The Project Gutenberg EBook of Sol de Inverno, by Antnio Feij

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Sol de Inverno
       ultimos versos : 1915

Author: Antnio Feij

Contributor: Luis Magalhes

Release Date: October 13, 2006 [EBook #19532]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO ***




Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)






SOL DE INVERNO




OBRAS POTICAS, COMPLETAS DE ANTONIO FEIJ


_Sacerdos Magnus_, 1881.
_Transfiguraes_, 1882.
_Lyricas e Bucolicas_, 1884.
_Cancioneiro chins_, 1903 (2.^a edio).
_Ilha dos Amores_, 1897.
_Bailatas_, 1907.
_Sol de Inverno_, 1922.
_Novas Bailatas_, no prelo.


Nota: As _Bailatas_ foram publicadas sob o pseudnimo de _Ignacio de
Abreu e Lima_.




[Figura: Antonio Feij]




ANTNIO FEIJ


Sol de Inverno

ULTIMOS VERSOS

(1915)


Livrarias AILLAUD e BERTRAND
PARIS-LISBOA
1922




Tip. do Anurio Comercial--Praa dos Restauradores, 24--Lisboa




PREFACIO

I


Com o _Sol de Inverno_, que, n'este volume, v a luz da publicidade, e
com as _Novas Bailatas_, que vo entrar no prelo, a obra poetica de
Antonio Feij encerra-se por duas magnificas affirmaes do seu alto,
delicado e gentilissimo talento. A sua Musa emmudece para sempre. A sua
lyra quebra-se. Esses dois livros posthumos so o seu harmonioso canto
do cysne...  um grande poeta e um grande artista do verso que dizem o
supremo adeus  sua arte, exercida com tanta paixo e tanta nobreza!

Esses livros deixou-os o Auctor dispostos, coordenados, paginados,
revistos minuciosamente, para os fazer imprimir. A morte permittiu-lhe,
ao menos, cuidar d'esse legado valioso e opulento, que ia testar 
litteratura patria. Quando ella o surprehendeu, a 20 de junho de 1917, o
trabalho estava acabado.

Mas o mundo ardia em guerra. A Europa era um campo de batalha gigantesco
em que os povos, como os Titans da gigantomachia do mytho hellenico,
luctavam brao a brao, trucidando-se em torrentes de sangue. As
communicaes entre a Suecia, onde Feij fallecera, no seu posto
diplomatico, e Portugal, estavam quasi cortadas. Os preciosos e
insubstituiveis originaes no podiam ser confiados a transportes
aventurosos, a correios irregulares e incertos, s suspeitas da censura
dos belligerantes, aos riscos dos torpedeamentos maritimos. Foi preciso
que a paz se fizesse emfim e, com ella, a ordem e a normalidade da vida
internacional comeassem a restabelecer-se n'esta convulsionada Europa,
para que o espolio litterario de Antonio Feij pudesse vir com segurana
para Portugal, trazido pelas mos dos seus proprios filhos.

A mim, seu velho companheiro e camarada, a elle ligado, desde os dezoito
annos, pela mais fraterna amizade, foi confiado o encargo de
superintender na publicao d'esses livros e de a preceder de algumas
palavras em que se esboce o perfil do Auctor e se ponham em justo relevo
os meritos eminentes da sua bella obra.

Encargo, ao mesmo tempo doloroso e grato, em que,  profunda saudade do
querido amigo morto, se juntou o enlevo espiritual de me absorver nas
altas emoes estheticas que a leitura d'esses dois livros to
intensamente me fazia sentir!

Com que doce melancholia, com que piedoso recolhimento, com que
commovida curiosidade, com que alvoroado interesse eu folheei os dois
originaes, copiados  machina, mas, quasi a cada pagina, emendados pela
sua lettra, com os offerecimentos aos seus amigos traados pelo seu
punho, com os appendices, em que se archivavam os juizos criticos das
suas obras anteriores, por elle proprio coordenados!

Era o seu espirito que, d'essas frias regies scandinavas, para onde os
azares da vida haviam exilado esse meridional de to viva e ardente
imaginao, era o seu espirito que de l nos vinha n'essas paginas,
palpitantes de emoo lyrica, sonoras de rythmos musicaes e de rimas
harmoniosas, todas refulgentes do esplendor das imagens e da pureza
plastica d'uma forma impecavel! Esse dom de immortalidade espiritual, de
revivescencia dos mortos na memoria das suas altas aces ou no
esplendor das suas grandes obras, senti-o, n'essa hora, to
profundamente, que o meu corao, por momentos, se hallucinava, dando-se
a illuso de que era o proprio poeta que me estava recitando as suas
ultimas poesias, n'aquella dico perfeita que tanto fazia realar as
qualidades do seu verso!

Era com a sua alma que eu estava em contacto tambem,--com a sua alma nos
derradeiros annos da sua vida,--porque, n'esses livros, havia muito dos
seus affectos, dos seus pensamentos intimos, das suas alegrias e
esperanas, das suas mgoas, da suas torturas, das suas dolentes
nostalgias...

Ambos elles estavam concluidos e preparados para o prelo antes d'aquelle
supremo infortunio da sua vida, que foi a perda da sua adorada mulher,
levada pela morte em setembro de 1915, ainda em plena mocidade e em todo
o encanto da sua grande elegancia e brilhante formosura.

O offerecimento do _Sol de Inverno_ no  feito  sua memoria, mas a
ella ainda viva e presente no lar domestico. Nas cartas que d'elle
recebi no curto periodo da sua viuvez,--uns vinte mezes,--referia-se aos
dois livros como a uma obra feita. Depois do golpe, de cuja incuravel
ferida lhe havia de resultar, mais tarde, a morte, no appareceram, nos
seus papeis,--que eu saiba,--vestigios d'um regresso  actividade
litteraria. D'isso me fallava s vezes, quando me escrevia, mas como
d'uma inteno, no como d'um facto.

_Sol de Inverno_ e _Novas Bailatas_ devem conter, portanto, as
derradeiras produces poeticas de Antonio Feij. So o fecho da sua
obra e so realmente um remate superior, em que o seu talento e a sua
arte se ostentam em plena maturao e plena mestria. No lhe foi dado a
elle assistir ao seu maximo triumpho litterario,  publicidade d'aquelle
dos seus livros, o _Sol de Inverno_, que o qualifica, definitivamente e
sem favor, um grande poeta.

A esse triumpho tambem os seus amigos no assistem com aquelle jubilo
que experimentariam se lhe pudessem manifestar a sua admirao, se
pudessem acclamal-o a elle em pessoa, no apenas  sua memoria e ao seu
nome, agora gloriosamente consagrados.

Por mim, fal-o-ei n'esta evocao da saudade, que  o conforto da alma
no declinar da vida e tem o dom maravilhoso de resuscitar
espiritualmente os mortos.

Se julgo poder dominar as suggestes da amizade ao tratar da obra d'um
to grande amigo, no me , por outro lado, possivel fallar d'elle sem
que, a cada passo, esse affecto fraterno no transparea nas minhas
palavras, sem que tenha de referir-me s nossas intimas relaes,
mettendo o leitor na confidencia de velhas lembranas pessoaes, que para
elle podem, comtudo, ter interesse, por dizerem respeito a uma to
notavel individualidade.


II

Por fins de outubro de 1877,--pouco falta para a conta d'um longo meio
seculo!--em Coimbra, um bando alegre de _novatos_ de Direito, no
intervallo de duas aulas, subia ruidosamente a ingreme escada da torre
da Universidade, e, l do alto, n'um largo desafogo, estendia a vista
por esse incomparavel panorama do valle do Mondego, entre cujo
legendario quadro lhes ia correr todo um lustro de intensa vida mental,
de tremendas controversias de ideias, de extases poeticos, de sonhos de
juventude, de esperanas, de chimeras,--essa divina florescencia do
espirito, que marca, na nossa existencia, o seu momento superiormente
bello e culminantemente feliz.

Eu era d'esse grupo. Mal nos conheciamos de vista uns aos outros: havia
apenas coisa d'uma semana que, pela primeira vez, nos juntaramos nos
bancos da nossa aula. Vinhamos de todas as provincias de Portugal: como
acontecia sempre nos grandes cursos de Direito, havia, entre ns,
minhotos, transmontanos, beires, extremenhos, alemtejanos, algarvios,
ilheus,--cada um com o seu typo ethnico, o seu sotaque regional. Ao
acaso, misturavamo-nos, entabolavamos conversas superficiaes, trocavamos
impresses rapidas, no deslumbramento d'essa viso de belleza que se
estendia, deante dos nossos olhos, da montanha  planicie, da mancha
azulada e longinqua da serra da Louz  ridente campina do Mondego,
tocada j pelos tons d'oiro do outomno.

N'essa casual communicabilidade, achei-me a conversar com um rapaz, ao
lado do qual havia feito a esfalfante escalada da torre. Era um bello
moo, de hombros largos e um tanto cheio de corpo, cabello ligeiramente
aloirado, pelle clara e uns olhos castanhos sorridentes e um nada
maliciosos, atravez dos quaes como que se lhe via a clara intelligencia
e o vivo espirito.

Dissemos meia duzia de coisas vagas sobre a paisagem, sobre Coimbra,
sobre os interessantes aspectos da velha Universidade, vista assim do
alto, no conjuncto irregular dos seus corpos assymetricos. Facilmente
nos descobrimos inclinaes litterarias, citmos livros, fallmos de
escriptores, de poetas... E, d'esse encontro fortuito, d'esse momento
inolvidavel d'uma forte emoo de esthesia, partilhada por duas almas
apenas sahidas da adolescencia, nasceu, entre mim e Antonio Feij, uma
amizade de irmos, uma camaradagem de espirito, uma estreita communho
moral, que, sem sombras, nem collapsos, mesmo atravs de longos
afastamentos, durou quarenta annos e s a Morte,-- s ella, a implacavel
ceifeira das minhas grandes amizades!--logrou cortar...

Pouco depois, j no decorrer do primeiro anno do seu curso, Feij
revelava-se um poeta  sua gerao academica.

Lembro-me perfeitamente dos primeiros versos que, d'elle, li.
Appareceram na _Sebenta_ da cadeira de Direito Romano. As _Sebentas_,
por esse tempo, juntavam, s vezes,  utilidade das suas funces
pedagogicas, o innocente deleite d'uma ou d'outra _perpetrao_
litteraria, em que ensaiavam as azas aquelles, do Curso, a quem a Musa
j provocava e seduzia...

Um condiscipulo nosso, o bom Joo Martins, de Redondo, havia, n'uma
lio, estadeado uma vasta sabedoria, citando Ortolan com abundante
facundia.

Dois dias depois, a _Sebenta_ inseria, em appendice, este soneto
anonymo:

Quando o Martins deita falla
Sobre o Foral de Leo,
Palpitam de commoo
Todos os cantos da sala.

Em saber ninguem o eguala!
Merece uma distinco
Quem refuta San Simo
E o positivismo abala;

Quem leva ao fundo chatico
Do Codigo Wizigothico
A branca luz da manh,

E, sendo um poo de sciencia,
Nos prova que, em descendencia,
 bisneto de Ortolan!

Esta leve _boutade_ satyrica, d'uma factura correcta, bem versificada,
bem rimada, revelando uma facil e fina veia humoristica, fez successo. O
auctor escondera-se. Mas, dias depois, alguem o descobriu. Era Feij.

No tardou muito que o seu nome passasse a ser conhecido nas rodas
litterarias de Coimbra. J em Braga, onde fizera os preparatorios e onde
ento Joo Penha, esse perfeito versificador, doutor a quem as Musas
no fizeram mal, era venerado, e com justia, como um mestre,--j em
Braga Feij havia publicado, nas seces litterarias dos jornaes da
terra, algumas composies que denunciavam as suas notaveis disposies
poeticas. Era mais um poeta que o norte do paiz mandava a esse Parnaso
de Coimbra, onde,  falta d'uma Faculdade de Lettras, a doce paisagem,
os melancholicos olivedos do Penedo da Saudade, o encanto do Mondego,
com os seus pallidos renques de salgueiros, os seus laranjaes todos
floridos e rescendentes nas noites de maio, com os seus orpheons de
milhares de rouxinoes, com os seus luares de sonho que tudo
espiritualisam, e, sobre isto, a tradio dos grandes poetas que, desde
Cames e o bom S, por alli passaram, iniciavam as almas novas nas
emoes do lyrismo, desde a graa bucolica do idylio ou da egloga 
saudosa plangencia da elegia.

A gerao academica, que, por esse tempo, floria em Coimbra, est, pde
dizer-se, na derradeira phase da sua declinao, vae a apagar-se de todo
no crepusculo do seu occaso. Talvez metade d'ella se tenha sumido j na
voragem da morte. E, dos que restam, muitos viram j passada a _sua
hora_, aquella em que a sua personalidade plenamente se revelou no campo
de aco para onde as suas faculdades os levaram. A successo das
geraes parece vertiginosa a quem observa a diluio d'aquella a que
pertenceu nas sombras do tumulo ou no silencio do esquecimento...

E, comtudo, essa gerao no foi inteiramente infecunda em
individualidades de accentuado valor. D'ella sahiram homens publicos que
longo tempo occuparam o tablado politico, homens de lettras que marcaram
na vida litteraria do seu tempo, homens de sciencia, professores
abalisados, causidicos illustres, artistas notaveis,--e at soldados
heroicos e gloriosos, porque, entre os nomes dos que mais vieram a
illustral-a, se conta o de Mousinho d'Albuquerque. Foi a gerao que
celebrou, entre magnificas festas litterarias e artisticas, o Centenario
de Cames. Foi a gerao que veio a exercer a sua influencia na vida
nacional na passagem do seculo XIX para o seculo XX.

Seria uma diverso descabida e longa o tentar agora julgal-a nos seus
merecimentos e defeitos, o procurar fixar as caracteristicas do seu
espirito e criticar as suas idas e a sua aco. Mas pde dizer-se que
foi uma gerao culta, uma gerao activa sem impulsivos nervosismos
revolucionarios, uma gerao intellectualmente equilibrada e at
disciplinada, uma gerao que comeou a romper com as formulas
doutrinarias e a vr com senso critico os problemas philosophicos, as
questes politicas e as theses estheticas. D'isto lhe proveio, talvez,
aquella pontasinha de scepticismo intellectual que, at certo ponto, lhe
contaminou a vontade. Esta faculdade precisa do apoio da convico e da
f para no fraquejar na suas funces directivas da aco humana.

Litterariamente, ella produziu, sobretudo, poetas. Jayme de Magalhes
Lima e Trindade Coelho foram dos seus poucos prosadores. O verso teve
mais quem o cultivasse. E alguns d'esses cultores fizeram-n'o
notavelmente, como Feij, Coelho de Carvalho, Silva Gayo, Luiz Osorio,
Queiroz Ribeiro, Alfredo da Cunha, para citar apenas os que persistiram
no officio e, pela publicao das suas obras, se cathegorisam
escriptores, por assim dizer, profissionaes.

Por esse tempo, as influencias dominantes estavam n'um momento de
transio. Passava-se do romantismo grandiloquente e hyperbolico de
Hugo, da apaixonada e vehemente sensibilidade de Musset, do satanismo
artificial e elegante de Baudelaire para a arte plastica, esculptural e
rutilante do parnasianismo, de que eram corypheus illustres Gautier, o
_parfait magicien s lettres_, Bainville, o _virtuose_ do verso, o
correcto e delicado Coppe, o solemne e marmoreo Leconte de Lisle, e
Sully Prud'homme, e Dierx, e Heredia, o inimitavel cinzelador e
esmaltador, cujos sonetos, ainda no colligidos nos esplendidos
_Trophes_, nos appareciam, uma ou outra vez, nas revistas litterarias
francezas.

Dos nossos, admirava-se, enthusiasticamente, Joo de Deus, Anthero,
Junqueiro, Gomes Leal e apreciava-se com deleite Penha e Gonalves
Crespo,--todos esses que haviam sido os mestres das geraes anteriores.

O espirito de Feij vasou-se n'estes moldes e reflectiu as phases d'essa
evoluo do gosto litterario. Mas, com o tempo, a sua individualidade
caracterizou-se, marcou n'um forte relevo o seu perfil. A sua emoo
avivou-se e afinou-se. A sua technica apurou-se, desenvolveu recursos
excepcionaes. E assim se foi formando, de livro em livro, essa alta
figura litteraria,--uma pura e nobre figura de artista, consciencioso
at  meticulosidade no exercicio da sua arte, um mestre do verso e um
mestre da lingua, que, na sua obra, pouco volumosa, mas de indiscutivel
superioridade--_pauca sed bona_--deixou indelevelmente marcada a
grandeza do seu talento.


III

Um mestre, sim! Elle foi-o, no s entre os da sua gerao, mas tambem e
mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu
no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correco metrica, mais
relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais
ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais
riqueza de rimas, mais graa de rythmo, do que o poeta excellente do
_Cancioneiro Chinez_, da _Ilha dos Amores_, do _Sol de Inverno_.

Nem durezas, nem frouxides, nem hiatos, nem cacophatons, nem
alliteraes mal soantes, nem _muletas_, nem rimas foradas, nem
impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases
feitas, como _clichs_ sempre promptos para qualquer reproduco.

J nas _Transfiguraes_ e nas _Lyricas e Bucolicas_, que so as suas
_juvenilia_, esse poder e segurana de technica se haviam revelado. Mas
foi no _Cancioneiro Chinez_ que se affirmaram decisivamente. Feij
attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero
saboreava essas pequenas composies, finamente desenhadas e coloridas
como uma delicada pintura em porcelana ou um _cloisonn_ ricamente
esmaltado, commentando-as com um sobrio  perfeito!--que, em tal
bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.

Sobre as traduces em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num
estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou
e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstruco que  o
_Cancioneiro_, dando  poesia nacional um raro e magnifico exemplar da
arte do verso.

Na _Ilha dos Amores_, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua
arte firma-se e completa-se.

A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas
velhas canes d'amor da _Ilha_, (onde ha uma lindissima _Ignez_, to
intensamente dolorida, e uma admiravel _Lady D. Joo_, d'um
baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do
_Auto do meu affecto_, tocadas da mais delicada graa, quer nas diversas
poesias que formam a _Alma triste_, entre as quaes se encontram, nas
mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.

Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o
seu anceio de perfeio plastica no verso, que elle nos formula n'estes
soberbos alexandrinos:

Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados
No marmore d'um busto aureolado e sereno!
Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados
A graa e a proporo do sentimento helleno.
Revela-me num gesto os mais altos modelos
Do Verso lapidar, para n'elle esculpir
Com encantos de deusa e doirados cabellos,
Essa flr de volupia a tremer e a sorrir!
Ensina-me em segredo o genio incomparavel
De poder transformar os versos que componho,
E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel,
N'um distico immortal, a viso do meu Sonho!
Basta o oiro do Sol para a cr dos cabellos;
Para os olhos azues basta o azul crystallino,
Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os
N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!...

Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo,
onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades
de versificador.

Nas _Bailatas_, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima,
o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante,
reuniu Feij as composies d'este genero. E deixou nas _Novas
Bailatas_, cuja impresso se seguir  d'este livro, uma segunda srie
d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de
sensibilidade, de graa buffa e de melancholia, que, s vezes, parecem
haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e
charivrico.

N'ellas ha, realmente, um fino espirito de fara, um extranho tom
joco-serio, transies bruscas da emoo para a gargalhada e da folia
incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida
jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dr.

Algumas d'essas poesias, como _Sideria_, _Felina_, _Lithurgica_ e
outras, so antigas e encantadoras parodias do decadismo e do
symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura
portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e
atropellados, alliteraes onomatopaicas, imagens exoticas e
sybillinas,--tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e
d'aquella prosodia,  manobrado com uma dextreza inegualavel, uma
phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do
mais fino e requintado acabamento artistico.

At n'essas _pochades_ em que elle desenfadadamente se comprazia, dando
sahida  sua _vis comica_, se sentia a mo habil e maravilhosa do
mestre.


IV

Mas _Sol de Inverno_ , sem duvida, a sua obra prima.

No frontespicio, por baixo do titulo,--na realidade bello, mas talvez
suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou
explicar,--o poeta traou estas palavras: _ultimos versos_. E foram-n'o,
de facto. No porque o seu inverno fosse j to adeantado que o sol do
seu talento no pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma
dilatada vida. No: o seu inverno ia apenas comear. Feij no contava
ento, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas
parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,--o
epitaphio da sua Musa,--exprimiam um presentimento fatidico.

Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o
entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa
estremecida, a quem o consagrava no verso to profundamente amoroso de
Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doena que
no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraa
ameaava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que no seria longa
(como no foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia
imminente.

 claro que muitas das poesias colleccionadas no volume no so d'essa
epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, no
apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas at o fulgor ardente
d'um meio-dia estival.

N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica
esplendidamente. Est alli todo o seu corao, como est todo o seu
pensamento,--porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia no nos d
smente emoes, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos
_hymnos_, pde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feij
ala-se s regies mais altas da poesia, quellas que s attingem os
grandes espiritos. So odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde
a sua alma se abre toda na adorao da _Vida_, da _Belleza_ e da
_Alegria_, se contorce nos transes da _Dr_, se embebe na melancholia da
_Solido_ ou se abysma na meditao hamletica da _Morte_.

De todas as peas d'este hymnario, a ultima  talvez a maior, a mais
profunda. E encerra uma exegse da morte subtilmente verdadeira. A
sensao e a dr da morte no esto no phenomeno da morte physica, em
si, no termo da nossa vida material. Esto na lenta morte moral do nosso
corao, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a
pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaos vivos da
nossa alma.

Toda essa ideia est admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas
quadras.

Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A morte que, sem d, me tortura e suffoca,
 outra--essa que em ns cava sulcos de dores.

Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata,
Como um tufo que passa, as nossas affeies,
E deixando-nos ss, lentamente nos mata
Abrindo-lhes a cova em nossos coraes.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer  ter vivido,  renascer... O horror
Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive  que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto  nossa vida enlaa,
--Somos ns que a sua morte implacavel soffremos,
 em ns,  em ns que a sua morte se passa!

Esta poesia, que Feij, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para
Londres, onde ento eu residia, fra-lhe inspirada pela morte recente
d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a
consagrou, como se v do distico votivo que a precede: _Meorum
amicorumque pie manibus_.

Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de
to largo folego. Os que accusavam Feij de frio e impassivel teem,
n'elle, como em muitas outras composies do _Sol de Inverno_, um formal
desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente,
essa torturada e angustiada _Supplica ao Vento_, de que transborda toda
a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando,
tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doura radiosa do cu do Lacio, uma
voz de desterrado cantou mais amargamente e com to empolgante emoo as
suas mgoas, as recordaes da terra natal, a ancia de a rever em toda a
sua surprehendente formosura. So queixumes elegiacos, perdidos apellos
d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar
vertiginosamente nos espaos, e supplicando-lhe que leve  terra risonha
e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir  vida, o seu
amor soluante e lacrimoso. No se leem esses patheticos tercetos sem
uma crispao dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a
sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.

J, na _Alma Triste_, essa incuravel nostalgia transparece em algumas
poesias alli reunidas.  ella, mesmo, como um _leit-motiv_ favorito.
_Domingo em terra alheia_, _Soliloquio do Outomno_, _No mez de Abril_,
_Silencio_, _No campo_, _Inverno_, ressumam as melancholias d'um
espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e
sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.

Ouamos as lindas quadras finaes do _Inverno_, onde esse sentimento to
docemente se exprime:

Nasci  beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo crystal;
D'ahi a angustia que me victima,
D'ahi deriva todo o meu mal.

 que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

So aguas claras sempre cantando,
Verdes collinas, alvr d'areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua-cheia...

 funda a mgoa que me exaspra,
Negra a saudade que me devora...
Annos inteiros sem primavera,
Manhs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer,
Levae meu corpo despedaado,
Para que eu possa, j sem soffrer,
Dormir na Morte mais descansado!


V

A critica inscreveu o nome de Antonio Feij no rol dos parnasianos
portuguezes.

No discutamos essas classificaes d'escolas, que nem sempre so
precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto,
pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas
marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da
euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,--Feij pode
chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de
mestre Theo: _Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait_. Mas o que
elle foi, na verdade, sem contestao e fundiariamente, foi um lyrico,
na mais ampla plenitude da designao.

Toda a sua obra  dominada por essa nota emotiva, por esse accento de
viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o
eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixo, as suaves
melancholias, os tedios enervantes, as graas preciosas da
galanteria,--so a substancia psychica da sua poesia.

Essas emoes sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente
perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha
poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi no variam de
tonalidade. O verso de Feij  ricamente polymorpho e a escala dos seus
tons muito extensa. A sua versificao tem amplitude e largueza; mas,
tem, egualmente, elegancia, frescura e graa. Esculpe poderosamente o
alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com
arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.

Feij, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, no podia
ser um poeta popular. O seu publico, de _conhecedores_ e _dilettanti_ da
arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um
circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em
todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Alm
d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha
moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a
todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evoluo litteraria do seu tempo.
Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e no se curvou aos ephemeros
gostos do publico para lhe fornecer, como uma moda de estao, uma
qualquer _camelotte_, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular
com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, to probo de espirito como
de caracter, no vivendo da sua arte, mas para a sua arte, no
despresando a gloria, mas no requestando a popularidade ephemera e
superficial, Feij realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por
todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por
conquistar uma final consagrao no mundo das lettras e das artes.


VI

A litteratura era a sua vocao. A diplomacia foi, na sua vida, um
occasional desvio de destino.

Quando se formou, Feij pensou em advogar. E buscou iniciar-se no
officio, praticando no escriptorio de seu irmo Jos, que era, n'esse
tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. No se entendeu,
porm, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que
desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver
mundo... por conta do Estado, j que, para isso, lhe faltavam os meios
proprios. Pensra em ser consul.

A carreira consular tornara-se, ento, a carreira favorita dos nossos
litteratos: eram consules o Baro de Roussado, Ea de Queiroz, Batalha
Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,--talvez
ainda outros que me no lembram agora. Feij foi aos concursos e, poucos
mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por
essa occasio, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e
um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado
nosso ministro no Rio. Feij fez com elle a viagem e, antes de ir para o
seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legao.

Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido
para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o
famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado
em diplomata n'essa crte do extremo Norte. E ahi,  morte do seu velho
chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para
sempre a sua promoo a ministro, determinada por uma reforma dos
servios diplomaticos.

Nestas altas funces, Feij deu as mais seguras provas da sua
competencia. Infelizmente, aquella legao no tinha importancia
correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer
plenamente as suas faculdades e talentos. Estou aqui encalhado, a
apodrecer--escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado,
inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto,
a uma situao subalterna, quasi que ao simples servio de expediente e
 representao protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados
encargos e mais arduos trabalhos--e doa-se de se no ver utilisado. O
seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e
trabalhador como poucos, no era, positivamente, o gzo d'uma sinecura.

Feij foi, na diplomacia, uma fora desaproveitada. Alm d'aquelles
predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil
e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os
multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociao; estudava as
questes com ponderao e methodo; cauteloso, preparava seguramente o
seu terreno antes de avanar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, 
essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade;
tinha, em subido grau, a correco, a serenidade, a discreo, o tacto e
esse grande e supremo dom que , na vida ordinaria, como na vida
politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola--o
bom-senso.

Tudo isto se valorisava e realava pelo seu fino trato, pela amenidade e
cortezia das suas maneiras, pela seduco da sua conversa, pelo brilho e
a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima
a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.

E este  outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde
Coimbra, Feij foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros.
A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graa especial com que
contava uma anedocta, o _humour_ ligeiro, e levemente malicioso s
vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma
personalidade, o pittoresco evocativo de suas narraes de viagem e a
expansiva jovialidade do seu forte temperamento--faziam d'elle um
_cavaqueador_ irresistivelmente atrahente.

Elle era ento, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre,
um _dyonisiaco_, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista,
gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que
punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoo esthetica.
Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas,
devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o
cantor do saudoso, brando e claro Lima, que elle descobrira na sua
ascendencia, do que do d'esse _Feijo escudeiro_, do tumulo de Celanova,
_bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro_, a quem o poeta
consagra a poesia final da _Alma triste_.

O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggesto do seu espirito
parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se
tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a
_joie de vivre_. Junqueiro chamava-lhe, ento, o _opiparo_ Feij...


VII

Mas um dia, um grande infortunio,--a viuvez inconsolavel, o seu pobre
lar em ruinas,--devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a
alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua
vida to negros, to desolados, como essas interminaveis noites boreaes
que tanto o torturavam e entristeciam,--a elle, filho d'estas bemditas
terras do Sul!...

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mgoas e
soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que,
atravs das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira
na communicao sobre a sua morte, dirigida  Academia Brazileira e que
o leitor ler com interesse e admirao, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porm, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia
dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha
oito annos no vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer
ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu
Lima, retemperar o corao n'essa magica viso de belleza e encanto,
que, para todo o portuguez, ausente ou exilado,  este incomparavel
torro de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a
patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado corao parou de subito,
immobilisado para sempre!

E de novo ao sahir d'esta angustia demente,
Sinto bem que tu s, para toda a amargura,
A Euthansia serena, em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

 pela tua mo, feito um rasgo na treva,
Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida,
--Borboleta celeste, ebria de Deus--se eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Assim dizia elle  Morte no seu grande hymno, j atraz citado e que
ficar como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua--uma transio insensivel, uma serena
Euthansia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter
evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura,
sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhes.




ANTONIO FEIJ, O QUE MORREU DE AMOR

(Lido na Academia Brasileira, sesso de 28 de Junho de 1917)


A Morte astuciosa--ou caridosa?--antes de apoderar-se finalmente da
nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco
nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos
conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa
hospedagem. Cada corao, que s carinhos e affectos alojava, eis que um
dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe
cumpre fazer companheira de casa. E o espao, a principio exiguo, que
ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres
mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes
ocupe o logar. Vo faltando os parentes, vo morrendo os amigos, um a
um, em periodos cada vez menos espaados. Comeamos, ao romper da vida,
crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se
limita, se estreita, at n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a
nossa hora chega, j no  seno um fragmento ultimo e minimo da vida
que abandonamos  Morte. O corao, a que ella faz parar a fatigada
corda, estava to atravancado de cadaveres que j no podia bater
livremente.

Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e j no so
os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que
nada e ninguem mais preenchero, na calma felicidade dos meus dias. Em
1915 foi Ramalho Ortigo, esse ao menos depois de uma longa e bem
aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno,
morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feij, a mulher
querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e
um mezes exactos depois da desgraa a que no conseguiu mais
resignar-se,  Antnio Feij que morre por sua vez, que morre de amor e
de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.

Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma
profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um
conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fra tambem creada 
beira da poesia e da melancholia to lyricas do Rio Lima. Morreu de amor
o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas geraes de cavalleiros e
trovadores, cuja antiga formao affectiva e moral nunca se alterou no
seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus
contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feij, to verdadeiramente como
se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom
Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua
morte. Morreu de amor, comeou a morrer de amor no momento em que viu
para sempre

    Deitada no caixo estreito,
Pallida e loira, muito loira e fria,

aquella mulher to amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos
annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o
commovedor necrologio.

Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero
Roiz, Antonio Feij vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um
longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos.
Mas Dona Mercedes Feij era em tal grau a imagem da Belleza e da Graa
que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor,
tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feij sabia, podia medir com
dolorosa preciso o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas
vezes encontrei creatura feminina to seductoramente bella. Dona
Mercedes era filha de pai sueco e de me equatoriana. Cruzamento do Polo
e do Equador, como alguem disse, no  possivel imaginal-o mais feliz,
alliando a pureza quasi divina das raas do norte  exhuberancia e
alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e
comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse
o namorado companheiro. No o sentiam talvez em toda a verdade seno os
intimos da casa, porque Antonio Feij era pouco expansivo e resguardou
sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que,
por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles
eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam
intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem
completamente a sua misso. Feij era ha mais de 20 annos ministro de
Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo
diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a
gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias
e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e
excedendo a tradio deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor
Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como
um sueco honorario. Madame Feij era, uma vez ainda, como um raio do sol
equatorial n'aquellas sombrias regies polares. A alegria e a vida da
sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a
chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem
imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres
crtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e
graciosa capital sueca.

O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dr,
sentiu chegar at ella as lagrimas e os carinhos de tantos coraes e
no poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna
considerao de que todo um povo estrangeiro o rodeava em to amarga
hora. Mas no tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga
em que se convertera o seu corao. N'ellas viu apenas que o encanto da
sua querida mulher era to amplo e universal que at aos mais
indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez--formas
terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero--que o seu lucto no
era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura
excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez
para escapar-lhes.

Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na
maior commoo, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente
febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou s
hontem, como sobrenatural visita, j depois de fria e inerte a mo que a
traou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? No vejo, no
entanto, melhor maneira de render ao grande corao de Antonio Feij o
preito que lhe devo. No ha n'ellas uma palavra que possa parecer
indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficaro sendo o epitaphio.

Antonio Feij tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos
em papel de carta de formato e cr sempre differentes. A sua ultima
carta despreocupada e alegre  de 28 de fevereiro de 1914 e est
escripta, como que por estranho presentimento, em papel cr de rosa.
Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma cr. A carta seguinte,
datada de 20 de abril,  amarella, cr de outomno e de morte, e traz as
primeiras apprehenses duradouras sobre o estado de saude de sua mulher,
que, mezes antes, j lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde
essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa
amarga correspondencia:

_18 de julho de 1914_: Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas,
porque, no estado de espirito em que ando, no queria affligir as suas
primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentaes e amarguras, a que o
seu corao amigo no pde dar remedio. A minha querida doente vai
melhor, j pde sair, j quasi pde fazer a sua vida habitual. Mas...
este _mas_  que  a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que
seja a natureza e gravidade da doena, as recaidas anteriores no me do
a menor garantia para o futuro.  mais que provavel que a doena se
reproduza. No sei o que ha de ser de mim. A _Imitao de Christo_, que
eu leio assiduamente, diz que _ chaque jour suffit sa peine_; mas eu
estou longe de ser um bom christo, e a resignao  uma virtude que
Deus s concede aos eleitos.

Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia to proxima, e que
absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas
occupaes e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflico
intima. Em 23 de outubro escreve-me:

De saude vamos indo, graas a Deus; mas, sempre naquella preoccupao
de que lhe tenho falado, no consigo horas de paz, j no digo perfeita,
mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha,
so apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam,
todos ns ambicionamos passal-as tranquillamente.

A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo:
Sinto-me num estado de espirito to desolado e abatido que nem posso
conversar  vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra
vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova _pousse_ do
antigo mal. Trago o corao em sobresaltos.

Abre-se, ento, um longo silencio, que as minhas cartas no conseguem
quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo s minhas
instancias, vem duas palavras pelo telegrapho: Mercedes sempre doente.
Estou desolado. E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes
noticias: Tem razo para se queixar do meu silencio, mas no escrevo a
ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de
facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que
padecem so sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos
mezes que a vida  para mim um suplicio, e sem esperana de lhe ver um
termo. Deus sabe o que ter succedido quando esta carta lhe chegar s
mos!

Com effeito. A previso no falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que
eu embarcava para a Europa, que me chegou s mos um telegramma de
Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: Tout est fini.
A censura de guerra no os deixra transmittir na nossa lingua; mas nem
assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este
desgosto, no podendo crr que uma to luminosa e formosa mocidade se
pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um
verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa
do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim
to contagiosa, no se me communicou desta vez. Fiz uma travessia
melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da
morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigo, a quem eu queria como a um
av, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.

No sei, nem agora me importa saber, se  monotona a descripo de uma
dr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona ser, mas
ai de quem lhe no sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua
mulher, as raras cartas de Antonio Feij so um lamento continuo, cuja
leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se
que o viver assim j no tem de viver seno o nome, e verifica-se uma
vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da f, a
vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes,  coisa
nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para no a copiar toda:
Se um dia nos encontrarmos--do que duvido--ento lhe contarei o que foi
o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida,
vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e
alimentar-lhe a esperana da cura, que nunca, felizmente, a abandonou.
Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. No tenho
foras para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer
resoluo. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, so 24
horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha
parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo  inutil.

Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado
desesperado da sua dr. Vive como um somnambulo, no sabendo distrair-se
seno com a recordao do passado.  s,--escreve-me,--e a remexer na
minha memoria attribulada, que as horas me passam menos
atormentadoramente. Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle
objecta: Ir a Portugal agora  absolutamente impossivel, e essa viagem
no serviria seno para aggravar o meu soffrimento. No ha sitio nenhum
por ahi, nem casa amiga, que me no desperte recordaes e saudades
pungentes. Fala-me, alm disso, da educao dos filhos, que no deseja
perturbar, e v-se que procura nelles a razo de viver, que a dr
destruiu. Mas no o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira
vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que
lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de
60 annos, casado e sem filhos, to grande admirador de Dona Mercedes,
que pensou sriamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a
fortuna. Feij sabe o telegramma de cr e transcreve-m'o no original
sueco e em traduco.  assim, e parece, na verdade, como elle me dizia,
um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: Receba
expresso da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu.
Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e
belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido  uma ventura
que nunca ninguem poder esquecer.

Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que no annunciam
melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleio para a Academia
Brasileira, pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi
votada. Feij era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos
ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a
homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de
offerecer algum conforto  angustia que soffria. E esse terno pensamento
commoveu-o. Mas a Dr era sempre a sua nova companheira: Vou vivendo,
com a minha tristeza e a minha saudade. _Vou vivendo_ no  a expresso
justa. _Deixo-me viver conforme Deus quer_,  mais exacto. Distrai-se
relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava
cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos
pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro:  a leitura dessas
cartas, como j lhe disse, a minha unica distraco. Quando ellas
acabarem, no sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na
receita de Goethe, puzesse a sua dr em poemas) -me absolutamente
impossivel. Estas dores no cabem dentro de moldes litterarios. _Quem
attende ao concerto do que diz no sente o que diz_, sentenciava um
velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram.  bem
possivel que no torne a escrever mais uma linha. _Pena, que pde
explicar-se, perto est de no sentir-se_, como diz o mesmo frade,
alludindo a circumstancias identicas.

Carta em 3 de abril: No tenho foras para nada. Escrever uma carta 
como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo no me tem curado.
D-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para
um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta.
(Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo
se vai afastando de mim, cada vez mais.

Nova carta, em 10 de julho: A minha cabea, como a minha alma, andam
profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais s, cada vez mais
desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estao em que a
minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano
cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e
pittoresco, ou em excurses pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou
agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia.
No imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta
monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto
de aurora e poente, to triste, to triste, que parece a obra de um Deus
infeliz. Para evitar recordaes, a que no poderia resistir, lembrei-me
de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo,
acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. No posso viver s.
Amanh vou partir, no sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a
Laponia, para alguma terra onde no encontre lembranas do passado.
Perdoe este desabafo. Na verdade, no ha outra coisa a fazer seno a
gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca,
 preciso viver. Mas, o peior,  que no encontro nada que me interesse
ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me
s vezes, agora, estultas frivolidades.

Escreve-me, em 6 de setembro: Contava ir este vero a Lisboa, mas esta
guerra, que ameaa de se tornar chronica, obrigou-me a pr de parte os
meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas,
numa excurso pela provincia, mas o passeio no me serviu de consolao.
Era a primeira vez, aps 15 annos, que viajava s. To angustiado me
sentia nos vages do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que
preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolao
que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha
mandado para o campo. De maneira que estive aqui s, completamente s,
desde julho at hontem, porque s hontem elles regressaram. Este mez 
para mim todo cheio de terriveis recordaes. Fez, no dia 4, um anno que
regressei do campo com a minha querida doente. No imagina quanto essa
viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o
medico, a _garde-malade_ e uma cunhada minha. Trazia j a impresso de
que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de
espirito, se foram passando os dias at  morte, no dia 21 do corrente.
Na vespera esteve todo o dia ali, naquela _chaise-longue_, com o sorriso
e o bom humor de sempre. E l est, ha quasi um anno, na capela do
cemiterio catholico, tambem  espera que a guerra acabe, para ser
transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feij e que elle
adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. No me
consolo, querido amigo. Toda a dr contm, em essencia, o esquecimento.
Mas eu no quero esquecer. Os mortos no morrem completamente emquanto a
gente se lembra delles. E eu no quero que Ella morra emquanto eu andar
neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraados so
sempre ridiculos. Mas V. no  para mim um estranho, e, diante dos
outros ninguem  capaz de ler o que me vai na alma, atravs da minha
serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos
do meu corao.

Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no
primeiro anniversario do seu lucto. E contina: A 21, foi o primeiro
anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do
nosso casamento em 1900; hoje,  o anniversario do enterro. Imagine o
estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe no escrevo mais.
Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas no me consola;
socega-me, s vezes, por intervallos, mas o _retour_ da memoria  sempre
inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua
falta se me afigura maior.

Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da
gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente
envelhecido. Contemple essa ruina, accrescenta. No imagine, porm, que
foi s a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no
esboroamento da minha velha carcassa. Espera ir no vero a Lisboa.
Deseja encontrar-se commigo: Parece que j estamos separados pelo outro
mundo. D-me as boas festas de Natal e Anno Novo: Como para mim no ha
festas, e fao tudo para no me aperceber do que este periodo do anno
significa para o meu corao attribulado, ia-me esquecendo de cumprir
este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graa e de mysterio, em que
um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio
a no devastou. Lembre-se de mim! E na noite de Natal volta a
escrever-me, dizendo-me que se fechou s no seu gabinete, com os seus
pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras...

Emfim, tem a data de 21 de maro de 1917, dezoito mezes justos depois da
morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a
ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: Estamos
to longe um do outro, sinto-o to distante de mim, que parece que j
estamos separados pelo outro mundo, repete elle, como quem adivinha.
Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura
de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica
sueca, dando-me informaes interessantissimas. Recomeou a fazer
versos, mas no os que desejava. S lhe saem da penna _bailatas_, versos
de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. No o consolam. E
a doena de alma, a verdadeira, no cessa de minal-o: Faz hoje anno e
meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece
que foi hontem. No ha esforos que consigam afastar o meu pensamento
dessa hora terrivel. No  o desespero dos primeiros tempos; mas  uma
saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me.
Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em
Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho
receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas
mudadas!

Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes
que me deu o golpe, apesar de tudo no esperado, da morte de Antonio
Feij. Elle era um homem robusto e ainda so, tinha apenas 55 annos, e
eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educao
dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce
saudade a sua dr dilacerante. Feij no se estava _deixando viver_,
como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor
incuravel, o amor de perdio to caracterisadamente portuguez, o amor
da nossa raa e tradio matou-o como a mais fatal das doenas physicas.
Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que s recebi
hontem, como que me chega de alm-tumulo. E como me doe o corao e se
me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias
com o meu silencio, de que s a falta de communicaes era culpada, e te
inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos
os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de
tantas almas que se affeioaram  minha, mas quanto me pesam, e me
desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que comeam a povoal-a!
Feij, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim quella sem cuja
companhia desaprendera de viver. Deus lhe haver concedido todas as
bem-aventuranas, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este
valle de lagrimas.

No peo perdo a quem me haja lido ou ouvido, do espao que consagrei a
este romance vivido e sincero, to digno de ser sentido e meditado por
cabeas e coraes ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria
do alto poeta do _Cancioneiro chinez_ e da _Ilha dos Amores_, que eu me
haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus
versos, e que a sua vida me parea, como a de todos os seres de eleio,
mais bella ainda que a sua obra. Mas no me despeo de versar um dia
esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feij
figurar sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais
subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expresso. O
nome de um Feij illustrou j a historia do Brasil na pessoa do
Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e at se parecia
com elle no porte da cabea profundamente encravada entre os hombros.
Hoje ento so as nossas Letras irms que registram, em caracteres
indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.

Ainda uma justificao para esta longa pagina de memorias. Ha muitas
pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os
transportes do Amor e da Paixo incompativeis com a regra e o pacto do
casamento, e que no so capazes de exprimir a poesia, de que as suas
almas transbordam, seno em versos errados. Longe de mim o intuito de
contradizel-as. Mas no ha mal em que aqui lhes offerea este _espelho
de casados_, no qual poder remirar-se, ao menos uma vez por outra, a
sua perfeio.

Alberto d'Oliveira.




     Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on
     les lira peut-tre, mais on ne retirera aucune leon pour nos
     temps...

     C.^{te} Alfred de Vigny.


     Le vers est une cration mystrieuse dont l'habitude seule nos
     empche de nous tonner.

     Ernest Hello.


[Figura: D. Mercedes de Castro Feij]




A MINHA MULHER

     _Romam tu mihi sola facis_.

     MART. LIV. XII. EPIGR. XIX.





_Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce,
No teu regao amigo, estes versos deponho,
Para que o teu amor lhes d vida e remoce,
Porque a Arte comea e acaba num sonho...
 pouco; mas eu torno a homenagem mais bella,
Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma,
O verso em que Martial diz  Esposa Marcella:
Tu, tu s, para mim, vales mais do que Roma_!




ELEGIA DE ABERTURA




_Elegia d'abertura_


_A minha Lyra tinha uma corda:
Emquanto mo tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, s vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar.

Era uma corda que s vibrava
Quando a minh'alma toda chorava,
E tantas mgoas, tantas, cantei,
Que a pobre corda despedacei.

O Amor e as penas da Mocidade,
Chimera ou Sonho de cada dia,
Eram os themas que ella escolhia.

Porm um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emmagrecidos...

Ento, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova to dolorosa,
Com tanta mgoa nella ressa,
Que um ai supremo despedaou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
--Pobre Saudade! chora ssinha...

Manhs d'estio, tardes serenas,
Occasos d'oiro, nocturno ceu,
Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e solua com tanta mgoa,
Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'gua,

E sem um grito, sem um lamento,
Minh'alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia...

A minha Lyra tinha uma corda:
Emquanto moo tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, s vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar...

A Mocidade no pensa em nada,
E a pobre corda vi-a quebrada
Quando tocava mais afinada...

A Mocidade no pensa em nada_!



I




DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO

_A Joo Arroyo_

     Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler
     i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket
     og Skriget strmme ud over dem, lyde de som en skjne Musik.

     Kirkegaard.




DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO


Quando moo, cantei, mas em formas discretas
Que nunca o meu segredo ousassem revelar,
Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas
Soube o Amor e a Paixo em voz alta inspirar.

Feliz, o Amor... nem mesmo ephmero sorriso
Deixou nessas canes memoria do seu rastro;
Desditoso, ficou como um luar indeciso,
Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.

A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
--O abandono, a traio, o esquecimento, o ciume--
Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...

stos do corao, sobresltos do instincto,
--Amor ideal, vehemente impulso do desejo,--
Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura,
Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
Precisando de ouvir a minha voz--cantava!

Echo do meu soffrer, de to fundo partia,
Que deixando ao passar todo o amargo travor,
Essa voz, rara vez, murmurando trahia
O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
Em que ella se disfara, a alma profunda evoca
Os lamentos e os ais suffocados no peito,
Todos os gritos vos que morreram na boca!

No escrinio da Cano as lagrimas vertidas,
Brilham sob a expresso em que a Dor se transforma,
Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
A tremer no cristal transparente da Frma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
Mal se v no sorriso um esgar de tristeza;
A Dor, na alma do artista,  como um dom celeste,
Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
Da phrase que a primor o artista cinzelou,
Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixo arabescos risonhos;
Muda em graa verbal todo o grito pungente;
--Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
Que a um sopro vo partir da pupilla dormente...

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
Caricia quasi etherea, o Verso  um desafogo...
--Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
Sobre a nossa alma imprime os seus lbios de fogo!

D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
Se em imagens procura o artista convert-las,
Espinhos entrelaa em grinaldas de flores,
E lgrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo,  belleza e  graa inaccessivel,
O espirito banal, nunca pode sentir,
A mgoa que por trs da palavra insensivel,
Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

S almas d'eleio commungam no mysterio
Que  Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
Como  flor que sorri num cho de cemiterio,
O amargo corao que se desfaz na cova.

S ellas, atravs d'um molde to restricto
Como esse em que a palavra as emoes fixou,
Alcanam entrever no sei qu d'infinito
No minuto de sonho em que a Dor se embalou...




A ARMADURA

_Ao Dr. Gran Bjrkman_




A ARMADURA


Desenganos, traies, combates, soffrimentos,
Numa vida j longa accumulados, vo
--Como sobre um pal continuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o corao.

E a cinza com o tempo attinge uma espessura,
Que nem os mais crueis desesperos abalam;
 como tenebrosa, impavida armadura
Ou coiraa de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeavel da Inveja  peonhenta bava,
Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;
No ha brao que possa amolg-la, nem clava
Que nesse duro arnez se no faa em bocados.

E no entanto, atravs d'essas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as junctas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o corao verteu d'alguma chaga obscura...




A CIDADE DO SONHO

_Ao Visconde de Pindella_




A CIDADE DO SONHO


Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva  Cidade do Sonho...
De to alta que est, v-se de toda a parte,
Mas o ingreme trajecto  florido e risonho.

Vae por entre rosaes, sinuoso e macio,
Como o caminho cho d'uma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

Se o teu animo soffre amarguras na vida,
Deves emprehender essa jornada louca;
O Sonho  para ns a Terra Promettida:
Em beijos o man chove na nossa boca...

Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol;
O mais esteril cho tapeta-se de alfombras,
No ha nuvens no ceu, nunca se pe o sol.

Nella mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jmais nos  dado sentir...
E a um beijo s colhido em seus lbios de Eleita,
A propria Dor comea a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordao indelevel persiste;
E neste amargo exlio, atravs do destino,
Ventura sem pesar s na memria existe...




BEATITUDE AMARGA

_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_




BEATITUDE AMARGA


Esqueo-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado  beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos,
Naufragios, temporais, mar de leite e de luar...

Medroso, o corao tenta fugir, mas treme:
O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
D'onda em onda,  merc do vento e da corrente.

Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impresso d'angustia e de pesar,
--Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma--
Por suppor que partiu para no mais voltar!

Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrago que  praia ainda chegou com vida.




CASTELLO BRBARO

_A Jos d'Azevedo Castello Branco_




CASTELLO BRBARO


Um a um sobrepondo os tormentos mais altos,
Da minha propria dor fiz uma Fortaleza,
Que podesse afrontar tempestades e assaltos,
Imponente de rude e brbara grandeza.

Desde ento, sem receio, a tudo invulneravel,
Depondo na panplia o escudo e as armas rtas,
Vivo occulto no meu torreo inexpugnavel,
Recompondo em annaes combates e derrotas.

Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia;
Nenhum desejo vo escala essas alturas,
Onde, antigas vises, andam como em demencia
Do passado a evocar saudades e amarguras.

Comtudo, alguma vez, se uma illuso funesta
Um echo juvenil faz em mim despertar,
Como som matinal de campanrio em festa
Que no meu corao vem de longe vibrar,

Ento,--luz sem egual que tudo em trno abrasa--
A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta,
--Raio de sol suspenso a tremer numa asa
Que um instante pairou sobranceira  tormenta.

E atrs d'essa chimera ou sonho allucinante,
Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado,
Como o condor lanando o vo fulminante
 presa que entreviu do pncaro escarpado.

Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga,
E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue,
Mais uma nova dor, mais uma nova chaga,
Rutilante de vivo e generoso sangue.

E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida,
Sem sobresaltos vejo os meus dias correr,
De saudades velando o entardecer da Vida,
Que o ter-se sido mo  a dor do envelhecer.

Mas occulto no meu solitrio reducto,
Ao abrigo de toda a investida ou traio,
Se de fra no vm tempestades nem lucto,
O meu proprio soffrer enche o meu corao.

E assim, na sua noite o espirito submerso,
Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte,
Vou, com o pensamento em mil vos disperso,
De saudade em saudade alargando o horizonte.

E tudo, mesmo a Dor, nessa amplido se esfuma,
Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol...
Toda a nuvem, de perto,  um farrapo de bruma,
A distancia, parece oiro e prpura, ao sol!

Sob o contorno ideal que o espelho empresta  imagem,
Projectados ao longe, os tormentos e as dores
Surgem aos olhos meus na iluso da miragem,
Como ruinas de sonho em que brotaram flores...

Ruinas que uma luz to serena illumina
Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
E  to doce a illuso, que nessa hora divina,
Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!...




A AGUIA PRISIONEIRA

_A Manoel da Silva Gayo_




A AGUIA PRISIONEIRA


Aguia soberba a quem mo perversa d'escravo,
Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a frrea porta escancarou...

A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaava
Rente ao cho, e a roar com as asas na terra,
Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,
Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.

Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
Cobra o animo, e erguendo o vo, a tudo alheia,
Lana-se para o azul, sobe leguas e leguas,
Sem poder dissipar a treva que a rodeia.

E to alto subiu no seu vo desfeito,
Que de repente, no podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o corao no peito,
E veio aos ps do escravo exanime rolar...

Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
Quando julga atingir a suprema verdade,
No p, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!




A SELVA ESCURA

_A Joo Chagas_




A SELVA ESCURA


Perdi-me no caminho solitario
D'uma floresta immensa e fria...
Medrosa ainda, a Noite lvida descia,
E o claro do luar, como um pranto morturio,
Pelas folhas das rvores corria.
No silencio da Noite, o silencio da Selva
Enchia-se de vozes enigmticas...
E os meus ps vacillavam sobre a relva,
Entre as sombras das rvores extcticas.
Numa clareira funda, aguas dormentes,
Como um lago lunar, tremeluziam
Nas lgrimas de luz, altas e ardentes
Que das estrellas plidas caam.
Nem ruido de mar, folhas ou vento...
O mystrio, porm, da Noite e da Floresta
Enchia de terror meu pensamento,
Como um sopro boreal que me gelava a testa.
No sei se era viso, filha do Mdo,
Se verdadeira appario nocturna;
Mas da sombra profunda do arvoredo,
Que o luar tornava muito mais soturna,
Vinham surgindo mysteriosamente
Phantasmas espectraes que eu distinguia
Atravs do sudrio transparente
Como o primeiro alvorecer do dia...
E por deante de mim todos passavam,
E olhavam-me e choravam...
De mgoa ou compaixo,--no sei diz-lo;
Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
Parecia-me um longo pesadelo...
Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
Na minha morta Phantasia,
Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
Passavam nessa funebre theoria...
Projectos, Intenes, Ideias, Planos,
--Illuses d'um passado esquecido e desfeito,
Na areia que rolou da ampulheta dos annos
E que um vento de morte espalhou no meu peito.
Era a Noiva feudal esquecida a scismar
Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
Trazendo-me nas mos, todas brancas de luar,
Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
Illuses juvenis d'odaliscas e fadas,
Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
Era a Glria, mas j sem a tuba estridente,
Que ingenuamente ouvi pela amplido vibrar;
Era a Ambio, captiva a sua asa fremente,
Que to alto esvoaou, entre as nuvens e o mar.
Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras,
Chimeras juvenis do meu abril risonho,
Borboletas azues, larvas escuras
Que deslisaram no meu sonho...
Todas essas vises, d'aspectos sobrehumanos,
Por deante de mim, lentas, passavam...
E olhavam-me e choravam,
Como espectros de longos desenganos
Que os meus olhos das trevas evocavam...
E olhavam-me e choravam,
Sumindo-se nas sombras da floresta,
Aos primeiros clares da madrugada
Como um rumor de festa,
Despertavam, partindo em revoada,
As aves a cantar. O sol rompia
E as derradeiras nvoas dissipava...
Tudo cantava e ria!
S eu chorava... s eu chorava...
S no meu corao no despontava o dia.
S eu chorava... s eu chorava...
S eu soffria...




O LIVRO DA VIDA

_A Antonio de Cardiellos_




O LIVRO DA VIDA


Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia...
--Lia o Livro da Vida,--herana inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro claro da primeira alvorada.

Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;
E elle sempre,--inclinada a dorida cabea,--
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espirito esclarea!

Cada pagina abrange um estdio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Elle tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os annos vo correndo;
Passam as geraes; tudo  p, tudo  vo...
E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma nvoa, a mesma escurido.

Nesse eterno scismar, nada v, nada escuta:
Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,
Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!

S depois de voltada a folha derradeira,
J prximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
 que o Sbio entreviu, como numa clareira,
A luz que illuminou todo o caminho andado...

Juventude, manhs d'Abril, boccas floridas,
Amor, vozes do Lar, stos do Sentimento,
--Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas ento, lamentando o seu esteril zlo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom rel-lo,
Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...




II




DYPTICO

EU E TU




DYPTICO


I

M. ***


Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
Este quasi terror com que te fallo e escuto,
Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
Que se erguesse entre ns, me cobrisse de luto.

Ignoras a razo d'este absurdo respeito
Com que te beijo a mo, que estendes complacente,
--Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mo fria  signal de corao ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
--Se passas como um sol de planetas cercado--
Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

No podes conceber que uma paixo to alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
Mas, se  sincero, o Amor s a occultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto  discreto o ninho.

E tudo o que tu crs fingida gravidade
 uma intima oblao, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor  feito de humildade:
Sobre o annel nupcial no ha pedras preciosas.


II

EU E TU


Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como
Brasa e carvo, scentelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,--em cada assomo
A nossa aspirao mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
--O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva--
Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!

Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sde, o vinho onde tudo se esquece,
--Ns dois, d'amor enchendo a noute do degrdo,

Como partes d'um todo, em amplexos supremos
Fundindo os coraes no ardor que nos inflamma,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fsse o lume e tu fsses a chamma...




PALADINOS

_A Senhora Condessa d'Arnoso_




PALADINOS


I

CONDE D'ARNOSO, JOO


Como um dos seus avs, em justas e em torneios
--Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra--
Com uma ancia de gloria, em altos devaneios,
Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra.

No leva escudo, o moo illustre, nem couraa,
Que o tempo  vil; mas como arnez de paladino,
Leva a honra e o valor de toda a sua raa,
--Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino!

Mo na espada, a entrever combates, a alma pura,
J bello, d'essa estranha e amarga formosura
Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte,

Vae na tolda a sonhar,--sonho feito em pedaos!
--Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braos,
Elle... voltou tambem, mas nos braos da Morte!


II

CONDE D'ARNOSO, BERNARDO


Este nunca buscou, na lucta ingloria,--fama
Ou proveito. A Ambio, mesmo a mais alta e pura,
Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma
De orgulho vo tremeu na sua nobre figura!

Foi corteso; mas da Honra e do Dever escravo.
Nunca esgar de lisonja o seu lbio manchou;
E entre vis defeces, elle s, como um bravo,
Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou!

Alma de Campeador! Num disfarce mundano,
Nunca ninguem sonhou corao mais humano,
Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo corao!

Ultimo Cavalleiro,  hora em que morria,
No Pantheon Real, da lampada que ardia
Extinguiu-se de todo o ultimo claro...




CABELLOS BRANCOS

_A D. Thoms de Mello Breyner_




CABELLOS BRANCOS


No repares na cor dos meus cabellos
    Sem ler primeiro Anacreonte;
Vers que os sonhos juvenis, mais bellos,
Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta  sempre moo;
    O Corao nunca envelhece...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroo,
E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graa adolescente,
    Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinoes que ao pr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa,
    Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moa e de formosa,
Nos braos de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'indita fragrancia
    Em mos provectas vo abrindo...
Abisag, ao sair quasi da infancia,
No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera,
    D'esse connubio, oh maravilha!
Como se a ruina fecundasse a hera,
Veio  luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,
    Quem as lembrara, se deixassem
Que mos obscuras, mercenrios dedos,
A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos!
    Mas que direi mais eloquente?
No ha dias to pallidos, e occasos
Como exploses d'uma cratera ardente?

No repares na cr dos meus cabellos;
    A branda luz que nelles arde,
Como o poente, das nuvens faz castellos,
Tinge d'alva o crepusculo da tarde...

Muita vez os cabellos embranquecem
    Na dor d'horriveis soffrimentos...
No so os annos que nos envelhecem;
So certas horas ms, certos momentos...




SOMNAMBULA

(Noite de S. Joo)

_A Joo Caetano da Silva Campos_


Leia estes versos, cantando.
--Quem canta seu mal espanta!
Alma em saudades penando,
S tem alivio se canta...




SOMNAMBULA

(Noite de S. Joo)

                  _Passarinho trigueiro,
                  Pe-te na areia_!...

A areia  d'oiro,--paino loiro...
      Leito macio... V como o Rio
Vae socegado, todo enlevado,
Todo encantado na areia fina!

_Passarinho trigueiro_! Olha o salgueiro
      Como se inclina,
      A ver se as aguas
      Pode beijar!
E o velho choupo, todo curvado,
      Todo engelhado,
      De tantas mgoas
      Que viu passar!

Nas aguas mansas, folhas cahidas,
Como esperanas desfallecidas,
L vo perdidas nas aguas mansas,
      Como esperanas
      Desfallecidas...

                  _Passarinho trigueiro,
                  Pe-te na areia_!...

A velha ponte talvez te conte
Lindas historias para encantar,
Lindas historias da Lua Cheia,
Quando na areia pe a corar
      O alvo linho
      Do seu tear...
Passarinho trigueiro! pia baixinho!
Ouve as cantigas, que as raparigas,
      No S. Joo,
Soltam ao vento como um lamento
      Do corao!


                  ............................
                  _A vossa capella cheira,
                  Cheira ao cravo, cheira  rosa,
                  Cheira  flor da laranjeira_...

Laranjeira desfolhada
Numa noite de orvalhada,
No leito d'algum linhar...
Mas a alcachofra cortada
Sabe alguem se vae seccar?!

                  _Passarinho trigueiro,
                  Pe-te na areia!_

A areia  doce como se fosse
Vergel macio para noivar...
E dorme o Rio... praia deserta...
Cuidado! Alerta! que a Lua espreita,
Nunca se deita, sempre a rondar.

                  _Passarinho trigueiro_,

Olha a estrella do boieiro
Que nunca dorme no ceu,
A ver se do seu rebanho
Alguma rz se perdeu...
Olha o Rio!  cr d'estanho
Como um espelho a brilhar;

Cuidado! se  muda a areia,
Pode o Rio murmurar,
E s noites a Lua Cheia
Vem com elle conversar...

J vae alto o sete-estrllo,
Vae despontar a alvorada;
Mas uma voz desgarrada,
Como um grito sem appllo,
Passa a cantar pela estrada:

Esta noite, na novena,
S. Joo ps se a chorar...
Da minha dor tinha pena,
Sem me poder consolar.

As andorinhas voltaram,
Desabrocharam as flores,
E as andorinhas contaram
Que tinhas novos amores...

Ninguem mais penas soffreu
Nem dor maior supportou;
Quem amou nunca esqueceu,
Quem esqueceu nunca amou!

Ai! infeliz de quem passa!
Ninguem seu amor escolhe,
Pois o amor  uma desgraa,
Que sem se esperar nos colhe...

Ai, infeliz de quem passa!...
............................

                  _Passarinho trigueiro_,

No ha amor como o primeiro...
Va, va sem parar!
Deixa a Lua estremunhada,
Deixa o Rio a murmurar...
O amor tem a asa ligeira,
E antes que rompa a alvorada.
Leva o ramo de oliveira
quella dor desgarrada!




CYSNE BRANCO

_A Alberto d'Oliveira_




CYSNE BRANCO


Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,
Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,
Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte,
Mas o sol j no vem romper-lhe o captiveiro.

O glo, no lenol todo immovel das ondas,
Em que a aurora boreal pe reflexos de brasas,
Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas,
D-lhe a illuso do sol, mas no lhe solta as asas.

V que o torpor do frio o invade lentamente;
Debate-se, procura o crcere romper;
Mas a asa  d'arminho, o glo  resistente:
Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Ento pe-se a cantar, sem que ninguem o escute;
Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;
Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute,
Parece uma cano no silencio perdida...

Melodia que a voz da Saudade acompanha,
Amarga e triste como o exilio onde agoniza,
Longe do claro sol que outras paysagens banha,
Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:
--Tardes occidentaes de sangunea e laranja,
Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas,
Manhs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe,  distancia onde a leva a Saudade,
To esbatida vae essa triste cano,
Que no desperta j commoo nem piedade:
Encanta o ouvido, mas no chega ao corao.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira,
Hallucinado e s, sob o silencio agreste,
Pensando que no azul, como um mar de saphira,
Os astros a luzir so a geada celeste...




SPPLICA AO VENTO

_A Luiz de Magalhes_




SPPLICA AO VENTO


Grito ao Vento que passa a galopar na treva:
--Escuta a minha dor!--rouco, de braos hirtos,
A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!

Meus queixumes, oh Vento, ho de em ancias ouvir-t'os
Esses campos que amei, vinhas, rios suaves,
Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,

Onde, inverno e vero, nunca emmudecem aves,
Onde nunca se extingue o murmurar das fontes,
Todo o anno a correr entre rosaes e agves...

Vento largo, que vens d'ignotos horizontes!
No teu rugido absorve o meu grito pungente!
Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,

Para tornar mais triste o seu gemer plangente,
Mais expressivo e humano o seu lamento amargo,
Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!

Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo,
A ver se nelle alguem a minha voz conhece,
Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,

Onde o Estio a cantar longos meses se esquece,
E onde o Sol no  s lampada que illumina,
Mas o gni creador que tudo anima e aquece!

Debalde, sobre mim, na sua graa divina,
Almas puras, abrindo a plumagem das asas,
Com o ardor que nenhuma angustia contamina,

Espalham no meu lar como um calor de brasas...
--Para fundir de todo esta geada to densa,
S tu, meu claro Sol, que at d'inverno abrasas!

Vento frio, que vaes da minha noite immensa,
Tenebroso e a rugir!--leva a minha Saudade,
Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!

Quando essa luz passar, com que magua no ha de
Reflecti-la o meu rio, e acarici-la, vendo
Que vae dos olhos meus a tenue claridade!

Mas ento, Rio amado, as tuas aguas descendo
Nessa luz reflectida, a tremer como um luar,
Todo o passado irei nas tuas margens revendo,

E o corao talvez se esquea de chorar,
Como nauta que a voz de Loreley enleva,
E para a morte vae nesse enlevo a cantar...

Vento surdo, que vaes a galopar na treva!
Pra um momento! Escuta a minha voz clamante
V como soffro, e ao longe esta Saudade leva!

Mas o Vento no ouve o meu grito alarmante!
Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado,
De toda a parte vendo o meu pas distante,
Como se l tivesse os meus olhos deixado!




GOTA DE AGUA

_ memoria de Antonio Rodrigues Braga_




GOTA D'AGUA


Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha,
Uma gota d'orvalho, em manh d'esplendores,
Lucitremia ao Sol numa teia d'aranha,
Como um prisma em que a Luz se decompunha em cores.

Universo em resumo, essa gemma preciosa
Que a Noite alli deixou do seu manto cair,
Continha em miniatura a paysagem radiosa
Que no alvor da manh despertava, a sorrir.

Em que obscuro crysol, esse pranto isolado,
Crystallizou com tal pureza e resplendor?
Caiu da Lua?  um ai de luz polarizado?
Ou rolou d'um olhar num soluo de dor?

Quem sabe o seu mysterio ou sonha a sua mgoa?
Lava de desespero ou suor d'agonia;
--Orvalho ou pranto-- sempre a mesma gota d'agua,
A tremer e a brilhar no resplendor do dia...

Tenha d'odio e rancor nublado o olhar mais vivo,
Ou em fogo escaldado a face onde correu,
Ninguem v no diamante o carvo primitivo,
Nem na gua a cantar o abysmo em que nasceu.

Em breve,  luz do sol, vae em fumo desfeita,
Ser nuvem, confundir-se em cmulos no poente,
Ou em nvoa atravs de que a Alvorada espreita
A ultima estrella a arder, do seu balco no Oriente.

E outra vez percorrendo os circulos da Vida,
Pranto de heroe, suor de martyr ou de santo,
De novo ha de voltar, e, de novo esquecida,
Sobre as urzes rolar, gota d'agua ou de pranto...




A VENTURA

_A Anthero de Figueiredo_




A VENTURA


A Ventura, de vos e ephemeros sorrisos,
    Nunca, em alto lavor,
Nos meus versos deixou cariatides ou frisos
De que ella fsse o alacre e luzido esculptor.

Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando
    No meu lar se installou;
A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando,
E d'amor nunca mais um s verso rimou.

Mas d'essa adorao em que vivia absorta,
    Um dia, ao despertar,
Viu que tinham levado a minha Noiva morta,
E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.

Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode
    Como um arbusto ao vento,
Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode
Egualar a expresso d'um grito ou d'um lamento.

Chorou... E desde ento, a Musa dolorida
    Vive numa anciedade
A ouvir a minha dor no seu canto escondida,
Mansamente, a chorar, como chora a saudade...




ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES

_A meus sobrinhos, Salvato e Ruy_




ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES


Entre pinheiros e cyprestes
Fundi em lagrimas os olhos...
Onde estaes vs, almas celestes,
Que entre pinheiros e cyprestes
Em vo procuram os meus olhos?

Na terra fria aqui descansam
Os coraes que tanto amei...
Mas os meus braos no alcanam
Na terra fria em que descansam
Os coraes que tanto amei.

As vezes ponho o ouvido attento
A ver se os ouo ainda bater...
Mas s me fala a voz do vento,
Sempre que ponho o ouvido attento
A ver se os ouo ainda bater...

Elles que sempre e a toda a hora
To nobremente palpitaram...
E j nem sombra resta agora
D'elles que sempre e a toda a hora
To nobremente palpitaram!

Mas todo o amor, toda a bondade,
Que em vida as almas enobrece,
Torna a ser luz na immensidade,
Irradiao d'amor, bondade,
Que em vida as almas enobrece...

E nessa luz, a alma que chora
D'um brilho augusto se illumina,
Como uma esprana ou uma aurora,
Em cuja luz, a alma que chora
D'um brilho augusto se illumina...

E ao nosso olhar, d'entre cyprestes,
Estrellas novas apparecem...
Sois vs talvez, almas celestes,
D'entre pinheiros e cyprestes,
Essas estrellas que apparecem...




RIO AMARGO

_A meu irmo, Julio de Castro Feij_




RIO AMARGO


A pouco e pouco a Dor, no corao do Homem,
Vae como um rio amargo escavando o seu leito,
E dia a dia, o sulco em que as mgoas se somem
Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito.

A principio trasborda e alastra:  uma torrente!
Nada a pode conter--nem diques, nem escolhos;
Submerge o corao num tumultuar plangente,
E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos.

Mas o tempo transforma em profunda ravina
O leito onde mais viva a torrente passou;
A onda continua a correr nessa ruina,
Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou.

Desde ento no se escuta o bramir da tormenta,
Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos
Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta:
Vae cheio o corao de lagrimas e lutos!

Ditoso o Homem a quem, na primeira investida,
A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca,
Em vez de o arremessar, como pave perdida,
De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca!

A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime,
 compassiva; o mal, que cessa, no  grande...
Mas a Dor que no pra, a Dor que nos opprime
Sem esp'rana de ver que o seu martyrio abrande,

Essa Dor, no ha som, na palavra que chora,
Para a exprimir;  a Dor que mil dores condensa:
Trazer a Morte em ns, senti-la a toda a hora,
E viver! E viver no horror d'essa presena!

Onde o peito de heroe, onde o animo forte
Para uma dor egual sem revolta afrontar,
Tendo a pesar sobre elle a mo fria da Morte?
E sem poder fugir! e sem poder luctar!

S o Homem que espera em Deus, martyr ou santo,
Pode um supplicio tal resignado soffrer,
Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto,
Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer...

S esse a quem a Graa illuminou, na etherea
Luz immortal d'estrella ignota alvorecida,
Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria
Na eterna expiao d'este peccado--a Vida!




III




HYMNO  VIDA

_A Agostinho de Campos_




HYMNO  VIDA


Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga
Preso a ti, como o feto ao seio em que germina...
Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,
Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,
Quem quer que sejas,--flr d'inefavel deleite,
D'dio ou de fel,--s sempre o mesmo augusto seio
Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!
--Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,--
Deste ao mundo o licr do seu primeiro sonho,
O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,
Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;
Passas no largo vento a derramar perfumes,
Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica,
Enleva os coraes de jubilo e transporte,
Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,
Se em Belleza sorri na mscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,
Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;
--Spro que tudo cria e que tudo dissolve,
Fora occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,
O abysmo a perscrutar sobre ti se debrua,
Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,
Um immenso clamor que blasphema e solua!

s o raio de sol, a tempestade e o vento;
Vo d'ave a cantar na floresta orvalhada;
Ancia no corao, lava no pensamento,
O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--s Tudo e s Nada!

Mo potente, que a rocha endurecida escarva,
Tornando-a em fragil p d'onde rebentam flores;
Fada occulta que tece o casulo da larva
E aos insectos iria as asas de esplendores...

Beijo d'onde a traio como um veneno escorre;
Riso que se desfaz num amargo travor;
Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,
Como um cego a cantar pelo brao da Dor!

Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo!
Pelo esforo immortal da tua heroica belleza,
Que, no revolto cho do soffrimento antigo,
Deixou tantos padres e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,
Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,
A onda humana atravs da historia se lanasse,
Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!
Occulto corao, graa, illuso suprema!
Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,
--A soluo que importa? O que  grande  o problema!...




HYMNO  BELLEZA

_A Eugenio de Castro_




HYMNO  BELLEZA


Onde quer que o fulgor da tua gloria apparea,
--Obra de genio, flr d'heroismo ou sanctidade,--
Da Gioconda immortal na radiosa cabea,
Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

--Como um pago subindo  Acropole sagrada,
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada,
Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem egual com que sempre illuminas
Tudo o que existe em ns de grande e puro, veio
Do mesmo foco em mil parbolas divinas:
--Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio.

Alta revelao que, baixando em segredo,
O prisma humano quebra em angulos dispersos,
Como a gua a car de rochedo em rochedo
Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

 audcia no Heroe; resignao no Sancto;
Som e Cr, ondulando em formas immortaes;
No mrmore rebelde abre em folhas de acantho,
E esmalta de candura a flora dos vitraes.

Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas
Passam deante de ti, aladas como sonhos...
Que importa onde ellas vo, d'outra fora captivas,
Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

Abrem flores, cantando, ao teu hlito ardente,
Brilham as aves como estrellas, e as estrellas,
Como flores enchendo a noite refulgente,
Deixam-se resvalar sobre quem vae colh-las...

s tu que s illuses ds juventude e forma,
Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes
Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma
Dissonncias de dor em immortaes accordes.

Vejo-te muita vez,--luz d'aurora ou de raio,--
Com um gldio de fogo a avanar no horizonte;
Ou ento, em manhs transparentes de maio,
Naiade toda nua a fugir d'uma fonte.

Outras vezes, de noite e a occultas, appareces,
Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,
Trazendo no regao inexgotaveis messes,
Que Elle por tuas mos sobre a miseria espalha...

Podesse eu revelar-te em estrophes aladas,
Que partissem ao sol refulgindo em lavores,
Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas,
Como versos que vo desabrochando em flores!

Mas a lingua no  sumptuosa bastante
Para nella deixar teu gnio circumscripto;
Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,
E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito!

Mas se para o teu culto, em esplendor externo,
No encontro uma prece altamente expressiva,
Por ti meu corao arde d'um fogo eterno,
Como chamma a tremer de lampada votiva!




HYMNO  DOR

_Aos Condes de Sabugosa_




HYMNO  DOR


Sorri com mais doura a boca de quem soffre,
Embora amargue o fel que os seus lbios beberam;
 mais ardente o olhar, onde como um aljofre,
A Dor se condensou e as lgrimas correram.

Sa, como se um beijo ou uma caricia fsse,
A voz que a soluar na Desgraa aprendeu;
E no ha para ns consolao mais doce,
Que o regao de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluo de mgua,
Ao nosso corao nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao car d'uns olhos razos d'agua,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lbio, que s bebeu na fonte da Alegria,
 frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade  uma flor que se alimenta e cria
Dos resduos que a Dor no corao deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime
Uma augusta expresso... mesmo a Suprema Graa,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna immorredoira a Inspirao que passa.

 por isso que a Dor, sem trgua nem guarida,
Dor sem resignao, Dor de estoico ou de santo,
S de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.




HYMNO  ALEGRIA

_A Carlos Malheiro Dias_




HYMNO  ALEGRIA


Tenho-a visto passar, cantando,  minha porta,
E s vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se  minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quasi meiga, apesar do seu riso constante,
D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos,
A um tempo  cortes, deusa ingenua ou bachante...

Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o sol d'inverno um brilho encantador;
Mas o brilho  fugaz,--scintilla na penumbra,
Sem que d'elle irradie um facho creador.

Quando menos se espera, irrompe d'improviso;
Mas foge-nos tambem com uma presteza egual;
E d'ella apenas fica um pllido sorriso
Traduzindo o desdem d'uma illuso banal.

Onda mansa que s  superficie corre,
Toda a alegria  v; s a Dor  fecunda!
A Dor  a Inspirao, louro que nunca morre,
Se em ns crava a raiz exhaustiva e profunda!

No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!

Pensar,  certo, eleva o espirito mais alto;
Soffrer torna melhor o corao; depura
Como um crysol: a chispa irrompe do basalto,
Sae o oiro em fuso da escoria mais impura.

A Alegria  fallaz; s quem soffre no erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve;
A Alma, na orao, desprende-se da terra;
Jamais o homem  vo deante de Deus que o ouve!

E comtudo,--illuso!--basta que ella sorria,
Basta v-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como brios, Evoh! atrs d'ella a cantar!

Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho  p que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita  uma aurora to curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do bero.

s vezes, essa luz de to fragil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um iris de paz numa nvoa de pranto,
Crepitao, fulgor d'uma estrella perdida.

Ento, no resplendor d'essa aurora bemdita,
Toma corpo a illuso, e sem ncias, sem penas,
O espirito remoa, o corao palpita,
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas ephmera ou v, a Alegria... que importa?
Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, echa  nossa porta,
Deixa em louco alvoroo o corao da gente!

Momentnea ou fallaz,  sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno!
Momentneo, fallaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu no sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental lingua que ns falamos,
S a Dor e a Paixo tm accordes sublimes!




HYMNO  SOLIDO

_Ao Padre Joo Ignacio de Araujo Lima_


Vive ut vis, sed cum aegrotabis
Justis lachrymis damnabis
Omnes mundi insulas.
O beata solitudo,
O sola beatitudo,
Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.




HYMNO  SOLIDO


Diz-se que a solido torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca
Se encontra s; a Alma  um mundo, um mundo aberto
Cujo trio, a nossos ps, de ptalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam:
Imagens, concepes, formas do sentimento,
--Sonhos puros que nelle em belleza revoam
E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo cho onde se esconde e medra
A semente que vae germinar na Palavra,
Cantar no Som, florir na Cr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aquea
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ella, a sorrir, desabroche e floresa,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,
Da Glria, sempre v, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,
E em cuja creao o seu sangue palpita,
Que no ha Deus estranho aos orbes que formou.

Nem luctas, nem paixes: ideaes serenidades
Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir so ancias e saudades:
S no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite no attinge,
Nem a Aurora desfaz: rosiclr e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,
E o seu mystrio ensina a quem sabe escutar.

Mas ento, innundando essa penumbra dce,
De no sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanao d'um ser divino fsse,
Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pra alguem para ouvir um corao que bate?
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
V o mundo que nelle em ancias se debate?

 s na solido que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as ptalas abrindo,
A uma luz, que  talvez o claro d'uma estrella,
Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo...

E d'essa luz, a flr sem forma, ha pouco obscura,
Recebe o seu quinho de graa e de pureza,
Como das mos do artista, animando a esculptura,
O mrmore recebe a sua alma--a Belleza.

Se soffrer  pensar, na paz do isolamento,
Como d'um calix cheio o liquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,
 superficie nunca o seu teor revela;
S depois de sondado e fundido o minrio
Se conhece a riqueza accumulada nella.

Coraes que a Existencia em tumulto arrebata!
Esse oiro s se extrae do minrio candente,
No silencio, na paz, na quietao abstracta,
Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente...




HYMNO  MORTE

     Meorum amicorumque pi manibus




HYMNO  MORTE

     Meorum amicorumque pi manibus.


Tenho s vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus labios roar;
Mas da tua presena o rasto de destroos
Nunca de susto fez meu corao parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mos erguendo a inexoravel Fouce
E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
To proxima de mim que te respiro o alento,
--Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braos,
E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento...

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim no  mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, d'onde esplendida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta  Luz; sae d'esse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu animo assombra,
No s tu, com a paz do teu osis de terra!

Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem d me tortura e suffoca,
 outra,--essa que em ns cava sulcos de dores.

Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufo que passa, as nossas affeies.
E, deixando-nos ss, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos coraes.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer,  ter vivido,  renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive  que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto  nossa vida enlaa,
--Somos ns que a sua morte implacavel soffremos,
 em ns,  em ns que a sua morte se passa!

S ento, da tua asa a sombra formidavel,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondavel,
Noite de soledade em que nunca amanhece...

S ento, succumbindo  dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa no  d'um Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!

Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro
S ento me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza elle faz um espectro
D'alguem, que ha pouco ainda, ao p de ns sorria.

Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contricto,
Passa deante de mim, como um deslumbramento,
Constellando o teu manto, a viso do Infinito.

E de novo, ao sair d'essa angustia demente,
Sinto bem que tu s, para toda a amargura,
A Euthanasia serena em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

 pela tua mo, feito um rasgo na treva,
Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida
--Borboleta celeste, bria de Deus,--s'eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!




EPILOGO




EPILOGO


Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento,
As asas d'oiro amarfanhadas,
Com o esforo que fiz de forma e sentimento,
Nestas estrophes mal rimadas...

Os meus olhos, a noite immensa perscrutando,
Viram-te bello e refulgente;
E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
Illuminou-se de repente.

A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
E a alma liberta, ao sol da Graa e da Belleza,
Abriu, cantando, a asa celeste!

Descendo para mim d'outras espheras, vinhas
Banhado ainda em luz sublime;
Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
Mas a palavra no te exprime.

E quem hoje te v, n'estas imagens frias,
Encarcerado em duro engaste,
Nem por sombras suppe com que esplendor fulgias,
Quando aos meus olhos te mostraste!

Nem as outras vises que ficaram sem forma
Em nebulosa inconsistente,
A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
O p da terra em oiro ardente...
*/




LENDAS E FABULAS




PRELUDIO




PRELUDIO


Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, no trabalha;
O fogo, quasi apagado,
Poucas falas espalha;
Mas do ferro trabalhado
Vae recolhendo a limalha.
Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, no trabalha.

Como  luz do sol doirado
 poeira d'oiro a limalha,
A todo o olhar angustiado
Em que a Saudade se espalha,
Parecem d'oiro e brocado
Lentejoulas de mortalha...
Ferreiro velho e cansado
Deixa a forja, no trabalha;
Mas do ferro trabalhado,
Vae recolhendo a limalha.




O AMOR E O TEMPO

(CHRISTOPULOS)




O AMOR E O TEMPO


    Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
    O Amor, o Tempo, a minha Amada
    E eu subiamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
J se viam indicios de cansao;
    O Amor passava-nos adeante
    E o Tempo accelerava o passo.

    --Amor! Amor! mais de vagar!
No corras tanto assim, que to ligeira
No pode com certeza caminhar
    A minha doce companheira!

Subito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trmulas ao vento...
--Porque voaes assim to apressados?
Onde vos dirigis?--Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
    --Tende paciencia, amigos meus!
    Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!




FABULA ANTIGA

_A Manuel d'Oliveira Monteiro_




FABULA ANTIGA


No principio do mundo o Amor no era cego;
Via mesmo atravs da escurido cerrada
Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
Num impeto de furia os seus olhos vazou;
Foi a Demencia logo s feras condemnada,

Mas Jupiter, sorrindo, a pena commutou.
A Demencia ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ella o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde ento por invisiveis laos,
Quando o Amor emprehende a mais simples jornada,
Vae a Demencia adeante a conduzir-lhe os passos.




CLEOPATRA

_A Jos Coelho da Motta Prego_




CLEOPATRA


Como a concha de ncar luminoso.
Em que Venus surgiu, risonha e nua,
A Galera vogava ao sol radioso
Com a graa d'um Cysne que fluctua.

Soltas ao vento as velas de brocado,
Ao som das Lyras, sobre o rio immenso,
Dos remos d'oiro e de marfim sulcado,
O destino do Mundo ia suspenso!

Como nuvens correndo, as horas passam;
J se divisa o porto; o sol declina,
E emquanto as velas, marinheiros, cassam,
Ella que um sonho de poder domina,

Deante do espelho, a reflectir, perscruta
Do seu corpo a belleza profanada,
Como o rufio nocturno, antes da lucta,
Examinando a lamina da espada!




MOIRO E CHRIST

_A Antonio de Barbosa de Mendona_


Abou-el Hassan, Ali, fils d'Abdalla,
Elzagouni, raconte ce qui suit...

Ebu-Abi-Hadglat, _Divan Oriental_.




MOIRO E CHRIST


O pobre moiro enamorou-se
D'Ely, ma christ, sendo filho do Emir...
Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se,
Como se alguem podesse  propria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria,
Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Ely nunca pde esquec-lo,
E nesse immenso amor, com presagios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lirio no glo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em to oppostos ceus,
Elle invocou Jesus, cheio de f, morrendo;
E a christ murmurou: Allah! s tu s Deus!




A RESPOSTA DO RABE

_A Joo Gomes d'Abreu e Lima_


     Quelqu'un demanda un jour  Arou-Ben-Hezam, de la tribu d'Asra:
     Est-il bien vrai que vous tes de tous les hommes ceux qui avez le
     coeur le plus tendre en amour?--Oui, par Dieu! cela est vrai,
     rpondit Arou, et j'ai connu dans ma tribu trente jeunes gens que
     la mort a enlevs, et qui n'avaient d'autre maladie que l'amour.

     Ebu-Abi-Hadglat, _Divan de l'Amour_.




A RESPOSTA DO RABE


De que pas s tu?--A um rabe dizia
Sahid, filho d'Agb, na estrada, ao fim do dia.

Era a hora em que o sol se fecha no Occidente
Como o olhar moribundo e triste d'um doente.

E o rabe respondeu, banhado na piedosa
Claridade da luz, quasi religiosa:

--Sou da raa que tem o excepcional fervor
D'amar eternamente e de morrer d'amor.--

--Ento s tu de Asr.--accrescentou Sahid;
--Sim, por Kaaba! Foi essa a tribu onde eu nasci.

E de novo Sahid o interrogava attento:
--Por que motivo, pois, to nobre sentimento

Nunca se muda em vs n'uma paixo nefasta?--
O crepusculo enchia o ceu meio estrellado,
E o rabe tornou, como que illuminado:
--Porque a mulher  bella e a juventude  casta!




A VOCAO D'IBRAHIM

_A Aristides da Motta_


     Outros a quem impugna Genebrado, _in Chronologia_ dizen que fue
     Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a
     hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el _lib. I
     recognitionem_, y Suydas, _in verbo Abrahan_: dizem que fue primero
     infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el
     conocimiento natural de las estrellas convei al verdadero Dios.

     _Prosapia de Christo_, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel,
     fol. 109.




A VOCAO D'IBRAHIM


Vendo, mudos  Dor, os Idolos grosseiros,
Que o oleiro antigo e rude em barro modelava,
Ibrahim despedaa os Deuses derradeiros,
E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.

S, na noite profunda e num amplo deserto,
Sem que o sitio onde est e a estrada reconhea,
--Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,--
Viu um Astro a luzir sobre a sua cabea.

E absorto nessa luz que do alto cahia,
Como um pressentimento augusto a illumin-lo,
Bradou, cheio da paz que sbre elle descia:
--Eis o Deus verdadeiro!--e prostrou-se a ador-lo.

Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua,
Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro;
E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua:
--Deus no pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!

E outra vez, como chuva em calcinada areia,
A paz, ao seu turbado espirito baixara;
Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia,
Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.

Mas a Lua descreve a orbita marcada
E some-se ao primeiro esplendor do arrebol;
Borda todo o horizonte uma fimbria doirada,
E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.

Como o homem que sae d'um longinquo desterro,
E de subito encontra o lar e encontra os seus,
Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro,
E de joelhos proclama:--Eis o unico Deus!--

Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros,
Perdido na abstraco do seu culto fervente,
Quando os olhos ergueu j luziam os astros,
E do Sol mal se via um claro no occidente.

Ento, no seu assombro, o espirito perplexo,
Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu
Viu em tudo o que existe apenas o reflexo
D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu...




PRINCESA ENCANTADA

_A Alfredo da Cunha_




PRINCESA ENCANTADA


Formosa Princesa dormia ha cem annos;
Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia.
Passavam-se os dias, passavam-se os annos,
E a linda Princesa dormia, dormia,
    Dormia ha cem annos!

Em torno, sentadas, dormiam as Damas,
Cobertas de joias, cobertas de lhamas;

Com formas e aspectos de finas imagens,
Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.

E s portas de bronze, por terra halabardas,
Num somno profundo dormiam os guardas.

L fra, na sombra dos parques discretos,
Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.

As arvores sonham, na sombra dos poentes,
Immoveis,  beira dos lagos dormentes.

E as fontes que d'antes sonoras gemiam,
Somnambulas mudas, apenas corriam...

Um dia, de longe, de terras distantes,
Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,

Bandeiras ao vento, clarins, atabales,
Echoando a distancia por montes e valles,

--Um principe, herdeiro d'um throno potente,
Com olhos suaves d'aurora nascente,

Excelso e formoso, magnanimo e moo,
--Correndo aventuras, num grande alvoroo,

Chegou ao Castello, que ha tanto dormia,
Como uma alvorada, prenuncia do dia...

E ao ver a princesa, sentada em seu throno,
N'aquelle profundo, extactico somno,

Tomado d'estranha, indizivel surpresa,
Na boca entreaberta da linda Princesa,

Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se
N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.

Accorda a Princesa; despertam as Damas,
As faces ardentes, os olhos em chamas.

Despertam os Pagens, nos seus escabellos,
Com halos de fogo nos loiros cabellos.

Accordam os guardas; e, tudo desperto,
A vida renasce no parque deserto.

Suspiram as fontes; gorgeiam as aves,
Das leas profundas nas sombras suaves.

As arvores tremem, no ar transparente,
 brisa que sopra, como halito ardente.

Nas torres, os sinos repicam de festa;
O povo em choreias enchia a floresta...

E a linda Princesa, seus olhos fitando
No Principe excelso, sorrindo e crando,

--Sonhava comtigo... Porque  que tardaste?
Mas j nesse instante, formando contraste,

Quando isto dizia, erguendo-se a medo,
A voz parecia trahir o segredo

De quem, num relance, talvez lamentasse
Que sonho to lindo to cedo acabasse!...

A linda Princesa sonhava ha cem annos,
E fra do Sonho s h desenganos...




O ROMANCE DA PASTORA LINDA

_Aos Condes de Bertiandos_


Och hr du, liten Carin!
Sg, vill du blifva min?

Liten Carin, Folkvisa.




O ROMANCE DA PASTORA LINDA


A linda Pastora, guardando o seu gado,
Andava esquecida num alto montado.

E o Rei, que voltava, sombrio, da caa,
Com seus falcoeiros e galgos de raa,

Detem-se, pensando, de subito, ao v-la,
Em ermo to alto, que fsse uma estrella.

--Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
Que passas a vida guardando rebanhos!

A tua belleza deslumbra os meus olhos,
Como uma tulpa no meio de abrolhos.

Teus labios parecem cerejas vermelhas,
E a pelle  mais fina que a l das ovelhas.

Sobre o oiro das tranas, tuas faces to puras
So duas papoilas em searas maduras.

Estrella ou Pastora, se queres ser minha,
Ters as riquezas que tem a Rainha!

--A flr dos vallados  sempre modesta
E a humilde zagalla presume de honesta.

--Ters equipagens, palacios, castellos,
E joias a arderem nos fulvos cabellos;

Um throno de esmaltes em oiros massios,
Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...

--s vossas riquezas, perdidas nos montes,
Prefiro mirar-me no espelho das fontes;

As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
Com rubras papoilas a arder no toucado?...

De nada me servem fidalgos, escravos,
Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.

Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
Guardae as riquezas que so da Rainha.

--No rias, vaidosa, das minhas promessas,
Que a forca tem visto mais lindas cabeas...

--Talvez que mais lindas j visse pender,
Mas nunca to firme nenhuma ha-de ver,

Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente,
Ampara, sorrindo, quem morre innocente,

E os anjos, descendo do ceu a voar,
 forca viriam minh'alma buscar!

E a linda Pastora, que a ser ultrajada
A morte prefere,--vae ser enforcada!

Levaram-na,  fora, das suas ovelhas,
Pendendo-lhe s tranas papoilas vermelhas,

Com gritos de escarneo, no meio da turba...
Mas nada os seus olhos serenos perturba.

E toda inundada na luz que irradia,
Sorrindo, os estrados da forca subia...

Ento, n'um relance, do azul transparente,
Surgindo mais alvas que a lua nascente,

Duas pombas que descem e voam a par,
Nos braos da forca vieram poisar...

E a linda Pastora dos olhos castanhos,
To longe da serra, cercada de estranhos,

Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
Expira na forca... Mas n'esse momento,

No grande silencio que a morte causara,
Aos olhos de todos que attonitos viram
To grande prodigio, coragem to rara,
Dos braos da forca--trs pombas partiram!




A LENDA DOS CYSNES

_A Julio Dantas_


     Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt
     ist, weil Du es nicht ertragen knntest, giebt Dir der Augenblick
     Deines Todes.

     Herder.




A LENDA DOS CYSNES


Da praia longinqua, na areia doirada,
O Cysne pensava, fitando a Alvorada:

--Que immensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fsse cantar uma vez!

--Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hymnos mais altos  gloria do Sol...

No  das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

 quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minh'alma de luto.

Se a Aurora se lana do cume dos montes,
At d'alegria murmuram as fontes;

S eu, passeando o meu tedio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que j vejo surgindo do Mar,
Tem d de quem, mudo, no pode cantar!--

E o Cysne, em silencio, chorava, escutando
A orchestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d'Apollo,
E o pobre a cabea escondia no collo...

Mas Phebo detem-se nas nuvens ao v-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabello,

E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo:
--No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo...--

E nesse momento a Lyra Sem Par,
Da mo luminosa deixou resvalar...

O Cysne, orgulhoso da graa divina,
Da Lyra d'Apollo as cordas afina,

E rompe cantando... Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves... As urzes dos montes

Tremiam de goso a ouvi-lo cantar...
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cysne cantava, tirando da Lyra
Um hymno que nunca na terra se ouvira;

No pra, nem sente, na sua emoo,
Que a vida lhe foge naquella cano.

Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apollo no seio de Thetis desceu,
O pobre do Cysne, cantando, morreu...

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Sollicita espera-o, das aguas  beira,
Do Cysne, j morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de prompto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite j desce...

As aguas luzentes parecem-lhe, ao v-las,
Um panno d'enterro picado d'estrellas.

Ento, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vo a voar...
E o Cysne no volta, no pode voltar!

Chorosa viuva, nas aguas deslisa,
Levada na fresca salsugem da brisa...

No seu abondono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal...
To funda era a mgoa, to grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
--De dor e d'angustia comea a cantar!

E canta com tanta ternura e paixo,
Que a Vida lhe foge naquella cano.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora...

Na terra, no espao, nos astros, no ceu,
Mais alta harmonia ninguem concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cysne que expira a cantar...

Desde esse momento, no Olympo onde entraram,
Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leaes e sinceras,
Se Venus se mostra, surgindo da bruma,
So elles que tiram, nas altas espheras,
A concha de ncar, cercada de espuma...


FIM




Apreciaes da Ilha os Amores e do Cancioneiro Chins




SOBRE A ILHA DOS AMORES


Poeta por necessidade de temperamento e por fatalidade de herana,
Antonio Feij sabe impr, a quem o l, a contestada mas suprema
fidalguia do verso. Emotivo e delicado como os velhos bysantinos,
amoroso e enternecido como todo o meridional, a sua bella constituio
de lyrico assegura-lhe um logar inteiramente  parte entre os technicos
portugueses. Sendo um religioso da cr, Feij desadora as tintas
impetuosas e agressivas, e, numa preciosa doura, d-nos a branco e oiro
as suas figuras de mulher. O ar contemplativo, o ar extatico das suas
lyricas, veio-lhe no sangue. Numa remota ascendencia l est frei
Agostinho da Cruz a assegurar-lhe a fatalidade da herana.

No  esteril a interveno da hereditariedade na comprehenso moral
d'um poeta. O incomparavel mistico da Arrabida renasce espiritualmente
na alta unco lyrica e nos piedosos enternecimentos de Antonio Feij.

Tenho aqui, sobre a minha mesa, esses dois bellos livros--a _Mystica de
frei Agostinho_ e a _Ilha dos Amores_,--to proximos pelos laos de
familia e to afastados pelo poder do tempo. O epilogo da Ilha dos
Amores, essa piedosa aspirao a uma vida mais simples, a um ruralismo
honesto e socegado, o que  elle, seno a affirmao d'um mysticismo
profundo, obliquado pela aco dissolvente do meio e pela orientao
revoltosa do tempo? _E tinhas Deus, para te consolar_,--diz
dolorosamente o poeta, no pungente isolamento a que o condemnou a sua
propria superioridade cerebral. O mesmo enlevo mystico d'aquelle, que

Nas pedras do deserto achou brandura,
Nas serpentes da serra piedade
E nas pelles das feras cobertura.

Lendo um e outro, o velho Agostinho Pimenta e o novo Antonio Feij, vejo
a affirmao de dois grandes poetas e a imposio de duas grandes almas.
Entre o profundo amigo do duque de Aveiro e o louro diplomata, as
differenas apparentes fundem-se numa grande semelhana intima. O
primeiro, victima da sua emotividade excessiva, fugiu do amor da terra
para o amor do ceu; o outro, galante e vivo, deixou-se ficar pelo amor
da terra, e em grande verdade, ficou melhor. Mas quando a evocao da
mulher domina os espiritos d'um e de outro, quando o sentimento da cr
lhes illumina os olhos, ento as apparies da Ilha dos Amores teem a
mesma luz que a appario de Magdalena e de Santa Clara aos olhos
pisados do frade. Vejamos se as figuras que passam na insula encantada,
vestidas de oiro e de sonho, as no poderia ter evocado o cerebro d'um
mystico como Juan de la Cruz, Jacopone de Todi ou Loureno de Medicis?
Uma _voluptuosa de si mesma_; outra, a lyrica Ignez, duas vezes virgem,
aquella, _toda de sol vestida e de astros coroada_; aquell'outra ainda,
_santa illuminada a oiro, no esplendor d'uma Assumpo_,--o que mostram
todas ellas, seno que o erotismo e o mysterio no so mais que dois
ramos da mesma arvore ou duas flres do mesmo ramo? O mysticismo de
Agostinho Pimenta e o erotismo de Antonio Feij, o que so elles, seno
uma e a mesma coisa?

Disse eu, que o poeta da _Ilha dos Amores_ tinha um logar aparte entre
os technicos portugueses. A sua technica, sendo nalguns pontos
decadente, , por assim dizer, classica e impeccavel no seu decadismo.
Feij afastou-se da discutivel rigidez do classico absoluto, e fez um
classico seu, de cujas formulas se no aparta. As liberdades da sua
technica chegam a ser mais difficeis do que as difficuldades da technica
parnasiana.  um caso espordico nos annaes da nossa lyrica. Seja como
fr, Feij tem no seu passado, como demonstrao clara da sua impeccavel
mtrica, dois livros modelares. Nas proprias paginas do _Auto do meu
affecto_, conserva-se um parnasiano puro. O mesmo nos sonetos da _Alma
Triste_. A _Ilha dos Amores_ veio apenas mostrar uma face nova do seu
grande poder de realizao. O proprio Francisco Manoel de Mello teve
delirios metricos, como Feij nalgumas das suas lyricas. E no , por
isso, menos poeta.

Deus queira que Antnio Feij nos traga um novo livro quando voltar,--um
livro todo de branco e oiro, em que o travor das suas nostalgias seja,
como neste ultimo, uma bem deliciosa nota. At l, envio-lhe, com as
saudades d'este ceu azul, o mais enternecido abrao.

_Novidades_, 20 de Julho de 1897.

Julio Dantas.

       *       *       *       *       *

ILHA DOS AMORES


Temos desde hontem o novo livro de versos de Antonio Feij--_Ilha dos
Amores_, saido, ha dias, dos prelos da Imprensa Nacional, e editado pela
casa M. Gomes, de Lisba. Evidentemente que, por muito menos fadigosa
que a nossa vida fsse, nos seria absolutamente impossivel avaliar em
conjunto, dentro de to breve espao, a obra de um artista litterario da
nobre categoria a que pertence A. Feij. Vai isto, assim, apenas como
registo de recepo e de vivo agradecimento, envoltamente com algumas
ligeiras notas da impresso que recebemos de uma rapida leitura.

Essa impresso  magnifica. O talento de A. Feij amplificou-se
notavelmente em emoo, em fantasia, em profundeza de alma; o poeta
alongou os seus passos e a sua viso pelo mundo, e  nostalgia da sua
bella mocidade, no muito longinqua, ainda, se lhe foi juntar a do seu
patrio Minho, to distante do pas scandinavo e, ao mesmo tempo, to
brutalmente contrastado pela noite e pela neve d'essa tristissima regio
polar. E  um encanto de observao o jogo d'esta dupla mgoa, d'este
complicado pungir, deliciosissimo, de que provm as estancias da _Ilha
dos Amores_. Numa reaco vigorosa de fisiologia e de alma, assim como
os seus olhos se ensanguentaram naquella immensa noite, assim tambem,
naquella tristeza inexoravel, o corao do poeta se dilatou de saudades,
e a estetica do glorioso parnasiano antigo emoveu-se intensamente e
vibrou fundo; todas as nervuras do marmore sagrado se desmineralizaram
em veias e em arterias e uma onda rubra e fumegante circulou e palpitou
por todas ellas.

De resto, em todos os versos que j lemos do novo livro,  o mesmo
estilo magnificente das produces de outr'ora, mas dexterisado com um
maravilhoso, consummado bom-gosto;  essa mesma amplitude
harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a
riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o
esmero, a esplendida perfeio de executante, que fizeram de Antonio
Feij um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea.

Em remate, da _Ilha dos Amores_, trasladamos para a valla do noticiario
esta divina lirica:


IGNEZ


              Na tua bca macerada
Por tantos beijos mercenarios que soffreste,
Meu labio achou ainda a candura sagrada
Que da avidez das outras bcas escondeste...

E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste
              Tantas paixes rolar,
A minh'alma escutou, num eco amargo e triste,
A primeira innocencia em segredo a chorar!

A chorar em segredo a pureza da infancia,
              A candura perdida,
De que eu sentia ainda a ultima fragrancia
A evolar-se de ti, como d'urna partida.

Pobre flr torturada! O teu doce perfume
              Foi delicia e veneno...
Pairava o teu Amor como num alto cume:
S podia attingi-lo o meu beijo sereno!

Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento,
              Tremeu, desfalleceu...
E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento,
Num sorriso de gloria  tua bca ascendeu!

Vinha cheia de graa e candura ineffavel,
              D'innocencia e de pejo,
Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel
Seria porventura o teu primeiro beijo!...

_Primeiro de Janeiro_, de 28 de Maio de 1897.

       *       *       *       *       *

Ilha dos amores, por Antonio Feij. Um vol. 114 pag. in 8^o, Lisba,
Editor M. Gomes 1897.

Produz-se, ao lermos os versos d'este poeta, o desejo de simplesmente os
irmos transcrevendo todos; e nessas condies limitarmos a apreciao a
simples interjeces. Ninguem hoje, em Portugal, cinzela assim to
primorosamente a lingua portugueza em metro e rima, e a obra litteraria
sae nitida, brilhante, completa,--sem que alguem note a fadiga do
obreiro, ou adivinhe os processos de factura. O artista confunde-se com
o dilettante, e  inconfundivel a linha de cada um d'elles.

Reproduzo esses dezesseis versos,--e ponho ponto na prosa:

Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados etc.

_Noites de Vigilia_. N.^o 16.

Silva Pinto.

       *       *       *       *       *

CANCIONEIRO CHINEZ por ANTONIO FEIJO


Dizia Oliveira Martins que o condo das bellas obras era relerem-se
indefinidamente. Ha treze annos que se publicou a primeira edio do
_Cancioneiro Chinez_. Desde ento a poesia, sobretudo no mundo latino,
passou pela mais vertiginosa e estranha evoluo, resvalando da _noble
ordonnance_ parnasiana at a anarchia quasi chaotica do decadismo, do
symbolismo, do instrumentismo, do amorphismo e d'outras phantasias
prosodicas e metricas. E, todavia, a segunda edio d'esse livro,
eminentemente artistico, nada mais faz do que renovar em quem o l a
sensao de graa lyrica, de finura conceptual, de impecavel belleza
plastica, que fez o successo d'essa admiravel e feliz adaptao do
lyrismo chinez  nossa lingua.

O trabalho de Antonio Feij conseguindo, atravez das verses francezas,
to maravilhosa transposio, sem estiolar a frescura emotiva do
original,  um dos mais bellos esforos d'arte e de gosto que a poesia
portugueza do fim do seculo passado tentou e realizou. Com a maestria
d'um habilissimo artifice da palavra, com a paciencia meticulosa d'um
beneditino do verso, elle trabalhou, limou, burilou essas pequenas e
graciosas joias, onde nos engastes da phrase perfeita scintillam as
gemmas da emoo lyrica. E como se no cingiu s formulas inconstantes
da moda litteraria, como, em vez de martellar n'um molde o _plaqu_
d'uma rethorica falsa, lavrou o seu pensamento no oiro puro do verbo
classico, a sua obra no envelheceu, no desbotou, nada perdeu do seu
brilho primitivo, e hoje, como ha treze annos, fulgura com o
inextinguivel esplendor do talento.

 difficil apreciar bem uma verso, quando se no conhece a lingua
original da obra vertida. Mas mais difficil se torna ainda o fazel-o,
quando as duas linguas so to dessimilhantes, de familias to diversas,
de estrutura phonetica e at graphica to differentes como so a nossa e
a chineza. Comtudo, se puzermos em confronto esses lindos poemazinhos e
as tradues da eminente sinologa, madame Judith Gautier, que verteu os
originaes chinezes para prosa franceza, fica-se surprehendido com a
exactido, a fidelidade, o respeito meticuloso do texto, a que Antonio
Feij se adstringiu no seu conscienciosissimo trabalho. No  d'elle que
se poder dizer: _traduttore, traditore_. Se os poemas chinezes so o
que a erudita filha do grande Tho nos revelou nas bellas paginas do
_Livro de Jade_, pde afoitamente dizer-se que o _Cancioneiro_ de
Antonio Feij  a mais irreprehensivel e leal das traduces.

Mas abstraiamos d'este ponto de vista. Supponhamos que Antonio Feij no
buscou nos poetas chinezes mais do que motivos lyricos, para sobre elles
ensaiar variaes ou glosas. Supponhamos que o Cancioneiro no  uma
traduco, nem uma adaptao, mas a obra de um poeta europeu, finamente
perfumada de orientalismo. Nem por isso a sua belleza seria menor, nem
por isso seriam menos admiraveis os versos purissimos d'essa purissima
obra d'arte. O auctor teria, neste caso, affirmado mais poderosamente as
suas faculdades de poeta e de artista, porque seria um semi-creador. E o
_Cancioneiro_, reduzido a uma imitao, no diminuiria de valor sob o
ponto de vista litterario.

Portanto, traduco, adaptao ou imitao, esse bello livro , de
qualquer forma, uma obra superior. As excepcionais faculdades poeticas
de Antonio Feij, a sua ponderao, o seu gosto, a luminosidade e
elegancia do seu verbo, o seu poder de linha e de colorido, a sua
technica admiravel e conscienciosa, patenteiam-se n'elle de uma maneira
brilhante, impoem-se triumphantemente  nossa admirao. O _Cancioneiro
Chinez_ marca em Antonio Feij a plena affirmao da sua individalidade
de artista--d'esta individualidade, que j as _Transfiguraes_, um
tanto frias nas suas linhas esculpturaes, e as _Lyricas e Bucolicas_,
mais vivas e emocionadas e no menos bellas como forma, annunciavam
promettedoramente. Do _Cancioneiro Chinez_  _Ilha dos Amores_ havia
apenas um passo a dar. Antonio Feij deu-o com raro brilho--e tornou-se
um poeta consagrado, um verdadeiro mestre do verso.

_O Cancioneiro_, alm do _Portico_, que abre com a exotica decorao e
as sentenciosas inscripes de uma entrada de Pagode, foi accrescentado
com _O sacrificio de Gu-So-Gol_, um canto soberbo de epopeia barbara.
Neste trecho Feij como que pe mais uma corda na sua lyra--a corda
epica. O quadro d'esse sacrificio heroico , realmente, grande e nobre.
A flauta de yade, que modulava as docuras idyllicas ou elegiacas do
_Leque_, _Flr Vermelha_, _Casa no Corao_, _Batel das Flores_, _Esposa
Honesta_, cede a vez  turba estridente que clangora as sublimidades do
heroismo. Os versos resoam bronzeos, metallicos, como um ruido de armas.
O seu rythmo alonga-se, ergue-se, empola-se, como uma vaga que o sopro
da tempestade entumesce. E em todo esse bello episodio uma forte
crispao tragica passa, fazendo-nos vibrar de um confuso sentimento,
mixto de terror e enthusiasmo epico.

_Jornal da Noite_, de 14 de Agosto de 1909.

Luiz de Magalhes.




INDICE


Prefacio, _por Luiz de Magalhes_
Antonio Feij, o que morreu de amor, _por Alberto d'Oliveira_
Dedicatoria
Elegia d'abertura


SOL DE INVERNO


I

Descendo a encosta do Parnaso (_A Joo Arroyo_)
A Armadura (_Ao Dr. Gran Bjrkman_)
A cidade do Sonho (_Ao Visconde de Pindella_)
Beatitude amarga (_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_)
Castello brbaro (_A Jos d'Azevedo Castello Branco_)
A Aguia prisioneira (_A Manuel da Silva Gayo_)
A Selva escura (_A Joo Chagas_)
O Livro da Vida (_A Antonio de Cardiellos_)


II

Dyptico
       I
       II Eu e Tu
Paladinos (_ Condessa d'Arnoso_)
         I Conde d'Arnoso, Joo
         II Conde d'Arnoso, Bernardo
Cabellos brancos, (_A D. Thomaz de Mello Breyner_)
Somnambula (_A Joo Caetano da Silva Campos_)
Cysne branco (_A Alberto d' Oliveira_)
Supplica ao Vento (_A Luiz de Magalhes_)
Gota de agua (_A memria de A. Rodrigues Braga_)
A Ventura (_A Anthero de Figueiredo_)
Entre pinheiros e cyprestes (_A meus sobrinhos Salvato e Ruy_)
Rio amargo (_A meu irmo Julio de Castro Feij_)


III

Hymno  Vida (_A Agostinho de Campos_)
      Belleza (_A Eugenio de Castro_)
      Dor (_Aos Condes de Sabugosa_)
      Alegria (_A Carlos Malheiro Dias_)
      Solido (_Ao Padre J. I. de Araujo Lima_)
      Morte
Epilogo


LENDAS E FABULAS

Preludio
O Amor e o Tempo
Fabula antiga (_A Manuel d'Oliveira Monteiro_)
Cleopatra (_A Jos Coelho da Motta Prego_)
Moiro e Christ (_A Antonio de Barbosa de Mendona_)
A resposta do rabe (_A Joo Gomes d'Abreu e Lima_)
A vocao d'Ibrahim (_A Aristides da Motta_)
A Princesa encantada (_A Alfredo da Cunha_)
O Romance da Pastora Linda (_Ao Conde de Bertiandos_)
A Lenda dos Cysnes (_A Julio Dantas_)





End of the Project Gutenberg EBook of Sol de Inverno, by Antnio Feij

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO ***

***** This file should be named 19532-8.txt or 19532-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/1/9/5/3/19532/

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
