The Project Gutenberg EBook of Raios de extincta luz, by Antero de Quental

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Title: Raios de extincta luz
       poesias ineditas (1859-1863)

Author: Antero de Quental

Contributor: Tefilo Braga

Release Date: March 22, 2007 [EBook #20874]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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_ANTHERO DE QUENTAL_


RAIOS DE EXTINCTA LUZ


POESIAS INEDITAS
(1859-1863)


COM OUTRAS PELA PRIMEIRA VEZ COLLIGIDAS

PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA


LISBOA
*M. GOMES, Livreiro-Editor*
70, _Rua Garrett_, 72
1892




RAIOS DE EXTINCTA LUZ




_TIRAGEM ESPECIAL_


_D'esta edio tirarem-se_:

4 Exemplares em papel das manufacturas imperiaes do Japo, numerados de
1 a 4.

16 Exemplares em papel Whatman, numerados de 5 a 20.




ANTHERO DE QUENTAL


RAIOS DE EXTINCTA LUZ


POESIAS INEDITAS
(1859-1863)

com outras pela primeira vez colligidas


PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA

LISBOA
*M. GOMES, Livreiro-Editor*
70, _Rua Garrett, 72_
1892




A

Wilhelm Storck, Oliveira Martins
Ea de Queiroz, Alberto Sampaio, Jayme Batalha Reis
Luiz de Magalhes, Joaquim de Araujo
Joo de Deus
D. Carolina Michaelis de Vasconcellos
Santos Valente, Alberto Telles
Antonio de Azevedo Castello Branco, Jos Ben Saude
F. Machado de Faria e Maia
Jos Falco, Manuel de Arriaga
Anselmo de Andrade, Manuel Duarte de Almeida
etc., etc.

_a todos os que amaram e admiraram Anthero_

_C._




EXPLICAO PRVIA


A publicao d'este livro  um phenomeno litterario de alta importancia.
Compe-se de uma colleco de _Poesias ineditas_ de Anthero de Quental,
na primeira phase artistica, de 1859 a 1863, quando o seu ideal era
ainda religioso, romantico e espiritualista. Phase ignorada do publico,
acha-se descripta pelo poeta na sua Autobiographia, quando allude 
educao catholica e tradicional de um espirito naturalmente religioso,
nascido para crr placidamente e obedecer sem esforo a uma regra
conhecida.

Ao dar  publicidade o livro revolucionario as _Odes modernas_, em 1865,
accentuada poesia de combate, Anthero rasgou todas as composies
anteriores, para que no ficassem vestigios d'esse periodo
contemplativo. Dera ento o maximo relvo  revoluo moral e
intellectual, como o facto mais importante da sua vida, segundo
confessa na Autobiographia. Truncando as suas origens artisticas,
apagava uma pagina psychologica, to cheia de verdade e naturalidade,
que a critica nunca poderia reconstruir.

Por uma casualidade feliz um companheiro de Anthero de Quental, que por
esse tempo frequentava a faculdade de medicina, copira todas as poesias
romanticas: chamava-se Eduardo Xavier de Oliveira Barros Leite,
fallecido prematuramente em 1872. Por um enlace de familia, obtive por
occasio da sua morte o caderno das poesias que copira, e que o proprio
auctor, que lhe sobreviveu vinte annos, mal suspeitava terem sido
conservadas. Guardei-as pois, como um valioso documento, onde estavam os
primeiros germens do talento poetico de Anthero de Quental;
publicando-as depois da sua morte desgraada, restituimos-lhe  vida
subjectiva uma pagina luminosa e sympathica que faltava  sua obra e 
litteratura portugueza.

O titulo do livro, _Raios de extincta Luz_, tem a significao do seu
apparecimento posthumo, e o valor de exprimir um presentimento do poeta,
ao comear com este hemistychio a invocao escripta em 1860 para uma
colleccionao projectada.

Para completar este monumento, fizemos pesquizas por albuns
particulares, onde ainda encontrmos primorosos ineditos. Ao dr. Jos
Bernardino agradecemos a contribuio valiosa com que enriqueceu este
livro; e a Joaquim de Araujo os excerptos ineditos da traduco do
_Fausto_ e outras composies dispersas, que Anthero reservava para
incluir em uma futura edio das _Odes modernas_ e das _Primaveras
romanticas_. Manda o dever moral que se reconhea a cooperao do activo
e intelligente livreiro-editor Manuel Gomes, que ligou a sua iniciativa
 publicao das poesias ignoradas do excelso poeta. Incorporando-as
n'este volume, aqui ficam reunidas a primeira e a ultima maneira
artistica de Anthero de Quental, podendo agora ser julgada de um modo
definitivo a sua obra poetica completa.




ANTHERO DE QUENTAL

ESCORSO BIOGRAPHICO


Bem conhecida  esta alta individualidade, que se manifestou entre a
moderna gerao com um extraordinario temperamento de luctador, e que de
repente cau em uma apathia invencivel, em um desalento moral
progressivo, em uma decadencia physica precoce, e por ultimo no
desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicidio. Quando
em to breve espao vemos essas bellas organisaes litterarias, como
Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado e Anthero de Quental
truncarem a sua carreira pelo suicidio, no pode deixar de explicar-se
essa fatalidade pela nevrose que n'elles era o estimulo do seu talento e
o motor das suas desgraas. E essa mesma nevrose, que se manifestava
brilhantemente pela inveno imaginosa, pela graa delicada ou pela
inspirao poetica, nunca lhes deixra adquirir uma disciplina mental
que os levasse  analyse de si mesmos, nem uma subordinao moral que os
fortificasse contra o seu espontaneo pessimismo. A critica da aco
litteraria de Anthero de Quental est implicita n'esta caracteristica do
seu organismo.

Anthero de Quental nasceu na Ilha de S. Miguel em 1842, em uma familia
de morgados; n'aquella pequena ilha a falta de cruzamentos nas familias
aristocraticas tem determinado uma terrivel degenerescencia, que se
manifesta pela idiotia e pela loucura. Na familia de Anthero de Quental
existem casos d'esta terrivel _tare hereditaire_. A frequencia na
Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes
organisaes, no deixou de actuar profundamente no espirito de Anthero
de Quental, lanando-o em uma dissolvente anarchia mental pelos habitos
das arruaas escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma
grande sobreexcitao. Foi n'esta crise da adolescencia que em Anthero
de Quental desabrochou o talento poetico e a paixo revolucionaria, que
deu origem a uma liga de espiritos emancipados de todo o
supernaturalismo e de toda a auctoridade temporal, que se denominou a
_Sociedade do Raio_. Este titulo provinha das imprecaes que lanavam
ao espao em occasio de trovoadas, provocando o raio para que os
fulminasse, como expresso de uma vontade individual no universo. As
perseguies contra a Polonia e as luctas pela libertao e unificao
da Italia, tambem acordaram o interesse de Anthero para as questes
politicas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de
Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma
atmosphera de discusso permanente, de uma dialectica de sophismas,
aggravada por uma irregularidade de vida, que veiu mais tarde a
determinar a doena que o embaraou na sua actividade. Anthero de
Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinisra,
considerando-o como um apostolo, um iniciador da humanidade. E elle
proprio chegou a acreditar n'aquella misso, e passados annos, em uma
carta autobiographica, definia-se como o porta-estandarte das idas
modernas em Portugal.

N'este periodo da vida de Anthero era elle dominado por um condiscipulo
natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meyrelles, a quem dedicou
a primeira edio das _Odes modernas_. Este Germano Meyrelles era um
typo rachytico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da
sua imperfeio physica; exerceu no espirito de Anthero uma aco
corrosiva, privando-o de todos os enthusiasmos, e levando-o quasi 
apathia mental. Quando Germano Meyrelles morreu miseravelmente, deixando
duas crianas filhas naturaes, Anthero tomou conta d'ellas e educou-as
em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herana.

O talento de Anthero revelou-se pela poesia no jornal _O Academico_; em
1861, levado pela admirao do lyrismo de Joo de Deus, cultivou a frma
do Soneto, que estava longe ainda da belleza que attingiu na sua ultima
phase pessimista.

As idas politicas revolucionarias e negativistas de que se deixra
possuir determinaram a primeira alterao nas suas concepes poeticas.
Em 1865 publicou em Coimbra a colleco de poesias d'esta phase
revolucionaria com o titulo de _Odes modernas_; mas os productos da sua
actividade poetica, transio para as _Odes modernas_ e _Sonetos_, so
totalmente desconhecidos, porque Anthero de Quental rasgou todas as
composies que no se harmonisavam com o seu novo ideal revolucionario.
Um dos adoradores de Anthero de Quental, que o acompanhava nas tropelias
nocturnas, e que tambem morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, colligira
em volume essas poesias da phase romantica;  essa colleco que
possuiamos que hoje publicamos, da existencia da qual o proprio Anthero
nem suspeitava.

A crise moral de Anthero comeou propriamente em 1865, quando se achou
ssinho em Coimbra; o curso juridico a que elle pertencia acabra a
formatura em 1863; Anthero teve de repetir um anno, e ao terminar a
formatura em 1864, achou-se sem estimulos que o obrigassem a sar de
Coimbra. Vivia ento solitario, meditabundo, desenfadando-se em
digresses nocturnas. Foi n'esse anno de 1865, que irrompeu a celebre
_Questo de Coimbra_; eu  que o estimulei a sar  estacada, dando
rplica s insidias de Castilho.

Anthero publicou n'esse anno a carta _Bom senso e bom gosto_, que o
revelara ao paiz um polemista ardente, um estylista vigoroso, um
espirito possuido de uma alta inspirao. Anthero de Quental contrahira
perante o paiz e a gerao moderna o compromisso de pr em obra essas
generosas aspiraes. De dia a dia tornava-se mais reparavel o seu
silencio, mais censuravel a falta de actividade litteraria. Anthero
soffria um profundo mal estar, que o no deixava entregar-se ao remanso
do estudo; sau de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo
Germano; depois foi para Guimares para ao p de Alberto Sampaio; foi
para o Algarve para o seu amigo Negro; foi  America, a Pariz, aos
Aores, e por ultimo fixara-se mais algum tempo em Villa do Conde. No
estava bem em parte alguma.

Os trabalhos litterarios no o seduziam; em Lisboa achou-se com Jos
Fontana, que se aproveitou do seu perstigio moral para a organisao do
partido socialista, e junto com outros rapazes, Ea de Queiroz, Jayme
Batalha Reis, inaugurou em 1871 as _Conferencias democraticas_ do
Casino, mandadas encerrar pelo ministro marquez d'Avila.

N'estes dous actos Anthero foi impellido, caindo outra vez na apathia de
onde nunca mais saiu, promettendo apezar de tudo vir a publicar um
_Programma para os trabalhos da Gerao moderna_. Por occasio da
encyclica de Pio IX proclamando o Syllabus, e por occasio da revoluo
de Hespanha em 1868, Anthero de Quental publicou dous opusculos, mais
para mostrar as suas aptides de folliculario do que a vista clara e o
seguro juizo dos acontecimentos. A sua doena moral tornava-se uma leso
physica, accentuando-se a sua doena nervosa em 1874.

Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de occupar
a imaginao no meio dos seus soffrimentos, Anthero de Quental ia dia a
dia burilando um ou outro soneto, em que dava expresso ao estado moral
em que se achava; os amigos foram colligindo estes sonetos, vindo ao fim
de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que elle
mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introducco vaga
sobre intenes buddhicas e intuies nirvnicas, mas no nos deu a nota
viva do poeta. Os _Sonetos_ de Anthero produziram uma forte impresso,
no s pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela
perfeio esmeradissima da frma; porque os versos das _Odes modernas_,
na expresso das paixes revolucionarias, eram pouco plasticos, e
revelavam mais o philosopho do que o artista.

Nos _Sonetos_ Anthero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de
traduzir em bellos versos para a lingua allem a obra completa de
Cames, ao receber um exemplar dos _Sonetos_ de Anthero fez a alta
consagrao de os traduzir para essa lingua eminentemente philosophica.
Para acompanhar a sua traduco pediu o Dr. Storck a Anthero algumas
notas biographicas; em carta de 14 de Maio de 1887 escreveu o poeta uma
especie de Autobiographia que vem junto dos _Sonetos_.  um documento
importante, no pelos dados biographicos, que so vagos e exagerados,
mas pelo alcance psychologico, porque pelas phrases com que Anthero se
glorifica dando-se como o estylsta dotado com o _dom da prosa
portugueza_ e o _porta-estandarte das ideias_ em Portugal, v-se que
obedecia a uma certa vesania mental, que lhe motivava fundas decepes e
terriveis desalentos. N'esta phase de espirito, Anthero caiu debaixo da
influencia de Oliveira Martins, que no foi mais saudavel do que a de
Germano Meyrelles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus
collaboradores na organisao democratica e socialista em Lisboa, quando
publicava a _Republica_ e o _Pensamento social_; mas um dia abandona o
seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monarchico a que pretendeu
ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desilluso para Anthero;
soffreu-a calladamente, pedindo aos amigos que lhe no fallassem n'isso.
Vivia ento em absoluto isolamento em Villa do Conde, onde era visitado
como um pontifice. Em Janeiro de 1890 deu-se o facto brutal do
_Ultimatum_ do governo inglez sobre a questo africana; da natural
reaco do sentimento nacional contra este acto de selvagismo
diplomatico, nasceu no Porto o movimento de agremiao da _Liga
patriotica do Norte_.

Para dar aos espiritos uma certa unificao moral, lembraram-se do nome
de Anthero de Quental; foram buscal-o a villa do Conde, e conseguiram
interessal-o pelo movimento nacional. Prezidiu a alguns comicios e a
sesses preparatorias da _Liga patriotica do Norte_; mas o poeta no
conhecia a mechanica das assemblas parlamentares, foi facilmente
envolvido por todos aquelles que procuravam desnaturar um movimento to
saudavel, e por fim quando a _Liga patriotica_ se dissolveu com o mais
escandaloso fiasco, Anthero de Quental retirou-se  sua impotencia,
ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de
setembro de 1890 revela que elle j pensava em acabar com a existencia.
A dissoluo dos caracteres dos seus contemporaneos de Coimbra mais o
desalentava; partira para a ilha de S. Miguel em Julho de 1891, e a
falta de interesse e o tedio de aquella solido augmentada pela
mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resoluo de 11
de setembro, em que se suicidou com dous tiros de rewolver na bocca. Foi
uma existencia verdadeiramente desgraada; no se revelou com a pujana
que possuia. Herdeiro de uma terrivel nevrose, no teve a ventura de
deparar uma doutrina moral, uma philosophia que lhe fortificasse o
espirito; pelo contrario, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura
do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu
espirito a ideia do suicidio que involuntariamente se tornou effectiva.
A sua obra  mais um documento psychologico do que um producto
esthetico; e n'este sentido ser estudada e confrontada com a de outros
genios egualmente desgraados.




CARTA AUTOBIOGRAPHICA

*DIRIGIDA AO PROFESSOR WILHELM STORCK*

Traductor dos _Sonetos completos_


                        Ponta Delgada (ilha de S. Miguel, Aores),
                        14 de maio de 1887.

Ex.^{mo} Snr.


S agora me chegou s mos a sua estimada carta de 23 de abril ultimo,
pelo facto de me encontrar, ha dois mezes, n'esta ilha (que  a minha
patria) trazido aqui por urgentes negocios de familia. A demora das
communicaes com o continente explica este atrazo.

Agradeo a v. ex.^a as amaveis e para mim to honrosas expresses de sua
carta, e nada me pde ser, como poeta e como homem, mais grato do que o
apreo que um tal mestre e critico manifesta pelas minhas composies,
ao ponto de querer ser meu interprete e introductor junto do publico o
mais culto do mundo e que mais direito tem a ser exigente. Discipulo da
Allemanha philosophica e poetica, oxal que ella receba com benignidade
essas pobres flres, que uma semente sua, trazida pelo vento do seculo,
faz desabrochar n'este solo pouco preparado. Qualquer que seja a sua
fortuna, toda a minha gratido  devida ao bom e gentil espirito, que
generosamente me toma pela mo, para me apresentar.

As informaes biographicas e bibliographicas que v. ex.^a me pede,
podem reduzir-se ao seguinte: nasci n'esta ilha de S. Miguel,
descendente de uma das mais antigas familias dos seus colonisadores, em
abril de 1842, tendo por conseguinte perfeito 45 annos. Cursei, entre
1856 e 1864, a Universidade de Coimbra, sendo por ella bacharel formado
em Direito. Confesso, porm, que no foi o estudo do Direito que me
interessou e absorveu durante aquelles annos, tendo sido e ficando um
insignificante legista.

O facto importante da minha vida, durante aquelles annos, e
provavelmente o mais decisivo d'ella, foi a especie de revoluo
intellectual e moral que em mim se deu, ao sahir, pobre creana
arrancada do viver quasi patriarchal de uma provincia remota e immersa
no seu placido somno historico, para o meio da irrespeitosa agitao
intellectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as
encontradas correntes do espirito moderno. Varrida n'um instante toda a
minha educao catholica e tradicional, cahi n'um estado de duvida e
incerteza, tanto mais pungentes quanto, espirito naturalmente religioso,
tinha nascido para crr placidamente e obedecer sem esforo a uma regra
reconhecida. Achei-me sem direco, estado terrivel de espirito,
partilhado mais ou menos por quasi todos os da minha gerao, a primeira
em Portugal que sahiu decididamente e conscientemente da velha estrada
da tradio.

Se a isto se juntar a imaginao ardente, com que em excesso me dotara a
natureza, o acordar das paixes amorosas proprias da primeira mocidade,
a turbulencia e a petulancia, os fogachos e os abatimentos de um
temperamento meridional, muito boa f e boa vontade, mas muita falta de
paciencia e methodo, ficar feito o quadro das qualidades e defeitos com
que, aos 18 annos, penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.

No meio das cahoticas leituras a que ento me entregava, devorando com
egual voracidade romances e livros de sciencias naturaes, poetas e
publicistas e at theologos, a leitura do _Fausto_ de Goethe (na
traduco franceza de Blaze de Bury) e o livro de Rmusat sobre a nova
philosophia allem exerceram todavia sobre o meu espirito uma impresso
profunda e duradoura: fiquei definitivamente conquistado para o
_Germanismo_; e, se entre os francezes, preferi a todos Proudhon e
Michelet, foi sem duvida por serem estes dois os que mais se resentem do
espirito de Alem-Rheno. Li depois muito de Hegel, nas traduces
francezas de Vera (pois s mais tarde  que aprendi allemo); no sei se
o entendi bem, nem a indepencia do meu espirito me consentia ser
discipulo: mas  certo que me seduziam as tendencias grandiosas
d'aquella estupenda synthese. Em todo o caso o Hegelianismo foi o ponto
de partida das minhas especulaes philosophicas, e posso dizer que foi
dentro d'elle que se deu a minha evoluo intellectual.

Como accommodava eu este culto pelas doutrinas do apologista do Estado
prussiano, com o radicalismo e o socialismo de Michelet, Quinet e
Proudhon? Mysterios da incoherencia da mocidade! O que  certo  que,
revestido com esta armadura mais brilhante do que solida, desci confiado
para a arna: queria reformar tudo, eu que nem sequer estava ainda a
meio caminho da formao de mim mesmo! Consummi muita actividade e algum
talento, merecedor de melhor emprego, em artigos de jornaes, em
folhetos, em proclamaes, em conferencias revolucionarias: ao mesmo
tempo que conspirava a favor da Unio Iberica, fundava com a outra mo
sociedades operarias e introduzia, adepto de Marx e Engels, em Portugal
a Associao Internacional dos Trabalhadores. Fui durante uns 7 ou 8
annos uma especie de pequeno Lassalle, e tive a minha hora de v
popularidade.

Do que publiquei por esse tempo, ahi vae o que ainda posso lembrar. O
meu primeiro folheto  do anno de 1864. Intitula-se: _Defeza da Carta
Encyclica de S. S. Pio IX contra a chamada opinio liberal_.  um
protesto contra a falta de logica com que as folhas liberaes atacavam o
_Syllabus_, declarando-se ao mesmo tempo fieis catholicos. O auctor,
glorificando o Pontfice pela belleza da sua altitude intransigente em
face do seculo, via n'essa intransigencia uma lei historica, resava
respeitosamente um _De profundis_ sobre a egreja condemnada pela mesma
grandeza da sua instituio a cahir inteira mas no a render-se, e
atacava a hypocrisia dos jornaes liberaes.

O meu ultimo folheto  de 1871. Intitula-se: _Carta ao ex.^{mo} marquez
de Avila e Bolama, sobre a Portaria que mandou fechar as Conferencias do
Casino lisbonense_. As Conferencias Democraticas tinham sido fundadas
por mim com o concurso de homens moos (que quasi todos tm hoje nome na
politica) e eram muito frequentadas pelo escol da classe operaria.
Pareceram perigosas ao governo, que arbitrariamente as mandou fechar. O
meu folheto parece que concorreu, segundo se disse, para a queda do
ministerio, que, de resto, no podia durar muito, sendo dos chamados de
transio.  uma diatribe, mas eloquente.

Entre esses dous extremos, colloca-se a famosa _Questo Litteraria_ ou a
_Questo de Coimbra_, que durante mais de 6 mezes agitou o nosso pequeno
mundo litterario, e foi o ponto de partida da actual evoluo da
litteratura portugueza. Os _novos_ datam todos de ento. O Hegeltanismo
dos Coimbres fez exploso.

O velho Castilho, o Arcade posthumo, como ento lhe chamaram, viu a
gerao nova insurgir-se contra o sua chefatura anachronica. Houve em
tudo isto muita irreverencia e muito excesso; mas  certo que Castilho,
artista primoroso mas totalmente destituido de ida, no podia presidir,
como pretendia, a uma gerao ardente, que surgia, e antes de tudo
aspirava a uma nova direco, a _orientar-se_ como depois se disse, nas
correntes do espirito da poca. Havia na mocidade uma grande fermentao
intellectual, confusa, desordenada, mas fecunda: Castilho, que a no
comprehendia, julgou poder supprimil-a com processos de velho pedagogo.
_Inde irae_. Rompi eu o fogo com o folheto _Bom senso e Bom gosto, carta
ao ex.^{mo} A. F. de Castilho_. Seguiu-se Theophilo Braga, seguiram-se
depois muitos outros, _la mele devint gnerale_. Todo o inverno de 1865
a 66 se passou n'este batalhar. Quando o fumo se dissipou, o que se viu
mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 a 20 rapazes,
que no queriam saber da Academia nem dos Academicos, que j no eram
catholicos nem monarchicos, que fallavam de Goethe e Hegel como os
velhos tinham fallado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e
Proudhon, como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes barbaros
e sciencias desconhecidas, como glottica, philologia etc., que
inspiravam talvez pouca confiana pela petulancia e irreverencia, mas
que inquestionavelmente tinham talento e estavam de boa f e que, em
summa, havia a esperar d'elles alguma cousa, _quando assentassem_.

Os factos confirmaram esta impresso: os 10 ou 12 primeiros nomes da
litteratura de hoje sahiram todos (salvos 2 ou 3) da Escola Coimbr ou
da influencia d'ella. O Germanismo tomara p em Portugal. Abrira-se uma
nova ra para o pensamento portuguez. O velho Portugal ainda conservado
artificialmente por uma litteratura de conveno morrera
definitivamente. D'esta especie de revoluo fui eu o porta estandarte,
com o que me no desvaneo sobre maneira, mas tambem no me arrependo.
Se a uma ordem artificial se seguia uma especie de anarchia,  isso
ainda assim preferivel, porque uma contem germens de vida, e da outra
nada havia a esperar. Pertence ainda a essa epoca o folheto: _Dignidade
das Lettras e Litteraturas officiaes_.

Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em Frana e Hespanha e
visitei os Estados Unidos da America. No fim d'esse anno de 68 publiquei
o folheto: _Portugal perante a Revoluo de Hespanha_. Advogava ahi a
Unio Iberica por meio da Republica Federal, ento representada em
Hespanha por Castellar, Pi y Margall e a maioria das Crtes
Constituintes. Era uma grande illuso, da qual porm s desisti (como de
muitas outras d'esse tempo)  fora de golpes brutaes e repetidos da
experiencia. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas cousas
da sociedade!

O meu _Discurso sobre as causas da decadencia dos Povos peninsulares nos
seculos XVII e XVIII_, embora pizasse um terreno mais solido, o terreno
da historia, resente-se ainda muito da influencia das ideias politicas
preconcebidas, da critica historica com _tendencias_.  do anno de 1871.

N'esse anno e no seguinte tomei parte activa no movimento socialista,
que se iniciava em Lisboa, e tanto n'essa cidade como no Porto escrevi
bastante nos jornaes politicos. Incidentemente publiquei n'um pequeno
volume, uma serie de estudos com o titulo de _Consideraes sobre a
Philosophia da Historia litteraria portugueza_. Creio que , ainda
assim, o que fiz de melhor, ou pelo menos, de mais razoavel em prosa.
Confesso sinceramente que dou muita pouca importancia a todos esses meus
escriptosinhos de occasio, e at, s vezes, preciso de certa fora de
reflexo para me no envergonhar de ter publicado tanta cousa pouco
pensada. E todavia era applaudido! Porque? Em primeiro logar, creio eu,
porque os que me applaudiam no pensavam, ainda assim, mais nem melhor
do que eu. Em segundo logar, porque me concedeu a natureza o dom da
prosa portugueza, no da prosa de conveno, arremedando o estylo dos
seculos XVI e XVII mas de uma prosa que tem o seu typo na lingua viva e
falada hoje, analytica j nos movimentos da phrase, mas na linguagem
ainda e sempre portugueza. Isso agradou, porque era o que convinha e, em
summa, acabei por ser citado como modelo da prosa moderna!  certo porm
que tudo aquillo so escriptinhos de accasio e que, em prosa, no
produzi ainda o que se chama _uma obra_, isto , uma cousa original,
pessoal e aprofundada. Ha muito tempo que sei escrever, mas foi
necessario chegar aos 45 annos para ter que escrever. Por isso, deixemos
toda essa farragem que no cito seno para corresponder ao desejo de v.
ex.^a na materia bibliographica. E passemos aos versos.

Alm da colleco de sonetos que v. ex.^a conhece, publiquei ainda mais
dois volumes. Um, de 1872, com o titulo de _Primaveras Romanticas_
contm os meus _Juvenilia_, as poesias de amor e phantasia, compostas na
sua quasi totalidade, entre 1860 e 65, que andavam dispersas por varias
publicaes periodicas, e que s em 72 reuni em volume, juntamente com
mais alguma cousa posterior, do mesmo caracter e estylo. Talvez a melhor
maneira de caracterisar esse volume ser dizer em francez que  _du
Heine de deuxime qualit_. Como muitas pessoas, por c, tm achado essa
semelhana, por isso a indico. A 2.^a seco dos _Sonetos completos_ que
no contm seno composies d'esse periodo dar a v. ex.^a uma ida
sufficiente do fundo e do estylo d'aquella poesia; assim como a 3.^a
seco lhe dar ida das _Odes modernas_, cuja 1.^a edio appareceu em
1865. No sei bem como caracterisar este livro: no  certamente
mediocre; ha n'elle paixo sincera e elevao de pensamento; mas alm de
declamatoria e abstracta, por vezes aquella poesia  indistincta, e no
define bem e typicamente o estado de espirito que a produziu. O que ella
representa perfeitamente  a singular alliana, a que atraz me referi
j, do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francez. Acima
de tudo , como dizem os francezes, _poesia de combate_: o pamphletario
divisa-se muitas vezes por detraz do poeta, e a egreja, a monarchia, os
grandes do mundo, so o alvo das suas apostrophes de nivelador
idealista. N'outras composies,  verdade, o tom  mais calmo e
patenteia-se n'ellas a inteno philosophica do livro, vaga sim, mas
humana e elevada. A novidade, o arrojo, talvez a mesma indeterminao do
pensamento, apenas vagamente idealista e humanitaria, fizeram a fortuna
do livro, junto da gerao nova, o que prova pelo menos que _veiu no seu
momento_:  tudo quanto poderei dizer. Correspondem a este cyclo os
sonetos comprehendidos na 3.^a seco dos _Sonetos completos_, muitos
dos quaes j entraram nas _Odes modernas_. Em 1874 teve este livro uma
2.^a edio muito correcta e contendo varias composies novas que
considero, tal como  e com todos os defeitos inherente  propria
essencia do genero, como definitiva.

N'esse mesmo anno de 1874 adoeci gravissimamente, com uma doena nervosa
de que nunca mais pude restabelecer-me completamente. A forada inaco,
a perspectiva da morte visinha, a ruina de muitos projectos ambiciosos e
uma certa acuidade de sentimentos, propria da nevrose, puzeram-me
novamente e mais imperiosamente do que nunca, em face do grande problema
da existencia. A minha antiga vida pareceu-me v e a existencia em geral
incomprehensivel. Da lucta que ento combati, durante ou 5 ou 6 annos,
com o meu proprio pensamento o meu proprio sentimento que me arrastavam
para um pessimismo vacuo e para o desespero, do testemunha, alm de
muitas poesias, que depois destrui (subsistindo apenas as que o Oliveira
Martins publicou na sua introduco aos _Sonetos_) as composies que
perfazem a seco 4.^a (de 1874 a 80) do meu livrinho. Conhece-as v.
ex.^a, no preciso commental-as. Direi smente que esta evoluo de
sentimento correspondia a uma evoluo de pensamento. O naturalismo,
ainda o mais elevado e mais harmonico, ainda o de um Goethe ou de um
Hegel, no tem solues verdadeiras, deixa a consciencia suspensa, o
sentimento, no que elle tem de mais profundo, por satisfazer. A sua
religiosidade  falsa, e s apparente; no fundo no  mais do que um
paganismo intellectuel e requintado. Ora eu debatia-me desesperadamente,
sem poder sahir do naturalismo, dentro do qual nascera para a
intelligencia e me desenvolvera. Era a minha atmosphera, e todavia
sentia-me asphixiar dentro d'ella. O Naturalismo, na sua frma empirica
e scientifica,  o _struggle for life_, o horror de uma lucta universal
no meio da cegueira universal; na sua frma transcendente  uma
dialetica gelada e inerte, ou um epicurismo egoistamente contemplativo.
Eram estas as consequencias que eu via sahir da doutrina com que me
creara, da minha _alma mater_, agora que a interrogava com a seriedade e
a energia de quem, antes de morrer, quer ao menos saber para que veiu ao
mundo.

A reaco foras moraes e um novo esforo do pensamento salvaram-me do
desespero. Ao mesmo tempo que percebia que a voz da consciencia moral
no pode ser a unica voz sem significao no meio das vozes innumeras do
Universo, refundindo a minha educao philosophica, achava, quer nas
doutrinas, quer na historia, a confirmao d'este ponto de vista. Voltei
a ler muito os philosophos, Hartmann, Lange, Du Bois-Raymond e, indo s
origens do pensammento allemo, Leibnitz e Kant. Li ainda mais os
moralistas e mysticos antigos e modernos, entre todos a _Theologia
Germanica_ e os livros buddhistas. Achei que o mysticismo, sendo o
desenvolvimento psychologico, deve corresponder, a no ser a consciencia
humana extravagancia no meio do Universo,  essencia mais funda das
cousas.

O naturalismo appareceu-me, no j como a explicao ultima das coisas,
mas apenas como o systema exterior, a lei das apparencias e a
phenomenologia do Sr. No _Psychismo_, isto , no Bem e na Liberdade
moral,  que encontrei a explicao ultima e verdadeira de tudo, no s
do homem moral mas de toda a natureza, ainda nos seus momentos physicos
elementares. A _monadologia_ de Leibnitz, convenientemente reformada,
presta-se perfeitamente a esta interpretao do mundo, ao mesmo tempo
naturalista e espiritualista. O espirito  que  o typo da realidade: a
natureza no  mais do que uma longiqua imitao, um vago arremedo, um
symbolo obscuro e imperfeito do espirito. O Universo tem pois como lei
suprema o bem, essencia do espirito. A liberdade, em despeito do
determinismo inflexivel da natureza, no  uma palavra v: ella 
possivel e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo cessou de ser
um carcere: elle  pelo contrario o senhor do mundo, porque  o seu
supremo interprete. S por elle  que o Universo sabe para que existe:
s elle realiza o fim do Universo.

Estes pensamentos e muitos outros, mas concatenados systematicamente,
formam o que eu chamarei, embora ambiciosamente, a minha philosophia. O
meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um buddhista. Ha, com
effeito, muita coisa commum entre as minhas doutrinas e o Buddhismo, mas
creio que ha n'ellas mais alguma coisa do que isso. Parece-me que  esta
a tendencia do espirito moderno que, dada a sua direco e os seus
pontos de partida, no pode sair do naturalismo, cada vez em maior
estado de banca rota, seno por esta porta do psychodynamismo ou
panpsychismo. Creio que  este o ponto nodal e o centro de attraco da
grande nebulose do pensamento moderno, em via de condensao. Por toda a
parte, mas sobretudo na Allemanha, encontram-se claros symptomas d'esta
tendencia. O occidente produzir pois, por seu turno, o seu Buddhismo, a
sua doutrina mystica definitiva, mas com mais solidos alicerces e, por
todos os lados, em melhores condies do que o Oriente.

No sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposio dogmatica
das minhas idas philosophicas. Quizera concentrar n'essa obra suprema
toda a actividade dos annos que me restam a viver. Desconfio, porm, que
no o conseguirei; a doena que me ataca os centros nervosos, no me
permitte esforo to grande e to aturado como fra indispensavel para
levar a cabo to grande empreza. Morrerei, porm, com a satisfao de
ter entrevisto a direco definitiva do pensamento europeu, o Norte para
onde se inclina a divina bussola do espirito humano. Morrerei tambem,
depois de uma vida moralmente to agitada e dolorosa, na placidez de
pensamentos to irmos das mais intimas aspiraes da alma humana e,
como diziam os antigos, na paz do Senhor!--Assim o espero.

Os ultimos 21 Sonetos do meu livrinho do um reflexo d'esta phase final
do meu espirito e representam symbolica e sentimentalmente as minhas
actuaes idas sobre o mundo e a vida humana.  bem pouco para to vasto
assumpto, mas no estava na minha mo fazer mais, nem melhor. Fazer
versos foi sempre em mim cousa perfeitamente involuntaria; pelo menos
ganhei com isso fazel-os sempre perfeitamente sinceros. Estimo este
livrinho dos _Sonetos_ por acompanhar, como a notao de um diario
intimo e sem mais preoccupaes do que a exactido das notas de um
diario, as phases successivas da minha vida intellectual e sentimental.
Elle frma uma especie de autobiographia de um pensamento e como que as
memorias de uma consciencia.

Se entrei em to largos desenvolvimentos biographicos, foi por entender
que, sem elles, se havia de perder a maior parte do interesse que a
leitura dos meus _Sonetos_ pode inspirar. Os criticos allemes acharo
talvez interessante observar as reaces provocadas pela inoculao do
Germanismo, no espirito no preparado de um meridional, descendente dos
navegadores catholicos do seculo XVI. Poder essa ser mais uma pagina,
embora tenue, na historia do Germanismo na Europa, e porventura parecer
curiosa aos que se occupam de psychologia comparada dos povos.

Ao bom e amavel espirito que me introduz, a mim neophyto, n'esses
grandes circulos do pensamento e do saber, tributo, alm de muita
sympathia, indelevel gratido.

E sou de v. ex.^a com a maxima considerao

criado m.^o obrg.^o

_Anthero de Quental_.




A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL


1. _Sonetos de Anthero_. Editor Stnio. Coimbra, Imprensa Litteraria,
1861. In-8.^o de XII e 23 pag. Contm 21 Sonetos, dos quaes 16 foram
incorporados nos _Sonetos completos_; os 5 restantes ficam incluidos nos
_Raios de extincta Luz_. O prologo  uma apresentao em verso por
Santos Valente. A carta a Joo de Deus sobre a theoria do Soneto foi
reproduzida no vol. II do _Circulo camoniano_.

2. _Beatrice_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1863. In-8.^o grande,
de 40 pag. Este poemeto, formado de trechos lyricos, est incorporado
nas _Primaveras romanticas_.

3. _Fiat lux_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1864. In-8.^o grande,
de 16 pag. Extremamente raro, por que foi rasgado pelo auctor poucos
dias depois de publicado. Fica incorporado este poemeto nos _Raios de
extincta Luz_.

4. _Odes modernas_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1865. In-8.^o
grande, de 160 pag. O texto termina a pag. 150, sendo as ultimas 10 pag.
occupadas por uma nota.

----Segunda edio (Contendo varias composies ineditas). Porto, 1875.
In-8.^o pequeno, de 186 pag. N'esta foi cortada a carta dedicatoria a
Germano Meyrelles, e bem assim a dedicatoria dos Sonetos _A Ideia_, a
Camillo Castello Branco; os versos que comeam: Como a serpente larga a
pelle antiga (pag. 100), _ Irlanda_ (pag. 121), e as duas quadras
sobre Mahomet e o Christo (pag. 133).

5. _Primaveras romanticas_ (Versos dos vinte annos). Porto, Imprensa
Portugueza, 1871. Com retrato photographico. In-8.^o grande, VII e 202
pag. Uma grande parte d'estes versos fora primeiramente publicada no
_Seculo XIX_, jornal de Penafiel, em 1864, e outros com o pseudonymo de
Carlos Fradique Mendes. (Vid. n.^o 2).

6. _Sonetos_ (Bibliotheca da Renascena, I). Porto, Imprensa Portugueza,
1881. In-8.^o pequeno, de 32 pag. e 4 no numeradas. Contm 28 Sonetos
colligidos por Joaquim de Araujo.

7. _Sonetos completos_. Publicados por J. P. de Oliveira Martins. Porto,
Livraria Portuense de Lopes e C.^a--Editores. 1886. In-8.^o pequeno; 48
pag. de introduco por Oliveira Martins, e 126 de texto.--Contm a
colleco dos _Sonetos_ da Bibliotheca da Renascena, e todos os Sonetos
dispersos pelas outras obras de Anthero,  excepo de 5 Sonetos
desprezados (Vid. n.^o 1) e do Soneto _Accusao_ (Aos homens de sangue
de Versalhes em 1871), que vem nas _Odes modernas_, a pag. 167 (Vid.
n.^o 4).

----Segunda edio. Porto, 1891. Accrescentada com a traduco allem do
Dr. Wilhelm Storck, e algumas verses italianas.

8. _Cadencias Vagas_. Separata dos versos colligidos por Joaquim de
Araujo para o volume dos _Raios de extincta Luz_. Lisboa, Typographia da
Academia real das Sciencias, 1892. In-16.^o, VIII e 72 pag. (Tiragem
restricta).

9. _Raios de extincta Luz_. Poesias ineditas (1859-1863) com outras pela
primeira vez colligidas. Publicadas e precedidas de um Escorso
biographico por Theophilo Braga. Lisboa. M. Gomes. Livreiro-Editor, 70,
Rua Garrett (Chiado), 72. Typographia da Academia real das Sciencias,
1892. In-16.^o, de XLVIII pag. de introduco, e 258 pag. de texto.
Entram n'esta colleco as seguintes:

*Folhas avulsas*:

I. _Poesia_ de Anthero de Quental recitada na noite de 13 de maio de
1862, no Theatro Academico, por A. Fialho Machado.

II. _A Gennaro Perrelli_, Ao artista e patriota italiano. Imprensa
Litteraria (Sem data).

III. _ Italia_. Poesia de Anthero, recitada no Theatro Academico por A.
Fialho Machado, na noite de 22 de outubro de 1862. Coimbra, Imprensa
Litteraria.

IV. _Zara_. Poesia. Imprensa portugueza. Porto. Folha solta, com
restricta tiragem para as pessoas da familia do Dr. Antonio Joaquim de
Araujo.

V. _A casa do Corao_. Impressa sobre um fundo lithographado, com o
retrato de Anthero, e distribuida no Saro da Liga das Artes Graphicas,
no Porto, em honra do illustre morto.

       *       *       *       *       *

ORDEM PARA UMA EDIO DEFINITIVA DAS OBRAS POETICAS COMPLETAS DE ANTHERO


I. _Raios de extincta Luz_ (1859 a 1863).
II. _Primaveras romanticas_ (1863 a 1865).
III. _Odes modernas_ (1865 a 1871).
IV. _Sonetos completos_ (1860 a 1884).





I

PALAVRAS ALADAS




PALAVRAS ALADAS


Raios de extincta luz, eccos perdidos
De voz que se sumiu no espao absorta--
Meus cantos voaro de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

No sabe a folha j mirrada e secca,
Que um spro do tufo levou revolta,
Que outro sopro talvez desfaa em breve--
No sabe a triste o ramo onde nascera,
A seiva que a nutriu, quando inda bella,
O tronco que adornou com verde galla,
E onde entre irms folgou por tarde amena?
Soltos do tronco, sem calor, sem vida,
Filhos orphos que um seio no aquece,
Um seio maternal ebrio de affectos,
Meus cantos voaro de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,
Lembrar e vir na mente o tempo antigo
Em que bella, vestindo pompa e gallas,
Brilhou rica de seiva e luz e vida;
Se na mente sonhar a pura essencia
Que animara esse p ahi revolto;
Se corpo der  sombra fugitiva,
E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;
Se alguem souber do canto o sentir intimo,
Oh, esse ha de entender a vida, a crena
D'essa alma que animara outr'ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica
Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;
Se livre, por tyrannos no comprado,
Pulsar um corao, esse commigo
Hade a aurora saudar do _novo dia_;
Se uma alma recordar a eterna patria
Que lhe dera o Senhor, do co saudosa
Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.

Aos mais ser mysterio o canto e a lyra,
 Liberdade, a Amor e a Deus votada:
E j, soltos do tronco onde medraram,
Meus cantos voaro de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.




II

LAO D'AMOR




A poesia _As Estrellas_ appareceu pela primeira vez publicada na segunda
parte da _Beatrice_ (p. 27 a 31), mas sem titulo, e com a epigraphe
_Excelsior_. O poeta leu-m'a em 1861 com o titulo _As Estrellas_, como
uma das suas melhores Odes. No manuscripto que possuo tem a
data:--_Figueira, Setembro_--1860; no apresenta variantes apreciaveis
da edio do 1863, por isso a no reproduzimos.

_T. B._




LAO D'AMOR

_Ao amigo Santos Valente enviando-lhe para o seu Album a poesia AS
ESTRELLAS_


Que heide dar de melhor? Ai, n'estes tempos
De pobres affeies, de tibias crenas,
--Fonte que os ses do estio tem seccado--
Aonde ha f tam viva, que trasborde,
Enchendo um peito n'outro peito amigo?
Que esperanas c da terra ha hi tam firmes,
Tam ricas de futuro, que dois sres
Possam firmar-se n'ellas sem receio
E abandonar-se todo ao seu arrimo,
Qual brao de mulher em brao de homem?
E quem pode encontrar-se em egual via,
E ir, com norte egual, seguir seu rumo
Quando tantos caminhos vo cruzando
N'estes tempos o mundo do espirito?
Ah, n'este sec'lo, amigo, solitario
Cada qual segue triste a sua estrada,
Caminheiro de um dia, e silencioso,
Contando, como o avaro, os tristes restos
Das suas illuses, das suas crenas,
A si pergunta o que ficou de tudo;
Olha as bandas longiquas do horizonte
E de novo interroga, em desalento,
Se o futuro lhe guarda alguma esp'rana,
Se o abysmo  o termo da jornada?!

Se l de longe em longe alguma tenda,
Se uma fonte que ensombra alta palmeira.
Lhe alveja no deserto; se inda um pouco
Lhe repousa a cabea afadigada,
No faz, crente no Deus que o tem guiado,
A orao da noite, a aco de graas
E, antes que cerre as palpebras, medita...

No repouso s busca o esquecimento:
Dorme o somno agitado de uma noite
Sob a tenda que o acaso lhe depara;
De manh, sem levar uma saudade,
Sem as deixar tambem, eil-o seguindo
Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?
P'ra dr que soffre em si tudo  presente,
Aqui, ali, em toda a parte o punge...
Quem lhe dera esquecer, no recordar-se...

Oraes? so incenso cujo aroma
 de lagrimas... e as d'elle se ho seccado!
Orgulhoso na dr, da dr o orgulho
Fal-o erguer solitario e silencioso,
Como se ergue o granito no deserto
Ermo, n... se medita... e s comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo
Que o accaso ou o fado lhe depara:
Quem se pode encontrar? que lao estreito
Ha que os aperte? Ida ou sentimento
Aonde em crena egual juntos communguem?
........................................
........................................
........................................
Com tudo Deus existe! e ns, seus filhos,
--Ingratos--se n'uma hora o olvidmos,
Dentro temos a voz de eterno brado!
Quem pode renegar seu pae? Ns somos
Como esse Ado occulto no arvoredo
Que no quer responder a _quem_ o chama:
Porm se a voz do pae clamou tres vezes,
No pode resistir--Eis-me presente.--

Dissidentes no mais, Deus nos reune:
No impio, ou crente, em todos Deus existe
E todos chama a si, e a todos ama.
Ns somos como rios que descendem
De varia serra, e em vario leito correm:
Mas, que importa? essas serpes tortuosas,
Aps rodeios mil, aps mil voltas,
Vo todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crena varia e o vario affecto?
Este lao de amor a todos une:
--Existe um Deus que  Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.




III

FORA--AMOR




FORA--AMOR


O que destroe os mundos,
E d que os mar's frementes,
Em volta aos continentes,
Cavem abysmos fundos;

A mo que faz que a noite,
Sem luz, amor, encanto,
Se envolva em negro manto
Aonde o mal se acoite;

Que ps no olhar o brilho,
E deu ao labio o riso,
 planta o pomo liso.
Seio de me ao filho;

O que  verbo da vida,
Do amor, da luz, do affecto,
O que sustenta o insecto
E a planta desvalida;

E disse  nuvem branca
--Em densas trevas morre,
E disse ao vento--corre,
Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte,
De puro incenso, fumo;
E deixa, em mar sem rumo,
O homem luctar co'a sorte;

Se  Deus... oh! no! no pode
Do amor o foco immenso,
Que abraza em fogo intenso,
Se  mente nos acode;

No pode o spro d'elle
Mandar a morte e o pranto,
Em vez do doce encanto,
Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas,
--Espirito infecundo--
Espalha sobre o mundo
Estas vinganas sevas.

No elle; o Deus suave!
D'aquelle seio immenso,
S manda  terra o incenso
E o balsamo que a lave!

........................................
........................................

--Estranhas ver a morte?
De vida andas repleto:
O Deus, o Deus do affecto
Tambem  o Deus forte:

Poeta! s tu que ignoras
--Envolto em sonho areo--
O revolto mysterio
De mais revoltas horas!--

Dezembro, 1860.




IV

PAZ EM DEUS




PAZ EM DEUS

     ...pax hominibus bona voluntate.


O Deus que me creou pz-me no peito
Um thesouro to rico de esperana,
Que no ha quem m'o roube ou quem m'o gaste;
E pz-me n'alma fonte to perenne
D'aquelle Eterno-Amor, que de l desce,
Que no ha sol ou calma que m'a seque.

A fonte que nasceu em solo rido
Se um dia murmurou, morreu no outro;
Mas a que vem dos montes, que o co tocam,
Descendo lentamente e sem ruido,
T que brota entre as flores da campina,
Essa no morre com a luz de um dia...
Fonte de puras aguas abundantes,
Traz do co sua origem. L se esconde,
Entre nuvens, o foco que a alimenta:
Eterna, como o co d'onde partira,
E serena, como elle, a paz e a vida,
Como elle, tem no seio e d'elle manam.

Assim d'aquelle amor. Constante e puro,
Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o?
Que p da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens no te mancha,
Oh minha paz, oh minha pomba candida!
Na terra o caador te aponta a flecha,
E o tiro parte em vo. Como tocar-te,
Se to alto voaste, e o dardo apenas
Mediu a meia altura que levavas?
A flecha cae na terra... ao co tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo
Abrigar-me tambem no seio eterno,
Quando um dia o Senhor julgar que  finda
A misso que me deu de aqui servil-o.
Aqui fica-me a esp'rana que me alente,
Fica a luz que me guia, o Amor, a crena.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro,
Como  ave que va deu a penna,
Que a libra pelo espao; e ao olho morto
Do ancio, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembla dos homens, se um, olhando-me
Disser--Aquelle  rei--irei prostrar-me
Diante do Senhor, abrindo o espirito
 voz que dentro d'elle Deus murmura;
E Deus vendo-me puro na consciencia
Dir--Ergue-te em paz: no s culpado--!

Se sentir dentro d'alma alguma f'rida
Vertendo sangue e fel, em dor extrema,
Buscarei no Senhor o meu alivio:
E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,
Dir--Fica-te em paz: ests curado--!

Oh minha doce paz! por ti se cumpram
Os decretos do Eterno: tu me escuda
Dos tiros que a maldade em mim dispara;
A fora do leo pe-me na mente,
A mansido da pomba dentro d'alma.
Oh pomba ingenua, pomba immaculada,
Filha do co ao co voemos juntos.

Janeiro, 1861.




V

N'UMA NOITE DE PRIMAVERA




N'UMA NOITE DE PRIMAVERA

(*DO POEMA VASCO*)


1.^o FRAGMENTO

Esta quadra d'amor quanto nos punge,
Com to doce pungir! Como sorrindo
Nos mata de desejos; nos esmaga
Sob o peso infinito dos anhelos,
Que esta vida e mil outras no fartaram!
Esta quadra d'amor, com seus sorrisos,
Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal  a essencia do Amor; tal Deus ha posto
Um veneno no mal, na flr um spide!
Prazer e dr, sereis talvez um unico,
Unico sr, que nos penetra e abraza
N'um fogo que nos doe, mas que  to doce?
Punhal, que ferindo o peito, nos consola,
Mas, que a affagar nos vae roubando a vida,
Antegosto do que  o co e o inferno?
Ser isto o amor? ser?... quem sabe?

Talvez! Se  lao universal e unico
Deve o bem como o mal juntar n'um todo;
Se  vida  tambem morte; se  saudade,
 desejo tambem; e se algum anjo
O creou, ha demonio que o perturba;
Se  um sol que nos brilha dentro d'alma,
Tambem queima e devora, tambem mata!
E  isto amor? ser! ser! quem sabe?

De vida mais completa  antegosto,
De melhor existir que alm comea:
Talvez! ento o amor ser a morte?
Triste noiva,  mistr esp'rar-lhe a vinda
Para amar e gozar e viver muito?!
Celebre-se o hymeneo sobre uma campa:
Aguarde-se a hora extrema, como aurora
De um bem, que alm da vida s comea;
E contando os momentos como sec'los,
O primeiro dos dias seja o ultimo...
Mas ser isto amor? ser!... quem sabe?

Talvez!... Mas quando a lousa funeraria
Rangendo, cobre um corpo estremecido:
Quando a terra s pode dar-lhe os osc'los,
Que inda ha pouco lhe davamos convulsos,
Que vem, que vem aos olhos? Vem s lagrimas
E ao peito vem s dr! O lucto, o pranto
Se assentam sobre as campas, no a esp'rana!
E ser isto amor? ser!... quem sabe?

Mas as lousas so frias. Quem pernoita
Na deveza onde s o eterno somno
Se dorme... no! ninguem por l pernoita!
As dres, como gazes, se evaporam;
No ambiente da vida os ais no podem
Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima,
Tantas consolaes para os que soffrem!
No duram, no!... a mo que enchuga o pranto
Beija-se... e mais... e mais... encontra-se a alma
Com quem se casa a pobre solitaria:
E a outra! a outra l! partiu-se o lao...
E  isto amor? ser! ser?... quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!...
Triste do que ficou sobre uma lousa
Assentado a chorar: o que  da esp'rana?
Nunca sahiu da campa voz amiga
A consolar a dr! Fica-lhe apenas
Um premio, triste premio! o das lagrimas:
Esse--se foi constante--hade cingir-lhe
A fronte com a c'roa... do martyrio...
E ser isto amor? ser!... quem sabe?
........................................


2.^o FRAGMENTO

........................................
Ser! ser! Que importa, se  to doce,
Se mata com um sorriso, entre caricias!
Vae, razo fria! vae... isto ou aquillo
Que importa seja o amor?!  sempre bello
--Um momento sequer--gozar a vida.

 bello o amor;  bella a vida;  bello
Tudo aonde o Senhor a mo ha posto...
E o Senhor fez o mundo! e a ti,  noite,
Noite de primavera, deu-te estrellas,
Que so almas no espao a procurar-se;
A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio
De matar ou dar vida... e a mim, sim!--creio--
Inda hade dar-me uma hora de ventura!
........................................
Oh! dae-me a taa do veneno doce,
Que mata embriagando! Dae-me prestes
Uma taa de amor aonde libe!...

Abril, 1861.




VI

PSALMO




PSALMO

(CXXXII DE DAVID)

    Do amor he santo o lao!
    O forte ao fraco ajude:
    Ao irmo mais fraco escude
    Do irmo mais forte o brao.


E a graa do Senhor vir sobre elles:
Vir, bem como um oleo perfumado,
Que na fronte de Aro cahido, escorre,
Que inunda a barba toda, e vem descendo
'T que a fimbria da tunica lhe beija.

Vir, bem como o orvalho sobre o monte
Sacrosanto de Hermon, e sobre o cimo,
O cimo de Sion, que Deus amara:
Porque sobre as justas frontes
Dos irmos que estreita o amor,
--Mais que o orvalho sobre os montes--
Desce a graa do Senhor.

Novembro, 1860.




VII

 BEIRA-MAR




 BEIRA-MAR

*O CREPUSCULO*


Oh! vem Maria! sobre a rocha erguida
Em asp'ra costa, sobranceira ao mar,
Vamos ssinhos ver as brancas ondas
Sobre os rochedos, em caches, saltar!

Alli, bem juntos, ao cahir da tarde,
De mos trocadas a fallar de amor,
Quero, ao contar-te mil segredos d'alma,
Ver-te nas faces virginal pudr.

 proprio o sitio,  propicia a hora,
Incerta, dubia entre sombra e luz;
J descem trevas pelos fundos valles,
Inda algum brilho sobre o mar reluz:

Inda no dorso das inquietas ondas
Dourada fita tremeluz, alm;
Mas, j ao longe, da campina os vios,
Envolvem sombras que dos montes vm.

Gigante immenso de esplendor e brilho,
O sol, um instante, viu-se alli nutar;
Depois canado, declinando rapido
A lassa fronte repousou no mar.

Semelha ao entrar-lhe pelo seio tumido,
Que de mil fgos inda foi tingir,
Medalha de ouro, que em caldeira immensa,
A pouco e pouco visse alguem fundir.

Em tanto a sombra vae descendo os montes
E envolve as terras mysterioso vo;
J se divisa, vergonhosa e timida,
Pallida estrella tremular no co:

Como em teu seio, pura virgem, nasce
Ligeira magoa de fugaz pezar,
Que vae crescendo, e transmudada em lagrimas
Te vem dos olhos nos crystaes brilhar:

Como nos brota dentro de alma, e lavra
A pouco e pouco no veloz crescer,
Algum affecto que em paixo tornado
Nos vem no peito com fulgor arder:

Assim da estrella nasce o brilho, e cresce
A pouco e pouco pelo co de anil;
Ponto luzente, no comeo apenas,
Por fim brilhante, entre saphiras mil.

Soido callada pela terra alarga-se
Preludio augusto da _nocturna voz_;
Em doce enlevo, scisma o homem statico
Em Deus, comsigo meditando a ss.

Hora saudosa de incerteza mystica,
De lucta harmonica entre sombra e luz.
Por ti nos desce sobre o seio ardente
A santa crena que p'ra Deus conduz!

Hora em que  grato no regao amigo
De alguma esperana de melhor porvir,
Olvidar magoas de um presente incerto,
E, esp'rando, e crendo, n'essa f dormir.

Em que amor gera dentro de alma os laos
Que as almas ligam com estreito n,
E que no arroubo de amoroso rapto
Funde dois sres n'uma vida s.

E eu tambem quero sentir n'alma os intimos
Celestes gosos que esta hora tem;
Em livro aberto lr um nome augusto
Que em lettras de ouro vejo escripto alm.

E no regao da mulher amada,
Que  minha esp'rana de melhor porvir,
Quero estas magoas ir depr e apenas
Guardar um peito para amor sentir.

E antes que as terras illuminem fgos,
Com a luz divina que o Senhor lhe deu;
E antes que morram esses brilhos ultimos
Do sol nas dobras do nocturno vo;

Quero ao soido gemedor das ondas
Casar as magoas d'este immenso amor,
Ardente e puro, como aquelles lumes
Candentes fcos de vivaz fulgor.

Quero nas horas do crepusculo ameno
Sobre o rochedo sobranceiro ao mar,
Aos ps da virgem que escolheu minha alma
Ler-lhe nos olhos confisses sem par.

Figueira da Foz, 1860.




VIII

ASPIRAO




ASPIRAO


Porque  que minha alma anceia
De vises e magoas cheia,
Porque ao longe devaneia
Minha mente sem cessar?
Porque  tarde, em fins do dia,
Ao cahir da maresia,
Vou sobre a costa bravia
Magoas carpir sobre o mar?

Porque se me opprime o peito
--J de ha muito  magoa affeito--
N'esse momento imperfeito,
Mixto de trevas e luz,
Quando tudo, ao longe e ao perto,
Se veste de um brilho incerto
E eu, d'esta alma no deserto,
S diviso a paz na Cruz?

Porque ao murmurio das fontes,
Quando a sombra desce os montes,
Fito o olhar nos horizontes
E fico mudo a scismar!
Porque  noite,  lua cheia,
Por noites da minha aldeia,
Chro e riu e devaneia
Meu agitado pensar?

Oh! quem  que assim me inspira
 mente que me delira,
Ao corao que suspira
Allivios, conslo e paz?
Quem faz que alm d'esta vida
Veja uma outra promettida
E anceie essa patria querida,
No esta patria fallaz?

No vem de mim nem da terra
--Que tal ouvir no encerra--
O que este peito descerra
N'um hymno de tanta f:
Eu scismo s vezes de amores,
Porm so outros ardores,
Outros so os seus fervores,
Outro amor que este no ...

Eu tenho sonhos de gloria,
Que me acodem  memoria
Como a viso illusoria,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sde;--
Do poder aspiro  sde...
Mas toda esta gloria cede
 _gloria_ de luz e paz!

Oh! trasborda-me este affecto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Trasborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor to sobre-humano,
Tam puro de todo o engano...
Que nem sei se  isto amor!

Oh! embala-me esta esp'rana,
Aonde a alma me descana
Em pura e santa bonana,
To bafejada de Deus,
Que no pode--eu bem o vejo--
Descender-me este desejo
Seno da patria que invejo...
Oh! esta esp'rana  dos cos!

s tu oh Deus que me chamas!
s tu Senhor que me inflammas
N'aquellas ardentes chammas,
Que me do to pura luz!
s tu, oh Pae! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mo segura,
A mo que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
D'esse fanal que no mente,
J p'ra ti desprende o vo...
Oh! quem tem essa luz querida,
No tem outra promettida,
No pode amar outra vida...
Senhor! eu busco-te... eu vou!

Coimbra, 1861




IX

A PYRAMIDE NO DESERTO




A PYRAMIDE NO DESERTO


Alm na solido, sobre os desertos,
Tu s te ergues altiva e apontas cos;
E deixas, sobranceira s tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcos!

Tu s! Quem te creou? Mysterio immenso
Ao nascer te encobriu, te envolve o sr...
E agora eis-te, rival das serranias,
Como ellas condemnada a no morrer.

Tu s! Alm, na extrema do horizonte,
Passa o Arabe no auge do furor,
Luz-lhe na mo o alfange, o olhar fuzila,
Vo com elle em tropel morte e terror!

Mas l surge do accaso arroxeado,
Ao mando de medonho furaco,
Nuvem de ardente p que rue sobre elle,
Que o sepulta em deserto, rido cho.

Mas tu sorris s furias da tormenta,
No temendo arrostal-a inda uma vez,
E ella, a que troou pelos espaos,
Vem tremendo morrer-te ahi aos ps.

Do cimo sublimado, erguido s nuvens,
Vs os sec'los nascer, ruir no p;
E em meio da ruina dos imperios
Ficas tu,  gigante, eterno e s!

Alm, n'esse deserto a quem assombras,
Que vidas, que paixes se ho revolvido!
E a todas o deserto, qual sudario,
Nas dobras da mortalha ha envolvido.

Tu podes apontar ao viajante
Um nome ou um logar na solido:
Dizer--Alli, Palmira foi cidade--
--Aqui, foi um heroe Napoleo.--

Tu s podes dizel-o. Quem mais sabe,
Que p envolve agora o que morreu?
Quem pode differenar, n'um mar infindo,
Um p de um outro p que o envolveu?

S tu! Na solido, sobre os desertos,
Tu s te ergues altiva, e apontas cos;
E deixas, sobranceira s tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcos!

Coimbra, Dezembro, 1859.




X

DESALENTO-CONFORTO




DESALENTO


_A Sorte, amigo, a sorte  dura s vezes!
Agora nos affaga e nos alenta;
E logo nos opprimem seus revezes...

Aps leda bonana vem tormenta;
Succede a noite escura ao claro dia,
E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasia
Aos sonhos perfumados de venturas
Que a beijar-me a fronte eu j sentia,

Ai! seguiram-se tristes amarguras
Que a vida a pouco e pouco vo comendo;
Deixando espinhos s onde as verduras
Eram brandos aromas rescendendo_!

Alberto Telles


CONFORTO

(*PARAPHRASE DO SONETO ANTECEDENTE*)


A Sorte s p'ra o fraco  dura s vezes!
P'ra o forte, que a virtude e crena alenta,
P'ra esse no ha sortes nem revezes...

Porque aps da bonana vem tormenta,
Porque a noite succede ao claro dia,
 fora definhar em magoa lenta?

No! que aos males, que gera a phantasia,
O sabio oppe as intimas venturas
Da virtude e da f que em si sentia.

No chores mais, poeta, as amarguras
Que s os bens da terra vo comendo:
A consciencia  jardim onde as verduras
Mil perfumes p'ra o co vo rescendendo.




XI

A SENDA DO CALVARIO




A SENDA DO CALVARIO

     Ave, Christus!


Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora  cruz de morte
      Tambem  cruz de amor!

Deixae! na praa o povo agglomerado
      Vomita a injuria alli;
E elle, sereno o rosto e resignado,
      Olha o co, e sorri.

Sorri... no fero riso de despreso
Que ao passar pelo labio perde o encanto,
Mas riso que transluz por entre o pranto
Ao que da cruz de amor arrasta o peso.

Sorri... Que mais importa ao homem forte
      Ou despreso ou louvor,
Se da estrella seguiu, que foi seu norte,
      O magico pallor?
Tem dentro, como em erguida fortaleza,
A f, voz que lhe vae bradando--Avante!
 teu premio o opprobrio do ignorante,
De tal morte morrer, tua grandeza!--

E diz, vendo a consciencia onde serena
      L a imagem de Deus,
E do futuro vendo a praia amena:
      --Posso subir aos cos!
Posso agora, depondo em terra o peso
Da misso dolorosa d'esta vida,
Buscar a patria minha promettida,
D'onde o divino amor transluz acceso.--

Ai pode! Heroe, e martyr, deixa a terra,
      Que  cumprida a misso:
O Mundo o teu preceito guarda e encerra
      Na mente e corao...
Morres tu; mas a ida que deixaste
No morre, como a luz em fim do dia,
Nem o fogo do co que em ti ardia,
Nem o exemplo sublime, que legaste!

Oh, martyr! cada lagrima chovida
      N'essa senda de dr,
Conquista mais um espirito p'ra vida,
      Para a luz do Senhor;
E um dia (e talvez cedo venha o dia)
De cada dr que ahi te curva agora,
Nascer qual da noite nasce a aurora
Um mundo de verdade e de harmonia!
........................................
Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora  cruz de morte,
      Tambem  cruz de amor!

S. Miguel, Julho de 1859.




XII

A JOO DE DEUS




A JOO DE DEUS

DEPOIS DE LER A SUA POESIA


    Fique em silencio eterno a minha lyra;
    Pomba do co tu vae; Deus te bem fade,
    N'esta alma em teu logar guardo a saudade,
    Se a essencia sobrevive  flor que expira.
    ........................................


Foi o canto do cysne, o canto derradeiro
D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar;
Adeus da terna amante ao seu amor primeiro
Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar;
Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente
--N'uma hora apenas--v, qual sombra na corrente,
Morrer-lhe as illuses co'a morte d'esse amor
E triste se envolveu no vo de uma erma dr.
Soffreu da soledade... E onde ha hi um peito
Que no soffra tambem, ainda ao mal affeito?

Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou,
Depois que ao longe e triste o ecco se finou
D'aquella _unica voz_, que ainda repetia
A sua voz, bem como,  tarde em fins do dia,
A nuvem que passou reflecte um raio ao sol,
Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol.
Soffreu quando da sorte a mo pesada veiu
Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli
A ancia que animra o arfar d'aquelle seio,
Seio que s bateu--poesia!--amor!--por ti!

E elle ento disse: Aqui deponho a minha lyra:
Se esta alma a outros cos, a outra patria aspira,
Se esta ancia infinita no posso aqui fartar,
Que val'--ecco sem voz--que val' o meu cantar?
Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia,
Cuja aurora immortal, em luz, em poesia,
Me hade envolver, e assim levar-me quelle co.
Co do que amou, creu, esperou e soffreu.
Emtanto--esp'rando--viva em silencio profundo,
Deixando em vo rugir,--qual voz do mar--o mundo;
Aqui guardo a saudade, esse talisman s,
Como da flor j secca inda se guarda o p.--

Cobriu o rosto aps co' manto da tristeza;
O sol d'aquelle co fugiu ao longe... alm...
E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza
Ao negro que hia l veiu ajuntar tambem.
........................................
........................................
Poeta, essa no  tua misso. Curvar-se
Um momento  do homem; porm no prostrar-se
Gemendo em desalento, e face contra o cho,
Como quem acceitou da dr a escravido.
Poeta  quem tem f, quem busca no futuro
A crena que lhe nega este presente impuro:
No quem deixa cahir a lyra, no quem vae
Pedir ao desalento abrigo e amor de pae.
 virtude soffrer, nunca perder a crena;
 ter esp'rana tal que a dr mais crua vena;
 no pedir seu premio aos homens, mas a Deus,
E passar n'este valle, o olhar fito nos cos.

Tal  tua misso:--Luctar! O soffrimento,
Ao p do eterno bem, o que  mais que um momento?

Coimbra, Maro, 1861




     _Como a poesia de Joo de Deus citada na epigraphe da p. 73, no
     foi incorporada nas colleces das_ Flores do Campo _e_ Folhas
     Soltas, _transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos
     nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da
     primeira estrophe_.




ADEUS


_Fique em silencio eterno a minha lyra_;
Vae, effluvio de Deus! _Deus te bem fade:
N'esta alma, em teu logar_ fica _a saudade,
Se a essencia sobrevive  flr que expira.

Dizer-te adeus! no pude; quando occorre
Tal voz ao labio, o labio empallidece,
Como a nota da lyra nos fallece
Ante a lua que cae, e o sol que morre:

Ante o spro que varre o cedro e o vime,
Ante o sublime aspecto do oceano,
Ante a esposa do martyr sobrehumano,
Ante tudo o que  grande e que  sublime.

Embora!... quando a lampada crepita
J falta d'oleo, languida esvoaa;
A nuvem estala; ruge a onda e passa,
Guarda silencio a abobada infinita_.

Joo de Deus




XIII

PER AMICA SILENTIA LUNAE




PER AMICA SILENTIA LUNAE


    Guardai in alto.........................
    ........................................

    Dante, _Inf._ C. 1.^o


I


Eu amo a noite s horas socegadas
Que o Senhor manda  terra, como balsamo
A tanta dr que a punge, e o sol do dia
Parece escarnecer com tanto brilho,
Nem sabe respeitar; quando o silencio
Com manto protector envolve os tristes,
Os que choram saudades; quando o orvalho
Refresca o seio  flr, e em cada balsa
A virao prepassa suspirando;
Quando  mais puro o r, mais doce a brisa,
Mais sumidos, mais vagos os rumores,
E detraz da montanha, saudosa
Como a virgem dos sonhos, surge a lua.


II


Eu amo ento a noite.--Paz e esperana
A quem soffre, buscando algum allivio;
Ao feliz exultando de alegrias
A lembrana de Deus a quem as deve;
A quem descreu de achar inda na terra
Ventura que lhe foge... o olvido ao menos;
A toda a crena um exultar de affectos;
A todo o desconforto, uma esperana;
A toda a natureza, amor e vida;
Eis o thesouro santo que nos abre
--A ns e ao mundo--a noite, eis seu tributo.

 doce ento abrir os seios d'alma
Aos effluvios do co: flor que ho crestado
Ardentias do sol, e ainda timida
Palpitando entre o susto e a esperana,
Retoma agora aos poucos novo alento
Ao sentir-se segura, e abrindo o calix
Estremece de amor a cada gtta
Dos orvalhos do co: como que a vida
Solta de tanto lao que a comprime,
Como gaz que ao calor se ha dilatado,
Se expande livre agora e cresce e absorve
Em si mil harmonias, mil poderes
Que esse universo tem: como as correntes
Occultas, que os oceanos communicam,
A natureza e o espirito permutam
Sympathias e foras, em que a alma
Mais cresce e mais comprehende, e mais abrange,
E n'este permutar de fora e fora
Quasi na vida universal se funda.


III


Passa a lua; do alto olhando a terra
Procura o triste por lhe dar allivio;
Prepassa a virao e busca do ermo
A florinha minada que refresque;
Corre manso o regato, e banha a erva
Que um p calcou, e o sol deixou crestada;
Tremla a estrella, symbolo de esperanas,
Enviam-se harmonias as espheras;
Tudo amor, tudo affectos communica;
E o espirito do homem busca livre
Da sob'rana harmonia a eterna frmula,
Do eterno amor o fco, a patria sua.

Lembranas de um viver j pressentido,
Ou memorias--talvez--de uma outra vida,
Que nos relembra vaga, e como em sonhos,
E sobre o fundo d'esta se destacam
Como pela penumbra um vulto incerto...
Aspiraes, memorias, ou saudades,
O que nos enche o peito e nos enleva
Como um sonho de amor--e mais ainda--
Seno este mysterio do futuro,
Esta attraco do sr a vida nova,
Que se foge e se busca e nos revela
A vida universal, ento sentida
Mais forte na harmonia do Universo?


IV


Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campa
Mais que o sorriso de uma amante  doce;
A lembrana da morte mais que a esp'rana
Do poder ou da gloria nos enleva;
Terrores, incertezas se dissipam,
E sem saudade, sem temor se anhela
Mais mundo, mais espao, e viver novo!


V


E quem pode temer? Teme o que um dia
Sonhou na mente uma ambio terrena
E mais no v por todo esse universo,
E alm d'elle no v sublime e grande:
O, que engolfado nos prazeres do mundo,
Esqueceu o seu Deus e seus destinos
Nem sonha mais ventura alm da campa:
O que pungido por cruel espinho
De uma duvida atroz, sente a cada hora
Cahir-lhe a uma e uma cada crena
De sobre alma, deixando-a erma e nua,
Como as humidas prgas de um sudario,
Aos poucos desdobrado, deixam vr-se
Os descarnados membros do cadaver.


VI


Mas quem se assenta s horas do mysterio,
Entre as flres do prado, ou sobre a encosta
Da collina virente e olhando a lua
Que banha em luz a esphera crystallina,
Inveja quem habita n'esses mundos...
E fita o olhar por esse espao, e cuida
Sondar-lhe o infinito; quem anhela
Desvendar-lhe os mysterios e buscando
A regio que se sonha e no se avista
Dal-a por patria  sua alma... oh! esse
A viagem no teme, antes anceia,
Quebrada a frma d'este sr, alar-se
Em busca de outra mais perfeita, e sempre
De degro em degro, de esphera em esphera,
--Metempsycose eterna!--sublimar-se
Na progresso d'este ascender constante
Da parte ao todo, do mortal principio
Em busca de um futuro inattingivel,
Porm melhor cada hora, e a cada passo.

E quem pode temel-a, essa viagem,
Quando fitando o olhar no alto, avista
Banhado em luz o espao immenso e puro,
Patente e franca a estrada do Universo,
E como que visivel o infinito?
Quando tudo no co e pela terra
Parece, como irmo, dar-nos confiana
Em ns e em si para seguir avante?
Quando se sente palpitar no seio
No s j a mesquinha vida propria
Mas todo o grande sr do que  creado?
Quando nas aras do Universo, o espirito
Communga, como irmo, na mesma crena,
Com tudo quanto vive, e a mais aspira,
Ah! quem pode temer, noite de encanto,
Noite pura e sagrada ao Deus de affecto,
Protegido por tua luz amiga,
A aspirao dos immortaes destinos.
Um pouco mais ao peregrinar constante,
A entrevista do infinito e do homem?


VII


Por ti, noite de amor, por ti nos desce
Tanta ventura ao seio; e como o orvalho
Que o p da terra ressequido e rido,
Que o vento impelle, fixa sobre o slo
E como que consola e allivia,
Assim como teu effluvio o triste espirito
Que incerto das paixes refoge  duvida,
N'uma crena fixaste--a crena eterna
Do amor universal, todo harmonias,
Porque s affectos toda! Em cada balsa
Descanta um rouxinol; a cada rosa
Uma brisa osculou; em cada fonte
Brilha um raio da lua; em cada peito
Murmura um ecco que de amor s falla!

Mosteiro da Batalha, 1861.




XIV

NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE




NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE

(C. C. P. P.)


Este  o livro das vinganas nobres,
O inferno dos que tm o co na terra:
Nem vingana; justia.
            --Oh vs que as lagrimas
Trazeis sempre nos olhos, sem que sequem,
Lazaros no banquete da existencia,
Oh filhos do dever! lde este livro,
Porque atravez de um mundo de miserias,
Do largo perigrinar chegando ao termo,
Heisde ouvir, l das bandas do futuro,
A grande voz do Christo, a voz eterna,
Erguer-se sobre os filhos da verdade:

--Felizes dos que soffrem--tero premio:
Feliz do pobre e triste, orpho de affectos,
Ser rico: no co seu pae o espera!

Coimbra, Dezembro, 1861.




XV

DANTE--DIVINA COMEDIA




DANTE--DIVINA COMEDIA

(PURGATORIO, CANTO VI)


Oh Italia aviltada! Oh no sem rumo
      No meio da tormenta!
E era esta a rainha das provincias?
      Hoje... cloaca informe!
Outr'ora mal bradasse:--Patria, Patria!
      Um cidado, um filho,
Alma nobre--acolhias-l'o no seio
      No seio que lhe abrias!
Agora espreita cada um o peito
      Do visinho e olha o gladio:
E os que estreita no cinto o mesmo muro
      E o mesmo fsso... comem-se!
Alonga, alonga, oh triste, pelas praias
      Teus olhos macerados;
Desce-os, desce, infeliz, ao proprio seio...
      A paz! onde a encontraste?

Julho, 1862.




XVI

MOMENTOS DE TEDIO

SONETOS




MOMENTOS DE TEDIO




I

     Sinite parvulos ad me venire


Ventura! aurora d'outro eterno dia--
Amor--Verdade--Bem--Quanto desprende
Seu vo c da terra e quanto estende
Azas no co, s busca esta harmonia,

E as alturas fechadas! tudo esfria
E morre, l por cima, e no se entende...
Certo  que o fructo s p'ra terra pende,
Parece que p'ra terra a luz se cria!

Ha tanto quem sem lucta espere havel-a!
Sem se erguer, qudo o mundo, cuide vl-a...
Talvez, se assim quedasse, a possuisse!

Chama-se isto voar! Toda essa altura
Dava-a bem por uma hora de ventura...
Antes minha alma no voasse... e visse!

Coimbra, Novembro, 1862.




II

A UM CRUCIFIXO

(_Primeira elaborao do Soneto de p. 20 dos_ Sonetos Completos)


     Dieu n'est pas! Dieu n'est plus


Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braos,
E clamaste da cruz: Ha Deus! e olhaste, oh crente,
O horizonte futuro, e viste em tua mente
O alvor _do co_ banhar _de luz_ esses espaos!

Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos?
E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente?
Morreste!  dorme em paz: no volvas, que descrente
Arrojras de novo  campa os membros lassos!...

_Ha mil annos! ha mil! Que  d'ella a tua esp'rana?
Ainda, como ento, Amor--traduz--Vingana,
E  o int'resse glacial das almas o sudario_!

_Ainda_, como ento, vras o mundo exangue?
E ouvras perguntar: De que serviu o sangue
Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!

Coimbra, Novembro, 1862.

       *       *       *       *       *


VARIANTE DO 2.^o TERCETO


Agora, como ento, na mesma terra erma,
A mesma humanidade  sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo co, frio como um sudario.




III

DECOMPOSIO


Eu no sou dos que a patria s adoram
Como adora o regato a propria serra:
Deus n'uma gleba apenas no se encerra;
Se visita esses mundos, que demoram

De co a co, tambem cafres o imploram.
Mas deixae que uma lagrima sincera
Possam os olhos dar, olhando-a,  terra
De onde a primeira vez aos cos se foram.

Sim, vr-te, Portugal! eu chro ao ver-te!...
Como ao Leo gigante do Occidente
Lhe ce a garra, e em nada se converte!...

No  isto o que eu chro: o que me de,
 como aquella juba omnipotente,
Em pennas de pavo se decompe!...

Coimbra, Janeiro, 1863.




IV

NIHIL


Homem! Homem! mendigo do Infinito!
Abres a bocca e estendes os teus braos
A vr se os astros cem dos espaos
A encher o vacuo immenso do finito!

Porque sbes  rocha de granito?
Porque  que ds no r tantos abraos?
E cuidas amarrar com ferreos laos
Um reflexo da sombra de um esp'rito?

V que o co, por escarneo, a luz nos lana!
Que,  tua voz, a voz da immensido
Responde com immensa gargalhada!

A ida fechou a porta  esp'rana,
Quando lhe foi pedir gazalho e po...
Deixou-a cara a cara com o Nada!!...

Maio, 1863.




V

QUINZE ANNOS

(_Primeira elaborao do Soneto de p. 30 dos_ Sonetos Completos)


Eu amo a vasta sombra das montanhas
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braos de rocha negra, ingentes,
Bem como braos colossaes de aranhas.

D'ali o nosso olhar v to extranhas
Coisas, por esse co! e to ardentes
Vises _amostra_ o mar de ondas trementes
E as estrellas, d'ali, v-as tamanhas.

Amo a grandeza _tenebrosa e_ vasta:
A grande ida como _um grande fruito_
De _um_'arvore colossal que _isto_ domina;

Mas tu, criana, s tu boa... e basta,
Sabe amar e sorrir... _mulher,  muito_...
Mas a ti s te quero pequenina...

Coimbra, 18 de abril de 1863.




VI

SARCASMOS


Est deserta a estrada do Infinito,
 apenas o co do nada espelho,
A eternidade  fossil: Deus  velho,
E o homem olha o co de fito em fito!

A cruz de Christo est feita um palito,
Embrulham-se caminhos no Evangelho;
Cada qual d a Deus o seu conselho:
Nem j  Verbo o verbo...  s um _Dito_!

Nada d'isto me d a mim cansado;
Mas morrer Satanaz tambem de frio...
Mas no haver j mal que se combata...

No poder j ao demo um condemnado
Render a alma immortal... por desfastio...
 isto o que me de, o que me mata!...

Maio, 1863.




XVII

AMOR DE FILHA




AMOR DE FILHA

(NO ALBUM DE UMA SENHORA)


    ...........o sangue  vida,
    e as Mes a fonte d'ella...

    Joo de Deus


Ainda a trabalhar, dedos formosos!
Nem tanto affinco: Deus tambem no quer
Que se cumpra o preceito tanto  letra;
Preceito  trabalhar, no que se estraguem
Esses formosos dedos de mulher.

J o sol se escondeu atraz da serra,
E o bordado no cssas de bordar;
Quando abri de manh esta janella,
J l estavas no posto, de olhos roxos,
Como se foram roxos de chorar!

Forte trabalho! no me enganas, bella!
Bem sei eu quem te d tamanho ardor...
Pois nem um olhar a quem passou na rua,
Dizendo:-- bella! e olhando-te? nem isso?...
Ai tanto trabalhar! s por amor...

Que importa o que passou? no peito um nome
Te domina, e na mente uma imagem s...
Feliz cabea, que hade ornar em breve
O bordado gentil em que trabalhas
Com esse affinco, que causou meu d.

Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peito
Largo e rico thesouro de affeio;
Pois magoar estes olhos, e estes dedos
Formosos estragar--homem ditoso--
S faz o amor que vem do corao!...

Tu, que talvez repouzes no ocio brando,
(Se no corres talvez de flr em flr)
V tu que sacrificios immerecidos!...
Mas um menino cego  quem nos vence,
Que a isto e a mais obriga o louco amor!
........................................

Mas, no! Quem l no fundo, meio occulto
Entrevejo na sombra, como quem
Teme do dia a luz--luz orgulhosa,
Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige--
Quem triste e s, se occulta mais alm?

Quem, se o dia findou, recebe o beijo
E outro recebe logo que  manh?
Quem--emquanto a alampada nocturna
Alumia a vigilia--sente em sonhos
Uma lagrima de amor molhar-lhe as cans?

Perdo, mulher! e mais que mulher, filha,
Perdo! louco julguei e impio tambem,
Que tinhas outro amor: como se possa
Ter uma filha amor ou pensamento
Que todo no pertena a sua me!

Feliz, quem--pobre--tem um tal arrimo;
Quem--cega--pode vr uma tal luz:
Quem--cega e pobre e triste e desprezada--
Tem uma mo de filha que piedosa
T aos degros do tumulo a conduz!...
........................................

 nobre o teu trabalho, mulher bella--
Bella d'aquella luz que vem dos cos,
A quem nas ras da fiel piedade
Sacrifica illuses da mocidade
E segue o seu caminho crente em Deus!

Nem mais um riso, amigos! Respeitemos
O que ella faz ali com tanto ardor;
No so enfeites vos, do prazer socios,
 o po de uma me que ali granga,
Trabalha por amor... mas outro amor.

Trabalha e enchuga o pranto  velha enferma:
Trabalha noite e dia;  Deus que o quer:
Que importa  filha, quando a me lhe soffre,
Que o sol nasa ou decline, ou que se estraguem
Os seus formosos dedos de mulher?

Coimbra, 1862.




XVIII

GARGALHADAS




GARGALHADAS

(NO ALBUM DO SEU CONDISCIPULO DR. JOS BERNARDINO)


     _Risum teneatis_!


Bem  fallar de tristezas
Por estes tempos de risos,
Em que passa a Gargalhada
Na face dos paraisos,

E, como o vento do plo
Forte--mas triste, mas frio--
Que leva as folhas co'as flores,
Como as enchentes do rio.

 o nivel da egualdade
Desde a rocha at  flor,
Desde o amor da virtude
'T  virtude do amor.

Como os remoinhos de p
Que a gente v, a tremer,
Sob-la tarde, nas estradas,
Como demonios correr;

Como a espuma batida
Que a rocha escarra no mar
E a onda depois atira,
Com escarneo, por esse r;

Como os grus em debandada
Ao partir-se-lhe a cadeia:
E o torvelinho que atira
No deserto os gros de areia;

Como tudo, emfim, que geme
No abrao dos turbilhes
E, de olhos postos no inferno,
Lana ao co as maldies:

Folhas mortas e flores vivas,
P da terra e diamantes,
Aguas correntes e charcos,
Os de perto e os mais distantes;

Vozes profundas da terra,
Vozes do peito gementes,
De envolto as feras bravias
Com as aves innocentes;

Como as palhas assopradas
Depois das malhas, na eira,
Ou gottas de agua rolando
De alta no na larga esteira--

Tudo partido, enlaado,
Em desesp'rados abraos,
Ruindo pelas quebradas,
Rolando pelos espaos,

Nos _paraisos perdidos_
E--agora--feitos desertos,
Como legio de demonios
Rugindo infernaes concertos;

Tudo vae, se rasga e parte,
Como em cidade assaltada,
Sob esses tufes gelados
Da tormenta--Gargalhada!

Das tormentas! Que sem conto
So esses ventos de morte;
E d'um ao outro horizonte;
E d'um modo e d'outra sorte.

Os sues do co humano
E os simns do seu deserto;
O que a gente v ao longe,
O que a gente sente ao perto;

A gargalhada do sabio,
Que se chama... indagao;
A gargalhada do sceptico,
Que tem nome... negao:

A gargalhada do santo,
Que tem nome--f e crena;
A gargalhada do impio,
Que se chama... indifferena:

A gargalhada da historia
Que se chama... Revoluo:
E a gargalhada de Deus,
Que tem nome... Escurido;

Eil-as 'hi vm, as tormentas,
De todos os horizontes,
Subindo de todos vales,
Descendo de todos montes.

Eil-as 'hi vm: j espectros,
J como lavas ruindo:
J nuvem, j mar, j fogo,
Mas sempre, sempre cahindo,

Desde a Frana... e so revoltas;
Da Allemanha... e so idas;
Desde a America... e so fardos;
E da Russia... e so cadeias;

De Inglaterra... e so carves
De fumo enchendo os prtos;
Do Oriente... e so os sonhos;
E da Italia... Christos mortos;

Da Hespanha... e so traies,
 noite, por traz dos brejos,
--Mo na faca e mo nas costas--
E _d c_... e so bocejos.

 d'estes lados que sopram...
E so os ventos assim...
Levando os cedros do monte
Como os lyrios do jardim...

       *       *       *       *       *

E, comtudo, no meio da _alegria_
Terrivel, que enche o espao como o ecco
Das grandes trovoadas--e debaixo
De tantos ventos e de tantos climas,
A Alma--a flor do Paraiso antigo--
Lyrio bello do valle--peito humano,
A Sulamite da Sio celeste--
A Psyche triste e palida, que vaga
Nas praias do infinito--a Alma, oh homens,
Em meio do folgar que vae no mundo,
Cada vez chora mais e mais solua,
E mais saudosa--a eterna expatriada!--
........................................
........................................

 que o rir do leo sempre  rugido--
E isto, que sae da bocca tenebrosa
Do mundo--e o mundo escuro diz Progresso,
E Fora, e Vida, e Lei--isto  soluo
Que sae do peito condemnado,--e quando
Vae a sahir, para illudir o misero,
Diz  bocca: Olha tu como ns rimos...
Mas no  mais que o arranco da agonia!
Nem pode ser.--Aquelle riso enorme
Quando sae  co'o ruido das tormentas
E, como as grandes aguas, vae rolando,
E esmaga... e no consola!
             como a orgia
Que cuidando folgar... se est matando!
E como esses que dizem dos rochedos
Que _brincam_ com as ondas... quando as partem!

No  o riso bello da Harmonia,
 apenas gargalhada de Possessos!
Ha dentro d'este mundo algum demonio,
Que o obriga a torcer assim a bocca
L quando mais se agita e mais lhe de!
Seno, olhae e vde essa alegria
--Quer seja Ida ou Fora ou Arte, ou seja
A Industria ou o Prazer--de qualquer lado
Que rebente dos labios--vde como
Faz frio a quem a v! como entristece
Vr o gigante louco dar-se beijos
Como em mulher formosa... e ao longe, ao longe
Todo o campo alastrado de flr's mortas!
........................................
........................................

      Mas basta! A luz doirada
      Um dia hade surgir!
      E a venda, d'esses olhos,
      Por fim tambem cahir!

      E a Gargalhada immensa
      Fechar a horrivel bocca!
      E ser canto suave
      Essa atroada rouca!
      Ento!..................
      ........................
      ........................
      ........................

            Alma, que sonhas?
      Que louco desvairar!...
      _Ento!!_... Mas--Hoje--esta hora...
       toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.




XIX

 ITALIA




 ITALIA

POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO

_na noite de 22 de outubro de 1862_


Italia e Portugal! que duas patrias!
Ambas tam bellas, tam amadas ambas!
Uma, a patria do bero; outra a das almas:
Uma, a das artes; outra a dos combates!

Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,
As estreite, a final.--Ha quanto tempo
Eu quizera juntar-vos, pelas frontes,
Beijar-vos, bem unidas, soluando,
Como quem, tendo pae, me encontrasse.

Portugal! nobre filho de guerreiros!
Viste, primeiro, o sol da liberdade,
Mais feliz, no maior e nem mais digno
Que tua irm, a Italia.--Ella, entretanto,
Chorava, olhando o co, negro de nuvens!

Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros
A toga negra, j como sudario:
O seu corpo partido em dez retalhos:
O extrangeiro assentado nos seus lares...
E no se via sol no co da Italia!

Dizei-me vs, se pode o grande rio
Existir, sem que as fontes o basteam?
Se pode quem nasceu fadado s glorias,
Esquecido morrer? Se os fortes netos
De Mario e de Cato, ir assentar-se
Sosinhos sobre o tumulo dos fortes
--Olhos no cho e pulsos algemados?
Se  possivel que exista um povo--um povo!--
Sem ser livre, e sem sol o co da Italia?!

      O co da Italia!... esse co
      Tem, por sol, a liberdade!
      Riqueza... de claridade...
      Mas se foi Deus quem lh'a deu?!

      O que Deus d  sagrado!...
      'Stava o povo escravisado
      E par'cia, de esquecido,
      Prostrar-se tam compungido
      Ante os ps de seu Senhor?!

      Pois bem! a esse povo escravo
      Bastou-lhe o brado d'um bravo
      Para se erguer,--eil-o em p!
      E aos tyrannos, aos senhores,
      Aos fortes, cheios de f,
      Bastou-lhes ouvir os clamores
      D'essa turba esfomeada

      Para deixarem a espada...
      Raia a nova claridade,
      A aurora da liberdade,
      D'um proscripto no palor!

      O povo toma as espadas,
      Meias gastas e olvidadas,

      Sobre as campas dos avs:
      E, ainda vestido de d,
      Com esforo sobrehumano,
      Ergue os hombros... e o tyranno
      Treme... nuta... eil-o no p!...

      Quem derruba, sobranceiro,
      Altos colossos por terra?
      Quem  que faz d'uma guerra
      A festa do mundo inteiro?

      Um homem?
            No!
                  A Justia!...
      Deus!--o unico juiz
      Dos povos na grande lia!

      S Deus!--
            Elle d ao triste
      Allivios... no odios vs!
      A essa Italia que hoje existe
      Segredou-lhe, em quanto oppressa,
      Como sagrada promessa,
      Em vez de iras da vingana,
      Estas palavras d'esperana:

      Tudo tem allivio  magoa:
      A flr murcha, a gotta d'agua;
      Cruz, o moribundo exangue;
      Um filho, a fera mais seva;
      Amor, o martyr; a treva,
      Um raio de claridade...
      E o povo, que  vida e sangue,
      No hade ter liberdade?!




XX

A GENNARO PERRELLI



A GENNARO PERRELLI

AO ARTISTA E AO PATRIOTA ITALIANO


A arte  como a luz: brilha do alto,
Mas quer livre brilhar: do Deus do bello
Ella  religio: seu templo immenso
Quer sacerdotes mas rejeita o bonzo.
E o artista  como astro gravitando
Em co e espao livre: acaso o servo
Pode entoar um canto de ventura?

      S a mo, que no aperta
      Grilho de escravo, disperta
      Na arte tal magestade,
      Tal sentir e tal verdade--
      Vde essa fronte inspirada
      Do artista, allumiada
      Ao claro da liberdade!




XXI

GUITARRILHA DE SATAN




     Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o
     pseudonymo de _Carlos Fradique Mendes_.




GUITARRILHA DE SATAN


Estranha appario
Que em minhas noites vejo,
 filha do desejo!
 filha da soido!

No sei qual  o teu nome,
E d'onde vens ignoro:
Sei s que tremo e choro
Como de frio e fome!

Que por fundir comtigo
Suspiros, ais, rugidos,
Dra ideaes queridos,
Deuses e f que sigo.

Sim! dera as prophecias
E os cultos salvadores,
E os Golgothas e as dres
E as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,
Corre a meus braos breve,
Sejas de fogo ou neve,
Sejas cristal ou lama!

Se s Beatriz, sou Dante;
Sou santo, se s divina;
Se s Las ou Messalina,
Sou Nero,  minha amante!

1869.




XXII

SERENATA




     D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta
     por este communicada a J. de Araujo: A... _Serenata_ nunca foi
     impressa que eu saiba, embora no seja de modo algum indita, pois
     tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de
     um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante,  l
     muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios
     musicaes em bellas noites de vero.

     Storck traduziu esta poesia. cerca da traduco escrevia-lhe D.
     Carolina Michalis, em maio de 1891: A. de Q. recebeu a sua
     traduco da _Serenata_, a qual lhe agrada extraordinariamente.
     Antepe-na ao original d'elle, e diz que lhe sa como uma cano
     allem.




SERENATA


Cahiu do co uma estrella,
Ai, que eu bem a vi tombar!
Era a noite pura e bella,
Murmurava ao longe o mar...

Era tudo extase e calma,
Perfume, encanto, fulgor...
S no fundo da minha alma
Que desconforto e que dr!

Dorme e sonha, minha bella,
Emballada ao som do mar...
Cahiu do co uma estrella,
Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,
Uma entre tantas, no mais!
Era uma illuso perdida,
Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,
Louco, incerto corao,
S por um astro apagado,
Por uma morta illuso?

Dorme e sonha, minha bella...
Como chora ao longe o mar!
Cahiu do co uma estrella,
Ai de mim que a vi tombar!

1873.




XXIII

O POSSESSO




O POSSESSO

(_Commentario s_ Litanies de Satan)




I


No creio em ti, Deus-Padre omnipotente,
Creador d'esse espao constellado,
Que do Cahos e o Nada conglobado
Arrancaste o Universo refervente;

No creio em ti, Deus-Filho, em cuja mente
Foi o Bem inefavel feito e nado;
E no creio no Espirito gerado
Do eterno Amor, como uma chamma ardente;

Saibam-n'o a terra e os cos: do Crdo antigo,
Cheio de Graa e F, refugio e abrigo,
Beno da noite e prece da manh,

S creio no Peccado ineluctavel,
Na Maldio primeira inexpiavel,
E no eterno reinado de Satan!




II


Quando o Tedio, com plumbeo capacete,
Esmaga a fronte ao homem desolado,
E o Fausto pensador v a seu lado
A Negao sentada ao seu bufete,

Seu labio  vil tres vezes, se repete
Preces vs e esconjuros, humilhado:
O nome de Homem, tragico e sagrado,
S a quem desafia a Deus compete!

 grata a maldio  alma robusta
Do que nenhum pavor divino assusta,
E no Vasio ergueu seu templo e altar...

Mais fecundo que o Co, creou o Inferno
A blasfemia.--Honra, pois, e preito eterno
A Satan, que nos deu o blasfemar!

1873.




XXIV

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL




EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL


Quem vos fez, co profundo e luminoso,
Terra fecunda, poderoso oceano,
E a ti deu vida, corao humano,
Que s todo um co e um mar mysterioso,

Bem sabia que o co, o mar, a terra,
Tinham de ser s carcere e gehena;
Que havia a vida ser s lucto e pena,
E campo, o corao, de eterna guerra.

Por isso o estranho artifice sombrio,
Que, concebendo o plano da obra ingente,
Ironico talvez, talvez demente,
Logo se arrependeu e o confundiu;

No deu seu nome, como o archonte epnymo,
 obra de sua mente e sua mo:
O Creador furtou-se  Creao...
E sendo um mo auctor ficou--anonymo.

1879.




XXV

NA SEPULTURA DE ZARA




     Estes bellos versos no eram destinados  imprensa, e appareceram
     publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou
     da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a
     imprimil-os, como se v da seguinte carta que appareceu entre os
     papeis de Eduardo Coimbra e que a me do mallogrado moo, a sr.^a
     D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais
     querido amigo de seu filho:


_Villa do Conde, sabbado.

                                  Meu joven poeta


     So reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que
     allude.  claro que sem licena d'elle no devem imprimir-se.
     Deixe-os no tumulo da desditosa criana, que l fallam melhor aos
     que a estremeceram. Se porm combinarem trasladal-os para qualquer
     publicao, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do
     desolado irmo. Para elle foram feitos, a elle sero dedicados.

     E nada mais por hoje, meu amado poeta


                                          Seu do C._

                                                 Anthero de Q.




ZARA

A JOAQUIM DE ARAUJO


Feliz de quem passou por entre a magoa
E as paixes da existencia tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve, como a sombra sobre a agua.

Era-te a vida um sonho. Indefinido
E tenue, mas suave e transparente...
Acordaste, sorriste... e vagamente
Continuates o sonho interrompido.

1881.




TRADUCO ALLEM

DE WILHELM STORCK


Glckselig wer vorberging am Weh
Des Lebens und der Leidenschaft Getose
Unwissend, wie vorbergeht die Rose,
Und flchtig, wie der Schatten ob der See.

Dein Leben war ein Traum, begriffen kaum
Und leicht und Lieblichkeit D'u trankest;
Du wachtest auf und lacheltest und sankest
Zruck in Deinen unterbroch'nen Traum.

Mnster, abril, 91.




XXVI

GLOSA CAMONIANA




     Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro,
     84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o
     moo poeta, quasi agonisante, lhe pedia um improviso para a
     carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira
     offereceu-a a me do poeta em recordao dolorosa, ao fiel amigo,
     que rubricra n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias
     depois lhe entregava a chave do caixo do pobre Eduardo.




GLOSA CAMONIANA

(NA CARTEIRA DE EDUARDO COIMBRA)


Ps em chagas, seguimos pela via
Dolorosa, em demanda da Verdade;
Mas achal-a entre os homens ninguem hade...
_Triste o que espera_! _triste o que confia_!

1884.




XXVII

AS FADAS




     Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a colleco--_Thesouro
     poetico da infancia_, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos
     no dia immediato a Joo de Deus, que delles se mostrou
     satisfeito, como Anthero escrevia a um amigo. Para mim, poeta de
     genero apocalyptico, foi um verdadeiro _tour de force_.




AS FADAS


As fadas... eu creio n'ellas!
Umas so moas e bellas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras,  beira do mar...

Algumas em fonte fria
Escondem-se, emquanto  dia,
Sem s ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
 que se vo esconder...

O vestir... so taes riquezas,
Que rainhas, nem princezas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
So sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu...

Quando a noite  clara e amena
E a lua vae mais serena,
Qualquer as pde espreitar,
Fazendo roda, occupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar  os seus amores!
Sentadinhas entre as flres
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areaes,
Vive junto ao mar, ssinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptisados reaes.

Morgana  muito enganosa;
s vezes, moa e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir...
Ora festiva, ora grave,
E va como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titania, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja gloria
Enche as paginas da historia
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos res;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mo
Aquella vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condo.

O que ellas querem, n'um pronto,
Fez-se alli! parece um conto...
Mesmo de fadas... eu sei!
So condes que do  gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinha
Se quiz ser sua madrinha,
Uma fada... ai, que feliz!
So palacios, n'um momento...
Belleza, que  um portento...
Riqueza, que nem se diz...

Ou ento, prendas, talento,
Sciencia, discernimento,
Graas, chiste, discrio...
V-se o pobre innocentinho
Feito um sabio, um adivinho,
Que aos mais sabios vae  mo!

Mas, com tudo isto, as fadas
So muito desconfiadas;
Quem as v no hade rir.
Querem ellas que as respeitem,
E no gostam que as espreitem,
Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende... Cautela!
A mais risonha, a mais bella,
Torna-se logo to m,
To cruel, to vingativa!
 inimiga aggressiva,
 serpente que alli est!

E tm vinganas terriveis!
Semeiam cousas horriveis,
Que nascem logo no cho...
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com azas, que falam!
Um ano preto! um drago!

Ou deitam sortes na gente...
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer...
-se morcego ou veado...
E anda-se assim encantado,
Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas
Fr, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o co,
Deve com geito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
At ao cho o chapo.

Porque a fortuna da gente
Est s vezes smente
N'uma palavra que diz;
Por uma palavra, engraa
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, j deitado,
Mas sem somno, inda acordado,
Me ponho a considerar
Que condo eu pediria,
Se uma fada, um bello dia,
Me quizesse a mim fadar...

O que seria? um thesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palacio encantado,
Com seu lago prateado
E com paves no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,
Pedir tambem que me dsse
Um condo, para falar
A lingua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos...
Ou ento, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraando
Commigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a vr...

E que manh acordasse
E me achasse... eu sei? me achasse
Feito um principe, um emir!...
At j, imaginando,
Se esto meus olhos fechando...
Deixa-me j, j dormir!




XXVIII

O SOL DO BELLO




O SOL DO BELLO

RECITADA NA NOITE DE 13 DE MAIO DE 1862, NO THEATRO ACADEMICO, POR A.
FIALHO MACHADO


O sol do bello a todos alumia!
Sua aurola cinge cada fronte
Bem como o rei do dia, mal desponte,
D luz egual a todo o sr creado!
Este baptismo santo envolve e lava
Todos na mesma onda inspiradora!
Queima com a mesma chamma abrasadora!
Orvalha em egual pranto derramado!
Juntas as almas, que o sentir enlaa,
Commungam, como irms, na mesma taa!

V-os, agora, artista.--Elles estendem-te
Os seus braos e o affecto  que os impele!
Esse brao, que vezes mil repele
O lao, que em vo, tenta escravisal-o...
A corrupo hypocrita de tantos...
Que sabe resistir a quem o opprime...
 esse que, n'um impeto sublime,
Se ergue a ti, se ergue ao irmo para estreital-o.
 que a alma, que no verga  tyrannia,
Curva-se, livre, ao bello que a alumia!

Sim! aquelles que do alto de um _vo throno_
--Mal firme throno que estremece ao vento--
Pedem, como tributo de um momento,
Respeito, amor, affecto  mocidade,
(Mas pedem como quem ordena a escravos)
No so esses aqui os respeitados!
No so esses que so aqui amados!
No escuta voz de imperio a liberdade!
Mas quem de amor nos labios traz doura
Esse  que leva a flor de uma alma pura!

Pura e nobre! Embora, despeitados,
Lhe chamem louco e frio a esse peito...
No se acreditam vozes de despeito.
Frio! quem diz que  frio o peito moo?
Que o sentimento  extincto n'estas almas?
Dil-o a _velhice_ que no tem no seio
Nem uma voz de amor, nem um anceio,
A dar ao bello, que arrebata o nosso:--
Dil-o quem a deseja corrompida...
Porm na mocidade habita a vida!

A vida! sim! Bem como em cofre de ouro
Se guarda o que ha melhor, o que ha mais puro,
Deu-lhe o Senhor a guarda do futuro,
Confiou-lhe em deposito essas gemas
--O amor, a f, o bello, a liberdade!
O amor! o que nos d sentir profundo!
A f! a que nos mostra melhor mundo!
A liberdade! a que espedaa algemas!
O bello! a nossa flammula brilhante!
E sobre tudo, a voz que brada--avante!




XXIX

IBERIA




     (_Do_ Seculo XIX, _de Penafiel, n.^o 20, 1864_).




IBERIA


I


Flor dos povos! oh tu que inda te embalas,
E inda em boto, aos ventos do futuro!
Que tens por vazos e jardins e salas
Toda a vasta extenso do tempo escuro!
E frontes gloriosas a adornal-as,
A fronte da historia, o grande auguro!
Lirio que saes do seio  humanidade
Como filha melhor--Fraternidade!

Deixa que escreva aqui teu nome todo,
E j d'aqui aspire teu perfume!
E, arredando co'as mos o frio lodo
Do presente, me aquea a esse teu lume!
Deixa beijar-te em sonho, e d'este modo
Trazer-te unida ao seio, que consumme
Esta ancia ardente de destino novo,
E este fogo roubado ao seio do povo!

Porque te vemos s quando sonhamos...
E, irm! s nos sorris em nosso somno...
E, a dormir, doce amiga, te beijamos!
Tu--s em nossas almas--tens teu throno
Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos,
E, como um co fiel segue o seu dono,
Trazemos ante o olhar tua lembrana,
E caminhamos cheios de confiana!

Fraternidade! esta palavra  suave,
Como antegosto de melhor destino!
Como a onda de um Ganges que nos lave!
E como a psse de um penhor divino!
Como o vo sereno de uma ave
Que, sendo apenas ponto pequenino,
Emtanto faz, transpondo ao longe um monte,
Sonhar com melhor co e outro horisonte!

O grande co! o co da humanidade!
Onde os povos sero constellaes,
E, destillando a luz da liberdade,
Sero astros e estrellas as naes!
Onde hade o grande lao da egualdade
Reunir a vontade e os coraes!
Cobrindo-os, a dormir, os mesmos cos,
Tero todos tambem o mesmo Deus.

No vejo outro Evangelho de ouro escripto
Dentro no homem,--nem sei que outro areal,
Outro cabo, outro monte de granito,
Do grande navegar surja a final!
Guiados pelo instincto do infinito
 para l que os povos--no real!--
Ho a pra virar l quando um dia
Marearem pela bussula harmonia!


II


Hode ento, como irmos, reconhecer-se
Os amigos--ha tanto tempo ausentes!
Ho ento (caso novo e estranho!) ver-se
Face a face as naes, sem que dementes
As entranhas se rasguem! e hade lr-se
Um protocolo, em letras de ouro, ingentes,
Escripto, sem emenda e sem errata,
Por mos do amor--o grande diplomata!


III


Elle  quem concilia as differenas,
Quem nos concilios hade erguer a voz,
Tirando nova ideia e novas crenas
Das esfriadas cinzas dos avs!
E, sem trabalhos, e sem dres immensas,
E sem rios de sangue e pranto aps,
Rasgando o ventre  velha liberdade
Sair  luz a joven Egualdade!

 doce vr assim,  luz da esperana,
Pelo futuro dentro, as cousas bellas...
Prevr do co humano essa mudana,
Que em ses converte as minimas estrellas!
Do passado infeliz eis a vingana!
E dos _mortos_ as faces amarellas,
Crando de ventura e de alegria,
Hode surgir, emfim,  luz do dia!


IV


E ns tambem, tambem commungaremos
Na grande communho das novas gentes:
Tambem os nossos braos ergueremos
--Braos livres de jovens impacientes--
E o cinto d'este _Velho_ quebraremos,
De aonde a espada e o sceptro esto pendentes,
(J to gastos!) lanando-os  ribeira...
Para o coroar de palmas e oliveira!

Hespanha--irm! que boda alegre a nossa!
Como hode ento teus seios palpitar!
Que ribeira de lagrimas to grossa
Teu branco vo de noiva hade estancar!
Como hade parecer pequena poa
Para os _banhos_, ento, o grande mar!
E entornar-nos volupia nos desejos
O mixto de odio antigo e novos beijos!

........................................

Mas tu 'sts presa!... e ns... 'stamos dementes!
Separa-nos o abysmo! os teus algozes...
A _cruz de Ignacio_... e as garras inclementes
Dos _lees_ orgulhosos e ferozes...
E a estupidez do _povo dos valentes_,
D'estes pardaes de atroadoras vozes...
Entre ns nos cavaram oceanos...
Sejam-lhe ponte os corpos dos tyrannos!

Porque beijas teus ferros, pobre louca,
E cuidas 'star beijando cousa santa?
E, tendo em tuas mos cousa to pouca,
To tenue como a capa de uma santa,
Pensas avassalar a terra amouca,
E te ergues com vaidade e _gloria_ tanta?
Oh! tu, cuidando os orbes abraar,
S ruinas abraas--Throno e Altar!

Lembre-te a voz do Cid! a atroadora
Voz que se ouvia ao longe nos combates!
Porque tu ests feita psalmeadora
No cro das egrejas--porque bates
No peito, em vez de erguer dominadora
A tua mo em meio de combates,
E livre e bella, oh Hespanha, olhar os cos
Procurando por l teu novo Deus!


V


Como nos amaremos, doce amiga!
Como ento amaremos! que noivado
O nosso no ser!... No tem a espiga
No campo cr melhor, nem mais doirado
Esplendor, do que tu, bella _inimiga_.
Hasde vr a ventura... quando o estrado
Do leito nupcial fr Liberdade,
E fr docel o co--Fraternidade.




XXX

VERSES E IMITAES




EXCERPTOS DE UMA TRADUCO DO FAUSTO




I

*DEDICATORIA*


Ainda uma outra vez, imagens fluctuantes,
Vos ergueis ante mim, como outr'ora radiantes
Ante mim, que vos fito em vago enleio incerto!
Voaes... mas eu hesito em vos retr agora...
Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora,
E teme as illuses, meu corao desperto!

Que area multido! que virginaes choreas!
Meu velho corao, pois que inda te incendeias
No  melhor ceder? sim, sim, rejuvenesce!
D'entre as nevoas surgi, vises do tempo antigo!
Sim, levae-me tambem no vosso bando amigo,
Levae-me aonde ha luz e cantos, e alvorece!

Reconheo entre vs as sombras fugidas
De outro tempo melhor, de mais alegres dias:
Meu corao evoca imagens adoradas...
Susurra em torno a mim voz de saudoso encanto:
 o primeiro amor, que passa como um canto
De antigas tradies vagamente escutadas...

E as lagrimas, tambem, correm silenciosas!
O lamento dorido, as magoas saudosas,
Renovam-se; desperta a dor que dormitava...
Sim, a dor, ante mim, mostra-me os dias idos,
E nomeia-me os bens, sob meus ps fundidos,
Quando em minha illuso julguei que os abraava!

Almas a quem cantei, no me ouvireis agora!
O circulo fiel dos amigos d'outr'ora
Desfez-se como a voz d'este canto primeiro!
Rodeia-me hoje a turba: o seu applauso  triste:
Quem folgou de escutar-me, em tempo, se inda existe
Disperso erra no mundo, ah! n'um mundo estrangeiro...

Como a saudade ento, uma longa saudade,
D'esse reino encantado, onde ha paz e verdade,
Me falla ao corao n'uma queixa sumida!
Meu canto sobe e desce, incerto e fluctuante,
Sobe e desce indeciso e com tom murmurante,
Bem como uma harpa elea aos ventos suspendida.

E tremo sem saber porqu, e lentamente
Sinto o pranto nascer, correndo docemente,
Ungindo o corao que embala e adormece...
O que tenho, o que sou, mal o vejo a distancia...
 a nuvem no mar,  um sonho de infancia...
S,  luz da saudade, o passado apparece!




II

*NA CATHEDRAL*


_Officios; orgo e canto._ MARGARIDA _no meio da multido. O_ ESPIRITO
RUIM _por detrs d'ella_.


O ESPIRITO RUIM

  Como foste, como eu te conheci,
  E como ests mudada, Margarida!
  Que pensamento  que te traz aqui?
      Ainda adormecida,
  Tua alma ha pouco, lembras-te? buscava,
  Esta sombra do altar--mas no chorava,
  No, no chorava as lagrimas que choras!
  Rezar era ento brinco de criana,
      Para ti, innocente...
      Lias nas tuas Horas
  As tuas oraes--e docemente
  Sorria a Deus tua infantil confiana...
        Margarida!
  Quantas ruinas em to curta vida!
  Que pensamento occulto te tortura?
      E, no teu corao,
  Que peccado te roe essa alma impura?
  No rezes: Deus no te ouve a orao!
  Rezas por tua me? por ti foi morta,
  Sim, morta lentamente, a infeliz!
  Olha o sangue espalhado  tua porta...
      De quem  elle, diz?
  E escuta! n'esse seio criminoso
      O que  que j se move?
  Sim, o que  que se agita, e te commove
  Com um presentimento doloroso?


MARGARIDA

Ai de mim! ai de mim! quem podesse livrar-me
D'esta turba cruel de negros pensamentos!
Vejo-os de toda a parte e a todos os momentos,
Erguer-se em volta a mim, correndo a torturar-me!


CRO E ORGO

      Dies irae, dies illa
      Solvet saeclum in favilla.


O ESPIRITO RUIM

  Cae sobre ti a colera do co!
  Sa a trombeta! as campas se quebrantam!
      A terra estremeceu,
      Os mortos se levantam.
  Tambem teu miseravel corao,
      Que dormia desfeito,
  J renasce das cinzas, j o chamam
  Para os fogos eternos que se inflammam...
      Teu pobre corao
  Estala-te tambem dentro do peito!


MARGARIDA

  Oh! quem me dera ao menos d'aqui fra!
  Esta musica faz-me uma afflico!
  Este orgo parece alguem que chora...
      Parte-me o corao!


CRO E ORGO

      Judex ergo cum sedebit,
      Quidquid latet apparebit,
      Nil inultum remanebit.


MARGARIDA

      Que oppresso! que quebranto!
      A abobada estremece!
      Estas pedras, parece
      Que querem desabar!
      Soffocam-me de espanto
      Estes tectos escuros!
      Affrontam-me estes muros!
        Mais ar! mais ar!


O ESPIRITO RUIM

Esconde-te infeliz! e onde ir occultar
Seu peccado e vergonha essa alma deshonrada?
      Mais ar? pedes mais ar?
      Ai de ti desgraada!


CRO E ORGO

    Quid sum miser, tunc dicturus,
    Quem patronum rogaturus
    Cum vix justus sit securus?


O ESPIRITO RUIM

  Os justos no co de horror e desgosto...
  De ti, de te vr, desviam o rosto...
  Estende o inferno as mos para aqui...
        Ai, de ti!


CRO E ORGO

    Quid sum miser, tunc dicturus.


MARGARIDA

    Visinha, d-me os seus saes.
                    (Cae desmaiada)




III

*A CANO DO REI DE THULE*


Era uma vez um bom rei
Em Thule--essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o calix divino
No lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leaes
No tinham outra alegria:
E s por elle bebia,
Nos seus banquetes reaes.

Chegada a hora da morte
Poz-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte
Seus reinos  beira-mar.

Deixava um rico thesouro,
Palacios, villas, cidades:
De nada tinha saudades,
A no ser do copo de ouro.

No castello da deveza,
N'aquellas salas sem fim,
Mandou armar uma meza
Para um ultimo festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fieis cavalleiros,
Para os brindes derradeiros
No castello  beira-mar.

Ento, vasando-o de um trago,
E com entranhada magoa,
Poz nas ondas o olhar vago
E atirou com a taa  agua.

Viu-a boiar suspendida,
'T que as ondas a levaram:
Os olhos se lhe toldaram,
E no bebeu mais em vida!

1870-71.




A DR

(DO POETA HUNGARO SANDOR PETFI)


O que  a Dr? Um mar. E a alegria?
Prola occulta n'esse mar fremente.
Quantas vezes a prola encantada,
Entre as rochas profundas sepultada,
Se dissolve esquecida, lentamente,
E nunca chega a vr a luz do dia?

1881.




A CASA DO CORAO

IMITADO DO ALLEMO

(_No Album da filha de Joo de Deus_)


O corao tem dois quartos:
Moram ali, sem se vr,
N'um a Dr, n'outro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dr...

Cuidado, Prazer! Cautella,
Canta e ri mais devagar...
No v a Dr acordar...




ESTANCIAS

IMITADAS DO ALLEMO


Rebentam flores mil das minhas lagrimas,
E s serpentes nascem dos meus cantos;
 que os meus cantos so envenenados,
E s puros, s doces os meus prantos.

       *       *       *       *       *

Se queres conhecer o homem e o mundo,
No desvies de ti o olhar profundo;
Mas foge de te ouvir e de te vr,
Se a ti mesmo te queres conhecer.

1887.




ROMANCE DE GOESTO ANSURES

(POSTO EM LINGUAGEM MODERNA)


No figueiral figueiredo,
L no figueiral entrei.
Seis donzellas encontrra,
Seis donzellas encontrei;
Para ellas caminhra,
Para ellas caminhei;
Chorando a todas achra,
A todas chorando achei;
Logo ali lhes perguntra,
Logo ali lhes perguntei,
Quem foi que ousou maltratal-as,
Tratal-as de to m lei?

No figueiral figueiredo,
L no figueiral entrei.
Uma d'ellas respondera:
--Cavalleiro, no o sei...
Mal haja, mal haja a terra
Que tem mo e fraco rei,
Que se eu as armas vestira,
Por minha f, que no sei
Se homem ousra levar-me,
Levar-me de to m lei...
Com Deus ide cavalleiro,
Ide com Deus, que no sei
Se onde me fallaes agora
Nunca mais vos fallarei.

No figueiral figueiredo,
L no figueiral entrei.
Eu ento lhe replicra:
--Por minha f, no irei;
Antes olhos d'essa cara
Bem caros os comprarei;
A longas terras distantes
S por seguir-vos me irei;
Por caminhos dasvairados
Atraz de vs andarei;
Linguas moiras de aravias
Por vs eu as fallarei;
Moiros se me apparecerem
A todos os matarei.

No figueiral figueiredo,
L no figueiral entrei.
N'isto o moiro que as guardra,
Perto d'ali encontrei:
Se elle bem me ameara,
Eu melhor o ameacei;
Um tronco secco esgalhra,
Um tronco secco esgalhei;
Com elle a todos matra,
A todos desbaratei;
As donzellas libertra,
Todas sim as libertei;
Aquella que me fallra
Com ella me casarei.
No figueiral figueiredo,
L no figueiral entrei.




XXXI

SONETOS DESPREZADOS




     Incorporamos aqui os Sonetos IV, X, XVI, XVII e XX, da colleco de
     Coimbra, de 1861, no incluidos no volume dos _Sonetos completos_.




A M. E.


Terra do exilio! Aqui tambem as flores
Tm perfume e matiz; tambem vicejam
Rosas no prado, e pelo prado adejam
Zfiros brandos suspirando amores:

Tambem c tem a terra seus primores;
Pelos vales as fontes rumorejam;
Tem as moitas seus spros, que bafejam,
E o co tem sua luz e seus ardores.

Em toda a natureza ha amor e cantos,
Em toda a natureza Deus se encerra...
E comtudo esta  a causa de meus prantos!

Eu sou bem como a flor que no descerra
Em clima alheio. Que importam teus encantos?
No s, terra do exilio, a minha terra.




AD AMICOS

PROPTER SOLATIUM


Renaso, amigos, vivo! Ha pouco ainda
Disse ao viver: _Afunda-te no nada_!
E j, bem vdes, surjo  luz dourada,
--No labio o rir, no peito esp'rana infinda!

Ah, flor da vida! flor viosa e linda!
Envolto na mortalha regelada
Do _s_ pensar--perdo!--foste olvidada...
Flor do sentir e crr e amar... bem vinda!

A vida! como a sinto, ardente, immensa!
No unica! tomando a immensidade!
Livre! perante Deus surgindo forte!

Que amor! que luz! que pira vasta, intensa!
Plenitude! harmonia! realidade!
Mas melhor que tudo isto  sempre a morte!




A Q. M. Q.


Fica-te em paz! no pode a mo do homem
Partir o seio  arvloa queixosa,
Quando o canto soltar, e a voz chorosa
Erguer l contra as magoas que a consommem.

Respeito o teu sacrario: embora tomem
Por orgulho o respeito; eu colho a rosa
Mas no a flor modesta e melindrosa,
Que se occulta entre as mais... e que as mais somem.

Mais que amor tenho crena: essa existencia
Pede-me um culto por quem dera a vida,
Por que dou esta dr, que aqui se encerra.

Mulher! mulher! de que valera a essencia,
A essencia pura, a uma alma que  descrida?
Fica-te em paz: fique eu com minha guerra!




IGNOTO DEO


Corre aos braos da me o filho amado;
--Por olvidar, volvendo a sua historia--
Corre  mente do inf'liz doce memoria;
Corre  luz de um olhar o olhar buscado;

Vem o alivio animar peito magoado;
Corre o forte a buscar na morte a gloria;
Desfeita do viver sombra illusoria,
Foge o espirito livre ao seu anciado.

Tudo busca quem o ama: a luz dourada
Busca do seu viver, como no escuro
Quem avista uma luz lhe vae ao encontro.

S tu, ventura! uma vez sonhada;
S tu, sombra de _amor_! que em vo procuro,
S tu, foges de mim, s no te encontro!




IGNOTO DEO


Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquelle
Que tanta vez peccou, porm, contrito
Tanta vez tem erguido a ti o grito
Da aguia que o tufo no alto compelle.

E a aguia soffre tambem, como ave imbele,
E mais que ella (que pe mais alto o fito)
Mas da aguia que luctou, o brado afflicto,
Senhor! o teu ouvido no repelle.

Eu no caio, meu Deus, sem ter luctado;
Fraco sou, por que sou de barro e limo,
Porm, na tua _Lei_ medito e scismo.

E eu sou teu filho! A um filho desgraado
Que hade um pae recusar? Oh, d-me arrimo,
Estende-me tua mo por sobre o abysmo.




XXXII

FIAT LUX!

(POEMETO)




FIAT LUX!

     Et terra erat inanis et vacua.


Tinham os astros j mil annos,--tinham
Talvez cem mil--ou tinham um minuto--
(Pois quem sabe contar horas ou seculos
No relogio--que tem o firmamento
Por quadrante,--e algarismos, ses e estrellas?)

'Stavam ha muito ali.
                  O velho Cahos,
O oleiro do infinito, que entre as duas
Mos--o tempo e o espao--os amassra,
Cansou por fim tambem de fazer mundos,
No tendo j mais barro, nem mais raios
Com que o barro pintar.

                  Ora, limpando
As mos, que estavam sujas do trabalho,
E esfregando uma palma contra a outra,
Soprou depois os restos, sem vr onde,
Por esse abysmo alm.

                  Oh p de mundos!
Migalha dos banquetes do Principio!
Triste parto das sombras, atirado
Sobre o bero de luz do firmamento!
Morcgo horrivel, meio tonto e cego,
Cahido no salo de lustres de astros!

O p soprado, informe bola escura,
Como filho engeitado, que se esconde
Pela sombra dos muros, foi rolando
Pelos cantos do espao, involto em trevas...
Que o no vissem os ses.

       *       *       *       *       *

                  E foi descendo,
Extranho, negro, horrivel, monstruoso.
E, quanto era maior a treva, ainda
Mais o medo crescia que o olhassem...
E mais o horror de si o endoudecia...
E mais girava, immenso j de inchado
De terror e delirio!

                  Os grandes astros
Como um viveiro immenso de fulgores
Atiravam, de sol em sol, as notas
Do eterno concerto...

       *       *       *       *       *

                    E foi rolando,
Vertiginoso e bebado de horrores!

O feio, ebrio da mesma fealdade!
O mal, possesso do seu mal! As trevas
Cheias de medo de se vr to negras!

E o firmamento arfava n'um delirio
De harmonia e ventura! O espao ardente
Suava luz--girando no infinito--
Pelos pros do co... que so estrellas.

       *       *       *       *       *

Oh! como a ave da noite eterna, ao vr-se
Dentro do dia eterno... endoidecia!
Como rolava tonta a um lado e ao outro
Batendo as duas azas--Sombra e Espanto,--
Por todo esse infinito j no via
Um s buraco que a escondesse!

       *       *       *       *       *

                        O Abysmo
--Escravo, mas heroe--chorava mudo...
E engulia os soluos.
                  Despojado,
Que lhe havia elle dar?

                  Os outros riam.

       *       *       *       *       *

Oh! a belleza  cruel! A altura  fria!
E impiedosa e feroz! A ave area
No tem d do insecto! A virgem branca
Pisa o negro reptil! o louro infante
Crucifica o morcgo! Os astros de ouro
Viram a Terra assim... e no choraram!

       *       *       *       *       *

Um riso louco, ento, feito de raios
Infinitos de luz, encheu o espao!
O giro das espheras cambaleava
E estorcia-se, doido, em grandes frouxos
De hilaridade e brilho! E o cco eterno
Que em vez de voz, repete os esplendores,
Confuso co'as mil ondas tumultuosas
Parecia tempestade de harmonia.

Todo o co se inclinava, incendiado
N'uma aurora boreal prodigiosa,
Vendo o truo horrivel do infinito!

       *       *       *       *       *

Foi ento que o Abysmo, o triste escravo
Dos senhores da luz--partido, oppresso
Co'a immensa dr d'aquelle rir,--no pde
Suster-se mais.

            Ouviu-se desde baixo
Vir subindo um suspiro--e quantos ccos
Da antiga confuso ha 'hi no espao:
E todas as tristezas que ficaram
Dos combates de outr'ora: e os soffrimentos
De quantas luctas houve, antes do tempo:
E essas mil dres, e essas mil torturas,
Que custou cada sol: todo esse inferno
De negrumes, que o co lanou, despindo-os,
Quando quiz ser s luz... de ais e gemidos
Quando quiz ser s canto... a parte infame
Que na injusta partilha coube ao Abysmo...
Tudo isto, no suspiro do captivo,
--Triste, mas grave; queixa, mas no spplica...
Antes accusao,--na voz debaixo
Tudo isto ali subiu!

       *       *       *       *       *

              Os grandes astros
Enfiaram de pasmo e emudeceram!
E, se em seios de luz ha 'hi remorsos,
Sentiram-no n'essa hora...

       *       *       *       *       *

                        Ento abriram-se
As portas do silencio--e, como um spro
Que agitasse as espheras, voz sem timbre
(Se ha ouvir...) se ouviu: _Quem faz chorar o Abysmo_?

       *       *       *       *       *

Oh! o grande bem e a grande formosura,
Que tendo a estrella e o co, inclina a face
Para a grande abjeco! A Aurora immensa,
Que quer saber quem escurece a Treva!
A ventura sem fim, que se conturba
Porque a desgraa soffre!

                      O Abysmo horrivel
Sentiu que seus mil males vacillavam,
Sobre a base da eterna injria, e se am
Co' esse spro de amor.--E estranho, e pvido,
Duvidou se soffria e teve, em sonho,
Como vises do co d'onde o lanaram...
E quasi perdoou...

                  'Stava adorando!

       *       *       *       *       *

Oh, gotta de piedade, que adoaste
Aquelle oceano de injustia! Oh, lagrima
Teda feita de bem!... Bebeu-te o Abysmo!

       *       *       *       *       *

E a Terra informe viu.

                    Como o silencio
De algum poo--que o fundo das montanhas
Guarda velado pela treva--pode
Ouvir, cheio de horror, o cco primeiro
De uma pedra descendo: como o centro
Da mina pode vr o alvio primeiro
Que a abre de par em par,--assim a Terra
Viu a coisa sem nome que descia
Pelo infinito abaixo.

       *       *       *       *       *

                    Olhou transida.
Era uma Mo--que parecia treva,
Tanto brilhava! E vinha-se alongando
Com cinco dedos--cinco continentes
De luz--fixa, sem cr, indefinivel,
Leviathan de brilho, pelo ether
Descia--e as ondas de harmonia erguiam-se
Como em tormenta de espleddor--horrivel...
Tanto era bello!

                  Ao longe, ao longe, ao longe,
'T aonde a viso abre os espaos,
A orla do infinito radiava.

       *       *       *       *       *

E cada sol, e cada estrella, vendo
Aquella Mo descer, dizia--_Certo
Que me vem afagar_!--E estremecia.

E a Mo passou em face das estrellas...
Mas no as viu.--Passou o grande cro
Dos ses... e no os viu.--A via-lactea...
E no a viu.--E foi seguindo vante.

       *       *       *       *       *

L onde o escuro  tanto que suffoca
O tempo, no nevoeiro esquecimento,
Onde em vaga fronteira se confundem
O sr e o no sr--l para o extremo,
 onde a Mo j a...

       *       *       *       *       *

                        E os grandes astros,
De sol em sol, de um horisonte ao outro,
Inquietos, atravs do ether immenso,
Lanavam vozes de ouro, perguntando
_Onde vae o Senhor_?

       *       *       *       *       *

                        E a Mo descia.

J no havia mais. Tinha chegado
Por defronte da Terra. E n'essa hora
Dois infinitos--um de horror, e o outro
Infinito esplendor, se contemplaram.

       *       *       *       *       *

E os astros de ouro pelo co disseram:
_Eis que Deus vae brincar tambem co'a Terra_!
E a Mo estava.

            E a Terra negra olhava-a,
Como um selvagem um espelho; o susto
Co'o prazer inefavel combatiam-se
L dentro... e a massa informe estremecia.

Convulsa se agitava. Fascinada
Parecia recuar... e approximava-se!
E, n'um ultimo esfro, dando um salto
Enorme, por fugir--cahiu no centro
D'aquella Mo.

       *       *       *       *       *

            E os astros murmuravam
Aos ses: _Certo que Deus a precipita_!

       *       *       *       *       *

Mas a Mo no se abriu para lanal-a.
Os grandes dedos sobre a massa horrivel
Se fecharam. Pareciam, sobre o corpo
Tenebroso, que tinham apertado,
Cinco chagas de luz.

            E consultaram.

       *       *       *       *       *

Os cinco dedos entre si disseram:
_Que havemos ns fazer a isto_? E todos
Immoveis ali estavam.

                  E entre os dedos
D'onde--bem como um sapo entre os dois seios
De uma virgem--a Terra olhava o espao,
Pareceram-lhe ao longe os grandes astros
Como pontinhos negros.

                        Um segundo
Roubado  eternidade  quanto basta,
Quer se seja morro, quer seja estrella.

       *       *       *       *       *

Ento a grande Mo abriu-se e disse
 Terra: _Vae_!--E como aguia sublime
Desde os Alpes se atira, a Terra ergueu-se,
Levando um vo immenso entre as estrellas!

       *       *       *       *       *

Viam-se-lhe luzir no dorso negro
Cinco traos de luz! Leito de brilho
Aonde os cinco dedos se poisaram!
E lepra de esplendor!

       *       *       *       *       *

                  Rolou no espao.

E os astros entre si se consultaram:
_Dar-lhe-hemos ns logar_?

                        E o Sol altivo
Fallou e disse:--Eu vejo-lhe no dorso
Uma mancha de luz--a _Natureza_!

E a Lyra disse:--Eu vejo-lhe outra frma
Resplendente-- _Ida_!

                  E Vesper disse:
--Eu vejo-lhe um signal de affago-- _Alma_!

E Venus disse:--Eu vejo reluzir-lhe
Uma cicatriz de luz-- _Amor_!

                              E disse,
Ento, o Sete-estrello:--Eu adoro-lhe
Como o sitio de um beijo do Eterno...
-- _Immortalidade_!

       *       *       *       *       *

                  E o cro immenso
Abriu-se e deu logar  Terra escura,
De cuja face cinco grandes f'ridas
Gottejavam a luz--a _Natureza_,
Que tem de Deus a fora; a _Ida_, filha
Da immensidade d'elle; a _Alma_, eterna
Como seu sr; o _Amor_, que  olhar d'elle;
E a _Immortalidade_ luminosa,
Que  o bero onde n'elle repousmos.

       *       *       *       *       *

........................................
........................................
........................................
E, agora, oh Terra! que s, entre mil rodas,
Uma roda do carro--vae rolando
E desprende, ao rodar por sobre o tempo,
Tuas cinco fascas prodigiosas,
Pela estrada do Sr--a Eternidade!

Bussaco, Outubro de 1863.




XXXIII

OMBRA




OMBRA

(DA ANTHERO DE QUENTAL)


Quando Cristo sent che la sua ora
Giunta era alfine, a quei che lo cercavano
Grave, calmo, sereno appresentossi.
Venia la turba in arme! Ma di tanti
Non un sol si attent muovere il passo
E por la mano in su il figliuol dell'uomo.
Tutti con bassi gli occhi, a Ges innanzi
Inerme, nascondean l'armi. Ma quegli,
Che il doveva tradir, fattosi presso,
Lo strinse fra le braccia mormorando
_Dio ti salvi Maestro_! E, siccome era
Pattuito, baciollo in sulla faccia.
Cos gli altri avanzandosi, lo presero.
Ma Ges, gli occhi al ciel, senza vederli
Li perdonava e li seguia sereno.
Era scabro il cammino. In cima a un monte
Saliano; e da' due fianchi e giuso al basso,
Su la terra era notte. E, quando al fine
Aggiunser la pi eccelsa erta del colle,
Di repente fu visto illuminarsi
Uno de' lati d'una blanda e dolce
Luce; ma immensa. E quanta terra in quella
Dal monte all' ocen capia, su cui,
Dall'alto riflettendosi, la viva
Face splendea, si rischiarava tutta
Da valle a monte, e risalia la bianca
Luce a mezzo l'azzurro arco del cielo.
E puro somigliava albor lunare
O da quel lato rinascente aurora.
Ed era questo il lume che su Giuda
Non risplendea,

            Dall' altra parte intanto
Era tenebra fonda e parea come
Di quei triste il delitto ella ascondesse
Tutt' all' ingiro, in procellosa notte
Biancicante di neve all' orizzonte.
Cos, divisa in due parti la terra,
Involta questa rimanea nell' ombra.

........................................

Fu da quest' ombra che la chiesa nacque.

Domenico Milelli, _Rottami_, p. 39. 1890.

FIM




INDICE


Dedicatoria

     Explicao prvia
     Escorso biographico de Anthero de Quental
     Autobiographia de Anthero
     Bibliographia

     I--Palavras aladas
    II--Lao de amor
   III--Fora--Amor
    IV--Paz em Deus
     V--N'uma noite de primavera
    VI--Psalmo
   VII-- beira-mar
  VIII--Aspirao
    IX--A Pyramide no deserto
     X--Desalento--Conforto
    XI--A senda do Calvario
   XII--A Joo de Deus
  XIII--Per amica silentia lunae
   XIV--Na primeira pagina do Inferno de Dante
    XV--Dante--Divina Comedia
   XVI--Momentos de Tedio (Sonetos)
          I. Sinite parvulos
         II. A um Crucifixo
        III. Decomposio
         IV. Nihil
          V. Quinze annos
         VI. Sarcasmos
  XVII--Amor de filha
 XVIII--Gargalhadas
   XIX-- Italia
    XX--A Gennaro Perrelli
   XXI--Guitarrilha de Satan
  XXII--Serenata
 XXIII--O Possesso (Sonetos)
  XXIV--Epigramma transcendental
   XXV--Na Sepultura de Zara
          Verso do Dr. Storck
  XXVI--Glosa camoniana
 XXVII--As Fadas
XXVIII--O sol do Bello
  XXIX--Iberia
   XXX--Verses e imitaes
        Excerptos de uma traduco do _Fausto_:
          I. Dedicatoria
         II. Na Cathedral
        III. A cano do Rei de Thule
        A Dr, imitao de Petfi
        A casa do Corao (do allemo)
        Estancias (do allemo)
        Romance de Goesto Ansures (ao moderno)
  XXXI--Sonetos desprezados
 XXXII--Fiat lux! (Poemeto)
XXXIII--Ombra, verso italiana de Domenico Milelli



_Acabado de imprimir_
EM 10 DE JUNHO DE 1892
_commemorando o 312.^o anno_
DA MORTE DE CAMES

       *       *       *       *       *

NA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
para
*M. GOMES*, LIVREIRO-EDITOR
estabelecido na
Rua Garrett (Chiado), 70-72
LISBOA.




M. GOMES, Livreiro-Editor

_70, RUA GARRETT (CHIADO), 72--LISBOA_

Livreiro de Suas Magestades e Altezas


EDIES


Visconde de Condeixa

     O Mosteiro da Batalha, 1 vol. gr. in folio illustrado com 26
     heliogravuras 13$500


Alberto Braga

     Contos escolhidos, ed. illustrada por Casanova. 1$000


Edmond Demoulins

     O socialismo perante a sciencia social, 1 vol. $200


A. de Oliveira-Soares

     O Paraiso perdido $700


Macedo Papana (Conde de Monsaraz)

     Poesias: O ultimo romantico--Paginas soltas--Severo Torrelli, 1
     vol. 1$000

     Griselia, mysterio, traduco em verso, 1 vol. $500


Colette (Claudia de Campos)

     Rindo, 1 vol. de Contos.


L. A. Palmeirim

     Os excentricos do meu tempo, 1 vol.


Alfredo da Cunha

     Endeixas e Madrigaes, 1 vol. de poesias

     Cartonado


H. Lopes de Mendona


     A morta, drama em verso 1 vol.


Jos de Lacerda

     Flor de pantano, 1 vol. de poesias


Antonio Vianna

     Jos da Silva Carvalho e o seu tempo, 1 gr. vol. e _fac-similes_


ULTIMAS NOVIDADES

_em livros francezes, italianos, hespanhoes, allemes e inglezes que pe
 venda no mesmo dia da publicao, sobre litteratura e todos os ramos
das sciencias_

       *       *       *       *       *

Assignaturas de jornaes, pelos preos do estrangeiro, para o que tem
montado servio especial

       *       *       *       *       *

COMMISSES

Encarrega-se de quaesquer que lhe incumbam para o que tem
correspondentes especiaes em todos os paizes.





End of Project Gutenberg's Raios de extincta luz, by Antero de Quental

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The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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