
Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.

XL--De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
Vicente de Fra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.

XLI--Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na
Estremadura, e Alem do Tejo.

XLII--Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha
Dona Mofalda.

XLIII--Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e
venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

XLIV--Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e
El-Rei D. Fernando de Lio seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei
D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.

XLV--Em que fala, e amoesta Duarte Galvo Autor, quanto se devem escuzar
as maldies dos pais, e mis aos filhos.

XLVI--Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
os desbaratou e venceo.

XLVII--Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que
o foram buscar.

XLVIII--Como o Corpo de S. Vicente foi posto na S de Lisboa.

XLIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D.
Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezes que lhe
sobre ello disse.

L--Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.

LI--Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
guerreando os Mouros at Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
os Mouros peleijasse.

LII--Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.

LIII--Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e
foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre
ella.

LIV--Como os Mouros cercaram Porto de Ms, e foram desbaratados por D.
Fuas Roupinho Alcaide do Castello.

LV--Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
tomou delles nove Gals.

LVI--Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado
del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os
seus.

LVII--Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
que veio a soccorrer seu filho.

LVIII--Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a
derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.

LIX--De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
escritas.

LX--Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era
em que se finou, e onde foi sepultado.




OBRAS PUBLICADAS


I--Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400

II--Historia do Cerco de Mazago, por _Agostinho Gavy de Mendona_, 1
volume. 400

III--Ethiopia Oriental, por _Fr. Joo dos Santos_, 2 grossos volumes.
1$500

IV--O Infante D. Pedro, chronica indita por _Gaspar Dias de Landim_, 3
volumes. 700

V--Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Ferno
Lopes_, 1 volume. 400

VI--Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Ferno Lopes_, 3 volumes. 1$200

VII--Chronica d'El-Rei D. Joo I, por _Ferno Lopes_, 7 volumes. 2$800

VIII--Chronica d'El-Rei D. Joo I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I,
II e III (VIII, IX e X). 1$200

IX--Dois Capites da ndia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400

X--Arte da Caa de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes.
800

XI--Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes.
1$200

XII--Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400

XIII--Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes.
1$200

XIV--Chronica d'El-Rei D. Joo II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes.
1$500

XV--Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume.
500

XVI--Chronica d'El-Rei D. Sebastio, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2
volumes. 1$000

XVII--Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoa_, 2 volumes. 800

XVIII--Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a
X. 3$800

XIX--Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _Joo Tavares de
Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600

XX--Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvo_, 1
volume. 600


EM PUBLICAO

Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI

Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_.




NOTAS

[1] Duarte Galvo morreu em 1517.

[2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmo impossado de sua mulher,
casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde
D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvo. A
este peccado, accrescento, se deve a fundao do Mosteiro de Sobrado.

[3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica.

[4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edio, foram os cortados na de
1726.






End of the Project Gutenberg EBook of Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by 
Duarte Galvo

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