The Project Gutenberg EBook of Portugal e Marrocos perante a historia e a
politica europea, by Carlos Testa

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Portugal e Marrocos perante a historia e a politica europea

Author: Carlos Testa

Release Date: June 30, 2008 [EBook #25934]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E MARROCOS ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)






PORTUGAL E MARROCOS

PERANTE A HISTORIA E A POLITICA EUROPEA

por

Carlos Testa

Capito de mar e guerra


LISBOA

Typographia Universal

(Imprensa da Casa Real)

110, Rua do Diario de Noticias, 116

1888




ADVERTENCIA


No  nova a ida, ou talvez chimera, que constitue o objecto d'estas
linhas.

Quem agora as apresenta, ainda ha poucos annos as emittiu por incidente,
ao considerar uma questo de politica internacional que ento se
ventilava.

A repetio do que ento se consignou, explica-se pela obediencia aos
mesmos dictames de um sentimento intimo, talvez illusorio, mas que para
ser plausivel ou desculpavel, tem agora por si certa ordem de factos e a
perspectiva de phases politicas e combinaes diplomaticas, que tornam
talvez opportuna a sua apreciao.

Tal  o motivo e o fim que pode justificar a repetio d'estas
consideraes.

Lisboa--Janeiro de 1888.




I


Dos grandes continentes que compem o denominado Velho Mundo,  a Africa
aquelle que ainda em grande parte mal devassado, se tornou modernamente
objecto de uma especial atteno das potencias Europeas.

Se o geographo, o geologo e o naturalista alli encontram amplo assumpto
para estudo, na delimitao de seus territorios, de seus extensos rios,
vastos lagos, asperas florestas, e na observao das feies do solo, e
de seus differentes productos, tambem aos homens d'estado, secundando as
vistas politicas e os variados interesses das potencias, no se tornou
indifferente a importancia que a estas pde advir no futuro, da
explorao d'aquelle vasto continente.

No decurso dos acontecimentos de que o Mundo  o grande theatro, e a
humanidade o actor, difficil cousa seria o pretender subordinar taes
acontecimentos a uma regra invariavel, de modo a sujeitar seus effeitos
a causas precisas. Problema assaz complexo seria pois o pretender
designar e precisar o que possa haver contribuido para o atrazo em que a
Africa ficou perante as outras regies do Globo, mui posteriormente
descobertas e conhecidas. Todavia talvez se podessem apontar como causas
d'esse relativo abandono de to vasta regio, a influencia de um clima
em grande parte deleterio, as difficuldades materiaes de transpr suas
inhospitas planicies e asperas cordilheiras, a influencia que a
escravido e seu trafico podessem ter no desvio de praticas mais
conducentes  sua proficua explorao, e talvez mais do que tudo, a
atteno de preferencia dada para outros emprehendimentos que
eventualmente offereceram novas expanses  actividade humana. Mas,
cousa notavel, se a Africa na sua maior extenso se apresenta ainda hoje
por devassar nas suas regies centraes, em contraposio deixa-nos vr
na sua orla mais septentrional uma zona de territorio j conhecido e
explorado desde tempos os mais remotos, e na qual mais se disputaram os
pleitos em que a humanidade andou por seculos empenhada em luctas de
supremacia, mas onde ainda modernamente no se operou sensivel
modificao em suas condies semibarbaras de existencia e de viver
social, perante a grande transformao que o Mundo experimentou durante
as mais modernas edades.

Basta lanar uma vista sobre o mappa do Mundo, e folhear a historia do
passado, para se tornar evidente esta verdade, que ao passo que nos leva
a meditar nos commettimentos de outras eras, nos permitte evocar as
eventualidades do futuro.

Era limitada a area do Mundo conhecida na antiguidade. Abrangia ella na
velha Europa o grande tracto desde as regies Boreaes at ao Atlantico;
na Asia as vastides que desde a Scythia vo at  India Transgangetica
para o Oriente, e at  Arabia pelo Occidente; e na Africa o vetusto
Egypto, esse ancio dos povos, sde de uma das mais antigas civilisaes
que a historia recorda, testemunhada pelas ingentes pyramides e
collossaes sphinges que por longo tempo causaram a desesperao dos
archeologos. Seguindo a orla septentrional d'este continente, a Lybia,
onde os Phenicios levaram suas colonias  fundao de Carthago,
deixa-nos vr a vetustidade d'aquella parte do Globo que j para o
grande poeta do Lacio fornecia inspiraes tiradas de factos covos de
Dido e dos exules de Troia. Depois a Numidia at  Mauritania, banhadas
em seus littoraes pelo _mare internum_ ou Mediterraneo, at findar nas
columnas de Hercules.

A historia, portanto, durante milhares de annos, desde os tempos
heroicos da Grecia, desde as nacionalidades mais remotas, Egypcias,
Chaldas e Assyrias, deixa-nos vr as emigraes dos primeiros povos, a
vida das geraes que se succedem, as navegaes dos Phenicios, a
grandeza de Carthago, a vastido do poderio Romano, as invases dos
Barbaros, a destruio d'aquelle imperio collossal, a formao de novas
nacionalidades, as invases dos Sarracenos da Asia sobre os vandalos da
Africa, e depois d'alli sobre a Europa, e mais tarde as cruzadas
seguindo de Occidente sobre o Oriente.

A geographia  sua parte deixa-nos vr que todos esses aturados
conflictos em que se decidiam pelo poder da fora e pelo enthusiasmo das
crenas, as luctas em que ora o Norte assoberbava o Meio Dia, ora o
Oriente invadia o Occidente, ora se trocavam as invases em sentido
inverso, tinham por ambito aquella limitada poro do Globo conhecido,
cujos littoraes eram banhados pelas aguas d'aquelle mar, ao qual por sua
situao bem cabia o nome de Mediterraneo.

Mas, se a obra dos seculos, mudando a face do Mundo moderno, deixava que
parte do antigo permanecesse quasi nas suas condies primitivas, ou
quasi esquecido dos obreiros da civilisao,  sua parte a historia da
humanidade, revelando as variadas tendencias de suas differentes epocas
e sociedades, tambem nos deixa vr exemplos de naes s quaes parece
que a Providencia commetteu uma ou outra misso a cumprir, em virtude de
caracteres peculiares de sua existencia e condies geographicas.

N'este sentido coube tambem a Portugal uma boa parte e um importante
papel a desempenhar nas evolues sociaes pelas quaes o Mundo tem
passado. Paiz pequeno, mas situado na orla mais occidental onde a Europa
 banhada pelo Atlantico, foi a elle que competiu a misso de alargar os
horisontes da geographia, rompendo aquelle limite alm do qual tudo era
desconhecido. No desempenho de tal encargo, no faltou aos dictames que
uma justa hombridade lhe podia impr, assim como tambem no deixou de
mirar a um objectivo que significava uma conveniencia geral, a bem da
humanidade.

Assim foi, que quando ao deslisar da Edade Mdia D. Joo I conduziu suas
hostes  conquista de Ceuta, levando a guerra  Africa, obedecia ainda
quelle impulso que vinha dictado pelo antagonismo de crenas e
resentimento de armas. No estava ainda de todo extincto aquelle
espirito religioso, que quando levado at ao fanatismo, formra o ideal
do heroismo cavalheiroso das cruzadas. A guerra aos inimigos da cruz
como proseguimento das conquistas operadas sobre o crescente, e que fra
o principio em que se basera a monarchia fundada em Ourique, estava
apenas differida mas no finda. A guerra levada  Africa era pois o
proseguimento da conquista sobre terras de mouros, to justificada
d'alm, como o fra nos Algarves d'aquem mar. Era a continuao da
pugna, j uma vez encetada, e depois addiada mas ainda no terminada,
contra os inimigos da f. Era ainda dictada no s pelo ressentimento de
armas e por aquelle no amortecido antagonismo de crenas que primeiro
havia inspirado as cruzadas, mas a par d'isto por outra mira politica
no menos grandiosa em seu conceito, qual a de alargar pela conquista
material at aos _Algarves d'alm mar_, o territorio e dominio da
monarchia, como sendo a mais facil conquista, e a mais natural expanso
do poderio portuguez.

Esse pensamento de dilatar na Africa tal conquista como territorio de
Portugal e no como feitoria colonial, quando proseguido e mantido,
poderia ter dado logar a uma phase politica de grande alcance futuro, e
que haveria formado de Portugal um grande estado europeu africano. Mas,
aventurando-se a outros emprehendimentos deixou de seguir um plano que
teria sido util para si, abalanando-se a outro que de futuro haveria de
ser mais util  humanidade. Assim foi que outros enlevos, outras
ambies, outros calculos de interesse, antecipando-se quelle primitivo
movel moral, o vieram impellir ao empenho de procurar novas regies,
transpondo o mar, alargando os limitados dominios em que a geographia se
achava contida.

Ceuta, o primeiro baluarte da Mauritania, foi o posto avanado para
assegurar o ponto de partida e franquear o caminho, que aquelle inclito
principe filho de D. Joo I, o immortal infante D. Henrique, preparava
aos que largando de Sagres haviam de explorar as costas desconhecidas,
desde o occidente, e a seguir para o sul, no continente africano. A obra
a emprehender era tal, que n'ella devia predominar ora o valor do
soldado, ora a coragem do marinheiro.  consciencia da justia que
auctorisava a guerra, ligava-se tambem a perspectiva de resultados
grandiosos para a sciencia, bem como de um alcance mais subido, desde
que redundavam em vantagem da humanidade.

N'esta ardua mas gloriosa tarefa, se ao cabo Tormentoso, vencido por
Bartholomeu Dias, se seguiu o caminho do Oriente ser aberto pelo Gama;
se  escola de Sagres se deveu o que era o resultado do arrojo e denodo
dos nautas, tambem  certo que a escola de Ceuta, Tanger, Arzilla e
Azamor, que deu em resultado a conquista do littoral Africano, foi a que
preparou e alimentou aquelle valor guerreiro, que durante quasi um
seculo tanto contribuiu para illustrar, por seus feitos no Oriente, o
nome portuguez.

Em toda esta obra grandiosa, Portugal, procedendo em harmonia com o
espirito da poca, soube desempenhar-se nobremente da misso que lhe
competiu. Adquiriu para si uma gloria immorredoura, e alcanou uma poca
de prosperidade, que havia de ser ephemera; mas tambem preparou os
elementos de uma das maiores revolues que na ordem social, economica e
politica o Mundo viu. Foi talvez mais longe do que lhe poderia ser
moralmente exigido, ou do que o seu exclusivo interesse lhe aconselhava.
O Oriente absorveu suas attenes e seus recursos; e por isso a Africa,
ficando revelada em suas costas e no seu limite austral, deixou pelo
adiante de ser o objecto de mais aturados empenhos, esforos e vistas
politicas.




II


O final do seculo XV deixa vr um conjuncto de acontecimentos to
importantes e to extraordinarios, quo vastos e transcendentes foram os
seus resultados. A geographia viu alargados seus horisontes. Novos
continentes, novos mares e archipelagos se revelaram; e ainda antes que
um seculo decorresse, j o mundo conhecido dobrava em extenso, o que
por tantos seculos constituira o theatro dos feitos humanos.

A passagem do cabo da Boa Esperana, e a nova derrota aberta para os
mares do Oriente, logo depois o descobrimento da America e em seguida o
precurso que Magalhes emprehendeu para circumdar o globo, foram os
grandes feitos que por seu vasto alcance, vinham dar nova face ao estado
politico e social da humanidade.

Os portuguezes, tendo em devida conta as consequencias de taes feitos,
tiraram d'ahi todo o partido no s scientifico, mas tambem commercial e
politico. Elles no se limitaram a descobrir e a conquistar; prestaram
tambem valiosos servios  sciencia, descrevendo novos mares, seus
littoraes e suas ilhas, tirando a geographia do cahos em que se
encontrava, visto que ella se limitava a descrever pores de terras e
mares, mas sem nexo e sem medio, e de modo que se substituia por
supposies, o que a ignorancia occultava quanto s regies
desconhecidas. Pelo lado commercial, Affonso de Albuquerque,
conquistando Ga para sde de administrao e de centro governativo de
todo o Indosto, apossando-se de Malaca como emporio do commercio das
Moluccas, feira universal da Aurea Chersoneso, e expugnando Ormuz chave
do golfo Persico, fundava o dominio portuguez no Oriente, fechando as
antigas communicaes por onde d'antes se effectuava todo o trafico, que
tomando pelo Mar Vermelho ou pelo valle do Euphrates vinha aportar ao
Mediterraneo para depois se concentrar em Veneza, at ento rainha do
Adriatico e emporio europeu de todo aquelle vasto commercio.

Aquella diagonal immensa que no mappa do Oriente, abrangendo Ga, Ormuz
e Malaca, fra traada pela espada d'aquelle grande genio e conquistada
pelo seu valor, representava a realisao do programma a que elle se
propozra, formando um conjuncto que politica, militar e commercialmente
abrangia todas aquellas remotas regies onde nasce o sol, e que assim,
por obra de seus feitos justificava ao monarcha portuguez o acrescentar
aos titulos que j tinha de _Rei de Portugal e Algarves d'aquem e d'alm
mar na Africa_, os de _Senhor da conquista, navegao e commercio da
Ethiopia, Arabia, Persia e India_, no como um ornamento vo da sua
cora mas como sendo uma realidade.

Fechadas as antigas communicaes entre a India e a Europa pelo Mar
Vermelho e golfo Persico, passou aquelle commercio a no ter outro
trajecto seno pelo cabo da Boa Esperana. A nova derrota maritima veio,
pois, estabelecer um desvio da antiga rotina. Assim Lisboa em
communicao directa com Ga, ou antes Portugal com a India, constituiam
como duas partes de um Imperio cuja ligao era o Oceano. Grande,
portanto, foi a revoluo commercial que d'ahi resultou temporariamente
em favor de Portugal, mas affectando no s commercial mas tambem
politicamente aquelles estados maritimos do Mediterraneo; pelo
intermedio dos quaes d'antes era feito tal commercio, e que por elle se
haviam engrandecido durante a Edade Mdia.

Nem as ameaas do grande soldo do Egypto, o poderoso inimigo da
christandade, nem os manejos da republica dos Doges, que via cortado o
nervo do seu poder e de suas riquezas, acobardaram os novos dominadores
em seus intentos. O monopolio do commercio e o exclusivo de navegao
ficou em poder dos portuguezes, que theoricos e praticos no mar,
valentes na guerra e audazes nos seus emprehendimentos, sem olhar ao
numero ou qualidade dos inimigos a combater, assim com suas frotas
navegavam nos golfos da Arabia e Persia, para cortar outro transito que
no fosse a derrota do cabo, por onde tudo vinha a Lisboa, tornada assim
o grande e unico emporio do Oriente, para d'alli se espalhar pelos
portos da Europa, tanto do Oceano como do Mediterraneo.

Tal foi o systema, que a politica e o espirito da epoca dictava, e que
as outras naes toleravam, com aquella indifferena que lhes podia
resultar, onde s viam no um prejuizo proprio, mas apenas uma alterao
no ponto de abastecimento, e isto a troco de vantagens de uma ordem
geral, desde que procedendo d'esta frma, Portugal tomava a si o encargo
de desviar no Oriente a atteno do poder sarraceno, j altivo e
ameaador contra a Europa. E d'isto d valioso testemunho Raynal na sua
_Historia philosophica das Indias_, quando assevera que se no fra o
descobrimento feito por Vasco da Gama e a aco dos portuguezes no
Oriente, ter-se-hia de novo apagado e talvez para sempre o facho da
liberdade na Europa, pois que isto seria inevitavel se os ferozes
vencedores do Egypto no fossem contidos pelas expedies d'aquelles.

Pde pois dizer-se que Portugal trabalhava para si, mas tambem lidava a
pr da humanidade, cujo interesse mais do que o seu proprio era
attendido em taes procedimentos, desde que, desviando sua atteno e
seus esforos para outras emprezas, largava por esperanas remotas e
vantagens ephemeras, os augmentos que mais perduravelmente lhe
asseguraria a conquista da fronteira Africa Tingitana, fertil e visinha,
e tantas vezes j regada com o sangue dos expugnadores de seus
baluartes.

O Oriente era o sonho dourado e a mira quasi exclusiva de todas as
especulaes a que a sua explorao lucrativa havia conduzido os animos.
A Africa, ficava como que abandonada a meio caminho,  semelhana do que
acontece com o viandante, que em demanda de aventuras busca longiquo
thesouro, fascinado pelo qual, esquece outros valiosos attractivos com
que topara no caminho.

Mas um dominio, uma prosperidade que se baseava no exclusivo da
navegao e no monopolio commercial, no podia ser perduravel. Havia uma
desproporo mui grande entre os recursos da metropole e a immensidade
d'aquelle desenvolvimento de possesses longiquas. Nem se pde attribuir
a declinao d'esse poderio ao decahimento d'aquelle valor que
illustrra tanto o nome portuguez. Ainda quando esse fosse de egual
tempera ao dos Albuquerques, Almeidas, Castros, Athaydes e Mascarenhas,
elle por si s no bastaria para manter pelo futuro um predominio,
fundado em principios de direito, que at ento se toleravam, mas que o
progresso da humanidade havia de banir mais cedo ou mais tarde, por isso
que significava a negao do grande principio da liberdade dos mares.

Um seculo no era decorrido desde que o Oriente vira monopolisado o seu
commercio e dominados os seus mares, quando a monarchia de Portugal,
apoz o desastre de Alcacer Quibir, onde perdeu seu Rei e seu exercito,
passava ao regmen do rei castelhano, sob o qual logo depois perderia a
sua melhor fora naval, no desbarato da grande armada mal denominada
Invencivel. E desde que Filippe de Castella, nas suas luctas contra os
Hollandezes, prohibiu a estes o virem como d'antes ao porto de Lisboa,
emporio do commercio do Oriente, aquella nao de marinheiros e de
commerciantes ousados, tratou logo ao findar do seculo XVI de ir
quelles mares orientaes fazer por sua conta um commercio, do qual at
ento s indirectamente tiravam vantagem.

Por esta frma, a guerra que a Hollanda declarra contra Castella e
Filippe, veiu em seus effeitos affectar politicamente Portugal, como
dependencia que era ento d'aquelle monarcha; assim como o affectou
economicamente, desde que por ella foi iniciado o desmoronamento
d'aquelle edificio grandioso na apparencia, mas precario na essencia,
mantido apenas pelo prestigio do nome portuguez, mas que  falta de base
solida cahia com a mesma facilidade com que fra erguido.

O valor portuguez com quanto no esmorecido, no bastava para acudir a
to vasto dominio e aos calculados manejos dos seus aggressores europeus
e asiaticos. Os navios da carreira da India que escapavam do naufragio,
eram victimas da pilhagem; a decadencia de recursos d'ahi resultante
tornando o paiz empobrecido e desalentado pelas desgraas publicas e
desamparado d'aquelle mesmo poder tyrannico que o dominava, e que at
parecia comprazer-se de seu abatimento, dava quelles novos pretendentes
o ensejo de se irem apoderando da maior parte das possesses, que 
custa de tanto valor, cabedal e vidas, os portuguezes tinham
conquistado. Era este o estado de cousas que ao despontar o seculo XVII
este herdava do seu predecessor.

Algumas phases notaveis apresentam as complicadas luctas d'aquella
epoca, pelas quaes se explicam as evolues operadas nos dominios
europeus no Oriente.

A revoluo de 1640, pela qual Portugal proclamou a sua emancipao da
Hespanha, deu logar  guerra com esta potencia, que j a tinha tambem
empenhada com a Hollanda. Perante o adversario commum, Portugal e
Hollanda concluiram no anno seguinte uma conveno estipulando uma aco
combinada de reciproco auxilio na Europa. Mas os hollandezes
interessados n'essa aco na Europa, proseguiam no Oriente e na America
a conquistar as possesses portuguezas, e assim se apossaram do Cabo da
Boa Esperana e Ceylo, e parte do Brasil.

Pelo tratado de Munster de 1648 entre Hollanda e Hespanha, esta
reconheceu a independencia d'aquella, cedendo-lhe no s as conquistas
j feitas nas possesses portuguezas, ao tempo que estas eram
dependentes da monarchia hespanhola, mas dando-lhe alm disso o direito
sobre as que de novo fossem adquirindo na India e Brasil.

Por outra parte, a paz celebrada entre a Frana e Hespanha em 1659 pelo
tratado dos Pyrineos, deixou est'ultima potencia livre e desembaraada
de inimigos para activar a guerra contra Portugal. N'este tratado o rei
de Frana obrigava-se a no dar ao reino de Portugal auxilio ou soccorro
de especie alguma, publico ou secreto, directa ou indirectamente em
homens, armas, navios, viveres ou dinheiro.

Abandonado Portugal aos seus unicos exforos, succumbiria perante o
poder d'Hespanha. Foi ento que se negociou o tratado d'alliana e
casamento com a Inglaterra em 1661, cedendo-lhe Bombaim e Tanger, e
recebendo auxilio de tropas e navios.

N'esse mesmo anno negociava Portugal a paz com a Hollanda, estatuindo
que as possesses de parte a parte ficassem ao actual possuidor na epoca
da publicao do tratado. Os hollandezes demoraram tal publicao, para
no intervallo effectuarem novas conquistas, e ainda nos dois annos
seguintes se apoderaram de Cranganor, Cananor e Cochim. D'este
procedimento resultou que s em 1669 se concluiu a paz definitiva entre
Portugal e Hollanda confirmando a esta a posse de todas as conquistas,
menos Cochim e Cananor, quando Portugal dsse tres milhes de florins.
Foi d'este modo que as possesses que Portugal adquirira por obra do seu
valor, foram tomadas pelos hollandezes que mais pelo diante as haviam de
perder a favor de outra potencia.

Effectivamente, os ciumes e rivalidades entre as naes maritimas que de
novo disputavam a primazia commercial, deu causa ao systema de reciproca
excluso. Assim foi que o acto de navegao de Cromwell, estatuindo
restrices em favor da navegao ingleza, originou a guerra que a
Inglaterra moveu  Hollanda. Foi no decurso d'esta, que a Inglaterra
tomou aos hollandezes, as possesses que haviam sido portuguezas. Foi
pois esta nova posse realisada em resultado da conquista pelo direito de
guerra, no pelo roubo, como vulgarmente se insinua, com mais espirito
de sanha do que de verdade.

Na guerra que os hollandezes sustentaram com tanto empenho para se
apossar do que fra obra portugueza,  digno de ser notado, que a lucta
foi travada no s materialmente pelas armas, mas tambem moralmente pelo
meio da argumentao e controversias dos publicistas. A questo entre
liberdade ou restrico, entre fora ou direito, deixou de ter por
unicos arbitros a violencia e as armas. Era submettida pela primeira vez
a outra prova, em que a logica e a razo universal era chamada a exercer
o seu ascendente salutar, constrangendo a prepotencia a ser julgada e
processada na arena da discusso. Tal foi o effeito da obra publicada em
1609 pelo celebre philosopho e publicista hollandez H. Grocio, e que
tendo por titulo _Mare Liberum_, compilou todos os argumentos com que a
logica d'aquelle genio superior, soube demonstrar, a inconveniencia, e a
leso de justia e de direito universal, d'aquella preteno ao dominio
do mar, cuja liberdade o auctor proclamava, no s para os seus
conterraneos mas para todos os povos, quando depois de appellar para os
recursos da placida e austera discusso do assumpto, exaltava a justia
da guerra que tinha tal liberdade por objectivo.

A irresistivel tendencia que tinha levado todas as attenes e
actividades por aquella inebriante senda do Oriente, deu causa como se
disse, a deixar a Africa esquecida e abandonada. Mais do que isso. A
Africa no s ficou desprezada como objecto que se ladeia e para o qual
nem se lana a vista, mas at passou a ser como que exhaurida em auxilio
e proveito de novas especulaes, que eram o resultado de outro
acontecimento notavel entre aquelles com que a Edade Mdia fechava a sua
poca.

Colombo, o ousado genovez ao servio de Castella, e que na escola de
Sagres podra aperfeioar-se na sciencia da nautica e da cosmographia,
em sua mais feliz do que talvez discreta insistencia de ir ao Oriente
pelo Oeste, engolfando-se n'este rumo havia encontrado, no o desejado
Cathay de Marco Polo, mas as ilhas que, n'essa supposio, denominou
Indias Occidentaes. Era a America, com a qual poucos annos mais tarde
Cabral tambem topra em latitude mais meridional, quando se afastra
para o Oeste em busca da melhor mono para demandar o j devassado Cabo
da Boa Esperana; bem como contemporaneamente os portuguezes Corte Reaes
a ella abordavam em mais alta latitude, quando empenhados em suas
audaciosas, embora baldadas tentativas, de descobrir caminho para o
Oriente pelas regies Boreaes.

Parece que o destino patentava aquelle ignoto hemispherio para dar nova
expanso  humanidade; mas contrabalanava uma tal vantagem,
associando-a a outras consequencias que importariam a desgraa da
Africa, desviando d'ella as attenes e cuidados, em homenagem s
exigencias d'aquelle novo Mundo que Colombo dava  Hespanha.

Se Portugal teve no Oriente um campo vasto para faanhas, conquistas e
exploraes, era por sua vez a Hespanha a nao  qual se offerecia
identica rea, para no Occidente d'alm mar alargar seus vos no caminho
de aventurosas emprezas. Uma differena porm sobresahia na misso e na
tarefa que a estas duas naes cabiam. Emquanto que no Oriente os
portuguezes acharam regies habitadas por povos cujo commercio j era
tradiccional e florescente, e para se assenhorear do qual lhes bastou
dominar as costas, e apossar-se dos mais ricos mercados impedindo a
estes outras sahidas, os hespanhoes  sua parte iam encontrar na
America, ilhas s habitadas por selvagens ns, ignorantes das artes, sem
historia e sem commercio conhecido ou explorado; e passando ao
continente, n'essas immensas florestas virgens, onde a natureza
ostentava sua magnificencia n'uma vegetao luxuosa, opulenta e variada,
s mais tarde  que as minas de ouro e prata do Potosi e de Zacatecas
poderam offerecer uma fonte de riqueza para attrar a atteno da
metropole, pois as extorses nos desgraados indios, e a pilhagem dos
templos de Cusco e do Mexico, serviam mais para locupletarem os
invasores, do que de proveito ao governo do paiz em cujo nome se
apresentavam.

Mas uma raa inerte, fraca e enervada, no podia fornecer a estes novos
occupantes os meios de explorar vantajosamente as riquezas a extrair do
seio da terra. As violencias que soffreram os indigenas, as crueldades
n'elles exercidas dizimavam a populao trabalhadora. Para sanar este
mal recorreu-se a outro meio apparentemente mais plausivel, mas no
menos deshumano, e to depravado, qual foi a importao dos negros
d'Africa, trafico este para o qual, a torpe especulao mercantil queria
achar pretextos que o justificassem, mas onde o engodo do ganho fazia
calar a voz da consciencia dos especuladores d'este mercadejo de corpos
opprimidos pelo trabalho e soffrimento, e de almas embrutecidas pela
servido; mercadejo infame no qual, ao ganho realisado pelo trabalho do
negro, se accrescia o ganho realisado sobre o proprio negro como cousa
ou artigo de mercancia, e objecto de regulamento.

Tal foi a origem do trafico de escravos, que desfalcando a Africa de
seus braos em vez de os convergir em seu proveito, afastou d'alli a
atteno da Europa, para tudo quanto no fosse sacrifical-a s
especulaes egoistas e inhumanas de que a America era causa e
objectivo.

Esta origem ignobil de fortunas adquiridas  custa de miserias e
aviltamento da especie humana, ainda tomou outra feio no menos
abominavel, desde que com ella se especulou, reduzindo-a a um monopolio
official adjudicado a contratadores, que tambem punham a preo a
distribuio d'esta mercadoria de carne humana, com que a Africa
contribuia como adubo, do qual se fazia depender a prosperidade das
colonias do Novo Mundo.

 certo, todavia, que muitas vezes a grandeza do mal marca a hora da
reaco tendente a cohibil-o. Assim, as importantes lutas internacionaes
do fim do ultimo seculo e comeo do actual, em que se debatiam grandes
questes de supremacia maritima e commercial, influiram para que
variasse a politica at ento seguida por varias naes com relao s
colonias.

Erguiam-se vozes auctorisadas nas regies da diplomacia, lanando
stygmas sobre o trafico dos negros, essa nodoa indelevel na moderna
historia das naes.

Proclamados estes principios no congresso de Vienna, e acceite a
doutrina pelas naes cultas, em breve passou a ser sanccionada
internacionalmente pelo direito convencional dos tratados. O trafico
deixou de existir como regra estabelecida e tolerada, limitando-se a dar
amostra de si apenas como excepo furtiva e condemnavel.

Mas, o ultimo passo para se chegar  sua completa extinco, est nas
leis mais modernas, que abolindo a condio de escravo e o estado
servil, consignaram o que o direito natural prescreve, isto , a
liberdade do homem, sem attender a cr, condio ou logar. Foi este
decerto o golpe final n'aquella aberrao social e depravada pratica, a
escravatura, que foi um dos grandes obstaculos  civilisao da Africa.

Mas tambem n'esta parte justia deve ser feita a Portugal, que apezar da
immerecida reputao de ter sido um dos maiores fautores d'aquelle
trafico reprovado, foi todavia o que menos tardou em acceitar todas as
medidas e pactos que  restrico do mesmo se propunham.




III


Menos de quatro seculos encerram um periodo, cujo comeo se assignala
pelo descobrimento da America e determinao da orla maritima at aos
limites austraes da Africa, mas cujo termo nos deixa vr em nossos dias
as vastas regies centraes d'esta velha parte do Mundo, em condies que
pouco se avantajam quella, em que as deixaram os que primeiro lhes
demarcaram os contornos, emquanto que na America vemos um novo
continente explorado e colonisado em todo o littoral e interior da sua
vasta extenso nos dois hemispherios.

As transies pelas quaes passou esta grande parte do Mundo, segundo a
tendencia e indole das nacionalidades que a si vincularam sua explorao
e posse, por longo tempo a amoldaram s feies que taes elementos e
systema da colonisao lhe imprimiram.

Mas as grandes luctas de predominio e de interesses em que a Europa
andou empenhada desde o ultimo quartel do seculo passado e durante o
primeiro do actual, dando logar a vicissitudes e modificaes na
politica e na economia de varias potencias, foram causas, que prepararam
a emancipao de todos aquelles dominios.

Na America septentrional, a formao de um grande Estado maritimo e
commercial, actuou nas relaes internacionaes, desde que deu fora aos
principios favoraveis  bandeira cobrir mercadoria, e a garantir os
direitos dos neutros.

A independencia politica successivamente proclamada e firmada de norte a
sul das Americas, constituindo novos e robustos Estados com todos os
elementos de uma civilisao adiantada, e com todas as vantagens de um
solo fertilissimo em productos de ampla procura, teve em resultado
acabar com todas as restrices e excluses, para dar logar a um
commercio extensissimo, sempre crescendo em importancia e actividade,
com prodigioso desenvolvimento da navegao, e contribuindo no s para
o augmento das relaes com as antigas metropoles, mas tambem com os
grandes mercados e centros de consumo, tornando cada vez mais firmes e
garantidos, pela solidariedade de interesses resultantes, os principios
de direito maritimo, e de economia social, em vantagem de todos os
povos.

Assim foi que o trafico do Brazil d'antes restringido todo a convergir
em Lisboa, logo depois da independencia d'aquelle Estado cedeu o logar 
concorrencia, pela abertura dos portos s naes consumidoras de seus
productos de to geral procura e consumo, em vantagem no s propria,
mas da antiga metropole.

E ainda sobre este ponto de vista tem Portugal um grande titulo ao
reconhecimento geral, em ter lanado  terra a semente da civilisao,
que pelo adiante tanto havia de medrar e de fructificar n'aquella
extensa regio, constituindo um grande e florescente Imperio, que pela
identidade de raa, de lingua e por suas riquezas naturaes e livre
explorao de seu vasto commercio, constitue no s a obra mais valiosa
e perduravel da colonisao portugueza, mas tambem outro valioso titulo
de gloria para a nao que lhe deu origem.

O quadro que fica exposto, como resultado da abolio do systema
restrictivo, abrange em seus traos o que se observa percorrendo todos
os mares e regies da Asia e Oceania at aos confins do Globo.

Hoje em toda a America, bem como nas costas e portos das Indias, da
peninsula Malaia, dos imperios Birman, China e do Japo, e at da
Australia e Nova Zelandia, e ainda em volta at ao Pacifico, se
encontram no s emporios commerciaes mas tambem pontos de escala de uma
navegao prodigiosa, entretida por numerosos e esplendidos navios, onde
a architectura naval, a sciencia do engenheiro, e a industria do ferro,
nos deixam vr maravilhas da arte, em typos de magnificencia, solidez e
segurana, estabelecendo pela livre concorrencia e pela rivalidade no
servio, aquella activa, permanente, e admiravel rde de communicaes,
que o telegrapho auxilia, e que o caminho de ferro ramifica pelos
continentes.

Vae-se hoje aos antipodas, e quasi se faz o circumgiro do Globo, com a
mesma rapidez, e com maior segurana e conforto do que ha apenas meio
seculo se ia de um ponto a outro da Europa.

A propria Australia e a Nova Zelandia que ha apenas um seculo eram,
aquella povoada de tribus antropofagas, e sta ainda desconhecida,
partilham hoje dos mesmos resultados, deixando vr, como em paragens
onde ha pouco s havia a floresta virgem, ou banquetes canibalescos do
Gunya ou do Maori selvagem, ao presente se ostentam cidades
florescentes, onde a colonisao, a indole e o genio da raa
anglo-saxonia, implantou todos os progressos que a civilisao opra, e
onde todos os estabelecimentos e recursos que o commercio reclama e a
industria anima, rivalisam com os que se encontram nas mais opulentas
cidades europeas.

Isto que ha um seculo pareceria um sonho phantastico, e ha meio seculo
uma utopia de visionarios,  hoje uma realidade.

Mas, o que d'este quadro se deprehende, , que se ha apenas menos de
quatro seculos que a geographia viu alargar seus horisontes; se novos
hemispherios, novas regies, novos mares e archipelagos se revelaram; se
o Mundo at ento conhecido dobrava em extenso; e se hoje o mappa do
Globo assim desdobrado nos deixa vr uma transformao cabal no sentido
no s geographico mas tambem politico e commercial,  certo tambem que
o inicio de to grandiosa obra partiu de Portugal, desde que pondo p em
Africa e abrindo depois o caminho do Oriente, se aventurou a emprezas
to grandiosas de gloria para si, mas de mais proveito para a
humanidade,  qual preparou e deixou to vasto campo para explorar, e
para colher os modernos fructos da civilisao.

Pde-se pois afoutamente asseverar que Portugal foi o paiz benemerito da
humanidade, e que portanto tem jus ao reconhecimento das outras naes
que hoje mais fortes e mais opulentas, no tiveram todavia uma parte
como elle n'essa grande obra que a historia registra e o Mundo
contempla.

Mas a obra e aco dos seculos, ao passo que ia dando, como j se notou,
nova face ao Mundo, deixava que parte do antigo permanecesse quasi nas
condies primitivas, ou quasi que esquecida e desattendida pelos
obreiros da civilisao e do progresso.

As margens d'aquelle mar interno, o littoral d'aquella antiga Africa que
o Mediterraneo banha, passaram quasi que incolumes na grande
transformao operada desde uma dezena de seculos. E todavia foi ahi,
n'essa zona do globo terraqueo, que mais se disputaram os pleitos em que
a humanidade andou por tanto tempo empenhada.

Sem remontar s guerras Punicas, quando Carthago e Roma disputavam a
supremacia do mar e o dominio da Sicilia; quando a posse de Sagunto
contestada, levava Annibal  Hespanha e d'alli a passar os Alpes e a
bater s portas de Roma; ou quando Scipio passava  Numidia e ia
destruir os muros de Carthago; sem ir buscar exemplos d'essas
insistentes luctas no norte da Africa s expedies de Belisario ou s
sangrentas invases dos mahometanos sobre as Hespanhas, s detidos
quando achavam nas Gallias a barreira que lhes oppunham as hostes de
Carlos Martel; sem ir to longe emfim, basta partirmos de epocas mais
recentes, para ver como aquellas antigas regies ao Septentrio do
Saharah, constituiram o objecto e o alvo de renhidas luctas, e de
aturados esforos, em que se acharam empenhadas as naes do velho
continente.

Figura j na edade media o Mediterraneo e o seu littoral, nas tentativas
do Soldo do Egypto contra a christandade; na ultima cruzada capitaneada
por S. Luiz, o IX de Frana, e j no seculo XVI na expedio do
Imperador Carlos V contra Tunis, sendo auxiliado n'essa empreza por
Portugal, um de cujos galees foi o que com seu talhamar de ao cortou a
grossa cadeia que fechava o porto de Goleta. Figura mais modernamente o
Mediterraneo e o littoral africano, nos reiterados ataques que as
potencias maritimas dirigiam e sustentavam contra o Estado de Argel,
valhacouto de piratas, ataques que por vezes representaram grandes
expedies, e formidaveis bombardeamentos.

Figurra no passado ainda mais notavelmente na expugnao de Ceuta
emprehendida e effectuada por Portugal na cavalheirosa epoca de D. Joo
I e de seus heroicos filhos. Foi este o ponto de partida, o signal de
execuo, o toque de avanar, que teve por complemento aquella grandiosa
obra que dotou o Mundo com o dobro da sua superficie conhecida.

Sagres, d'onde sahiram as primeiras expedies de navegadores, e Ceuta,
onde provaram seu exforo os denodados guerreiros, que iam com suas
lanas abrir as portas do Mundo desconhecido, so dois pontos ligados
por uma ida. Essa ida  a base onde assenta aquella prodigiosa epopa
que j foi uma realidade; ida que j teve um periodo de desempenho, e
que soffreu interrupo. Essa ida  tambem a que pde alimentar nas
suas variadas concepes e consequencias, as aspiraes que constituem o
bello ideal, com que o futuro nos poderia sorrir!

E porqu?

Em quanto que pelas regies transatlanticas ou sul equatoriaes, onde ha
quasi quatro seculos tudo era ignoto, j o progresso da humanidade
implantou suas leis e suas praticas, ainda s portas da velha Europa em
frente das naes civilisadas do antigo continente, adjacente a esse mar
que banha seus littoraes n'aquella orla septemptrional da Africa,
contemplavam-se ha pouco, e ainda hoje em parte se contemplam Estados,
cuja condio politica e social, cujas leis e cujo fanatismo fatalista,
formam a antithese mais completa, entre a civilisao e a barbarie.

J era decorrido um quartel do seculo XIX e ainda a margem africana do
Mediterraneo jazia sujeita em toda a sua amplitude, aos sectarios de um
obscurantismo invencivel, e de um fanatismo intransigente com a nova lei
das naes; e as regencias barbarescas de Tripoli, Tunis, Argel, e o
imperio Marroquino, constituiam em seu conjuncto a vergonha dos Estados
cultos, desde que estes toleravam que aquelle mar, que fra desde outras
eras o centro das relaes entre povos maritimos, ainda se conservasse
como sendo o campo de depredaes systematicas, rea da mais auctorisada
ou tolerada pirateria, flagello da navegao pacifica, e objecto
constante de fadigosa lide para a vigilancia e para a aco repressiva
das potencias maritimas e fronteiras d'aquem mar.

Quando j no se offereciam novas regies do Mundo para descobrir, e
poucas por explorar; quando j o novo hemispherio dava largo campo para
n'elle implantar a civilisao, via-se ainda a dois dias da Europa, como
era possivel tolerar a existencia de taes Estados, vivendo da pilhagem,
e da exaco, e subsistindo nas mesmas condies como quando ha tres
seculos Carlos V lhes fora infligir castigo, e D. Sebastio de Portugal
se ia aventurar  mallograda mas grandiosa tentativa de dilatar para
_alem-mar_, a conquista s interrompida ou addiada, dos Algarbes
_d'aquem mar_.

Ao ultimo rei de Frana do ramo directo de Bourbon, estava reservada a
empreza de comear essa liquidao de contas. O Argel submettido 
Frana por conquista, foi o primeiro passo na realisao da obra de
limpar o Mediterraneo d'aquelles fautores do latrocinio barbaresco.

Tunis, a herdeira geographica da antiga Carthago, est hoje com
apparencia de seguir a mesma sorte que Argel, ou de a imitar nas
consequencias.

Tripoli ser depois, ou o pomo de discordia entre as naes do
Mediterraneo que se disputam alli a supremacia de sua influencia; ou
ser quinho que venha servir de compensao para a Italia, j que a
Frana se antecipou sobre Tunis.

O que se passa n'aquelle mar, em tudo leva  apparencia de que as naes
maritimas cujas aguas por elle so banhadas, veem o seu futuro prestigio
dependente de alli terem dominio ou influencia, como nos tempos de Roma
e Carthago. Mas tambem se deixa perceber que a influencia da aco
politica Europea, de onde quer que ella venha, ou quaesquer que sejam os
interesses que alli a chamem,  o meio conducente a modificar a feio
moral e a estagnao material de que tem sido causa o impassivel
fanatismo mahometano.

Como ultimo dos Estados em que o dominio da raa agarena ainda se
perpeta, resta Marrocos, esse imperio da Mauritania Tingitana, que deu
aos Sarracenos ingresso na Peninsula, e que mais tarde foi d'elles o
refugio, quando ao baquear do califado de Cordova e do reino de Granada
elles foram de todo expulsos da Europa para as plagas d'alm mar; e onde
ainda assim por mais de uma vez Portugal conseguiu pr p, e dar
sequencia  conquista sobre seu solo. E conquista era esta, para a qual
o mar no era o ultimo limite, mas s fra motivo para lhe retardar o
proseguimento.




IV


Em vista das lies da historia, e das evolues da politica, ninguem
pde hoje duvidar, que um imperio nas condies de Marrocos, esteja
destinado a ter contados os dias que ho de conduzil-o a um
desmoronamento. Alli rge uma administrao a mais despotica e brutal;
as leis so a vontade do Sulto; as finanas so as extorses
tributarias e o absurdo fiscal; a justia  o basto dos alguazis,
movido ao capricho dos pachs e dos cads; o estado moral  a ignorancia
a mais rude, de mo dada com o fanatismo mais intransigente. Em toda a
extenso do seu fecundo slo, no existe aberta nem uma unica estrada
rodada, nem uma psta, nem uma obra d'arte. Inutil  fallar em
telegrapho ou locomotiva. Presses externas e continuas agitaes
internas, umas provindas de desforos dos extranhos, e outras devidas 
intermittente anarchia, e s periodicas correrias das tribus kabylas,
alli perpetuam a desordem, a instabilidade dos fracos elementos de vida
social, e promovem as fmes, a miseria e as epidemias.

Da vida ou morte de um sulto despotico, se faz dependente a existencia
ou a dissoluo de to barbaro Estado.

 assim que aquelle Imperio, que olha para a Europa pelo horisonte dos
dois mares, Mediterraneo e Atlantico, pelo seu estado politico, social e
economico, justifica plenamente as previses de que com seu systema de
governo vexatorio e repugnante s leis da humanidade, elle vive smente
pela apathia das naes civilisadas; porm a gangrena que o devora pouco
a pouco,  to alarmante que ameaa exterminal-o.

Todos quantos conhecem das cousas intimas do imperio Marroquino,
consideram como um axioma aquella previso fatal, que para os menos
conhecedores do seu estado, pareceria uma mera opinio pessimista.
N'essa previso de uma tal eventualidade, disputam alli  porfia as
naes do Mediterraneo, a manuteno de uma influencia e prestigio, para
que lhes possa melhor aproveitar quando chegar a hora do _dies magna_.

A Hespanha fronteira, senhora de Melilla e de Ceuta, ainda no ha muitos
annos fez alli ensaio da sua pujana militar, ostentando n'uma guerra a
fora do seu poder, e revelando as vistas da sua politica previdente.

A Frana, senhora de Argel, e confinante nas suas fronteiras,
interessa-se como tal em manter aquella preponderancia que sempre
resulta, quando os aggravos recebidos nos conflictos de m visinhana,
so liquidados por um processo como em Isly ou Mogador, quando seus
canhes, em terra ou no mar, impozeram aquelle respeito que leva 
submisso.

A Inglaterra, que no Mediterraneo possue dominios taes como Gibraltar
guardando-lhe a porta, Malta e Chypre como postos avanados, tem n'essas
outras tantas _Gres_ do seu caminho aquatico, seguros os vinculos que
lhe garantem a influencia no Egypto. No carece de dominar em Marrocos
quem abandonou Tanger; mas a grande potencia do mar, no pde
descurar-se de que a influencia de outras no seja alli contrabalanada
pela sua propria.

A Allemanha, potencia continental, mas avida e solicita em no descurar
sua ostentao, tambem tornou alli saliente a sua nova vitalidade,
correspondendo com uma representao diplomatica permanente,  embaixada
que recebeu em sua crte.

A Italia, embora com a mira em Tripoli, tambem no se descura de dar
alli amostra da sua solicitude como nao do Mediterraneo. E  assim que
todas as potencias europas, ou como ciosas do seu prestigio, ou por
vigiar seus interesses presentes ou futuros, mantem suas legaes
permanentes, estabelecidas na cidade maritima de Tanger, que assente
graciosa e alvejante nas faldas septentrionaes da cordilheira do Atlas,
banhadas pelas aguas do Estreito, parece ser como a guarita onde esto
postadas as vedtas europas, que  porfia entre si combinam a
vigilancia, ou at certo ponto disputam a tutella sobre aquella regio,
d'onde  mourama ainda  permittido contemplar de longe as costas da
Europa, povoadas de espao em espao pelas torres em ruinas, que
recordam as epocas em que o crescente dominava onde hoje se ergue a
cruz!

Quem da bahia que d ingresso  cidade mourisca, estender um olhar por
sobre o alvejante monto de casas que pelas encostas vo apinhadas desde
a porta do mar ao alto do castello El-Kasbah, ver fluctuar em varios
pontos, sobre edificios mais salientes, as bandeiras das diferentes
naes que alli mantem seus representantes, tornando assim Tanger,
cidade diante da qual se unem os dois mares, como sendo o latego
politico das relaes diplomaticas entre a Europa e o imperio de
Marrocos.

Por entre aquellas divisas das naes que alli policiam e espreitam os
paroxismos sociaes dos ultimos restos da velha Mauritania, tambem l se
descobre a bandeira de Portugal hasteada onde outr'ora abordmos em tom
guerreiro, mas hoje como symbolo de misso pacifica mas vigilante de uma
nao, que tendo j posto de parte os velhos resentimentos, alli se
apresenta e concorre, como mantendo um benevolo trato de amisade e
reciproca estima.

Onde ha tradies historicas de to subido valor como as que recordam as
proezas do immortal infante D. Henrique e a heroica abnegao do Santo
Infante D. Fernando, aquelle emblema  como um incentivo para que a
nao que tem to glorioso passado, no descure quaesquer elementos
conducentes a manter alli seu renome a par de outras que menos fizeram
pelo passado, mas que mais ambicionam no presente.

Mas a par de tal emblema em terra mauritana, alli tem Portugal, acima de
qualquer outro paiz, outros titulos para ser considerado, quaes so os
que se revelam nas muralhas de tantas praas maritimas, em cujos
derrocados baluartes ainda hoje se conservam salientes os escudos
d'armas portuguezas, como testemunho d'aquelle alto valor e esforo que
alli se amestrou para depois cumprir os grandes feitos do Oriente. Para
alm de Ceuta e Tanger, ao poente do Spartel e a dois dias das costas de
Portugal, l o esto assim attestando, Arzilla, Alcacer e Azamor, todas
sobre o fronteiro Atlantico, at Mazago to desastradamente votada ao
abandono em 1763 pelo despotico governo do Marquez de Pombal, quando de
preferencia desviava suas vistas para as colonias do Brasil, a troco de
to erroneo abandono d'aquella ultima reliquia da conquista na
Mauritania, e padro de que at alli se dilatra o territorio de
Portugal.

Ha impresses moraes que no escapam at quelles cujo viver  quasi
subordinado ao regimen brutal da fora que lhes atrophia o espirito.
Conhecem os mouros marroquinos que se ns fomos os primeiros em ir
n'outras epocas combatel-os no seu ninho africano, a isso fomos com
titulos mais legitimos e mais justificados, do que outros que mais pelo
adiante e at em nossos dias os tem ido molestar, s vezes mais por
pretextos de prepotencia frivola, do que por justo desaggravo de
offensas.

Os velhos resentimentos e antagonismos extinguiram-se de ha muito,
cedendo o logar s relaes pacificas.

J no seculo passado, reinando D. Jos I, a embaixada que em 1773 foi
enviada a Marrocos assentar pazes, recebeu alli demonstraes de
deferencia, e honrarias, que a outras naes no eram concedidas.
Mantidas essas relaes durante o seguinte reinado de D. Maria I, ainda
ellas se perpetuaram regendo el-rei D. Joo VI a ponto que, querendo a
crte de Vienna pr termo s desavenas que entre ella e o imperio
Marroquino se suscitaram, recorreu aquella ao governo Portuguez, como
medianeiro para as compr amigavelmente.

As relaes pacificas e o trato commercial entre Portugal e Marrocos
nunca mais foram alterados. No ser pois a Portugal que convenha ou
pertena o rompel-as prepotentemente. Mas o que no deve esquecer, nem
perder-se de vista,  a ida, de que quando o destino d'aquelle Estado
tiver de obedecer a outras influencias que hajam de promover o seu
desmembramento, existe um conjuncto de circumstancias politicas que
constituem outras tantas disposies aproveitaveis, para que sem ser a
causa directa d'essa verso, no seja indifferente aos seus resultados.
Quem j foi adiante de outros e no quizer ficar atraz d'elles, deve
pelo menos ir a par.

A epoca das conquistas, tomando por pretexto unico o antagonismo de
crenas ou o resentimento de armas,  j passada. Hoje esto em campo na
politica outras luctas de interesses e de preponderancia. Vae decorrido
o tempo em que a guerra se considerava mais um fim do que um meio.
Tem-se visto porm adoptar uma politica nova, que como meio conducente a
seus fins, aceita os factos e d'elles faz regra de direito pela medida
da conveniencia.

Quando os presentimentos que cerca do destino de Marrocos se vo
fundando no s em supposies, mas em probabilidades que se hajam de
realisar; quando houvesse de soar a hora da partilha como resultado de
uma expropriao inevitavel por utilidade Europea ou por honra da
civilisao, ao menos que ella seja effectuada de modo que a equidade
no tenha a queixar-se da justia.

E Portugal sob o ponto de vista historico, geographico e politico,
deveria e poderia preparar-se para estar no caso de aspirar 
competencia a que seus titulos possam dar-lhe direito.

A historia o ensina, a geographia o indica, a boa politica o aconselha.

A historia; porque foi Portugal quem alli primeiro poz p e assentou
dominio, como alargamento de territorio, e como um servio ento
prestado  humanidade pelos resultados que d'ahi advieram. Desde Ceuta
at Mogador, esto os padres que assim attestam.

A geographia o indica, porque as columnas de Hercules, onde o
Mediterraneo termina e o Atlantico comea, marcam e dividem o limite at
onde as naes fronteiras d'aquem mar, teriam razes para disputar
preferencia e competencia.

A politica o aconselha, no s porque a geographia o indica, mas tambem
por isso que, se as questes de supremacia entre as naes do
Mediterraneo, podessem dar a estas competencia para promover um
desenlace que trouxesse o _delenda Mauritania_, como ha vinte seculos
ellas sentencearam o _delenda Carthago_, outro elemento de politica
internacional e de preponderancia de naes, no toleraria facilmente
que o engrandecimento de alguma d'aquellas se estendesse sobre o
Atlantico, dando logar  formao de um vasto dominio que traria a
reproduco e os perigos do _summum jus, summa injuria_.

A Inglaterra, que no Mediterraneo tem seus postos de vigilancia, no
poderia vr com bons olhos, que a sua preponderancia maritima e
continental houvesse de ser contrabalanada por uma tal dilatao de
imperio que fizesse qualquer nao um potentado, e que assim
justificasse seus ciumes e suas rivalidades. Mas haveria uma verso que
as poderia evitar; um desenlace que neutralisaria aquelle desequilibrio;
uma partilha que no encontraria taes perigos. Essa verso seria, a que
restituisse a Portugal o que j fra seu por conquista de armas sobre
inimigos, mas que n'estas condies seria restituio pelo pacifico
assentimento de amigos, e como justa retribuio de passados feitos.

As antigas columnas de Hercules seriam a moderna delimitao, no j do
_mare internum_, mas sim da parte que caberia s duas naes da
peninsula fronteira, Hespanha e Portugal, aquella sobre o Mediterraneo,
esta sobre o Atlantico.

Quando entre as especulaes da politica europa se torne um ponto
assentado e decidido a partilha da preza, no pde ser disputado a
Portugal o direito eventual a ter n'ella quinho.

Habilitar pois Portugal  eventualidade de rehaver o que j lhe
pertenceu, e que por direito de preferencia melhor lhe deve ser
restituido,  o bello ideal que se affigura como sendo o caminho para o
levar a uma posio digna, desassombrada e considerada na communidade
europea; e tal seria aquella verso mediante a qual, sem desperdicio de
foras em aventurosas e longiquas expedies que revelam uma sobreposse
de dominio com espirito exclusivista, e que muitas vezes significam
esforos improficuos, complicaes em politica externa, e at prejuizo
no compensado em cabedal e vidas, e smente para disputar palmos de
terra em regies inhospitas e sfaras, melhor ensejo lhe dsse para
aproveitar taes foras e vontades, convergindo-as para mais perto e
melhor caminho, e onde a posse e dominio seriam mais proveitosas em todo
o sentido material e moral.

E poder Portugal acertar no caminho a que o levariam aspiraes taes
como as que constituem o ideal acima indicado?

 este, como se viu, um ponto mui vago para exame; uma ida d'onde podem
germinar mais amplos concebimentos; um calculo politco que pde
subordinar-se a muitas probabilidades e eventualidades. Pde mesmo ser
um sonho; mais do que isso, um delirio de visionario. Mas assim como
Calderon de la Barca diz em seus versos sublimes, _la vida es sueo_,
tambem ha sonhos que sem serem delirios, podem ser justas aspiraes de
quem tem vida; e desde que  licito conceber estas, tambem no  vedado
o manifestal-as.

O bello ideal, esse sentimento que faz com que muitas vezes o nosso
espirito se assemelhe a uma bussola moral, que percorre um horisonte
cujos rumos so os vos da nossa phantazia: esse bello ideal que em
muitos casos  como um sonho passageiro que a reflexo bem depressa
dissipa, tambem algumas vezes nos sorri  ida com a perspectiva de o
vr tornado em realidade.

O bello ideal ahi fica assim consignado, talvez como imagem poetica,
todavia como caso para meditao prosaica.

A perspectiva d'estas aspiraes, ser pois um vo de imaginao, de
breve durao e desengano certo, ou poder ter visos de se tornar um
pensamento persistente e uma feio susceptivel de realidade?

Poder ser, e poder no ser.

Na dependencia em que est de tantas eventualidades, a deciso pertence
ao futuro. Mas quando para justificar taes aspiraes, no bastasse a
solicitude em vigiar as phases politicas do presente, e aguardar com
previdente hombridade os acontecimentos futuros, bastariam os titulos
que Portugal tem na historia de seu passado, facho de luz gloriosa que
no se pde apagar, e que lhe d direito  considerao das potencias de
cuja cooperao possa tornar-se dependente a soluo do grande problema.





End of the Project Gutenberg EBook of Portugal e Marrocos perante a historia
e a politica europea, by Carlos Testa

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E MARROCOS ***

***** This file should be named 25934-8.txt or 25934-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/5/9/3/25934/

Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
