The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem no
pde dormir. N3, by Camilo Castelo Branco

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Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem no pde dormir. N3

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: March 30, 2008 [EBook #24957]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA.  NO. 3 ***




Produced by Pedro Saborano






BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NO PDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco

PUBLICAO MENSAL


N. 3--MARO


LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

96, Largo dos Clerigos, 98

PORTO

EUGENIO CHARDRON

4, Largo de S. Francisco, 4

BRAGA

1874


PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874


BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA


SUMMARIO


Feitios da guitarra--Em que veias gira o sangue de
Cames?--Lisboa--Voltas do Mundo--Nova soluo do problema
historico--Desgraado Balzac! ( Actualidade)--Os 2 Joaquins--Flres
para a sepultura de Ferreira Rangel--Mysterio da Castanha--Bem
vindo!--Os Sales, pelo exc.^mo snr. visconde de Ouguella--Subsidios
para a historia da serenissima casa de Bragana




FEITIOS DA GUITARRA


Cuidar talvez muita gente, alis instruida na historia da musica e seus
effeitos, que a influencia da guitarra nos paos reaes  cousa moderna e
peculiar da crte portugueza. No, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha
no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista
d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.

Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da s de
Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava
descender dos Farias, alcaides-mres de Palmella, em Portugal, timbrava
de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar sua
vida, porque a pitana da conezia no dava para tres.

Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas
de sua inveno, fizeram-se no rumo de Madrid,  cata de aventuras. O
estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem,
folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que no quiz outra
paga durante um anno.

Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a
guitarra, insinuou-se no affecto de uma aafata da princeza Luiza de
Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama
ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar
e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmo D. Manoel!

Contou isto a dama  princeza. Sua alteza era folgaz. Quiz ouvir o
guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito --convenceu o
marido a gostar das trovas de _a Tyrana_ acompanhadas d'um harpejo
triste, que no ha ahi cousa que mais diga.

O principe no era escorreito.

Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista,
logo que deu tento dos effeitos cupidineos dos bordes e prima, na
pessoa da nora.

Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao
palacio,  alcova real, e nomeado successivamente sargento-mr da
guarda, ajudante-general, gr-cruz de Carlos III, intendente dos
correios, cavalleiro do toso, duque de Alcudia, primeiro ministro,
principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotao
territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos
exercitos (em 1800) com o tractamento de _alteza serenissima_ (1807).

Em 1797 casra com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante
D. Luiz, irmo d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio,
j porque a noiva era abominavel de feia, j porque tinha zelos
infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido
casra clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.

D. Manoel de Godoy, que assim tocra o galarim das grandezas humanas,
desceu to rapido quanto subira.

Conjuraram contra elle influencias internas e externas.

Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da
Frana. Este odio exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde
acabou para sempre o poder naval de Hespanha.  frente dos adversarios
do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois
Fernando VII.

Seguiram-se evolues politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto
d'onde subira, se voltou contra a Frana, de accordo com Portugal. Em
1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no
Aranjuez a revoluo em que sua alteza serenissima se escondeu em uma
talha, e no foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.

Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo
dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiana de Napoleo; mas a final o
baque foi irreparavel. Passou a Frana, e depois a Roma, onde o papa o
intitulou _principe de Passerano_.

Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se
divorcira amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se _duqueza
de Chinchon_, e l morreu em 1828. O viuvo declarou ento que j era
casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820
com o principe romano Raspoli.

At 1844, o principe da paz viveu em Paris to convisinho da indigencia
que Deus sabe se elle teve tentaes de tanger a guitarra da sua
juventude  porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de exilio,
obteve licena de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos bens, que
lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.

Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.

Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em
Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.

Tambem desconhecem que o alvar de merc o faz primo de D. Maria I, e
descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto
de Francisco de Faria, alcaide-mr de Palmella: descendencia a mais
imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeas de nobiliaristas.

Ahi vai o alvar que  documento no despeciendo:


D. Maria, etc. Fao saber aos que esta minha carta virem que attendendo
 mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos
merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
Sarosa, principe da paz, duque de Alcudia, grande de Hespanha de
primeira classe, meu primo, e aos grandes servios, que a estes reinos
fizeram seus maiores antes e depois da fundao da monarchia com
repetidas, e assignaladas aces, que os fizeram benemeritos da augusta
considerao, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores:
tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria,
alcaide-mr, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo
Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de
quem D. Manoel  terceiro neto: para dilatar com a maior distinco a
memoria d'uma to distincta familia, a qual pela mesma linha de
Francisco de Faria  descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez de
Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo
muito segura confiana nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D.
Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em
beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes
desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue:
hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos
respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios
Sanches Sarosa, a familia de Faria, de que descende, fazer-lhe a merc
do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus
descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero
e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
Sarosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas
as honras, graas, liberdades, preeminencias, prerogativas,
authoridades, e franquezas, que ho, e tem, e de que usam, e sempre
usaro os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo
costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que
elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou
duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim  minha vontade,
e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haver o assentamento
que lhe pertencer, de que se lhe passar alvar na frma costumada, e
por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e
sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela
chancellaria: e hei por bem que d'esta merc se no paguem direitos
alguns velhos, e novos, no obstante os regimentos, e quaesquer
disposies contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de
outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O
principe com guarda.==_Jos de Seabra da Silva._==_Joaquim Guilherme da
Costa Posser_, a fez.


Respeito a _Farias_, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor
conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de
Faria, chamado Nuno Gonalves, que os castelhanos mataram, quando elle,
na barbac da fortaleza, ameaou de maldio o filho, se a entregasse
para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso
enthusiasmo.

O filho chamava-se Gonalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vr
alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixo, porm, no lhe
impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mi Aldonsa Vasquez.

Do mais velho, que se chamou Nuno Gonalves de Faria, conhece-se a
descendencia. Esse _Diogo_ que no alvar se diz ter passado a Castella,
nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do
valido de D. Joo II, Anto de Faria, e casou com D. Maria de Goes,
filha de Simo de Goes Machado.

No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu
considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos
d'estes archaismos-- a que se tiver conservado na posse das penedias
contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno
Gonalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era Joo de
Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.

No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe
da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe
a merc de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite,
e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do _Nacional de
Lisboa_, e official de cavallaria muito valente.

Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous
annos em Lisboa.

Uma de suas filhas  hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras
no sei que destino tiveram.

..........................................................................


Toda esta noite se me foi de insomnia, a vr sempre, na penumbra da
lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face
coberta de lagrimas:

--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares,
quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no servio
da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este 
pobre; os outros no se recordam... Sabe qual  a minha esperana?

--A queda dos Cabraes?

--No: uma congesto cerebral.

Bella e bem realisada esperana!

O representante de Nuno Gonalves de Faria foi levado morto  sua
familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa,
quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o
aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.




EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMES?


No  de mais saber-se isto, quando  moda esmiuar tudo que entende com
o maior poeta do seu seculo.

O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz,  a _Historia
de Cames_ pelo snr. doutor Theophilo Braga.

As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441
paginas no aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque
faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no
censor dos escriptores seus conterraneos, de ter de dizer: o professor
de litteratura fez crar a face dos discipulos.

Os meus reparos n'este livro tocam smente com o que ha n'elle relativo
 familia de Luiz de Cames; mas, ahi mesmo,  deploravel a falta de
siso do biographo.

A pag. 233 suppe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam
de Luiz de Cames houvesse cartas escriptas _aos seus amigos mais
valiosos intercedendo por seu pai que estava preso_.

A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: _A noticia do perdo de seu
pai Simo Vaz de Cames._ Temos ainda Cames com pai.

A pag. 259: _Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Nos partidas
no principio do anno de 1557 soube Cames... da sentena que condemnava
Simo Vaz de Cames, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com
prego e cadeado._

O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Cames tinha um pai, que
por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu
ser condemnado a degredo com prego e cadeado; mas, por acaso, volta a
pagina das erratas, e v que o biographo lhe pede que leia _primo_ onde
estiver _pai_. Parece uma anecdota isto!

Que razes motivaram esta correco? Que raio de luz dardejou o bom
senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formao do
estirado livro, no teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim,
porque no queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a
_Carta de Ayres Barbosa a Andr de Rezende_?

Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simo Vaz de
Cames era _primo_ e no era _pai_ do poeta.

Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas
linhas, publicava, no _Diccionario de educao_ de Campagne, um breve
artigo intitulado _Cames_, em que se lem estes periodos:


Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Cames so tantos, e to
amiudados no discurso de tres seculos que j hoje em dia o repetil-os,
pelos mesmos conceitos e frmas encomiasticas, nos parece banal
encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforo de alguns
biographos empenhados em esclarecer os lanos menos claros da biographia
do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de
Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de
Cames. Todavia, assentando boa parte de suas innovaes em conjecturas,
resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses
pouco menos de inverosimeis. Est em o numero d'estas a affirmativa de
residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Cames, Simo Vaz. Este
mesmo  na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra
enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras,
e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados,
espancava o almotac de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do
snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho,
que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em
quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra
escalando conventos, e j com mais de setenta espancava as justias,
acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e
orgulho de fidalgo com as posses que do azas ao orgulho.

De todo em todo aniquila a supposio de que o mexedio Simo Vaz de
Cames haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma
nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da proviso
passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas
praticadas por Simo Vaz de Cames no almotac. Eis a nota: E para
tambem no ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos
que com estes tem estreitas relaes, aqui os apontamos desde j em
quanto as suas integras no forem publicadas no supplemento. Assim elles
vo prestar auxilio valioso, e no grande embarao a todos os criticos
illustres que, talvez fascinados por meras semelhanas de nomes e
appellidos, no teem hesitado em attribuir ao turbulento cidado
conimbricense Simo Vaz de Cames, muito vivo e so em 1576, a honrosa
paternidade _legitima_ do author dos _Lusiadas_. Cita mais o insigne
antiquario a vereao da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da
qual se deprehende que Simo Vaz havia casado em 1562, e casra
novamente. Ora, quer o _novamente_ signifique segundas nupcias, quer
primeiras, como alguem aventa, sem dar a razo do alvitre,  certo que
esse no podia ser o pai de Luiz de Cames, que falleceu antes de sua
mi. (Veja _Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e
importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra._ Coimbra, 1867,
pag. 7).

Temos presente a genealogia dos Cames, manuscripto de Jorge de Cabedo,
fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz de Cames.
(Veja _Diccion. bibliog._ de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).

Cabedo falla do bisav do poeta Joo Vaz de Cames, que foi corregedor
em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.

Segue Anto Vaz de Cames (filho d'aquelle e av do poeta) que casou no
Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simo Vaz de Cames (filho de
Anto Vaz e pai do poeta) _que foi por capito d'uma no  India, e deu
 costa  vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e l morreu, deixando
viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem_.

Faz tambem meno de outro Simo Vaz de Cames, residente em Coimbra,
parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca
Rebello[1] filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casra com
Domingos Roque Pereira[2].

O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, e cedeu aos singelos
argumentos do artigo do _Diccionario_.

Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?

A no entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos
litterarios, rasgava as paginas em que chamava _pai_ a Simo Vaz,
substituindo-as por outras em que lhe chamasse _primo_.

Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e
60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros
derivados da confuso dos dous homonymos Simo Vaz de Cames.

Escrevi no _Diccionario_, reportando-me impensadamente a um genealogico
dos Cames: Faz tambem meno de outro Simo Vaz de Cames, parente
proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello,
filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casra com Domingos
Roque Pereira.

Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:

Simo Vaz de Cames, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca
Rebello, filha de Alvaro Cardoso[3].

Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal
casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vr isto
em letra de mo, e o pz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui
eu.

Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na
ladeira do meu engano. J o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta
de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simo
Vaz com Francisca Rebello!  fado esquerdo do snr. Theophilo! Porm, o
que tem graa infinita  o snr. doutor fixar o anno do casamento em
1562! Que eu o inventasse, v; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o
anno,  vontade de callaborar nas indiscries alheias!

Isto no  simplesmente criancice prvoa-- desgraa;  mais que
desgraa-- castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou
arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a
Varnhagen; e no houve ainda detrahidor to audaz, to ignorante, e,
sobre ignorante, ridiculo.

O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em
uma arvore genealogica. Simo Vaz de Cames, o libertino parente do
poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta  a
verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro
Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simo _Vasconcellos_, e no
Simo _Vaz_.

C me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo
desperdiou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do
casamento; que essa  d'elle.

Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do
erro, porque no supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? No
viu que todas as referencias s paginas substituidas ficavam
incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela
priso do _pai_ no pde subsistir racionalmente na priso do _primo_!
Que faz ento o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:

     ERRATA

     Onde se l _pai_, leia-se _primo_.

E est acabado.

Ninguem me d definies d'este preceptor infeliz!

Contem-me esta passagem, que eu no preciso cenhecel-o de perto, nem
lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento.  um chos!
Eu j no me admirarei se o snr. Theophilo, depois de esponjar alguns
centos de livros, escrever uma _Errata geral_ n'este sentido: onde se
l: OBRAS _de Theophilo_, leia-se: MANOBRAS _do mesmo_.

      *      *      *      *      *

Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Cames nas veias dos
nossos contemporaneos. No cuide, porm, que vai deliciar-se n'esta
leitura.  materia rida, fructo das taes insomnias constantes do
proemio do numero primeiro.

Vasco Pires de Cames veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi
alcaide-mr de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o
mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota,
perdeu os bens da cora; mas c ficou.

Gonalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da
Camoeira. No temos que vr com os outros filhos, cujos descendentes ou
foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro
ramo,  falta de gerao.

Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Cames, cujo primogenito,
tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez
um morgado em Aviz.

D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimares com
Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos
no tempo de Philippe II.

Luiz Lopes de Carvalho, 5. senhor dos coutos, foi assassinado em
Guimares.

Gonalo Lopes de Carvalho Cames e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz
de Cames, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no
termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por
Gonalo Vaz de Cames e Duarte de Cames, ultimo representante da
varonia, que morreu sem gerao, e por isso os vinculos passaram aos
descendentes femininos de Lopo Vaz de Cames, que eram os senhores de
Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692[4].

Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonalo Lopes, casou, depois do
anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito
nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e
Mendona, filha de D. Francisco Furtado de Mendona.

Tiveram filhos vares, que morreram na infancia, e tres filhas que
casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de
Carvalho, alcaide-mr de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com
Gonalo Barba Alardo Corra, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de
Carvalho Fonseca Cames e Menezes, herdeira, com D. Antonio de
Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D.
Rodrigo de Lencastre.

Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou
D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Cames, e uma senhora, D.
Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Loureno de Almada,
1. visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.

D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim,
etc., e sargento-mr do regimento de cavallaria do principe D. Joo em
1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de Joo
Henriques, do Bombarral.

No morgado da Camoeira succedeu o 2. visconde de Souto de El-Rei pelo
seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D.
Guiomar de Cames, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes
viscondes, D. Guiomar, casou com Gonalo da Silva Alcoforado.

Est, por tanto, o sangue dos Cames em todos os descendentes da mulher
do 1. visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o
appellido Cames. Est igualmente na familia Alcoforado da casa da
Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimares; nos descendentes
de Jos Bruno de Cabedo, 1. baro do Zambujal, por linha feminina, pois
sua mi era neta de D. Guiomar de Carvalho Cames e Fonseca; na casa da
Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier
Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Cames, senhor de
Abbadim.

Em quasi analogo parentesco esto os snrs. Leites de Pao de Sousa, e os
snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.

No prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica to
copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das
pessoas que representam aquelles illustres appellidos.

Falta dizer que Luiz de Cames deixou um filho que no se reproduz, e 
immortal: chama-se LUSIADAS.

     [1] Adiante se ver que fui inexacto n'esta noticia.

     [2] Este Simo Vaz de Cames era filho de Duarte de Cames de
     Tavora, filho de outro Simo Vaz de Cames, senhor do morgado da
     Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e
     Sousa, de quem houve, alm de Simo Vaz de Cames, Luiz Gonalves
     de Cames, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria
     Severim. Quanto ao Simo que viveu em Coimbra, diz o linhagista que
     _se casra  sua vontade_, como quem desfaz na estirpe da esposa.

     [3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: _a qual
     casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira._

     [4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimares, pelo padre
     Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.




LISBOA


Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem
creado que nos visitou mais de espao em 1730. A _Description de la
Ville de Lisbonne_, impressa em Paris, n'aquelle anno,  facil de
encontrar em Portugal.

Este viajante esteve no pao da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do
vasto palacio. Reinava D. Joo V, o Salomo do occidente. Que valores
no sorveu aquella vasa do Terreiro do Pao vinte e cinco annos depois!

Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:


Esta grande cidade (diz elle) no  alumiada de noite, e  isso causa a
que um homem se veja em embaraos para acertar com o seu caminho, e
soffra sobre si os despejos de immundicies que l se atiram das janellas
s ruas, porque as casas no tem latrinas. A obrigao de cada qual 
levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam
n'este servio muito baratas; mas a plebe no quer saber d'essas ordens.
Nas ruas no se anda de noite com bastante segurana, salvo quando se ,
como l dizem, _embuado_, isto , quando se envolve a gente em um farto
capote, desde a cabea at s canellas:  um trajar exquisito, de que
usam as pessoas mais qualificadas, e at os principes, como trajo
privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de
mascara, vem de impedir que os taes se reconheam, e do receio que o
disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os
insultar ou quizer conhecer... Lisboa no tem passeio algum, nem
divertimento de nenhuma casta a no ser um mau theatro hespanhol. Os
fidalgos, no obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5]
vo gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praa do
Rocio, onde palestream at  noite, sem sahir das carruagens. As
cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras esto na moda das damas
distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os
coches so raros.


Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e
hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praa dos
Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.

Attribue a carestia  diminuta concorrencia de estrangeiros, que se
hospedem fra das casas dos amigos.

J n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em
casa dos amigos. N'este particular, no adiantamos nada. Outros
forasteiros, que no tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar
quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, loua de barro, e cama
no cho, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que  noite se
desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era
peor.

Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um
negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no
interior do corpo humano e nas entranhas da terra, no tendo nos olhos
seno grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos
reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os
phenomenos physiologicos da digesto, e dizia se o feto no ventre
materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40
braas descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias
s as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porm,  hora
de sesta, refinava no condo de vr os rins de um homem gordo atravs do
capote. Os descobrimentos de agua, j para o rei j para os
particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os
incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a merc regia do
_dom_ e o habito de Christo para seu marido.

O padre Le Brun, no anno seguinte  publicao d'este livro, metteu a
riso a historia da lisboeta. (Veja _Histoire critique des Pratiques
superstitieuses_, etc., l. 1., cap. 6, edio de Amsterd. 1733). Mas o
cavalheiro de Oliveira que demorava ento em Londres, onde publicava o
seu _Amusement periodique_, a pag. 274 e seguintes do 2. tomo, impugna
a incredulidade do francez, com as seguintes razes. E note-se,
primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais
incredulo do seu tempo; e, se no fugisse de Portugal, teria sido
queimado como herege.

Diz elle:


Eu no subscrevo s suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga 
mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze
e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Pao d'Arcos na quinta de
Jeronymo Lobo Guimares, onde fra para indicar o ponto onde havia agua.
Do primeiro lano de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto
indicado, e achou agua abundantemente. Verdade  que ella marcava entre
seis e sete braas; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem 
certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes
todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes.
Afiano isto como testemunha ocular. Que ella visse atravs da pelle,
nunca ouvi dizer...


Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados
por Le Brun, e prosegue:


Declarou esta menina que no podia entrar em igrejas e atravessar
cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados,
que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e
maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declarao.
Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o
descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. No sei que destino
teve esta mulher: o que sei  que nem a inquisio nem algum tribunal a
inquietou[6].


Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle
algumas cousas da crte de D. Joo V que precisam ser esclarecidas.

Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, quelle tempo, o
officio de mordomo-mr tinha vagado, em consequencia de ter fugido de
Portugal em 1724 este empregado do pao com uma das mais formosas damas
do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:


O rei mandou deps os fugitivos um esquadro de cavallos; mas como
elles levavam um dia de avano, e correram  desfilada, a tropa no
logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem
embarao. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo
d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo
retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim
que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como l dizem os
portuguezes, _porque tinha barbas_, jurou no apparecer mais sem matar o
raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.


No immediato numero saber o leitor quem foram os personagens d'este
caso, que envolve tragedia digna de livro de maior flego.

     [5] V-se que as representaes eram de dia.

     [6] So rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do
     cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria
     dous assignantes, e um era Jacome Raton.

     [7]  erro: foi em _Tuy_.




VOLTAS DO MUNDO


Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazo e
Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. Joo III.

Teve quatro filhos e duas filhas.

Os rapazes,  excepo de um que morreu na infancia, foram todos servir
na India: eram Ruy, Alvaro e Gonalo.

As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cs.

Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendona,
o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis faanhas que os
Coutos e Barros chamaram proezas.

No lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de
missionarios. Reinava D. Joo III, o inquisidor. Cada qual  do seu
tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra
o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a no ter ido l o
insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagio da carnagem, a
peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sdes de
cubia insaciavel.

No seu solar de Barcellos ficra Ayres Ferreira, ssinho e triste.
Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe
fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmos, cujos nomes
comearam a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo
de appellido _Goes_, renunciava esse appellido, que era o de seu
progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na
India!

Um dia, Ruy Ferreira de Mendona recebeu em Goa carta de seu pai,
queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos
affrontamentos de quem j lhe no temia o brao alquebrado por annos e
desgostos.

E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousra
pr-lhe as mos nas barbas.

Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe
licena para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de
evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capites. E,
sabendo que o fidalgo lhe no obedeceria e se andava negociando
clandestinamente passagem nas nos, deu-lhe ordem de priso at que os
navios levassem ancora.

As nos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.

Apenas livre, correu  barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se s
ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao
sossobro, que j o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as
nos balouavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas
estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capito, que lhe
quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha
com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em
tamanho quebranto de foras que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado
duas leguas de mar!

Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.

S. Thiago de Creixomil, abbadia do ento chamado Couto de Fragoso,
demorava no termo de Barcellos.

Ahi vivia o clerigo que affrontra Ayres Ferreira.

Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu  porta do abbade, e
enviou-lhe o seu nome.

O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a
espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o
adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous
gladios; mas que prelio to desigual entre o guerreiro experimentado e o
fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso!  volta de poucos botes,
o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito s costas, ouvindo
estas vozes frementes de odio:

--Perro! no pozesses as mos nas barbas de um velho!

E depois foi beijar a mo a seu pai, com quem se demorou algumas horas,
e partiu para no perder a passagem das nos que estavam de vela para a
India.

E l foi ceifar novos louros.

Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na
capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde
estavam os ossos de seus paes e avs.

Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.

Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que
naturalmente os tinha, de collaborao com as mais nitidas ovelhas do
seu rebanho.

Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da
Maya, a sua prima D. Joanna de Ea, da casa de Cavalleiros. Ganhou a
demanda.

Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de
Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de
Souto.

Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.

A representao d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco
Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraado que teve
aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendona, casou
com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.

Eu no sei se algum dos trinta e quatro bares que conheo, estando no
Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado
pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da
Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que no; e faria
muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno
eterno, cavalgou na sua mula, e l foi socegadamente para Lisboa, e de
Lisboa para a India. Hoje em dia, se o baro de Ranhados matar o
Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita 
d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular
telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o baro, quando chegar,
mais aqui ou mais alm, d de cara com dous policias, e depois bem
sabemos o resto.

Mudaram os tempos pela mesma razo que mudaram os fidalgos. No ha pai
por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.

Entre HEROISMO antigo e DINHEIRO moderno est um fosso. Quem quizer
palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no _ridiculo_ ou... nas
mos da policia.




NOVA SOLUO DO PROBLEMA HISTORICO


C est outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio,
infelizmente para o verdadeiro merito, era j distribuido. No obstante,
o snr. _Bibliophilo_ ha de ser galardoado. A minha livraria  pobre: no
vejo livro digno de s. s.^a; mas vou munir-me de duas joias litterarias,
que submetto  escolha do douto letrado.

Disponha, pois, s. s.^a do FAUST do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos
ORIGINAES OPUSCULOS do snr. Jayme Jos Ribeiro de Carvalho. A primeira,
bem que no trate de hygiene,  drastica; a segunda, posto que entenda
com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da
primeira. D'este modo, dou testemunho publico da considerao que me
merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a
lapidao do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta
destinos de nenhum modo chochos.

_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA._

Estimo esta occasio de o informar de um caso que succedeu em 1693, e
esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro
que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.

Tenho a satisfao de possuir um folheto rarissimo que meu av
conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755.
 conhecido outro exemplar no _Museu britannico_. E eu preso-o tanto que
no me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas
do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.

Intitula-se a minha raridade: _Relaam do sucesso que teve o patacho
chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da
Costa de Guin, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na
Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corra, mestre do mesmo
patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em
Lisboa em 1734._

Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia
do referido opusculo.

Conta Francisco Corra que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde,
toldou-se repentinamente o co, e logo uma nebrina escura fez noite a
bordo, a termos de se no conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de
esfuziar nas gaveas repelles de ventania, e os relampagos a fuzilarem,
e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.

Traquete e mezena voaram. A embarcao fez agua por todas as pranchas
descosidas; e, apesar de esforos desesperados, no vingaram cegar os
sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada 
misericordia divina. Ao abrir da manh, avistaram a leste uns morros
pardacentos; mas como no tinham governo que alli os proejasse,
deixaram-se ir na corrente e  merc de Deus at varar em terra.

Em quanto se reparava a embarcao, o mestre do patacho, com Manoel
Antunes e Joo de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem
cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia;
viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma
mulher marinha que Francisco Corra descreve d'este feitio:


Tinha todas as perfeies at  cinta, que se discorrem na mais
formosa, e smente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe
chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a
distancia de mais de meio palmo por cima da cabea. Da cinta para baixo,
toda estava coberta de escamas, e os ps eram do feitio de cabra, com
barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser
vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e
sahiram tantos animaes, e de to diversas castas, que nos causou muito
medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que
sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois
j tinha visto outra no cabo de Gu; e tinha perdido o medo com outras
semelhantes apparies; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem
marinho de to horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha
smente a apparencia de homem na cara, na cabea no tinha cabellos, mas
uma armao, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram
maiores que as de um burro, a cr era parda, o nariz com quatro ventas,
um s olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas
ordens de dentes, as mos como de bugio, os ps como de boi, e o corpo
coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lanou em
terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se
mandou copiar a sua frma, e se conserva na casa da cidade d'aquella
ilha.


Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz l dos reconcavos
da serra, a bradar: _Portugal!_ _Castella!_ Seguindo a toada das
exclamaes, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou
assim:


_Graas a Deus Senhor; infinitas graas vos dou, por me chegardes a
tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa_; e logo
olhando gravemente, e cortez para ns, disse: _Senhores, de que nao
sois?_ Ns pasmados, no acertavamos a responder; e conhecendo elle o
nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre
habitao, aonde entrmos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com
taes palavras:

_Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que
no tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me
procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem
resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver
estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de to grande
penalidade._ Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer  sua
pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribramos com
um grande temporal quella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de
joelhos, levantadas as mos, pondo os olhos no co, soltando as
lagrimas, deu graas a Deus, dizendo: _Ah bom Deus, quo grande  a
vossa infinita Providencia!_ E levantando-se, nos abraou, e saudou,
dizendo: _Meus portuguezes, meus portuguezes_; sem que as lagrimas
cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a
si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo,
de que lhe dmos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e
sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II,
suspirando com alvoroo, disse: _E Portugal tem rei! Oh Deus immenso,
que te lembraste do teu reino!_ E dizendo-lhe ns como fra acclamado
el-rei D. Joo IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, no cessava
de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas
lagrimas, suspiros, e soluos, nos perguntou pela conquista de Africa,
ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a
batalha, que perdera el-rei D. Sebastio, se no continura, tomando-se
horror a tal terra: e desejosos ns de sabermos com quem tratavamos, lhe
pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levra quella ilha
incognita, e no arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com
taes palavras:

No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou
muita gente, por no vr o seu reino recuperado das mos dos mouros
pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe
estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da
Africa, passei  Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por
muito suaves, na considerao, de no vr com os meus olhos o quanto
padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando  Europa,
cahi nas suas mos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma
embarcao na bahia de Cadix, que promptamente se fez  vela. Tinha o
cabo ordem particular para que em certa altura me lanassem ao mar, sem
que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas aces,
e innocencia, suspendeu a execuo; at que na altura de Cabo Verde, me
intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de
me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pde, e n'ella se
pz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a
que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam
de expr: e me mandaram baixar  lancha, o que no quiz executar, sem me
confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus;
que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me
entregaram  disposio das ondas. No perdi o animo, antes constante
soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e
nadando a lancha livremente, na manh seguinte de 4 de outubro, cheguei
por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos
visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a
piedade nos brutos, que no experimentei nos homens; e descobri esta
concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me
recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e
outras frutas. Vivo, e no sei para o que vivo; Deus sabe o para que.


O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e Joo de
Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastio era aquelle.
Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; mas
elle--acrescenta o mestre do patacho _Nossa Senhora da
Candelaria_--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o
no precisassemos a tal jornada, pois no chegra ainda o tempo de
passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lanassemos, terra
firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe
haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos.
Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e
respondeu, que desde que n'ella entrra no cuidra mais que viver para
Deus; e que todos os annos lavrava por suas mos uma tunica de folhas de
palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova no tinha mais que uma
cruz, que por suas mos fizera de madeira; e que essa deixassem, para
que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempo; e quando ella
se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu
habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas;
e fazendo-nos  vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que
nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu
pedimento o lanamos em terra duas leguas distante de Arguim,
expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir
a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que
Deus que o conservra at aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.

Despediu-se de ns com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as
saudades, que de ns levava, e o quanto se alegrava de passar quella
terra. Abraou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando
as mos agradeceu a Deus as mercs que lhe fizera, e esperava receber da
sua piedosa mo; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos
pela falta da sua companhia. Jmais podemos alcanar, o sabermos d'elle,
a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta
gravidade, que nos no dava confiana, para instarmos; e smente ao
despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e
dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse:
que Deus o sabia.

Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos
n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos
ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.


Confronte agora v. as datas das sentenas dos tres pontifices, e
deprehenda que D. Sebastio, tendo corrido a Palestina e _varias terras_
como elle disse aos marinheiros, muito  de crr que estivesse em Roma
nas tres pocas assignaladas na sentena.

Quanto  circumstancia de estar ento o rei bastante avanado na
idade--pois tinha 137 annos--isso  controversia que pertence  alta
philosophia e no ao calendario decidir. So os _porqus_ de Deus, dos
quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio
Vieira:


Demais que os porqus de Deus so incomprehensiveis, e das suas razes
no pde o entendimento humano dar razo; quanto mais, que Deus Nosso
Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem
podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prgassem, e
com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podra
trazer se a brevidade as permittira.

... Ou este rei morreu, ou no! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fra
d'ella? Se fra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como
no acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se
morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique
aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei?
Se lhe a elle constra a sua morte, nunca fizera tal inquirio; e a
quem melhor podia constar, seno a elle? E bem se viu, que lhe no fez
exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem
verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigao.
Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e
desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere
Lucio Floro nos seus _Annaes_, e D. Joo de Castro, que foi testemunha
de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios,
que ento succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este
discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. Joo IV o testificou e
contou, o que  uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que 
trabalhoso o referil-as por papel.


Responda-lhe, se pde.


Muito venerador


_Bibliophilo._


No tenho que responder. S. s.^a cuidar que eu sou menos sebastianista
que a sua pessoa?

J lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais?
mande-as buscar ambas, que as merece.




DESGRAADO BALZAC!

( _ACTUALIDADE_)


Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel,
que parece estar-me convidando a declarar a razo por que assignei.

Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do
folhetinista.

Quer-me parecer que os dous so um e mesmissimo tolo (com licena: no
diga que sou incivil).

Se os dous no so homogeneos, ento tenho centauro pela frente. Em
cima, no noticiario, est a poro humana do aborto; em baixo, no
folhetim, est (com a devida cortezia) a poro bestial do mesmo
centauro.

Mas ha lanos em que o centauro se cabriola de feitio que a metade
debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, no sabe j onde
est o homem, nem onde est (com a divida venia) a bsta.

O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por
conveniencias da composio e da variedade da frma, lhe no chame
sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licena todas as vezes em
obsequio  urbanidade. O melhor  chamar-lhe, como variante, Silva
Pinto.

O snr. Silva Pinto comeou no n. 16 da _Actualidade_ a traduzir
romances de Balzac.

Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse
espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de
paredes caiadas!

Eu no me despendo em consideraes banaes acerca das difficuldades que
empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.

Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas
no author dos _Contes drolatiques_, ainda que lhe sbre igual saber da
linguagem portugueza, ha de vr-se em apuros para moldurar em estylo
vernaculo as concises, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.

Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo
de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.

E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faa-me o obsequio de se
prover do n. 16 da _Actualidade_, e abrir isso onde comea o martyrio
de Balzac. No me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio
francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote
primor, ou sequer um dizer que no venha gafado de construco
gallicista. Isso  o menos. Vamos s tolices mais lerdas:

Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam
_tempo-brusco_, d a razo do epitheto n'estes termos:

_Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumire trop vive, ni obscurit
complete._

E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:

_Effectivamente, esto banidas por elle de sua casa tanto a luz
demasiado viva como a escurido completa._

Viram? _chez lui_--de sua casa. Incrivel!

Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua
lingua, quiz dizer:

_No ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas._

Mas... _a casa do homem_! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha
luz ou estava s escuras em casa? Quem estava em _escurido completa_
sabemos ns.

Adiante.

Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis,
espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta
condio, e acrescenta:

_Auprs d'elle tout a blanchi._

O snr. Silva interpreta assim a phrase:

_Tudo isto via embranquecer  beira d'ella os proprios cabellos._

Quer dizer: _quelles homens, quando conversavam com aquella senhora,
embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos._

Esta sandice faz-me compaixo. Se vejo outra assim, emigro.

Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de
renome, aos olhos d'ella, _tout a blanchi_, eram como se fossem
velhos. No lhe inquietavam o corao, no lhe perturbavam a serena
indifferena, etc.

Adiante.

Referindo-se  insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac:
_Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la_. O
author quer dizer: _Certas mulheres galanteadoras tem artes de
dissimularem os mesmos geitos_; mas o snr. Pinto, subtrahindo o
_coquettes_ que d o relevo ao confronto, diz espalmadamente:

_Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano._

Chatissimo!

Balzac diz que Eugne de Rastignac... _avait plus d'une fois regard la
marquise de manire  l'embarrasser_.

Traduco do centauro:

_Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraal-a._

Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como  que os
olhos embaraam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos
soez diria:

_Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou
perturbou._ Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias
subentendidas na phrase _embaraal-a_.

Adiante.

Balzac diz que o personagem _etait commodment assis, et avait les pieds
plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelire_.

O tal Pinto estraga d'esta arte:

_Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os ps no
brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim._

No traste forrado de pelles!

_Chancelire_,--uma palavra diluida em nove!

Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir _capacho_, ou
_ceiro de flpo_, ou _guarda-ps_, ou _pellia_, por analogia com os
mantos forrados de pelles; mas... _traste!_ Salvo seja!

E traduzir _chenets_ para brazeiro!

Este brazeiro deu-lhe proviso para tolejar  larga, e afogar no
tinteiro as palavras que no percebeu.

Logo em seguida, escreve Balzac:

_Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons
d'un garde-cendre_, etc.

Querem vr o que  uma traduco sovina?

_Oh! conservar os ps junto ao brazeiro..._ E acabou-se.

quelles _griphos_ embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo
como o leitor e eu pelas legendas arabes da s velha de Coimbra. Com a
sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave
sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava _os
ps no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro_.
Percebeu elle que os foges tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao
travs de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre
si o apoio dos ps? No percebeu nada.

Senhores leitores do Balzac, segundo a _Actualidade_:

O homem que nos vai apresentar o author da _Comedia humana_, vestido de
farrapos bordalengos,  esse que ahi fica... _s moscas_, at ao numero
seguinte.

      *      *      *      *      *

Agora, duas palavras graves.

O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este _house-dog_  porta da
_Actualidade_. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso
espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos
Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala
que ahi est exposta s injurias de tanto biltre. Era meu proposito
deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear
phrenetico.

Logo, porm, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu  sombra,
quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo,
sacudil-o-hei  cara dos que o aulam, e fal-o-hei portador das minhas
caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: _An
hungry dog will eat dirty pudding._




OS 2 JOAQUINS


Um  o arranjador dos _Musicos_ e de outras maravalhas.

Outro  Theophilo que tambem  _Joaquim_.

E tambem  _Fernandes_.

Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.

_Joaquim Fernandes_ era a parte chata do sujeito.

Desfez-se d'isto, poz-se s cavalleiras do genio, e apregoou-se
_Theophilo Braga_[8].

Aviso  posteridade:

Elle era Joaquim!

A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.

Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto
feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados,
ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos
seus cachorros.

E que cachorros!

      *      *      *      *      *

Nem os sepulcros respeitam.

Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.

A sepultura era de gigante que o leitor, se no o viu, ainda o v na
projeco da sua imagem pelas paginas do livro amado.

Chamra-se, n'esta vida, ALMEIDA-GARRETT;--e chama-se hoje a gloria
imperecedoura de Portugal.

O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de
Cesar, disse...

Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor
de _Helena_, romance posthumo e incompleto do author de _Fr. Luiz de
Sousa_:


Acabava o anno de 1854; s primeiras cerraes do outomno inclinra
mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no
corao os aggravos da doena que, dentro em pouco e para sempre, havia
de apagar-lhe a luz dos olhos.

Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a
vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus s queridas
produces do seu elegante espirito. Era ento que a voz quasi infantil
da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi ento que,
revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que no deviam
sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mo propria, legava 
posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que
alumira a patria.

Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia
esplendida, abraada  cruz de Christo, abenoando a herdeira do seu
nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu
no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu gnio e todo o seu corao.



Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras
de C. G., genro de Garrett e editor de _Helena_:


Elle escreve alludindo  morte de Garrett: Era um sol no occaso
_revendo-se na luz_ immensa com que alumiava a patria. E em seguida:
extinguiu-se aquella existencia esplendida _abraada  cruz_ de
Christo...


E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:


 de crr que no haja aqui inteno maliciosa, mas desperta
insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhes.


 impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a
observar um co rescco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe
faminto a sangueira negra de um matadouro.

At os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram  gargalhada!

Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram,
estando Garrett na agonia da morte.

Garrett morreu entre dous amigos e duas irms da caridade.

Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhes, ao desembargador
Northon, se o seu amigo proferira o gracejo to celebrado.

--No--respondeu elle--mal sabe a dr que eu involuntariamente causei a
Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.

      *      *      *      *      *

Agora, o outro Joaquim, o musicgrapho.

Escrevi em um livro estas linhas em frma de carta a um amigo:


Sabes tu o que eu queria roubar  gaveta de Jos Gomes Monteiro? As
cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que
se expandiam na alma e intelligencia de Jos Gomes Monteiro. Estas
seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe
em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previso de morte proxima,
encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra
sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que
legitima e jubilosa vaidade para o corao honrado e generoso de Jos
Gomes Monteiro![9]

E vai agora, o dos _Musicos_, pga de Garrett, adormecido, havia 19
annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e
venerao, e enxovalha-o d'esta arte:


Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para
brilhar como um _vieux vert_ aos olhos das _petites matresses_ de ha 30
annos, no teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando
com a sua vida airada a confirmao de que o _genio immenso_ precisa da
_bohme_ para a sua inspirao, etc.[10].


Alma e linguagem travam-se aqui de mo, e medem a sciencia e a educao
do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e no me consta que passasse
a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na
Allemanha, por no caber (diz elle) _nos focos de immundicie physica,
moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam
mettido_[11]. J vem que o homem  limpo. Depois, veio  patria para se
formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos
collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade
de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, Frana, etc.

No s  conhecido mas at soffregamente lido em Paris.

Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:


Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a _Archeologia
artistica para darmos_ a nova edio critica do _Catalogo da livraria
d'el-rei D. Joo IV_ que, _como sabemos_ pelo nosso sabio amigo Mr.
Ferdinand Denis,  esperada com impaciencia em Paris.


Viram? _com impaciencia_.

Era em 1872, quando ainda o corao e o cerebro da Frana vibravam nas
angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastao, do
petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphos. Pois, em meio de
tanto horror, a unica esperana que, a intervallos, dava palpitaes de
gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no
occidente,  espera do livro do nosso, to nosso, Joaquim! Cada vez que
chegava  capital da Frana a mala de Portugal, as multides
acotovelavam-se frementes  porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do
sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o _Catalogo_. O sabio
francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos
institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete,
Mr. Denis pedia novamente o _Catalogo_ ao lusitano Joaquim, pintando-lhe
com termos no encarecidos a impaciencia dos seus.

Aqui est quem  o homem l fora, e c dentro.

Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra
n'estes termos:


Porque lhe antepomos um ideal que elle no quer ter[12].

Ento? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepe o snr. Joaquim?
Elle no sabe a significao do verbo _ante-pr_; mas imagine-se que
quer dizer o que a palavra no diz; presuma-se que nos _offerece_ um
ideal, por um preo razoavel. Que duvida temos em haver s mos isso que
o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de
queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do _ideal_
anteposto, uma _ida_ de servir; mas, se Joaquim d _ideaes_, peguem
n'elles, antes que o homem os exporte, como c fazem aos bois gordos que
os nossos magarefes no aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os
anteponham.

 o diabo este homem! M mez p'ra elle!

L que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe no aceitam o
ideal,  bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que  _uma
antigualha que s apparece nos leiles dos burguezes de ha 40 annos_. De
Castilho diz que lhe riscra o nome, depois que o outro Joaquim _lhe
applicou o processo_. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos!
_Eheu!_) De Herculano diz: est decrepito. Todos estes e outros de
menos porte so os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello
da Silva? Um era j morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava
n'este novo dia da sciencia patria.  crueza injurial-os, posto que
Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja _applicado o processo_.

Este Fernandes j processou o Herculano, e disse: O snr. Alexandre
Herculano nunca teve vocao litteraria[13]. E o _Eurico_? E a
_Abobada_? E o _Monge de Cistr_? E o _Bobo_? e a _Historia de
Portugal_? e a da _Inquisio_! e a _Harpa do crente_? Cuida o leitor
que  mister vocao litteraria para escrever estas cousas? No, senhor.
Estes livros s os escreve quem a no tem. O snr. Herculano, se tivesse
vocao litteraria, fazia umas botas.

Parte d'aquellas obras diz Fernandes que  glosa da _Notre Dame_ de
Victor Hugo.

_Eurico_  a variante do typo de _Claudio Frollo_;

O _Monge de Cistr_  variante da paixo de _Esmeralda e de Phebus_;

O _Bobo_  o desenvolvimento de Pierre Gringoire;

A _Historia de Portugal_  apenas a historia dos concelhos precedida da
biographia dos reis.

Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo _s se
admitte nos rapazes de escla_[14].

O leitor est em dizer que este Joaquim parvoeira to fra dos termos
concedidos aos sandeus que a policia no deve ser estranha ao escandalo.

Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:

 _Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que
Portugal tem produzido n'este seculo_[15].

--E quem  Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.

Vem Theophilo, e responde:

 o _introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal_[16].

Todos estes Joaquins  que sabem l uns dos outros.

Juntam-se s vezes e perguntam entre si:

_Theophilo a Coelho_: Quem s tu,  aquelle?--Resposta: Eu sou o
introductor da philologia comparada em Portugal.

_Coelho a Theophilo_: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis
que Portugal tem produzido n'este seculo.

_Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosrabes_: Quem sou eu?--Resposta:
s o musicgrapho, e o inventor dos imperativos _sejai_ e _estejai_.

_O 2. ao 1. Joaquim_: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os
nomes.

 pandegos,  lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! 
Joaquins! Eu vos arrenego!

     [8]No _Diccionario bibliographico_ do snr. I. Francisco da Silva, 
     conhecido por _Joaquim Theophilo Fernandes Braga_. (Veja
     Supplemento).

     [9] _Esboos de apreciaes litterarias._

     [10] _O consummado germanista_, por Joaquim do Vasconcellos, pag.
     50.

     [11] _Obra cit._, pag. 2.

     [12] _Obra cit._, pag. 9.

     [13] _Bibliographia critica_, pag. 106.

     [14] _Obra cit._, pag. 200 e 201.

     [15] _Obra cit._, pag. 215.

     [16] _Obra cit._, pag. 253.




FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL


 o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei
levar-lh'as. Conheo a valia que principia a hervecer. As cres alegres
da esperana cobrem a podrido.

Esto como a dizer-nos que o viver  olhar para diante e para os vivos;
e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flres do seu
amigo da mocidade.

Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu _Jornal
da Noite_, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha
corao, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da
imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e
modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que
Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de
obras portuguezas mais de sua feio; e, quando expirou, esses cem
volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.

Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto
louvor que lhe aprega um brilhante espirito a quem no se escondem as
desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.

Estas so as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:

..........................................................................


No succedeu porm outro tanto com o artigo intitulado FERREIRA RANGEL.
Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordao de obsequios
recebidos, a magoa da sua desventura, e no podmos, nem quizemos conter
as lagrimas. Se  vergonha chorar, diga-se que  a mais viciosa vergonha
inventada por homens.

Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834.
Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar
entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, ento
habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e
agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a
memoria nos no engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do
chamado _escrivo fidalgo_ cujo brazo recentemente collocado alvejava
na frontaria.

Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhes do Porto durante o
cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e
apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reunies. No lhe
chamavam _janota_ porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da
vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto
de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez j no
viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em
Moambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de
varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade
toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de
empregar to mesquinhamente homem de taes servios. Era o snr. Mendes
Leal. Mas no havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal no
podia esperar. Tinha mulher e filhos, e j no tinha po nem calado.

D'esses tres homens o que tinha imaginao mais viva, enthusiasmo
vigoroso, e propenses litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor 
liberdade no tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o
impelliu a expr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os
proprios adversarios contra quem lutra havia pouco nas linhas do Porto.
Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo
assignalados servios. A generosidade do corao era n'elle igual 
coragem e valentia.

Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a
esquina da rua do Bolho vimo-nos cercados por quatro scelerados que
tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capito das hostes
realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a
excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crr que os caceteiros
azues e brancos no ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e
encarnados.

Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o
rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza
d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio
do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda
bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.

Conservamos sempre relaes com este excellente homem. Depois de 1839
nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no
Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lmos
no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemorao da morte de
Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres
entre quatro tochas desde a rua Ch at ao Prado, sentimos no ter
estado no Porto n'esse dia para acompanhar  derradeira morada aquelle
homem desditoso.

Est explicada a sensao que nos causou o artigo FERREIRA RANGEL.
Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da
enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas
do caixo, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a
prestar  memoria do morto a homenagem da gratido que lhe deviamos.

D'esta vez a _alada da imprensa chegar at ao esquife do defunto_, e
derramar sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.




O MYSTERIO DA CASTANHA


No estimavel livro das _Cartas familiares_ de D. Francisco Manoel de
Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que
a lia.  a LXXIV da _centuria segunda_, escripta _a um amigo que passava
 provincia da Beira_. A carta  breve, e diz assim:


Que vos hei de dizer? seno que vos vades embora, que estejaes pouco,
que vos lembreis de mim. No sei certo se se diz mais nas partidas: que
eu, de puro estar, j no sei se como a gente se despede[17]. S vos
peo que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me no caseis l
com alguma Maria Castanha; _cujo tempo parece que tornou agora, porque
aqui entre ns o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos ps,
que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta_. Ide com Deus, senhor
meu, e tende em tudo to bom successo, que vos parea a Beira mal, e
volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.


As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em
saber o nome rebuado n'aquellas reticencias, a razo por que o sujeito
trazia o diabo aos ps, e que casta de pessoa era aquella Castanha
casada com o anonymo, forosamente individuo de alta prosapia.

As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo no moram
sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porm, que no posso
dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo  hora em que os
vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem
estou relacionado.

E, por tanto,  custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os
contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei
decifrar-lhe a carta.

As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de
S. Miguel. Por ser de _S. Miguel_,  que D. Francisco lhe pe o diabo
aos ps.

Temos o nome do mysterioso personagem.

Saibamos agora quem era a _Castanha_.

Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivo em Lisboa.

Ignez era formosa e honesta.

O conde de S. Miguel, j viuvo de D. Isabel de Mendona, filha do
segundo conde de Penaguio, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na
esquivana da moa todos os artificios do ouro com o prestigio da
pessoa, o conde accedeu  condio que ella estipulou: o casamento.

Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia
censurou, e D. Francisco Manoel metteu a riso, dando o noivo como
resvalado e cahido por cambap que lhe fez o diabo.

No entanto, o escrivo Castanha rejubilava por se vr to egregiamente
aparentado.

Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de
Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.

Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos,
escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual
ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.

O conde defende-se, publicando que no  legitimamente casado com Ignez
Castanha.

E, feita a infame declarao, separa-se d'ella e do filhinho, que se
chamava Nuno.

Ignez, ferida no corao e na honra, protesta que  legitima esposa do
conde de S. Miguel.

Instaura-se demanda.

O conde confessa ento que, na verdade, fizera um simulacro de
casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com cora
rapada, e vestido sacerdotalmente.

A justia aceitou a confisso do conde, confirmada pelo parocho fingido
e pelas testemunhas da tromoia.

Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi
obrigado a revalidal-o, ou a seguir o seu criado e as testemunhas para o
degredo?

No, leitor pio.

A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto
consorcio com a Castanha.

A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por
ignorar que no mundo havia tamanho infame.

Porm, como ella tivesse um filho, a sentena mandou que esse menino, D.
Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S.
Miguel.

Ignez l se foi amparar nos braos de seu pai, o plebeu, a quem Deus
inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua cora de
condessa ridiculisada pela sociedade.

Desembaraado e readmittido  estima dos Tavoras, o conde casou com a
tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S.
Miguel.

Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e
escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio
Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes
chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capito-mr de
Goes, Antonio Barreto Perdigo. Uma filha casou, e das outras quatro
ignoro o destino.

Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e
sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que  a legitima e
consagrada pelo padre authentico,  que est o setimo conde de S.
Miguel, que--ainda bem!--no tem que vr com a Castanha, zombeteada por
D. Francisco Manoel.

Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu to piedosas cousas a
respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de
S. Miguel fra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor,
espantar-se-hia de se vr a si entre ferros, e ao outro nos braos de D.
Isabel de Tavora!

     [17] Ia no seu 4. anno de priso D. Francisco Manoel.




BEM VINDO!


Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se
OS SALES.

Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por
entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos
forenses.

O visconde de Ouguella esteve j a meio caminho da montanha fragosa por
onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz
que o no enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Cates.

O governo, o delegado, a crte e o Moraes do _Mosquito_ principiavam a
desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o
jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso
senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas
carnes, mais ou menos pingues.

Esta deciso abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poo do
Borratem at  rua da Betsga, no ha duvida; mas o visconde achou-se de
repente reduzido smente  celebridade que tinha: a do talento.

Um d'estes dias fui vl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous
bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras,
que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de
Ravaillac e Fieschi--os regicidas.

Passados alguns minutos, afiz-me quella meia luz crepuscular descrada
pelos bronzes, e o meu corao e o meu figado aquietaram-se. Os bustos
representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu
Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhes. O
visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do
seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, j me transluzia no
semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos
que l sabem ir pela lealdade do corao.

Relancei os olhos, ainda suspeitosos,  sua banca, e vi papeis escriptos
recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escla,
inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso:
OS SALES. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o
na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um
despertar alegre, lucido e cr de rosa, entre dous pesadelos.




OS SALES


CAPITULO I

FATUM

     Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les
     femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations
     folles.

     *     *     *     *     *

     La femme est le dernier mot du Crateur. Le grand maitre avait
     d'abord sculpt les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis
     l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour
     se contempler dans son oeuvre.

     ARSNE HOUSSAYE.

O esboo  tudo.

A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida
comeam pelo embryo.

Deus mesmo no cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas,
principia pelo esboo.

A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as
suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes
anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o
_fiat lux_ biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e
brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.

Comear pelo esboo--no presente livro--era consultar as sibyllas da
cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar
os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do
porvir, antes de dar a lume o manuscripto de Joo Aleixo de Castro
Pimentel e Figueiredo.

Assim fiz.

Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro
que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram  praa publica os
ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve
um, dos mais avisados, que, voltando costas ao bero do luzeiro
esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um
elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.

Foi este que alcanou a cora. As primeiras frechas de ouro,
arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das
elevadas torres d'aquelle templo pago.

O passado vencera, aqui, o futuro.

Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu
singelo proceder.

Quiz ouvir os murmurios das pocas, que passaram, e que vo perdidas na
escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos
que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e
desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada
e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.

Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.

Uma  a religio austera do passado, cheia de nobilissimas tradies,
personificao viva da crte antiga, reflexo ainda esplendoroso da
fidalga portugueza, na altivez das frmas, na elegancia do dizer, na
familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e
no preito pago constantemente a tudo quanto  grande, nobre e generoso.

A outra, a condessa, senhora da mesma poca, nascida, e educada no
centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--,
como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de
Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos
d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia,
para se lembrar smente que  ella, esta excellente senhora, uma das
mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de
emancipao, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.

Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.

Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o
passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto
diariamente  imagem sacrosanta da liberdade.

A distinco, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel
cortezia, a elegancia incomparavel, e as frmas obsequiosamente
aristocraticas so as mesmas.

Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.

A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dres excruciantes, as
cadas da crte pela liberdade.

Uma  a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do
fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a
acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado,
na urna etrusca em que brilha e resplandece.

A outra  a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no
carcere, gemendo pela ousadia das suas crenas liberaes, quer a cavallo,
com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e
do p e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu corao elegeu
para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas
epopas da nossa liberdade.

E com o mesmo respeito, com a mesma atteno, e com a mesma homenagem li
a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu
contador.

Eu respeito todas as crenas.

Onde ha uma alma, que se eleve nas aspiraes grandiosas do futuro, onde
ha um corao, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de
todas as religies do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade
marcada com o sello divino.

O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se,
em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e
imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que
rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da
alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e
sobe at ao seu throno de gloria.

S a hypocrisia, e o scepticismo so vis.

No condemnemos crenas, nem aspiraes.

Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de manh.

Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a
mentira, e a blasphemia do futuro.

Depois de Plato, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos
ns mais do mundo moral?

Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e
tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustraes, que vo
atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram,
so, para mim, a demonstrao irrespondivel d'este clamor da
consciencia.

Basta.

Volto ao manuscripto.

No pendor d'uma das montanhas sobre que est edificada Lisboa, no ponto
mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia  modesta.

Ahi vive a marqueza.

Sobe-se uma escada de marmore  esquerda d'um pateo, que conserva todas
as tradies arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e
pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada
teem que vr.

Este aposento no o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais
afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o
alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella
austeridade de ornamentao, disposta alli por varias geraes.
Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os
retratos dos avs d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de
Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de crte, um cavalleiro de
S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um
mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de
Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E
as senhoras, oriundas de to distinctos appellidos, adornadas com as
telas e estofos preciosos de pocas, que j acabaram, parecem estremecer
de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que so hoje, para
ns, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.

Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo
preterito, que li  marqueza o manuscripto de que sou legatario por
direito de conquista.

A marqueza, se eu no quizera chamar-lhe a tradio viva, a imagem da
luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradies
heraldicas, e dos brases esculpidos nas abobadas dos paos de Cintra,
seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.

Encostada a uma bengala, cujo casto era uma maravilha artistica de
Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a
sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das frmas, e a superioridade
da mais elevada distinco, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos
trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos  concluso, e soltou
apenas estas palavras, fitando os seus avs:

--Visconde, oua, e aconselhe-se com as illustraes do seculo. Eu sou o
passado. Bata  porta da actualidade.

Beijei-lhe a mo, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua
primorosa educao, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles
nobres instinctos, e suavidade de frmas, que vo perdidas no nosso
seculo.

Ao levantar o reposteiro, onde o braso de familia, bordado em ls
finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas
franjadas, n'aquelle recinto, que  um salo de antepassados, um
verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e
cadenciada da marqueza, que me dizia de p, em face do retrato de seu
marido:

--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.

--Os desejos de v. exc.^a so ordens para mim, minha senhora.

E sahi.

No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por
meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo
moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz
o confortavel da vida intima.

Vive ahi a condessa.

Pendem das paredes e cobrem as _tagres_ varios retratos de familia.

Ha trabalhos de costura, e de _crochet_ estendidos por sobre as mesas;
ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos
intimos da existencia, e que se traduzem em recordaes do lar
domestico.

No era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adorao a Vesta?

A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que
ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendo da
liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do
seu elegantissimo trato.

Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das
lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis
soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos
da sua antiga formosura, to puros, e to correctos, que, se no  a
Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da
Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pago, tem, ainda assim, os
vagos e recordaveis traos da austera Juno, quando presidia aos festins
dos deuses.

Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.

--Que me diz v. exc.^a a este livro?

Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.

--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de f
viva, a crena robusta na liberdade, que animava e esforava os heroes
do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as
lendas d'essas lutas de gigantes. Perde muito, como eu tenho perdoado,
aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analse e estude as
variadas transices, que nos trouxeram a estas sinistras pocas de
descrena. Consulte o passado.

Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma
perplexidade d'espirito com que entrra.

--Oua, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve,
e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--No esquea as
historias que lhe tenho narrado. D-as como suas ou como escriptas pelo
doutor Joo Aleixo--nem por isso lhe tomar elle contas na eternidade.

Curvei-me respeitoso, e sahi.

A condessa e a marqueza insistiam pela narrao das anecdotas do seu
tempo. Quanto ao mais, quanto  historia vasta, severa, incisiva,
analytica, e verdadeira, como  ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos
livros, porque no podiam, no queriam ou no desejavam esclarecer-me.

Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da
idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o
sempre, a mythologia pag.

No se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas
da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e
de Roma: Morreu o Deus Pan!

Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as crtes
d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam  mulher,
divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, _Madame_ Rolland,
expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade.  mais uma realeza
que se extingue com tantas outras.

Onde acabava o oraculo comeava a crena. Escutei o futuro.

E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do
desembargador.

VISCONDE DE OUGUELLA.




SUBSIDIOS PARA A HISTORIA

DA

SERENISSIMA CASA DE BRAGANA


I

PEDRO DE ALPOEM

Sempre que encontrei este nome ligado  vida aventureira de D. Antonio,
prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou
assim.

Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando
de D. Antonio, quando o duque de Bragana, D. Joo, primeiro de nome,
transigiu com Philippe II, por preo que adiante se dir. Acclamou-o em
Santarem; fl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na
fuga, depois da derrota de Alcantara, at Vianna do Minho; e, d'ahi,
como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a
negociar-lhe a emigrao em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto
n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a
fim de arranjar a passagem do principe; no lhe arrancaram, porm, as
torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaaram-no com a
decapitao. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoo ao cutello do verdugo, e
pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que s
por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia
bandeada com o usurpador!

Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram
de to memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (_Cinco
libros de la historia de Portugal_, liv. III), de Faria e Sousa (_Europa
portugueza_, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez
intitulado_ Briefve et sommaire description de la vie et mort de D.
Antoine, premier du nom et dix-huitime roy de Portugal_, impressa em
Paris, no anno 1629.

Uma vez, folheando a _Bibliotheca lusitana_, vi o nome e appellido do
leal amigo de D. Antonio.

Senti uma d'essas raras alegrias que s entendem os que andam a joeirar
o lixo dos seculos por vr se acham um certo diamante que a maior parte
da gente no trocaria por missangas.

A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: _Pedro de Alpoem
Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do
collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1. de janeiro de 1578. Na
universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por
opposio a 18 de outubro de 1572, d'onde passou  do Cdigo em 2 de
janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successo da cora
portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que
tinha  mesma cora o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa
morreu degolado._ _Escreveu_: Carta ao duque de Bragana D. Joo, o
primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. _A data 
do Seio de Abraho a 20 de julho de 1581._ _Comea_: Obriga-me a
escrever a v. exc.^a c d'est'outro mundo de verdades e desenganos.
_Acaba_: Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem
promettido conservar. _ larga, muito judiciosa, e consta de uma forte
invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispr que os castelhanos se
senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragana
por seguir o cardeal._ (Tom. III, pag. 553).

Alguns annos frustrei esforos em busca da carta manuscripta de Pedro de
Alpoem, pois, com certeza, no corria impressa; at que, entre uns
papeis pertencentes  rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e
havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado
inculcra.

O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se
reparasse que ella  datada no _Seio de Abraho_, deprehenderia logo
que, em nome de Pedro de Alpoem, j degolado em 20 de julho de 1581,
algum escreveu aquella carta, como vinda d'alm-mundo. E, at no comeo
da carta, as palavras: _Obriga-me a escrever a v. exc.^a c d'est'outro
mundo de verdades e desenganos_, esto confirmando a fico.

Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse 
luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam
especies historicas no sabidas, traos profundos da physionomia do av
de D. Joo IV, e alguns lanos ignorados da biographia da nobre victima
da amizade e do patriotismo.

Persisti, assim mesmo, na indagao da linhagem de Pedro de Alpoem,
esperanado em descobrir miudezas que realassem as feies principaes,
j de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais
esquadrinhei, seno que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro
de Alpoem, e de uma senhora de appellido _Caldeira_, filha de Affonso
Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja
de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiado amigo de D. Antonio era
administrador[18]; e, como no deixasse descendencia, o morgadio passou
a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irm de seu av, casada com
Estevo Barradas.

No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era
Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas
impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se
dispensava de avs illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de
dar a cabea ao algoz e legar o nome sem mancha ao corao do principe
homisiado; mas seria hoje em dia braso aos que procedessem d'esse
egregio sangue.

D. Antonio captivou na desgraa amigos que lhe sacrificaram haveres,
liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o
bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou
enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do
castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. Joo de Azevedo, Antonio
de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de
Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. Joo de Castro, o
visionario, que, morta a esperana no filho de Violante Gomes,
resuscitou D. Sebastio na pessoa do calabrez Marco Tullio.

As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs.
Rebello da Silva e Pinheiro Chagas no mencionam um amigo estrenuo do
prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19. senhor da casa de
Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo,
cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do corao com
superiores dotes de provada intelligencia.

Da inflexivel dedicao de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe
desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro
sim no seu testamento impresso nas _Provas da historia genealogica da
casa real_, tom. II, pag. 556.

Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e
outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do
infante D. Luiz, logo que o duque de Bragana offereceu a sua casa como
valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do
rei portuguez ameaavam, depois da morte do cardeal-rei.

Perdidas as esperanas, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do
carcere e desterro, at que, volvidos annos, conseguiu perdo de
Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas,
que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mi do rei que lhe perdoou.
Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da cora
nunca mais voltou  casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a
usurpao, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas
indemnisaes dos reis brigantinos; no assim os descendentes de Martim
Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue
apenas o que a rapacissima vingana de Philippe II lhe deixou. Entre os
netos de D. Arnaldo de Bayo e os do bastardo de Ignez Pires no tem
havido no decurso de tres seculos humiliaes de vassallos nem
magnanimidade de reis.

Volvendo  suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu
author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragana, auxiliar,
seno causa primaz, da escravido de Portugal, da degradao da nobreza,
da miseria do povo, do perdimento das colonias, e dos atrozes flagellos
que se contaram pelos dias de sessenta annos.

Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo
secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragana aos calcanhares de
Philippe II.

     [18] N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos
     ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu av do
     mesmo nome em 1514.




ERRATA DO N. 2

Pag. 42, linha 3.:

Aquillo com que mais se accende o engenho.

Emende:

_Aquillo_ com que mais se accende o engenho.


FIM DO 3. NUMERO





End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
no pde dormir. N3, by Camilo Castelo Branco

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Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
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terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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License terms from this work, or any files containing a part of this
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License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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