Project Gutenberg's A Senhora Viscondessa, by Sebastio de Magalhes Lima

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Title: A Senhora Viscondessa

Author: Sebastio de Magalhes Lima

Release Date: February 27, 2008 [EBook #24710]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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A SENHORA VISCONDESSA




A SENHORA VISCONDESSA


ROMANCE ORIGINAL

POR

S. DE MAGALHES LIMA




COIMBRA

Imprensa Commercial e Industrial

1875


A TI


    _A ti, que hoje s ideal, e que um dia sers me; a ti, que foste
    filha e que has de ser esposa; a ti, mulher, a ti,_

                                                 Consagro este livro.

                                                     _Magalhes Lima_




I

Um baile


Temos baile em casa da sr.^a viscondessa de B ***.

 porta do palacete param trens sem conta. Descem os convivas,
profusamente almiscarados.

No salo crusam-se os pares: _elles_, fragrantes, como uma rosa de
Bengalla; _ellas_, voluptuosas e tpidas, como uma brisa do Oriente.

A sala  vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de marmore
oleosa e de difficil lavr. Do tecto dourado e semicircular pende um
lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes e de vidrilhos
verdes. A mobilia, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em symetria
com os mais encantados jardins de Granada.

As janellas abertas atraioam os segredos dos namorados. Como
relampagos, reflectem-se na praa as vertigens da walsa.

Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz phantasticamente. A cada um
d'estes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce
companheira da tristeza, vae illuminando o espao, o mar e as solides.

As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. N'um esplendido vaso
de porcellana de _Svres_, abre uma mimosa camelia as suas longas e
avelludadas petalas.

Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o espao ladrilhado das
janellas de sacada.

Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam de falar. Em redor d'ella
tudo se apinha, tudo se confunde, tudo se baralha.

A valsa recomea. Nos espelhos de crystal reflectem-se as estranhas
imagens, que, n'esta noite, povoam o salo. Sobre as piscinas de marmore
debruam-se as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas implumes feitas
de pedra e de calcareo.

Estremecem docemente os cortinados da janella. Os peitos arfam de
canados; e na parede o papel, como que exhala uns mysteriosos e
prolongados calores.

--Quer v. ex.^a conceder-me esta valsa?--diz um cavalheiro, offerecendo
o brao a uma gentil dama de vinte annos.

E entrou no turbilho.

--Mas perdo, senhora viscondessa... bem v que na minha posio...

--Acompanhe-me, Alfredo.

E os dois seguiram para uma saleta proxima, situada  direita do salo.

Os creados serviram o ch. Na varanda fumavam e conversavam os
cavalheiros. Algumas senhoras refaziam a sua _toilette_, em parte
desfeita pelos ardores da dana.

--E acredita a senhora viscondessa, que eu realmente lhe podesse ser
affeioado nas condies em que me acho?

--E por que no, Alfredo, se eu o amo loucamente.

Um leve ruido interrompeu o dialogo.

A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros a guarneciam
tristemente. Ao longo da parede destacavam uns quadros sombrios, meigos,
phantasticos. Em cima do fogo agitava-se o pendulo do relogio, como se
effectivamente nos quizesse recordar uma pulsao dolorosa.

A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo soph, volvia os olhos
nervosos na direco da porta do baile.

--Ninguem nos ouvir--exclamava ella de si para si.

E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos passos, percorria a
sala de um a outro extremo.

Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.

Um elegante moo entrou na saleta.

--Venho lembrar a v. ex.^a, minha senhora, que esta quadrilha me
pertence.

A viscondessa acompanhou-o.

Alfredo s, roia um charuto furiosamente, quando novo ruido o despertou.

Defronte d'elle, e ameaando-o com um punhal, estava um rapaz, cheio de
febre, de odio e de vingana.

--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me promettes nunca amar a
viscondessa, ou eu te assassino aqui, como um miseravel que s.

--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe o punhal da mo. Primeiro
cahirs tu, desgraado. J, j fora d'esta casa...........................
..........................................................................

Este incidente, como  natural, perturbou a quadrilha, que ento se
danava. Acorreram todos. Os dois contendores haviam desapparecido da
saleta.

O baile continuou.




II

A Senhora Viscondessa


 uma mulher da moda--chlorotica, anemica, febril.

Olhar vivo, e transparente, como um chrystal. Na sua doce pallidez o que
quer que seja das vises de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso,
esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a triste e
contemplativa, como uma virgem de Murillo.

 viscondessa; faz muitas esmolas e possue trens faustuosos.

Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade. Um calor intenso
abrasa as caladas. Corria o mez de Maio de 1859. No Largo de Cames, o
sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho, reflectira-se
estranhamente nos aposentos da viscondessa.

No corredor presentira-se o ranger de um leito. O cortinado de cambraia
foi delicadamente afastado por uma mo de marfim, pequena e esculptural.

--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, de timbre metalico e
adocicado.

A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre vr o rosto de uma formosa
creana, loura como um cherubim e tentadora como Eva.

--V. ex.^a chamou, minha senhora?

--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupo branco e vem ajudar-me a vestir.

E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou a cahir no travesseiro,
doida de somno e bria de amor.

Adormeceu de novo.

Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada n'uma poltrona,
defronte do espelho.

Fingia que lia. Do regao pendia-lhe um romance francez. Com a mo
direita desviava as tranas fartas, que, por vezes caprichavam em
cahir-lhe sobre o peito. O brao esquerdo, abraando o espaldar da
cadeira, servia-lhe de encosto.

De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou um pente e largou-o com
desfastio. Olhou para o relogio, tocou a campainha, e tornou a
sentar-se.

--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma cousa?

--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabea a minha que nem sequer havia
dado por tal.--Manda-me arranjar o almoo, anda.

--Por mais que me digam a senhora no anda ba--murmurava a ladina da
creada, correndo espevitadamente.

A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. Percorreu o
corredor e entrou na sala de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali
tinha, tirou-o da gaiola e comeou de afagal-o meigamente.

--Coitadinho do meu _bijou_--exclamava ella com doura.

Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, e destribuindo com elle
a comida, que mal provava, introduziu-o no seio.

Um co pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, como verniz, fazia
_pendant_ com os dois personagens, acima descriptos. _Joli_ lhe chamava
a viscondessa. Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu theatro d'elle.
Ali aprendra a ser guloso e concupiscente. Quando a senhora chegava,
elle, de um pulo, saltando lhe ao regao, para logo principiava de
lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da casa aceitra, sem
repugnancia, este tributo quotidiano.

Alm do co havia um gato maltez, elastico, como uma serpente e
indolente como um chin.

Entre o co e o gato existia uma mediadora: era a viscondessa. Por fim
os dois rivaes fizeram trguas. Chegaram at a comer no mesmo prato,
brincando como dois amigos.

Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, orph de pae e me, sem
parentes, s no mundo e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de
si to variada e interessante familia, sentia-se mais feliz, e
porventura mais esquecida do que nunca.

O gato aquecia, o co lambia, e as aves entretinham, cantando.

Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa bocejou mais uma vez.

--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella, erguendo-se.

E, continuando pelo corredor, entrou no _boudoir_, onde a esperava a
cabelleireira.

Vestiu um chambro de cachemira azul; e, sentando-se na cadeira que lhe
offereceram divagou, ao acaso, durante uma hora.

Quando acordou estava realmente encantadora.

O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um aspecto senhoril e grave.
O rosto desanuviara-se-lhe. Foi ao espelho, e, como flr que ao sol
desabrocha, sorriu-se maliciosamente.

--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella a Virginia.

--Deslumbrante--minha rica senhora.

E a viscondessa, toda vaidade e tentao, foi-se at  cosinha,
pretextando umas ordens para o jantar.

Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso cahira-lhe o roupo.
Sorrindo-se, envergou umas saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se
novamente ao espelho. Com um pincel, mergulhado em carmim, deu cr ao
rosto, naturalmente desmaiado. Apertado o espartilho e collocada a
_tournure_ enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia e pediu
alfinetes. Pregou o vestido, pregou o cabello, pregou as saias,
pregou-se a si e sahiu do _boudoir_.

--Ora esta! e no me ia agora esquecendo o _crme
imperatrice_--monologava ella, voltando  saleta.

Defronte do espelho, recuando dois passos e fazendo tregeitos para um o
outro lado, empoeirou-se gravemente.

Extrahiu do gaveto um leno de cambraia; destapou um vidrito de
_jockey-club_, perfumou-se e entrou na sala do baile.

O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. Dedilhou, ao acaso, uma
escala e aborreceu-se.

Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos do cabello e abriu a
janella.

Uma brisa tpida soprava apenas. O sol ia declinando no horisonte. Nas
ruas mexiam-se as multides apressadamente. Alguns cavalheiros de chapu
na mo limpavam o suor da testa. As damas, mesmo  janella, agitavam os
leques phreneticamente. Os freguezes entravam nos botequins, e pediam
sorvetes.

Estava proxima a hora do passeio, a hora de luar, a hora de amor.

Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou a janella. Chegra-lhe
finalmente a vontade de jantar.

Caminhou lentamente, deixando aps de si um rumor surdo, e mui
semelhante ao remexer de folhas, agitadas pelo vento.

Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se  mesa pela segunda vez
n'aquelle dia. Provou de tudo sem comer de nada. Bebeu um glo de
_malvasia_ e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios de coral
e mandou arranjar o trem.

Prompta a carruagem e caladas as luvas dirigiu-se para o theatro de D.
Maria.

Representava-se a _Vida de um rapaz_ pobre n'essa noite. A Viscondessa
admiravel de bellesa e encanto, provocava de continuo os binoculos das
plateias.

No fim do 3.^o acto a porta da frisa abriu-se. Era Alfredo que entrava.
A Viscondessa sorriu-se.

--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o dia?

--E no o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?

--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo decerto no seria to cruel
para commigo.

--Mas, minha senhora, a minha posio... emfim... eu no sei...V.
ex.^a...

E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o signal de despedida.

--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa. A Viscondessa
cumprimentou-o, e, como sempre sorriu-se tristemente. O espectaculo
continuou.

 sahida do theatro, quando a Viscondessa, acompanhada por um creado,
punha o p direito no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se
d'ella entregra-lhe um pequeno bilhete, ligeiramente perfumado.

Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada a casa, a senhora, toda
receio e anciedade, abriu o bilhete.

Desengano, desengano cruel! No era de Alfredo a letra...

Mas de quem poderia ser? A quem attribuir aquellas palavras ardentes?

Amo-te--escrevra o anonymo.--Doidamente te amo. Tu decidirs da minha
sorte. Sou pobre, sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda mesmo
atravez do sangue do meu rival.

--Sempre  muito atrevido!...--exclamava a viscondessa, despindo-se j.

Acendeu depois um charuto, um excellente charuto havano.

A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando. Para um lado pendeu a
cabea abrasada, e para outro o brao, cuja mo deixava cahir o charuto,
quasi apagado.

Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu finalmente.

Virginia chegra p ante p e retirra a luz. O palacete, envolto em
trvas, acompanhra o somno da sua rainha.

E assim se passava a vida da Viscondessa.




III

Alfredo


Alfredo da Silveira nascra embalado pelos sorrisos da fortuna.

Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa! Situada na orla da praia
extendia-se deante d'ella o oceano como um vasto lenol, cujas dobras
phantasticas se encolhiam e desencolhiam, consoante as horas e as mars.

N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com o maternal carinho,
aprendera elle a entoar as primeiras trovas da infancia; ahi tambem
suspiroso, como um lago, e candido, como o cu, aprendra a ser um filho
honrado e um cidado benemerito.

Mas a infancia, esvaecida n'uma manh de rosas, deixra aps de si o
lucto de um corao e a orphandade de uma familia.

A solitaria vivenda, circundada de festes e madre-silvas, sentira-se
isolada e triste. Na virao da tarde j as flores silvestres no
derramavam, como outr'ora, uns aromas to vivos e to profundamente
salutares e amenos.

Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa, cujo espirito,
evolado nas azas da saudade, fra perante Deus rogar pela felicidade de
seu unico filho.

E Alfredo chorou e chorou deveras...

Estava, porm, na primavera da vida. Auspiciado pelas brisas da mocidade
demandou a capital, cujo ruido o captava em extremo.

Dirigiu-se para Lisba e ahi fixou residencia.

Para qualquer que o visse seria o seu rosto gentil e levemente
effeminado o mais seguro passa-porte de uma fina e aprimorada educao.

Usava de ordinario fato preto a que dava reale uma esplendida camelia,
artisticamente collocada na _boutonnire_.

Elegiaco por condio nada havia que o satisfizesse. Um vaco immenso
lhe torturava a existencia. Filho do tdio e vivendo para o tdio o seu
espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, experimentava de
contino um mal-estar insupportavel, atroz, corrosivo, e porventura uma
doena impossivel de definir-se.

A sua compleio delicada, e consumida pelos vinhos, agitava-se
alternadamente entre dois mundos infinitos e contradictorios. Amava e
no amava, queria e no queria, pensava e no pensava.

Alto, magro, nervoso tudo o impressionava com uma fatalidade
irresistivel. O mundo era-lhe um phantasma sombrio, chimerico, cuja
sombra elle amaldiaoava, a todas as horas, no caf, na rua, no bordel,
na sociedade emfim.

Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode louro, a sua cabelleira
phantastica, e os seus sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente
ironicos.

Elle, porm, detestava as mulheres em espirito, aproveitando-lhes o
corpo e a carne, como um mero passa-tempo social.

S uma vez amou, e, como Christo, doidamente, loucamente, profundamente.

Ento foi ditoso muito ditoso.

A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella no seu espelho. No lhe
faltaram nem as crenas do bero nem as extravagancias da juventude.
Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou at ao vinho,
ao terrivel vinho que ultimamente o prostituiu.

Fra ditoso...

Viajando viu muita coisa!

Viu mulheres novas que se abandonavam aos velhos; creanas loucas que se
entregavam s orgias, cuspindo na face das mes; politicos mercenarios,
que,  maneira das mulheres de Babylonia, alugavam ao primeiro, que na
estrada passava, a honra e a consciencia; exploradores sem conta,
eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam os filhos,
irmos que matavam os irmos, mes que vendiam as filhas.

Viu muita coisa...

Passeando, admirou muito!

No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas, sansuaes. Depois
passou  Grecia, a sbia, a divina me, onde Corina mais tarde teve o
seu bero de flores. E ainda percorreu Roma, aquella Roma dos Cesares e
da _rocha tarpeia_ e Verona a patria de Julietta, e a Escocia o theatro
de Macbeth.

Admirou muito...

Bebeu sempre!

Provou o incomparavel tokai, esplendido _falerno_ dos tempos modernos,
encheu-se de absyntho e saboreou o alcool com delicia.

Bebeu sempre...

Fumou com ardr!

O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou os sentidos, fazendo
d'elle uma alma pag e um corpo lascivo, mrno, cheio de tdio e de
languidez.

Fumou com ardor...

Amou delirantemente!

Lembro-me to bem...

A onda brincava travssa sobre a praia longinqua. Uma brisa tpida,
apenas, semelhando um leque de plumas, agitava docemente as vagas do
Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte annos, assim a natureza
suspirava languida, nervosa, etherea.

E ao longe, atravez das brumas phantasticas, scintillaram seus vestidos
brancos, suas faces pallidas e seu olhar azul.

Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte da vida.

Aproveitou a serenidade do crepusculo para lhe fallar. Disse-lhe o que
sentia. A creana encarou-o duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se
amavelmente.

Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella n'um immenso, escuro
pinhal. Ali confidenciaram largamente. Juraram amar-se.

E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou acredital-a.

Desgraado do moo, que tinha um corao, impossivel de esmagar.

Quando, passados annos, lhe disseram que ella se havia tornado uma
grande mulher do mundo, a eterna _bas-bleu_ dos sales, sentiu-se
inanimado quasi, imbelle, exangue.

Tentou afastar de si o glido phantasma que o perseguia sem cessar, e
que mesmo em vida lhe seria triste mortalha. Em cata d'ella correu,
voou. Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela quarta vez, a
contemplou mais scintillante que uma esmeralda e mais loura ainda que um
archanjo.

 sahida do espectaculo experimentou um estranho choque no seu hombro
direito. Olhou e viu-a a ella que lhe acenava com uma das mos.
Aproximou-se ento. No lagedo da sala existia um pequeno bilhete que
elle apanhou cuidadosamente.

Espero-o amanh,  uma hora da tarde--escrevra ella a lapis.

E, cheio de anciedade, tambem elle esperou pela aprazada hora.

Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. Um singular
ruido lhe captou os sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria
descompostamente.

Sentou-se ao lado de um desconhecido.

Terminado o jogo seguira-se o _Cognac_.

Beberam todos.

Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente todas as janellas do
quarto. Derramaram-se perfumes em larga escala. No centro foi collocado
um braseiro.

D'entro em duas horas estavam todos adormecidos. S Alfredo, sentindo-se
abafado, morto, enraivecido e no podendo conter mais a asphyxia que
lentamente o devorava, comeou de gritar terrivelmente, terminando por
desfechar dois tiros de revolver na direco da porta de entrada.

Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.

Entraram todos.

O feio silencio do tumulo envolvia a casa d'aquella mulher. Para um lado
seis cadaveres de homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta e
o corpo ensanguentado; para outro lado uma mulher com os vestidos rotos,
o cabello arrancado e as faces horrivelmente maceradas.

Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas vezes.

E s os echos repeliam:

Emilia, Emilia...[1]

Desde ento para c Alfredo, endurecido no cynismo e na indifferena,
tem arrastado uma vida monotona, semsabor, aborrecida.

Levanta-se ordinariamente  uma hora da tarde doente, triste, sonhando
uns males terriveis, imaginarios.

No almoa nunca. O appetite fugiu-lhe com as extravagancias do
estomago. Nem mesmo tem j paladar.

Percorre as ruas authomaticamente olhando as _vitrines_ das lojas, a
cujas esquinas estaciona.

Frequenta os bailes, mais por uma necessidade de espirito do que por um
enthusiasmo juvenil.

Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente. Pela madrugada
recolhe-se a um quarto solitario, que alugou e onde vive s, sem creado
nem creada.

L e escreve no restaurante, sua habitual residencia.

Na noite em que o encontrmos no salo da viscondessa, recolhia-se elle
a casa mais melancholico do que o costume.

--Mas quem ser o maldito rival?--monologava elle de si para comsigo.
Acham pouco ainda? pois bem. Tambem tu cahirs, minha querida
viscondessa. Tentou-te o demonio estupido: sers uma das suas victimas.

E entrou no caf.

    [1] Este facto que para muitos passar por inverosimil, deu-se,
    todavia, proximo de Lisba, em 1854.




IV

Contrastes


O amor  o lao que une duas almas.

Quando as tempestades rugem, e os ventos bramem, e os mares se
encapellam, a me, candido alento, apertando o filho contra o peito, diz
amor; e o amor que  medo, afujenta o medo, e o amor, que  aprehenso,
combate a aprehenso, e o amor, que  timidez, destre a timidez.

Felizes, mil vezes, aquelles, que sabem amar e que tambem so amados!

A vida, sombria em si desabrocha por um beijo de me; e n'esse beijo,
sllo de Deus sobre a terra, que immensa effuso de affectos e que
nobilissimo trasbordar de enthusiasmo.

 minha me,  meu abrigo, tu, com o teu corao, foste o anjo
providencial, que em mim encarnaste o sentimento do bem.

No esplendido poema da creao, em que tomam parte as aves com os seus
cantos maviosos e os homens com o seu trabalho, quasi se poderia dizer
que um suave perfume, ethereo e subtil, pe a terra em communicao com
o cu.

Perguntae ao rio, porque geme, e ao oceano, porque brame, e s arvores,
porque crescem, e  terra, porque produz, e  nuvem, porque corre, e 
flor, porque perfma? Perguntae...

Amar, ser amado...--que sublime virtude, minhas senhoras.

s horas da tristesa,  tardinha, n'aquelles raros momentos, em que as
arvores, estatuas da melancholia, nos deixam ouvir um funebre soluo; 
hora em que o gentil pegureiro desfere na frauta umas sentidas notas;
n'essa hora em que os crentes, saudando o creador, ajoelham aos ps da
cruz:--como no  esplendida a viso do nosso espirito, iriada pelas mil
cres da ventura e do amor.

Apparecei, sonhos da mocidade! Surgi de novo,  santas crenas da minha
vida!

Porque  que, com os primeiros raios do amor, desapparecem as alegrias
primeiras, os indiscretos descuidos da infancia, os mimosos cantares da
meninice?

Porque  que a mulher, amando, deixa de se pertencer a si, perdendo a
individualidade e a iniciativa, a fim de se consagrar exclusivamente a
um homem, ideal de perfeio e de virtude?

Porque  que o amor nos faz tristes, abatidos e concentrados?

Quem no sentiria, uma vez, ao menos, na sua vida, a dr, que nos
arrebata o corao e as lagrimas que nos inundam os olhos, ao
despedir-mo-nos da pessoa que amamos?

Mulheres, que tendes amado o que na austeridade do sacrificio, tendes
aprendido a virtude e o desinteresse--fallae por mim.

Homens, que em meio de vossos trabalhos e avergados ao peso das paixes
vos sentis, muitas vezes, desfallecer--abri o corao, mostrae a dr que
vos opprime.

 doce o amor--pensa o mundo. Mas para amar, quantas inquietaes,
quantos supplicios!

 verdade que todos invejam uma mulher amada;  verdade que todos
anceiam esse ineffavel momento, de poder dizer a um ser bom, generoso,
sincero, sympathico, um ser, que nos delicia pelo seu olhar e que nos
apraz pela sua bellesa--amo-te, sou teu; sim, sou teu, porque tu s o
bom amigo sonhado em noites de intimos affectos; adoro-te, porque tu s
a minha inspirao, a minha alma, a minha vida, o meu eterno pensamento:
mas para tudo isto que lucta, que enorme lucta, meu Deus!

Amar  comprehender: comprehender a verdade, elevar-se ao bem pela
contemplao do que  perfeito, subir at ao bello, guindar-se at s
luminosas regies da arte e da consciencia.

O mundo fica-nos para traz; esquecem-nos as ambies; perdem-se os
enthusiasmos; fojem-nos as lucidas chimeras da juventude: tudo se
desvanece pelo amor.

Amar, ter um filho... que superior ventura se pde comparar a esta?

Um filho  uma parte de ns mesmo, uma continuao do nosso nome, da
nossa existencia, do nosso viver.

Um filho?!... Quem se no ter enternecido ao contemplar essas louras
creanas, vestidas de branco, e que, durante o dia, brincam nos jardins?

Um filho?!

Como  bella esta palavra e como ella sa bem aos nossos ouvidos.

 santo amor paternal,  paes,  mes--vs que tendes chorado com as
dores de vossos filhos e rido com as suas alegrias--dizei-nos--haver,
porventura, n'este mundo felicidade que se vos compare?

O amor de me  muito, mas no  tudo. Aos quinze annos, todos ns
sentimos um vago ideal, que nos illumina o espirito, umas seductoras
imagens que nos transportam a um ser longinqo, mas realmente existente,
um ser que  nosso, porque o sonhamos e que nos pertence, porque desde a
infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente,  semelhana de um
horisonte que um dia contemplamos e que no mais nos esquece.

Esse ser  um marido; esse ser  uma esposa: um vinculo os prende--o
amor; um ideal os incita--os filhos; uma virtude os reune--a
conveniencia.

 viscondessa tambem lhe chegra a sua vez. Sonhra e fora feliz.
Alfredo era o doce amante, que lhe alimentava a phantasia ardente;
Alfredo, o louro rapaz, era a formosa viso, que aos quinze annos, ella
tivera por companheira inseparavel da sua vida.

Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos felizes.




V

No restaurante


Um mez volvido, aps os acontecimentos, acima descriptos,--em Junho de
59--entrava eu casualmente n'um caf do _Caes do Sodr_, situado por
baixo do _Grand Hotel Central_--quando ouvi a voz de Alfredo, que de
longe me chamava.

Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mo direita, offerecendo-me um banco de
palhinha em um dos extremos da mesa.

Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos e embriagados.

Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia de cinsa de charuto, viam-se
entre outras cousas cinco chavenas de caf, quasi esgotadas, duas
garrafas de cognac e uma de absyntho.

--No podias vir em melhor occasio--exclamava Alfredo com o cotovello
direito apoiado sobre a mesa e a cabea inclinada sobre a mo.

--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac e ouve-me depois.

Alfredo tirou em seguida um masso de cartas do bolso interior da
sobrecasaca, e desatando uma fita verde que as envolvia, comeou de
abrir uma por uma.

--Mal sabem vocs que temos por aqui uma paixo fidalga. Nem mais nem
menos do que de uma viscondessa.

Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto e encetou a leitura.

..........................................................................

Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que te amo devras. No se passa
uma hora, um minuto, um instante em que a tua doce imagem, pura como
Eva...

--Devem notar que este pura como Eva tem sua graa e 
original--reflexionava Alfredo.--Ah! Evas! ah, puras! ah, vestaes do
lodo e da chocarrice...

... pura como Eva, no venha irradiar-se sobre mim como luz redemptora
e supremo consolo. Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho
ciumes dos que te acompanham. E no ser eu tambem homem para te seguir
sempre e por toda a parte!

--Variante  mulher-homem de Girardin... Adeante.

Que triste condio a da mulher, impellida a viver isolada do mundo e
da sociedade...

--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.

Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes, se queres que eu viva feliz
e alegre.

A Viscondessa de B***.

--Ora aqui teem Vocs o primeiro specimen da feminil intelligencia.
Vamos s outras e sem commentarios.

E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de absyntho.

Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda saudade me agita o
espirito. Sinto que me s e sers sempre um alento magnanimo.

 meia noite, quando a lua campeia no seu eterno throno de magestade e
de bellesa, apraz-me pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e nas
tuas phantasticas promessas.

Eu amo o silencio, porque  vago, ethereo e cheio de sombras. Ha dias,
entrando n'um pinheiral, cuja verde ramagem se agitava doce e
harmoniosamente, como uma harpa do cu,--lembrei-me de ti.

Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. Ao longe o oceano, como
um leo esfaimado, enchia a terra com a sua musica rouquenha e
sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens ainda, retintas
pelos raios afogueados do sol, percorriam o espao de norte a sul.

Sentindo-me isolada e s, tremi involuntariamente. Soltei um grito e vi
uma creana que para mim corria de braos abertos. Foi uma appario de
Deus.

Que linda, que formosissima creana!

Pensei, ento, em ti, meu amigo, mais do que nunca; e, Deus me perde,
pensei na creana, que, um dia, fructo das minhas entranhas, uniria para
sempre as nossas duas existencias, n'um unico beijo, n'um unico abrao,
n'uma unica ideia.

Adeus, meu filho. Cr em mim, cr no futuro.

A Viscondessa de B***.

Alfredo, no podendo mais suster o riso, soltou uma furiosa gargalhada,
deixando, ao mesmo tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos
frouxos e nervosos.

--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio esta viscondessa, um lyrio a
desabrochar. Se no fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiam
esta, que  a ultima.

..........................................................................

Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me fortemente. Comtigo
murcharam as doces illuses que outr'ora me sorriam como estrellas do
cu.

Como a flor tristemente pisada pelo p do viandante, assim o meu
espirito succumbiu, sob a influencia do teu halito febril.

Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.

Tu polluiste-me as faces com os teus beijos escaldados, profanaste-me o
corpo com as tuas paixes impuras, fizeste de mim uma mulher material,
viciosa, corrupta.

Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado, e tu s me deste um desejo
vil, trivial, insensato.

Que fizeste da minha honra, Alfredo?

Porque me no amaste d'outro modo?

E queres-me ainda assim? pois bem: serei tua, tua para sempre.

A Viscondessa de B***.

--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa, batendo com a bengala
no marmore da mesa.

E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a ao freguez.

No relogio do restaurante soaram, ento, 2 horas da madrugada.

Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente. Ao lado d'elle
os amigos proseguiam na mesma tarefa.

O dono do restaurante, vendo que o caso se demorava, mandou vir um trem.

Sobraou Alfredo, a este tempo, j quasi debaixo da mesa, e introduziu-o
na carruagem, cuja almofada era simultaneamente occupada por um cocheiro
e um policia.

Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas do estabelecimento.

Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros, aterrado e confuso, com o
que ali havia presenciado e ouvido.

Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa.




VI

Sem sahir do mundo


Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como tal, um filho dedicado dos
cafs, um amador do fumo e um apreciador exaggerado _du vieux cognac_.

No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade fidalga, que o
tornava sympathico e bem quisto por todos os que com elle mais de perto
privavam.

Era exaltado em extremo, inconstante e leviano. Quando lhe fallavam em
amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia elle, como que acordando
de um longo somno--Sim! j gostei d'elle. Hoje troquei as boas amigas
pelos bons manjares.

E virava costas de aborrecido,

E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez por essa raso.--No
gostam as flores das borboletas?

A vida exterior, activa, intelligente  que, por via de regra, gera a
inconstancia. De modo que aquillo que n'uma mulher constitue um crime de
lesa-dignidade,  para o homem uma quasi urgencia, filha, sem duvida,
das circumstancias especiaes que o rodeiam.

O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo do que  sua vontade. A
leviandade provm, muitas vezes, de um impulso de temperamento. A
imaginao nem sempre pde ser domada.  uniformidade oppe-se a
variedade. A phantasia aprecia melhor esta do que aquella.

Ora semelhantes rases no se do j na mulher. A mulher tem uma vida
limitada, restricta, puramente interior e domestica. Deve ter na sua
existencia um unico amor, um unico interesse, um unico pensamento. E
desde o momento que isto se despresar--podeis acreditar-me--em vez de
uma me, em vez de uma esposa, em vez de uma irm, apenas tereis deante
de vs uma amante, isto , uma companheira para alguns meses de praser e
de sensualidade.

Creio porm que tal vicio  puramente peninsular. Em Portugal  costume
fazer a crte da rua para as janellas. O namoro, se existe, 
simplesmente no olhar. Tudo falla, menos o corao. E s depois de
casados, reconhecem, ento os noivos, que realmente os no fadra Deus
um para o outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas vezes
traz comsigo o divorcio e emquanto a ns o peior de todos os desgostos,
o desgosto do lar domestico.

Entre ns  a educao da mulher um fado quasi secundario. Que aprendem
ellas nos collegios? que sabem ellas quando se casam? Por ventura
sabero talhar os seus vestidos? porventura sabero manter o aceio e a
limpesa, to necessarios  cosinha como ao resto da sociedade conjugal?

Tudo, menos isso. Diz-se mulher do _high-life_, aquella que melhor valsa
n'uma sala, a que mais prende pelos arrebiques do _coquettismo_, emfim,
a que fr mais imaginosa, a que tiver lido alguns romances francezes e a
que mais amada souber fazer-se, n'um salo. Pouco monta que seja
dedicada a seus filhos, e amiga do seu marido. A questo  ter crte. O
resto de nada vale, porque est abaixo dos sentidos; e os sentidos, so,
n'este assumpto, uns mui respeitados directores.

No quero eu com isto dizer que a educao do homem seja superior 
educao da mulher. Os rapases nascem egoistas. No amam o desinteresse,
porque so naturalmente utilitarios e desconfiados. Desejam uma esposa,
mais pelo dinheiro que ella lhes traz do que pela estima que os pde
tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre ns  um acto de
commercio uma garantia de futuros interesses, muito de preferencia a uma
garantia de amor.

Alfredo, porm, desvira-se d'esta norma. De creana aprendra elle a
sondar a sociedade com todas as suas corrupes e inconsequencias. De
sobejo sabia que a dana, toda exterior e ficticia, era a perverso do
ideal conjugal. Por instincto aborrecra o salo, soalheiro de intriga e
de pequeninas miserias. Conhecedor dos homens, e das cousas cahira,
finalmente, n'um indifferentismo, at certo ponto, deploravel, para um
rapaz, mas, de certo, necessario e fatal para todo o organismo, digno de
outra aspirao que no fosse a do animal, por naturesa inerte e
estupido.

Alfredo resumia, portanto, uma energica reaco contra o estabelecido, e
um vago aspirar para um futuro, ainda no bem definido.

Saudemos esse futuro.




VII

Entre amigos


Tudo disposto e preparado.

Somos quarenta convivas  mesa. A viscondessa est bella,
verdadeiramente bella, sem os artificios que deslumbram, nem as vaidades
que enojam. Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o regao
da me que se finou e os beijos do pae cuja existencia, por duvidosa, se
ignora. Alfredo est tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando
indifferentemente as pessoas que o rodam, comendo pouco, bocejando
muito e bebendo mais.

Dois creados serviam a spa. Pelo lado direito da mesa,
parallelo-grammo, offerecia-se a spa _Julienne_ alternada pela esquerda
com a spa _allem_.

Um mysterioso silencio envolvia quasi todos os hospedes. Umas leves
palavras apenas se trocavam de par para par. Nos calices transparecia o
_xerez_--o louro e ingenuo xerez dos estomagos delicados.

Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira coberta de peixe com
molho  ingleza, appareceu o _Chateau-Lafitte_. Alfredo, reclinando-se
na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro importuno,
levantando-se, de cpo erguido, disse:

Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho, eu sado a Frana, me
desvelada do pensamento moderno.

E todos beberam.

Entretanto o silencio recomeara novamente. Os creados, em nervoso
phrenesi, retiravam os pratos sujos para logo os substituir por outros
lavados. Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos de gaz alumiavam
a mesa, matisada de flres, cuja cr deliciava todos os olhos e cujo
perfume embriagava todas as pituitarias. Na parede, pintada a
azul-dourado, destacavam uns quadros comicos, alegres, folgases, uns
quadros de caador logrado, perfeitamente pittorescos, perfeitamente
escolhidos.

Estava-se n'um _vol-au-vent_ de frangos. O vinho correspondente era, se
bem me lembro, Madeira scco. Conversava-se j de extremo para extremo.
Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos, afogueadas em calor.
Por ordem da viscondessa abriram-se as janellas. Uns cgos, que, ento,
passavam na rua, comearam de tocar uns velhos landns, perfeitamente
detestaveis e anachronicos.

O fado! o fado!--gritou Alfredo.

E os homens principiaram a tocar o fadinho das salas.

Servida uma _mayonnaise_ de linguados, servida ainda uma _galantina_ de
gallinha com aspic, passou-se a um _ponche  la romaine_. As rolhas do
champague saltavam ferventes e impetuosas, como uma catadupa de
topasios. Os creados corriam como possessos. As senhoras apoiavam as
faces rubras, sobre o hombro direito dos namorados. No espao campeava a
lua, na sua doce pallidez, espreitando meigamente o festim da
viscondessa.

Seriam dez horas da noite, quando, depois de concluidos os
assados--patos com azeitonas, pers com truffas e espargos--se comeou a
tirar o doce. Comiam uns podim _saboyon au rhum_ e outros _bavaroise_ de
fruta. O licr escolhido era o _Chartreusse_. Alfredo, erguendo-se,
propz um brinde.

Bebo  saude da senhora viscondessa--exclamou elle-- saude da sua
felicidade, e  saude de seu futuro filho.

E, sem mais poder suster-se de p, cahiu sentado na cadeira. Todos o
olharam com um olhar interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma
santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia, calaram-se.

C fra numerosas tropas atravessavam as ruas. Portugal, constitucional,
sadava o seu nunca--esquecido vinte e quatro de Julho.

Terminados os brindes, que foram immensos e ruidosos, continuaram todos
para o salo. S Alfredo, por confiana na casa, ousou ficar  mesa, a
cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que fumava, dormiu um longo e
pesado somno.

Quando realmente deu por si soavam tres horas nos relogios da casa. Meio
adormecido e meio acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um recanto
do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se mais reconheceu ento
uma das creadas da casa, conversando airosamente com um garboso gentil
homem.

--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem menos. Tudo corre bem e todos
teem raso...

E sahiu, assobiando a carta adorada da Gr-Duquesa.

Na carta que eu tive, Amelia formosa,

Me disseste amor...




VIII

De passagem


Entre um bom jantar e um bom espirito existe, ao que parece, uma
profunda analogia. _Tous les gens d'esprit sont gastronomes_--dizia
Balzac. De todos os animaes, o unico, que sabe comer,  o
homem--escrevia um outro auctor francez. D'este modo o jantar entre
amigos  uma quasi necessidade da nossa existencia e um salutar
incentivo a duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.

Em Portugal do-se jantares, mais como ostentao v, do que
verdadeiramente como meio de melhor expandirmos os nossos affectos, as
nossas ideias, os nossos desejos, as nossas ambies. A nossa mesa
distingue-se das mesas estrangeiras, no s pela m escolha das comidas,
seno tambem pela exaggerada seriedade com que costumamos assistir a
taes solemnidades. Dir-se-hia que, em taes momentos, estamos
presenciando o enterro de nossos paes.

Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve sobretudo correr alegre,
isento de malquerenas, semeado de phrases espirituosas e de anecdotas
interessantes. O jantar , por via de regra, um pretexto para
solidificar velhas relaes de amisade; um pretexto para nos rirmos 
vontade, um pretexto para conversarmos intimamente.

Os estrangeiros, comprehendem de ordinario estas festas, tirando os
casacos, bebendo bem e comendo melhor. Ns outros, os portuguezes que,
no obstante sermos uma caricatura viva de tudo quanto vem de fra,
tanto queremos primar pela gravidade que comprehendemos perfeitamente o
contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir sabemos. O espirito nem
sempre se amolda com todas as modulaes de linguagem. Parece que 
lingua portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel, faceto, que tanto
distingue a Frana moderna. Ns somos um povo, naturalmente indolente,
um povo de _apaixonados_, como to bem nos definiu M.^me de Sevign.

Voltemos, porm,  cosinha.

Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral ao nosso viver, a boa
elegancia, o sabor, a pimenta, que torna as comidas mais gostosas e mais
facilmente digestivas. No temos originalidade, e por isso imitamos. O
unico prato que a meu vr existe classicamente portuguez, mas
soberanamente enjoativo,  o leito. Na provincia, sobretudo, assa-se um
leito a proposito de qualquer festa. So nossos, exclusivamente nossos,
o leito e os foguetes.

Depois note-se--na nossa mesa no ha aquelle aceio que tanto seria para
desejar, e que to proverbial  entre os ingleses. Uma toalha,
perfeitamente branca, aromatica, transparente,  j de si um notavel
passo para um bom jantar. As indigestes nascem quasi sempre do mau
tempero das comidas: parece que se odeia a agua e lavam-se os
mantimentos como em baptismo de mouros.

Entre as classes mais altas da sociedade so despresadas as comidas
vegetaes. S o povo as aprecia; e porisso tambem  elle em geral mais
robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente atreito 
espontaneidade e s alegrias da vida.

O temperamento depende das condies alimenticias em que nos
encontramos. O bom e o mau humor tambem d'ellas provm. No modo, porque
nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da nossa felicidade.

As comidas, demasiadamente gordas, geram a obesidade to peculiar aos
nossos provincianos; ao passo que o alimento vegetal torna o homem
ligeiro, amavel e espirituoso.

 mesa da viscondessa respirava-se um invejavel aceio e uma limpesa
pouco vulgar entre ns. A propria toalha attrahia, no s pela sua
extrema brancura, seno tambem por uma deliciosa fresquido, que de
ordinario exhalava.

Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem sabia tratar melhor os
seus hospedes, nem com mais liberdade. Como aphorismo passava j em
julgado que eram bons, substanciosos e alegres os jantares da
viscondessa.

 que,  parte os seus caprichos, a viscondessa comprehendeu a vida
moderna, tal qual ella deve ser: commoda, aceiada e elegante.

Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes faamos por imital-a.




IX

Pobresa e miseria


 singelo o quadro; tocante at.

Uma pobre velha, habitando uma alcova humida e sombria, treme de frio,
gemendo por vezes. Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada e
nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca e ligeira, cuja grande
utilidade  aparar a agua, que a miudo se despenha do telhado.

Por uma fresta, lavrada no alto da parede, cam-se tristemente uns
tenues raios de luz. Dir-se-hia que  desgraa at o sol  vedado.

Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se uns bichos infernaes,
molles, gellalinosos. O tecto, artisticamente cinzelado pelo longo e
imperioso trabalho da aranha, quasi se no distingue d'entre a escurido
que cerca o aposento.

E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa em intima dr, abandonada
aos vermes que lhe rem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de
pustullas e de putrefaco. Querem conhecel-a?

Rica e formosa, fra esta mulher. Cheia de venturas e mimos deslisra a
sua vida, sem mais attritos do que aquelles que ordinariamente nos d o
tempo e a natureza.

Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos sonhos gentis da opulencia,
Maria sentiu-se a um tempo admirada e requestada pela mais guapa
fidalguia do seu paiz.

Seus paes, habituados quelle unico thesouro, eram inexoraveis no
cumprimento das suas profundas e intimas affeies. Nada exigia, que
para logo no fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no elles
realisar com a satisfao de um escravo, que por sua senhora arriscra a
vida.

Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e candido, no houve vento que
lhe aoutasse as tenras vergontesa. O sol, sadava-o todas as manhs, e
a primavera encontrou-o vioso, coberto de flr e de esperanas.

Veiu, porm, a tempestade. O sul rugiu temeroso. No espao
precipitaram-se as nuvens, prenhes de electricidade. A arvore, mal
segara, tremeu na sua raiz, e desappareceu da terra.

Onde estava Maria? Porventura iria ella em busca de algum anjo bom, seu
irmo?

Fragil, como qualquer mulher, Maria no ousra resistir  fatalidade que
a dominava. Fugiu. Fugiu romanticamente, por um lenol, atado  janella
de sacada, e  meia-noite.

Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, excitou naturalmente a
indignao publica. A burguesia commentou-o  noite nos clubs e cafs,
concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, impossivel de
admittir-se no seio de uma familia honesta e sria.

Em que pese, porm, aos nossos indigenas sociaes, o caso era mundano, e
frequentissimo at em mulheres demasiadamente imaginosas.

Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; no para a vida, mas para a
morte.

O rosado do rosto transformra-se-lhe subitamente numa pallidez
transparente, sepulchral, doentia. Os olhos, encovados, haviam perdido o
seu primitivo brilho. Nada existia j que no fosse triste e
profundamente doloroso.

A mulher virtuosa cahira victima indefesa, s mos de um maltrapilho
infame. O miseravel seductor, retirra comsigo o seu dinheiro e o seu
carinho.

Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, sem pae, sem me, sem
irmos, sem amigos, olhou em redor de si, e viu a sociedade que de longe
lhe acenava.

Correu a ella com um filho nos braos. Engolphou-se nos seus prazeres,
trocou a honra pelo po quotidiano, pz em almoeda a consciencia pelo
futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e chorava tambem.

Era nobre, e pagava pela corrupo commum...

A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e tanto bastava.

Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a pobresa e a miseria.

Julio, a este tempo j era crescido, e velava pela me sollicitamente.

De que poderiam comtudo valer os minguados ceitis com que lhe era
remunerado o seu trabalho de todos os dias?

Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria? quem, porventura, se
amerciaria d'aquella terrivel indigencia?

--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.

E a consciencia no costuma mentir.

      *      *      *      *      *

Julio viera, pois, da fabrica e encontrra sua pobre me moribunda, sem
remedio, sem medico e sem dinheiro.

Parou no limiar da porta. Encarou a velha de frente e viu-lhe os braos
estendidos em signal de compaixo. Extactico, cego, allucinado,
entrou-se o desventurado moo em profundo scismar.

Ao descerrar as palpebras amortecidas por um somnambulismo
infernal--Julio, emxugando os olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se,
como se do cu houvera baixado uma inspirao sagrada.

--Desgraado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar um dia
inteiro e no ter  noite que comer...  triste... muito triste...
Esgotar o sangue das minhas veias, em alheio proveito, e receber, no fim
da semana, um vil salario, que mal me chega s primeiras necessidades da
vida...  infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades e o meu
pensamento, sem outro fim que no seja o proprio aviltamento e a propria
degradao...  vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes a morte! mil
vezes a morte...

E assim cahiu inanimado o honrado moo sobre o desventurado cadaver de
sua santa me.

A scena era realmente to obscura, que mal poderia provocar as vistas
d'esse mundo, que  louco e grande.--Passou, como tudo o que  modesto,
desapercebida e ignorada.

      *      *      *      *      *

No dia immediato um raio de sol, espreitando muito de soslaio pela
fresta do telhado, apenas encontrra a solido e a ruina, na mesma
alcova, onde Julio e sua me, por tanto tempo agonisaram.

No cemiterio mexia-se uma poro de terra, afim de occultar aos olhos do
mundo o desditoso cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.

Julio nem sequer achra uma mortalha, para envolver o corpo de sua me.

Rasgou a blusa n'umas poucas de tiras, e, assim auxiliado, por mais
alguns farrapos, que ainda lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o
corpo infectado e pestilente de sua me. Porque o principal
effectivamente era occultar o crime _d'esta grande peccadora_...

Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e as tabernas continuavam
sempre atulhadas de povo.

O mesmo Julio teve a coragem de transportar o cadaver para o cemiterio e
de ahi lhe prestar as derradeiras homenagens.

Como no havia carnia, no appareceu o abutre!

Consciencia de Cain  jia que s se mercadeja no alto mercado.

Foi mais uma lei do mundo.

Convm, comtudo, registral-a para desafogo de todos ns.




X

Cousas dos Homens


Permitta-nos a leitora que um pouco nos demoremos sobre este incidente
do nosso romance. Mais tarde volveremos a fallar da viscondessa. Por
agora historiemos os factos que mais concorreram para o triumpho da
nossa heroina.

Quem era Julio? quem era Maria? e porque motivo foram elles chamados
para aqui?

Leitor: conheces a miseria? porventura j te foi dado contemplar esse
estranho espectaculo, que a cada passo se nos representa diante dos
olhos?

 beira da estrada, _ella_, estendendo-te a mo carcomida e triste,
pede-te esmola; na escurido do templo, cheia de vergonha, _ella_
occulta-se s vistas da gentalha; no recesso das florestas, arrasta-se
como um reptil, de tal maneira que ns no sabemos quem _ella_ , se um
animal, se um homem.

E, todavia, _ella_, a canalha,  filha de Deus como ns.

E, todavia, _elle_, o _Ninguem_ errante da sociedade, o _anonymo_
sublime do universo, elle, o, _trabalhador_, tambem, como ns, tem
intelligencia sentimento e vontade.

Quantas vezes, ao passar por uma rua escura e humida no tropeamos ns
com um d'esses desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio, que, no
tendo um travesseiro, onde repousar a cabea, nem uma bilha d'agua, onde
refrigerar a sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes, vive ao
acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas da noite, alentado pelo
orvalho do cu e ao abrigo vil das lageas das escadas?!

E, no entretanto, este ser existe.

Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario; existe nos
campos, e chama-se jornaleiro; existe nos hospitaes, e chama-se
miseravel; existe nas prises, e chama-se criminoso; existe nas rodas e
nos hospicios, e chama-se engeitado; existe nas ruas e nas escadas, e
chama-se maltrapilho; existe no universo, por toda a parte espalhado, e
chama-se escravo.

Sim! o escravo  o leproso sem familia, a quem s  dado sentir a dr
das suas chagas. Elle, coitado! no tem casa, nem tem jardim, nem
flores, nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem apenas, como um
magro co vadio, uns ossos que re durante o dia e umas tristesas que o
acompanham durante a noite.

E nada mais tem, o escravo!

O vicio , em geral, uma triste consequencia da falta de meios.
Perguntae ao pobre, porque se embriaga,  mulher porque se prostitue, e
ao escravo porque se vende.

Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque me quero esquecer do
sangue que vertem as minhas feridas.

Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque tenho fome.

Vendo-me--exclamar o escravo--porque a sociedade me repudia.

E teem razo. Todos tres procuram o vicio, como alivio, como necessidade
do seu espirito.

Julio era um d'esses: pertencia  rara pleiade dos independentes,
d'aquelles que o Estabelecido odeia e renga.

Muitas vezes, em creana, o pobre moo, sentado na areia da praia, e
olhando o mar alm, dissera em conversa intima, em que o homem interroga
a consciencia, a razo, e tudo quanto o cerca:

Como  grande o mundo, meu Deus!

E n'uma esperana eterna, e n'uma ambio sem limites, Julio ficava-se
horas e horas em prodigiosa concentrao, que bem lhe denunciava a
lucta, a cada passo travada no espirito nervoso e inquieto.

Mas n'este mundo so as ambies como as espumas do mar: um vento as
traz e um vento as leva.

Que importavam as illuses, se com as primeiras folhas do outomno, ellas
tinham de cahir uma a uma?

As flores d'alma vo-se com o outomno da vida.

Nem sempre porm as borboletas adejam sobre as flres; nem sempre o
mesmo sol illumina as campinas.

Ante o cadaver de sua me, Julio emmudecera. Quando a srio, e a ss
comsigo mesmo pensou na vida que no futuro o esperava, quasi
instinctivamente teve vontade de se suicidar.

Olhando, porm, para o cu, ajoelhou. Um raio de esperana lhe
illuminava a alma, at ento em trvas.

Felizes os que, como elle, sabem esperar!

A esperana conduz Colombo, e descobre mundos!




XI

Na taberna

Entrava-se por um beco immundo, torcia-se  direita, e estava-se l, no
antro do crime, em que a vida e a fortuna se joga, o bem estar, a
tranquilidade, o socego, toda a harmonia da existencia humana.

Exteriormente, apresentava a taberna um aspecto mesquinho e lugubre. Um
distico, apenas, no alto da parede indicava aos transeuntes que ali _se
vendia vinho verde_.

No largo portal da entrada, coroado por um ramo de louro, viam-se uns
traos obscenos, riscados a giz, e, ao parecer, escriptos em mar de
embriaguez.

Portas a d'entro, reinava uma alegria feroz, confusa e tristemente
desconsoladora.

Uns jogavam, riam outros, e gritavam todos.

--Salto no valete--dizia um.

--Mico no terno--interrompia outro.

E assim, brios de vinho e ambiciosos de fortuna, jogavam elles, sem
outro alento que no fosse o vicio e o esquecimento.

De subito, uma gargalhada estrugiu pelos ares.

Por uma das mesas, esgravatada e cebenta, rolou veloz um enorme cangiro
de vinho, por onde  porfia bebiam os convivas alegres.

A taberneira, mulher rolia e de cabello na venta, servia com respeito
os freguezes, na maioria lavradores e campinos.

A um canto, e sobre o junco, que cobria o lagedo da sala, estava um
bero, onde uma creana dormia tranquillamente, em companhia de um gato
malhado, velho hospede na casa.

Ao lado do bero um co, apoiado sobre as mos e com a orelha levantada,
olhava filamente na direco da porta de entrada.

Para alm do balco, duas pipas de vinho e uma pratelleira, cujas
divises continham po, queijo e figos; tudo, j se v, velho,
amarellecido pelo tempo, e modico no preo.

--Viva o nosso Julio!... viva!...--exclamaram os jogadores, voz em
grita.

O sadado moo, de braos crusados e em mangas de camisa, nem sequer
lhes respondeu.

Entrou, passeou a vista pela sala, e quedando-se com pesar, vociferou:

--Nem me, nem... dinheiro...

Como por encanto, fez-se um silencio sepulchral na taberna. O jogo
parou; e instinctivamente erguidos, correram todos  presena do Julio.

Prestes, porm, se apagou a mudez, a fim de novamente ser interrompida
pela mais temerosa de todas as vozerias.

--No pde ser; no pde ser. Abaixo a tyrannia. Vamos a acabar com
elles. Malhados de uma figa... Queremos sangue e mais sangue... que nem
um s escape... Querem-nos roubar o nosso trabalho... os infames...
Ladres abaixo... No queremos ladres... A elles... todos a elles...

A taberneira exasperada, pedia ordem, levantando os braos. Em cima do
balco latia o rafeiro agudamente. O gato, espreguiando-se, escoara-se
com mysteriosa perfidia, por entre as pipas vasias. Um raio de lua,
reflectindo-se phantasticamente sobre a cara da creana, que chorava,
produzia um contraste singular, e sobremaneira interessante. Dir-se-hia
que pela innocencia velava o cu em toda a sua magestade e grandesa.

N'um momento a porta rangeu nos gonzos.

--Em nome da lei declaro presos os desordeiros--bradou um vulto.

--Em nome de que lei?--retorquiu um dos agitadores.

--Em nome da nossa lei, em nome da lei portugueza--insistiu o primeiro,
descobrindo-se.

 vista do policia, at a taberneira gritou. Vergado ao peso de uma mo
de ferro, aspera e cortante, e apanhado a ss, o espio do governo,
atravessado por tres fortes navalhadas, rolou immediatamente aos ps de
Julio, que para elle olhava desconsoladamente.

Momentos depois a taberna estava s, escura, e triste.

      *      *      *      *      *

Quem, dois dias depois, entrasse n'esta mesma casa, e attentasse nos
personagens, ali reunidos, pouca differena de certo havia de notar.

Lia um dos operarios em voz alta a _Revoluo de Setembro_, quando
inopinadamente se lhe deparou a seguinte local:

Ante-hontem, cerca da meia noite, deu-se um grave tumulto n'uma taberna
situada para as bandas de Alfama. A policia anda em cata dos
desordeiros, e de crr  que, em breve, elles soffram o justo castigo
das suas loucuras.

Taes palavras foram, como  natural, ouvidas com terror, da parte dos
circumstantes.

Um silencio profundo envolvera a taberna. Mudos e reflexivos, ninguem
ousava proferir uma palavra.

De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se insupportavel, medonho,
confuso.

--Traio... traio...--repetiram todos.

E o silencio recomeou de novo.




XII

Perigos e consequencias


N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes os crimes mais graves,
castigando-se os mais insignificantes.

A lei penal muitas vezes d existencia aos crimes, imaginando penas para
delictos imaginaveis.

Parece que a justia social nem sempre cumpre o seu dever. O roubo corre
muitas veses authorisado pela lei, n'um inpudor por tal frma inslito,
que de vergonha faria crar uma bachante.

A cada passo, e com a maior facilidade, se sancciona uma injustia. Quem
no tem padrinho, morre mouro--diz o rifo. E o certo  que o pobre, o
eterno Job da orphandade,--se no morre mouro, morre, pelo menos, de
atrophia, indigente, sem po, sem agua, e o que  mais, sem espirito.

Ao percorrer as humidas cavernas--morada e abrigo dos proletarios--de d
se nos enlucta o sentimento. Como  que a Providencia to prodiga e
generosa; como  que o sol, alargando seus raios encantadores, tanto
pelas cumiadas das montanhas mais longinquas como pela escurido dos
valles mais reconditos--como  que todo este mixto de luz e de cu, pde
consentir o infortunio no mundo?

A aspirao  sde que se no extingue. Mas aspirar sem esperana;
anceiar sem uma possibilidade de realisao final, deve ser triste,
muito triste, para j no dizer desesperador.

Para voar, concede a naturesa azas  aguia. Assim tambem para sermos
livres, rigorosamente livres, para executarmos os vastos planos da nossa
vontade, carecemos ns de meios, sem os quaes tudo nos seria baldado e
inutil.

E dizem que a lei  egual para todos!

Entre dois cidados--um casado, outro solteiro, um pobre outro rico--que
soffrem a mesma pena, onde  que est a egualdade?

Divagando, porm, iamos fugindo do nosso caminho. Voltemos ao romance.

A policia no afrouxra nos seus esforos. Indagou, correu, perguntou.
Ao cabo de uma semana, estavam seis individuos dados por suspeitos.
Entre elles indigitra-se Julio como um dos principaes cumplices no
crime acima descripto. Se fra ou no acertada a escolha, isso s os
factos posteriores o podero affirmar. Por agora basta que o leitor nos
acompanhe.

Dolorosa  a recordao do carcere. Sem luz e sem ventilao, so as
nossas cadeias uns verdadeiros antros, cuja atmosphera impregnada de
particulas venenosas, quasi sempre gera no seu seio os vicios mais
execrandos e as doenas mais incuraveis.

Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo, poder, talvez, iniciar-nos
nos verdadeiros mysterios d'este inferno.

Ouamol-o.

Um homem rico decahira um dia da sua fortuna. Habituado s commodidades
da vida, encontrou-se repentinamente privado do necessario. Acostumado
aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou. Quatro filhos o encaravam.
Uma esposa lhe sorria. Fra bom o seu corao. Nunca at ali se dera um
unico facto que lhe manchasse a consciencia. Examinou os bolsos.
Dinheiro no havia j. Recorreu ao trabalho. O trabalho fez-se esperar.
Mendigou. Ainda era pouco. Os filhos continuavam a chorar. A esposa
continuava a morrer. Que fazer, pois? Roubar. E roubou. Roubou um po
porque tinha fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel como a
Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para o Limoeiro. Pediu-se,
sollicitou-se, em nome da desgraa. Tudo embalde! Os poderes publicos
cumpriam o seu dever. N'uma casita humida, situada ao Salitre,
definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro creanas e uma mulher. No
Limoeiro creava-se mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E tudo
isto com uma prodigiosa simplicidade.

 a historia de Valjean sem o auxilio do arcebispo!

Ao moo-operario no succedeu, felizmente, outro tanto. A Providencia
encarregou-se de velar por elle. E o certo  que a evaso de cinco
presos deu-se rigorosamente n'esta poca. Julio foi um dos que, a salvo
da prudencia, recuperaram a liberdade.




XIII

Continuao


Seriam 2 horas da madrugada. A lua brilhava em pleno espao. O Tejo era
Sereno. Apenas de longe em longe um rumor surdo, vago, incomprehensivel,
acordava a naturesa do seu pacifico somno nocturno.

Por sobre as mansas aguas deslisava um bote suavemente. As estrellas,
reflectindo-se na bahia, similhavam, pela vivacidade irrequieta do
brilho, um cardume de peixes em debandada. A virao era fresca, e
deliciosamente salutar.

Cantavam os remeiros, umas tristes canes, repassadas de melancholia e
de patriotismo. Os remos, batendo na agua, produziam o effeito de um
chrystal facetado, em desordem, mas atrahente.

Nem uma dissonancia sequer apparecia n'este immenso panorama, a um tempo
eloquente e respeitavel.

 que a alma da naturesa, symbolo do infinito sobre a terra, 
incomparavelmente superior  alma do homem, expresso do contingente e
do relativo.

As montanhas, elevavam-se a distancia, na firme immobilidade de
phantasmas. Dormia a cidade socegadamente. No convez de um navio
mercante ladrava um co da Terra-Nova. Nas embarcaes de guerra
ouvia-se distinctamente e com rarissimos intervallos o passo moroso das
sentinellas.

Os catraeiros cantavam sempre:

    Vai alta a lua! na manso da morte
    J meia noite com vagar soou;
    Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte
    S tem descano quem ali baixou.

E ao longe os echos repetiam a ballada do poeta.

O escaler abicou, emfim,  praia. A aurora comeava a roxear o
horisonte. Uma luz delicada, fina, como a porcellana, transparecia por
entre nuvens.

Um vulto de homem, embuado n'um largo capote, saltou  praia.

Julio, fugitivo, tomra a prompta resoluo de por algum tempo se
occultar no bairro de Alcantara.

Duas palavras ainda sobre elle:

Julio era um rapaz ambicioso. Amava egualmente a liberdade e o trabalho.

De tmpera rija, era o seu caracter. Odiando o jesuitismo, por
instincto, no poucas vezes chegra a commetter excessos e desvarios.

Frequentava a taberna, do mesmo modo que ns frequentamos o caf; ali
discursava com os companheiros, concluindo sempre em favor da liberdade
e contra a reaco.

Na noite em que o prenderam exclamra elle para os camaradas de
trabalho:

Nem sempre a escravido ha de pesar sobre ns. Quem tiver coragem,
acompanhe-me. Uma vez que no querem a paz, acceitaremos a guerra, mas
uma guerra sem trguas, uma guerra eterna e violenta.

D'este modo Julio era a perfeita personificao do escravo, que,
sentindo a grilheta ao p, deseja emancipar-se e tornar-se homem, como
os seus similhantes.

Alfredo, no tendo coragem para realisar os seus planos, embora bom e
generoso no fundo, tornara-se devasso, e adormecera inconscientemente
nos braos da sensualidade estupida. Julio, no! Julio estava puro;
reagia ainda com heroicidade contra a geral corrupo da sociedade.

Entre estes dois homens, ambos moos e sympathicos, existia uma
differena apenas: Alfredo pertencia  mocidade dos cafs,
incomparavelmente mais inutil que a mocidade da taberna, composta, na
generalidade, por operarios honestos, como Julio.

Mais tarde, porm, nos encontraremos novamente com Alfredo.




XIV

Novos mundos


Penetremos em Alcantara.

 um bairro pobre, habitado por operarios, n'uma grande parte, e por
homens do mar.

Na extrema do riacho, para a direita, alveja uma pequena casa, situada
na falda de um monte.

Para ahi entrou Julio, a fim de se occultar s pesquisas da policia.

Durante o dia conservava-se fechada a casa, como querendo demonstrar ao
publico, que ella era realmente deshabitada.

 noite quatro operarios, voltando do trabalho, batiam de mansinho 
porta.--Julio percebendo pelo toque ser os companheiros, levantava-se da
enxerga em que de ordinario jazia, e dava volta  chave.

No interior da habitao reinava a miseria em toda a sua hediondez.

Uma enxerga apenas, abrigava, durante a noite, cinco esqueletos de
homens, sem alegria, sem po e sem futuro. Os mumias da desgraa!

De manh, ao levantar, reuniam quatro ou seis trapos velhos, e, por
vergonha, occultavam  multido os proprios ossos do corpo.

Na cosinha existiam, por acaso, duas cdeas de bra, arrancadas aos
dentes das cadellas leprosas, uma bilha com agua e um pequeno ramo de
carqueja.

A estes quatro animaes, trabalhadores n'uma fabrica de lanificios, se
incorporara Julio.

Pouco tempo, porm, durou similhante situao. Ao cabo de alguns mezes a
policia lanra as suas vistas para os lados de Alcantara. Isto
soube-se, e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo j viciado por
toda a casta de corrupo.

Com nova to para desesperar, quasi endoideceu o moo-operario. Uma
noite mesmo, encontrando um policia civil, e tomando-lhe da mo direita,
disse:

--Ol--sabe quem eu sou? Ah! no sabe? pois bem: fique sabendo...

E fugindo, estendeu-o no cho com uma fortissima bofetada.

Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade. Por tradico
conhecia Julio um velho aldeo, de quem a me repetidas vezes lhe
fallra. Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou a
provincia, onde lhe sorriram os primeiros raios de felicidade.

Mas Julio j no era o mesmo homem. O desanimo ganhara-o por momentos. 
condo da miseria transformar o homem physica e moralmente num monstro
de paixes.

A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe a olhos vistos. No
corao principiavam os espinhos a crescer e a vegetar. Emfim, aos ps
do operario um abysmo, um immenso abysmo se abria.

E ai do homem, que um momento escorregar no precipicio; porque para esse
no haver salvao possivel.

A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a ser uma eterna peccadora. O
homem que um dia se prostituiu, fica para sempre prostituido.

Nem sempre, porm, nos abandonam os anjos do cu.

 beira do despenhadeiro tivera Julio o seu anjo da guarda.

Abenoada a mo, que n'um raio de amor nos traz a esperana e a
consolao!




XV

Primeiros amores


Um sol ardente batia de chapa sobre um eirado de pedra, em cujo espao
se abrigava cuidadosamente o fructo de uma boa colheita de milho.

Ao lado, e fra do alpendre, elevavam-se tres medas de palha, unico
alimento annual, aos pacientes trabalhadores d'aquelle campo.

Por entre as louras e amontoadas espigas brincavam em candida innocencia
duas formosas e galantes creanas.

A tarde declinava docemente. No pinheiral longinquo gemia a rla uns
tristes e magoados queixumes. Os cantos jubilosos dos lavradores iam
perder-se nas solides distantes. O cu era sem nuvens; e as aguas de
chrystal, mansas e innocentes, como as lagrimas de uma creana,
deslisavam com ligeiros attritos, atravez dos terrenos pedregosos.

Um co preto, guardador de gados, saltando alegremente, annuncira em
repetidas curvas, a proxima chegada de seu dono.

A pouca distancia d'ali assomou logo um velhote de rosto prasenteiro e
agradavel. As duas creanas, erguendo-se de um pulo, desappareceram por
entre a sombra do arvoredo.

Apenas um moo, altivo, de tez morena e bronseada, permanecra na mesma
posio sem dar por cousa alguma do que em de redor d'elle se havia
passado.

O velho chegou, trazendo os dois pequenos pela mo. Olhou com piedade
para a estatua da tristesa, que to profundamente o impressionava,
abeirou-se d'ella, e prorompeu nos seguintes e magoados termos:

--Ento que  isso, meu Julio? to triste e pesaroso? j lhe no valem
de nada as palavras d'este velhote, que tanto do corao lhe quer? e
esta familia que  a sua? Ora vamos, mostre-se alegre para comnosco.
Aperte-me esta mo que  rude, mas honrada. Seja-me franco, se alguma
cousa o afflige. Nada receie. Olhe que todos ns o estimamos devras.

--Meu Pae...--exclamava Julio, debulhado em lagrimas,--meu bom Pae...

O lavrador, puxando por um leno encarnado, que habitualmente trazia no
bolso direito da jaqueta, muito de soslaio limpou os olhos humedecidos.
As duas creanas, acompanhando-o, como que por instincto lhe beijavam as
mos bemfazejas.

O sol, atufando-se nas aguas do oceano, reverberava por sobre a terra
silenciosa os seus derradeiros raios. A brisa era tpida, como a noite.
Algumas folhas sccas, prenuncio do outomno, alastravam o slo.

Julio entrara-se em doloroso scismar. A ss comsigo mesmo, pensou muitas
vezes no suicidio, companheiro e amparo dos que soffrem. Mas no. Uma
esperana o alimentava. Um vago ideal o seduzia.

Aps profundo meditar alou a cabea para o cu. A imaginao cedera o
seu logar  intelligencia. Julio estava salvo. A seu lado respirava um
archanjo celeste.

Olhou. Cecilia, a pomba immaculada, depositara aos ps do seu amante uma
bolsa, cheia de libras, thesouro de trabalho e de economia.

Que esplendida creana! e que nobilissima abnegao!

--Tu aqui, Cecilia?...

--Sim, aqui, ao p de ti, meu Julio. Tudo adivinhei. Se  preciso que
partas, parte: vae procurar a fortuna, por que tanto anceias. No entanto
lembra-te sempre de que deixas n'esta casa no s um pae que te estima
mas tambem uma mulher que te ama.

--Cecilia, meu doce amor, como eu quizera ser feliz comtigo. Mas tu bem
vs, minha filha: sou pobre, nada tenho. Repudiado pela sociedade, que
me julga um criminoso, apenas a tua e a minha desgraa poderia fazer
n'este momento. Parto manh. Com o nome mudado, entrarei n'uma fabrica.
Trabalharei, trabalharei muito. E tu, Cecilia, que s boa e meiga, como
as estrellas do cu, no me esqueas nunca nas tuas piedosas oraes.
Deus ha de ouvir-te, porque Deus tambem  bom. Um dia, quem sabe?
voltarei rico a esta casa. Tenho f em Deus que hei de voltar. E tu
tambem tens f, no  assim, Cecilia?

--F, meu amigo, s eu tenho na morte. Alguma cousa me diz que a
felicidade no foi feita para ns. Paciencia. Que, ao menos, o cu nos
receba!-- este o meu maior desejo.

Um curto, mas doloroso intervallo se seguiu a estas palavras. Cecilia,
sufocada pelos soluos rasgava com os proprios dentes as pontas do
avental, chorando amargamente.

Julio envidava todos os seus esforos afim de a consolar. Nem um nem
outro, porm, sabiam o que faziam.

--Vamos, meu Julio, assim  preciso. Animo, animo e adeus...

Um abrao os reuniu; e um beijo--um prolongado e triste beijo os
separou.

..........................................................................

Oito dias depois, Cecilia mostrava a seu pae uma carta de Julio, cuja
leitura elle terminou chorando.

--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho, limpando os olhos com as
costas da mo.

E voltando-se para sua filha, comeou de beijal-a ardentemente.

Doce esperana do cu lhe illuminra a fronte, encanecida na virtude e
no trabalho!




XVI

Transformaes


Eu no sei qual seja melhor: se o ar do campo, se o ar da cidade.

 certo que muitos preferem a provincia  capital. Tambem  certo que os
doentes, por via de regra, se no do bem nos grandes centros:
Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade nativa da aldeia,
tem para mim o supremo encanto da actividade e do trabalho. O silencio
prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento deploravel,
quando no  elle o gerador de graves e dolorosas molestias.

A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes attrahem-nos
docemente. O ruido dos cafs desperta em ns o desejo da mutua
confraternidade. Se por acaso atravessamos uma rua bastante concorrida,
paramos instinctivamente; olhamos para as _vitrines_ das lojas,
admiramos um objecto mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.

Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no tempo em que as arvores,
despidas das esplendidas _toilettes_ do vero, se nos mostram tristes e
sombrias como a velhice. Ento -nos o calor mui doce e suave lenitivo.
 luz pallida do gaz distendem-se-nos os musculos enregelados, e
enchem-se-nos de vida os membros confrangidos.

O caf  uma inveno puramente da cidade. _Rendez-vous_ de todas as
classes sociaes,  elle para a humanidade o mesmo que a familia  para o
homem.  noite, ao cahir da tarde, quando as tristesas--aquellas vagas e
mysteriosas tristesas do crepusculo--comeam de entrar comnosco, ns,
incitados por um desejo ardente de meigas e salutares expanses,
procuramos o caf naturalmente. Para alli nos dirigimos, como se elle
nos fra um templo sagrado; l temos a nossa communho de ideias e
interesses--uma profunda e natural communho, onde os amigos se
encontram e os estranhos se abraam.

E o theatro? e os circos? e os passeios? e a musica?

Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria. A rcita  dada em
beneficio de um asylo. A plateia est replecta de espectadores, e nos
camarotes, como que resplandecem, em glorioso desafio, as mais
encantadoras formosuras de Lisboa: Como se disse no segundo capitulo
d'este romance, o drama escolhido para esta noite era a _Vida de um
rapaz pobre_. Apparecra a Viscondessa, n'uma das frisas da frente,
ostentando, um delicado decote, um cllo d'alabrasto, ao qual estava
cingido um valioso collar de prolas. Proxima d'ella, e na frisa
immediata, uma condessa rica, enlvo dos negociantes accreditados,
mostrava uns braos gordos, a cujos pulsos, por egual gordos e sadios,
se enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas na mais afamada
ourivesaria de Paris. Mais alm uma menina loura, ha pouco sahida do
collegio, tomava _poses_ incontestavelmente estudadas ao espelho,
olhando de soslaio para um moo ainda imberbe, _soi-disant_ litterato de
botequim e _claqueur_ improvisado.

E assim succediam os factos, as pessoas e as cousas. Nas torrinhas
estavam, segundo o costume, alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns
bons rapazes despretenciosos,  mistura com alguns operarios zelosos e
trabalhadores.

No fim do 3.^o acto, quando Alfredo entrava na frisa da Viscondessa, um
ignorado personagem se levantou nas torrinhas, replecto de amor e de
febre. Desceu as escadas com desusada precipitao, e entrou no
restaurante. Pediu aguardente de canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu
uma folha de papel de carta, e com um lapis que trazia no bolso do
casaco, escreveu um bilhete.

Embuado e trmulo, esperou que o espectaculo terminasse. Quando, por
entre a multido que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem
atinar com a inteno dos seus actos, allucinado, doido,
perdido--acercou-se della, entregou-lhe o bilhete, e fugiu.

Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso, e agora j
transformado em Jos Xavier, em virtude das leis do teu paiz.

O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo que se te abriu aos ps.

Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te fra consolao momentanea
nas agruras da vida; e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma
partida com a doce imagem da mulher honrada que por ti velava dia e
noite.

Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles, que, como tu, soffrem as
mesmas e tristes inconstancias, a cujo horrivel imperio no ha nunca
resistir n'este mundo de phantasmas e de vadios.

Pobre de ti!




XVII

Allucinaes


Quando alguma ideia nos preoccupa o espirito fortemente, o nosso
primeiro movimento  estar s, isolado, em intimo colloquio com os
nossos desejos.

Momentos ha em que aborrecemos a luz, como supremo escarneo aos nossos
soffrimentos. N'este caso  a conversa de estranhos muitas vezes levada
 conta de uma ironia pungente. Queremos fallar, e no podemos.
Desejamos abrir os olhos, e conservamol-os fechados. Esforamo-nos por
chorar, e as lagrimas no correm. Ento, sequestrados da sociedade, e a
ss com a nossa dor, imploramos de Deus o soccorro da morte e a hora
suave do passamento.

Julio estava perdido. Tentou ser homem, mas embalde.

Pela primeira vez na sua vida entrou n'uma casa de jogo. A sorte foi-lhe
adversa.

Com os cabellos em desalinho, os olhos chammejantes, e o corpo numa
ancia infernal, entrou o apaixonado moo n'um botequim.

Bebeu, e embriagou-se.

A paixo  muitas vezes creana. O amor  caprichoso, quasi sempre
doentio, e por via de regra em extremo exigente.

Ora a febre tem um periodo de excitao, o qual, apenas terminado, gera
o aborrecimento e um indefinivel mal-estar.

 louco o homem que ama sem raciocinio, doidamente entregue aos excessos
da imaginao e da phantasia. Acima do amor est a amisade.

O amor  um relampago em cu de trovoada: passa, e no dura.

A amisade  um sol que, mesmo atravez das tempestades, se conserva: no
tem azas como a aguia, mas em compensao tem raizes como a arvore.

A amisade  sempre amorosa; o amor nem sempre  amigo.

Para amar basta que se seja um bom amigo; para ser amigo  que no basta
s o amor.

O amor  um capricho, que pde provir de uma apparencia mal entendida.

A amisade no! A amisade nasce da reflexo combinada com o tempo.

Quantas vezes no  o amor filho do ciume?

Quantas vezes nos no deixamos ns arrastar por uma simples exaltao do
nosso temperamento?

A nossa esposa deve ser a nossa primeira amiga. Na convivencia ha tempo
para estudo. Ai! d'aquelle que se deixar arrastar pelo fogo das paixes,
porque para esse devem ser as as desilluses um quasi assassinato moral.

Julio estava cego; caminhando s apalpadellas mal podia atinar com o
caminho.

Depois de ter jogado, depois de ter bebido, sahia para a rua.

Se o jogo  como o vinho uma embriaguez, nem porisso o amor deixa de o
ser tambem.

Quasi nunca a paixo apparece s. Um homem apaixonado  um aventureiro,
um espadachim, que anda atraz da sorte, desafiando-a. E porisso  que os
tres irmos gemeos--o jogo, o vinho e o amor--caminham sempre unidos e
accordes.

Julio, brio, ameaou as estrellas, riu-se da lua, escarneceu do cu, e
insultou-se a si.

A embriaguez tem d'estas oscillaes inexplicaveis: no principio 
vigorosa, athletica, muscular, at que a pouco e pouco enfraquece,
tornando-se inerte, covarde, miseravel: similhante a um homem que,
cahindo no abysmo, solta a principio uns gritos agudos, lancinantes, e
que a final, desesperado e sem fora, se deixa escorregar para o fundo,
onde adormece no leito do universal esquecimento.

Julio, sem ser cadaver, era no entretanto um alucinado. E o alucinado s
dista do cadaver, em que aquelle  um morto ambulante, ao passo que este
 apenas um morto inerte, estupido e incapaz de movimento.




XVIII

O escudeiro da senhora Viscondessa


Apenas sahido do theatro o primeiro pensamento de Julio fra
suicidar-se.

Alguma cousa, porm, impossivel de explicar-se, o prendia  vida. Demais
elle era novo; contava vinte e seis annos, se tanto; possuia aspiraes
em larga escala; vastos affectos lhe referviam na mente escaldada. 
verdade que at ahi a pobresa o no deixra sahir do seu silencio. Que
lhe importava, comtudo, a obscuridade do presente, se o futuro lhe podia
ser de amor e de rosas?

Uma lucta desesperadora se lhe travou ento no espirito irrequieto.

--Sim! a vida--exclamava elle--oh a vida... e chama-se a isto vida...
Mas se ella de facto me pertence, porque me no hei de eu desfazer
della? se por naturesa, Deus me creou livre; se para mim nada existe na
terra, alm d'este fardo importuno a que chamam miseria, para que
persistir n'elle. No!  mister sahir d'este salo, d'este vil salo!
cuja rea denominam universo: procurar um outro, cujo comeo  o
cemiterio, e o fim, talvez, a eternidade da materia... Os homens... que
so os homens? uns tristes egoistas sem consciencia e sem pundonor, uns
mercenarios torpes, altivos invejosos e estupidos... perfeitamente como
os outros animaes... Mas aquella mulher! e qual? Cecilia? oh, Cecilia 
uma andorinha cheia de castidade, muito pura e muito simples. E
depois--que lhe devo eu? se me teve amor, tambem eu a amei... se me deu
affectos, tambem eu lh'os retribui. Acima d'ella, porm, est a
Viscondessa. Comparl-as? oh! no, por Deus, Cecilia  uma pobre
rapariga sem arte; falta-lhe a elegancia da Viscondessa, no sabe
fallar, no se sabe vestir, no se sabe pentear... para que hesitar,
pois? Ah! louco, que eu sou na verdade! mas se esta imagem me persegue
por toda a parte, se a no posso apagar da memoria, porque me est aqui
parada, aqui, aqui bem dentro, n'este corao maldicto... Sou pobre!
Embora! tornar-me-hei rico; irei ao Brazil; amontoarei dinheiro sobre
dinheiro; far-me-hei negociante e vendedor de caf.

Assim monologava o moo operario, de si para comsigo, sem outro alento
que no fosse uma paixo profunda, ardente, vulcanica. Sobre a espaosa
fronte cahira-lhe o cabello n'um singular desalinho. Os braos, crusados
ao longo da mesa, bem patenteavam a afflicao que n'aquelle momento o
devorava. No interior do peito referviam-lhe as negras chammas do
supplicio--aquellas chammas infernaes, remordentes, que nos so, como
que o applo de Satan sobre a terra.

Adormeceu. Um languido torpr se lhe apossou dos membros canados.
N'esses raros momentos de nervosa agitao, uma hora de somno vale mais
positivamente, muito mais, do que uma noite bem dormida.

Quando voltou a si era dia claro no horisonte. Abriu a janella, e tomado
d'uma ancia incuravel, alongou os olhos pelas montanhas longinquas.
Similhante ao peregrino, que, com os olhos vidos, mede a extenso do
deserto, assim elle tambem mediu a extenso da sua dr. Se era grande ou
pequena, s o espirito ao certo lh'o poderia affirmar.

Entretanto a Viscondessa, nem sequer se lembrra mais do bilhete
recebido no theatro. No dia seguinte, porm, seriam quatro horas da
tarde, quando Virginia lhe annunciou a visita de um operario.

A Viscondessa, na sua proverbial delicadesa, mandou-o entrar para a
sala.

Um minuto depois parava ao limiar da porta um sympathico rapaz de bigode
preto, macillento e moreno. Trajava modestamente uma bluza azul e uma
cala cr de cinza.

--Disseram-me que a senhora Viscondessa precisava de um
creado--principiou o desconhecido.

--Como se chama?--interrompeu a senhora.

--Jos Xavier.

--Jos! pois bem: agrada-me o nome. Pde ficar. Virginia que lhe diga o
que tem a fazer.

E, sem mais, virou-se a viscondessa para o outro lado, retomando a
primitiva posio.

Ao jantar alguns incidentes notaveis se deram. Julio servia  mesa. Com
os olhos sempre fitos na Viscondessa mal pestanejava, o pobre do rapaz.
Por algumas vezes lhe cahiram os pratos da mo; por algumas vezes
substituiu um prato lavado por um outro sujo; por algumas vezes se riu
Virginia a bom rir. Para tal, porm, nem sequer a ama reparou em meio
das suas caprichosas divagaes.

Os dias iam correndo em silencio. Julio, ardendo em amor, seguia, como
um co, os mais insignificantes passos da Viscondessa. Quando ella
passava pelo corredor, occultava-se atraz das portas; se podia,
beijava-lhe a fimbria do vestido; quando ella sahia, entrava-lhe no
quarto de vestir e ali se ficava horas esquecidas n'uma d'estas
allucinaes que s conhecem os espiritos febris e nervosos. N'um
momento de cegueira, roubara-lhe o, retracto do album; com elle
adormecia todos os dias, e com elle tambem entrava no servio da casa.

Entretanto o diabo arma-as, quando menos a gente as espera.

Julio penetrra no quarto de sua ama. Involuntariamente se demorou mais
do que o costume. A Viscondessa entrou cdo n'esse dia. O escudeiro mal
tivera tempo de se esconder d'entro de um guarda-roupa.

Ia Virginia, segundo o seu habito, a abrir o armario; quando Julio,
dando um pulo para fra, deixou espavoridas ama e creada.

--Ai! credo! Jesus! gritou Virginia--Ladres em casa; ladres, minha
senhora.

--Que ? que ?--exclamou a Viscondessa.

--Pois no viu? O tratante do Jos aqui fechado!

--O Jos--retorquiu a senhora!

--O Jos, sim, minha senhora, o Jos...

-- verdade, senhora Viscondessa; fui eu, fui eu que commetti este
enorme attentado--obtemperou Julio, trmulo de colera e de raiva. E para
prova, aqui me tem a seus ps, sollicitando-lhe perdo.

--Virginia, disse a Viscondessa, paga a este miseravel, o manda-o
embora.

--J, minha senhora.

--Bem me queria a mim parecer--murmurava a esperta da creada--que aqui
andava sua cousa encoberta.




XIX

Falla o corao


Ser verdade que o corao tambem falla?

Uma cousa  amar, outra cousa  desejar. O amor deriva do corao, foco
de toda a vida humana; o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro pertence
o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensao. At aos trinta annos o
amor pde dizer-se sentimento; o que, por via da regra, no succede j
d'ahi por deante, em que elle se transforma n'um desejo material.

O amor depende, sobretudo, da educao; e assim pde ser maior ou menor,
consoante o estado moral do individuo em que elle se manifesta.

O amor mais verdadeiro  aquelle que se no exprime. A attraco de
sympathias deve dar-se naturalmente sem necessidade de expanses, que
lhes viciem a puresa inicial.

O selvagem, por exemplo, ama at ao ciume. Quando no pde saciar os
seus desejos, apunhala-se a si ou apunhala a amante.  que o selvagem,
na sua natureza desordenada,  um diamante por lapidar.

O ciume accusa falta de confiana na mulher a que nos dedicamos, s por
um inconcebivel egoismo poderemos ser arrastados a um vicio to
execrando, como abjecto.

Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem, forte, violento. Tinha
ciumes della; seguia-a por toda a parte; e no raro succedia fechar-se
n'um quarto, e ahi, com o retracto deante de si, chorr e chorar
copiosamente.

Ora a Viscondessa era de facto uma mulher bem educada, mas soberanamente
viciada pela lisonja dos homens.

Tres so de ordinario as causas do orgulho na mulher: a formosura, a
riquesa e o nascimento.

A formosura, pela demasiada contemplao das proprias qualidades, gera o
_coquettismo_; a riquesa a vaidade; o nascimento a soberba.

A mulher formosa tem em si mesmo a causa da sua destruio. Lisonjeada
pelos homens, torna-se inconstante. Depois, note-se--a inconstancia  um
excesso de ternura, uma superabundancia de bondade.

A simulao  propria s mulheres. Ao amor fingido de uma mulher
corresponde de ordinario o amor mentiroso de um homem. As mulheres
fingem, porque, desde creanas, as ensinaram a fingir.  um vicio de
educao.

A riquesa  a antithese da virtude. Foi a pobresa que gerou a caridade.
Mulher rica  mulher, quasi sempre, voluntariosa; muito senhora de si,
deseja ser obedecida como rainha.

O nascimento nem sempre  um prejuizo. Ha mulheres aristocraticas em
cujas aces se revela a suprema distinco.  mais para temer-se o
excesso de republicanismo, do que o excesso de aristocracia.

A Viscondessa era simultaneamente formosa, rica e nobre. Se desattendia
as expanses do operario, invisiveis para ella, no era tanto por
orgulho, que realmente no tinha, como, e principalmente, por uns
ligeiros, mas inapagaveis, vestigios da infancia.

 justo que o corao do homem seja equilibrado pela intelligencia da
mulher. Mas Julio amava sem ser amado, o que  decerto uma loucura,
baptisada com o nome de martyrio.

Amor no correspondido,  amor que degenera em odio.

Homem allucinado no reconhece meio termo: ou ama com paixo, ou odeia
com rancor.

Julio, qual outro viajante, deixara-se seduzir por uma miragem doce e
agradavel. Olhou. A vertigem toldra-lhe a vista. Quando descerrou as
palpebras  luz do dia, um peso enorme lhe obscurecia o cerebro. Quiz
pensar e no pde.--Mas que terei eu, interrogava a si mesmo. E, em
redor d'elle, tudo annunciava um vago e mysterioso silencio.

Estava apaixonado.

O corao batia-lhe d'entro do peito com viva e prolongada violencia. A
cabea era fria, e os sentidos mal davam accordo de si.

Ai! d'aquelles que s a voz do corao escutam, porque para esses  a
paixo um ignorado martyrio e a vida um tristissimo cemiterio.




XX

Casa burguesa


Era um gosto entrar a gente em casa do sr. Francisco Alves. Tudo
respirava ali um aceio, por tal frma invejavel, que o espirito em
verdade se sentia bem, muito bem, ante aquella limpesa, to rara em
Portugal como prodiga em qualquer outro paiz.

No bairro de Alcantara era o sr. Francisco conhecido como um modelo de
philantropia e de bons sentimentos. Os jornaes por vezes resavam da sua
pessoa, assim como da sua catholica esposa, a sr.^a Felisbella de
Menezes.

Emfim o sr. Alves era modesto sem ostentao, simples sem atavios, e
amavel sem rancor.

O sr. Francisco Alves era o que em boa linguagem se pde dizer--um
portuguez de lei.

De um rico tio provinciano herdra elle uns dez contos de reis, em metal
sonante, com os quaes comprou uma mercearia bem fornecida e j bem
accreditada na capital.

Atirou-se, pois, o sr. Francisco ao negocio, e sempre com fortuna e
sempre com bons auspicios.

Um dia virou-se elle para a esposa, e disse:

-- Felisbella, se tu quizesses, uma vez que foi esteril o nosso
matrimonio, traziamos um rapasito para casa, e adoptavamol-o como nosso
filho? Que dizes?

--Olha, menino--tu bem sabes que eu estou por tudo o que tu quizeres.
Vae tu mesmo a um asylo se assim te apraz, e escolhe-me l um pequenote;
mas que seja bonito, entendes?

--Pois est dito, mulher! amanh tratarei d'isso.

E, com taes intenes, deitou-se  noite o sr. Francisco Alves, n'um
bello colxo de commoda l.

Veio o rapaz para casa. A sr.^a Felisbella queria-o para doutor, o sr.
Francisco, para merceeiro.

O pequerrucho era engraado, muito engraado, cheio de bons ditos e de
palavras amaveis.

 sr.^a Felisbella tratava elle por _mam_, e ao sr. Francisco por
_pap_.

--Sempre tem uma graa, este pequeno!--dizia o Alves, s vezes para a
mulher.

--E os ditos ento? se tu lh'os ouvisses... retorquia a bondosa da sr.^a
Felisbella.

--Pois, menina, parece-me que d em doutor o diabo do rapazelho.

--Ora! se eu bem t'o dizia.

--E tinhas razo, tinhas, l isso tinhas. E ha de ser um doutor, assim
elle queira.

O rapaz cresceu. Foi para a escola, e deu boa conta de si. Foi para
Coimbra, e tomou grau em direito. Depois metteu-se advogado, e  hoje um
dos mais distinctos homens de lettras do nosso paiz. Sempre grato 
sr.^a Felisbella, visita-a todos os dias. Ao sr. Francisco Alves j
advogou algumas questes, e, ao parecer, com gloria para ambos.

No parava, porm, aqui a abnegao do sr. Francisco.

Acontecia frequentemente elle vir para casa mais tarde do que desejava.
Se por acaso encontrava algum pobre estendido na rua, ao relento e ao
frio, levantava-o, e trazia-o comsigo. Chegado ao lar mandava-lhe
arranjar uma boa ceia, vestia-o no dia seguinte, e deixava-o seguir o
seu caminho.

E a isto, leitor generoso, chama o mundo ser boal.




XXI

Consideraes


A nossa sociedade  essencialmente burguesa. Actualmente todos gritam
contra o burguezismo, e entretanto ninguem est isento d'esse peccado,
se peccado se lhe pde chamar. E cousa singular! ao passo que a
aristocracia vai descendo at s regies do plebeismo, a burguezia, por
seu turno, eleva-se, e tenta em breve ser a Excellencia do paiz.

O moderno fidalgo portuguez no existe j. Antigamente um aristocrata,
_pur sang_, tornava-se respeitavel por uma educao sisuda e por uma
illustrao opulenta. Hoje d-se perfeitamente o contrario. O bom
fidalgo, _faia_ de recente data, abandalha-se na convivencia dos
cocheiros, tocando o fado pelas ruas, durante a noite, picando touros,
usando jaqueta e facha de seda e vivendo entregue  ociosidade, que  o
vicio, e  embriaguez, que  a doena e muitas vezes a morte.

Outr'ora havia um certo pundonor em conservar intactas as tradies de
familia, demonstrando-se assim que a honradez do nome  um dever
sacrosanto para verdadeiros fidalgos.

Agora no! Uma pateada, dada num theatro a uma actriz, um conflicto
levantado em qualquer praa publica, uma desobediencia  authoridade, um
adulterio commettido com a mulher do seu amigo intimo: tudo isto so
peripecias galantes para a nossa mocidade, que,  falta d'outro, tem o
estimulo do egoismo e da arruaa.

Ora eu peo licena a s. ex.^as, os srs. viscondes, para lhes notar que
no  esse o caminho da nobresa. Deus me defenda de offender melindres,
que muito longe esto d'esta regra. Excepes existem, e alis excepes
respeitaveis.

Afigura-se-nos, porm, que a instruco  presentemente mais peculiar 
burguesia do que  aristocracia. D'entre os burgueses raro  aquelle que
no tem a sua livraria sufficientemente enriquecida de bons auctores, e
rarissimo ainda mais aquelle que no l tres ou quatro jornaes todos os
dias.

Os filhos da burguesia seguem as escolas publicas, occupam os primeiros
logares do estado, e possuem actividade e intelligencia em larga escala.

Onde existe maior gru de moralidade: na aristocracia ou na burguesia? E
o trabalho, d'onde sahe elle? E as revolues, a quem as devemos ns,
seno  burguesia?

No ha classe alguma da sociedade que, passado um certo numero de annos,
se no corrompa.

As classes so na sociedade como as instituies: gastam-se e
aniquilam-se, decorrida uma certa phase historica.

A burguesia vai cahindo nos mesmos defeitos da antiga
nobresa--sabemol-o; sem embargo a burguesia tem ainda vantagens sobre a
aristocracia.

Entre a burguesia e a plebe existe, porm, uma outra classe, que ao
mesmo tempo participa da segunda pelo seu nascimento e da primeira pela
sua actividade: esta classe no tem nome; vive do producto das suas
lojas, das suas propriedades e da sua economia. A ella pertencia o sr.
Francisco Alves, expresso de bondade christ e de virtude evangelica.

Aos domingos encontram-se estes _pequenos negociantes_--que outro nome
no sei eu que elles tenham--em longo e aturado passeio pelos campos e
pelas estradas. Ahi, reunidos em familia, comem o seu pedao de queijo
com po, e bebem o seu meio quartilho de vinho. E isto apenas aos
domingos, que, aos dias de semana, a alvorada vem quasi sempre
encontral-os no trabalho.

O sr. Alves enfileirara-se n'este grupo ignorado, e delle herdra os
habitos e as tradices.

E o certo  que se no foi um anjo, na verdadeira acepo da palavra,
foi pelo menos um bom homem, honrado e caritativo.




XXII

Um hospede


N'uma noite tempestuosa em que a caridade, silenciosa sempre e occulta
quasi sempre se encarrega de velar pela miseria sobre a terra,--voltava
o sr. Francisco Alves a Alcantara, onde anciosamente o esperava a
carissima metade da sua alma.

Na occasio, porm, em que descia a calada da Pampulha, notou elle
vagamente uma sombra que a um recanto permanecia n'uma mudez quasi
sepulchral. Aproximando-se, reconheceu um homem, mais cadaver do que
outra cousa. A tristesa tomou-o, ento, dos ps  cabea. Cheio de
terror, livido, nervoso, lembrou-se o senhor Alves de chamar a policia.
No era essa, todavia, a tendencia do seu corao generoso e leal. Emfim
esperou. Casualmente passava um trem de praa. Chamou o cocheiro, e
levantando o homem que elle supposra ebrio, introduziu-o na carruagem.

A sr.^a Felisbella, como de antiga e patriarchal usana era n'aquella
casa, resava a sua cora, correndo o rosario entre os dois dedos da mo
direita--o index e o polgar. Auxiliava-a em to piedoso, quanto
catholico mister, uma creada velha, beata pelos modos, quarentona j,
mas amiga da sua ama.

A sala, em que ellas estavam, chamada casa de engommar, representava um
quadrado perfeito, com vinte ps de comprido sobre vinte de largo,
rodeada por doze cadeiras de coiro, antigas, segundo todas as
apparencias, herdadas de parentella abonada.

Ao centro, uma mesa de pu preto, caprichosamente torneada, recebia
invariavelmente, todas as noites, um velho candieiro de metal amarello,
comprado n'um leilo de ferros velhos.

O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem sequer se dra ao trabalho
de incommodar sua mulher. Arrastou o moribundo para um quarto, cuja cama
principalmente sobresahia pela alvura da roupa, e foi elle mesmo chamar
um medico.

N'este comenos conclua a sr.^a Felisbella a sua nocturna devoo.
Ignorando tudo o que em volta d'ella se passava, pegou no candieiro,
pela aza superior; e, arrastando-se com difficuldade--porque a sr.^a
Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se para o quarto, parando no
corredor umas tres ou quatro vezes.

A ausencia do marido incommodava-a, porm, sobremaneira. Ter elle sido
preso?--monologava ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca
foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a mim que algum namorico...

E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves, merceeiro.

A noite, como todos os contrastes d'este mundo, corrra alegre para uns
e triste para outros. A sr.^a Felisbella dormira umas boas oito horas,
ao cabo das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.

-- Francisco, Francisco!--gritava a pobre da mulher com toda a fora
dos seus pulmes.

E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da porta.

--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu elle.

A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. No sabendo com que
desculpar-se, calou-se. Porque a sr.^a Felisbella--diga-se j de
passagem--respeitava devras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade
entregra o corao e a vontade.

Como quer que fosse, porm, o sr. Francisco, prudente como os que o
sabem ser, entrou por si mesmo em explicaes. Contou tudo o que durante
a noite lhe havia occorrido; recommendou finalmente o rapaz  vigilancia
de sua mulher, e sahiu.

Quando  tarde voltou a casa, communicaram-lhe que o doente j fallava.
Alegrou-se. N'esse dia bebeu mais um cpo de vinho ao jantar, e deu um
beijo na face direita da sr.^a Felisbella.

Decorrra um mez.

Em casa do sr. Francisco Alves reina uma alegria desusada.  domingo.
Preparam-se todos para ir jantar ao campo. A sr.^a Felisbella dobra o
seu _chale de toukin_ branco e cala a sua luva de retroz preto. O sr.
Alves leva um chapu de palha do Chili. E o nosso doente--agora j
restabelecido e companheiro de passeio--traja modestamente um fato
preto.

A comitiva, assim composta, seguia para Queluz. Impossivel nos fra
descrever a amizade que n'esse dia reuniu aquelles tres entes queridos.

O sr. Francisco Alves brindou o seu hospede, appellidando-o com o doce
nome de filho. A sr.^a Felisbella sorriu devotamente; e a creada, a
velha creada, exclamou sentenciosamente:

Deus sabe o que faz!




XXIII

Transio


Na escolha do espectaculo manifesta-se, em geral, o bom gosto do
espectador. No quero eu com isto dizer que, muitas vezes, no seja a
curiosidade o motor das nossas aces; mas, emfim, o que cumpre saber-se
 que n'um theatro, n'um circo, n'uma exposio est, por via de regra,
representada a civilisao de um povo.

O theatro  hoje o _rendez vous_ da moda. Nos espectaculos, e  vista de
dramas perfeitamente phantasticos e inuteis, aprendem as nossas
elegantes a soletrar os primeiros rudimentos do amor, do _coquettismo_ e
as supremas illuses.

Durante a representao, que devia ser eschola e estudo, occupam-se os
rapases em averiguar procedencias amorosas, em discutir escandalos, em
calumniar mulheres, em fomentar pequenas intrigas de bastidor, emfim, em
passar a vida, rindo  custa dos similhantes.

Ora a misso do theatro no pde, por frma alguma, estar reduzida a um
mero passa-tempo, sem realidade e sem vantagem, que se possa dizer
immediata. O theatro no  simplesmente um divertimento para os olhos,
mas ainda mais uma lio para o espirito. No se tracta apenas de seguir
a moda, o figurino, com receio de que os outros nos taxem de retrogados,
de inconvenientes, de provincianos. Por modo algum. Aqui o caso muda um
tanto de figura.  preciso que da nossa parte, haja o bom gosto na
escolha e o bom-senso da critica. Alis no passaremos nunca de uns
miseraveis authomatos, sem consciencia, sem dignidade e sem brio.

Um dos primeiros empenhos do nosso seculo  agradar. E se  certo que o
habito no faz o monge, tambem no  menos certo que o monge se conhece
pelo habito.

  Frana, aquella Frana egualmente grande pelo pensamento e pela
frivolidade, que ns devemos a introduco dos figurinos na sociedade
europa. E note-se que o figurino em tudo preside actualmente, por
infelicidade nossa--na mesa, na litteratura, na industria, no commercio,
nas artes, na sciencia, absolutamente em tudo. Nas altas classes sociaes
pelo trajo de um homem avalia-se o trajo de todos os outros homens. No
campo da poesia pelo realismo de um poeta avalia-se o realismo de todos
os outros poetas. E assim seguidamente; porque a uniformidade, embora o
no queiram,  uma lei dos nossos costumes e das nossas cousas.

A elegancia  uma prova de bom gosto, indubitavelmente. Mas a elegancia,
como tudo o que nos pertence, deve ser individual, variada, como o
sentimento humano, e distincta, como o gosto de cada um, isto  deve ser
original.

Durante o inverno, por exemplo, vai-se ao theatro lyrico, no tanto
porque a musica nos delicie o ouvido e nos eleve o espirito,
obrigando-nos  concentrao e  melancholia, mas, sim, e
principalmente, porque  do bom-tom,  _chic_ ter assignatura em S.
Carlos.

E apregoam-se j os beneficios da musica classica, como se a nossa
educao e o nosso temperamento nos permittissem ser uns perfeitos
entendedores das harmonias eminentemente profundas de Mozart, de
Beethowen, de Sthephenheller, de Schubert e d'outros mais.

D'aqui infere-se naturalmente que ns, um povo peninsular em quem deviam
brotar as magneticas expanses e os ardentes enthusiasmos, apenas somos
uns meros escravos da moda, indolentes por habito, sem o ideal que
seduz, e privados do raciocinio que illustra.

Os risos, francamente abertos e sinceramente verdadeiros, sem ainda
encontrar-se nas classes medias, semi-burguesas, para assim o dizer. S
o trabalho pde dar alegria. E porisso os que no trabalham conservam o
sorriso quasi permanentemente ao canto da bocca, um sorriso amarello,
felino, sorriso desgostoso e desconfiado.

O sr. Francisco Alves sabia rir, porque tambem sabia trabalhar. No
frequentava os theatros, porque,  similhana dos da sua egualha,
desconhecia a moda totalmente. Vivia para a familia e com ella se
divertia. Tambem tinha amigos. Aos domingos chamava-os, reunia-os a si,
e ia para o campo, ficando-se por l at  noite.

Comendo, bebendo e rindo  vontade, o sr. Alves estava no seu paraiso,
longe da serpente que tentou Eva a comer do fructo prohibido,
perfeitamente a bem com Deus e comsigo mesmo.

Bem hajam os que, como elle, comprehendem por este modo a felicidade
sobre a terra!




XXIV

Confidencia


Um dia a sr.^a Felisbella apparecra de luto na missa da Ajuda, dando o
brao direito a um sympathico moo, alto e moreno.

Francisco Alves j no era d'este mundo. A mercearia passra a outro
dono.

E uma vez que tanto lhe devo, sr.^a Felisbella--dizia o desconhecido
uma noite--foroso se me torna narrar-lhe toda a minha vida. Fui pobre,
sem recursos. Minha me morreu-me nos braos. Coitada! Por amor de mim
soffreu e por amor de mim morreu tambem. Eu quiz trabalhar, e no
encontrei trabalho. Um dia prenderam-me sem culpa formada. Evadi-me da
cadeia. Vagueei incerto at que um honrado camponez me acolheu em sua
casa. Amei-lhe a filha, com quem prometti casar. Era uma boa rapariga;
chamava-se Cecilia. Envergonhei-me de estar n'aquella casa sem nada
fazer. Ella comprehendeu-me. Juntou as suas economias, e atirou-mas ao
regao. Que prodigiosa abnegao, sr.^a Felisbella! E eu que at ento
me chamava Julio vim para a cidade com este nome supposto. Alguns mezes
se passaram. Uma noite--que maldita noite aquella, minha senhora!--fui
ao theatro de D. Maria. Olhei para um camarote, e fiquei fascinado com o
rosto de uma Viscondessa. Depois vieram as allucinaes. Tentei
esquecer-me d'ella, mas embalde! Fiz-me seu escudeiro. Apanhado n'um
armario, fui despedido por ladro. Depois, oh! depois, cahi doente. O
sr. Alves encontrou-me...

(A sr.^a Felisbella limpou uma lagrima).

... e encontrar-me elle, o mesmo foi que estar eu com a Providencia.
Passou-me a loja--que me deu fortuna, e sobretudo passou-me o seu
nobilissimo espirito, que Deus tem em sua santa paz. A sr.^a Felisbella
sabe como eu o amei. Se nunca lhe pedi que me tratasse por Julio, e no
por Jos Xavier, foi--Deus me perdoe,--por suspeitar que elle se
irritasse contra mim.

E Julio, ajoelhando, beijou as mos convulsas da sr.^a Felisbella de
Menezes.




XXV

Mais confidencias

Para muito se amar, quer-se silencio e solido--dizia Balzac.

O amor  por natureza melancholico. Quem ama, soffre. A melancholia no
 uma doena physica,  apenas uma enfermidade moral.

Uma cousa  a tristesa, outra cousa  a melancholia: a primeira parte da
intelligencia e , por via de regra, filha de intimas preoccupaes; a
segunda origina-se no corao, e nasce de um sentimento, que s por meio
da pallidez do rosto exteriormente se manifesta. A velhice  quasi
sempre melancholica.

Entre a melancholia e a saudade existe uma profunda analogia: ambas se
concentram e ambas se alimentam no mesmo ideal, no amor.

A sr.^a Felisbella de Menezes, nos seus dias de vagar, sentava-se 
janella, e apoiando o queixo sobre as mos, olhava vagamente as
montanhas, os rios e o cu.

Atravez a nuvem que passa e a estrella que scintilla e a lua que
enbranquece, existe sempre uma doce esperana infinita, ethrea,
incommensuravel, que nos  como que o acordar de um sonho de primavera.

Esperar  desesperar--diz o rifo. E entretanto todos esperam; porque a
esperana  o futuro, o glorioso amanh da humanidade que soffre.

Para a mulher no existe o passado. Que importa o amor, que hontem se
finou com a ingratido de um amante?

Deixae-nos correr um vu sobre as alegrias de hontem. Deixae-nos
esquecer, fingindo ignorancia e despreso.

O presente  um logogripho, que ninguem decifra. Se agora somos felizes,
quem nos diz, todavia, que essa felicidade se ha de prolongar,
tornando-se eterna e duradoura?

Ao passo que a curiosidade nos estimula o espirito em differentes
direces, a esperana, pelo contrario, apenas nos incita na direco de
uma linha recta, cuja extenso  o infinito, vagamente illuminado pelo
sol do futuro.

Oh! o futuro  a dourada cadeia, que pe directamente a terra em
communicao com o cu; o futuro, o que ha de vir,  sempre um orvalho,
que dulcifica os amargores da desventura.

Perguntae ao desgraado que fora occulta e mysteriosa o prende ainda a
este mundo de miserias.

Perguntae ao sabio porque estuda, e ao operario porque trabalha, e  me
porque ama, e ao filho porque obedece.

A esperana, para espiritos bem-formados, no  simplesmente uma suave
illuso, mas ainda mais uma verdadeira necessidade da nossa existencia.

Esperar  trabalhar com ardr, viver com f, existir com crena e
amizade.

De todas as virtudes sociaes a primeira inquestionavelmente  a
esperana.

O homem, de ordinario, procura a felicidade; a mulher espera-a. Por isso
a condio da mulher, embora mais triste e desconsolada que a do homem,
no deixa ainda assim de ser suavemente acariciada pelo balsamo do cu.

Ser feliz  saber esperar,

Julio adquirira em pouco tempo esta sciencia da vida, graas aos bons
conselhos da sr.^a Felisbella de Menezes.

Crr, esperar e amar--taes so as tres joias preciosas, sem as quaes a
educao se tornaria esteril e inutil.

Sem crena no pde existir a sublime dedicao de esposa nem a adoravel
abnegao da me.

Sem amor, impossivel seria a vida da mulher, cuja misso  christmente
consoladora e amiga.

Mulheres, que viveis na desgraa, se quereis ser felizes--acreditae no
santo amor de um filho, esperae de Deus a crena na maternidade, e vivei
na intima e doce consolao de vossos maridos.

A familia  amparo da misaria e arrimo dos que soffrem.

Felizes os que sabem cumprir sobre a terra a primeira e a mais
indiscutivel lei da natureza!




XXVI

A Viscondessa


So decorridos quatro annos.

A Viscondessa, docemente reclinada numa _chaise longue_, l os annuncios
do _Diario de Noticias_, sorvendo, de quando em quando, uns glos de
caf, com a evangelica paciencia de uma mulher aborrecida.

Ao longo da parede do quarto destacam alguns quadros, representando,
entre outras, as magestosas imagens de Ninon de Lenclos, de Marion
Delorme, de Madame Pompadour, da Dama das Camelias, etc.

So nove horas da noite. Alfredo chega; pe o chapu em cima d'uma
_tagere_, onde, por acaso, se encontram algumas musicas em desalinho,
e, accendendo resignadamente um charuto havano, vem sentar-se n'uma
cadeira, defronte da Viscondessa.

Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma bandeja de prata, coberta de
pequenas garrafas de licr.

Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mo esquerda, d um geito gracioso
s guias do bigode.

A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo lento e medido, na
direo da porta de entrada.

--Ento j Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.) Porque eu entrei,
assim te retiras immediatamente. Comprehendo tudo. Declaraste-me um amor
profundo, ethreo, como s o sabe ter uma virgem, e hoje nem sequer
alimentas por mim uma indifferena vulgar, uma d'estas indifferenas que
um estranho facilmente dispensaria a outro estranho. Pobre de ti,
desgraada, que jmais sers feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha,
no  verdade? ao meu amor unico preferiste uma _coterie_ numerosa,
aduladora, que te lisongiasse o paladar j extincto? Pois bem: tu te
arrependers um dia. At l, porm, lembra-te que ser eterna e
implacavel a minha vingana, eterna como a Providencia e implacavel como
a tyrannia.

--E s tu quem me falla em vingana; tu, Alfredo, a quem eu, ainda pura,
loucamente entreguei o meu corao e o que  mais ainda a minha honra...
tu! o miseravel, que jurando amar-me te rias de mim nos botequins e nos
restaurantes; tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade e da
minha singelesa... oh! no... por Deus, no...

Alfredo, levantando-se, aproximou-se da Viscondessa, e, tomando-lhe a
mo direita, que elle apaixonadamente comprimiu contra o peito,
prorompeu nos seguintes termos:

--Mas ouve, Mabilia--tu bem vs que eu te amo; pois no reparas como
enlouqueo, se me negas a tua affeio? oh! no! tu no has de ser to
cruel, que me despreses assim de um momento para o outro, no  verdade!
Ora escuta: no vs como bate este nobre corao? e tu has de deixal-o
assim... no... tu s boa, eu bem sei, e serias incapaz de commetter um
crime...

--Alfredo!... Alfredo!...

--Falla, Mabilia... dize, dize que ainda me amas s uma vez... e eu
serei teu, teu para sempre...

--Que te amo!... oh! se te amo!...

E a Viscondessa, pallida, cahiu desmaiada nos braos do seu amante.

No horisonte uma nuvem, passando, toldara momentaneamente o reflexo do
luar. Um doce silencio envolvia o aposento da Viscondessa, cuja face
livida se reflectira de um modo estranho  superficie de um longo
espelho de Venesa. Junto d'ella, ajoelhado quasi, estava Alfredo,
singularmente excitado e nervoso.

Um ignorado personagem, de longa barba at ao peito, baixo e gordo,
assomou ao limiar da porta.

-- a segunda vez, senhor Alfredo, que tenho a honra de o convidar a
sahir d'esta casa, disse o intruso.

--Com que direito?--retorquiu Alfredo, virando-se.

--Com o direito que me d a minha honradez sobre a sua miseravel
corrupo.

--Senhor!..

--Duas palavras ainda; por Deus! no vale zangar: esta senhora que ahi
est prostrada e quasi morta, foi uma victima do seu cynismo, entende? 
mister que tudo isso seja pago e quanto antes. Aqui tem.

E passando-lhe uma pistola para a mo, o desconhecido, medindo dez
passos na sala, tomou a defensiva.

--Espero que a sua covardia se no estender ao ponto--continuou
elle--de fazer com que, em vez de um duello, se d um assassinato n'esta
casa.

A Viscondessa, languida e sensual, descerrou as palpebras com infinda
morbidez.

No relogio da sala soavam onze horas da noite.

No cu a lua era sem mancha.

Um leve ruido apenas se deixava ouvir, produzido pelos passos na
calada.

Subito uma detonao feriu os ares.

Alfredo, allucinado, desfechra a pistola sobre o desconhecido.

Uma nuvem de fumo envolveu, conjunctamente, a Viscondessa, a este tempo
j restabelecida, e o seu mysterioso protector, inanimado, ferido e
quasi cadaver.

Virginia correu veloz.

A Viscondessa, soluando tristemente, chamava ainda Alfredo, sem de modo
algum haver notado a sua rapida fuga.

--Como eu sou infeliz, meu Deus!--exclamou ella.

E ao longe s os echos lhe repetiram os queixumes magoados.




XXVII

Digresso


A mulher nasceu para realisar a sua felicidade por meio do matrimonio.

Sem familia, pedra angular do grande edificio, chamado humanidade, o
progresso seria uma v mentira e a civilisao um triste retrocesso.

O matrimonio  um complemento da vida humana. Se  verdade que para o
desenvolvimento do corpo carecemos de alimento e de hygine, tambem no
 menos verdade que para o desenvolvimento do espirito carecemos de
amisade e de consolaes.

No ter familia o mesmo  que sentir o vacuo do espirito, isto , o
isolamento da propria existencia e o horror da propria vida.

A prostituio da mulher no  simplesmente um vicio, por todos os
titulos condemnavel:  mais ainda-- a ausencia da familia.

Quantas mulheres se no tero perdido  mingoa do carinho maternal!

Entrae nos bordeis. Percorrei serenamente esses antros sombrios, onde a
sordidez se enlaa com o crime. Analysae o riso bestial da mulher
perdida. No! Ella no se ri, porque ella, filha bastarda de uma
sociedade, que a repudia--ella, apenas, sabe contrahir-se, agitar-se,
fingir, e  maneira de uma fra, aproximar-se dos que lhe trazem comida.

A mulher, que uma noite se v sem po, sem officio, sem familia,
prostitue-se ao amanhecer.

E o mundo--que ingrato mundo!--cospe-lhe na face o negro anathema do
desdem o do desamor.

Mulheres, que habitaes a lobrega manso da desgraa, sabei que se a
opinio vos condemna--o corao absolve-vos!

E depois, de que vos vale a opinio? Que vos trouxe ella na hora da
desdita? Sabe condemnar-vos? Pois bem, em vez da maldio pedi-lhe
virtude e amor.

Oh! a opinio! sua excellencia a deusa opinio, essa  que  de facto a
grande prostituta.

A necessidade conduz a mulher pelo caminho da perdio.  um fado de
todos os dias. Tambem  a necessidade quem conduz o homem pelos atalhos
do crime. Sabiamol-o. Ganhar para comer  uma lei da naturesa. Se os
meios so mos os fins  que so rigorosamente os mesmos. Deixemos as
lamentaes para os Jeremias do seculo.

A opinio que se aproxime. Mas quem  ella?--o dinheiro que suborna? a
politica que corrompe? os parasitas que avassalam? o impudor que exulta?
o vicio que contamina? o luxo que esterilisa? a infamia que cresce?

E sabes tu, minha _cocotte_, porque te chamam mulher perdida, sem honra
e sem pundonor? Pois bem, fica aprendendo-- porque tu s simplesmente
uma filha da desgraa.

Queres, porm, ser honesta, virtuosa e candida?

Procura uma familia; trabalha na doce companhia de teu marido; mostra ao
mundo os teus filhos--os filhos das tuas entranhas e do teu amor: que te
importa depois a voz da opinio--a opinio est como a realesa, est
gasta e pdre.

A Viscondessa no estava, de certo, n'este caso. Uma boa me, um bom
marido, um filho terno, tel-a-iam salvado do abysmo que a esperava.

E quantas vezes no  o instincto da maternidade a causa do vicio e do
crime?




XXVIII

Ainda a Viscondessa


No meio de todas as suas loucuras era a Viscondessa uma nobre e
esplendida mulher.

Uma trana preta, cr de azeviche, lhe cobria o cllo de cysne. A bcca
esculpturalmente pequena, quasi se desfazia n'um beijo, ethreo,
imperceptivel, como o ar. Uns olhos verdes e profundos, como os abysmos
do mar, a tornavam simultaneamente imperiosa e meiga. A pequena mo
aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas e os _puffs_ do
vestido. E o p, ai, o p era um primor, um verdadeiro primor. Calava
de ordinario um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado a uma meia
de seda, cuja transparencia nos faria logo perguntar com Alphonse Karr,
onde ella collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O seio
arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave e doce ondulao, symptoma
evidente de uns vedados e amorosos paraisos.

s vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando de amazona. Um vu azul
lhe encobria as feies gentis--similhantemente ao sol, que de subito se
v surprehendido por uma nuvem. Os admiradores seguiam-lhe o trote do
cavallo, at que ella se perdia na sombra das estradas.

Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados aos ventos,
poder-se-hia dizer uma actriz sublime, que, no ardor da tragedia,
embriaga os espectadores. E era de vl-a depois, sahir do banho, com as
frmas do corpo, exteriormente desenhadas n'um vestido de baetilha... um
encanto...

Depois dos successos precedentemente narrados, a Viscondessa entrra-se
n'uma mysteriosa e doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem, lhe
poder adivinhar os intimos pensamentos. Em que pensaria ella? que fatal
preoccupao a distrahia constantemente?

Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se deu o triste incidente de
alguns dias. O desconhecido duellista, mais que restabelecido, devora um
charuto com solemne lentido.

--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me vossa excellencia
declarar-lhe tudo o que penso, tudo o que sinto e tudo o que quero.
Eu--senhora Viscondessa--era um negociante de poucos recursos.--Um dia
tive a fatalidade de a vr. Segui-a, frustradamente. V. ex.^a, em meio
dos seus esplendores, nem sequer me notva. Soube que havia um baile em
casa da senhora Viscondessa. Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio
que V. ex.^a nem attentou na minha pessoa. Desgraado de mim! Estava
irremediavelmente perdido. E perdo, senhora Viscondessa! Occultei-me
indiscretamente atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um punhal
se me cravra no corao. Louco, estupidamente louco, arremetti contra
Alfredo. Elle intimou-me a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei
fazer-me observado por V. ex.^a. Vendo a impossibilidade dos meus
esforos, recorri a este ultimo expediente. Fui eu a victima. V. ex.^a
na sua generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio que
humanamente podia offertar-me. Pois bem. O meu nome  Henrique, e sou eu
que hoje lh'o declaro, e a ss, sem testemunhas--Amo-a, minha senhora, e
amo-a muito.

Perdo, senhor Henrique,--retorquiu gravemente a Viscondessa. O sr. 
meu hospede, e abusa tristemente da minha confiana. Depois da
provocao feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico privilegiado do
meu corao, ser-me-ia de todo impossivel ter por V. ex.^a a minima
sympathia...

Henrique, exasperado e colrico, aproximando-se da Viscondessa,
segredou-lhe ao ouvido as seguintes palavras:

--Assim como soube amal-a, saberei tambem odial-a.

N'este comenos entrava Alfredo.

--Muito folgo--minha senhora e meu senhor--em os encontrar aqui
juntos--dialogou elle.-- senhora Viscondessa, a quem sou devedor dos
maiores beneficios, venho pedir perdo do lamentavel facto aqui
succedido. A este senhor nada direi. Em breve conto partir para a
America; e n'este sentido me despeo de V. ex.^a minha senhora,
jurando-lhe a minha gratido que ser eterna.

--Ento parte?--exclamou anciosamente a Viscondessa.

--Sim, minha senhora; negocios impreteriveis me chamam ao Rio de
Janeiro.

--E , pois, irrevogavel a sua partida?

--Sem duvida; irrevogabilissima, senhora Viscondessa.

E Alfredo, despedindo-se da amante, sahiu.--Henrique acompanhou-o. C
fra. porm, cada um tomou pela sua rua.

Mabilia ainda veiu  janella. Mu grado seu, Alfredo havia
desapparecido.

Julgando-se para todo sempre perdida, chorou ento a Viscondessa, e
chorou como poucas mulheres talvez tenham chorado n'este mundo.




XXIX

Indecises


O orvalho vem do cu  terra; as lagrimas sbem da terra ao cu.

Mulher que chora,  mulher que sabe amar.

Porque muito chorou, perdoou Christo  Magdalena do Evangelho.

As lagrimas so como o balsamo: retemperam e dulcificam.

Felizes os que sabem chorar!

A creana  como a aurora: ambas choram e ambas alegram.

Em pranto de mulher no se pde crr--diz o rifo.

Ser verdade que s lagrimas dos olhos nem sempre correspondem as
lagrimas do corao?

Chorar sempre  chorar--affirma um poeta e com razo.

Nada mais facil do que calumniar uma mulher. A nossa sociedade est
colmada de espadachins. Todos os nossos rapazes se apresentam com ares
de Juans Tenorios in _nomine_. Todos tm aventuras a contar. Poucos ha
que se no julguem com direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em
verdade, pouco mais tm do que muita paciencia para os aturar.

As lagrimas, em espiritos delicados, so uma necessidade dos seus
coraes privilegiados. No ha odio que s lagrimas no cda.

A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.

A esposa tambem chora, ao ver desapparecer o navio, que, ao longe, lhe
conduz o esposo querido.

Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes suavisado sobre a terra
os intimos e dolorosos soffrimentos, como  grandioso o vosso poder!

E vs mesmos,  scepticos mascarados, que to estupida e egoistamente
sabeis illudir as pobres victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em
quantos escriptos, arrancados a coraes honestos e indefesos, no
tendes vs encontrado o vestigio de uma lagrima?

No ha sympathia que pela lagrima no brote e se enraize.

A lagrima  como um lago, na serenidade do seu correr e no reflectir das
suas imagens.

Para esse sangue d'alma--na suave expresso de um poeta--apenas ha um
remedio--a consolao.

A Viscondessa chorava e continuava indecisa.

Semelhante a um arbusto, que, aoutado pelo vento, deixa cahir sobre a
terra o orvalho; assim a Viscondessa, ao dar accrdo de si, deixou cahir
no seu candido seio as perolas consoladoras do seu espirito.

Bemaventuradas perolas! e oxal que todos assim as tivessem!...




XXX

Glorias do operario


Entretanto o nosso operario, agora j transformado em negociante, vai
seguindo o seu caminho, a despeito da intriga e da inveja, com que a
sociedade, em geral, costuma premiar o trabalho e a honradez.

Julio, retemperado no cadinho dos grandes soffrimentos, fizera-se homem
repentinamente. Julgando apagada a imagem da Viscondessa no seu
espirito, dedicou-se ao trabalho com fervr. Levantava-se habitualmente
s seis horas da manh, ia receber as ordens da sr.^a Felisbella, e
partia. S regressava a casa s oito ou nove da noite, hora em que elle
tomava ch. E este programma, assim praticado, com a regularidade de um
pendulo de relogio, poucas vezes era transgredido, a no ser n'um ou
outro domingo.

A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam os freguezes, e com razo,
que a ba alma de Francisco Alves em nada ficra a dever ao sr. Jos
Xavier.

Alm da loja tinha, porm, Julio um escriptorio de commisses maritimas,
de cuja responsabilidade auferia annualmente slidos e lucrativos
interesses.

Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, to prudente, como
indispensavel nas cousas da vida. O nome de Jos Xavier acreditara-se
solidamente na _praa do commercio_. Muitos invejavam j a fortuna do
mercieiro; muitos o calumniavam tambem. Entretanto Julio, com aquelle
orgulho que s a consciencia sabe dar, era invariavel, seno implacavel,
na misso que voluntariamente se imposera.

Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, parasita do Chiado.

--Desejo fallar ao sr. Jos Xavier, comeou o _Maryalva_.

--Um seu creado, respondeu Julio.

O recem-vindo descobriu-se solemnemente.

--Um negocio importante me traz aqui, continuou. Acabo de saber por um
amigo intimo que  V. Ex.^a no s um dos mais generosos cavalheiros
d'esta cidade, seno tambem que so brilhantes as qualidades que adornam
o elevado espirito de V. Ex.^a...

--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.

--E depois, precisando eu de dinheiro, estou certo que V. Ex.^a m'o no
negar...

--A outra porta, amigo, rematou Julio.

--Sempre  bem malcreado..., rosnou o pretendente.

E sahiu.

Com estes factos, porm, contrastavam outros, dignos do maior elogio.

Amanhecera-lhe um mendigo  porta do escriptorio.

--Que quer aqui?, perguntou Julio.

--Eu senhor, sou pobre, no tenho cama, nem po...--respondeu o
desgraado.

E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:

--Pde procurar-me todos os mezes para receber egual quantia.

E seguiu para o trabalho.

Julio transformra-se, pois, n'um homem severo, sem as paixes que
arrebatam, nem os egoismos que offendem.  parte a propria felicidade e
a da sr.^a Felisbella, a quem elle tratava por me, pouco mais lhe
interessava n'este mundo.

Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado, desconfiando de
tudo e de todos. Advogando de preferencia os proprios interesses, era,
todavia, generoso, para quem o devia ser.

Os pobres conheciam-no de longe. E Deus abenoava-lhe as aces,
tornando-o um homem rico, forte e corajoso.




XXXI

O que faz o talento


Uns sbem e outros descem:  a roda do mundo.  dos alcatruzes se
similha, segundo S de Miranda: uns para baixo, outros para cima, uns
cheios, outros vazios.

A vontade conduz  felicidade. Homem que sabe querer  homem de talento
ordinariamente.

O talento, por si, deixar de ser uma superioridade; quando a egualdade,
sob o mesmo grau, nivelar a educao e a instruco.

O talento, comtudo,  variavel e complexo: para uns, ter talento  saber
grangear fortuna; para outros,  saber escrever e orar e discutir; para
outros ainda, o talento cifra-se na gravidade da apparencia, e no modo
austero da vida.

A mulher resume por via de regra o seu talento n'um olhar profundo, num
sorriso angelico e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.

A educao faz com que s o homem se ostente em meio do viver social.

A mulher tem uma esphera limitada: o seu mundo  a familia; a sua
convivencia o marido, os filhos, os parentes e os creados. Porisso se
cr, embora erradamente, que s ao homem aprouve Deus conceder o
talento.

A curiosidade  a fonte, no s da sciencia, em geral, como tambem de
toda a humana descoberta. Ora a mulher  sobretudo curiosa. D'aqui a sua
aptido para todo e qualquer ramo da actividade social.

Somos pela emancipao da mulher. Desejra-mos vel-a ao lado de um
doente, consolando-o e distrahindo-o; desejramos que as creanas
recebessem d'ella os primeiros rudimentos da linguagem; desejramos, 
verdade, que por ella fossem exercidos muitos dos mesteres da vida: mas,
a par de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipao politica.

O talento no tem sexo. Ante a critica, ante a illustrao, ante o
bom-senso, todos somos eguaes.

Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo,  por ventura
tamanha como Victor-Hugo, o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George
Sand cathedra  altura de Byron, o primeiro poeta do universo.

Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar aquillo que, ao
contrario, e em consciencia, devramos santificar?

O que perde o homem  o orgulho, quando no  a inveja. A par de tantas
ambies vale-nos a preguia, que as domina e refreia.

Porque subira Julio? que fora occulta o tornava sympathico e favorecido
da fortuna?

Perguntae  felicidade quem a creou, quem lhe deu origem, quem a tornou
forte e independente!

O acaso , muitas vezes, e sem o sabermos, a causa da nossa ventura e
das nossas aces.

Mas o acaso no  cego. Depende de uma certa presciencia do futuro.

Julio era modesto, primeiro titulo de recommendao. A modestia torna
sympathicos o talento e a virtude.

Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar com resignao tudo o que,
durante a vida, lhe podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava sempre
prompto para qualquer eventualidade, fosse ella de que natureza fosse.

Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com a prudencia o
bom-senso.

Porisso tambem subiu, e porisso tambem subiro todos aquelles que assim
procederem.

O mundo depende de geito, apenas. To despresiveis so os demasiadamente
Cates como os demasiadamente relaxados.

No meio-termo est a lei de toda a sociedade humana.




XXXII

Vestigios e ruinas


Similhante a um velho castello roqueiro, coberto de hera e parietarias,
assim Alfredo vivia, doente, sem dinheiro, arruinado, mas generoso no
fundo.

O seu fato preto, invariavel em todas as estaes do anno, principiara
de tornar-se velho e esverdeado pela aco corrosiva das chuvas doentias
e dos ses abrasadores. A camelia desapparecera-lhe para sempre do seu
logar habitual. Emfim Alfredo, esgotados os derradeiros recursos
patrimoniaes, era mais um authomato da indigencia, do que
verdadeiramente um homem de espirito, critico e mordaz, qual n'outros
tempos o havia sido.

A sua extrema liberalidade, com os donos dos restaurantes e cafs, fez
com que, ainda durante algum tempo, elle podesse frequentar
gratuitamente estas casas. Passados mezes, porm, os donos dos
botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calas fragmentadas,
quasi o despediram de vez, mostrando-lhe uma m e feia catadura.

Em to afflictivo lance recorreu aos camaradas d'outr'ora. Nenhum delles
apparecia j. Todos--e cada um por sua vez,--o tentavam afastar.

Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado do mundo, s de
noite apparecia. Evitando os credores, e cosendo-se com a sombra das
paredes, elle, o filho da luz e do magnetismo da vida, sollictou dos
amigos o po zimo da desventura.  sahida dos theatros--pois que em
casa difficilmente os encontrava--esperava resignadamente a turba
jubilosa dos espectadores conhecidos; por vezes conseguira d'ella uns
magros vintens; por vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.

Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um louco capricho, mentindo,
affirmra que partiria para o Brazil. Tudo em vo. O orgulho--desgraado
orgulho!--abafra-lhe no peito esse passo miseravel.

Comeou, ento, o desalento, como um vidro moido, de consumir-lhe a, j
de si, inutil existencia.

N'um momento lucido em que o espectro da fome, esqualido e magro como
Satan, se lhe desenhava deante dos olhos com as cem boccas hediondas,
Alfredo, a par de um suor glacialmente cortante, experimentou o que
jmais e em sua vida experimentra--uma ancia de trabalho, para o qual,
em verdade, nunca se sentira predisposto.

Embalde, porm, lhe foram essas vises. Passageiro e ephemero se lhe
antolhou o iris da redempo sobre a terra.

Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia havia-se-lhe
apagado, ao contacto de uma embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe
impossivel, uma vez que do corao nada mais restava, alm de uma
sensao perfeitamente estupida e material: e vontade, se a tinha, quasi
nem j se revelava.

Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, apenas restava uma
sombra. A barba medrra a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a gla do
casaco, imprimia-lhe um aspecto singularmente triste e repugnante.
Encaral-o de frente o mesmo era que tomal-o por um salteador disfarado.

Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, no seu escriptorio, por
esta desgraada victima de uma exaggerada e dolorosa ociosidade.

--Que me quer? interrogou o negociante.

--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em nome da mulher, que ambos
ammos, venho pedir-lhe um emprestimo de duzentos mil ris...

--Em nome da mulher que s eu amei e que o senhor perdeu--convido-o a
retirar-se d'esta casa.

--Muito bem! uma vez que assim o querem, far-me-hei ladro--exclamou
Alfredo.

E fez-se fabricante de notas falsas.




XXXIII

Causas e motivos


Diz-se geralmente que a humanidade esta enfrma.

A mocidade padece uma horrivel molestia--o tdio.

A corrupo physica caminha a par da corrupo moral. As aguas so
detestaveis; o ar pouco sadio, contaminado de miasmas e de putrefaco.
De modo que as nossas cidades modernas so uns verdadeiros sorvedouros
de existencias humanas, onde os obitos crescem sobre os nascimentos na
razo de um por mil.

Com o movimento das caladas o p levantado, introduzindo-se pelos
olhos, pela bocca, pelo nariz,  tambem uma causa de lenta, mas real,
consumpo.

As phthisicas abundam. As molestias de garganta so quasi geraes. Os
homens sentem-se tristes, abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As
mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam uma vida
authomatica, sem consciencia nem utilidade.

Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos passeios da caa, as
salutares digresses pelos pinheiraes, onde os pulmes se purificam ao
contacto do ar resinoso e sadio.

As praias frequentam-se por moda. Toma-se o banho, e vai-se a um salo,
eschola de dana e de galanteria. Ninguem pensa em passeiar  beira-mar;
e mesmo quando casualmente se passeia pela praia  mais por comprazer do
que por uma natural necessidade do organismo.

Ora tanto o mar como o campo so bons pelo resultado, que d'elles se
tiram. No s o corpo, mas tambem o espirito devem tomar parte nos
vastos panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da natureza.

 verdade que a demasiada concentrao pde conduzir a uma nostalgia
perigosa; entretanto, entre dois males,  muito preferivel a tristesa,
embora sombria e consumidora,  alegria extravagante, brutal e
insensata.

No, meus bons rapases, no  assim que se vive. Vocs so doentes,
porque no tm um ideal, um trabalho util, uma misso civilisadora.

De que vos servem os cafs, com os seus jogos de _domin_?--Antigamente
conversava-se, contavam-se anecdotas interessantes, e ria-se a gente com
a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que  a demonstrao de
festa e de regosijo. Hoje no. Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha
a cima de tudo isto o aborrecimento de tudo e por tudo.

Ora, minhas senhoras, se a vida em si  triste, faamos por tornal-a
agradavel e util--util sobretudo.

Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos dito. A syphilis
contaminara-lhe o organismo.  pobresa de sangue reunira-se a pobresa de
espirito.

 o que succede com a maioria dos rapazes: quando chegam a completar um
curso esto velhos na intelligencia e gastos no corpo.

Para tamanha molestia um unico remedio ousamos aconselhar:

                _--limpeza--_

isto :

                _--campo e mar--_

Que s. s.^as, os senhores facultativos, se no irritem comnosco por to
interessante descoberta.




XXXIV

Latet anguis


A primavera, a doce filha da harmonia e da luz, desentranhava-se em
flres e fructos. Rejubilavam as aves no arvoredo frondente. O cu era
azul, limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie chrystallina e
pura.

Nada mais delicioso do que esta rapida transio de uma estao, agreste
e fria, para uma outra agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho,
sulcado do rugas, se metamorphosera subitamente, como o Fausto, n'um
elegante moo, cheio de vida e de aspiraes.

As arvores, toucadas de flr, recebiam das auras vaporosas o amoroso
abrao de todos os annos. O sol, dourando com as suas palhetas luminosas
os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se suavemente sobre as
aguas do ribeiro, que, em amoravel ondulao, serpeavam atravez os
terrenos pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo, com o qual
confidenciavam ternamente, ora atraz de uma planta, com a qual se
enroscavam de passagem.

Ao longe os pinheiraes acordavam as solides com as vibraes da sua
harpa plangente. O rouxinol, casto como a andorinha, desferia a medo o
seu eloquente hymno de amor.  que elle o artista, filho do cu e do
canto, pressentira, primeiro que nenhum outro ser da creao, o
aproximar alegre do sol e da vida.

Meiga como uma me dedicada, a pomba, symbolo de virgindade, arrulhava
de manso, muito de manso, como amante que no deseja ser escutada. E a
aguia, a altiva rainha do espao, guindara-se, por entre nuvens, at s
ignotas regies do infinito.

Entretanto--e como que para contrastar--o peixe, o maldicto das trevas,
mal elevara a glida escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de
novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o desprotegido do dia,
esperava a noite, sua irm, para assim deixar em paz o lobrego buraco,
para onde um raio de sol prestes o afugentara.

Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os o boi, quasi sem
cessar, na extrema paciencia dos animaes possantes.

A montanha, despindo o lenol, que durante mezes a envolvera--deixara de
alvejar, afim de se tornar um throno de contemplao e de magestade.

E de facto subia o lavrador  cumiada do seu monte, e de l, passeando
os olhos avidos em volta do campo, com o qual, em verdes annos, se
matrimonira--entoava cantos jubilosos e amigaveis.

E a alde, resplandecendo de feliz contentamento, apurava a sua saia de
chita que para os dias santos havia sido feita e arranjada.

Cecilia, porm, est de lucto. Os olhos verdes, fartos de chorar,
brilham profundamente como o abysmo dos mares. Ella  triste, coitada! e
sem esperana. Morrera-lhe o pai.

--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira hora--parece-me que
o teu noivado s no cu poder ter logar. Perda tu ao ingrato assim
como eu lhe perdo...

E expirou.

Quatro mezes volvidos sobre este caso estava a pobre rapariga
profundamente mergulhada nos seus mais intimos pensamentos, quando uma
leve pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez estremecer e
agitar.

Mal se levantara ella e j uma sombra, abrindo a vidraa, saltava de um
pulo para o centro da casa.

--O senhor prior por aqui?--exclamou a ingenua catholica.

-- verdade, minha filha.  justamente o teu prior que Deus manda a esta
casa... Sabia que estavas triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do cu.
Consolar os tristes  um dever do bom parocho.

--E minha me, senhor padre Joo, consentir ella...

--A cima de tua me est a voz do cu que aqui me traz. Conta-me a tua
vida, Cecilia. No tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.

A Egreja para tudo tem remedio. S Deus sabe premiar os bons e castigar
os mus.

E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se ao p de Cecilia.

A rapariga, crando de pejo, conservra os olhos cravados no cho.

Assim durou, por alguns minutos, esta scena.

--Como tu s boa, minha filha--rompeu alfim o padre.

E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.

Assim, como a pomba ferida por caador experiente, assim tambem Cecilia
tentara esquivar-se s grosseiras amabilidades do seu respeitavel
parocho.

--Embalde--gritava o padre.  Deus que assim m'o ordena!...

E, ao longe, um guitarrista que passava cantava tristemente a seguinte
quadra de Gonalves Dias:

    O amor da mulher  qual nuvem
    Que o vento impelle no ar;
    O amor da mulher  voluvel
     to vario, como a onda do mar.




XXXV

Critica


Ns no somos d'aquelles que exageradamente comdemnam o clero.

Nada mais santo, nada mais suavemente consolador do que o bom padre,
especie de medianeiro entre Deus e os homens.

Para quem no tem um pai natural; para aquelles que a Providencia exilou
do seu lado, e que a miseria acolheu no seu seio; para aquelles que,
longe do ruido e das alegrias do mundo, a ss comsigo mesmo sentem o
gottejar das proprias chagas; para os desgraados, para os infelizes,
para os tristes, o padre, pela sua apparencia christmente cariciadora,
 mais do que um companheiro, porque  um pai, enviado pelos anjos do
cu aos anjos da terra.

No foram um simples vicio, uma v ostentao, e um estulto prurido que
nos levaram a condemnar aquillo que, por sua natureza, deve ser
exemplar, vivo e sacro-santo.

No! Se condemnmos o mu padre, como planta nociva  humanidade, foi
por um dever.

Quem tem irmos, e filhas e esposa, no pde existir ao acaso, sem a
necessaria superintendencia em todos os actos da sua vida, d'ellas.

A mulher, que do collegio no tirou a educao conveniente, que um dia
experimentou a immoralidade do confessionario e os espinhos do mundo,
pde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irm, menos uma me.

O padre toma parte nas scenas mais luctuosas da familia: se adoecemos, 
elle que nos traz o balsamo ao espirito em trvas; se desesperamos, 
elle que nos faz ver o iris da bonana; se hesitamos,  elle que nos
encaminha e nos dirige.

Ento, e porisso mesmo,  que o padre deve ser um bom homem.

O esboo que no precedente capitulo deixmos delineado, posto que
excepo, foi por ns fielmente observado.

Que se no illudam os espiritos timoratos e frageis. Quando mu, ninguem
mais severamente merece ser condemnado do que o padre.

Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade, por um lado, e o
celibato, por outro, muito tm concorrido para essa cadeia de lorpesas,
a cada passo relatadas na imprensa e nas differentes casas de reunies
publicas.

O fanatismo nunca foi religio. Seguir os preceitos do Evangelho, no 
perfilhar as doutrinas do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da
_Palavra_.

Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse Christo.

Amemo-nos, sim, mas sem corrupo, sem egoismo, sem impuresa.

Que a esposa seja uma conselheira de seu marido e uma perceptora de seus
filhos--tal deve ser o desejo do bom padre.--Porque um padre  acima de
tudo um educador, e como tal carece de muita illustrao, de muito bom
senso e de muita heroicidade.

Se os rapases no podem satisfazer a esta nobre misso, escolham-se os
velhos. Se com o clero periga a honestidade das mulheres, acautellem-se
os homens, e aprendam por uma vez a distinguir o bom do mau, aquillo que
lhes convm d'aquillo que lhes no convm.

D'outro modo continuaremos eternamente divididos, odiando-nos como
inimigos, e pelejando uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem
ideal, sem raciocinio e sem vontade.




XXXVI

Toldam-se os horisontes


Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando menos o acreditamos,
embacia-se o prisma que sonhavamos perpetuo e immorredoiro, e as
illuses comeam de cahir uma por uma.

 assim a vida;  assim o mundo: rodeado de formosas apparencias e
colmado de negra podrido.

quelles que possuem o raro condo de saber disfarar as mais intimas
tristesas da vida; quelles a quem Deus no dotou com o precioso
instincto da arte; quelles, emfim, para quem a paciencia  a norma, e
que se no apaixonam, que se no arrebatam, que se no enthusiasmam,
gelados, mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco pdem importar
as tristesas do poeta e as suas profundas melancholias, que so como que
o lento e sombrio finar da existencia.

 noites de agonia, noites de isolamento--como vs sois tristes e duras
de passar! O mundo, que vos detesta,  doces e amargosas horas da
experiencia, foje de vs! Ao vosso lado s tendes os poetas e os
artistas e os sbios e todos aquelles que no horror da noite procuram o
ideal da humana perigrinao.

Bemdictas sejaes vs, companheiras do tumulo, porque me ensinastes o
soffrer!

      *      *      *      *      *

A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos, que despresando a
opinio das maiorias, porventura o mais estupido de todos os
preconceitos. se entregam febril e vertiginosamente nas azas do seu
capricho, sem outro intento que no seja o louco voar atravez as
idealidades que de continuo se lhe desenham na mente esbraseada.

Eu gsto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas, que,
superiormente s outras mulheres, suas irms, se alimentam no tepido
halito da primavera, embriagadas e seduzidas pela doce irradiao do
cu.

Se pccam no  d'ellas a culpa. Quem poder dizer  ave,  meiga filha
da luz: tu voars para aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas:
tu cantars a taes horas? e ao oceano, o titanico athleta da creao: tu
no corrers? Quem?

A Viscondessa era uma creana com sde de amor, boa e ingenua como todas
as creanas. Infeliz ou no--o certo  que um dia ella se encontrou sem
amante e sem dinheiro. Alfredo roubara-lhe o corao, e o que  mais
ainda--a crena no amor; Henrique, ingrato explorador, subtrahira-lhe os
titulos da sua fortuna. N'estes termos, que fazer? A quem recorrer se o
amor, assim e to de subito--se lhe transformra em inimisade e a
fortuna em pobreza?

A Viscondessa, perplexa, hesitante, nervosa, chamou pela sua creada.

--Sabes Virginia--dizia ella  sua amiga--que estamos roubadas?

--Roubadas... minha senhora?!

--Sim, roubadas... e roubadas por Henrique, a quem ns n'esta casa
tratamos com um carinho de irms...

--Oh! meu Deus!... meu Deus!... e que havemos de fazer, minha senhora?

E Virginia beijou pela primeira vez na sua vida a angelica fronte da
Viscondessa.

A desgraa tem este condo mysterioso: torna-nos irmos
involuntariamente.

--No  verdade, Virginia, que tu nunca me has de abandonar?

--E quem pensar em tal, senhora Viscondessa?

--Pois bem: espera um bocadinho, que me has de levar uma carta  rua da
Emenda.

--O que V. Ex.^a quizer, minha senhora.

A Viscondessa sentou-se  mesa; tomou uma folha de papel e principiou a
escrever nos seguintes termos:

                        Excellentissimo senhor Baro:

Pela primeira vez ouso incommodal-o. Se Vossa Excellencia, porm,
adivinhasse a triste situao em que actualmente me encontro, por certo
me desculparia estas instantes linhas. Entretanto, impellida pelas
circumstancias, quero acreditar que Vossa Excellencia se no furtar a
vir procurar-me hoje mesmo.

E n'esta esperana fecho esta carta, tendo a honra de ser

De vossa excellencia

serva respeitosa

S. C.

Lisba

Largo de Cames

A Viscondessa de B***

..............................

Virginia, tomando das mos da Viscondessa este bilhete, competentemente
sellado com o carimbo da casa, sahiu na direco acima indicada.




XXXVII

Uma victima


E Cecilia? que ser feito d'ella?

Pela callada das trvas,  meia noite, ha sombras que vagueiam pelas
ruas como vises informes, famintas, esqueleticas.  sahida dos theatros
abeiram-se de ns vultos esfarrapados, cheios de dr e de vergonha, que
nos estendem a mo carcomida e triste. Cada um d'esses vultos
representa, no grande drama social, uma consciencia offendida ou uma
crena ludibriada. No se descobrem nunca esses desgraados, porque no
desejam ser reconhecidos. Se  me e tem filhos, pede em nome dos
filhos; se  pae e tem familia, pede em nome da familia; se  s e
miseravel, pede em nome da miseria.

Cecilia no estava precisamente n'este caso. Cedendo, ainda que
violentada, s seduces do parocho, que por toda a parte a seguia com a
voracidade de um lobo,--a joven alde, para quem o ideal se no havia de
todo extinguido, veiu para a capital. Pobre mulher inexperiente,
coitada! que media o mundo pela craveira da sua innocencia...

Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir e muito procurar, soube
ella que o Sr. Jos Xavier era negociante e residia em Alcantara.

Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar ao almejado paraiso.
Quando subia a escada, aodada e veloz, como uma gazella, um creado a
reteve.

--Que quer vm.^c--perguntou-lhe o guarda porto.

--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia.

--No  aqui que elle mora; pde procurar n'outra parte.

--Ai! no, enganei-me;  ao Sr. Jos Xavier que eu pretendo...

E n'isto Julio descia a escada. Cecilia nem sequer o reconhecra. De
passagem, perguntou Julio ao creado quem era aquella mulher.

--Uma desgraada que pretende esmola--respondeu o interrogado.

--Pois bem: mande-lhe dar dez tostes.

E o amo sahiu, sem, ao menos, virar a cabea.

O primeiro pensamento de Cecilia foi correr atraz de Julio. Mas no!
Ella estava vexada, profundamente vexada de si mesmo. At quasi chegou a
duvidar que fosse aquelle o seu antigo amante.

--No, decerto no  elle... reflexionava ella comsigo.

--Aqui tem--exclamava o creado, offerecendo-lhe dez tostes--aqui tem,
pde retirar-se.

Cecilia acceitou a esmola authomaticamente. Muda, sem proferir uma
palavra, olhou para o homem como uma alucinada. S depois, c fra,
trmula e nervosa, reconheceu a degradao por que havia passado. Uma
dolorosa agitao lhe percorria os membros febris. No podendo mais
conter-se, transbordando de raiva e de agonia, desmaiou sobre as pedras
da calada.

 sociedade,  mysterio dos mysterios, quanta victima tua, no ter
perecido assim,  fome, ao relento e ao frio?

 humanidade,  triste e ignorado _Ashawerus_, como  espinhosa a tua
sorte e tremendo o teu fadario!




XXXVIII

Julio feito baro


--Pde vossa excellencia acreditar, senhora Viscondessa, que emquanto eu
viver nada faltar n'esta casa.

--Oh! Deus o abenoe, senhor baro...

--Agora--e antes de me retirar, permitta-me vossa excellencia, que sem
abusar da sua generosidade eu lhe narre em breves traos uma pequena e
eloquente historia ha pouco succedida entre ns: Ha de haver j
bastantes annos que um homem ignorado (nada importa o nome) veiu
procurar trabalho em Lisboa. Fugido  lei que o perseguia e afastado da
mulher que amava--entrou n'um theatro. Entre as damas que pela sua
belleza mais realavam destacava-se uma a quem esse desgraado entregou
o corao e a vida. Mas, ai d'elle! A sorte perseguia-o horrivelmente.
Elle, coitado, era apenas um operario, um modesto operario, e ella uma
aristocrata, uma distinctissima aristocrata. Correram os dias. O
miseravel, vendo-se fortemente abalado na sua dolorosa existencia,
abandonou a fabrica, e fez-se escudeiro d'essa senhora. Nem um gesto
sequer elle perdera, emquanto lhe fra dado viver n'aquella casa. Tudo
aproveitou o desventurado, curtindo a ss comsigo a immensa paixo que
tristemente o devorava. Um dia, porm, em que elle, porventura mais
agitado do que nunca, pretendra subtrahir-se aos fidalgos olhares da
sua ama, uma fatal circumstancia o obrigou a deixar aquella casa.

--Ento foi o sr. baro...

--Mais duas palavras, minha senhora, e eu termino: Infamado e corrido
de vergonha entregou-se o desventurado moo ao trabalho com ardor.
Prspera lhe correra a fortuna. Amparado por dois velhos, hoje mortos,
que durante os primeiros annos lhe serviram de paes progrediu Jos
Xavier tornando-se honrado e bem quisto dos seus semelhantes. Depois...
oh! depois... Vossa excellencia sabe o resto...

--Sim! depois Jos Xavier foi feito baro, encontrando na Viscondessa de
B*** a sua mais pura e desinteressada amiga.

E Julio, curvando-se, beijou solemnemente a mo da Viscondessa.




XXXIX

Denuncias e suspeitas


Alfredo, sem recursos, recorreu ao ultimo expediente de um vadio bem
educado: tornou-se falsificador de notas.

Os proprios amigos d'outros tempos, ao saberem d'este facto,
denunciaram-n'o  policia.

Dahi em deante principiaram as indagaes e as pesquisas. A lei no
afrouxra em seus esforos. E o certo  que uma manh Alfredo acordou
n'um calabouo, quasi sem luz e abandonado aos vermes.

O processo correu perante o ministerio publico. Abundaram as provas.
Alfredo era realmente um criminoso. O jury, dando o seu _veredictum_,
houve por bem coudemnal-o a degredo perpetuo, para as costas de Africa.

Embalde lhe foi a appellao interposta pelo advogado para o Supremo
tribunal de justia. Confirmada a pena o ru teve de partir.

No dia aprasado para a partida, Alfredo, inquieto, nervoso, tremulo,
agitado, pediu papel e tinta. Por uma graa especial fra-lhe deferido o
requerimento.

Tomando a penna o degredado traou no papel as seguintes linhas:

Excellentissima senhora Viscondessa, e minha dedicada amiga.--Seria
vil, e muito vil, que eu, ao deixar esta cidade, me no lembrasse de
Vossa Excellencia. Cheio do contrico e de arrependimento permitta-me
pois, Vossa excellencia, que, por um pouco, ajoelhe ante a sua imagem
generosa.

 um criminoso que lhe falla, minha Senhora.  um triste e miseravel
peccador que vem pedir-lhe perdo. Conceder-lh'o-ha Vossa excellencia?

Sim! Alfredo no existe j. Condemnou-o a sociedade em nome da lei.
Condemnaram-n'o os seus crimes.

Dentro em pouco, vestida a estamenha do degredo, o meu nome no ter
razo alguma de ser. Vegetarei como um cadaver, que, privado do
espirito, se vai decompondo fibra a fibra.

Os homens no me perdoaram. Foi-me negada a honra: tudo me foi negado.
E entretanto eu tinha de viver...

Vossa excellencia de certo comprehende este terrivel problema do mundo.
Entre duas infamias preferi esta, justamente por ser a maior.

E assim como os homens foram ingratos para commigo, assim tambem eu fui
ingrato para com Vossa excellencia.

Perdo, perdo para mim, minha santa amiga, perdo para mim que no
pensava!

Eu era apenas um triste alucinado, que  maneira de uma sombra, errava
vagamente pelo mundo, com o doloroso pesadello de uma longa enfermidade.

E porque no morri eu, ento, cus?

Para que mais prolongar este acerbo calix de amargura?

No creio nos homens como no creio em Deus.

Deus!... Mas porque infinita maldio me sahe esta palavra dos labios?

Ah! sim, est ali... bem o vejo... o infernal carcereiro...

Mas como? Deus com aquella barba? Deus to velho? Ser possivel?

Ai! senhora Viscondessa, que a febre escalda-me os labios resequidos.
Se ao menos, Deus me trouxesse agua...

Adeus, minha boa e dedicada amiga; adeus para sempre.

Nas suas noites de prazer no s'esquea de libar por mim--por mim, pelo
miseravel condemnado da sociedade, sua irm.

                                                              _Alfredo._

..........................................................................

--Um pobre rapaz, coitado!--exclamou a Viscondessa, ao terminar a
leitura d'esta carta.




XL

Ao hospital


Do calabouo passaremos ao hospital. Tudo  enfermidade: com uma
differena apenas--e  que, n'uns adoece o espirito, ao passo que
n'outros adoece o corpo.

Ao percorrermos aquelles longos sales, onde s a doena tem o seu
throno e a morte o seu prestigio; ao pararmos junto d'aquelles leitos
empobrecidos, onde os gemidos da miseria se cazam tristemente com a
dolorosa suavidade da esperana; ao palparmos as chagas, as desventuras
e as mil angustias porque passa a humanidade n'este mundo; ao vermos
tudo isto, o espirito vacilla realmente, e o corao sente-se fatal e
impetuosamente abalado em tudo o que ha de mais santo, de mais nobre e
de mais digno  superficie da terra.

Adoecer na flor da edade, sem proteco, sem carinho, sem a meiguice de
uma irm, de uma esposa, de uma filha--isso, s a pobreza o poder
verdadeiramente avaliar.

Ha dores que se no exprimem, que se no definem, e que esto muito
acima das mundanas velleidades.

Como quer que seja, porm, Cecilia encontrou-se uma manh no hospital de
S. Jos, doente, triste e perdida a esperana de melhores dias.

Uma phthisica fatal lhe devorava as entranhas, profundamente abaladas. A
tosse augmentava de minuto para minuto. As convulses recrudesciam. Os
medicos desesperavam da cura. E os enfermeiros, os vis mercenarios do
corpo humano, abanavam as orelhas da canados e aborrecidos.

Emfim soou a hora fatal. Aps uma longa hemoptise, Cecilia abrio muito
os olhos, tornou-se verde--de um verde-negro e sombrio--fez um esforo
sobre si, regougou algumas palavras imperceptiveis, e cahiu para o lado.

Tinha expirado finalmente.

A aurora era ento sem mancha; a cotovia annunciava um dia formoso. Tudo
vivia; a luz era o prologo do amor.

Arrastada para uma sala especial, unicamente destinada aos mortos, ficou
o seu cadaver em deposito, at que um esquife o levasse para o
cemiterio.

Sobre o corpo putrefacto d'aquella victima desventurada no houve sequer
quem derramasse uma lagrima.

 que o mundo, no seu estupido cynismo, pensa de ordinario mais em rir
do que em chorar!




XLI

Sorrisos e lagrimas


--Acredita-me, Mabilia: esta felicidade para ns  inalteravel. Deixa
que o mundo murmure no seu louco e estupido egoismo. Nada importa! A
openio das maiorias , em quanto a mim, uma vil e dolorosa mentira.
Tendo-te a ti, que mais poderei eu ambicionar? Desafio os rios e os
mares para que venham arrebatar-me do corao a tua terna e doce imagem.
Que venham! E eu, impavido, arrostarei com elles, brao a brao, se
tanto fr preciso.

--Oh! Julio, meu bom amigo, por Deus, no sejas mentiroso; no digas
aquillo que no sentes; se devras me no amas, para que fallar em tal?
Olha que a experiencia, meu amigo, tem-me sido uma triste e dolorosa
desilluso n'esta vida...

--E s tu quem assim falla? Mas no vs, desgraada, que essas palavras
me fazem escaldar o corao? Oh! por piedade, no me mates, Mabilia:

N'este comenos Virginia entrou na saleta. Interrompido o dialogo, o
nosso baro tomou, ao acaso, um jornal, que ligeiramente passou pela
vista.

Antes, porm, de o pousar, estacou em uma das locaes, e leu o seguinte:

Falleceu hontem no hospital de S. Jos, victima de uma phthisica
pulmonar, uma pobre rapariga, por nome Cecilia da Silva. Parece que uns
amores mal correspondidos foram a causa de similhante infortunio. Por se
ignorar o nome do pae, que se suppe viver na aldeia, foi o seu cadaver
sepultado no cemiterio dos Prazeres, com uma simples inscripo, gravada
n'uma pequena cruz de madeira.

--Se me no engano j vi algures esta mulher!--regougou o baro,
repoltreando-se na cadeira, e lanando do seu excellente charuto
_havano_ uma longa e deliciosa bafurada de fumo.




XLII

Tableau


Agora o quadro.

Atravez os quatro personagens, distingue-se um mundo de miserias.

O baro d o brao  Viscondessa; o dinheiro acaricia a formosura.

Eis a luz.

A doena caminha a par do degredado: o corpo corre parallelo com o
espirito.

Eis a sombra!

      *      *      *      *      *

O espectador que ajuize.




Epilogo


Hontem o amor; hoje a pobreza; amanh o esquecimento.




Post-scriptum

(Ao leitor)


Este romance no mira aos applausos da galeria. To pouco prima, nem
pelo complicado do enredo nem pelo difficil das situaes. So capitulos
singelos, estes, que acabam de lr-se, s pela arte inspirados e por
amor d'ella concluidos.

E a arte  a verdade.

Por muitos ho de estas paginas ser aborrecidas. Por muitos ho de ellas
ser odiadas. Nada importa. A consciencia acima de tudo.

Entendeu o auctor que era sobre tudo _descriptivo_ o romance moderno,
profundamente descriptivo, cheio de analyse, critica, de bom-senso e da
naturalidade; de pouco dialogo e de muita observao; havendo todo o
escrupulo em pr de parte o devaneio, na dissecao dos homens e das
cousas.

Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades presentes e
passadas. O typo da Viscondessa, atraz esboado, poder no agradar a
todos,  verdade; mas , no entanto, um typo real, perfeitamente real.
Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, sacrifica o seu corao, a sua
tranquillidade, o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes,
e, como os restaurantes, viciado e corrupto. D'aqui a perdio da heroina
e o triumpho do gal.

Outro tanto succede com a figura angelica da alde. Victima do
confessionario, cahiu, andorinha ferida, a quem roubam o ninho e os
filhos; sedenta de prazer, resvalou no abysmo.

Alfredo, se bem que generoso e sympathico, , todavia, um moo perdido,
alucinado pelos vinhos e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros
pensamentos que no sejam o da sua indolencia e o do seu bem-estar.
Acaba porisso como, naturalmente, devia acabar--nas costas d'Africa.

O contrario quasi se d com Julio. Trabalhando, vence os escolhos da
adversidade; convivendo com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na
corrupo e no cynismo.

E muito de proposito, pois que no fallo aqui na me e na esposa,
dediquei este livro s boas mes e s boas esposas: s boas mes, para
que sejam esmeradas na educao das filhas, e s boas esposas, afim de
que saibam estimar a virtude, como a primeira e a mais indestructivel de
todas as riquezas.

A maternidade  uma fonte de boas aces. Quem sabe se foi este o
defeito da Viscondessa e de Cecilia? O santo amor de me despertaria
incontestavelmente n'estas duas mulheres outros mundos muito diversos
que no os da imaginao e os do capricho.

A logica no foi, pois, sacrificada. Antes pelo contrario temos f em
que ser ella a gloriosa redemptora d'este _enormissimo peccado_.

Coimbra,

4 de Fevereiro

da 1874

                                    _O Auctor._


FIM.




INDECE


                                                      Pag.
         Dedicatoria                                     5
    Cap. I Um baile                                      7
        II A senhora Viscondessa                       13
        III Alfredo                                    25
        IV Contrastes                                  37
        V No restaurante                               45
        VI Sem sahir do mundo                          53
        VII Entre amigos                               59
        VIII De passagem                               65
        IX Pobreza e miseria                           71
        X Cousas dos homens                            79
        XI Na taberna                                  85
        XII Perigos e consequencias                    91
        XIII Continuao                               97
        XIV Novos mundos                              103
        XV Primeiros amores                           107
        XVI Transformaes                            113
        XVII Allucinaes                             119
        XVIII O escudeiro da senhora Viscondessa      125
        XIX Falla o corao                           133
        XX Casa burgueza                              139
        XXI Consideraes                             143
        XXII Um hospede                               149
        XXIII Transio                               155
        XXIV Confidencia                              161
        XXV Mais confidencias                         165
        XXVI A Viscondessa                            171
        XXVII Digresso                               170
        XXVIII Ainda a Viscondessa                    183
        XXIX Indecises                               189
        XXX Glorias do operario                       193
        XXXI O que faz o talento                      190
        XXXII Vestigios e ruinas                      203
        XXXIII Causas e motivos                       209
        XXXIV Latet anguis                            213
        XXXV Critica                                  219
        XXXVI Toldam-se os horisontes                 223
        XXXVII Uma victima                            229
        XXXVIII Julio feito baro                     233
        XXXIX Denuncias e suspeitas                   237
        XL No hospital                                243
        XLI Sorrisos e lagrimas                       247
        XLII Tableau                                  251
         Epilogo                                       253
         Post-scriptum                                 255





End of the Project Gutenberg EBook of A Senhora Viscondessa, by 
Sebastio de Magalhes Lima

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA VISCONDESSA ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
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