The Project Gutenberg EBook of Como atravessei frica (Volume II), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

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Title: Como atravessei frica (Volume II)

Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Release Date: March 8, 2007 [EBook #20783]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI FRICA (VOLUME II) ***




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COMO EU ATRAVESSEI FRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA  CONTRA-COSTA.

A-TRAVS REGIES DESCONHECIDAS;

DETERMINAES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.


Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.

VOLUME SEGUNDO.

Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.


LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.


[_Tdos os direitos sam reservados_.]



LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.




CONTEDO.


CAPTULO IX.


NO BARZE.

     No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barze, Lui ou
     Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias
     particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando
     geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os
     Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e
     Quimbares--A prta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de
     Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas


CAPTULO X.


A CARABINA D'EL-REI.

     A traio--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com
     o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caa--Moangana--O Itufa--As
     pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A
     regio das cataractas superiores--Balle--Bombu--Na foz do rio
     Gco--Cataracta de Nambue--Os rpidos--Viagem vertiginosa--Catima
     Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita
     caa--Tragedia--Embarira


     Captulo Supplementar

       *       *       *       *       *

Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.




CAPTULO I.


EM LEXUMA.

     Prso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do
     Doutor--O Po--Graves questes--Os chronmetros no
     param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doena
     grave--Receios e irresolues--Chegada do missionario--Tomo uma
     deciso--Partida de Lexuma (em Inglez, _Leshuma_)


CAPTULO II.


MOZIOATUNIA.

     Viagem s cataractas--Tempestades--A grande cataracta do
     Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}
     Gabriel Mayer--Tmulos de Europos--Chgo a Deica--A familia
     Coillard


CAPTULO III.


TRINTA DIAS NO DESERTO.


     O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O
     grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Cra--Falta de
     gua--O ltimo ch de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_)


CAPTULO IV.


NO MANGUATO.

     Doena grave--Um Stanley que no  o Stanley--O Rei Cama--Os
     Inglezes em frica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor--Os
     Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros--Despedidas--Parto
     para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--Pararm os
     chronmetros?


CAPTULO V.


DE SHOSHONG A PRETORIA.

     Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.}
     Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nvo
     gnero--Chuvas--O Limppo--Fly--Caadas--No Ntuani--Um Stanley que
     no presta--Augusto furioso--Adicul--Os lees--Stanley desanima--Os
     Bers nomadas--Nvo vagom--Peripcias--Doenas graves--Um
     Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ltimo
     tmulo--Magalies-berg--Pretoria


CAPTULO VI.


NO TRANSVAAL.

     Rpido esbo da historia dos Bers--O que sam os Bers--Suas
     emigraes e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de
     diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado  cerca dos Bers--O que eu
     vi e que eu penso


CAPTULO VII.


NO TRANSVAAL (_continuao_).

     M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrnomo!--Sir
     Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario
     Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev.
     Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de
     infanteria--Major Tyler e Capito Saunders--Insubordinao--M^{r.}
     Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia
     de pretas--Episodio burlsco da guerra trgica dos Zulos


CAPTULO VIII.


O FIM DA VIAGEM.

     A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
     _dog-cart_--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no
     Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
     burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi
     Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O
     Danubio--O Commandante Draper--Regresso  Europa


Concluso


Breve Vocabulario


Indice

       *       *       *       *       *

LISTA DAS ILLUSTRAES.


FIG.

94.--O Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos de fumar o Bangue
98.--Vasilha para leite feita de madeira
99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Leno de assoar aos Luinas.
Especie de Esptula
100.--Pratos e Escudellas para a comida
101.--Colhr
102.--Machado de cortar madeira
103.--Artigos de Barro
104.--Homem Luina
105.--Mulhr Luina
106.--Azagaias Luinas
107.--Machadinhas de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque contra o acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem dos Barcos em Gonha
115.--Cataracta de Cale
116.--Rpidos de Bombue
117.--Nos rpidos
118.--Trs Europos atravessram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco cmmoda de medir ngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev. Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto Limppo
133.--Montes termticos junto ao Limppo
134.--Os meus Bis foram salvos
135.--O ltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da Expedio
138.--Eu em Pretoria (_De uma photo. de Mr. Gross_)
139.--Betjuanas (_De uma photo. de Mr. Gross_)

Mappa de Mozioatunia

Trs Facsmiles, de pginas do Diario, dos Livros de Clculos, e do Albo de
Cartas





COMO EU ATRAVESSEI FRICA

       *       *       *       *       *

Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.




CAPTULO IX.


NO BARZE.

     No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barze, Lui ou
     Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias
     particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando
     geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os
     Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e
     Quimbares--A prta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de
     Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas.


A 25 de Agsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava
no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na cidade de
Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barze,
Lui ou Ungenge, que tdos estes nomes pode ter o vasto imperio da frica
tropical do sul. Como se sabe plas descripes de David Livingstone, um
homem vindo do Sul  frente de um exrcito poderso, o guerreiro
Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua
confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze,
sujeitando ao seu dominio tdas as tribus que habitavam o vasto paiz
conquistado.

Chibitano, o mais notavel capito que tem existido na frica Austral,
partira das margens do Gariep com um pequeno exrcito formado de Basutos
e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancbos dos povos que vencia, e
ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que
depois se tornram to terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na
defensa do paiz conquistado.

A sse exrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas
raas e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o
nome de Macololos que to conhecido se tornou em frica.

No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados
por chefes independentes, que no podram, separados como estavam, oppor
sria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto.

To sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro,
Chibitano soube dar unio aos povos conquistados, e fazer com que elles
se considerassem irmos no interesse commum.

Estes podiam agrupar-se em trs divises, marcando trs raas
distinctas.

Ao sul, abaixo da regio das cataractas, os Macalacas; no centro, os
Cangenjes ou Barzes; e ao norte, os Luinas, raa mais vigorosa e
intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governao do
paiz.

 propriamente no paiz do Barze ou Ungenge, que se tem conservado as
sedes do govrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de
Chibitano; e tdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou
Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barze. Mais
tarde, n'este captulo, terei occasio de falar na historia d'este pvo
desde a ltima visita de Livingstone at  minha passagem ali;
proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sb o reinado de
Lobossi, e do seu conselheiro ntimo Gambela.

A organizao poltica do reino do Lui  muito differente da dos outros
povos que eu tinha visitado em frica. Ali ha dois ministerios
perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo
este ltimo dividido em duas seces, cada uma com o seu ministro. Uma
d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto , uma trata
com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo.

Na occasio da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois
dos quaes no tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de
Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos
negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do conslho do rei.
Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves
questes que tinha a tratar.

Logo de manh, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.

Larguei os meus andrajos, e vesti o nico vestuario que ja possuia,
dirigindo-me em seguida  grande praa onde devia ter logar a audiencia.

Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praa,
e por de tras d'elle um ngro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.

Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente
grsso.

Vestia um casaco de cazimira prta sobre uma camisa de cr, e em logar
de gravata, trazia ao pesco um sem-nmero de amultos.

As calas eram de cazimira de cr, e deixavam ver as meias de fio de
escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.

Um grande cobertr de listas multicolres em guisa de capote, e na
caba um chapo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de
avestrs, completavam o traje do grande potentado.

Na mo um pedao de madeira lavrada, ao qual estavam prsas muitas
clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as mscas, aco que elle
fazia com tda a gravidade.

 sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na
frente os trs conselheiros. Umas mil pessas, sentadas no cho em
semi-crculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que
estavam do soberano.

[Figura 94.--O Rei Lobossi.]

 minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os
conselheiros e tdo o pvo. Troquei um apertar-de-mo com elle e com
Gambela, abaixei a caba a Matagja e aos outros dous conselheiros, e
sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.

Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de
uma crte Europea do que de um pvo brbaro, eu disse ao rei, que no
era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que
tinha a falar-lhe em assumptos que no podiam ser tratados ali diante de
to numerosa assemblea.

[Figura 95.--Gambela.]

Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepo que
me mandara fazer na vspera e a que elle mesmo me fazia ali, me
mostravam que eu no era confundido com um negociante qualqur; que eu
era seu hspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle
esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua crte. Depois
de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa
abrasado em febre.

No meu pteo encontrei trinta bis, que o rei me mandava de presente.

Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha
parte, mandar matar os bis, e offerecer a melhor perna de bi ao rei, e
dar carne  gente da crte.

Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina
enorme, sendo tdos os bis mortos, e a sua carne distribuida entre os
meus carregadores e a gente da crte; tendo o cuidado de mandar ao rei e
aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor
quinho a Gambela, a quem fiz notar a distinco que fazia.

[Figura 96.--Matagja.]

As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.

Pla 1 hora, fui recebido plo rei em audiencia particular, em uma casa
tambem semi-cilndrica, mas de grandes dimenses, que no contava menos
de 20 metros de comprido por 8 de largo.

Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro
conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os
quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympthica e expressiva
me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na
viagem que o clebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle
fala, no seu roteiro com tanto elogio.

Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois
de o rei ter bebido, bebram tdos com profuso, e nem me offerecram,
sabendo que eu s gua bebia.

Conversmos sbre cousas indifferentes, e eu entendi no dever falar-lhe
ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falmos a respeito de
lnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em
Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flres d'Alma do poema "D.
Jayme," e os prtos ficram encantados ao escutar a harmonia da nossa
lngua, que o mimso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e
fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.

Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem
percebeu, que lhe fsse falar depois de ser noute fechada.

Pouco depois de eu chegar a casa, apparecu-me ali Machauana, com quem
conversei sbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de
amizade.

 noute, pelas 9 horas, fui  morada do rei. Elle estava n'um dos pteos
interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fgo, que ardia
n'uma bacia de barro de dois metros de dimetro. Na sua frente, em
semi-crculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam
a maior immobilidade e silencio.

Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e comeou a nossa
conferencia.

Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho
os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido
salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e
um chapo, que lhe apresentei logo.

Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tda Lisboa vio aos
lacaios postados nas antecmaras do Marquez de Penafiel, e que fram
vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de
Lisboa, pelo viver mais buliso da capital da Frana.

Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapo armado, e fz-me mil
agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrmos
em assumpto.

No Barze falam-se trs lnguas. O Ganguela, a lngua Luina, e o Sezuto,
idioma deixado ali plos Macololos, que modificram os costumes
d'aquelles povos a ponto tal, que at lhes implantram a sua lngua, que
 a lngua official e elegante da crte.

Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de
intrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao rgulo, que vinha da
parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome plo qual sua Magestade
Fidelissima  conhecido entre tdos os povos da frica Austral, e que 
formado por duas palavras--_Muene_, que quer dizer Rei, e _Puto_, nome
dado em frica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir
caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de frica, e ja em
communicao com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim
um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos
gneros Europos de que precisassem.

Elle queixou-se muito da falta que nos ltimos tempos lhe havia feito o
no virem ali negociantes de Benguella, no me occultando que, entre
outras cousas, estava sem plvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se
com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o
Mueneputo estava dispsto a proteger o commercio com elle, se elle se
compromettesse a no consentir nos seus estados a compra e a venda de
escravos.

No lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o
desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se
elle me coadjuvasse na emprsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo
possivel, a plvora e mais artigos de que elle carecia.

O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prtos),
quiz por vzes enredar-me, mas eu no sahia da verdade e da lgica, e
elle foi vencido.

No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma
comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de
confiana, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle
me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.

Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre
desconfiado de prtos, no posso deixar de confessar que me retirei
satisfeito.

O dia foi tdo muito occupado, e depois de  uma hora me recolher,
sobreveio-me um enorme accesso de febre.

Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e
Quimbares construirem um acampamento meio kilmetro ao sul de Lialui,
para o qu obtive autorizao do rei.

Plas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa
circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas
de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do rgulo,
dentro em pouco estavam bbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu
voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.

Foi immensa gente visitar-me, e como eu no tinha remedio seno ouvir
uns e outros, porque aquelles ngros no t[~e]m a menor considerao por
um doente, peiorei muito.

Lobossi mandou-me seis bis, cuja carne foi tda furtada pla gente
d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e
Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bbados, no quizram saber
d'isso.

No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manh; eu estava um
pouco melhor, mas a febre era constante e no queria ceder aos
medicamentos.

s 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu
grande conslho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus
projectos.

Outra vez Gambela, que presidia  assemblea, me quiz embaraar, e outra
vez se sao mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos
conselheiros da cora.

Tracei-lhes no cho o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o
curso do Loengue, que, com o nome de Cafcu, vai entrar no Zambeze a
jusante dos rpidos de Cariba.

Mostrei-lhes que em 15 dias alcanaria a povoao de Cainco, situada em
uma ilha do Loengue, e que desceramos o rio embarcados at ao Zambeze,
e por este ao Zumbo.

Afirmei-lhes, que o Loengue no tinha cataractas, e que o Zambeze de
Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.

Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma
travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10
(citando-lhes para isso um facto de uma expedio Luina que, partindo de
Narieze, tinha alcanado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia
por terra, elles estariam em rpida, communicao com os
estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente
navegaveis.

O pblico estava admirado da minha erudio, e Gambela, que sabia mais
geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europos, e que
conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu s razes.

Depois de longa e acalorada discusso, foi resolvido, que se enviasse a
comitiva a Benguella, e que me fsse dada a gente sufficiente para
atravessar o Chuculumbe at Cainco, deixando trs ou quatro fortes
postos no caminho, para segurar a passagem quelles que, indo comigo at
ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sesso, houve grande
enthusiasmo, e fram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella,
e os que me deviam acompanhar.

Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razo, melhorando
s 6 horas da tarde.

 noute, annunciram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o
primeiro rei da dinastia Luina.

Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e
sympthico.

Trazia uma cala prta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em
muito bom estado. Fez-me profunda impresso ver aquella farda! A quem
teria pertencido? Como teria ido parar ao centro d'frica?

Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto,
que pertencra a um espso estremecido, algumas migalhas de po para
matar a fome.

Perguntei a Munutumueno como tinha obtido aquella farda? e elle
respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja
muito tempo.

Indaguei, se no lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle
respondeu-me, que no tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos,
era impossivel.

Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito,
effectivamente vi que no tinha blso ali.

Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das
abas. Elle estava admirado, porque no sabia que tinha bolsos ali. Em um
d'elles os meus ddos encontrram um pequenino bilhte.

Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?

O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos
e no me atrevia a abrir?

Cheio de commoo, desdobrei o papl, e vi n'elle algumas linhas
escritas a lapis, que li vidamente.

No pude conter uma gargalhada.

O papl dizia assim:--

"Se lhe no sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo
de nos correspondermos."

Por baixo um nome e uma morada.

Sabia de quem fra a farda.

O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscpulo, que hje
occupa uma distintissima posio n'uma das armas scientficas do
exrcito Portuguez.

Um dia em pblico commetti a indiscrio de pronunciar o nome do
signatario do bilhte, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, no
creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto
cavalheiro.

Uma farda que o talento e a applicao ao estudo fizram trocar por
outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pla
instabilidade das cousas, foi parar ao centro de frica, creio  cousa
que no desdoura ninguem. Em quanto ao bilhte de amres, creio bem que
ainda menos o deve vexar.

Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, no escrevram bilhtes
assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os no podem
escrever.

"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um _pap_, ou uma _mma_, sempre
impertinentes em taes casos, te no deixou entregar, ao sahir do theatro
ou de um baile,  tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos
desoito annos fz recolher ao blso. Imagino, meu amigo, que te deves
ter rido, sabendo que aquelle bilhte esqucido, depois de atravessar os
mares, atravessou aquelles inhspitos paizes, e andou em companhia de um
prto no alto Zambeze.  verdade, que, para te consolares, sabes que
esse prto era filho de rei."

N'esta aventura, eu fui o nico tlo, em ter tido pensamentos tristes, 
vista do bilhte encontrado no blso da farda de um alferes de
cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhte s podia ser um
bilhte d'amres.

Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tdos os paizes,  sempre
um fogacho onde as maripsas v[~e]m queimar as azas douradas.

Pensando na proposio que acabo de formular, deitei-me cheio de
tristeza, lembrando-me que ja era major.

No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu no poder andar.
Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mdico de confiana.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.

Principiou elle por tirar do pesco um cordo onde tinha enfiado oito
metades de caroos de uma fruta qualqur que eu no conhecia. Comeou,
com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras mgicas, e atirou
com os caroos ao cho. D'estes, uns ficram com a parte interna voltada
para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposio,
concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de
mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu
aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me
dizia, e dei-lhe um pequeno presente de plvora.

N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e
massambala.

Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco s fortes doses de quinino
que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral  que peiorava
de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia
ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sb o pso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados plo meu estado, mas cada portador que
vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido
cada vez mais impertinente.

N'aquelle dia mandou elle os seus msicos tocarem e cantarem para me
enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de plvora por
cada msico.

N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei
mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praa, desejo
que eu satisfiz mandando doze homens dar fgo.

Sube depois que aquillo era uma convocao  guerra, e antes de falar
nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o
ponto em que ficou narrada plo D^{or.} Livingstone, isto , desde a
morte de Chicrto.

O imperio, poderosamente sustentado pla mo de ferro, sabia prudencia e
fina poltica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pgada de
decadencia no reinado de seu filho Chicrto. David Livingstone, muito
grato aos favres de Chicrto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a
Moambique,  talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este
rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmo
Carlos e o Doutor Kirk, no pde deixar de narrar a desordem e profunda
decadencia em que encontrou o imperio Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto  Macololos, poucos
existiam ja, tendo sido decimados plas febres do paiz, que nem os
naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tda a autoridade aos
invasores. Mrto Chicrto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia
reinar durante a minoridade de Pepe, irmo muito mais nvo de Chicrto,
e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo no
tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma _Saint Barthlemi_
por os Luinas, os restos d'esse forte exrcito invasor foi assassinado,
escapando apenas poucos, sb o commando de Siroque, irmo da me de
Chicrto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois d'essa carnificina traioeira, acclamram seu chefe
Chippa, homem de tino, que no deixou desmembrar o paiz, e procurou
conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chippa reinou muitos annos, mas as ambies apparecram e, em 1876, um
tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criana
de 17 annos.

O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a caba a
Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tdos os parentes e amigos
do pai que o elevram ao poder, chamou para junto de si s os parentes
maternos. Aquelles conspirram, fizram uma revoluo, e tentram
assassinal-o, em Maro de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiis, pde
escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoao
de Mutambanja.

Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exrcito, e Manuanino tve
de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quissque, internou-se no
paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos,
caadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqe. Lobossi
entendeu, que a sua segurana dependia da morte de Manuanino, e mandou
contra elle um nvo exrcito. Foi do resultado d'aquella expedio que
n'esse dia chegram noticias.

Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que
elles chamam _Mozungos_, intimram estes a que lhes entregassem
Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacram,
mas, com tanta infelicidade, que fram completamente batidos plos
brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegram a Lialui a
narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando  guerra; e
porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praa da
cidade.

Ja que falei na historia do Lui, no dvo proseguir sem narrar um dos
seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo
verdadeiramente sympthico.

 Siroque, aquelle Macololo, que, na occasio da Saint Barthlemi dos
Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrpido e audaz, caminhou a oeste at encontrar o Cubango,
onde se estabeleceu, vivendo da caa dos elephantes.

Depois subio o rio at ao Bih, e fixou-se ali por muito tempo, chegando
por vzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo
umas questes em que bateu os que o atacram, retirou por prudencia para
o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou
a vida de caador.

Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado,
no podia deixar de ser ambiciso.

Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se
approximando d'ali plo Cuando.

Um pombeiro do Bih, seu amigo e que lhe tinha fornecido plvora,
denunciou-o, e Manuanino, ento acclamado de pouco, fel-o assassinar
junto da povoao de Mutambanja, pla mais cobarde traio.

Tdos os seus fram vctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio
o tmulo ao ltimo dos Macololos.

Aquelle dia amanhecido to bonanoso para o adolescente monarcha, que s
via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado,
envolvido em nuvens de tempestade.

As noticias ms succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o
poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.

Andavam tdos desorientados, tdos emittiam alvitres, todos pensavam
loucuras; s dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pvo
semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra,
Machauana o General em chefe.[1]

Ordens acertadas e rpidas eram dadas por elles a emissarios fiis, que
partiam para povoaes distantes.

O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o
paiz?

Diziam e repetiam, que fram os _Muzungos_ que matram os sicarios de
Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era
_Muzungo_, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente
ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raa
differente dos Portuguezes de oeste.

No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados _Chiudres_,
nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, _Muzungos_; e os
Inglezes do sul, _Macas_. A tdo e qualqur prto que vem das colonias
Portuguezas chamam _Mambares_, de certo corrupo da palavra
_Quimbares_, com que sam designados os prtos semi-civilizados de
Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a
oeste das serras de Tala Mugongo uma raa de _Mambares_.

Os _Quimbares_ sam prtos de qualqur procedencia, geralmente escravos
ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das
senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguella chamam _Quimbundos_ ao gentio selvagem do interior,
designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manh, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer
a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o
Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e
por isso, que tudo o que havamos combinado estava prejudicado.

Aquelles acontecimentos tornavam muito crtica a minha posio.

N'essa tarde, estando eu com um nvo e violento accesso de febre, viram
prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvil-os.

Depois de variados prembulos, dissram-me, que me iam deixar, porque
viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e s desejavam voltar
ao Bih.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!

Miguel, o caador de elephantes, o pombeiro Chaquiongo, e dois
carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viram
protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tdos os
_Quimbares_ me viram fazer igual declarao.

Aquella resoluo inesperada dos Bihenos fz-me recobrar o sangue frio
que ja no tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso
lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento,
entregando-os ao prto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a
Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a
Benguella.

Fiz em seguida a conta  minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fz-me repetidas
exigencias de cousas que eu no possuia, e elle queria por fra que eu
tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criana,
mas criana impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites
para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a
minha viagem plo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e
alguma gente para eu tornear plo sul e ir ao Zumbo.

Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles no tinha fundamento, que
d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino.
Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que
se eu nada mais tinha, lhe desse tdas as armas e a plvora que possuia,
porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por
ella, e no precisava levar tanta gente armada.

Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e
que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de plvora, mas
neguei-me formalmente a dar-lhe uma s que fsse das outras, dos homens
que me ficram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito
as observaes da manh, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou
espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tda a minha
gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propsito para me ir
juntar aos _Muzungos_ que estavam no Cafuque com o Manuanino, e
fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pla minha insistencia
em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fra elle prevenido dos
projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus
estados, e s me deixaria livre o caminho do Bih.

Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimao; cousa que em
nada me desconcertou o esprito, porque, desde a vspera  noute, eu
esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas elle tve o cuidado de fazer com que o no
encontrassem em tdo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do
passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os
sertanejos do Bih de virem ali, tve por nica resposta nvo mandado de
despejo, e s livre o caminho do Bih.

 tarde, nova preveno, de que as foras que estavam reunidas para a
guerra, no sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de
Benguella.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sbre o
caso, porque a noute era ba conselheira, e que esperava ainda a sua
ltima deciso no dia immediato.

A 2 de Setembro, logo de manh, recebi a visita de Gambela, que vinha da
parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que
o nico caminho livre era o do Bih. No pode passar nem por ali, nem
por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.

Contra tdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estve em minha casa,
conservou as armas na mo, e eu entretive-me brincando com um magnfico
revlver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, v
dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu no arredo um passo
d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exrcito,
que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo
lhe tomar contas d'isso. Vocs estam indispostos com os Matebeles,
ameaados pla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se
tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que no
sahirei d'aqui seno para seguir o meu caminho."

Gambela sahio da minha barraca furioso.

N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de
que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se
negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que
assistia Machauana, que me fez mil prevenes para estar de sbre-aviso.

A larga conversao que tive com o antigo companheiro de Livingstone,
mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo
guerreiro de Chibitano, depois muito afeioado ao rei Chipopa, s
pensava em ver occupar o trno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu
protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.

Tendo podido ler no corao do velho aquelle odio e aquella affeio,
considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha
influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias,
que tanto ferem ali nas revolues, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos
protestos de gratido, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei
Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me
abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idas cubiosas, que
elle no tinha n'aquelle momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos
meus homens mais decididos, uma especie de ces que eu tinha comigo,
como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo  audiencia
do rei, onde tdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem
sbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ntimos, e
eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que
tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "Viva
Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revoluo feita n'estes termos no podia deixar de dar bom resultado
n'um paiz que ama as revolues, e onde se faria a primeira em que no
houvesse uma gta de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para
acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha
prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha
mudado de parecer, e que tdos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias at ao Quissque, mas que, em vista das cousas que se
estavam passando nos seus estados, no podia dar-me fra para me
seguir, nem se responsabilizava por qualqur desastre que me podesse
acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquella deciso, e declarei-lhe, que tinha por costume, s
eu mesmo me responsabilizar pla minha vida, e no tornar ninguem
responsavel d'ella.

Antes de se retirar, fz-me muitos pedidos, que ficram sem satisfao,
por no ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tdos
os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo
que eu no tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.

Sube depois, que a nova deciso tomada por Lobossi fra filha de
reteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do
passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manh, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma
audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao
nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e
tambores, dirige-se  grande praa, onde vai sentar-se junto a uma alta
sebe semi-circular, cujo centro  occupado pla cadeira real.

Por de traz d'elle senta-se a gente que compe a crte, e  sua direita
Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.

Na frente do rgulo, a 20 passos, a msica em linha, e aos lados, em
muitas fileiras, o pvo.

Ali tratam-se um certo nmero de negocios, que no precisam ser tratados
em conselho privado. Aquella audiencia  tambem judicial. N'aquelle dia
tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio
sentar-se em frente d'elle, e fez a accusao. O acusado negou o crime,
e logo de entre o pvo sahio um homem que veio advogar em favor do ro.
Ali qualqur amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle;
fz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusao e defesa. O
crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhr do
ladro; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do
roubo, pla posse da mulhr.

Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhr de lhe
no obedecer. Esta accusao foi seguida de muitas outras semelhantes, e
mais de vinte sbditos de Lobossi fizram amargas queixas contra as
espsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa
revolta domstica. Depois de alguma discusso, foi resolvido, que tda a
mulhr que no obedecesse cega e absolutamente ao marido, fsse amarrada
e mettida na laga, onde passaria uma noute s com a caba de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a
promulgassem nas povoaes.

Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias  o modo porque Gambela
conferenceia com o rei em segrdo, diante de tdos. A um signal de
Gambela, comea a msica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de
tal modo infernal, que  impossivel perceber uma palavra das que trocam
o rei e o ministro.

Em seguida  audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se
embebedarem.

V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um
verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e  tarde,
depois de novas libaes, d nova audiencia. Logo que, ao anoutecer,
termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde
raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi
deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques annunca que o rgulo est recolhido, e ento a
guarda, composta de uns quarenta homens, comea a tocar uma msica, que,
apesar de montona,  agradavel; e tda a noute cantam um cro suave e
harmonioso a meia voz. Esta msica que no Barze acalenta o sono do
soberano, serve para mostrar que a guarda vela em trno do seu aposento.
N'estes poucos traos dou uma ida resumida do viver montono do
autcrata Africano, viver repartido entre a lascivia trpe e a
embriaguez brutal.

N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que,
em conselho privado, se opz formalmente a que me mandassem assassinar;
dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha
sido muito bem tratado plos brancos, assim como os Luinas que o
acompanhavam; e por isso no podia consentir que fizessem mal a um
branco da mesma raa.

Chegou mesmo a ameaar os poderes constituidos, o que era caso grave
para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos
ministerios; precauo tomada plos novos conselheiros, que com alguns
golpes de azagaia cortam pela raiz as opposies.

C na Europa, algumas vzes, procura-se denegrir a reputao dos
antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pvo, para lhes
diminuir a fra moral como opposio. Eu acho mais nobre, mais digno e
mais seguro o systema poltico dos Luinas, o que no quer dizer que o
recommende.

O conselho, em vista da attitude e das razes de Machauana, decidio, que
eu no morrsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta
propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do
acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de
arremesso passou to perto de mim que a aste vergastou-me o brao
esqurdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prto a vinte
passos, empunhando outra. Tirar o revlver e fazer fgo sbre elle, foi
acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino
virou costas e correu em direco a Lialui. Corri sbre elle.
Sentindo-me no encalo, o prto deitou-se por terra. Receei uma cilada,
e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fgo.

Vi que o membrudo indgena estava de bruos com as azagaias cahidas ao
lado.

Peguei-lhe n'um brao, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao
contacto da minha mo, senti um lquido quente correr-me por entre os
ddos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de
mdo, umas palavras que eu no entendi. Apontando-lhe o revlver,
obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali no fizera sensao o tiro de revlver, porque tdas as noutes se
ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiana, e
entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara
junto  caba superior do hmero direito, perto da clavcula, e no
tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. No lhe apparecendo sangue
nas vias respiratorias, calculei que o pulmo no tinha sido offendido,
assim como o fio de sangue que corria da ferida, pla sua tenuidade me
mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulao tinha sido
cortado. N'estas condies a ferida no apresentava gravidade, plo
menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e
ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os
muleques conduzissem para ali o ferido.

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela
antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era
aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do
assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o
ferido, mostrou-me quem tinha sido a caba que enviara aquelle brao.
Lobossi mandou logo retirar d'ali o prto, e disse-me, que aquillo era
um grande agouro, e que ja no durmiria aquella noute socegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito,
lastimando que eu no tivesse morto o prto, e dizendo-me, que ia matar
meio mundo.

O prto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi dissram
nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sbre o facto o
maior segrdo, assegurando-me, que no me acontecia outra em quanto
estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de
Gambela.

Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e
puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me
sorpresa.

A pessa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata no
ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se
introduzia de rastos.

Esperei um momento, e ao claro da fogueira conheci a prta Marianna,
que, com meio crpo dentro da barraca, me fazia signal para que
entivesse calado.

Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca
atraia-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui
a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socgo a
gente de Silva Porto, e estve a falar com elles na barraca d'elle. Eu
fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava.
Elles dissram, que como tu no entendias a lngua do Lui, quando tu
lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te
dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o
rei te matasse.

"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."

Agradeci muito  pequena o aviso e dei-lhe o nico collar de missanga
que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.

A declarao da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que
eu confiava eram os primeiros a atraioar-me.

Mil pensamentos tristes, que no conseguram alquebrar-me o esprito,
produzram uma noite de insomnia.  verdade, que a preveno de Marianna
veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes
conhecia a traio nos seus detalhes; e de manh ao levantar-me, eu
repetia a mim mesmo o rifo Portuguez, de que "um homem avisado vale por
quatro."

Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu
presentia que o perigo pairava em trno de mim, e que a espada de
Damocles estava suspensa sbre a minha caba.

N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella,
e a comitiva do rei do Lui, commandada por trs chefes Luinas e guiada
plo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa.

Com ella fram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito
com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se
perdssem e mais nada fizesse, o ter posto um pvo to poderso em
relaes com a civilizao Europea da costa, era ja um resultado
importante da minha viagem.[2]

A revelao feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu
s pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traio
d'aquelles em que eu mais confiava.

Formei um plano que decidi pr em prtica n'esse mesmo dia.

A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se dram comigo
depois da minha chegada ao Lui, no me tem deixado falar dos povos
Luinas e seus costumes.

Em logar de encontrar ali essa raa forte e vigorosa, creada por
Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma
raa abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que
t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pgada de
decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha (_Cannabis Indica_),
a embriaguez e a syphilis, t[~e]m lanado aquelle pvo no mais abjecto
embrutecimento moral, e enfraquecimento physico.

[Figura 97.--Cachimbos de fumar o Bangue.]

O primeiro d'aquelles trs grandes inimigos da raa prta chegou-lhe do
sul e leste plo Zambeze; os dois outros fram ali importados plos
Bihenos, que lhe trouxram ainda outro inimigo no menos terrivel, o
trfico da escravatura.

Poucos paizes Africanos levram to longe como os Luinas a prtica da
polygamia. Gambela,  pocha da minha estada no Barze, tinha mais de
setenta mulheres!

O Lui, ou Barze propriamente dito, isto , o paiz que fica ao norte da
primeira regio das cataractas, compe-se, da enorme planicie onde corre
o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vzes, de 30 a
35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a
leste, onde assentam innmeras povoaes, que v[~e]m estabelecer as suas
culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde
corre o Ninda. A planura do Nhengo  separada do leito do Zambeze por
uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio,
e onde estam muitas povoaes, livres das maiores cheias.

Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze  inundada, e
eu medi em algumas rvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das
guas trs metros.

No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na
pocha das cheias, calculando uma corrente mnima de 20 metros por
minuto, devem passar ali 240 milhes de metros cbicos d'gua por hora.
Isto d uma medida do que sam as chuvas na frica tropical,
acrescentando-se, que regularmente a inundao atinge o seu mximo em
oito dias.

O pvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz
montanhoso durante as inundaes.

Ao retirar das guas, volvem a occupar as povoaes abandonadas na
inverna, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a
verdade, no encontra ali um pasto vioso em pocha alguma do anno;
porque os prados sam formados, pla maior parte, de canial, onde abunda
uma especie do _Calamagrostis arenaria_.

As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do
Zambeze, e sempre junto das encostas.

A inundao deixa na planicie um sem-nmero de pequenas lagas, que se
atulham de vegetao aqutica, e que sam outros tantos focos miasmticos
de infeco palustre. Ha pochas no anno em que os proprios indgenas
sam fortemente atacados pelas febres endmicas.

Nas lagas abunda peixe e ha muitos batrchios.

 d'estas lagas que se fornecem de gua potavel os indgenas, mas 
preciso confessar, que elles s a bebem depois de transformada em
Capata.

Os Luinas sam pouco agricultres, e muito pastres. Os seus rebanhos
constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu
principal alimento.

O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.

O leite frsco e o leite azdo (coalhado) sam, com a batata dce, a base
da sua alimentao. A farinha de milho  empregada para fazer a Capata,
de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz.

Os Luinas fabricam o ferro, e tdas as suas armas e tdos os seus
utensilios, sam feitos no paiz. No usam facas, e no podemos deixar de
nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que no
empregam facas, e mais ainda, logo que conheamos o instrumento com que
trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste,
comea a obra da azagaia. O ferro d'esta  instrumento para tudo. Os
bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do
leite, e tdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella.

[Figura 98.--Vasilha para leite feita de Madeira.]

Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e  a colhr.
Vivendo de leite, o Luina no pode prescindir da colhr, e dispensa a
faca. O seu systema de alimentao explica a falta d'esta e o muito uso
d'aquella.

[Figura 99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Leno de assoar aos
Luinas. Especie de Esptula.]

[Figura 100.--Pratos e Escudellas para a comida.]

[Figura 101.--Colhr.]

[Figura 102.--Machado de cortar Madeira.]

A industria cermica limita-se no Barze  fabricao de panellas para
cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes.
lm d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o _bangue_.

[Figura 103.--Artigos de Barro.
1. Panellas de cozinha.
2. Tlha de guardar cereaes.
3, 3. Fornalhas dos cachimbos.]

O Luina s fuma o _bangue_; o muito tabaco que cultivam  empregado
exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e
mulheres.  este o pvo mais coberto que encontrei em frica.  raro
ver-se ali um homem ou mulhr despidos da cintura para cima. Os homens,
como ja disse no captulo anterior, usam umas pelles passadas em um
cinto, que pendem adiante e atraz, chegando at aos jolhos. Um manto de
pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o,
cobre-lhes o tronco e cahi-lhes at meia perna.

Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da
cinta, muitas manilhas e muitos amultos, completam o seu trajar. As
mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chga ao jolho, e atraz
desce at ao grsso da perna. Sbre o saio um largo cinto enfeitado de
buzio (_caurim_). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao
pesco e muitas manilhas nos braos e pernas, sam o vestuario do paiz.
Vemos hje muitas indgenas substituindo as pelles por estfos Europus,
os capotes por cobertores de algodo, e mesmo tdo o trajar gentlico,
por o fato do homem civilizado; mas eu aqui no curo das excepes, falo
no traje primitivo do paiz, e no nas innovaes que o commercio ali tem
levado.  preciso contudo revelar, que este pvo tem uma tendencia
manifesta para se vestir. De certo, antes da invaso dos Macololos, os
Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus
vizinhos de leste, andam completamente ns, homens e mulheres. A oeste
os Ambuelas fram tambem encontrados ns, plos primeiros sertanejos
Portuguezes que ali se aventurram,[3] e ainda hje no se cobrem muito.

[Figura 104.--Homem Luina.]

O trajar dos Luinas que eu descrevi,  o mesmo usado outrra plos
Macololos, e por isso  de crer que fsse introduzido por elles.

Essa tendencia, que eu fao notar, d'este pvo para se vestir, deve
merecer a atteno do commercio, e  uma tendencia a explorar em
beneficio d'elle, dos indgenas e da civilizao.

[Figura 105.--Mulhr Luina.]

As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o crpo com manteiga de
vacca misturada de talco em p, que lhes d  pelle um lustro
avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo.

Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de
fbrica Ingleza, levadas ali plos sertanejos do sul, e outras de silex
Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indgenas, ao
contrario do que acontece, com tdos os povos da costa de Oeste at ao
Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que s querem ja
carabinas raiadas. No usam cartuxo como os Bihenos e povos
circumvizinhos d'estes, e trazem a plvora slta em cornos, ou em
cabaas. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. No
usam frechas.

[Figura 106.--Azagaias Luinas.]

[Figura 107.--Machadinhas de guerra.]

[Figura 108.--Porrinho.]

T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bi
armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias
de arremo.

Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, no sam por isso
menos terriveis; devido s barbas desencontradas que lhes fazem, de modo
que, na maior parte dos ferimentos,  preciso matar o ferido para lh'-as
arrancar do crpo.

O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m, fram
as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul
celeste e Maria 2^a.

Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.

Fazendas tdas sam bas para o Lui, preferindo elles as melhores. O
arame de lato, de trs a quatro milmetros de dimetro, tem valor, e a
roupa feita, cobertres, armas de percusso, fulminantes, plvora,
chumbo em barra, e artigos de caa, sam ali cotados em subido pro.

Em tdo o paiz o commercio  feito exclusivamente com o rgulo, que faz
d'elle monopolio; pertencendo-lhe tdo o marfim que se caa nos seus
estados, e tdos os gados dos seus sbditos, a quem elle os pede quando
precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes
aos seus caadores, chefes de povoao, crte, etc.

As mulheres gozam de bastante considerao, e entre a nobreza no fazem
nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar
tabaco. Possem muitos escravos, pla maior parte Macalacas, que as
servem.

Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bis de uma raa magnfica, e
mesmo as suas gallinhas e ces sam de melhores raas do que os que
encontrei at ali.

O valle do Barze est cercado por ste a sul da terrivel mosca z-z, o
que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a
sahida d'elles, a no ser para oeste no caminho de Benguella, tdo limpo
do prejudicial diptro.

Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da
invaso de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que
foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos
Macololos, e que eu encontrei em condies bem differentes, sb a
dinastia Luina, em 1878.

Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de
Setembro, dia seguinte ao da revelao de Marianna, resolvi fazer com
que os traidres fssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas
vistas sbre Verissimo Gonalvez.

Chamei-o  minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de
uma carta apcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao
governador, que, tendo desconfianas de Verissimo, lhe pedia que
mandasse prender a mulhr, o filho, e a me d'elle, e se acaso
acontecesse eu ser vctima de alguma traio, as mandasse para Portugal,
onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.

Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fra escrita
como simples preveno, porque eu confiava plenamente na sua dedicao
por mim; mas que essa dedicao tinha de estar vigilante, porque eu
desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecsse alguma desgraa,
eu no poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que
lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca no
transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas
as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas
minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca no
falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.

Verissimo, embaraado, disse-me, que eu no me enganava, e contou-me
tudo. Eu preveni-o, que no deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me
tivesse ao corrente do que elle tramava.

N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me
devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moambique, e por isso
podia partir quando eu quizesse.

Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda no
tinha passado to bem como n'esse dia.

O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam
dividido plas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O
centro era um largo circular, de no menos de cem metros de dimetro. A
um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada
por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde s entravam os meus
muleques de servio.

Era a 6 de Setembro. O thermmetro durante o dia tinha marcado com
persistencia 33 graos centgrados, e o calor reflectido pla areia tinha
sido incmmodo.

A noute apresentou-se serena e frsca, e eu, sentado  porta da minha
tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da
minha emprsa, to ameaada ali, e ora alegre ora triste, no perdia a
f e esperava. O acontecimento da ante-vspera vinha pairar como nuvem
ngra sbre o ceo lmpido da esperana.

Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das
fogueiras, s eu estava fora. De sbito prendeu-me a atteno um
sem-nmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espao.

Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um
presentimento, e sahi do cercado de canio que rodeava a barraca.

Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de
angustia suprema escapou-se-me da garganta.

Alguns centos de indgenas cercavam o acampamento, e lanavam achas
ardentes sbre as barracas cobertas de herva sca.

Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava
incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas
incandescentes, e pareciam loucos.

Augusto e a gente de Benguella reunram-se em trno de mim. Em presena
de um perigo to terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem
acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de
esprito, pensando s em lutar e vencer.

Gritei  minha gente, semi-louca de se ver apertada em um crculo de
fgo, e consegui reunil-a no meio do espao interior do campo.

 frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca
em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus
papis e trabalhos, e a plvora. A esse tempo as barracas abrazavam
tdas, mas o fgo no podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado,
inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo,
passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi
que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que crro."

Verissimo correu s barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre
as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em trno de ns, e ja
haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prto Jamba de Silva
Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. s azagaias
respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio
avanava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas
consumidas no offereciam barreira insuperavel. Em trno de mim, que
desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como
verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. Estavam tdos? No.
Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que
ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecra!

[Figura 109.--Ataque contra o acampamento no Lui.]

Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem
contra um.

Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos ngros, que com
estridente grita pulavam ao claro das chamas, avanando para ns
cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um
combater encarniado em que as carabinas de carregar pla culatra, plo
seu fgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem.

Contudo eu calculava que o trmo do combate no estava longe, porque as
munies desappareciam rpidamente; eu s tinha no como quatro mil
tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar
pla bca, mas no seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fgo
abrandasse, por faltarem as armas de carregamento rpido, seramos
esmagados plo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leo
raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina,
que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Ppca, que lhe entregasse
a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a
frente, e fez fgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um
momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom
differente, e virando costas, tomram elles precipitada fuga.

S no dia seguinte, plo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um
tal reviramento. Fram os tiros do meu Augusto.

Na cartuxeira de que elle lanou mo havia balas carregadas de
nitro-glicerina.

O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pla exploso, as
cabas e os peitos em que acertavam, produzio o pnico no meio
d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitio
irresistivel.

Foi a Providencia que me quiz valer.

Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo,
com uma grande fra capitaneada por Machauana, que vinha em meu
soccrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era
estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pvo, sabendo que eu fra
ali para os atacar de combinao com os Muzungos de leste, que estavam
com Manuanino, fizram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as
mais vigorosas providencias para eu no soffrer mais aggresses. Tudo
aquillo, se no foi ordenado por elle, foi por Gambela.

Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me o que haviamos
de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens
Portuguezes dos ltimos sculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos
vivos."

No incendio soffrmos perdas graves, mas mais graves eram as prdas de
vidas por to inslito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das
azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que
tinha, s serviam para fazer realar a sua pureza immaculada; e mais uma
vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer
respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saber.

Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgio cuidadoso, e
o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sos,
sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei
Lobossi.

Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe speramente sbre o
acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pvo, responsavel plas
desgraas d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a
chorar a perda de parentes, s a elle deviam lanar culpas.

Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia
estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem
resistir a um nvo ataque.

Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitio que eu tinha
empregado na vspera, fazendo com que os prtos rebentassem por si. Era
assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas
inconscientemente empregadas por o meu Augusto.

Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as
montanhas, no pude realizar esse desejo seno a 9, por causa do estado
dos feridos; e no dia 7 e 8, lutmos com a fome; porque ninguem nos quiz
vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fram as
lagas que fornecram abundante pesca e alguns patos muito magros.
Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicao.
Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto
de Catongo, chegando tdos, feridos e sos, no maior estado de fraqueza.

O nvo systema adoptado, de nos matarem pla fome, preoccupou-me, e
dava-me srios cuidados n'um paiz sem caa.

Tinha-mos,  verdade, a pesca das lagas.




CAPTULO X.


A CARABINA D'EL-REI.

     A traio--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com
     o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caa--Moangana--O Itufa--As
     pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A
     regio das cataractas superiores--Balle--Bombu--Na foz do rio
     Gco--Cataracta de Nambue--Os rpidos--Viagem vertiginosa--Catima
     Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita
     caa--Tragedia--Embarira.


Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos
das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante
do sitio que escolhi para acampar.

Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de
comer. Algumas mulheres viram vender pouca cousa a trco dos invlucros
metlicos dos cartuxos queimados das carabinas Winchester.

Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagas prximas, e
tirmos algum peixe, que se comia cozido em gua sem sal.

De Caiumbuca no havia noticias, e eu convencia-me que elle tinha
partido com a gente que retrocedra ao Bih; quando n'essa tarde me
viram dizer, que elle estava no acampamento, e me queria falar.

Apresentou-se, dizendo que fra acompanhar a comitiva de Lobossi, que
seguira com o prto Antonio, porque tinha de mandar prevenir a gente da
sua libata no Bih, de que tinha muita demora ainda no serto, pois
seguia comigo para a costa de leste.

Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com relao a elle;
e depois de pensar um momento, resolvi aceitar a desculpa da ausencia
d'elle na noute do combate, e no lhe mostrar que tinha perdido a minha
confiana, e que sabia da sua projectada traio. Elle pedio-me para
regressar n'essa noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato
com a gente que Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para
Quisseque, logo que o estado de alguns feridos m'o permittisse.

Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos
que no quizesse que morrssemos  fome no seu paiz.

Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.

No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagas para ter que comer e os
meus.

Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem
fim, onde, como em pleno mar, o espao azulado vinha unir-se  terra em
crculo enorme, lembrei-me de determinar a variao da agulha magntica
pla amplitude, mthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu
tinha sido forado a empregar at ento.

Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observao,
muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns
dez graos; quando um phenmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava
ella lmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um
extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol comeou a
perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu
observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por
ceo na apparencia limpo, como ja disse. S depois do seu completo
desapparecimento  que se podia mal perceber, plo feixe de luz que em
leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, to iguaes em cr ao
azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella;
parecendo que a limpidez do firmamento no era interrompida at ao
horizonte. Algumas vzes mais observei igual phenmeno, mas no a tanta
altura, nem to perfeitamente definido.

Como eu esperava, n'esse dia, no me appareceu, nem Caiumbuca, nem a
gente que Lobossi devia mandar-me.

Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o
satlite de Jpiter, que deveria ter logar prximo da meia-noute; e como
eu no quizesse perder essa observao, por encontrar grande differena
em longitude na posio do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me
chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que
correspondia s 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cdo, e adormeci
profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante
recommendao que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao
chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora
indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel ngro, elle
disse-me, cheio de commoo: "Senhor, estamos atraioados; a gente fugio
tda, e roubram tudo."

Levantei-me, e sahi da barraca.

O acampamento estava deserto.

La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moro e Ppca, e as
mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para
os outros.

No pude conter uma gargalhada.

O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de
mim.

Era to crtica a minha posio, vivendo no meio de tantas miserias,
rodeado de tantos perigos, que no sei mesmo quem n'elles quereria ser
meu socio. nimos mais fortes e espritos mais enrgicos do que os dos
prtos que acabavam de fugir, no teriam querido partilhar da minha
sorte.

Sentei-me, rodeado das oito pessas que haviam ficado e puz-me a indagar
o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido
tda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os ces, habituados com
elles, no ladrram. O Ppca foi passar revista s barracas, e nada
encontrou.

As poucas cargas que tinham ficado  porta da minha barraca, e que
consistiam em plvora e cartuxos, haviam desapparecido.

Fugram roubando a minha propria miseria. S me restava o que havia
dentro da minha barraca. Eram os meus papis, os meus instrumentos, e as
minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas
continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam.

Fui sem detena fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com
trinta tiros de balas d'ao para a carabina Lepage, e com vinte e cinco
cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada
serviam. Era tudo quanto possuia.

No pude deixar de curvar a caba ante este ltimo golpe que me feria,
e um atroz confrangimento de corao trouxe-me, pla primeira vez em
frica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro
d'frica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas
apenas, quando s da caa poderia viver e s a caa me poderia salvar; e
tinha em trno de mim s trs homens, trs crianas e duas mulheres!

Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e
entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar
tdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prto fiel; e sem
consciencia do que dizia, sem a menor convico nas palavras que
proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que no receiassem nada,
porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de vla. Recolhidos s barracas,
eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fras. O abalo
moral tinha despedaado o crpo, j fortemente abatido plas febres.
Sentado, com os braos encostados nos jolhos e a caba encostada s
mos, eu olhava fito para a crepitao da chama, sem ter um pensamento,
sem uma ida, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto
filho do hbito, fz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu
muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na
barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sbre os
jolhos.

Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, at que as idas
principiram a vir mostrar-me os horrres da minha posio. Havia muitos
mzes, que eu caminhava vante, pobre e sem recursos; havia muito tempo
que eu contava nicamente com a caa para sustentar a minha caravana.
Essa ida perfeitamente arraigada no meu esprito, tinha-me dado sempre
a fra de seguir, de ter f e de esperar. De repente sentia em mim um
vazio enorme. A ida tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa
que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu nico recurso.

Deve ser ao encarar uma posio como a minha que o homem se suicida.

Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a
caba e os meus olhos fixram-se na carabina que eu tinha pousada nos
jolhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma ida atravessou-me o
esprito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do
meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de
travesseiro, estava um estjo de couro, rectangular, baixo e comprido.

Foi com mo febril que abri aquelle estjo esqucido, e apalpei trmulo
os objectos que elle continha. As idas occorriam-me de nvo em tumulto.
Deixei o estjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu
sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da
mo com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento,
e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande
tresmalho, depois da pesca. A rde estava estendida, e tensa plo peso
do chumbo que lhe envolvia a tralha.

Apalpei phrentico aquelle chumbo, e colhendo a rde voltei ao campo,
curvado ao pso d'ella. Cheguei junto  fogueira, e depuz no cho o meu
fardo.

Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia
louco, e louco estava eu de contente.

O avaro devorando com os olhos vidos de cubia o thesouro que empobrece
a sua miseria, no deve ter na vista expresso differente da que eu
tinha a olhar para aquella carabina.  que ella para mim era a vida, a
salvao, e tudo.  que ella para o meu paiz era uma expedio coroada
de xito; era a realizao de um voto formulado por elle no seu
parlamento; era o bom xito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais
estorvado.

A arma que afagava nas mos, como afagaria uma filha estremecida, a arma
que me ia salvar, e comigo a expedio atravez d'frica, era a Carabina
d'El-Rei.

No estjo d'aquella arma havia apparlhos para fazer balas, e tudo o
necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os
invlucros metlicos, cada um dos quaes, plo seu systema de
construco, pode servir muitas vzes. Uma pequena caixa, que vinha no
estjo ja quando El-Rei me offerecra o valioso presente, continha
quinhentos fulminantes.

As idas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso,
trouxram-me a reminiscencia de duas latas de plvora que eu desde
Benguella empregava,  falta de cousa melhor, para entalar a caixa do
sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rde de pesca ia
fornecer-m'-o.

Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns
centos de tiros sentia-me com fra de criar recursos n'esse paiz de
caa.

O resto da noute foi para mim como manh bonanosa depois de noute de
temporal.

Ao alvorecer, ainda no tinha formado um plano, mas estava tranquillo e
confiante.

Mandei chamar o chefe da aldeola prxima, e convenci-o a mandar dois
homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que
ia mudar o meu campo para mais prximo da aldea, e logo ns quatro, eu,
Verissimo, Augusto e Camutombo, construmos quatro barracas e um forte
cercado, onde nos recolhmos com o meu magno espolio.

N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho,
cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.

Durou o trabalho at depois do meio dia, hora a que me estendi nas
pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono slto at ao
pr-do-sol.

O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laos aos patos,
conseguindo agarrar um. Entretivmos com aquella alimentao sem
condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi
pouco e pensei muito. Sustentar nove pessas era mais facil do que
sustentar uma grande comitiva, e por isso a questo mais momentosa e que
mais urgente era resolver, estava, se no resolvida, plo menos muito
simplificada por si mesmo.

A ida de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em
mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto,
sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiana era tal, que
os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que
eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que no tinha ainda
formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."

Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2
kilogrammas de plvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de
5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella plvora carregar
duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e
com os trinta de balas d'ao da carabina Lepage, prefaziam um total de
trezentos cartuxos.

Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e
cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35
grammas, e o chumbo da rde devia pesar um pouco mais de trinta kilos.

Fulminantes tinha duzentos a mais.

Voltram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que
eu fsse viver para Lialui at tomar uma deliberao.

Decidi logo no sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui
tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de
amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia.

Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito
doente.

No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente at 
volta do Verissimo, que s chegou de tarde.

Vinham com elle uns muleques do rgulo, que me traziam alguma comida, e
um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava
dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas
que fsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que
havamos de fazer. Mandei dizer-lhe plos muleques, que logo que
estivesse melhor iria falar-lhe; mas que no deixaria o mato, e que me
era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso
por me achar s com Verissimo, para ter noticias de Lialui.

A primeira cousa que elle me contou fz-me logo profunda impresso.
Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande
conslho em discusso acalorada.

Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali,
pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em
Patamatenga, e queria vir ao Lui.

 entrada d'esse sujeito no paiz do Barze opunha-se com tda a sua
eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascra a
acalorada discusso a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em
conslho, que no fsse concedida a licena para o homem penetrar nos
estados do rei Lobossi.

O Verissimo, que me contou este incidente, a que no ligou a menor
importancia, comeou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias
cerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu 
que no o escutava ja, e aquelle missionario Inglez (_Maca_, diziam
elles) no se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu
aranzel, que eu no ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resoluo
consistia, em ir encontrar aquelle missionario.

Como realizal-a no sabia ainda, mas que o encontraria era ja convico
minha.

Fui vidamente buscar uma pssima carta d'frica que tinha, e calculando
approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de
seiscentos kilmetros.

Seiscentos kilmetros, a uma media de 10 kilmetros por dia, eram
sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos
por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de
me pr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me.

Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, no me permittindo
sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16,
resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pr em execuo um
plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, ida que me
no sahia da mente.

Ainda muito doente, parti logo de manh para casa de Lobossi. Fui muito
bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os
prtos do Silva Porto, na fuga dos meus _Quimbares_; o que era falso,
porque sem o consentimento d'elle, no poderiam elles ter passado o
Zambeze.

Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia
estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, como
queria eu ir para ali, no tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi
muito applaudida plos assistentes, que notram a esperteza d'elle em
m'-a fazer.

Disse-lhe, que era verdade no ter carregadores, mas que tinha o rio
Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava
os carregadores, tanto mais que no tinha cargas.

Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha
cataractas, e como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do
auditorio.

Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por
terra, e a jusante das quedas continuvamos a navegar.

Elle retorquio, que o seu pvo tinha muito pouca fra, e no podiam
arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um
gsto immenso em patentear o seu esprito fino diante dos ouvintes; e de
salto, sem esperar resposta, perguntou-me, porque no tinha ido viver
com elle para Lialui, como me tinha ordenado?

Respondi serenamente, que no tinha ido, nem iria, por muitas razes;
sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha
chegada, s tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei
ladro e assassino, levantei-me e puz-me a caminho.

O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me
embargar o passo.

Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno,
o filho do rei Chipopa, e legtimo herdeiro do poder, a quem fiz a
profecia de que ainda seria rei do Lui.[4]

Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi
veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.

O rei disse-me, que no tinha razo para me zangar com elle, que era
muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre
para mim.

Eu fiz-lhe um grande sermo, em que lhe disse, que elle era mal
aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis
Macololos, foi a grande proteco que dispensram a Livingstone. Que os
Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui
comeada por Manuanino. Que o seu pvo, no a camarilha que o rodeava,
mas o seu pvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de
governar, e no fazer mais do que disparates.

Fz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os
barcos, e que no seria por culpa d'elle se eu no chegasse a alcanar o
missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinio a seu
respeito.

Assegurou-me, que voltasse descanado para Catongo, onde me mandaria
dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as
tripulaes. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a
esse respeito.

Eu no acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle
pedio-me que no formasse maos juizos, e esperasse os factos.

Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito
de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tda a verdade,
nos seus detalhes, e s fiquei ignorando quem fra ao longe o motor dos
acontecimentos.

Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o
nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito.
Declarei os meus projectos, e elles fram calorosamente approvados,
porque muito convinha aos Luinas estar em communicao com a costa de
Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revoluo,
 testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi
ento dizer a Lobossi, que eu no era estranho quella revolta, e que
queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino.
N'essa occasio Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me,
dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e no
poderia impedir que fsse morta a gente que estivesse comigo.

Os Bihenos, levados por elle, declarram-me, que no queriam estar
comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.

A primeira e nica vez que em frica faltei ao meu principio de
sertanejo, de desconfiar ali de tdos e de tudo, fui enganado.  verdade
que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a mxima confiana, disse-me e
escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.

Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas
deve comprehender-se, que para prtos, foi bem tramada, e no seria
facil convencel-os da verdade.

Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi ento
que os muleques de Silva Porto fram dizer ao rei, que tinham ordem de
seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me
fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bih voltassem ali, sem o
qu no teria mais relaes com Benguella.

Foi ento que tentram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi
sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu conslho, mas que
Gambela era de opinio contraria.

Caiumbuca e os muleques de Porto fram dizer a Lobossi, que tdo o que
eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas,
despertando-lhe assim a cubia, que a tantos exploradores tem perdido no
Continente Africano.

Apesar de tdas as intrigas e dos factos que ellas produzram, eu ia
continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da
noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prtos de
Silva Porto levou  fuga os restantes. Por ordem de quem trabalhou
Caiumbuca? Eis o que no pude saber.

Por sua conta creio que no; que pouco tinha a lucrar n'isso. A
encommenda vinha feita do Bih, e eram emissarios d'ella os muleques de
Silva Porto. Caiumbuca tomou o papl principal, depois das instruces
recebidas dos prtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao
longe.

A causa estava na minha misso, e na guerra que, em nome do meu
Portugal, eu fazia, sem trguas, ao commercio da escravatura.

Alguns exploradores Africanos, e sbre tdos o _Commander_ Cameron e
David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e
verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'frica por
sertanejos Portuguezes.

Por muitas vzes, a opinio pblica em Portugal tem levantado a sua voz
potente, contra as asseres vilipendiosas dos accusadores estrangeiros,
querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella no acredita,
porque, na sua ndole bondosa,  incapaz de os comprehender e de os
admittir.

Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, no
deixam de conter um germen de realidade.

Mas serm esses factos uma ndoa para Portugal? No sam. Affirmo-o, e
sustento-o.

Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do
continente Africano, quando o fazem, deixram de ser Portuguezes.

Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a
sociedade supprimio as garantias do cidado, sam rprobos a quem a
sentena infamante da justia imprimio um indelebil ferrte de
ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu
seio com horror, que podram quebrar o grilho de ferro com que estavam
acorrentados ao patbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde s os
espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os
selvagens a guarida que perdram, e continuar ali a sua vida de crimes.

Taes homens no deshonram a sua patria, porque no t[~e]m patria.

Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, 
querer tornar a Frana responsavel dos actos da Communa, a Amrica do
assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos.

Ha rprobos em tda a parte, e no podem ser ndoas nos povos que os
esmagam na sua justa indignao.

Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no Bih, de dois
apenas tenho noticia, que no pertencessem a tal ordem de gente. Sam
elles Silva Porto, e Guilherme Jos Gonalves; mas estes fram sempre
queridos e estimados do indgena e do Europu, gozram sempre da
considerao que a sua honradez e probidade lhes grangeram, fram
cidados prestantes, que, com um trfico legal e digno, nem chegram a
fazer fortuna, e fram muitas vzes vctimas dos outros.

O nome de Silva Porto  respeitado plo gentio, e conhecido n'uma grande
parte da frica central pla corrupo da palavra _Prto_, e mais de uma
vez me servi d'elle para desfazer obstculos.

Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da frica central, ha
Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande servio 
humanidade no commercio lcito com o interior; esse commercio, que  o
mais seguro mensageiro da civilizao na terra dos ngros.

No confundamos pois; no confundamos, e ser pouco nobre ir buscar a
autoridade do explorador, para lanar, apontando factos verdadeiros, mas
nada producentes, um labo sbre um pvo nobre, o primeiro que deu mo
forte  Inglaterra contra o trfico infame; sbre um pvo que sacrificou
os seus interesses Africanos legislando a abolio da escravatura;
contra um pvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade at
 frica, mandando para l as leis que o regem na Metrpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um cdigo que
por librrimo  impossivel entre gente mais que semibrbara.

No precisa Portugal justificao; que o defendem os factos, as leis e a
energia que emprega na grande obra da civilizao Africana; mas, falando
do trfico da escravatura de que por vzes ia sendo vctima, no me pude
eximir a pr a questo nos seus verdadeiros trmos.

Jos Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de
nascena; no se parecem com Portuguezes na cr, sam indgenas, sem
instruco, verdadeiros selvagens de calas e chapos.

Affirmo tambem, que  mais difficil viajar em frica por terras onde
elles t[~e]m andado, do que nas regies brbaras dos canibaes, que nunca
vram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de
armas na mo frente a frente; ali  a traio e a covardia que o
esperam. Aqui  explorar na brenha espinhosa onde o leo occulta o seu
antro; ali  caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.

Outra cousa inconveniente ao explorador  ir s sedes dos grandes
potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que
aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem
acontecido a mim com Lobossi, no Lui.

O sertanejo Biheno, na cubia de obter o marfim, d tudo ao rgulo;
chga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bih de tanga de
pelles, como os seus carregadores.

No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o
costume, de elles entregarem tudo ao rgulo, e esperarem que elle lhes
desse pla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.

O explorador que hje chgue ali e no faa o mesmo, est perdido.

lm d'esta, outra razo deve aconselhar o explorador a evitar os
grandes potentados;  ella o caso de uma aggresso, sempre de recear.

Com os pequenos senhores que povam a maior parte da frica austral,
poder, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios ser
forosamente esmagado.

Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de
Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de
Machauana.

Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma
gazella, o que nos fazia ptimo arranjo.

As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.

Nos dias seguintes, os trabalhos tomram-me tdo o tempo; podendo obter
uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinao da
declinao da agulha, estudos meteorolgicos, etc.

No dia 19, ainda no tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decid
mandar l o Verissimo, a saber se a offerta das canas era ou no
comedia. N'esse dia apparecram ali uns prtos, que plo typo conheci
logo no serem do paiz. Diziam elles serem da Luna, e querendo indagar
onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de ns
dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado
vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe
comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz,
viram ver-me, por ser animal nvo para elles.

Para falarmos, servia-me de intrprete o velho chefe da aldeola, que
falava a lngua dos Machachas, lngua em que elles se exprimiam bem,
dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Dissram-me, haver no
seu paiz muitos elephantes, e serem caadores; empregando para isso a
azagaia, nica arma de que usam. Sam franzinos de crpo e de pequena
estatura, com feies bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam,
quasi tdos, na caba uns penachos feitos de sdas de elephante,
demonstrando cada penacho um elephante mrto plo que o traz. Vestem
pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de _liconde_ para se
cobrirem.

Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A
difficuldade que havia de nos entendermos no me permitio levar muito
longe as averiguaes cerca do paiz d'elles e dos terrenos que
atravessram para chegar ali.

No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canas estavam
promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia
immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que s iria em dois
dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter
de fazer observaes e completar estudos meteorolgicos no dia 22. Por
esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento
em sua casa, porque iria ser seu hspede. Eu queria fazer do ladro
fil.

A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei
s duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi
conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol
abrasador prostrou-me de fadiga, e s  noute pude ir visitar Lobossi.
Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fra
illudido por Caiumbuca e plos muleques do Silva Porto; que acreditava
ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as
satisfaces plos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados,
de que elle dizia no ter tido a menor culpa.

Aproveitei to bas disposies, para renovar o meu pedido de gente e
auxilio, para seguir plo paiz do Chuculumbe at Caiuco, e descer depois
o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo plo Zambeze. Respondeu-me, que isso
no podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposio nos
velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de
Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum
dos que com elle fram para leste voltara mais ao paiz.

Os velhos falando elle n'isso, dissram-lhe, que me perguntasse o que
era feito dos seus irmos Mbia, Caniata e Scubu, e muitos outros que
fram e no voltram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone
prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hje as mulheres e os
filhos esperam por maridos e plos pais.

Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pvo
era grande, e no lhe convinha ir contra ella. Os trs barcos estavam s
minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.

A 24 de Setembro, logo de manh recebi a visita de Lobossi, que se vinha
despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as
canas at umas povoaes do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos
barcos e novas tripulaes. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu
offerecer ao chefe das povoaes onde arranjaria os barcos, e trazia
tambem um bi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separmo-nos nos
melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de
caminho, encontrava o brao do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco
depois, trs pequenas canas largavam a margem, levando a minha bagagem,
a mim, a Verissimo, Camutombo e Ppca.

O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguram por terra,
acompanhados do caador Jasse e do chefe Mutiquetra, mandados por
Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a
fim de ter o caminho livre.

Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que
representavam duas dedicaes inquebraveis, aquelles que desde a minha
sahida no me haviam dado um nico dissabor, estavam ali comigo, sempre
promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a
dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me
quando alegre estava. Eram Cra e Calungo, a minha cabrinha e o meu
papagaio.

A viagem do rio ia separar-me tdos os dias de Cra, que no podia ir
sempre embarcada pla exiguidade de espao nas canas, mas Calungo
voando sem mdo para o meu hombro, seguio embarcado.

Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixmos o
pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalte, por onde o brao
oeste do rio deita um pequeno veio de gua, de laga em laga para o
brao leste.

No intervallo entre as lagas, s vzes de mais de cem metros, o navegar
 difficil, porque  difficil navegar onde no ha gua. Foi preciso
muitas vzes descarregar os barcos e arrastal-os sbre um fundo de ldo.
Nas lagas o canial espsso embaraava tambem a navegao.

Depois de um trabalho violento e aturado, parmos s seis horas na
margem de uma laga, em planicie recentemente queimada, onde no havia
com que construir o mais pequeno abrigo.

Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podmos assar carne,
que eu comi com appetite voraz, por no ter ainda n'esse dia tomado
alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sbre a terra hmida e
deitei-me ao relento.

Os remadores estivram tda a noute assando carne e comendo; fazendo
assim desapparecer a maior parte do bi dado por Lobossi, e mostrando
que a capacidade estomchica dos sbditos do rei do Lui 
verdadeiramente incommensuravel.

Depois de uma pssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em
uma laga por meia hora, entrando em seguida no brao principal do
Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caa, que fiz parar
a flotilha, e entrar em servio a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea,
me forneceu logo vveres que calculei chegariam para dois dias, apesar
da voracidade dos Luinas.

O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era
pequena, e essa mesma no aproveitada plos remadores, que receando os
hippoptamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre
encostados s margens, onde a gua pouco funda no permitia o accesso
aos enormes pachidermes. Tnhamos de parar de instante a instante, para
tirarmos gua das canas velhas e fendidas.

Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prtos
faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que
achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio
d ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado
por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esqurda, plas cinco da tarde,
nas mesmas condies da vspera, sem abrigo e ao relento.

Muitas vzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippoptamos de um
lado, appareciam elles no outro, e corrmos perigo grave.

Eu no lhes quiz atirar, para no gastar as munies. S quem se v no
centro d'frica com pouca plvora sabe o valor de um tiro.

Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizram ser insolentes
comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instruces recebidas do
proprio Lobossi, que prevenira o caso.

O Verissimo, que desde Quillengues resistira  febre, cahio com um
violento accesso, e eu mesmo no estava sem ella.

No dia immediato naveguei apenas por espao de uma hora, parando junto 
povoao de Nallo, governada por uma mulhr, irm de Lobossi. Mandei
pedir-lhe desculpa de a no ir visitar, allegando a minha doena e a
febre do meu intrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me
um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caar, para
fazer nova proviso de vveres, e consegui matar dois antlopes
(Pallahs). As pelles, como as da ante-vspera, fram scas com cuidado e
guardadas.

Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijo
fradinho.

Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu  noute ardia em febre tambem,
tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hmido. Acordei
completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e
depois de seis horas uteis de navegao, com o rumo medio de S.S.E.,
acampei, sempre na margem esqurda.

Apesar de outra noute pssima, a febre ia cedendo a fortes doses de
quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcanar a povoao
de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi.

O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso,
que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria
elle mesmo  povoao da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e
algum presente que me podesse arranjar.

O vento era fortissimo de leste, e encrespava as guas do rio, que no
tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canas to pequenas
como as nossas, mas, apesar d'isso, segumos, e em hora e meia chegmos
a Itufa, grande aldea, na margem esqurda.

Mais de uma vez estivmos em grande risco de soobrar, e declaro que 
triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos.

O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi
constante que me minava, sentia-me com mais fras.

Ja me esperavam na aldea, prevenidos plos meus muleques que jornaderam
por terra, e que, com o caador Jasse, e com o chefe, haviam chegado
n'essa manh.

O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma
panella de leite coalhado e uma csta de farinha de milho; mas comeou
por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle no tinha barco.

Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento
fizram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que
tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me
obter alguns vveres mais; mas elle respondeu-me, que s a trco de
fazendas m'os dariam, e como eu no as tinha, nada se poderia fazer.

Dei aos muleques as pelles dos antlopes que tinha mrto, e a trco
d'ellas sempre arranjram farinha, ginguba e tabaco.

 noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes,
muito chatas e ngras, que desciam das pardes em vagaroso caminhar; e
fugi da casa, indo deitar-me no pteo ao relento. Estava escrito, que
durante a minha viagem no Zambeze, nem uma s noute um tecto abrigaria o
meu sono.

No dia 29, logo de manh, chegou o velho Moangana com o promettido
barco.

Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que
tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse
satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.

Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra cana; o chefe s
fazia repetir-me, que a no tinha, e lastimar que houvessem enganado
Lobossi e a mim.

Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hbito esconder as canas em lagas
interiores cobertas de canial, que communicam com o rio por pequenos
canaltes disfarados pla vegetao e s d'elles conhecidos. Quando no
querem que as vejam, difficil  encontral-as.

O caador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos
Luinas, tanto buscram entre os caniaes das lagas, que encontrram uma
cana; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella
estivesse ali.

As casas da Itufa sam, como tdas as dos Luinas, de trs formas
differentes, e taes como ja descrevi falando das povoaes de Canhete e
da Tapa; mas aquellas que t[~e]m a forma tronco-cnica sam de muito
grandes dimenses. A que me foi offerecida plo chefe, a casa das
aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de dimetro, e no exterior
10.

[Figura 110.--Casa na Itufa.]

N'estas dimenses, no podem como as outras ser construidas s de
canios, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armao
 de longas varas de madeira.

Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que  original d'ali.

Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma
semi-cilndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois
compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas,
ao passo que a casa tronco-cnica, verdadeiro typo da casa Luina, 
edificada com cuidado, e muito resguardada.

Pla primeira vez, depois de ter deixado o Bih, vi gatos em frica, que
os ha em abundancia na povoao da Itufa. Ha tambem ali muitos ces de
ba raa, que empregam com vantagem na caa dos antlopes.

Continuava a difficuldade de obter vveres, mas a carabina suppria a
falta de fazendas para permutaes, e sempre amos obtendo alguma
farinha de massambala a trco de carne e pelles.

As tripulaes estavam promptas, e os dois barcos em aco de seguir,
quando uma nova difficultade veio retardar a viagem.

Os remadores declarram, que no embarcavam, em quanto eu no deposesse
nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos
de missanga branca.

Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a
innmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos
chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trgua. Eu, que
no tinha missanga, nem branca nem prta, chamei o chefe e mostrei-lhe a
absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle
a muito custo pde resolver as tripulaes a seguir, mas foi s no
primeiro de Outubro que largmos d'ali.

O meu nvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de
Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centmetros de bca, e 40
centmetros de pontal.

As duas rvores empregadas no alto Zambeze para a fabricao das
almadias, sam o _Cuchibi_ e o _M'ucussi_, enormes leguminosas das
florestas, da regio das cataractas. A madeira d'estas rvores gigantes,
 de extrema dureza, e de maior densidade do que a gua.

A minha piroga era tripulada por quatro homens, um  proa e trs a r.

Eu ia sentado na frente, a um tro do comprimento do barco, sbre a
minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu
diario, observaes iniciaes, etc., levava eu amarrados ao crpo com uma
cinta de l. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito
completavam a carga.

Na outra cana, Verissimo, Camutombo e Ppca, as malas da roupa e
instrumentos, e a caa que ia matando. Os remadores remam sempre de pe,
para equilibrarem as canas, que se voltariam sem isso. O remar em taes
barcos  verdadeiro exercicio acrobtico.

[Figura 111.--O meu Barco.
Remos.]

Uma piroga do alto Zambeze  como um patim gigantesco, em que o remador
tem de fazer tdos os prodigios de equilibrio do patinador sbre o glo,
para sustentar a posio estavel. Foi em taes condies que eu, no dia 1
de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sbre o rio gigante, cujas
ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaavam a cada
momento submergir as estreitas almadias.

Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esqurda, em uma
pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de
reunio aos barqueiros. As minhas novas tripulaes eram mais comedidas
do que os muleques do rei que me trouxram a Itufa, mas comeavam ja com
pedidos e exigencias.

No encontrei caa no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a
uma laga prxima, fui ao barco buscar a espingarda de caa mida, de
que s tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.

O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As
duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30
milhas, convergem ali; s parando para dar um leito de dois kilmetros
ao Zambeze.  planicie montona e nua succede o paiz accidentado e
coberto de luxuosa vegetao. s margens de ara branca e finissima, uma
ara que, comprimida sb os passos do homem, solta vagidos como os de
uma criana, produzindo uma impresso inexplicavel, porque, estando
muito sca, imita um fraco grito humano. A essas margens de ara to
extraordinaria, succede, em transio rpida, o terreno vulcnico; e sam
blocos de basalto que marginam o rio.

Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixram sbre
esses pendos denegridos, vomitados em ondas de fgo nas pochas
primitivas do mundo. Desde o Bih, que no via uma pedra, e com
satisfao olhava para aquellas que via ali.

Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fgo para cozinhar
os patos, o lume communicou-se  herva alta e sca que cobria o solo, e
logo, assoprado por um vento forte, voou por sbre a terra em ondas de
chamas.

O atear do incendio foi to rpido, que por um momento estivmos
envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canas para lhe escapar.

No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de
navegao, comecei a encontrar grandes files baslticos, atravessando o
rio no sentido E.O. Alguns v[~e]m tanto  flr d'gua, que tornam
difficil a navegao, e ainda que a corrente  inapreciavel, foi preciso
diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos,
n'aquelles paredes naturaes.

O rio comea, na regio basltica, a ser povoado de ilhas cobertas de
vegetao pomposa. Pla tarde, avistmos um bando de ongiris
(_Strepsiceros kudu_) que pastavam na margem direita.

Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos
antlopes.

Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espao de uma hora.

Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (_Numida
meleagris_), que nunca tantos vi em frica. A terrivel msca z-z
tambem  abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas
picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto
me perseguram, que at depois de estar no barco ainda por muito tempo
estive coberto d'ellas.

Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de
seis horas uteis de navegao a rumo de S.S.E.

O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por
uma febre lenta e contnua, que me minava a existencia.

No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas,
cobertas de vegetao luxuriante. Navegmos, havia duas horas, quando
vimos dois lees que na margem direita bebiam gua do rio. Apesar de eu
ter estabelecido como regra no me entremetter com feras, sem a isso ser
forado, e apesar ainda do valor que ento tinham para mim os cartuxos,
os instinctos do caador vencram a razo, e mandei abicar a cana 
margem, direita aos bichos.

Os lees, percebendo-nos, deixram o rio, e fram postar-se em uma
eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles.

Deixram-me approximar a uns cem metros, e depois posram-se lentamente
a caminho para montante do rio, parando de nvo depois de curto espao.
D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminhram de nvo
e embrenhram-se em um pequeno massio de arbustos. Eram dois lees
machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dbro da corpolencia do
outro.

Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a caba de um dos
magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim.
Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo
tdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pla
febre, e receei que o pulso tremsse ao dar ao gatilho. Tive uma
sensao singular que at ento no havia experimentado, e que
provavelmente era a do susto. Por um esfro de vontade o tremor parou,
a carabina tomou firme a direco que eu lentamente lhe dava, e como ao
atirar a um alvo, quasi fui sorprendido plo meu proprio tiro. Passou
rpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se
mostrava a caba da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e
com dois tiros promptos, dei volta ao massio. Para o lado do Norte
seguiam as pgadas de um leo, mas de um s. O outro estava ainda ali.
Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo
inerte do rei das florestas Africanas. A bala _express_ esmigalhando-lhe
o crneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a
pelle e garras fram-lhe arrancadas.

Na massa encephlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5]

Ao largar a margem, principimos a sentir, mal distincto, um ruido
longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias.
Devia ser uma cataracta, e essa ida, que logo me occorreu, foi
confirmada plos remadores. Pouco depois, os files baslticos
multiplicavam-se, formando paredes naturaes, sempre no sentido E.O.;
mas, ao contrario do que tinha acontecido at ali, o rio ja levava uma
corrente rpida que tornava perigosissimo o navegar.

Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nvo a
parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova
interrupo de uma hora.

[Figura 112.--Acampamento na Sioma.]

Pla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu
campo sb uma gigante Figueira-Sycmoro, perto do rio.

A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.

N'essa noute o meu sono foi acalentado plo ruido da cataracta de Gonha,
que, a jusante dos rpidos da Situmba, interrompe a navegao do
Zambeze.

No dia 4, logo de manh, depois de ter comido um prato enorme de
ginguba, presente do chefe das povoaes, tomei um guia e dirigi-me para
as cataractas. O brao do Liambai cuja margem esquerda eu descia,
correndo a principio a S.E., vai vergando para O., at que chega a
correr perfeitamente E.O.; e n'essa posio recebe dois outros braos do
rio, que formam trs ilhas cobertas de vegetao esplndida. No sitio
onde o rio comea a curvar para O., ha um desnivelamento de trs metros
em 120, formando os rpidos da Situmba. Depois da junco dos trs
braos do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e
logo ali deita um pequeno brao a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto
das guas encontram um corte transversal de basalto, com um
desnivelamento rpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragr
immenso.

O corte  N.N.O., e forma trs grandes quedas, duas aos lados, e uma no
meio. Por entre as rochas que separam as trs grandes massas de gua,
cahem um sem-nmero de cascatas de maravilhoso effeito. Ao Norte, um
terceiro brao do rio contina a correr no mesmo nivel superior da
cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco cascatas
lindissimas, a ltima das quaes fica quatrocentos metros a jusante da
grande queda. Ahi o rio encurva de nvo a S.S.E., estreia a 45 metros, e
conserva uma corrente de 150 metros por minuto.

Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sbre tdo o espao
das quedas, sam sorprendentes, e nunca vi em paiz algum dos que tenho
visitado, paizagem mais bella.

Gonha no tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a paizagem 
suave, variada e atrahente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e
com a gua, estam harmonizadas, como por mo de artista habil em tela
primorosa.

[Figura 113.--Cataracta de Gonha.]

Msmo o despenhar da gua no abismo, no causa ruido pavoroso, e  de
certo amortecido pla vegetao enorme que a rodea.

[Mappa: Alto Zambeze -- Cataractas de Gonha]

Ali no se elevam vapres, que convertidos em chuva alaguem as
visinhanas; ali o accesso  livre a tda a parte, parecendo que a
natureza se comprazeu a tornar facil a visita  sua bella obra. Gonha 
como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a
admirem.

Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali at 
noute, no canando os olhos de ver to esplndido quadro, em que a cada
momento descobria uma nova belleza.

Voltei ao meu campo, saudoso pla lembrana de que no veria mais em
minha vida, o espectculo sublime que deixava para sempre.

No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para
jusante da cataracta, e era elle por floresta espssa, e no inferior em
extenso a cinco kilmetros, porque em tda essa extenso o Zambeze,
apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros,
conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e  tal o referver das
guas, que impossivel  navegar nelle.

Este espao estreito a jusante da cataracta de Gonha, chama-se o
Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.

O ponto onde recomea a ser navegavel chama-se o Mamungo.

A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoaes da
Sioma, povoaes de Calacas ou escravos, governados por un chefe Luina,
mandados, estabelecer ali plo governo do Lui expressamente para o
servio de carregarem os barcos por terra; servio a que sam obrigados
sem terem direito a retribuio alguma.

Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado
de no ter nada que desse quelles desgraados, que to humildemente se
prestam a trabalho to rude.

O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas contina apertado em
cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por traos horizontaes
provenientes dos depsitos das guas lodosas. Por esses traos vi que as
guas se elevam ali a 10 metros, nas mximas cheias, acima do nivel de
ento, que deveria ser o mnimo proximamente.

Logo que sbre as rochas baslticas comea a haver terra vegetal,
principia uma vegetao frondosa. O aspecto do Zambeze n'aquelle ponto
assemlha o do Douro no seu tro medio, com a differena apenas, de que
n'aquelle o granito  substituido por basalto.

Depois de ter navegado por espao de hora e meia, encontrei a foz do rio
Lumb, onde parei. Este rio vem do N., e tem, prximo da embocadura, 20
metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no
Liambai, -lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em
cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto no ficasse Gonha.

Segui, depois de ter visitado a foz do Lumb, mas n'esse dia apenas
naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e
fui caar. Consegui matar dois antlopes, que nos demormos a preparar;
decidindo no navegar mais n'aquelle dia.

No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a
cataracta Cale.

[Figura 114.--Passagem dos barcos em Gonha.]

Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Trs
ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste,  o que contm
maior volume d'guas, mas  tambem aquelle em que o desnivelamento 
mais rpido.

Nos outros braos o desnivelamento, que  de trs metros, produz-se em
cem de extenso, enquanto n'este no se estende a mais de quarenta.
Tdos os canaes sam obstruidos com rochdos desencontrados, onde as
guas resaltam com fragor immenso.

Descarregmos os barcos, que fram arrastados por um canalte junto 
margem direita, e logo a jusante da queda reembarcmos e segumos
viagem. Meia hora depois, passvamos uns rpidos, onde s pequenos
canaes sam praticaveis, e por onde os remadores governram as pirogas
com prodigiosa destreza.

[Figura 115.--Cataracta de Cale.]

Pouco depois, outros rpidos fram passados com igual felicidade; sendo
o resto da navegao d'esse dia por entre pontas de rochas aoutadas por
violenta corrente d'gua, sem que outros desnivelamentos rpidos
apparecssem.

Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e
a falta de alimentao vegetal era sensivel. O dormir sempre ao relento,
e o nenhum resguardo que era forado a ter, tendo de sustentar a minha
gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer constante. N'essa
noute, rebentou sbre ns uma violenta trovoada, e com ella cahram as
primeiras gtas d'gua d'aquella nova pocha das chuvas.

O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de crpo,
mas no mais fraco de esprito. Segui viagem, e meia hora depois,
encontrava os grandes rpidos de Bombue.

O rio forma um grande rpido central, onde o desnivelamento  de 2
metros. Do lado de Este trs canaltes obstruidos por innmeras rochas,
e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento  mais rpido.

A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetao
divide o rio em dois braos iguaes. Bombue tem mais dois
desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro,
e o terceiro duzentos metros a jusante d'este. Tdos estes rpidos sam
cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossivel a
navegao.

Os barcos descarregados fram lascados junto a terra, operao fadigosa,
que levou muito tempo.

[Figura 116.--Rapidos de Bombue.]

Pozmos os barcos a caminho, encontrando um rpido que sem querer
passmos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de
viagem, parmos junto  confluencia do rio Jco. Viajei n'esse dia por
entre ilhas de uma belleza admiravel, que apresentavam os panoramas mais
pintorescos  minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano.

N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os
ngros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do meu mao
estado de saude, tomei a carabina e segui-os.

Na margem do Jco avistei eu os enormes pachidermes, que se enlodavam
n'um pal.

Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes.

A floresta espssa que descia at junto ao pal, permittio-me
approximar-me sem ser visto.

Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e no
posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A
necessidade venceu o escrpulo, e atirei ao mais prximo, dirigindo-lhe
a bala ao frontal. O colosso oscillou um momento, sem mover as patas, e
dobrando os jolhos, foi cahindo de vagar sbre elles--posio que
conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a
terra com o baque enorme.

Os outros seis atravessram o rio Jco em apressado trotar, e
desapparecram na floresta.

Acerquei-me do inoffensivo quadrpede, e ao contemplar a minha obra de
destruio, no pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para
elle, e de me achar bem pequeno. O meu estado era to melindroso, que ja
no pude voltar por meu p, e tive de ser amparado plos ngros para
chegar ao acampamento.

No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande inflammao do
fgado. Deitei causticos, que pulverizei de quinino depois de cortados.

A doena no me permittia partir n'aquelle dia, e resolvi ficar ali at
experimentar melhoras. N'esse dia aconteceu ao meu Augusto a mais
extraordinaria aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um
bfalo que ferio, e que correu rpido sobre elle. Augusto tirou o
machado, e no momento em que a fera baixava a caba para lhe marrar,
atirou-lhe um golpe  fronte, com a sua fora herclea.

Homem e bfalo rolram por terra. A gente que estava perto do meu
valente ngro, julgra este morto, quando vra o ferz ruminante
levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e lm do abalo do choque, no
tinha soffrido nada.

Os ngros acercram-se d'elle, quando o meu muleque se abaixou, e depois
de apanhar o machado, apanhou, to admirado como os que o viam, um crno
do animal, cortado cerce plo golpe vigoroso.

Nas matas da regio das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume
e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e lm
d'esses, dois frutos privativos d'ali, a Mocha-mocha, e o Muchenche.
Este ltimo  muito sacharino, e d'elle fiz eu um refresco muito
agradavel.

Os causticos pulverizados de quinino, e trs grammas d'elle que
introduzi no organismo, em trs injeces hypodrmicas a curtos
intervallos, acalmram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com
sensiveis melhoras. A primeira noticia que me dram foi que o meu
Augusto desapparecera desde a vspera, e no tinha sido encontrado por
alguns homens que o fram procurar ao mato.

Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto  de um atrevimento
louco, e fz-me recear uma desgraa. Mandei gente em tdas as direces
a buscal-o, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do
muito que me faziam soffrer os causticos. Fram infructuosas as nossas
pesquizas, e da excurso apenas trouxmos dois seb-seb (_Rubalis
lunatus_) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas
colhram proprias para astes de azagaias, e que sam do mesmo pao de que
fazem os remos. Chamam-lhe Minana.

De volta ao campo, secmos ao fgo muita carne dos antlopes.

Esta regio, a que chamam o paiz de Mutema,  abundantissima de caa da
floresta, e desde o elephante at  codorniz, ha milhares de animaes de
tdas as familias, gneros e especies do planalto Africano. No Zambeze,
ao contrario, escaceia a caa d'gua, abundantissima na regio das
planicies.

Pla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na
floresta, e que encontrara uma povoao de Calacas, onde lhe tinham
furtado tudo o que elle trazia, excepto a espingarda.

Os Luinas, ouvindo isto, declarram que iam desforar o Augusto, e por
mais esforos que empreguei no consegui contel-os.

Alta noute voltram os marinheiros, carregados com os despojos do saque,
e entre elles vinha o casaco do meu muleque.

 costume d'elles, logo que encontram povoaes de Calacas na regio das
cataractas, saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude
aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei
ordem de partir no dia immediato.

Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jco, encontrei os grandes
rpidos de Lusso.

Desembarquei e segui por terra, fazendo trs kilmetros em trs horas.

O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos,
formando ilhas cobertas de vegetao esplndida.

Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os rpidos
de Lusso.

Embarquei de nvo por baixo dos rpidos, e tendo navegado por duas
horas, parei a montante da cataracta de Nambue.

As ilhas, com a sua vegetao pomposa, continuavam a apresentar os mais
atrahentes aspectos.

Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a
pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou
quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da
queda.

A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro  de meio
metro, o segundo, 150 metros a jusante,  de dois metros, e
perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo,  de um metro, e o
ltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros d'este.

Occupam por isso as quedas uma extenso de 310 metros. O Zambeze corre
ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso
regular a S.S.E.

Durante a noute estive  morte. A febre intensa devorava-me, e nunca
pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para
mim, por ser o anniversario de minha mulhr. As repetidas injeces
hypodrmicas de sulphato de quinino em alta dose, conseguram dominar a
febre. Eu chamei o Verissimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus
trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu morrsse, proseguissem na
viagem at encontrar o missionario, e lh'os entregassem.

Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem
aquelles papis, e os entregassem em mo segura, que os fizesse chegar a
Portugal.

s 6 horas da manh do dia 12, senti um grande allivio e decidi seguir
viagem.

Parti s 6 e meia, e s 7 e 15 minutos, passei uns pequenos rpidos, e
logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestmos
ao nico canal praticavel, e logo que o barco se achou envolvido na
corrente, um hippoptamo veio resfolgar a jusante. Estvamos entre
Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo. Tornmos a entestar com a
corrente e subindo o rio, por uma habil manobra, pozmo-nos a coberto do
perigo junto a um rochdo quasi em sco.

[Figura 117.--Nos rpidos.]

O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e foi
impellido com velocidade enorme de encontro s rochas de um canalte
obstruido. Nunca pensmos que se salvasse, mas elle derivou por entre as
fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de gua que
quasi o encheu.

s 7.50, outros rpidos, e s 8, uns muito desnivelados e extensos.
Quizmos sahir em terra, porque sentiamos a jusante um ruido enorme,
semelhante ao rebombar dos troves plos alcantiz das serras, que nos
fez recear grandes rpidos, ou uma cataracta impossivel de transpor. Foi
baldado esfro. A margem mais prxima, a esqurda, ficava-nos a 600
metros, e a corrente rpida, quebrando-se entre os cabos baslticos, e
resaltando em ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar  margem.
Sam momentos indescriptiveis estes.

Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido,
presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe
mostra, arrastado de voragem em voragem plos turbilhes da gua
revlta, o homem experimenta a cada momento sensaes novas, e cem vzes
soffre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida.
Das 8 horas e 5 minutos s 8 e 40, passmos seis rpidos de pequeno
desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se
nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca
por um movimento instinctivo, ao ver o abismo aberto sb o seu caminho,
o meu barco, como se fsse animado, parou, por um impulso dos remos;
machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitao
produzio o desgovrno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e
saltou ao abismo, na cora de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo,
mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia que nos
salvava. Se o barco tivesse atestado de pra com a voragem, seria
submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a
salvao. Logo abaixo d'estes, outros rpidos menores; e ento fizmos
fra de remos para uns rochdos, que a meio rio estavam collocados em
ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirmos a elles, e estivmos a
tirar gua e a arrumar as cargas, desarranjadas plo abalo dos rpidos.
Segui s 8 e 55 minutos, e logo, s 9 e 15, encontrmos novas
cachoeiras. s 9 e 25, os grandes rpidos da Manhicanga. s 9 e 30,
outros; e d'ahi aos grandes rpidos da Lucanda, que passmos s 11 e 8
minutos, saltmos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um
pequeno rpido, encontrmos a cataracta de Catima-moriro (_apaga o
fgo_) ao meio-dia.

 Catima-moriro o ltimo desnivelamento da regio superior das
cataractas do alto Zambeze. D'ali at  nova regio de rpidos, que
precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio  perfeitamente
navegavel.

O esprito tambem se fatiga como o crpo, e foi verdadeiramente fatigado
de esprito, que eu cheguei ao trmo d'essa perigosa jornada do dia 12,
jornada que no posso relembrar sem terror. As commoes d'aquelle dia
tinham srado o crpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Appareceu
muita caa, mas a minha fraqueza e as dres que me produziam os
causticos ainda abertos, no me permittram caar.

O curso do rio foi sempre a S.S.E.

D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barze, planicies
enormes, fundo de areia, e nem mais um rochdo. As margens sam formadas
por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de nvo
fortissimo, e encrespava a superficie das guas, levantando ondas
bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto da
povoao de Catongo. De nvo tinha peorado, e era prostrado pla febre
que me mettia no barco para seguir.

Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do
Jco, e que chegou n'essa noute.

Sube, que na vspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados
por um bando de lees. Subindo para cima de rvores podram escapar-lhe,
mas estivram muito tempo cercados por elles. A minha cabrinha Cra foi
iada por um pano que lhe atram aos cornos, e estve amarrada a um
tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos lees, atirando-lhe de
cima da rvore, e trocou em Catongo a pelle d'elle por uma grande poro
de tabaco.

No dia 14, naveguei a leste, direco que toma o Zambeze, e fui acampar,
pla tarde, ja perto da povoao do Quisseque.

O rio contina a dividir-se, formando grandes ilhas, mas no como as da
regio das cataractas. Sam canaviaes montonos, que canam a vista.

Tivmos n'esse dia pescadores, que nos fornceram abundante peixe. Fram
os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que no sam mais do que
_pygargos_ gigantscos que povoam as margens do rio. Fram perseguidos
alguns, que abandonram o peixe que levavam.

Uma d'essas guias aquticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais
corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem
que mostrasse esfro ao voar.

Todava, a maior parte abandonavam a prsa, para fugir mais rpidamente.

Estes pygargos do Zambeze, que no vi acima da regio das cataractas,
t[~e]m a caba, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e
costas de um ngro de bano.

Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome de
_pygargo de cabea branca_, mas menos corpulenta do que a ave que serve
de emblema ao pavilho dos Estados-Unidos.

No dia 15 de Outubro, cheguei de manh ao Quisseque, tendo navegado por
uma hora a leste.

No quiz ir para a povoao, ja desconfiado do gentio, e fui acampar no
meio do canial de uma ilha fronteira. Mandei prevenir o chefe de que
estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de nvo reapparecera
intensa.

Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando 
Europa, que, pla cr de caf com leite da pelle, eu reconheci ser um
filho das margens do Orange.

Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lngua Sesuto, que era
criado do missionario, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi
a respeito de seu amo. Por elle sube, que o missionario era Francez, o
que sbre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar,
vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em ngro.

Dizendo-lhe eu, que vinha de propsito procurar seu amo, elle
manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario era
o melhor homem do mundo.

Eu no sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem
era Francez, mas  facto que o tive.

Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome 
Carimuque, mas que tambem  conhecido plo de Moranziani, nome de guerra
dos chefes do Quisseque.

Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava
muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar
remedios.

Preveni-o de que no tinha vveres, nem com que os comprar, e elle
prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim e para os meus.

N'essa tarde os meus remadores comeram a gritar que no deixariam o
Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que no tinha
nada que lhes dar. Que o marfim s poderia ser convertido em fazendas
logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por isso para
serem pagos era preciso seguir vante.

Elles parecram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noute
horrivel no canial da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a
fugir de cobras, os companheiros que tive em trno de mim. A febre
augmentou. Carimuque veio ver-me na manh de 16, e trouxe-me um presente
de massamballa e uma pequena poro de farinha de mandioca.

Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem
pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me
mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.

Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes no pagava se
elles no seguissem no dia immediato. Depois de grandes debates, em que
fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar pleiteava por mim,
repetindo cem vzes, que seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que
elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos poramos de nvo em
viagem.

N'esse dia chegram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a
mensagem do missionario.

Como se sabe, e eu ja narrei no como d'este captulo, Matagja
opposera-se formalmente ao ingresso do missionario no paiz do Lui. A
resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e
no era uma negativa formal.

Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fsse para ali; mas
que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade que poderiam
offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida, fazia com que
elles lhe pedissem, que se fsse embora, e voltasse no anno seguinte.
Para Carimuque vinha uma ordem positiva para no lhe dar meios de elle
seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do
rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre de seu
amo a quem tecia verdadeiros panegyricos.

Nesse dia, s 4 horas da tarde, desencadeou sbre ns uma horrivel
trovoada, que despejou copiosa chuva at s 6 horas. Carimuque veio
ver-me de nvo, e trouxe-me duas gallinhas.

Parti s 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia,
encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.

O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas de
certo influe n'esta altura a gua do Zambeze que o represa.

Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de bfalos, zbras e
grande variedade de antlopes. Vi ali muitos coroanes, e presenciei um
effeito de miragem sorprendente, apresentando-me tda aquella manada
heterognea, de patas para o ar.

Nunca vi tanta caa junta como ali,  ella muito esquiva, e no deixa
approximar a menos de duzentos metros.

Pude matar uma zbra, que nos forneceu ptima carne, muito melhor do que
a de qualqur antlope. Depois de duas horas de demora ali, segui
viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, s 5 da tarde,
por vermos na margem uma rvore velha trazida pla corrente, onde fomos
fazer proviso de lenha para a noute. Foi um verdadeiro beneficio
aquella rvore, sem a qual no teriamos lenha para cozinhar em campinas
despidas de arvordo.

Quando amos a seguir, appareceu um prto, gritando que os outros barcos
tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivmos que voltar a
traz, por no termos provises no meu barco, e ir a carne na barco da
carga.

S s 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha gente, e acampei com
elles.

N'essa occasio ja iam tdos embarcados, porque Carimuque tinha psto
dois barcos grandes  minha disposio, e n'elles eu havia accommodado
Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.

Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.

Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma poro de farinha de
mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim to doente e to
debilitado.

N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho
que a continha completamente vazio.

Entrando em averiguaes do caso, sube que fra o meu muleque Catraio
que a furtara e comra.

N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio
das trevas.

Foi o combate cruento entre um bfalo e um leo, que terminou pla morte
d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava
prolongados rugidos, acompanhados por um cro de hyenas. De manh, a 100
metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bfalo, cuja
caba estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de
carne deixados plas hyenas.

Segui viagem, e depois de cinco horas de navegao, entre ilhas
divididas por canaltes, formando um systema complicado, aportei sbre
um rpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras
que vai terminar pla grande cataracta de Mozi-oa-tunia.

Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras
rvores, sbressahem j os baobabs, esses gigantes da flora Africana,
que eu no via desde Quillengues.

Desembarquei, e fui deitar-me  sombra de um d'esses colossos vegetaes.

Tinha terminado a minha navegao no alto Zambeze, e d'ali at encontrar
o missionario o meu caminhar era de nvo a p.

A povoao de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e
para l partram os marinheiros com as cargas.

Eu adormeci, e s acordei por noute escura. S o Verissimo, Camutombo e
Ppca estavam junto de mim. Perguntei-lhes porque estvamos ainda ali?
respondendo-me o Verissimo, que no tinha querido interromper o meu
sono. Apesar do escuro da noute, ia pr-me a caminho, quando reparei que
no tnhamos uma s arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia
asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. No fiquei
socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras.
Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas s escuras
elles nenhuma encontravam que servisse.

Ppca lembrou-se ento de ter visto perto de ns um barco velho, que
effectivamente encontrmos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao
corte da minha faca de mato.

Lembrei-me de o jogar como arete contra o tronco do baobab, e logo ns
trs dando-lhe o movimento de vai-vem, o lanmos com a mxima fra. A
cana fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operao,
repetida algumas vzes, forneceu lenha e com ella uma ba fogueira.

Estvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentmos gente, e logo
appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me.

Parti com elles, e cheguei a Embarira pla meia noute. O chefe da
povoao tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e
fadiga.

Estava em Embarira, na margem esqurda do rio Cuando, cujas nascentes
havia descoberto e determinado trs mezes antes.

Estava prximo a alcanar o missionario, de quem esperava auxilio para
poder continuar a minha viagem, e estava em vspera de novas aventuras,
que no calculava ainda.

O estado da minha saude muito melindroso, a dvida no futuro, as
apprehenses do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa
onde me recolhi, fizram-me passar uma noute atribulada.

Depois, uma outra ida, no me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que
um branco (Macua), que no era nem missionario nem commerciante, estava
acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando.

Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?

Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia
seguinte.




CAPTULO SUPPLEMENTAR.


A pginas 184, em captulo anlogo a este, tratei por modo succinto, dos
paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bih.

N'este captulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de
mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bih ao
curso superior do rio Zambeze, at onde termina a narrativa da minha
viagem na pgina antecedente.

Apresentando um resumo das minhas determinaes astronmicas, dos meus
estudos meteorolgicos, etc., sem pedantismo o fao, e creio apenas,
n'isso cumprir um dever, tornando pblicos um certo nmero de estudos e
trabalhos de que fui encarregado, e que, se no interessam a alguns
leitores, podem merecer atteno de outros.

Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectao.

lm da carta geral d'frica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas
cartas parciaes dos paizes que mais merecram a minha atteno no
caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes
que a pequena escala d'aquella no comportaria.

Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista
geogrphico, com tanto mais interesse, quanto elle  desconhecido aos
gegraphos; que nas suas cartas o t[~e]m preenchido at hoje com linhas
mal seguras, traadas pela mo trmula da dvida, colhida nas
informaes pouco idneas e contradictorias de gente ignara.

Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana,
antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui;
mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que
agora anda pondo em ordem; e  preciso dizer, que, se essas notas dam um
valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a
sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos ngros, dam
ellas um fraco auxilio s sciencias geogrphicas, em que elle, por falta
de elementos, no pde fazer um trabalho srio.

Sam paizes completamente novos  geographia aquelles que apresentei nos
antecedentes captulos, e de que vou tratar n'este.

As coordenadas geogrphicas dos principaes pontos do meu itinerario
fram calculadas dos elementos que adiante publco.

Comearei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura
Africana.

As ltimas guas que correm  costa de Oeste nascem em trno do Bih,
dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cito, que,
depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari.

O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene,
termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste,
que vam buscar as suas guas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio
Onda, que ainda nasce dentro do ngulo formado pelo Cubango e Cito, e o
Cuiba e o Cuime, que entrelaam as suas nascentes com as do Cito e as
de outro rio, o Lungo--ungo, que pelo Zambeze vai lanar no mar Indico
guas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que
percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para
atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas
nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas guas para
pontos da terra to distantes,  prximamente de 12 e 30', isto , est
n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os
dois rios gigantes da frica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus
principaes affluentes.

Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois
systemas d'guas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um trao commum
de unio no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao
Sul e ao Norte, entrelaando ali as suas origens muitos dos grandes
affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um
systema d'guas que vai engrossar as duas artrias principaes.

Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os
parallelos 8 e 15 austraes, tda a gua que corre ao Norte vai entrar no
Atlntico por 6, 8', com o nome de Zaire; tda a que corre ao sul entra
no Oceano Indico por 18, 50', com o nome de Zambeze.

Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das
guas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se
entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'guas filial do Zaire, eu
seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e  medida que avanava no
interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente
definido e claro.

Os paizes de que falei nos anteriores captulos, os mesmos de que estou
tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos
principaes, se no o principal, affluentes do Zambeze.

O rio Cuando, artria principal d'este systema, nasce, por 18, 57' de
longitude, 12, 59' latitude, n'um pequeno charco apalado, superior ao
nivel do mar em 1362 metros.

A sua foz, na confluencia com o Zambeze, est collocada em 17, 49' de
latitude, 25, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do
mar. A extenso do seu curso  de 540 milhas geogrphicas, ou
prximamente mil kilmetros. O seu desnivelamento da nascente  foz  de
422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.

Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam
uma extenso de vias fluviaes no inferior a mil milhas geogrphicas, ou
prximamente mil e oitocentos kilmetros, que com o curso d'aquelle rio
perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilmetros.
Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do
planalto Africano.

Forando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha
das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficram
perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.

Aos traados hypothticos, a que a maior parte dos gegraphos preferiam
deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude
substituir um traado firme e seguro do paiz ignoto.

O rio Queimbo, o Cubangu, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios
navegaveis, banhando frteis paizes e promettendo um futuro quella
parte do continente ngro, livre do z-z, a msca terrivel, que corta
cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.

Agora, que em breves traos apresentei o grande e principal systema
d'aguas das terras comprehendidas entre o Bih e o Zambeze, vou
succintamente falar da sua orographia.

Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituio geolgica do
solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.

O solo Africano Austral  rocha das pochas primitivas. Se junto s
costas, nos terrenos baixos observamos os depsitos sedimentares, e o
trabalho da gua, elles acabam ali, para no deixar perceber mais do que
a aco do fgo.

Os calcreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os
primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno
plutnico, e encontramos at ao Bih o granito primitivo, profusamente
distribuido. Do Bih para leste o granito vai desapparecendo, e lm
Cuanza  substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos.

 sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da aco do metamorphismo.
Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo  metamrphico.

Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plsticos, pela aco das
grandes guas, que do Bih ao Zambeze, se algum viajante tencionar um
dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do
Bih e d'onde termina a regio grantica, porque em todo o caminho que
segui no encontra uma s.

A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a
falta de cataractas e rpidos nos rios d'esta regio Africana. Em tdo o
caminho que segui ha uma depresso constante no terreno at ao leito do
Zambeze, formando uma inclinao suave. Esta depresso  de 292 metros,
em 720 kilmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza  planicie do
Nhengo.

A orographia d'aquella regio  produzida pela aco da gua, e
perfeitamente marcada pelas depresses dos leitos dos rios.

30 a 40 metros acima do nivel das guas correntes, se elevam systemas de
montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem
excepo o curso das guas.

A flora que se nos apresenta no Bih, e onde a planura attinge a sua
maior elevao, mais pobre em rvores, mas riquissima em arbustos e
plantas herbceas; na parte leste do paiz do Bih, e sobre tudo
lm-Cuanza, j recupera, com a menor elevao do solo, tda a sua
riqueza tropical.

A caa, que escaceia desde o paiz do Huambo at prximo da nascente do
Cuando, reapparece abundante d'ali at ao Alto Zambeze. Seis raas
perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo
do nome genrico de Ganguelas, assentam as suas povoaes do Cuanza ao
Nhengo.

O paiz a leste do Cuanza, na parte que  cortado pelos rios, Cuime, Onda
e Varea, e seus pequenos affluentes,  habitado pelos Quimbandes.

Do Cuito  nascente do Cuando, assentam as suas povoaes os Luchazes.
Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de
raa Ambuela.

Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes est sendo invadido
por uma emigrao enorme de Quicos ou Quibcos, que tendem a
estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e
muito para o sul, o paiz, sem povoaes fixas,  com tudo occupado por
uma grande populao nmada, os Mucassequeres.

A margem sul do rio Lungo--ungo e seus pequenos affluentes, sam
habitados por os Lobares. Tres d'estas raas, os Quimbandes, Luchazes e
Ambuelas, falam a mesma lngua, o Ganguela, com pequenas modificaes.

Os Quicos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma
lngua original, to diversa das outras, que  impossivel serem
comprehendidos de povos estranhos.

Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e
pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condies
de dar a riqueza aos seus possuidores.

Formando federao, no deixam de andar em questes continuadas com os
vizinhos da mesma raa.

No sam bravos, mas sam ladres, e atacam sempre as comitivas do Bih
que vam negociar cra mais ao interior, logo que essas comitivas sam
fracas e elles conhecem que podem vencer.

 certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados
a contar as espingardas que traz, e o nmero de caixas de plvora, que
se distinguem pelo seu invlucro de pelle de leopardo, costume adoptado
pelos sertanejos Bihenos.

Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou
oito caixas de cartuxos, pode dormir descanado, que s ter d'elles
amizade e respeito.

Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, no
possuem j rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e lm algum gado caprino
de inferior especie.

J cuidam de colher cra, e sam um pouco mais industriosos do que os
seus vizinhos de oeste.

Em quanto a valor e honestidade, oram pelo mesmo. Constituidos em
federao como aquelles, cada povoao tem um chefe independente, um
pequeno senhor, que no se d ares de tyranno com o seu pvo.

Os Ambuelas, de muito melhor ndole, no sam nada guerreiros. Sam talvez
a melhor gente indgena d'frica Austral.

Grandes cultivadores, no trabalham menos na colheita da cra. Sam
pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.

Formam federao como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais
de independencia.

Em geral, vi n'frica, que mais felizes e livres sam os povos governados
por pequenos senhores. No se praticam ali as scenas de horror to
vulgares nos grandes imperios regidos por autcratas.

Se o roubo  vulgar,  desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre
os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio.

Sem pertenes a propheta, quero crer, que, um dia, ser entre aquelles
povos que se estabelecerm os mais seguros elementos de civilisao
Europea n'frica.

 minha opinio, que nos paizes occupados pelas confederaes Africanas,
regidos por pequenos rgulos, de ndole menos guerreira, por se
reconhecerem mais fracos,  que deve entrar a civilisao com mo forte,
debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador.

Divirjo, por tanto, da opinio do mais ousado dos exploradores, do mais
enrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apstolo da civilisao
do continente ngro, do meu amigo H. M. Stanley.

Diz elle, que devem os missionarios atacar a frica pelos grandes
potentados.

No penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario.

O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e no ha
ali um s Christo! Se o chefe  catechizado, o seu pvo obedece e finge
seguir a lei de Christo.

 como a esttua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella
civilisao.

Mrra o chefe, venha outro que no queira trocar o harm onde ceva a
brutal lascivia, pelo thlamo nupcial onde uma s espsa lhe acompanhe
os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisao
desfez-se, e no ha manh um s christo na igreja que hoje regorgitava
de pvo.

O commercio  bem recebido pelo grande potentado, porque representa
interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.

No Matebelle, onde os missionarios Inglezes no t[~e]m podido fazer
escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes t[~e]m
introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m sabido
crear, uma civilisao relativa.

Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que j
disse. Mrra o rei Khama, e v ao poder um sova que no queira ser
Christo, e tdos os cathequizados se esvarm como fumo. Os negociantes
continuarm o seu trfico, mas o missionario ter de repetir com elle as
oraes do Domingo, s pessas de familia que o rodeam.

Digo-o sem receio de errar.

No Transvaal, entre pequenos rgulos, vemos muitos indgenas que seguem
a lei do Evangelho. No Basuto ha Christos convictos, independente da
influencia d'alguns chefes que o no sam.

Se os exemplos sam estes, aquelles que vem no missionario o primeiro
mensageiro da civilisao Africana, que ataquem os pontos fracos do
reducto, e no vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos 
mais activo.

Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior considerao no s
as misses, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos
povos brbaros do continente ngro. Tenho visto em quasi todos os que
conho a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que
aponto.

Tdos querem um grande nmero de adeptos para a catechese, sem olharem
ao terreno em que semeam.

Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou
rpidamente dizer duas palavras mais sbre o assumpto, que me proponho a
ratar um dia largamente em obra adequada.

Eu francamente no creio o crebro do prto  altura de comprehender um
certo nmero de questes, comezinhas entre povos de raas evidentemente
superiores.

As questes abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a to inferiores
organizaes.

Explicar theologia a um prto equivale a expor as sublimidades do
clculo differencial a uma assemblea de camponios.

Mas, se o prto no est  altura de poder jmais comprehender as
verdades da religio de Christo, tm sem dvida o sentimento do bem e do
mal, e est nas condies de comprehender os principios de moral commum.

Marchem para entre os povos ignaros d'frica Central os missionarios,
sigam sem trepidar o caminho que lhes impe a sua misso evanglica, mas
desvendem os olhos.

Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e no queiram
ensinar aos ngros o que ha de sublime n'ella para crebros mais bem
organizados. Ensinem moral e s moral, com o exemplo e com a palavra;
criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo;
criem-lhes necessidades, que ellas farm nascer o trabalho, e s por
elle se regenera um pvo.

Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da
civilisao, homens que compenetrados dos seus devres para com Deos e
para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em slidas bases;
ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prto possa comprehender;
esperando a occasio que o tempo, a civilisao, no deixar de trazer,
se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos nimos as
verdades da theologia e da moral.

Busque primeiro fazer do prto um homem, que tempo ter de fazer do
homem um Christo. Seguir o caminho contrario  edificar na areia.

No correr d'esta obra terei ainda de falar nas misses Africanas, e
falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro
servio  causa das misses e  causa da humanidade, apontando erros de
que ellas estam eivadas.

O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em frica seria o
negociante.

Infelizmente o commercio sertanejo est em mos de bem tristes apstolos
da civilisao.

J falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de metter
estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invaso do commercio pelos
rabes de Zanzibar no d em civilisao e cultura o que devia dar,
porque a dissoluo de costumes de taes gentes destroe tudo quanto o
commercio adianta.

Por outro lado, os _traders_ (traficantes) Inglezes, creio que deixam
muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionarios seus
conterraneos. Esta questo, do commercio sertanejo como meio
civilisador,  questo que me proponho a tratar um dia, e que no 
cabida aqui, onde s por incidente falei de misses e commercio.

Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos
entre o Cuanza e o Zambeze estam em condies de receberem com mais
facilidade do que os outros povos que conho em frica, o impulso
civilisador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esqucidos
povos do grande continente.

Deixando estes paizes, dos quaes j falei detidamente nos anteriores
captulos, vou entrar no Alto Zambeze.

At ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas paragens, o
primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta geogrphica
que as representasse; ali havia sido j precedido por outro, e por outro
que se tornou to distincto na obra da civilisao Africana, que ganhou
um tmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos reis, dos
grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David
Livingstone percorreu aquelle paiz.

N'esse tempo era elle governado por outra raa, e eu fui encontral-o em
condies bem differentes.

As condies de geographia physica eram as mesmas; mas os gegraphos que
seguirem outros, term sempre rectificaes a fazer, term sempre alguma
cousa a acrescentar.

Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenas que j dram nas
vistas a alguns gegraphos Europeos.

Que o vulto respeitavel do clebre explorador me perde se eu o
contradizer em alguns pontos da sua geographia do Alto Zambeze. Era a
sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava longe ainda de ser o
explorador gegrapho do futuro. Elle mesmo no se vexa de confessar que,
n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo
trigonomtrico comezinho.

Da confluencia do Liba  do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem
direita dois affluentes, o Lungo--ungo e o Nhengo.

Quem viaja da Costa de Oeste v logo, que entre o Nhengo e o Cuando
nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., sam
traos filhos de informaes errneas.

Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem differena
grande para oeste; notando-se que essa differena envolve um rro
manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do primeiro satlite
de Jpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a
mim, porque envolvia approximao da determinao de Livingstone.

Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma
milha mais a favor d'elle.

O que poderia produzir um erro que me afastasse da posio determinada,
era eu ver o satlite antes do reapparecimento, o que  materialmente
impossivel.

O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto , do parallelo
15  cataracta de Mozi-oa-tunia,  dividido em quatro tros
perfeitamente distinctos. Do parallelo 15 (e mesmo muito mais do Norte)
at prximo do parallelo 17,  perfeitamente navegavel em tdas as
pochas do anno.

Ahi comea a apparecer o terreno vulcnico, e com elle o basalto.  a
primeira regio dos rpidos e cataractas, onde fra um serio obstculo,
a grande cataracta de Gonha; tudo mais com pequeno trabalho se tornava
facilmente navegavel, abrindo um canal junto de uma das margens. Mesmo
em Gonha, era de pequena difficuldade profundar um canalte que existe
na margem esqurda junto do caminho que segui por terra, e que vem
designado na carta, por onde se escam guas na pocha das cheias.

Da ltima cataracta, Catima-Moriro, at  confluencia do Cuando, torna o
rio a ter uma navigabilidade facil.

D'ahi para jusante novos rpidos vam terminar na enorme cataracta de
Mozi-oa-tunia, e essa regio no poder nunca ser aproveitada como via
importante, porque uma srie de abismos lhe corta um futuro melhoramento
qualqur quanto a navegao.

No valle do Alto Zambeze ha terrenos productivos e ferteis. Vastas
pastagens alimentam milhares de rzes nos valles, acima e abaixo da
regio das cataractas. Na regio montanhosa ha a msca Z-z, e torna-se
difficil passar os gados de Lialui ao Quisseque.

Contudo, a msca est concentrada nas florestas da regio das
cataractas, e para leste do Barze no existe, porque os povos
Chuculumbes sam grandes pastres.

O valle do Alto Zambeze, cheio de belleza, fertil e rico, exhala do seu
seio envlto nos aromas das suas flres o miasma pestilente. Os
Macololos fram dizimados pelas febres, e quando as azagaias do rei
Chipopa libertram o paiz dos ltimos conquistadores, j o clima tinha
feito a sua obra de destruio.

Os Bihenos, que resistem s febres de quasi tdos os paizes Africanos
que visitam, sam fulminados pelos miasmas do Zambeze.

No paiz entre o Bih e o Zambeze, onde as caravanas se demoram muito
tempo a permutar cra,  rarissimo haver um caso de febre no gentio
Biheno; lm da planicie do Nhengo, multiplicam-se as sepulturas
d'elles.

Verissimo, indgena e possuindo uma organizao refractaria ao miasma,
Verissimo, que nunca em sua vida estivera doente, no pde escapar ao
clima do Barze, e vmos no captulo antecedente ser elle prostrado pla
febre. Eu mesmo, que resisto bastante s endemias Africanas, sentia
respirar a morte com o ar que respirava ali.

Esta verdade, se tivera sido apregoada ha mais tempo, teria poupado a
vida  familia Elmore, que s d'abeirar-se ao paiz succumbio; porque o
clima na regio do Quisseque, e da confluencia do Cuando at Linianti,
no tem melhores condies de salubridade do que o Barze.

Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de um
paiz que est merecendo a atteno da Europa.

Ahi fica ella, e salva est a minha responsabilidade de informador
consciencioso, para todas as desgraas, que aquella voragem ainda ha de
causar aos que no crerem.

Ser por isso o Lui um paiz de que se dva fugir e ao qual ninguem se
dever abeirar? No , e eu vou procurar demonstrar, que elle deve
merecer uma sria atteno, no s  Europa em geral, como muito
particularmente a Portugal.

A frica Austral, entre os parallelos 12 e 18, tem uma largura media de
dois mil e seiscentos kilmetros, e a partilha das guas para as duas
costas faz-se a um quinto d'esta extenso, junto  Costa de Oeste;
porque se faz prximo do meridiano 18 E. Greenw., isto , a 600
kilmetros apenas, da Costa Oeste.

D'ahi j se lanam dois rios, cujas guas se juntam ao Zambeze, o
Lungo--ungo e o Cuando.

Antes de vermos a importancia d'estes dois cursos d'gua, estudemos o
proprio rio gigante, aquelle que bebe as guas de tdo o planalto
Africano ao sul do parallelo 12 at ao parallelo 20, e a leste do
meridiano 18.

O Zambeze divide-se naturalmente em tres grandes tros perfeitamente
distinctos:

O alto curso, o curso medio, e o curso inferior.

O Alto Zambeze comprehende o rio desde as suas nascentes, ainda ignotas,
at  sua grande Cataracta Mozi-oa-tunia.

O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos rpidos de Cabrabassa;
e o Baixo Zambeze d'ahi ao Mar Indico.

Vejamos agora quaes sam as condies de navigabilidade de cada uma
d'estas partes do rio, e qual a sua importancia relativa, e a dos seus
affluentes.

J n'este msmo captulo descrevi as condies do Alto Zambeze e por
isso comearei por tratar do seu curso medio.

Conta elle de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extenso de 460 milhas
geogrphicas, ou de 828 kilmetros, e divide-se em duas regies
perfeitamente distinctas, a superior e a inferior, cada uma das quaes 
extensa de 230 milhas, ou 414 kilmetros.

A regio superior, que principia na grande cataracta e termina nos
rpidos de Cariba, no tem importancia como via navegavel, nem pelos
affluentes que recebe, todos pequenos e inaproveitaveis  navegao.

Tem esta regio alguns tros navegaveis, mas em pequenas extenses, e
logo interrompidos com rpidos. A segunda parte do curso medio, de
Cariba a Cabrabassa, est em condies bem differentes, tanto por
offerecer uma facil navigabilidade como por os importantes affluentes
que recebe do Norte. De um d'estes affluentes me occuparei em breve.

O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extenso de 310 milhas
geogrphicas, ou 560 kilmetros, onde apenas poucas milhas sam occupadas
pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o resto do curso navegavel, ainda
que em ms condies, por falta de gua na estao estia.

Esta parte do rio, mesmo nas ms condies em que est da confluencia do
Chire a Tete,  ainda uma grande via por onde se faz todo o commercio do
interior com Quelimane. Recebe elle um affluente importante, o Chire,
magnfico rio, que da sua foz a Chibisa, no tem cataractas, sendo
perfeitamente navegavel. O Chire que vem do Norte, no seu tro medio
corre a S.E. quasi parallelamente ao Zambeze; e por isso de Chibisa a
Tete apenas medea uma distancia de 65 milhas geogrphicas, ou 117
kilmetros, em terreno pouco accidentado, e que hoje, sem caminhos, se
vence facilmente a p em cinco dias.

Esta circunstancia  muito para merecer a atteno; porque, sendo o rio
Zambeze pobre em profundidade da foz do Chire a Tete, no o  do Mazaro
ao mar; e assim, navegando-se por elle e pelo Chire at Chibisa,
chegamos a 5 dias de jornada a p, de Tete, com toda a rapidez que nos
podem proporcionar aquellas magnficas vias. Os 117 kilmetros que
separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos em um dia com uma simples
estrada de rodagem, e em tres horas com uma ferrovial.

Estam pouco ou nada estudados os rpidos de Cabrabassa, e no fao ida
at que ponto elles constituem um srio obstculo  navegao, e se com
pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse obstculo.

Sei porem, que a regio que elles occupam  pouco extensa, o que j
constitue uma vantagem indiscutivel.

Voltemos ao curso medio do Zambeze.

Recebe elle pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o
Cafucu.

O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e commercial villa
do Zumbo, cujas ruinas attesto at que ponto a ouzadia Portugueza, ia
fundar os seus mercados, introduzindo a civilisao e o commercio nas
mais remotas terras Africanas,  um rio volumoso em guas, mas, (dizem
os sertanejos Portuguezes) muito cortado de cataractas.

Seria contudo importantissimo o seu estudo, ainda que no lhe vejo a
mesma importancia que tem o outro rio, o Cafucu, de que vou falar.

Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o paiz dos
Machachas, e encontram um rio enorme a que elles chamam o Loengue. Esse
rio  percorrido por elles nas suas viagens de trfico, que o sobem at
s origens, e descem at  foz, onde toma o nome de Cafucu.

Alguns dos que estavam comigo fizram muitas vezes essa viagem, e raro 
o Biheno que no tenha estado em Caiuco.

Miguel, o meu caador de elefantes, de quem mais de uma vez falei no
correr da minha narrativa, passou dois annos n'aquelle paiz caando
elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado de Caiuco a
Semalembue; isto  uma distancia que eu calculo grosseiramente em 220
milhas geogrphicas, ou 400 kilmetros.

De Lialui a Caiuco deve a distancia ser de 220 kilmetros, porque 
facilmente vencida pelos Luinas em dez dias, havendo exemplos de ter
muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude d'estes dados, lancemos um
rpido golpe de vista ao estudo que temos feito do Zambeze, e
reconheceremos que, n'uma extenso de 900 milhas geogrphicas, ou 1620
kilmetros, seguindo pelo Zambeze, Chiri-Tete, Cafucu ou Loengoe, a
Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias de caminho por terra, 5 de Chibisa
a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco a Lialui; representando uma
extenso de 400 kilmetros, e por isso sendo aproveitados 1220
kilmetros de vias fluviaes perfeitamente navegaveis.

Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quaes as suas circunstancias
com relao aos seus affluentes. De um sabemos nos j que  navegavel, o
Cuando, mas sabemos tambem, que elle desgua entre duas regies de
cataractas; o que o isola das partes importantes do curso do Zambeze.

Mas da regio que est entre a sua foz e o Lui, j disse que no vejo
impossibilidade de ser facilmente tornada em via aproveitavel; e logo
que assim seja, e mesmo agora, poderamos descer do Lui, e subir pelo
Cuando at perto do meridiano 18.

Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de attingir aquelle ponto
mais directa e facilmente, se fsse navegavel.

Era elle o Lungo--ungo.

O Lungo--ungo  a grande estrada dos Bihenos para o Alto Zambeze, e por
isso muito conhecido d'elles. Affirmam-me, que no tem cataractas, e no
deve tel-as, correndo em terreno igual ao do Cuando e do Ninda.

O seu desnivelamento  de 400 metros em 540 kilmetros de curso.

Dizem os Bihenos, e affirmram-me os naturaes, sempre que andei prximo
d'esse rio, que elle no tem cataractas, como j disse, mas que por
vezes a sua corrente  muito violenta, sendo preciso puxar as canas 
cirga. Sendo isto verdade, como supponho, chegaramos do Mar Indico,
quasi  Costa de Oeste d'frica, apenas com 18 dias de caminho por
terra, a p! Isto , em uma extenso superior a dois mil kilmetros,
apenas teramos de caminhar em terra 400!

A explorao do Loengue ou Cafucu e a do rio Lungo--ungo sam hoje das
mais importantes a emprehender na frica Austral, e sam relativamente
faceis e pouco custosas.

No pude deixar de chamar a atteno para este ponto, que resolve o
problema da facil communicao entre as duas costas.

J vam longas estas divagaes, em um captulo onde eu apenas tencionava
apresentar os meus trabalhos geogrphicos e meteorolgicos.

Nas seguintes pginas vai publicado d'esses trabalhos, o que eu julguei
mais interessante para alguns leitores.

s observaes iniciaes de astronomia que me dram a determinao dos
pontos do meu caminho, seguem-se aquellas que me premitram fazer o
relvo do continente.

V[~e]m depois as notas meteorolgicas, com interrupes inevitaveis
quando se  s a fazer um trabalho tal.

Constam ellas de dois boletins, que registam as observaes feitas 0 h.
43 m. de Greenwich, e s 6 horas da manh do logar em que me achava,
hora a que dava corda aos chronmetros.

O estudo d'esses boletins mostra sempre a grande uniformidade das
oscillaes baromtricas, e as enormes desigualdades de temperatura e de
humidade do ar nos paizes a que se referem.

V-se tambem, que os ventos reinantes sam do quadrante Este em todo o
paiz do Bih ao Zambeze.

Como j tive occasio de dizer, e bem se comprehende ao ler a minha
narrativa, no pude fazer colleces naturalistas, e apenas,
aproveitando muito pouco papl de que podia dispor, levei das nascentes
do rio Ninda algumas plantas, que estam em poder do Snr. Conde de
Ficalho, para serem estudadas, e onde parece j terem apparecido algumas
especies novas.

 opinio do Snr. Conde de Ficalho, que o cereal muito cultivado entre
os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo _Massango_, e erradamente
chamei Alpiste,  uma especie de _Penicillaria_, a que chamavam outrora
os botnicos _Penicetum typhoideum_.

Aquelle que eu designo com o nome de _Massamballa_  o _Sorghum_.




*Quadro das Observaes Astronmicas pelo Major Serpa Pinto do rio
Cuanza ao Zambeze*.


 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |   Anno de    |       Logares onde        |   Hora dos    | Estado para |
 |    1879.     |         observei.         | Chronmetros. |  Greenwich. |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |              |                           |   H.  M.  S.  |  H.  M.  S. |
a| Junho     17 |Mavanda                    |      ---      |     ---     |
b|   "        " |    "                      |    9  12  39  |+  3  47  18 |
c|   "        " |    "                      |    5  53  44  |+  3  47   4 |
d|   "        " |    "                      |    5  37  55  |     ---     |
e|   "       22 |    "                      |    9  25  38  |+  3  47  48 |
f|   "       24 |Rio Onda                   |      ---      |     ---     |
g|   "        " |    "                      |    8  57   0  |+  3  47  54 |
h|   "       25 |    "                      |      ---      |     ---     |
i|   "       26 |    "                      |    9  42  58  |+  3  48  10 |
j|   "       30 |1.5 milha a O. do rio Cuito|      ---      |     ---     |
l|   "        " |    "                      |    9   3  51  |+  3  48  46 |
m| Julho      2 |Alem do Cuito              |      ---      |     ---     |
n|   "        3 |    "                      |    0  29  32  |+  3  49   7 |
o|   "        " |    "                      |    3  53   7  |     ---     |
p|   "        4 |Cambimbia                  |      ---      |     ---     |
q|   "        " |    "                      |    8  56  46  |+  3  49  15 |
r|   "        " |    "                      |      ---      |     ---     |
s|   "        " |    "                      |    8  55  26  |+  3  49  15 |
t|   "        6 |Cambuta                    |      ---      |     ---     |
u|   "        " |    "                      |    9   0   2  |+  3  49  31 |
v|   "        7 |    "                      |      ---      |     ---     |
x|   "        " |    "                      |    9  10  14  |+  3  49  39 |
z|   "       10 |Nascente do Cuando         |      ---      |     ---     |
0|   "       11 |    "                      |    8  53  23  |+  3  50  24 |
1|   "        " |    "                      |      ---      |     ---     |
2|   "       14 |Nascente do Cubangui       |      ---      |     ---     |
3|   "        " |    "                      |    9  11  11  |+  3  50  54 |
4|   "       17 |Cangamba                   |    9   2  40  |+  3  51  24 |
5|   "       18 |    "                      |      ---      |     ---     |
6|   "       19 |    "                      |      ---      |     ---     |
7|   "        " |    "                      |    9   5   8  |+  3  51  44 |
8|   "       23 |    "                      |    9   9  29  |+  3  51  56 |
9|   "        " |Margem Direita do Cubangui |    4  49  47  |+  3  52   5 |
A|   "        " |    "                      |    4  52   5  |+  3  52   5 |
B|   "        " |    "                      |      ---      |     ---     |
C|   "       29 |Ca-eu-hue                 |      ---      |     ---     |
D|   "        " |    "                      |    8  55  42  |+  3  52  48 |
E|   "        " |    "                      |    8  58  22  |+  3  53   1 |
F|   "        " |    "                      |    8  59   5  |+  3  53   1 |
G|   "        " |    "                      |    8  59  42  |+  3  53   1 |
H|   "       31 |    "                      |    8  45  30  |+  3  53  19 |
I|   "        " |    "                      |    8  46  28  |+  3  53  19 |
J|   "        " |    "                      |    8  47  27  |+  3  53  19 |
L|   "        " |    "                      |    8  48  58  |+  3  53  19 |
M|   "        " |    "                      |    8  50  40  |+  3  53  19 |
N| Agosto     3 |    "                      |    9   9  11  |+  3  53  49 |
O|   "        4 |Margem Esquerda do Cuchibi |    3  15   7  |+  3  53  51 |
P|   "        " |    "                      |    2  40  47  |     ---     |
Q|   "        5 |Ponto onde deixei o Rio    |      ---      |     ---     |
R|   "        " |    "                      |    8  53   7  |+  3  54   0 |
S|   "        7 |Rio Chicului               |      ---      |     ---     |
T|   "        " |    "                      |    9   0   6  |+  3  54  16 |
U|   "       10 |Nascente do rio Ninda      |    6  57  20  |+  3  54  41 |
V|   "        " |    "                      |    6  58  20  |+  3  54  41 |
X|   "        " |    "                      |    3   3  52  |-  2   7  56 |
Z|   "       11 |    "                      |      ---      |     ---     |
=|   "        " |    "                      |    3   3   9  |-  2   7  53 |
-|   "       13 |Margem do Ninda            |      ---      |     ---     |
+|   "        " |    "                      |    6  33   5 }|             |
/|              |                           |              }|   3  55   7 |
*|   "       16 |    "                      |    6  55  53 }|             |
:|   "        " |Povoao de Calomba        |      ---      |     ---     |
;|   "        " |       "                   |    6  29  36 }|             |
!|              |                           |              }|+  3  55  33 |
?|   "        " |       "                   |    6  54   8 }|             |
 |              |                           |               |             |
^|   "        " |       "                   |    6  31  48 }|             |
'|              |                           |              }|+  3  55  33 |
.|   "        " |       "                   |    6  51  46 }|             |
,|   "       18 |Povoaes do Nhengo        |      ---      |     ---     |
\|   "        " |       "                   |    8  58  21  |+  3  55  42 |
"|   "       21 |Canhete                    |      ---      |     ---     |
$|   "       25 |Lialui                     |      ---      |     ---     |
%|   "       29 |   "                       |      ---      |     ---     |
&| Setembro  10 |Catongo                    |      ---      |     ---     |
(|   "       12 |   "                       |    3  46  19  |+  3  57  35 |
)|   "        " |   "                       |    1   9  50  |     ---     |
[|   "       19 |   "                       |    9   6  53  |+  3  58  42 |
]|   "        " |   "                       |    3   4   9  |     ---     |
|   "       20 |   "                       |    0  20   0  |+  3  58   0 |
|   "       21 |   "                       |    6   2   0  |-  1  33   0 |
<|   "        " |   "                       |    6   0   0  |-  1  33   0 |
>|   "       22 |   "                       |    5  38   0  |-  1  33   0 |
~| Outubro    1 |Sinanga                    |      ---      |     ---     |
{|   "        4 |Sioma                      |      ---      |     ---     |
}|   "        " |   "                       |   10  10   1  |+  4   0  40 |
_|   "        9 |Confluencia do Jco        |    9   8   9  |+  4   1  30 |
|   "        " |       "                   |   10  42   0  |-  1  36   0 |
#|   "       11 |Cataracta de Nambu        |   12   3   0  |-  1  37   0 |
|   "        " |       "                   |    3  48  34  |+  4   1  50 |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+


 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
 |    Natureza    |   Dupla   |     |     |       |     |                 |
 |       da       | altura do | [A] | [B] |  [C]  | [D] |   Resultados.   |
 |   Observao   |   astro.  |     |     |       |     |                 |
 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
 |                |     '  " |   '|H. M.|  '  " |     |            '   |
a|Altura Mer. [*-]| 107 32 20 | --- | 1  9| -0 40 |  1  |Lat.     12 35 S.|
b|Chron. [*-]     |  83 45 10 |12 35| --- | -0 35 |  3  |Long.    17 26 E.|
c|   "   [)-]     |  70 33 10 |12 35| --- |   "   |  1  |Diff. do Chron.  |
 |                |           |     |     |       |     |    4^h.57^m.6^s.|
d|Eclipse do 1^o. |     ---   | --- | --- |  ---  | --- |Long.    1730'E.|
 | satlite de Jup|           |     |     |       |     |                 |
e|Chron. [*-]     |  79 30 16 |12 35| --- | -0 50 |  3  | "       17 30 E.|
f|Altura Mer. [*-]| 107 24 10 | --- | 1 10| -0 30 |  1  |Lat.     12 37 S.|
g|Chron. [*-]     |  88 24 20 |12 37| --- | -0 25 |  1  |Long.    17 45 E.|
h|Altura Mer. [*-]| 107 25 30 | --- | 1 10| -0 30 |  1  |Lat.     12 38 S.|
i|Chron. [*-]     |  73 18 40 |12 37| --- | -0 40 |  1  |Long.    17 46 E.|
j|Altura Mer. [*-]| 107 31 20 | --- | 1 12|   "   |  1  |Lat.     12 48 S.|
l|Chron. [*-]     |  86  4 24 |12 48| --- |   "   |  5  |Long.    18  7 E.|
m|Altura Mer. [*-]| 107 35 50 | --- | 1 12|   "   |  1  |Lat.     12 54 S.|
n|Chron. [)-]     |  83 23 30 |12 57| --- | -0 40 |  3  |Diff.para o logar|
 |                |           |     |     |       |     |  5^h. 2^m. 45^s.|
o|Eclipse do 1^o. |     ---   | --- | --- |  ---  | --- |Long.    1823'E.|
 | satlite de Jup|           |     |     |       |     |                 |
p|Altura Mer. [*-]| 107 50  0 | --- | 1 13| -0 40 |  1  |Lat.     12 56 E.|
q|Chron. [*-]     |  86 38 40 |12 56| --- |   "   |  3  |Long.    19 41 E.|
r|Altura Mer. [*-]| 107 50 20 | --- | 1 14|   "   |  1  |Lat.     12 56 S.|
s|Chron. [*-]     |  87  3 47 |12 56| --- |   "   |  4  |Long.    19 41 E.|
t|Altura Mer. [*-]| 108  9  0 | --- | 1 15|   "   |  1  |Lat.     12 58 S.|
u|Chron. [*-]     |  87  3 50 |12 58| --- |   "   |  3  |Long.    18 43 E.|
v|Altura Mer. [*-]| 108 22  0 | --- | 1 15|   "   |  1  |Lat.     12 58 S.|
x|Chron. [*-]     |  83 57 36 |12 58| --- |   "   |  3  |Long.    18 45 E.|
z|Altura Mer. [*-]| 109  2  0 | --- | 1 16|   "   |  1  |Lat.     12 59 S.|
0|Chron. [*-]     |  89 36 30 |12 58| --- |   "   |  3  |Long.    18 57 E.|
1|Altura Mer. [*-]| 109 16 50 | --- | 1 16|   "   |  1  |Lat.     12 59 S.|
2|   "            | 109 43 40 | --- | 1 18|   "   |  1  | "       13 12 S.|
3|Chron. [*-]     |  83 33 16 |13 12| --- |   "   |  3  |Long.    19 27 E.|
4|   "            |  86  1 40 |13 38| --- | -0 50 |  3  | "       19 41 E.|
5|Altura Mer. [*-]| 110  9 20 | --- | 1 19|   "   |  1  |Lat.     13 38 S.|
6|   "            | 110 30 50 | --- |  "  |   "   |  1  | "       13 38 S.|
7|Chron. [*-]     |  85 41 33 |13 38| --- | -1 50 |  3  |Long.    19 41 E.|
8|Azimuth 26 15' |  84 42 30 |  "  | --- | -0 20 |  1  |Variao 18 22 O.|
9|Chron. [*-]     |  87 48 50 |13 48| --- | -0 35 |  3  |Long.    19 42 E.|
A|   "            |  88 37 27 |  "  | --- |   "   |  3  | "       19 44 E.|
B|Altura Mer. [*-]| 111 42 40 | --- | 1 19|   "   |  1  |Lat.     13 48 S.|
C|   "            | 112 58 40 | --- |  "  | -1  0 |  1  | "       14 30 S.|
D|Chron. [*-]     |  89 23 10 |14 30| --- |   "   |  1  |Long.    20 19 E.|
E|   "            |  88 28 40 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 17 E.|
F|   "            |  88 15  0 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 16 E.|
G|   "            |  88  2 20 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 16 E.|
H|   "            |  93 16 50 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 17 E.|
I|   "            |  92 59 10 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 16 E.|
J|   "            |  92 39 40 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 17 E.|
L|   "            |  92 11  0 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 15 E.|
M|   "            |  91 36 30 |  "  | --- |   "   |  1  | "       20 17 E.|
N|   "            |  86  5 50 |  "  | --- | -0 55 |  2  | "       20 15 E.|
O|   "            |  76 56 50 |14 34| --- |   "   |  2  |Diff.para o logar|
 |                |           |     |     |       |     | 5^h. 14^m. 56^s.|
P|Eclipse do 1^o  |    ---    | --- | --- |  ---  | --- |Long.    20 23 E.|
 | satlite de Jup|           |     |     |       |     |                 |
Q|Altura Mer. [*-]| 116  8 10 | --- | 1 21| -0 55 |  1  |Lat.     14 42 S.|
R|Chron. [*-]     |  91 47 53 |14 42| --- |   "   |  3  |Long.    20 25 E.|
S|Altura Mer. [*-]| 117 21 40 | --- | 1 21|   "   |  1  |Lat.     14 39 S.|
T|Chron. [*-]     |  89 44 50 |14 42| --- |   "   |  3  |Long.    20 38 E.|
U|Alt. prox. do   | 118 37 50 | --- | --- |   "   |  1  |Lat.     14 46 S.|
 | Mer. [*-]      |           |     |     |       |     |                 |
V|         "      | 118 35 10 | --- | --- |   "   |  1  | "       14 46 S.|
X|Chron. [*-]     |  89 35 15 |14 46| --- |   "   |  3  |Long.    20 55 E.|
Z|Altura Mer. [*-]| 119 26 20 | --- | 1 23| -0 50 |  1  |Lat.     14 46 S.|
=|Chron. [*-]     |  90  8 46 |14 46| --- |   "   |  3  |Long.    20 56 E.|
-|Altura Mer. [*-]| 120 33 30 | --- | 1 25| -0 55 |  1  |Lat.     14 48 S.|
+|                |           |     |     |       |     |                 |
/|Alturas         | 120 17 10 | --- | --- |   "   |  2  |Long.    21 16 E.|
*| iguaes [*-]    |           |     |     |       |     |                 |
:|Altura Mer. [*-]| 122 12  0 | --- | 1 25| -0 50 |  1  |Lat.     14 54 S.|
;|                |           |     |     |       |     |                 |
!|Alturas         | 121 52 10 | --- | --- |   "   |  2  |Long.    21 41 E.|
?| iguaes [*-]    |           |     |     |       |     |                 |
^|                |           |     |     |       |     |                 |
'|     "          | 121 58 50 | --- | --- |   "   |  2  | "       21 41 E.|
.|                |           |     |     |       |     |                 |
,|Altura Mer.[*-] | 123 15 50 | --- | 1 28|   "   |  1  |Lat.     15  1 S.|
\|Chron. [*-]     |  90 53 53 |15  1| --- | -0 55 |  3  |Long.    22  2 E.|
"|Altura Mer. [*-]| 124 53 40 | --- | 1 30|   "   |  1  |Lat.     15 11 E.|
$|Altura Mer. [*-]| 127 34 40 | --- | 1 30| -0 55 |  1  |Lat.     15 13 S.|
%|     "          | 130 22 20 | --- |  "  |   "   |  1  | "       15 13 S.|
&|     "          | 139  8  0 | --- | 1 31| -3 30 |  1  | "       15 17 S.|
(|Chron. [)-]     |  71 42 50 |15 17| --- | -0 20 |  3  |Diff.para o logar|
 |                |           |     |     |       |     |   5^h.30^m.53^s.|
)|Reapparecimento |    ---    | --- | --- |  ---  | --- |Long.    2319'E.|
 | do 1^o sat. de |           |     |     |       |     |                 |
 | Jup.           |           |     |     |       |     |                 |
[|Chron. [*-]     |  91 35 43 |15 17| --- | -0 55 |  3  |Diff.para o logar|
 |                |           |     |     |       |     |   5^h.31^m.36^s.|
]|Reapparecimento |    ---    | --- | --- |  ---  |  1  |Long.    2315'E.|
 | do 1^o sat. de |           |     |     |       |     |                 |
 | Jup.           |           |     |     |       |     |                 |
|Amplitude mag.  |    ---    |15 17| --- |  ---  |  1  |Variao 18 38 O.|
 | 18 40'        |           |     |     |       |     |                 |
|Amplitude mag.  |    ---    |  "  | --- |  ---  |  1  |  "      18 11 O.|
 | 17 20'        |           |     |     |       |     |                 |
<|Amplitude mag.  |    ---    |  "  | --- |  ---  |  1  |  "      18 33 O.|
 | 19 10'        |           |     |     |       |     |                 |
>|Amplitude mag.  |    ---    |  "  | --- |  ---  |  1  |  "      18 44 O.|
 | 18 20'        |           |     |     |       |     |                 |
~|Alt. Mer.[+]    |  58  5  0 | --- | --- | -1  0 |  1  |Lat.     16  8 S.|
 | Dubuhe ([a] de |           |     |     |       |     |                 |
 | Cygne)         |           |     |     |       |     |                 |
{|   "   "        |  57  5  0 | --- | --- |   "   |  1  |  "      16 37 S.|
}|Chron. [)-]     |  86  3 30 |16 37| --- | -1  5 |  1  |Long.    23 45 E.|
_|   "   [*-]     |  89 19  3 |17  7| --- | -0 50 |  3  |  "      24 15 E.|
|Altura Mer. [)-]| 138 30  0 | --- | --- | -1  0 |  1  |Lat.     17  7 S.|
#|       "        | 115 55  0 | --- | --- |   "   |  1  |  "      17 18 S.|
|Chron. [)-]     |  81 46  0 |17 18| --- |   "   |  1  |Long.    24 22 E.|
 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+


*Legenda*:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.

[*-] smbolo do sol por cima da barra
[)-] smbolo da lua por cima da barra
[+] smbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"




*Quadro das Observaes Hypsomtricas, feitas de Caconda  foz do rio
Cuando no Zambeze, para determinar o relevo do Continente*.

Anno de 1878.

---------+----+-----------------------------+-------+-----+---+-----+------
         |    |                             |       |     |   |     |
   Mez.  |Dia.| Designao das localidades. |  [A]  | [B] |[C]| [D] | [E]
         |    |                             |       |     |   |     |
---------+----+-----------------------------+-------+-----+---+-----+------
Fevereiro|  9 |Quipembe                     | 636.0 | 19.6| 23|95.09|1,550
    "    | 10 |Pessengue                    | 638.5 | 16.0| " |95.20|1,506
         |    | (ao nivel do rio Cuando)    |       |     |   |     |
    "    | 11 |Quingolo                     | 632.5 | 21.2| " |94.94|1,604
    "    | 13 |Palanca                      | 635.0 | 20.3| " |95.05|1,566
    "    | 14 |Capco                       | 631.3 | 25.2| " |94.91|1,627
    "    | 22 |Quimbungo                    | 632.0 | 20.9| " |94.92|1,609
    "    | 24 |Cunene (ao nivel do rio)     | 636.5 | 19.7| " |95.12|1,538
    "    | 25 |Dumbo (paiz do Sambo)        | 625.0 | 20.2| " |94.61|1,707
    "    | 26 |Burundoa                     | 629.0 | 18.1| " |94.78|1,646
    "    | 27 |Gongo                        | 631.0 | 18.0| " |94.88|1,613
    "    |  " |Ao nivel do rio Cubango      | 635.0 | 25.0| " |95.05|1,579
    "    | 28 |Chindonga                    | 633.0 | 18.5| " |94.96|1,589
 Maro   |  1 |Cataracta do rio Cutato dos  | 636.0 | 26.5| " |95.09|1,570
         |    | Ganguelas                   |       |     |   |
    "    |  2 |Lamupas                      | 633.0 | 18.1| " |94.96|1,580
    "    |  4 |Capito do Quingue           | 631.0 | 20.0| " |94.88|1,620
    "    |  6 |Rio Cuchi (ao nivel d'gua)  | 638.0 | 21.0| " |95.18|1,526
    "    |  8 |Bilanga (Vicente) (Bih)     | 631.0 | 18.2| " |94.88|1,623
    "    |  9 |Candimba (Bih)              | 630.0 | 17.8| " |94.83|1,629
    "    | 20 |Belmonte (Bih)              | 627.6 | 22.6| " |94.72|1,681
 Junho   |  3 |Commandante (Bih)           | 647.9 | 20.0| " |95.60|1,379
    "    | 12 |Liica (ao niv. do Cuanza)   | 654.9 | 25.9| " |95.89|1,304
    "    | 24 |Rio Onda                     | 650.9 | 22.0| " |95.72|1,347
    "    | 30 |Rio Cuito (20 metros sobre   | 647.9 | 24.0| " |95.60|1,389
         |    | o nivel do rio)             |       |     |   |     |
 Julho   |  2 |Licctoa                    | 644.9 | 20.0| " |95.47|1,421
    "    |  4 |Cambimbia                    | 645.9 | 20.0| " |95.51|1,408
    "    |  5 |Serra Cassara Cahira        | 635.9 | 20.0| " |95.09|1,542
    "    |  7 |Cambuta                      | 647.9 | 21.0| " |95.60|1,381
    "    |  9 |Cutangjo                     | 650.6 | 21.0| " |95.51|1,348
    "    | 11 |Nascente do rio Cuando       | 650.3 | 24.9| " |95.70|1,362
    "    | 14 |Nascente do rio Cubangui     | 652.6 | 20.0| " |95.79|1,345
    "    | 17 |Cangamba                     | 661.0 | 24.0| " |96.14|1,228
    "    | 23 |Ponto onde deixei o Cubangui | 664.0 | 23.0| " |96.27|1,193
    "    | 30 |Ca-eu-hue (Cuchubi)         | 666.0 | 27.7| " |96.35|1,154
 Agosto  |  5 |Ponto onde deixei o rio      | 669.0 | 25.0| " |96.47|1,133
         |    | Cuchibi                     |       |     |   |     |
    "    |  7 |Rio Chicului                 | 669.0 | 24.9| " |96.47|1,133
    "    | 11 |Nascente do rio Ninda        | 667.0 | 28.3| " |96.40|1,143
    "    | 18 |Planicie do Nhengo           | 677.3 | 28.1| " |96.81|1,012
    "    | 25 |Lialui                       | 676.5 | 27.0| " |96.78|1,018
 Setembro| 15 |Catongo                      | 677.4 | 32.6| " |96.81|1,027
 Outubro |  5 |Sioma                        |  ---  | 20.0| " |96.80|  999
    "    |  9 |Foz do rio Jco              | 679.0 | 20.0| " |96.88|  974
    "    | 16 |Quisseque                    |  ---  | 22.0| " |96.96|  952
    "    | 18 |Confluencia do Quando        |  ---  | 37.5| " |97.08|  940
    "    | 21 |Povoao de Embarira         | 681.0 | 37.4| " |96.96|  979
 Novembro| 21 |Mozi-oa-tunia                | 694.0 | 27.0| " |97.48|  795
---------+----+-----------------------------+-------+-----+---+-----+------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.
[C] Temperatura ao niv. do mar.
[D] Hypsmetro.
[E] Altitude em metros.




*Boletim Meteorolgico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich*.

Anno de 1878.

--------+----+-----+-----------+-------+---------------+-------------------
        |    |     |Thermmetro|       |               |
  Mez.  |Dia.| [A] |centgrado.|  [D]  |  Direco do  |  Estado da
        |    |     |-----+-----|       |  vento.       |  atmosphera.
        |    |     | [B] | [C] |       |               |
--------+----+-----+-----+-----+-------+---------------+-------------------
Maio    |  1 |629.8| 21.5| 18.4|  ---  |E. fraco       |Alguns cirros.
   "    |  2 |630.0| 22.7| 19.8|  ---  |E. forte       |Nublado.
   "    |  3 |630.0| 22.1| 19.1|  ---  |E. fraco       |Limpo.
   "    |  4 |629.9| 22.5| 19.4|  ---  |  "            |   "
   "    |  5 |630.0| 22.3| 19.1|  ---  |  "            |   "
   "    |  6 |630.0| 22.0| 19.3|  ---  |  "            |   "
   "    |  7 |629.7| 22.4| 19.3|  ---  |O.S.O. fraco   |   "
   "    |  8 |630.0| 22.5| 19.8|  ---  |Calma          |   "
   "    |  9 |629.2| 20.5| 16.6|  ---  |  "            |   "
   "    | 10 |629.8| 20.2| 16.4|  ---  |N.E. fraco     |Algumas nuvens.
   "    | 11 |630.0| 20.8| 16.9|  ---  |E.N.E.         |   "
   "    | 12 |630.5| 21.0| 17.5|  ---  |E.N.E. forte   |Nublado.
   "    | 13 |630.2| 20.6| 16.4|  ---  |  "            |Limpo.
   "    | 14 |630.5| 20.5| 16.7|  ---  |E.M^{to}. forte|   "
   "    | 15 |630.5| 20.3| 16.8|  ---  |  "            |   "
   "    | 16 |630.2| 21.5| 17.7|  ---  |Calma          |   "
   "    | 17 |630.6| 22.0| 18.9|  ---  |E. moderado    |Alguns cirros.
   "    | 19 |630.5| 21.9| 18.7|  ---  |  "            |Limpo.
   "    | 20 |630.6| 21.8| 18.9|  ---  |  "            |   "
   "    | 21 |630.7| 20.9| 17.6|  ---  |E. forte       |   "
   "    | 22 |630.2| 20.8| 17.9|  ---  |Calma          |   "
   "    | 28 |645.1| 22.5| 17.4|  ---  |  "            |   "
   "    | 29 |644.9| 23.1| 18.1|  ---  |E. fraco       |   "
   "    | 30 |642.7| 23.2| 18.1| + 5.3 |E.S.E.         |   "
   "    | 31 |642.1| 23.9| 18.0| + 7.0 |  "            |   "
Junho   |  1 |642.1| 23.4| 19.0| + 6.0 |Calma          |   "
   "    |  2 |642.8| 23.0| 18.8| + 5.0 |  "            |   "
   "    |  3 |643.0| 22.9| 18.1| + 2.8 |E.S.E.         |   "
   "    |  4 |643.1| 23.7| 19.2| + 5.0 |E. forte       |   "
   "    |  5 |643.0| 23.3| 19.0| + 7.0 |Calma          |   "
   "    |  6 |643.2| 25.2| 19.9| + 4.0 |E. fraco       |   "
   "    |  7 |645.1| 24.1| 19.7| + 6.0 |E.S.E.         |   "
   "    |  8 |650.0| 22.4| 18.3| + 0.2 |S. fraco       |   "
   "    |  9 |648.4| 24.5| 21.8| + 0.7 |Calma          |   "
   "    | 10 |650.6| 24.7| 21.7| + 3.0 |  "            |   "
   "    | 11 |650.5| 24.9| 21.5| + 6.0 |  "            |   "
   "    | 12 |650.6| 24.5| 21.2| + 5.0 |E.S.E.         |   "
   "    | 13 |650.1| 24.9| 21.9| + 4.0 |  "            |   "
   "    | 14 |643.1| 25.1| 18.7| + 7.0 |Calma          |   "
   "    | 15 |643.1| 24.9| 19.0| +10.0 |  "            |   "
   "    | 16 |642.8| 25.0| 19.1| + 7.0 |E.S.E.         |   "
   "    | 17 |642.8| 24.8| 19.7| + 8.0 |S. fraco       |   "
   "    | 18 |642.6| 24.8| 19.5| + 9.0 |  "            |   "
   "    | 19 |642.4| 25.1| 19.4| + 5.0 |Calma          |   "
   "    | 20 |641.6| 24.9| 19.8| + 4.0 |  "            |   "
   "    | 21 |641.2| 25.2| 18.2| + 7.0 |  "            |   "
   "    | 22 |641.0| 24.8| 17.6| + 6.0 |  "            |Ceo limpo.
   "    | 23 |646.2| 23.9| 16.1| + 5.0 |E. forte       |   "
   "    | 24 |646.0| 25.4| 15.2| + 3.0 |  "            |   "
   "    | 25 |645.8| 25.7| 15.6| + 2.7 |E. forte       |   "
   "    | 26 |645.0| 25.3| 15.0| - 0.7 |    "          |   "
   "    | 27 |644.9| 24.5| 15.2| - 1.3 |    "          |   "
   "    | 28 |643.7| 26.1| 18.7| + 1.1 |Calma          |   "
   "    | 29 |642.8| 26.7| 18.6| + 3.7 |    "          |   "
   "    | 30 |640.3| 27.2| 18.0| + 1.8 |E. fraco       |   "
Julho   |  1 |641.5| 27.1| 18.7| + 2.6 |    "          |   "
   "    |  2 |639.1| 26.7| 18.9| + 0.7 |E. forte       |   "
   "    |  3 |640.1| 24.1| 16.9| + 1.0 |    "          |   "
   "    |  4 |639.5| 23.8| 12.3| + 2.5 |    "          |   "
   "    |  5 |642.0| 23.6| 15.6|  ---  |E. fraco       |   "
   "    |  6 |643.0| 23.0| 16.5| + 0.7 |E. forte       |   "
   "    |  7 |644.0| 24.0| 17.9| - 0.1 |E. fraco       |   "
   "    |  8 |642.9| 23.7| 17.2| + 2.5 |    "          |   "
   "    |  9 |644.8| 24.5| 17.1|  ---  |E. forte       |   "
   "    | 10 |645.0| 24.9| 17.8|  ---  |E.S.E.         |   "
   "    | 11 |644.0| 25.7| 18.4|  ---  |    "          |   "
   "    | 12 |650.0| 24.3| 17.1| - 0.1 |E. fraco       |   "
   "    | 13 |651.0| 26.2| 18.5| + 0.1 |Calma          |   "
   "    | 14 |646.8| 23.1| 16.9| + 2.1 |E. fraco       |   "
   "    | 15 |651.9| 22.7| 16.5| + 2.7 |Calma          |Nuvens (cirros).
   "    | 16 |652.0| 23.1| 16.9| + 3.1 |    "          |   "
   "    | 17 |651.7| 27.4| 21.9|  ---  |    "          |Ceo coberto.
   "    | 18 |651.8| 27.6| 22.4| + 7.6 |    "          |   "
   "    | 19 |652.0| 28.4| 19.9| + 9.0 |    "          |Algumas nuvens
        |    |     |     |     |       |               | (cirros).
   "    | 20 |651.4| 29.5| 18.0| + 5.0 |    "          |Extractos e cirros.
   "    | 21 |652.2| 28.2| 17.5| + 2.0 |E. forte       |Ceo limpo.
   "    | 23 |655.9| 26.8| 15.4|  ---  |E. fraco       |   "
   "    | 24 |655.1| 27.5| 15.9|  ---  |E. forte       |   "
   "    | 26 |657.0| 28.1| 16.1| - 1.5 |S.E. forte     |   "
   "    | 27 |658.0| 30.1| 17.6| + 1.8 |    "          |   "
   "    | 28 |658.3| 30.6| 18.1| + 3.2 |    "          |   "
   "    | 29 |657.7| 31.4| 16.2| + 4.0 |N.N.E.         |   "
   "    | 30 |657.5| 30.7| 16.8| + 3.7 |Calma          |   "
   "    | 31 |657.4| 29.2| 18.9| + 8.7 |S.E. fraco     |   "
Agosto  |  1 |658.0| 29.0| 18.1| + 5.1 |Calma          |   "
   "    |  2 |657.8| 30.3| 18.1| + 1.2 |S.E. fraco     |   "
   "    |  3 |658.6| 31.5| 17.9| + 3.4 |    "          |   "
   "    |  4 |660.0| 30.2| 18.4| + 4.1 |E. forte       |   "
   "    |  5 |659.5| 30.8| 17.7| + 3.0 |E.S.E. forte   |Algumas nuvens
        |    |     |     |     |       |               | (cirros).
   "    |  6 |660.1| 30.7| 17.1| + 1.9 |    "          |Limpo.
   "    |  7 |660.2| 31.0| 16.8| + 2.1 |    "          |   "
   "    |  8 |661.6| 31.1| 17.0| + 1.5 |E. forte       |   "
   "    |  9 |658.5| 30.4| 17.3| + 2.0 |    "          |Ceo limpo.
   "    | 10 |657.0| 31.2| 14.5| + 1.0 |    "          |   "
   "    | 11 |655.2| 28.8| 13.6| + 2.9 |    "          |   "
   "    | 12 |660.0| 28.2| 14.3| + 2.3 |    "          |   "
   "    | 13 |662.6| 28.5| 14.1| + 2.3 |    "          |   "
   "    | 14 |664.1| 28.1| 14.2| + 3.0 |E. forte       |   "
   "    | 16 |667.5| 28.7| 14.4| + 2.7 |    "          |   "
   "    | 17 |668.3| 28.4| 14.5| + 3.7 |    "          |   "
   "    | 18 |668.5| 28.3| 14.9| + 3.1 |Calma          |   "
   "    | 19 |667.8| 30.0| 15.1| + 4.4 |E.N.E.         |   "
   "    | 20 |663.5| 33.2| 16.8| + 3.9 |N.N.E.         |   "
   "    | 21 |668.2| 27.4| 14.8| + 9.6 |E.N.E.         |   "
   "    | 22 |667.9| 29.3| 14.5|  ---  |E. forte       |   "
   "    | 23 |668.5| 30.5| 19.2| +14.0 |     "         |   "
   "    | 29 |668.7| 34.9| 15.7|  ---  |E.N.E. forte   |   "
   "    | 30 |668.2| 35.2| 15.6|  ---  |     "         |   "
   "    | 31 |668.9| 35.1| 16.4|  ---  |     "         |   "
Setembro|  1 |668.1| 30.7| 15.9|  ---  |     "         |   "
   "    |  2 |668.5| 29.1| 15.7|  ---  |     "         |   "
   "    |  3 |668.0| 34.8| 17.9| + 7.0 |     "         |   "
   "    |  4 |667.0| 34.8| 19.2| + 6.0 |     "         |   "
   "    |  5 |667.9| 32.1| 17.6| + 5.8 |     "         |   "
   "    |  6 |668.0| 32.7| 16.4| + 9.0 |     "         |   "
   "    |  7 |668.1| 33.0| 17.5|  ---  |     "         |   "
   "    |  8 |668.0| 33.5| 19.3| + 7.0 |     "         |   "
   "    | 10 |668.5| 32.3| 20.8| +14.0 |     "         |   "
   "    | 11 |668.3| 33.2| 19.7|  ---  |     "         |   "
   "    | 12 |668.1| 33.8| 20.4|  ---  |     "         |   "
   "    | 13 |667.7| 34.2| 18.8|  ---  |     "         |   "
   "    | 14 |667.4| 35.4| 18.1|  ---  |     "         |   "
   "    | 15 |667.3| 35.9| 17.4|  ---  |     "         |   "
   "    | 17 |667.8| 35.3| 16.8|  ---  |E. forte       |   "
   "    | 18 |666.5| 36.4| 18.7|  ---  |     "         |   "
        |    |     |     |     |       |               | Grande orvalho da
        |    |     |     |     |       |               | noute.
   "    | 19 |668.2| 34.5| 16.8|  ---  |     "         |   "      "
   "    | 20 |668.0| 32.8| 21.4|  ---  |     "         |Alguns cirros,
        |    |     |     |     |       |               | muito orvalho.
   "    | 21 |668.5| 32.3| 23.7|  ---  |E. fraco       |Nublado, cumulos.
   "    | 22 |669.0| 33.0| 19.7|  ---  |E. forte       |   "      "
   "    | 25 |666.8| 36.2| 22.1|  ---  |E.S.E.         |Cumulos, muito
        |    |     |     |     |       |               | orvalho.
   "    | 26 |667.0| 35.4| 20.1|  ---  |     "         |   "      "
   "    | 29 |666.0| 34.7| 21.8|  ---  |     "         |   "      "
   "    | 30 |665.0| 30.8| 23.0|  ---  |     "         |   "      "
Outubro |  1 |668.2| 34.2| 22.1|  ---  |E. forte       |Limpo, muito
        |    |     |     |     |       |               | orvalho.
   "    |  2 |668.2| 34.2| 23.3|  ---  |     "         |   "     "
   "    |  3 |667.8| 31.9| 23.4|  ---  |     "         |   "     "
   "    |  4 |667.6| 34.0| 24.5|  ---  |     "         |Nublado.
   "    |  5 |667.9| 33.5| 24.6|  ---  |     "         |   "
   "    |  6 |668.8| 34.1| 23.4|  ---  |E.S.E.         |   "
   "    |  7 |670.0| 35.9| 28.7|  ---  |     "         |   "
        |    |     |     |     |       |               | Grande trovada.
   "    |  8 |670.0| 34.8| 26.5|  ---  |E. fraco       |Nublado.
   "    |  9 |670.8| 37.1| 23.3|  ---  |     "         |   "
--------+----+-----+-----+-----+-------+---------------+-------------------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Seco.
[C] Molhado.
[D] Mnima aproximada.



*Estudo das Oscillaes diurnas do Barmetro, feito de 3 em 3 horas.
Catongo (Alto Zambeze). Altitude 1,027 metros.*

Anno de 1878.

---------+------+----------+----------+----------+----------+-----------
         |      | 6 horas. | 9 horas. | Meio-dia.| 3 horas. | 6 horas.
   Mez.  | Dia. +-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
         |      | [A] | [B]| [A] | [B]| [A] | [B]| [A] | [B]| [A] | [B]
---------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
Setembro |  17  |670.6|19.2|671.3|30.2|669.3|35.1|667.5|34.4|668.3|27.3
   "     |  18  |670.0|19.7|670.6|31.9|668.8|35.7|660.0|36.0|667.3|30.4
   "     |  19  |670.7|21.1|671.5|28.0|669.5|34.6|667.5|33.7|668.4|27.8
   "     |  20  |670.6|18.0|671.4|26.5|669.0|31.5|667.5|32.7|668.4|29.1
   "     |  21  |670.0|19.8|671.3|27.2|669.5|33.8|668.0|33.0|668.5|29.0
   "     |  22  |671.5|21.5|672.0|28.5|670.3|32.8|668.5|32.9|669.0|31.2
---------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.




*Estudo do Estado Hygromtrico da Atmosfera, feito de 3 em 3 horas.
Catongo (Alto Zambeze).*

Anno de 1878.

--------+----+-----------+-----------+-----------+-----------+------------
        |    | 6 horas.  | 9 horas.  | Meio-dia. | 3 horas.  | 6 horas.
        |    +-----------+-----------+-----------+-----------+------------
  Mez.  |Dia.|Thermmetro|Thermmetro|Thermmetro|Thermmetro|Thermmetro
        |    |centgrado.|centgrado.|centgrado.|centgrado.|centgrado.
        |    |-----+-----|-----+-----|-----+-----|-----+-----|-----+------
        |    | [A] | [B] | [A] | [B] | [A] | [B] | [A] | [B] | [A] | [B]
--------+----+-----+-----+-----+-----+-----+-----+-----+-----+-----+------
Setembro| 18 | 19.7| 15.0| 31.9| 16.6| 35.7| 18.1| 36.0| 15.9| 30.4| 14.2
   "    | 19 | 21.1| 10.5| 28.0| 13.4| 34.6| 15.0| 33.7| 19.2| 27.8| 15.0
   "    | 20 | 18.0| 13.9| 26.5| 18.3| 31.5| 20.5| 32.7| 22.3| 29.1| 18.5
--------+----+-----------+-----------+-----------+-----------+------------

*Legenda*:
[A] Seco.
[B] Molhado.




*Boletim Meteorolgico feito s 6 horas da manh (hora mdia do logar)*.

Anno de 1878.

---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------
         |    |       |     ||         |    |       |
   Mez.  |Dia.|  [A]  | [B] ||   Mez.  |Dia.|  [A]  | [B]
         |    |       |     ||         |    |       |
---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------
Fevereiro|  9 | 626.0 | 19.6||Julho    | 26 | 658.0 |  5.4
   "     | 10 | 628.5 | 16.0||   "     | 27 | 658.9 |  1.7
   "     | 11 | 622.5 | 21.2||   "     | 28 | 659.5 |  4.6
   "     | 12 | 623.0 | 20.4||   "     | 29 | 660.3 |  4.6
   "     | 13 | 625.0 | 20.3||   "     | 30 | 660.0 |  7.2
   "     | 14 | 622.0 | 15.8||   "     | 31 | 659.3 | 14.9
   "     | 15 | 621.0 | 16.0||Agosto   |  1 | 661.0 |  8.8
   "     | 16 | 622.3 | 16.5||   "     |  2 | 660.7 |  4.8
   "     | 17 | 622.5 | 18.8||   "     |  3 | 661.5 |  5.7
   "     | 18 | 622.5 | 20.0||   "     |  4 | 662.3 |  8.8
   "     | 19 | 620.0 | 19.5||   "     |  5 | 661.7 |  8.7
   "     | 20 | 622.0 | 20.0||   "     |  6 | 662.0 |  5.6
   "     | 21 | 622.5 | 17.2||   "     |  7 | 662.1 |  4.9
   "     | 22 | 622.0 | 20.9||   "     |  8 | 663.4 |  2.6
   "     | 23 | 621.5 | 21.2||   "     |  9 | 663.6 |  3.5
   "     | 24 | 618.5 | 17.3||   "     | 10 | 660.5 |  3.8
   "     | 25 | 615.0 | 20.2||   "     | 11 | 658.0 |  6.4
   "     | 26 | 619.0 | 18.1||   "     | 12 | 657.2 |  4.9
   "     | 27 | 621.0 | 18.0||   "     | 13 | 662.0 |  4.5
   "     | 28 | 623.0 | 19.5||   "     | 14 | 664.8 |  5.8
Maro    |  1 | 623.0 | 18.2||   "     | 15 | 666.5 |  5.9
   "     |  2 | 623.0 | 18.1||   "     | 16 | 669.2 |  6.5
   "     |  3 | 617.0 | 16.6||   "     | 17 | 670.0 |  6.9
   "     |  4 | 620.0 | 18.5||   "     | 18 | 670.2 |  9.3
   "     |  5 | 621.5 | 20.0||   "     | 19 | 670.0 |  8.5
   "     |  6 | 621.5 | 18.2||   "     | 20 | 667.0 | 10.2
   "     |  7 | 619.0 | 17.7||   "     | 21 | 666.0 |  2.2
   "     |  8 | 621.0 | 18.2||   "     | 22 | 669.4 | 18.8
   "     |  9 | 620.0 | 17.8||   "     | 23 | 669.0 | 20.0
Maio     | 28 | 645.0 | 12.6||   "     | 24 | 670.0 | 16.0
   "     | 29 | 644.8 | 14.2||   "     | 25 | 670.0 | 14.5
   "     | 30 | 642.3 |  9.4||   "     | 26 | 671.0 | 13.7
   "     | 31 | 642.0 | 10.0||   "     | 27 | 671.2 | 15.0
Junho    |  1 | 641.9 | 12.2||   "     | 28 | 672.3 | 14.0
   "     |  2 | 643.0 |  9.9||   "     | 29 | 671.0 | 15.0
   "     |  3 | 643.2 |  8.6||   "     | 30 | 671.0 | 14.8
   "     |  4 | 643.0 | 10.0||   "     | 31 | 670.6 | 12.1
   "     |  7 | 645.0 | 11.4||Setembro |  1 | 670.0 | 16.1
   "     |  8 | 649.8 |  5.8||   "     |  2 | 670.0 | 13.7
   "     |  9 | 648.5 |  5.1||   "     |  3 | 670.0 | 11.3
   "     | 10 | 651.0 |  6.5||   "     |  4 | 670.0 | 10.0
   "     | 11 | 650.8 |  9.1||   "     |  5 | 670.5 | 13.2
   "     | 13 | 650.0 |  7.1||   "     |  6 | 670.0 | 16.2
   "     | 14 | 650.0 |  8.0||   "     |  7 | 669.6 | 13.6
   "     | 15 | 643.0 | 11.2||   "     |  8 | 670.0 | 12.3
   "     | 16 | 642.9 |  9.2||   "     |  9 | 671.3 |  4.1
   "     | 17 | 643.0 | 11.5||   "     | 10 | 670.0 | 19.4
   "     | 18 | 642.9 | 11.9||   "     | 11 | 669.0 | 20.3
   "     | 19 | 642.6 |  7.4||   "     | 12 | 678.1 | 19.8
   "     | 20 | 641.2 |  6.8||   "     | 13 | 669.0 | 20.5
   "     | 21 | 641.5 |  9.1||   "     | 14 | 670.2 | 14.7
   "     | 22 | 641.5 |  9.7||   "     | 15 | 671.0 | 19.2
   "     | 23 | 641.0 |  7.9||   "     | 16 | 672.0 | 18.6
   "     | 24 | 646.9 |  4.6||   "     | 17 | 670.6 | 19.2
   "     | 25 | 646.1 |  3.6||   "     | 18 | 670.0 | 19.7
   "     | 26 | 645.2 |  1.8||   "     | 19 | 670.7 | 21.1
   "     | 27 | 645.0 |  1.9||   "     | 20 | 670.6 | 18.0
   "     | 28 | 644.0 |  2.1||   "     | 21 | 670.0 | 19.8
   "     | 29 | 644.0 |  3.6||   "     | 22 | 671.0 | 21.5
   "     | 30 | 643.0 |  4.1||   "     | 23 | 671.0 | 22.2
Julho    |  1 | 643.0 |  4.1||   "     | 24 | 670.0 | 21.7
   "     |  2 | 642.5 |  5.8||   "     | 25 | 669.0 | 15.4
   "     |  3 | 640.1 |  1.8||   "     | 26 | 668.8 | 15.7
   "     |  4 | 641.1 |  3.1||   "     | 27 | 668.8 | 12.6
   "     |  5 | 641.0 |  3.4||   "     | 28 | 669.0 | 18.0
   "     |  6 | 643.8 |  1.4||   "     | 29 | 668.6 | 21.0
   "     |  7 | 643.2 |  0.7||   "     | 30 | 669.9 | 19.2
   "     |  8 | 644.0 |  1.4||Outubro  |  1 | 668.5 | 17.1
   "     |  9 | 643.5 |  2.5||   "     |  2 | 670.0 | 18.8
   "     | 10 | 645.2 |  2.3||   "     |  3 | 670.6 | 16.1
   "     | 11 | 645.2 |  2.2||   "     |  4 | 671.0 | 12.5
   "     | 12 | 645.0 |  2.3||   "     |  5 | 671.5 | 15.7
   "     | 13 | 650.0 |  1.5||   "     |  6 | 670.0 | 16.2
   "     | 14 | 651.5 |  1.8||   "     |  7 | 672.0 | 21.8
   "     | 15 | 647.3 |  3.7||   "     |  8 | 673.5 | 23.1
   "     | 16 | 652.3 |  5.0||   "     |  9 | 673.0 | 15.3
   "     | 17 | 652.6 |  7.1||   "     | 10 | 673.0 | 19.6
   "     | 18 | 654.0 | 11.2||   "     | 12 | 672.0 | 20.7
   "     | 19 | 653.4 | 13.7||   "     | 13 | 674.0 | 22.7
   "     | 20 | 653.3 |  9.3||   "     | 14 | 676.0 | 21.8
   "     | 21 | 654.9 |  6.1||   "     | 15 | 675.0 | 19.1
   "     | 22 | 655.2 |  5.1||   "     | 16 | 674.3 | 21.7
   "     | 23 | 657.8 |  5.0||   "     | 17 | 673.0 | 21.2
   "     | 24 | 657.0 |  5.9||   "     | 18 | 676.0 | 21.2
   "     | 25 | 656.0 |  6.0||         |    |       |
---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.




SEGUNDA PARTE

A FAMILIA COILLARD.




COMO EU ATRAVESSEI FRICA.

Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.




CAPTULO I.


EM LEXUMA.

     Prso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do
     Doutor--O Po--Graves questes--Os chronmetros no
     param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doena
     grave--Receios e irresolues--Chegada do missionario--Tomo uma
     deciso--Partida de Lexuma (em Inglez, _Leshuma_).


Foi tormentosa a noute que passei em Embarira. Assaltado por milhares de
persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que me
offerecra o chefe, e ir procurar ao ar livre um refugio a to crul
tormento. Ao incmmodo produzido plo ataque dos insectos vinha
juntar-se a anciedade da ida de encontrar no dia seguinte um Europeu,
um homem desconhecido, mas com o qual eu contava ja para sahir dos
embaraos em que estava. Amanheceu finalmente o dia 19 de Outubro depois
de uma longa noute no-dormida.

As primeiras noticias que pude colher fram de que o missionario estava
a 12 ou 14 milhas d'ali, mas que do outro lado do rio Cuando vivia um
Inglez.

Pedir uma cana ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro impulso,
mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que no havia cana.

Depois de grande controversia, elle declara-me que me no deixa sahir da
sua povoao sem eu ter pago aos marinheiros uma certa poro de
fazendas.

Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem
ter communicado com o Inglez, e ter d'elle obtido fazendas para os
fazer, porque eu nenhumas tinha.

Jasse reune os marinheiros e o chefe e fala-lhes n'esse sentido, mas
nada obtem, e a recusa de me deixarem ir  outra margem do Cuando 
formal.

Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao
Inglez, e escrevi algumas palavras n'um bilhte de visita. Foi o
Verissimo o mensageiro. A m noute velada, e a febre constante
prostrram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a resposta  minha
mensagem.

Seria passada uma hora, quando appareceu diante de mim um homem branco.
A sensao que experimentei ao ver um Europu  indefinivel.

O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 annos, e
possuia um typo perfeitamente Inglez.

Barba pouca e muito loura, olhos azues, grandes e vivos, cabello cortado
rente e to louro como a barba.

Vestia uma camisa de grossa tela, cujo collarinho desabotoado deixava
ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaadas expunham  vista
uns braos musculosos, queimados plo sol Africano.

As calas de estfo ordinario estavam seguras por um forte cinto de
couro, d'onde pendia uma faca Americana.

Nos pes sbre umas meias azues de algodo grsso, uns sapatos que plas
costuras, tdas feitas por fora, logo se via serem obra d'elle msmo.

Disse-lhe quem era; expuz-lhe as minhas circunstancias, e pedi-lhe para
me ceder a fazenda de que eu precisava, a trco de marfim que eu lhe
podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar d'aquelle
encargo para escapar quella gente e ir encontrar o missionario.
Respondeu-me elle, que no tinha fazendas, que estava tambem sem
recursos, e que s mandando eu a Lexuma as poderia obter.

O seu modo de falar e a delicadeza das suas phrases mostravam-me logo,
que aquelle homem no era um ente vulgar. Elle dirigio-se ao chefe, e
convenceu-o a deixar-me ir  outra margem do rio, com a condio de que
voltaria  noute para Embarira.

Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquelle Cuando cujas
nascentes eu havia descoberto, e determinado mezes antes, chegmos a um
pequeno campo onde nos appareceu outro branco.

Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabllos brancos, que
mostravam no uma idade provecta, desmentida pla agilidade do crpo e
expresso da physionomia, mas sim a velhice prematura, producto de
longos soffrimentos e trabalhos.

Vestia como o primeiro, e s estava um pouco melhor calado.

Conversmos sobre a minha posio, e vimos que elles nada podiam fazer
por mim, porque estavam tambem sem recursos.

Fui bastante absoluto empregando a palavra _nada_, porque se no tinham
outra cousa a dar-me, tinham um soffrivel jantar, e eu tinha fome.

Depois de saciar o meu voraz appetite, combinei com elles escrever ao
missionario, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos remadres.

Expedi um portadr para Lexuma e voltei a Embarira, onde me deitei ao ar
livre, com a lembrana da noute terrivel da vspera.

Dormi a noute de um somno nico e profundo. Ao amanhecer do dia 20,
estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas para os
pagamentos das tripulaes. Paguei tudo, e obtive do chefe carregadres
sufficientes para levarem as minhas cargas e o marfim a Lexuma;
escrevendo por elles ao missionario, a quem pedi hospedagem, e a quem
pedia para pagar ali aos carregadres.

Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impellida plo remar de dous prtos,
corria por sobre as aguas do Cuando, levando a seu bordo trs homens
brancos.

A piroga velha e rachada fazia muita gua, e por isso o homem que ia na
frente descalara os sapatos que levava na mo, em quanto o da r,
acocorado, esgotava incessantemente a muita gua que colhia o fragil
batl.

O do meio, magnificamente calado  prova d'gua, contemplava distraido
o deslisar dos enormes crocodilos que fluctuavam  merc da corrente, e
pouco caso fazia da humidade da cana.

Estes trs brancos, reunidos ali, no centro d'frica, plos azares das
exploraes, eram eu, o D^{or.} Benjamin Frederick Bradshaw, explorador
zoolgico, e Alexandre Walsh, zoologista tambem, preparador de
exemplares e companheiro do doutr.

Chegados  margem direita, foi logo posta  minha disposio uma das
trs cubatas que elles tinham.

O D^{or.} Bradshaw, ptimo cozinheiro, como  habil mdico, sabio
distincto, e caador famso, foi logo preparar um almo de perdizes que
elle tinha mrto n'essa manh. O cozinheiro do doutor, um activo
Macalaca, deitado de peito no cho, contemplava a seu amo a trabalhar na
cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar.

O appetite, guardado desde a vspera, fazia dilatar as fossas nasaes ao
sentirem o cheiro delicioso que sahia em condensado vapr das caarolas
do D^{or.} Bradshaw.

[Figura 118.--Trs europos atravessram o rio.]

Os condimentos de que eu estava privado havia tantos mzes, exhalavam
aromas deliciosos ao olfato de um faminto.

A cozinha estava feita, amos para a msa, onde havia uma grande panella
de milho cozido em gro, e um alentado prato de caril de perdizes.
Tnhamos dado a primeira garfada nos pratos, quando na barraca entrou um
prto com um objecto envolvido em alva toalha de linho.

[Figura 119.--O Campo do Doutor Bradshaw.]

Vinha da parte do missionario Francez. Desdobrei a toalha, que continha
um crpo bastante pesado, e fiquei commovido diante de um enorme po de
trigo, que tinha nas mos.

Po! Po, que eu ja no via ha um anno; po, que era para mim sempre a
cada comida em que o no tinha, uma recordao saudosa; que era um sonho
constante das noutes de fome; do qual cheguei muitas vzes a ter um
desejo immoderado, e plo qual comprehendi que se possa commetter um
crime para o haver, quando privado d'elle por muito tempo.

As lgrimas viram humedecer as minhas plpebras resequidas, e creio que
foi aquella uma das mais violentas commoes que senti na minha viagem.

Esquci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com voracidade,
d'aquelle po, que saboreava com delicias nunca experimentadas em
gastronomia.

Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia
ser fatal, e que me fez tomar uma ptima chvena de cacao, em seguida 
qual um sono profundo dormido n'uma barraca, lvre do sereno da noute,
veio restaurar as fras.

Tda a minha gente e as cargas haviam partido para Lexuma, ficando
comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos.

Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais atribulados
da minha vida.

Depois de um ptimo almo de perdizes e chocolate, e quando nos
delicivamos a fumar o aromtico tabaco do Chuculumbe, chegram os
carregadres que na vspera tinham partido para Lexuma, fazendo grande
grita e dizendo, que no tinham sido pagos ali.

Admirou-me o facto, sbre tudo por o Verissimo me no ter escrito, e por
ter ido com as cargas o marfim que seria garantia a tdo o pagamento que
ali se fizesse.

Ns no tnhamos fazendas, e no sabamos que fazer diante das
exigencias dos selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados,
porque tinham levado as cargas d'ali a Lexuma, e no tinham recebido o
menor pagamento. Pouco depois, chegram o chefe de Embarira Mocumba e
Jasse, que comeram uma questo fortissima comigo e com os Inglezes,
ameando-nos e dizendo-nos as maiores insolencias.

Eu estava envergonhado e aflicto por ver os Inglezes, que tanto me
tinham obsequiado, mettidos em uma questo que me era particular, e
srem insultados por minha causa; mas impossivel me tinha sido prever um
tal acontecimento.

Depois de mil exigencias a que era impossivel satisfazer, elles com
Jasse  frente declarram que iam a Lexuma rehaver as bagagens e o
marfim, e que tomariam conta de tudo at srem pagos; partindo em
seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande tro de gente a
vigiar-nos.

Por conslho do D^{or.} Bradshaw, ns entrmos em uma das barracas e
pozmos as armas  mo, promptos a uma enrgica defsa, em caso de um
ataque provavel.

Ao cahir da tarde Mucumba comeou a fazer uma grita enorme, e chamando a
sua gente invadio as duas barracas, levando de uma d'ellas a minha mala
dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e passar  outra
margem.

Voltram a cercar a terceira barraca, em que ns estvamos, exigindo que
eu fsse com elles para Embarira. Receioso de que os meus hospedeiros se
expozessem por minha causa a um perigo eminente, queria-me entregar ao
gentio, e libertal-os de um conflicto inevitavel; quando o D^{or.}
Bradshaw me pedio que o no fizesse, e declarou-me que me no deixaria
partir, e que deveriamos resistir-lhes a tdo o trance.

Na barraca estvamos quatro homens, trs brancos e o meu Augusto,
dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa attitude que os
gentios recuram ante a ida de um ataque que seria fatal a muitos.
Depois de um conslho prolongado entre as cabas, decidram elles
abandonar o campo e passar  outra margem.

Dva-me cuidado no ver o meu muleque Catraio, que comecei a supor teria
sido feito prisioneiro, quando elle me appareceu na barraca, com o seu
riso intelligente e velhaco, trazendo na mo os meus chronmetros, que
tinha ido  outra margem buscar  minha malla, em quanto os Macalacas
nos cercavam e ameaavam. Mais uma vez Catraio impedia que os
chronmetros parassem por falta de corda.

Estvamos ss, mas muito apprehensivos, porque o doutor, que conhecia
bem os indgenas d'ali, dizia, que elles no passariam sem voltar 
carga.

Plas 9 horas da noute, chega ao campo o missionario Francez, Franois
Coillard, e sabendo tudo o que se tinha passado, afirmou-nos que os
carregadores haviam sido pagos generosamente em Lexuma, e que elle se
encarregava de fazer ouvir razo ao chefe Mucumba.

No dia immediato, logo de manh, o chefe Mucumba, Jasse e innmeras
gentes, passram o rio e viram ao nosso campo.

M^{r.} Coillard, que fala a lingua do paiz como fala Francez ou Inglez,
fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha dos
carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma, viram
dizer, que nada haviam recebido, e que tinham sido roubados.

Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na vspera, e deu muitas
satisfaes, fazendo recair a culpa sbre os seus homens que o tinham
enganado. Quando parecia que tudo corria bem e se havia harmonizado,
appareceu Jasse levantando uma nova questo.

Queria elle, que eu pagasse aos seus muleques particulares que tinham
vindo em seu servio, e com quem eu nada tinha.

Eu argumentei-lhe com o caso da tripulao de um pequeno barco que do
Quisseque vira em servio dos outros remadores, e a quem eu nada tinha
dado. Depois de um curto debate, habilmente dirigido por M^{r.}
Coillard, elle recebeu duas jardas de fazenda para cada homem, e ficou
terminada a questo.

Fomos almoar satisfeitos, julgando que estariam terminados os
incidentes desagradaveis d'aquelle dia, mas no estava escrito no livro
do destino que assim fsse.

[Figura 120.--Monsieur e Madame Coillard.]

Jasse voltou de nvo  carga com nova exigencia. Queria elle, que eu lhe
pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu ja havia pago com largueza.

Comeou nova questo, em que de nvo me prestou grande auxilio M^{r.}
Coillard; sendo preciso para a terminar, o prometter um cobertr a cada
um d'lles.

Mandou logo M^{r.} Coillard a Lexuma um portador buscar os dois
cobertres, e a fazenda que lle havia tirado da sua pacotilha, para
pagar  gente de Jasse.

Assim terminou finalmente aquella srie no interrompida de questes,
para o qu concorreu poderosamente a interveno que n'ellas tomou
M^{r.} Coillard.

Disse-me elle, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do
rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e
por isso me pedia, que fsse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me
esperava sua espsa Madame Christine Coillard; e s ento poderamos
discutir maduramente o que convinha fazer de futuro.

Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a
posio d'aquelle ponto, e fazer um certo nmero de observaes.

Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de manh sentia-me
muito mal.

O D^{or.} Bradshaw no me quiz deixar partir sem tomar algum alimento, e
por isso s as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e seu
companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e irem para
Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes aconselhavam-n-os de
evitar o contacto com aquelle gentio malvolo.

Eu parti por um calor de 40 graos centgrados, n'um terreno arenoso,
onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as fras, e mais me
arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvordo, e
elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de
marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno crrego, onde pude saciar
uma sde ardente. S duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da
tarde.

N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes
pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e
rachtica. Uma bella vegetao arbrea guarnece as montanhas que
enquadram o pequeno valle, que se estende na direco N.S. Na encosta de
E. algumas barracas agglomeradas formam o estabelecimento de um
sertanejo Inglez, M^{r.} Phillips.

Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George
Westbeech.

Ao N. das aldeas de M^{r.} Westbeech, uma forte palissada cerca um
terreno circular de 30 metros de dimetro, onde havia uma casinha de
clmo, dois _wagons_, ou carrtas de viagem, e uma barraca de campanha.
Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma emfim.

Entrei ali no recinto velado pla alta estacaria de madeira, com o crpo
extenuado plo cansao e o esprito abalado pla commoo violenta que
sentia.

Diante de mim,  porta da casinha de clmo, estavam sentadas duas damas,
bordando a cres em grossa talagara.

Ao ver aquellas damas ali, no centro d'frica, a minha commoo foi
indescriptivel.

[Figura 121.--Acampamento da familia Coillard em Lexuma.]

A recepo que me fez Madame Coillard foi aquella que faria a um filho,
se esse filho fra eu. Com uma delicadeza extrema, pz-me logo
perfeitamente  vontade, e disse-me, que ainda no tinham jantado,
porque esperavam por mim para pr-se  msa. Convidou-me a entrar na
barraca de campanha, onde uma msa coberta de fina e alva toalha
sustentava um servio modesto, contendo um jantar succulento. Defronte
de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado Mademoiselle Elise
Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e physionomia rubra de pudr,
por ver um estrangeiro desconhecido entrar to de golpe na sua vida
ntima e velada, espalhava em trno de si esse perfume de candura que
cerca e envolve a mulhr formosa aos desoito annos.

[Figura 122.--Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.]

Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e plo fim do
jantar eu comecei a provar uma sensao estranha. Aquellas damas, o
jantar, o servio, o ch, o assucar, o po, tudo enfim se me baralhava
na mente com traos mal definidos. Cheguei a no poder formular uma s
ida, e a recear, que a caba enfraquecida no podesse supportar as
impresses d'aquelle momento.

No tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que
me achei s na barraca. Ento um abalo violento sacudio tdo o meu
crpo; um soluo tolheu-me o ar na garganta, e as lgrimas saltram
ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam
de febre. Chorei e chorei muito, no me envergonho de o dizer, e creio
que aquellas lgrimas fram a minha salvao.

Se eu no tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.

Que se riam aquelles que acharem ridculas as lgrimas n'um homem; pouco
me importa o seu motejar estlido. Infeliz de quem no encontra nos
sentimentos do corao o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluo
que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratido sentida, do
que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.

Eu, por mim, no me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podr
ainda chorar em iguaes trances.

Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitao no o sei eu; mas,
muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma
cama com cuidados extremos.

A appario das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbao ao
meu esprito. Eu no sabia que dizer-lhes, e creio que s lhes dizia
disparates.

Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato
ouvido de manh em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio
no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prsa das
chamas as bagagens do missionario.

Deitei-me e creio que dormi.

Ao alvorecer da manh seguinte, as scenas da vspera desenhavam-se
confusamente na minha imaginao enfraquecida.

Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle serto longnquo.

Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu esprito
volveu de nvo a um deploravel estado de perturbao.

Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder
filho do hbito, dei corda e comparei os chronmetros, fiz as
observaes meteorolgicas, e registei tudo no meu diario.

Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco,
entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da msa para o
almo.

Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.

No posso ainda hje explicar porque produziam em mim, esprito forte,
uma tal impresso aquellas damas; mas  certo que a sua appario
produzia-me logo uma especie de delirio.

Passram dois dias que eu no sei como fram passados; no fim d'elles
succumb. A febre apossou-se de mim com violencia assustadra, e com
ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam 
minha cabeceira.

A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que
a vida estava apenas prsa por um fio a um crpo despedaado plas
fadigas e fomes da jornada, e pensei que no me levantaria mais.

N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papis, pedindo-lhe que
os fizesse chegar com segurana s mos do Governo de Portugal.

O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias
antecedentes, e empregara tda a sua sciencia mdica para me salvar.

Contudo a febre no cedia, e o estmago no supportava medicamento
algum. Decidi eu mesmo tentar um ltimo esfro, e comecei a dar
repetidas injeces hypodrmicas com fortes doses de quinino.

A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino
pla absorpo hypodrmica. O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fz-me
tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, comeram a
manifestar-se as primeiras melhoras.

Nunca estive cercado de to extremosos cuidados como ali.

As melhoras continuram rpidas no dia seguinte, em que ja me pude
levantar um pouco. Pareceu-me perceber que no sobejavam muito os
vveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada
seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui
chamar os meus prtos.

Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me
na floresta, sem que alguem desse f da minha escpula. Pla tarde
voltei com os meus homens curvados ao pso da caa que tinha mrto.
Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o
campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha
em familia.

Como em todas as minhas doenas graves, no tive convalescena, e a
minha forte organizao fz-me passar do estado valetudinario ao
perfeito estado de saude, em transio rpida.

Com a robustez do crpo veio o socgo do esprito, e s ento pude
encarar reflectidamente a posio em que o destino me collocara. Pla
conversao repetida com Madame Coillard, pude perceber que no
sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em
fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips dram subido e
exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard s via um meio de
sahirmos do apuro em que estvamos, e sse era, o de nos no separarmos,
por no ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham.

Contudo, espervamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar
uma resoluo definitiva.

A ida de ficar com elles aterrava-me.

Havia ali uma formosa criana, que impressionava a cada momento a minha
imaginao ardente de Portuguez.

Ser-me-hia possivel, n'um viver to ntimo, n'um isolamento to grande,
impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado
n'um lampejo de delirio, fssem offender a casta menina, descuidosa na
sua innocencia cndida?

Tremia por mim e por ella.

Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo at  volta do missionario, e
calcular bem at que ponto eu seria capaz de ser honrado.

Passei trs dias atribulados no estudo que fazia do meu esprito.
Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criana? De certo no; e a
lembrana sempre viva de uma espsa idolatrada, era segura garantia aos
meus sentimentos.

Mas, se o corao estava defendido, no o estava a imaginao frvida, e
podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma
infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rsto d'aquella em
cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.

lm d'isso, o meu devr era ainda maior. Era preciso evitar a tdo o
custo, que a fama das prosas que os meus de mim apregoavam; que a
posio, um pouco romntica, em que eu me achava entre aquella familia;
no fssem impressionar a novl imaginao dos desoito annos de uma
mulhr.

Poderia eu sustentar durante mezes o papl de uma reserva absoluta, na
grande intimidade da vida que ia levar?

Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde sse dia tracei a minha
conduta futura, de que no arredei um s passo.

Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhr, que
soube ler no meu ntimo com essa fina perspicacia que s ellas possuem
para ler nos arcanos da alma os mais recnditos sentimentos; e no
hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na
vspera da nossa separao, ella escreveu no meu diario um versculo do
Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento.

Estava resolvido a ficar com elles, quando ms novas chegram do
Quisseque.

M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espsa, o
boato do incendio a que ja me referi.

Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fra prsa das chamas,
e isso vinha ainda complicar a situao, diminuindo o seu haver.

lm d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espsa do
missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e
de quem ja falei, fra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e
estava em perigo.

Madame Coillard muito affeioada quelle Catechista, que fra outrora
seu servidor, ficou desde sse momento em cuidados extremos.

Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio
augmentar a tristeza que reinava no acampamento de _Leshuma_. Eliazar
estava peior e receiava-se que no podesse salvar-se.

No dia 7, eu tinha ficado levantado at tarde da noute, por ter a fazer
observaes astronmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa
cujo assumpto era o missionario e a doena de Eliazar.

Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu
marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e
tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozmos-nos a
caminho de Embarira.

A um kilmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas,
preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgram ser
engano, porque ainda um kilmetro lm ninguem encontrmos. Contudo, eu
sabia no me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e s
perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado at mim. Sem isso no
teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras,
e onde me sentia pouco  vontade pla responsabilidade que tomava.

Pelas onze e meia, o rumor que por vzes percebi tornou-se distincto
para os meus ouvidos, e no duvidei affirmar que gente calada caminhava
no trilho que seguamos. Pouco depois alguns vultos aparecram na
sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou trs prtos, estava
diante de ns.

Madame Coillard procurava em vo alguem junto de seu marido. Esse alguem
faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma
lio estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da
morte.

Voltmos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.

No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu
previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, no me podia
dar o sufficiente para eu fazer a viagem at ao Zumbo.

Discutmos largamente todos os alvitres, e a nica possibilidade de
xito era no nos separarmos e seguirmos juntos at ao Bamanguato, onde
eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir,
porque lm de no srem fartos os meios para uma espera qualqur,
Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiis
servidres tinham sido abertas ali.

Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou
combinado que elle me esperaria at ao regresso, o que importava uma
demora de 12 a 15 dias.

Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame
Coillard, com maternal sollicitude, comeou logo a tratar dos meus
aprestes de viagem.

No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre ns, e sobreveio-me um
accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de
tempo e de doena continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o
projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.

No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissimo tinha peiorado, sendo
necessario renunciar  partida ainda n'esse dia.

Ento o missionario propoz-me seguirmos todos a 13 para o kraal de
Guejuma, e d'ali seguir eu ao destino projectado.

Effectivamente, s 10^{h.} e 20^{m.} da noute de 13, deixmos o campo de
_Leshuma_. Era difficil o jornadear por entre a floresta com os pesados
_wagons_. A cada passo um tronco de rvore ou um pendo travava as
rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto,
usando da sua fora athltica, fazia verdadeiros prodgios.

S s 6 horas da tarde do dia 15 podmos alcanar o kraal de Guejuma,
tendo jornadeado noute e dia apenas com pequenos descanos, para os bois
pastarem e ns repousarmos. No ha gua entre estes dous pontos, e ainda
que tnhamos uma escaa proviso para ns, os pobres bis passram trs
dias sem beber. Por isso, logo que chegmos a Guejuma, lles faziam
esforos inauditos para se libertarem dos jugos e correrem s lagas de
pssima agua, que abastecem aquelle kraal, estabelecido plos sertanejos
Inglezes para repousar e trem os gados, que no podem guardar em
_Leshuma_ por haver ali a terrivel msca z-z.

O nosso caminho fi por uma planicie arenosa e hmida, onde os _wagons_
se enterravam dando grande canceira aos bis.

Apesar do mao estado da minha sade, determinei seguir no dia immediato
para as cataractas, e Madame Coillard no deixou um momento de se
occupar das minhas provises de viagem.

No me foi possivel encontrar um guia, mas apesar d'isso, no vacillei
um instante em partir.




CAPTULO II.


MOZIOATUNIA.

     Viagem s cataractas--Tempestades--A grande cataracta do
     Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}
     Gabriel Mayer--Tmulos de Europos--Chgo a Deica--A familia
     Coillard.


Logo na manh do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco
trabalho tive, porque Madame Coillard ja tinha preparado a parte mais
importante d'elles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar
a impossibilidade de levar tudo o que ella queria que eu levasse, pois
que no tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e
Camutombo.

Comigo deveria partir toda a minha gente que eu no quiz deixar em
Guejuma, receioso de que algum fizesse disparte na minha ausencia.
Ficram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Cra e o meu
papagaio Calungo.

Para a frica no serve muito o rifo Europu que diz, "quem tem bca
vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e  elle, que
"quem tem bssola vai a toda a parte."

Monsieur e Madame Coillard estavam verdadeiramente afflictos por me
verem partir sem guia e a pe. Mal sabiam elles quanto me era socia a
floresta Africana e como eu sabia andar n'ella.

Outro motivo de afflico para elles era, a dvida em que estavam de que
me no viesse a faltar gua no caminho, por eu no ter meio de conduzir
nenhuma, e ser o paiz em extremo sco. Tranquillisei-os como pude,
assegurando-lhes, que no contava morrer de sde.

Como eu devsse demorar-me de 12 a 15 dias n'aquella excurso, ficou
combinado, que elles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir
encontral-os.

Finalmente, depois de mil demonstraes da mais afectuosa amizade, parti
s 10 horas, sendo acompanhado durante um kilmetro por M^{r.} e Madame
Coillard, que ento se despedram de mim, e voltram ao kraal.

Segui sempre ao Norte na planicie, e uma hora depois encontrei uma
emmaranhada floresta, em que me embrenhei, para no alterar o meu rumo.
Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena
laga de gua cristalina, e parei junto d'ella para deixar passar as
horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longinqua fuzilava ao
norte, deixando mal ouvir o rebombar dos troves.

Deixei aquelle ponto s 2 horas, a tempo que se formavam em tdas as
direces trovoadas ameaadoras. s 4 horas, encontrei um trilho de caa
muito seguido de frsco, e indo por elle  descoberta, fui dar a um
grande charco lodso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e
tratmos de construir abrigos contra a chuva que ameaava cahir em
abundancia.

Os pedmetros annunciavam a marcha de nove milhas geogrphicas.

Na manh seguinte, parti s 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas,
interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte
chuveiro que cahio pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de
uma laga que d nascensa a um riacho correndo a E.S.E.

Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha s 3 horas,
porque os meus ja no podiam dar um passo, tendo os ps despedaados,
pla pedra mida e slta que encontrvamos desde a 1 hora, no terreno ja
bastante accidentado.

Eu msmo, doente e fraco, ja no podia soportar as grandes marchas que
antes fazia.

Durante a ltima parte da marcha atravessei trs pequenos riachos, que
correm a S.E. em leitos baslticos.

As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetao arbrea, correm
tambem a S.E., e no apresentam elevaes, acima dos valles, maiores do
que 50 metros.

Acampei junto a um pequeno depsito de guas pluviaes.

Na manh seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregso e
accidentado. Atravessei florestas muito espssas, mas onde se no
encontram os gigantes vegetaes peculiares  flora intertropical.

Ainda n'essa manh passei dois crregos correndo a S.E.

Desde a vspera caminhava eu em terreno de formao vulcnica. Passou
por ali uma revoluo enorme, que deixou profundamente assignalada a sua
passagem com traos indeleveis, em gigantscas obras de basalto.

No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os
seus raios sbre a pedra cr de fgo, faz parecer, que ainda ali correm
ondas de lava.

Eu achava-me em ba sade, mas os meus difficilmente podiam caminhar
descalos, por sbre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro
horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir
abrigos para nos acolhermos de uma tempestade imminente.

O sitio do meu acampamento era lindissimo. Um ribeiro d'gua cristalina
correndo ao N., ficva-me por oeste. Um cmoro coberto de frondoso
arvordo embelezava a leste a paizagem.

No limitado valle, rvores enormes de muito differentes propores das
que at ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas
barracas.

Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo
de mil longinquos troves. Era Mozioatunia no seu bramir eterno.

Sahi a caar e encontrei profuso de francolins, de que fiz ba
proviso.

Matei tambem uma lebre, muito differente das da Europa nas cres do
pello, menor em tamanho, mas igual em frmas. Tornva-se muito
distincta, por ter o drso e as orlhas quasi prtas, e o ventre e
caba de um amarello d'chre muito carregado, e pintado de manchas
ngras.

De volta da caa, observei no meu campo um caso muito singular.

Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado
de cobrirem o seu caminho, ja nas rvores ja na terra. Passei uma ptima
noute, depois de um bom jantar de perdizes.

No dia immediato, logo  sahida, passei um pequeno ribeiro que corre a
N.O., e depois de se juntar quelle em cuja margem acampei, corre como
elle ao N. Segui sempre o curso d'esse ribeiro n'um valle pedregoso e
rido, e depois de trs horas de marcha parei, para descanar e comer o
resto das perdizes mortas na vspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora
depois, tive de parar.

Muitas trovoadas, que desde manh fusilavam perto do horizonte em todas
as direces, subram aos ares e viram estacionar sbre mim. Uma chuva
torrencial cahia, ou antes batia, sobre ns, tocada por um vento rijo de
N.N.E. Os nimbus espssos e ngros, pairavam perto da terra e despediam
das suas entranhas carregadas de electricidade, torrentes d'gua e
torrentes de fgo.

[Mappa de Mozioatunia]

Como eu disse, o sitio em que caminhava era um valle profundo despovoado
de rvores. Montculos de rocha terminados por vrtices ponteagudos,
atrahiam o raio que os abrasava com o seu fgo potente. Uma fasca veio
esmigalhar um pendo a pouca distancia de mim.

Era um espectculo tremendo e horroroso. Vi ali pla primeira vez o raio
dividir-se. Uma fazca separou-se prxima da terra em cinco, que
partram quasi horizontalmente a ferir cinco pontos differentes; algumas
vi separarem-se em quatro, em duas, e trs, quasi tdas.

Ziguezagues de fgo cruzavam os ares em todas as direces, e abrasavam
a atmosphera.  preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertes da
frica Austral, para bem se fazer ida do que seja uma tempestade
medonha.

A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em gua,
estava tranzida de frio e mdo. Eu gracejava com elles e procurava
animal-os, mostrando uma tranquillidade que estava mui longe de ser
verdadeira.

Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi
diminuindo de intensidade, e eu pude pr-me a caminho s 2 horas e meia.

s trs horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que no se
demorou muito em passar.

Pelas 5 horas passava em frente da grande cataracta e acampava a
montante d'ella, aproveitando umas barracas que ali encontrei e
reconstru.

Durante a noute uma nova tormenta cahio sbre o meu campo, e muitas
rvores fram derrubadas plo raio. A chuva torrencial inundou as
barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade
at s 4 horas da manh, hora a que cessou quasi de repente.

Foi aquella uma noute crul. Ali ja ao estampido dos troves se juntava
o bramir da cataracta, e era qual produziria sons mais roucos e
medonhos.

O dia amanheceu chuvoso, e at s 9 horas foi impossivel sahir das
barracas.

A essa hora rasgou-se o ceo nublado, e o sol veio illuminar a esplndida
paizagem. Contudo era difficil caminhar n'um terreno encharcadissimo e
lodso.

Uma forte apprehenso me perturbava o esprito. A chuva da noute
estragava o po e mais provises dadas por Madame Coillard. Os
mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas no podiam ir mais lm.
Eu tinha contado com dois recursos, a caa e os Macalacas da outra
margem, que me venderiam massango.

Era porem impossivel caar por tal tempo, e os Macalacas que passram o
rio pediam taes exorbitancias por pequenos pratos de massango, que me
no era dado adquiril-os.

Ao meio-dia cheguei  extremidade oeste da grande cataracta. O Zambeze
duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E.,
direco que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita.

_Mozi-oa-tunia_, ou _Mezi-oa-tuna_? No sei, e ninguem o sabe. No paiz
uns dizem um nome, outros o outro.

Antes que os Macololos tivessem invadido o paiz ao norte do Zambeze, os
Macalacas chamavam _Chongue_  grande cataracta.

Viram os Macololos e pozram-lhe um nome da lngua Sesuto que elles
falavam.

Os Macololos desapparecram e o nome ficou, como ficou aos povos
conquistados a lngua dos invasores.

Um pouco corrompido,  verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto  a
lngua official do Alto Zambeze.

_Mezi-oa-tuna_ quer dizer em Sesuto "a gua enorme," e ainda que a
phrase para um pouco disparatada, esta composio  vulgar entre as
linguas brbaras da frica Austral, para exprimir uma ida, que a
pobrza das lnguas s poderia exprimir por uma longa phrase. Assim
pois, pode bem ser que seja _Mezi-oa-tuna_, o nome posto pelos Macololos
 grande cataracta.

[Figura 123.--Mozioatunia. A queda de oeste.]

Eu contudo inclino-me  opinio de Madame Coillard, que conhece a fundo
a lngua Sesuto, de que seja _Mozi-oa-tunia_, o nome dado outrra pelos
guerreiros de Chebitano  maravilha do Zambeze.

Effectivamente, _Mezi-oa-tuna_ era uma phrase nova, uma composio de
palavras feita expressamente, ao passo que _Mozi-oa-tunia_  uma phrase
ja feita, quotidiana, vulgar na lngua dos Basutos. Quando o marido
volta a casa e pergunta  mulhr se a comida est ao fgo, ella
responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois  mais de
supor que fsse este ltimo o nome dado pelos estrangeiros  cataracta,
por ser phrase vulgar entre elles, e ser bem apropriada  ida.

Mozi-oa-tunia no  mais do que uma longa cova, um sulco gigantsco,
aquillo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e
immenso, onde Zambeze se precipita n'uma extenso de mil e oitocentos
metros.

O corte das rochas baslticas que formam o paredo norte do abismo, 
perfeitamente traado na direco E.O., e tem uma extenso de mil e
oitocentos metros.

Parallelo a elle, outro enorme paredo basltico distanciado na parte
superior, ao mesmo nivel, de cem metros, forma o outro muro do abismo.
Os pes d'estas moles enormes de basalto ngro, formam um canal por onde
o rio corre depois de se despenhar, canal que  de certo muito mais
estreito do que a abertura superior, mas cuja largura  impossivel
medir.

No paredo do sul, proximamente a trs quintas-partes d'elle, a frica
foi rasgada por outra fenda gigantsca perpendicular  primeira; fenda
que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois plo sul a leste, vai
conduzindo em caprichso ziguezague o rio, que ella la no fundo aperta
em estreito abrao de rochdos.

Na cataracta o grande paredo do norte onde o rio se despenha  em
partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliencias e
escabrosidades das rochas.

Uma enorme convulso vulcnica fendeu ali a terra, e produzio aquelle
abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo.
De certo o trabalho potente da gua ja modificou muito a superficie das
rochas, mas no  difficil ao lho observador, o perceber bem, que
aquellas escarpas profundas, distanciadas hje, fram despegadas umas
das outras.

O Zambeze, encontrando no seu caminho aquella voragem, absma-se n'ella
em trs cataractas grandiosas, porque duas ilhas, que occupam dois
grandes espaos no paredo do norte, o dividem em trs ramos.

A primeira cataracta  formada por um brao que passa ao sul da primeira
ilha, ilha que occupa no rectngulo que desenha a forma superior da
fenda, o extremo oeste.

Este brao precipita-se por isso no pequeno lado oeste do rectngulo.

Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, cahindo em uma
bacia d'onde a gua vai procurar o fundo do abismo e unir-se s outras
em rpidos e cascatas quasi invisiveis pla espssa nuvem de vapr que
envolve tudo l em baixo.

A ilha que separa aquelle brao do rio  coberta de vegetao frondosa,
vegetao que se estende at ao ponto onde a gua se despenha,
produzindo uma paizagem sorprendente.

 esta a menor das quedas, mas  a mais bella, ou antes a nica que 
bella, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia  horrivel. Aquella voragem
enorme, ngra como  ngro o basalto que a forma, escura como  escura a
nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fsse conhecida nos tempos
bblicos, para imagem do inferno, inferno d'gua e trevas, mais terrivel
talvez que o inferno de fgo e luz.

Para augmentar o sentimento de horror que se experimenta diante
d'aquelle prodigio, at  preciso arriscar a vida para a poder ver.
Vel-a! impossivel; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver.

s vezes, l no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas
confusas, semelhando ruinas medonhas.

Sam pontas de rochdos de enorme altura, onde a gua, que os aouta,
partindo-se em glbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente
alimentada tem de pairar sobre o rochdo em que se formou, em quanto a
gua cahir e o rochdo se erguer ali.

Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-iris, concntrico a
outro mais desvanecido, vi eu por vzes, ao ondular da bruma,
desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos
miranetes de uma cathedral phantstica, que a um lado lanava aos ares
uma frecha de enorme altura.

Continuando a examinar a cataracta, vemos o como do paredo N. logo em
seguida  queda de oeste, ser occupado em uma exteno de duzentos
metros por uma ilha, aquella de que ja falei, que separa o brao do rio
que vai formar a primeira queda. Ali  o nico ponto em que se v tdo o
paredo, porque n'aquella extenso de duzentos metros o vapor no chga
completamente a encobrir o fundo.

Foi n'esse ponto onde eu fiz as primeiras medies, e por meio de dois
tringulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para
altura vertical do paredo.

Esta altura vertical  superior mais a leste, porque o fundo do sulco
desce at ao corte que encana o rio ao sul. N'esse ponto tambem obtive
elementos para medir a altura.

Nas primeiras medies eu tinha por base o lado 100 metros, achado para
largura superior do sulco, mas era preciso ver o p do paredo, e tive
de arriscar a vida para isso.

Tirei os pannos ao meu Augusto e ao meu muleque Catraio e amarrei-os.
Estes pannos de zuarte pintado e ja muito usados, no me offereciam uma
grande segurana, mas no tinha outro meio de me suspender no abismo.
Passei o fragil amparo em volta do peito, para me ficarem as mos
livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as
extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoao das quedas. Elles
tremiam com mdo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a
medir o ngulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar
sbre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadlo horrivel.

Li no nonio 50 10', e logo que registei a medida, comecei a
horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o
querer apresentar com a maior aproximao a altura da cataracta, acabava
de me fazer commetter a maior imprudencia que commetti em tda a viagem.

Medir e triangular ali  difficilimo, e comea por faltar terreno onde
se possa medir uma base com algum rigor.

Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme.

S posso suppor que os tringulos feitos plo D^{or.} Livingstone da
ilha do Jardim, fram resolvidos s com os ngulos; porque lados no
podia d'aquelle ponto medir nenhum. Pena  que no ficasse a frmula. A
medio da altura com um cordl e uma pedra atada na ponta, acho-a
tambem extraordinaria; porque as escabrosidades da rocha deveriam soster
o prumo, e lm d'isso, da ilha do Jardim apenas se v, na voragem
profunda, uma espssa nuvem que tudo encobre, sendo impossivel divisar
nada l em baixo, ainda que o Doutor atasse  pedra tda uma pea de
algodo branco, em logar de um farrapo de 60 centmetros, como elle diz
que fez. Fsse como fsse, elle foi mais feliz e mais esperto do que eu,
que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais
recursos.

[Figura 124.--Mozioatunia. Maneira pouco cmmoda de medir ngulos.]

Em seguida  primeira ilha onde fiz as medies, vem a parte principal
da cataracta, e  ella comprehendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali
 que a maior poro d'gua se despenha n'uma compacta massa de
quatrocentos metros de extenso, e ali  que o abismo atinge tda a sua
profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de
face sbre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de
quedas, que occupam tdo o espao entre a ilha do Jardim e a extremidade
leste do paredo. Esta terceira queda deve ser a mais importante no
tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as
guas frem cobertas, e no existir mais do que uma nica e enorme
cataracta.

A gua que cae das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da
ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e
encontrando-se, unem-se em choque immenso, e voltam ao sul n'um referver
medonho, correndo rpidas no fundo do abismo, em canal pedregso, que as
entala nos seus caprichosos ziguezagues.

No ponto onde as guas, ja em um canal nico, se dirigem ao sul, fiz uma
experiencia que narrarei em captulo separado d'este, e que me permittio
obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. No
me foi possivel fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a
menos de se ir expressamente preparado para estudar a cataracta; e creio
que para isso ser possivel inventar algums meios apropriados para
trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapr denso
que nada deixa ver.

[Figura 125.--O Rio depois da Cataracta.]

Ilhas, bordas da cataracta, rochdos msmos, tudo  coberto de uma
vegetao esplndida, mas de um verde-ngro triste e montono, embora um
ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro,
fazendo sobressahir as suas palmas elegantes s copas dos arvordos que
as cercam.

Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola
como que uma trovoada sem fim.

Mozia-oa-tunia no se pode desenhar, e excepto a sua extremidade oeste,
tudo ali  nuvem de vapr, que encobre uma paizagem medonha.

No  dado visitar esta sobrba maravilha sem que um sentimento de
terror e de tristeza se aposse de ns.

Que differena entre a cataracta de Gonha e Mozi-oa-tunia!

Em Gonha tudo  risonho e bello; ali tudo  soturno e triste!

Ambas sam attrahentes, ambas sam verdadeiramente grandiosas; mas Gonha 
attrahente e bella como a virgem formosa coroada das flores da
innocencia, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas
pelas auras perfumadas da manh de estio: Mozi-oa-tunia  grandiosa e
imponente como o salteador requeimado plo sol de vero e plo glo do
inverno, o trabuco na mo, o crime na ida, entre os fragudos da serra,
por noite escura e triste.

Gonha  bella como a manh bonanosa da primavera; Mozi-oa-tunia 
imponente como a noute tempestuosa do inverno.

Gonha  bella como o primeiro sorrir da criana nos braos da me;
Mozi-oa-tunia  imponente como o ltimo arquejar do ancio nos braos da
morte.

Gonha  o bello na sua mais sublime expresso da formosura;
Mozia-oa-tunia  o bello na sua mais expressiva revelao da grandeza e
magestade.

Depois da contemplao da mais prodigiosa maravilha natural do
continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado plo
que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto.
N'essa noute fui assaltado por nuvem de mosquitos, que no me deixram
um momento de repouso.

Logo de manh, parti para a cataracta, que visitei de nvo, concluindo
os trabalhos comeados na vspera, e que me entretivram o dia tdo. De
volta ao campo, apparecram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me
quatro jardas de fazenda por um prato d'elle, que no continha meio
litro de gro.[6]

Ainda que muito necessitado de adquirir vveres, no quiz abrir um tal
exemplo, e recusei comprar.

Ento o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga no se comia, que
eu teria fome, e ento lhe daria tudo o que elle quizesse por um prato
de comida.

Fui-lhe dando logo dois pontaps. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que
eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posio era crtica.
Tnhamos apenas comida para dois dias, e no lograriamos alcanar Deica
antes de seis.

Era impossivel partir sem ter feito provises de mantimentos.

No esperando ja obter nada dos Macalacas, fui caar apesar do mao
tempo.

Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava s
barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe
das povoaes das quedas, que pla primeira vez eu via, e me vinha
visitar.

Com elle vinham muitos prtos, que fram ajudar a conduzir a malanca que
eu havia mrto. Uma to importante pea de caa fez logo diminuir no
mercado o pro dos vveres. O chefe foi  sua povoao d'onde trouxe
quantidade de mantimentos e duas gallinhas, pedindo-me por tudo a pelle
da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e no querendo fazer
questes, aceitei o contracto, e elle retirou-se satisfeito.

L foi o meu cobertor! socio de tantas noutes mal dormidas n'aquelles
sertes Africanos.

Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas msmas barracas que
tinha construido na tarde do dia 18.

No dia immediato deixei o caminho que seguira at ali quando demandava a
cataracta, e endireitei ao sul. No me tinha sido difficil encontrar a
grande cataracta do Zambeze que de longe se annuncia; mas encontrar um
ponto que no existe nas cartas e cuja posio eu tinha calculado por
informaes vagas, no me era facil.

N'um paiz como aquelle, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto
do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar d'elle conta. Contudo, pelos
meus clculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu
endireitei para la, dispsto a no alterar aquelle rumo por nenhum
motivo que fsse.

Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um crrego em
sitio medonho. Nem uma rvore, nem uma herva. S penedias ngras
formavam a paizagem, escurecida ainda por um ceo carregado de pesados
nimbus.

Um silencio profundo reinava n'aquelle pequeno valle da tristeza.

No caminho d'sse dia encontrei alguns lees, que evitei com cautela.

Vem a propsito falar aqui de certa mania louca que ataca quasi sempre o
explorador novio.  tal o seu enthusiasmo por afrontar os perigos, que
chga a creal-os onde elles no existem.

A frica offerece cada dia, a cada passo, taes estrvos ao viajante,
taes perigos ao caminheiro, que sam elles de sobra para fazer abortar a
maior parte das expedies que tentam devassar os seus segrdos.

A prudencia deve ser o guia de tdas as aces do exploradr; o que no
quer dizer, que ella mesma no aconslhe, em outra dada circunstancia,
um excesso de temeridade, quando essa temeridade fr precisa  salvao
commum.

Uma das maiores loucuras em frica  caar feras. A plvora vale no
serto tanto como o ouro, e o tiro dado em uma fera  um tiro
desperdiado,  o resultado de uma expedio arriscado,  s vzes a
salvao de tda uma caravana, que ser perdida sem chefe, posta na
balana do acaso, unicamente por satisfao de uma vaidade pessoal.

Em quasi tda a minha viagem, obrigado a caar para viver, tive muitas
vzes de affrontar as feras; o que no me teria acontecido se, dispondo
de recursos sufficientes, me podesse ter dispensado da caa. Uma fera
morta em defensa propria e em encontro fortuto,  um obstculo
destruido; um leo procurado e mrto por o exploradr gegrapho  um
obstculo creado,  uma imprudencia commettida,  e deve ser um remrso
na sua existencia.

Eu commetti algumas faltas d'essas, e sempre depois tive o
arrependimento sincero.

Hje se voltasse  frica em viagem de explorao ou encarregado de
outra qualquer misso importante, no arriscaria o fim principal, para
me dar um prazer que  fumo, porque apenas vem um momento lisongear o
amor-proprio.

Ja pensava assim, quando de volta da cataracta evitava os lees, que
fugiam de mim como eu fugia d'elles.

No havia lenha perto do sitio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi
procural-a longe. Trouxe alguns troncos de rvores scos, que, ao
partir, deixavam apparecer nas rachas escorpies enormes. No caminho
mesmo, e ainda ali, haviam innmeros dos repugnantes articulados.

N'esse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sbre ns, e
durante duas horas despejou copiosa chuva.

Durante a noute, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incommodou,
tendo por abrigos, como tnhamos, apenas um ceo nebuloso. A 24 de
Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difficil.

As montanhas corriam a S.E. e por isso ns subamos e decamos
continuamente, em terreno pedregoso, e rido. Depois de cinco horas de
fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei.

Subindo a um outeiro que me ficava prximo, avistei ao sul uma planicie
enorme, onde no pude divisar os menores signaes de gua, por mais que a
perscrutei com o meu culo potente.

Receei muito que me faltasse a gua d'ali em diante.  verdade que
n'aquelle paiz abunda o _Mucuri_, e onde elle existe no se morre 
sde. O _Mucuri_  um grande auxilio do viajante nas florestas
ressequidas da frica Austral.  elle um arbusto de 60 a 80 centmetros
de altura, que produz na extremidade das suas radculas, uns tubrculos
esponjosos, ensopados de um lquido inspido que sacia a sde.

No  facil porem encontrar os tubrculos logo que se encontra a planta.

Crescem lles nas pontas de pequenas radculas que, irradiando das
raizes principaes, vam muito longe do caule alimentar e desenvolver
aquellas excrescencias extraordinarias. O melhor meio de os encontrar 
o empregado plo gentio Africano, de se collocarem junto  planta e ir
descrevendo crculos concntricos a passos lentos, batendo o terreno com
um pao. Onde a terra d um som co e surdo ahi estam os tubrculos, que
t[~e]m de 10 a 20 centmetros de dimetro e affectam a forma
prximamente esphrica. Fiz ba proviso d'elles no dia immediato antes
de deixar o sitio em que passei uma pssima noute.

Sustentei marcha de sete horas, ja em planicie coberta de rvordo e
altas gramneas. De gua nem signaes.

Pla tarde parmos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando
sbre a minha caba, na rvore a que estava encostado, ouvi o arrullar
das rlas Africanas.

A gua devia estar perto, porque aquella era a hora das avezinhas
bebrem, e sem bebedouros prximos as rlas no estariam ali. A rla em
frica  indicio de haver gua perto do sitio onde se mostra de manh e
 tarde, porque aquella ave no passa sem beber duas vzes ao dia.

Mandei logo Verissimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois
voltava Verissimo tendo encontrado uma pequena nascente um kilmetro ao
N.O.

Fui acampar ali ja por noute escura.

Plos mus clculos no dia immediato deveramos chegar a Patamatenga.

Amanheceu o dia 26 de Novembro, e puz-me em marcha. Logo  sahida do
ponto em que acampei, encontrei uma espssa mata que me levou 20 minutos
a transpr.

Ao sahir d'ella, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra,
e lm d'elle um kraal magnficamente construido, mostrou-me, por sbre
a sua forte palissada o tecto ponteagudo de muitas casas.

Eu tinha drmido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma
pssima noute ao relento, quando poderia ter dormido em ptima cama e no
conchgo de uma bem construida casa.

Um Inglez, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao
kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. s
onze horas ja eu tinha comido no sei quantas vzes, e lle veio
annunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um ptimo
cosinheiro Europu. No consentio que eu seguisse para Deica, sendo o
seu argumento, que deveria passar o dia com elle, porque o devia passar.

Escrevi um bilhete a M^{r.} Coillard, a participar-lhe que estava de ba
sade, e que chegaria a Deica no dia immediato.

O Inglez, logo que vio a minha resoluo em ficar, mandou matar o seu
melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e elle
comeou a fazer barbaridades. Destruio um batatal nvo, s para tirar
umas seis batatas.

Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali haviam.

No pude impedir aquelle furor de destruio para me dar a comer de tudo
quanto tinha, e at creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse em
sua casa. O quintal era magnfico e muito bem tratado, mas n'aquella
pocha do anno pouco podia offerecer. Ainda assim o meu Inglez voltou
triumphante com seis batatas, dezaseis tomates, alguns pimentos e muitas
cebollinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. Jantar!... Eu
no sei que nome deverei dar quella comida! Pelo nmero devia ser muito
mais do que ceia, pla hora menos do que _lunch_!

Pude soster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir
com elle dar um passeio nos arredores do kraal.

Encontrmos no caminho cinco montculos de pedras que marcam as
sepulturas de cinco Europos, adormecidos ali para sempre, e deitados ao
lado uns dos outros  sombra do arvordo, n'essa mesma terra que lhes
infiltrou no organismo, plo ar que deu a respirar, o veneno que lhes
deveria cortar as existencias, com prematuro passamento.

Quantos tmulos como aquelles no t[~e]m um logar incerto, no meio
d'sse continente enorme, e no escondem o segrdo da sepultura de
homens, que deixram longe affeies e ternuras, que nem podem ter o
amargo prazer de derramar uma lgrima sbre a terra que occulta um ente
estremecido!

Os cinco tmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens
cujos nmes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar d'elles, ter
ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre.

O primeiro tmulo encerra Jolly, mrto em 1875; o segundo Frank Cowley,
o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o
quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do anno de 1878,
morreu tambem ali perto o Sueco Oswald Bagger, que est enterrado em
Lexuma.

[Figura 126.--Os Tumulos em Patamatenga.]

Depois de visitar aquelle cemiterio improvisado no meio do serto
longnquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer
vrias ceias.

Na conversao com Gabriel Mayer, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar
qualquer episdio passado da minha viagem em que figurasse a falta de
vveres, porque ao ouvir taes narrativas, o bom Inglez entrava em furor
e mandava logo pr a msa, msa que ja me mettia tanto mdo como por
vzes me tinha mettido a fome.

No dia seguinte, depois de ter almoado duas vzes, antes das 7 horas da
manh, parti a essa hora, tendo de levar vrios petiscos para o caminho,
porque Gabriel Mayer no consentio que eu partisse sem essa condio.

Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de
Deica, onde a familia Coillard me esperava, e onde fui recebido com as
maiores demonstraes de simpathia.

D'aquelle lado no tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficmos em
grande embarao para partir, porque encontrariamos o deserto sco, e
impossivel nos seria atravessal-o antes de cahirem as chuvas necessarias
para encher os charcos onde deveramos encontrar a gua precisa.

Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que haviam trovoadas muito ao
longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que ellas
tivessem despejado alguma chuva no deserto.

No dia 28 improvisei, com anzes que trazia, uns pequenos aparlhos de
pesca, e fui com as damas Coillard pescar a uma laga que nos ficava uns
duzentos metros a oeste do campo. Consegumos pescar muitos peixes
miudos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gsto que gozavam
aquellas senhoras n'um divertimento nvo para ellas, quando sentiam a
ligeira canna vergar ao pso de um peixe que se estorcia na ponta da
linha, prso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder.

No dia 30 resolvmos partir a 2 de Dezembro, ainda que corriamos o risco
de no encontrar gua logo nos primeiros dias de viagem, mas uma
importante considerao nos levava a no differir a partida. ramos
quinze pessas, e a proviso de mantimentos pequena. D'ali ao Bamanguato
no poderamos obter vveres, e em Deica msmo nenhuns podamos haver.

Era pois preciso caminhar sbre Xoxom (_Shoshong_) o mais depressa
possivel, para alcanar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome.

Ficou por isso resolvido que partssemos no dia dois, resoluo que foi
apoiada pla chuva que cahio nos dias 30 do mez e 1 de Dezembro.

Antes de emprehender a narrativa d'essa aventurosa viagem atravez do
deserto, preciso dizer duas palavras  cerca dos meus companheiros.

Que elles me perdem plo que vou escrever, se a sua modestia for ferida
pelas minhas palavras; mas  preciso que se saiba o nome e os feitos de
alguns d'esses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a
vida civilizada, para irem longe da patria trabalhar tenazmente na
grande obra da civilizao do Continente Ngro.

No paiz do Basuto, paiz que confina ao sul e leste com as colonias do
Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, fram, ha
cincoenta annos, estabelecer-se alguns missionarios protestantes
Francezes. Estes homens, cujo nmero augmentava de anno para anno,
conseguram domar um pvo brbaro de canibaes, e eleval-o a um estado de
civilizao e de instruco a que ainda no chegou pvo algum da frica
Austral.

Hje as escolas Christs do Basuto contam os discpulos por milhares, e
uma grande parte da populao sendo Christ, abandonou a polygamia e os
costumes brbaros dos seus antepassados.

Os missionarios achram o campo ja pequeno para o seu nmero, sentram a
necessidade de expanso, e fram estabelecer os seus cathechistas para o
norte do Transvaal junto ao Limppo.

Quizram ir mais longe, e uma expedio foi organizada, tendo por chefe
um joven missionario, com destino ao paiz do Baniais ou Machonas,
situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedio foi infeliz.
Entrando no Transvaal, soffreu insultos dos Boers, que a
impossibilitram de seguir vante, chegando at a serem prsos em
Pretoria o missionario e seus homens de cathechese.

Foi ento que M^{r.} Franois Coillard, director da Misso de Lerib,
foi encarregado de dirigir a expedio que falhara. Partio de Lerib,
ponto situado perto do rio Caledon, affluente do Orange e a oeste do
Mont-aux-sources, e com sua espsa e sua sobrinha e seus cathechistas,
caminhou ao Norte, e por entre innmeras difficuldades, que s uma
vontade tenaz pode vencer, conseguio alcanar o paiz a que se destinava.

Muito bem recebido pelos Machonas, deu como aos seus trabalhos, quando
foi atacado por uma fra de Matebeles, que o fizram prisioneiro e o
conduzram com tda a expedio perante o seu chefe, Lo-Bengula.

O que o missionario e aquellas pobres damas soffreram durante o tempo
que estivram em poder do terrivel chefe dos Matebeles  uma historia
triste e compungente.

O chefe, que pretende ter direitos sbre o paiz dos Machonas,
exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prvia licena, e no lhes
permitio voltar l.

Retrogradou pois at Xoxon, capital do Manguato, e no querendo deixar
sem resultado to dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma
tentativa sbre o Barze. Tinha a vantagem de falar a lingua do paiz,
bem como os seus cathechistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar
facilmente em um paiz onde se falava a sua propria lngua.

No foi feliz no Barze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas
do astuto Gambela, no lhe consentram o accesso lm de Quisseque.

Fram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que levram a
familia Coillard ao Alto Zambeze, e que occasionram o nosso encontro
n'aquellas remotas paragens.

M^{r.} Coillard e sua espsa,  pocha do nosso encontro, estavam em
frica havia ja vinte annos!

M^{r.} Coillard  homem de quarenta annos, sua espsa tem a idade que
tem tdas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, no tem
idade.

O missionario nutre uma grande paixo pelos indgenas,  civilizao dos
quaes votou a sua vida.

Sempre tranquillo em gesto e palavra, no se altera nunca, e s tem na
bca o perdo para todas as faltas que v commetter.

Franois Coillard  o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho
conhecido.

A uma intelligencia superior reune uma vontade inquebrantavel, e a
teimosia precisa para levar a cabo qualquer emprehendimento difficil.

Muito instruido, o missionario Francez tem uma alma moldada para
comprehender os mais sublimes sentimentos, e  mesmo pota.

Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades bas nos indgenas
Africanos, no v ou no quer ver as ms.

 um grande defeito sse, mas tem elle ampla escusa na sublimidade dos
sentimentos que o dictam.

Madame Coillard, como seu marido,  de uma bondade extrema.

No se chga a ella o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir
consolado.

Para elles tudo sam irmos, e tanto estendem a mo ao indgena como ao
Europu, ao pobre como ao rico, logo que indgena, Europu, pobre e rico
precisam d'elles.

Eu, por mim, no lhes poderei nunca agradecer os servios que me
fizram, servios que me obrigram tanto mais, quanto maior foi a
delicadeza com que fram feitos.

O correr da narrativa mostrar quem sam estas gentes de quem falo agora
muito lacnicamente, e que deviam ser meus socios na longa viagem que
amos emprehender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando
o caminho das caravanas, amos traar uma nova estrada.




CAPTULO III.


TRINTA DIAS NO DESERTO.

     O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O
     grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Cra--Falta de
     gua--O ltimo ch de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_).


A 2 de Dezembro, comeram logo de manh os preparativos de partida.

Um vagom de viagem em frica do Sul  uma pesada construco de madeira
e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre
4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bis, junguidos a fortes
cangas, prsas a uma corrente longa e grossa, fixa  ponta do cabealho
no carro.

Esta especie de casa ambulante,  carregada com as bagagens e fazendas
do viajante, e disposta de modo a offerecer-lhe tdas as comodidades
caseiras.

O vagom de M^{r.} Coillard era uma verdadeira maravilha.

Construido expressamente para aquella viagem sb as suas vistas e com a
sua experiencia de viajeiro, tinha commodidades que nunca vi em outro.

A minha bagagem foi arrumada com a da familia Coillard no fundo do
vagom, ficando apenas  mo aquillo de que eu poderia precisar a mido.

Elles faziam prodigios para darem logar a todos os meus volumes de
carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar logar a mim
msmo.

Uma partida depois de 15 dias de descano  sempre muito demorada.

Ha muita cousa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre,
que ha uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os
cubos das rodas precisam ser untados, mil cousas emfim que fazem
retardar de algumas horas o momento prefixo.

Depois de essas precaues tomadas por M^{r.} Coillard, e dictadas por
uma longa experiencia de tal modo de viajar, consegumos deixar Deica
pelas 2 horas da tarde, e endireitmos ao sul.

O nosso comboio compunha-se de quatro vagons, dous pertencentes a M^{r.}
Coillard, e dous outros de M^{r.} Frederick Phillips, de quem falarei
mais tarde.

Depois de uma jornada de trs horas e meia, encontrmos gua em uma
pequena laga, recentemente cheia pla chuva dos dias anteriores, e
pernoitmos junto d'ella.

No dia immediato segumos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem
parmos hora e meia, para dar descano aos bis.

Foi de trs horas a segunda parte da jornada, e ainda fizmos uma
terceira tirada das 7 s 9 da noute.

Sendo explorados os arredores do sitio em que acampmos, encontrou-se
gua um kilmetro a E.N.E.

No dia 4 s podmos partir s 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo
aos bis de bebrem durante tda a manh: e n'esse dia a nossa jornada
foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma laga de ptima
gua, acampmos junto d'ella, ainda que os prtos de M^{r.} Phillips
diziam haver ali a terrivel msca z-z, o que me parece precisa
confirmao.

Contudo, por prudencia, no seguinte dia partmos logo de madrugada, e
viajmos por sete horas e meia, em trs andadas, a ltima das quaes
findou s 9 da noute. Junto do ponto onde pernoitmos no appareceu
gua. A viagem d'sse dia foi difficil, por entre emmaranhada floresta,
onde os vagons corrram grande perigo de partir as rodas de encontro aos
troncos de rvores colossaes.

A 6, de manh, jornademos por duas horas a S.E., encontrando no fim
d'ellas uma laga de gua permanente, a nica gua que no tempo sco se
encontra de Deica at ali. Chama-se Tamazze.

Descansmos por sete horas, e segumos s 3 da tarde; indo acampar, s
6, junto de outra bella laga tambem permanente, a que os Massaruas
chamam Tamafupa.

A jornada d'aqulle dia foi por entre florestas lindissimas, onde
abundam espinheiros brancos. O solo  coberto por uma espssa camada de
ara. Junto  laga um formso tapte de relva cobre o terreno,
levemente accidentado.

Mas no meio d'aquella relva viosa cresce uma planta herbcea de que os
bis sam vidos, e da qual  preciso desvial-os com cuidado, porque 
mortal peonha para lles.

Estive n'essa noute at tarde levantado, para fazer observaes
astronmicas, e talvez ahi tivesse origem o violento accesso de febre
que me atacou no dia immediato.

Por algumas horas o delirio tirou-me a consciencia, e s ao recuperar a
razo pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pla
familia Coillard.

O dia seguinte foi ainda passado no mais angustiso soffrimento, e s ao
terceiro dia nos pozmos em viagem, indo eu em deploravel estado. Foi-me
arranjada uma cama no vagom de M^{r.} Coillard, e rodeado da familia,
que redobrava em affectuosos cuidados, cercando-me de tdas as
commodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciencia
tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estvamos acampados em um
logar que uns chamam Muacha e outros Nguja.

Ali, com o caminho seguido plos negociantes Inglezes, devamos deixar
um d'elles, que, como ja disse, era nosso companheiro de viagem desde
Deica.

M^{r.} Frederick Phillips, o companheiro de viagem que amos deixar, 
um _Inglez de Inglaterra_. Homem de fina educao, affecta uns modos
grosseiros e semi-selvagens, que no podem encubrir as suas bas
maneiras originaes.

 este um dos seus fracos.

O outro elle mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quizera,
me disse elle, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a
terra, fsse marfim, e eu s senhor d'elle."

Se eu no tivesse a certeza de que M^{r.} Phillips era Inglez, pla
frmula do desejo julgra-o nascido em Tarbes.

M^{r.} Phillips, de elevada estatura e robusto em proporo, tem um
rsto enrgico e sympthico, que dizem ter feito uma profunda impresso
na irm do terrivel Lo-Bengula, o rei do Matabelle, que tem feito as
mais altas diligencias para o desposar.  no Matabelle que lle tem a
sua principal residencia Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi
porque a ausencia ali de M^{r.} Westbeech seu socio, o obrigou quella
viagem por interesses commerciaes.

M^{r.} Phillips, que encontrei em Lexuma, fz-me offerecimentos, pondo 
minha disposio um dos seus vagons, para eu continuar a minha viagem
para o sul, e se os no devi aceitar, no deixo por isso de lhe tributar
muita gratido.

Depois de nos despedirmos de M^{r.} Phillips em Nguja, partmos ao Sul,
e jornademos por trs horas e meia, indo acampar, s 7 e meia, em stio
onde no havia gua.

No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parmos em um
logar chamado em lngua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer,
muitas cousas que se succedem umas s outras, e isto por se dar sse
caso com uma srie de pequenas lagas que encontrmos estanques.

A floresta toma ali um nvo aspecto, e s rvores mes succedem ja
verdadeiros colossos vegetaes, assombrando com as elevadas copas um mato
denso de emaranhados arbustos, difficlimo de transpr.

Segumos s 4 horas, e duas horas depois, atravessvamos a mais sobrba
e bella floresta virgem que encontrei em frica.

Logo ao anoutecer, tivmos de parar, porque era impossivel proseguir em
to densa floresta sem arriscar os vagons a um accidente srio.

N'essa noute eu comeava a achar-me completamente restabelecido, e a
febre tinha cedido a doses dirias de quatro grammas de quinino.

Meia hora depois de partir, no dia immediato, atingamos a orla da
floresta, e encontrvamos gua n'um pequeno charco lodso. Diante de ns
estava a planicie descoberta, rida e sca; essa planicie, que foi pla
primeira vez atravessada dois graos a Oeste por Livingstone, ainda um a
oeste do meu ponto por Baines, e um grao e mais leste por Baldwin,
Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planicie arenosa e inhspita, o Saara
do sul, o Calaari emfim.

Ainda jornademos por espao de duas horas, indo dar descano aos bis
s 11 e meia, junto a uns rachticos e pequenos espinheiros, que com a
sua vegetao mesquinha faziam sentir mais a nudz do deserto.

Algumas trovoadas formvam-se pelo Norte, e s duas horas aproximvam-se
de ns, deixando cahir de ngros nimbos grossas gtas de chuva tpida.

Desde o Zambeze at ali o terreno  arenso, sendo o sub-solo formado
por uma camada argilosa muito plstica de cr castanho-escura. A
espessura da camada de ara branca e fina que forma o solo varia entre
10 e 50 centmetros.

gua apenas aparece aqui e lm na estao das chuvas, nas depresses de
terreno. Algumas vzes, como n'aquelle dia ao sahir da floresta, era
ella uma lama espssa e ftida. Tdo o paiz at ao ponto em que o
deixmos n'aquella manh,  coberto por uma floresta, que vai
progressivamente augmentando em espessura e no pompso da vegetao, ao
passo que se afasta do Norte.

O que mais se v sam ainda leguminosas, e uma immensa variedade de
acacia cobre o solo. Flres do mais variado e brilhante colorido, das
formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista,
embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali  difficilimo.

Abrir caminho para o carro, de machado em punho; s vzes, durante 10 e
mais kilmetros, haver um solo de cincoenta centimetros de area, onde as
rodas dos vagons se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta
minutos, tal  o viajar n'aquellas brenhas, quando se viaja bem.

A esse enorme terreno, comprehendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei
eu nas minhas cartas o Deserto de Baines.

Foi uma homenagem ao trabalhador infatigavel, o primeiro que devassou
aquellas paragens inhspitas, e cuja vida foi to deserta de gsos e de
glrias, como aqulle paiz  deserto de gentes.

Do ponto em que parmos de manh, segumos s 4 horas da tarde, logo que
a tormenta passou, e jornademos at s 8 da noute, parando n'um matagal
de espinheiros baixos, onde foi difficil acampar no meio das hervas e
entre os abrolhos.

Durante a noute, chacaes e hyenas dram-nos um concrto infernal, vindo
vocalizar um cro orphenico, em trno do sitio onde chegava a claridade
dos fogos do campo.

De manh choveu, e ns segumos s 5 horas e meia, sahindo logo dos
espinheiros, que poderamos ter evitado sem umas trevas profundas que na
vspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho.

Sustentmos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno
descano, encontrando uns charcos produzidos pla chuva da manh, que de
nenhum proveito nos fram a ns, por serem de gua salgada, mas que,
ainda assim, servram aos bis sedentos, que os esgotram em pouco
tempo.

Era preciso encontrar gua, e segumos ainda por quatro horas, parando
no fim d'ellas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer n'essa
noute uma ba observao do reapparecimento do primeiro satlite de
Jpiter.

Logo ao alvorecer, caminhmos por hora e meia no deserto arenoso e
rido, onde as rodas dos vagons se enterravam profundamente.

No fim d'este tempo de jornada, encontrmos o leito sco de um rio cuja
margem direita segumos por uma hora, passando-o no momento em que elle
encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas
do sulco arenso eram de trs metros e muito inclinadas. Foi medonho o
precipitar dos vagons n'aquelle fsso, e compungente o trabalho dos bis
para desenterrarem aquellas enormes mchinas de transporte, e
fazrem-n-as subir nas contra-escarpas.

Acampmos logo.

No leito arenso do rio algumas lagas deixavam ver pequenas massas
d'gua lmpida e cristallina, que alegrava os olhos canados da aridez e
secura do deserto. Corrmos pressurosos a ellas, mas aos primeiros
tragos bebidos a alegria converteu-se em angustia cruciante. Aquella
gua era to salgada como a do mar.

Contudo, alguns poos cavados muito fundo, longe das lagas, dram uma
gua quasi potavel. Era preciso tiral-a a baldes para a dar aos pobres
bis ja sedentos e canados. Aquelle rio, ou antes aquelle leito sco,
era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de
Xua (_Shua_).

Foi decidido que ficssemos ali dois dias, por ser o immediato ao da
nossa chegada um domingo, e a familia Coillard no gostar de fazer
viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo
obter-se ramos de rvores nas margens do rio, ja povoadas da vegetao
que o paiz carece ao Norte.

Plo meio-dia estava prompto um kiosque, e estabelecido o campo.

As damas Coillard andavam n'uma labutao activa. Faziam o po e
preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes
permittiam, para a festa do Domingo.

Depois da minha ltima febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu
tinha sido alvo, o contacto ntimo com aquellas damas a que a doena me
tinha obrigado, modificou profundamente o meu esprito, e senti em mim
uma alterao profunda.

At ao momento de as encontrar, eu havia esqucido, no meio dos
selvagens com quem s vivia, o que fssem carinhos e afagos.

O viver entre aquellas damas veio trazer-me  memoria que no mundo ha
anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhso da vida,
frscos oasis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto rido.

A lembrana de uma espsa estremecida, e de uma filha adorada, veio
estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pla vista constante
d'aquellas duas senhras, instrumentos innocentes e inconscientes de um
soffrimento atroz que me causavam.

Quantas vzes, fatigado e doente, eu me sentava ao p d'ellas, e por um
momento era feliz, no pensando que eram para mim dois entes estranhos,
lanados no meu caminho por o mais extraordinario dos acasos!

Quantas vzes inconsciente no ia curvando a caba aturdida, em busca
de um regao de mulhr adorada, e cahia em mim, e levantava-me e fugia!

Ah! como eu as odiava ento!!

Este soffrimento constante, sempre alimentado pla vista d'ellas, e
exacerbado plos seus carinhos, traduzio-se n'um mao humor que me no
deixava um momento.

Perdi tdas as formas sociaes de delicadza, e transformei-me na imagem
da mais brutal grosseria.

Bastava Madame Coillard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente
contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagom bastante
fatigado, ellas privram-se de quantas almofadas tinham para se
encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para
me fazrem um leito commodissimo.

Achei-me to bem que adormeci em caminho, velando ellas plo meu sono, e
no cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos
solavancos do carro.

Madame Coillard estava contente com a sua obra. Tinha de certo tido uma
viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido.

Era tal a sua satisfao que no pde deixar de me perguntar se eu havia
estado cmmodamente, certa de que eu s lhe poderia responder com um
agradecimento expressivo. Pois no foi assim. Disse-lhe, que o seu vagom
era um vagom infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento,
e que tinha passado o dia incommodadissimo.

Depois d'esta brutalidade inslita, encarei com ella, e vi lgrimas a
querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei to furiso que fugi para longe.

Casos idnticos repetiam-se a mido, e no correr da narrativa
apparecerm ainda.

Hje custa-me a comprehender como no meu esprito se pde fazer uma tal
alterao, e como eu cheguei a commetter taes barbaridades.

Os dois dias passados na margem do Nata no fram dos peiores para mim.

Tinha observaes a fazer, trabalhos atrazados a completar, e um paiz
curiso a estudar; e isso era agradavel diverso ao meu viver montono
do deserto.

Creio que n'sses dois dias no fui to grosseiro como de costume.

O Deserto do Calaari, nas partes em que tem gua,  frequentado por uma
populao nmada. Sam os Massaruas, a que os Inglezes dam o nome
genrico de _Bushmen_. Os Massaruas sam selvagens, mas muito menos do
que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por
15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas sam muito
prtos, t[~e]m os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos,
e cabllo pouco.

Viram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e plvora. O seu
contentamento foi grande. Voltram de tarde, a offerecer-me um cabaz de
peixe frsco, que tinham ido pescar nas lagas para mim.

No dia seguinte, em uma excurso que fiz, visitei o seu acampamento.

Vi que tinham panellas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos,
indicios de uma civilizao rudimentar.

Vi uma vasta proviso de tartarugas terrestres, que elles muito apreciam
como manjar. As mulheres cubriam a sua nudez com algumas pelles, e
enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos.

T[~e]m por armas azagaias e pequenos escudos ogivaes. Usam ao pesco um
sem-nmero de amultos, e trazem nos braos e pernas manilhas de couro.

Rapam o cabllo junto das orlhas, deixando no alto um crculo que vem
tangente  testa. Falam uma lngua brbara muito notavel plo modo
porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a
lngua, a que chamam _cliques_.

A 16 de Dezembro partmos, seguindo a margem esqurda do rio, e parmos
junto d'ella, depois de cinco horas de jornada.

Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passmos o
Domingo, ja lhe chamam Xua (_Shua_) ali onde acampmos, a cinco horas de
caminho.

Andmos sempre na margem d'lle com os rumos de S.O., S.E., S.S.E.,
S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e no resta a menor dvida,
que o Nata e o Xua sam um e o mesmo rio, que, como quasi todos os rios
de frica, tem diversos nomes em diversos tros do seu curso.

Esta parte do deserto  coberta de uma herva curta e rachtica, e s
aqui e lm se v uma ou outra rvore solitaria.

Com tudo, nas bordas do rio ha alguma vegetao, e de espao a espao
no deixa de ser amena esta ou aquella pasagem que se nos apresenta 
vista.

A gua dos poos cavados no leito do rio nem sempre  potavel, e a das
lagas  completamente saturada de saes.

O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e
onde o solo  coberto por uma espssa camada de saes, depsitos de guas
evaporadas.

As informaes dos Massaruas a respeito de falta de gua eram
assustadoras, e ns resolvemos no avanar mais n'aqulle dia, para
aproveitarmos o mais tempo possivel alguma ba que ali se encontrou em
poos cavados profundamente.

Desde que percorramos aquelle brdo do Calaari, notava eu que um
fortissimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manh;
sendo que do meio dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava
algumas horas.

Eu atribuo aqulle phenmeno constante,  influencia na atmosphera do
enorme deserto arenso que nos ficava a oeste.

A ara reflectindo o calor solar, deveria produzir uma dilatao
atmosphrica, que determinaria durante o calor a corrente branda para
leste; ao passo que sse ar lentamente dilatado de dia, seria
rpidamente retrahido plo frio intenso da noute, e produziria um
desiquilbrio, que originara a fortissima corrente nas primeiras horas
do dia.

M^{r.} Coillard achou prudente partir s na tarde do dia immediato, para
saciar bem os bis, antes de ir procurar guas muito problemticas; mas
eu decidi seguir s com o meu Ppca, e combinmos encontrar-nos nas
margens do Simoane.

O meu fim era sbre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os
_Macaricris_.

Depois de atravessar sete milhas de Macaricris, entrei n'uma floresta,
que percorri n'uma extenso de trs milhas at encontrar um leito de
rio, com alguma gua encharcada, que eu suppuz devia ser o Simoane.

Desci por elle at ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas
cercanias, fui procurar um sitio onde calculei que os vagons deveriam
passar e esperei.

S s nove da noute, e noute de trevas profundas, o meu ouvido
exercitado pde perceber ao longe a bulha dos vagons, e caminhando para
ali fui sahir-lhes ao encontro. Madame Coillard estava em cuidados, por
me ver ausente tdo o dia s com uma criana, e a primeira cousa que
fez, ao parar dos vagons, foi preparar-me ch, bebida de que ella sabia
eu ser vido, e n'essa noute diz o meu diario que tomei a seguir seis
grandes chvenas d'lle.

Effectivamente, o gasto que eu fazia na proviso de ch de Madame
Coillard era enorme.

O ribeiro Simoane, que ento era apenas uma serie de pequenas lagas de
trs metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai
entrar directamente no Grande Macaricari.

Tdo aquelle paiz, e sbre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane,
apresentava indicios de ter chovido muito ali, e por isso as lagas do
Simoane tinham gua, e esta era quasi ba.

No tempo sco ellas secam, e em alguma que conserva pouca gua,  esta
to saturada de saes que no se pode aproveitar.

Desde que chegmos s margens do Nata, em tdos os pontos onde
parvamos, appareciam os Massaruas sempre a pedir alguma cousa.

O que valia era fugirem se nos zangvamos com lles.

Aqulles Massaruas que sam valorosos e combatem o elephante e o leo,
sam cobardes diante do homem, e sbre tudo do branco.

S s 4 horas da tarde deixmos aquelle ponto, onde os bis encontravam
um vioso pasto e abundante gua; e caminhando a S.O. fomos acampar, s
8 horas e meia, em sitio sco.

No dia 19, depois de quatro horas de jornada a S.S.E., costeando sempre
o terreno que se eleva para o Este, deparmos com o leito sco de um rio
cujas margens alimentam uma vegetao luxuriante. Os Massaruas que
apparecram logo, dissram chamarem-lhe Lilutela, e ser o mesmo que
outros chamam Xuani (_Shuani_) ou pequeno Xua. Este nome de Xuani deve
ter sido dado quelle rio por gentes do sul, que falassem a lngua
Sesuto ou algum dos seus dialectos, porque n'aquella lngua os
substantivos formam o diminuitivo com a terminao _ani_.

O Lilutela, nome que eu lhe conservo, por ser o empregado pelos povos
nmadas do deserto, tem o seu leito cavado entre uma floresta formada de
rvores gigantes, mas limpa de arbustos. Esta floresta, que comeou umas
nove milhas ao N. do Simoane, parece ser a orla de uma densa mata que em
terreno mais elevado corre Norte-Sul poucas milhas a leste do nosso
caminho.

O terreno desde a margem esqurda do rio Nata  consistente, e no
arenoso como at ali. O solo  formado por uma funda camada de argila
muito plstica, e no tempo das grandes chuvas deve ser um atoleiro
enorme.

Um dos Massaruas que appareceu ali foi mostrar uma laga um kilmetro a
oeste, onde os bis podram matar a sde e ns fazer proviso d'gua.

As margens do Lilutela sam cobertas por uma espssa camada de guano, e
na estao em que o rio leva gua devem ser habitadas por milhes de
aves.

Segumos no mesmo dia s 5 da tarde, debaixo da m impresso de que no
encontraramos gua no dia immediato, facto que nos foi affirmado pelos
Massaruas. Jornademos at s 11 e meia da noute, sempre por entre a
floresta pomposa.

Partmos no dia 20 s 8 da manh, e meia hora depois, passvamos o leito
sco do rio Cualiba, que vai ao Grande Macaricari, correndo a Oeste.

A floresta ali  cheia de calhaos rolios trabalhados pla gua, e
povoada de caracoes enormes, e buzios de grandes dimenses.

Fmos acampar lm do leito do Cualiba, para procurarmos gua.

Aparecram alguns Massaruas, mas no nos quizram indicar onde faziam
proviso d'ella, coisa que elles usam com os forasteiros. Depois de
vrias tentativas feitas no leito do rio, pudmos obter gua n'um po
que cavmos um kilmetro a jusante do nosso campo.

Partmos s 4.25 minutos, parando logo s 5. e 10, para dar de beber aos
bis em um charco que encontrmos, formado pla chuva, que cahia
torrencial desde as duas horas.

Ainda n'esse dia jornademos por duas horas, indo acampar s 8, depois
de termos atravessado uma parte do grande Macaricari.


O Grande Macaricari.

N'aquelle deserto do Calaari, paiz to notavel, onde a natureza se
comprazeu a juntar os mais disparatados elementos, onde a floresta
pomposa toca a planicie rida e sca, onde a ara slta  continuao do
terreno argiloso ao mesmo nivel, onde a secura est, muitas vzes, perto
da gua; n'aquelle deserto, que por vzes qur imitar o Saara, outras a
Pampa da Amrica, outras os Stepes da Russia; n'aquelle deserto elevado
trs mil pes ao mar, uma das cousas mais notaveis  o Grande Macaricari.

O Grande Macaricari  uma bacia enorme, bacia onde o terreno se deprime
de 3 a 5 metros, e que deve ter no seu maior eixo de 120 a 150 milhas, e
no menor de 80 a 100.

Como tdos os _Macaricaris_, afecta a forma prximamente ellptica, e
tem como todos o seu maior eixo no sentido leste-oeste.

_Macaricaris_ sam, em lngua Massarua, bacias cobertas de saes, onde a
gua das chuvas se conserva por algum tempo; desapparecendo na estao
estiva, por a evaporao, e deixando ali outra vez depositados os saes
que dissolvra. Sam abundantissimos os _Macaricaris_ n'aquella parte do
deserto, e eu visitei muitos, cujos eixos maiores, sempre no sentido
leste-oeste, tinham trs milhas, e mais.

As bacias sam de areia grossa, coberta por uma camada cristallina de
saes, que atinge a espessura de um a dois centmetros.

Creio que no  so chlorurto de sdio o sal que forma aquella camada,
ainda que  aquelle que predomina.

Os depsitos calcreos que aquellas guas deixam pla ebullio,
evidenceiam que os saes de cal tambem se cont[~e]m na camada crystallina
dissolvida n'ellas, em proporo notavel.

Fiz colleco de muitos pedaos d'aquella camada que reveste o interior
das bacias dos _Macaricaris_, mas, infelizmente, n'uma caixa que cahio
ao mar ao embarcar no vapor _Danubio_, em Durban, se perdram lles, com
outros exemplares preciosos que trazia para a Europa.

O grande lago recebe na estao chuvosa um volume enorme d'guas pelos
rios Nata, Simoane, Cualiba e outros; sendo que todas as guas que
n'aquellas latitudes cahem desde a fronteira do paiz dos Matebeles,
v[~e]m a elle, porque o terreno elva-se progressivamente a leste at ao
meridiano 28 ou 28 e 30' de Greenwich.

Estas guas, que formam torrentes enormes, devem encher o Grande
Macaricari em pouco tempo.

Este enorme charco communica com o Lago Ngami pla Botletle, e o seu
nivel  o mesmo d'aquelle Lago; dando esta circunstancia logar a um
phenmeno muito notavel. Estando os dois lagos distanciados de alguns
graos, muitas vzes as grandes chuvas caem a leste, e o Macaricari
transborda, sem que as fontes que alimentam o Ngami tenham augmentado de
volume. Ento a Botletle corre a oeste do Macaricari para o Ngami.
Outras vezes d-se o caso inverso, e o Ngami envia as suas guas ao
Macaricari. Este  o seu curso natural, sendo o Ngami alimentado por um
rio permanente e volumoso.

Mas o que succede a tda essa gua que de tdos os lados corre ao
grande charco? Desapparecer s pla evaporao?

No haver tambem ali uma grande infiltrao que por conductos
misteriosos e subterrneos v dar nascena a sses innumeros riachos,
que em plano inferior correm ao mar de uma e outra costa?

O que  feito das guas do Cubango, rio volumoso e permanente, que
desapparece n'sse deserto insondavel?

As guas do Cubango, na minha opinio, chgam ao Grande Macaricari e
desapparecem ali.

A Botletle no  mais do que o Cubango, que tem um alargamento a que
chamram o Ngami.

Sem o Grande Macaricari, a parte da frica Austral comprehendida entre o
parallelo 18 e o rio Orange, seria um paiz fertilissimo, e nas condies
climatolgicas e meteorolgicas que a protegem, seria um paiz de grande
futuro.

Bastava o Cubango para a fertilizar. Mas o Cubango, bem como tdos os
rios que quizram entrar no Calaari, encontrou no seu caminho um paiz
arenoso e perfeitamente horizontal, que lhe dispersou as guas, como que
dizendo: "No passareis d'aqui;" e a pouca que encontrou um esgto, e
pensou salvar-se, foi cahir no Grande Macaricari, que a bebeu vido, sem
que ainda assim podesse matar a sua sde insaciavel.

Os rios que t[~e]m as suas nascentes ao sul do parallelo 18, e a oeste
do meridiano 27, ao norte do Orange, e a oeste do Limppo, no sam
permanentes; e, caudalosas torrentes na estao das chuvas, no sam mais
do que sulcos arenosos na estao estiva.

As guas de quasi tdos vam a essa linha que une o Ngami ao Grande
Macaricari onde se perdem, talvez para volverem de nvo n'uma nova
estao das chuvas.

Algumas vzes, como n'aquelle anno, at a Botletle mostrou aos
habitantes dos juncaes das suas margens o seu fundo arenoso e branco.

 bem digna de estudo esta parte d'frica, ainda hje envolvida em
misterioso vo, mas to inhspita  ella, que por muito tempo saber
occultar os seus segrdos aos olhos dos investigadres scientficos.

No dia 21 segumos ao Sul, deixando o Macaricari s 5 horas da manh, e
fomos parar, quatro horas depois, junto de uma pequena laga de ba
gua, produzida pla chuva que cahio copiosa na vspera.

O paiz que atravessmos era coberto de vegetao arborescente, sendo o
mato formado de espinheiros que difficultavam o viajar.

Partmos ao meio-dia, alcanando plas duas horas o ribeiro Tlapam, que,
ao contrario do que espervamos, no nos offereceu uma gta d'gua
potavel; e por isso continumos jornada at s 9 horas da noute, hora em
que encontrmos uma pequena laga permanente, a que os Massaruas chamam
Linocanim (_o pequeno ribeiro_), porque esta laga d nascena a um
pequeno ribeiro que corre a leste, provavelmente ao rio Tati.

Das 6 s 8 horas cahio sobre ns uma horrorosa tempestade, com copiosa
chuva, que encharcou o terreno, tornando difficilimo o rodar dos carros.

Algumas cabras de M^{r.} Coillard e a minha Cra, querendo refugiar-se
da tormenta, procurram abrigar-se debaixo dos vagons, que rodavam, e
uma foi logo esmagada pelas rodas.

A minha Cra foi a segunda vctima. A roda passou-lhe sobre os ilacos,
e eu, ainda que ella chegou viva a Lino Canin, supuz logo que no podia
viver muitas horas.

N'aquella noute foi morta no nosso campo uma cobra venenosissima.

Desde o rio Nata at ali, vi mais cobras venenosas do que em tdo o
resto da viagem. Na vspera um asqueroso e enorme sapo veio meter-se nas
peles da minha cama, e ao acordar achei-me cara a cara com to amavel
companheiro. Escorpies, centopeias e os mais repugnantes insectos, eram
meus socios de cama, vindo procurar junto ao meu crpo o calor que to
apreciado  pelos animaes de sangue frio.

 preciso um hbito constante do deserto para se poder dormir sobre umas
pelles na terra dura em companhia de taes animalejos.

Deve comprehender-se, que estas insignificantes bagatellas, reunidas a
todas as outras causas, mantivessem o meu mao humor a uma altura
constante. O tempo chuvoso continuava persistente, e o ceo sempre
encoberto no me permittia fazer observaes astronmicas, o que
contribuia para acirrar o meu esprito ja muito iracundo.

N'aquelle dia tdos os meus cuidados, tdos os meus momentos, fram
dedicados a tratar da minha pobre Cra, que morreu pla tarde.

Pobre animal! Perdi em ti a nica grande affeio que encontrei nas
terras Africanas, antes de conhecer a familia Europea que me recebeu no
seu seio. Perdi em ti a companheira constante dos meus dias de tristeza,
a amiga dilecta dos meus poucos momentos de alegria!

Pobre Cra! A sepultura que te cavei junto a Linocanim ser sempre um
pensamento triste na minha lembrana, e as poucas linhas que aqui te
consagro, dictadas por a saudade que me deixaste, sam a expresso
sincera do muito que eu te queria, plo muito que me eras dedicada.

Agora, leitor endurecido e crtico severo, trata-me de frvolo plo
pouco que acabo de escrever de assumpto que taxars de futil, trata-me
como quizeres de mal, que s me dars o direito a lastimar-te. Ha
bagatellas na vida que sam verdadeiros acontecimentos para o homem que
sente, meras puerilidades para aquelle a quem as paixes ja mirrram o
corao.

Se s dos ltimos, ri-te de mim e deixa-me que te lastime.

No contesto que me leves grande superioridade, mas eu sou de outro
feitio, e estou bem assim.

Cra morrendo deixou-me uma recordao viva n'um filho que tinha, a que
os Basutos de M^{r.} Coillard dram o nome Coranhana.

A tarde do dia 22 foi tormentosa, e das 3 horas s 6 e meia a chuva
cahia torrencial.

No dia immediato partmos s 6 horas, indo parar s 9 em um logar onde
os Massaruas cavram um grande po, logar a que elles chamam Tlala
Mabelli (_fome de mabelli_).[7] No fundo do po apenas encontrmos uma
lama ftida inaproveitavel.

Ainda n'esse dia fizmos uma jornada de cinco horas e meia, sempre
debaixo de chuva copiosa.

A 24 segumos viagem, e depois de quatro horas e meia de caminho,
encontrmos um psto de Massaruas, sujeitos ao rei Cama do Manguato.
Chamam aquelle psto a Morralana, do nome de uma rvore que abunda ali.

Dissram-nos os Massaruas que podamos seguir em linha recta, porque a
muita chuva cahida nos dias anteriores nos faria encontrar gua no
caminho, sem o qu teramos de fazer um grande desvio por leste para no
morrermos  sde.

s 11 horas comeou uma chuva forte que s moderou s 2; segumos ento,
mas logo s 4 parmos, por termos encontrado uma laga cheia de gua
magnfica, e sabermos pelos Massaruas, que s trs dias depois
poderamos encontrar de nvo gua aproveitavel.

Triste vspera de Natal! Eu estava n'esse dia de um mao humor atroz.
Sentado dentro do vagom para me abrigar da chuva, estavam junto a mim
M^{r.} Coillard e as damas.

Elles conversavam, eu estava calado; furioso. No sei a que propsito
Madame Coillard falou de George Eliot.

Foi como o fgo chegado  plvora aquelle nome que ouvi.

Voltando-me para Madame Coillard, disse-lhe, que George Eliot no
escrevia seno disparates, porque era uma mulhr o seu George Eliot, e
que uma mulhr s podia escrever disparates.

Madame Coillard, ferida por esta minha brutal aggresso, quiz discutir,
mas eu s lhe respondia, que as mulheres no nascram para escritras,
que logo que se metiam a isso no podiam deixar de escrever tolices; que
o seu mistr era governar casas, e no fazer livros.

Chegou a discusso ao ponto de eu ver a ba dama commovida, e de fugir
d'ali.

Momentos depois cahia em mim, e avaliava tda a extenso do meu
arrebatamento, sem poder explicar como se produziam no meu esprito taes
alteraes, logo que eu me dirigia a ella.

Eu, o maior admirador de George Eliot; eu, que reli _Romola_ e _Adam
Bede_, ficando ainda com desejo de ler aquellas obras primas da clebre
romancista Ingleza; eu que presto um verdadeiro tributo ao mrito de
Stal e Sand; eu que me ufano de ter entre os primeiros literatos do meu
paiz Maria Amalia Vaz de Carvalho, a mulhr que escreveu um dos melhores
livros que modernamente se tem escrito ali; eu fazendo violencia ao que
pensava e ao que sentia, sustentava, contra a minha convico, uma ida
estpida, s e s para contrariar aquella ba dama, que me pagava as
aggresses inslitas com mais cuidados e com mais desvelos!

Amanheceu 25 de Dezembro, dia de Natal, que, sendo dia festivo e de
descano em tdo o mundo Christo, para ns foi dia de trabalho rude,
porque jornademos por trze horas, em trs caminhadas, e s  uma hora
da noute acampmos.

Era a secura do paiz que nos forava a alargar as jornadas, e msmo
assim, s contvamos ter gua trs dias depois. N'sse dia encontrmos
um bando de Bamanguatos, que o rei Cama mandava a M^{r.} Coillard com
bis frscos para os vagons. Por elles soubmos a nova das mortes do
Capito Paterson, M^{r.} Sergeant e M^{r.} Thomas, e alguns serviaes,
que tinham ido ao Matebelli em servio do govrno Inglez, e que se dizia
trem sido assassinados por Lo Bengula.

A chuva tinha cessado, mas o ceo continuava sempre completamente
coberto. Eu fui n'esse dia atacado de um ligeiro accesso de febre, que
me quebrou as fras. Havia um anno que, em Quillengues, eu luctava com
a morte n'aquelle mesmo dia. Estavam ento junto a mim Capello e Ivens.

Quanto me lembrei d'elles!

Onde estariam? Qual teria sido o seu destino no meio d'aquelles paizes
inhspitos? N'sse triste dia de Natal, fatigado da jornada, abatido da
febre, quanto me lembrei tambem dos meus! De minha filha, que fazia
annos, e da festa de familia, que se fazia sem mim!

Quantas familias no mundo, n'esse dia, sentadas s msas que vergavam ao
pso das iguarias, desperdiando vinhos e desprezando a gua, estavam
longe de pensar, que no sco deserto quatro Europos fatigados seriam
felizes com alguma d'essa gua, que por tda a parte era desprezada!

A no ser alguns d'esses entes que de perto nos tocam e que nos no
podem esqucer, quem se lembraria de ns em tal dia?

Ha momentos bem tristes entre tdos os momentos sempre tristes da vida
do explorador!

No dia 26, logo de madrugada, fizmos uma primeira marcha de quatro
horas, andando em uma planicie que se eleva um pouco para o sul, coberta
de herva e apresentando aqui e lm algumas pequenas matas. O terreno de
areia amarello-avermelhada deixava enterrar as rodas dos vagons quasi
at aos eixos, e tornava difficilima a traco d'elles.

Ainda n'esse dia fizmos duas jornadas, uma de cinco outra de quatro
horas, sem percebermos o menor signal de gua. Acampmos s onze e meia
da noute,  entrada de um valle, onde o terreno nos pareceu difficil e
perigoso de transpor no meio das trevas.

Ao despertar, uma formosa paizagem, formosa para olhos canados da
monotonia e aridez do deserto, nos veio alegrar a vista.

O pequeno valle  entrada do qual passmos a noute era verdejante e
bello. As colinas que o formavam no tinham mais elevao de 20 metros,
mas eram pintorescas.

At meia altura deixavam ver a nu um agglomerado de pedras baslticas
cheias de furos, e cujas arestas puidas mostram que houve ali um
persistente trabalho da gua.

Apesar da viosa herva que cobria o fundo do vale gua nenhuma
encontrmos, ainda que ella deve correr ali em profuso no tempo das
grandes chuvas.

Dissram-nos as gentes Bamanguatas que se chamava aquelle sitio
Setlequane.

Os bis dos vagons fugram durante a noite, e sequiosos fram ao longe
procurar gua, que no encontrram, sendo reconduzidos ao campo por
gente que despachmos em sua busca, s s 11 do dia.

Partmos a essa hora, e trs horas depois encontrvamos o leito sco do
rio Luale. Este rio, como quasi tdos os d'aquelle paiz, s tem gua
corrente na estao das grandes chuvas, mas em tdo o tempo pode
encontrar-se alguma estagnada em alguns poos mais profundos. Todavia,
ali ha gua permanente, e sendo a primeira permanente que lhe fica ao N.
em Linocanim, ha entre estes dous pontos uma distancia de 128
kilmetros, distancia impossivel de transpor na estao estiva.

Homens e bis matram ali a sde, e ns decidmos seguir logo avante.

Quando amos a partir percebmos que faltavam cinco cabras de M^{r.}
Coillard.

Fizmos seguir os vagons e as damas, ficando eu e M^{r.} Coillard com
alguns prtos para procurar as cabras.

Eu pude por muito tempo seguir o rasto, mas perdi-o depois; e s 6 e
meia da tarde, ja noute, decidmos ir encontrar os vagons, deixando ali
alguns prtos para continuar as buscas no dia immediato. Partmos
szinhos por noute de trevas profundas. M^{r.} Coillard, sempre
descuidoso, e crente na proteco de Deos, ia desarmado, levando na mo
uma ligeira _badine_; eu, que creio em Deos, mas que tambem creio em
feras no continente Africano, levava a minha melhor carabina.

Uma hora depois de deixarmos o Luale, ouvmos prximo de ns  nossa
esqurda, um desagradavel cro de hyenas e chacaes, que no podmos
enxergar.

Este M^{r.} Coillard produzia s vzes em mim uma impresso estranha.

Ha coisas n'aquelle homem que me no  dado comprehender.

Um dia, narrando-me com tdo o calor que o seu esprito de poeta lhe
dava, um dos mais commoventes episdios da sua viagem, me disse elle:
"Estivmos quasi perdidos!" "Mas," retroqui eu, "o senhor tinha armas,
tinha dez homens dedicados e armados com-sigo, podia, nas circunstancias
que me pinta, sahir da difficuldade fcilmente."

"No podia," me disse elle; "no podia sem matar um homem; e eu no mato
um homem, nem msmo para me salvar e aos meus."

Fiquei pasmado a olhar para aquelle homem, typo nvo para mim, sem poder
comprehender que n'aquella organizao meridional e ardente podesse
existir uma coragem de glo, uma coragem que no acha explicao no meu
esprito.

Era a coragem filha d'aquellas _flres d'alma_ que um dos maiores poetas
Portuguezes soube diffinir e descrever em phrase espressiva e bella. Era
a coragem dos martyres, que a poucos  dado entender e sentir. Eu, por
mim, declaro que a no entendo, e posso quando muito admiral-a.

Por vzes, na minha viagem, me encontrei no meio da floresta desarmado,
ou melhor falando, sem carabina, que alguma outra arma sempre trazia; e
todas as vzes que isso aconteceu, uma inquietao vaga, uma perturbao
ligeira me atribulava o esprito.

No posso, por isso, comprehender o homem que passeia nos sertes
Africanos de _badine_ na mo, vergastando as hervas do caminho. Deve ser
sublime aquella coragem, e pena tenho de a no possuir.

O caminho que eu e M^{r.} Coillard seguamos  povoado de feras, e o
valoroso Francez dispunha-se a passal-o szinho e desarmado, se eu no
teimasse em o acompanhar.

Madame Coillard, em cuidados por nos ter deixado atrs, fez parar os
vagons e esperou por ns, que a encontrmos depois de trs horas de
marcha.

Segumos logo, indo acampar,  uma hora da noute, junto do ribeiro Cane.

Logo de manh, appareceu o meu Augusto com as cabras perdidas, que elle
encontrara de noute. Segumos s 7 horas, a travez de um paiz montanhoso
e coberto de luxuriante vegetao, offerecendo a cada passo panoramas
lindos.

As montanhas correm a S.O., e todas as guas, se as houvesse, deviam
correr a leste.

Depois de duas grandes jornadas, fomos acampar junto do leito sco de um
ribeiro chamado Letlotze, onde podmos encontrar gua n'um pequeno po.
Foi decidido que passaramos ali o dia immediato, que era Domingo, dia
em que a familia Coillard no viajava.

Logo na madrugada seguinte, fomos sobresaltados por uma desagradavel
noticia.

Os bis tinham ido de noute ao charco encontrado na vspera, e tinham
esgotado completamente a proviso d'gua com que contvamos.

[Figura 127.--Os Desfiladeiros de Letlotze.]

Mandou-se  descoberta, e foi o meu Catraio quem, depois de longas e
demoradas pesquizas, encontrou alguma gua muito longe do acampamento.

O sitio em que estvamos era lindissimo, e passmos ali um agradavel
dia.

A 30 de Dezembro, posmo-nos a caminho ao alvorecer.

Eu, que acordei n'sse dia de pssimo humor, estava possuido de uma
verdadeira raiva, e nunca cheguei a sentir tanto dio a alguem como
ento senti por aquellas damas, pelo missionario, por tdos que me
rodeavam.

Aquelle estado do meu esprito atribulado exacerbou-se ao ouvir, que
M^{r.} Coillard desejava fazer uma grande jornada n'aquelle dia.

Effectivamente, entestmos com os desfiladeiros de Letltze, e
caminhmos 25 kilmetros sem parar.

Parmos emfim, e procurei logo afastar-me do acampamento, para no fazer
alguma loucura. Depois de um passeio nos arredores, voltei, e ao
aproximar-me do campo por entre os arbustos, vi Madame Coillard, que
falava com Mademoiselle Elise com modo contristado.

No podia ouvir o que diziam, mas o que vi foi bastante para perceber do
que se tratava.

Mademoiselle Elise tinha na mo a lata do ch, Madame Coillard um pires.
Foi despejado no pires tdo o contendo da lata, e divido em duas partes,
uma das quaes volveu para a lata, outra entrou no bule.

Era o ltimo ch de Madame Coillard. Compungio-me tanto o ver o
sentimento que se lia no rosto de uma dama Escoceza ao servir o seu
ultimo ch, que o meu mao humor cahio por terra, e cahio para sempre,
porque no mais volveu.

Ainda n'sse dia jornademos por trs horas, indo acampar s 7 e meia em
sitio sco.

A nossa viajem foi sempre plos desfiladeiros de Letltze, onde um sulco
profundo serpea em apertadas curvas, mostrando o leito sco de um rio do
mesmo nome. Sete vzes atravessmos aquelle sulco, com grande risco dos
vagons que se precipitavam das suas escarpas profundas e inclinadas.

As montanhas que coram aquelle desfiladeiro sam bellas, e a serra
apresenta um dentado original.

A 31 de Dezembro, depois de uma jornada de duas horas, entrvamos em
Xoxom (_Shoshong_); a grande capital do Manguato.

s 8 horas eu comprava um saco de batatas e outro de ceblas; encontrava
um Stanley (que no  H. M. Stanley, mas de quem terei que falar muito);
e s 11 horas comia um ptimo almo de batatas com presunto, um
magnfico _beef-steak_, e apertava a mo do rgulo Cma, o indgena mais
notavel da frica Austral.

Madame Coillard ja tinha nova proviso de ch.




CAPTULO IV.


NO MANGUATO.

     Doena grave--Um Stanley que no  o Stanley--O Rei Cama--Os
     Inglezes em frica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor--Os
     Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros--Despedidas--Parto
     para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--Pararm os
     chronmetros?


Com o alvorecer do dia primeiro de Janeiro vi eu comear em frica um
nvo anno.

Havia dze mzes que n'sse mesmo dia eu tinha deixado Quilengues, e
feito uma grande marcha para o interior, ainda convalescente da primeira
grave doena que tive em frica. Em Xoxom, um anno depois, o Dia de
Anno-Bom devia ser para mim um dia de descano, e a vspera da ltima
perigosa enfermidade que me ameaou a vida n'aquella longa e fadigosa
jornada.

Passei entre a familia Coillard aquelle dia festivo, na casa meia
arruinada que pertencra ao missionario Mackenzie, e que ns fomos
occupar.

No dia 2, fui  cidade, ao bairro Europeo, e em uma das casas Inglezas
dram-me um magnfico xaruto, um _puro Londres_. Ha quanto tempo eu no
via um xaruto, e com que prazer aspirei o cheiro delicioso do tabaco
Havano!!

N'sse dia apparecram-me os simptomas de uma febre perigosa.

A doena tomou um caracter assustador, e at ao dia 7 estive entre a
vida e a morte. Os carinhos e desvelos que me dispensou Madame Coillard
no se podem descrever, e de certo a ella devi outra vez o no ter
morrido n'aquellas inhspitas paragens.

A 7 melhorei bastante, e pude receber a visita de Stanley. Stanley  um
fazendeiro do Transvaal. E Inglez, mas casou em Marico com uma Ber.

Viera a Xoxom vender batatas e ceblas, eu comprei-lhe um saco de cada
coisa, e aluguei-lhe o vagom para continuar a minha viagem.

N'aquelle dia pude falar largamente com elle e conclumos o contrato.

Por esse contrato o vagom ficava ao meu servio, bem como elle, que
seria apenas o _driver_ (conductor), devendo obedecer-me em tudo e por
tudo.

O homem tambem impoz uma condio que aceitei, e foi, a de passarmos por
sua casa, para que a mulhr o no julgasse comido pelos lees.

Stanley disse-me logo, que no iria lm de Pretoria, porque tinha um
filho pequenino longe do qual no podia viver. Tive de transigir no
contrato com os affectos paternaes do fazendeiro Transvaaliano.

Stanley  homem de trinta annos, alto, barba e cabello muito louro,
physionomia vulgar e nada enrgica, um typo completamente opposto ao seu
homnymo o grande Stanley. No era sem um certo acanhamento que eu o
tratava por aquelle nome.

Depois de longa conferencia, ficou decidido que elle estivesse prompto a
partir no dia 13, retirando-se em seguida to satisfeito comigo como eu
ficara com elle.

O Manguato, ou paiz dos Bamanguatos, occupa na frica Austral uma rea
que se no pode precisar bem, to vasta  ella.

Ao Sul do Zambeze e ao Norte do parallelo 24, a frica  dividida, de
mar a mar, em trs grandes raas superiores e distinctas.

A leste, os Vatuas ou Landins, cujo chefe  Muzila. Em seguida, os
Matebeles ou Zulos, cujo chefe  Lo-Bengula.

A oeste, os Bamanguatos, cujo chefe  Cama.

Muitos, grandes e pequenos grupos, de raas inferiores, estam sujeitos a
estas trs raas dominantes, e incontestavelmente superires s outras.

Taes sam entre os Matebeles os Macalacas, entre os Bamanguatos os
Massaruas.

lm d'estas, outras castas formam aqui e lm pequenos grupos, e as
povoaes dos juncaes da Botletle, e do Ngami, sujeitas ao rei Cama, e
os Baniaes e outros povos de leste sujeitos a Lo-Bengula, sam de
differente origem.

Estes trs grandes potentados sam inimigos,[8] e usam bem differente
poltica.

Cumpre-me aqui s falar de Cama, e por isso deixarei em silencio o que
poderia dizer dos outros dois poderosos rgulos, cujos paizes no
visitei.

O Manguato era, ha poucos annos, governado por um velho imbecil e
brbaro.

Era o pai de Cama.

Cama, Christo convicto, educado pelos Inglezes, homem civilizado, de
elevada intelligencia e superior bom-senso, no podia ter as bas graas
de seu pai, e ainda que primognito, e por isso herdeiro legal do poder,
soffria uma guerra sem trgua do velho imbecil, que trabalhava para
fazer seu successor a seu filho segundo Camanhane.

Cama, querendo evitar as intrigas que em Shoshong (_Xoxom_) lhe moviam
os inimigos, retirou-se prudentemente para a Botletle; mas em caminho
tdo o seu gado foi disperso pela sde, e reunido pelos Massaruas foi
levado a seu pai.

Cama reclamou o que era seu e lhe foi negado, tendo por nica resposta,
que o fsse elle mesmo buscar a _Shoshong_, que ali lhe cortariam a
caba.

Elle replicou, que iria, e marcou o como da primavera seguinte para
isso, avisando que estivessem preparados para o receber. Effectivamente,
apresentou-se no Manguato  frente de uma respeitavel fra reunida na
Botletle e no Ngami, e tendo batido em differentes combates a gente de
seu pai, tomou a cidade de Xoxom pouco depois.

Foi acclamado rgulo, e seu pai depsto. Entregou a seu pai tdo o gado
e riquzas que lhe pertenciam; deu ba esmola a seu irmo Camanhane,
mandando-os viver para o sul junto de Corumane.

Um anno depois, Cama chamava seu pai e seu irmo para junto de si, e
fazia-lhes os maiores beneficios.

Todavia o pai e o irmo, logo que se achram vivendo na capital,
conspirram contra o generoso rgulo, que, desgostoso por se ver
envolvido em novas intrigas, entregou o govrno a seu pai, e retirou-se
para o Norte.

Os Bamanguatos porem tinham apreciado o govrno sabio de Cama, e no
podiam aturar outro rgulo; o que deu logar a que fssem em massa buscar
o filho e de nvo deposessem o pai. Este quiz retirar-se para Corumane e
levou Camanhane comsigo, mas Cama, sabendo da pobreza em que estavam,
ainda os encheu de beneficios.

Esta ltima scena da historia do Manguato passou-se sete annos antes da
minha estada ali, e desde ento o poder de Cama consolidou-se
completamente.

Cama, nas guerras que sustentou com os seus e com estranhos, adquirio
reputao de grande capito.

No tempo em que estive em _Shoshong_, Camanhane ja vivia ali, ainda que
no tem a menor ingerencia nos negocios pblicos. Cama perdoou-lhe,
chamou-o para junto de si e enriqueceu-o.

Ao contrario de tdos os governos indgenas d'frica, o de Cama no 
egoista. Antes de pensar em si mesmo pensa elle primeiro no seu pvo.

Uma grande parte d'sse pvo  Christ, e tdos andam vestidos 
Europea.

Nem um s Bamanguato deixa de ter espingarda, mas no se v nunca um
homem armado n'aquelle paiz, fora das florestas.

Cama nunca traz armas. Vai repetidas vzes ao bairro missionario, que
fica a dois kilmetros da cidade, e volta por noite fora, s e
desarmado.

No ha outro chefe em frica que o faa.

Tem este rgulo 40 annos, ainda que parece muito mais nvo.  alto e
robusto, mas a sua physionomia inculca pouco.

Tem modos distinctos, e o seu trajar  Europea  apurado e de um aceio
exquisito. Como tdos os Bamanguatos,  destro cavalleiro, bom atirador
e afamado caador.

Quasi tdos os dias Cama almoava comigo em casa de Madame Coillard, e
sentava-se  mesa com os modos e distinco de um cavalheiro Europeu.

Cama  muito rico, mas a sua riqueza  partilhada plo seu pvo.

Ha annos, veio um flagello aos campos Bamanguatos, e sobreveio a fome,
mas o pvo de _Shoshong_ no a sentio.

Cama comprou cereaes em tda a parte, s em uma semana gastou cinco mil
libras esterlinas, mas a sua gente tve de comer.

 bello ver a respeitosa amizade com que tdos o saudam quando passa nas
ruas. No  o cortejar a um rei,  o saudar a um pai.

Elle visita as casas dos pobres e as dos ricos, e a tdos anima ao
trabalho.

Os Bamanguatos trabalham muito.

Nos campos ajudam as mulheres no amanho das terras, e ja empregam a
charrua importada de Inglaterra.

lm de grandes cultivadres, sam pastres e t[~e]m muitos gados.

Em casa trabalham a curtir pelles e a cosel-as com nrvos de antlopes,
fazendo ricas coberturas que usam no inverno.

No tempo da caa sam caadores, e as abestruzes e os elephantes sam
perseguidos por elles.

Em tdos stes misteres sam animados plo seu chefe, que os visita, ja
nos campos, ja no labutar domstico.

Sam muito amigos dos Europos, e aquelle que chga ao Manguato est to
seguro como na Europa.

Cama anda sempre s, e quando, muito  seguido por dois criados
acavallo. Elle anda sempre acavallo.

Como no meio de tantos povos brbaros se acha um to differente
d'elles?

Deve-se isso aos missionarios Inglezes, e no posso deixar no escuro os
seus nomes. Trs homens trabalhram n'aquella grande obra.

Com a mesma imparcialidade com que at aqui tenho falado dos prtos, vou
agora falar dos brancos, e se no deixo de convir que muitos
missionarios, e muitas misses Africanas, sam estereis, ou antes
contraproducentes, preciso admittir, por factos que vi, que outras dam
verdadeiros resultados, plo menos apparentes.

O homem  fallivel, e tirado do meio social em que foi creado, privado
dos confrtos que lhe conchegram a infancia, perdido, por assim dizer,
no meio dos povos ignaros da frica, habitando um clima inhspito,
comprehnde-se que sffra uma profunda modificao no seu esprito.

Esta deve ser a regra geral que tem excepes. As excepes sam os
homens verdadeiramente fortes, aquelles que apoiam a sua moral
n'aquellas _flres d'alma_ que to bem descriptas fram plo grande
poeta da Beira, aquellas _flres d'alma_ que dam o olvido ao mesquinho
plo amor trahido, que dam confrto ao nufrago quando a esperana de
alcanar a terra se perde, s quaes se encommenda o monje ao soffrer o
martyrio dado pelos brbaros onde foi levar a civilizao.[9]

Os homens que as possuem, podem, entregues a si mesmos, caminhar vante
e attingir um fim sublime; mas estes homens sam verdadeiras excepes. A
materia  fraca, e mais fraco ainda  o esprito humano.

Se assim no fra, dispensavam-se as leis e os govrnos, e a sociedade
estaria constituida em outras bases.

Bastavam as _flres d'alma_ para governarem o mundo.

As paixes a que est sujeito o homem levam muitas vzes o missionario,
que  homem e fraco por ser homem, a seguir um caminho errado.

A luta entre cathlicos e protestantes nas misses Africanas sam um
exemplo d'isso, sam a demonstrao incontestavel de que as paixes ms
podem actuar no missionario como em qualquer outro mortal.

Os missionarios protestantes (os maos ja se entende) dizem ao prto, que
"o missionario cathlico  to pobre que nem tem com que comprar uma
mulhr!" aviltando assim o homem; que to aviltado  o pobre entre os
povos Africanos como entre os Europeus.

Por outro lado, os cathlicos empregam toda a sorte de traa para
desvirtuar os protestantes. D'essa luta nasce a revolta, e produz-se a
esterilidade de muitas misses, onde concorrem missionarios de crenas
diversas. Falei n'isto incidentalmente para mostrar, que os missionarios
tem paixes e erram. Essa  at a regra geral.

Ao sul do trpico o paiz est coberto de missionarios, e ao sul do
trpico a Inglaterra sustenta uma guerra constante com as populaes
indgenas.

 porque o mao trabalho de muitos desfaz o que alguns construem de bom.

Deixemos porem em paz os maos, e falemos dos bons.

Dizia eu, que trs homens trabalhram na obra da civilizao relativa (e
para mim apparente) do Manguato.

Digo apparente, porque estou convencido de que o rgulo que substituir
Cama, se no quizr admittir o missionario, levar com-sigo a populao
inteira, que no hesitar entre a doutrina de Christo, que no entende,
e o serralho que lhe delica a lascivia; que no hesitar entre o padre
e o rgulo.

Mas essa civilizao do Manguato  hje notavel a tdos os respeitos, e
o primeiro homem que trabalhou n'ella foi o Rev. Price, creio que o
mesmo que ultimamente foi encarregado da misso de Udjidji no Tanganika,
e que to infeliz foi na primeira viagem. O segundo foi o Rev.
Mackenzie, o actual missionario de Corumane; e o terceiro aquelle que
ainda hje prega o Evangelho aos Bamanguatos, o Rev. Eburn; que eu no
tive a honra de conhecer, por estar ausente em viagem de misso, mas
cujas qualidades pude apreciar pelas suas obras que vi, como plo
respeito que lhe tributam indgenas e Europos.

 com o maior prazer que cito estes nomes dignos, e merecedores de serem
apontados como exemplos aos trabalhadores da civilizao Africana; 
tanto maior a minha satisfao fazendo-o, que no conheo pessoalmente
nenhum d'estes distinctos cavalheiros.

Shoshong (_Xoxom_)  a capital do Manguato.

O valle de Letlotze alarga para o sul, tomando uma largura de trs
milhas, e continuando a ser enquadrado por altas montanhas.  no valle
encostada s montanhas do Norte que assenta a cidade dos Bamanguatos,
cidade populosa de 15 mil almas, e que em tempos do pai de Cama chegou a
contar trinta mil.

As montanhas rasgam-se ali para deixar passar uma torrente que se forma
nos tempos chuvosos, e que divide um bairro da cidade.  no fundo d'essa
garganta, mesmo, por baixo das altas montanhas de rochas ridas cortadas
a pique, que os missionarios estabelecram as suas vivendas.

O sitio foi pessimamente escolhido, porque  hmido e insalubre.

Provavelmente, a falta d'gua (falta d'agua, que se faz cruelmente
sentir em Shoshong) determinou aquella esclha, fazendo aproximar os
missionarios ao leito do ribeiro, onde na estao estiva alguns poos
fornecem gua  populao sedenta da cidade de Cama.

As casas em Shoshong sam construidas de canio e clmo, sam cilndricas
com tectos cnicos. Estam divididas por bairros, e um labyrintho de ruas
estreitas e tortuosas lhes d accesso.

No bairro missionario existem as ruinas da casa do Rev. Price, a casa do
Rev. Mackenzie muito deteriorada, onde eu habitei, e a igreja
abandonada, por ser pequena para conter a multido que concorre aos
officios divinos.

Isto a oeste, ou na margem direita do crrego. A leste, ou na margem
esqurda, uma edificao nova, melhor situada do que as outras,  a
residencia do actual missionario. Todas estas edificaes sam de tijolos
com tecto de ferro estanhado.

[Figura 128.--Ruinas da casa do Rev. Price (Xoxon).]

Do lado oppsto da cidade, em planicie livre, est situado o bairro
Europo, e as casas de tijolos mostram as moradas dos negociantes
Inglezes.

N'uma d'essas casas, a de M^{r.} Francis, ha um po que fornece gua 
colonia Britnica.

Os Inglezes em frica no sam como os povos dos outros paizes, e por
isso vam mais longe do que elles, ainda que o seu temperamento e a sua
ndole estam muito longe de igualar a dos povos da raa Latina, em bas
condies para resistir ao clima e associar com o gentio.

Um Inglez decide ir negociar para o serto, mete em um vagom tda a
familia e tdos os havres, e parte.

Chga, edifica logo uma casa, rodea-se de tdas as commodidades que pode
ter, e diz com-sigo: "Eu vim aqui para fazer fortuna, e se a no fizr
em tda a minha vida, tenho de passar aqui essa vida. Procuremos pois
passal-a bem."

No pensa mais na Inglaterra, esquece o passado e olha s para o
presente e para o futuro. Nostalgia nenhum tem.

Outros ha, e muitos, de classe inferior, que no querem mesmo voltar 
patria, e que se estabelecem logo para sempre.

N'isto consiste a sua fra colonizadra. Outra cousa que os Inglezes
fazem logo  introduzir a libra esterlina em toda a parte.

Chga um indgena com marfim, pelles, pennas, ou outro gnero do
commercio, e quer plvora, armas, etc. Os Inglezes no entendem
permutaes directas. Dam-lhe o valor em libras, e vam vender-lhe ao
outro lado do armazem o que o gentio carece.

Ao principio custa; mas o indgena vai-se habituando, vai conhecendo a
vantagem do dinheiro, e depois ja no quer outra cousa. O negociante
assim sabe bem o negocio que faz. Ha no Manguato um negociante Inglez,
de que terei que falar muito ao diante, M^{r.} Taylor, que ja chegou a
introduzir em Shoshong o papel de crdito.

Ltra passada por elle  recebida plo chefe Cama e por muitos gentios
ricos.

Depois d'ste rpido esbo que acabo de fazer do Manguato, no posso
deixar de falar na minha posio em _Shoshong_, que era verdadeiramente
crtica.

Tinha a fazer uma grande viagem para alcanar Pretoria, o ponto mais
prximo onde poderia alcanar meios de uma autoridade Europea; tinha de
pagar dvidas ja feitas com a sustentao da minha gente, estava sem
roupa; os meus prtos, cobertos de andrajos, pediam-me algumas jardas de
panno para se vestirem, e eu no tinha dinheiro algum.

M^{r.} Coillard offerecia-me a sua bla, mas bem precisa lhe era ella
para que eu ousasse aceital-a. Queria mesmo saldar algumas dvidas que
com elle contrahira, por saber que elle tinha a fazer ainda uma longa
viagem, e no lhe sobejarem os meios.

O meu embarao era grande, e tristissima a minha posio.

Eram estas as minhas circunstancias, quando, no dia 8, acompanhei Madame
Coillard a fazer uma visita  familia Taylor.

M^{r.} Taylor tem sido um grande viajante, ja estve no Zambeze, conhece
tdo o Transvaal, a Colonia do Cabo e todos os paizes do sul d'frica.

Estabelecido definitivamente no Manguato, a sua casa  uma das primeiras
casas commerciaes de _Shoshong_. S em marfim a sua exportao ora por
trinta mil libras por anno. M^{r.} Taylor  homem srio e de grande
crdito.

M^{r.} Taylor era casado, havia trs annos, com uma joven e formosa
Ingleza, de cabellos e olhos prtos.

Dotada de uma educao esmeradissima, Madame Taylor embalsama o ambiente
que a cerca com esse perfume que envolve toda a mulher de sociedade.

Junto d'ella, n'esse dia, cheguei a esqucer-me de que estava no remoto
serto Africano, para me julgar transportado a um salo do West-End em
Londres.

A conversao estabeleceu-se entre mim, Madame Taylor, Madame e
Mademoiselle Coillard, e veio a pello falar-se da minha prxima viagem.

Disse-se, que me era impossivel viajar n'aquelle paiz sem um cavallo, e
a propsito d'isso, M^{r.} Taylor convidou-me a ir ver os seus. Chegados
 cavallaria, elle apontou-me para um magnfico corredor do deserto,
castanho claro com cabos prtos, e disse-me: "Eis o cavallo que lhe
convem para viajar e caar."

Eu conheci logo o grande valor do animal, que plas cicatrizes midas e
redondas assignaladas sbre os curvilhes, me mostrava ter tido a
_horse-sickness_, e estar por isso  prova, sendo o que ali se chama um
cavallo _sal_. As outras qualidades eram reveladas pelas pernas finas e
nervosas, apresentando uma musculatura desproporcional, pesco longo e
pouco guarnecido de clinas, olhar vivo e intelligente, caba sca e
elegante, e abundantissima cauda. Ficram me os olhos n'aquelle bello
animal, e triste disse a M^{r.} Taylor, que no tinha dinheiro para lh'o
pagar. "_Yes_, me disse elle, _it is a valuable horse_" (Effectivamente,
 um cavallo de grande valor).

Voltmos  sala, e eu no pude deixar de falar s damas do formoso
animal que acabava de examinar.

Pouco depois voltvamos a casa, e plo caminho Madame Coillard mostrava
a maior afflico pla minha falta de recursos, em quanto M^{r.}
Coillard redobrava de offerecimentos sinceros da sua ja magra bla.

As noutes que passvamos na casa do Rev. Mackenzie eram horriveis.
Aquella casa deshabitada ha muito, estava cheia de insectos asquerosos,
que nos sugavam o sangue, roubavam o sono, deformavam as feies e
atormentavam a paciencia. Eram milhes de carrapatos e milhes de
persovejos.

Umas carraas semelhantes s dos ces no sul da Europa, castanhas e
chatas, mas que depois de saciadas tomavam a forma esphrica e uma cr
esbranquiada, produziam inflammaes horriveis no sitio onde mordiam.
Era um supplicio indescriptivel aquelle. Depois de uma d'estas pssimas
noutes, Madame Coillard tinha-me mandado chamar para o almo, e ja
amos para a msa, quando se fez annunciar M^{r.} Taylor.

Dirigio-se a mim, e com esse ar frio e seriedade de tdo o legitimo
Inglez, disse-me, que me vinha trazer o cavallo castanho que eu tinha
admirado na vspera, duzentas libras que eram tdo o ouro que n'aquelle
momento tinha em caixa, e me offerecia ainda o seu crdito, tanto junto
dos outros negociantes do Manguato, como em Pretoria, se eu carecsse
d'elle.

Declaro que cahi das nuvens com tal offerecimento nem de leve
sollicitado, e que apenas pude balbuciar algumas palavras banaes de
agradecimento; de tal modo fiquei commovido.

M^{r.} Taylor almoou com-nsco, e em seguida eu acompanhei-o a sua
casa.

Montava ja o sobrbo cavallo, e sentia essa sensao de prazer que tdo
o cavalleiro sente ao montar um formoso animal, sbre tudo quando est
privado d'esse prazer ha muito tempo.

Falmos largamente dos meus negocios, e eu no aceitei o dinheiro,
contentando-me com o cavallo que me era muito preciso, e admittindo que
elle pagasse as minhas dvidas ja contrahidas em despsas de viagem, que
montavam a cento e oito libras, e sacasse sbre mim em Pretoria, onde
contava haver dinheiro do govrno Inglez.

M^{r.} Taylor, por um requinte de delicadeza, sacou a dois mzes de
vista sbre o meu aceite que devia ter logar em Pretoria.

A 10 de Janeiro acabava eu de pr em dia os meus trabalhos, e
preparva-me para a partida.

No posso deixar de citar aqui os nomes de M^{r.} Benniens, M^{r.}
Clark, e M^{r.} Musson, que me dispensram os maiores favres e
coadjuvram a minha partida; estando eu certo de que, sem o anticipado
cavalheirismo de M^{r.} Taylor, teria encontrado n'elles o apoio
monetario de que carecia.

Em vista dos favres que ali recebi de estranhas gentes, no pude deixar
de lanar um golpe de vista ao passado, e recordar-me de Caconda e do
Bih.

O parallelo que estabeleci entre o apoio que encontrei nos sertes
concorridos por Portuguezes e Inglezes, veio mais uma vez confirmar a
minha opinio, sbre a qualidade das gentes que de Portugal vam aos
sertes Africanos.

Tenho viajado muito e conho muitos povos. Nenhum vi ainda to
hospitaleiro e to bondoso como o Portuguez.

Quantas vzes, nas minhas caadas, eu tenho ido bater s portas dos
aldees das nossas serras, e sempre as tenho visto abrir de par em par
ao forasteiro que pede um abrigo. O pobre aldeo reparte com o hspede o
melhor da sua ceia, e da enorme caixa enfumada sahe o melhor do seu
bragal para a cama do desconhecido. Subindo da cabana do pvo rude s
casarias do lavrador abastado, e d'ahi s habitaes solarengas, em
tdas vemos revelada a hospitalidade Portugueza n'uma simples indicao.
Tdas t[~e]m os quartos para hspedes. Quando um Portuguez edifica uma
casa, no pensa s na familia e nos seus, pensa tambem no forasteiro que
lhe pode vir pedir abrigo, e edifica para elle.  que para o Portuguez o
estranho que chga  recebido como familia, na choupana do pobre e no
palacio do rico. Este trao na vida material de um pvo que edifica
contando com o hspede, define a sua hospitalidade.  por isso que grito
bem alto, que no sam Portuguezes os homens que me recebram mal em
Caconda e no Bih.  por isso que eu verbero acerbamente o systema de
mandar para as colonias o que ha de mais baixo, vil e ignobil entre os
criminosos da Metrpoli.  ali que est uma das causas mais
determinantes do atraso de muitas das nossas ricas possesses. Ali est
o escolho em que esbarra muitas vzes a aco do govrno.

Em Caconda s encontrei estrvos  minha viagem. No Bih sses estrvos
recrescram, e no se limitram a exercer uma aco local;
acompanhram-me at ao Zambeze. Ali no Manguato s encontrei ba
vontade, s encontrei auxlio, e era quem mais podia fazer por mim.

Isto no se commenta.

Durante a minha estada em _Shoshong_, era ali a ordem do dia a morte do
Capito Paterson e dos seus companheiros no paiz do Matebeli.

Corriam verses differentes, mas todas concordes em que elles fram
assassinados por ordem de Lo-Bengula.

O Capito Paterson sahira de Pretoria encarregado de uma misso official
junto de varios rgulos Africanos; misso de que involuntariamente tive
conhecimento por um d'estes com quem elle tratou, e sbre a qual guardo
a maior reserva, plo respeito que me merecem todas as misses
particulares dos governos. Acompanhava-o M^{r.} Sergeant e alguns
serviaes, e no Matebeli reunra-se M^{r.} Thomas, joven Inglez, filho
de um missionario ha muito residente no Matebeli, e elle mesmo nascido
ali. O Capito Paterson, depois de tratar o que tinha a tratar com
Lo-Bengula, decidio ir ver a maravilha Africana, a cataracta de
Mozioatunia.

O joven Thomas pedio licena ao rgulo para acompanhar aquella
expedio, licena que lhe foi concedida.

Na vspera da partida porem, um dos favoritos do rgulo foi procurar o
mo Inglez, e disse-lhe em nome do seu chefe, que no acompanhasse o
Capito Paterson.

M^{r.} Thomas foi procurar Lo-Bengula, e perguntar-lhe porque lhe negava
a permisso antes concedida.

Lo-Bengula respondeu-lhe, que elle tinha sido criado pelos Matebelis, e
por isso era querido como um filho da tribu.

Que tinha um presentimento de que alguma desgraa poderia acontecer
quelles Inglezes, e por isso o aconselhava a ficar ali e a deixal-os
seguir ss.

M^{r.} Thomas disse-lhe, que no se importava com os presentimentos, e
foi.

No devia voltar como os outros dous Inglezes. O que se passou? Quem o
saber? S o terrivel Lo-Bengula.

Uns, diziam, que fram envenenados, outros mortos a tiro; mas eu, que
conheo o systema dos grandes potentados Africanos, duvido de que alguma
cousa certa se possa saber nunca; porque elles matam logo os executres
das suas sinistras ordens, e fcham o segrdo dos seus crimes em novas
sepulturas.

Tudo quanto se dizia para provar uma ou outra opinio eram razes,
talvez plausiveis, para quem no conhecesse a frica, mas para mim no.

Diziam, por ex., que os Macalacas que, por ordem de Lo-Bengula, os
tinham acompanhado, apparecram depois com gales e outros objectos
furtados aos Inglezes, o que provava que houvera assassinio e roubo.

Isto no provava nada; porque, se lles tivessem morrido de morte
natural, as suas bagagens seriam logo saqueadas.

Diziam outros, que, faltando a gua, o chefe da caravana Matebeli fra
explorar terreno szinho, e voltando muito tempo depois, indicara um
pequeno charco pouco distante, e que o Capito Paterson ao beber
d'aquella gua dissera, "_estou envenenado_." Quem veio contar isto, se
ninguem da gente d'elles escapou?

Noticias de origem Matebeli diziam, que elles tinham bebido gua de uma
laga naturalmente envenenada, e por isso tinham morrido tdos. Isto 
outro absurdo.

Tda a gua das lagas Africanas  veneno, mas no  veneno que mate
n'um dia como o arsnico e os saes de mercurio, ou como muitos
alcaloides vegetaes.

O veneno d'aquellas guas infiltra-se no organismo, deteriora-o
lentamente, pode matar com o tempo, porque  o miasma palustre e no
outra cousa; mas no destroe a vida algumas horas depois de absorvido, e
caso produzisse esse effeito em uma organizao especial, no o produzia
de certo em tanta gente.

Assim, pois,  tambem inverosimil a verso do envenenamento natural.

Outros affirmavam, que elles fram traioeiramente fusilados; alguns
diziam, que fram mortos a azagaias. Quem trouxe a nova?

Parece que houve crime, porque no  possivel que a febre matasse n'um
dia tanta gente, e entre ella, gente aclimada no paiz, como o joven
Thomas e os indgenas; parece que houve crime, mas se o houve o segrdo
ficar entre Deos e Lo-Bengula.

Um dos viajantes Africanos que me merece mais crdito, M^{r.} Franois
Coillard, que ainda se demorou muito em _Shoshong_ depois da minha
partida d'ali, assegurou-me na Europa, muito tempo depois, que o rei
Cama conhecia o segrdo da morte d'aquelles infelizes, e deixou-me
perceber, que um crime horroroso fra praticado por ordem do malvado
Zulo.[10]

A 11 de Janeiro, havia na casa derrocada que habitvamos um labutar
incessante. Eram Madame e Mademoiselle Coillard a preparar-me provises
para a viagem. Faziam biscoutos com prdiga largueza.

Como poderei eu jmais agradecer tantos favres? N'aquelle dia tambem
recebi presentes de Madame Taylor. Um grande aafate de _cakes_ e um
cestinho de ovos, cousa bastante rara em _Shoshong_.

No dia immediato estava prompto a partir, mas decid seguir viagem no
dia 14, no querendo deixar _Shoshong_ a 13.

Eu no tenho preconceitos, nem antipathias com nmeros, mas d'essa vez o
embirrar com o 13 foi desculpa dada a mim mesmo, para me demorar mais um
dia com essa ba familia a quem tanto devia.

Pude ali alcanar alguns cobertres de pelles, d'aquelles que os
Bamanguatos fazem para seu uso, e que sam cosidos com nrvos de
antlopes.

Plas minhas observaes achei uma differena enorme na posio de
_Shoshong_, marcada em uma carta de Marenski que possuia M^{r.}
Coillard.

No dia 13 fiz as minhas despedidas aos negociantes Inglezes, exceptuando
M^{r.} Taylor, que estava ausente a seis milhas de Shoshong, no seu
psto de gado.

Apesar d'o meu caminho ser ao sul, e o psto de gado de M^{r.} Taylor ao
norte, decidi ir la no dia 14 fazer as despedidas a quem tanto me
obrigara.

Effectivamente, n'sse dia de manh, segui para la. As damas Coillard e
Madame Clark partram adiante em uma carriola puxada por dois cavallos.

Eu sahi muito depois, em companhia do rgulo Cama e de M^{r.} Coillard.

Eu, n'esse dia, tinha de fazer a primeira jornada no caminho de
Pretoria, e essa jornada era de dze milhas, para poder alcanar gua
potavel, o que, com outras dze que eu ia andar de manh, perfazia um
total de 24, o que  um pouco forado n'aquelle clima.

Segumos pois acompanhados de dze cavalleiros Bamanguatos.

Logo que deixmos as ruas da cidade, o chefe Cama deu de esporas ao
cavallo e partio, mo baixa. Depois de uma corrida vertiginosa de meia
hora, passou elle ao galope. Perguntei-lhe para que era aquella pressa?
e elle respondeu-me, que era assim que se andava no Manguato, e que os
cavallos descanavam bem no galope, para darem outra corrida. Disse-lhe,
que tinha razo, mas que o meu cavallo tendo de fazer uma grande marcha
n'esse dia, talvez no entendsse isso como elle. Que no queria ir de
encontro aos hbitos dos cavalleiros Bamanguatos, mas que me desse elle
um dos seus cavallos, e mandasse o meu para _Shoshong_, onde eu o
encontraria frsco para a jornada d'esse dia.

Mandou Cama logo apear um dos seus que voltou  cidade com o meu _Fly_,
em quanto eu montava uma gua magnfica que elle deixava.

Segumos a toda a brida, e d'ahi a pouco estvamos no psto de M^{r.}
Taylor.

Tnhamos gasto cincoenta e cinco minutos! Madame Taylor fez-nos servir
um magnfico lunch, e depois das mais cordiaes despedidas voltmos a
_Shoshong_.

O systema da volta foi o mesmo da ida, brida e descanar no galope!

Os Bamanguatos no usam freios nos cavallos, e apenas os dirigem com um
brido Inglez. Dizem elles que os freios e as barbellas no deixam
correr os cavallos.

Chegmos em um momento a _Shoshong_.

Stanley estava prompto a partir, e s esperava o meu signal. Dei-lhe
esse signal, e elle fez estalar o longo chicote por sbre as cabas dos
bis, que se posram lentamente a caminho, arrastando o pesado vagom.
Com elle fram os meus prtos,  excepo de Augusto e Ppca, que
ficram comigo. Passei ainda algumas horas com as damas Coillard, mas
era forso deixal-as, e fazendo soberanos esforos para occultar a
minha commoo, disse-lhes um ltimo adeos, saltei sbre o cavallo e
parti.

Tive a coragem de no me voltar em quanto as podia ver!

O sol desapparecia ja no horizonte quando deixei _Shoshong_.

Segui o caminho que me foi indicado, e trs horas depois, entendi que
estava no ponto onde devia pernoitar, mas o vagom no apparecia. Era
tarde da noite, e noite de trevas profundas.

Chamei, gritei, e ninguem respondeu. Poucos momentos depois,
apparecram-me dois indgenas. Eram vedtas de Cama, que receioso de um
ataque nocturno dos Matebelles, guarda a sua cidade com uma linha
contnua de sentinellas a muitas milhas de distancia. Estam estas
atalaias to bem dispostas, que podem soccorrer-se, e fazer um momento
face ao inimigo, em quanto alguns homens correm  cidade nos ligeiros
cavallos a dar o alarme.

Os dois homens que me apparecram acabavam de rondar os postos do sul, e
afianram-me, que, havia muitos dias, nem um s vagom tinha tomado
aquelle caminho; asseverando, que eu devia ter passado plo meu antes de
chegar ali.

Estava muito habituado  vida das florestas para que passasse, mesmo nas
trevas, plo vagom sem o ver, e se me escapasse a mim, no escaparia ao
meu Ppca, que tem olhos de lince.

Os dois Bamanguatos proposram-me o acompanhar-me a buscar o vagom e
partram comigo.

Depois de explorarmos uma grande parte do valle sem encontrarmos
vestigios da carroa, cahimos de nvo em _Shoshong_, desesperados,
acabrunhados de fadiga, e sem poder explicar o caso.

Eram altas horas, e que fazer? Resolvi ir bater  porta de M^{r.}
Coillard, e esperar o dia.

M^{r.} e M^{me.} Coillard levantram-se logo, e em quanto eu narrava o
acontecido ao missionario, Madame Coillard s pensava em me dar de comer
e em me preparar ba cama.

Eu at ali, como depois, dormia sbre a terra em umas pelles, a despeito
dos esforos de Madame Coillard em me querer dar uma cama; como as
minhas pelles tinham partido no vagom, ella n'essa noite aproveitou o
ensejo de se vingar da minha reluctancia, e fz-me uma cama Europea.

No podmos decifrar o enigma, e reservmos para o dia seguinte o
desvendar o misterio do desapparecimento do meu Stanley.

Eu, quebrado de fadiga, fui dar ba rao ao cavallo, e cahi extenuado
no leito.

Apesar do canao, no pude conciliar o sono, porque uma anciedade
horrivel me confrangia o corao.

Como ja disse, encontrei uma grande differena na posio de _Shoshong_
em longitude, e tdas as minhas observaes eram chronomtricas e
referidas  ltima observao que fiz do eclipse do primeiro satlite de
Jpiter. Essa posio nova s me podia ser confirmada, por uma nova
cotisao dos chronmetros em longitude determinada, e esses
chronmetros, que eu no sabia onde estavam por ignorar onde estava o
vagom, iam parar no dia seguinte por falta de corda.

A poucos ser dado comprehender o que eu soffri com esta ida.




CAPTULO V.


DE SHOSHONG A PRETORIA.

     Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.}
     Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nvo
     gnero--Chuvas--O Limppo--Fly--Caadas--No Ntuani--Um Stanley que
     no presta--Augusto furioso--Adicul--Os lees--Stanley desanima--Os
     Bers nomadas--Nvo vagom--Peripcias--Doenas graves--Um
     Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ltimo
     tmulo--Magalies-berg--Pretoria.


Mal se adivinhava o alvorecer da manh, e ja eu estava a pe e vestido.

Os chronmetros no se me tiravam da ida, e a preoccupao era grande e
motivada.

M^{r.} Coillard participava do meu sobresalto, e no me quiz deixar
partir szinho. Mandou pedir um cavallo ao rei Cama, e seguio comigo no
rasto do vagom.

Tive de fazer novas despedidas s damas Coillard, e novamente senti os
desgstos d'aquella separao.

Em breve eu e M^{r.} Coillard deixvamos _Shoshong_, e nos internvamos
no esteval que cobre os campos ao sul da cidade.

Seguamos o rasto do pesado carro, quando mui prximo divismos um ngro
sentado junto ao caminho. Ao acercar-nos d'elle eu conheci-o. Era o meu
muleque Catraio. Caminhou para mim, trazendo nas mos um objecto
volumoso, e ao abeirar-me, disse-me, "_Sinh_, d c as chaves para
tirar os relogios da mala, que sam horas de dar corda."

Exultei ao ver a mala dos instrumentos onde estavam os chronmetros, e
sem pedir ao muleque explicaes do desapparecimento do vagom, saltei do
cavallo, e entreguei-me s minhas observaes matinaes quotidianas.
Estava escrito que durante a minha longa jornada os meus chronmetros
no teriam nunca de parar!

Catraio, sempre vigilante por aquella obrigao, velava por elles.

O missionario ficou sorprendido com o cuidado do prto.

Ali, como em Embarira, Catraio tinha impedido os chronmetros de
pararem, como durante as minhas mais graves doenas o tinha feito.

Catraio fra educado por um Portuguez, que desde pequeno lhe conheceu a
bossa da velhacaria, e que tve o cuidado de lh'-a desenvolver 
pancada.

O muleque, perdida a vergonha, que talvez nunca tve, em breve perdeu o
mdo ao castigo, e fz-se bbado e ladro.

Seu amo, a quem elle chegou a fazer um roubo importante com arrombamento
de um cofre, isto aos dze annos, decidio desfazer-se d'elle para
sempre, e mandou-o deitar  margem em Nvo-Redondo.

Quando em Benguella eu procurava um muleque intelligente e ladino para o
meu servio particular, mais de uma pessa me falou em Catraio, que a
fama das tratantadas tornara conhecido.

Dirigi-me ao que fra seu amo, e consegui que elle o mandasse buscar a
Nvo-Redondo. Ao ver a physionomia expressiva e intelligente do prto,
fiquei satisfeito com o passo que dera chamando-o a mim. Catraio at ali
tinha sido levado  pancada, eu resolvi tratal-o por bons modos, nunca
lhe falei na sua vida passada, nunca lhe fiz uma recriminao.

Sendo elle o prto mais intelligente de todos aquelles que me cercavam,
eu incumbi-o de me ajudar nos meus trabalhos scientficos. Catraio, que
no sabia ler ou escrever, conheceu em poucos tempos todos os meus
instrumentos e todos os meus livros. Quando, separado dos meus
companheiros, me vi szinho em frica, tive uma grande apprehenso,
lembrndo-me que, durante uma doena, os meus chronmetros poderiam
parar. Chamei o Catraio e fiz-lhe o seguinte discurso edificante:

"Fica sabendo que de hje em diante, tdos os dias, logo de madrugada,
tu tens de te apresentar diante de mim com os chronmetros,
thermmetros, barmetro e caderno diario, isto esteja eu so ou muito
doente, longe ou perto, ficando tu na intelligencia, de que no tens
desculpa nas circunstancias mais extraordinarias, se o no fizeres.
Agora escuta-me bem. Nunca te bati como nunca te ralhei, mas, se os
chronmetros pararem por falta de corda, eu espto-te n'um enorme espto
de pao, e asso-te vivo nas brazas de uma enorme fogueira."

Catraio, que no acreditava muito que um branco fsse bom, e que
desconfiava mais da brandura do meu trato do que das pancadas habituaes,
julgou ter descoberto a minha maneira de castigar uma falta, e o espto
de pao e a fogueira aterrram-n-o.

Comeou a trazer tdas as manhs os instrumentos, a coisa foi passando a
hbito, e eis a razo porque, ainda nas minhas mais graves doenas, os
chronmetros tivram corda e fram comparados; eis a razo porque em
Embarira Catraio, com risco de vida, os foi empalmar aos Macalacas; eis
a razo porque ainda n'aquelle dia fram salvos de parar, porque elle,
vendo que eu no chegara na vspera, mesmo de noute se pz a caminho e
me veio encontrar  hora propria.

Livre da apprehenso que me torturava, tratei de interrogar o muleque
sbre o facto do desapparecimento do vagom, e soube que o Inglez se
tinha enganado, e tinha tomado um caminho transversal plo bom caminho,
mas que, logo ao alvorecer, partiria, e iria esperar-me no logar
ajustado para o encontro na vspera.

Eu e M^{r.} Coillard segumos no bom caminho, e s 9 horas encontrmos o
vagom.

Mandei fazer o almo, e ao meio-dia separei-me d'sse homem a quem
devia tanta gratido, e cujos favres sam d'aquelles que no se podem
retribuir nunca, porque tudo que por elle eu fizesse pesaria, em uma
balana justa, muito menos do que tudo o que recebi d'elle.

Parti immediatamente, e fui acampar s quatro horas, em sitio sem gua.

N'essa noute, quando ia a deitar-me, senti o galope de um cavallo, que
me chamou a atteno. O meu Fly rinchava, e os ces ladravam e
arremettiam para o lado de _Shoshong_.

Pouco depois, chegava ao meu campo um cavalleiro Bamanguato, e
entregava-me uma carta e um embrulho.

A carta dizia, que fra encontrada em casa a minha espingarda Devisme, e
M^{r.} Coillard apressava-se em mandar-m'a.

Escrevi-lhe algumas palavras de agradecimento, e remunerei o portador,
que voltou logo a tda a brida.

No dia immediato, 16 de Janeiro, parti  uma hora da madrugada,
alcanando s trs horas uma laga, nica gua permanente que existe
entre o Limppo e _Shoshong_.

N'esse dia ainda fiz duas jornadas, uma de trs outra de quatro horas,
acampando pelas cinco da tarde. Das quatro s dez da noute a chuva cahio
torrencial, inundou-me o vagom, cuja cobertura velha e esburacada nada
abrigava, e causou-me perdas sensiveis, sendo a maior, tdo o po e
biscoutos preparados por Madame Coillard, que ensopados n'gua se
tornram em massa no aproveitavel.

Na marcha ltima d'esse dia tive de alterar o meu rumo que era Sul, e
meti a S.E., para evitar os accidentes do terreno, que tornavam
difficilimo o rodar do vagom, e ameaavam despedaal-o a cada momento. O
vagom de Stanley era uma velha carriola, meio apodrecida e
desconjuntada, e que a cada passo parecia querer desfazer-se.

[Figura 129.--No Deserto.]

S s 8 horas do dia seguinte, depois de uma jornada de trs horas,
entrei no meu rumo, entrando no caminho abandonado na vspera. O terreno
continuava accidentado, mas era preciso seguir n'elle.

Ao descer uma eminencia, as rodas de um lado do vagom entrram n'um
sulco profundo, e o vagom tombou, ficando encostado a duas rvores que
lhe amparram a queda. Eu ja desconfiava que o meu Stanley no prestava
para nada, mas tive a convico d'isso no primeiro embarao que
encontrmos. O homem, ao ver o vagom tombado, sentou-se, fechou as mos
na caba e julgou-se perdido.

Mandei dejungir os bis, e fui estudar a maneira de levantar o carro sem
o despedaar. Augusto, Verissimo e Camutombo fram cortar trs fortes e
compridas estacas, que amarrei ao vagom e por meio de cordas dadas s
rvores do outro lado, consegui sustental-o na sua posio natural,
empregando para isso apenas uma junta de bis.

Em seguida, enchi o sulco com paos e folhagem, para que as rodas
d'aquelle lado podessem descanar ao mesmo nivel das do outro lado. Este
trabalho durou mais de quatro horas, e quando consegui pr o vagom em
estado de rodar e mandei jungir os bis, ao primeiro esfro que elles
fizram, a corrente tirante partio-se em bocados.

Nova demora, nvo trabalho a ligar os elos da corrente partida com tiras
de couro de girafa, isto debaixo de uma chuva torrencial, e o meu
Stanley sempre pasmado e sem saber o que havia de fazer.

Consegui partir s trs horas e meia, mas tive que parar logo depois,
porque o temporal recresceu, e o terreno argiloso encharcado no
permittia o rodar do vagom, que, muito abalado pla queda, se desfazia
em pedaos. A tempestade foi horrivel at s 10 horas da noute, e
durante duas horas, os raios cahiam muito prximos, lascando as rvores
da floresta. O terreno, sempre accidentado,  coberto de mata espssa,
que vegeta n'um solo de argila muito plstica.

[Figura 130.--Fly, o meu Cavallo do deserto.
(De uma photo. feita em Pretoria.)]

No dia 18, parti s seis da manh, e meia hora depois entrava n'uma
planicie completamente encharcada, e onde as rodas do carro se
enterravam na argila at aos cubos. Fazia-se um kilmetro por hora
n'aquelle terreno difficil.

s 10 horas pude alcanar uma pequena eminencia, mais enxuta, onde
parei.

Estava junto  margem esqurda do Limppo, conhecido ali plo nome de
rio dos crocodilos.

Fui logo ao rio, que tem ali 50 metros de largo, com uma corrente de 30
metros por minuto. No tinha meio de lhe avaliar a profundidade.

O tempo tinha melhorado, e eu, ao deixar o rio, segui parallelamente 
margem, deixando Fly ir a passo, as rdeas largas e pendentes.

De repente, o meu fino cavallo fitou as orlhas, rinchou e precipitou-se
de um salto no meio do esteval, comeando em uma carreira desenfreada.
Sem saber explicar o caso, sobresaltei-me e tentei sostel-o, mas elle
no queria obedecer ao freio.

Nada tranquillo e pensando que o nobre animal fugia por evitar um
perigo, estava perplexo, quando percebi diante de mim um rumorejar nas
estvas, e vi os cornos retrocidos de alguns _ongiris_.

Percebi tudo; eu no fugia, perseguia. Desde esse momento comecei a
ajudar o cavallo, que ganhava terreno sbre os ligeiros antlopes.

Quanto tempo durou aquella corrida vertiginosa no sei. Passei matas,
onde ficram os restos dos meus andrajos, com alguma pelle do meu crpo,
passei clareiras e planicies, onde os antlopes e cavallo se atascavam
em ldo. O cavallo ganhava terreno, mas lentamente, s tarde me acerquei
dos ongiris e pude atirar-lhes. Um cahio, e os outros seguram mais
ligeiros ainda, instigados plo mdo que lhes causou o estampido do
tiro.

Fly parou, e foi cheirar o animal, que se estorca nas vascas da morte,
com o mesmo prazer com que o faria um co de caa.

Onde estava eu? Onde me ficava o vagom? No o sabia; porque no sabia
a que rumos tinha andado.

Isso preoccupava-me um pouco, mas eu lembrei-me de caminhar a leste at
encontrar o Limppo.

A esse tempo, um enorme temporal cahio sobre mim. Era-me impossivel
carregar o antlope sbre o cavallo, porque no tinha fra para isso.
Decidi abril-o, e tirar-lhe os intestinos, a ver se ento o poderia
elevar do solo.

Bastante prtico no servio de magarefe, em breve conclu aquelle
trabalho.

A minha esperana no foi perdida, e pude, ainda que a custo, guindar o
animal sbre o aro, onde o amarrei.

[Figura 131.--Fly perseguindo os Ongiris.]

Puz-me a caminho para leste, mas Fly embirrou em querer caminhar ao
norte, e comecei a pensar que talvez o cavallo tivesse mais razo do que
eu, e deixei-o tomar aquelle rumo. Uma hora depois, avistava o vagom,
onde a minha gente no estava sem receios, pla demorada ausencia que
tive.

Era ja tarde, e estava extenuado de fadiga; por isso decidi ficar
n'aquelle ponto. Ao anoutecer, apparecram ali uns prtos do rgulo
_Sesheli_ que iam a _Shoshong_, e por elles escrevi ao missionario
Coillard, a prevenil-o do mao estado dos caminhos, e a dizer-lhe, que
no seguisse o meu rumo.

Durante a noute cahio uma horrorosa tempestade, e de nvo ficmos
encharcados. Apesar d'isso, a fadiga do dia trouxe o sono e dormi
profundamente, para acordar com uma dr horrivel no sangradouro do brao
direito. Levantei a manga da camisa, e fiquei trmulo ao ver um enorme
escorpio ngro que me picara o brao n'aquelle ponto mesmo, sbre a
artria brachial. Era impossivel sarjar sem ferir a artria, empregando
para isso a mo esqurda, com a qual sou pouco geitoso, e o receio de
aggravar a situao fazendo algum disparate, levou-me a decidir no
fazer nada. Em poucos minutos a inchao era enorme e as dres
violentissimas.

No maior desespro, tomei trs grammas de hydrato de chloral e cahi em
modrra.

Era alto dia quando sahi d'aquelle sono, provocado plo poderoso
anesthsico.

As dres tinham abrandado, e s existia uma inflammao local, com um
tumor do tamanho de uma ervilha no stio do ferimento, tumor que s
desappareceu mzes depois.

O engorgitamento dos tecidos era grande, e tolhia-me os movimentos.

Apesar d'isso, ainda fui caar n'sse dia, e tanta caa encontrei que
resolvi ficar ali. Matei dois leopardos.

A noute foi de tempestade, e os insectos torturram-me.

Alguns lees rondram o campo, e fizram-nos estremecer com os seus
rugidos estridentes.

Segumos s 8 horas do dia 20, mas o terreno argiloso, encharcado da
chuva, pegava-se s rodas do vagom, e formava blocos que as impediam de
girar, sendo a cda momento preciso tirar-lh'-os a machado.

Foi um fadigante labutar, e s 10 horas parei, porque estvamos todos
extenuados de fadiga. A chuva cahia forte, e s podmos de nvo por a
caminho o vagom s 2 horas, parando s 4 e meia junto do rio Ntuani.

Ao chegar ali, uma triste decepo nos esperava. O rio Ntuani, que  um
riacho sem importancia, e quasi sempre sco, tinha 60 metros de largo, e
deu-me, nas sondagens que fiz junto  terra, 7 metros d'gua.

Impossivel era atravessal-o com um vagom, antes de muito tempo.

Tratei, pois, de acampar ali, e constru para isso um bom acampamento,
de barracas cobertas de herva.

Havia muitos dias que eu andava completamente molhado, mas felizmente a
minha saude no se ressentia d'isso.

A nossa posio era melindrosa, porque tnhamos falta de vveres, e
havia ja dois dias que estvamos reduzidos a uma alimentao puramente
animal, e so tnhamos para comer a carne da caa que eu matava.

No havia perigo da fome, e eu no reciava d'ella em paiz de caa como
aquelle; mas comer s carne assada, sem sal nem outro condimento,  duro
e pouco hyginico.

O tempo melhorou um pouco, e eu pude continuar caando. Um Inglez, em
_Shoshong_, dra-me muitos cartuxos das armas Martini-Henry, que serviam
perfeitamente na Carabina d'El-Rei, e eram os que eu ento empregava com
grande resultado.

Tnhamos carne em abundancia, mas eu ja no a podia soportar.

Fazia uma nova colleco de pelles, e a facilidade que me offerecia o
vagom para o transporte d'ellas, como a nenhuma necessidade que teria de
as vender, deixva-me a esperana de que estas chegariam  Europa.[11]

Na manh de 21, vi com prazer que o rio baixara trinta centmetros
durante a noute.

Comi uma perna de puti (_Cephalophus mergens_), saltei sbre o meu Fly,
e parti para a caa. Na orla de uma mata marginal do Ntuani, o meu nobre
cavallo comeou n'um correr desenfreado. Eu ja sabia que ia em
perseguio de caa, mas no via nada.

Corri assim por meia hora, e s ento avistei por sbre os arbustos do
matagal uns pequenos pontos ngros que se moviam com rapidez prodigiosa.

Era nvo para mim o animal que perseguia, e s n'uma clareira me pde
ser a verdade revelada. Quatro abestruzes fugiam diante do meu Fly, que
nem um s momento lhe perdia a pista, apesar das voltas furtadas que
davam.

Entrmos em planicie descoberta, e ali comecei a tomar um verdadeiro
interesse n'aquella caada de nvo gnero.

Fly era o meu mestre. Abandonei-lhe o freio, tomei as rdeas do brido,
e deixei-o ir. O valente animal agradeceu-me o alvio que lhe dava com
um relinchar de alegria, e seguio mais rpido.

As abestruzes, ainda que podendo produzir uma carreira mais veloz do que
o cavallo, no a podem sustentar como este, e param a mido. Era isso
que me fazia ganhar terreno sbre as ligeiras aves.

Algum tempo depois ja no era preciso mais do que o galope para as
acompanhar, e chegram a parar a sessenta metros de mim. Estavam
alcanadas, e na primeira corrida poderia atirar-lhes.

Assim foi, e pouco depois a Carabina d'El-Rei fazia ecoar na planicie o
estampido da sua dupla descarga.

Junto das enormes aves estava eu perplexo, e sem saber o que fizesse,
deixava pastar o meu nobre cavallo; quando me apparecram Augusto,
Verissimo e Camutombo, que andavam caando tambem e ouviram os meus
tiros. Dissram-me elles estar perto o acampamento, e por isso mandei
depenar cuidadosamente as abestruzes, e esperei o fim d'aquelle trabalho
para voltar com elles ao vagom.[12]

Ao chegar ali, verifiquei que o rio tinha descido setenta centmetros.

Ainda n'esse dia at  noute o nivel da gua baixou de quarenta
centmetros, o que perfazia desde a vspera 1 metro e 40 centmetros.

Eu punha as minhas marcas n'um ponto onde a escarpa vertical me
permittia medir as differenas de nivel, mas o meu Stanley no entendia
assim, e espetava paos n'um sitio em que a barreira descia com
inclinao suave, o que dava em resultado elle contar jardas quando eu
contava centmetros. A cada momento elle vinha muito contente dizer-me
que o rio tinha baixado dois ps.

O dia 23 amanheceu bonanoso e lmpido, promettendo muito, porque o rio
baixou dous metros e meio durante a noute. Senti logo de manh uma
grande gritaria, e indagando o caso, sube que haviam desapparecido as
botas do meu Inglez, que se achava descalo. Depois de varias
conjecturas sbre aquelle importante facto, elle chegou  concluso, de
que os chaces lhe tinham furtado as botas e os haviam comido. Eu nunca
pude explicar o caso, mas elle explicava-o assim.

O facto era que o pobre homem tinha de continuar descalo e, eu nada lhe
podia fazer, porque lm de as minhas botas serem pequenas para o seu
enorme p, s tinha umas tambem.

Passei o dia caando, e  noute pude fazer observaes astronmicas, e
determinar a posio da confluencia do Ntuani com o Limppo.

Durante sse dia o nivel da gua baixou de 1 metro e 60, mas durante a
noute conservou-se estacionario, e tendo chovido na madrugada de 24,
recei nova enchente. Muitas vzes ouvi a M^{r.} Coillard narrativas de
casos idnticos ao meu, em que um vagom tinha de estacionar junto a um
miseravel ribeiro (tornado sobrbo com as chuvas), por um mez e mais.

Essa ida aterrava-me, e resolvi estudar o rio, a ver se seria possivel
a passagem do vagom. Achei effectivamente um ponto onde a gua me dava
plo pesco em tda a largura, e determinei passar ali.

Stanley, ja habituado com o meu modo de decidir questes, comeava a no
achar nada extraordinario.

Assou-se muita carne, e almomos. Quando estvamos a terminar o almo,
ouvmos grande alarido na margem opposta, e vimos que chegavam um
comboio de vagons e dois homens brancos.

Puz-me a observar o que elles faziam, e vi que depois de mandarem um
muleque metter-se no rio, muleque que voltou  margem logo que a gua
lhe cobrio a cintura, contentram-se de espetar pauzinhos para marcar o
nivel d'gua, dejungram os bis, e acampram.

Olhei para as minhas marcas e vi-as cobertas com um centmetro de gua.
O Ntuani crescia de nvo.

Descarreguei immediatamente o meu vagom, e mandei Augusto e Camutombo
passar as cargas,  caba, no sitio onde eu reconhecra o vao.

Os meus dois prtos pla sua fra herclea, e pla destreza adquirida
no hbito de superar difficuldades, faziam a admirao dos dois brancos
e dos ngros que os acompanhavam.

Uma hora depois, estavam tdas as cargas na margem direita, e eu dava
ordem a Stanley, espantado d'aquillo tudo, para jungir o gado.

Logo que tudo estve prompto, fiz que Augusto se metsse a travs do
rio, levando a soga dos bis da frente, que nadram sem difficuldade,
seguidos dos outros, sendo que trs juntas tomram p na outra margem
antes de que o vagom entrasse na gua.

Era o que eu queria. Ento gritei a Augusto e Camutombo para tanger, e
n'um momento o vagom precipitou-se nas guas do rio. Stanley, agarrado
ao carro, tve um momento de enthusiasmo, e ajudou a manobra.

Eu, logo que vi o vagom salvo na outra margem, atirei-me vestido ao rio,
e nadei para la.

Chegado que fui, disse ao Catraio que me desse roupa enxuta, isto , as
nicas camisa e meias que eu tinha fora do crpo, e fiz a mudana. Os
dois Europeos, que ao ver-me chegar a terra caminhram para mim,
suspendram-se a dez passos, vendo que comecei logo a despir-me. Depois
de mudar de roupa, penteei os meus longos cabellos e barba, que estavam
encharcados.

Logo que terminei o meu _toilet_, os dois sujeitos acercram-se e
dissram-me os dois mais sonoros "_Good morning, sir_," que tenho
ouvido.

Correspondi ao comprimento, e perguntei-lhes d'onde vinham. Disseram-me
srem dois negociantes Inglezes, M^{r.} Watley e M^{r.} Davis, e irem
para _Shoshong_, tendo deixado Marico havia um mez.

Eu disse-lhes tambem quem era, e d'onde vinha. Ao saberem que eu chegava
de Benguella, os dois sertanejos no podram conter a sua admirao, e
dissram-me, que ja se no espantavam com o que me vram fazer ali
n'aquella manh.

Fram stes os primeiros comprimentos que recebi pla minha viagem, e
-me grato o recordal-os, porque fram aquelles que mais impresso me
fizram, pla rudeza com que fram formulados, e por virem de homens
endurecidos nas lides Africanas.

Dei-lhes caa, e elles dram-me uns biscoutos, ch, assucar e sal.

Passmos o dia no mais agradavel convvio, e a 25 de manh, depois de se
trem encarregado de uma carta para M^{r.} Coillard, deixei-os, seguindo
no meu caminho.

O rio tinha de nvo tomado gua, e por isso deviam ter ali ainda muita
demora; motivo porque M^{r.} Davis decidio seguir s com alguns prtos
para _Shoshong_, deixando com os vagons a M^{r.} Watley. M^{r.} Davis,
no momento em que eu ia a partir, fez o que eu tinha feito na vspera e
atravessou o Ntuani a nado.

Parei junto ao Limppo; ao meio-dia, depois de marcha de trs horas.

[Figura 132.--Uma Vista do Alto Limppo.]

Muito fatigado, e precisando de pr em ordem alguns trabalhos, no sahi
a caar. Estava sentado junto  margem do rio desenhando a paizagem,
quando senti perto um tiro, e um _steinbok_ passou correndo junto a mim,
e precipitando-se no rio comeou a nadar para a outra margem.

A gua, que em volta d'elle se tingia de sangue, e o esforo que
empregava ao nadar, mostravam-me que ia mal ferido. Augusto appareceu
correndo e chegou ainda a tempo de ver o resultado do seu tiro. O
antlope ia quasi attingir a outra margem, quando a gua se revolveu em
trno d'elle, uma cauda verde-ngra e dentada espadanou as ondas, e
steinbok e crocodilo desapparecram no pego. Estava destinado que eu no
provasse da saborosa carne do pequeno herbvoro.

Augusto, to valente como bruto, queria por fra ir matar o crocodilo,
"que roubou minha caa," dizia elle.

O bom do prto estava furioso.

Ainda n'esse dia fiz uma jornada de uma hora, no indo mais lm, por
encontrar muita caa.

Ja caava mais para obter pelles do que alimentao, porque ja
abandonvamos a carne, tanta era ella.

[Figura 133.--Montes termticos junto ao Limppo.]

O meu Stanley, depois que se vio sem botas, no sahia de dentro do
vagom, e passava o tempo a comer e a dormir.

A 26, fiz, logo de manh, uma jornada de cinco horas, subindo sempre a
margem esqurda do Limppo.

Mal tnhamos parado, Augusto veio dizer-me, que andava pastando perto um
enorme _chucurro_ (rhinoceronte).

Passei rpidamente o freio ao cavallo, que ainda no tinha
desaparelhado, montei e segui Augusto.

O enorme pachiderme ja sentira o rumor do campo, e puzera-se ao largo.

Avistei-o a quinhentos metros, e ainda que Fly fez o seu dever, tive em
breve de renunciar  perseguio da fera, que se internou em mato to
emmaranhado que impossivel me era seguil-a.

 notavel que, tendo eu atravessado de Benguella at ali, visse o
primeiro rhinoceronte junto ao Limppo, onde hje sam raros, pla grande
caa que lhe fazem os Bers.

Outro animal que abunda no Calaari, de que por vzes avistei bandos, e
que nunca pude matar, fram as girafas.

 to ligeiro e sustentado o seu correr, to penetrante a sua vista, to
fino o seu ouvido, que difficil  chegar ao alcance de tiro, quando uma
grande demora no paiz no permitte ao caador empregar a astucia.

Depois de ter desistido da perseguio do chucurro, voltei ao campo,
quando encontrei Augusto que vinha no meu seguimento. Elle poz-se ao
lado do cavallo e veio conversando comigo.

De repente, junto a uns arbustos, vi-o apontar a arma e fazer fgo.

Acavallo, e por isso tendo a caba muito mais alta do que elle, eu no
vi a que tinha atirado o meu prto, quando deveria ser o primeiro a
avistar a caa. Perguntei-lhe o que fra aquillo, e elle respondeu-me,
entrando no mato, e arrastando um leopardo que no estava a mais de seis
metros de ns.

Voltei ao vagom, em quanto Augusto ficou a esfolar o bicho.

De tarde ainda fiz uma jornada de trs horas, por terreno muito
accidentado e coberto de floresta densa.

Ao passar um cmoro, avistei o _Zoutpansberg_, que marquei a leste.

O stio onde acampei para passar a noute  conhecido dos Bers, e tem o
nome de _Adicul_. No havia lua, mas o ceo estava lmpido, e resolvi
fazer observaes, para determinar aquella posio.

Esta circunstancia foi causa de evitar uma grande desgraa.

Eu tinha obtido no Manguato uma lanterna para magnesio, que ali fra
deixada por Mohr, ou outro, e que no servia, por falta do combustivel.

A mim servia ella, porque eu tinha muito fio de magnesio.

Empregava-a eu para ler de noute os nonios dos instrumentos.

N'essa noute, tinha acabado de ler no nonio do meu sextante Casella, a
altura da _Canopus_ ([Grego: a] do Argus) no momento da sua passagem
meridiana, e fazia horarios pla _Aldebaran_ ([Grego: a] do Touro),
quando a dez passos de mim, rebentou um trovo medonho.

O meu Fly, preso a uma das rodas do vagom, deu tal puxo  corrente que
fez mover o pesado carro, e os bis entrram de golpe no recinto onde
estvamos, tremendo em convules de mdo.

Larguei o sextante e peguei na carabina, sempre pousada junto a mim.

Augusto virou o foco da luz para a brenha d'onde sahira o rugido feroz,
e alumiou as cabas sobrbas de dois enormes lees.

As feras fascinadas pla luz deslumbrante da combusto do magnesio, n'um
momento de hesitao que tivram, dram-me o tempo de apontar firme; os
dois tiros succedram-se com o intervallo de poucos segundos, e ambas
cahram fulminadas.

Voltei-me para o vagom, onde senti um barulho infernal, e vi que
Camutombo fazia esforos inauditos para segurar o meu Fly, que se
levantava, e assustado forcejava por partir a corrente. O meu Inglez
estava mettido no vagom de espingarda na mo, e ameaava matar todas as
feras do continente Africano se ellas se atrevssem a atacar os seus
bis.

[Figura 134.--Os meus bis fram salvos.]

Deixei aos prtos o prazer de esfolarem os lees, e era bello ouvir o
que cada um dizia de si mesmo n'aquella conjunctura. No havia um s que
se tivesse assustado, e para o fim creio mesmo que cada um ja contava
aos outros que os lees haviam sido esganados por elle.

Creio que s dois homens ali no tivram mdo, e esses fram Augusto e
Verissimo.

Augusto, que me allumiou firme, e Verissimo, que me disse muito
descanado: "Eu nem peguei na espingarda, porque o S^{nr.} ia atirar, e
eu sabia que os lees estavam mortos."

Larguei a carabina para pegar de nvo no sextante, e tomar as minhas
alturas da _Aldebaran_; occupao de que tinha sido distrahido por to
importunos hspedes.

Ia-me deitar, quando novos rugidos de leo se fizram ouvir.

Sem termos um campo fechado, eu receei plo que pudesse succeder, e
passei a noute velando com tda a gente junto s fogueiras. Os rugidos
durram tda a noute, e a elles respondia com o ressonar sonoro o meu
Stanley, que estendido dentro do vagom, sonhava talvez com aquelle filho
pequenino de que se no podia separar, ou qui com as botas que no
tinha.

Parti s 6 da manh, para parar s 9, sempre junto  margem do rio.

Ao acampar, todos pensram mais em dormir do que em comer, e Stanley,
que no tinha velado a noute, offereceu-se obsequioso para vigiar plos
seus bis.

s 4 da tarde, depois de uma ba refeio de carne assada (a carne
n'esta parte da viagem occupa o logar do massango de alguns mzes
antes), partmos de nvo, indo acampar, s 8 e meia da noute, junto ao
rio Marico.

O alvorecer do dia 28 veio mostrar-me que eu estava n'um sitio baixo e
pantanoso, pouco arborizado e deserto.

Mal tinha acabado de fazer o meu _toilet_, quando Stanley se acercou de
mim e comeou a dizer-me, que as saudades do filho pequenino e a falta
de botas, o impediam de continuar ao meu servio.

"Que d'aquelle ponto sahia um caminho transversal, que o levaria em oito
dias a sua casa, e que, por isso, elle, os seus bis, e o seu vagom,
deixariam de estar s minhas ordens desde esse dia."

Declarei-lhe, que se enganava, que elle tinha feito um contrato comigo
diante de M^{r.} Coillard, e que esse contrato era para me servir at
Pretoria. O homem recusou-se terminantemente a passar d'ali.

Mostrei-lhe que a razo estava do meu lado, por tanto no cedia, uma vez
que eu tinha a felicidade de juntar  minha justia a fra.

Este ltimo argumento foi efficaz, e o homem vio que eu no recuaria
ante o empregar a fora, e por isso acommodou-se, protestando a favor
dos bis e do vagom, sua propriedade.

O Augusto, que logo de madrugada tinha ido caar, voltou plo meio-dia,
e disse-me, que perto havia encontrado um acampamento de Bers.

Disse-lhe, que me guiasse para l, montei a cavallo e segui o meu fil
prto.

Um quarto de hora depois, entrava no campo dos Bers.

Muitos vagons collocados parallelamente, entre elles algumas cubatas de
canio e palha; montes de despojos de caa; um alpendre com um trno de
tornear madeira; um cercado com bis e muitos cavallos--eis o aspecto do
acampamento de Bers nmadas que encontrei.

Algumas mulheres, de vestido de chita e toucas brancas, acarretavam gua
de um po. A uma porta, duas, que no tinham nada de feias, descascavam
enormes ceblas. Uma poro de pequenos, sujos e esfarrapados, brincavam
sbre um cho enlodado.

A minha entrada fez sensao, e uma mulhr velha, e ainda mais feia do
que velha, veio arengar-me. No entendi uma s palavra das que me disse
aquelle estafermo, e s percebi, ao abeirar-me d'ella, que era ainda
mais porca do que feia e velha.

Para responder  fala da mulhrzinha, que tinha empregado o Hollandez
corrompido dos Bers, escolhi o Hambundo, e respondi em lngua do Bih.

Estvamos pagos e entendidos. Ella no percebeu uma s das minhas
palavras, como eu no entendi uma s das suas.

Eu, sempre perseguido pla velha, fui-me approximando das raparigas das
ceblas, que eram ao menos novas e bonitas, e falei-lhes em Inglez,
Francez, Portuguez e Hambundo, sem poder fazer-me comprehender.

Chamei o meu Augusto, que ja arranhava algumas palavras de Sesuto,
aprendidas no Barze e no convvio das gentes de M^{r.} Coillard, e
disse-lhe, que perguntasse quellas meninas, se no haviam homens ali.
Elle dirigio-se a ellas, mas foi logo interpellado pla velha. Com
custo, por meio d'aquelle intrprete, sube, que os homens andavam 
caa.

A velha, sabendo plo Augusto que eu no era Inglez, mudou de modos para
comigo, e creio que comeou a tratar-me melhor.

As raparigas mettiam as ceblas em um panello enorme, e punham-n-as ao
fgo nadando em gua.

Pouco depois, chegavam uns sete homens a cavallo.

Havia um velho de longa barba branca, cinco entre trinta e quarenta
annos, e um rapazola de dezoito ou dezanove. Aperam-se e viram
cercar-me.

O velho falava bem Inglez, e um dos outros falava um pouco.

Pudmos entender-nos. Expliquei-lhe quem era e d'onde vinha, duas cousas
que elles no entendram muito bem, e disse-lhes, que era Portuguez, e
no Inglez, porque ja tinha percebido que elles no gostavam dos
Inglezes. Contei-lhes o caso do meu Stanley me querer deixar, e o velho
disse-me logo, que mandasse descarregar o vagom e despedisse o homem,
porque elles me dariam meios de continuar a viagem.

No quiz ouvir aquillo duas vzes, e mandei logo o Augusto buscar o
vagom para ali.

No entanto, os Bers recebiam-me com franca hospitalidade, e at a velha
ja se sorria para mim. Que hediondo sorriso! Pouco depois comia ceblas
cosidas e carne assada. Aquelles Bers, em quanto a provises, s tinham
mais do que eu ceblas.

Chegou o vagom que mandei descarregar, despedindo logo o seu dono, que
se retirou satisfeito, como eu fiquei satisfeito por me ver livre
d'elle.

Falei aos Bers, mostrando-lhes a necessidade que tinha de seguir o mais
depressa possivel, e elles promettram-me, que no dia immediato teria um
vagom e bis.

 noute, elles contram-me, que tinham feito parte d'essa immensa leva
de emigrantes, que, logo depois da annexao do Transvaal, tinham fugido
ao jugo estrangeiro, e caminhado ao norte, inconscientes do que faziam,
e ignorantes dos perigos do Calaari. Seiscentas familias que se
internram no inhspito deserto vram os seus gados mortos ou dispersos
pla sde, e fram vctimas do passo precipitado e inconsciente que
dram. A vanguarda, em nmero de vinte-e-tres pessas, podram alcanar
o Ngami, mas os seus gados iam esgotando os pequenos charcos, e aquelles
que os seguiam encontravam a morte junto s lagas deseccadas. Ao nmero
dos poucos que ainda conseguram voltar, pertenciam aquelles que me
davam a hospitalidade franca dos Bers. Encontrram, ali junto ao
Limppo, tanta caa, que decidram ficar n'aquelle sitio, e viviam uma
vida nmada, acampando nos logares mais proprios s suas exploraes
venatorias.

No dia seguinte, em quanto as raparigas me serviam um almo de carne e
ceblas, regado com ptimo leite, os homens preparavam um vagom ao qual
jungiam apenas quatro juntas de bis.

O velho disse-me, que iria para tomar conta do vagom seu neto, um rapaz
de 16 annos chamado Low, levando com-sigo um seu irmo, pequeno de 12
annos, de nome Christophe.

Os bis dos Bers fram-me passar o vagom para lm do Marico, o que foi
difficil, por o rio ir bastante cheio; e depois das melhores despedidas,
fiz a primeira jornada em caminho de Pretoria.

Os Bers sabiam que havia Pretoria, mas nunca la tinham ido, e por isso
o meu Low ignorava o caminho.

Eu incumbi-me de lh'o ensinar, e para isso deixei o nico caminho
seguido, aquelle de Marico e Rustemberg; e dando um trao com uma rgua
na carta de Marenski, tirei um rumo em perfeita linha recta, e segui
n'elle a travs da planicie.

Desde que passmos o rio Ntuani andvamos cobertos de carrapatos, e
bastava passarmos um pouco entre a herva para ficarmos cheios dos
repugnantes insectos.

Quatro pessas na minha gente apparecram com uma febre que se
apresentou logo de mao caracter. As duas mulheres, Moero e Ppca.

Tive de lhes preparar o vagom a modo de as poder deitar n'elle, porque
era impossivel caminharem.

Tdos ns estvamos extenuados plas fadigas de uma to longa jornada
qual a de Benguella at ali; e sempre mal alimentados, sentiamos a
fadiga a degenerar em doena, e exaustos de fras sentamos a doena a
terminar na morte.

A insalubridade das margens do Limppo, e sbre tudo a do rio Marico,
veio profundamente affectar as nossas saudes, ja vacillantes em corpos
derrancados, e tdos em geral nos sentmos doentes.

Ainda assim, eu, dotado de uma organizao especial, era quem mais
resistia  extraordinaria canceira que nos acabunhava. E felizmente para
tdos, que eu resistia mais do que elles!

A noute do ltimo de Janeiro foi tormentosa de chuva e trovoada.

Eu no me entendia com as duas crianas Bers que me acompanhavam, e que
s falavam o Hollandez; mas ainda assim, fazia-lhes dirigir o vagom 
minha vontade.

No primeiro de Fevereiro, tda a gente estava peior, e sbre tudo o
estado das duas mulheres e dos dois pequenos assustava-me. Eu mesmo
ardia em febre.

Resolvi forar as marchas o quanto possivel, para no mais curto espao
alcanar o paiz habitado e alguns recursos.

Apesar do meu estado, logo que puz o vagom a caminho, afastei-me d'elle
e fui caar, conseguindo matar um sebseb. Fui encontrar o vagom, e fiz
com Augusto, Verissimo e Camutombo fssem buscar o antlope mrto.

Em seguida forcei a marcha at s cinco e meia da tarde.

Parei at s 9 da noute para descanar os bis, fazer observaes, e
determinar o meu ponto, e sbre tudo para tratar dos doentes.

Ainda n'essa noute jornadeei das 9 s 10 horas.

O estado do Ppca e de Mariana era muito grave. Estavam em delirio, e
tinha-se-lhes declarado o typho.

Os causticos, que eu lhes tinha aberto com gua a ferver (por no ter
outra cousa), eram continuamente pulverizados de sulfato de quinino, e
durante a noute dei-lhes trs injeces hypodrmicas com uma gramma de
sulfato cada uma.

Moero e Marcolina, a mulhr de Augusto, no apresentavam symptomas de
tanta gravidade como os outros dois, mas ainda assim estavam sujeitos ao
mesmo tratamento.

Na manh seguinte o estado dos doentes era o mesmo. Depois de lhes curar
os causticos, resolvi partir, e no me appareciam os dois pequenos
Bers. Fui em sua busca, e no longe, junto a um extenso pal, a que
elles chamavam a Cornocopia, me pareceu que elles estavam pastando,
porque os vi apanharem herva e comel-a com sofreguido. Aproximei-me
para ver o que faziam, e conheci no me enganar. Os rapazes comiam
herva. Ao abeiral-os, elles estendram para mim as mos cheias de uma
gramnea, espcie de canio fino e de um verde muito claro. Por
curiosidade peguei n'um de aquelles canios, e provei. A minha admirao
foi extraordinaria ao encontrar n'aquella gramnea o msmo gsto da cana
de assucar.

Percebi ento porque pastavam os rapazes. Era pura goloseima.

Fiz com que viessem ao vagom e puz-me a caminho.

N'aquella planicie appareciam muitas aranhas parecidas com a tarantula,
cuja mordedura (me fizram comprehender os rapazes)  mortal. Isto creio
que deve carecer de demonstrao, porque em frica se diz o mesmo dos
escorpies, e eu affirmo no ser verdade.

Depois de cinco horas de ba jornada, parei, e logo que tratei dos meus
doentes, que continuavam mal, fui caar, afim de arranjar de comer para
elles e para mim.

S voltei ao vagom s 6 horas, trazendo atravessado no aro um sobrbo
antlope. Parte do caminho notei que o meu cavallo, sempre fil, vinha
inquieto, e fazendo curvtas que no eram de uso.

Ao chegar ao campo pude explicar a razo do caso. O antlope
(_Cervicapra bohor_) com o pesco pendido, veio, com um dos agudos
cornos, fazendo uma larga ferida ao meu pobre Fly.

Depois de medicar os enfermos e a mim, e de comer alguma cousa, ainda
jornadeei n'essa noute por duas horas.

A 3 de Fevereiro, parti s 4 da manh, e parei s 9.

Logo que acampei, avistei dois vagons de Bers que caminhavam para mim.
Tive esperanas de obter d'elles alguns vveres, porque s tinha para
comer os restos do antlope da vspera.

Baldada foi a minha esperana. Eram duas familias de emigrantes que
caminhavam, s escudados na caa, e com quem tive de repartir a pouca
carne que ja tinha.

Disse-me um, que falava Inglez, que eu ia entrar em paiz sem caa, mas
que, se fora-se as marchas, poderia, seguindo o trilho dos vagons
d'elles, alcanar n'essa noute a misso do Piland's Berg.

O paiz contina, sendo uma planicie enorme, da qual se erguem aqui e
lm ex-abrupto algumas serras.

Assim era o Piland's Berg, que eu marcava ao sul.

Resolvi pois forar as marchas, para alcanar a misso de que me falram
os Bers; mas, quando dei ordem  partida, apareceu-me Low consternado,
dizendo muita cousa que eu no entendia, mas fazendo comprehender, que
seu irmo Christophe faltava. A mim  que me no faltava mais nada,
seno aturar o endiabrado rapaz.

Montei a cavallo, e larguei-me por matos e charnecas a procurar meninos
perdidos. Chamei, dei tiros, corri em todas as direces, descrevendo
crculos em trno do vagom, mas nenhum resultado tirei d'isso; e depois
de seis horas de buscas inuteis, voltei ao carro, extenuado de fadiga, e
tendo de balde canado o meu pobre cavallo.

N'esse dia ja se no jantou, por no haver que comer.

Low chorava e arrepelava os cabellos, dizendo muita cousa em Hollandez,
e se s vzes imaginava que eu queria partir d'ali vinha deitar-se de
jolhos aos meus pes, pronunciando o nome do irmo.

Eu estava verdadeiramente perplexo, e ora me enfurecia contra os Bers,
ora tinha por o estado de Low a maior compaixo.

Os meus doentes no melhoravam, mas medicamentos e dieta no lhes
faltava.

Resolvi passar ali a noute, e confesso que no deixava de entrar em
furor, ao lembrar-me do tempo precioso que perdia em circunstancias to
graves como aquellas em que estvamos.

s 9 da noute, senti grande alarido, e percebi que o Christophe tinha
chegado.

No me entendendo com elles, s dias depois, por um intrprete, pude ter
a explicao do facto.

Christophe, logo que o vagom parou n'aquella manh, foi para o mato
apanhar pssaros com visco. Entretve-se por la at que eu o fui
procurar.

Vendo-me gritar por elle e dar tiros, tve mdo de que eu lhe batsse ou
o matasse; escondeu-se no matagal o melhor que pde, e la se deixou
ficar tdo o dia.

Veio a noute, e o mdo dos bichos foi superior ao mdo de mim, e o
pequeno voltou ao vagom.

No me faltava, na minha viagem, seno aturar uma criana.

s quatro horas da manh; segui viagem, e parei s 8, porque o nosso
estado no nos permittia grandes esforos.

A leste de mim, corria N.N.O. um systema de montanhas que marginam o
Limppo.

Descancei at s 11 horas, seguindo a essa hora, alcancei _Soul's Port_,
a misso do _Piland's Berg_, s 4 da tarde.

Estabeleci-me em umas ruinas, a duzentos metros da casa do missionario,
a quem mandei um bilhte de visita.

Pouco tempo depois, entrava nas ruinas uma dama acompanhada de um
criado, que trazia uma grande bandeja de pcegos e figos. Era Madame
Gonin, a espsa do missionario. Seu marido estava ausente, e so chegaria
no dia immediato.

Ao passo que escutava Madame Gonin, comia pcegos e figos com fome de
trinta e duas horas! Dei-lhe escusa do que fazia, dizendo-lhe, que tinha
fome.

A dama retirou-se, e algum tempo depois, enviva-me uma ptima ceia.

Dois prtos vinham carregados de comida para a minha gente.

Fui agradecer-lhe, e voltei s minhas ruinas.

No dia seguinte, julguei livres de perigo os meus dois doentes mais
graves, Mariana e Ppca.

Logo de manh, fui a uma fazenda de Bers, a ver se obtinha vveres.

O paiz em trno de Piland's Berg  muito cultivado, e aqui e lm
alvejam no sop da serra algumas casas de Bers.

Dirigi-me a uma d'ellas.

Fizram-me entrar n'uma sala, que em tdas as casas dos habitantes do
Transvaal desempenha o duplo fim de casa de msa e sala de visitas.

Aquella tinha sufficiente p direito, era esposa e alegre. As pardes,
pintadas a frsco, representavam cupidos vendados, despedindo
traioeiras frechas contra coraes enormes engrinaldados de rosas, isto
sbre um fundo azul celeste, dado em guada pouco ntida.

O pintor no fra nenhum Rubens ou Van Dyck, mas preciso declarar, que
ainda assim, me sorprendeu o trabalho artstico d'aquella sala; superior
ao de umas certas salas de msa, de muitas casas de Lisboa, que figuram
no primeiro plano um boneco pequenino, pescando  linha n'um rio, onde
ao longe navegam dois namorados enormes tocando bandolim; ao passo que
em uma rvore encarnada e azul, muito distante, pousa uma arara
vermlha, maior ainda do que a rvore, do que os namorados e do que o
pescadr.

Ao menos, nas pinturas mytolgicas da sala Ber havia uma significao,
e aquellas rosas engrinaldando os coraes feridos, vinham lembrar, que
as chagas d'amor, como as rosas, t[~e]m perfumes e t[~e]m abrolhos.

Eu, se algum dia, depois de longa vivenda em Lisboa, por sse poder de
imitao, que me faz admittir as theorias de Darwin, chegar ao requinte
de mandar pintar a minha sala de jantar por artista indgena,
dar-lhe-hei as indicaes da escola Transvaaliana.

A sala da casa Ber, lm das pinturas das pardes, pouco mais tinha de
notavel. Uma grande msa, algumas cadeiras, uns vasos com plantas
floridas nos vos das janellas. Cortinas pendentes de guarnies de pao
despolido, feitas de caa branca, com um recorte encarnado, e cujas
extremidades inferires, muito longe do cho, davam s janellas esse ar
desastrado de uma menina de quatorze annos, que, trajando vestido nem
curto nem comprido, nos deixa perplexos, sem saber se devemos cortejar
uma dama, ou beijar uma criana.

A um canto, sbre uma pequena msa, o livro dos Bers, uma Biblia
enorme, com fchos de prata, sbre uma encadernao outrora vermlha e
hje de cr indefinida, plo uso das mos sebentas, de trs graes de
Bers.

Faziam-me as honras da casa duas damas Transvaalianas, vestidas, como
tdas as do paiz, de chita, e trazendo na caba toucas brancas. Uns
poucos de pequenos, quasi tdos do mesmo tamanho, agarrvam-se aos
vestidos d'ellas e trepvam-lhes aos jolhos. O modo porque eram
recebidos, parecia mostrar-me que eram tdos filhos de ambas as damas; o
que me causava o maior espanto, e me fazia entrever uma cousa nova para
mim.

Verissimo servia-me de intrprete, empregando a lngua Sezuto. Antes de
lhe dizer o que queria, perguntei-lhes de quem eram filhos aquelles
meninos? Ambas, ao mesmo tempo, com esse orgulho de tdas as mes (em
quanto os filhos sam pequeninos, e no v[~e]m, plo seu tamanho, revelar
segrdos de idades que se devem occultar), respondram: "Sam nossos."

O caso complicava-se com aquella resposta, e eu cada vez entendia menos.

Entrei em explicaes e sube afinal, que os pequenos eram uns de uma,
outros de outra; mas, como ellas seguiam o costume Ber, de viverem dois
casaes na mesma vida domstica, tdos elles eram reputados filhos de
cada uma.

O paradoxo physiolgico tinha desapparecido, mas erguia-se a meus olhos
outro psycholgico no menos extraordinario.

No Transvaal dois casaes podem viver sb o msmo tecto, e comerem da
mesma panella; e dois amigos combinam casar no mesmo dia e irem viver
juntos com suas mulheres; e depois com filhos e netos, para sempre. E
vivem, e sam felizes, e no ha ali intrigas e desgstos entre elles!
Ainda, entre elles, comprehende-se; mas entre ellas!  admiravel.

A vida patriarchal dos Bers revela-se n'este trao.

Depois de me explicarem estas cousas, eu disse ao que ia. Precisava de
provises. As bas raparigas offerecram-me logo dois enormes pes, e
dissram-me, que no podiam vender-me gallinhas ou patos sem estarem
presentes os seus maridos, que tinham ido para a labutao dos campos;
mas pedram-me para esperar um pouco, porque elles no tardariam a
voltar para o almo.

Uma desappareceu, e provavelmente foi para a cozinha, em quanto a outra
trouxe para a sala uma mchina de costura, e poz-se a trabalhar.

Eu fui dar uma volta no quintal, onde me ficram os olhos na hortalia,
que ali crescia cuidadosamente tratada.

Que fome eu tinha de alimento vegetal!

Algum tempo depois, chegram os Bers, que me encontrram em flagrante
delicto de colher feijes que comia crus.

Voltei com elles a casa.

Logo que entrmos na sala dos Cupidos, reunio-se a familia tda, e tdos
se sentram nas cadeiras junto s pardes.

Veio, em seguida, uma prta com uma pequena banheira, e o mais velho dos
homens desalou as botas, e lavou os pes; seguio-se o outro, as damas e
os pequenos, e a prta correu  roda da casa com a banheira.

Em seguida, fomos para a msa.

Veio ento a Bblia, e o mais velho leu, com profundo recolhimento,
alguns versculos do Livro dos Nmeros, o quarto Livro de Moiss.
Comeou o almo; eu, com o estmago cheio de couves cruas e feijes
colhidos do pe, no podia comer nada, o que contrariava os meus
hospedeiros; mas tomei uma chvena de pssimo caf com ptimo leite.
Depois de almo, os bons dos fazendeiros offerecram-me seis gallinhas
e dois patos, e nada quizram receber por isso.

Levei de hortalias quanto pude carregar no meu cavallo.

Logo que cheguei a _Soul's Port_, sube do regresso do missionario, por
um convite para jantar, escrito por elle, que encontrei nas mos de
Augusto.

Fui ver logo os meus doentes, que achei melhores, sbre tudo o pequeno
Moero, que ja se tinha levantado.

D'ali segui para a casa do missionario, onde fui cordialmente recebido.

M^{r.} Gonin, Francez e amigo de M^{r.} Coillard, exultou com as bas
noticias que lhe dei dos amigos que tinha deixado em _Shoshong_.

Tive um jantar magnfico, e tanto mais agradavel, que a elle assistiam
trs damas, Madame Gonin e duas jovens e formosas Inglezas do Cabo,
hspedas da casa.

Depois de jantar voltei s ruinas onde tinha acampado, para fazer
observaes, e determinar a minha partida para o dia seguinte. Ao chegar
ao vagom, uma m nova me esperava.

Low veio dizer-me, que haviam desapparecido dois bis, e no tinha sido
possivel encontral-os. Os seis bis que restavam no poderiam arrastar o
vagom d'ali a Pretoria.

Decidi ficar ali a procurar os bis, e dei-as precisas ordens, para que
tda a gente semi-vlida logo de madrugada se posesse em campo.

Fram baldados tdos os esforos, e os bis no apparecram.

Communiquei ao missionario Gonin o meu grande embarao, e fui logo
tranquillizado por elle, que poz  minha disposio uma das suas juntas
de bis.

lm d'isso, ordenou a um dos seus criados, um Btjuana chamado Farelan,
para me acompanhar at Pretoria; servindo-me ao mesmo tempo de guia e de
intrprete, ja para com o gentio, ja para com os Bers, porque falava
bem o Hollandez.

Dispostas assim as cousas, determinei seguir no dia 7, e depois de
agradecer a M^{r.} e Madame Gonin tantos favres, parti s 6 horas da
manh, indo parar, s 10, junto a uma casa de Bers, que me recebram
muito bem, dando-me abundantes provises.

Ainda n'esse dia fiz duas grandes jornadas. Dos meus doentes, a Mariana
e o Ppca, apresentavam sensiveis melhoras, ainda que promettiam uma
demorada convalescena; Moero estava em via de restabelecimento, mas
Marcolina, a mulhr de Augusto, dava-me cuidados, porque se achava em um
estado adynmico, com febre constante, que no cedia ao tratamento.

No dia 8, o estado de Marcolina era muito grave.

Parti s 4 da manh, e s 5 encontrava o rio Quetei, prximo da sua
confluencia com o Machucubiani.

A difficuldade da passagem foi grande, por serem muito apicadas as
margens e levarem os rios muita gua.

Depois de trs horas de trabalho violento, consegumos transpol-o, e
acampmos na margem opposta.

Marcava meia milha a O.N.O. o Pico Bote, onde foi pelejada a ltima
batalha entre Bers e Matebelles, sendo estes completamente batidos e
forados a recuar para lm do Limppo.

Depois de um descano de trs horas, segui avante e jornadei por oito
horas, em duas marchas.

O sitio onde acampei, junto a um riacho que corre ao Limppo, era
coberto de rochas, massas enormes de granito, o primeiro que encontrava
depois do Bih.

A disposio geolgica do terreno mostrava-se-me, tal qual, a parte do
planalto da Costa de Oeste entre Quillengues e Bih.

A flora  que ali  muito differente. No planalto, costa de oeste,
apparece uma vegetao arbrea opulenta; ao passo que, n'esta parte do
Transvaal, apenas se v um ou outro arbusto rachtico; mas a vegetao
herbcea  rica, e sbre tudo as gramneas t[~e]m desenvolvimento
grande.

No dia 9 de Fevereiro, o estado de Marcolina era to grave, que decidi
no continuar viagem at ver se ella obtinha melhoras. Baldados fram os
esforos empregados para a salvar, e ao meio-dia expirou.

Pobre mulhr! Depois de to aturadas fadigas, depois de to rduos
trabalhos, veio perder a vida quando estava prxima a encontrar o
descano e o confrto!

Marcolina era a legtima mulhr de Augusto. Viera com elle de Benguella
at ali, e mesmo no tempo das aventuras galantes do marido, nunca o
abandonou, apesar dos maos tratos que d'elle recebia.

Augusto chorava como uma criana junto ao cadaver da sua companheira
fil.

Na madrugada seguinte, Camutombo e o Betjuana Farelan, abriam uma
profunda cova, onde se enterrava a mesquinha.

Eu, de caba descoberta e commovido, vi cahir a terra sbre o cadaver
frio.

Ali, na margem do ribeiro, junto a Betania, deixava eu a ltima vctima
da expedio Portugueza atravs d'frica. D'ali levava uma saudade
pungente. Ainda bem que aquelle devia ser o ltimo tmulo!

[Figura 135.--O ltimo enterro.]

Voltando ao vagom, perguntava a mim mesmo, se a sciencia tem direito a
taes sacrificios; se o homem, no orgulho de juntar mais um tomo de
saber ao pouco que sabe, pode dispor para isso da vida do seu
semelhante, e immolal-o cruamente a um dolo to vo como os outros?

No meu esprito no podia formular uma resposta  pergunta que fazia, e
hje digo que isto  uma questo a debater entre o homem e a sua
consciencia.

Logo que cheguei ao vagom, dei ordem de partida, e segui adiante, para
ir visitar a misso de Betania.

Betania  uma aldeia de quatro mil habitantes de raa Betjuana, formada
de casas bem construidas, e muitas de janellas envidraadas.

O missionario que ali encontrei, Hollandez ou Allemo, chamava-se M^{r.}
Behrens.

Appareceu-me fumando em um enorme cachimbo de loua, e uma das primeiras
cousas que me perguntou foi, se eu lhe tinha trazido umas pas que me
emprestara para abrir a cova de Marcolina?

Um quarto de hora depois, eu deixava a casa do missionario, e seguia
caminho, indo parar, s 11 horas, junto de uma aldea de Bers.

Viram elles logo buscar-me para suas casas, e tive de entrar em casa de
tdos. Em tdas fui obrigado a tomar alguma cousa, e em tdas recebi
presentes de batatas, frutas, hortalias e gallinhas. A custo me pude
desembaraar d'aquella ba gente, e pude partir s 3 da tarde.

Encontrei outra vez a margem esqurda do Limppo, que subi por trs
horas, para chegar a um vao conhecido do meu guia Farelan.

Junto ao vao estava grande poro de vagons Bers. O rio trasbordava, e
no dava passagem, diziam elles.

Como Farelan conhecia o vao, disse-lhe, que se metsse  gua e fsse
at onde podesse. O Betjuana passou o rio com gua plo pesco. Mandei
logo tanger os bis, e fiz entrar o cavallo na gua, passando o rio em
um momento. Eu e os meus j sabamos lidar com um vagom e com os rios da
frica.

Os Bers ficram pasmados, mas pasmados ficram na outra margem, debaixo
de uma chuva torrencial que cahia.

Acampei ali. No dia immediato, os alvres da manh viram mostrar-nos o
rio que tinha sahido do seu leito, e que deveria levar mais trs a
quatro metros de gua.

Os Bers que receiram na vspera arriscar os vagons, tinham que esperar
muitos dias para o passarem.

Eu segui viagem, e s onze horas e meia, passava a enorme serra que
divide o Transvaal no sentido este-oeste, o Magalies-Berg.

Foi difficlima a passagem da alta serra, e sbre tudo a descida na
vertente do sul perigosa. O vagom, sem travo, precipitva-se sbre os
bis e ameaava despedaar-se. Tive de pr os doentes a pe, com receio
de um accidente.

Low cahio, e uma roda do vagom esmigalhou-lhe as phalanges da mo
esqurda.

Fiz-lhe um primeiro curativo, e tratei de forar as marchas, para
alcanar Pretoria, onde elle podia ser cuidadosamente tratado. O
Betjuana Farelan previne-me de que faamos proviso de lenha em uma mata
no sop da serra; porque d'ali a Pretoria s encontraramos planicies
desarborizadas. Assim fizmos, continuando a jornadear dia e noite,
apenas com o descano necessario para os bis.

Finalmente, no dia 12 de Fevereiro, s 8 da manh, acampava uma milha a
N.N.O. de Pretoria, e deixando ali o vagom e os meus, entrava szinho na
capital do Transvaal.

[Figura 136.--Magalies-berg.]




CAPTULO VI.


NO TRANSVAAL.

     Rpido esbo da historia dos Bers--O que sam os Bers--Suas
     emigraes e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de
     diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado  cerca dos Bers--O que eu
     vi e que eu penso.


Estou em Pretoria, a Capital do Transvaal, e antes de continuar a
narrativa das minhas aventuras, vou dizer algumas palavras da historia
d'este paiz e dos seus habitantes. No se arreceiem os meus leitores do
caso. Ainda que um moderno historiador Francez n'um bello livro escreveu
a conceituosa phrase, "L'histoire ne commence et ne finit nulle part,"
eu prometto-lhes que o rpido golpe-de-vista que vou lanar sbre a
historia d'este pvo ser to curto, como curta  ella.

No sei quando acabar, se  que no findou ja ou est a findar, mas o
como da vida Ber, desde que essa vida tomou a forma de nacionalidade
autonmica,  dos nossos tempos,  d'este sculo.

Bartholomeu Dias primeiro, e Vasco da Gama depois, os ousados
Portuguezes que afrontram antes de ninguem as tempestades do Cabo,
pensando s na India, como na terra da promisso, pouco ou nenhum caso
fizram da extrema frica do Sul.

Foi s em 1650 que a Hollanda--no o govrno Hollandez, mas a companhia
das Indias--ali fundou uma feitoria, para refrescar os seus galees em
viagem do mar ndico, feitoria estabelecida plo Doutor Van Riebeck.

Esta feitoria ergueu-se onde hje assenta a formosa cidade do Cabo.

A companhia das Indias, que pouco se importava com a frica, no pensou
em fundar ali uma colonia, e antes pz tdos os estrvos  iniciativa
particular, que tendia a cultivar a terra e a commerciar com o indgena.

Pelejavam-se ento na Europa as guerras de religio, e com a revogao
do Edicto de Nantes e a perseguio dos Protestantes em Frana, muitos
emigrram, e entre elles alguns fram para a Hollanda. A companhia das
Indias deu-lhes transporte para a frica, e elles aceitando-o
pressurosos, fram deixados no Cabo. No chegava a duzentos o seu
nmero, e se attentarmos a que, segundo diz a historia, van Riebeck no
levou com-sigo mais de cem pessas; e dando-se mesmo o caso de que essa
populao tivesse duplicado no tempo decorrido de 1650  chegada dos
emigrantes Francezes, estes equilibravam em nmero com a populao
Hollandeza.

Fao notar esta circunstancia, porque, sendo estes dous elementos que
dram principio a essa raa hje chamada os Bers, quero concluir, que
n'esse pvo, a respeito do qual se tem escrito to pouco e to errado, o
sangue Francez, se no domina, ao menos equilibra com o Hollandez.

O governo Hollandez, desde o estabelecimento dos emigrados Francezes no
Cabo, trabalhou para lhes cortar tdas as relaes com a me patria, e o
primeiro golpe que n'ellas deu, foi a prohibio do uso da lingua natal,
ja na celebrao do culto divino, ja nas relaes especiaes com o
govrno, e nos actos officiaes.

Custa a comprehender como o obtve, mas  facto que lhe quebrou aquelle
lao que nas futuras graes os podia prender  Frana; e de tal modo,
que quando o General Clarke, em 1795, chegou ao Cabo com o Almirante
Elphinstone, e se apossou da colonia em nome da Inglaterra, nem um so
Ber falava ou comprehendia o Francez.

Muito antes da occupao Ingleza, que se no tornou effectiva seno em
1806, pocha em que a Inglaterra se apossou definitivamente do Cabo pla
fra, desprezando as convenes da paz de Amiens, que restituia aquella
colonia aos Hollandezes, ja muito antes os colonos fugiam aos vexames do
govrno da Hollanda; e internando-se no continente iam longe
estabelecer-se onde encontravam bons terrenos para cultura e bons pastos
para os gados; preferindo brigar com o gentio e prover  sua propria
defsa, a estar em relaes e sb a proteco de um govrno que os
tornava verdadeiros escravos.

D'ahi data o nome e a vida errante dos Bers, nome bem pouco em harmonia
com tal vida, porque Ber quer dizer fazendeiro ou lavrador, o que d
uma ida de estabilidade, que elles no tinham nem ainda hje t[~e]m;
sendo mais pastres e nmadas do que lavradres sam.

O primeiro que nos fala dos Bers na sua vida quasi primitiva, reduzidos
como fram a prover elles msmos s necessidades da vida absoluta, 
Levaillant, que visitou o interior da frica do Sul, antes da Revoluo
Franceza, isto , 14 ou 15 annos antes da primeira occupao do Cabo por
Clarke e Elphinstone. Levaillant diz muito mal d'elles nas suas relaes
com as tribus indgenas.

Trata-os de dspotas e de abuso constante da fra. Devemos dar crdito
ao que diz Levaillant, mas devemos tambem examinar sem paixo as
circunstancias em que viviam aquelles homens, duas vzes emigrantes, e
errando sem patria n'um paiz hostil. Accusam-n-os n'esse tempo de abusar
da fra, quando a fraquza estava do lado d'elles, como sempre estve.

Tinham armas  verdade, mas os Cafres tinham o nmero, e eu sei o quanto
vale o nmero sbre as armas, e sabe-o hje a Europa, e sbre tudo a
Inglaterra.

Os Zulos, os Cafres, e os Basutos t[~e]m lh'o ensinado.

No devemos lanar  conta de esprito de crueldade, represalias filhas
da necessidade de impor o respeito plo terrr a tribus indomaveis e
ferozes. O que lanam em rsto aos Bers de roubarem e dividirem entre
si os gados e as riquzas dos povos vencidos,  hje admittido como
direito da guerra, e a nao vencedra impe  vencida um tributo que
no  mais do que o que faziam os emigrantes Franco-Hollandezes, aos
Cafres vencidos; que no era differente proceder do que tivram os
Inglezes n'aquellas msmas paragens no fim das guerras de 1834 e 1846.

Apesar de se terem internado no continente, os Bers so em 1825 passram
o rio Orange, inclinndo-se a N.E. para fugirem da esterilidade do
deserto que se estende ao Norte e N.O. da confluencia do Vaal.

Fram obrigados a isso pla falta de chuvas que ento houve no paiz que
elles occupavam.

A abolio da escravatura depois da guerra de 1834 trazia os Bers
descontentes, porque perdiam com ella os braos que os ajudavam.

Sem patria, sem historia, e por isso sem amor a nenhuma terra, elles
comeram uma nova emigrao em massa, e o nmero dos fugitivos que
passram o Orange foi avaliado em oito mil.

Elegram ento um chefe, e recahio a esclha em Pieter Retief, cujo
primeiro passo foi, expedir uma nota ao govrno do Cabo, na qual lhe
dizia, que eram livres e livres iam escolher um paiz para habitar.

Nessa nota havia exarada a inteno em que estavam de viver em paz com o
gentio, de no admittirem a escravatura, e de estabelecerem ntidamente
quaes as relaes que deviam existir entre amos e criados.

Receando dos Cafres, os Bers, passado o Orange caminhram ao norte, mas
fram, nos Zulos que occupavam a margem direita do Vaal, encontrar
inimigos mais terriveis do que aquelles que evitavam.

O clebre Muzilicatezi, que depois se tornou conhecido como rei do
Matebeli, tentou sustar a marcha dos emigrantes, e por isso elles
tivram de pelejar uma sangrenta batalha, em que levram de vencida o
valente chefe Zulo.

Ento Pieter Retief dirigio a caravana a leste, e tendo noticias de um
paiz magnfico que se estendia para lm da Cordilheira do Drakensberg
at ao mar, guiou para ali a sua horda de aventureiros.

Ao chegar ao paiz desejado, um nvo obstculo lhe veio tolher o passo.

Uma tribu poderosa e guerreira procurou destruir aquelle punhado de
valentes. Fram mortferos os combates travados entre Retief e o chefe
Cafre Dingam, e n'um d'elles a victoria dos Bers custou a vida do seu
chefe Retief, e a Gert Maritz seu immediato.

Senhores das terras de Natal, os Bers escolhram uma posio magnfica
para fundar uma cidade, e elegram um nvo chefe. A cidade tve o nome
de Pietermaritzburg, nome que foi um monumento immorredouro levantado 
memoria dos dois primeiros chefes Bers.

O homem escolhido para nvo chefe foi Adriano Pretorius, que tempo
depois devia ser o primeiro presidente da rpblica Transvaaliana, e
cujo nome devia ser perpetuado como os de Retief e Maritz na futura
capital dos Bers.

De 1840 a 1842, os emigrantes vivram tranquillos, cultivando a terra e
apacentando os gados na sua nova patria.

Pensavam mesmo ja em firmarem a sua autonomia, constituindo-se em
rpblica sb o protectorado de uma nao Europea; quando Sir George
Napier, por ordem do govrno da Metropoli, mandou occupar a Natalia por
fras Inglezas, fazendo saber aos Bers que a Inglaterra no consentia
que os seus sbditos formassem estados independentes sbre as costas
martimas.

Pretorius recebeu muito mal o enviado de Sir George Napier, e foi junto
a Pietermaritzburg que se trocram as primeiras ballas entre Bers e
Inglezes. Prevenido da resistencia dos Bers, o governador do Cabo
reforou as tropas de Natal e esmagou a insurreio. A pouca sympathia
que os Bers votavam aos Inglezes, desde esse dia converteu-se em
averso profunda.

Comeou para os emigrantes uma nova pocha de rdua peregrinao, e
abandonando a terra escolhida, fram novamente procurar um paiz lm do
Drakensberg, um paiz onde podessem ser livres e senhres.

Ao passar a elevada cordilheira espalhram-se ao norte e ao sul do Vaal;
estabelecendo as suas residencias no terreno comprehendido entre o Vaal
e o Orange, e mesmo ao norte sbre a margem direita do Vaal, onde
fundram a cidade de Potchefstroom, em 1843.

Sabendo que o Govrno Inglez considerava aquelle paiz como seu, e como
seus sbditos os habitantes, Pretorius persuadio a muitos dos Bers o
emigrar de nvo, e com elles caminhou ao norte. Tve de bater-se com os
Zulos, que, vencidos n'uma ltima batalha no Pico Botes, fram
rechaados para lm do Limppo, onde o seu chefe Muzilicatezi
estabeleceu o reino do Matebeli.

Foi ento que fram fundadas mais duas povoaes, Lydenburg e
Zoutpansberg.

 preciso notar, que a cada nova emigrao, muitos dos Bers se
recusavam a seguir o enthusiasmo pla liberdade que inflammava outros, e
conservvam-se nos paizes abandonados, tendo, por isso, de se sujeitar
ao govrno Inglez.

Foi assim que muitos no deixram as suas residencias entre o Orange e o
Vaal, e cortram, por assim dizer, relaes com aquelles que emigravam
sempre. Esse ncleo que ficou, deu origem aos que hje formam o Estado
livre do Orange, e ali fundram a cidade de Bloemfontein, sua capital.

Lord Grey, sendo Ministro das Colonias em Inglaterra, em 1852, entendeu
que eram bastante grandes e ruinosos os dominios Inglezes na frica, e
resolveu de limital-os.

Querendo, ainda assim, fazer as cousas em grande e talhar por largo, deu
ordem ao Governador do Cabo para declarar o Vaal como fronteira norte
dos dominios Britnicos, e para conceder os direitos de autonomia aos
sbditos Inglezes que se estabelecssem lm d'aquelle limite.

 d'esta data o tratado feito com os Bers, plo qual a Gr-Bretanha os
reconheceu livres e lhes concedeu os direitos de autonomia;  d'esta
data que tve um nome o paiz comprehendido entre o Vaal e o Limppo; 
d'esta data que o govrno do Transvaal se constituio definitivamente; 
n'esta data que Adriano Pretorius foi eleito presidente da nova
rpblica.

Os Bers insurgentes, os teimosos em fugir ao jugo estranho, acabavam de
constituir uma nao, de crear um paiz, e de estabelecer a sua
liberdade; ao passo que os Bers fiis aos Inglezes so em 1854, mais de
um anno depois, fram livres e podram constituir-se em nao, formando
o Estado Livre do Orange.

 verdadeiramente admiravel ver estes grupos, onde no abundavam os
recursos de instruco, porque o Ber so l e so conhece a Biblia; ver
estas gentes ignorantes dos regimens governativos, a que fugiam havia um
sculo, de repente constiturem-se em naes, formarem um systema
governativo, elegerem assembleas nacionaes, e legislarem sensatamente!

Adriano Pretorius foi um homem a todos os respeitos notavel, e que teria
feito um nome msmo entre povos menos rudes do que os Bers.

Inflammado plo ardor da liberdade, sabia incutir o seu enthusiasmo no
nimo dos que o rodeavam, e pertinaz n'uma ida grandiosa, vio coroados
de xito os seus esforos, dando uma ptria aos seus, e fixando n'um
paiz riquissimo, tdo um pvo disperso.

Este grande homem apenas entrevio a sua obra, porque morreu ao
concluil-a. O suffragio geral levou ao poder seu filho, do mesmo nome,
criado nos mesmos enthusiasmos de seu pai.

O nvo Pretorius procurou dar melhor organizao aos servios da nao,
mas o mesmo desejo de liberdade que animava os Bers a fugirem ao
dominio Inglez, fazia que muitos procurassem escapar ao dominio do
governo central da Rpblica. Contudo, encontrvam-se sempre que era
preciso ligar-se contra um inimigo estrangeiro, e as muitas guerras que
sustentram para acalmar os indgenas, sempre hosts, sam d'isso prova.

Em 1859, os Bers do Estado Livre do Orange acclamram seu presidente a
Pretorius, que, director supremo dos negocios das duas rpblicas,
pensou logo em levar a effeito uma unio vantajosa para os interesses
communs.

O govrno Inglez andou de tal modo n'essa questo, que Pretorius nada
pde alcanar, e abandonando Bloemfontein, voltou ao Transvaal, onde
tomou de nvo a direco dos negocios pblicos.

D'ahi at 1867, aquelles dois povos, que apenas contavam um 15 outro 13
annos de existencia autonmica, no fram perturbados no seu viver rude
e pacfico, a no ser por pequenas questes com o gentio logo acalmadas;
mas, em 1867, os Bers dos dous estados, Transvaal e Orange, fram
sorprendidos por uma noticia que veio perturbar por um momento a sua
vida tranquilla. Nas fronteiras oeste dos dous estados, tinham sido
descobertas as suas ricas e prodigiosas minas de diamantes, e aquelle
pedao de terreno promettia uma riqueza inexgotavel ao seu possuidor.

Naturalmente Bers do Transvaal e Bers do Orange lanram para elle as
vistas cubiosas.

A terra que de um momento a outro tomou to grande importancia, e que,
como o Brazil, a California e a Australia, chamou logo a si aventureiros
de tdas as naes, pertencia a uma tribu, os Gricuas, mestios de
origem Ber, que a esse tempo eram governados por um tal Waterboer, que
no perdeu tempo em fazer valer os seus direitos ao terreno cubiado.

Entre os aventureiros que o fulgor dos diamantes atrahia quella nova
Golgonda, abundavam Inglezes, que excediam todos os outros em nmero.

A vontade de se apossar do terreno diamantfero so foi manifestada
claramente pelos Bers do Orange em 1870, anno em que o presidente Brand
convidou Waterboer a uma conferencia, e procurou convencel-o de que era
senhor, por direitos adquiridos, do cubiado thesouro.

Waterboer no se deixou convencer, e retirou para o seu paiz, teimoso em
querer continuar a ser senhor d'elle.

O presidente Brand, pla sua parte, no cedeu tambem, e publicou uma
proclamao, em que dizia ser dos estados do Orange a terra dos Gricuas,
enviando logo ali um delegado da rpblica para se estabelecer como
governador.

Os Bers do Transvaal a esse tempo procuravam de traar ntidamente as
fronteiras do seu paiz, e acabavam de referendar com Portugal o tratado
da demarcao da sua fronteira de Este, negociado, em Julho de 1869,
entre o proprio Pretorius e o Visconde de Duprat, commissionado, para
isso, plo Govrno Portuguez. O tratado de 1852 definia sufficientemente
as suas fronteiras sul e su-este, mas as outras fronteiras eram
demarcadas, a Norte pla msca z-z junto ao Limppo, e a oeste, por
cousa nenhuma.

Entendeu pois Pretorius, que tanto direito tinha o presidente Brand como
elle  posse da terra Gricua, e mandou para ali um delegado official da
Rpblica, como o Orange mandara o seu.

Havia trs annos que a primeira pedra d'esse carvo puro e scintillante,
a que a vaidade humana deu um to extraordinario valor, apparecra nos
perdidos sertes da frica do sul, e ja nos terrenos saibrosos onde as
mos vidas de centenares de aventureiros escavavam os pequenos seixos,
se levantava uma cidade opulenta, onde formigava a vida e a civilizao
da Europa.

Era Kimberley. Era uma maravilha edificada com diamantes, como S.
Francisco da California foi edificada com ouro. Era um d'esses prodigios
que brotam da terra, junto  mina que se explora, que crescem rpidos em
grandeza e em civilizao, que t[~e]m um commercio nvo e forte, que
arroteia terreno virgem, que t[~e]m um crebro nvo e inventivo, e que
nascido hje, manh desenvolvido plas fras novas que o avigoram,
effeita agora em mzes e semanas, o que antes demandava sculos e
annos.

A mina  o mais poderoso principio do desenvolvimento de uma terra
virgem.

A mina  o mais poderoso incentivo da colonizao de uma terra agreste.

Scintille o diamante, fulgure a pepita do ouro, negreje o bloco de
hulha, lance a mina do seu seio cavernoso, o cobre, o ferro e o chumbo,
e ali no deserto julgado rido, em trno do chumbo, ferro, cobre, hulha,
ouro e diamante, nasce a vida, cria-se a civilizao, e o progresso
caminha rpido como os seus modernos elementos, o vapor e a
electricidade.

Hontem as enxadas rudimentares dos indgenas esgravatavam uma polegada
de terra, e hje as locombiles poderosas, lanando aos ares o grito da
civilizao no sibilar do apito, vam movendo arados que revolvem fundo a
terra, virgem desde a sua formao geolgica, e vem trazer  superficie
em glebas recurvadas o pedao de solo que nunca cuidou ter outro
movimento lm do que as leis do Creador lhe marcram no espao
infinito.

Ali, onde hontem um rio caudaloso apresentava barreira insuperavel aos
passos do raro caminhante, hje uma ponte construida de bocados de ferro
ligados em harmnica architectura pelas leis sublimes da sciencia, d
facil passagem a uma populao condensada, que nem sequr pensa nas
guas revltas que lhe correm aos pes.

O pntano que hontem exhalava o miasma pestilento, est hje convertido
em parque ameno, cujas rvores modificam a atmosphera e o clima.

O ferro que, hontem elementarmente tirado da terra, apenas servia para a
imperfeita ponta da azagaia brbara, corre hje nas frmas gigantescas,
e resfriando em forma de _rails_, vai estender-se n'essas arterias
enormes onde pulsa o sangue das naes modernas.

Do trabalho e da creao material nascem novas idas, o crebro
refora-se, as faculdades creadras do engenho humano desprendem-se mais
e mais, e vam longe, trazendo cada dia novos e poderosos elementos ao
progresso e riquza das naes.

Foi assim que a Amrica em um sculo passou lm da Europa,  assim que
a frica um dia ir lm da Amrica.

Na terra Gricua, onde, em 1867, apenas cabanas abrigavam uma populao
brbara; em 1870 elva-se uma cidade Europea, ainda envlta no cahos das
populaes nascentes, mas sentindo em si tdos os elementos de progresso
rpido. N'estas condies, no podia admittir sequr a dominao de
povos to atrazados como Bers e Gricuas.

Muito occupada de si mesmo para se poder occupar de vizinhos importunos,
apellou para a Inglaterra.

O diamante e o ouro tem o poder sobrenatural de fascinar o rei como
fascina o proletario, e se Bers e Gricuas estavam offuscados plo
brilho dos diamantes Africanos, a Inglaterra no deixou de se commover
s scintillaes dos seixos preciosos, e decidio logo no seu crebro
intelligente e cpido, que a terra Gricua era sua e no podia ser
d'outrem.

 proclamao do presidente Brand seguio-se uma proclamao do
Governador do Cabo, em que se dizia, pouco mais ou menos, que a terra
pertencia aos Gricuas, e que os Gricuas pertenciam  Inglaterra.

Esta proclamao precedia o proprio Governador, que entendeu dever ir ao
logar do litigio.

A recepo que lhe foi feita plos mineiros, foi enthusistica e
esplndida.

Os Gricuas, que se sentiam fracos em presena dos Bers, unram-se
naturalmente  Inglaterra.

Ento o Governador, forte com o apoio de mineiros e Gricuas, entrou
abertamente em negociaes com os Bers dos dous Estados, e fcilmente
chegou a convencer Pretorius  desistencia dos seus direitos mais do que
problemticos. No aconteceu porem o mesmo com o presidente Brand, que
no so recusou a proposta de ser a questo decidida por uma arbitragem
do Governador da Natalia, pedindo que essa arbitragem fsse de um dos
soberanos da Europa, e ainda mais, fazendo reunir uma fra consideravel
de Bers para empregar as armas como argumento supremo. O Governador
procurou e conseguio prudentemente soster esta manifestao guerreira do
Estado Livre, que teria srias consequencias n'aquelles paizes.

Ao mesmo tempo, o govrno Inglez annexava ao Cabo o paiz diamantfero,
sem se importar muito com o que ali se passava.

Brand todavia no desistia dos seus direitos, como Pretorius.

Este, Ber, e tendo apenas a educao rudimentar dos Bers, aprendida
nas pginas da Biblia, vivia e sustentava-se mais plo nome herdado de
seu pai, do que pelas suas qualidades pessoaes. Fra mais facil 
Inglaterra tratar com elle do que com o presidente Brand, filho da
Colonia, mas possuindo uma bella intelligencia, uma vasta erudio, e
todas as tricas e chicanas de advogado que .

Brand foi educado na Europa,  doutor pla Universidade de Leyde, tem
carta de jurisconsulto nos tribunaes de Inglaterra, e foi professor na
escola do Cabo. Um homem n'estas condies, e dotado de um caracter
enrgico e forte, no se calava em presena das annexaes da
Inglaterra, e continuou a gritar e a provar que a terra Gricua era sua
propriedade.

Em seis annos fez seiscentos protestos, at que um dia Lord Carnarvon, o
estadista Inglez, que melhor tem sabido comprehender os interesses
coloniaes da Gr-Bretanha, o convidou a ir a Londres tratar directamente
com elle a interminavel demanda.

Brand em Londres continuou a pugnar pelos interesses do seu paiz, e
cedeu os direitos  terra Gricua mediante uma indemnizao pecuniaria de
105 mil libras.

Foi assim que Lord Carnarvon cortou de uma vez para sempre as
complicaes entre os Bers do Estado Livre e as Colonias Inglezas do
Sul d'frica.

Brand aproveitando a somma recebida em favor do seu paiz, tratou de lhe
dar tdo o desenvolvimento que uma pequena nao pode ter, com uma
pequena quantia como aquella.

Mas deixemos os Bers do Orange, dos quaes falei apenas por se ligar a
sua curta historia com a do Transvaal, e voltemos a este paiz.

Como disse, Pretorius transigio logo com o Governador do Cabo na questo
da posse da terra Gricua, e isso foi motivo para se desacreditar entre o
seu pvo.

A assemblea nacional (Volksraad) apresentou um voto de censura ao seu
presidente, e preciso foi depol-o, e escolher quem o substituisse.

Foi ento eleito um Hollandez, Francisco Burgers, o terceiro presidente
da rpblica Transvaaliana.

Francisco Burgers, homem intelligente e illustrado, ministro protestante
da Igreja reformada, pensou, logo que assumio o poder, levantar o
Transvaal ao nivel das naes adiantadas da Europa. Tdas as idas do
ltimo presidente eram nobres e elevadas, mas no podemos deixar de
admittir que elle commetteu erros manifestos de administrao. Burgers
no era homem prtico, e no conhecia sufficientemente o elemento que
governava, para saber como lhe dar o feitio que elle lhe queria dar.

 sempre melindroso falar de um alto personagem que vive, quando a
crtica tem de analysar os seus actos, e se eu no me posso eximir a
falar do D^{or.} Burgers, porque  sua administrao se ligam factos da
maior importancia, no quero de modo algum impor a minha opinio a
respeito do governo do ltimo presidente do Transvaal.

Direi abertamente o que penso, e que formem os outros os juizos que
quizerem.

Durante a minha estada no Transvaal, no deixei de indagar, por tdos os
modos ao meu alcance, os factos da ltima administrao Ber, e sbre
elles edifiquei a opinio que vou expor.

O presidente Burgers, tomando conta do Govrno, quiz caminhar mais
depressa do que devia n'um terreno to pouco nivelado. As questes
financeiras fram as que primeiro chamram a sua atteno, e bem preciso
era isso, porque no Transvaal no haviam finanas.

As despezas de administrao eram pequenas,  verdade, mas as receitas
geraes eram pequenissimas e mui irregularmente cobradas. Havia algum
papl moeda e pouco dinheiro Inglez.

Burgers cunhou moeda de ouro extrahido das minas de Lydenburg, e
conseguio em pouco tempo restabelecer o crdito, muito abalado, do seu
paiz adoptivo. Para isso tve lutas ingentes e ignoradas, com um pvo
pouco subordinado, e disseminado n'um territorio enorme, onde as
communicaes eram e sam ainda hje difficeis, e onde ainda no foi
possivel fazer um censo aproximado. Outro assumpto importante que
preoccupava o presidente, era a questo da fra pblica. Elle percebia
bem que o systema de defsa empregado at ento pelos Bers, a que
chamavam o _commando_, isto  uma convocao geral para a guerra, era
muito deficiente, e no podia continuar, n'um estado que elle queria
elevar  altura dos paizes Europos.

A questo de regularizar um exrcito entre os Bers apresentava grandes
difficuldades, e encontrou uma sria opposio.

Um terceiro ponto de no menos importancia a tratar, e do qual se
occupou logo o presidente, foi o da viao pblica.

Burgers instituio os primeiros juizes, e abrio as primeiras escolas
pblicas no Transvaal.

Isto era muito para um pvo na infancia, e foi feito de repente.

N'isso e s n'isso commetteu um rro o presidente da rpblica.

Uma especie de febre de progresso se apossou do D^{or.} Burgers, que fez
uma viagem  Europa, em 1875, com o duplo fim de arranjar dinheiro e um
prto de mar ao seu paiz.

Para o dinheiro foi bater  porta dos Banqueiros de Amsterdam, para
obter um prto foi pedil-o ao govrno de Lisboa.

Em Amsterdam como em Lisboa foi escutado, e ao passo que obtinha um
crdito na Hollanda, fazia um tratado em Portugal para uma ferrovia que
ligasse Pretoria ao soberbo prto de Loureno Marques.

Burgers voltava triumphante ao Transvaal, onde o esperavam as maiores
decepes.

Durante a sua ausencia, havia-se renovado uma antiga pendencia com um
rgulo indgena, Seccni, ao qual era preciso fazer a guerra.

Burgers no hesitou, e fez convocar um _commando_ ao qual adherram uns
dois mil Bers e outros tantos indgenas. Elle msmo se poz  frente do
pequeno exrcito e foi atacar o rgulo sublevado.

Ou fsse que Burgers no nascra para general, ou fsse por uma d'essas
outras causas difficeis de apreciar, que tantos desastres t[~e]m causado
s tropas regulares Inglezas em frica, o pequeno exrcito, depois de
uma curta guerra em que poucas vantagens alcanou, tve de retirar.

A sse tempo chegava ao Natal Sir Theophilus Shepstone, que ia de
Londres, onde Lord Carnarvon sempre na ida de fazer uma confederao
dos estados da frica do Sul, tinha feito reunir delegados das diversas
provincias para discutir tal projecto.

Parece que Sir Theophilus Shepstone levava instruces do govrno Inglez
a respeito do Transvaal, porque, logo que chegou a Durban, seguio para
Pretoria.

No quero de modo algum entrar, n'uma obra do caracter d'esta, em
apreciaes sbre o facto da annexao; e por isso limitar-me-hei a
narrar os factos com a verdade que at hje no tem sido dita. Para bem
se comprehenderem esses factos,  preciso mostrar o que era o Transvaal
 epocha da chegada de Sir Theophilus a Pretoria.

A populao Ber, difficil de avaliar, mas que os clculos mais
aproximados faziam montar a vinte-e-uma mil almas, estava espalhada n'um
territorio immenso, igual em superficie  Inglaterra e Escocia reunidas.

N'esse grande paiz trs cidades apenas eram ncleos de uma populao
mais condensada, e algumas aldeas separadas por distancias enormes,
augmentadas ainda pla difficuldade das communicaes, reuniam pequenos
grupos de habitantes.

As trs cidades, Potchefstroom, Pretoria e Lydenburg continham
populaes, que eram tudo menos Bers. As minas do ouro haviam attrahido
a Lydenburg aventureiros de todas as nacionalidades, predominando o
elemento Inglez importado da Australia.

Pretoria era uma cidade nascente em que predominava o elemento
Hollandez, mas no Ber.[13]

Potchefstroom era de todas aquella que era habitada por maior nmero de
Bers, mas ainda assim, elles estavam em minoria em presena dos
Hollandezes e Inglezes.

As aldeas, das quaes as mais importantes eram Rustenburg, Marico, e
Heidelberg, ja tinham a populao Ber misturada com Inglezes e
Hollandezes. A grande populao Ber estava disseminada em casaes, e
fugia naturalmente das cidades onde no podia fazer pastar os seus
gados.

Se era difficil fazer um recenseamento da populao branca do Transvaal,
mais difficil era ainda avaliar a populao indgena. Tenho visto
clculos que a estimam de duzentas a novecentas mil almas.

O paiz estava coberto de misses de trs ou quatro differentes
sociedades de Inglaterra, de algumas Allems, e outras Hollandezas.
Estes missionarios exerciam a sua aco sbre o indgena, porque
Hollandezes tinham os seus pastores nas parochias, e Bers que sabem
tanto de Biblia como os prochos, at d'elles prescindiam.

A sde do govrno estava em Pretoria, a mais pequena das trs cidades do
Transvaal, mas aquella que melhor se acha collocada.

Os homens que tinham a direco principal dos negocios pblicos eram
Hollandezes.

Esta era a posio da populao heterognea do Transvaal em principios
d'Abril de 1876.

Vejamos agora rpidamente, qual era a posio moral, verdadeira ou
apparente, dos Bers.

Primeiro examinemos qual o juizo que fora d'frica se fazia dos
Franco-Hollandezes da rpblica Africana. Era elle de certo pssimo.

O Ber era um selvagem branco, possuindo todos os maos instinctos do
selvagem, vido de rapina, devastando e incendiando as aldeas do
indgena, pobre martyr da brutalidade e rapacidade de to extraordinario
malvado.

Foi assim que elle nos foi apresentado por alguns missionarios, os
nicos que na Europa nos davam noticias dos antigos emigrantes do Cabo.

Forte contra o fraco, o Ber era cobarde e fraco em presena do forte.

O que havia de verdade n'este juizo eu o direi ao diante.

Ento estavam elles moralmente desconceituados para com aquelles que
apenas os conheciam por informaes; e tinham perdido um pouco o
prestigio entre o gentio plo revez soffrido com Seccni. Falavam
mesmo, e entre elles discutia-se a questo, de depor o presidente
Burgers, elegendo para seu chefe um Ber, P. Kruger, que estava dispsto
a tirar a desforra do indgena Seccni.

N'estas circunstancias a annexao era facil, e Sir T. Shepstone soube
aproveital-a. As cidades que no tinham nada de Bers, eram por elle, e
n'ellas se obtivram facilmente peties, que, digamos a verdade, eram
dirigidas por Inglezes.

Tambem se disse, que os prtos queriam ser Inglezes; e ento Sir T.
Shepstone, por uma proclamao, de 12 de Abril de 1876, declarou que o
Transvaal era uma provincia Ingleza. Sir Theophilus Shepstone quando fez
a proclamao estava escoltado por 25 homens apenas, que estavam
acampados em barracas no jardim da casa que elle habitava.

Assim, pois, a annexao do Transvaal foi pacfica, e no interveio
n'ella a fra armada, que elle mesmo no tinha, porque o regimento 80
de infanteria, que, debaixo do commando do Major Tyler, depois entrou no
Transvaal, estava a esse tempo acampado na fronteira do Natal lm do
Drakensberg. A annexao foi pacfica, mas os Bers so soubram d'ella
depois de annexados.

Sir Theophilus Shepstone, o homem que melhor conhece e melhor sabe viver
com o indgena d'aquellas paragens, soube o que fez.

Os Bers, espantados de se acharem Inglezes de um dia para outro,
tivram o seu movimento instinctivo e hereditario de emigrarem de nvo.

Uma parte d'elles tomram a vanguarda n'esse movimento que se devia
effeituar em massa, e ja narrei no captulo anterior como fram, pla
maior parte, destruidos pla secura do Deserto.

Aquella immensa catstrophe sustve os que lhe deviam seguir os passos,
e perfeitamente apertados n'um crculo de msca z-z, que lhes era
barreira insuperavel, tivram que curvar a caba de nvo ao jugo da
Inglaterra.

Acabar aqui a historia do Transvaal como paiz autonmico?

Quem o sabe?

 preciso ter vivido entre os Bers para se avaliar quo forte  n'elles
o desejo da liberdade, quo profundo o odio que votam aos que chamam
seus oppressres.

Deixemos por aqui este rpido golpe-de-vista lanado sbre a curta
historia do Transvaal, mas antes de reatar o fio da minha narrativa de
viagem, quero ainda dizer duas palavras sbre os Bers.

Vivi entre elles, perscrutei a sua vida ntima, desci a exacerbar-lhes
as paixes. Vi-os ao trabalho, cavalguei junto d'elles por brenhas e
florestas, e apreciei a sua destreza como caadores, a sua coragem em
face do perigo.

No me preoccupa a paixo; se recebi d'elles as mais affectuosas provas
de amizade, ja por mais de uma vez n'este livro tenho patenteado a minha
gratido a favres maiores recebidos de Inglezes.

Falo, pois, com a consciencia de que as minhas palavras sam a mais
rigorosa expresso da verdade, sem que no meu esprito haja ao dictal-as
a menor influencia apaixonada.

Digo isto, porque mais uma vez tenho de falar dos missionarios, falando
dos Bers, e no desejo que nem de leve se pense, que actua no meu nimo
um acinte formado contra to uteis instituies, que eu sou o primeiro a
proteger e a approvar; mas cujas chagas ulcerosas precisam do corte
fundo do escalpllo da crtica, do cauterio ardente da censura
verdadeira, para cicatrizarem de uma vez para sempre.

O Transvaal no  uma nao que se possa avaliar plas naes da Europa.

Ali ha uma s classe social--o Pvo. No ha distinces e tdos sam
iguaes em absoluto. Sem escolas, tdos sam ignorantes; trabalhadres,
tdos sam abastados; religiosos, e bebendo na Biblia, nico livro que
conhecem, as leis da moral, tdos sam honestos.

O principio que estabeleceu, na idade media, as distinces na Europa, a
coragem pessoal, difficil  ter cabida entre os Bers, porque tdos sam
valorosos. Como entre tdos os povos que vivem uma vida elementar, s
toma ascendente sbre os outros, aquelle que tem o dom da palavra.

A vida do Ber  regulada plos preceitos Bblicos, e  verdadeiramente
patriarchal. Entre os Bers no ha a mentira, o adulterio 
desconhecido.

O Ber casa cdo, e ou fica vivendo na casa de seus paes, ou dos paes de
sua mulhr, ou unido a outro vai perto arrotear novos terrenos, e
comear uma vida nova. A nica distinco entre os Bers  a da idade, e
o mais nvo escuta sempre o mais velho. A mulhr trabalha e ajuda o
casal n'um labutar incessante. O Ber tem necessidades muito limitadas,
e pode satisfazel-as.

Os emigrantes Francezes da revogao do Edito de Nantes eram, muitos
d'elles, artfices, e transmitram at  grao actual a arte de
trabalhar a madeira e o ferro. Nas casas do Transvaal  facil ver a um
canto um trno, e um Ber torneando os ps das suas mobilias singelas.

Fora, n'um alpendre, em atanara rudimentar, curtem-se os coiros de que
elles mesmos fazem o seu calado.

As outras necessidades da vida sam facilmente satisfeitas por gentes que
no t[~e]m outra ambio lm da liberdade, e que ha um sculo a buscam
quasi em vo.

Como, pois, sendo os Bers taes como eu os descrevo, se diz d'elles
tanto mal?

A explicao do facto est em pouco para quem viveu no Transvaal, entre
elles, e isento da paixo de raa que pode perturbar o esprito mais
justo e sisudo. Quem tem desacreditado os Bers sam os missionarios.
Digo-o e sustento-o. Depois que os Bers, occupando o Transvaal, e
pacificando pla fra as aguerridas tribus que lhes disputram a posse,
dram uma certa segurana ao paiz, dezenas de missionarios corrram a
estabelecer-se ali.

D'estes uns eram bons, muitos maos. Preciso dizer aqui o que  o bom e o
que o mao missionario.

Bons sam aquelles que, intelligentes e illustrados, possuindo as
qualidades que se requerem nos ministros de Deos, caminham para o seu
fim desassombradamente; edificando com paciencia, com paciencia
soffrendo o revs de hje na esperana do triumpho de manh; ensinando
a moral com o exemplo e com a palavra; indo de vagar sem a agitao da
paixo que cega, possuidos da responsabilidade da sua misso augusta.

Bons sam aquelles que  intelligencia e illustrao reunem aquellas
_flres d'alma_ de que falei.

Estes existem, mas infelizmente sam em pequeno nmero.

Maos sam os missionarios que, pouco intelligentes e quasi ignaros,
pensando que a sciencia da vida consiste em saber mal e interpretar
peior algumas passagens dos Livros Santos, empregam tdos os meios, mais
ou menos dignos, para alcanar um fim ficticio; e corrodos do veneno da
vaidade, ou movidos plo interesse pessoal, querem apresentar s
sociedades que os enviam, resultados extraordinarios, alcanados por
meios que no se avaliam na Europa, e que sam a causa principal da
prolongao da luta travada em frica entre a civilizao e a barbria.

Para estes, o fim principal  insinuar-se no nimo do indgena, e na
falta de qualidades que lhe ensinem o caminho a seguir, usam um meio
facil para obter o seu fim, meio que lhes d sempre bom resultado.

 elle o de prgar a revolta.

Para os ouvidos do indgena  sempre msica harmoniosa a frase que o
ensina a revoltar-se contra o branco.

Os missionarios que t[~e]m pouco saber e pouca intelligencia comeam por
gritar-lhe, a cada hora, a cada momento, no plpito sagrado, que so deve
ouvir a linguagem da verdade; que elles sam iguaes ao branco, sam iguaes
ao homem civilizado; quando so lhes deveriam dizer o contrario, quando
so lhes deveriam dizer:--"Entre ti e o Europo ha uma differena enorme,
e eu venho ensinar-te a vencel-a."

"Regenra-te, deixa os teus hbitos de indolencia, e trabalha; deixa o
crime, e pratica a virtude que eu te ensinar; aprende e deixa a
ignorancia; e ento, e so ento, poders alcanar um logar junto ao
branco; poders ser seu igual."

Esta  a verdade que lhe ensinam os missionarios bons, esta  a verdade
que lhe no sabem dizer os maos.

Dizer ao selvagem ignaro, que elle  igual ao homem civilizado, 
mentir,  commetter um crime,  faltar a tdos os devres que lhe impoz
aquelle que o mandou  frica,  atraioar a sua misso sagrada.

Dizer ao selvagem ignaro, que elle  igual ao homem civilizado,  abrir
a jaula  fera diante do pvo descuidso que tranquillo est confiado em
que a chave est em mo segura.

No! o indgena, tal como o missionario o encontra n'frica, no  igual
ao homem civilizado, est muito longe d'isso.

N'elle estam adormecidos os instinctos bons, para so se revelarem os
maos.

N'elle ha a indolencia e o horror ao trabalho; n'elle ha a ignorancia
absoluta: e bastam estas qualidades ms, lm de outras, para cavarem um
abismo entre elle e o branco.

O systema seguido plos missionarios maos  o estabelecimento da
desordem;  a maior barreira levantada ao progresso da frica Austral.

Os Bers, tendo conquistado um paiz de ha pouco, em breve percebram
que, se alguns missionarios eram auxilio poderoso  sua dominao,
outros lhe criavam conflictos e obstculos.

Comeram, pois, a fazer guerra a estes, que procurram logo
desconceitual-os aos olhos da Europa.

D'ahi nasce o exgero da ma fama dos Bers. Esta  uma verdade que eu
tenho a coragem de dizer n'um livro d'estes, e que ninguem ainda disse
antes de mim.

Vivi entre os Bers, ouvi a muitos exaltar as qualidades de tal ou tal
missionario, e deprimir os actos de outros e outros. Vivi em Pretoria, e
ali, n'um meio muito superior, ouvi a mesma cousa, de Hollandezes e
Inglezes. Vivi com missionarios, e encontrei n'elles mesmos as verdades
que affirmo.

No t[~e]m d'isso culpa as bem-intencionadas sociedades que os
subsidiam; no t[~e]m d'isso culpa as autoridades que os apoiam, e que
sam d'elles muitas vzes as primeiras vctimas.

O missionario deve ser um dos primeiros elementos da futura civilizao,
e d'elles devemos esperar muito; mas, taes como muitos sam, so dam
resultados contraproducentes.

O mao missionario prgou a revolta, e o Ber foi atacado. Houve guerra
cruenta, e para a Europa fram relatados os factos horrosos praticados
plos Bers, contra os bons, innocentes, e pacficos indgenas!!

No nos ceguemos, nos nossos bem intencionados sentimentos, a ponto de
admitirmos absurdos, de sonharmos chimeras!

Eu ja li em alguma parte, que o Ber era muito inferior ao ngro!!

Outra assero que ja ouvi affirmar tambem, foi, que o Ber era
refractario ao progresso!

Outro absurdo, outra aleivosia, sahida da mesma fonte!

No  o missionario o homem que hade levar o adiantamento ao Ber, e a
razo d'isso  o meu principal argumento contra a obra de muitas
misses, contra o caminho errado que seguem em frica.

Ja tive occasio de falar em missionarios bem intencionados, mas que
erravam na sua misso querendo ensinar as abstraces da theologia aos
prtos. Esta verdade revela-se no nada que elles obt[~e]m junto aos
Bers.

O Ber sabe tanta theologia como o missionario, se no sabe mais do que
muitos, bebida na Biblia, nico livro que elle l e estuda.

O missionario que julga o seu trabalho ser ensinar a Biblia, nada tem
que ensinar ao Ber, e deixa-o no estado em que o encontrou.

Depois grita, que o Ber  refractario ao progresso!

Sim! elle no adiantou um passo, porque o no soubram fazer avanar. A
culpa no est no discpulo, est no mestre.

Outra aleivosia levantada contra os fazendeiros do Transvaal,  o
ferrte de cobardes que lhes querem imprimir na fronte altiva.

Eu tive occasio de avaliar a coragem dos Bers; mas, se a no tivesse,
bastava-me a historia das guerras vencidas por elles contra Zulos,
Cafres e Basutos, para os soppr bravos.

Deos queira que elles no mostrem ainda o seu valor, de modo a fazer
calar os aleivosos.

Hje que escrvo estas linhas, chegam  Europa rumres de uma tentativa
de sublevao Ber; ser ella uma calamidade  frica Austral, que tda
a Europa deve lastimar; ser esmagada, como ninguem o pode duvidar; mas
vir trazer um desmentido formal quelles que chamam cobardes aos Bers.

[Figura 137.--O que restava da expedio.]




CAPTULO VII.


NO TRANSVAAL (_continuao_).

     M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrnomo!--Sir
     Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario
     Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev.
     Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de
     infanteria--Major Tyler e Capito Saunders--Insubordinao--M^{r.}
     Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia
     de pretas--Episodio burlsco da guerra trgica dos Zulos.


Era em Pretoria, ja cidade Ingleza e capital da provincia Transvaaliana,
que eu entrava na manh de 12 de Fevereiro de 1879.

Encontrei logo o thesoureiro do Govrno, M^{r.} Swart, que me fez os
mais cordiaes offerecimentos, mas que me disse, no me convidar para seu
hspede, porque no tinha na pequena casa que habitava um quarto a
offerecer-me.

Fomos aos hoteis. Nem um quarto, nem uma cama!

Voluntarios, que de tdas as partes corriam a alistar-se nos corpos que
se organizavam ali, attrahidos por uma paga de cinco xelins por dia,
enchiam tudo, e criavam-me um embarao enorme. Eu, que at ali tinha
tido cama, desde Benguella, comecei, na primeira cidade civilizada que
encontrava, a no ter onde me deitar!

Emfim, depois de muitas buscas e de me terem provado que as
conveniencias sociaes (eu ja me tinha esqucido das conveniencias
sociaes) me no permittiam dormir na praa pblica, onde eu ficaria
optimamente nas minhas pelles de leopardo, pude obter um canto, no Caf
Europo, onde me metti, com a promessa de um quarto em poucos dias.
Estava arrumado, mas comeram novas difficuldades para acommodar a
minha gente.

Mandei chamar o Ber Low, que precisava de tratar a mo esmagada plo
vagom, mas preveni Verissimo, que se deixasse ficar acampado fora da
cidade at nova ordem.

O portador voltou com Low e Verissimo, que me veio dizer, que a minha
gente tinha fome, e era preciso dinheiro para lhe dar de comer.

Fiquei espantado ao ouvir aquillo. Eu ja me havia esqucido de que o
dinheiro era absolutamente necessario em paiz civilizado, e no tinha
nenhum.

Contudo comprehendi que era preciso havel-o, e fui pedil-o ao meu
hospedeiro M^{r.} Turner, que logo m'o prontificou. Mandei Low a um
mdico, e eu dirigi-me a casa de M^{r.} Swart, que me convidara a
jantar.

M^{r.} Swart tinha feito convites e programma. Eu que sube isso, fiz
tambem grande _toilet_. Os meus cales, que da fazenda primitiva ja
pouco tinham, e onde os remendos deitados por mim (que nunca tive grande
geito para alfaiate) se sobrepunham, fram cuidadosamente escovados do
p e da lama de vinte differentes paizes. Achei um par de meias, que
tinham sido repassadas com grande pericia por Madame Coillard, e que
faziam vista. As minhas botas ferradas, essa obra prima de Tissier de
Paris, fram pla primeira vez engraixadas, e no tinham m apparencia.
O casaco dva-me mais cuidados, porque tinha uns bolos de couro, que
haviam sido outrora prtos, mas que ento haviam tomado uma cr
exquisita. Lembrei-me do tinteiro de M^{r.} Turner, e com uma penna de
gallinha procedi  pintura d'elles, que tomram um prto bao, talvez
ainda peior do que a cr que tinham.

Depois de bem penteada a longa barba e os mais longos cabellos, fui para
casa do Thesoureiro do Transvaal.

Ao passar os umbraes da porta do salo, fiquei deslumbrado.

As damas em toilet, os homens de casaca, os leques, as vistosas e
brilhantes cres das sdas, os taptes, os esplhos, tudo aquillo que eu
ja tinha esqucido em tantos mzes de vida rude e selvagem,
produzram-me uma impresso que no pode ser avaliada.

[Figura 138.--Eu em Pretoria.
(De uma photographia de Mr. Gross.)]

Deve sentir cousa semelhante o cego, a quem o bisturi ligeiro do mdico
levantou a cataracta que o tinha sepultado nas trevas, e que depois de
muitos mzes de escurido v a luz.

Eu estava perturbado, e sbre tudo as mos incommodvam-me muito.

No sabia que fazer d'ellas, e buscava de balde em que as occupar.

Faltva-me o pso da carabina, que eu procurava instinctivamente, em
vo.

Fomos para a msa. Eu conduzi plo brao a dona da casa, e ao chegar os
meus andrajos s sdas que a cobriam, comecei a perceber que estava
muito mal vestido.

 msa experimentei novas sorprsas. Os cristaes, as porcelanas, os
vinhos rutilando nas jarras lapidadas, confundiam-me, e sbre tudo o
_menu_ exquisito, escrito em elegantes cartes, intrigva-me.

Commetti de certo desatinos, mas no posso bem avaliar tda a extenso
dos meus disparates, to inconsciente estava.

Terminado o jantar, voltmos  sala, onde continuava a minha confuso,
at que uma dama se sentou ao piano.

Os seus ddos corrram ligeiros sbre as teclas, fazendo vibrar n'as
cordas em harmoniso concrto, um dos Nocturnos de Chopin.

A impresso que me causou aquella msica, aquelle piano, cujos sons me
penetravam na alma como uma sensao nova, acabram de perturbar o meu
esprito, fraco para poder resistir a tantos abalos. Foi quasi em
dilirio que voltei ao Caf Europo, onde n'um canto de uma sala me
haviam improvisado um leito, leito que tinha colches, travesseiros e
lenoes.

Ia para me deitar como de costume, quando percebi que me deveria despir
para isso.

Passei uma noute de insomnia, produzida plas impresses do dia e plos
lenoes da cama.

Ao amanhecer eu estava a p e vestido, porque na sala, em que podia ter
dormido, comeou um labutar de criadagem. Comecei a pensar no modo de
accommodar a minha gente, o que no me parecia facil, e vi que sbre
tudo precisava de obter dinheiro.

Estava fazendo os meus planos, quando me chamram para o almo.

Fui para a msa. Um criado Indio, um d'esses _culis_ que ja chegram at
Pretoria, collocou diante de mim um prato de espigas de milho,
cuidadosamente assadas, e um pires de manteiga. Ao encarar com o milho
assado, lancei ao pobre criado um olhar to feroz, que elle recuou
espavorido.

Milho a mim! a mim que so matava a fome com milho havia um anno! Ah!
que vontade que tive de empalar aquelle Indio, o cozinheiro e o dono da
casa!

Fiz um gesto to expressivo e enrgico, que as espigas desapparecram da
msa, levadas plo veloz criado.

Pouco depois, chegava-se solcito a mim M^{r.} Turner, a perguntar-me o
que eu queria para almoar.

O que eu queria para almoar? Mas eu queria tudo, queria perdizes com
trufas, queria _foie gras_, queria gelados, queria vinhos das melhores
colheitas de Burgonha, queria, queria... nem eu sei o que queria.

O dono do Caf Europo julgou que lhe havia cahido em casa um d'esses
gastrnomos famosos, que pensam sempre em elevar uma esttua ao clebre
Brillat-Savarin, e que se ainda a no erigram foi por no acharem
materia prima apropriada ao monumento, que fsse,  semelhana da
columna Vendome construida com os bronzes dos canhes conquistados, uma
recordao permanente do homem que ensinou  humanidade que no mundo no
se come so para viver. Effectivamente, pla primeira vez na minha vida,
eu era gastrnomo.

Pla primeira vez na minha vida, comecei a pensar que o paladar era um
sentido como os outros, e que se Mozart, Rossini, Meyerbeer, Verdi e
Gounod, o chilrear das aves e sussurrar do arroio, fram creados para
nos deliciar o ouvido; se Raphael, Rubens, Van-Dyck, Velasquez e
Murillo, as paisagens e as bellezas, nascram para nos recrear a vista;
se Atkinson, Rimmel, Lubin, Piesse, e as flres existem para nos
deleitar o olfato; tambem Brillat-Savarin, Vatel, as trufas e os
cogumelos no viram ao mundo sem uma misso especial.

Comecei a comprehender isto, tendo chegado a Pretoria depois de um anno
de milho, massango, e carne assada sem sal. Creio que tdos os paizes do
orbe comprehenderm que eu devsse ser gastrnomo ao chegar a Pretoria,
excepto a Inglaterra, porque essa, infelizmente para ella, nunca
comprehendeu nem comprehender Brillat-Savarin.

Felizmente para mim, eu estava n'uma terra Ingleza, mas Ingleza de
frsco, onde o _roast beef_ e o _plum pudding_ no haviam tomado um
ascendente notavel sbre a cozinha dos paizes meridionaes.

M^{r.} Turner no me deu um almo como m'o daria o Matta, o Central, o
Silva ou o Augusto em Lisboa, o Ledoyen ou o Caf Riche em Paris; mas
deu-me cousa muito soffrivel. No quero dizer ba, porque comeava a ser
muito difficil em gastronomia.

Depois do almo, em uma larga conversa que tive com M^{r.} Turner,
fiquei desenganado de que no tinha onde accommodar a minha gente na
cidade.

Isto preoccupva-me, porque no podia reter por muito tempo o vagom que
elles habitavam.

Eu estava sendo uma especie de urso que tdos queriam ver, e a
curiosidade dos importunos comeava a desgostar-me. Sbre tudo uma cousa
que aborrecia era ver os espantos que se faziam da minha pequena
estatura e da minha apparencia debil.

Este facto repetio-se na Europa, e em Lisboa, Paris e Londres, ouvi por
vzes expressar aos que me viam a desilluso que experimentavam, por me
julgarem um brutamontes, um Golias de talhe hippopotmico.

Mas se, nas circunstancias em que eu estava em Pretoria, muitos eram
importunos e me torturavam, muitos outros procuravam por tdos os modos
servir-me e obsequiar-me.

No nmero dos ltimos, contei n'esse dia quatro, que fram o Major
Tyler,[14] Capito Saunders do 80, M^{r.} Fred. Jeppe e D^{or.} Risseck;
e recebi dois convites, um para jantar, de M^{r.} Osborn, Secretario
Colonial e Governador interino do Transvaal, e outro do D^{or.} Risseck
para a um sarau; mas nada d'isto me adiantava sbre a maneira de arrumar
os meus prtos.

Pegando na minha carteira para procurar um resto de bilhtes de visita,
encontrei n'ella uma carta de M^{r.} Coillard dirigida ao missionario
Hollandez M^{r.} Gruneberger. Aproveitei o ensejo que me offerecia
aquella carta para fugir aos massadores, e fui entregal-a.

Mandei aparelhar Fly e parti.

A casa de M^{r.} Gruneberger  em Pretoria, mas um pouco afastada do
centro da cidade. Chegado que fui, encontrei o missionario, homem muito
nvo, que me recebeu muito bem. Apresentei-lhe a carta de M^{r.}
Coillard, e logo que elle a leu, offereceu-me o seu prstimo.

Falei-lhe no embarao em que estava para accommodar a minha gente, e
elle prontificou-se a resolvel-o, offerecendo-me o quintal da sua casa,
e a sala da escola, para elles dormirem  noute.

Aceitei pressuroso, e voltei ao Caf Europo, para mandar ordem ao
Verissimo de ir com o vagom a casa do missionario.

Aceitando o offerecimento do Rev. M^{r.} Gruneberger, fiz-lhe instantes
recommendaes sbre o modo de tratar os meus prtos, pedindo-lhe sbre
tudo, que os no trata-se de igual para igual; porque lhe fiz ver que
elles eram um pouco selvagens, e isso poderia trazer consequencias
graves. Elle rio-se muito das minhas recommendaes, e disse-me
modestamente, que o seu mistr era tratar com tal gente, e por isso
sabia do seu officio.

N'essa noute ja os prtos dormram na sala da escola, e o vagom
descarregado ficou livre para voltar ao Marico logo que a ferida de Low
lhe permittisse pr-se a caminho.

Fui ao jantar do Secretario Colonial e ao sarau do D^{or.} Risseck, e se
da casa de M^{r.} Osborn sahi penhoradissimo das suas attenes, e muito
contente, por ter resolvido um dos maiores embaraos da occasio, a
questo financeira, porque o governador interino do Transvaal, em nome
do govrno Inglez, poz  minha disposio o dinheiro de que eu
carecsse, em casa do distincto mdico Hollandez no me esperavam
momentos menos apreciaveis, porque passei ali uma das melhores noutes
que tenho passado em sociedade.

 verdade que o D^{or.}, recebendo em sua casa, apresenta aos convivas
uma maravilha, que os thesouros dos nababos e o poder dos autcratas no
podem apresentar.  Mademoiselle Risseck,  sua filha, deliciosa
criana, que acabava de deixar os trajes da infancia, e na qual o
esprito e educao esmerada disputam primazias a uma belleza sem igual.

O D^{or.} Hollandez redobrou de instancias comigo para que fsse ser seu
hspede, e eu de certo teria aceitado hospitalidade to franca e
cordialmente offerecida, se no tivera uma promessa de M^{r.} Turner, de
ter um quarto para mim no dia immediato.

N'esse dia, 14 de Fevereiro, e terceiro de estada em Pretoria, acabavam
de se resolver as minhas difficuldades.

O telgrapho tinha levado longe a noticia da minha chegada quella
cidade, e o telegrapho tinha trazido ordens, de Sir Bartle Frere, de Sir
Theophilus Shepstone e do Consul Portuguez no Cabo, M^{r.} Carvalho, a
meu respeito. Tinha a maior assistencia do govrno Inglez; e o
Portuguez, representado plo Consul do Cabo, ia lm do estrangeiro.

A minha gente disse-me estar optimamente em casa do Rev. Gruneberger, e
M^{r.} Turner dva-me um quarto.

Verdadeiramente no era um quarto, era uma casa tda e independente,
prximo do Caf Europo.

Comecei a respirar e a achar-me  vontade, mas tinha ainda um ponto
ngro, um pesadlo que me perseguia sempre, e era no saber o que fazer
das mos.

Andava sempre a procurar a carabina, e tal era a fra do hbito, que
mais de uma vez cheguei a sahir  rua com ella, com grande espanto dos
transeuntes.

N'esse dia remunerei Low e o endiabrado Christophe, que resolvram
partir no dia immediato, apesar de a mo de Low no apresentar sensiveis
melhoras.

Mandei por Low uns pequenos presentes a sua av, a velha megera do
acampamento Ber, e a suas irms, as duas bonitas raparigas que
cosinhavam ceblas.

Retribui e despedi tambem o Betjuana Farelan, que to bons servios me
prestou de Soul's Port a Pretoria, e por elle escrevi a M^{r.} Gonin, o
bom missionario Francez do Piland's Berg.

Fui em seguida ao _Cape Colonial Bank_, onde depositei a somma do meu
dbito a M^{r.} Taylor de Shoshong, que, continuando as suas delicadezas
para comigo, ainda a esse tempo no tinha feito apresentar a ltra para
o aceite.

Em seguida a estes passos, fui para minha casa, d'onde escrevi ao
Governador de Moambique, participando-lhe a minha chegada a Pretoria, e
pedindo-lhe para mandar expedir de Aden um telegramma que lhe enviei,
dirigido ao Govrno de Portugal.

Continuavam os favres que no cessavam de dispensar-me as principaes
pessoas de Pretoria, e eu quasi no tinha occasio para comer no Caf
Europo, tantos convites recebia.

A 15 de Fevereiro, tive uma larga conversao com M^{r.} Fred. Jeppe, o
sabio gegrapho Transvaaliano, e plas informaes que elle me deu,
combinadas com o que me havia dito o Governador interino e M^{r.} Swart,
vi que a guerra dos Zulos era um embarao  continuao da minha viagem.
ra-me quasi impossivel ir a Loureno Marques, como eu queria, e mesmo o
caminho da costa Ingleza estava difficil, porque depois da derrota de
Isandhlwana, os Zulos estavam apenas contidos por o bravo Coronel E.
Wood,[15] entrincheirado em Utrecht, e tdas as communicaes se faziam
plo Estado Livre do Orange, por Harrismith, triplicando o caminho e as
difficuldades.

Logo que estudei a questo, decidi mandar a minha gente para Natal plo
caminho de Harrismith com as bagagens, incorporada na primeira caravana
que largasse Pretoria, e eu szinho e escoteiro ir em linha recta plo
theatro da guerra. Dispuz pois as coisas n'esse sentido, e fiquei
esperando o ensejo desejado.

O dia 16 foi tdo consagrado a M^{r.} Fred. Jeppe e em sua casa fiz as
observaes para determinar as coordenadas de Pretoria. M^{r.} Turner
tinha a meu pedido fabricado um grande bloco de glo, com o qual pude
verificar os _zeros_ dos meus thermmetros e hypsmetros.

D'essas observaes, so existem as hypsomtricas, porque as astronmicas
perdram-se no sei como. Sei que as no encontrei registradas em
Maritzburg quando as quiz calcular, e lembra-me que calculei a latitude
mesmo em casa de M^{r.} Fred. Jeppe, e que encontrei para ella o mesmo
nmero que vem no almanach do mesmo S^nr., creio que do anno de 1878,
determinada por um official da marinha Ingleza.

Fui n'esse dia procurado por um homem que se devia unir quelles que na
cidade Transvaaliana se execedram nos favres que me dispensram.

Foi elle Mr. Kish, membro da Sociedade Real de Geographia de Londres.

Madame Kish, Madame Imink e a Baroneza Van-Levetzow enchiam-me de
favores, e nunca lhes poderei agradecer tudo o que por mim fizram.

No dia 19 recebi um convite para jantar, dos officiaes do regimento 80.

No posso deixar de narrar um episdio d'este jantar, que me commoveu em
extremo. Eu continuava a usar os mesmos trajes, e apenas tinha feito uma
absoluta reforma de roupa branca. Eu no possuia dinheiro meu, e aquelle
que saquei sbre o govrno era destinado s despsas necessarias da
expedio, e no s minhas necessidades particulares; por isso no
comprava roupa por no ter com que a comprar, e s o fiz em Durban
quando encontrei quem me emprestasse dinheiro a mim como particular. Por
esta razo os meus andrajos continuavam a cobrir-me, e n'aquelle jantar
destoavam completamente dos brilhantes e esplendidos uniformes que
vestiam os officiaes do 80 e os convidados. O jantar correu alegre como
entre officiaes que estam em campanha devia ser.

Eu estava de excellente humor, e ria de uma ou outra anecdota picante,
quando umas duzias de estalos vieram mostrar que os criados faziam
saltar as rlhas do espumante champagne. Enchram-se os copos, esses
pires de cristal sustentados por um problemtico pe perfurado, d'onde
sobe sem cessar uma fervura gelada, to grata  vista como  grato ao
paladar o lquido dourado em que ella se forma.

O Major Tyler, que presidia  msa, levantou-se, e tomando o copo,
pronunciou essa palavra, que, nos mais ruidosos jantares Inglezes, impe
o mais profundo silencio. Major Tyler disse, com a sua voz forte e
sonora:

"Gentlemen!"

"Gentlemen, a Sua Magestade El-Rei de Portugal."

Ns tdos de pe amos corresponder  sade, quando a msica do regimento
rompeu o hymno d'El-Rei D. Luiz, que foi escutado de pe no meio do maior
silencio.

No  possivel pintar as sensaes que experimentei ao ouvir aquella
msica, aquelle hymno patritico tocado em terra estranha, aquella
homenagem prestada ao meu paiz na pessa do seu soberano.

Se devi muitos favres e muita amizade ao Major Tyler, agrado-lhe
acima de tudo a sorprsa que me deu n'aquelle momento.

A affinidade de vida levva-me tdos os dias ao acampamento das tropas
Inglezas, onde eu, se no jantava, almoava, prendendo-me verdadeira
amizade a muitos dos officiaes, um dos quaes se tornou meu inseparavel.

Era elle o bravo Capito Allan Saunders. Da mesma idade e encontrando um
no outro idnticas inclinaes e gstos, o tempo que eu no passava com
Saunders passava-o elle comigo. Tdas as tardes s 4 horas nos
encontrvamos em casa da Baroneza Van-Levetzow, onde apparecia tambem s
vezes o Major Tyler, e onde se reunia uma distincta sociedade de
elegantes e formosas damas.

A Baroneza dva-nos um ptimo e exquisito caf, que era servido por sua
filha, uma encantadra criana loura e azougada.

Sabendo-se da minha ligao com Saunders, ja eu no recebia convite sem
que elle fsse convidado tambem, e assim passmos muitas horas
deliciosas em casa de Madame Kish e de Madame Imink e outras.

Aquillo era um ceo aberto, e em quanto eu no tinha mais que fazer do
que esperar os acontecimentos, so pensava em passar o tempo o mais
agradavelmente que podia.

Se eu tinha trabalhado e soffrido tanto!!

Fui avisado de que um comboio de vagons deveria partir para a cidade de
Durban no dia 22, e tratei de contratar com os conductres o transporte
da minha gente e bagagens. Este comboio devia gastar de 35 a 40 dias no
caminho, e por isso deixva-me largas para me demorar ainda em Pretoria
algumas semanas, porque eu calculava gastar apenas seis dias para
alcanar o mar.

No dia 21, estava eu preparando umas caixas em que deviam ir uns
pssaros, que eu trouxera e que tinham sido cuidadosamente arranjados
por M^{r.} Turner, em que deviam ser acondicionadas as pelles, despojos
das minhas caadas, e uns insectos que pude aproveitar, porque dos
muitos que apanhei ao sul do Zambeze, so chegram a Pretoria pernas,
cabas e corpos separados, sendo impossivel ao mais versado
entomolgico dizer a que cabeas pertenciam aquelles corpos, a que
corpos pertenciam aquellas pernas. Estava eu arranjando aquillo,
estupefacto com o pro que me custava cada bocadinho de tbua, que  o
gnero mais caro que encontrei em Pretoria, onde tudo  caro; quando me
viram chamar a tda a pressa, dizendo-me, que tudo em casa do Rev.
Gruneberger andava n'uma poeira, com a minha gente, que ja havia mortos
e feridos e no sei que horrres mais.

Corri a casa do Missionario.

Houvera e havia um caso grave de insubordinao contra o dono da casa,
que eu reprimi n'um momento, mas desgraas creio que apenas os queixos
de um criado partidos com um bofeto de Augusto.

Eu tinha sempre tido um presentimento que alguma cousa aconteceria se se
desse a confiana que se deu a prtos d'aquelles.

M^{r.} Gruneberger mostrou-me que era inconveniente continuarem em sua
casa, e muita razo tinha elle n'isso, depois dos disturbios que elles
ali fizram. Como deveriam partir no dia immediato, pouco cuidado me deu
este incidente; mas desgostou-me em extremo, plo que elles fizram
n'uma casa em que tinham sido to bem acolhidos.

No dia immediato, sube que os vagons so partiam no dia 26, e por isso
accommodei os prtos o melhor que pude na casa que habitava.

M^{r.} Swart, o Thesoureiro do Transvaal, continuava a obsequiar-me e eu
ia repetidas vzes a sua casa, onde sentia um prazer immenso em brincar
com as suas filhas, duas formosas crianas.

Eu nunca gostei muito de pequenos. Sempre os achei importunos e pouco
interessantes; mas depois da minha viagem, comecei a sentir uma
verdadeira paixo por crianas louras e bonitas, e em Pretoria eu
passava horas com as filhas de M^{r.} Swart, ou com as de M^{r.} Kish.

Talvez a lembrana de uma filha de quem eu estava separado produzisse em
mim aquelle gsto de brincar com as innocentes creaturas. Talvez a vida
rude e severa que eu tive n'uma to fadigosa jornada, precisasse de uma
antthese, que eu encontrava nas caricias da pequenada.

Ia assim passando a vida em Pretoria, quando um dia fui procurado por um
homem que trazia uma carta para mim.

Recebi o desconhecido, que tinha ares de sertanejo Inglez.

Era um rapaz ainda nvo, de mediana estatura, sympthico e de
physionomia enrgica, vestido de uma camisa grosseira, e umas calas
prsas com um forte cinto de couro.

Dirigio-me a palavra em Francez, d'aquelle que se fala no Boulevard dos
Italianos, e apresentou-me a carta. Conheci pla letra do sobrescripto
que era de M^{r.} Coillard.

Abri-a pressuroso, e vi que era carta de apresentao do portador.

No era preciso a recommendao de M^{r.} Coillard para eu cortejar com
respeito e estender a mo com sympathia quelle homem. O seu nome, bem
conhecido nos sertes da frica do Sul, era recommendao bastante.

Era M^{r.} Selous, o atrevido viajante e ousado caador Inglez.

M^{r.} Selous esteve tres dias em Pretoria, e conversmos muito sbre a
frica. Elle havia entrado ao Norte do Zambeze em uma direco parallela
ao Cafuque, e a leste d'elle, e fez-me d'esse paiz as mais interessantes
descripes.

Ali encontrou muitos Portuguezes, entrados por Quilimane, e entre outros
citou-me um Joaquim Mendona, que tinha como seus empregados trs
antigos soldados do Batalho da Zambezia, chamados Manuel Diogo, Joaquim
da Costa, e Antonio Simes. Plo que elle me disse, e combinando as
datas, penso que seriam estes os _Muzungos_ de que tanto se falava no
Barze durante a minha estada em Lialui.

M^{r.} Selous deu-me um esbo grosseiro da sua viagem ao norte do
Zambeze, de que eu me no servi na minha carta de frica Tropical
Austral, por no me julgar autorizado a isso sem a sua prvia licena,
que me olvidei de pedir.

Eu dei-lhe as indicaes que elle desejava para uma nova expedio
venatoria nos arredores de Linianti, e fiquei de lhe mandar um esbo do
paiz, que depois lhe enviei para Shoshong.

No dia 23 fui almoar com Monseigneur Jolivet, o illustrado Bispo de
Natal, que ento se achava em Pretoria, dirigindo as construces do
importante estabelecimento Cathlico que ali se ergeu depois da
dominao Ingleza; que  de certo a mais importante escola de educao
do Transvaal, e onde muitos Protestantes, M^{r.} Swart por exemplo, e
outros, enviam as suas filhas. Monseigneur Jolivet, homem sabio e de
respeitabilissimo caracter, conversou muito comigo, e percebi que no
era muito affecto aos Portuguezes.

Pensa elle, que ns no somos muito bons Cathlicos. Procurei
demonstrar-lhe o contrario, mas creio que o fiz de balde, porque
Monseigneur vinha sempre com a historia de um padre, o Rev. Bompart, que
tendo ido a Loureno Marques, no lhe foi permittido ali celebrar,
apesar de todas as instancias que fez.

No o pude convencer de que, se o Rev. Bompart se apresentou sem
auctorizao legal, era natural no lhe deixarem exercer o seu mister;
assim como no o pude convencer, de que quem governava na Igreja do
Oriente era o Arcebispo Primaz das Indias. O honesto Bispo, tinha to
profundamente arraigadas no esprito opinies e malquerenas contra ns,
que ficou na sua, dizendo-me sempre que ns somos os peiores dos
pedreiros livres do mundo. Uma tia velha que eu tive, tambem dizia o
mesmo depois da exstinco das corporaes religiosas.

Ora o facto verdadeiro  que Portugal  um dos paizes mais religiosos
que eu conheo, que  muito bom Catholico, mas entende que religio e
alta politica sam duas cousas differentes, aprendeu esta heresia com o
Marquez de Pombal, e desde ento se os padres misturam religio com
politica, zanga-se com elles.

Monseigneur Jolivet que me perde, se ainda contino a insistir em que
somos dos melhores Cathlicos do mundo, e que ainda o seriamos se nos
levantassemos forte e energicamente contra os ministros da nossa
religio, que traindo os deveres sacrosantos da sua misso nobre e
sagrada, fossem fazer propaganda poltica em deterimento nosso e em
favor de estrangeiros na terra da Patria, que terra da Patria  tda a
terra onde se hastea a bandeira de Ourique, seja qual fr o ponto do
glbo em que ella tremule.

 tempo de dizer duas palavras de Pretoria, tal como eu a vi em
Fevereiro e Maro de 1879. Comearei por descrever a cidade plo seu
lado material.

Pretoria era uma cidade nascente,  qual a dominao Ingleza no tinha
imprimido ainda o seu cunho nacional.

As ruas largas e espaosas do accesso s casas, pla maior parte
terreas, mas bem construidas e elegantes. Abundam ali os jardins, e em
algumas ruas as casas elevam-se no meio d'elles.

A cidade assenta sobre um plano inclinado que na parte mais elevada tem
abundantes nascentes de gua que a banham. Esta gua, ao tempo que ali
vivi, corria nas ruas em valtas lateraes profundas e descobertas, que a
escurido da noute convertia em verdadeiros precipicios. Recrdo-me de
mais de uma vez ter cahido n'ellas, chegando a casa completamente
molhado.

Em alguns quintaes e jardins ha rvores muito grandes e frondosas.

As ruas estavam por calar, e com as chuvas eram incmmodos atoleiros.

Tem alguns templos decentes, uma modesta casa de tribunal, e muitos
estabelecimentos commerciaes onde  facil encontrar tdo o necessario, e
mesmo o suprfluo, que ja ali ha luxo.

Na parte elevada estvam-se construindo os vastos quartis para as
tropas, que ento estavam em grande parte acampadas em barracas, em
trno de trs casernas ainda mal acabadas.

O caminho da cidade para os quartis era medonho, e perigso de noute,
porque as chuvas cavavam rgos profundos, e produziam atoleiros enormes,
onde nos enterrvamos, e onde por vzes arrisquei quebrar as pernas.

Ha na cidade alguns pontos muito bonitos, como  o chamado as _fontes_,
e uma das sahidas coberta por chores enormes, e onde uma azenha d um
cunho pintorsco  paizagem.

Os arredores sam despidos de arvordo, e um pouco montonos, havendo
apenas aqui e lm uma ou outra fazenda de Bers a quebrar a monotonia
natural.

Pretoria deve ser um dia uma das mais bellas cidades da frica do Sul, e
tal como eu a vi ja apresentava um aspecto geral agradavel e buliso.

Como em todas as terras, de nvo occupadas pla Inglaterra, Pretoria
estava cheia de gente nova, que vinha procurar fortuna, e que no a
encontrando facil, se alistava nos regimentos de voluntarios, onde como
soldados tinham uma paga de cinco xelins diarios.

O meu amigo Allan Saunders era o chefe da secretaria dos corpos
voluntarios, e no lhe sobejava o tempo para fazer alistamentos.

Os negociantes sam Hollandezes ou Inglezes, e como a cidade em si mesma
ja tem necessidades, no  so o trfico com o interior, e com o indgena
que ali representa uma parte importante no movimento commercial.

Disse-me o D^{or.} Risseck, que o clima  bom, ainda que em certas
pochas do anno no  isento de febres de caracter benigno. Sendo os
arredores de Pretoria abundantes em forragens,  facil ter ali cavallos,
e quasi tdos os moradores t[~e]m um _dog-cart_ ou uma _victoria_, em
que passeiam ou vam tratar os seus negocios.

[Figura 139.--Betjuanas. (De uma photographia de M^{r.} Gross.)]

Tal era Pretoria quando la passei algumas semanas em 1879.

Um facto que me produzio uma certa impresso foi ver que muitas mulheres
gentias dos arredores vinham  cidade vender os seus gneros, cobertas
com os trajes gentlicos, isto  quasi nuas, assim como as representa a
gravura junta a esta pgina; gravura cuja historia vou contar, porque
ella representa uma lio quelles que na Europa se afiguram ser facil
realizar em frica cousas faclimas no velho mundo.

Ha em Pretoria um magnfico photgrapho Suisso, M^{r.} Gross.

Eu travei conhecimento e tinha em breve relaes de amizade com elle.

Um dia, vendo um grupo de mulheres que vinham vender capata, chamei-as e
propuz-lhes comprar toda a capata que ellas traziam se se deixassem
photographar. As mulheres hesitram, e eu comecei a fazer-lhes as mais
bellas offertas.

Tentadas pelas minhas promessas, seguram-me a casa de M^{r.} Gross.

Deixei-as  porta e entrei.

Logo que expuz ao photgrapho o meu intento, elle fechou as mos na
caba e disse-me que, no fazamos nada, porque muitas vzes tentara em
vo a mesma cousa. Insisti, e M^{r.} Gross para condescender comigo, pz
mos  obra.

Introduzi as mulheres no _atelier_, no sem gastar n'isso ba meia hora,
porque, chegado o momento de entrarem em casa do photgrapho, augmentou
a sua hesitao.

Ahi estam ellas no _atelier_, mas recrescem as difficuldades ao
collocal-as em posio defronte da mchina. Estam em foco, e quando o
photgrapho vai introduzir na corredia a chapa sensibilizada, duas ou
tres fogem espavoridas e outras deitam-se de cara no cho. Nvo trabalho
de paciencia e outra meia hora perdida e uma chapa inutilizada. A mesma
scena ainda se repete, at que em fim se pde obter um negativo, em que
tdas mexram tanto, que nos deixa em dvida se sam macacos ou bonzos as
imagens reveladas. Outras tentativas t[~e]m o mesmo resultado, e perdido
o dia e gasta a paciencia, ellas vam-se.

Eu, apesar d'isso, sempre teimoso em querer a photographia das prtas,
cumpri o contrato indo lm das promessas feitas. Ellas tambem me
promettram voltarem, e d'ahi a dois dias estavam  minha porta.

La vamos para casa de M^{r.} Gross, que ja tremia de me ver com as
prtas. Eu lembrei-me de me pr ao lado da mchina e de lhes dizer que
olhasem para mim, ellas assim fizram, e eu encarei-as to fito, com um
olhar to pertinaz, que ellas perturbram-se, tivram esse momento de
fascinao que produz a immobilidade, M^{r.} Gross descubrio a
objectiva, e o grupo estava apanhado.

Quizmos ainda tirar outro, mas o encanto tinha-se quebrado, e no foi
possivel obter mais nada d'ellas.

Assim essa photographia custou-nos dois dias de trabalho, uma avultada
quantia, e uma incalculavel paciencia.

No grupo, as mulheres que t[~e]m uma franja por tanga sam solteiras;
aquellas que t[~e]m uma pelle, casadas.

No dia 25 de Fevereiro, vspera do dia em que deviam partir os meus
prtos e as minhas bagagens, para Durban, seriam 4 horas da tarde,
quando eu me dirigi a casa da Baronesa Van-Levetzow, a pedir-lhe uma
chvena d'esse ptimo caf que ella to delicadamente offerecia aos seus
amigos; quando em caminho me sorprendeu um movimento desusado na cidade.
Perguntei a um transeunte, o que havia de nvo? e elle respondeu-me, que
os Zulos estavam s portas de Pretoria, e que dentro em pouco a cidade
seria saqueada. Corri s informaes, e para ir a ba fonte, fui  casa
do govrno.

Ali soube que, de facto, os Zulos no estavam ainda em Pretoria, mas
muito perto, e a cidade seria atacada dentro de poucas horas. As
informaes eram officiaes e certas. Indaguei em que ponto elles estavam
e voltei a casa. Mandei logo Verissimo, Augusto e Camutombo 
descoberta. Fiquei a pensar no caso, e, com o meu conhecimento de frica
e de prtos, conclu que tudo aquillo era um absurdo disparate.

Sahi a visitar vrias pessas, e se algumas encontrei possuidas do
pnico geral, outras estavam descanadas e no acreditavam como eu no
ataque dos Zulos. Algumas damas tinham-se ido refugiar no acampamento
das tropas.

Eu fui prevenir Monseigneur Jolivet do caso, dizendo-lhe o que havia,
que no acreditava, mas que s vzes as cousas mais absurdas aconteciam,
e por isso era bom estar prevenido para pr a salvo as Irms de
Caridade.

Voltei a casa, e ao cahir da noute chegavam, com pequenos intervallos os
meus trs enviados, afianando-me, que no logar designado no havia um
so Zulo, nem d'elles havia noticia no Transvaal. Eu, que me fiava mais
nas informaes de Verissimo, Augusto e Camutombo do que em tdos os
relatorios officiaes, deixei os prtos em casa, e fui ver o que faziam
os meus amigos Major Tyler e Capito Saunders.

Ao chegar ao acampamento, um terrivel e desusado "Quem vem la?" de uma
sentinella, provou-me que ali estavam em pe de guerra. Respondi,
"Amigo," e pude entrar. No campo havia grande rebolio. Fortificavam-se
e entrincheiravam-se com os vagons.

No me foi difficil encontrar o commandante militar de Pretoria, o Major
Tyler. Vestido com o esmero e luxo que sempre usa, as mos caladas em
apuradas luvas brancas sem a menor sombra, o p mettido em elegante
botina, tal em fim como entra nas salas em que  to querido, o bravo
commandante do regimento 80 estava com tda a placidez e socgo, dando
acertadas ordens, e pondo o campo em estado de defsa formidavel.
Cheguei-me a elle e disse-lhe que o ataque esperado era uma verdadeira
comdia. Elle respondeu-me, que sempre assim o havia pensado; mas que,
tendo recebido communicaes officiaes, no podia deixar de fazer o que
estava fazendo; e que lm d'isso, no desgostava d'aquelle rebate, para
avaliar o que eram os seus homens, e saber com o que poderia contar n'um
caso srio.

Dei razo ao elegante official, e fui-me em busca do seu immediato, o
meu amigo Saunders. Andava elle de outro lado dirigindo as manobras,
rindo sempre, sempre contente. Saunders pareceu-me acreditar nos Zulos,
o que lhe no tirava nada do seu bom humor habitual. Foi-me logo mostrar
duas metralhadras, para as quaes estava a olhar pasmado um alferes
qualqur a quem as haviam entregado. Depois d'isto disse-me elle, que
estavam muitas damas recolhidas no campo, e convidou-me a ir vel-as.

Fomos passar uma minuciosa revista, e vimos que o Major Tyler, como
melhor relacionado com o bello sexo, tinha cedido o seu quarto plo
menos a duzia e meia. O quarto de Saunders tambem no estava vazio, mas
deve dizer-se, em abono da verdade, que aquelles eram os dois nicos
quartos do quartel, vivendo o resto dos officiaes em barracas.

Saunders lembrou, que em tempo de guerra era bom beber qualquer cousa, e
fomos  sala dos officiaes.

Na sala estava so um homem. Fardado, e armado, estava sentado n'uma
poltrona com tda a commodidade, tendo diante de si um copo de _brandy_
e soda.

Era o tenente Cameron do regimento, que disse a Saunders: "Meu capito,
eu c estou  espera dos Zulos, e em quanto elles no v[~e]m, vou
bebendo."

Era realmente admiravel ver esses bravos officiaes Inglezes, que morriam
rindo e descuidosos n'uma guerra ingloriosa, to tranquillos e socegados
em frente de um perigo qualquer, como se os esperasse um baile ou uma
festa.

Ns dissmos ao tenente Cameron que no havia Zulos, e elle recebeu a
noticia com certa tristeza.

Quem sabe se elle, com a confiana da mocidade, no tinha sonhado
n'esse momento com os galles de um posto superior?

Pouco depois reunio-se a ns o Major Tyler, e disse-nos, que ia ver o
que faziam os voluntarios na cidade.

Eu e Saunders acompanhmol-o. Era meia noute e havia escurido profunda,
a chuva cahia a torrentes, e eu apenas pude apanhar metade do
impermeavel de Saunders, que levou s o cabeo, dando-me o resto.

Tropeando aqui e cahindo lm, chegmos  praa, onde na igreja
parochial deviam estar os voluntarios.

Entrmos no templo, que estava cheio de soldados, e logo que o Major
Tyler deu as suas ordens, fomos tdos trs para minha casa.

Estvamos muito molhados, e o meu primeiro cuidado foi abrir uma garrafa
de vinho velho.

Bebendo e conversando passmos ali uma parte da noute, rindo eu e
Saunders a bom rir, da seriedade do Major Tyler, que estava indignado
por ter o seu quarto cheio, no de damas, que elle  muito galante para
se queixar d'isso, mas de meninos!--de meninos que choravam!

Pla madrugada, o Major Tyler e o Capito Saunders retirram, e eu
fui-me metter na cama.

Eis como acabou um dos episodios cmicos, da trgica guerra dos Zulos,
episdio que ficaria no esqucimento se eu o no trouxesse a pblico.

No dia immediato tve logar um acontecimento importante para mim.

A minha gente e as minhas bagens seguram para Durban, plo caminho
seguro de Harrismith.




CAPTULO VIII.


O FIM DA VIAGEM.

     A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
     _dog-cart_--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no
     Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
     burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi
     Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O
     _Danubio_--O Commandante Draper--Regresso  Europa.


Andava tudo em rebolio. Nunca em Pretoria se tinham feito tantos gastos
de _toilettes_, nunca os lojistas vendram tantas fitas e tantas rendas!

Os homens escovavam e preparavam os uniformes, porque tdos mais ou
menos tinham uniformes, e os que os no tinham inventvam-n-os. Se tudo
estava em guerra!

Cavallos e carruagens soffriam tratos de limpezas desusadas. Tudo luzia
e brilhava. O enthusiasmo era geral e chegava mesmo aos Hollandezes.

As damas trabalhavam com afan, e davam tratos ao milo, contido nas
cabecinhas louras e encantadoras, para melhr pregarem um lacinho, para
melhr fazerem realar a belleza delicada.

Os homens, _elles_, diziam " _C.B._[16] e tem a _Victoria Cross_,[17] 
o heroe da guerra dos Ashantis,  um homem de grande energia,  um dos
mais notaveis officiaes do exrcito Inglez."

_Ellas_, ellas diziam: "Tem 36 annos o coronel, e dizem que  alto,
nobre e bonito!"

Que enthusiasmo! Eu nunca vi coisa assim! O meu cavallo ja estava
emprestado a uma dama, que queria mostrar tda a sua elegancia de
amazona. Outras mais infelizes procuravam debalde um meio de transporte.

So eu, creio, que estava frio no meio daquella effervescencia de
delirio.

Eu ca, no ia esperar o nvo governador, e contentar-me-hia de o ir
visitar  sua chegada.

Mas quem pode dispor dos seus sentimentos, e contar com o seu esprito
no meio da effervescencia geral?

No dia 2 de Maro, comecei a sentir que a febre do nvo governador se
apossava de mim, e sahindo enthusiasmado de casa, fui comprar um chapo
nvo! Era uma reforma importante no meu traje.

Aquelle homem por quem se faziam tantos trabalhos de recepo aguva-me
a curiosidade. Os homens pareciam temel-o, as mulheres pareciam
adoral-o; e ser temido dos homens e adorado das mulheres  ter attingido
a meta da felicidade para qualquer creatura mscula.

No dia 3 devia elle chegar, e o ponto da entrevista era a nove milhas da
cidade.

Levantei-me sem msmo pensar em la ir, at porque, se quizesse ir, no
tinha em qu, tendo emprestado o meu cavallo.

s nove horas sahi de casa, mas no encontrei ninguem. Fui almoar, e
no encontrei ninguem. Fui a casa de alguns amigos, e no encontrei
ninguem em casa. Comecei a dar ao diabo o nvo governador. Eu ja
comeava a perder o hbito de viver szinho, e queria companhia.

Voltei ao Caf Europo e deparei com M^{r.} Turner. Dirigi-me logo a
elle e sem mais prembulos pedi-lhe um cavallo. M^{r.} Turner julgou que
eu no estava bom de caba. Pedir um cavallo n'aquelle dia e quella
hora so um inconsciente o faria.

Eu insisti em querer um cavallo, e a difficuldade que se levantava era
apenas incentivo para exacerbar o meu desejo.

Depois de muito pensar, M^{r.} Turner tve uma lembrana.

Elle tinha um ptro, ainda no montado, bravio, diablico.

Se eu quizesse o ptro, elle emprestva-m'-o. Fomos logo  cavallaria.

Para apparelhar foi uma campanha, para montar outra.

Depois de varias teimas, em que tivram razo umas esporas enormes que
me tinha dado M^{r.} Clark em Shoshong, consegui endireitar no caminho
do acampamento. Por uma questo de hbito eu queria ver o Major Tyler e
o Capito Saunders, antes de ir esperar o governador. Foi uma infeliz
lembrana.

O regimento 80 estava formado em revista, e acabada ella pude falar aos
meus amigos, mas de repente a msica comeou a tocar, e o cavallo,
espantado com o zabumba, comeou a fazer taes e taes desconcrtos que
tive de largar d'ali a tda a pressa, atropellando as barracas de lona
do campo e fazendo at fugir de uma d'ellas alguem que la estava. Pude
ver-me a final em campo livre, e o ptro pagou caro os seus atrevimentos
de momentos antes.

s duas horas eu alcanava as cavalgadas e estava entre os meus amigos,
mas estava em lastimoso estado de fadiga e cansao.

Pouco depois, uma carruagem escoltada por alguns voluntarios de
cavallaria, chegava em sentido opposto, e apeava-se d'ella o nvo
governador do Transvaal.

O Coronel Sir William Owen Lanyon, K.C.B., correspondia  espectativa
geral.

Era nvo e bello, e do peito da sobrecasaca pendia-lhe a _Victoria
Cross_.

Tdos estavam contentes, e os frenticos hurrahs! que lhe levantram,
eram d'isso prova. Segumos para a cidade. O meu cavallo, no meio dos
vivas e dos outros cavallos, estava insopportavel e custva-me a conter.

De repente espantou-se com uma carruagem, deu um enorme salto e partio.
O meu chapo nvo, o chapo comprado na vspera, cahio por terra, em
quanto eu era levado com uma velocidade enorme, n'um correr desenfreado.

Passei e em breve perdi de vista carruagens e cavalleiros.

O terreno era bom e eu deixava correr o endiabrado, que a final havia de
parar em alguma parte.

Apesar de muito distanciado da comitiva do governador, pareceu-me que
sentia um outro correr de cavallo, perto de mim, e voltando-me na sella
percebi que era seguido e ia ser alcanado em poucos momentos.

Uma gentil amazona, muito melhor montada do que eu, porque montava o meu
Fly, ria a bandeiras despregadas das minhas tribulaes, e em breve
emparelhando comigo estendia-me o pobre chapo que eu tinha perdido, e
que ella, com essa pericia de tdas as damas das colonias do sul
d'frica, que sam as primeiras cavalleiras do mundo, tinha apanhado do
cho e me vinha trazer, mofando de um cavalleiro que perdia o chapo e o
deixava apanhar por uma dama.

Eu estava envergonhado, e sem me lembrar de que era impossivel fugir s
pernas vigorosas e ligeiras de Fly, tentei instigar o meu cavallo a uma
fuga, a que elle ja se recusava, apresentando uma fadiga bem motivada.

Entrei em Pretoria sempre perseguido plos chascos da amazona azougada,
e depois de ir entregar o ptro a seu dono, fui a p para o Palacio,
onde esperei a chegada da festival comitiva.

Chegram elles, sempre dando mostras do mais enthusistico
contentamento.

O Coronel Lanyon estava installado, e depois de um bem servido _lunch_,
retirmo-nos.

O valente e sympthico coronel tinha cptado tdas as sympathias, e
desde a sua chegada, esquceu o episdio do ataque dos Zulos, narrado no
anterior captulo, para so se falar d'elle Governador.

Nos dias seguintes houvram recepes, saraus, e _matines_ danantes, a
que eu no assisti, preoccupado ja com a minha sahida para Durban.

No dia 5, fui eu a uma lgua de Pretoria ver uma curiosidade em que
Inglezes e Hollandezes me falavam muito.

Era o _Wanderboom_, a rvore sagrada. Effectivamente,  digno de ver-se
esse gigante vegetal, que os Bers mostram com admirao, e que,
deitando dos altos troncos novas raizes que viram procurar a terra e se
convertram ellas mesmas em caules, forma por si so uma espssa mata.

Finalmente, depois das mais cordiaes despedidas aos muitos amigos que
tanto me obsequiram em Pretoria, parti, no dia 8, para Heidelberg, onde
cheguei por noute fora.

Decidi demorar-me alguns dias n'aquella bonita villa, para fazer as
minhas ltimas observaes e fechar os meus trabalhos.

N'um jantar em Pretoria, em casa de Madame Kish, fiz eu conhecimento com
um sujeito chamado Goodliffe, que sabia no ser de Pretoria, mas que no
pensava tambem ir encontrar em Heidelberg.

M^{r.} Goodliffe convidou-me para sua casa e fz-me os maiores favres.

No dia immediato ao da minha chegada, depois de fazer as observaes da
manh, fui dar szinho um passeio nos arredores, e comecei a trepar
montanhas e montanhas, at que, d'um pico muito elevado, consegui
dominar a paizagem. Pareceu-me que devia estar a uma grande altitude,
porque dominava tdas as cumiadas do Zuikerbosch-Rang.

Olhei para o meu barmetro aneroide de algibeira, e vi que elle marcava
dois mil metros!

Decidi logo voltar la no dia immediato a fazer observaes mais seguras,
e effectivamente assim o fiz.

Era na verdade aquella a maior altura a que eu tinha estado na minha
viagem, e no deixei de fazer especial meno d'ella.

No dia 11 de Maro, depois de ter concluido tdas as observaes e
fechado os meus trabalhos, parti de Heidelberg, s 8 horas da manh, em
um _dog-cart_, que precisa de uma breve descripo pla sua
originalidade.

Era um d'sses carros de fbrica Americana, ligeiros e fortes, montado
sobre duas rodas altissimas, e que, em logar de varaes, t[~e]m uma forte
lana, onde se atrella uma parlha em troncos, e d'onde partem os
tirantes para umas sotas sltas.

Tem dois assentos costas com costas, que podem admittir quatro pessas.
Bagagens nenhumas pode conduzir, e apenas uns pequenos volumes na exigua
caixa.

O meu cocheiro era um mulato, creio que Gricua, chamado Joaquim Eliazar.

Os meus companheiros eram o Tenente Barker, do 5^o Regimento de West
York, e o seu impedido Dupuis.

Logo  sahida de Heidelberg, tivmos de atravessar o ribeiro que corre
ali, cujas margens quasi a pique dam difficil passagem a um carro.

A primeira foi passada sem difficuldade, mas na segunda o dog-cart
tombou-se, e o Tenente Barker cahio sbre Dupuis e eu sbre Barker.

Levantmo-nos sem a menor contuso e rindo do caso. Dupuis, que tinha um
nome Francez, mas cuja nacionalidade eu nunca pude entender bem, porque
elle falava indifferentemente tdas as lnguas, e servia
indifferentemente tdos os paizes, comeou logo a contar varios casos de
quedas e carros tombados, que lhe haviam succedido em Frana, na Russia,
na Amrica e na China.

Dupuis era homem de 55 a 60 annos, baixo, espadado e robusto. Tinha
servido no exrcito Francez na Crimea, e contava com enthusiasmo a carga
de Balaklava.

Tinha servido no exrcito Inglez na guerra da China; na Amrica servio
os Federaes, bateu-se depois na Frana pla Allemanha, em 1870. Conheceu
na India o Major Cavagnari, e vinha de la bater-se contra os Zulos.

O seu desideratum era ser soldado enfermeiro nas ambulancias do exrcito
Inglez; mas, em quanto o no conseguia, ia sendo camarada do Tenente
Barker.

Barker era um d'esses jovens Inglezes, loiro, olhos azues, tal em fim
como os vemos, encontramos e conhecemos em tda a parte do mundo.

Ia cheio de enthusiasmo encontrar a columna de Sir Evelyn Wood, e
bater-se contra os ngros de Catjuaio.

Trabalhmos tdos quatro rudemente para pr o carro em estado de seguir,
e uma hora depois vovamos por sbre a planicie, puxados por quatro
ligeiros e robustos cavallos do paiz.

Choveu bastante durante o dia, e s 2 horas encontrvamos o rio
Waterfalls a transbordar. Era um embarao.

Alguns vagons de Bers estavam parados junto d'elle sem se atreverem a
transpol-o.

A profundidade mxima era de dois metros. Um dos vagons de Bers estava
carregado de lenha, e apresentava do tope da carga ao cho uma altura de
mais de trs metros.

Offereci ao Ber seu dono cinco xelins se elle quizesse transpor o rio,
e me deixasse ir com os meus papis encarapitado no alto da carga.

O homem aceitou, e eu, Barker, Dupuis e os nossos pequenos havres,
armas e cartuxos, acommodmo-nos sbre a lenha.

Oito juntas de possantes bis fram jungidos ao vagom, que, poucos
momentos depois, estava na margem opposta.

Joaquim Eliazar em pe sobre os assentos do dog-cart, com gua pla
cintura, e segurando as guias com destreza de um cocheiro consummado,
tambem transpoz o rio sem accidente.

Pouco depois, tomvamos pla quarta vez cavallos frscos da posta, e
continuvamos essa carreira vertiginosa em direco ao vao de
Standerton, onde devamos passar o Vaal.

s 8 da noute, ja com uma fome desabrida, entrvamos em uma modesta
estalagem de Standerton, onde tnhamos uma pssima ceia, e no melhor
cama.

De Heidelberg a Standerton o paiz  planicie enorme, a perder de vista,
onde no cresce uma so rvore, e onde uma herva no muito alta serve de
pasto a milhares de antlopes, pla maior parte bodes saltadres
(Springboks).

Sbre tudo nas margens do rio Waterfalls vi innmeros, mas muito
esquivos.

No dia immediato deixmos Standerton, s 7 da manh, depois de um
almo, que nos fez lembrar, que poderiamos ter almoado se tivssemos
qu.

Pla tarde d'esse dia ja comevamos a encontrar falta de cavallos nas
casas de posta, saqueadas ou abandonadas por causa da guerra. Ao mesmo
tempo recresciam as difficuldades do caminho, porque nos embrenhvanos
nos desfiladeiros do Drakensberg.

No se pode fazer muito ida do que seja viajar por montes e valles, sem
caminho nem carreiro, em um dog-cart puxado a quatro sltas.

Ao entrar-mos nos desvios da serra, uma temerosa tempestade cahio sbre
ns, e uma chuva copiosa alagou a terra e o carro.

Veio a noute, e uma noute medonha. Os relmpagos alumiavam as trevas
para as tornar mais ngras e densas.

So a muita prtica do cocheiro podia guiar o carro por aquelles alcantis
n'um correr desenfreado.

De vez em quando, uma cova, uma rocha, um precipicio, era nas trevas
mais adivinhado do que visto, e um sonoro _All fast_ (tdos firmes)
pronunciado por Joaquim Eliazar pnha-nos de preveno.

E a chuva a cahir, o trovo e o relmpago a espantar os cavallos, e
aquelle carro sempre a correr nas vertentes este da alta cordilheira.
Tinha alguma cousa de fantstico o quadro, e se tivesse sido visto por
outros que no ns deveria causar-lhes impresso profunda.

Dupuis tinha sempre uma historia a contar a cada solavanco do ligeiro
vehculo. Umas vzes era na China, outras na Amrica, outras na Russia,
que o caso se tinha passado.

Depois Dupuis cantava, e era, ja uma cano Americana, Franceza,
Chineza, ou Hngara, que vinha perder-se no estrepitso rodar do carro,
ou no cem vzes repetido echo dos troves.

Seriam 8 da noute, quando um claro fixo e distante me chamou a
atteno. Endireitmos para elle.

O caso no era muito seguro, mas continuar o caminho assim era peior do
que encontrar os Zulos.

Parmos a distancia da fogueira, e eu dirige-me a ella. Ao aproximar-me,
vi que entre uns vagons, debaixo de um alpendre improvisado com pannos
de lona, estavam sentados trs officiaes Inglezes. Entrei rpidamente na
zona de luz, para ser logo reconhecido e no levar algum tiro. Os trs
sujeitos olhram para mim sem o menor espanto, e dissram-me
polidamente: _Good evening, sir_.

Estavam tomando ch, e eu sentei-me sem ceremonia ao lado d'elles.

"Toma uma chvena de ch? me perguntou um d'elles."

"Aceito reconhecido, e at aceitava de comer, porque tenho fome."

"De comer! mas ns tambem no temos nada que comer, e so ch e um pouco
de assucar possuimos."

Tomei uma grande tijela de ch, e tdo molhado deitei-me junto 
fogueira, onde dormi tda a noute.

No dia immediato, parti logo de madrugada e so  noute pude matar a fome
em casa de um Ber, que me leu trs pginas da Biblia, mas que em
seguida me deu ba ceia.

Passou sem incidentes o resto da viagem at perto de Newcastle.

Ali encontrmos o rio Newcastle a transbordar, e tivmos um verdadeiro
trabalho para o transpor, sendo preciso nadar, e molhando-se tudo o que
trazamos.

Chegado  povoao de Newcastle, o meu primeiro cuidado foi almoar, com
uma fome de 24 horas.

Eu em Pretoria ja tinha desaprendido a ter fome, e comeava a
impacientar-me quando a sentia.

Installei-me em um hotel, onde no se estava bem nem mal, e tratei logo
de enxugar os meus papis, e de tomar um logar na diligencia que fazia o
servio d'aquelle ponto a Pietermaritzburg.

Separei-me ali do meu tenente Inglez, que se dirigia com o seu camarada
ao theatro da guerra; e eu, um dia depois, tomava logar na diligencia, e
partia para o meu destino.

ramos nove no carro, oito homens e uma dama, e haviam ali so dois
logares supportaveis ao lado do cocheiro.

Um foi cedido  dama e eu quiz o outro. ra-me elle disputado por um
tenente de voluntarios, que trazia umas esporas enormes e um uniforme
esplandecente. Cada um de ns apresentava os seus respectivos direitos
ao logar, ante o cocheiro, rbitro supremo n'aquelle litigio.

Uma meia-libra subtilmente escorregada na mo do mulato, prevaleceu
sbre uns poucos xelins dados plo tenente, dizendo o cocheiro bem alto,
que elle no era homem que se vendsse, e por isso entregava ao tenente
uns trs xelins que elle tinha feito a offensa de lhe querer dar, e
dizendo-me, que tomasse o logar cubiado, em quanto o voluntario mavorte
subia para o interior, furioso e iracundo, o honrado cocheiro punha as
rdias em ordem e fazia estalar o chicote.

Se o tenente estava furioso, no o estava menos a dama, que podendo ter
a seu lado um elegante official, tinha por companheiro um maltrapilho
como eu.

Achegou a si o vestido para no roar plos meus esfarrapados cales, e
apesar de irritada contra o cocheiro, preferio encostar-se a elle para
evitar o menor contacto comigo.

Na primeira muda, eu quiz ver se derretia aquelle glo, se quebrava
aquella malquerena que me affligia, e tendo encontrado uns frascos de
amendoas cobertas, comprei pressuroso um, pensando, na minha
inexperiencia em assumptos feminis, que uma dama joven e formosa devia
gostar de dce, e ser vencida com blos.

Ao dirigir-me ao carro, eu ja via aquella ruga formada entre os
sobrolhos desfazer-se, ja via aquelles labios pregados em gesto irado
entreabrirem-se em sorriso benevolente, ja via um principio de
conversao; e foi com a maior confiana que lhe estendi o meu talisman,
o frasco dos confeitos. A joven dama, sem mesmo me dar a confiana de
olhar para mim, disse-me scamente, "No tenho a honra de o conhecer."
N'um ataque repentino de despeito, atirei com o frasco fora, e elle foi
partir-se sbre uma rocha, entornando as espheras coloridas que rolram
em todas as direces.

Estavam abertas as hostilidades entre ns.

 hora de jantar parmos em Sunday's River, onde me dram um magnfico
servio por dois xelins e meio.

A dama e o tenente de cavallos ligeiros,  msa, muito unidos
lanavam-me olhares furiosos, e de certo me rogavam tantas pragas
quantas as que cahram sbre o Egypto com a sua obra de destruio.

Ao subir para o carro, ignorando quem eu era, e avaliando-me so plos
meus andrajos e pla minha barba desgrenhada, a joven Ingleza disse ao
filho de marte, "que a gente ordinaria ja se dava uns taes ares que
irritavam." Isto encheu-me as medidas, e eu prometti vingar-me logo que
a occasio se apresentasse.

No tardou ella em apparecer.

N'essa noute chegmos, s 7 horas, a Ladysmith, onde devamos pernoitar.

A villa estava cheia de gente, e transportvam-se ali os feridos e os
doentes.

No havia uma cama, no havia um canto onde nos mettermos.

Em uma hospedaria encontrmos quasi vazia a sala de visitas, e digo
quasi vazia, porque so la estava estabelecido um cabo de esquadra, que,
deitado no sof, no fez muito caso do tenente de voluntarios.

A dama sentou-se em uma cadeira e o tenente sahio.

Eu travei conversa com o cabo de esquadra, e offereci-lhe de beber. A
perspectiva de uma ba garrafa de vinho fez mais effeito no marcial
guerreiro do que os confeitos tinham feito na loura Ingleza, e o meu
homem sentou-se e travou logo conhecimento comigo.

Eu sentei-me ao lado d'elle no sof, promettendo a mim mesmo ja no
sahir d'ali. Depois propuz ao soldado ir elle buscar a garrafa de vinho,
para o que lhe dei meia-libra.

O homem sahio, e eu deitei-me no appetecido movel.

Pouco tempo depois voltava elle com a garrafa, dois copos e cinco xelins
de trco. Estendeu-me o trco, que eu, com um gesto de soberano desdem,
no aceitei e que elle fez desapparecer na profunda algibeira.

Eu bebi um copo, elle bebeu sete, quando me ia a levantar, fingindo que
lhe queria offerecer a sua conquistada propriedade, elle recusou-se
terminantemente a isso, e eu estendi-me commodamente, envolvendo os meus
pes n'um pelludo cobertor e preparando-me para dormir.

O cabo, meio embriagado, sahio da sala, e no sei o que foi feito
d'elle, porque no mais o vi.

Pouco depois, entrou o tenente, que disse  dama, no ter podido
encontrar melhor logar que aquelle para passarem a noute.

Olhou para mim e eu olhei para elle. O seu olhar parecia dizer-me,
"Tenha d d'esta dama, cda-lhe o sof."

O meu respondia-lhe: "Sou homem muito ordinario para ter d'essas
delicadezas."

Resignados, chegram as cadeiras uma para junto da outra e posram-se a
conversar. Eu que pouco me importava de ouvir arrulhos de pombos, fechei
os olhos e dormi como um justo at as 3 horas, hora a que me viram
chamar para partir.

s 6 chegvamos a Colenso, onde passvamos o rio Tuguela em um magnfico
fluctuador, e s 3 da tarde parvamos na bonita aldea de Howick, onde
uma demora de duas horas me permittio ir ver a formosa cataracta que a
torna clebre.

Effectivamente,  uma das mais bellas paizagens que tenho contemplado,
aquella.

Partmos, e pouco depois eu fazia parar a diligencia, para falar  minha
gente, que encontrei nos vagons em que tinham sahido de Pretoria, e que
rodavam pesadamente no caminho de Durban.

Informado de que estavam tdos bons e que sobejavam os vveres, segui,
dando-lhe um ponto de reunio em Maritzburg.

Eram dez da noute quando chegava  capital da Natalia e me ia
estabelecer no _Royal Hotel_, o melhor da terra, em um soffrivel quarto.

No dia seguinte, passram os vagons com as minhas bagagens e os meus
prtos, com quem falei e a quem prometti esperar em Durban.

Depois d'isto, fui procurar Madame Saunders, a espsa do meu amigo
Capito Saunders, para quem era portadr de cartas de seu marido.

Em casa d'ella fiquei encantado com uma criana, a filha de Saunders, em
que elle muitas vzes me tinha falado e que era encantadra.

Quando sahi de casa d'ella ja ramos amigos, e eu promettia  pequena
Didi de voltar a Maritzburg, se no encontrasse logo um transporte para
a Europa em Durban.

No dia 19 de Maro, depois de ter feito uma jornada de 23 milhas em um
ligeiro dog-cart, tomava a ferrovia, e corria sbre os rails puidos em
direco a Durban.

Que impresso profunda me no causou o ouvir o sibilar da locomotiva!

Os postes telegrphicos, armados de pra-raios, como o sam ali casas e
construces quaesquer, faziam-me outra vez lembrar da civilizao da
Europa, do progresso do nosso sculo, da grande evoluo da humanidade,
e mil idas confusas se me baralhavam no crebro, quando s 6 horas
chegava a Durban.

Corri sem parar at onde podesse ver o mar, e foi com lgrimas a marejar
nos olhos, que fiquei exttico diante d'essa mole immensa de guas
azuladas que se confundiam ao longe, para este, com o azul dos ceos.

N'sse momento no pude deixar de dizer a mim mesmo, com certo orgulho:
"Atravessei a frica, este  o mar ndico."

Voltei  realidade depois de alguns minutos de abstraco, e percebi que
devia ir procurar um hotel.

Eu ja sabia, que em tdas as cidades da frica Ingleza ha sempre um
_Royal Hotel_, e pedi que m'o indicassem.

Depois de vrias consultas entre o estalejadeiro e sua espsa, foi
decidido que me dariam um quarto no fundo de um pteo. Tomei posse
d'elle, e quando estava a fazer o meu _toilette_ para o jantar, viram
dizer-me, que me procurava o General.

Eu ja por vzes tinha ouvido falar no general, quando o meu hospedeiro
combinava com a mulhr sbre que quarto me daria, e percebi ento, que o
general occupava uma grande parte do Hotel, e que era preciso no o
incommodar.

Recebi o general, que era um homem ainda nvo e sympthico, e me disse,
que tendo sabido da minha chegada, me vinha convidar a jantar.

Era elle o General Strickland, commissario em chefe do exrcito Inglez.

Fui jantar  sua sala particular, onde conheci  msa um exrcito de
_reporters_, enviados por os jornaes Inglezes, Francezes e Americanos,
para darem noticias da guerra. Foi ali que conheci alguns d'esses
homens, que, simples correspondentes de jornaes, t[~e]m sabido fazer
conhecer o seu nome no mundo inteiro; foi ali que conheci os S^{nrs.}
Forbes, Francis-Francis e outros, que se t[~e]m immortalizado como o seu
collega Stanley, que, antes de ser o primeiro dos exploradores
Africanos, foi o primeiro dos _reporters_ Americanos.

O general Strickland dispensou-me as maiores attenes e finezas, e fui
seu conviva em quanto estive em Durban.

No dia seguinte, fui procurar o Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que tve
para comigo muitas attenes, arranjando-me logo local, em sua propria
casa, onde eu podesse accommodar os meus prtos e as minhas bagagens.

Contudo, de casa do Consul Portuguez sahi muito triste, por uma noticia
que elle me deu.

O paqute para a Europa tinha partido n'esse dia!

Era um mez! era um mez que eu tinha de esperar n'aquella terra, onde
nada me prendia; era um mez que eu tinha a esperar mais para poder
abraar os meus, para poder ver o meu Portugal.

Resignei-me, e no dia immediato pude assistir  chegada dos meus prtos,
das minhas bagagens, do meu papagaio e da minha cabrinha.

Installei-os em casa do Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que continuou a
dispensar-me os maiores favres.

Depois d'isto comecei a esperar que passasse um mez!

Os meus trabalhos, sempre em dia, no me deixavam ao menos o recurso de
trabalhar.

Nos primeiros dias encontrei em que passar as manhs sem sahir de casa.

A casa de banho do Royal Hotel era do outro lado da rua, e os hspedes
tinham de fazer uma caminhada para irem a ella. O Hotel estava cheio de
officiaes, que chegavam tdos os dias de Inglaterra. Logo de manh
comeava uma procisso, entre a casa de banho e o hotel, de homens de
tdas as idades e feitios, em trages muito ligeiros, levando cada um uma
toalha e uma esponja enorme. Divertio-me aquella scena burlsca por dois
dias, mas aquillo durava apenas uma hora de manh, e eu no sabia que
fazer no resto do dia.

Comecei a aborrecer-me muito, e acirrado pla contrariedade que me
causava a demora, comecei a soffrer.

Sentia em mim um vazio enorme. Habituado a um trabalho de ferro, a uma
vida to activa, a uma tenso de esprito constante,  ida de alcanar
um fim, tinha chegado  meta, e sentia uma falta que no podia superar.

Adoeci, e pla primeira vez na minha vida tive mdo de morrer.

A guerra preoccupava tdos os espritos, e no meio d'aquelle mundo em
que vivia no tinha uma so affeio.

Um dia, no leito onde me tinha prostrado a doena, e onde nem uma
amizade me vinha trazer uma palavra de confrto, tinha so na ida a
saudade de uma espsa adorada e de uma filha estremecida, quando me veio
 lembrana essa criana que eu tinha visto em Maritzburg e que tanta
impresso me tinha feito--a filha do Capito Allan Saunders.

Em miseravel estado de saude, sahi de casa, tomei o caminho de ferro, e
segui para a capital da Natalia.

Logo que me estabeleci no Royal Hotel, parti para casa de Madame
Saunders.

Fui recebido com a maior affabilidade por aquella dama, e com muitos
beijos pla pequena Didi, que eu levei a jantar comigo ao hotel.

Eu ja tinha dinheiro meu, que me tinha sido emprestado sbre a minha
assignatura particular, e ja comprara um vestuario decente.

Uma boneca e uma caixa de amndoas fizram de Didi minha amiga ntima, e
sbre tudo uma tartaruga enorme que me dram no hotel e que eu lhe dei,
tornara aquella amizade em verdadeira paixo.

Outro motivo no era de certo estranho ao amor d'aquella criana.

Madama Saunders, para me ser agradavel, deixva-me a sua filha ja em sua
casa, ja na minha, e Didi encontrava n'esta liberdade o meio de nunca ir
 mestra. Esta considerao devia pesar tanto como a tartaruga e a
boneca, na sua affeio por mim.

Ao mesmo tempo, M^{r.} e Madama Furze, o Coronel Mitchell, o Coronel
Baker, o Capito Whalley e outros, faziam-me encontrar n'elles
verdadeiros amigos, que me enchiam de favres; mas Didi, aquella linda
criana de nove annos, preenchia um vcuo na minha existencia de ento,
com as suas meiguices, e s vzes com os seus amuos e perrices.

Sem esta criana, eu teria talvez succumbido ao tdio que me ganhou e
que me prostou ao como em perigosa doena.

Pietermaritzburg  uma bonita cidade, tem magnficas casas e sobrbos
templos, em um dos quaes ouvi por vzes a palavra eloquente, arrebatada
e cheia de fgo, do sabio Bispo Colenso.

Ha ali formosos jardins e mimosissimas flres, sendo as damas de Natal
muito dadas  floricultura, e concorrendo muitas vzes a certames nas
exposies locaes. Tem um magnfico parque, onde  tarde circulam muitas
e brilhantes equipagens.

No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um
movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotis
estavam cheios de militares, os quartis regorgitavam de soldados, e
muitos acampavam fora d'elles. No _Royal Hotel_, que diziam ser o
melhor, o servio era mao, devido isso talvez ao excesso de hspedes que
ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos pros de tudo, e
isso era consequencia de o govrno pagar sem regatear.

O estabelecimento Cathlico de Maritzburg  muito importante, e tido com
a maior ordem, goza de grande crdito na colonia.

O Consul Portuguez, M^{r.} Snell, escreveu-me, que tinha chegado o
paqute 'Danbio', da _Union Steamship Company_, que devia seguir para
Moambique e Zanzibar no dia 19 de Abril.

Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas
despedidas aos amigos que ali deixava.

Dirigi-me ao _Royal Hotel_, e no pude obter um quarto. Ento M^{r.}
Snell tratou de me arranjar alojamento, e pde obter um quarto de banho
no Club de Durban, onde me fizram uma cama no cho.

Os officiaes que chegavam, cada dia, no tendo onde se metter, armavam
barracas de campanha nos pteos e nas ruas em volta dos hotis e do
Club.

Por o mesmo paqute em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o
infeliz prncipe Napoleo, que to caro devia pagar a sua ousadia e
coragem. Conheci-o, e no pude deixar de me afeioar, no curto convvio
que tivmos, a esse joven sympthico, intelligente e illustrado, a quem
uma morte ingloria e estpida cortou to prematuramente uma existencia
brilhante.

Quantas vzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida
Africana, "de desconfiar em frica de tdos e de tudo, at que provas
irrefutaveis no nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa."

A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua
coragem leonina, e esse descuido peculiar  juventude cheia de illuses
e crenas, causram a sua perda. S quem o no conheceu o no lastimar;
que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attraco
indefinivel para captar tdos os coraes.

Estranho  poltica da Frana, n'estas poucas linhas lavro um testemunho
de saudade ao mancbo desterrado que foi meu amigo, e no ao prncipe
que representava um principio, e fao-o tanto mais desassombradamente,
que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande
catstrophe.

Nas vsperas da partida, travei relaes com M^{r.} e Madame Du Val, e
recebi d'elles muitos favres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava
com os meus prtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia
conduzir ao _Danubio_, ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma
pequena enseada, fundeando os grandes vapres na costa limpa.

O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao _Danubio_.

M^{r.} e Madame Du Val iam comigo, porque M^{r.} Du Val, chefe da
Companhia Hollandeza em frica Oriental, ia passar em revista as
feitorias de Moambique.

A passagem das bagagens do pequeno vapor para o _Danubio_ foi difficil,
plo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e
desfeita entre os dois vapres.

Caixa e contedo fram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo
um escalr, e pde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha
e que fluctuavam, outras afundram e estavam irremediavelmente perdidas.

Deixmos Durban, e no foi sem uma sensao de infinito prazer que eu
senti o espadanar das guas em trno do lice poderoso, que a cada
rotao me impellia no caminho da Patria.

Em Loureno Marques foi pouco o tempo para receber favres, e a maior
parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e
com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca.

A bordo, o Commandante Draper no cessava de me obsequiar.

Cheguei finalmente a Moambique, onde fui encontrar tdas as autoridades
na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes,
estavam abrasados em febre.

Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu
melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua
espsa, prostrada pla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais
terminantes ordens para facilitar o meu regresso  Patria com a gente
que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favres.

Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel
Torrezo, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val.

Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley,
mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vspera da minha
chegada.

O D^{or.} Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos
fram os favres que recebi d'elle e de sua espsa.

Tdos os Europos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os
officiaes da guarnio do _London_.

O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden s partiria
dentro de oito dias, no consentio que eu fsse para terra, dizendo-me
(com razo) que as hospedarias ali eram pssimas, e por isso fiquei
vivendo a brdo, sempre com um escalr s minhas ordens.

Travei ali relaes com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu
companheiro de viagem para a Europa.

Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por
novos favres de M^{r.} Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar
n'um pequeno vapr, do _British India_, onde recebi muitos favres do
seu Commandante Allen.

Em Aden, como a carreira do _British India_ tivesse uma demora de oito
dias, eu e Widmar tommos passagem a brdo de um vapor da Lloyd
Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para
o Cairo.

Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por
mim cuidados de um velho amigo.

Ainda convalescente, fui s pirmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e
o Zambeze; no queria voltar  Europa, sem saudar a velho Nilo; e do
alto do sarcphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado
ha quatro mil annos plo orgulho dos Pharas, eu vi-o correr plcido e
sereno, banhando as ruinas da outrora sobrba Memphis.

Pouco depois, deixava o Cairo, sobrba e ardente, cidade de ouro e de
miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favres.

O Conde e a Condssa de Caprara acima de tdos, fizram-me taes
obsquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias.

O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez
offerecimentos na vspera da minha partida, quando soube que o _Crdit
Lyonnais_ de Paris me tinha aberto um crdito no Egypto, com dinheiro
meu, mandado de Lisboa plo meu amigo Luciano Cordeiro.

Esqucia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govrno de
Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bla de Widmar
e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas
que se me offereciam, e que no pensavam que eu fsse um cavalheiro de
industria; porque no ignoravam que Portugal tivesse enviado  frica a
expedio de 1877, e que d'essa expedio o Major Serpa Pinto voltava 
Europa plo mar ndico.

Segui de Alexandria para Npoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde
fui altamente obsequiado plo nosso Consul, o Baro de Mendona.

A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de
Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vzes pensei
no mais ver.

Na vspera haviam chegado os meus prtos, e o meu papagaio.

Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos _da
expedio Portugueza ao interior da frica Austral, em 1877_.




CONCLUSO.

Vou concluir o meu trabalho apresentando as minhas ltimas observaes
astronmicas e meteorolgicas, e ajuntando a ellas um vocabulario de
lnguas Africanas, limitarme-hei a dizer poucas palavras mais.

O resultado das observaes astronmicas, calculadas por mim em frica
durante a viagem, fram recalculadas em Londres por M^{r.} S. S. Sugden,
e apresentando, como apresento, as observaes iniciaes, podem ser ainda
reverificadas.

Em tdos os pontos onde me demorei mais de um dia, tive o cuidado de
estudar as marchas dos chronmetros, que, lm d'isso, me eram reveladas
pelas comparaes dirias, e pelas observaes dos eclipses e dos
reaparecimentos do primeiro satlite de Jpiter.

N'esta parte de minha viagem, tive uma sorprsa que me tirou algumas
noutes de sono. Foi ella a da grande differena que encontrei na posio
de Shoshong (_Xoxom_) em longitude, e mesmo em latitude.

Homens distinctos e sbre todos Ed. Mohr, passram ali e determinram
aquella posio. Fiquei pois sorprendido, vendo que a minha determinao
importava uma differena de mais de 60 milhas!

Durante a minha estada em Shoshong, estudei cuidadosamente as marchas
dos chronmetros, e conheci que se conservavam sem a menor alterao.
Continuando a viagem, o meu nico cuidado era chegar a ponto onde
podesse reverificar os chronmetros por uma longitude conhecida.

Assim fiz, e as segundas observaes que apresento no quadro fram
calculadas dos estados dos chronmetros, encontrados em Soul's Port e
Heidelberg.

O ltimo reapparecimento que observei do 1^o satlite de Jpiter, na
noute de 13 de Decembro, e a verificao feita em Heidelberg, no me
deixam dvida de que a minha posio deve ser muito prxima da
verdadeira, em quanto  longitude; e em quanto  latitude, no tenho a
menor dvida em a garantir a 30" de approximao.

Aqui, como ja fiz antecedentemente, apresento as observaes iniciaes
hypsomtricas para a determinao do relvo do meu caminho.

Empreguei no clculo d'ellas a temperatura constante de 23 graos para o
nivel do mar, por ser ella a mdia das temperaturas sb a presso de 760
milimetros n'aquellas latitudes.

 minha opinio, que ali, no havendo occasio de fazrem-se observaes
simultneas, deve ser aquella a temperatura empregada nos clculos.

A frmula que empreguei para calcular as altitudes foi a seguinte, que 
perfeitamente emprica:

     A = (100 - H)(284.95 + 3.1 {A/1000}).

Esta frmula no  mais do que a antiga frmula de Laplace, em que se
no leva em conta a constante 18,382 = 18,336 (1 + {1/400}) que diz
respeito  diminuio do mercurio na vertical produzida plo pso, uma
vez que nos hypsmetros se no d essa circunstancia.

Assim, pois, as tabuas que empreguei, sam construidas da formula:

     A = 18,382 log {760/B} + {1/6,366,200} (18,382 log {760/B})^2,

e cujos nmeros obtidos sam reduzidos de 1/400, e da tbua das tenes
do vapor construida por M^{r.} Regnault.

Quem dr uma certa atteno s observaes meteorolgicas que publico,
ver que as alteraes atmosphricas n'esta parte de frica, influem
pouco ou nada na presso, que se conserva a mesma no meio das mudanas e
variaes mais sbitas.

Assim, pois, os resultados das observaes hypsomtricas apresentam uma
certa garantia de approximao.

As localidades a que se referem as observaes meteorolgicas no estam
designadas, mas facil  encontral-as, porque, plo diario e plo quadro
das observaes astronmicas, sbe-se onde eu estava nos dias
designados.

Quiz juntar a este trabalho uma colleco de trmos das lnguas Hambundo
e Ganguela, faladas de Benguella ao Zambeze, e fui  obra de Gamito
buscar os termos correspondentes em uma outra lngua falada nas mesmas
latitudes na costa de Este, para que se podesse fazer uma comparao
entre ellas, e effectivamente encontramos ali muitos termos communs.

Esta parte da minha viagem do Zambeze ao Transvaal, no apresenta aos
gegraphos o msmo interesse da parte de Benguella ao Zambeze, porque
lm do caminho de Deica a Shoshong,  ella mais ou menos conhecida.
Assim, pois, no me deterei aqui a acrescentar ao que ja disse nada
mais, lm de duas palavras a respeito d'sse trao de Deica a Shoshong,
e sbre tudo da regio dos lagos salgados; e isto porque ja vi a
assero de um explorador eminente, de que o Grande Macaricari derivava
guas para a costa de Este plo Xua (_Shua_) e Nata.

No posso, nem dvo, admittir tal hypthese.

A poucas milhas de distancia, o Xua e Nata apresentam um desnivelamento
de 24 metros, e bastava que a gua subisse no Macaricari metade d'esta
altura para alagar o deserto tdo.

lm d'isso, verifiquei, que o terreno se eleva muito para leste do
Macaricari, e que tdos os rios que descem ao lago apresentam
desnivelamento grande.

A primeira gua que encontrei correndo a este foi a que nasce na altura
de Linocanin, cujas vertentes oeste deitam gua a oeste no Deserto.

Assim, pois, instrumentos na mo, e clculos  vista, rejeito a ida de
que, do Grande Macaricari transbordem guas para o mar ndico; e que me
perde o meu illustre colega se o contradigo, e se no posso deixar de
sustentar a minha opinio estribada em observaes e clculos que no
falham. Perdoe-me, e se ha n'isto a menor teimosia,  ella da
matemtica, que tem s vzes as suas brutalidades.

Lembrei-me de juntar ao livro trs facsmiles, de pginas do meu diario,
dos meus livros de clculos, e do meu albo de cartas, para mostrar os
originaes dos meus trabalhos Africanos, e com isto concluo a relao
d'sses trabalhos, que eu devia ao meu paiz e ao pblico em geral.

[Trs Facsmiles, de pginas do Diario, dos Livros de Clculos, e do
Albo de Cartas]




*Observaes Astronmicas feitas da Confluencia do rio Cuando ao
Transvaal*.

 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |   Anno de    |       Logares onde        |   Hora dos    | Estado para |
 |    1878.     |         observei.         | Chronmetros. |  Greenwich. |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |              |                           |   H.  M.  S.  |  H.  M.  S. |
a|Outubro    22 | Embarira                  |    0   7   0  |+  4   3  49 |
b|   "        " |    "                      |    3  16  36  |+  4   3  49 |
c|   "        " |    "                      |      ---      |     ---     |
d|   "       25 | Lechuma                   |    9   2  36  |+  4   4  19 |
e|   "       28 |    "                      |    9  27  26  |+  4   4  50 |
f|   "        " |    "                      |    5  37  18  |     ---     |
g|Novem.      5 |    "                      |      ---      |     ---     |
h|   "        " |    "                      |    9  34  40  |+  4   6  11 |
i|   "        7 |    "                      |      ---      |     ---     |
j|Dezem.      6 | Tamafupa                  |    9  25   0  |-  1  45   0 |
l|   "       13 | No Deserto                |    6   5  50  |     ---     |
m|   "       14 | Margem do rio Nata        |    4   0  34  |+  4   9  46 |
n|   "       15 |    "         "            |   17   8   0  |-  1  48   0 |
o|   "       16 |    "         "            |    6  28   0  |-  1  48   0 |
p|     1879.    |                           |               |             |
q|Janeiro     1 | Shoshong                  |    6  30   0  |-  1  48   0 |
r|   "        2 |    "                  [A]{|    3  54  37  |+  4  13   0 |
s|   "        " |    "                     {|    3  54  44  |+  4  13   0 |
t|   "        " |    "                      |    7  16   0  |-  1  48   0 |
u|   "        7 |    "                  [B]{|    3  48  45  |+  4  12  18 |
v|   "        " |    "                     {|    3  50  10  |+  4  12  18 |
x|   "       23 | Confluencia do Ntuani     |    9  10  58  |+  4  16  15 |
z|   "        " |    "         "            |    9  15  35  |+  4  16  15 |
0|   "        " |    "         "            |    9  14  25  |+  4  16  15 |
1|   "        " |    "         "            |      ---      |     ---     |
2|   "        26| Limpopo (Adicul) noite    |      ---      |     ---     |
 |              |  dos lees                |               |             |
3|   "        " |    "         "            |    4   7  59  |+  4  16  41 |
4|   "        " |    "         "            |    4  11  19  |+  4  16  41 |
5|Fevereiro   1 | Cornocopia                |    0  25  46  |+  4  17  37 |
6|   "        " |    "                      |    0  22  32  |+  4  17  37 |
7|   "        4 | Soul's Port               |      ---      |     ---     |
8|   "        5 |    "                      |    9   1  32  |     ---     |
9|   "        " |    "                      |    9   2  17  |     ---     |
A|Maro      10 | Heidelberg                |      ---      |     ---     |
B|   "        " |    "                      |    3  57  49  |     ---     |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+


*Legenda*:

[A] Estado para esta longitude foi calculado pelas marchas anteriores, e
 referido  observao do reapparecimento do 1^o satlite de Jpiter a
13 de Dezembro.

[B] Estado para esta longitude foi calculado pelas marchas posteriores,
e  referido  longitude de Heidelberg.


 +---------------+---------+--------+--------+------+---+-----------------+
 |   Natureza    |  Dupla  |        |        |      |   |                 |
 |      da       |altura do|  [A]   |  [B]   | [C]  |[D]|   Resultados.   |
 |  Observao   |  astro. |        |        |      |   |                 |
 +---------------+---------+--------+--------+------+---+-----------------+
 |               |    '  "|   '  "|H. M. S.|  '  "|   |            '   |
a|Amplitude Mag. |   ---   |17 49  0|   --   |  --  |---|Variao 20 39 O.|
 | 2 5'         |         |        |        |      |   |                 |
b|Chron. [*-]    | 99 45 10|17 49  0|   --   |- 0 50| 1 |Long.    25 23 E.|
c|Alt.Mer. [+]   |115 17  0|  ---   |   --   |- 1  0| 1 |Lat.     17 49 S.|
 | Markal ([a] do|         |        |        |      |   |                 |
 | Pegaso)       |         |        |        |      |   |                 |
d|Chron. [*-]    | 89 54 40|17 56  0|   --   |- 0 30| 3 |Long.    25 25 E.|
e|   "           | 78 13 30|17 56  0|   --   |   "  | 3 |  "      25 25 E.|
f|Reap. do 1^o   |   ---   |  ---   |   --   |  --  |---|Estado           |
 | satlite de   |         |        |        |      |   |  4^h. 4^m. 50^s.|
 | Jpiter       |         |        |        |      |   |                 |
g|Alt. Mer. [-)] |140 22  0|  ---   | 1 45  0|- 1  0| 1 |Lat.     1756'S.|
h|Chron. [*-]    | 75  7 23|17 56  0|   --   |- 0 40| 3 |Long.    25 24 E.|
i|Alt. Mer. [*-] |118 55  0|  ---   | 1 45  0|+ 1  0| 1 |Lat.     17 57 S.|
j|   "           |101  0  2|  ---   | 1 45  0|+ 6  0| 1 |  "      19 19 S.|
l|Reap. do 1^o   |   ---   |  ---   |   --   |  --  |---|Estado           |
 | sat. de Jp.  |         |        |        |      |   |  4^h. 9^m. 40^s.|
m|Chron. [*-]    |125  7 10|20 10  0|   --   |+ 1 30| 3 |Long.    27 0'E.|
n|Alt. Mer. [-)] |   ---   |  ---   |   --   |+ 2 30| 1 |Lat.     20 10 S.|
o|Amplitude Mag. |   ---   |20 10  0|   --   |  --  | 1 |Variao 21 14 O.|
 | 3 45'        |         |        |        |      |   |                 |
p|               |         |        |        |      |   |                 |
q|Alt. Mer. [-)] |105 55 30|  ---   |   --   |- 0 45| 1 |Lat.     23  1 S.|
r|Chron. [*-]    |121  2 53|23  1  0|   --   |   "  | 3 |Long.    27 24 E.|
s|   "           |121 33 40|23  1  0|   --   |   "  | 3 |  "      27 20 E.|
t|Alt. Mer. [-)] | 96 49 30|  ---   |   --   |   "  | 1 |Lat.     23  1 S.|
u|Chron. [*-]    |117 31 26|  ---   |   --   |   "  | 3 |Long.    27 19 E.|
v|   "           |118 30 33|  ---   |   --   |   "  | 3 |  "      27 20 E.|
x|   "           | 91 33 33|23 42  6|   --   |- 0 30| 3 |  "      27 39 E.|
z|   "           | 90 58 13|23 42  0|   --   |   "  | 3 |  "      27 39 E.|
0|   "           | 91 30 40|23 42  0|   --   |   "  | 1 |  "      27 39 E.|
1|Alt. Mer. [+]  |122 10  0|  ---   | 1 50  0|   "  | 1 |Lat.     23 42 S.|
 | Canopus ([a]  |         |        |        |      |   |                 |
 | do Argus)     |         |        |        |      |   |                 |
2|Alt. Mer. [+]  |122 59 40|  ---   | 1 50  0|- 0 50| 1 |  "      24  6 S.|
 | Canopus       |         |        |        |      |   |                 |
3|[+] Aldebaran  | 77 42 10|24  6  0|   --   |   "  | 1 |Long.    27 32 E.|
 | ([a] do Touro)|         |        |        |      |   |                 |
4|[+] Aldebaran  | 76 40 50|24  6  0|   --   |   "  | 1 |  "      27 32 E.|
5|Chron. [-)]    | 74 22 40|24 38  0|   --   |   "  | 1 |  "      27 38 E.|
6|   "           | 73 57 33|24 38  0|   --   |   "  | 3 |  "      27 37 E.|
7|Alt. Mer. [)-] | 80  4 10|  ---   | 1 51  0|- 0 40| 1 |Lat.     25 10 S.|
8|Chron. [*-]    | 95  6 10|  ---   | 1 51 12|   "  | 3 |Estado           |
 |               |         |        |        |      |   | 4^h. 18^m. 14^s.|
9|   "           | 94 45 17|  ---   | 1 51 12|   "  | 3 | 4    18    14   |
A|Alt. Mer. [*-] |134 47 30|  ---   | 1 56  0|+ 1 65| 1 |Lat.     2629'S.|
B|Chron. [*-]    |109 13 20|  ---   | 1 56  0|+ 2 30| 3 |Estado           |
 |               |         |        |        |      |   | 4^h. 23^m. 16^s.|
 +---------------+---------+--------+--------+------+---+-----------------+

*Legenda*:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.

[*-] smbolo do sol por cima da barra
[)-] smbolo da lua por cima da barra
[-)] smbolo da lua por baixo da barra
[+] smbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"




*Quadro das Observaes Hypsomtricas feitas de Lexuma a Heidelberg,
para determinar o relvo do caminho seguido pelo Major Serpa Pinto*.

------------------------------+-------+-------+-----+-------+-------
                              |       |       |     |       |
  Nome dos Logares.           |  [A]  |  [B]  | [C] |  [D]  |  [E]
                              |       |       |     |       |
------------------------------+-------+-------+-----+-------+-------
                              |       |       |     |       |
 Lexuma                       | 674.6 |  32.2 |  23 | 96.70 | 1,053
                              |       |       |     |       |
 Deica                        |   "   |  27.0 |  "  | 96.55 | 1,092
                              |       |       |     |       |
 Nata (ponto determinado)     | 684.3 |  31.0 |  "  | 97.08 |   929
                              |       |       |     |       |
 Xua (curso inferior do Nata) | 685.5 |  28.0 |  "  | 97.14 |   905
                              |       |       |     |       |
 Linocanin                    | 674.5 |  22.0 |  "  | 96.70 | 1,034
                              |       |       |     |       |
 Morrolana                    | 678.5 |  27.0 |  "  | 96.86 |   993
                              |       |       |     |       |
 Luale                        | 664.5 |  25.0 |  "  | 96.29 | 1,171
                              |       |       |     |       |
 Cane                         | 664.4 |  25.5 |  "  | 96.29 | 1,171
                              |       |       |     |       |
 Shoshong                     | 669.7 |  24.7 |  "  | 96.50 | 1,107
                              |       |       |     |       |
 Confluencia do Ntuani        | 691.0 |  26.2 |  "  | 97.38 |   837
                              |       |       |     |       |
 Cornocopia                   | 678.5 |  27.0 |  "  | 96.86 |   993
                              |       |       |     |       |
 Soul's Port                  | 671.5 |  26.8 |  "  | 96.57 | 1,092
                              |       |       |     |       |
                              |{Differena de presso para }|
 Alto do Piland's berg        |{Soul's Port 26 milimetros  }| 1,378
                              |{ou 285 metros              }|
                              |       |       |     |       |
 Pretoria                     | 654.5 |  26.0 |  "  | 95.87 | 1,310
                              |       |       |     |       |
 Heidelberg                   | 639.0 |  18.6 |  "  | 95.22 | 1,495
                              |       |       |     |       |
 Jeanette Peak (Zuikerbosch)  | 608.0 |  16.0 |  "  | 93.89 | 1,911
                              |       |       |     |       |
------------------------------+-------+-------+-----+-------+-------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.
[C] Temperatura ao niv. do mar.
[D] Hypsmetro.
[E] Altitude em metros.




*Quadro das Observaes Meteorolgicas feitas a 0^h. 43^m. de Greenwich,
do Zambeze ao Transvaal. Annos de 1878, 1879*.

---------+----+-----+-----------+---------------+--------------------------
         |    |     |Thermmetro|               |
   Mez.  |Dia.| [A] |centgrado.|  Direco do  |  Estado da
         |    |     |-----+-----|  vento.       |  atmosphera.
         |    |     | [B] | [C] |               |
---------+----+-----+-----+-----+---------------+--------------------------
Out. 1878| 24 |663.4| 38.5| 27.4| E.S.E.        | Nublado.
    "    | 25 |663.0| 39.1| 27.6|    "          |    "     (cumulus).
    "    | 26 |664.1| 33.4| 28.3| E. forte.     |    "
    "    | 27 |664.4| 34.0| 28.1| Calma.        |    "
    "    | 28 |662.3| 39.4| 27.3| E.S.E. forte  |    "
Novembro |  2 |664.4| 31.1| 22.7| E. fraco      |    "
    "    |  3 |664.9| 33.2| 24.3| Calma.        |    "
    "    |  4 |665.1| 30.5| 24.1| E. fraco      |    "
    "    |  5 |664.9| 30.1| 24.7| E.S.E.        |    "
    "    |  6 |666.2| 27.0| 20.7|    "          | Algumas nuvens.
    "    |  7 |663.5| 35.4| 21.4|    "          |    "      "
    "    |  8 |664.0| 34.6| 21.3|    "          |    "      "
    "    |  9 |663.8| 30.1| 25.2| E. forte.     | Nimbus, chuva e trovoada.
    "    | 10 |663.7| 30.4| 27.3|    "          |    "      "        "
    "    | 11 |664.1| 31.5| 26.7| E. fraco.     | Nublado.
    "    | 12 |664.3| 33.1| 25.4| E. forte.     |    "
    "    | 13 |663.8| 31.7| 26.3|    "          | Chuva moderada.
    "    | 20 |681.1| 27.5| 27.0| E.N.E.        |    "  forte.
    "    | 21 |682.0| 27.0| 25.3| E. forte      | Nublado.
    "    | 28 |666.3| 30.4| 23.7| E.N.E.        | Chuva moderada.
    "    | 29 |664.5| 29.7| 24.6| E. forte      |    "      "
    "    | 30 |664.9| 29.5| 24.7|    "          |    "      "
Dezembro |  1 |663.5| 29.8| 24.3| E. fraco      | Nublado.
    "    |  2 |663.2| 31.4| 26.2| Calma.        |    "
    "    |  3 |663.7| 31.1| 22.3| E. fraco      | Ceo limpo.
    "    |  4 |664.8| 33.2| 23.7|    "          |    "
    "    |  5 |667.9| 27.9| 21.4| E.S.E.        | Alguns nuvens.
    "    |  6 |667.1| 31.4| 22.7| Calma         |    "      "
    "    |  7 |668.9| 33.5| 24.2| E. fraco.     |    "      "
    "    |  8 |669.3| 32.4| 25.7|    "          |    "      "
    "    | 10 |670.4| 31.9| 27.4| E. forte.     | Ceo limpo.
    "    | 11 |670.2| 33.7| 27.3|    "          |    "
    "    | 12 |672.7| 31.4| 26.7|    "          | Algumas nuvens.
    "    | 13 |677.1| 30.7| 26.4|    "          |    "      "    (cumulus).
    "    | 14 |677.3| 30.4| 24.3|    "          |    "      "
    "    | 15 |677.4| 30.7| 23.5|    "          |    "      "
    "    | 16 |677.0| 33.9| 26.4|    "          |    "      "
    "    | 17 |677.2| 31.1| 27.2|    "          |    "      "
    "    | 18 |677.0| 30.4| 22.3|    "          |    "      "
    "    | 19 |675.7| 27.9| 23.2|    "          |    "      "
    "    | 20 |676.5| 24.3| 21.1|    "          | Chuva torrencial e grande
         |    |     |     |     |               |   trovoada.
    "    | 21 | --- | --- | --- |      ---      | Chuva torrencial.
    "    | 22 |665.5| 22.0| 22.0| E. fraco      |    "      "
    "    | 23 |664.3| 21.0| 20.7|    "          |    "      "
    "    | 24 |664.1| 20.4| 20.4| E. forte      |    "      "
    "    | 25 |670.4| 30.5| 28.3|    "          | Nublado.
    "    | 26 |658.0| 27.8| 24.3|    "          | Ceo limpo.
    "    | 27 |657.3| 28.5| 24.9| E. fraco      | Nublado.
    "    | 28 |657.2| 28.8| 25.3| Calma         |    "
    "    | 29 |656.9| 29.3| 26.5| E.S.E.        |    "
    "    | 30 |657.1| 27.4| 24.3|    "          |    "
Jan. 1879|  1 |657.3| 26.7| 24.3| N.E.          |    "
    "    |  2 |658.7| 25.4| 23.1| N.E. forte.   |    "
    "    |  6 |664.5| 24.8| 22.7|    "          |    "
    "    |  7 |663.0| 26.0| 19.8|    "          |    "     (cirrus).
    "    |  8 |659.0| 28.5| 20.6| Calma         |    "     (cumulus).
    "    |  9 |660.8| 22.3| 19.0| S.S.E. forte  | Chuva torrencial.
---------+----+-----+-----+-----+---------------+--------------------------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Seco.
[C] Molhado.




*Estudo das oscilaes diurnas do Barometro, e do estado Hygromtrico da
Atmosphra, feito de 3 em* 3 horas, em Lexhuma (alto Zambeze) no mez de
Novembro de 1878*.

+----+---------------+---------------+---------------+
|    |    6 horas.   |    9 horas.   |   Meio-dia.   |
|    +---------------+---------------+---------------+
|Dias|     |   [B]   |     |   [B]   |     |   [B]   |
|    | [A] |----+----| [A] |----+----| [A] |----+----|
|    |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |
+----+-----+----+----+-----+----+----+-----+----+----+
|  6 |666.0|24.2|22.9|670.0|24.1|21.7|668.0|28.0|20.3|
|  7 |666.5|20.6|19.4|668.0|24.7|21.4|666.2|32.1|21.7|
|  8 |667.0|20.4|17.4|667.5|27.6|19.6|666.0|31.7|21.6|
+----+-----+----+----+-----+----+----+-----+----+----+

+----+---------------+---------------+----------------------+
|    |    3 horas.   |    6 horas.   |                      |
|    +---------------+---------------+       Estado         |
|Dias|     |   [B]   |     |   [B]   |         da           |
|    | [A] |----+----| [A] |----+----|     Atmosphra.      |
|    |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |                      |
+----+-----+----+----+-----+----+----+----------------------+
|  6 |666.6|27.0|19.7|666.3|24.2|19.1|Vento E.S.E. nublado. |
|  7 |663.0|37.8|23.1|665.0|27.0|22.0|     "        "       |
|  8 |664.2|36.9|24.2|666.1|26.3|22.2|                      |
+----+---------------+---------------+----------------------+

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.
[C] Seco.
[D] Molhado.




*Estudo das oscilaes diurnas do Barometro e do estado Hygromtrico da
Atmosphra, feito de 3 em 3 horas em Shoshong (Calaari) no mez de
Janeiro de 1879*.

+----+---------------+---------------+---------------+
|    |    6 horas.   |    9 horas.   |   Meio-dia.   |
|    +---------------+---------------+---------------+
|Dias|     |   [B]   |     |   [B]   |     |   [B]   |
|    | [A] |----+----| [A] |----+----| [A] |----+----|
|    |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |
+----+-----+----+----+-----+----+----+-----+----+----+
|  7 |665.0|20.0|18.6|665.0|22.1|18.9|664.0|24.7|20.3|
|  8 |662.0|19.7|17.3|662.0|25.0|19.8|660.5|27.6|20.8|
|  9 |662.0|20.1|19.3|663.0|19.0|17.6|662.0|23.8|21.7|
+----+-----+----+----+-----+----+----+-----+----+----+

+----+---------------+---------------+----------------------+
|    |    3 horas.   |    6 horas.   |                      |
|    +---------------+---------------+       Estado         |
|Dias|     |   [B]   |     |   [B]   |         da           |
|    | [A] |----+----| [A] |----+----|     Atmosphra.      |
|    |     |[C] |[D] |     |[C] |[D] |                      |
+----+-----+----+----+-----+----+----+----------------------+
|  7 |662.0|27.6|19.8|660.0|25.4|19.2| {Nublado (cirrus),   |
|    |     |    |    |     |    |    | {  N.E. forte.       |
|    |     |    |    |     |    |    |                      |
|  8 |658.5|28.7|20.1|659.0|27.1|24.0| {Nublado (cumulus),  |
|    |     |    |    |     |    |    | {  calma.            |
|    |     |    |    |     |    |    |                      |
|  9 |660.0|23.0|19.3|661.3|23.0|19.8| {Vento S.S.E.;       |
|    |     |    |    |     |    |    | {  chuva torrencial. |
+----+-----+----+----+-----+----+----+----------------------+

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.
[C] Seco.
[D] Molhado.




*Boletim Meteorolgico feito as 6 horas da manh (hora media do logar),
Annos de 1878 e 1879*.

---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------
         |    |       |     ||         |    |       |
   Mez.  |Dia.|  [A]  | [B] ||   Mez.  |Dia.|  [A]  | [B]
         |    |       |     ||         |    |       |
---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------
Outubro  | 19 | 676.0 | 21.7||Dezembro | 25 | 672.0 | 17.4
   "     | 20 | 676.0 | 19.7||   "     | 26 | 658.0 | 18.4
   "     | 21 | 675.0 | 24.3||   "     | 27 | 658.0 | 18.6
   "     | 23 | 673.0 | 18.8||   "     | 28 | 657.5 | 21.1
   "     | 24 | 665.5 | 20.8||   "     | 29 | 658.0 | 21.8
   "     | 25 | 666.0 | 23.1||   "     | 30 | 658.0 | 18.3
   "     | 26 | 666.8 | 22.5||   "     | 31 | 658.0 | 21.8
   "     | 27 | 667.0 | 16.5||Janeiro  |  1 | 659.0 | 24.0
   "     | 28 | 665.3 | 21.7||   "     |  2 | 661.5 | 20.8
Novembro |  2 | 670.0 | 17.9||   "     |  3 | 660.0 | 20.6
   "     |  4 | 668.4 | 21.8||   "     |  6 | 667.0 | 19.8
   "     |  5 | 668.0 | 22.7||   "     |  7 | 665.0 | 20.0
   "     |  6 | 666.0 | 24.2||   "     |  8 | 662.0 | 19.7
   "     |  7 | 666.5 | 20.6||   "     |  9 | 662.0 | 20.1
   "     |  8 | 667.0 | 20.4||   "     | 10 | 661.2 | 19.1
   "     |  9 | 667.0 | 22.1||   "     | 11 | 661.5 | 18.6
   "     | 10 | 666.0 | 20.2||   "     | 12 | 661.5 | 20.4
   "     | 11 | 668.0 | 19.9||   "     | 13 | 662.0 | 20.2
   "     | 12 | 670.0 | 19.8||   "     | 14 | 664.0 | 20.7
   "     | 13 | 671.5 | 20.8||   "     | 15 | 668.0 | 18.9
   "     | 14 | 668.0 | 23.1||   "     | 16 | 667.0 | 21.1
   "     | 15 | 664.0 | 21.4||   "     | 17 | 680.1 | 20.4
   "     | 16 | 667.2 | 21.9||   "     | 18 | 680.0 | 21.2
   "     | 17 | 667.0 | 20.0||   "     | 19 | 681.6 | 20.7
   "     | 18 | 667.5 | 19.4||   "     | 20 | 684.0 | 22.2
   "     | 19 | 676.5 | 21.1||   "     | 21 | 687.0 | 17.2
   "     | 20 | 684.0 | 19.4||   "     | 22 | 688.0 | 14.2
   "     | 21 | 682.0 | 22.2||   "     | 23 | 688.0 | 15.2
   "     | 22 | 680.8 | 22.8||	 "     | 24 | 686.0 | 18.9
   "     | 23 | 674.5 | 20.8||   "     | 25 | 685.7 | 19.2
   "     | 24 | 668.5 | 21.3||	 "     | 26 | 688.0 | 17.7
   "     | 25 | 666.6 | 19.1||	 "     | 27 | 688.0 | 18.6
   "     | 26 | 668.8 | 22.8||	 "     | 28 | 682.0 | 18.4
   "     | 27 | 668.0 | 21.2||	 "     | 29 | 682.0 | 17.7
   "     | 28 | 669.0 | 18.2||	 "     | 30 | 679.0 | 18.4
   "     | 29 | 667.0 | 21.8||	 "     | 31 | 679.0 | 19.1
   "     | 30 | 666.5 | 20.1||Fevereiro|  1 | 676.0 | 19.4
Dezembro |  1 | 666.5 | 20.1||	  "    |  2 | 672.0 | 19.5
   "     |  2 | 666.5 | 20.0||	  "    |  3 | 664.0 | 16.7
   "     |  5 | 667.7 | 21.7||	  "    |  4 | 673.5 | 18.0
   "     |  6 | 671.3 | 18.6||	  "    |  5 | 665.0 | 17.8
   "     |  7 | 673.0 | 20.8||	  "    |  6 | 665.0 | 17.6
   "     |  8 | 672.0 | 21.4||	  "    |  7 | 662.0 | 18.4
   "     |  9 | 672.5 | 21.7||	  "    |  8 | 672.0 | 20.7
   "     | 10 | 672.0 | 21.6||	  "    |  9 | 672.0 | 19.3
   "     | 11 | 673.0 | 21.8||	  "    | 10 | 671.0 | 22.1
   "     | 12 | 672.0 | 21.9||	  "    | 11 | 666.0 | 17.2
   "     | 13 | 675.0 | 20.5||	  "    | 12 | 652.7 | 16.0
   "     | 14 | 679.6 | 18.9||	  "    | 13 | 648.5 | 18.6
   "     | 15 | 680.0 | 17.0||	  "    | 14 | 649.0 | 20.5
   "     | 16 | 678.0 | 14.3||	  "    | 15 | 648.0 | 18.0
   "     | 17 | 679.0 | 18.5||    "    | 16 | 645.0 | 17.8
   "     | 18 | 679.0 | 12.6||	  "    | 17 | 647.0 | 17.8
   "     | 19 | 676.6 | 21.7||	  "    | 18 | 648.0 | 16.1
   "     | 20 | 676.0 | 23.1||	  "    | 19 | 647.0 | 16.4
   "     | 21 | 679.8 | 21.8||	  "    | 20 | 647.0 | 18.4
   "     | 22 | 668.3 | 19.9||	  "    | 21 | 646.0 | 20.0
   "     | 23 | 667.0 | 22.2||	  "    | 22 | 645.0 | 19.2
   "     | 24 | 664.8 | 18.5||	  "    | 23 | 645.0 | 20.3
---------+----+-------+-----++---------+----+-------+------

*Legenda*:
[A] Barmetro.
[B] Thermmetro.




*BREVE VOCABULARIO*


DAS QUATRO PRINCIPAES LINGUAS FALADAS ENTRE OS PARALLELOS 12 E 18
AUSTRAES, DE COSTA A COSTA, COM EQUIVALENTES INGLEZES.

_A Cafrial de Tte fra extrahida da obra de Monteiro e Gamito_.

+---------------+--------------+-------------+-------------+--------------+
|               |              |             |   Cafrial   |              |
|  Portuguez.   |  Hambundo.   |  Ganguela.  |     de      |    Inglez.   |
|               |              |             |    Tte.    |              |
+---------------+--------------+-------------+-------------+--------------+
|               |              |             |             |              |
|     *A*       |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Abelha         |Olonhi        |Vapca       |Arume        |Bee           |
|Abobora        |Omtu         |Quinptu     |Matanga      |Gourd         |
|Abrir          |Ocu-icla     |Quezuvula    |Fungura      |To open       |
|Acabar         |Ocu-apa      |Cu-no       |Da-pra      |To finish     |
|Accender       |Ocu-chana     |Cu-ecca      |Gaa         |To kindle     |
|Achar          |Ocu-sanga     |Cu-anna      |Unca       |To find       |
|Adevinhar      |Ocu-siacata   |Cu-tangja    |Ombza       |To divine     |
|Adevinhador    |Quacotangja   |Moquachimpa  |Ganga        |Diviner       |
|Agua           |Obaba         |Mema         |Mazi         |Water         |
|Ahi            |Ppa          |Han-a        |Icco        |There         |
|Almadia        |Oto          |Uto         |Garua       |Canoe         |
|Alizar         |              |             |Curanga      |To smoothe    |
|Amanh         |Hra          |Mene         |Manguana     |To-morrow     |
|Amarrar        |Ocu-cuta      |Cu-zitica    |Manga        |To moor       |
|Amigo          |Cambariangue  |Mussamba     |Chicovera, ou|Friend (male) |
|               |              |             | Chaumar     |              |
|Amiga          |Choparanga    |Pangara      |             |Friend(female)|
|Anojar         |Ocu-lepica    |Cu-era       |Nca         |To annoy      |
|Andar          |Ocu-enda      |Cu-enda      |Famba        |To go         |
|Andar de vagar |Eudavando     |Dicia-vando |             |To go slowly  |
|Andar de pressa|Endaco lombiri|Tunt c     |             |To go fast    |
|Andar coxo     |Tenguena      |Cu-venduira  |             |To go lame    |
|Andar tolo     |Uenduveque    |Quieve       |             |To be off     |
|Animal         |Oquinha ma    |I'nchito     |Chirombo     |Animal        |
|Anno(tem 6     |Unhmo, ou    |Muaca        |Gulri       |Year (6 moons)|
| luas)         | Ulima        |             |             |              |
|Ante-hontem    |rnha        |Zaa lize    |Zaua         |Day before    |
|               |              |             |             | yesterday    |
|Apagar         |Oci ma       |Cu-zima      |Tna         |To extinguish |
|Apalpar        |Ocu-papata    |Cu-papata    |Pata         |To feel       |
|Apanhar (cousa |Ocu-ata       |Cu-ata       |Lucta       |To catch,     |
| q. foje)      |              |             |             | to overtake  |
|Apanhar do cho|Nora, ou      |Tentra      |             |To pick up    |
|               | uhagura      |             |             |              |
|Arco de frecha |Onge          |Uta ualcussa|             |Bow           |
|Arco (curva)   |Quiapenga     |Quiaenga     |Uta          |Arch          |
|Arrancar       |Ocu-tcna    |Cu-tucuna    |Zura        |To root up    |
|Arroz          |Olosso       |             |Umpunga      |Rice          |
|Assentar-se    |Ocu-tomr     |Cu-tubamma   |Cara         |To sit down   |
|Assim mesmo    |Doto mere, ou|Mmovene     |Dimmo       |In like manner|
|               | Om moere    |             |             |              |
|Assoprar       |Ocu-peprra  |Cu-ozerera   |             |To blow       |
|Atirar         |Ocu-imba      |Cu-iassa     |Ponha        |To shoot      |
|Atirar tiros   |Ocu-roia      |Cu-roza      |             |  "      with |
|               |              |             |             | a gun        |
|Atirar frechas |Ocu-iassa     |Cu-iassa     |             |To shoot with |
|               |              |             |             | a bow        |
|Atraz          |Conhima       |Coui ma      |Cumbi      |Backwards     |
|Adiante        |Covssa       |Cornte      |             |Before        |
|ves           |Orogira, ou   |Tuzir       |Barme       |Birds         |
|               | rougira     |             |             |              |
|Av ou av     |Cco, ou      |Cco         |Tta         |Grandfather   |
|               | maicuro      |             |             |              |
|Azagaia        |Ongeria, ou   |Licunga      |Tungo, ou    |Assagai       |
|               | Unga         |             | Dipa        |              |
|               |              |             |             |              |
|      *B*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Bala           |Olussolo      |Lssolo      |Chiplo-plo |Bullet        |
|Barba          |Olongre      |Muezi        |Devo         |Beard         |
|Barriga        |I'mo          |Zim mo       |Mimba        |Belly         |
|Bater (em      |Tutra        |Tuta         |Menha, ou    |To beat       |
| alguma cousa) |              |             | Quapra     | (anything)   |
|Bater          |cu-vta, ou  |Cu-vta      |             |To beat       |
| (em pessa)   | cufina      |             |             | (a person)   |
|Bebado         | lua        |Culaque a   |Darzra     |Drunkard      |
|Beber          |cu-na       |Cu-na       |U-anma       |To drink      |
|Bem            |Qui  a      |Bia unpo    |Abuhino      |Well, good    |
|Boca           |Omra         |Camia        |Murmo       |Mouth         |
|Bocado         |Naito, ou     |Candende     |Chipande     |Mouthful      |
|               | Calito       |             |             |              |
|Bofes          |Apvi         |Vicala      |Mapi       |Lungs         |
|Boi            |ngmbe       |Gombe        |Gombi        |Ox            |
|Bom            |Quiapussca   |Via viuca    |Adde        |Good          |
|Bonito         |Qui a        |Via unpo    |Uma         |Nice          |
|Braos         |bc         |Mavoco       |Zarya        |Arms          |
|Branco         |I'era         |Utira        |Mozungo      |White         |
|Brincar        |Ocu-pa-pra,ou|Cu-e-a       |Urunga, ou   |To sport,     |
|               | Ocu-mangara  |             | Sinzca     | to play      |
|Bfalo         |nhani        |Pacassa      |Nhtim       |Buffalo       |
|               |              |             |             |              |
|      *C*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Caba         | tu         |Mutu        |Mussro      |Head          |
|Cabello        |quissame, ou |Zincambo     |Cici         |Hair          |
|               |  quigonha    |             |             |              |
|Cabra          |hmbo        |Pembe        |Buzi         |Goat          |
|Cahir          |c-a, ou     |Unao         |Agua         |To fall       |
|               | Uacupca     |             |             |              |
|Calabouo      |qui emba     |No cousta   |Caboco       |Dungeon       |
|Calar          |Ocu-unco     | l         |Iuhamla     |To pull down  |
|Calcanhar      |Oquissend ma|Sinino      |Chicocuenho  |The heel      |
|Calor          |Oia          |Tui ma       |Calma       |Heat          |
|Caminho        |Mongira       |Mouzira      |Gira         |The road      |
|Canar         |Ocu-dacava, ou|Cu-dina      |Anta        |To tire       |
|               | da-puiza     | catara      |             |              |
|Cantar         |cu-imba      |Cu-imba      |Imba         |To sing       |
|Co            |Ombua         |Catari       |Imbua        |Dog           |
|Caracol        |E tio        |Chicore      |Cono         |Snail         |
|Carne          |Ochito        |I'u cito     |Nhama        |Meat          |
|Carneiro       |Onque,ou Omeme|Panga        |Bira         |Mutton        |
|Casa           |Onjo          |Zunvo        |Nhumba       |House, room   |
|Casar          |Ocu-cuera,    |Ocuambata    |Revorar      |To marry      |
|               | cussocana    |             |             |              |
|Cavallo-marinho|ngueve       |Gunvo        |Vo          |Sea-horse     |
|Cavar          |Ocu-fena      |Cu-inda      |Cumba        |To dig        |
|Cedo           |Oculimera,   |Cume-ue-ca   |Machibsi    |Soon, early   |
|               | cut-ungula   |             |             |              |
|Cimiterio      |Cclundo,    |Cubi ilo     |Tengi        |Cemetery      |
|               | cocr-unga   |             |             |              |
|Chamar         |Ocu-cavenga   |Cu-sana      |Uchamra     |To call, name |
|Chave          |ssapi        |Sapi         |Funguro      |Keg           |
|Chegar         |Ocu-pitira, ou|Cu-eta       |Cfica       |To arrive,    |
|               |  ocu-sica    |             |             | reach        |
|Cheio          |Ocui ca      |Quinulo    |Azra        |Full          |
|Cheirar        |Ocu-quina    |Cu-nica      |Unca         |To smell      |
|Chorar         |c-rira      |Cu-rira      |Vhira        |To cry        |
|Chover         |Ocu-lca      |Cu-noca      |Vumba-Vula   |To rain       |
|Chupar         |Ocu-sipa      |Cu-sipa      |Uaama        |To suck       |
|Chuva          |Ombera        |Mema         |Vura, ou Vula|Rain          |
|Cobra          |nha         |Lunoc       |Nhca        |Cobra         |
|Cobre          |Ougra        |Unengo       |Safure       |Copper        |
|Coar          |Ocu-cia, ou  |Cu-licura    |Caczi       |To cook       |
|               | Ocu-sia     |             |             |              |
|Comer          |Oc-ria       |C-ria       |Adia         |To eat        |
|Como se chama? |ri ?        |Sobe eia?    |Zina-rco?   |What is the   |
|               |              |             |             | name?        |
|Comprar        |Ocu-randa     |C-landa     |Ugra        |To buy        |
|Comprido       |Ussuvi, ou   |Ua la h     |Utarimpa     |Long          |
|               | Oar-pa      |             |             |              |
|Comprimentar   |ararip, ou  |Nainduc     |Do, dan     |To compliment |
|               | tua psoula  |             | Chic-vera  |              |
|Conhecer       |cu-crina    |             |Uneziva, ou  |To know       |
|               |              |             | Dezindequira|              |
|Contar(nmeros)|Oc-tenda     |Cu-barur    |Verenga      |To count      |
|Corao        |Utima         |Meutim      |Metima       |Heart         |
|Corda          |Ucro         |Mcro       |Cambla      |Rope          |
|Corpo          | timba       |Muvil       |Mamingo      |Body          |
|Correr         |Ocu-ioorca,  |C-tunta     |Ihuvno      |To run        |
|               | oc-rpca   |             |             |              |
|Cortar         |Tta, ou      |Cu-teta      |Tima, ou     |To cut        |
|               |  Ocu-tta    |             | Guta       |              |
|Coser          |Ocu-tunga     |Cu-tunga     |Sua         |To sew        |
|Cosinhar       |Ocu-terca    |Cu-terca    |Pica         |To cook       |
|Costas         |Ouhima, ou    |Conimm      |Bui         |Ribs          |
|               |  oud-unda    |             |             |              |
|Cotovello      |vicotocto   |Manenga      |Cunondo      |The elbow     |
|Cousa          |Onbandoa      |Chicanda     |             |Thing         |
|Creana        |Omaren, ou    |Canique      |Muana        |Child         |
|               | mra        |             |             |              |
|Crocodilo      |Ogando        |Gando        |Tuhacco     |Crocodile     |
|Cunhado        |Nna          |Nhari        |Murmo       |Brother-in law|
|Curto          |Umbumburo     |Muiki        |Urrecama     |Short         |
|Cuspo          |Ocussi       |Cuzecura     |Echenhe      |Spittle       |
|Custar (a      |Ocu-sipondra |Quiassere    |             |To cost (time,|
| fazer qualquer|              |             |             |  trouble)    |
| cousa)        |              |             |             |              |
|Custar (preo) |Ocu-chingame  |Vingahi      |Annssa     |To cost(money)|
|               |              |             |             |              |
|      *D*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Dar            |Ocu-angja ou  |Cu-avana     |Uanina, ou   |To give       |
|               | Ocu-ava      |             | Di-pac     |              |
|Dar pancadas   |Ocu-veta      |Cu-veta      |Qupura      |To thrash     |
|Dar tiros      |Ocu-loia      |Cu-loia      |Eriza-futi   |To shoot      |
|Debaixo        |Momburo, ou  |Cuvanda      |Pansi        |Under         |
|               | memi         |             |             |              |
|Dedos          |Omuine        |Minh        |Minne        |Fingers       |
|Deixar         |Ocu-cha      |Hecha        |Dacia        |To leave      |
|Deixe-ver      |Nenan di vary|Nea cuno     |Tiuna       |Let us see    |
|               |              | ditare      |             |              |
|Dentes         |Ovaio         |Mazo         |Manu         |Teeth         |
|Depois de manh|Hra inha     |Mene auze    |Mecucha      |After         |
|               |              |             |             | to-morrow    |
|Depressa       |Lombir       |Tambuca      |Flumira, ou  |Quickly       |
|               |              |             | Cu-lumiza   |              |
|Desamarrar     |Ocuturura, ou |Cu-situra    |Sizra       |To unmoor     |
|               | Cutrura      |             |             |              |
|Descanar      |Ocpri ca  |Cu-nhoca     |Tipuma       |To help, rest |
|Descer         |Ocu-tlca    |Cu-sicunca   |Sica         |To descend    |
|Desmanchar     |cu-sangununa |Cu-tongouona |Grra       |To undo       |
|Despejar       |Ocu-pra    |Cu-tira      |Cutura       |To depart     |
|Destapar       |Ocu-tuvra    |Cu-enra     |Guanura      |To open       |
|Deos           |Scu          |Calunga      |Mumugo       |God           |
|Devagar        |Linganeto     |Ringa udende |Famba Abhino|Slowly        |
|Dever (verbo)  |Ocu-levra    |Cu-vra      |Mangva      |To owe, ought |
|Dia            | teque       |Mene         |Uachena      |Day           |
|Doente         |Ocuvra       |Cuvera       |Andulla     |Sick, ill     |
|Dormir         |cupequra    |Cucossa      |Dagama       |To sleep      |
|Duro           |Quitine       |Chicars      |Uma          |Hard          |
|Direito        |Chassungama   |Chinabiuca   |             |Right         |
|               |              |             |             |              |
|      *E*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Elephante      |jamba        |Jamba        |Zou          |Elephant      |
|Embigo         |opa          |Timbi        |Chombo       |The navel     |
|Em-cima        |Qui-iro       |Cuiro        |Pazuro       |Above         |
|Emprestar      |Ocundica      |Cu-undira    |Burca      |To lend       |
|Encarnado      |Quicussuca    |Litira       |Cafuhira     |Red           |
|Enchada        |Etemo         |Litemo       |Pza         |Mattock, hoe  |
|Encher         |Ocu-ioquia   |Cuulissa    |Zuza         |To fill       |
|Encontrar      |Ocu-noaneda,  |Tu-nalinana  |Sangana      |To meet,      |
|               | Ocu-toquca  |             |             | to find      |
|Enganar        |Ocu-quemba,   |Cu-uanzi     |Anamiza      |To deceive    |
|               | Ocu-rianga   |             |             |              |
|Ensinar        |Ocu-longuissa |Cu-leca      |Neruzi       |To teach      |
|Entrar         |Ocu-inguina   |Cu-cobera    |Pita         |To enter      |
|Escolher       |Ocu-mora,     |Cu-nona      |Sancura      |To choose     |
|               | Ocu-sol bra|             |             |              |
|Esconder       |Ocu-so rama,  |Cu-vanda     |Ubssa       |To hide,      |
|               | Ocu-vunda    |             |             | conceal      |
|Escravo        |Upica         |Dungo        |Muzaczi     |Slave         |
|Escrever       |Ocu-so ngj  |Cu-soneca    |Nemba        |To write      |
|Escuro         |Ocu-tcanva   |Culava       |Medimna      |Dark          |
|Esfolar        |Ocui-inva, ou |Cu-va        |Cafende      |To flay,      |
|               | Ocu-tuia     |             |             | to skin      |
|Esfregar       |Ocu-equeta  |Cu-cuita     |Pecussa      |To rub        |
|Espelho        |Olomu-no     |Lumiro       |Chiringueriro|Mirror        |
|Esperar        |Ocu-que-vera  |Cu-man      |Vetra, ou   |To hope,      |
|               |              |             | Chv       | expect       |
|Esperto        |Ocumunguca    |Curunguca    |Uchengra   |Expert        |
|Espingarda     |Uta           |Uta          |Futi         |Gun           |
|Espinho        |Ossongo, ou   |Cauzantua    |Minga        |Thorn, quill  |
|               | equite       |             |             |              |
|Esquecer       |Ocuivra,     |Cu-suva      |dura       |To forget     |
|               | ocurimba     |             |             |              |
|Esquerdo       |Epini         |Epini        |Mazere       |Left          |
|Estar acordado |Ovanja, ou    |Ali m messo |Adapeuca     |To be agreed  |
|               | otara        |             |             |              |
|Esteira        |Essissa       |Quiaro       |Lupssa      |Mat           |
|Estender       |Ocuira       |Cu-ra       |Pambura, ou  |To spread     |
|               |              |             |  Eanique    |              |
|Espalhar       |Ocu-sandura   |Cu-sandora   |  "   "   "  |To scatter    |
|Estrella       |Ombun gururo  |Ton gonossi  |Nheze        |Star          |
|               |              |             |             |              |
|      *F*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Faca           |mco         |Pco         |Cisso        |Knife         |
|Falar          |Ocu-ppia     |Cu-andeca    |Rva         |To speak      |
|Farinha        |Farinha       |Farinha      |Ufa          |Flour         |
|Fazer          |cu-ringa     |Cu-ringa     |Chita        |To do         |
|Fechadura      |Fechadura     |Sapi         |Funguro      |A lock        |
|Fechar         |Ocui-ica      |Soca         |Funga        |To fasten,shut|
|Feder          |Qui-nea       |Cu-nica      |Nunca        |To stink      |
|Feijo         |qui-poque    |Vipoque      |Nhemba       |Bean          |
|Feio (pessa)  |Uuvin         |Mu pi        |Uapa        |Ugly (person) |
|Feio (bicho)   |Quinve        |Qui pi       |             |Ugly (animal) |
|Ferir          |Oavarucua,    |Cu-ritva    |Lssa        |To wound      |
|               | qui-atua     |             |             |              |
|Ferro          |Oquiquite,    |Butare       |Utri        |Iron          |
|               | qui-vera     |             |             |              |
|Figado         |muma         |Suri         |Chirpa      |The liver     |
|Filho          |mra         |Muana        |Muana        |Son           |
|Fio            |Erinha        |Erinha       |Usslo       |Thread, wire  |
|Fgo           |ndaro        |Tucha        |Mto         |Fire          |
|Fome           |njra        |Zanza        |Jra         |Scythe        |
|Formiga        |lunginge     |Vazinzi      |Nher[~e]ze   |Ant           |
|Frecha         |Ussongo       |Mucuri       |Missve      |Arrow         |
|Frio           |Ombambi, ou   |Massic      |Acuzizira, ou|Cold          |
|               | cu-tarra    |             | Pepo        |              |
|Fugir          |cu-tirar, ou |Cu-tea      |Tna         |To fly, flee  |
|               | ocu-sutuca   |             |             |              |
|Fumo           |usssi        |Ussi         |Ussi         |Smoke         |
|Furtar         |cuinhana, ou |Cuiba        |Cuba, ou Uba|To rob, steal |
|               | ocuiba       |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|      *G*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Gallinha       |Ossanje       |Quiari       |Cuco         |Fowl, hen     |
|Gallo          |condombro   |Demba        |Zongue       |Cock          |
|Gamela         |Gamella       |             |Diro         |Wooden bowl   |
|Garganta       |Enguri        |Mirivo       |Cci         |Throat        |
|Gordo          |Ocunta       |Cumina       |Uannpa     |Fat           |
|Gordura        |cpo, ou     |Mazi         |Futa         |Fatness       |
|               | ovirenga     |             |             |              |
|Grande         |Qui-n-ne     |Chacama      |Mucuro, Puro |Large, great  |
|Gritar         |Ocu-rra, ou  |Gunda        |Ca          |To cry out    |
|               | ocu-cua      |             |             |              |
|Grosso         |Chine-ne      |Chaca ma     |Uacra       |Big           |
|Guardar        |Ocu-sorca    |Cu-sueca     |Vica         |To keep       |
|Guerra         |Ovita         |Zint        |Condo        |War           |
|               |              |             |             |              |
|      *H*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Hje           |H-tare, ou   |Lro         |Ihro        |To-day        |
|               | lro         |             |             |              |
|Hombros        |Oqui tem, ou  |Quincinze    |Map-ua      |Shoulders     |
|               | oqui ppe    |             |             |              |
|Homem          |lume         |Iala         |Mamuna       |Man           |
|Homem branco   |chindre qui |chindere-   |Mozungo      |White man     |
|               | era          | -chivenga   |             |              |
|Hontem         |H-ra         |Izao         |Zur         |Yesterday     |
|               |              |             |             |              |
|      *I*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Ilha           |chicolo, ou  |Quicolo      |Sua          |Island        |
|               | Oqui fca    |             |             |              |
|Inveja         |qui-prro,  |Sanda        |Vja         |Envy          |
|               | qui penhe    |             |             |              |
|Inverno        |Oudombo       |Luinza       |Mainza       |Winter        |
|Ir             |Ocu-ende      |maie        |Uaeuda       |To go         |
|Irmo          |Manjangue     |Muana eto    |Bare         |Brother       |
|               |              |             |             |              |
|      *J*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Joelho         |Ongro        |Libure       |Mabudo      |The knee      |
|Jogo           |chi era      |Chiera       |Juga         |Game (sport)  |
|               |              |             |             |              |
|      *L*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Ladro         |Oqui-mno     |Muizi        |Bva         |Thief         |
|Lamber         |cu-lessa     |Cu-liassa    |Anguta       |To lick       |
|Largar         |cu-echa      |Cu-ana       |Ihca        |To let go     |
|Leo           |Oochi,        |Dumba        |Pondro      |Lion          |
|               | ongue-ama    |             |             |              |
|Lebre          |Ondimba       |Calumba      |Suro         |Hare          |
|Leite          |vre ou      |Mavere       |Mocca       |Milk          |
|               | assengere    |             |             |              |
|Leito          |ra           |Muera        |Catad       |Bed, bedstead |
|               |              |             | (palavra    |              |
|               |              |             | indiatica)  |              |
|Lembrar        |cuivaruca,   |Cuezuoura    |Dinla, ou   |To remember   |
|               | Ocu-scrora |             | Cumbuca     |              |
|Levar          |T'uara        |Tuara        |Tacra       |To carry      |
|Leve           |Quirera       |Chirero      |Darra       |Light         |
|               |              |             |             | (not heavy)  |
|Limpar         |Ocu-comba     |Cu-comba     |Pecuta       |To cleanse    |
|Lingua         |Erca,ou ermo|Rimi         |Lelime       |Tongue        |
|Livre          |Om mre      |Muana abara  |Furro        |Free          |
|Longe          |Cpana        |Culagjaco    |Patvi       |Far           |
|Lua            |Ossain        |Gonde        |Mueze        |Moon          |
|               |              |             |             |              |
|      *M*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Macaco         |-pundo       |Pundo acima  |Coro         |Monkey        |
|Machado        |Ondiavite     |Gimbo        |Bzo         |Axe           |
|Madrugada      |Qui-te-que    |Qui me ne me |Crachna    |Dawn          |
|               | teque        | ne          |             |              |
|Me            |Ma           |Nana         |Mama         |Mother        |
|Magro          |Ucopa        |Naocama      |Uonda        |Lean, thin    |
|Maior          |Qui-n-ne     |Qui ne ne    |Mucuro. Puro.|Greater       |
|Mais           |Chiarua,ou po|Vingui       |Temiza       |More          |
|Mal            |Chin-in,      |Ctimoco     |Uadaipa      |Bad, ill      |
|               |  cachi-uco  |             |             |              |
|Mama           |E vre        |Vero         |Mabeli       |Dug, teat     |
|Mandar         |Ocu-tuma      |Cu-tuma      |Uatinna      |To order      |
|Mo            |Ocuco        |Livoco       |Manja        |Hand          |
|Marfim         |mbinga       |Binga        |Minhanga     |Ivory         |
|Massa          |Ette         |             |Sima         |Dough         |
|Matar          |Ocu-ipa       |Cu-tigja     |Cupa, ou Bia|To kill       |
|Mato           |Dipa          |Dicu tigja   |Metungo      |Wood          |
|Men           |Ua-tema       |Uacassa      |Uda[-i]pa    |Water-fowl    |
|Medir          |Ocu-ionga     |Cu-cet ca   |Pima         |To measure    |
|Medo           |ssumba       |Uoma         |Gpa         |Fear          |
|Meia noute     |Mecondombro  |Mocatican    |Pacatepar    |Midnight      |
|               |              | tiqui       | ussizo      |              |
|Meio dia       |Mocati quiro  |Mocati quiero|             |Noon          |
|Mel            |Ouiqui        |qui         |Uxe          |Honey         |
|Menor          |mbuti        |Canique      |Pangono      |Less          |
|Menos          |Chitito       |Chidende     |Pangura      |Least         |
|Mentira        |aquemba      |Sanda        |Cnama       |Lie           |
|Mentiroso      |embi         |Uanzi        |Magunca, ou  |Lying         |
|               |              |             | Bza        |              |
|Meter          |I'nhissa      |Cu-cobera    |Paquira      |To put        |
|Meu            |Chiangue      |Viangue      |Ango         |My            |
|Milho          |pungo        |Li pungo     |Mapira       |Maize         |
|Misturar       |Ocu-tenga     |Cu-singa     |Sequetiza    |To mix        |
|Moer           |Ocu-para      |Cu-ara       |Pia         |To grind      |
|Mole           |Quiren-nhera,|Chi bo ba    |Feva         |A huge thing  |
|               | ou Oui are   |             |             |              |
|               | freteca      |             |             |              |
|Molhar         |Qui arra, ou |Cu-zura      |Tota         |To wet        |
|               | chai ura     |             |             |              |
|Morrer         |U fa         |Nazir        |Ufa         |To die        |
|Mosca          |Orunhi        |Zinzi        |Chenge       |Fly           |
|Mosquito       |rua ume      |Tu gue ne gue|Buibidue     |Mosquito      |
|               |              | ne          |             |              |
|Mostrar        |cu-requissa  |Gilequesse   |Lenga        |To show       |
|               | vanja        |             |             |              |
|Muito          |Chrua        |Vingui       |Bseninge     |Very          |
|Mulhr         |Ucai          |Puebo        |Muczi       |Woman         |
|  "   amigada  |Ucai          |Cussomboca   |Rancia      |Concubine     |
|               | ocussocana   |             |             |              |
|  "   branca   |Ucai-Uiera    |Obuca        |Doua         |White woman   |
|  "   mulata   |Ucai-         |Utira        |Senhra      |Mulatto       |
|               | -Uomorassi  |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|      *N*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|No            |Datti         |Oue          |Ahi-ahi      |No            |
|No conhecer   |Sich         |Cangibizi    |Senaziva     |Not to know   |
| "  poder      |Cachitaba     |Cabite       |Damariza-nai| "  to be able|
| "  querer     |Catui iongra |Cabite       |Daana, ou   | "  to wish   |
|               |              |             | Dinhnho    |              |
| "  saber      |Catuchi       |Cangibize    |Senaziva     | "  to be     |
|               |              |             |             | aware        |
| "  ter        |Chicete-     |Biagji       |Apna        | "  to have   |
|               | -cachirpo   |             |             |              |
|Nariz          |uhro        |Zuro         |Puno         |Nose          |
|Nascer         |cu-chita     |Cu-sema      |Uamra       |To be born    |
|  "    do sol  |Ocumbi        |Pangua       |Choca-Zua    |To rise       |
|               | riatunda     | riloboca    |             | (the sun)    |
|Negar          |Uaricara      |Naribiana    |Aconda       |To deny       |
|               |              |             |             |              |
|Noite          |Uteque        |Butzqui      |Ussico       |Night         |
|  "   clara    |Cmbura      |Guezi        |Cuchena      | "    (clear) |
|  "   escura   |Uere ma       |Mirima       |             | "    (dark)  |
|Nosso          |Chieto        |Chieto       |             |Our           |
|Nvo           |Chacarie      |Biarero      |             |New           |
|Nuvem          |rende        |S rua       |             |Cloud         |
|               |              |             |             |              |
|      *O*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Offender       |              |Cu-banca     |Daparamura   |To offend     |
|               |              |             |             |              |
|      *P*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Pelle          |chipa        |Quilambo     |Prme       |Skin          |
|Pendurar       |cu-turica    |Cu-turica    |Manica       |To hang, slope|
|Penna          |nha          |Zigon n     |Mantenga     |Feather       |
|Pequeno        |Catito        |Cadende      |Pangouo      |Little        |
|Perovejo      |lisso       |Vananha     |Sequize      |Bug           |
|Perder         |Ocu-danherissa|Cu-zimbiessa |Utia        |To lose       |
|Perdiz         |Ouguri       |Couc       |Chicure     |Partridge     |
|Perguntar      |cu-pura      |Cu-la       |Vunza        |To ask,       |
|               |              |             |             | inquire      |
|Pernas         | blu        |Mahindi      |Mendo       |Legs          |
|Perto          |Ochipepi      |Mochechi     |Fupi         |Near          |
|Ps            | lomain      |Bilhato      |Minhendo     |Feet          |
|Pesco        |ssingo       |Singo        |Cssi        |Neck          |
|Pisar          |Ocu-sura      |Ctua        |             |To tread      |
|Pilo          |Ochine        |Chini        |Banda        |A mortar      |
|Pintar         |Pintar        |Cu-coronga   |Nunba, ou    |To draw, paint|
|               |              |             | Namavra    |              |
|Piolho         |loua         |I'na         |Savva       |A louse       |
|Polvora        |Tundanga      |Fndanga     |Ung         |Powder        |
|Pombe (bebida) |Chibombo      |Ualua        |Bdua        |Pombe (drink) |
|Pombos         |lopomba      |Pomba        |Gangaiva     |Doves         |
|Pr            |Capa          |Haca         |Tira         |To put        |
|Pr ao sol     |Ongorossi     |Guezi        |             |To expose to  |
|               |              |             |             | the sun      |
|Porco          |Ongro        |Gro         |Incumba      |Pig           |
|Porta          |Epito         |Pito         |Messua       |Door          |
|Pouco          |Catito        |Chidende     |Pangno      |Little        |
|Povoao       |ambo         |Limbo        |Muzi         |A village     |
|Prenhe         |Oe mina       |U mita      |Adacta, ou  |Pregnant      |
|               |              |             | Anamimba    |              |
|Prto (cor)    |Otecamea      |Ulava        |Ocupeipa     |Black         |
|Principiar     |Ocu-fetica    |Cubareca     |Atma        |To begin      |
|Pulga          |Pulga         |Puruqua      |Uvavani      |Flea          |
|               |              |             |             |              |
|      *Q*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Quebrar        |Ocu-nepa      |Cu-ana tigji |Tiora        |To break      |
|Queimar        |Ocu-atemia    |Cu- meca    |Dpsa        |To burn       |
|Queixar        |Ocu-cassapure |Cu-cnburure |Quaquira     |To complain   |
|Quente         |Chassanha     |Tui ma       |Datenta      |Hot           |
|Querer         |Ocu-diongola  |Cu-          |Funa         |To wish       |
|               |              | -ginachangue|             |              |
|Quizumba (fera)|Qui malanca   |Lissumbo     |Tica         |Quizumba      |
|               |              |             |             | (beast)      |
|               |              |             |             |              |
|      *R*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Raiz           |bi           |             |Mizi         |Root          |
|Rapaz          |Umarem        |Muquezo      |Bixo         |Boy           |
|Rapar          |Ocu-puta      |Cu-teura     |             |To shave      |
|Rapariga       |Ucain         |Pebo        |             |Girl          |
|Rasgar         |Ocu-tra      |Cu-taora     |Parra       |To tear       |
|Rato           |muco         |Tumbi        |Macso       |Rat           |
|Rebentar       |Ocu-tocra    |Cu-batur    |Dapuquira    |To split      |
|Receber        |Pambula       |U           |Tambira      |To receive    |
|Rede           |uanda        |Uanda        |Uconde       |Net           |
|Remar          |Ocu-tapura    |Cu-cassa     |Cbpa        |To row, paddle|
|Remos          |bipando      |Zingassi     |Gombo        |Oars, paddles |
|Repartir       |Teta pocati   |Batur acati |Pambura, ou  |To divide     |
|               |              |             | Gva        |              |
|Responder      |Ocu-datva    |Cu-ginatava  |Tavira       |To answer     |
|Rijo           |Chacoura      |Chinacro    |Uauma        |Strong        |
|Rir            |Ocu-iora      |Cu-zora      |Sca         |To laugh      |
|Rla           |Onende        |Catere       |Giva         |Turtle-dove   |
|Rosto          |Ochipara      |Lugjlo       |Cpe         |Face          |
|Rio            |Olui          |Donga        |             |River         |
|               |              |             |             |              |
|      *S*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Saber          |Dachicurigja  |Nangue       |Daziva       |To know       |
|               |              | Gichizi     |             |              |
|Sacudir        |Ocu-ritu tu   |Licuc mna  |Coucumura    |To shake      |
|               |  mura        |             |             |              |
|Sahir          |Ocu-tunda     |Loboca       |Chca        |To go forth,  |
|               |              |             |             | out          |
|Sal            |Omungua       |Mengua       |Munho        |Salt          |
|Sangue         |Sonde         |Mau ninga    |Murpa       |Blood         |
|Sanguesuga     |Aturi         |Maumzu      |Sungunu      |Leech         |
|Sade          |Omuenho       |Cangunca     |Mio         |Health        |
|Sede           |nhoua        |Puila        |Nhta        |Thirst        |
|Segurar        |Ocu-ata       |Cu-ata       |Sunga        |To secure,    |
|               |              |             |             | assure       |
|Semear         |Ocu-cu na     |Cu-cuna      |Cbzra      |To sow        |
|Servio        |Upangu        |Bicaracara   |Bssa        |Service       |
|Seu            |Iro           |Iove         |Anum         |His, her      |
|Sim            |Sim           |Calung      |Iude         |Yes           |
|S             |America       |I'angue rica |Eca          |Alone, only   |
|Sogra          |Datembo       |Netomoeno    |Mbzla      |Mother-in-law |
|Sogro          |Datembo       |Tero-moeno   |Ttbzla    |Father-in-law |
|Sol            |Utanha        |Mutanha      |Zua          |Sun           |
|Somno          |tulo         |Tul         |Turo         |Sleep         |
|Sonho          |Onji         |Zouzi        |Vhta        |Dream         |
|Subir          |Ocu-londa     |Cu-londa     |Quira        |To climb      |
|Suspender      |Ocu-turica    |Cu-turia     |Sangica      |To suspend    |
|               |              |             |             |              |
|      *T*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Tabaco         |Ace          |Macanha      |Fdea        |Tobacco       |
|Tapar          |Ocu-chitica   |Cu-chitica   |Guanira      |To stop(a gap)|
|Ter            |Diquete       |Giuri nabio  |Erip        |To have       |
|Terra          |Pssi         |Ma vo        |Mataca       |Earth, land   |
|Testa          |Opolo         |Lulo        |Cma         |Forehead      |
|Teta           |Olussoca      |Zinoca      |Sombreiro    |Teat, breast  |
|Tigre          |Ongr        |I'ug       |Nharngu     |Tiger         |
|Tirar          |Inhaura       |Tentura      |Chssa       |To draw, pull |
|Tocar (msica) |Ocu-chica     |Cu-chica     |Reiza        |To play(music)|
|Tolo           |Ua tpa       |Ua-topa      |Uapussa      |Foolish       |
|Tomar          |Pambula       |Tambula      |Tambira      |To take       |
|Torcer         |Ocu-passira   |Cu-ossa      |Riza         |To twist      |
|Tossir         |Ocu-cossora   |Cu-coola     |Chifa       |To cough      |
|Travesseiro    |Opeto         |Stero       |Samiro       |A bolster     |
|Trazer         |Uena          |Na          |Zana-a      |To fetch      |
|Tripas         |Ovanra        |Mira         |Bui         |Intestines    |
|Trocar         |Ocu-procar    |Cu-landancana|Linta        |To barter     |
|Trovo         |Quiremiro     |Muchato      |Murungo      |Thunder       |
|               |              |             |             |              |
|      *U*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Unha           |lonjanra     |Viala        |Chra        |Nail, claw    |
|               |              |             |             |              |
|      *V*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Vae            |Cuende        |maie        |Limuca       |He goes       |
|Varrer         |Ocu-comba     |Cu-comba     |Chipsaira    |To sweep      |
|Vasar          |Ocu-peera    |Cu-zucura    |Cutura       |To empty      |
|Veio?          |Ueia          |Neza?        |Buer?       |Is he coming? |
|Velho (homem)  |Econgo        |Naculo, ou   |Caramba      |Old (man)     |
|               |              | qui-benzi   |             |              |
|Velho (cousa)  |Iacuca        |Chinaculo    |             |Old (thing)   |
|Vender         |Ocu-landa     |Cu-landa     |Ugurissa     |To sell       |
|Venha          |Euju          |Tuia        |Bura        |Come          |
|Vero          |Ombambi       |Massic      |Cherimo      |Summer        |
|Verde          |              |             |Massambadimo |Green         |
|Vergonha       |Ossoin        |Soui         |Manhazo      |Shame         |
|Vestir         |Ocu-rica      |Cu-zara      |Vlla        |To dress      |
|Vida           |Omoenho       |Muno        |Penia        |Life          |
|Voar           |Ocu-panranra  |Nacatuc     |Bruca        |To fly        |
|Voltar         |Tinca         |I'luca       |Buhrra     |To turn       |
|               |              |             |             |              |
|      *Z*      |              |             |             |              |
|               |              |             |             |              |
|Zebra          |Oinglo       |Gl         |Bize         |Zebra         |
|               |              |             |             |              |
|   PRONOMES.   |              |             |             |   PRONOUNS.  |
|               |              |             |             |              |
|Eu             |me           |Iangue       |In          |I             |
|Tu             |Obe           |obe         |Iu          |Thou          |
|Elle           |I            |Gue iobe     |I           |He            |
|Ns            |t u          |I tu        |If          |We            |
|Vs            |Vbo          |T vovo      |Imu         |You           |
|Elles          |Vobana        |Tavavaz     |Ii           |They          |
|               |              |             |             |              |
|Meu            |Changue       |Changue      |             |My            |
|Teu            |Chbe         |Chobe        |             |Thy           |
|Delle          |Chan-e        |Cho-        |             |His           |
|Nosso          |Chtu         |Cheto        |             |Our           |
|Vosso          |Chobo         |Chabo        |             |Your          |
|Delles         |Chabobo       |Chavaz      |             |Their         |
|               |              |             |             |              |
|   NMEROS.    |              |             |             |   NUMBERS.   |
|               |              |             |             |              |
|        1      |Moche         |Cossi        |Posse        |        1     |
|        2      |Vari          |Cari         |Pire         |        2     |
|        3      |Tto          |Cto         |Tato         |        3     |
|        4      |Quana         |U na        |Ni          |        4     |
|        5      |Tano          |Tano         |Chno        |        5     |
|        6      |Epando        |Sambano      |Tantto      |        6     |
|        7      | "   vari     |Sambari      |Chinmue     |        7     |
|        8      |Echena        |Naque        |Sre         |        8     |
|        9      |Echerana      |I'ua         |Femba        |        9     |
|       10      |Ecuin         |Licumi       |Cume         |       10     |
|       11      | "   na mochi |             | "  na moze  |       11     |
|       12      | "   na vari  |             | "  na zivire|       12     |
|       13      | "   na tto  |             | "  na tto  |       13     |
|       14      | "   na quana |             | "  zin    |       14     |
|       15      | "   na tano  |             | "  zichno  |       15     |
|       20      |Acuin avari   |Ma cumi avari|Macume a vire|       20     |
|       21      | " "  la mochi|             |" "   na moze|       21     |
|       22      | " "  la vari |             |" " na zivire|       22     |
|       23      | " "  la tto |             |" " na zitto|       23     |
|       24      | " "  la quana|             |" "  na zin|       24     |
|       25      | " "  la tano |             |" "na zichano|       25     |
|       30      |Acuin atto   |Macu mi atto|Macume a tto|       30     |
|       40      |Acuim aquana  | "      aana| "      a ni|       40     |
|       50      | "    tano    | "      atano| "    a chno|       50     |
|       60      | "    epando  | "   ssambano| "  a tantto|       60     |
|       70      | " epando vari| "   ssambari| "    a nmue|       70     |
|       80      | "    echena  | "      naque| "     a sre|       80     |
|       90      | "    echerana| "       iua | "    a femba|       90     |
|      100      |Ochita        |Chita        |Zana         |      100     |
|     1000      |Ocan ruce    | "    iua    | "   ma cume |     1000     |
+---------------+--------------+-------------+-------------+--------------+




*INDICE.*


Adicul, 224

gua, falta de, 134, 164, 168

Ambuellas, povos, 95

Antlopes, 65, 215, 230, 231

Aranhas, venenosas, 231

Ataques, sou atacado traioeiramente no Barze, 26;
  nvo plano, 27

Augusto, o muleque mata um bfalo, 80;
  desapparece, 80;
  apparece, depois de roubado, 81;
  represalia, 81;
  mata um leo, 85

Avestruzes, 217


Bamanguato, 96, 131, 179

Bandeira Portugueza, triumfante de combate, 42

Bangue, para fumar, 29

Baobabs, rvore colossal, 90

Barze, no, 1;
  alis Lui ou Unguenge, 1, 2;
  historia do, 1;
  os, 2;
  tribunaes a funccionar, 22, 23;
  descripo, 30, 31;
  a msca z-z, 37;
  visitado por Silva Porto, antes de Livingstone, 38;
  o meu acampamento incendiado, 40, 41;
  peleja, 41;
  effeito das balas nitroglicerina, 41

Basalto, files baslticos, 70-72

Basutos, 2

Behrens, M^{r.}, missionario em Betania, 241

Betania, misso de, 240

Betjuanas, 2

Bih, guas e terras entre o Bih e o Zambeze, 94 e seguintes

Bloemfontein, 249

Bers, acampamento de, 227;
  hospitalidade, 229;
  costumes, 234 a 238, 241, 242;
  historia dos, 243 a 292;
  raa crusada com Francezes, 244;
  de suas guerras com os indigenas, 246;
  sua autonomia reconhecida pla Inglaterra, 249;
  tratado com Portugal, 252

Bombue, rpidos de, 78

Bompart, Rev^{do.}, 284

Bradshaw, D^{or.}, 118

Brand, Presdente do Estado do Orange, 251-255

Bfalo, morto plo muleque Augusto, 80;
  combate com um leo, 89

Burgers, Francisco, presidente do Transvaal, 256;
  sua administrao, 258-260


Cabrabassa, 100

Caa, 50, 60, 63, 71, 81, 88, 94, 136;
  inconvenientes de caar feras, 148;
  abundancia de, 216

Ces, na caa dos antlopes, 68

Caiuco, 10, 11, 61

Caiumbuca, desconfio de, 44

Calaari, 162;
  ventania reinante, 169

Calungo, papagaio predilecto, 62, 133

Cama, rgulo, 185-188;
  sua poderosa influencia e prestigio, 189 a 192

Cane, ribeiro, 182

Cangenjes, 2

Cangonha, 29

Canas, descripo, 68, 69

Capata, bebida fermentada, 9

Carabina, a Carabina d'El-Rei como grande recurso, 64

Carimuque, portador de mensagem de um missionario, 87

Carregadores, abandonam-me, 18;
  desero e roubo, 46;
  dificuldades com, 120

Castilho, Augusto, 313

Cataractas de Gonha, 74;
  sua descripo, 75;
  sua passagem, 75;
  de Cale, 77;
  de Nambue, 81, 89;
  grande cataracta de Mozioatunia, 137 a 145

Catongo, chego s montanhas de, 43;
  phenomeno observado, 45;
  junto da povoao de, 85

Catraio, o muleque Catraio, encarregado especialmente dos meus
chronometros, 208, 209

Chacaiombe, D^{or.}, 18

Chibisa, 101

Chibitano, historia de, 1 a 4;
  raa mais tarde abastardada, 29

Chicreto, filho e successor de Chibitano 2;
  sua decadencia, 14;
  opinio de Livingstone a seu respeito, 14

Chicului, rio, 94

Chipopa, acclamado chefe dos Luinas, 15

Chire, magnifico rio, 100

Chiudres, nome dado a Portuguezes, 18

Chuculumbe, rio, travessia do, 11;
  theatro da guerra, 18, 61

Clarke, General, assenhora-se do Cabo da B. Esperana, 245

Cobra, venenosissima, 175

Coillard, missionario Francez, 122;
  presta-me importante servio, 123;
  a familia, 124;
  impresses intimas pelo alcolhimento recebido, 127, 128;
  perdas avultadas por causa de um incendio, 129;
  ao encontro de M^{r.} Coillard, 130, 131;
  apreste de minha viagem, 131;
  narrao larga dos servios do missionario, 152 a 154

Colenso, Bispo, 310

Cololos, 2

Conflictos, 121

Cra, cabrinha predilecta, 62;
  salva dos lees, 85, 133;
  morre, 176

Crocodilos, 65

Cuando, rio, 93, 95, 98

Cuchibi, fruto, 80, 94

Cuime, rio, 93

Cuito, rio, 95

Cunha, governador de Moambique, 313


Deica, encontro-me com a familia Coillard em, 153;
  partida de, 159

Deserto de Baines, 163

Dia de Natal, impresses, 178, 179

Dingan, chefe Cafre, 247

Doenas, 9, 51, 53, 77, 79;
  em perigo de vida, 82, 128, 160;
  grave, 187;
  estado grave de Pepeca de e Marianna, 230;
  morre Marcolina, 240

Drakensberg, 248

Duprat, Visconde-Plenipotenciario Portuguez em frica, 252

Dupuis, cocheiro no Transvaal, de curiosos precedentes e espirito, 300,
303.

Durban, 259;
  em, 308, 310.

Du Val, M^{r.} e Madame, 312


Elefantes, 60, 79;
  morto por mim, 79

Elphinstone, Almirante, assenhora-se do Cabo de B. Esperana, 245

Embarira, povoao de, 90;
  minha estada em, 116

Escorpies, enormes, 148

Escravatura, allegaes calumniosas com relao a Portugal, 57, 59, 247

Expedies, expedio Luina mandada por mim, 28

Exploradores, advertencias a, 59


Gambela, 2;
  presidente do conselho no reino de Lui, 3;
  figura, 5;
  desconfio de, 26, 27;
  tem 70 mulheres, 30

Ganguela, idioma, 8

Gatos, 68

Geografia, explicaes geogrficas ao rei Lobossi e seus magnatas, 10

Girafas abundo no Calaari, 223

Gonalves, Guilherme Jos, honrado character, 58

Gonin, M^{me.}, esposa de um missionario, 234;
  o missionario me presta penhorantes servios, 229

Goodliffe, M^{r.}, 297

Gricuas, 251, 254

Gross, M^{r.}, photographo, 287;
  as mulheres do paiz se recuso a ser photografadas, 288

Gruneberger, missionario Hollandez, 275;
  disturbio causada pela minha gente, 282

Guejuma, kraal de, 131;
  chegada e descripo, 132


Heidelberg, 259

Hippoptamos, 46

Hyenas, 163-181


Itufa, casa na, 67;
  como escondem as canas, 66;
  sigo, 69


Jeppe, M^{r.} Frederic, 275

Jco, rio, 81

Jolivet, Monsenhor, 284


Khama, rei, 96, 154

Kimberley, 252;
  jazigos diamantinos, 253

Kish, M^{r.} e familia, 279

Kruger, P., 261


Lanyon, Sir William Owen, sua recepo em Pretoria, 296

Lees, 71;
  morto por mim, 72;
  ataque de, 85;
  o muleque Augusto mata um, 85;
  combate com um buffalo, 89, 147, 224

Leopardo, morto plo muleque Augusto, 223

Letlotze, ribeiro, 183;
  descripo, 194

Levaillant, sua opinio cerca dos Bers, 245

Lexuma, sigo para, 123;
  sepultura de dois companheiros de M^{r.} Coillard;
  sahida de, 132

Lialui, cidade de, 1;
  acampo em, 9, 51

Liambai, rio, 63

Liba, rio, 98

Lilutela, rio, 170

Limpopo, nas margens do, 212, 221, 248

Linianti, 283

Linocanin, 175-181

Livingstone, divirjo da sua geografia quanto ao Alto Zambeze, 98

Lo-Bengula, projecta um ataque contra o Lui, 17;
  chefe Zulu, 188

Lobossi, rei do Barze, 1;
  sou recebido plo rei, 3;
  figura do, 4;
  presentes, 5;
  conferencia sobre abertura de communicaes, 8, 9;
  banda de musica do rei, 14;
  exigencias, 19;
  intriga contra mim, sou sentenciado  morto, 21;
  se retracta, 22;
  tribunal em funces, 23;
  manda soccorros, 42;
  deseja o segrdo das balas nitro-glicerinas, 43;
  polemica com, 53;
  novos protestos, 61

Loengue, rio, no tem cataractas, 10;
  quero descer o Loengue, 61

Lorcha, fructo, 80

Loureno Marques, caminho de ferro com o Transvaal, 258;
  razo porque no passei em, 278

Luale, rio, 180

Luchazes, paiz dos, 95

Luena, comitiva vinda da, 60

Lui, reino de, alis Barze, 1, 2;
  sua organizao poltica, 3;
  como fui recebido, 3;
  descripo, 30 a 37, 99

Luinas, carnificina, 15;
  raa abastardada, 29;
  costumes, etc., 30, 31, 32 a 37;
  magnifica raa de bois, 37

Lumb, rio, 76

Lungo-e-ungo, rio, 100, 102

Lusso, 81;
  formoso panorama dos rapidos, 81

Lydenburg, 259


Macalacas, 2;
  cercados e ameaados por, 121;
  difficulto provises, 146

Macaricris, 169;
  o grande Macaricari, 172 a 175

Machauana, companheiro de Livingstone, 7;
  trato de captival-o, 21;
  como lhe devo a vida, 25;
  em meu soccorro, 42

Machilla, chego  foz do rio, 88;
  descripo do paiz, 88, 89

Machucubiani, rio, 230

Macololos, 2;
  raa abastardada, 29

Magalies-berg, serra, 242

Malanca, veio supprir falta absoluta de viveres, 146

Mambares, corrupo de Quimbares, 18

Manuanino, manda decapitar a Gambela, 15;
  succssos, 16, 17

Mapole, fruto, 80

Marianna, a preta Marianna vem avisar-me de plano para me assassinarem,
27, 28

Marico, rio, acampamos junto do, 225, 259

Massaruas, ou _Bushmen_, 167, 170

Matagja, ministro no reino de Lui, 6;
  oppe-se  entrada de um missionario, 88

Matebelle, 96;
  morte do Capito Paterson, M^{r.} Sergeant, M^{r.} Thomas, e outros,
    em, 179

Mayer, Gabriel, como sou por elle hospedado, 151, 152

Mazungos, 283

Mendona, Joaquim, 283

Miguel, o caador de elefantes, 18, 101

Missionarios, 96 a 98, 116;
  Eliazar gravemente enfermo, 130, 154;
  consideraes moraes, 193;
  Price, Mackenzie, Eburn, 193, 194, 262, 267

Moangana, povoao, 65;
  descripo do chefe, 65;
  como sou recebido, 66

Motlamagjanane, 161

Mozi-oa-tunia, cataracta, 100, 131, 136;
  etimologia do nome, 138;
  descripo, 139 a 145;
  comparao com Gonha, 145

Mozungos, nome dado aos brancos, 16

Muacha, ou Nguja, 160

Muanguato, no, 186;
  favores recebidos de M^{r.} Benniens, M^{r.} Clark, e M^{r.} Musson,
    199

Mucas, nome dado aos Inglezes, 18

Mucuri, arbusto que mata a sde, 149

Muene-Puto, Rei de Portugal, 8

Munari, nome dado a Livingstone, 61

Munutumueno, filho do rei Chipopa, 11;
  episodio, depro com a farda de um antigo camarada tendo no bolso papeis
    particulares, 12;
  estou com elle, 54

Mutema, paiz de, 81

Mutiquetra, chefe mandado por Lobossi para me acompanhar, 63, 65

Muzila, chefe dos Vatuas, 187

Muzilicatezi, chefe do Matebelli, 248


Nallo, povoao governada por uma mulhr, 64

Nambue, cataracta, 81

Nanguari, 75

Napoleo, principe Francez, homenagem  sua memoria, 311, 312

Nariere, rio, acampei em suas margens, 64

Nata, rio, 165

Natalia occupada pelos Inglezes, 248

Ngami, lago, 173

Ntuani, rio, 216


Observaes scientificas, phenomeno na atmosfera, 45, 46, 61;
  divergencia em relao s de Livingstone, 98;
  por mim feitas, 103 a 112, 165, 206, 218, 224, 316, 317

Omborolo, assassinado, 15

Onda, rio, 93

Ongiris, ou antilopes, 213

Opumbulume, fruto, 80

Orange, Estado Livre de, 249, 250;
  Minas, 251

Osborne, M^{r.}, 275


Patametenga, um missionario Inglez em, 52;
  kraal de, 147

Paterson, o Capito Paterson e seus companheiros;
  verses relativamente  sua morte, 200 a 202

Pepe, assassinado, 15

Pescaria, em lagoa, 153

Phillips, M^{r.}, sertanejo Inglez, 124, 160

Pico Botes, 248

Pietermaritzburgo, conflicto entre os Bors e os Inglezes, 248

Pieter Retief, chefe de Bers, 246

Pilands Berg, 232

Potchefstroom, 259

Pretoria, a caminho de, 204;
  chego a 242, 259;
  minha estada em, 269;
  recebo offerecimentes do governador do Cabo, do consul de Portugal,
    e outros, 277;
  descripo, 285;
  alarme bellico em, 289

Pretorius, Adriam, 247-250

Prto, nome porque he conhecido, pelos indigenos, Silva Porto, 58

Provises, 65, 138, 146


Queimbo, rio, 94

Quetei, rio, 230

Quimbandes, 95

Quimbares, 18

Quimbundo, 18

Quicos, ou Quibcos, 95


Rpidos, de Bombue, 78;
  do Lusso, 81;
  diversos, 82, 83

Recursos, acho-me desertado pela minha comitiva, roubado, e sem
    recursos, 48;
  fabrico ballas do chumbo tirado s redes, 49, 51

Rhinoceronte, 222

Risseck, D^{or.}, 275

Rustemburg, 259


Sauders, Capito, 275

Selous, M^{r.}, ousado caador Inglez, 283

Semalembue, 101

Sepulturas de cinco Inglezes, 151

Settequane, 180

Sezuto, idioma, 8

Shepstone, Sir Theophilus, 258, 261

Silva Porto, 9;
  traio dos muleques de, 56;
  seu honrado character, 58

Simoane, ribeiro, 170

Sioma, acampmos na alda de, 73

Sirque, Macololo audaz, 16;
  assassinado em Mutambanja, 17

Snell, consul Portuguez, 308, 311

Stanley, sem ser o celebre viajante Americano, 185;
  fazendeiro do Transvaal, 187, 205;
  recusa-se a seguir at Pretoria, 226

Strickland, General, 307

Swart, M^{r.}, thesoureiro no Transvaal, 269;
  obsequios delle recebidos, 270


Tala Mugongo, 18

Tamafupa, lagoa, 160

Tamazeze, 160

Taylor, M^{r.}, negociante no Manguato, 196;
  penhorantes obsequios e servios de, 197, 199;
  despeo-me de, 203, 204

Termites, trabalhando ao ar livre, 136, 222

Tlala Mabelli, 177

Tlassam, ribeiro, 175

Transvaal, no, 235;
  descripo, 236, 238;
  historia de, 243 a 292;
  minas, 251;
  annexao, 255;
  via ferrea com Loureno Marques, 258;
  descripo, 300

Trovoadas, 134, 137, 213

Tyler, 275, 281


Uanhis, pygargos gigantescos, 85, 86

Ungenge, reino de, alis Barze, 1, 2


Vagom, para viajar em frica, 158, 200, 201;
  atravessam o rio, 219

Van Levetzow, Baroneza, 280

Van Riebeck, D^{or.}, primeira feitoria fundada no Cabo da B. Esperana,
  243

Vatuas, on Landins, 187

Verissimo, tramo com elle, por segurana minha, 38;
  doente gravemente, 131

Volksraad, assemblea nacional, 256


Walsh, Alexandre, 118

Wanderboom, arvore sagrada, 297

Waterboer, 251

Waterfalls, 299

Watley, M^{r.} Watley e M^{r.} Davis sam os primeiros a
  cumprimentarem-me pla minha viagem, 220

Westbeech, aldeas de M^{r.}, 124


Xoxom ou Shoshong, 187;
  partida de, 203


Zaire, rio, 93

Zambeze, navegavel de Cariba ao Zumbo, 10;
  no Zambeze, 39;
  preparativos para descr o, 62;
  nas margens do, 71, 74;
  descripo, 76, 82;
  em perigo nos rpidos, 83, 84;
  do Bihe ao curso superior do Zambeze, 92 e seguintes;
  do alto Zambeze, 98, 99;
  curso do alto, 98;
  descripo do valle, 99;
  miasmas, 99

Zebra, matei uma, 88;
  optimo alimento, 89

Zuikerbosch-Rang, 298

Zulus ou Matabeles, 188, 248, 289

Zumbo, abrir o caminho do, 9, 131

Zoutpansberg, 223


*FIM*.




LONDRES: NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA
LIMITADA). STAMFORD STREET E CHARING CROSS




*Notas*:


[1] Noticias do Lui que ja recebi na Europa, umas mandadas por o D^{or.}
Bradshaw, outras vindas do Bih, dizem-me, que os Luinas, depois da
minha estada entre elles, sofrram um cruel ataque de umas tribus do
N.E., que o D^{or.} Bradshaw chama Ma Kupi-Kupi. Depois d'isso, Lobossi
mandara matar o Gambela, Machauana, e o joven Munutumueno, filho do rei
Chipopa. Corria ha pouco no Bih, que o rei Lobossi tinha sido
assassinado, e ja ali havia outro soberano, que as ltimas noticias do
serto, de fonte pouco segura, diziam ser o proprio Manuanino.

[2] Esta expedio Luina mandada por mim, chegou a Benguella, onde foi
muito bem recebida plo Governador Pereira de Mello, e plo crpo
commercial da cidade, sbre tudo por Silva Porto, que empregram tdos
os esfros para os animarem a voltar ali em viagens de trfico. Esta
tentativa minha, a que em Benguella dram alguma importancia, passou
quasi desapercebida na Metrpoli.  contudo, se  importante que o
Europeo v levar o commercio aos paizes do interior,  mais importante
ainda, para o trfico e para a civilizao, fazer com que o indgena
venha negociar s feitorias da costa.

[3] Silva Porto, em 1849.

[4] Fui mao propheta. Monotumueno foi assassinado plo rei Lobossi em
Dezembro de 1879.

[5] Esta bala e algumas garras da enorme fera, fram offerecidas a Sua
Magestade El-Rei, o Senhor D. Luiz 1^o.

[6] Quatro jardas de fazenda ali valem 8 xelins, pois sam reputadas a 2
xelins a jarda.

[7] Mabelli  massambala, ou _Sorghum_.

[8] Consta hoje que Lo-Bengula esposou uma irm de Muzila, e que por
esse facto se tornram alliados. Esta alliana pode trazer graves
complicaes ao futuro desenvolvimento colonial da frica do Sul.

[9] O autor, n'este perodo, refere-se a um trecho de poesia do Poema
"D. Jayme," de Thomas Ribeiro, intitulado "_As Flres d'Alma_," e
particularmente s tres seguintes quadras:

"Embora ao rmo, a divagar szinho,
Crra o mesquinho por amor trahido;
Quando o remorso lhe no turbe a calma,
Nas _flres d'alma_ hade encontrar olvido.

Naufrago, lasso, a sossobrar nas vagas,
Sem ver as plagas, nde almeja um prto,
Embora o matem cruciantes dres,
D'_alma nas flres_ achar confrto.

O pobre monje, que de p descalo
De um mundo falso os arees percorre,
Quando lhe entregam do martyrio a palma,
s _flres d'alma_ se encomenda e morre."

[10] Os Matebelles sam Zulos.

[11] Effectivamente, a maior parte das pelles da innmera caa que matei
ento, chegou a Portugal, e s perdi algumas que cahiram ao mar, em
Durban.

[12] Muitas d'estas pennas fram offerecidas por o autr a Sua Magestade
El-Rei D. Luiz.

[13] Sempre que o autr fala em Hollandezes, entende por isso os filhos
da Hollanda, e no os Bers de qualquer dos Estados.

[14] Hje Coronel Tyler, que vive no seu palacio de Lynstead, em
Sittingbourne (Kent).

[15] Hje General Sir Evelyn Wood, K.C.B.

[16] _C.B._ Cavalheiro do Banho.

[17] A _Victoria Cross_  a mais nobre condecorao da Inglaterra, e so
 dada por uma aco de extremado valor em campo de batalha.





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Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

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