The Project Gutenberg EBook of Viriatho, by Tefilo Braga

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Title: Viriatho
       Narrativa epo-historica

Author: Tefilo Braga

Release Date: October 9, 2008 [EBook #26850]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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OBRAS COMPLETAS

ALMA PORTUGUEZA


VIRIATHO


ALMA PORTUGUEZA

Rhapsodias da grande Epopa de um pequeno Povo

    I. VIRIATHO--Narrativa epo-historica.
    II. FREI GIL DE SANTAREM--Drama-lenda.
    III. LINDA IGNEZ--Tragedia classica
                  {1. A pallida Donzella.
         TRILOGIA {2. Morta e Rainha.
                  {3. A Vingana do Justiceiro.
    IV. OS DOZE DE INGLATERRA--Poema.
    V. O PEITO LUSITANO--Rhapsodias cyclicas das Navegaes.
    VI. CAMES--Poema epo-lyrico.
    VII. GOMES FREIRE--Drama em cinco actos.



Alma Portugueza

VIRIATHO

Narrativa epo-historica

por

THEOPHILO BRAGA


PORTO
Livraria Chardron
Lello & Irmo, Editores

1904

Todos os direitos reservados.


Porto--Imprensa Moderna




A Alma portugueza caracterisa-se pelas manifestaes seculares persistentes
do typo anthropologico e ethnico, que se mantm desde as incurses dos
Celtas e luctas contra a conquista dos Romanos at  resistencia diante das
invases da orgia militar napoleonica. So as suas feies:

A _tenacidade_ e indomavel coragem diante das maiores calamidades, com a
facil _adaptao_ a todos os meios cosmicos, pondo em evidencia o seu genio
e aco colonisadora;

Uma profunda _sentimentalidade_, obedecendo aos impulsos que a levam s
_aventuras heroicas_, e  idealisao affectiva, em que o _Amor_  sempre
um caso de vida ou de morte;

Capacidade _especulativa_ prompta para a apercepo de todas as doutrinas
scientificas e philosophicas, como o revelam Pedro Julio (Hispano), na
Edade Media, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouvas, na
Renascena;

Um genio _esthetico_, synthetisando o ideal moderno da Civilisao
occidental, como em Cames, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o
_Homero das linguas vivas_.

O cantor das grandes Navegaes foi quem teve a mais alta comprehenso do
genio nacional; a ALMA PORTUGUEZA achou no seu Poema a incarnao completa.
Quando Cames descreve nos _Lusiadas_, geographica e historicamente
Portugal, referindo-se  tradio da antiga Lusitania, relembra o vulto que
symbolisa a sua vitalidade resistente, diante da incorporao romana da
peninsula hispanica:

    Eis aqui, quasi cume da cabea
    Da Europa toda, o reino _Lusitano_,
    Onde a terra se acaba, e o Mar comea,
    E onde Phebo repousa no Oceano.


    Esta  a ditosa Patria minha amada,
    Esta foi _Lusitania_...................


    D'esta o PASTOR nasceu, que no seu nome
    Se v que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguem vir que dome,
    Pois a grande de Roma no se atreve.

                       (Cant. III, st. XX a XXII.)


    Deixo... atraz a fama antiga
    Que co'a Gente de Rmulo alcanaram,
    Quando com VIRIATHO na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram.
    Tambem deixo a memoria, que os obriga
    A grande nome, quando a levantaram
    Um por seu Capito, que, peregrino,
    Fingiu na _Cerva_ espirito divino.

                       (Cant. I, st. XXVI.)

No tempo do grande pico ainda se no tinha perdido o conhecimento da
relao de continuidade historica entre Portugal e a antiga Lusitania,
mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administrao
imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas
syncreticas dos falsos Chronices, influiu na consciencia do nosso
individualismo ethnico e nacional. O esforo de _desnacionalisao_ de
Portugal pela politica da unificao _iberica_, veiu at reflectir-se
nos proprios historiadores patrios, levando-os a considerar Portugal uma
formao recente, adventicia, sem individualidade, e a Lusitania quasi
como uma fico banal dos eruditos da Renascena! Mas o caracter
persistente do typo portuguez, a resistencia tenaz contra todos os
conflictos da natureza e presses da vida, que tanto o distingue entre
os povos modernos,  a prova manifesta da raa lusitana como a
descreveram os geographos gregos e romanos. Nas luctas pela liberdade
territorial a Lusitania deixou nos historiadores greco-latinos o ecco da
sua resistencia indomavel, sobretudo no Cyclo das Guerras viriathinas,
que se reaccenderam ainda sob o commando de Sertorio.

Pela sua genial intuio teve Garrett a comprehenso d'este caracter
resistente e soffredor da nossa raa lusitana: Os Portuguezes so
naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda
com que de mos e ps os atam seus oppressores, antes que rompam em um
s gemido os desgraados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no
cadafalso a soltaro! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos
deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a
latido e mordedella de seus mastins; e ns vamos e nem gememos. Se um
clamor de queixumes, se uma voz de desconfiana acaso surde, aqui os
clamores de _rebeldes_, os alcunhas de _demagogos_... e a nao (o
_rebanho_, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar
para o exicio! Tal , com as differenas de variados nomes e datas, a
historia de Portugal quasi desde que a revoluo ou restaurao
(restaurao seria?) de 1640 fez da nao portugueza o patrimonio de
meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.
(_Carta de M. Scevola_, 1830.)

Symbolisamos esta resistencia, vivificando o typo de VIRIATHO,
reconstruindo poeticamente as situaes laconicas referidas nos
historiadores classicos; representamos artisticamente essa fibra que
ainda hoje pulsa em ns, e pela qual, perante a marcha da Civilisao se
affirma atravs dos cataclysmos politicos a ALMA PORTUGUEZA.

_Assuetum malo Ligurem_, disse Virgilio (_Georg._, II, 102) d'essa
poderosa raa, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as
terriveis desgraas que nos tm acompanhado desde a romanisao da
peninsula at  subserviencia ingleza, como acostumados ao mal, no nos
tm alquebrado: no apagaram a constituio da _Nacionalidade_, no
embaraaram as iniciativas dos _Descobrimentos maritimos_; no abafaram
a expresso das altas capacidades _estheticas_. Pela expresso artistica
se fixou a lingua portugueza, orgo reconhecido da nacionalidade, cujo
sentimento se manteve pela idealisao poetica, em Cames. Seja ainda
esse recurso poetico o meio de acordar a consciencia do passado de um
Povo, no qual esto implicitos a sua raso de ser presente, e o ideal do
seu destino futuro.

Um dos fins da Arte moderna  a representao da vida dos povos e dos
aspectos da natureza dos paizes longinquos, e tambem a evocao das
edades passadas, vencendo por este _exotismo_ o apagamento das
impresses de tudo quanto nos crca; assim se inicia a phase esthetica
constructiva. Pela evocao da _Raa_ penetra-se o sentir da fibra
_nacional_, e por esta o drama das luctas das _Instituies_ que se
fundaram, o vinculo das _Tradies_, que foram germens e impulsos da
_misso historica_ e das _creaes artisticas_ que reflectiram a
consciencia da collectividade.




VIRIATHO




I


No anno de DCIII da ra da fundao da Cidade de Roma, sendo Consules L.
Licinio Lucullo e A. Postumio Albino, acontecimento inopinado suscitou
nos espiritos um extraordinario alvoro: O Senado fra convocado
repentinamente, com urgencia, sem ser pela frmula usual de um Edito,
mas pela peremptoria chamada nominal ordenada pelo velho e integerrimo
Cato, denominado o Censor.

A gravidade do acontecimento forra por certo o venerando presidente do
Senado a simplificar essa frmula da convocao? Algum grande crime
perturbava ou ameaava o governo da Republica! A curiosidade era
immensa, e antecipadamente sabia-se que a voz austera de Marco Cato, o
Censor, se ergueria no Senado contra o patricio o mais opulento dos
romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes
aos quaes se confiasse o seu julgamento.

Galba! era este o nome que soava de bocca em bocca, mais com inveja do
que hostilidade, desde que o Tribuno do Povo Aulo Scribonio o citra
para comparecer em justia pelas depredaes e carnificinas que
praticra contra as Tribus e cidades tributarias da Lusitania, que como
Provincia senatorial estava sob a gide da lealdade romana.

Era de um crime contra a magestade do Povo romano, que versava a
accusao do Proconsul Servio Sulpicio Galba, ao qual fra confiado o
governo e administrao da Hespanha Ulterior, essa parte occidental da
peninsula em que se comprehendia a vasta Lusitania. Ninguem se atrevia a
pr em duvida a valentia do tribuno militar, que fra  Hespanha com a
misso especial de combater e submetter os Celtiberos; mas, sendo
conhecida no mundo a gloria do Senado, que, vae para quatro seculos,
dirige com um tino incomparavel as guerras de incorporao dos povos
barbaros, como poder consentir que no exercicio d'essa misso
civilisadora lhe infamem a inviolavel auctoridade?

A voz de Cato ergueu-se no meio de um religioso silencio com a acuidade
de um ltego de fogo:



--Como velho octogenario, ninguem comprehende como eu o poder dos
Costumes dos Antepassados representados hoje no Senado, como um tribunal
permanente, de aco executiva, e com consciencia das necessidades
publicas expostas pela palavra em discusso aberta.  d'esses Costumes
dos Antepassados que deriva a Soberania com que ns todos aqui
presentes, dando frma  opinio publica, intervimos no organismo social
de Roma. Diante de mim, e entre os trezentos membros aqui reunidos, vejo
ainda os antigos chefes da Familia romana, os _Patres_, que pela edade
fram os _Seniores_, os quaes deram o nome a este Tribunal sacrosanto de
_Senado_; tambem vejo os _Conscripti_, que a pouco e pouco fram
chamados a completarem o numero, que a morte ou a extinco das familias
ia diminuindo. Emfim, aqui estamos constituidos tanto a _Ordem
senatorial_ como a _Equestre_, para deliberarmos sobre o que interessa 
Republica. D'entre vs, uns exercem um poder temporario, e outros so
_inamoviveis_ desde que se reconheceram os seus servios, e por sua vida
incorruptivel so proclamados _Censores_.  pois no exercicio d'esta
dignidade que eu fallo e conto ser ouvido, porque foi confiada 
proteco da minha vigilancia essa uberrima provincia da Hespanha. Tendo
eu, como Censor, cooperado sempre, todos os cinco annos, pela confeco
do registo do Censo, na nomeao dos Senadores tirados dos antigos
magistrados, raro ser aqui o Senador que no deva  minha confiana a
honra d'essa escolha confiada a Senadores _consulares_, a Senadores
_pretorianos_, segundo as magistraturas, e cargos curues, em que se
dignificaram. E tendo eu exercido este direito supremo dos Censores,
compete-nos mais um, que  o da excluso dos _indignos_ do Senado...

Sentiu-se um vago rumor entre os trezentos membros da assembleia; Cato,
quasi sem notar que o seu longo exordio j fatigava a atteno, proseguiu:



-- esse direito, que hoje me traz aqui, apoiado pela propria
consciencia e pelo meu juramento. Eu bem sei que as attribuies dos
_Censores_ so constantemente diminuidas, e que vir tempo em que
desapparecendo esta magistratura, irrompero as guerras civis. Deixemos
o futuro, e perdoae as digresses proprias da provecta edade. Em
gravissimas circumstancias, sabidas por ns todos, foi Servio Sulpicio
Galba mandado  Hespanha como Pretor. E se a situao difficil reclamava
todas as virtudes militares para a magestade de Roma se mantr illeza,
mais necessario era o espirito de uma intelligente politica, para
perpetuar por bons tratados o que a espada nem sempre conseguiu. Galba
deu primeiramente uma prova deploravel de militar incompleto, quando
invadindo a Lusitania, perdeu sete mil e quinhentos legionarios, indo
refugiar-se em uma situao ignobil em Carmona. Destemido, mas
inconsiderado,  este homem por isso perigoso para a Republica. E ainda
mais:  de um caracter falso, violando com descaro a palavra de um
Tribuno, que vale tanto como um tratado escripto, rebaixando perante o
mundo o poder romano sempre inquebrantavel, quando se trata de um dever
moral.  certo que as trinta e seis cidades tributarias da Lusitania,
sempre irrequietas e luctando pela sua autonomia e independencia local,
tambem violaram o tratado concluido com Attilio, infestando as Colonias
romanas, e as Cidades federadas e immunes, favorecidas com o regimen
municipal. N'esta angustia, em que Roma tinha de impr a sua
auctoridade, bem comprehendera que j no devia empregar o systema da
devastao; mas Galba, desgraadamente no comprehendeu este pensamento
governativo! Mandado  Hespanha, ahi chegou com um exercito cansado e
exhausto; em vez de limitar-se  defeza immediata dos subditos romanos,
encetou logo combates contra as tribus lusitanas, que nas suas
emboscadas continuas, em assaltos repentinos o fram estafando e
enfraquecendo at encontrarem o momento azado em que se atreveram a
dar-lhe uma batalha campal, em que ficaram trucidados sete mil
legionarios. Os brios de Galba ficaram diminuidos perante a estupenda
calamidade; Galba teve de collocar-se na defensiva, aproveitando a epoca
das grandes invernias para se fechar cautelosamente nos quarteis de
Conistorgis! As Aguias romanas, como bem diria ahi qualquer poeta
satirico, estavam fechadas na capoeira.



O Senado permaneceu imperturbavel diante da ironia caustica do orador,
que continuou no mesmo espirito:



--E de facto Galba, durante essa inaco, chocava uma tremenda infamia!
Logo no principio da primavera do anno DCIII da fundao da Cidade
eterna, que ficar affrontosamente assignalado nos _Fastos Consulares_,
Galba poz-se em marcha para a Lusitania, devastando inconsideradamente
Cidades immunes ou federadas, estipendiarias ou contributas d'aquella
opulenta regio, d'onde Roma tem haurido montanhas de prata. Esses povos
da Lusitania, embora tenazes e inquebrantaveis, pelo natural bom senso
reconheceram que era melhor gosarem os privilegios que Roma lhes
concedia, do que envolverem-se em uma guerra interminavel, que com
certeza visaria  sua destruio. Resolveram mandar a Galba enviados com
a declarao, que se confessavam arrependidos da revolta a que tinham
sido arrastados, e promptos a cumprirem integralmente o tratado firmado
com Attilio. A uma tal proposta, Galba manifestando-se benevolente, elle
mesmo respondeu aos enviados das tribus lusitanas: Que era o primeiro a
reconhecer a fora das circumstancias, que os obrigra pela tremenda
crise da fome e da miseria a quebrantarem a lei romana, e a
entregarem-se por vezes a incurses e rapinas em logares que gosavam
quasi os direitos da metropole. Mas, em vez de tomar directamente a
responsabilidade d'esses actos, e sabendo a causa intima que os motiva,
eu farei que finde a situao violenta das Cidades estipendiarias,
acabando com os tributos pezadissimos que as oneram, eximindo-as dos
pagamentos s legies romanas e s provises de viveres fornecidos s
tropas em passagem. Para se effectuar isto, passareis  cathegoria de
Cidades municipaes, com o vosso territorio livre, sem pagamento de
tributos, com magistrados eleitos livremente, e fra da jurisdico do
governador da Provincia. Diante d'esta perspectiva, Galba,
traioeiramente apontou as terras que lhes reservava, e que dividia em
tres cantes, e tratou de convocar para um determinado dia na margem
direita do Tejo as tribus lusitanas, exigindo como prova da mutua
confiana que se appresentassem desarmadas, para que em Roma se no
dissesse, que a generosa concesso do _Jus italicum_ era extorquida.



Cato, como que vencendo uma oppresso de momento, salientou o facto
monstruoso:



-- convocao feita por Galba concorreram os povos confiados na palavra
que representava o poder romano; e logo que Galba apanhou as tribus
desmembradas e desarmadas na planicie para onde as convocra,
envolveu-as nas Legies que subitamente se appresentaram fortificando a
linha dos Hastatos e Triarios com toda a Cavalleria, que atropellando a
multido inerme, fez passar ao fio da espada para mais de trinta mil
pessoas, entre homens validos, velhos e crianas, e at mulheres! Nada
mais execrando, porque esta traio vilissima deslustra as victorias
romanas! E se este instincto traioeiro  a base da sua tactica de
guerra,  egualmente a feio do seu caracter no tempo de paz; e com
taes recursos se defender da justia implacavel, perante a qual seja
chamado a responder, porque no meio de tantas carnificinas e
depredaes, Galba apoderou-se de assombrosas riquezas, com que de certo
conta eximir-se de toda a pena. Mas a deshonra do individuo, ou o seu
castigo, no ressarce os males da Patria! O poder de Roma est n'este
momento abalado na Lusitania, que se debate em um levantamento geral
contra uma to inaudita monstruosidade. E se eu, como Censor, accuso o
homem indigno, e defendo os meus clientes de Hespanha contra o
sanguinario e iniquo prevaricador, perante o Senado tambem reclamo que
um General intelligente com novas tropas v promptamente restabelecer a
paz e o direito s povoaes alvoroadas da Lusitania.



A voz de Cato, o Censor, fra escutada com assombro. Elle tinha alliada
 venerao devida aos seus outenta e cinco annos de edade uma longa
vida intemerata, que triumphra brilhantemente de todas as calumnias,
com que por vezes procuraram minar o seu ascendente moral.

N'esta mesma sesso memoranda do Senado resolveu-se que immediatamente
fsse mandado a Hespanha o Pretor Caio Vetilio com novas Legies e
Cavalleria para reforar o Exercito provincial. Determinou mais o
Senado, que Servio Sulpicio Galba e o Consul Lucio Licinio Lucullo
regressassem a Roma para prestarem contas estrictas pelos seus roubos,
expoliaes e crueldades affrontosas.




II


O Tribuno da plebe Aulo Scribonio, estimulado pela accusao de Galba no
Senado, convocou o povo de Roma para o Forum, para pedir-lhe o
julgamento do Proconsul pelo crime de infanda traio. O concurso foi
enorme, tanto mais que desde muitos annos a competencia judiciaria dos
Concilios estava cerceada pela delegao d'esses poderes a um jury ou
Conselho perpetuo.

O Tribuno fallou  multido, com nitidez e segurana:



--Sabeis que ao Senado, como corpo dirigente da Republica, pertencem os
poderes sobre o Culto, sobre a administrao das riquezas do Estado e
principalmente a administrao das Provincias. Competia-lhe por isto a
iniciativa da accusao de Galba; mas  obrigao do Tribuno impulsionar
a aco publica, sobretudo quando se trata do crime de alta traio,
como agora, em que  ro Servio Galba! Eis o facto na sua espantosa
crueza: numerosas cidades da Lusitania, que estavam na situao
angustiosa de estipendiarias, vexadas pelos pezados impostos extorquidos
pelos magistrados romanos, tinham requerido ao Senado para lhes ser
concedida em premio de sua fidelidade a situao de confederadas ou
immunes, podendo assim governar-se pelas suas leis consuetudinarias,
pelas suas magistraturas locaes, sem comtudo aspirarem ao goso dos
direitos politicos de cidados romanos. Era a base da pacificao da
Lusitania! O Proconsul Galba servindo-se da magestade do povo romano
garantindo esse pedido, convocou as povoaes desarmadas para lhes
communicar o Edito do Senado que o legislava, e envolvendo-as nas suas
legies trucidou traioeiramente para mais de trinta mil pessoas, em que
a par dos homens validos estavam velhos, crianas e at mulheres!



O povo permaneceu mudo, sem mostrar commoo alguma pelo quadro da
horrenda carnificina. O advogado Fulvio Nobilior, que fra encarregado
da defeza de Galba, notou esta circumstancia da insensibilidade moral da
plebe. O Tribuno continuou:



--Para o julgamento d'este attentado contra a magestade do Povo romano,
bem sei,  preciso um exame dos factos, e por felicidade das nossas
instituies sempre perfectiveis, o processo de Galba ser formado pelos
Questores, que appresentaro ao Concilio da plebe os seus quesitos,
sobre os quaes effectuareis a votao. O que outr'ora fra um motivo de
discordia entre o Povo e o Senado  hoje uma harmonia social, por que se
reconhece, que assim como os negocios judiciaes carecem de sciencia
juridica para serem tratados, os assumptos de jurisdico criminal no
pdem ser sentenciados seno mui reflectidamente. E se a lei tribunicia
Calpurnia avocou estas questes a um jury perpetuo, o Povo sem perder a
sua prerogotiva delegou este poder judiciario aos Questores. Que Servio
Sulpicio Galba seja processado pelo Conselho dos Questores, sendo as
suas concluses appresentadas  vossa deliberao no mais breve lapso de
tempo.



Depois de se ter calado o Tribuno, appresentou-se diante do povo, que
enchia o Forum, o advogado Fulvio Nobilior, conhecido pela sua extrema
argucia, por um espirito sarcastico, que chegava a tocar as raias do
cynismo. O seu poder nos tribunaes consistia em fazer desvairar as
opinies, em actuar nas consciencias suscitando a dissoluo moral,
tornando ridiculos os sentimentos de piedade ou de humanidade. Era
sempre ouvido com interesse; a multido comprehendia-o. Quando veiu 
barra, um rumor surdo foi o prenuncio de um grande silencio; o seu
discurso ficou memoravel:



-- accusado o Proconsul Servio Galba de latrocinios na Hespanha
Ulterior, n'essa regio, que assenta sobre jazigos de ouro e prata, a
Lusitania! O que tem a fazer um homem culto entre gente barbara, seno
levantar do cho as joias que v calcadas inconscientemente? Tambem da
Hespanha Citerior, acabado o seu governo de dois annos, regressa a Roma
o Consul Lucio Licinio Lucullo, carregado de assombrosas riquezas, e no
foi accusado de latrocinio, nem de rapinas ou extorses. E por que,
tendo os dois magistrados seguido os mesmos processos administrativos? A
raso  evidente.  por que Lucullo soube captar as sympathias,
compartilhando o seu ouro e prata, e gemmas preciosas com os patricios
influentes, que ahi tm assento no Senado; e para desviar a ideia dos
roubos, teve o pensamento de edificar um Templo  Deusa Felicidade, a
quem attribuiu a posse de tantas riquezas! Servio Galba s commetteu um
erro:--quiz tudo para si, dando apenas algumas migalhas aos legionarios,
que o acompanharam nas depredaes! D'ahi o odio dos Tribunos da Plebe.
Mas, para que dispender aqui o tempo com uma moral especulativa, se
esses pretendidos roubos ou concusses fazem que Roma regorgite em
riquezas espantosas, trazidas d'essa Hespanha inesgotavel  avidez do
estrangeiro? S lembrarei, que quando Roma se viu assaltada pelos
Gaulezes, difficil foi ajuntar mil libras de ouro para pagar a imposio
de guerra! E desde que fmos a Hespanha, sete annos antes da terceira
Guerra punica, 16:800 libras de ouro j se achavam no fundo do thezouro
romano! E no comeo da Guerra social, o Erario regorgitava com 1:620$829
libras de ouro! Quem no comprehende que a riqueza de Roma no lhe vinha
do trabalho agricola e fabril, mas da guerra em paizes ricos? Foi esta
sempre a nossa politica. Combater, vencer, para civilisar, pagando-nos
por nossas mos d'este beneficio. Desde que as Legies romanas pisaram o
slo da Lusitania, conheceu-se que o ouro nativo ahi abundava em
assombrosos files, e em palhetas nas areias do Tejo! Nada mais claro
para um Governo intelligente:--submetter esse povo, fazendo-o trabalhar
ao servio de Roma na explorao das minas de ouro e prata, e de
convertermos esses metaes em ornatos pessoaes, baixelas, e sobretudo em
moedas, que facilitam o commercio do mundo! Evidentemente Roma  a
civilisadora do orbe! Quando Scipio Africano veiu receber em Roma a
apotheose pelas suas victorias sobre os Carthaginezes e Iberos, entregou
ao Erario de Roma trezentas e dez arrobas de prata lavrada, pilhada em
outenta villas e cidades da Iberia! Mas no resam os Annaes romanos da
que o general reservou para si. E o seu successor, Lucio Cornelio
Lentulo? Tambem depositou no Erario mil e trezentas arrobas de prata
lavrada.  incalculavel a quantidade de arrobas de prata que os Consules
e Pretores, que administraram as duas Hespanhas, transferiram das suas
prezas para Roma. E os celebrados dinheiros de Osca? Porm, essa riqueza
s chegava ao Povo romano em alguma festa publica de apotheose; pelo
processo moderno, o povo  mais favorecido, porque essas riquezas
pilhadas na Iberia e na Lusitania so dispendidas em Roma pelos seus
detentores na vida faustosa com que tornam a Cidade a capital da
Civilisao do mundo. E depois, de quem tomou Galba as riquezas que est
espalhando em Roma? De ladres despreziveis e abjectos, que occupam o
slo da Lusitania, raa de escravos, impando de ignorancia e orgulho,
indignos do bello co que os cobre. Eis ahi o crime. Expoliar ladres,
do que possuem estlidamente, e enriquecer Roma, que mais ser preciso
para a apotheose? Galba bem merece do Povo. Fique ao Senado a gloria de
condemnar o valente e magnanimo Proconsul pela affectada questo de
humanidade, da qual nada consta nos sublimes Annaes das nossas glorias
militares, que sero sempre o assombro do mundo! E, que justia  esta,
que accusa Galba, e deixa no doce olvido o Consul Lucio Licinio Lucullo,
que passou tambem  Lusitania, trucidando os Vacceos a titulo de vingar
os Carpetanos, e mandando a um signal dado passar a fio de espada todos
os habitantes da cidade de Caucia? Se, como dizem os nossos
jurisprudentes, a Justia  s uma, os historiadores tambem proclamam,
que ha uma s gloria militar:--Vencer! Se hesitarmos nos meios... Roma
perder o imperio do mundo.



O Povo comprehendeu as cynicas palavras de Fulvio Nobilior; e at o
proprio Tribuno, cumprido o dever do seu cargo, concordava no fro
intimo com essa doutrina, reveladora de uma crise da consciencia
nacional, em que se preparava para futuro no remoto a transformao das
instituies sociaes e politicas de Roma.




III


O Consul Vetilio partira a toda a pressa para a Hespanha Ulterior, a
reforar o exercito provincial; temorosas noticias corriam pela Cidade, de
um levantamento geral das cidades da Lusitania, que visava a sacudir o jugo
de Roma, tornado odioso e incomportavel pela traio execranda de Galba. O
Senado confiava na valentia e intelligencia estrategica de Caio Vetilio,
sem desconhecer a resistente tenacidade inquebrantavel das tribus
lusitanas, que apoiavam a sua independencia individual em um territorio
livre, tendo por grito de guerra:

--Vencer ou morrer!

Presentimentos aziagos se espalhavam sobre o exito da expedio de Vetilio.
E emquanto espantosos successos se estariam passando longe, muito longe, na
parte occidental da Hespanha, no incendio da insurreio, o detestavel
Servio Sulpicio Galba vinha compellido  barra do Senado appresentar a
defeza dos crimes de que fra accusado por Cato o Censor. Elle bem sabia
que deslustrra pela m f a dignidade do Povo romano, mas confiava no
poder da sua eloquencia prestigiosa.

Galba receou por um momento a condemnao, e preparou a defeza espalhando
pelos Senadores e funccionarios de Roma os blocos de prata e ouro em barra,
que trouxera das minas da Peninsula, onde tinha para mais de quarenta mil
homens entregues ao trabalho forado da explorao d'esses jazigos, que
rendiam vinte mil dracmas argenteas por dia. E como se no bastassem as
riquezas que espalhou com profuso pelos juizes, dirigiu-se-lhes ao
sentimento, appresentando-se no tribunal com os seus dois filhos. Lida a
accusao, foi-lhe concedida a palavra, escutada attentamente. Era um dos
casos mais emocionantes de Roma. Ser condemnado? ser absolvido? Faziam-se
apstas, aproveitando esse lance para um jogo descarado. A palavra
eloquente de Galba era conhecida e admirada.

Perorando:



--Todos vs estaes bem lembrados, que sob o consulado de Licinio Lucullo e
de Aulo Postumio, um terror excessivo se apoderou dos Romanos por causa das
tremendas derrotas dos nossos legionarios na Hespanha, derrotas infligidas
pelos Celtiberos, por frma, que no havia togados, nem pretorianos que se
inscrevessem para acudir  remota regio em que fraquejava o Poder de Roma.
Scpio Africano revoltou-se contra tanta covardia, offerecendo-se para ir
combater e subjugar essas populaes indomitas, que luctavam pela
independencia da sua terra. Passada a apparente pacificao, fui mandado
como Pretor  Hispania. Eu mesmo ento vencido pelos Lusitanos em uma
batalha campal, consegui salvar-me com um troo de cavalleiros entre
penhascos! Ah, foi alli, n'essa extrema angustia que jurei, que prometti 
gloria dos Quirites o exterminio dos Lusitanos, d'essas tribus irrequietas,
que so hoje o unico embarao para que a soberania de Roma se estenda
imperturbavel sobre toda a riquissima peninsula da Hispania. Lucio Minutius
veiu a toda a pressa acudir  minha situao desesperada. Bem sabeis com
que altivez e soberbia os Lusitanos e Celtiberos fallam contra o poder de
Roma; e a todos os Proconsules, que vo s guerras da Hispania Citerior e
Ulterior, tem sido recommendado que a tantas bravatas estolidas se deve
responder com castigos tremendos e inolvidaveis; e sobretudo que os
Lusitanos apprendam  sua custa, que as Aguias romanas no soffrem ameaas
da vil preza. No fiz mais do que seguir a politica traada. Diro que me
excedi na aco repressiva? Respondo, e oua-me a historia: Emquanto
existir sobre o territorio da Hispania esse povo Lusitano, hade ahi
manter-se sempre vigoroso o instincto e o sentimento da autonomia. Roma
nunca ahi sustentar o seu imperio tranquillo, porque as tribus lusitanas
sonham com uma Patria livre! Por mais que as nossas divises
administrativas retalhem o seu territorio, desmembrando-o, mais os
Lusitanos comprehendem a necessidade da Confederao das raas peninsulares
como condio para repellirem o jugo estrangeiro e affirmarem a sua
independencia! E se essa Confederao se chega a organisar, Roma ter no
extremo occidente um inimigo mais terrivel do que Carthago, e as guerras
contra os Lusitanos sero mais sangrentas do que as Guerras punicas. Foi
para destruir estes germens de Confederao, que eu convoquei  falsa f os
Lusitanos para tratar das liberdades que Roma lhes concedia, e passei 
espada uns sete mil d'entre elles? Sim, parecer cruento? Mas, do mal o
menos; sabei, que a Lusitania tende a unificar em uma mesma patria os
Carpetanos, os Vettes, os Vacceos e os Callaicos. Do Anas ao Mar
Cantabrico tudo  lusitano; e do Anas ao Cabo Sacrum, e tambem grande parte
da Betica, ou Tartessida, so regies occupadas pelos Lusitanos, o _Povo
mais poderoso_ da Hespanha, como notam os geographos. Ahi veriamos formada
uma forte nao, cujo territorio terminava ao nascente dos Asturios e
Celtiberos, e comprehendendo a Callaecia, com todos os territorios do
Minio, do Durio at ao Tago, e mesmo a regio transmontana. Do Cabo Sacrum
at ao Mar Cantabrico, toda esta parte occidental da Hispania constituindo
a Lusitania! comprehendeis agora o perigo que nos ameaa, e de que eu
consegui salvar o poder de Roma. Ns erradamente damos o nome de
_Celtiberos_ a povos que so lusitanos de raa; julgamol-os desunidos, e
apparentemente se mostram, at  hora do perigo. Se os Lusitanos chegarem
um dia a estabelecer uma Confederao, sero invenciveis e derrotaro os
invasores estrangeiros que tocarem o solo da amada Patria.  isto que
importa ter sempre presente  considerao dos politicos, que tentarem
dominar a Hispania, e governal-a enfraquecida para a explorao das suas
incalculaveis riquezas. Que o dito de Cato, _Delenda Carthago_, se
converta agora em _Finis Lusitaniae_! Mas, no quero acabar com uma phrase
de effeito; a rhetorica no entra aqui para nada. Importa mantr a Hispania
dividida; no  em Citerior nem Ulterior, mas em LUSITANOS e IBEROS. Esses
dois povos so incompativeis entre si; o Ibero admira a auctoridade, a
fora, e quer exercel-a impetuosamente, ao passo que o Luso ama a
independencia sem ruido nem apparatos. O Ibero  incapaz de se unir para a
defeza, e obedece passivamente a qualquer poder physico ou moral que se lhe
imponha; o Lusitano liga-se facilmente para a defeza, em revolta contra
todo o poder. Conheci pela experiencia estas differenas, e reconheci por
que frma poderia fundar na Hispania o Poder indestructivel de Roma: acabar
com a Lusitania, e estender as populaes ibericas. Chamado a Roma, por
causa dos sete mil trucidados, que outros augmentam at trinta mil, ficou
truncado o meu plano; mas estou convencido, que Roma, se no hoje, um dia
me far justia.



No seu discurso Galba concluia por ser preciso incendiar as principaes
cidades da Lusitania; passar  espada as povoaes que se revoltaram;
transplantar os povos lusos, substituindo-os por tribus propriamente
ibericas; vender como escravos nos principaes mercados essas tribus
inteiras, que pelo seu orgulho embaraam a aco do Poder romano na
Hespanha; arrasar os burgos e as citanias; estabelecer a pilhagem
systematica dos campos; decapitar todos os cabeas de motim, logo que
sejam agarrados ou pela fora ou pela traio, e no bastando isto
ainda, retalhar a Lusitania pelo menos em tres tros: ao norte,
constituindo em corpo  parte a CALLAECIA, ao centro a TARRACONIA, e a
sudeste a BETICA: logo que fique a LUSITANIA reduzida ao limite do Durio
ao Anas, em uma miseravel faixa de terreno, tapada pelo mar, nunca mais
ter resistencia, e mesmo chegar at a esquecer-se da pretendida
autonomia.

O discurso foi ouvido com assombro, no j como defeza, mas como um
plano de futuro governo para a incorporao completa da Peninsula
hispanica.

Quando estava para ser proferida a sentena sobre as responsabilidades
de Servio Galba, eccoaram por toda Roma as desoladoras noticias vindas
da Lusitania: a derrota formidanda de Vetilio! a morte ignominiosa do
general romano! O exercito reduzido a seis mil homens, refugiado na
cidade de Carpesso! E o poder de Roma ameaado por um cabecilha, dizem
que outr'ora Pastor, outros affirmam que Salteador de estradas, outros
que  uma appario maravilhosa d'esse Viriatho, que ha setenta e dois
annos acompanhra Annibal  Italia, e que combatendo em Cannas fra
morto por Paulo Emilio!

Todas estas vozes corriam em Roma, e avolumavam-se, augmentando o
terror, e o prestigio do Cabecilha.  de crr que influiram na sentena,
que absolveu a Servio Sulpicio Galba da inaudita carnificina dos trinta
mil lusitanos desarmados. E tambem se conta, que a morte inesperada de
Cato, o Censor, se explicava pelo desgosto de vr a justia avergada 
iniquidade triumphante, e diminuida a gloria de Roma ultrajada nos
annaes humanos.




IV


Em Roma no se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas
por Galba. Diante d'estes planos de forte administrao, e pelas
doutrinas da politica de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil
individuos desarmados, convocados juridicamente pela auctoridade do
Pretor, e chacinados traioeiramente, pouca impresso fazia na alma do
povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha
decadente para a servido. Mas o crime de Galba era d'aquelles que fazem
levantar as pedras! D'entre os montes de cadaveres, meio incinerados e
cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pr termo  carnificina,
levantaram-se cautelosamente algumas das raras victimas, que a
casualidade resguardra dos golpes successivos que esmagavam aquella
multido inerme; e esses desgraados, fugindo por entre as trevas
cerradas, espalharam-se pelas montanhas e valles, e fram, de povoao
em povoao, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a
narrativa da tremenda catastrophe com que os romanos invasores queriam
extinguir os Povos Lusitanos.

Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tbida, rtos e
estropeados, levados em um desvario de quem perdeu a raso pela
enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e fram dar s grandes
cidades municipaes como Ollissipo, aos Conventos juridicos como Scalabis
e Jerabriga, narrando o espantoso successo. Por pobras e aldeias, por
casaes e villares, por citanias no alto dos montes, por toda a parte
correu o rumor sinistro da mortandade atrocissima e iniqua, e no houve
folego vivo que se no extorcesse em impetos de colera impotente, em
revolta moral contra o maior attentado que  luz do sol se tinha
praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam
de terra em terra repetindo a tragica narrao, tornava-se contagioso, e
acordava um profundo instincto de revolta, que ia crescendo como uma
onda at rebentar em uma convulso irreprimivel. Os Arevacos, os Tittes
e os Belli, povos que andavam sempre em mortaes conflictos, agora
achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de colera irrefreavel
irrompiam entre os Asturios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos; estes
olhavam com anciedade quem daria comeo a uma lucta, para a qual nada
estava preparado, a no ser um temperamento sempre resistente. Para o
sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado
pela inqualificavel traio de Galba, legitimo representante da f
romana. J savam no r Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e
at por essas povoaes remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium,
Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os
geographos romanos e naturalistas no queriam repetir por consideral-os
barbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam
casualmente da horrifica matana, j se formavam tros de gente armada
com hozes, ou fateixas de arrmeo, catanas grossas, pelo instincto
natural da defeza de seus lares.

Esses poucos foragidos levavam na palavra o incendio, que se espalhava
de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o
crime do governo de Roma.  certo que a populao lusitana estava
cansada das recentes e inefficazes luctas; as cidades confederadas e
estipendiarias queriam o socego da sua vida laboriosa, supportando
sacrificios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa,
Salacia, Cetobriga eccoara imprevistamente o caso nefando da
carnificina, e lamentavam no existirem chefes que organisassem a
resistencia contra o brutal e monstruoso attentado. E se esta
impotencia, ao menos, assegurasse alguns annos de tranquillidade para o
sul da Peninsula! Outro Pretor que venha, diante da impunidade d'este,
at onde levar as depredaes e os morticinios!

Os povos que gosavam das garantias de Municipio romano no queriam
mover-se para no decahirem dos privilegios que fruiam concedidos pelo
conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lacio
obedeciam  mesma tendencia egoista. Smente entre os povos na situao
de tributarios poderia surgir um impulsivo instincto, mas impotente de
revolta. Nas cidades dos povos denominados Celticos e Iberos havia um
certo ciume contra a aspirao hegemonica dos Lusitanos; mas nem por
isso se ligou menos interesse s narrativas dos foragidos da matana de
Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucobriga,
a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo
interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas
religiosas e as nupciaes suspendiam-se  chegada d'essas figuras
sangrentas, que pareciam phantasmas resurgidos do campo da matana para
virem reclamar a eterna vindicta.

Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quasi em delirio, alguns
d'elles cahindo no cho esgotados de sangue que ainda vertiam das
feridas, outros borbotando sangue pela bocca, aos gritos convulsivos com
que narravam o caso da mortandade.



--O Pretor Servio Sulpicio Galba convocou para uma assembla nas
campinas da margem direita do rio Tagus, os trez Conventos da Lusitania
Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades
estipendiarias, recommendando que viessem sem armas, porque se tratava
da distribuio de terras, do estabelecimento de novas Colonias, e de
elevar alguns Povos tributarios aos privilegios de Cidades Confederadas,
de Municipio romano e do antigo Lacio.

Confiados nas palavras do Edito do Pretor, concorreram ao local que
lhes fra aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como
se fsse para uma festa de paz e congratulao levaram comsigo suas
mulheres e filhos, e os ancios mais venerandos das tribus, como
arrefens do seu animo pacifico.

O Pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado
plantar uma _Arvore de Maio_, junto da qual se devia assignar o pacto
perpetuo da concordia com as Tribus lusitanas.

Emquanto se esperava o Pretor cercado da sua Cohorte, comearam a
apparecer quatro Legies, que se formaram em _orbis_, estendendo em
ordem de batalha as suas tres fileiras, e envolvendo como em uma grande
muralha toda aquella multido inerme! Ninguem suspeitava o intuito do
subito envolvimento.

Os manipulos da Legio, com as suas bandeirolas fram marcando os
logares, que  frente de todos occuparam os Hastarios; por traz d'estes
ficaram os Principes dispostos de modo a por entre elles poderem recuar
os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os
_Triarios_, como barreira de resistencia.

Depois d'isto appareceu a Cavalleria, correspondendo quinhentos
Cavalleiros a cada Legio, armados com o gladio hispanico de dois gumes.
Foi ento que um gelido terror se apoderou d'aquelle povo indefenso. As
lanas e chuos dos Hastarios collocaram-se por um movimento repentino
em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.

O Pretor Galba no apparecia! Um presentimento de morte se estampou na
lividez de todos os rostos, quando viram por detraz dos triarios
moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.

Com certeza Galba planera uma infamissima traio! Como fugir-lhe? As
mulheres, em lamentos atroadores, abraavam os filhos, sem perceberem
ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudencia, esperando serenos as
ordens do Pretor.

N'este momento de angustia pezados calhos fram de longe arremessados
por catapultas contra aquella multido compacta, esmagando alli algumas
centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que
tentavam fugir fram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos
Hastarios; os que se estreitavam uns aos outros n'um panico
inconsiderado abafavam-se.

E emquanto iam chovendo os grandes calhos arrojados pelas catapultas,
cahiam sobre a multido as _Falaricas_ ou lanas incendiarias, que os
Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos
arremessavam panellas de pez e estpa ardendo, que os Cestrophendones
faziam cahir no meio da assembla.

E como se no bastasse tudo isto para destruir aquella gente desarmada,
os Fundibularios baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre
certeiras, coadjuvados pelos Arcubalistas.

A multido ainda se movia, embora no offerecesse resistencia alguma;
mas Galba, querendo terminar a sua hediondissima traio e vendo que o
sol j declinava, resolveu o final exterminio antes do descer da noite.
Os Cavalleiros recusavam-se  fadiga de passar  espada tantissima gente
inerme que ainda sobrevivia. Foi ento que Galba se lembrou de como na
guerra de Macedonia, Paulo Emilio deveu a victoria decisiva ao emprego
da tactica dos Elephantes; e deu logo ordem a que os dez Elephantes
offerecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra
os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os
temerosos rebeldes Lusitanos.

Os Elephantes couraados com chapas guarnecidas de espadas fram
conduzidos para aquelle monto de gente, cuja carne e sangue formava com
a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez
Elephantes sentiam-se fracassar os ossos das victimas, e o sangue
respingava-lhes at aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas
que eram casualmente arrancadas na sua passagem.

A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espsso se erguia dos
valles fundos. Foi ento, que ainda d'entre o monto dos cadaveres se
ergueu um vulto surrateiramente, e saltando ao pescoo de um Elephante,
o pezado animal cahiu redondamente morto em terra! As trvas iam-se
engrossando, e o vulto agil e escorreito foi assim saltando sobre cada
um dos Elephantes, que por seu turno iam cahindo mortos! Quem seria esse
vulto extraordinario, que sabia o segredo de dar a morte instantanea a
to poderosos animaes, em cuja pelle no penetravam os mais pujantes
dardos? Quem quer que fsse, elle sabia o segredo apprendido nas Guerras
punicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vertebra que toca no
craneo do Elephante fazia-o cahir fulminado instantaneamente. Assim
fram mortos os dez Elephantes.

A noite era j cerrada; e enquanto Galba mandra lanar fogo ao monto
dos cadaveres entre os quaes fram encontrados os dez Elephantes de
Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que
se tinham occultado debaixo dos corpos exnimes, e que se fingiram
mortos: so esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da
Turdetania pedindo vingana! Vingana! Vingana!



Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de
guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos
ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexo, e cada
povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspirao do resgate. A
palavra poetica  alada, o pelo prestigio da tradio transpe as edades
repercutindo-se na alma dos vindouros.

    *Baladro de guerra*

    Terra da Lusitania,
    Ensopada de sangue
    Por horrendo baldo!

    Chamou-nos o Romano
    Para a alliana de paz,
    Mata-nos  traio!

    Virus de iniquidade,
    D'esse fermento de odio
    Brote a destruio.

    Que a lana dos Quirites
    Se quebre, e em nossa frente
    No se erga Legio!

    Quem sobrevive ao crime,
    E escuta estes lamentos
    Da atroz desolao;

    Quem perdeu l seus filhos,
    Os paes, entes queridos,
    O esposo, o irmo;

    Que se revoltem todos,
    Peitos sejam escudos,
    Lanas raios na mo!

    Soffrimento e opprobrio,
    A morte e a vingana
    Foram  unio!

    Vs, Povos da Callaecia,
    De Oretania, Beturia,
    Cynesia regio;

    Robustos Carpetanos,
    Tartessios, desmembrados
    Da Lusonia nao!

    Que o mesmo odio nos una,
    Vingae mortos, e os vivos
    Salvae da escravido!

    Reviva a Lusitania,
    Ensopada no sangue
    Da romana traio.




V


De todas aquellas povoaes at onde chegra o rumor da horrente
catastrophe, partiram homens audaciosos, movidos pela curiosidade para
observarem com os seus olhos os despojos que restavam; alguns no
voltaram mais aos seus lares, porque iam engrossando uma onda dos
revoltados contra tamanha traio. Os que regressavam espavoridos
contavam o assombro que lhes causra o vr uma ampla campina coberta de
cadaveres incompletamente carbonisados, em volta dos quaes uivavam lobos
em numerosas alcateias, e aguias e abutres que esvoaavam em bando sobre
a vasta presa, cujo fetido os attrahira de longe. As calmas estivaes
tornavam-se mais intensas, apressando a putrefao de tantos cadaveres;
as fortes nortadas levavam at muito longe os miasmas, e n'uma e n'outra
cidade da Lusitania appareciam ameaos aterradores da peste. Era a
perspectiva de uma mais horrivel devastao, porque se no via o ltego
mortifero que flagellava os povos. Um pensamento de piedade pelos mortos
occorreu suscitado pelas calamidades:



-- certo que esses corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento
de um dever sagrado! Em quanto lhes no dermos sepultura condigna, suas
almas andaro errantes diante de ns, perturbando-nos, perseguindo-nos
at acordarmos do nosso desdem egoista. Carecemos para propria segurana
de lhes darmos sepultura segundo o patrio e antigo costume, quando se
encontra um morto n'um ermo ou n'uma encruzilhada. Que cada cidade,
villar ou aldeia, faa suas peregrinaes ao campo da matana, e
seguindo a tradio da piedade, cada um arroje uma pedra para cima dos
cadaveres at que se formem Montes Gaudios, que sero os tumulos
venerandos dos nossos desventurados conterraneos.

Segundo aquelle costume, vogou de cidade em cidade a ideia da funebre
peregrinao, e no eram ainda bem passadas duas luas quando por toda a
Lusitania se operra um movimento que ligava todas as povoaes no mesmo
affecto. Os mortos podiam agora mais de que os vivos, porque por via
d'elles se uniam tribus at aquelle dia inconciliaveis, que iam visitar
o campo da matana e lanar suas pedras para erguerem bem alto os Montes
Gaudios, que deviam tornar-se no um simples monumento funerario, mas
uma como torre de protesto e de eterna revolta. Muitos povos dispersos
nas regies de entre Durio e Minio, entre o Durio e o Tagus e mesmo os
que se achavam para l da banda de Traz dos Montes, desde a foz do Anas
at ao Mar Cantabrico, adheriram  desolao dos Lusitanos, e mandaram
tambem peregrinaes ao campo da matana para que os Montes Gaudios
attestassem aos vindouros que elles se consideravam formando parte
d'este valente e activo povo ribeirinho que dos seus portos de _Lez_ e
das suas bem trabalhadas _Lezirias_ tomra o nome nacional de
_Lusitania_. O ecco da grande catastrophe produzida pela perfidia impune
de Galba chegra egualmente aos confins dos territorios dos Asturios e
Celtiberos. Os Povos denominados Carpetanos, os Vettes, os Vacceos e
Callaecos, que sempre se tinham conservado apartados para o norte da
Hespanha esperando constituir uma Confederao e unidade poltica sob o
nome de Callaecia, agora sentiam-se dominados pela insondavel fatalidade
que arrastra os destemidos e independentes Lusitanos  maior das
ruinas; elles viero em magotes vr de perto a horrorosa mortandade, e
arrojar piedosamente mais pedras para os Montes Gaudios. Esses tumulos
cresciam, como attestando ao mundo, que eram innumeros os coraes que
pulsavam por inultos mortos, e que os mesmos braos que arrojaram
aquellas pedras, sero os mesmos que arremessaro as suas lanas e
brandiro as pezadas lorigas contra o fautor da execranda iniquidade.

Assim se fram formando bandos e numerosas guerrilhas, imperfeitamente
armadas, que clamavam por vingana; e vendo que muitas cidades alliadas
dos Romanos, e outras por temor ou covardia, no tinham vindo celebrar a
cerimonia dos Montes Gaudios, foi contra ellas que arremeteram na sua
ancia de vindicta. Passavam ja de dez mil os Lusitanos que se ajuntaram
em differentes guerrilhas, entregues  aventura e audacia de destemidos
Cabecilhas, que fram descendo para o sul da Peninsula, devastando e
roubando quantos povos encontravam que estavam no goso do patronato
romano. Chegaram at  Turdetania, essa opulenta regio banhada pelo
Betis, tendo por limite da parte do norte o curso do Anas; e levaram a
sua audacia at ao ponto de atacarem a importante fortaleza de Gades, ou
Gadir, como lhe chamaram os Phenicios. No era sem raso que os
viajantes phenicios, gregos e romanos diziam que os Lusitanos eram o
povo mais numeroso e valente entre as naes de toda a Iberia.




VI


A Hespanha Ulterior estava quasi completamente insurrecta. Passavam de
dez mil os Lusitanos revoltados contra o poder de Roma, e que juraram
sacudir o infame jugo. No seu Conselho armado decidira-se, que todo
aquelle que podesse sustentar-se a cavallo, embora velho ou doente, se
appresentasse para o combate; mesmo as crianas que podessem alevantar
um chuo ficavam obrigadas a incorporar-se nas turmas e milicias de cada
terra.

Era o comeo de anno estival, e na _entrada de Maio_, em que se faziam
as dansas e cantares debaixo do verde pinheiro, e em que os homens
validos, os chefes de familia, effectuavam as grandes paradas das suas
foras defensivas. Parece que o ajuntamento d'aquella multido enorme
respirava um r de festa, uma alegria communicativa, em que a ideia de
morrer pela liberdade da sua terra dava uma exaltao delirante;
dir-se-hia que era a _Primavera sagrada_, em que novas colonias iam pelo
mundo para fundarem uma outra cidade. Verdadeiramente era uma entrada em
campanha, em que o costume vinha coadjuvar a necessidade. Viam-se homens
da estatura me, e enxutos de carnes, de cabellos pretos e olhos
castanhos, ligeiros e ageis, capazes de resistir a todas as intempries,
soffrendo todas as privaes mas sempre alegres; traziam pendurados ao
pescoo, por correias, pequenos escudos de tamanho de quatro palmos, e
prezas  cinta umas compridas facas, a que se soccorriam em lances
decisivos, e ainda no combate pessoal. O brao era armado com uma lana
comprida, com uma ponta de bronze e um gancho ao lado, servindo para
ferir e prender aquelle que topasse na frente. Apenas lhes defendia o
corpo uma couraa de linho cr fortemente tecido, ou treu, sobre a qual
assentava uma cta de malha tecida de arame, que nenhum dardo poderia
atravessar. Capacetes de couro com triplice cimeira cobriam-lhes as
cabeas, aparando com segurana os golpes dos montantes; outros
guerreiros traziam os cabellos compridos, como usam as mulheres,
cingidos com nastro na fronte, no momento das refregas; os pees
appresentavam-se com cnmides, saiaes negros, e chuos; outros com
bragas forradas de pele de cabra, ou safes. E os Cavalleiros, montavam
alazes e fouveiros, com estribos em frma de concha feitos de madeira;
com mantos listrados formando quadrados variegados. Formavam grupos de
trez em trez, a que davam outr'ora o nome de _Trimarkisia_, indo um dos
Cavalleiros  frente no ataque, ficando mais atraz os outros dois para o
defenderem e substituirem. Reinava uma certa ordem n'essa multido,
dividida em catervas de infantes ou pees, com alguns Cavalleiros nas
alas extremas: e os Hastarios, os Sagitarios, ou archeiros, os
Fundibularios, moviam-se com uma ligeireza extrema, tomando os
Cavalleiros como pontos de mira para se ajuntarem no sitio em que se
tornava mais urgente a defeza ou o ataque. Os Carros, ou Coves armados
de longos espetos, eram puxados a quatro cavallos, empregando-os para
romperem a ordem da infantaria inimiga, e para servirem de parapeito e
estacada defensiva detraz dos quaes os archeiros arrojavam os seus dardos.

Foi no meio de uma anciedade de lucta, que entre as Catervas lusitanas
correu a nova, de que j pisava terras de Hespanha o Consul Caio
Vetilio, com tropas frescas e aguerridas; o Senado encarregra-o de
reprimir o levantamento provocado pela infamissima traio de Galba,
que, deixando-o impune, tacitamente a approvava. Vetilio chegou a
Corduba, onde assentra o seu quartel general. Tudo se sabia no campo
lusitano, porque no faltavam esculcas e mensageiros, que davam conta
dos movimentos do velho Consul.

Em Corduba ia Vetilio ajuntando todas as tropas romanas, que estavam
como presidiarias, formando phalanges com as que trouxera de Roma, e
dando-lhes uma forte disciplina, que centuplicava a sua resistencia. No
havia tempo a perder; a rapidez do ataque muitas vezes decide da sorte
da campanha, e Vetilio como general experimentado comprehendeu que tinha
de luctar com tribus de uma resistencia tenacissima, que se deixavam
matar, mas que no transigiam com a perda da liberdade da sua terra.

O territorio da Lusitania, que se conservra submisso, fra, pela
traio de Galba, agitado por uma insurreio tremenda; com a maxima
rapidez e a marchas foradas, o Consul Vetilio, no rigor do inverno,
transpozera os Pyrenneus, vencendo difficuldades insuperaveis, e
engrossando as novas Legies com as tropas que nas provincias
pacificadas estacionavam em seus quarteis de inverno. Entrava na
Hespanha Ulterior com um grande exercito, maior do que aquelle com que
partira de Roma, e o exito da empreza fra bem calculado--cahindo de
surpreza sobre as populaes insurrectas, e impellindo-as  defensiva,
sem trguas, sem lhes dar tempo para organisarem a resistencia.




VII


Vetilio deu ordem para que o seu exercito, de mais de dez mil homens
sahisse de Corduba, e seguindo em massa compacta pela Turdetania fsse
ao encontro das tribus lusitanas; e fortificadas por uma severa
disciplina, contava que as tropas luctariam com vantagem contra Catervas
impetuosas, mas sem a coheso de um bom e seguro commando, nem a lucidez
de um pensado plano estrategico.

E no se enganava. Ao segundo dia de marcha, Vetilio avistou ao longe,
em um valle immenso, grande numero de Carros de guerra, e Cavalleiros, e
por traz d'elles, negrejando, Catervas de pees, que pela direco que
traziam, com certeza vinham sobre Corduba com inteno de assediar o
exercito romano, ahi na capital da Turdetania. Era o instante opportuno.
Vetilio manda organisar em columna todos os seus infantes: aos flancos
os seus Carros, com os projectis incendiarios; a Cavalleria mais atraz,
destinada a envolver as tribus lusitanas durante o ataque.

Desde que as tropas romanas fram avistadas pelos Lusitanos, um grito
immenso como de alegria retumbou nos res, como os renchilidos e apupos
ou atruxos com que se distinguiam as varias povoaes lusonias; e
d'entre esse ruido escutava-se o ecco de cantos, de hymnos, que davam
uma animao indescriptivel ao movimento dos combatentes. Vetilio
contava com o enthusiasmo dos Lusitanos no primeiro assalto, e reservou
todas as suas foras para sustentar o pezo d'esse primeiro impeto. E a
carga dos pees lusitanos foi imponente, mesmo incomparavel. Valeu-lhe
ao Consul o sangue-frio que soube mantr; e foi assim, que subitamente
reconheceu, que o exercito dos Lusitanos, to numeroso como o seu, e que
no constava de menos de dez mil homens, no tinha coheso entre si;
faltava-lhe a disciplina, e mais do que isso pela ordem de combate
descobriu que essa multido compacta no tinha um general, que
sustentasse intelligentemente o commando. O numero extraordinario dos
combatentes lusitanos complicava a sua propria segurana, pela falta de
um chefe digno d'este nome. Este relance de Vetilio bastou para abranger
a situao, e no seu espirito entrou a segurana de que seria certa a
victoria. E tirando partido da situao comprehendeu que para vencer era
a melhor condio empenhar-se em uma batalha campal com todas as suas
tropas; por que embora os Lusitanos aguerridos apresentassem um egual
numero, faltava-lhes o commando, o que tornava perigosa a sua situao
em campo raso. As Legies estavam ento formadas com quatro mil infantes
de linha, que se dividiam em trinta manipulos ou companhias, manobrando
em campanha como a unidade tactica de uma diviso moderna. E esses
manipulos ou companhias, agrupavam-se em cohortes ou batalhes, em
numero de dez.

Passado o primeiro impeto de uma carga destemida de lanas, que os
soldados de Vetilio apararam rijamente nos seus escudos, o Consul
aproveitou-se da tactica aprendida nas guerras de Hespanha, e
mandando-os formar em _cunha_ rompeu as filas dividindo-as, mandando em
seguida as suas quadrigas a toda a carreira sobre os flancos, para
evitar que tornassem outra vez a reunir-se. Os Cavalleiros dispersos por
entre a multido desorientada, trucidavam incessantemente os que
encontravam com um furor attonito, mal sabendo defender-se. A Legio
romana mais uma vez, sob o commando de um habil chefe, patenteava a
importancia da sua constituio estrategica. A lucta prolongou-se com
coragem da parte das tribus lusitanas, mas repentinamente ellas
reconheceram-se enfraquecidas, no por falta de valentia, nem de
bravura, mas pela imprevidencia com que entraram em campanha, sem um
chefe que as dirigisse e tivesse firmemente disciplinado.

Toda a lucta n'estas condies era uma temeridade estulta, um inutil
sacrificio. A batalha era agora insistentemente continuada por Vetilio;
milhares de cadaveres cobriam o solo recalcado, e o Consul pensava j em
aniquilar toda essa multido lusitana que ainda resistia. O sol
declinava; prestes viria a noite, e era de fora que o triumpho de Roma
ficasse definitivo. Os Lusitanos sem esperana, sentiam-se cansados; a
fome e a sde hallucinava-os at ao desespero, e cercados no valle em
que tinham sido surprehendidos, s viam um unico refugio para escaparem
ao inevitavel destroo--renderem-se!

D'entre o campo dos Lusitanos fram enviados a Vetilio quatro
emissarios, levando erguidos ao alto ramos de oliveira. O Consul
consentiu que chegassem  sua presena, e que appresentassem a mensagem;
um d'elles por nome Dilcon, fallou:

--Vimos aqui pedir a suspenso do combate, e a paz, rendendo-nos em
massa ao Poder de Roma!

O Consul mandou suspender as hostilidades; e perguntou com dureza aos
emissarios:

--Quem responde pela revolta contra a soberania de Roma?

--Ns todos, perdendo o direito de Povos livres; mas conservando smente
a liberdade individual de cada lusitano.

-- muito! retorquiu-lhes o Consul.

--Se no quereis matar-nos, passando tudo  espada, s poderemos
acceitar a vida com a liberdade individual que pedimos. E  isso bem
pouco, diante do Poder de Roma; porque de hoje em diante podereis
mandar-nos habitar o territorio que  _grande e generosa_ Roma lhe
aprouver conceder-nos. Ahi em campos de concentrao, nos conservaremos
quietos e submissos no cumprimento de todas as imposies.

Parecia mais que fallava um traidor do que um vencido; mas o escalavro
das foras lusitanas era estupendo e tudo justificava. O Consul Vetilio,
velho e astuto, determinou que os emissarios se retirassem, voltando na
madrugada para assignarem o pacto da rendio e submisso perpetua,
incondicional e peremptoria, vindo acompanhados de refens nobres, que
pela sua vida ficariam responsaveis pela tranquillidade das tribus
lusas. No resto da noite, Caio Vetilio ficou pensando nas consequencias
da sua incomparavel victoria, no prestigio que teria em Roma, no impsto
de guerra que cobraria das populaes subjugadas, dos escravos que o
acompanhariam na entrada triumphal na Cidade do Tibre! Os sonhos
acordados so mais bellos do que os que se tem dormindo, mas no so
menos fallaciosos.




VIII


Noite cerrada, quando os emissarios chegaram ao acampamento lusitano.
Eram esperados com trpida anciedade. Traziam alados os galhos de
oliveira, denunciando de longe a concesso do armisticio e no seguinte
dia o assentamento da paz. Extenuadas de fadiga e famintas, as hostes
ouviram sem espanto as condies prvias impostas pelo Consul Vetilio.
N'aquella angustia desesperada apagavam-se as energias moraes, e
era-lhes mesmo indifferente que a Lusitania fsse livre ou escrava. E
considerando a situao, trezentos lusitanos para trez mil romanos
patenteavam uma desproporcional desegualdade, que seria rematada loucura
defrontarem-se as foras.

Quando os emissarios accentuaram as palavras de Vetilio--submisso
perpetua e incondicional, com garantia de refens para a effectividade do
pacto--ouviu-se um rugido, como de uma fra que se v subitamente preza.
Esse rugido no articulado, que nem mesmo era imprecao, infundiu uma
emoo terrifica e desconhecida. Olharam todos em volta da gente que se
atropellava junto do Conselho armado, e viram um homem bastante novo, de
menos de trinta annos, de estatura mediana, delgado, mas robusto e de
aspecto decidido. Fez-se um silencio inesperado, involuntario, por que
aquelle impeto de colera fizera suspender qualquer resoluo repentina e
fatalmente covarde. O vulto pareceu crescer com a grandeza da commoo,
e aproveitando o momento unico, fallou:

--Para ser escravo de Roma no so precisos tratados, nem refens. Tudo
isso  um ludibrio. Todos ns sabemos como a grande e generosa Roma
cumpre os seus tratados. Seremos ns to estupidos e indignos, que ainda
depois da inolvidavel traio de Servio Galba, e da sua impunidade,
confiemos n'uma potencia, que, no fallando j das riquezas, nos rouba a
nossa liberdade? E esse Consul, que est em campo aberto, com as suas
Legies contra ns, que outro intuito tem seno a oppresso da
desmembrada Lusitania, e o animo exclusivo da rapinagem? Bem pouco tempo
ha decorrido sobre o estupendo morticinio, e j parece que ninguem aqui
se lembra do juramento feito sobre os despojos dos clamorosos
trucidados. O verbo do juramento foi--_Vencer ou morrer!_--Eu ainda no
perdi a esperana de vencermos...

Um rumor irrepressivel cortou a phrase do moo, que suscitra latentes
energias.

Elle continuou em um tom firme e de crena communicativa:

--Que loucura o confiar na f dos Romanos! A tregua que nos concedem at
manh  um torpe embuste; o Consul panudo finge que nos outorga uma
paz generosa, simula a assignatura de um pacto para conseguir por esse
meio capcioso a entrega das armas pela nossa parte, e em seguida, como 
de uso, extermina-nos em massa, porque no querer ser menos do que
Servio Sulpicio Galba. Tal  a sorte miseranda que vos espera a todos,
se...

Diante d'esta suspenso intencional e suggestiva, muitas vozes soltas
d'entre os grupos o interromperam:

--Que fazer? que fazer?

--Resistir!--exclamou promptamente o moo, confiado e sorridente: Nada
est perdido. Poderemos salvar-nos, e at mesmo...

--Falla! falla! Dize o que temos a fazer.

--Obedecer-me.

Ao ouvirem esta phrase incisiva e simples, mas com uma vibrao
sobrehumana, que denunciava uma absoluta confiana em si,
entreolharam-se todos abalados, hesitantes, como que interrogando, quem
era e d'onde viera aquelle homem audacioso. Elle proseguiu:

--Comprehendo a vossa desconfiana; no me conheceis de figura, nem
mesmo esta estatura me e magra se vos impe, como o faria qualquer
colosso. Mas, quem aqui se recordar do nome de _Ouriato_, d'aquelle
pastor que conseguiu escapar da carnificina de Galba; d'aquelle que sabe
o segredo de dar morte instantanea aos elephantes africanos; d'aquelle
que andou de cidade em cidade proclamando a insurreio, a guerra santa
e a vindicta contra o invasor estrangeiro, contra a occupao dos
Romanos, que nos escravisam, reconhecer que  um homem decidido que vos
offerece a salvao e talvez a victoria.

--Ouriato! Ouriato!--proromperam de todos os lados vozes de acclamao.

Este nome proferido n'aquelle lance extremo de um exercito prestes a
entregar-se, reaccendeu coragem nos animos abatidos; todos esperaram que
Ouriato completasse o seu pensamento, dando-lhe em um tacito
assentimento a certeza da inteira obediencia. O pastor fallou:

--Desde os mais tenros annos, eu trabalho na deambulao dos gados, que
vm das regies calmosas para a frescura dos dois Herminios, e d'aqui
dirigindo-os para os seus bostaes na epoca das invernias. N'este
servio, em que se me tem confiado mais de vinte mil cabeas de gado, e
por que soube sempre defendel-o dos perigos das barrocaes, dos ursos e
da pilhagem dos romanos, cheguei a ser Maioral, ou chefe da Msta! Bem
comprehendereis que, embora novo, eu devo conhecer como as palmas de
minhas mos todos os territorios da nossa Lusitania, os seus montes, os
seus valles, coves, algares, cavernas profundas e passagens dos vos
das ribeiras e caches dos caudalosos rios.  esse conhecimento o que
n'este momento me d um poder unico e inesperado.

--Obedemos a Ouriato! gritou a multido entrevendo o plano de uma
retirada habil.--Obedeamos-lhe cegamente!

Ouriato, fitando os principaes chefes dos teros, que se tinham
approximado, expoz com simplicidade:

--Aqui em frente de ns, passado aquelle outeiro, estende-se uma planura
vasta, revestida de uma relva fina e variegada como um tapete, que d
vontade de retoiar sobre ella! Ai de quem deixar ahi entrar os
rebanhos! Essa planura encantadora chama-se o Barrocal fundeiro. Todas
as suas ravinas fram niveladas pelas neves do inverno, e sobre essa
face lisa aos primeiros adoamentos da temperatura, desabrochou com uma
pasmosa vivacidade o nardo ou gervum, formando um espsso e cerrado
tapete em que as raizes se entrelaam rijamente!  um gosto deslisar
sobre esse vistoso relvado, que exhala um perfume estonteante; mas as
neves vo-se derretendo por debaixo d'elle, e infiltrando-se pela terra
mole e lodacenta; o tapete de verdura mantem-se ento encobrindo todo o
Barrocal, conservando uma apparente planura! Gado que alli pise rompe
com o seu pezo o tecido forte das raizes do gervum, e abysma-se pelas
terras moles, d'onde no  possivel arrancal-o. Pois bem!  para ahi que
eu conseguirei attrahir o exercito de Vetilio; hade ficar como o
carrapato na lama.

O terror converteu-se em alegria, irrompendo uma gargalhada
estrepitante. Ento levantaram Ouriato sobre os hombros, alguns dos
companheiros que com elle escaparam da carnificina de Galba; e  luz das
fogueiras do arraial, elle fitou as catervas que contemplavam o pastor
destemido. Brandindo no r a foice roadoira, que sempre o acompanhava,
Ouriato proferiu:

--Eu juro, mais do que pela minha vida, pela liberdade d'esta nossa
Lusitania, que salvarei o exercito, com tanto que me obedeam, na
execuo do plano. D'isso depende o exito completo.

Cavalleiros, pees, fundibularios, todos sem reserva ergueram os braos
dextros para o r, como symbolo sacramental, bradando unisonos:

--Juramos obedecer-te! at  morte.

--Ouriato  o nosso chefe.

--Ouriato manda sobre ns todos; ninguem tem mais poder do que elle.

E collocando Ouriato sobre um grande escudo feito de coiro cr, quatro
valentes hastarios erguendo-o bem alto, levaram-o em redor do
acampamento em uma marcha solemne, parando de vez em quando para gritarem:

--Ouriato  o nosso chefe!

--Ouriato manda sobre ns todos.

--Obedemos-lhe at  morte.

 maneira que o nome de Ouriato ia resoando na calada da noite, tambem
na reminiscencia da soldadesca se acordava a vaga relao com o nome
glorioso de um valente lusitano, que em tempos no remotos acompanhando
Annibal, fra combater os romanos at  propria Italia. Esse ainda
lembrado VIRIATHO, que no seu odio contra Roma transpozera os Pyreneos e
os Alpes, dizem que morrera na batalha de Cannas; mas o seu odio no
morreu,  redivivo. E por ventura no ser Viriatho o que agora
reapparece na figura do Maioral da Msta, do valente Ouriato? Como elle,
 um salvador que resurge, um vingador da liberdade da Lusitania?

Este prestigio espalhou-se entre a soldadesca, influindo por modo
absoluto na confiana do commando de Ouriato. E desde aquelle momento os
dois nomes identificaram-se, como synthetisando a misso do guerreiro
que votava a sua vida  defeza da Lusitania livre de todo o jugo
estrangeiro. Emquanto levavam o novo general em triumpho, e as
acclamaes repercutiam por todo o acampamento lusitano, os chefes
depostos conformaram-se pela necessidade da situao desesperada a tudo
cumprirem. Acercaram-se do novo chefe, para receberem as
particularidades do plano da cilada sob a frma apparente de retirada
urgentissima, logo ao primeiro alvor. Todas estas disposies fram
organisadas aproveitando o costume dos generaes romanos de suspenderem a
marcha durante a noite.

As cohortes lusas, emquanto aguardavam o momento de se moverem, cantavam
coreadamente:

    *Acclamao de Viriatho*

    Ha setenta e dois annos
    Que falta aos Lusitanos
    Um brao que os defenda
    Da escravido horrenda!

    Rumor incerto espalha,
    Que morreu na batalha
    Que se travou em Cannas
    Contra as Legies romanas.

     rumor no exacto;
    No morreu Viriatho!
    Porque o odio no morre,
    E esse odio nos soccorre.

    Rejuvenesceu hoje!
    Viriatho nos arroje
     implacavel guerra
    Por esta livre Terra.

    Salvador desejado,
    No debalde esperado,
    Vencero seus tyrannos
    Por ti os Lusitanos.




IX


Acclamado chefe supremo, acceitou Ouriato desde esse momento o titulo de
Viriatho, que j no era um nome mas uma prestigiosa invocao, um grito
de guerra, que dava confiana e energia s almas. O que Viriatho
assentou no Conselho armado com os chefes dos teros e catervas, de
essedarios e trimarkisios, sobre o seu plano estrategico, patenteou-se
d'ahi a poucas horas nos pavorosos effeitos.

Rompia a madrugada. Vetilio, em seu acampamento, esperava os emissarios
lusitanos para effectuar-se a rendio e a deposio das armas.
Alvorecia-lhe um dia de gloria: firmava de um modo estavel o dominio de
Roma na Hispania Ulterior, e antegostava a entrada triumphal na Cidade
eterna, ladeado de despojos riquissimos e prisioneiros. O sol erguia-se,
e Vetilio, estranhando a demora, entendeu tirar partido do caso
inopinado, que justificaria todas as atrocidades que ordenasse contra as
tropas que na vespera lhe tinham mandado pedir paz  custa da liberdade.
Ordenou logo o formar o exercito consular em acies, ao qual passou a
senha irrevogavel:

--Sem trguas, nem quartel.

O exercito romano comeou a mover-se e a avanar, e a pouco tempo de
marcha Vetilio viu negrejar fronteiros e estendidos um esquadro de
Cavalleiros lusitanos, dispostos em ordem de batalha, e firmes sobre o
terreno como se esperassem o assalto. O Consul olhou desdenhoso para o
inimigo; no passariam de mil os Cavalleiros, que permaneciam impavidos,
como a vedar-lhe o horisonte.

--Sem chefes! para que lhes serve a resistencia? A victoria  minha.

E em seguida Vetilio deu ordem para que seguissem sempre para a frente
as quatro Legies do exercito consular, abrindo caminho a Cavalleria,
comeando a batalha por uma carga contra a linha fronteira dos lusitanos.

Viriatho, montado em um cavallo branco, deixou approximar at bem perto
a Cavalleria romana, que vinha  desfilada; e a um signal dado a linha
cerrada dos seus mil companheiros dividiu-se em duas, debandando cada
fragmento para seu lado, com uma rapidez de quem sabe trilhar por
combros e ribanceiras. Notou Vetilio o facto com surpreza, vendo
desapparecer escoteiramente os dois troos dos mil Cavalleiros, como se
dispersam os bandos de estorninhos ou de pardaes, cada qual como melhor
e mais ligeiramente podia. No teve tempo para reconhecer se aquillo
seria covardia ou estrategia, por que pela fuga repentina dos
Cavalleiros descobriu diante de si uma extensa e larga planura
arrelvada, de uma verdura avelludada, e alm no extremo d'ella o
exercito lusitano fazendo evolues para dispr-se em ordem de batalha.
Pareceu a Vetilio, que os mil Cavalleiros lhe fechavam o horisonte, para
no serem bem conhecidas as foras lusitanas, ou para lhes dar tempo a
escolherem um local em que melhor se defendessem; e sem pensar em dar
caa aos fugitivos, deixou a Cavalleria seguir no seu impeto, e apoz
ella as cohortes das Legies, que em carreira vertiginosa avanaram por
sobre a verde planura, com o fito em esmagar por uma valente carga a
infanteria lusa.

As tropas que seguiam mais atraz dos triarios, os rorarios, os accensi,
os ferentarios, estacaram horrorisadas, quando viram pela planura verde
e extensa enterrarem-se os Cavalleiros, desapparecendo debaixo d'elles
os cavallos, outros sumindo-se completamente, e os manipulos dos
hastatos chafurdarem nos lodos que esguichavam do tapete da relva
formosissima! Caso nunca apontado nos annaes militares de Roma. Ninguem
conhecia um to extraordinario phenomeno de terreno. A planura fra
feita pelas neves do inverno, enchendo os medonhos barrocaes; a
superficie lisa era revestida pelas relvas espontaneas do gervum, cujas
raizes entrelaando-se resistentemente formavam uma crosta que simulava
um solo que tremia, e sobre a qual podia passar sem perigo de romper-se
um viandante. Foi isso o que enganou Vetilio: por que alguns
guerrilheiros lusitanos corriam sobre certos pontos da patameira.
Viriatho, conhecedor de todos aquelles accidentes do territorio,
calculra bem, e fra melhor coadjuvado. Uma grande parte do exercito
romano estava annullada ou perdida, atolada nas terras moles, e nos
barrancos occultos debaixo da capa traioeira da verdura do gervum. A
temerosa desgraa que ameaara as tribus insurrectas, invertera-se agora
tornando irremediavel a derrota das Legies consulares.

O exercito lusitano, proseguindo no cumprimento do plano estrategico de
Viriatho, dirigiu-se para Tribola. Pelo menos toda a Cavalleria ligeira
dos romanos ficou atolada nas lamas, e com ella a infanteria composta de
besteiros ibericos, germanos, gregos e asiaticos; e mesmo alguns
Centurios e Tribunos do commando das Legies. Uma tremenda desgraa,
impossivel de prever, e por ser caso unico e excepcional, tanto mais
inevitavel at para um homem experimentado e cauto como Vetilio.

Pela retaguarda do exercito consular reappareceram os mil Cavalleiros,
soldurios de Viriatho, que tinham jurado acompanhal-o sempre em todos os
transes, e que entendiam as suas ordens pelos silvos de uma buzina, como
se usava na deambulao da Msta. Viriatho reconheceu pela obesidade o
Consul Caio Vetilio, e elle mesmo por sua mo o arrancou dos lamaaes em
que tinha preso o cavallo:

--No me serves para escravo; s velho e panudo. Ninguem dar por ti um
sestercio.

E tocando-lhe com a foice roadoira no hombro, continuou Viriatho:

--No te matarei, sem que te defendas.

Vetilio fitou attonito aquelle homem magro e enxuto de carnes, e vendo
que tudo para si estava acabado, atirou com a sua espada ao cho,
renunciando como caricata a qualquer tentativa de defeza. Um dos
soldurios de Viriatho atravessou o Consul com um dardo de lado a lado;
mas em Roma referia-se que Vetilio morrera sim, mas s mos do proprio
Viriatho.

O exercito consular, reconhecendo-se sem chefe, abandonou o campo e
tratou de pr-se a salvo. Em marchas foradas, os seis mil legionarios
que escaparam dirigiram-se para uma cidade do litoral chamada Carpesso,
na regio da Tartessida. O Questor pretorial tratou de organisar-lhe a
defeza, fazendo em roda da cidade fssos e trincheiras da terra
revolvida, com receio do assalto do destemido cabecilha lusitano s
arcas do thesouro, s bagagens, auxiliares e cavallos de remonta, que
por irem no couce do exercito no se encravaram na patameira.




X


Depois d'este feito, em que o exercito lusitano se viu salvo pela
astucia e coragem de Viriatho, a confiana no seu commando
centuplicou-lhe as foras, seguro de que elle o conduzir  victoria, e
s elle saber sustentar a independencia da Lusitania. Uma cousa veiu
acordar o resurgimento do acabrunhado povo, o impeto que suscitava esta
incomparavel victoria da astucia sobre a fora bruta.

Quando Vetilio foi agarrado por Viriatho, os lictores que acompanhavam o
Consul com os feixes de varas peculiares da dignidade curul,
entregaram-as ao vencedor, como uma transferencia do poder supremo. O
Cabecilha mandou desamarrar os feixes de varas, e distribuiu-as pelos
seus soldurios, aos de maior confiana d'entre os mil Cavalleiros que se
lhe devotaram:

--Cada um de vs, ir por todos os Castros, Citanias e Herminios, cravar
no cho a vra do lictor, que eu entrego na f celtiberica. Essa vara 
o symbolo da guerra accesa e contnua; onde ella se hasteia chama os
povos s armas, e exige soccorro aos que combatem. Tal  o poder da
antiga tradio da nossa raa. E se a lana fincada no cho podia mais
do que um grito de guerra, a vara do lictor arrancada ao poder do Consul
romano hade alevantar todas as nossas tribus unindo-as n'uma s vontade,
para repellirem o invasor do seu territorio.

Cem soldurios partiram logo com as varas distribuidas dos feixes dos
lictores, e fram craval-as nos herminios e montes povoados, como um
annuncio da inesperada victoria, e de que a guerra contra os Romanos
seria agora incessante. Foi assim a noticia levada muito longe, e de
longe vieram novos tros e viveres, para reforarem e abastecerem os
guerreiros lusitanos.

Ditalcon, um dos tres companheiros que andam junto a Viriatho, lembrou
ao Cabecilha um sacrificio de cavallos e prisioneiros ao deus Neton.
Viriatho com a sensatez, que era uma das suas foras, volveu-lhe
seccamente:

--No ha tempo a perder; nem um inimigo como o romano se combate com
festanas.

Ditalcon calou-se ao repello do espirito pratico do chefe.




XI


Em Roma tratava-se de organisar  pressa uma nova expedio  Lusitania,
para castigar os barbaros que assim annullavam o prestigio das suas
armas. J apontavam como general o destemido Caio Plancio. Recrutou-se 
pressa Cavalleiros e infantes, dos mais vlidos e experimentados das
campanhas na Africa.

No emtanto reina um vago terror; em Carpesso est fechado o resto do
exercito destroado de Vetilio. Se o Questor pretorial ter sabido
manter o commando, e salval-o da audacia de Viriatho! Nada se sabe em Roma.

 certo que o Questor pretorial procedeu com tino, exigindo dos povos
alliados de Roma a contribuio de homens de armas, para reforar o
exercito romano e fazer frente ao cabecilha. Conhecia os odios
instinctivos que havia entre os Iberos e os Lusitanos, e aproveitando
essa antinomia, mandou emissarios s cidades celtibericas dos Tittos e
dos Bellos, para que, pelo dever da alliana, lhe enviassem um reforo
de cinco mil homens, e sem perda de tempo. O caso urgia-o, porque
Viriatho, obedecendo ao inveterado odio, que tornava irreconciliaveis as
duas raas, em vez de pr assedio a Carpesso, estendeu-se em correrias
pela regio da Carpetania, habitada pelos mais poderosos e ricos dos
povos celtibericos.

Toda essa regio fertilisada pelas nascentes do Tagus e do Anas estava
j em poder do Caudilho lusitano; e quasi sem combate occupou a cidade
de Toletum, a opulenta capital, em que assentou o seu quartel e governo.
A cidade, reconhecendo o heroismo com que evitra o morticinio dos seus
habitantes e a rapina da soldadesca, celebrou festas publicas, de jogos
gymnicos, danas e cantares.

Prolongavam-se os festejos na cidade, quando vieram dizer a Viriatho,
que no longe passavam tropas, vindas dos lados do Ebro, que se dirigiam
para o sul da Betica. O general comprehendeu logo:

--Do lado do Ebro?  gente que vem das faldas do monte Idobeda. So
celtiberos, alliados dos Romanos.

Deu ordem a Tantalo que fsse fazer um reconhecimento; e no entretanto
organisou as suas foras para ir-lhes ao encontro.

Eram effectivamente soldurios e ambactes das povoaes celtibericas dos
Tittos e dos Bellos; fram reconhecidos pelos seus trajos, de safes ou
anaxyrides, e apertados com cintos, que prendiam em volta do corpo os
sagos, tingidos com a cr roxa com que Roma veiu a distinguir os seus
escravos. Marchavam descuidados pisando as planuras da Carpetania,
seguros de que transpunham um territorio amigo, do mesmo sangue
celtiberico. No seu reconhecimento Tantalo no fra visto, e por isso
sabendo Viriatho que esses alliados dos Romanos pouco passariam de cinco
mil combatentes, sau-lhes ao encontro com uma presteza inaudita,
surprehendendo-os em um matagal de zimbro e giestas, em que os cercou
lanando o fogo em redor, e matando  espada todos os que intentavam
romper o crco. No escapou um s d'esses alliados de Roma; e como no
houve quem levasse a Carpesso a desastrosa noticia da matana, o Questor
mais angustiado se viu com a tardana dos soccorros, acreditando que os
Tittos e os Bellos se teriam revoltado a favor de Viriatho.

O fogo da vastissima queimada destruira todos aquelles cadaveres;
Viriatho, aproveitando a mobilisao dos seus guerrilheiros, e para se
precaver contra a nova campanha que Roma estava organisando, dirigiu-se
para o paiz dos Vettes, que confinavam ao sul dos povos Lusitanos, para
confederal-os na defeza da sua autonomia contra o invasor estrangeiro.
Comprehenderam o perigo, e celebraram o pacto de alliana defensiva.
D'esse paiz montanhoso dirigiu-se para o territorio dos Vacceos, que o
Durius atravessa. J pela sua capital Pallancia, pelas cidades de Cauca,
Septimanca e Rauda corria uma voz mysteriosa, em que o povo acreditava,
que se levantaria um filho de Lusonia para recuperar a liberdade da
terra invadida e roubada pelos Romanos. Contava-se que o maravilhoso
heroe apparecia nas batalhas montado em um _cavallo branco_, e que a
victoria era sempre sua. Viriatho convocou os homens bons das cidades,
narrou-lhes a derrota do exercito do Consul Vetilio, e, como o sangue
dos Lusitanos da infame traio de Galba fra duramente vingado;
contou-lhes como assentra o seu arraial em Toletum, e como anniquilra
os cinco mil soldurios que os Tittos e os Bellos mandavam a Carpesso
soccorrer o exercito romano, que alli se accolhera destroado. Contava
pois com a cooperao dos Vettes e dos Vacceos, para a grande empreza
de repellir do slo da Patria o sangrento e expoliador estrangeiro.
Cato o antigo, e Tiberio Graccho bateram as tribus celtibericas, e
Servio Galba mentiu  f dos Lusitanos, porque na Peninsula no
apparecera at ento um general, que podesse dar coheso a tantas foras
dispersas.

Viriatho foi comprehendido, e jurada a alliana defensiva, marcando os
Vettes e os Vacceos o prazo irrevogavel em que appresentariam as suas
foras em Toletum.




XII


Lembrado da sua vida de pastor, quando na deambulao dos gados do sul
para o norte, fugindo s calmas, Viriatho dirigia a Msta e sabia os
recessos onde defendel-os, occorreu-lhe  memoria um campo
entrincheirado em uma extensa planicie em que corre o rio Pavia, formado
de terra recalcada, resistente e quasi petrificada. Quantas vezes n'esse
asylo formado pelas geraes passadas, ahi estiveram seguros milhares de
rebanhos e manadas, quando algum perigo se arreceiava! O Cabecilha quiz
vr outra vez esse vasto recinto de fortes muros de adobe, considerando
que na lucta em que se achava empenhada a sorte da Lusitania, por
ventura lhe seria necessario conhecer os seus recursos estrategicos.

Conhecedor de todas as verdas e atalhos, facil lhe foi encurtar
distancias, e em poucos dias de jornada, elle e os taes companheiros
chegaram ao valle do Pavia, fechado na sua vastido por pinheiraes
cerrados de um verde escuro que contrastava com a claridade do
horisonte. De longe ainda avistaram a vasta ch, contornada pelas
muralhas de terra em frma de um poligno octogonal irregular, e uma
altura de setenta e cinco palmos nos seus muros e aterros. Eram outo
muros, tendo para mais de cento e quarenta palmos de espessura, fechando
um circuito de mais de trez a quatro mil passos; um largo fsso o
circumvallava exteriormente.

Ao avanar para a grande muralha d'aquella fortaleza de terra, Viriatho
parecia cada vez mais pensativo; um plano estrategico lhe fulgurou na
mente:

--Ah! que se eu conseguisse encurralar no Poo da Cava um general romano
com os seus Legionarios todos. Eu lhe converteria o reducto defensivo em
ratoeira!

E descendo das alturas da Esculca por um declive suave, entrou Viriatho
na grandiosa Cava, que era como um enorme circo, dez vezes maior que o
de Roma. Ahi, no angulo das duas faces do quadrante noroste via-se um
pequeno charco de agua nascente, que se tornava em uma lagoa com as
aguas das invernias. Os gados e pastores alli bebiam e se banhavam,
pelas fortes calmas; era uma vantagem inapreciavel, sempre aproveitada
pelos homens da Msta. Cabia uma cidade dentro d'essas muralhas.

Viriatho esteve considerando por longo tempo este fundo do valle, regado
por duas ribeiras, abrigado por montes e collinas de um pendor brando.

--Quantas vezes do cimo da Esculca vigiei, olhando para longe, na defeza
dos rebanhos. Como esta Cava, conheo uma outra da mesma configurao
aonde me accolhi muitas vezes. No est aqui ninguem que me tenha
acompanhado na transhumao dos gados e recolhido na Cava da Beira, quem
vem de Belmonte ao Fundo, por entre essas serras dos Herminios e da
Gardunha! Nada fica a dever a esta; mas como refugio desesperado nada ha
que eguale a Cava da Beira, um circumvallo inexpugnavel! Pde-se ahi
dormir no cho, tendo as estrellas do co por cobertor; l o somno 
mais agradavel que sobre as ffas ls da Salacia.

Contando com a presteza das armas romanas, Viriatho regressou a Toletum
para passar revista ao exercito engrandecido pelos contingentes dos
novos alliados, e marchar em seguida para a Carpetania; era para ahi que
lhe convinha attrahir o general romano.




XIII


As varas consulares espalhadas por todas as tribus, gentes e federaes
da Hispania Ulterior, annunciando a victoria sobre Caio Vetilio, e a
necessidade de sustentar a guerra contra os Romanos, produziram um
effeito surprehendente em todos os espiritos, sobretudo nos Chefes das
Behetrias, ou Cidades confederadas, que at alli se tinham conservado
indifferentes nos seus castellos roqueiros, sem confiana no
levantamento do povo, por falta de um commandante prestigioso. E
comquanto esses chefes das varias Contrebias se entregavam  caa do
javali ou do urso, em luctas de mutuas rivalidades, ou se banqueteavam
opulentamente, os Pretores romanos iam estendendo a rde das estradas
militares, conquistando ou destruindo Cidades, e firmando o seu poder
inabalavel. As varas dos lictores espetadas por todos os montes e
pequenos herminios, acordaram o sentimento vivo da independencia nacional.

As tribus lusitanas tinham estabelecido as suas cidades, villares e
casaes em volta de diversas montanhas, que eram como o centro da rea de
defeza, e o refugio nos assaltos da guerra inimiga. Essas montanhas eram
cercadas de muralhas formadas por grandiosos blocos graniticos, e
escavadas em fundos subterraneos, em que se depositavam cereaes e
comestiveis, e com cisternas para guardar as aguas pluviaes, tendo alm
d'isso um escadorio interior e reservado que dava escapula a grande
distancia, em geral  beira de um rio, para o caso de ser tomada a
fortaleza. Alli  que residia o presidente ou chefe das tribus que
viviam em volta do Castro; e pela contagem de todas as familias formavam
uma populao de mais de dez mil individuos. Era a esse conjuncto, que
se dava o nome de Contrebia; os seus chefes ou regedores, eram
designados como _regulos_ e _duces_ pelos romanos, que comparavam estes
agrupamentos lusitanos com as phraetrias gregas. Como no havia ordem de
successo n'este poder presidencial, resultavam conflictos e rixas, que
se mantinham por odios de familias, e at de tribus que se hostilisavam,
aproveitando do enfraquecimento d'estas dissidencias o invasor romano.

Agora parecia, que uma intelligencia da misso dos Castellos se
revelra subitamente com o conhecimento da derrota de Vetilio; e as
tribus, suscitadas pela vista das varas dos lictores, reclamavam que
sahissem da inaco; que prestassem o seu apoio ao extraordinario
Cabecilha, o vingador da matana de Galba. Constava que Viriatho, depois
da sua victoria se recolhera  cidade de Toletum, preparando-se para
novo combate ao Pretor que em breve chegaria de Roma com aguerrido
exercito; resolveram todos esses chefes dirigirem-se a Toletum, levando
ao pescoo os seus colares de ouro, como a insignia do poder senhorial;
os seus braceletes, e lanas de prata com que presidiam aos sacrificios,
e ao tribunal em que arbitravam sentenas sobre a vida e bens dos seus
clientes ou ambactes. Partiram de todos os principaes cantes da
Lusitania esses chefes acompanhados dos seus soldurios, ou guarda-costas
valentes, para conhecerem Viriatho e lhe fallarem deliberadamente sobre
a defeza e independencia do Territorio patrio.

Quando chegaram a Toletum, ainda Viriatho estava ausente, em uma
explorao do territorio em que uma grandiosa Cava se prestava a
imprevistos planos estrategicos, a que em futuro proximo teria de
recorrer. Mas esses optimates cantonaes fram encontrar na cidade a que
se accolhera o exercito um grupo de homens, a que davam o nome
honorifico de _Ancios_, EN, e cuja palavra era inspirada e _eloquente_,
por isso nas velhas linguas britonicas se exprimia por _D-eirim_. O
povo, pelo costume antigo, chamava _Endre_ a cada um d'esses homens, a
quem acatavam como depositarios de um maravilhoso poder espiritual. E de
facto os _Endres_ eram propriamente os Antigos das tribus, os que
conservavam a norma e sentido moral ou historico dos costumes; no
formavam um corpo sacerdotal, nem mantinham a estabilidade de qualquer
dogma theologico, mas possuiam um saber do passado, que os tornava
oraculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados, e
conciliadores nas luctas intestinas e separatistas das varias tribus. Os
_Endres_ eram queridos do povo; despidos de toda a hypocrisia de classe
e de odios doutrinarios dos sacerdocios, mofavam com o seu bom senso dos
ritos e dogmas dos _Druidas_ das Gallias, que elles desprezavam como
macaqueadores das normas cultuaes da religio oriental dos Mobeds de
Mithra, que se propagava pela Europa. O caracter e ascendente moral dos
_Endres_ estabelecia-se espontaneamente, quando o povo reconhecia em um
Ancio das tribus o bom conselho, o saber pratico da vida, e o
conhecimento das Tradies do passado; era ento considerado como unico
e como inspirado. Apontavam-se na Lusitania numerosos _Endres_,
venerandos pela sua edade e saber: uns conservavam de memoria as Runas,
ou propriamente as tradies locaes e da raa, e tendo na mo o ramo da
Azinheira coberto de _l'andras_, presidiam ao sorteio annual das terras,
evitando prudencialmente todos os conflictos; outros sabiam as Sagas, ou
narrativas histricas, as _Aravengas_, que recitavam nos banquetes dos
regedores cantonaes e nas festas consagradas a perpetuar successos
memoraveis das tribus; outros conheciam as Sentenas da moral gnomica,
Singvan, os aphorismos ou dictados, que exercem justa auctoridade nas
resolues da vida, porque condensam em breves phrases, s vezes em um
s verso, a experiencia de seculos; outros interpretavam o sentido dos
velhos Symbolos, resolviam os mais intrincados Enigmas, e penetravam a
materia numerica dos Quadrados magicos. D'entre todos esses _Endres_
destacava-se um, pelo saber maravilhoso reunido em sua mente
incomparavel; conhecia as mais vetustas tradies da terra da Lusitania,
quando ella ainda se estendia at  falda occidental dos Pyreneos, as
terras de _Lez_, que as convulses do tempo fram tornando cada vez mais
ribeirinhas; s elle recitava Poemas de mais de seis mil annos de
antiguidade; conhecia as cavernas e arcas cavadas nas rochas em que
estavam occultos thesouros; e o que mais assombrava, tinha o segredo da
leitura dos Quadrados magicos e dos Bastes runicos, que lhe davam uma
f inabalavel na independencia e misso vindoura da Lusitania. Esse
_Endre_ chamava-se Idevor, e quando passava pelos povoados saudavam-o
com o titulo de _Sanctum Anderu_, e davam-lhe coras feitas de ramos de
azinheira. Pela sua paixo pelas antiguidades e liberdade da Lusitania
se justifica o regosijo que em seu espirito provocou o apparecimento de
Viriatho! Como a derrota por elle infligida ao Consul Vetilio o encheu
de fervorosas esperanas! Idevor appresentou-se em Toletum com _Endres_
de varias terras, e pelas conversas que entre si tiveram, facil lhes foi
apurarem um conhecimento completo da personalidade do pastor _Ouriato_,
que o povo acclamava agora pelo titulo de Viriatho. E vendo a chegada
dos chefes das Contrebias, resolveram ir ao encontro d'elles, e
dirigil-os no intuito de prestarem todo o auxilio ao destemido cabecilha.




XIV


Toletum estava em festa; pela presena d'esses homens ornados de
collares de ouro e braceletes, e acompanhados de numerosos sequitos de
soldurios e ambactes. O pequeno grupo dos _Endres_ levando  sua frente
o venerando Idevor sau a saudal-os  entrada da cidade, e juntos todos
fram tomar a refeio ou consoada e libar grandes covilhetes de
cerveja.  meza um dos castelles, Leucon, chefe de tribus celtibericas,
lanou a phrase:

--Dizem que Viriatho, o vencedor de Vetilio,  um simples pastor da
Serra, que apascenta gado alheio l no Herminio maior, que separa as
duas Beiras?

Idevor percebeu uma vaga inteno de amesquinhar a capacidade militar do
vingador dos morticinios de Galba, e com a clareza de uma consciencia
pura, que de tudo se informra, respondeu:

--Eu conheo a vida d'esse valente pastor, desde o tempo em que o seu
nome era simplesmente Ouriato. Quantos aqui possuem gados, sabem qual 
o valor de um homem a cuja guarda se confiam para mais de vinte mil
cabeas de variados rebanhos, que elle tem de defender atravs das
marchas da deambulao, quando so levados das terras seccas, sem prados
e abrazadas pelas calmas, para as pradarias de serras chas de
barrancos, de ursos e lobos e mesmo de salteadores. Este servio dos
gados na sua transhumao est organisado na instituio da Msta, que
dirige a junco dos gados de todos os proprietarios; e n'este servio
s chegam a _Maioraes_ aquelles moos que revelaram qualidades
singulares de intelligencia, coragem, ardil, e que pela valentia ou
astucia souberam salvar os rebanhos de perigos ou assaltos repentinos.
Ouriato chegou a _Maioral_ da Msta em uma edade quasi de adolescente;
foi n'esse servio violento da deambulao dos gados, e responsabilidade
de tantos valores, que elle provou alm da valentia e disciplina, as
qualidades mais intemeratas de caracter.  verdadeiramente um homem: e,
pela resistencia ao soffrimento e s contrariedades da sorte,  o typo
dos lusitanos. O que insurreccionou a sua alma contra os Romanos foi o
ter assistido  mortandade iniqua de trinta mil lusitanos ordenada por
Galba, de que escapou maravilhosamente; e hoje o seu poder sobre o
exercito provm-lhe de o ter salvado da rendio j combinada, e de no
barrocal da patameira ter destruido quasi metade do exercito romano,
desmoralisado pela morte do Consul Vetilio. Este homem  perante o povo
uma reappario d'esse Viriatho, que os romanos chamavam o Principe da
Lusitania, e que indo combatel-os  Italia, soccumbiu na famosa batalha
de Cannas. Esta aurola maravilhosa  tambem uma fora, e com ella
podemos contar, porque Viriatho ser o libertador da Lusitania. Temos um
general consumado; o povo accode ao seu chamamento, falta s o apoio dos
chefes das Contrebias.

A ameaa das reprezalias romanas fez comprehender a todos esses
presidentes das cidades federadas, que tinham de dar o seu apoio a
Viriatho como recurso da propria segurana:

Que seja entregue a Viriatho o _Collar de ouro_ como insignia do poder,
e para que lhe obedemos como nosso egual.

Foi geral o assentimento. Ento Idevor, erguendo-se com um magestoso
aspecto, disse:

--Eu sei onde pra occulta uma Viria, que attesta essa epoca em que
todos os Estados da Lusitania estavam ainda unidos.  um _Collar de ouro
de tres Crescentes_! Representa a mutua solidariedade de raa, costumes
e Governo da Callaecia, da Betica em volta da Lusonia! Eu s guardava o
segredo d'esse thesouro incomparavel, muitas vezes receiando que elle se
extinguisse com a minha vida! Felizmente que se ergueu um homem, que
pelos seus feitos os outros julgam digno de receber a Viria! O _Collar
dos tres Crescentes_ est occulto em uma caverna do Herminio maior,
desde o tempo das invases da Hespanha pelas hordas orientaes. Pouca
gente ter pisado as veredas que conduzem s Cavernas lindissimas do
Cantaro Magro; mas no Covo do Boi, ao sul do Cantaro raso, existem umas
ruinas ou Catacumba descoberta, com menhires e potentes monolithos
sobrepstos; do fundo da rocha d'onde se avista o bjo do Covo Magro
com o singular especto de _uma enorme carranca_,  ahi que est excavada
na rocha uma Arca ou caixa em que se contm o _Collar de ouro dos tres
Crescentes_. Eu me presto a ir buscal-o, e dentro em poucos dias aqui
estarei de volta.

A revelao de Idevor foi recebida com acclamaes de assombro; e os
chefes das Contrebias, pedindo-lhe que fsse buscar o thesouro da raa,
bradaram:

--Seja dado a Viriatho o _Collar de ouro dos tres Crescentes_.

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e taboleiros com fartes
de farinha de bolota  cabea de moas com arrecadas de ouro nas orelhas
e grossas contas de ambar em volta de pescoo; formava-se o arraial para
a entrada de Viriatho.




XV


A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro,
de que at ento se fallra como fabula ou tradio confusa, coincidiu
com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus
Soldurios, que o fram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que
lhe formavam a trimarkisia, Ditlcon, Andaca e Minouro. Estes tres
bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba,
e pela tremenda desgraa se achavam ligados ao agil pastor que matra os
dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania
insurreccionando os povos contra a devastao de Roma; vinculava-os uma
decidida dedicao quelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo
ascendente moral. Ditlcon era o mais velho, intelligente e reflectido,
capaz de desempenhar misses difficeis; Andaca, joven e phantasioso,
mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as
pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois
companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de
franqueza no caracter. A victoria e a acclamao de Viriatho ligou-os
mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem no tinham inveja. Quando
elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:

--Para o Principe da Lusitania.

Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o
desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambio que
no fsse a liberdade da nossa Terra.

Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu
encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao r as suas
lanas de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e  entrega
dos gados da sua regio aos Chefes da Msta, e mesmo aos tribunaes 
sombra da carvalheira, onde davam as sentenas. E elles proprios, vendo
o sabio Idevor junto de Viriatho com o _Collar de ouro_ na mo, bradaram
com enthuziasmo:

--Lanae-lhe ao pescoo a Viria do Commando, aqui, agora, antes de
entrar na cidade.

Idevor obedeceu com jubilo, e lanou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos
chefes das Contrebias:

--Agora, dignificado com a _Viria_,  que Ouriato ficar para sempre
sendo o nosso Viriatho.

Idevor, que conhecia as mais antigas tradies da raa, acudiu com r
mysterioso:

--Se procurarmos o sentido mystico que se contm no nome de Viriatho,
vamos encontrar na palavra scythica _Vrindus_, que designa o Touro, o
totem da nossa antiga raa e civilisao dos Ligures, a relao com a
valentia do heroe e a sua misso religiosa do combate libertador.

Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se
ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada
Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi
ahi, que antes de destroarem, pediram a Idevor, para que recitasse a
Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou _Collar
de ouro dos tres Crescentes_.

Idevor no se fez rogado, e comeou em uma recitao quasi melodica o
poema em que era celebrado este Symbolo da Confederao primitiva dos
estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na
Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito
separatista com que enfraquecera a raa. Como os Ados de Hellade,
diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava
idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

    *CHRYSAR*

    Do Herminio Maior na immensa altura
    V-se o _Corgo das Ms_, que as nuvens fura,
    Formado por tres grupos de rochedos,
    Como irmos que se apoiam firmes, quedos!
    Sobre o do centro, como em pedestal,
    Bloco estupendo, grandioso assenta;
    De um Gigante a cabea representa,
    De longe contornando no horisonte
    Negro perfil de mysteriosa fronte.

    Das convulses da Natureza activa,
    No calor de uma lucta primitiva,
    So taes blocos relvos manifestos:
    Mas ha quem reconhea n'esses restos,
    No bloco e nos tres grupos de rochedos,
    Da Lusonia antiquissimos segredos:
    Governou esta terra um patriarcha,
    Thron, desde o norte ao sul a abarca,
    E aos extrangeiros a fronteira fecha.

    A seus tres filhos este Estado deixa:

    --Se a terra de Lusonia dividida
    Fr entre vs, por certo enfraquecida
    Fica exposta ao assalto do estrangeiro,
    D'Africa, ou levantino aventureiro.
    Mas se a Lusonia unida se conserva,
    No entra aqui indomita caterva;
    E grande, desde o Sacro Promontorio
    At ao mar Cantabrico, este emporio
    Que vae dos Pyreneus t  vertente,
    Ser da Hespanha o estado mais potente.--
    Do mundo era por toda a redondeza
    Thron, por causa da sem egual riqueza,
    De Chrysar por nome conhecido.
    Pelo pezo da edade amortecido,
    Chama os tres filhos; vieram reverentes,
    E um aureo _Collar de tres Crescentes_
    Lhes entregou, no seu momento extremo:

    --Dou-vos a insignia do Poder supremo.
    Os trez Crescentes d'este aureo Collar,
    Pela crena da religio lunar,
    As tres phases da Lua symbolisa.
    So a Lusonia integra, indivisa,
    Abrangendo a Tartssida virente,
    Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!
    Ah, se partirdes este Collar de ouro,
    Cae a soberania... escuro agouro.

    E receiando o temeroso evento
    O velho Chrysar exhala o alento.

    Deram os tres Irmos ao pae amado
    Nas Cavernas do Cantaro Delgado,
    Sepultura em pyramides alpinas,
    Que tm o aspecto de um castello em ruinas.
    Ante o cadaver, na alta sepultura,
    Entre si, cada um dos Irmos jura
    No partir o _Collar dos tres Crescentes_,
    Mantendo unidas as lusonias Gentes.
    Em catacumba do Covo do Boi
    O Collar de Ouro escondido foi,
    Fixando, do local para lembrana,
    Aquelle d'onde a vista longe alcana
    Sobre o Cantaro Magro ingente bjo
    Que de bruta _Carranca_ tem o antojo.
    Resguardado na Arca de um fraguedo,
    Os tres Irmos em mutuo segredo
    Conservam da Lusonia, ora indivisa,
    Do Poder soberano essa divisa.
    Ha entre os tres Irmos tanta harmonia,
    Que sentindo o que cada um sentia,
    Ou unidos no mesmo pensamento,
    Realisam o accordo em um momento,
    Um longe, na Callaecia laboriosa,
    Outro quem na Tartssida formosa,
    Ou j na Tarraconia grande e forte.

    Quanta prosperidade d'esta sorte
    De Lusonia engrandece os tres Estados,
    Rica de bens, dinheiros, e de gados!
    Mas a faina do Mar fra esquecida,
    Trocada pelas da agricola vida!
    Ah! d'aqui a catastrophe resulta,
    Que a liberdade lusa atroz sepulta.

    Quantos Povos invejam com insania
    Os viosos Jardins da Bastitania,
    E vm pelos cantares dos Homerides
    Buscar o Elysio e os Jardins Hisprides,
    Crendo encontrar aqui o Velocino,
    Que reconhecem ser gado bovino!
    Aventureiros l do mundo Asiano,
    Arribaram ao porto Gaditano,
    Affrontando do plago o terror,
    Para roubar o gado a Chrysar!
    Heracles forte, o tyrio, vinha  frente,
    Dosta os tres Irmos, soberbamente,
    Para um combate a corpo, singular.
    Terrivel o recontro, atroz o azar!
    Caiu dos Tres Irmos o irmo mais velho,
    Heracles o esmaga sob um joelho!
    E a mesma dr, que a vida lhe arrebata
    Aos outros dois Irmos  a que os mata.
    Desde ento a Lusonia sem commando,
    Viu-se roubada de estrangeiro bando,
    Que a invade, a devasta e a governa,
    Perdida a ideia da unio fraterna!
    A aspirao moral ficou intacta!
    Do _Collar de ouro_ nunca se desata
    Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
    E  espera de outra ra e novas gentes,
    Aguarda, ao fim do secular destro,
    Um bravo e audaz a quem cinja o pescoo.

    ........................................

O sabio Idevor, dominado por uma commoo profunda, interrompeu a
recitao do Poema de _Chrysar_, que segundo a tradio contava
milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos
narravam as primeiras invases no territorio hispanico, que antecederam
todos os documentos ou monumentos da historia.

Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e
vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o _Collar de
ouro dos tres Crescentes_, avanou para junto de Viriatho, e depois de
fazer uma vnia solemne lanou-lhe ao pescoo a Viria da triplice
soberania.




XVI


Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um s Crescente
rodeavam o novo Caudilho lusitano, comeou a ajuntar-se muito povo pelo
empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir
a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com
que se saudavam as varias regies autonomas:--Viva a Callaecia! Viva a
Tartssida!--comeavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhes e
dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras
surprehendentes pela agilidade dos ps e dos saltos, com um sapateado
rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A
dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda
ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens
de mos dadas, mas tendo cada um a lana, da qual lhe provinha o nome de
_Paloto_ ou _Paulitos_, ora avanando, e j recuando ao compasso do
canto de um Cro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por
um simulacro de batalha.

No fim do animado paloto, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas,
formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braos e
pernas, dansando  moda da Tartssida, e com seus adufes, dando-lhe um
aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram 
Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas
ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a _Betica crusmata_
e a _Tartessiaca aera_, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da
Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fram as bailadeiras beticas
approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Cro
em frma de corranda:

    *A Cano da Viria*

    Onde ha fontes de agua pura,
       Vamos a sde matar.

    Onde ha graa e formosura,
       Vamos com paixo amar.

                  *

    Onde ha um bravo que vence,
       Vamos-lhe a gloria acclamar!

    A Viriatho pertence
       De ouro o triplice Collar!

                  *

    Brilha n'esses tres Crescentes
       Do sol fulgor singular:

    Sigam os homens valentes
       Esta nova luz polar.

                  *

    Onde ha odios e vingana,
       Vamos a sde matar!

    Da Patria livre a esperana
       Vamos com paixo amar.

                  *

    Siga o triplice Collar
       O que ser livre aspirar!

Terminadas as dansas e cantares do vistoso arraial, os Chefes das
Contrebias no meio de tanta alegria comearam a atirar pequenas moedas
de prata s rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar,
atropellando-se, em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas
risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quasi
todas de valor de um drachma, e cunhadas nas cidades lusitanas como
manifestao da sua autonomia. Viriatho notou n'aquelle espectaculo
divertido, que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-as no
verso e anverso, e em seguida guardavam umas com soffreguido, e
arrojavam para longe com desdem as outras. Inquiriu do caso inesperado;
foi ento, que Idevor lhe explicou essa manifestao espontanea e
significativa da alma popular, mostrando-lhe dois d'esses differentes
numismas de prata:

--Reparae n'esta moeda: De um lado est cunhada uma cabea viril, em
cabello; tem barba, e um collar ao pescoo. Do outro lado, vdes, um
cavalleiro a galope, com a lana em riste! Agora a outra moeda: em uma
face est impressa uma cora de carvalho, e no reverso figura um Colono
conduzindo dois bois, como quem lavra a terra. O povo conhece esta
differena, e o que ella significa. Todas essas moedas do _Cavalleiro da
lana_, so por antigo costume cunhadas em Cidades livres e autonomas,
inscrevendo n'ellas o seu nome, como vereis em tantas que para ahi se
arrojam s rebatinhas, como estas...

E Idevor foi mostrando ao acaso as moedas, e lendo os nomes de Toletum,
Alva, Bilbilis, Segovia, Segobriga, Carissia-Celsa, Sactabis, Toriasum,
Clunioo, Gili, Italica, Sacelli, Sagunto, Lastigi, Osca, Ilipla, Itvci.
E interrompendo o exame continuou:

--Roma emprega todos os meios para substituir estas moedas pelas do
_Colono conduzindo os bois_, com que representa o seu dominio, pela
cora de carvalho, e a servido dos povos submettidos como os bois ao
arado, as quaes faz circular nas suas cidades estipendiarias e municipaes.

--Comprehendo agora o sentimento do povo. Repelle o jugo do estrangeiro,
e s acceita o Cavalleiro da lana.  esse sentimento que me fortifica.




XVII


Os chefes das Contrebias, ao terminar das festas, saudaram um por um a
Viriatho, e lhe fram contando na mo _cinco_ pequenas moedas de prata,
d'aquellas que pouco antes tinham arrojado  multido. Era a expresso
symbolica do direito individual, em uma sociedade que se regia pela
communidade das terras lavradas, das pastagens, e dos celleiros do clan
para as colheitas agricolas.

O territorio lusitano pertencia exclusivamente s tribus ou gentes,
sendo annualmente sorteadas pelas diversas familias as geiras que haviam
de cultivar. Sobretudo nas margens fertilissimas do Douro, e no canto
dos Vacceos,  que este communismo tradicional se conservava na sua
maior pureza. Com o tempo introduziu-se o costume de cada familia
conservar como proprio o terreno de _cinco acres_, ou agra em que estava
a casa, o poo e a horta. Era o que o rifo popular allude ainda, quando
para significar a indigencia a exprime:--_Sem eira, nem beira, nem ramo
de figueira_.

Este terreno, que tambem na primitiva familia romana tinha o nome de
_Haeredium_, era o fundamento da estabilidade da familia, e, sempre
inalteravel, era um vinculo ao qual se incorporava qualquer cercado em
que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse
sempre indiviso, a herana dos irmos da mesma familia fazia-se
excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes _cinco moedas de prata_.

Viriatho comprehendeu o sentido da offerta que lhe fizeram os chefes das
Contrebias. Nos territorios da Lusitania elles possuiam como seus
proprios e individuaes os solares dos Castros, Castrellos, Cras e
Mrros, Cabos e Citanias, Penhas e Cidadelhes; e a entrega das _cinco
moedas de prata_, significando a affirmao de independencia solarenga
no meio dos territorios communaes, n'este momento representava o
reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de
_Chevage_.

Na bandeira branca dos Mil de Viriatho, e no escudo do valente
cabecilha, d'aquelle dia em diante ficaram representados os cinco
dinheiros, chamando-se-lhes por isso o Pendo das _Quinas_, o Escudo das
_Quinas_.




XVIII


Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram
afamados no mundo pela tempra rija que sabiam dar ao ferro com que
fabricavam as armas hespanholas. O seu nome j era conhecido entre os
Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e
veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:

--Bem esperava vr-vos, e saudar-vos! As espadas que tempermos carecem
de braos firmes como os vossos.

Viriatho tocando-lhe com a mo no hombro, e avanando pela officina ao
ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas j frias,
volveu-lhe:

--Andergus! s espadas que fabricaes pde-se-lhes chamar magicas, porque
tornam invencvel o homem que as brande.

O espadeiro sorriu-se com orgulho, e comeou a explicar a Viriatho o
valor das armas que se fabricavam n'aquelle fco de uma antiga tradio
metalurgica:

--Sabereis, que os Romanos quando vieram  Hespanha combater os
Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que
chamavam _Ligula_, a qual vergava com a fora do golpe e que elles
durante o combate endireitavam com o p. Quando os Romanos viram as
nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que
mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram
espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do ao s ns
os Espadeiros de Toletum o possuimos, e  esta a superioridade das
espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.

Viriatho escutava com encanto e assombro a observao de Andergus, e
sentiu-se animado de uma intima confiana com aquella revelao: as
espadas lusitanas eram de ao. E Andergus appresentou-lhe uma espada:

--Vdes! aqui est uma espada romana; tem de extenso um p e quatro
polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta
aguada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a
baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se
entorta e fica vergada.

E calcando a espada debaixo do p esquerdo curvou-a:

-- romana; c est a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. No conheceis
talvez o que querem dizer estas letras: _Ab urbe condita_, da fundao
de Roma, no anno _seiscentos e tres_.

--Ah! do anno da matana. Acudiu Viriatho.

--Agora vde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro
como se fsse em chumbo.  mais comprida do que a romana uns dois
palmos, e de folha mais estreita.  mais leve, e incute o golpe mais
longe, porque a tempra do ao dispensa a grossura, necessaria ao ferro
doce.  com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os
Romanos; elles no conhecem esta nossa vantagem.

No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraando
Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:

--No temeis que um dia vos roubem o segredo da tempra do ao?

--Esse segredo est n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas.
 aqui n'esta regio que smente se pde dar ao ferro em brasa a dureza
impenetravel.

Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte,
exclamou com jubilo:

--Uma terra que tempra com as suas foras occultas o ferro por essa
frma unica, essa terra s pde ser pisada por homens livres
communicando s suas fibras a rijeza do ao. Ah, sinto em mim alguma
cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.

Andergus fallou-lhe mysteriosamente:

--No  s a agua e as areias auriferas do Tagus que do ao ferro essa
fora inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon;
este co tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este co
azul e profundo. Quando o metal est derretido, e  sua superficie a
calda reflecte esse azul ferrete do co,  quando lgum influxo da
abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe to assombrosa qualidade.

Andergus fallava com uma confiana absoluta em Viriatho, e n'aquelle
momento para o caudilho lusitano no guardava segredos. Depois, com um
certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e
maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba,
confessou-lhe:

--Muito quizera forjar por minha mo uma Espada, que fsse a vossa
companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor
romano. No devo fazel-o; ha uma Espada heroica j consagrada por
victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e 
essa a que vos compete.

--Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.

-- a espada _Gaizus!_ devolveu promptamente Andergus: No sei aonde
ella est occulta, mas ha por certo quem o saiba.  um talisman de
liberdade. Dizem que est enterrada, e creio que em cho lusitano, ou
com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e
Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada _Gaizus_ apparecer, e
vier  vossa mo, sabero os romanos o que  um raio...

Viriatho presentiu que uma fora maravilhosa se ia desvendando; mas
Andergus fallava de uma tradio vaga, e nada mais podia adiantar. E
levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao p das forjas,
das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros,
mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:

--J podestes vr a _Spatha_ e o _Gladius_, comparando-os com a nossa
Espada hispanica de ao puro, com uma nevrura ao meio ou especie de
quina; agora reparae para esta Espada curta,  a _Machoera_,  maneira
de punhal, para combater corpo a corpo, mas  propriamente uma adaga.
Verdadeiramente lusitana  a _Rhanda_, a faca ou naifa de quasi dois
palmos, pendurada  cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos
trabalhos dos campos ou nos da guerra. At isto os Romanos nos roubaram,
porque de ha muito deram em usar a _Rhanda_ pendurada ao lado direito.
Se ns fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor
pratico posso attestar, que a _Lancea_ romana  imitada da nossa lana
ou chuo peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas
como a _Soliferrata_ so completamente de ferro. Mas, deixemos aos
homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos
seus roubos; aqui esto as _Tragulas_, com a sua ponta em frma de
anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules
romanos.

--Tenho mais confiana na Falcata, uma gadanha que chega a dar os
resultados de uma boa espada.--Acudiu Viriatho, terminando o seu
pensamento:--Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos,
forquilhas e engaos,  capaz de levar adiante de si o poder do mundo.
Em Roma j se diz, que o mais destemido general no  capaz de fazer
virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperana de que ainda ho de
tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descora.

Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando
viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um
movimento repentino de todos os teros e catervas lusitanas, postos em
marcha instantaneamente, era revelador de que j pisava terras da
Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiana. Sobre os
escudos feitos de couro cr e cordas de tripa entretecidas de arme, os
soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os
seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em
combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com
estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos
da aco.




XIX


A derrota de Vetilio era commentada em Roma por frma que se ligava
pouca importancia  resistencia dos Lusitanos; attribuia-se a um defeito
da organisao do exercito. Dizia-se que o patriciado romano, temendo
que nas guerras longinquas os generaes conseguissem um grande prestigio
sobre as Legies que commandavam, se tinha estabelecido, que em cada
Legio houvesse mais do que um chefe, sendo commandada por seis Tribunos
militares, que por turno se succediam. Lamentava-se que geralmente os
tribunos militares fssem eleitos pelo povo e pelo senado, muitas vezes
entre a mocidade inexperiente e por favoritismo. Que, verdadeiramente,
era com os Centuries que o general podia contar, por que esses sahiam
da fileira, chegavam ao commando dos manipulos pela sua bravura, e
conduziam as cohortes, at se elevarem a primipulos da Legio.

Era no Consulado de Publio Cornelio e de Caio Livio, quando foi nomeado
novo Pretor para governar e commandar o exercito que operava contra os
Lusitanos, o destemido Caio Plancio. Fram-lhe entregues dez mil
Legionarios e mil e quinhentos Cavalleiros, para engrossar as tropas que
estavam recolhidas em Carpesso. O Pretor queria proceder com rapidez, e
mostrar a Roma desalentada, que elle submettia para sempre esse povo
irrequieto, que no se conformava com o jugo da Patria das Leis. Soube
que o exercito de Viriatho permanecia na Carpetania, e quiz ir ao seu
encontro, logo.

O Caudilho lusitano exultou de alegria, vendo aquella resoluo
inconsiderada.

--Plancio obedece inconscientemente ao meu plano, vindo pisar um terreno
desconhecido. A victoria  nossa.

E assim que as suas vedetas lhe vieram dizer, que o exercito de Plancio
estava quasi  vista, Viriatho dispoz as suas tropas por frma a
acceitar a batalha campal. Era com isso que contava o Pretor, fiado na
disciplina inflexivel dos seus Legionarios, sempre com vantagem sobre
tropas mal adestradas. Viriatho tomou immediatamente a offensiva
carregando com os seus hastarios sobre o exercito romano; mas esse
movimento impetuoso e apparentemente desvairado era um embuste. Plancio
acreditou na furia cega da gente lusitana, e quando travou o combate,
seguro de que em breve a teria derrotado, a um signal combinado todos os
guerrilheiros lusitanos viraram costas ao exercito pretoriano em uma
debandada rapida, vertiginosa e inesperada.

Plancio hesitou um momento sem comprehender aquelle exodio repentino:

--Fogem! Isto no  exercito;  um bando vil de cobardes. No
deslustrarei o meu exercito perseguindo o bando fugitivo.

E deu ordem a que se destacasse promptamente um tro de quatro mil
homens para dar caa ao lusitano.

Quando Viriatho comprehendeu pelo movimento dos manpulos a inteno do
Pretor, rejubilou, exclamando:

--Temol-o cahido na cilada.

E quando o tro dos quatro mil, que ia em perseguio dos lusos, j
estava distante do exercito romano uma boa legua, Viriatho ce em pezo
sobre elles, envolve-os e chacina-os com presteza, escapando apenas
aquelles que conveiu, para que levassem a tremenda impresso da
catastrophe a Plancio. Nunca as espadas temperadas com as aguas do
Tagus, que lhes dava toda a rijeza do ao, trabalharam com mais nitidez.
Caio Plancio sentiu-se ferido no seu prestigio, e a perda d'aquelles
quatro mil homens revelava-lhe a importancia do inimigo com quem tinha
de combater. Faltava-lhe j a frieza da raso, e arrojava-se contra
Viriatho como o boi contra o panno vermelho. Viriatho tinha prevenido a
hypothese, de no caso de derrota, accolher-se aos fraguedos da Serra
d'Ossa; mas no lhe foi preciso, antes aproveitando a exaltao em que
Plancio se encontrava, seguiu avanando para o norte e transpoz o Tagus.

--Ser Plancio to inconsiderado que venha aqui  margem direita do rio?
Se elle tal faz, saber o que  uma derrota fundamental; hade ter que
contar em Roma.

E Plancio, dementado pela furia que lhe produziu a mortandade dos quatro
mil legionarios, atravessou o Tagus para a sua margem direita.

Viriatho estava acampado em uma collina coberta de oliveiras; quando ao
sop da montanha appareceu o exercito de Plancio, seis grandes mataces
graniticos fram rolados do alto, precipitando-se e esmagando tudo
quanto encontraram diante. No meio do assombro e da desordem produzida
pelo espantoso successo, Viriatho deu ordem para uma carga de lanas,
proseguindo  espada a batalha campal, para mostrar ao general romano
que os lusonios tambem sabiam bater-se com tropas disciplinadas em campo
raso, em corpos de seis mil homens, em _linhas symetricas_ tanto para o
ataque como para a defeza, com a formatura em cunha, e protegendo-se
mutuamente.

Plancio, vendo que prolongar o combate seria tornar mais completa a
derrota, ordenou a retirada para a margem do Tagus, empregando todos os
seus recursos estrategicos para conseguir passar o rio; uma vez na
margem esquerda os que se salvaram, foram procurar refugio nas cidades
fortificadas, em que o poder romano se firmra na peninsula.

Em um festim em que Viriatho reuniu os chefes da campanha, e quando
entregava desinteressado aos seus guerrilheiros os despojos tomados ao
exercito de Plancio, entre as conclamaes ruidosas dos Peltastas e
Cetrados exclamava sorrindo:

--O vero ainda agora vae em meio, mas j o exercito romano busca abrigo
nos seus quarteis de inverno.

--Emquanto elles cosem os rasges que lhes fizeram as nossas adagas, no
deixemos que estas se enferrugem; vamos infligir o castigo a esses povos
que contra ns os auxiliaram, desde o Tagus ao Ebro.

E se bem o disseram melhor o cumpriram.

A noticia da derrota vergonhosa de Plancio produziu em Roma uma commoo
inconcebivel. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da
Lusitania ficariam para sempre estancadas, e exclamavam com rancor: 
preciso anniquillar esse povo barbaro, que assim se atreve a resistir
contra a civilisao da grande e generosa Roma. Que o Pretor Caio
Plancio seja chamado a Roma, para dar conta dos seus actos, d'esses
miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestigio  a
base do poder da Cidade eterna.

E Plancio nem tempo teve para reorganisar o exercito com que se salvra
depois da derrota nas faldas do Monte-Veneris; chamado a Roma, para
apresentar-se diante do Senado, elle partiu menos seguro do que Galba;
no levava barras de prata e ouro para corromper os seus juizes, no lhe
deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitania era
inacreditavel, e por isso a sentena estava prevista,--a deposio e o
desterro, para que no se fallasse mais d'elle, e para que os futuros
generaes apprendessem no temeroso exemplo.




XX


Emquanto os Romanos se preparavam para novas operaes de guerra,
Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia,
at ao Ebro; veiu depois a lste at  Edetania, Contestania; e passando
por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretana. Era um
reconhecimento dos territorios e das povoaes! sabia aonde teria facil
refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor
estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam
contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traio de Galba. Quando
Viriatho pisava j o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens
alemtejanos com uma mensagem; traziam a _Crantara_, a Lana
ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que
Viriatho sopezou a Lana, entregou-a a um dos seus companheiros, que a
fram passando de mo em mo, partindo em seguida os mesmo quatro homens
com ella. Significava aquelle symbolo a convocao dos chefes militares
e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado.
Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da
Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios,
quando a sua terra no tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem
assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem
pelos latrocinos dos Romanos. No dito sagrado das suas sepulturas  que
os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resolues
irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages
da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do cho,
tendo um palmo em quadrado de diametro;  o unico em toda a peninsula
hispanica.  por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta
corporao hieratica no estava ainda desmembrada, interrogava os mortos
sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas;
interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a
esse buraco escutava os eccos mysteriosos que s elle em uma
concentrao subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados
ao Conselho armado.

Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato
curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, at  chapada
de rochas schistosas, aonde no cabeo mais saliente se erguia a Anta
veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes
columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre
quatro d'elles assentava uma vasta lage em frma de mesa, como ra dos
sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura
dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabo em que a Anta se
eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abenoando-o.
Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de
todas as perseguies conservava a tradio das tribus lusonicas; era
elle que nas commemoraes dos finados, annualmente, alli vinha depr,
na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que
interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra
que os cobria.

O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam
alli representados os Carpetanos, os Vettes, os Vacceos, os Callaicos,
os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se
preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras
esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos
hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido 
cinta; envergavam couraas de linho, tendo por cima a cta de malha, e
nas cabeas os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos
heroicos, alguns offereciam  Divindade lanando sobre a mesa da Anta,
mos decepadas de vencidos romanos. Idevor avanou para a Pedra furada,
ajoelhou e debruou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se
um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo
tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que
pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou
com intimativa:

--Viriatho? Viriatho! Nunca sers vencido em batalha! Nunca morrers s
mos dos Romanos!

Era isso que Idevor ouvira no rumor do orculo dos mortos. Repetiu-o
depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraal-o
pela consagrao, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto,
como se, desde aquelle momento, se tornasse um sr sobrehumano.
Disse-lhe Minouro:

--Agora em vez de um Pretor, pde Roma enviar-nos dois, para aparar
melhor o pezo da derrota.

Andaca, batendo-lhe no hombro:

--Mas, pelo seguro, a fora do orculo est em uma boa espada.

Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a
com garbo, como fiado na sua tempra e flexibilidade; mas com espanto
viu, que mo traioeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como
se fsse uma lamina de chumbo:

--Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!

Ento Ditlcon, vendo a confuso que tomra o Cabecilha:

--Mesmo sem espada sers vencedor; o orculo no mente.

Idevor tomou a espada torcida das mos de Viriatho, e disse-lhe com
alegria:

--Esta acabou j o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso
levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas.
Inspiraste confiana! as populaes seguem-te, porque vem em ti o
restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da
Lusitania. A nossa Lusitania  imperecivel. Aqui na Anta da Candieira
guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o _Gaizus_, escondido
para no ser tomado e empregado contra ns pelo invasor estrangeiro, e
sempre ignorado, por que at hoje no apparecera um filho d'esta terra
capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho
dos Antepassados proclama:--Nunca sers vencido! E  da sua sepultura,
d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso
Terado que ahi se guardou at ao momento em que appareceste e te
patenteaste digno de servir o Peito lusitano.

Dizendo estas palavras, Idevor metteu o brao pela pedra furada, e como
revolvendo com a mo um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco
da lage um montante de ao.

Abeirando-se de Viriatho:

--Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a
brandir pela Lusitania tm certa a victoria. Que ella passe de mo em
mo, e de edade em edade.

Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com
desvanecimento, e brandindo-a no r, gritou:

--Hade ser livre a Lusitania.

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era
uma _lamina curva_, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente,
e pelo outro at um tero apenas; tinha a ponta aguada, terminando a
curva por frma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de
gume. O fio era to resistente e cortante, que se fsse a Espada
brandida com fora decepava instantaneamente uma cabea. Quem tivesse
visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo 
_Copide_ oriental, com que batalham os Argivos, ou  _Sicca_ dos Persas
e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta
que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma
tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade
que a tornava inquebrantavel. No era indifferente a comparao com a
_Sicca_ dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera 
Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com
uma Espada de _Lamina curva_ matra o _Touro_, que symbolisava as
Crenas e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada comeou a apparecer
com um caracter mysterioso! Pertenceria ella s ras primitivas d'essas
espantosas luctas das raas do Oriente? No seu punho, que terminava com
uma cabea de Drago, estavam ornatos de incrustaes de ouro com os
desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que  de
mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel
que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fra
temperada no sangue de um Drago! A sua tempra no ser esse segredo
que s os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as
incrustaes de ouro, no sero a prova de que as areias auriferas do
Tagus misturadas no ferro derretido  que lhe do esse poder cortante o
incomparavel do ao.

Idevor, correndo a mo ao longo da lamina, descobriu sem esforo a face
lisa de uma vaga cr azulada, e que semelhava o cariz do co; entregou-a
a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a  cinta do lado direito, dizendo:

--Esta Espada encontrou o brao digno de brandil-a no r. Ella tem um
nome, como tm todas as Espadas dos Heroes; so como elles uma entidade,
com quem se consorciam; chama-se _Gaizus_, segundo as tradies
religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a
insignia da _Viria dos tres Crescentes_, que hoje usas como supremo
chefe, te d a raso do titulo de _Viriatho_, de agora em diante como
portador da Espada maravilhosa sers conhecido entre os que te
acompanharem at  morte pelo nome de _Porto-Gaizus_...

Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre
numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de _Gaizus_, e entre
os kimricos _Gaisus_, de _Hesus_ entre as hordas celticas, e _Gaisos_
entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no cho,
tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao r livre e o
tribunal do julgamento. A Espada era a representao divina e o emblema
da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.

Viriatho espetou a Espada _Gaizus_ na terra, reunindo-se todos os
guerreiros em volta; e Idevor proferiu a

    *Beno da Espada*

    Fita de luz traa no r o raio,
    Quando encastella nuvens a rajada:
          assim esta Espada!

    Em botes de alto abaixo e de soslaio,
         Ou quando ce a fundo
         Golpe seu iracundo!

                  *

    Contra os tyrannos firma a Liberdade,
    E fortalece a Confraternidade.
         Quem amal-a no hade?

    A Terra em que nascmos ella cobre,
    Tal como um galho secular frondente
         Abriga a livre Gente.

    Como thesoiro que o valor redobre,
    Lampejando no punho de um here,
         Sempre sagrada foi.

                  *

    Espada de Justia e de Equidade,
    De uma Patria o emblema, a magestade,
         Quem amal-a no hade?

                  *

    Se ella cahir do valoroso pulso
         Por traio ou por morte,
    Ao sumir-se no derradeiro corte,
    Da independencia guardar o impulso.

                  *

    Quem descobrir a lamina fulgente
         No revolvido cho,
         Cumprir--a misso
    De tornar livre a soffredora Gente,
    Dando-lhe a consciencia de Nao.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho
armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pes de glande
de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os
picheis de cria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e
depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram
cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

    *Coral de Tripudio*

    Terra da Patria!
    Querida terra,
    Liberta e altiva!
    Na paz, na guerra
    A alma idolatre-a,
    Para ella viva.

    Nosso cho patrio,
    Terra querida,
    Sempre liberta!
    De um mundo s trio,
    Nunca vencida,
    Por ti--lerta!

    Terra sagrada
    Da Patria amada,
    S triumphante!
    Pequena e forte,
    At  morte
    Avante! vante!




XXI


Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que no tinha chegado a
devastao da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos
campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que
aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que
vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas
de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao
pescoo, descalas de p e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a
sementeira do linho. Ellas no se apavoraram com a passagem da
cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fram-se
approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas,
que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam
ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. 
certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas
geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas
alternadamente uma Cantilena dos _Trabalhos do Linho_, que na sua emoo
fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava
uma d'ellas, como deitando o p da cantiga:

    Quem anda a semear o linho,
    Bem sabe que hade viar
    Para trabalhos passar.

    Tambem quem sema amores
    Aqui, alm,  ventura,
    Sem se arrecear de dres
    Doce esperana procura;
    E nascem-lhe em vez de flres
    Trabalhos para passar.

    Antes o linho semear
    Pelos vallados e encosta,
    Do que um olhar sem resposta,
    Desdens que so de matar;
    O amor que se no desgosta
    No pde raz deitar.

E emquanto as outras moas iam fazendo a sementeira, disse uma para a
que cantava:

--Caenia! no descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.

E comeou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um
timbre de arrancar a alma:

    Pelos trabalhos do linho
    Est-se a gente a entender:
    Nasce o amor para soffrer.

    D'entre abrolhos do caminho
    Quantas flres a nascer!
    Foi quando vim a entender
    Que me davas com carinho
    Tua vontade e querer,
    Pondo fim ao meu soffrer.

A mesma voz que interrompeu a que levantra a cantiga:

--Aponia! no fiques para traz; ou tu j no s cantadeira de fama?

Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e
de paixo commovente:

    Bota uma flr azulada
    O linho, estando a florir:
    Tem essa cr teu sorrir!

    Sabendo que eras amada,
    Segredaste de mansinho:
    --Para sempre!--Sonho lindo.
    Ainda te estou ouvindo...
    Foi pelo semear do linho,
    Ou mesmo na espadellada.
    Antes que o fio mais fino
    Chegue a fiar-se na roca,
    O que ouvi de tua bocca
    Fiou o nosso destino,
    Teceu o casto cendal
    Para o cortjo nupcial.

Os cavalleiros, que se tinham atrazado da comitiva, atiraram com o
dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e mettendo-se a
caminho, a trote largo, iam dizendo:

--As mulheres fazem por ns o trabalho dos campos, em quanto por aqui
andamos empenhados n'esta guerra sem treguas.

--E eu que jurei no tornar mais a entrar em casa, a abraar a mulher e
os filhos, em quanto no vir estes romanos escorraados. Heide cumprir o
juramento, ainda que me arrebentem as saudades.

--D vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes res, quando
nos banha esta luz de um co to azul! A cantiga das raparigas fez-me
vr isto tudo, como at hoje eu nunca tinha visto.

E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada, que foi
diminuindo  medida que cada um dos cavalleiros tomava a direco do
solar em que residia.




XXII


Recebendo a Espada _Gaizus_, lembrou-se Viriatho das palavras do armeiro
de Toletum, lamentando que os indefessos mantenedores da liberdade da
Lusitania no a tivessem brandido. Esses grandes chefes da resistencia
da Hispania Ulterior esto mortos, e porque at agora no appareceram
homens com conhecimento da arte da guerra,  que Roma conseguiu dominar
em muitas cidades da Lusitania. Viriatho reconhecia a continuidade da
sua misso libertadora, e possuido d'essa solidariedade do sentimento,
disse para Idevor:

--Jazem nas suas sepulturas os dois irmos e valentes cabecilhas
_Indibilis_ e _Mandonio_; e tambem o no menos denodado _Salondico_.

--Em logar d'elles,--atalhou o velho endre,--apparece um homem, sim, um
homem, que vale por todos tres; possue de um o genio da estrategia e a
energia do commando; de outro a lhaneza familiar e o trato superior com
os homens; do terceiro tem a integridade da sua palavra, que faz f como
se fosse uma sentena. Por isso veiu s suas mos o _Gaizus_.

Por sua vez Viriatho, interrompendo os louvores de Idevor, accentuou em
poucas palavras o seu pensamento:

--Eu quero que esses tres nomes fiquem sempre memorados entre a gente
lusitana; e darei todos os passos para que lhe sejam consagradas sobre
as suas sepulturas tres estatuas funerarias.

Viriatho queria ligar ao sentimento da defeza da independencia da
Lusitania uma expresso visivel, que lhe servisse de apoio e mesmo de
estimulo; eram j mortos esses tres caudilhos, que tanto tinham luctado
contra os Romanos, e que agora jaziam obscuramente sepultados,
_Indibilis_ e seu irmo _Mandonio_, e o destemido _Salondico_.
Repetia-se na tradio os seus nomes, por que os feitos heroicos que
praticaram eram recentes, mas tudo passa; Viriatho reconhecia que a
recordao d'esses vultos extraordinarios era uma fora com que podia
actuar nas almas. Ordenou que viessem da regio septemtrional da
Lusitania tres blocos de granito, para serem esculpidas tres estatuas
sepulchraes, representando os heroes lusitanos, e para serem erectas
sobre os seus jazigos. Essa pedra rija e difficil de lavrar era a que
melhor symbolisava a resistencia dos tres Cabecilhas destemidos, e como
privativa de todas as construces e monumentos da Vettonia, a que
melhor representava aquella parte da Lusitania mais ciosa da sua
liberdade. Realisou-se em breve a sua vontade.

A estatua de _Indibilis_, como o estylo d'essas esculpturas funerarias,
estava perfilada, de cabea altiva, erecta e sem capacete ou glea.
Todos aquelles que o conheceram dizem que  a sua imagem verdadeira,
barba espssa e cabello curto, nariz aquilino com uma depresso a partir
da testa. Tem em volta do pesco o collar ou torques simulando um
grosso crescente. O corpo reveste-o um saio ou gibo justo  cinta por
uma faixa ou balteus acolchetado pelas costas; a manga  curta, deixando
os braos ns pouco abaixo dos hombros, e acima da bucha do brao uma
armilha formada de tres braceletes. Os braos descem sustendo um sobre o
ventre o escudo redondo ou cetra, ornamentado com cordes delineando
contornos caprichosos; na mo direita tem segura a espada de lamina
curva, parecida com a _Sicca_ dos Thracios, de cabo curto terminando em
bola, e com a ponta tocando nas ndegas. Assenta sobre um cippo lavrado,
em que est inscripto o nome de _Indibilis_.

A estatua de _Mandonio_, trabalhada no mesmo estylo rude, mas primitivo,
semelhando as esculpturas do Egypto e da Chalda, mostra leves
differenas; o rosto oval tem uma expresso de audacia, de quem affronta
todas as difficuldades; o escudo que assenta sobre o ventre est
pendente do pescoo por correias sem abraadeiras, tal como o clypeus
dos gregos; na mo tem uma arma curta de empunhadura simples, como faca
de ponta, que se alarga at s guardas, como o pugio dos romanos. Tambem
as pernas nas emergem do pedestal ou cippo votivo, em que se l o nome
de _Mandonio_.

A estatua de _Salondico_ tem as armilhas nos pulsos ou propriamente
manilhas; e na cabea uma cervilheira de couro, que est cingida at
meio da face; a cetra no  redonda, appresenta a face concava, e
representa o enlaamento de fitas de couro cr.

Antes de chegar  Lusitania um outro Pretor para substituir Plancio na
campanha, j estava consagrada esta piedosa homenagem aos tres
luctadores que tanto se sacrificaram pela liberdade da patria. Isso
acordou novas energias.




XXIII


No podia ser indifferente a Viriatho aquella extraordinaria
fortificao defensiva do Castro da Colla, do Alemtejo, com suas torres
e muralhas do mais inaccessivel alcance. Examinou-a detidamente,
medindo-a a passos; e ahi na base do monte, para a parte do sul, em que
estavam seis sepulturas de generaes lusitanos,  que mandou erguer as
tres estatuas funerarias, por que j andavam esquecidos os nomes dos
guerreiros que guardavam.

As estatuas dos dois irmos Indibilis e Mandonio ficaram a par uma da
outra, e diante d'ellas como formando um triangulo, a estatua de
Salondico. Na linha d'esta sepultura seguiam-se mais tres moimentos,
ignorando-se a quem pertenciam. Disse ento Viriatho:

--Cubro-me de vergonha, quando noto que j ninguem se lembra do nome
d'esses bravos que ahi jazem, tendo combatido pela nossa terra.

--Temos um pouco esse defeito da ingratido para os homens que nos
engrandecem.--Assim fallra um da trimarkisia; ao que um outro
accrescentou:

--Tu mesmo sers um dia esquecido, ou reduzido a personagem de conto de
velhas.

--Fica certo, que se alguma cousa se souber de ti, ser pelo que
memorarem os Annaes romanos.

--No lucto para ganhar fama!  s por uma ideia.--E Viriatho voltou 
sua preoccupao: Mas de quem sero essas tres sepulturas restantes?

--Talvez o saiba Idevor...

E consultado o velho endre, que era um verdadeiro poder moral que pela
tradio lusa unificava as almas, elle respondeu com simplicidade
promptamente:

--So tres caudilhos lusitanos que sempre combateram pela liberdade da
terra; aqui descansa _Edescon_; esta jazida  de _Alucio_; a do tpo
cobre a _Istolacio_.

--D-me fora o lembrar-me que eu continuo a sua misso.

Viriatho foi em seguida  explorao do Castro Verde, cuja posio
estrategica era defendida por sete fortes, um dos quaes era o
inconquistavel forte das Juntas, assim chamado pelo povo, por se achar
erecto na parte em que as ribeiras confluentes, Odemira e Marisco se
encontram e confundem. Quando Viriatho, para subir a violenta escarpa do
forte das Juntas, chegou  margem da ribeira de Odemira, estava alli um
magote de lavadeiras com as pernas mettidas na agua esfregando a roupa e
cantando.

-- esta a feio da gente lusitana; do trabalho faz uma festa;
allivia-se da fadiga com os seus cantares.

E parou um instante a ouvir a

    *Cano das Lavadeiras*

    J os linhos florescem,
    J os dias crescem,
    E ainda no apparecem
        Os meus amores!

    J as neves descem,
    Sem que as guerras cessem;
    Mas nunca me esquecem
        Os meus amores!

    J os linhos se tecem,
    Mesmo as tas alvecem;
    Ah, se bem cedo viessem
        Os meus amores!

Aquella toada sentida communicava uma emoo saudosa, no tanto pela
lembrana da paz, agora perdida, como pelo genio do povo, que se
revelava n'essa dolencia. Viriatho, bebendo largos tragos da agua da
ribeira em uma quarta alemtejana, que lhe encheu uma das lavadeiras,
galgou a encosta asperrima, sem parar at ao cocuruto do forte das Juntas.

--Valentes pernas!

--Aquillo  que  homem! Disseram duas das lavadeiras que estavam
torcendo o bragal, e que o olhavam c debaixo, emquanto a agua escorria.




XXIV


Ainda Viriatho se achava proximo da Anta da Candieira, voltando a
examinar a fortaleza da torre da Colla, nas campinas de Ourique, quando
lhe trouxeram a nova da chegada  Hespanha dos dois Pretores romanos
Claudio Unimano e Caio Nigidio, aos quaes o Senado confira a misso
urgente de reprimir de vez os Lusitanos, apagando as manchas das
derrotas anteriores. Os dois Pretores combinaram o seu plano de ataque;
Unimano iria atacar o Cabecilha nas montanhas de Ourique, aonde sabia
que se encontrava por noticias dos espies ibericos; repellindo-o diante
de si, levava-o de encontro contra Nigidio, que operava ao norte
confiado na antiga alliana dos Vacceos. Assim colhido entre os dois
exercitos romanos, destinados depois da victoria a occuparem a Hespanha
Citerior e Ulterior, a derrota de Viriatho parecia-lhes mais do que
certa, inevitavel.

Parece que o destino favorecia o Cabecilha, ferindo-se a batalha
n'aquella regio sua conhecida e cheia de extraordinarios recursos
defensivos. Aquelle vasto terreno coberto de rochas schistosas ostentava
uma planura ou chapada, todo cercado de escombros e pequenos valles com
montados de azinheiras e carvalhos, espessos e escuros. Excellente para
repentinas emboscadas; mas o Pretor Unimano s pensra no seu apoio em
Evora, cidade do direito do antigo Latio.

Subindo aquelle terreno accidentado cheio de crros com espinhaos
inaccessiveis, avistava-se de longe a fortaleza a que o povo das
cercanias chamava--a cidade da Colla. Negrejava com a sua cantaria secca
sobre o ingreme crro, correndo-lhe em baixo ao sop a ribeira de
Marisco. Foi alli que Viriatho reuniu os troos da sua confiana,
dentro das muralhas que rodeavam a crista do crro. D'alli, do alto,
avistava-se o rio de Odemira, que recebe a poente as aguas do Marisco,
junto do pgo do Sino. O Castello ergue-se abrupto, com as suas muralhas
construidas por fiadas de cantaria no lavrada, mas todas de um tamanho
egual; uma parte dos muros  a pique, outros inclinados para dentro,
formando um quadrilongo de mais de duzentas braas, com uma espessura de
vinte palmos. A fortaleza  dividida em outras duas internas, tendo ao
centro uma cisterna profunda com paredes rebocadas e de abobada; a um
lado est um rebaixamento que d para uma extensa escadaria que leva 
margem da ribeira por onde se pde fazer uma rapida sortida. Em quatro
outros cabeos circumvisinhos, a meia legua de distancia, alevantam-se
outras quatro fortalezas, e mais adiante, coroando um comprido monte o
Castello velho, formado por uma gigantesca trincheira que abrange uma
rea de mais de seiscentas braas. A batalha dada nas visinhanas da
Serra d'Ossa, tendo alli ao p a Anta veneranda da Candieira, augurava
para os Lusitanos um resultado feliz.

Quando Claudio Unimano avanava sobre Viriatho, que simulra uma
retirada para a fortaleza da Colla, e lhe punha crco, contando tel-o
seguro, por alta noite o Cabecilha desceu com os seus pela escadaria
secreta da fortaleza que vem ter  ribeira de Marisco; e sendo ao mesmo
tempo avisado por lumieiras, os guerreiros lusitanos, que estavam
recolhidos nas outras quatro fortalezas, cahiram quasi ao mesmo tempo
sobre o exercito romano de surpreza, e fizeram uma incalculavel
mortandade. Os estandartes da Republica e as insignias pretoriaes foram
tomados por Viriatho, que mandou espetar pelos cabeos dos montes em
redor as varas que formavam os feixes dos lictores, como fizera
anteriormente apoz a derrota de Vetilio. As bandeiras romanas foram
arrastadas diante do balso das _Quinas_, produzindo um delirio de
bravura nas catervas lusitanas.

Quando a batalha estava j decidida, ainda mil Legionarios sustentavam
uma lucta isolada contra tresentos infantes lusos, desesperados e
seguros de os esmagar pelo seu numero bruto. A resistencia d'esses
poucos era tenaz, contando serem soccorridos; os romanos queriam n'essa
ultima refrega vender caro a victoria. De subito, apparece  frente dos
tresentos infantes o Cavalleiro que se destacava no tropel das batalhas
pelo seu _cavallo branco_, no qual se arrojava  frente de todos os
perigos. Os tresentos pees sentiram multiplicar-se-lhes a fora e
gritaram:

--Olha como elle brande a _Colada_!

--A _Colada_ ao sol faisca; parece um raio.

O nome da espada _Gaizus_ era desconhecido entre os companheiros de
armas de Viriatho; chamavam  espada maravilhosa a _Colada_, por ter
sido guardada em uma sepultura do castro da Colla. Com esse nome
brilhar no futuro, quando um Campeador repellir com ella do solo da
Hespanha as hordas africanas. D'ahi veiu o vulgar proverbio: _Todo
saldr a la COLADA._

Diante da espada _Gaizus_ alguns cavalleiros romanos que escaparam dos
mil destroados fugiam a toda a brida pelas encostas e chapadas de
Ourique: um peo lusitano rapidamente atravessou um d'elles
desmontando-o, cortou-lhe a cabea de prompto e seguiu ligeiro no mesmo
cavallo levando-a ao alto espetada na ponta da lana. Tamanho pavor se
apoderou dos outros cavalleiros, que no se atreveram a atacar o peo,
que seguiu seu caminho cantando. Ao tempo constava que o cavalleiro
morto se chamava Caio Minicio, da Legio decima-gemina.




XXV


Aproveitando o enthusiasmo e confiana das suas tropas pela derrota
estrondosa de Unimano, avanou Viriatho para o norte, transpondo a
margem direita do Tagus. No havia tempo a perder; era urgente ir ao
encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a
aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava
pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados
e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a populao
trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora
enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avanou a marchas
foradas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.

Proximo j das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer
ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampra o seu exercito dentro da
Cava, que j ento comeava a ser conhecida entre os povos das cercanias
pelo nome de _Cava de Viriatho_, gloriosos por saberem que alli o
Maioral da Msta abrigava os gados, quando desciam da serra.

A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de
Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o
aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um
plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota
inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a
Cava como uma _Castra aestiva_, para segurana do seu exercito. Qual
fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o
grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha
forada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que
constituem a Cabana da Msta, seus antigos companheiros?

Viriatho chegra ao fim da tarde  povoao de Sedara, logarejo na
encosta da Serra, em que passra a infancia. Tudo eram recordaes, que
o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um
canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de
uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em
uma larga cert de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais
adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto
rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma
historia triste, talvez com realidade; era a cano narrativa,

    *A Dobadoira*

    Estava  porta assentada,
    Dobando a sua meada
        A velhinha;
    Leno branco na cabea
    A madeixa lhe sustinha,
    E envolve-a como toalha:
        Com que pressa
    Sentada  porta trabalha!

        O sol doira
        Seu cabello,
    Que tem a cr da geada:
    Para passar o novello,
        A velhinha
    De vez em quando sustinha
    A gemente dobadoira,
    Em que anda branca meada.

    Na dobadoira que gira,
    Como a mente que delira,
    Nem j toda a atteno pondo;
    Nem no novello redondo,
        Augmentando
    Ao passo que o fio tira,
    Todo o seu cuidado emprega!
        Pobre e cega,
    Anciada, de quando em quando
    Com que tristeza suspira!

    Por vezes, o movimento
        Claro exprime
    Tumultuar do pensamento,
    Que no imo da alma a opprime
        E quasi oura!
    Muda angustia e paciencia
    Reflecte-as a intermittencia
        Do andamento
    Ao voltear da dobadoira.

    Fica-lhe na mo suspensa
        O novello,
    Concentrada no o enleia:
    Na orf netinha pensa!...
        Vem-lhe  ideia
        Por sua morte:
    S, no mundo! entregue  sorte!
        Pobre neta...
        Pezadello,
    Que tanto a velhinha inquieta.

                   *

    No ouvindo a dobadoira,
    Que gemia intermittente,
    Cahindo da mo dormente
        O novello...
        Com disvello,
    A neta, cabea loira,
        Vem  porta
    Vr o que foi; com susto olha:
    Uma lagrima inda molha
    A face  velhinha morta.

No fim da cano uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:

--Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.

-- que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada  porta
a dobar.

Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:

-- bem triste essa historia. O que  feito da pobre orf?

--Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os
seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravido dos romanos, e
Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale so as boas almas.
E se no fosse agora Viriatho, o que os romanos no fariam por essa
nossa terra...

--E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.

As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de
terminado o cantar ou aravenga da _Dobadoira_, encetando uma conversa
intima, trocaram sorrisos maliciosos:

--Muito gostava de vr esse homem de quem tanto se falla.

--E eu? E dizem que  um homem s direitas; no  alto nem baixo, de cr
morena e olhos castanhos, cabellos fartos e tambem castanhos lisos;
barba espssa e corredia; o rosto  oval, o nariz fino, e a bocca
mediana deixa vr uns dentes alvos e eguaes, que  um encanto! Se o
visse conhecia-o.

--Parece que ests enamorada de Viriatho. Disse com malicia Nilliata.

--Eu nunca o vi, nem espero vl-o. O que me faz gostar d'elle  a sua
coragem. Quem hade dizer, que um homem costumado aos duros trabalhos da
Msta, delgado de perna, e ps pequenos, c como os homens da nossa
terra, tem uma alma generosa, e audaz para sacudir os inimigos da patria!

Caenia fallava convencida.

Viriatho, que entrra na povoao adiante dos tres companheiros, ouvindo
as risadas das raparigas estacra para escutar o que diziam; em breve
conheceu de quem se fallava, e com um sorriso cheio de benevolente
carinho, disse para ellas:

--Fallar no mo, apparelhar o po.

As raparigas olharam-o com surpreza e viram o homem como o tinham
representado: aquelle rosto oval e trigueiro, aquelles olhos castanhos
de um relance vivo e scintillante; o mesmo p pequeno mas agil.

Disse a mais reservada das moas para a que era falladeira:

--Ahi tens o moo em quem pensavas. Dize-lhe que gostas d'elle.

--Todas ns devemos amar Viriatho, por que elle sabe defender a nossa
terra. (Volveu a Caenia a rapariga falladeira com deciso). Pois para
vencer o inimigo, Viriatho precisa do amor e da confiana de ns todos.
Mas para amal-o, como a mulher pde amar o homem, isso fia mais fino! Na
Lusitania, que mulher poder merecel-o?

--Ento no ha mulheres lusitanas que me queiram?--Interrompeu Viriatho
com malicia.

--Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitania s tenho ouvido exaltar uma
que  digna de vs, ou vs digno d'ella.

--E eu, que at hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria
saber quem  essa, que tanto exaltas.

--Falla! dize quem . Insistiram Nilliata e Aponia.

--No  segredo. Todos sabem qual a belleza e ingenuidade de Lisia, a
filha de Idevor.

--Lisia? ainda to nova; com pouco mais de dezeseis annos?

--Mas com um tino e juizo, que espanta; com uma graa invencivel; com
uma memoria vivissima dos Cantos e tradies da velha Lusitania. Dizem
at, que ella, pelos dons que possue, no  d'este mundo.

Outra das tres mooilas, no menos linguareira, proseguiu na revelao
comeada:

-- Lisia quem na Torre redonda de Achale, no comeo do Anno estival
accende o Fogo novo.

--Ella tem o cuidado do Fogo consagrado a Samham ou _So Homem_, o
_Julgador dos Mortos_, que os no deixa esquecer.

--E como dedilha na Harpa de triplices cordas...

--E l todas as letras gravadas no _Basto dos Poetas_...

Viriatho ficou ferido de curiosidade; e pensando n'essa revelao
casual, disse para as tres moas:

--Eu conheo o pae de Lisia, e sei bem que elle  meu amigo a valer.

E dizendo-lhes um adeus com simplicidade, continuou a sua marcha 
chegada dos tres companheiros, subindo a encosta do grande Herminio.




XXVI


Apesar de declinar o sol, que se reflectia brilhante nas Penhas
Douradas, que esto voltadas na sua immensa altura para o Occidente,
Viriatho, calado com as abarcas espartenhas, e de bornal s costas,
caminhou para a Serra atravs dos precipicios seus bem conhecidos.
Dirigiu-se para o planalto da Torre, onde costumam reunir-se os Maioraes
da Msta, quando frmam Conselho entre si, para resolverem sobre a
transhumancia dos gados, sobre o abastecimento da _Arca do po_, ou
sobre castigos dos cachopos. Viriatho ia tocando em certos pontos, como
Barros Vermelhos, Covo grande, Lagoa escura, n'uma buzina de corno um
signal, que era conhecido de todos os Maioraes; quando chegou, j noite
alta, ao planalto da Torre em frma de estrella, pouco ou quasi nenhum
tempo esperou pelos Maioraes, que se appresentaram no local destinado 
comparencia da Cabana. Eram cinco os Maioraes que governavam os gados
lanar, cavallar, cabrum, porcum e vaccum; e quando se reuniam tinham a
_Mixta Jurisdictio_. Tal era o Conselho da _Msta_, denominado entre
elles a Cabana. O primeiro que appareceu ao toque da buzina foi Edovius,
que governava a boiada; accudiu presuroso Togotes, que mandava nos
cavalharios; no se fizeram esperar Uvarna, o maioral dos porqueiros,
Suttunus e Semesca. Todos elles se lembravam do toque da buzina de
Viriatho, e occorreu-lhes que era caso extraordinario. O Cabecilha
fallou-lhes sem preambulos:

--Convem-me que sejam apartados trezentos touros bravos, barrosos,
corpulentos, das manadas da Betica! Esses touros bravos ho de ser
guiados por vinte vaccas mandarinas, d'aquellas mais luzidias e
brincalhonas, e dentro em dois dias devem estar mettidos nos _Furados_...

--Nos dois extensos algares abaixo da povoao de Sarzedo?

--Ahi mesmo. E tambem se torna necessario, que vo mais atraz dos touros
bastantes ces de fila, d'esses que pela sua firmeza em impellir os
touros tem o nome de Maioraes.

Os cinco Maioraes da Msta sorriram-se, comprehendendo o plano;
esfregavam as mos, antevendo a audaciosa empreza, tentada por Viriatho;
e dirigindo-se ao antigo companheiro:

--C pela nossa parte no  que o plano hade falhar.

E descendo do planalto da Torre para as casas de sucho, em que se
abrigavam, passaram por um grupo de cachpos, que estavam de vigia, e
para no terem somno trocavam suas Adivinhas. Dizia um:

    --Redondo  o curral,
    Vaccas pelo bostal,
    Lindo  o azagal,
    Co peor que chacal?

Nenhum dos cachpos dava com o sentido da adivinha. Viriatho ao passar
pelo rancho sorriu-se, dizendo para os Maioraes que o acompanhavam:

--Nos meus tempos de azagal tambem ouvi esta adivinha.

E fallando para os mancebos, explicou-lhes:

--Redondo curral,  o co; Vaccas pelo bostal, so as nuvens espalhadas;
Lindo azagal, o sol; Co peor que chacal,  o vento frio, que arrebata
as nuvens.

Uma franca risada dos moos foi o signal de assentimento. Viriatho veiu
descendo, tomando pelas veredas, passos e descansadoiros, canadas e
quinchorros, dirigindo-se para a povoao mais proxima do grande
Herminio, onde o esperavam os companheiros da Trimarkisia.

Os Maioraes da Msta trataram logo de ir escolher as vaccas mandarinas
para em seguida ajuntarem os touros bravos que ho de entrar na
mysteriosa lide. Essas vaccas folionas, de cr branca da pellagem, so
dotadas de uma macieza de pelle e de uma corpulencia me, chifres
pequenos, abertos e delgados, olhos pequenos, accesos, bem afflorados,
com pestanas brancas. Exercem sobre os touros um poder invencivel de
seduco, que os subjuga; com ellas  que os Maioraes os governam. Tm o
pescoo grosso e de farta barbella, que se recorta em curva e se
prolonga at ao peitoral; lombos largos e cauda curta, membros finos e
aprumados, ventre pequeno e ubere farto. Pelas suas frmas graciosas
parecem-se com o typo do gado alvao. So brincalhonas tanto na
docilidade do curral como na vida aspera dos montes.

Os Maioraes da Msta estavam seguros de conduzirem e entregarem a
Viriatho os trezentos touros bravos.




XXVII


A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriatho, na falda da serra.
Diziam que era d'alli natural; mas outras povoaes, como Folgosinho,
Ceia, Covilh e Vizeu, tambem disputavam a gloria de terem sido seu
bero. Antes d'essas pequenas terras o adoptarem como filho, j elle
estava possuido do sentimento que o levou a dizer de toda a
Lusitania:--Esta  a ditosa patria minha amada. Viriatho sentia um
prazer intenso ao vr os trabalhos da povoao pacifica; um grande
circulo de raparigas, com suas arrecadas e collares de ouro, e axorcas
nos braos e pernas, estavam occupadas em uma espadellada de linho. Ao
rithmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitania o trabalho foi
sempre uma festa, e ao som de cantigas. Approximou-se para escutar a

    *Chacoula da Espadellada*

    Separa-se o linho
    Das suas arstas,
    Nas espadelladas.
    Que alegres pancadas!
    E com gosto dadas.
    Trabalhos so festas:
    Quem olha a fadigas!
    J pelo caminho
    Vem as raparigas,
    Soltando cantigas
    Das mais namoradas.

    Quem quizer saber
    Quantas conversadas
    Andam c na villa,
    Sem maior quesila
    Pde conhecer,
    Vendo nas mos d'ellas
    Como as espadellas
    So bem trabalhadas.

    Eu, por mim, sei de uma
    Que na espadella
    Tem um corao
    Feito pela mo
    De quem  s d'ella.
    Para conhecel-a,
    Bastar ahi vl-a
    Sempre olhos no cho...

Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia
Loriga, havia ruidosos signaes de alegria; era um Fiando, uma festa em
que das povoaes visinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em
festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem
tambem os moos namorados, que tocavam seus machtes, cantando  porfia as

    *Endechas do Fiando*

    Que vezes te vjo
    No limiar da porta
    De p a fiar!
    Eu, indo a passar,
    C de longe um beijo,
    Que mal me conforta,
    Enviava-te ento;
    N'essa occasio,
    (D'isso no te accuso)
    Bem notei que o fuso
    Te cahiu da mo.

    Se te ce o fuso
    Quando ests  porta,
    Ser por cuidado,
    Imaginao,
    Que haja eu causado
    Com tanta paixo?
    Mas, isso que importa!
    Ou ser ou no.
    Seja como fr,
    Certos signaes so
    De nimo confuso;
    Talvez falta de uso
    De occultar o amor,
    Pois te ce o fuso
    Tanta vez da mo.

    Com que alegria,
    Ou satisfao,
    Levantra o fuso
    Que te ce ao cho;
    Eu t'o entregaria
    Com a cortezia
    Que no amor  uso,
    Declarando ento:
    --Eil-o, em homenagem
    D'esta vassalagem
    De leal corao;
    Para sempre agora
    No cahir, senhora,
    Mais da vossa mo.

Emquanto o moo cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os
olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirra. Por
casualidade cahiu o fuso da mo a uma d'ellas, e logo as risadas
animaram o Fiando extraordinariamente.

Um outro cantador dedilhou no machte que trazia umas Coplilhas

    *Ao morder do fio*

    Que inveja me faz
    E tanto me toca,
    No fio do linho
    Que puchas da roca,
    Os beijos que ds!
    Presinto, adivinho,
    Se esse linho eu fosse,
    Como me era doce
    Sentir tua bocca!

    Tu segues fiando,
    De mim descuidada,
     bocca levando
    A linha delgada
    Que torces nos dedos!
    Do linho os segredos
    Tivera eu a posse,
    Que os sonhos provoca:
    Como me era doce,
    Se esse linho eu fosse,
    Sentir tua bocca!

    E emquanto na roca
    Tu passas fiando,
    No immenso desejo
    Que acorda o que vjo
    E a mente traz louca,
    Ficarei sonhando:
    Se esse linho eu fosse,
    Como me era doce
    Morder-me tua bocca!

Estas coplilhas ainda provocaram mais ruido, procurando-se algum rubor
traioeiro. Ditlcon, que estava junto de Viriatho, enlevado na
contemplao d'aquelles costumes da serra, por que tinha ouvido fallar
muito na finura do fio lusitano, disse para o cabecilha:

--Isto  uma terra de poetas.

--E de apaixonados...

A phrase de Viriatho foi interrompida por um facto extraordinario;
n'aquelle momento chegava  sua presena um rancho de homens, que o
procuravam com anciedade:

--Ns somos gente da povoao de Gouva, que vimos...

O seu aranzel confundiu-se com este outro, mais atrapalhado:

--Ns somos gente da povoao de Manteigas, que tambem aqui vimos...

Viriatho impoz silencio a esse grupo de homens valentes, que vinham
armados de varapos e mangoaes, e com lucidez apurou em poucas
perguntas, que eram povoaes rivaes, que por causa das aguas de rega se
hostilisavam de longos tempos, havendo todos os annos grossa pancadaria
e at mortes. Os de Gouva no queriam que as suas aguas vertentes
fossem para os de Manteigas; estes no lh'as queriam pedir. Ento
Viriatho sentenciou:

--Agora, que a nossa terra est invadida pelo inimigo estrangeiro, os
odios internos enfraquecem-nos.  de fora unirmo-nos: Entre Manteigas e
Gouva haja paz para sempre. Em todos os comos do Anno estival a
communa de Manteigas ir levar  de Gouva uma bilha de agua, em signal
da compra por que adquiriu a posse das suas regas.

--Bem julgado! gritaram todos.

E depois de terem bebido tigellas de zitho, e acclamado Viriatho,
voltaram alegres para as suas povoaes, em que o symbolo da concordia
mutua se guardou no costume immemorial.




XXVIII


A noticia das devastaes de Nigidio forou Viriatho a reunir-se s suas
catervas, e a attrahil-o para as campinas em volta da Cava; com solercia
foi evitando combates importantes, at ao momento em que os esculcas
vieram dizer-lhe que Edovius e os outros maioraes tinham encurralado
tresentos touros bravos dentro de um dos Furados, para onde os trouxeram
pelo engodo das vaccas mandarinas.

--Vieram tambem os ces de fila?

--Esto prezos no outro Furado.

Depois d'isto Viriatho esperava com anciedade o cahir da noite, certo de
que Nigidio recolheria o seu exercito dentro da Cava; Nigidio tambem
contava como estrategia, o conservar-se n'aquelle territorio em que
podia dar uma batalha campal pondo em aco toda a maravilhosa tactica
das Legies. E no era mal pensado, desde que elle conhecia que o
exercito lusitano era incoherente, de guerrilheiros de disciplina
irregular.

A noite cahia, e como Viriatho se afastra com os seus tros para
longe, o Pretor Nigidio deu ordem para que as Legies se recolhessem
para dentro da Cava, certo de que no seguinte dia conseguiria envolver
Viriatho. Na escurido da noite as sentinellas que vigiavam o
acampamento romano viam de vez em quando luzir umas lumieiras pelos
montes. No suspeitavam o que seria. Era o signal combinado entre
Viriatho e os maioraes da Msta; por essas lumieiras sabiam elles a
situao, e que era tempo para executar a estrategia.

Os touros bravos, em numero de tresentos, sahiram de um dos Furados,
attrahidos pelas vaccas mandarinas, sempre em marcha accelerada na
direco da Cava. Os Maioraes, com extrema pericia guiavam aquella
immensa fora bruta. Semesca encarregra-se de trazer uns vinte ces
furiosos da serra; e acompanhava a boiada mais atraz. Quando chegaram a
pouca distancia da Cava j se via a estrella boieira; foi esse o momento
escolhido. Viriatho fez aular os ces contra os touros, que os Maioraes
montados e com varas compridas dirigiram para dentro da Cava, tendo-lhes
na carreira cega retirado as vaccas mandarinas da dianteira. A furia dos
touros excedia quanto se imaginra; vendo luz no acampamento dos
romanos, para ahi se atiraram em um impeto irresistivel. Tudo cahiu
deante d'esse assalto de uma fora de ariete. Os gritos de horror, a
confuso de vozes revelavam a enormidade da catastrophe. O que fizera
Galba com os dez elephantes africanos contra os trinta mil lusitanos
indefezos, agora Viriatho o repetia contra as Legies romanas
arrojando-lhes na escurido da noite tresentos touros dos mais bravos da
Betica, e impellidos pelos indomaveis ces dos Herminios. Os touros
destroaram todo o acampamento; e quando Edovius e os outros Maioraes
entenderam ajuntar os touros e leval-os caminho da Serra, Viriatho
entrou na Cava com as suas catervas e foi passando  espada quantos
sobreviviam do exercito de Nigidio. Eram estes recursos extraordinarios,
que tornavam temivel Viriatho manobrando com um exercito sem disciplina,
e que em uma batalha campal no resistiria diante de uma bem organisada
Legio. No era a primeira vez que os touros se empregavam como uma arma
de combate; mas em tamanho numero, e to calculadamente, com o concurso
de boieiros experimentados, e produzindo um effeito to completo s a
Viriatho compete uma tal gloria.

A insignia da Legio, que era uma Aguia poisada sobre uma rodela sem
ornatos no tope de uma comprida vara, appareceu calcada e recalcada; e
entre os corpos mortos viam-se esfrangalhados os balses ou Vexillos das
Cohortes bordados a ouro com os numeros de cada uma e o nome da Legio.
Pelo cho revolvido e ensanguentado notavam-se as Signas ou bandeiras
dos Centurios; algumas ainda conservavam no alto da vara uma mo direita
como symbolo da fidelidade, ou uma cora allusiva a alguma victoria.
Ainda agarrados aos seus pendes, jaziam Porta-Estandartes com as
cimeiras de cabeas de lees cujas pelles lhes pendiam das costas.
Cascos de ferro e de cobre, escudos de po chapeados de ferro, cotas de
malha revestidas de couro ou guarnecidas de escamas de metal, couraas
de bronze, espadas de dois gumes, parazonios ou espadas curtas, dardos,
flexas, fundas juncavam todo o ambito da Cava, como se um torvellinho de
morte tivesse dispersado o acampamento de Nigidio.

Os despojos do exercito romano foram em grande parte dados aos Maioraes
da Msta, em paga do seu trabalho e acerto. D'ahi veiu o apparecerem
ainda passados muitos annos, collares fixos ou torques, cistes de
bronze, dracmas de prata e armas romanas, por muitos logares
inaccessiveis dos Herminios.




XXIX


Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam no
appareceu o general; fra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes
do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem  Deusa-Me, do
culto chtoniano, _I-Ana_, ou _Anah_, levando em um carro puchado por
vaccas brancas, at as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal,
com que ella era representada na religio lunar da Lusitania. D'esse
culto primitivo, ficou a superstio de _revolver penedos_, junto dos
lameiros ou charcos, e a crena nas _Jans_ ou fadas, e nos juncaes
chamados _Omomi_, de que o povo fez a entidade do _Bom Homem_. A Pedra
focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da
fundao da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de
sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras,
Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos
tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.

No meio da festa apparatosa da Deusa-Me, todos os guerreiros do
exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mo
sobre ella fram proferindo um juramento inquebrantavel:

--Ns combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da
segurana das nossas familias. E emquanto a Lusitania fr pisada pelo
invasor romano, ns juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos
lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos
filhos at ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.

A confiana na audacia e intelligencia de Viriatho  que motivava estas
resolues extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas at ao
suicidio. Viriatho comeava a apparecer como um vulto maravilhoso, e
corriam vozes de que o toque das suas mos dava saude. E quando o carro
era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro
de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformao, para que o
soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho
attendeu o desgraado doente:

--Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella.
Segue para l quanto antes, e fica certo de que te curas.

--Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar
curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda alm da morte.

Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:

--No tem essas aguas smente virtudes medicinaes; o po amassado com
agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o
melhor po de Avintes.

Um dos soldurios interveiu:

--Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes
percorrido de norte a sul.

--Por isso mesmo  que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas
fadigas da Msta, quantas vezes fui eu s aguas afamadas de Aljustrel,
l no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por l
encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes,
de sarna e at da lepra. O que sei dizer,  que de l voltavam sempre
curados.

--So aguas santas!

--Santas, sim, mas  preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais...
Os banhos, esses so milagrosos.

--Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional
do Monte do Castello?

--Se conheo! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que
at se diz que no ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos
se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas
Thermas.

--Toda esta nossa Lusitania  rica de aguas milagrosas.

E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho
completou o seu pensamento:

--Como as aguas do Tagus no ha outras no mundo mais acerosas; nem as de
Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se v pelo que se passou agora
na Cava.




XXX


A _Guerra dos ladres_, como chamavam em Roma  lucta heroica de um povo
defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia,
prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos
Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de
altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da
civilisao. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio
occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a
espalhar que Viriatho se rendera, que fra agarrado; que seria trazido
para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade
cruenta irrompeu quando se viu que fra encarregado Caio Lellio, que era
por todos cognominado o _prudente_, de partir rapidamente para a
Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se
desmoralisra. E tal era a importancia da misso, que Lellio partira
revestido da auctoridade de Proconsul. A situao era extremamente
grave; porque um dos generaes romanos, no se sabia se Unimano ou
Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira.
Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiana pela
clareza de intelligencia que possuia; no iria imprimir um impulso
decisivo ao _Bellum latronum_, mas ninguem como elle saberia informar o
Senado da situao da Lusitania e das condies que cedo ou tarde
conduziriam  victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato
eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas
qualidades no eram incompativeis com o espirito militar de um chefe
tacitamente encarregado, no de feitos estrondosos, mas de salvar dois
exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a
chegada de Gaio Lellio  Lusitania no produziu ruido; a sua obra
capital foi sustar promptamente o revs que se precipitava, reunindo os
dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o
provocava, com constantes escaramuas. Depois d'isto preparou as cousas
para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro
aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informaes para o
Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por
outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber,
tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de
Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes,
escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados
pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:



Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania  habitada pela mais
poderosa das naes hispanicas; e que achando-se j subjugadas as
outras,  esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.

No provm a sua fora do numero dos seus habitantes, mas da sua
resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade
individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravido.

Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles no se misturaram
com os Celtas, que haver quatro seculos invadiram a Hespanha e
conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania no
aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta
invasor; o lusitano no cahiu na servido militar como o gaulez. O povo
vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o
trabalho dos campos s mulheres, desde que  preciso correr s armas
para defender a terra; as Cidades so confederadas entre si, tambem no
intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. So elles que
votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes
e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros
ou infantes contribuiro para a guerra contra os Romanos. Os Chefes
eleitos apresentam-se na _entrada de Maio_ promptos para a campanha,
seguidos dos seus Companheiros, que so todos os homens seus dedicados,
soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem
incondicionalmente.  esta a organisao do seu exercito. E de Viriatho
me contam, que elle tem, alm do commando geral de todas as foras, uma
guarda de Mil Soldurios, que desde a matana do Tribola, em que salvou o
exercito Lusitano da perda immediata quando j propunha a rendio,
ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe no
sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade
heroica. Desde o desastre de Tribola at hoje muitos d'entre os Mil
Soldurios tm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e
Caio Nigidio, mas esse numero est sempre completo, porque a maior
gloria que pde aspirar um guerreiro lusitano  jurar o pacto de amisade
na vida e alm da morte, sendo eleito em consequencia de feitos
extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisao militar que
assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela
emoo hallucinante da Patria, as Legies romanas nada pdem, e a
estrategia dos Pretores fracassar sempre desde que continuem com o
systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades
perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.

Apontando estes contras no quero espalhar o desnimo; e assim como
Roma j soube tirar uma lio luminosa dada por estes barbaros,
adoptando para o seu exercito a _Espada hispanica_, que lhe tem
proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os
vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos no pdem ser vencidos seno
pela perfidia. Sabereis que entre a raa dos Iberos e a dos Lusitanos ha
um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a
sua averso mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de
rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passaro os seculos, mas esta
antinomia prevalecer.  sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio;
muitos povos da Lusitania esto hoje confundidos em territorio iberico,
e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederao defensiva em que
trabalha expulsar o poder de Roma da Hespanha, com certeza e no tarde.
O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dem-se-lhe
titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles
ficaro submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero
para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano  debalde que
empregaremos a espada, mas  infallivel o resultado impellindo-o para a
unio iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extenso
primitiva, e unifica-se moralmente  voz de Viriatho, que se acha
revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que
acreditarem todos que elle  invencivel. Ns sabemos quanto esta
credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por
aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em
um _Cavallo branco_, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro
invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisao d'essa velha
prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando
ou a _Viria_, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um
guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto
este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento
de raa e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma
representao que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que,
no acabar a campanha e Roma ser sempre vencida. Urge pensar n'isto e
s n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico.
Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general
romano ou cavalleiro audacioso o desafiar para um combate individual.
Mas, j indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si 
insondavel, e no faltar um Capito de sangue iberico que se preste a
alcanar a gloria d'essa traio.

Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas
passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas
romanos, de pocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as
Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente  politica
romana foi lucidamente comprehendida, no s pela experiencia dos
anteriores desastres, mas pela confiana no tino indiscutivel de Caio
Lellio. Por isso nos Annaes da Republica no se referindo nenhum combate
dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos
uma direco que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.

O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os
acontecimentos atropellavam-se exigindo uma aco immediata. Para os
espiritos ambiciosos a misso de Lellio tambem fra frustrada; era uma
derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu  corrente
da opinio: n'aquelle anno de DCIX da Edificao da Cidade, e sexto da
_Guerra dos Ladres_, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo
Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmos de afamadissimos
generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na
victoria de Pydna, e na destruio de Carthago. Fervia-lhes o sangue;
Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra
da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.




XXXI


A _Guerra viriathina_, como em Roma j se dizia da campanha desgraada
na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza
que lhe competia, preparando uma soluo pratica. Usando de um direito
de negociar e concluir allianas com os povos estrangeiros, entendeu o
Senado que era tempo de propr a Viriatho um tratado de mutuas
garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigaes, e
designados sob o titulo de _Foedus aequum_. A lucta desesperada das
populaes da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de
independencia local e pessoal, que Roma no podia apagar pela fora das
suas legies; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses
romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e
os individuos adquiriam o _Jus peregrinum_, gosando de uma proteco
legal em Roma sem dependencia de patronos.

Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a
difficuldade de poder submetter esta regio hispanica ao regimen do
_Foedus iniquum_, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos
submettidos ao seu protectorado. A Lusitania no era um inimigo vencido,
nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto
desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua aco na
Hispania Ulterior indicando a opportunidade do _Foedus aequum_.
Approveitava-se a occasio da partida de Quinto Fabio para a Lusitania:
elle seria o portador do tratado de alliana, ficando-lhe reservado o
arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso
o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A conveno
diplomatica no comprehendia smente a segurana das pessoas e das
transaces entre os dois paizes; continha-se ahi um facto
capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro
da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou
rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execuo do
tratado como soberano.

Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal
acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados
no governo sorriu-se com superioridade:

--Todas essas garantias esto apenas na letra; por que vs todos sabeis,
que embora pertena ao Senado a direco das negociaes com os
estrangeiros, nenhuma alliana poder concluir-se sem que os Comicios
lhe prestem o seu assentimento ou ratificao.

A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto
Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a
clausula, que s o abrisse e cumprisse, quando e at aonde a marcha dos
acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado
eximir-se a responsabilidades.

As foras que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e
apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condio
impreterivel partir com algumas novas Legies, para com ellas metter em
disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos
estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de
Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforos
ininterruptos; os veteranos que regressavam  patria vinham semi-mortos,
e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma
as Legies triumphantes; da destruio de Carthago regressava Scipio
com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para
acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com
desdem que no desciam das altas faanhas contra naes grandes e
civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do
occidente e demais commandadas por um chefe de ladres, (_Dux
latronum_). Por estes imprevistos embaraos, e pela situao apathica em
que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixra; Viriatho, para no
cansar as suas Companhias e Teros aproveitou-se d'esta tregua forada,
contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais
desesperada e cruenta da parte dos Romanos.




XXXII


Para que a inactividade passageira em que se via no prejudicasse o
perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho
ir consultar o velho Idevor  ilha sagrada de _Achale_, junto do
promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradies cultuaes
trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e
transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde
o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o
esperassem durante tres dias.

D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro,
com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direco ao
promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de
_Achale_. Um d'esses companheiros, Ditlcon, dizia:

--Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas
pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato,
encontraram alento para resistirem  calamidade que os aniquilava.

Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de _Achale_, avivava
tambem as suas reminiscencias:

--Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha
Pelagia, situada ao norte, fronteira  costa de Ophiusa, chamada d'antes
Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que
doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso
indo buscar o estanho s ilhas Cassitrides, e voltavam confiados no
afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde est hoje essa
ilha Pelagia?

Andaca observou:

--Desappareceu, ou por mysterio ou fora da natureza. O mar desfez essa
ilha, e aonde ella existiu  hoje um vastuo estuario coberto de _molio_
e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevr que a Lusonia
tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raa
foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os
Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegao no Oceano, mettendo a
pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os
Carthaginezes, que attrahiram sobre ns a pilhagem dos Romanos, que hoje
temos vencido, mas que no largam a prza.

Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de _Achale_, ia Viriatho
reconcentrado e silencioso, como absorto na alta misso da sua vida; ao
ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua
intuio quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:

--No sero smente os Romanos que ho de pensar em submetter ao jugo as
tribus da Lusonia; outros povos ou outras raas viro do norte e do sul,
e se espalharo sobre este territorio julgando possuil-o pela fora da
conquista. A Lusonia pde ser temporariamente vencida, mas _nunca
d'outrem subjugada_; no se extingue, porque a sua liberdade subsistir
nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em
restaurao gloriosa.

As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o
promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente  vista a Ilha
sagrada de _Achale_.

-- alli,  alli que se guardam os thesouros salvos s devastaes e
rapinas dos Romanos; outros povos lanam os seus thezouros aos lagos
escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saber da existencia
d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.

Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupao que
desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado _Thesouro do Luso_.
A mesma ideia tornou-se uma obsesso para Ditlcon. A barca chegava j
s rochas escarpadas da ilha de _Achale_, sobre a qual se erguia uma
Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.

Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma
surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados
de pedra scca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em frma
conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol
formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.

O interior  alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada
est a uma altura do cho para a qual se sobe por uma escada movel que
se faz baixar quando  necessario. Como logar de refugio alli esto
depositadas as folhas plumbeas que tm impressos os titulos das
familias, e relaes dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de
ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastes de prata, insignias do
commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo
perpetuo consagrado a _Samham_, o _Julgador dos mortos_, cujos ritos se
celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos
Antepassados ahi residem as Gemmades (de _Genmaidh_, puro e casto)
mulheres formando uma como classe de Vestalato ou _Lucae dominicae_; e
alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas,
chamadas _Telyne_, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente
acompanhando os canticos de uma inspirao divina expressa pela palavra
_Awen_.

E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:

--No tem porto _Achale_?

N'isto roou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando
em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de
communicao do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma
extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos,
que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.

Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com
um longo squito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao
seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram
conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre
redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos
Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos
nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava  cabeceira da
meza, como se fosse um _Brenn_ ou _Hegmon_ das tribus.

E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove
donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raa, cingidos os
cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas
ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e
cantando em unisono um cro que repetiam, foi o seu canto interrompido
por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra.
Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o
penetrou com uma vibrao seductora e dominativa, e viu lentamente
descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graa e
frescura sobrehumana.

Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da
raa, e guarda das tradies mais augustas das tribus lusonias. Estava
vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os
Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de
ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o
alto da cabea e vinha s pontas das orelhas. Era uma Semnotha, cercada
por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda
celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo
escadorio, e atravessando por entre o Cro das donzellas, que a foram
seguindo, tomou de uma ra a taa de ouro destinada s symposias, e
chegando em frente de Viriatho, estendeu o brao desnudado, alvissimo e
de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taa de ouro:

--Bem vindo! Viriatho. S para ti, e com a minha felicidade.

Sob uma emoo repentina e como que subjugado pela belleza extrema que
alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taa da branca mo de Lisia e
extactico, paralysado no seu movimento, no a levou logo aos labios. No
rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria
desattendida a sua escolha? no a amaria o guerreiro de que tanto lhe
fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?

Tudo o amor adivinha; l nas almas, e o silencio  a linguagem mais
expressiva da emoo ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de
tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo  hesitao
involuntaria de que no se apercebera, levou a taa de ouro aos labios:

-- tua saude! e _para sempre_.

Entrega em seguida a taa a Lisia, que com um rubor fascinante a levou
aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia,
murmurando com suavidade:

--Para sempre!

E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlvo, Idevor ergueu ambas
as mos abenoando-os, lembrando-se de que aquella criana bella perdera
toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte
surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas
fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como
uma frma no organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas
s _Senae_ ou _Barrigenes_ gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som
de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:

    Para sempre--no espao
            A estrella
            Erma, bella,
    Fulgor vivo derrama:
    De paixo nunca lasso,
    O que far quem ama?

    Para sempre--o sol flavo
            Solta a flux
            Vida, luz,
    Que o seu calor inflamma;
    Da attraco pura escravo
    O que far quem ama?

    Para sempre--o Oceano
            Tudo alaga
            Com a vaga
    Que plangente rebrama;
    Da alma no doce engano,
    O que far quem ama?

    Para sempre--sereno
            O luar
            Faz scismar,
    E mil saudades chama;
    No enlvo mais ameno,
    O que far quem ama?

    Para sempre,--e sem calma
            A paixo
            Na attraco
    Do enlvo augmenta a chamma;
    E embala o engano da alma
    Para sempre em quem ama!

O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello--O que
far quem ama?--deixando uma impresso mais que humana. Emquanto os
eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda,
Lisia, de mos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala  volta,
cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli
subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se
alcanava a extenso immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um
co sereno e sem nuvens.

--Como as nossas almas!--disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.

Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e at aonde smente Lisia tinha
accesso pela sua qualidade de Semnotha, alli, de p, junto de Viriatho,
e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia,
confessou-lhe a noiva ingenua:

--Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como s. Como
Semnotha e para que te entregue completamente a minha vontade, s me
falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.

--O corao que ama tudo adivinha.

Ento Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:

    Vive sem ter corpo,
    No valle ou em gruta;
    Falla sem ter bocca,
    Sem ouvido escuta?

--Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando
pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo _Ecco_.

--Bem se v que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei
que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.

E tirando uma armilha de ouro do brao, fechou-a no pulso de Viriatho, e
atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:

--Para sempre!

E Viriatho, tomando-lhe as mos ambas:

--Eu ouvia fallar de ti como uma appario celeste, mas no tinha
esperana de chegar a vr-te. N'esta vida de combates que levo, para a
independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como
consequencia da lucta, e ento... morreria sem vr-te.

--Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a
amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e
Virgem Semnotha do Collegio sacerdotal, que atravs de todas as
perseguies e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada
de _Achale_, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida
com a independencia da Lusitania.

-- para mim muito mais do que a cora de rei a escolha que de mim
fizeste para teu esposo.--Disse Viriatho, tomando as mos de Lisia e
beijando-as trmulo.

Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou
com emoo e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo no
um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo,
fitando o mar como esquecido de si.

Lisia, com ternura e graa, perguntou-lhe:

--Quando te entreguei a taa de ouro, por que hesitaste em leval-a aos
labios?

--Dominou-me o espasmo de uma impresso divina.

--Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse
momento decidiu-se na minha alma uma determinao mais forte do que o
meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taa de ouro
aos labios acceitando a minha esclha; mas... s virei a ser a tua
Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado _quando um General romano te
pedir a Paz_.

--Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me  tua vontade,--para
sempre. A condio que revelas  um impossivel, por ventura para no te
destituires da hierarchia de Semnotha? Virgem dos mysterios cultuaes,
nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adorao pura, e tirando
d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo
eu? deixa-me delirar um instante, para forar um Pretor, um Consul a
_pedir-me a Paz_. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal no ter familia em
quanto no expulsar os Romanos da Lusitania.

Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibrao de confiana em si,
para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a
condio quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a
presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que
trazia, metteu-o no dedo da mo esquerda de Viriatho, n'aquelle em que
se diz passar a vena-percordial.

E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se
tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho
d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o no
deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de
Lisia, que lhe infundia na alma uma confiana no futuro da inextinguivel
raa lusitana atravs de todos os desastres em que a envolvessem as
vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no _Terado_ e no
_Annel_ os Talismans que pelo poder da tradio formariam o Thezouro do
Luso.




XXXIII


No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de _Achale_, o
velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi
ambos a ss, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento
mysterioso; fallava Idevor:

--Tens a fora material, n'essa Espada _Gaizus_, que te torna
invencivel: a fora moral  a que no se extingue e mais se communica.
J que o teu brao serve com lealdade a causa da Lusitania,  preciso
que o teu espirito seja apoiado pela Tradio da nossa raa; que a
conheas, por que a tua memoria sobreviver n'ella, e que com ella
ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem
o teu commando. A tradio do passado  dolorosa, mas sublime; ns os
Lusos smos um ramo d'essa grande raa navegadora que desceu do Norte
pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla
atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou
s ilhas Mediterraneas e  alta Italia.

Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os
amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus,
que frmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil,
vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte.
Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegaes do
Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um
ignorado continente que fica l para as bandas do Oste ou a terra dos
_Aymaras_, a quem communicou a sua civilisao e conhecimentos de
astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico,
e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chalda,
dirigido por Oannes ou _Huan_, que na velha lingua designava o Sol, que
era o guia certo d'esses navegadores primeiros.

Perdeu-se a noticia d'estas largas navegaes; a raa foi atacada por
outras raas fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas,
armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que s conheciam
espadas de bronze; e essa raa corpulenta e loura, irrequieta e inculta,
bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os
da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do
Mediterraneo lanaram-se no esteiro das suas navegaes e mettiam a
pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta 
que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os
Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o
commercio do estanho que iam buscar s Ilhas Cassitrides.

Outras raas vieram successivamente  occupao da Hespanha, e aqui
foram comprimindo a raa de _Lez_, o generoso povo da Lusonia,
empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao
mar Oceano.  no conflicto d'estas raas invasoras que a Lusitania tem
diminuido de territorio, e as suas tribus vo sendo desmembradas. Os
Romanos acharam-os j enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na
faixa que hoje occupmos,  antiga invaso dos Celtas, e at agora nunca
confundidos nem incorporados pelos Iberos.  com esta fora de
resistencia immanente na possa raa que deves contar; ella vale mais do
que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento 
inextinguivel. A Lusitania no  somente um territorio maior ou menor,
que nos aggrega;  uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios
roubaram-nos as nossas tradies poeticas, transportando para as
cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no
Atlantico, que se tornou para os seus geographos o _Mar Tenebroso_. Os
Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos
Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastao do
estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa
Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da
Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliao do
seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a
Lusitania: com o odio do Ibero contar mais tarde qualquer outra
potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como
protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o vo do futuro?...

Idevor explicra longamente este quadro do passado da raa dos Ligures,
e a situao sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava
quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrra a
Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas
dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou
conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos,
que pertenciam  unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento
precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos
elles na defeza contra o Romano.

No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de
_Achale_, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre
redonda, para _aventar_ rapidamente alguns traos do futuro:

--Vs esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos
sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o
Luso se vir comprimido entre as raas que avanam de lste e o mar, que
hoje lhe serve de barreira defensiva, elle ter consciencia da sua
misso no mundo, sentir em si renascer a antiga energia da raa, e
restabelecendo as grandes Navegaes antigas fundar novos Imperios em
vastos continentes agora ignorados.  este o destino da Lusitania: ser
a primeira das Naes, emquanto ella servir esta tradio, emquanto um
fiel alliado estrangeiro a no espoliar das suas descobertas...

O endre no era bem comprehendido; o praso chegra, e a barca de couro
j fluctuava junto da lingueta de areia no porto de _Achale_. Viriatho
desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo cro das Virgens
 frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve  costa de
Cetobriga onde o esperavam com anciedade.

Lisia dissera-lhe  despedida:

--Agora tens o teu espirito iniciado para ires  _Pedra Virgem_, e l
tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos
Bastes dos Poetas. No basta dar unidade s tribus lusitanas pelo poder
da Espada: a Tradio conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo
inicial e mais caracteristico se denomina _Luis_, bem revela que os
destinos da _Lusonia_ se eternisaro pelo perstigio do seu Canto
nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie  Caverna das Inscripes
oghmicas, junto  margem do Durius, e l te descubra o grande Poema da
raa, esse Prego eterno do genio luso.




XXXIV


Apenas Viriatho se reunira aos seus Mil Soldurios, que o aguardavam
impacientes, correu a noticia de que o Consul Quinto Fabio Maximo
Emiliano, que fra eleito n'aquelle anno de DCIX da fundao de Roma, j
pisava o solo da Hespanha, vindo commandar pessoalmente a guerra.
Considerava-se em Roma esse expediente como decisivo para assegurar o
dominio da peninsula embaraado por umas miseraveis tribus que tinham a
ousadia de quererem ser livres.

Quinto Fabio sahiu de Roma descontente, porque smente conseguira
completar duas Legies novas para reforar aquellas j cansadas de que
dispunha Caio Lellio. Conscio d'esta impotencia, o Consul comprehendeu
os conselhos prudentes de Lellio, no pensando em dar comeo  campanha
sem se informar do territorio e dos costumes do temeroso inimigo, e
mesmo dos elementos hostis indigenas que poderiam coadjuval-o; de mais,
era conveniente desfazer as prevenes pessimistas que apavoravam as
tropas. Quinto Fabio no foi ao encontro de Viriatho; e como que fugindo
a uma conflagrao, que poderia ser um desdouro para as armas romanas,
procurra ponto estrategico para collocar o seu exercito, a coberto de
qualquer surpreza do Cabecilha lusitano. Procurou a grande planicie
cortada pelo rio Betis, porque ahi existiam numerosas Colonias romanas,
que eram outras tantas guardas avanadas que lhe asseguravam a defeza.

Desceu at  extremidade oriental da Turdetania, aonde predominavam
povoaes ibericas, para as quaes o jugo romano se tornava uma honra; e
ahi, na cidade de Orson ou Urso, assentou os seus arraiaes com toda a
segurana. A posio era de uma firmeza imperturbavel, porque se achava
rodeada por muitas Colonias militares importantes, taes como a
_Italica_, da parte continental ou interior, tendo apoio na cidade mais
opulenta e populosa de toda a Betica, _Hispalis_, emporio commercial
activo e rico, com um semi-circulo de fortalezas afamadas cheias de
provises, que eram _Carmona_, _Astigi_, _Ucubi_ e _Tucci_. E como se
isto ainda no bastasse para garantir a proteco ao exercito, ainda
mais para o norte l estava _Corduba_, a capital da Hispania ulterior,
para impedir qualquer incurso do inimigo. Quinto Fabio podia estar
seguro, porque com estes recursos era impossivel molestal-o do lado da
terra; pelo litoral tambem no era presumivel o perigo, antes pelo
contrario para uma eventualidade sinistra facilmente se refugiaria com o
exercito nas fortes muralhas de _Gades_, de _Carteia_ e de _Mlaca_.

Por certo o exercito que Fabio veiu tomar do commando de Lellio estaria
em situao desesperada, para que elle assim procedesse estabelecendo o
seu arraial com uma exclusiva preoccupao defensiva. Dispostas todas as
foras nos seus quarteis, cada dia que passavam na inactividade era um
motivo de enfraquecimento e de indisciplina; para justificar essa
necessaria apathia, Quinto Fabio simulou uma excurso ou theoria ao
templo de Hercules Gaditano, para tornar propicio o Deus das povoaes
ibero-phenicias, e offerecer-lhe um apparatoso sacrificio, para assim
lisonjear a credulidade d'esses povos e ligal-os aos interesses de Roma.
A ausencia do Consul impunha a necessidade ao seu logar-tenente de
manter a disciplina do exercito em operaes continuas de adestrao,
acostumando-o s emboscadas e surprezas de um inimigo incansavel e
sempre empregando expedientes imprevistos. Nem por isso o animo da
soldadesca se alevantava, por que o conhecimento das derrotas anteriores
era um nefasto agouro; e alm d'isso pobres mercenarios recrutados 
fora por todas as colonias e conquistas romanas no eram impellidos por
um sentimento, como aquelles para quem morrer sobre o solo da Patria que
defendiam era uma gloria e um delicioso sacrificio.

Emquanto Fabio se demorava na excurso ao Templo de Hercules Gaditano,
evitava decentemente qualquer batalha com Viriatho, que se julgava muito
longe; e o seu exercito ia cobrando alento para o momento opportuno. E
no era o tempo perdido, por que o Consul conseguira, talvez pelas
indicaes de Caio Lellio, travar relaes com chefes de algumas cidades
dos Turdulos, dos Turdetanos, e principalmente das cidades Celticas, que
j se mostravam cansadas d'estas guerras prolongadas que estavam
embaraando a entrada da civilisao romana na peninsula hispanica.

Viriatho no se temia do exercito de Fabio; conhecia que as duas Legies
recem-chegadas de Roma eram maltrapilhos apanhados nos enchurros da
cidade, bisonhos despreziveis extranhos a todo o brio e espirito
militar; os que c estavam no podiam esquecer os revezes a que
escaparam e as derrotas que lhes infligira com vontade. Mas, uma cousa
preoccupava o Cabecilha: as conferencias de Quinto Fabio com chefes
civis turdulos e turdetanos, as suas visitas apparatosas a cidades
Celticas, revelavam-lhe que o Consul procurava uma nova fora no no
exercito, mas no descontentamento das povoaes que naturalmente eram
antinomicas com a liberdade da Lusitania. E reconhecendo que toda a
demora na aco era um ensejo para Fabio se reforar com este
antagonismo de raa, Viriatho decidiu ir atacar o arraial em que se
defendera o exercito romano, comeando por se occultar pelas florestas
circumvisinhas da cidade de Orson.

Fez-se essa operao com extrema pericia, porque os Teros lusitanos
dirigiram-se de afastados pontos para a extremidade oriental da
Turdetania, e insensivelmente se internaram por Companhias nas cerradas
florestas d'essa vastissima planura.

No se fez esperar o primeiro golpe; do exercito de Fabio saiu um
destacamento de uns quinhentos homens para ir buscar lenha  floresta
mais proxima da cidade de Orson; iam muitos carros puchados por bois e
por cavallos. Quando estavam abatendo os troncos, de todos os lados
surgiram os Companheiros de Viriatho, rapidamente, e to certos no
plano, que esses quinhentos foram totalmente trucidados, sem que a nova
terrivel podesse ser levada a Orson.

A demora dos mateiros fez com que o logar-tenente de Fabio mandasse vr
que extraordinario caso se dera; trouxeram-lhe a noticia do morticinio,
mas longe de suspeitar que um tal golpe s poderia ser dado pela audacia
de Viriatho, o logar-tenente alardeando conhecimento dos costumes da
Hespanha, exclamou:

--Foi uma partida de Salteadores, uma d'estas Quadrilhas que vivem do
roubo e depredaes, to constantes na Hespanha. Irei castigal-os, eu
mesmo.

E pondo-se  frente de uma Legio, dirigiu-se para a floresta proxima de
Orson, na ideia de que apanharia os Salteadores. Assim que dividiu as
foras para o crco e batida, sahiram-lhe das outras florestas os Teros
de Viriatho, que subitamente cem sobre os manipulos romanos e os
destroam completamente.

Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exercito aquartelado em
Orson; e sob a tremenda impresso foram emissarios levar a Fabio, que
estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forou a partir a toda a
pressa, e a vir tomar o commando do exercito para proceder conforme o
exigia a presena do inimigo.

O Consul estava bem industriado, e guardou-se de dar batalha campal a
Viriatho; fez como o Caudilho, respondia s escaramuas com outras
escaramuas; no perdia gente, e tendo o seu exercito bem aprovisionado,
considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta,
cincoenta homens, como uma eschola em que adestrava os seus soldados 
indole especialissima d'esta guerra sem egual.




XXXV


Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indeciso da
campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confira o
Senado. Era momento azado para negociar a alliana, por que no tinha
sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o
Cabecilha, para impr condies vergonhosas. Mandou um emissario a
Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz
e alliana com Roma nas bases do _Foedum aequus_ era uma soluo honrosa
em to violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspiraes da
Lusitania.

Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a
perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade,
reconhecendo-o como _Principe da Lusitania_. E na sua linguagem franca e
rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o
diploma que lhe fra confiado:

--Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania  o
empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliana com Roma, n'essa
base de egualdade politica, ser effectivamente uma garantia para a
autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado prope ha uma
phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rmulo,
que foi chefe de ladres e que teve habilidade para dar  sua quadrilha
a coheso de um Estado entre as Cidades italicas.

A Lusitania  constituida por cidades livres e trabalhadoras,
subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fros; e
muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de
Salteadores, embora me equiparem a Rmulo. So modos de fallar, e sem
mais valor do que banaes comparaes; mas o que eu repillo com todas as
vras de alma  o titulo de _Principe da Lusitania_. No  a simpleza
dura do meu caracter ou isempo que me leva a recusar esse titulo;  o
conhecimento da tradio d'esta terra livre por que combato.

A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em
que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano,
comear a sua servido; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu
interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia
irresponsvel, tratar de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a
Iberia, jungindo as duas naes como os bois ao carro. Para alcanar
esta unificao, comear pelos meios capciosos dos casamentos reaes,
para vir a conseguir pelas heranas a junco das soberanias. E se estes
meios falharem, o Rei procurar allianas com outros reis estrangeiros
que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno  custa da
liberdade, da independencia e at do territorio da Lusitania,
desmembrando-a se lhe fr preciso, ou chamando o estrangeiro para se
impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o
entregue ao assalto dos invasores.

 isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a
Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra,
vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima
dissoluo dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o
glorioso titulo, que  uma affronta para Cidades livres, ligadas
federativamente com as suas autonomias locaes. A alliana para a paz e
francas relaes de commercio entre os dois povos, essa abrao-a em
condies de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado
visa a outros fins, tem outros intuitos.

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do
Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladres. A
incomprehenso do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos
generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem
audaz, mas no com a grandeza do caracter.




XXXVI


O tempo dispendeu-se n'estes preparativos de uma aco estrondosa e
decisiva, quando comearam as primeiras chuvas do inverno; o corriculo
do Consulado de Fabio estava terminado, e com elle o seu commando, em
verdade esteril e inglorio. Poderia considerar-se equivalente a uma
derrota surda. Em Roma fallava-se aggressivamente contra Quinto Fabio,
como deslustrando as tradies heroicas da familia Emiliana. Aconteceu
que n'esse anno de DCX foram eleitos Consules Servio Sulpicio Galba,
esse antigo Pretor que ordenra traioeiramente o morticinio dos trinta
mil Lusitanos, o qual se enriquecera com os latrocinios do seu governo
provincial, e Lucio Aurelio Cotta, que com elle compartilhava n'esse
anno o poder, e tambem era em Roma asss conhecido por uma avareza
sordida e insaciavel ambio de dinheiro.

A guerra da Lusitania appareceu para esses dois Consules como uma
venturosa espectativa; o commando do exercito facultava o exercerem em
nome da Republica todas as extorses e vilezas. Ambos os Consules
disputavam entre si o commando da guerra contra Viriatho. Galba no
queria perder o ensejo que se lhe appresentava; era o meio de voltar 
Hespanha e de reconstituir a sua riqueza malbaratada ou perdida. Lucio
Cotta j sonhava em vir a ser o argentario mais preponderante de Roma.
Galba allegava:

--J fui Pretor em Hespanha e governei a Provincia da Lusitania; conheo
aquelles territorios, aquellas gentes e os seus costumes. Sou temido, e
a lembrana do meu nome far fugir diante das Legies romanas todas
essas tribus de ladres e barbaros. S eu tenho no actual momento as
condies excepcionaes para commandar essa guerra que se vae tornando
uma vergonha. Os Lusitanos bem sabem que eu no me pago com palavras.

Os credores e parasitas de Servio Galba apoiavam aquellas pretenses
apparentemente plausiveis. Os partidarios de Lucio Cotta conclamavam:

--Ainda nos no esqueceu a accusao tremenda de Cato o Censor. O
governo de Galba na Lusitania infamou Roma com uma nodoa indelevel.
Galba  o unico homem a quem no pde ser confiado o commando da guerra
contra Viriatho, porque a sua presena levantaria na Hespanha as
proprias pedras contra Roma. Seria a prova de que Roma no civilisa os
povos barbaros como proclama ao mundo, mas rouba-os, devasta-os, por que
subsiste por esse expediente que a dispensa no seu exclusivismo militar
de toda a actividade agricola ou fabril. Galba por frma nenhuma!

Esta questo foi debatida no Senado; at ahi, entre esses venerandos
patricios, sentados soberanamente nas suas cadeiras eburneas, se
dividiram as opinies, uns por Galba, outros por Cotta. Mas quando se
discutia o assumpto, levantou-se o senador Scipio Emiliano, e erguendo
a mo intimativamente exclamou com nitidez:

--Em meu entender, nem Galba, nem Cotta merecem a confiana da Republica!

O Senado ficou no mais sepulchral silencio ao ouvir aquella phrase que
era quasi uma sentena. Scipio tinha grande auctoridade e ascendente
moral enorme depois que regressra da destruio de Carthago. Depois
continuou a phrase que mantivera em suspenso intencional:

--E no a merecem, porque um por ahi anda arruinado apoz a dissipao
das riquezas que roubou quando Pretor na Hispania; o outro, pelo
contrario, riquissimo pela sua proverbial avareza, s trataria de se
encher mais, servindo-lhe a guerra de pretexto para saciar os seus
vidos interesses.

A voz de Scipio impz-se a todos os espiritos, dominados pela coragem
com que formulra em pleno Senado o seu argumento. Para sahir d'aquelle
embarao o Senado achou como unica tangente no melindrar a familia
Emiliana, prorogando o commando militar e consular de Fabio, e que como
Proconsul continuasse n'esse anno a guerra da Lusitania.

Substituir Quinto Fabio, quando elle j estava industriado na frma da
guerra viriathina seria um erro perigoso; e a increpao do destruidor
de Carthago teve sua opportunidade, porque n'esse anno de DCX, passado o
inverno, o Proconsul preparou-se para dar uma batalha campal a Viriatho,
e justificar assim a anterior inercia.

Viriatho passra tambem esse inverno na Betica, porque conseguira tomar
ahi duas cidades em que assentou os arraiaes. Fabio, apesar de ter
augmentado enormemente o seu exercito, exigindo contingentes das varias
cidades alliadas dos Romanos, fiava-se mais nas informaes que
conseguira obter de gente que andava nas hostes do Cabecilha. Era esse o
pensamento de Caio Lellio, sendo o caminho aproveitar o antagonismo da
raa iberica. E seguro de qualquer informao secretissima e por via que
nunca ser conhecida, o Proconsul pe todo o seu exercito em campo e
ataca Viriatho com todas as regras da poliorcetica romana.

Viriatho no hesitou um momento, pondo-se em frente do inimigo que bem
conhecia; os seus Cavalleiros e infantes bateram-se desesperadamente, e
quanto mais destroavam as foras romanas, novas reservas accudiam a
Quinto Fabio successivamente, por modo que Viriatho, conhecendo que lhe
fraquejava um flanco do seu exercito, ordenou a tempo uma retirada sob
_Bcor_, aonde as florestas, os rochedos e as ribanceiras intransitaveis
o punham a salvo do exercito romano, que foi perseguindo-o por algum
tempo. Viriatho deixou no campo muita da sua gente. Ento, para vingar
as perdas que soffrera, e o furor que lhe provocra o desapparecimento
do Cabecilha em _Bcor_, foi Quinto Fabio com o seu exercito occupar as
duas cidades que at agora estiveram sob o poder do chefe lusitano,
dando ordem  soldadesca para o saque desenfreado, mandando em seguida
lanar-lhes o fogo, passando  espada folego vivo que encontrassem.

Quando Viriatho estava j seguro em _Bcor_ do inopinado golpe em que o
Proconsul levra vantagem, veiu-lhe um presentimento, que a ninguem quiz
communicar:--A frma do ataque de Fabio revela-me que se aproveitou de
uma traio!

De repente chegou ao p de Viriatho o seu companheiro Andaca:

--Sabei que os Turdulos e os Turdetanos depozeram as armas; e pediram
paz a todo o transe; assim perdemos esse vasto territorio, todo o
oriente da Betica.

N'isto chegou Minouro, o outro companheiro, e disse para Viriatho:

--Os Celticos, que confinam com a nossa terra lusitana, por causa d'esta
derrota voltaram-se para os Romanos, dizendo que querem pastorear os
seus rebanhos em paz por esse Alemtejo e Extremadura.

E emquanto Viriatho se mostrava apprehensivo, Andaca e Minouro
affastaram-se um pouco e segredaram:

--A Espada invencivel perdeu d'esta vez o encanto.

E sorriram-se n'uma intima perfidia com uma satisfao que s elles
ambos comprehendiam.




XXXVII


Depois da apparente victoria de Fabio, que muito bem sabia a quem devera
essa momentanea vantagem, recolheu-se o Proconsul  capital da Hispania
ulterior,  cidade de Corduba para ahi descansarem as tropas no rigor do
inverno. Viriatho reconheceu que avanra demais para sudste da
peninsula, em que predominava o Ibero, e sentindo-se ahi sem apoio nas
populaes, aproveitou a inactividade do Proconsul para levar o seu
exercito  Hespanha ulterior, onde era mais odiada a dominao romana,
chamando  revolta desde o Anas e o Betis at ao Promontrio Trileuco,
todas as tribus e populaes em quem girava o sangue lusitano.

As revelaes que na ilha sagrada de _Achale_ Viriatho recebera do endre
Idevor, dando-lhe viva comprehenso d'esta Patria ideal, por cuja
unidade e autonomia batalhava; e o amor de sua noiva, a deslumbrante
Lisia, que o escolhera para esposo exigindo por condio que o Romano
_lhe pedisse a paz_, excitavam no valente Caudilho um heroismo
inquebrantavel, e mais do que isso inspiraram-lhe o poder mysterioso de
fallar s almas, de estabelecer a harmonia dos sentimentos. A sua
palavra comeou ento a ter tanta fora como a sua Espada; e pelas
terras por onde passava, deixava uma onda de insurreio, synthetisada
n'um grito:

--Uma s vontade nos una! Guerra ao Romano!

Viriatho dirigiu-se quella regio que vae das fronteiras dos Carpetanos
at ao paiz dos Edetanos, que frma toda a parte oriental e occidental
da Celtiberia, aonde habitavam os Belitanos e os Titos, cujas Companhias
destrora havia quatro annos, quando como alliados foram em auxilio do
Pretor Caio Vetilio. A presena corajosa de Viriatho alvoroou a
populao; o Cabecilha fallou-lhes com desassombro:

--Estaes resentidos de mim, e aqui me tendes se mereo a morte; mas
ouvi-me. Eu lucto pela independencia da vossa patria, que  a minha.
Vs, habitaes esta parte da Celtiberia, que tambem  Lusitania; porque
os povos que aqui vivem no so Iberos, so _Lusonios_ separados pelo
rio Ebro, sobre a sua margem direita. Estas duas raas so
inconciliaveis! se ellas se podessem unir por um pacto de alliana,
nunca n'esta peninsula hispanica se teriam estabelecido os Celtas
vagabundos; nem aqui entrariam os Phenicios, nem os exercitos
Carthaginezes occupariam o nosso solo. E como essa alliana nem pela
necessidade da defeza mutua pde trazer a um accordo Iberos e Lusitanos,
 por isso que as rivalidades entre os Carthaginezes e Romanos trouxeram
estes guerreiros a repellil-os do nosso territorio, mas a impr-nos
cruamente o seu dominio, arrasando as nossas cidades, e roubando-nos
ignobilmente plos seus Pretores. Os Iberos foram acceitando o governo
ou propriamente o jugo dos Romanos; os Lusitanos, que em Roma pelo
testemunho dos seus generaes so considerados os mais valentes e
destemidos dos Povos celtibericos, so os que resistem ao estrangeiro,
os que aspiram a ter uma Patria livre. Deixemos para alm do Ebro o povo
dos Iberos, que amam a auctoridade fortemente constituida; contemos s
comnosco, Lusitanos a quem o espirito da revolta os impelle a sacudir
todo o jugo e a cortar a mo que ousa domal-os. Desde o morticinio
truculento feito  falsa f por Galba em trinta mil Lusitanos chamados a
uma assembleia pacifica,  que eu me insurgi contra essa clamorosa
infamia, e ha sete annos que sustento uma campanha em prol da Patria
livre infligindo derrotas successivas aos exercitos romanos. Em Roma
votou-se o exterminio, a aniquilao completa dos Lusitanos. Fabio j
teve um simulacro de victoria, porque encontrou no elemento iberico um
meio de derrotar-nos, esse inconciliavel antagonismo. Isso nos obriga 
unio das populaes e cidades da Lusitania. Vs, oh habitantes da
Belia, d'esta Edetania, limite oriental da Celtiberia, vs sois
Lusitanos, sem differena alguma, como o reconhecem mesmo os viajantes.
Sois descendentes dos _Lusonios_, que transpozeram ha seculos
immemoriaes os Pyreneos vindos da Aquitania, aonde existem ainda as
tribus dos _Elusatos_; essas tribus dos Lusones fixaram-se nos montes
que dividem os rios Jalon, Mosa, Henares e o Durio, estendendo-se at ao
Mediterraneo e Montes de Idugbeda; pelo occidente alargaram-se do alto
Durio at ao Tejo. Mas esta extenso primitiva da nossa Lusitania, que
podemos chamar _Lusitania oriental_, foi sendo dividida pelas invases
estrangeiras, a comear pelos Iberos e Celtas, que a comprimiram para
oste, forando os Lusonios a concentrarem-se nas Beiras, na Extremadura
cistagana, e por todo o Alemtejo, formando hoje esta _Lusitania
occidental_ que comea no Promontorio Sacro at aos Callaicos. Juntemos
estas _duas Lusitanias_ e teremos o dominio da Hespanha, que s ser
senhora do seu destino quando repellir todo o poder estrangeiro do seu
solo. Ahi esto as vossas cidades attestando pelos seus nomes, que ainda
pertenceis a essa patria primitiva, que nos une a todos: _Lusera_ e
_Luzes_, proximo de Jaen, estendendo-se at ao rio Tajua; _Luzago_,
_Lucia_ e _Alustante_, proximo de Jalon; _Lucos_ e _Lucera_, na parte
meridional do Ebro. Foi por estarmos separados, que os estrangeiros nos
invadiram, e o Romano nos aniquila para se mantr pela expoliao das
nossas riquezas. O isolamento das cidades  a fraqueza; a federao
cantonal  a garantia da independencia.

A voz de Viriatho calou nos animos; os Belitanos reconheceram que se no
differenavam dos Lusitanos; e perdoando o castigo que o Cabecilha lhes
infligira quando iam em soccorro de Vetilio, bradaram erguendo ao alto
as mos direitas:

--Uma s vontade nos una! Guerra ao Romano.

Com essa gente da Edetania veiu tambem o povo seu alliado da _Titulcia_,
a que chamavam os Titos, jurar o pacto defensivo. Mas aonde a voz de
Viriatho produziu um effeito vertiginoso, hallucinante, foi entre os
Arevacos, nas nascentes do Durio, que se firmavam na sua fortaleza
inexpugnavel de Numancia, visinha de _Luzon_.

--Bravos filhos da Lusonia! vs bem sabeis que todos os chefes militares
que luctaram contra os Carthaginezes, pela independencia da nossa terra,
e que coadjuvaram estes quando estavam em lucta de exterminio contra os
Romanos nas chamadas _Guerras Punicas_, bem estareis lembrados que esses
Chefes destemidos foram naturaes da Celtiberia, que na sua parte
oriental e occidental era propriamente a _Lusonia_. No podemos
pronunciar o nome de Indortes, sem assombro; de Indibilis, Edescon e
Mandonio, sem que sintamos referver o sangue n'um impeto de coragem;
Carus e Alucio, e ainda Istolacio, embora da gerao dos Celtas, so a
prova de que no nos falece o espirito de revolta e a capacidade do
commando. Mas se os Chefes so gigantescos, que diremos dos seus
Soldurios e at da fraternidade heroica que elevava os seus servos? Quem
se no recorda d'aquelle general lusitano, Tago, a quem Asdrubal deu a
morte? O feito do seu escravo, que lhe vingou a morte apunhalando
Asdrubal junto das aras em que estava sacrificando, mostrar a todos os
estrangeiros, qual  o vinculo que nos liga uns aos outros.

Das partes dos Arevacos levantou-se um mancebo de aspecto robusto e
gestos decididos; era bem conhecido como filho de Salondico e
continuador da sua bravura, estando-lhe por isso confiado o governo da
fortaleza de Numancia. E batendo no peito como garantia de firmeza:

--Eu tambem repetirei: Uma s vontade nos una! e essa vontade seja a de
Viriatho conduzindo-nos  guerra contra o Romano, at o repellirmos da
Hespanha, tornando a nossa Patria livre. Diante de Numancia estacar o
poder das armas romanas! e se a fatalidade da guerra fr contra ns,
morreremos ahi todos, mas morreremos livres.

Viriatho abraou o mancebo denodado, que lhe dizia reconhecido:

--Tu consagraste a memoria de meu pae; por ti derramarei meu sangue
quando o determines.

O incendio da guerra santa prgada por Viriatho propagou-se para o norte
da peninsula, porque a Callaecia, a dos antigos, formra tambem parte da
Lusitania; numerosos bandos, partidos e guerrilhas foram mobilisados
pelos Callaicos; como estes, tambem se insurreccionaram os Vacceos e os
Vettes na Extremadura; os Turdulos e os Turdetanos desligaram-se de
Quinto Fabio Maximo; como em uma onda que vinha crescendo, correram a
engrossar esta corrente novas tribus movidas por um sentimento acordado
pelo espirito que fortificava o brao de Viriatho:--o ideal de uma
Patria, synthese da unidade da raa at alli desmembrada, e de uma
Tradio esquecida ou quasi perdida. Pela primeira vez a Lusitania teve
a consciencia da sua unificao ethnica ao acceitar o pacto federativo
contra o Romano, proposto por Viriatho como uma fora defensiva. A
coragem do chefe lusitano era to grande como a confiana no futuro da
Lusitania livre. Em todas as guerras da Hespanha nunca os Romanos
encontraram um levantamento de povos assim vasto e unanime; era uma
situao desesperada, que s por meios fra dos processos conhecidos
poderia ser dominada.

Roma, na prosecuo dos planos da sua politica absorvente, desconhecia a
coaco moral; quando no confiava na fora das armas, recorria ao poder
do ouro, subjugando pela corrupo, e falhando os baixos expedientes,
alcanava sempre o exito descendo at --traio. Ante o perigo da
constituio federativa dos Povos lusitanos, Roma entrevia o seu
triumpho na--morte de Viriatho. E nunca faltaram traidores.




XXXVIII


Esperando o momento azado para recomear as operaes militares, Quinto
Fabio Maximo passra o inverno no seu quartel estabelecido na cidade de
Corduba, vendo que a espantosa revoluo que irrompia entre as tribus
lusitanas chegava  maior intensidade quando justamente estava a
terminar o periodo do seu consulado. Elle presentia, que em Roma a sua
pretendida victoria era motivo de facecias; por que as noticias do
levantamento de tantos povos  voz de Viriatho, desde o Anas e Betis at
ao Promontorio Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrra de
fora e de prestigio depois da sua retirada para Bcor. Quinto Fabio,
sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no commando da
Guerra viriathina, ou se outro Consul o viria substituir, passava os
dias em uma agitao moral que o perturbava profundamente, obrigando-o
ao esforo de occultar o seu estado de espirito, diante dos que o
rodeavam. Na inaco forada da estao hyberna, ordenou certos
divertimentos, que os Consules, na sumptuosidade de vida que usavam na
Peninsula, tornavam uma caracteristica da grandeza romana.

A melhor parte do dia passava-se em um lautissimo e grandioso banquete,
em que  parte as iguarias, em que predominava o salmo cosido em vinho
branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava
pela noite adiante. Durante o banquete resoavam as musicas proprias
chamadas _acroamata_, em que grupos de moos e raparigas ao som de
flautas e lyras cantavam desenvoltamente em meneios de dansas e
pantomimas, imitando situaes dos mythos religiosos e das lendas
homericas. Eram sobretudo jovens syrias e gaditanas, que, ao som dos
cantos licenciosos mais fascinavam pelas dansas lascivas os convivas de
Quinto Fabio. E para fazer contraste com a belleza das frmas,
appareciam de repente os _anes_ e _aleijados_, que em contorses
violentas, procurando imitar os _equilibristas_, que formavam pyramides
e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes,
suscitavam as mais estridulosas gargalhadas.  variedade e profuso das
iguarias, correspondia a mudana dos divertimentos, destacando-se, pelo
seu poder hilariante, os _Imitadores_, que reproduziam o canto dos
gallos, e o dos rouxinoes, os zurros do jumento, o miar dos gatos
assanhados, macaqueando os gestos e a falla dos typos mais conhecidos da
cidade de Corduba e mesmo de alguns Centurios.

Quando Fabio estava cansado de rir de todas essas manifestaes da
indignidade humana, das disformidades physicas e degradaes moraes,
ento mandava que se fizessem as recitaes poeticas, e appareciam com
ramos de louro nas mos os _Homeristas_, que ao som das lyras de sete
cordas e de cytharas declamavam episodios dos poemas do Cyclo homerico.
J estavam os candelabros accesos na sala do banquete, quando entraram
os _Homeristas_, para recitarem alternadamente os cantos de um Poema, a
que deram o titulo de _Os Piratas tyrrhenos_; e em quanto declamavam,
figuras mudas em um intermedio dramatico iam representando todas as
situaes descriptas:



A bella e joven Nera banhava-se descuidada nas ribas de Naxos.

Apparecem subitamente os piratas do mar Tyrrheno e arrebatam-na, para a
venderem para algum gyneceo real.

      *      *      *      *      *

Menclida, seu velho pae, deplora a perda do encanto da sua velhice.

O namorado de Nera, encontra-o chorando, e persuade o velho para irem
consultar o Oraculo. Partem ambos com anciedade.

      *      *      *      *      *

No mar os Piratas disputam entre si a posse de Nera; e no se
entendendo no meio da sua lucta ameaam de metterem o baixel a pique, e
morrerem todos.

O piloto impe-se aos remeiros, dizendo,--que  melhor ir offerecer a
cativa ao Rei de Coryntho, porque assim alcanavam um porto de refugio e
abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar.

      *      *      *      *      *

Nera  offerecida ao monarcha: a formosura da cativa deslumbra-o.

Coryntho est em uma grande desolao por uma terrivel peste asiatica e
a mortandade  enorme. O Rei consulta o Oraculo;--que responde: Que o
seu Estado ficar livre da peste logo que elle despose uma prisioneira.

      *      *      *      *      *

Quando se faz o banquete das nupcias de Nera, apparecem dois
forasteiros, o pae e o namorado de Nera, desfigurados pelas fadigas das
jornadas, e por isso desconhecidos.

Sentam os dois forasteiros  meza, e do ao velho Menclida uma lyra
para entoar um cantico. Como bom rhapsodo, desenvolveu em uma cano
saudosa o verso de uma tragedia de Sophocles:

    --_ preciso para ser feliz--viver no seu lar..._

A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pae, e v na
physionomia do moo que o acompanha a expresso do namorado, dos seus
primeiros amores, Alcimo.

      *      *      *      *      *

O moo diz ao rei que  esculptor, e que fizera as estatuas mais bellas
de Aphrodite para os templos de Hllade; e que se promptifica a fazer a
estatua de Nera.

O Rei quer a estatua da esposa, mas com uma condio: Que o artista
contemplando-a na, logo que fr terminada a obra elle morrer, sendo
assim a sua morte o vo do pudr.

O moo acceita a condio resoluto: Nera pasma, receiosa. Comea o
estudo das frmas, das posies...

      *      *      *      *      *

E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixo primeira, e
Alcimo achava impossivel reproduzir no marmore tanta belleza,
presentindo que a morte os separar para sempre, em um longo beijo assim
lhe segreda:

--Que a mesma morte nos una!

      *      *      *      *      *

E de noite fugiram ambos do palacio, entrando em uma barca, das que
estavam varadas no porto de Coryntho: foram mar em fra ao som da agua,
fallando dos seus amores, vogando perdidos, e ja muito longe, aos
primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava:

    Sobre o horisonte, quanto a vista alcana,
         Reluz vaga esperana:
    Branca vela! da salvao signal:
         -- o _Sonho do Ideal_.
    Succede  calmaria a virao,
         --Do Amor a aspirao,
    Que as nuvens da borrasca longe espalha!
         A vela branca assoalha.
    Nas auras fluctuando--esse estandarte
         Nos leva s _regies da Arte_.
    Que importa Syrtes ou parceis? agora
         Resplandece outra aurora,
    Um co azul n'esses teus olhos! Vl-o,
         E certo rumo--o _Bello_!
    Como busca outro clima uma andorinha,
         Que o calor adivinha,
         Fugimos! Crente,  pra
         A alma para ti va...
    Pelo mar largo assim vamos os dois
         Devaneando... Depois,
    N'este enlevo sem fim, perdido o norte,
         Que seja o porto a morte!

Apenas acabra a recitao dos _Homeristas_, j appareciam na sala os
Parasitos para dizerem chascos e graolas; mas o Consul Quinto Fabio deu
ordem para que se retirassem.

--O que desejar agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez
alguma Tragedia? Que venha j immediatamente o Graeculo.

Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crena que os Povos da Lusitania tinham
sobre os poderes maravilhosos de uma _Cerva branca_; constava-lhe que um
velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o
prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que
se lembrava de numerosas estrophes do Poema.

Disse-lhe o Consul:

--Tens a liberdade, se me recitares o Poema da _Cerva branca_.

-- o Poema de _Abidis_, do Principe fadado por _invencivel diante de
todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor_. N'esse poema est
symbolisado o genio da nossa raa lusitana: luctando indomavel at 
morte, mas deixando-se morrer de amor.

--Canta ou recita esse poema; e ters a liberdade.

O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algmas;
e comeou em uma melopa estranha, que absorveu a atteno dos convivas:

    *Rimo de Abidis*

    Ouviu negro vaticinio
    O rei Grgoris um dia:
    Que do seu throno dourado
    Um neto o despenharia!
    Mandou fechar n'uma torre
    Distante, redonda, esguia,
    A Princeza sua filha,
    Unica herdeira que havia.

    Triste, cativa a Princeza,
    Cantava de noite e dia,
    Para encher a soledade
    Nas angustias que soffria.
    Passa um Cavalleiro perto,
    A doce musica ouvia;
    Mas, como subir  Torre?
    To alta! quem poderia?
    Deixra soltar as tranas,
    E at  terra descia
    Seu fino e lindo cabello
    Por onde o moo subia.
    As noites eram auroras
    Da mais intima alegria,
    E as ausencias tornavam
    Cada vez mais negro o dia;
    At que d'esses amores,
    Que ninguem suspeitaria,
    Ao cabo de nove mezes
    Formoso Infante nascia.
    Boas Fadas o fadaram,
    A qual mais dons lhe daria:
    --_Invencivel aos perigos_
    _Ser!_ uma fada dizia.
    _De amores sempre vencido_,
    Outra fada retorquia.
    Toma o rei Grgoris conta
    Do Infante apenas nado,
    Que traz o nome de Abidis
    No cinto em que  enfaixado.
    Sempre o negro vaticinio
    Ao velho rei  lembrado;
    S pensa em salvar o throno,
    Leva ao crime tal cuidado.
    Em uma estreita azinhaga
    Deixa o neto abandonado,
    Por onde passa correndo
    Sua boiada, seu gado.
    Pelo poder do destino
    No foi o Infante calcado!
    O velho rei recrudesce
    No odio ao neto votado,
    E manda lanal-o ao monte
    Certo de ser devorado
    Por algum lobo faminto
    Ou serpente do vallado.
    Foram dar com elle rindo
    Na relva fresca do prado,
    L por uma _Cerva branca_
    Com carinho amamentado!

    O velho rei mais raivoso
    Mandou arrojal-o ao mar,
    Crendo que as aguas profundas
    Ho de a criana afogar.
    A onda a que a arremearam
     praia a vem entregar!
    Ento Grgoris conhece
    Que a Deusa Hertha o quiz salvar.
    _Estrella do Mar_ se chama
    A essa diva lunar,
    Que traz por sagrado emblema
    Uma _Cerva branca_ a par.

    Por causa da _Cerva branca_
    Veiu tanto odio a acabar.
    O rei Grgoris tem gloria
    De Abidis seu reino herdar:
    Como o neto, resistente
    Seu Imperio hade ficar,
    Annunciando-lhe a grandeza
    Aquella _Estrella do Mar_!

Aproveitando-se de uma pausa ou hesitao de memoria do prisioneiro,
disse-lhe o Consul Quinto Fabio:

--J fao ideia do poder da _Cerva branca_; conta agora algum lance
d'esse invencivel Abidis, _sempre vencido de amores_.

--Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis,  quasi inteiramente de
amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias
sempre de encantar. Comeo por uma

    *Declarao de amor*

    Apalpando o lado esquerdo
    No achei o corao!
    Na repentina surpreza,
    Com tamanha inquietao,
    Conheci que m'o furtaram,
    No sei bem a occasio...
    Fui logo  procura d'elle
    Buscando o rasto no cho,
    Escutando attentamente,
    Se lhe ouvia a pulsao!
    Talvez esteja perdido
    Em remota solido?

    Quando j sem esperana
    Cahia na decepo,
    Fui dar com elle fechado
    Em nevada, fina mo!
    No me atrevi a exigil-o,
    E eu mesmo, sorrindo ento,
    A quem assim m'o levra
    Tive de pedir perdo,
    Porque ha no amor a furto
    O philtro da tentao.

O Consul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do
prisioneiro lusitano, que lhe pareciam barbaras mas impressionantes; e
disse-lhe:

--Prometti-te a liberdade; para que a obtenhas de vez,  preciso que
proclames em voz alta: Viva o poder da grande e generosa Roma!

O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fabio, devolvendo com
secura, e como em um arranco de morte:

--Volto para o ergstulo.

E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas:

--A _Cerva branca_ ainda hade dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se
hade!

A festa dos Acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegra
uma ordem cathegorica chamando a Roma Quinto Fabio Maximo Emiliano, e
determinando-lhe a entrega immediata do commando do exercito consular ao
novo general Quinto Cecilio Metello.




XXXIX


Com ordem expressa do Senado de abafar a insurreio o mais depressa
possivel e de reduzir Viriatho aos seus incertos recursos, desembarcou
em Tarragona o Consul Quinto Cecilio Metello, que vinha acompanhado do
Pretor Quinccio.

Corria o anno de DCXI da fundao de Roma; Metello informou-se da
situao da Celtiberia, e sabendo que os Arevacos se tinham rebellado,
foi pr crco a Numancia, de preferencia, para ahi contr o cabecilha
Salondico, evitando que se unisse com Viriatho. N'esse anno memoravel
comeou o grande cyclo da Guerra _numantina_, que durou dez annos,
terminando em DCXXI pelo suicidio heroico e espantoso dos vencidos. O
Consul Metello entregou o segundo corpo do exercito ao Pretor Quinccio,
encarregando-o de ir combater Viriatho, que estava proximo da margem
direita do Tagus.

Informado pelas suas esculcas, de que era procurado por Quinccio,
esperou-o at ser visto, simulando que se retirava para as proximidades
do _Mons Veneris_. O Pretor por inhabil ou por confiado avanou em
perseguio de Viriatho, o qual reproduzindo as mesmas manobras, cujo
effeito certo conhecia e com as quaes quatro annos antes derrotra
Plancio, fez do _Mons Veneris_ o seu abrigo; Quinccio continuou a
avanar, e o cabecilha lusitano precipitando-se repentinamente sobre as
Legies romanas e envolvendo-as de subito por todos os lados, fez um tal
destroo e mortandade no exercito romano, que o Pretor s conseguiu
escapar em uma pavorosa debandada, e sempre perseguido at refugiar-se
no seu quartel de inverno em Corduba. Muitos estandartes romanos foram
arrancados das mos dos hastarios; e estes despojos, testemunho da
victoria de Viriatho, foram mandados para a ilha sagrada de _Achale_
para serem collocados na Torre Redonda, consagrados como trophos ao
Deus innominato.

Na sua fuga desvairada, o Pretor Quinccio dirigindo-se para Corduba
abriu passagem pelo paiz extremamente montanhoso dos Bastetanos, que se
estendia para o sul at ao monte Ilipala, confrontando ahi com os
Turdulos, ao occidente com os Oretanos, ao norte com os Lobetanos, e com
os Contestanos do litoral. Era principalmente aqui n'este territorio dos
Contestanos, que estava estabelecido o governo dos romanos, na cidade
denominada Nova Carthago. Viriatho no esqueceu esta circumstancia, e
no lhe bastando ter derrotado o Pretor Quinccio, submetteu a saque
todas as povoaes alliadas ou relacionadas com o poder de Roma. O
Pretor fechou-se dentro das muralhas de Corduba, sem esperana de que o
Consul Quinto Cecilio Metello viesse soccorrel-o, por que achava-se
empenhado tenazmente nos combates em volta de Numancia, por frma que
no se podia conjecturar o termo d'essa nova guerra; e apavorado no seu
reducto limitou-se a ordenar, que um ibero romanisado, como revela o seu
nome Caio Mario, que estava com uma Legio em Italica, policiasse as
cercanias de Corduba para o avisar da presena de Viriatho e evitar as
suas correrias.  certo que o Pretor Quinccio no pz mais o p fra das
muralhas de Corduba.

O orgulho romano no podia conformar-se com esta humilhante derrota, e
com a situao vergonhosa de Quincio, dentro em Corduba desde o meado do
outomno de DCXI. Desde que despontou a estao favoravel para recomear
a campanha contra os Lusitanos, o Senado nomeou para esse commando o
novo Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano. Seria elle mais feliz do que
seu irmo para vingar o lustre das armas romanas obscurecido pela
audacia de Viriatho?

Desde que Serviliano fra eleito Consul em DCXII, apoderou-se d'elle uma
ambio irrefreavel e unica: vencer Viriatho, appresental-o em Roma,
leval-o a p e descalo no seu triumpho. Para estas esperanas o Senado
concedera-lhe extraordinarios recursos: duas novas Legies alm das
foras que estavam em Hespanha. E Serviliano podia sonhar com o
triumpho, porque contra um guerrilheiro sem exercito organisado, tinha
agora sob o seu commando um formidando exercito de sessenta mil homens,
e mil e seiscentos Cavalleiros.




XL


Serviliano no queria perder tempo, e iniciou a campanha na Betica, nas
cercanias de Jaen; o plano foi bem formado, porque Viriatho apenas pde
pela rapidez das operaes do Consul entrar em combate com um
contingente de seis mil homens.

Os tres companheiros de Viriatho, notando que o chefe reconhecia a
insufficiencia da sua gente para sustentar o combate com um exercito
disciplinado dez vezes mais numeroso do que o seu, entreolharam-se com
um r de intelligencia, como se aquella situao desesperada proviesse
de uma combinao. Viriatho no succumbiu; antes o perigo o levava a
descobrir extraordinarios recursos. E de relance, comprehendendo a
situao, ordenou o seu plano:

--Manobrar com uma rapidez tal, que o exercito romano no possa
manter-se em disciplina e ordem de batalha.

E em vez de esperar o ataque, deu ordem a um assalto instantaneo, em que
toda a agilidade e bravura, que caracterisa os lusitanos, fssem
praticadas por modo que a confuso se estabelecesse nas Legies romanas,
e que as manobras usuaes no podessem ser executadas. Pz  frente os
montanheses do Herminio acostumados s correrias dos lobos e s
montarias dos javardos, os quaes em berreiros descompassados--_Mata, que
 romano!_--investiram com impeto indomavel de fras contra os manpulos
de Serviliano. A espada e o punhal eram vibrados por uma e outra mo,
tendo abandonado o escudo, para se moverem mais denodadamente. O assalto
encheu de assombro os soldados romanos, que desconheciam esta
impetuosidade dos que elles chamavam barbaros; e sem poderem sustentar
aquelle recontro violento, foram recuando, suppondo que Viriatho,
empenhando a batalha s com seis mil homens, contava com outras foras
que viriam avanando, e que decidiriam da lucta.

Uma circumstancia salvou n'esse momento o exercito do Consul Serviliano:
inesperadamente appareceram no campo da batalha dez Elephantes africanos
e trezentos Cavalleiros bem equipados. Serviliano conheceu-os; era o
contingente que lhe mandava Micipsa, o rei da Numidia. Quando o Consul
projectava alcanar o commando da Guerra da Lusitania escrevera a
Micipsa pedindo-lhe em nome da Republica o auxilio dos seus Elephantes e
dos seus esbeltos Cavalleiros. Um pedido assim era uma ordem, e o Rei da
Numidia bem comprehendia que com o contingente de alguns Elephantes e
Cavallos, garantia a estabilidade do seu throno.

O auxilio no podia vir mais a tempo; e o exercito romano, reanimando-se
com o extraordinario reforo, toma a offensiva. A rapidez do ataque da
parte do exercito consular, servia para perturbar-lhe a disciplina, e
Viriatho, evitando o combate, foi attrahindo as hostes para os terrenos
anfractuosos seus conhecidos. Os Elephantes do rei da Numidia foram
caindo um a um, com aquelle golpe ignorado dos romanos, mas praticado
pelos lusitanos, quando com um aguilho de ferro matam os seus bois
ferindo entre as vertebras cervicaes. O successo inesperado produziu um
estranho assombro; Serviliano pensa j na retirada, e Viriatho,
furtando-lhe as voltas, toma-lhe a dianteira, avanando com rapidez
incrivel por veredas que s elle conhecia, vindo occupar o arraial do
exercito consular, apenas guardado por alguns hastarios.

Quando o Consul Serviliano, com o exercito cansado dos caminhos fragosos
chegou j noite cerrada ao seu acampamento, achou o pequeno exercito de
Viriatho fortificado com os fssos e trincheiras com que contava
defender-se, e viu-se constantemente inquietado pelos hastarios e
fundibularios lusitanos. Aproveitando a escurido da noite e contando
com o cansasso dos soldados romanos, fatigados da retirada custosa,
Viriatho ordenou incurses repentinas e por lados sempre differentes no
acampamento romano. Serviliano perdera n'aquella jornada e incurses da
noite para mais de tres mil homens; e como as tropas se achavam sem
descanso e sem alimento desde a vespera, seria loucura o empenhar-se em
uma batalha campal, resolvendo recolher-se com o exercito  cidade mais
proxima, a Ituca, onde contava com viveres e as munies indispensaveis.




XLI


Viriatho no desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu
promptamente que se salvra d'esta vez de um perigo evidente, e que para
luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu
o exercito romano, de lanar fogo ao arraial, fazendo uma retirada
cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de
montanhezes s serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a
valentia impetuosa dos assaltos.

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo
descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de
inverno no longe, para recomear a campanha contra os Lusitanos, e
avanou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a
planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se
confederara na grande insurreio suscitada por Viriatho; o Consul
occupou-a por conquista, avanando para o paiz dos Cuneos, castigando-os
pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.

No anno DCXIII, no como da estao propicia, iniciou Serviliano a nova
campanha contra Viriatho, avanando para o norte; quando ia em marcha
com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que
andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram
Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar
Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida,
ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando
Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroada. Serviliano
prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma
dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano,
Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil
prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns
quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios
de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma,
que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os
pelas carnificinas e pelas depredaes. Era a Lusitania, na sua parte
oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen
de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar
Viriatho, derrotal-o! Sem isso no era possivel a submisso ou
pacificao da Hespanha. Nas suas marchas o Consul no encontrava o
Cabecilha lusitano; os seus espies no davam noticia d'elle. Em quanto
os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da
lucta; que perdera a esperana na causa da Lusitania; que j lhe faltava
gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e
suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforos. E
seguro de que s mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo
as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou
s cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se
d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendio aos habitantes de Erisane;
pz logo o crco  cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se
abrissem fssos, fazendo da terra revlta uma alta trincheira detraz da
qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e
forando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se
guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica
mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo
terror passando  espada alguns centenares. Serviliano procedia com
tranquilidade e segurana, por que uma cidade sem defeza, como Erisane,
no tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca
romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os
fssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em
tropel esquadres sobre esquadres de cavalleiros, de longas grenhas,
com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em
chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A
violencia e rapidez da erupo, os gritos estridentes e a sanha
vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como
conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane
n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podsse metter em
frma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na
lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles
movimentos que s elle sabia dirigir, lana-se com todos os seus bravos
Soldurios, e com os Teros mais firmes chacinando na massa desmembrada
do exercito de Serviliano, multiplicando a sua fora sobre as hesitaes
de espanto causadas pela instantanea surpreza.

O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o
terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos
decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois
montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano dsse pela
audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do
exercito consular, deu ordem a um tro de companheiros para a um signal
sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos
acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:

--Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situao em
que se collocra o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia
consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;

Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o
desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito
ahi comprimido;

Que, antes de proceder e de pr as suas condies, mandava perguntar a
Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fsse
salvo.--

Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira,
no se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:

--Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes
que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de
ouro, como insignia de auctoridade soberana;

Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se _Rei da
Lusitania_, e fiel _Alliado de Roma_, sendo o seu primeiro acto a
assignatura de um Tratado de Paz e a dissoluo do exercito.--

Quando Viriatho leu essas condies sorriu-se com um superior desdem; e
sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos
que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:

--Que das suas propostas s acceitava a Paz firmada pelo Consul e
ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o
reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua
terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.

Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho no
acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominao de
_Amigo_, dada pelo Senado romano.--

A mensagem de Viriatho no podia deixar de ser adoptada por Serviliano,
porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul
comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que
estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera,
era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio,
propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de
Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era
nada menos do que a pacificao da Hespanha e o poder de Roma assentando
sobre o Direito em vez da espada.

O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes,
e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem
enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas
authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em
Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse
dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de
Viriatho, at que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo
em marcha para o seu quartel de inverno.




XLII


O sonho de Viriatho tornra-se uma realidade: a Lusitania livre, e Roma
vinculada pela Paz. O Caudilho contava com a pacificao geral, embora
algumas resistencias se manifestassem na Hespanha citerior; Roma era
sufficientemente politica para ratificar esta Paz sem apparencia de
impoziso. E emquanto Viriatho esperava a ratificao do Tratado pelo
Senado Romano, partiu pressurosamente para a ilha de _Achale_. Cumprira
a condio exigida por Lisia para a realisao do seu casamento.

Lisia sabia todos os terriveis accidentes da campanha de Serviliano, mas
no tinha chegado ainda  ilha sagrada a noticia da pacificao
inesperada. Do alto da Torre Redonda a semnotha viu vogar para a ilha
uma barca de couro; o corao bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a
conjecturar o que teria succedido. Mais proximo a barca, reconheceu a
figura de Viriatho. Desceu subitamente para ir esperal-o  lingueta de
areia.

No se imagina a eloquencia da mudez de Viriatho e Lisia, quando se
deram as mos e assim ficaram por alguns momentos. Avanando para a
Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriatho:

--Cumpriu-se o teu desejo.

--A Paz? Com Serviliano?!

--A Paz com Roma; assignou-a Serviliano, Proconsul e general.

Lisia fitava immovel o vulto de Viriatho, crendo um sonho o que
escutava. O valente cabecilha tirou d'entre a cota de malha de linho
retorcido a folha em que estava escripto o Tratado de Paz, em que Roma
reconhecia a liberdade e independencia da Lusitania. Lisia no pde lr
esse texto, porque a impresso da alegria tinha-lhe arrasado os olhos de
lagrimas. Viriatho entregou o Tratado ao ultimo dos Druidas Idevor, que
leu a clausula: _Haver paz entre o Povo romano e Viriatho._

Lisia, lanando os braos em volta de Viriatho, exclamava:

--Temos uma Patria livre! A Lusitania  independente!

E beijando com candura as faces crestadas e as mos de Viriatho,
continuou como se estivesse fallando em sonho:

--J se pde constituir familia em uma Patria livre. Os nossos filhos
nunca sero escravos.

Viriatho, lanando-lhe o brao em volta da cinta delicada, e em attitude
reverente:

--Cumpri a condio que me exigiste: a imposio da Paz a Roma. Agora s
minha esposa.

--Para a vida e para a morte! volveu Lisia, como se alli mesmo se
consorciasse com o guerreiro  face do co.

E Viriatho, tirando o brao direito da cintura de Lisia, tomou o Cinto
de ouro mandado pelo Proconsul Serviliano, como symbolo da realeza
offerecida, e cingindo-a com elle, disse com voz branda e quasi s
ouvida pela noiva:

--A este corpo gentil, que eu desejo e hade ser meu, prendo-o com esta
cada de ouro, trazida do campo da batalha para a paz da nossa casa. As
almas sempre estiveram identificadas pela mesma aspirao, pelo mesmo
soffrimento, e agora por uma simultanea alegria.

E mirando Lisia com interesse e carinho para vr como bem lhe ficava o
Cinto de ouro, dizia em voz que s ella entendia:

--Mal sabes a significao d'este Cinto?

Lisia ficou attenta para ouvir contar a batalha em que fra tomado como
despojo ao general romano.

--Foi-me offerecido por Serviliano com o titulo de _Rei da Lusitania_ e
_Alliado de Roma_, para assim salvar o seu exercito do desfiladeiro em
que o enclausurei.

--E acceitaste?

Recusei o titulo de rei, como uma vaidade pessoal e egoista, e s exigi
a Paz, o Tratado de Paz ratificado pelo Senado Romano.

--Mas o Cinto?

--Fiquei com elle para ser a minha primeira joia de nupcias.--E com um
sorriso cheio de bondade, continuou: No deixar de ser o symbolo da
realeza, no logar em que agora brilha; por que tu, Lisia, ligando a tua
existencia  minha, ficaste verdadeiramente a rainha e senhora do meu
destino.

Lisia tirou o Cinto de ouro que a envolvia, e tomando da mo de Viriatho
o Tratado de Paz foi collocal-os sobre o altar do Deus Innominato. As
Virgens do Cro da Semnotha acompanharam de canticos estas offerendas,
incertas sobre qual d'ellas substituiria no culto a Lisia, que ia deixar
os ditos mysteriosos da Torre Redonda pelos deveres austeros da vida de
mulher casada.

O regimen da Religio druidica ia-se obliterando; apenas na Ilha de
Hierna se conservava na sua pureza primitiva. Pelas outras partes do
Occidente europeu as perseguies fizeram que se dissolvesse a
hierarchia sacerdotal, degenerando os Druidas muitas vezes em adivinhos
e curandeiros, e as Semnothas em bailadeiras dos festins e das praas.
Na Ilha de _Achale_ conservava-se um apagado vestigio cultual, no tanto
como doutrina theologica, mas como vinculo secreto que unificava as
vontades no ideal politico da libertao da Lusitania. Era por isso que
nenhum viajante fallando da Hespanha deu noticia da existencia do
Druidismo na peninsula. Lisia, a Semnotha, casando com Viriatho,
realisava o ideal religioso servido pelo brao do guerreiro na aspirao
politica de uma Lusitania livre.

Depois que o caudilho saiu da Torre redonda, Lisia fallou adeparte com o
velho endre:

--Agora que est assignada a Paz com Roma e livre, livre a ditosa Patria
nossa amada, Viriatho vir pedir-te a minha mo de esposa. Muito
desejra que antes d'esse dia lhe descobrisses o sitio onde se guarda o
_Thesouro do Luso_, e lh'o patenteasses como depositario da Tradio,
que elle serviu com tanto desinteresse e valentia. Eu bem sei que tudo
se encontra na Caverna das Inscripes Oghmicas, que s tu sabes
_interpretar_, pondo em ordem mysteriosa os _Bastes dos Poetas_ ou
Vates, que por terem esse conhecimento da Floresta ou _Feadha_, so
chamados _Faithiste_.

--Sim, volveu o velho,  preciso ser _sagaz_ para lr essas varas
_sagitarias_, feitas de _estvas_, a que chamaram _Buchstave_, em que se
contam as _Sagas_ heroicas. A quem, seno a Viriatho entregarei o
Thesouro do Luso? Pela condio natural das cousas, Viriatho hade
sobreviver-me. Encanta-me o teu pedido, porque a entrega d'esse deposito
fica ligado ao destino affectivo da tua vida,-- o teu dote.

Lisia, beijando a fronte do endre encanecido, deu  intensidade do
sentimento a sincera expresso das lagrimas.

Seriam aquellas lagrimas enternecidas um presentimento?

Na vetusta tradio dos povos do norte anda sempre ligada  posse do
Thesouro a fatalidade tremenda,--a morte...




XLIII


Emquanto Viriatho se demorava na Ilha sagrada de _Achale_, no enlvo
d'aquelle amor que o fortificra na sua misso heroica, os tres
Companheiros deixaram-se ficar no valle de Callippo  frente dos Mil
Soldurios, em uma inactividade impaciente e desgostosos por vrem to
repentinamente terminada a guerra contra os Romanos. Estavam acostumados
a uma vida agitada de aventuras, ao prazer do saque, s grandes emoes
entre a posse de riquezas repentinas e a morte; custava-lhes a voltarem
bruscamente aos costumes da paz, ao respeito forado da vida e da
propriedade. Preoccupados do mesmo pensamento, careciam de communicar
entre si os seus intuitos; tinham receio de serem espiados, de que os
Soldurios descobrissem em suas palavras qualquer hostilidade contra
Viriatho.

Ento Ditlcon disse para os outros dois companheiros:

--Que v cada um de ns por diversos caminhos ter  Caverna que est
entre o Promontorio Cepressico e o rio Callippo. Ahi, sem sermos vistos
nem ouvidos, poderemos fallar  vontade, e resolvermos sobre a situao
que nos espera.

Andaca e Minouro abraaram o alvitre, e assentaram o dia do encontro na
Caverna das Fadas, ao alvorecer. Ento teriam tempo para fallar 
vontade e  larga. Dos tres companheiros de Viriatho, Ditlcon era o
mais velho, e at muito separado em edade. Era um homem alto e enxuto de
carnes, de ossadura forte; e embora guerreiro destemido, nunca tinha
perdido o porte aldeo, e mesmo um certo amor pelos trabalhos da
lavoura. O rosto sobre o comprido e de faces cavadas, tinha uma carnao
rubra tostada, sobre que assentava um nariz afilado, e uma bocca
desdenhosa, a que dava um r ironico um golpe que recebera na desastrosa
batalha de Tribola. Os olhos eram garos, entre o azul e verde,
lembrando pela frma da cabea o typo do africano branco berber. Fallava
cadenciadamente como sentindo a propria auctoridade, porque era ouvido
sempre attentamente, quando contava memorias de cidades destruidas, do
tempo das guerras carthaginezas; dizia-se que na mocidade viajra at 
Britania e  Gallia, e envolvia-se de uma atmosphera de oraculo,
pretextando ora descontentamento dos homens e das cousas, por frma que
inspirava desalento em volta de si, ora acobertava os seus desanimos
repentinos com uma isempo de todas as honras e riquezas.

Minouro, que era muito mais novo do que Ditlcon, admirava-o
profundamente, e tratava-o pelo nome de--Mestre, lamentando que elle no
fsse um Druida. Por uma lisonja petulante e insistente, veiu a
illaquear Ditlcon, levando-o na direco e intuitos que lhe suggeria.
Minouro no era corpulento; era de uma estatura mdia que o no
destacava do commum da outra gente; mas a cara redonda, o nariz curto, e
os pequenos olhos que nunca fitavam de frente, denunciavam o typo do
pequeno ambicioso do poder, do intrigante que trabalha pelo ideal da sua
personalidade, servindo todos os partidos conforme as necessidades da
sua elevao. Era como um fermento putrido, exercendo uma aco
decomponente e incessante. Viriatho confiava em Minouro, pelo seu
caracter de homem pratico, e especialmente pela considerao que lhe
ligava Ditlcon.

O outro companheiro, Andaca, era mais phantasista, mas generoso; como
Minouro admirava tambem profundamente Ditlcon, acatando-o mesmo quando
este o censurava pela audacia das suas ideias, ou arrebatamento
impulsivo das suas determinaes. Andaca era homem novo; destacava-se
entre os outros Cavalleiros pelos seus cabellos louros, que lhe cobriam
quasi a testa e que separava para um e outro lado em uma marrafa
caracteristica e inconfundivel. A barba era espssa e tambem loura, a
qual com a tez fortemente crada e os olhos azues, faria crr um typo da
Scandia perdido entre as tribus lusitanas de olhos e cabellos castanhos.
Era sobrio, e desinteressado; sonhava com os tempos do decahido
Druidismo, e teria sido um Bardo arrebatador para doutrinar os povos se
tivesse nascido em uma melhor epoca, menos perturbada ou mais crente.
Quando regressava dos combates e correrias em que se sentia viver,
era-lhe indifferente a distribuio dos despojos; no tomava parte nos
saques das cidades romanas, e quando depunha a espada e o escudo era
para estar deitado sobre a relva ou nas penedias, em decubito dorsal,
scismando como um vate. Minouro a pouco e pouco fra influindo no seu
espirito, dominando-o, e pelo poder de o revocar  energia, exercia um
predominio completo sobre a sua vontade.

Partindo em direces diversas, os tres Companheiros de Viriatho
encontraram-se ao alvorecer  bocca da _Caverna das Fadas_, alguns
estadios longe do mar, mas dentro da qual rebentavam as ondas nas
grandes tempestades da costa. Ahi, no escarpamento maritimo do
Promontorio Cepressico,  que se observava bem o trabalho das vagas, que
pelo agglutinamento das areias moventes de uma praia que se foi alteando
pelo decorrer dos seculos, formou com o calcreo altissimos taludes, ou
dunas, defendendo o valle de Callippo. Mas por seu turno em toda a
extenso da costa desde o Promontorio Cepressico at ao rio Callippo, o
mar recomeou o trabalho de eroso abrindo numerosas Cavernas,
destacando-se entre todas a mais profunda e mysteriosa, a _Caverna das
Fadas_. Contam as vozes do povo, que algumas d'essas Cavernas foram
abertas pela mo do homem, quando ainda elle no conhecia os metaes, e
viera descendo da primitiva estao que fizera em Scalabis, at por
estabelecimentos successivos chegar ao valle do Tago.

Na _Caverna das Fadas_ entraram os tres Companheiros de Viriatho
maravilhados pela extenso do subterraneo, em um solo plano e profundo
com abobada hemispherica, desembocando em uma galeria, aonde j os raios
do sol nascente no chegavam, e aonde se occultavam numerosos esqueletos
como em necrpole de uma remotissima edade. A curiosidade no os levou a
entrarem l dentro; ahi,  bocca da Caverna, antes de comearem a
conversa para que vieram, no podiam eximir-se  observao de cousas
que parecia extraordinario o encontral-as n'aquella solido ignorada de
todos.

Ditlcon, levantando do cho uns fragmentos de barro cosido, e
mostrando-os aos companheiros;

--Quem  que pde explicar como esta loua veiu parar aqui! Em Ilierna
eu vi loua egual em tudo a esta; e at na Bretanha...

--Seria um mesmo povo?--Inquiriu Andaca imaginoso; e levantando do cho
numerosas contas de cr esmeraldina e esverdeadas, que estavam
espalhadas pelo cho, como se formassem outr'ora vistosos collares,
continuou observando:--Mas estas contas desenfiadas tenho-as encontrado
em outras Cavernas da Lusitania, em que nos temos refugiado n'estas
correrias contra os Romanos. Quem tivesse tempo para ajuntal-as e formar
com ellas um collar para offerecer a Lisia por occasio do seu casamento
com Viriatho.

Ao proferir este nome, os tres Companheiros entreolharam-se subitamente,
suscitados pelo pensamento que alli os trouxera. E Minouro atacou o
assumpto:

--O casamento de Viriatho!  isso o que nos obrigou a virmos aqui. Elle
quer agora a Paz com Roma, para gosar tranquilamente a sua vida de
casado; e mandando cada um para sua casa, l se vo os nossos commandos,
todo o nosso valimento, e mesmo os nossos recursos.

Ditlcon atalhou:

--Viriatho  sincero; elle no acceitou o ser Rei da Lusitania, como lhe
propoz Serviliano.

--Mas, depois de casado, no querer elle dar  mulher um throno? e com
os filhos formar uma dynastia?

Andaca interveiu:

--Em todo o caso, ns somos uns instrumentos passivos dos planos ou das
ambies de Viriatho; e isto no deve, no pde ser.

Ditlcon, retomando a sua auctoridade e ascendente moral:

--A Paz com que Viriatho se lisongeia,  um engano. Roma ratifica a Paz
assignada por Serviliano, mas como v Numancia em revolta, vae mandando
mais tropas para a Hespania citerior. Ainda n'este anno de DCXIII chegou
o Consul Quinto Pompeu Rufo, com Quinto Servilio Cepio para continuar
essa guerra desesperada que dura j desde DCXI. Os Numantinos no
succumbem; so dos que morrem mas no se rendem; elles so
verdadeiramente Lusitanos, e Roma sabe-o melhor do que ninguem. Por
isso, se vos faz falta a guerra, ahi a tereis, segundo as minhas
previses, e eu sou homem para me ufanar de ter dito algumas verdades ao
mundo. Agora, o que aqui vos confesso  que estou cansado de guerras,
por uma causa sem fundamento.

--Sem fundamento!? Accudiram Minouro e Andaca, com surpreza.

--Sim; porque ns os Lusitanos nada temos com esse povo primitivo que
antecedeu na Peninsula o Ibero, que o veiu repellindo para as bordas do
mar. Viriatho sonhou esta diviso entre o Lusitano e o Ibero, quando
tudo isto  Celtiberico, e deve formar uma s patria, a que bastaria por
ora a constituio municipal que Roma nos impe.

Minouro apoiando-se na affirmativa de Ditlcon:

--Eu vou-me convencendo d'isso; porque para sermos uma Nao lusitana,
como dizes, no temos differena de Raa; e pelo que tenho observado
n'estes nove annos de campanha pela Hispania citerior e ulterior, tambem
no vejo montanhas que limitem os nossos territrios, nem rios que nos
sirvam de fronteiras separativas. N'estas condies uma Patria lusitana
 uma creao de frtes peitos, obra de homens, e sustentada apenas pelo
prestigio das suas espadas. Ns mesmos obedecendo a este impulso fizemos
do pastor _Ouriato_ o _Viriatho_ que no quiz o sceptro d'este novo reino.

Andaca, suggestionado pelo argucioso Minouro, e acreditando nas palavras
de Ditlcon:

--Para que esta Hispania unida entre na Civilisao moderna, como Roma
attingiu no mundo e como nol-a quer transmittir, s temos um passo a
dr, e digo-o com sinceridade: Renegar a Patria lusitana!

--No meio d'isto tudo, disse Ditlcon, em um dos seus momentos de
pessimismo que o atacava,--para mim s me bastam sete palmos de terra.

Andaca, passando com os dedos inconscientemente pela barba loura,
parecia que era impellido para o mesmo desalento; Minouro  que se
mostrou alegre:

--Deixemos vir para ns os acontecimentos. A tranquillidade de Viriatho
no ser por muito tempo; nem me parece que a sua obra tenha
estabilidade. E recomeando os Romanos a guerra, porque o Senado que
ratificou esta Paz  o mesmo que approvou a traio de Servio Galba ha
dez annos, Viriatho tem de vir a campo. E ns c estamos para dirigirmos
as cousas como entendermos.

--Ficamos n'isso! Conclamaram os outros dois, levantando a mo direita.

O sol ia a pino; e montando silenciosamente os cavallos que andavam
pastando entre as ervas marinhas, dispersaram-se rapidamente em
direces differentes, para reapparecerem desencontradamente no valle de
Callippo.




XLIV


Viriatho, regressando da ilha sagrada de _Achale_ para a companhia dos
Mil Soldurios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber poucos
momentos antes:

--O Senado e o Povo romano ratificaram a Paz assignada por Serviliano! A
Lusitania est livre de hoje em diante. No disputaremos nunca a Roma o
seu dominio entre os Povos ibericos; disfructe ahi  vontade as suas
conquistas e as suas exaces fiscaes. Que os seus Proconsules e
Pretores se enriqueam rapidamente, e venham ahi remir-se pelo seu
governo das garras dos crdores que os empobreceram em Roma. A Lusitania
s quer que a deixem no seu trabalho, que  a sua festa permanente. Na
f do Tratado depmos as armas; vou communicar esta resoluo, que  da
parte dos Lusitanos o comeo do cumprimento do glorioso Tratado, ao
Conselho armado, para que em seguida todos os Tros e Companhias, que
andam ha nove annos empenhados n'esta campanha de libertao, voltem s
suas terras.

Foram dadas e transmittidas todas as ordens necessarias para que o
Conselho armado se reunisse junto da Mama mais proxima. Quando Viriatho
fallou em dissolver o exercito, ouviu-se uma voz de entre os do
Conselho, observando:

--Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma no cessa de mandar
tropas para a Hespanha, e est sustentando uma guerra sangrenta em volta
de Numancia. Ahi esto dois Consules temerarios Quinto Pompeu Rufo, e
Quinto Servilio Cepio, sustentando essa campanha. Nada mais facil do
que, sabendo esses generaes que o nosso exercito se licenceou, voltando
os Tros a seus lares, um d'elles se lembre de vir fazer uma incurso 
Lusitania e nos apanhe isolados.

Viriatho ouviu attentamente a observao, e no foi immediatamente de
encontro a ella, antes parecia corroboral-a:

-- uma supposio plausivel, e tanto mais para recear, que um d'esses
Consules, Quinto Servilio Cepio hade querer vingar o irmo Serviliano
por ter assignado o Tratado de Paz; e alm de tudo Cepio, segundo a voz
que corre,  considerado em Roma como um devasso, capaz de todas as
deslealdades pelo seu caracter perfido. Mas, Cepio tem de obedecer ao
Senado e Povo romano, e por isso estamos livres de qualquer traio,
como a que ha doze annos praticou Servio Galba contra a Lusitania. Hoje
no tratamos com Consul algum pessoalmente;  com Roma representada pelo
seu mais alto poder politico. No temos direito a duvidar d'ella; o
Tratado aqui est escripto e assignado.

E em seguida passou as laminas de cobre em que o Tratado de Paz com os
Lusitanos estava assignado por Lellio e Servilio, os dois Consules
n'esse anno de DCXIV da Fundao de Roma; e cada um dos membros do
Conselho armado foi lendo detidamente e approvando:

-- a garantia de uma paz duradoura.

--Para que esse Tratado seja effectivo, continuou Viriatho, temos de
mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas Leis, e que pelo
nosso lado cumprimos o Tratado depondo as armas e voltando aos nossos
labores quotidianos.

-- assim mesmo! assim mesmo.

E approvada a resoluo, foram enviados mensageiros para todos os povos
e terras que tinham luctado pela independencia da Lusitania; para os
Vettes, para os Vacceos e Callaicos; outros foram levar traslados do
Tratado de Paz para que fsse lido na Celtiberia, na Carpetania e na
Oretania, na Betica e at ao Paiz dos Cuneos.

Ao sar do Conselho armado, disse ainda a mesma voz suspeitosa:

--Bem sei que a noticia do Tratado vae causar por todas essas terras uma
alegria immensa!  legitima. Porm vendo o exercito licenciado, e
sabendo quanto  difficil pl-o de repente em p de guerra, continuarei
dizendo, e oxal me engane: Tenho por perigoso este desarmamento.

Quem assim fallava era o bravo Tantalo, que em toda aquella campanha
nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriatho.




XLV


Depois da sahida do Conselho armado disse Idevor para Viriatho:

--No quizeste acceitar o titulo de _Rei da Lusitania_; o teu sentimento
puro revelou-te, que n'este solo lusitano no vegeta essa planta
parasitica da realeza. E demais, uma Realeza investida e sustentada por
uma potencia estrangeira! S isso bastava para influir na degradao
moral de um povo. Em troca d'essa Cora que renunciaste, ou que
desprezaste, mereceste que te seja entregue o _Thesouro do Luso_. J
ters sabido que elle se guarda na Caverna das Inscripes ogmicas; a
rocha que domina essa Caverna  a _Pedra Virgem_, o penedo que falla,
porque tem na face lisa, ou _Peravana_, os sons _fan_, _phone_, ou
_vene_, que traduzem as Sagas venerandas das Edades passadas. Longa  a
jornada para a Caverna das Inscripes, l na margem direita do Durio,
perto do Cacho da Rapa.

--Agora, que dei conta aos Chefes das Contrebias do Tratado de Paz com
Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e ss. Eu
sei todos os caminhos que nos levam ao Cacho da Rapa, e j vi com
assombro esses traos para mim incomprehensiveis gravados na Pedra
Virgem. Partamos.

E Idevor e Viriatho metteram-se a caminho. J distantes e bem longe do
povoado, encontraram solitaria  beira de um caminho uma casa palhaa,
d'onde vinha o som rythmico do trabalho de um tear; de uma rocha que
estava perto manava um jacto de agua cristalina, que fazia gosto beber.
Emquanto matavam a sde, escutaram a cantiga, que tomou para ambos o
valor de um vaticinio; cantava uma pobre mulher

    *Ao tear*

    Olha a tecedeira
    Como tece bem,
    Como a lanadeira
    Vae e vem ligeira;
    Sua mo certeira
    Que presteza tem!

    Lembra uma dansa
    O som do tear,
    De um sapatear
    Que jmais se cansa;
    Mas que  a bonana
    De um ditoso lar.

    Fosse eu a trama
    Da sua urdidura;
    Como o fio se acama,
    A sua ventura
    Seria segura;
    Feliz de quem ama!

    Cresce tanto a pea
    D'este branco panno,
    Que, com esta pressa,
    Se me no engano,
    Ainda este anno
    Cumpre-se a promessa!

Viriatho sorriu-se para o velho endre, que o comprehendeu, e proseguindo
o caminho, acharam-se naturalmente fallando no casamento de Lisia.

Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na regio
do Durio; seguiram pela margem direita, at chegarem  povoao de
Linhares, aonde repousaram. Alli, na voz do povo, ouviram fallar dos
Thezouros encantados, que estavam escondidos no fundo de uma caverna
escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande
numero de Quadrados magicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna!
Os que l entram, se no ficam alli immediatamente paralysados com um
somno lethal, ou perdem a falla ou cem-lhe os dentes!

Apesar de todos os terrores, Viriatho e Idevor, logo ao nascer do sol,
caminharam para a margem do Durio. D'ahi a meia legua, avistam,
sobranceiro de um precipicio a uns vinte passos do rio, o enorme
penhasco, que o vulgo saudava com o verso: A Pedra sagrada da esperana
do povo. Ninguem sabia o que significava uma tal saudao. Idevor era o
depositario d'esse mysterio do passado.

Perto j do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu
Viriatho para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez
covados, e de quatro de largura, e ahi contemplaram patentes os
Quadrados, formando como pequenas janellas, com traos encruzados, e
enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras
se renovavam todos os annos, no como da quadra estival.  certo que os
Quadrados estavam agora bem visiveis, e at se lhes notavam cres.
Idevor, contemplando aquelles caracteres indecifraveis, disse para
Viriatho:

--Esses Quadrados que vs, so como as _Lettras runicas_, que os nossos
antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram
_Ogum_, nome que se aproxima dos _Kova_, ou os hieroglyphos de um povo
amarello do extremo Oriente. Com o movimento das raas, esses caracteres
gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de arvores, a que
chamaram os _Bastes dos Poetas_; muitas vezes porm, nas largas
narrativas historicas, esses bastes runicos baralhavam-se, e para
restabelecer a sua ordem chronologica, ou as sries das Triades, era
necessario ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a
disposio primitiva d'esses traos ou letras.  o que acontece com este
rochedo que est diante de ns; repara bem: esses Quadrados gravados na
pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispr os Bastes
runicos, nos quaes esto escriptas as tradies da Lusonia.

--E aonde esto depositados esses _Bastes dos Poetas_?

--Dentro da Caverna a que se sobrepe este penhasco. Mas, antes de tudo,
repara para estes Quadrados: uma linha figura o tronco da Arvore de
Ogham, e como ramos d'ella, cruzam-se outras linhas, que se distinguem
umas das outras apenas pela posio e agrupamento: a primeira letra 
figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois
travesses, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado
opposto ao primeiro grupo, recomea-se da mesma frma os caracteres, do
segundo grupo de letras; no terceiro, os traos so prependiculares ao
tronco; e no quarto esses traos so transversaes ou obliquos.

Os nomes d'essas vinte letras  tomado da arvore cujo nome comea pelo
som d'essa letra;  por isso que o termo _Feadha_, a planta, a arvore, a
floresta, significa tambem o symbolismo alphabetico, a sciencia, e o
vate ou _Faethiste_. Se no fossem os caracteres que ahi vs inscriptos
n'esse penhasco, seria impossivel conservar a ordem dos _Bastes dos
Poetas_, em que est escripto o Poema de seis mil versos, que se guarda
ahi dentro da Caverna.

E Idevor mostrou a Viriatho a ordem alphabetica, ou _Beith-Luis_, na sua
successo ogmica: *b*, *l*, *f*, *s*, *n*, *h*, *d*, *t*, *c*, *q*, *m*,
*g*, *ng*, *st*, *r*, *a*, *o*, *u*, *e*, *i*.

Era n'esta ordem que deviam ser dispostos os Bastes runicos. Idevor
procurou a entrada da Caverna, que era um pequeno corredor de accesso,
na vertente do despenhadeiro, que ia dar a um recinto ou vasta camara
revestida nas paredes e tecto por infiltraes stalactilicas. Parecia um
hypogeo sepulchral, a que as concrees stalagmiticas davam o aspecto de
estatuas mortuarias, envolvidas em sudarios brancos.  medida que os
dois peregrinos avanavam pela assombrosa camara, os rumores dos passos
resoavam por outras galerias que se succediam apenas separadas por
grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaarem aves das trevas,
que alli hibernavam, e que para os crdulos pareciam as almas dos
antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaos de silex,
machados de pedra, ossos de animaes que pertenceram ao clima glaciario.
Avanando com precauo, Idevor chegou  entrada de uma segunda camara,
mais vasta e esplendida, pela sua estructura trabalhada pelas
infiltraes das aguas; era allumiada por uma fresta aberta nas fendas
da rocha, e ahi existia ao centro um bloco despegado do tecto da
caverna, formando uma ampla meza aquella lagem de frma arredondada. E
em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras,
como se fossem assentos patriarchaes; sobre ellas estavam estendidos, 
maneira de feixes de setas, os Bastes runicos, a que Idevor por vezes
alludira. O velho endre fallou para Viriatho:

-- n'estas varas que est escripto o _Poema da Lusonia_.

E foi tirando pela ordem ogmica os Bastes e collocando-os
combinadamente sobre a grande meza central; todos esses feixes formaram
outros tantos Quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa
do Penedo do Cacho da Rapa. E depois de se acharem todos dispostos
convenientemente, disse Idevor:

--Agora posso lr o velho Poema da raa de que provimos, e em que se
encerra o destino da _Lusonia_.

Viriatho approximou-se respeitoso, exclamando com jubilo:

--Esse Poema nacional  o verdadeiro _Thesouro do Luso_. O conhecel-o
enche todas as minhas ambies.

E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os Bastes
runicos em que se continham os seis mil versos da _Epopa da Lusonia_,
observou:

--Levaria muitas horas a leitura ou recitao pausada dos versos d'esta
Epopa; para o caso que nos interessa n'este momento basta um resumo
claro e verdadeiro. Escuta pois o Argumento da


EPOPA DA LUSONIA

Um grande Mar glacial cobriu a Europa, a partir do plo at ao Ural,
estendendo-se pelos territorios hoje occupados por naes, que
levantaram dolmens e construiram muralhas e cidades com os blocos
erraticos arrastados pelas neves, que deslisavam das altas montanhas.

As neves eternas, descendo dos montes da Europa occidental, foram
espalhando em uma marcha lenta, que durou seculos, essas morenas, que
bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano atlantico, onde se
desaggregaram das geleiras. Todos os grandes valles foram atulhados de
gelos, trasbordando sobre as planicies. Dos montes da Europa central se
estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as especies
vegetaes, e repellindo diante de si os animaes gigantescos, que se
refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, no
cobertas pelos gelos, conseguiram viver alguns animaes e pequenos grupos
humanos, em uma lucta com a intemperie da natureza; apparecem estaes
humanas nas Gallias, Britania, Italia e Germania, e n'essas zonas
exundadas  que se foram creando as raas da Europa, que se iam
constituindo em Naes poderosas, com as suas linguas diversas, seus
costumes, religies e sociedades differentes: taes os Hyperboreos,
formados pelos Proto-Scythas, Scythas, Sarmatas, Parthas, Germanos,
Gaulezes e Bretos. Elles conheceram a grande Constellao austral da
_Ursa_, e iniciaram os trabalhos da Agricultura e da Navegao.

As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que
pucham os carros pesados chamados _Teriones_, foram designadas
_Septemtriones_. O homem representou no co os actos da sua vida
terrestre: o Sol fecundante da estao estival foi representado como o
_Touro_, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovo
_Tarana_, como do touro que berra. E a navegao, que se fazia de uns
para outros lagos, era tambem completada transportando os _Teriones_ as
barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa frma dupla
de Navegao a esse povo aventureiro os _Gansos_, ou _Liguses_, os patos
dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raa de
Navegadores, os _Liguses_, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas
maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo
Atlantico e atravs da Europa os blocos de _Ambar_ amarello, e o estanho
das ilhas Cassitrides.

Esses Povos da regio septemtrional da Europa, que se chama a
Scandinavia, viveram longo tempo s bordas do mar, e foram conhecidos
pelo nome dos _Homens da Agua_, que em suas linguas se exprimia pelas
palavras _Soma-lassed_, _Sabme-lassed_. Pela orla occidental da Europa
esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regies de Hibernia, da
Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da _Lusonia_ ou
terras de Lez, que se denominaram Anda-_Lezia_, Cale-_lezia_ e _Lusi_tania.

Pela sua audacia aventurando-se na explorao do Mar tenebroso, as
outras raas chamaram-lhes os _Atlantes_, de Atl, o nome da agua; e nas
suas rascas ou barcas de duas pras, ajudadas a remos, a que chamaram
Kamares, estenderam as suas expedies pelas Ilhas perdidas no meio do
Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar
em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo
at ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram at  Chalda, e 
India.

Esses Povos ribeirinhos, ou de _Lez_, e propriamente maritimos ou
Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu
Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellaes observadas no Anno
sideral, at esses Povos da America, do Egypto, da Chalda e da India.
Foi por isso que o Symbolo do _Touro_  adorado no Egypto com o nome de
Ser-Apis, e na frma _Shor_, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome
de _Tauro_ o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse
Symbolo da Constellao do _Touro_  que a Civilisao da raa
iniciadora dos Ligures se denominou _Turana_; todos esses Povos do
Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evoluo
millenaria dos Equinocios, o Signo do _Touro_ deixou de coincidir com o
como do Anno estival.

Contra a Raa ligurica veiu do Oriente a presso de outros Povos. As
gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra,
reagiram contra a representao do Fogo terrestre ou o _Touro_, morto
por Mithra, ou contra o _Turan_. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos
Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos,
foram gradativamente atacando a raa dos Ligures, e pelas invases por
terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a
Civilisao dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa
quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na
da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade
glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas
louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os
Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegaes atlanticas pela
pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as
temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das
Civilisaes militares fizeram esquecer a civilisao agricola e as
Navegaes dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma
separao, e esqueceram-se de que eram solidarios na Histria.

Uma trva immensa cau sobre o mundo depois da ra glaciaria; a fora
bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastao e de conquista
sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Misso civilisadora dos
Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chalda, na India, ficar
interrompida para sempre?

Diante da extenso e perstigio dos Imperios militares, parece que a
aco da fora bruta  definitiva. Mas, a Raso e a Paz hode triumphar
um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o
Oriente.  essa a misso e o futuro glorioso da Lusonia.

Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raa dos
Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas,
Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia atravs de todas
as crises reorganisar-se outra vez como Nao, e o seu poder derivar do
regresso  primitiva capacidade da raa: Recomear as grandes
Navegaes do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a
America; fundar um vasto Imperio na India; dominar na Africa; e
primeiro que nenhum outro povo circumdar a Terra, affirmando outra vez
a supremacia pacifica como destino da Civilisao occidental. Sustentar
a autonomia da Lusitania  impellil-a para a realisao d'este
incomparavel destino,--alargando pela actividade pacifica a antiga Liga
hanseatica n'uma Confederao das Gentes, na solidariedade humana.



Dentro da Caverna do Cacho da Rapa ia escurecendo; estava j terminada
a leitura ou exposio do Poema. Viriatho, cheio de esperana no futuro
da Lusitania, exclamou:

--Este ideal d vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel.
Agora j posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradio
sagrada, a minha ignorada sepultura.

--Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda no
te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastes dos Poetas,
ou _Sagitas_, que se arrojam ao r, e conforme cem voltadas para o
Oriente ou para o Occidente, assim nos do os Pre-_Sagios_ venturosos ou
aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel _sagacidade_: revela-o a
seta, que equilibrada sobre um ponto, trmula, oscilante, indica a linha
do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as _Sagas_ das
Tradies dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros--por Mares
nunca de antes navegados!--Pela posse d'essa Vara chamada a _Seta de
Ouro_, realisar a Lusonia o seu alto destino.

E  medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder
de vista o penhasco das inscripes mysteriosas:

--Agora comprehendo eu o verso da saudao: A Pedra sagrada da
esperana do povo.




XLVI


A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para
dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de _Achale_, e j
sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia
apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia
entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de
Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:

--Agora, que j temos uma patria livre, tambem quero render culto aos
meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa
filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo po
diante do mesmo fogo.

Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e
chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre
Redonda, proferiu a frmula sagrada:

--Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar
paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperana.

E pegando em Lisia pela mo, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a
da religio domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo
culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos
olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia
resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas,
banquete e recitao de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial
consuetudinario do casamento.

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido;
sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida
cavalgada que tinha de conduzir a noiva pz-se a caminho. Lisia, vestida
de branco e com a lunula de ouro na cabea, coberta com um vo, ia em um
carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E
adiante caminhava um arauto levando um facho accso, que como symbolo
nupcial dava  cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o
percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte
vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com
flres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabea,
augurando felicidades.

Ao aproximar-se de Viseu, tres raparigas robustas e esbeltas, trajando
vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram collocar-se diante
do carro de Lisia, e foram seguindo-a cantando-lhe uma Cano de marcha
nupcial. Pelas suas vozes, como excellentes cantadeiras, bem conhecidas,
espalhavam alegria em volta de si; eram Caenia, Aponia e Nilliata, de
que Viriatho se recordou com jubilo. Fra ao subir da serra dos
Herminios que ellas lhe fallaram de Lisia, e  com o mesmo encanto que
agora entam a

    *Marcha nupcial*

    Bem vindo o par ditoso
    Para a nova morada!
       Do amor o lao forte
       No o desata a morte.

    Pelo brao do esposo
    L vem a bem casada!
       Lao que a unio celebra,
       Nem mesmo a morte o quebra.

    Como ao tronco ramoso
    A vide entrelaada,
       Que outro lao mais ata?
       O filho que os retrata.

    Que encontre infindo goso
    N'esta unio consagrada
       O par, que vem sorrindo;
       Par ditoso, bem vindo!

Estava a terminar o trajecto festivo, e comeava a terceira parte da
cerimonia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se
fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ella tocasse com os ps no
limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto domestico pela
sua auctoridade de chefe da familia, que assim a iniciava por sua
vontade. Era ahi que devia ser partido o po entre ambos, diante do fogo
do lar, bebendo n'essa communho para a vida e para a morte, unificando
as almas por um sacramento indissoluvel. Passou-se rapidamente este
acto, porque era immensa a multido de gente de todas as terras da
Lusitania que esperavam os noivos na Cava de Viriatho aonde se formra
um esplendoroso arraial, em que se expozeram todas as riquezas naturaes
e industriaes da terra.

Alli se encontravam os Chefes das Contrebias, acompanhados dos seus
ambactes, com os presentes offerecidos aos noivos.

Conheciam-se logo entre a multido jubilosa os principaes chefes dos
Castros e Citanias da Serra da Estrella; e diziam os curiosos:

--Olha o chefe do Cabo do Crasto de Torvosello! E o do Crasto de
Tintinalho? O do castello de Reigoso!

--No faltou o Chefe do Cabo de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de
Verdolhas, e de Tabeir.

A gente de Traz os Montes tambem reconhecia os seus chefes:

--L est o de Castro de Avels. Olha o de Formil! Mais o de Fervena.

--Tambem o de Castro Samil! E o de Lambeiro branco! o de Soutello.

--Mais o de Rabal; e o de Alfaio.

A gente do Alemtejo mostrava certo orgulho ao apontar para os seus
chefes da Orca, de Castro Verde, da Colla, de Castris.

Do norte, da regio callaica, viam-se os chefes das Citanias, como os
das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Cora de Amonde; e o
do Mrro de Affife; o do Castrello de Neiva; o de Monte Ferroso; de
Lando, Guifes, da Roboreda. Era uma homenagem unanime de sympathia, de
reconhecimento a Viriatho pelo exito da violenta campanha de libertao
da patria commum.

Com as festas que por toda a Lusitania e Celtiberia se fizeram ao
conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os
homens que ha tantos annos andavam na guerra da independencia, coincidiu
tambem a noticia de que em breves dias seria celebrado o casamento de
Viriatho com Lisia, a virgem semnotha, aquella que sempre vaticinra a
liberdade da Lusitania.

Assim, cada uma das terras que contribuira com tantos sacrificios para
coadjuvar Viriatho no castigo da infamissima e sanguinaria perfidia de
Galba, resolveu mandar uma deputao para a representar nas festas
nupciaes do valente Caudilho. Essas deputaes eram formadas de moos e
raparigas, vestidos com os trajos das suas provincias os mais vistosos e
caracteristicos, que iriam fazer os cortejos do esposo e da noiva, e
alegral-os com as suas dansas e cantares, durante os dias das bodas e
tornabodas; iam tambem os homens bons ou antigos com os presentes de
bois e novilhos, de vinho, cereaes, fructas e sequilhos, para que a nova
familia se iniciasse pela abundancia; e as mulheres, as mes, que fiavam
no lar, offertaram tambem as suas grandes tas de panno de linho e
bragal, meadas de linha alvissima e fina, boies de mel, e aves sem
conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuio nacional
espontanea quelle que soubera unir as populaes dispersas no mesmo
sentimento de uma Patria livre.

Para a cidade de _Vacca_, fundada pelos Turdulos, que est proxima das
fortes muralhas da Cava aonde Viriatho no anno DCVIII derrotra o Consul
Nigidio,  que se dirigiram todas as deputaes para as festas do
casamento do Caudilho. Alli, n'aquella cidade, junto do rio Vaccua,
costumava Viriatho recolher-se temporariamente das fadigas da guerra;
era alli que tencionava viver tranquillamente o resto de seus dias no
remanso do lar com a adorada esposa, Lisia, que tanto o fortificra pelo
ascendente moral e confiana no futuro da Lusitania.

Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moos  frente de Viriatho, que
iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de _Achale_,
acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as
cidades lusitanas l reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava
punham-lhe arcos de flres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos
e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de
trigo, cantando seguidilhas de felicitao e augurando venturas.

Quando o cortejo chegou  margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se
mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia
era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com
presteza, e como por encanto lanando o brao em volta da cinta de
Lisia, levantou-a do cho para cima do seu cavallo branco, partiu 
desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram
apoz elle, mas quando chegaram  cidade de Vacca j encontraram Viriatho
e Lisia juntos no balco de pedra que dava entrada para a casa que fra
construida para habitao dos noivos.

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de
dourados cachos de uvas, comearam os cantos e dansas; e depois da
chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho
endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou
aquelle consorcio unindo-lhes as mos. Ento, de brao dado, os dois
esposos dirigiram-se  Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam
expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos,
objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populaes
lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa
assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem
explicava a confiana com que  sua bravura tinham ligado os seus
destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.

Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos
os presentes, que representavam as riquezas das regies lusitanas.
Reconhecia-se a regio do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela
abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do vero, pelas
excellentes castanhas. A regio montanhosa da Beira Baixa e
Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas
pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A
regio central da Extremadura at ao Tejo, mandava das suas extensas e
ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite
cordovil e vinhos generosos. A regio do sul, Alemtejo e Algarve,
appresentava o trigo de inverno, os figos sccos, tamaras, alfarrobas e
castanhas piladas, e porcos de uma creao afamada.

Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, no pde olhar
para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar
quanto devia s suas qualidades de resistencia excepcional. E
conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:

--Este typo _galleziano_, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes
ao trabalho,  commum ao Minho, s Asturias, Vasconia e Navarra.

--E estes mais corpulentos, com grande aptido para o trabalho de carga
e de tiro, frmam uma _variedade castelhana_, que se encontra ahi pelo
Minho, Traz-os-Montes e Beira.

--C para mim, o typo da minha paixo  o betico-lusitano! Estes
cavallos das provincias do sul, so elegantes de frmas e de postura. 
olhar para essa raa de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo;
incomparaveis.

Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da
Msta, grandes manadas de bois vieram  feira apparatosa, na
representao de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente
diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com
os chefes das Contrebias as differentes raas.

--Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto  que  proprio para
trabalho! as vaccas so extremamente leiteiras. Quem no reconhece
n'este gado o Minho e a Galliza?

--Tambem pertence a esta raa galleziana, o barroso, l do Gerez.

--Estes so da raa Maroneza, robustos, ligeiros, firmes no passo. So
ahi das regies visinhas do Durio.

--Aqui agora os da raa mirandeza;  a que se acha mais espalhada, por
Traz-os-Montes, grande parte da Beira e da Extremadura. Tambem por aqui
se vem as suas variedades, a _braganceza_, a mirandeza _ribeirinha_, a
_extremenha_. Isto sim, que  raa para trabalho violento!

-- por isso que se tem propagado tanto.

E proseguindo n'este passeio pela Cava, Viriatho e os chefes das
Contrebias foram notando os bois de _Arouca_, excellentes, soffredores,
de Lamego, Caramulo, predominando entre o Durio e o Vaccua. E elogiaram
a raa _ribatejana_, brava para campo e corridas; a _alemtejana_ e a
_algarvia_, docil, sobria, cr de castanho claro, e propria para
trabalho e engorda.

E na grandiosa feira em que se representava o genio de cada provincia,
viam-se tambem as raas ovinas, a _bordaleira_, que predomina do Minho
at ao Tagus; os _merinos_, de Campo Maior e Marvo, Moncorvo,
Mirandella e Villa Flr; e as _estambrinas_. Estavam alli as cabras da
Serra da Estrella, do mais bello plo longo, e as de plo raro, todas
muito leiteiras. E os porcos _Bisare_, do Minho, Traz-os-Montes e Beira;
com os do Alemtejo, Extremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados
_Romanice_.

Via-se alli representada a alfaia agricola, que estabelecia uma
transio para os productos industriaes. Era um encanto examinar a
perfeio dos arados, cangas, carros, engaos, sacholas, clhas, concas,
crivos. Destacavam-se mais adiante as louas de barro, de argilas
ocreas. Nos trabalhos textis, as linhas ou fios de cozer em meadas
alvissimas e novellos; rendas, cortinados, adamascados; as ls de
Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, pannos, de
trabalho domestico do Algarve: os bureis e batas listradas, da Covilh
e de Viseu.

Mas o que mais attrahia a atteno de Lisia eram os trajos lusitanos,
que davam ao arraial um fulgor pittoresco, de cres e talhos: a Capa de
honra, de Miranda; o Gabinardo de Nisa; a Capinha de Barroso e Sobreira;
a Castreja de Laboreiro; a Jangadeira de Anha; a Camponeza de Perre,
Areosa, Meadella e Ovar; a Ceifeira alemtejana, maiata, poveira; era um
espectaculo commovente.

Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lisia e offertaram-lhe com
alegria presentes especiaes: a roca de freixo ruge-ruge cheia de
ornatos; aventaes de Vianna; lenos bordados, segundo o costume, pelas
noivas de ao p do rio Vaccua; rendas de malheiro, de Aveiro, Setubal e
Lagos, e rendas de bilro de Vianna, Villa do Conde, Peniche e Setubal.

As mulheres mais abastadas tambem lhe offertaram peas de ouro e prata
feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fanzeres; eram argolas de beira
lisa, arrecadas, botes de amoras, brincos fusiformes, laas, coraes
de filigrana de ouro.

Foi alli dentro da Cava que se armaram as mezas para o festim nupcial;
alli estavam as pipas do vinho palhete, e as fructas com abundancia. A
variedade dos trajos e as physionomias dos individuos que representavam
a nao desde os Gallaicos at aos Cuneos, davam uma impresso viva e
sympathica de um forte povo que tinha uma feio propria, e que queria
viver livre. As dansas eram continuadas, simulando combates, e saltos
espantosos. Homens e mulheres frmam bandos, em frente uns dos outros,
alternando os versos da Cano, e um Cro dos homens antigos que as
presenceavam  que ia repetindo o refrem, em que soava o nome de Viriatho.

Foi  meza do banquete, que Viriatho se ergueu, junto de Lisia, e
tirando do seu pesco a Viria ou Collar de ouro do commando, que at
quelle dia trouxera, o collocou no pescoo da formosa esposa, abdicando
alli deante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado, e
confinando-se na vida pacifica do lar. D'alli em diante o symbolo da
guerra ficava uma joia, adorno da graa feminina; e a arma tornar-se-ia
utensilio de trabalho.

O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava,
que era n'aquelle momento um arraial pacifico, nunca visto.  medida que
os grupos se iam levantando da meza, na planura vasta da Cava
desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulao, os saltos, os
sarilhos, as luctas athleticas, e ouviam-se brados acclamatorios:

--Viva a Callaecia!

--Viva a Vettonia!

--Vivam os Carpetanos!

--Vivam os Oretanos!

--Viva a Beturia!

--Viva a Cynesia!

N'aquelle momento Viriatho ergueu-se com uma taa de vinho rubro na mo,
e unificando todos aquelles gritos, que representavam o espirito
separatista das differentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora
acostumada ao commando:

--Viva a Lusitania!

A vibrao d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio
indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos,
provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra,
distincta e magestosa:

--Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.

As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca
deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram
accumulando na Cava. No meio d'aquella multido alegre levantou-se um
rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco
campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas
regueifas de trigo, e em volta do pescoo grinaldas das mais
rescendentes flres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas
festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua
manifestao cultual. Por onde o touro passava, uns lanavam-lhe flres,
outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multido
seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a
Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam  apparatosa
cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:

--Explicae-nos o sentido religioso da _Festa do Touro_. Porque  que
encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses
de Guisande? Que sentido historico ter a lenda do combate de Mithra com
o Touro atravessado pela sua espada, como se v insculpido em tantas
rochas e monumentos?

Idevor accedeu promptamente ao empenho:

--Um povo, que habita na latitude em que _o maior dia do anno  o dobro
do menor dia do inverno_, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos
trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe  mente
como o Touro celeste: e no comeo do Anno solar, na efflorescencia
estival, symbolisou essa Constellao pelo signo do _Touro_, a fora
geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do _Touro_,
conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expresso de
um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adorao. O nome de
_Thor_, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o
_Touro_, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que
invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo.
_Thor_, o chefe de todos os deuses scandinavos,  representado com um
sceptro com cabea de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram
tomados d'este symbolo do _Touro_, como o monte Tauros, o _Darana_, ou
Atlas, os Tourisci e Taurini, e a regio da Taurida. A Civilisao
d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe _Turan_,
pela representao do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro
Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Co as Estaes solsticiaes
e equinociaes.

Contra esta civilisao do Occidente, que divinisra o Fogo material do
Sol, no _Touro_, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro
cercado de raios luminosos, Mithra, o _Fogo vivente_ e espiritual. A
lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra
atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da
civilisao militar sobre a civilisao agricola, sacrificada diante das
invases da fora armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas 
Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o
Touro, que representava as foras impetuosas da Natureza.

Mas, apesar d'esse triumpho, podemos exaltar o Touro na sua morte, como
no velho hymno:==Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a
terra de verdura; do seu sangue vem o _vinho_, que produz a bebida
sagrada dos Mysterios, e dos seus tutanos o trigo que d o alvo po; do
seu espermen derramado provieram todos os animaes uteis.==O _Touro_ ser
vencido pela _Espada_, mas esse triumpho s ficar effectivo quando os
vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem
estradas e coadjuvarem pelo commercio a confraternidade dos Povos. Ento
a _Espada_ desapparecer, para que a _Cornucopia_, esse emblema da Fora
do Touro, seja o symbolo da Abundancia e da riqueza inesgotavel,
restabelecendo no mundo a supremacia do Occidente.

Mal acabra Idevor de esboar o poema que se recta em Hierna, do Touro
ou _Tarvos_, defendido pelas arvores cortadas para no ser agarrado,
quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distancia. Era um
desafio de bebedores:

Ganhava a palma o que bebesse de um s folego um grande cangiro de
vinho.

S um vencera, sendo por isso acclamado com a gargalhada estrondosa.
Viriatho olhou, e reconheceu Bovecio.

--Bovecio! que eu vi hydropico, e que est agora so como um pro, e faz
d'estas valentias!

Acenando-lhe com amisade, Bovecio veiu respeitoso, e murmurou submisso:

--Bebi na fonte de Ouguella. A vs, senhor, devo eu a saude e a vida.
Por vs a sacrificarei com orgulho.




XLVII


Estavam as festas do casamento no auge do fervor, quando se aproximou de
Viriatho Tantalo, que chegra repentinamente, e lhe communicava:

--Emquanto Quinto Pompeu Rufo est dirigindo o ataque contra os
Numantinos, Quinto Servilio Cepio destacou-se do exercito romano, e
descendo com algumas Legies para a regio Occidental da Hespanha,
rompendo hostilidades, quebranta assim o Tratado de Paz ratificado pelo
Senado! Acompanha-o Decio Junio Bruto, o que quer dizer, que  uma
campanha em frma.

Viriatho encarou Tantalo com assombro, por vr que a infamia de Cepio
era to clamorosa como a carnificina feita por Galba, e apenas proferiu
a phrase:

--Ainda tenho a minha espada!

E aproximando-se de Lisia, tomou-lhe as mos com anciedade:

--Vou partir. Sou informado n'este momento que o Consul Quinto Servilio
Cepio opra com um exercito entre a Oretania e a Carpetania! Tenho de ir
sustar de prompto a este perigo, e impedir a deslealdade do Consul.

E aproveitando aquellas ultimas horas da festa do seu noivado, chamou os
Mil Soldurios que o acompanharam sempre durante os dez annos de campanha
contra os romanos, para que passassem palavra a todos os que alli
estavam, representantes da Vettonia, da Carpetania, da Oretania, da
Callaecia, da Beturia, da Cynesia, para que partissem para as suas
terras, que referissem a infamissima deslealdade de Cepio, e que
tivessem promptos para a primeira chamada os Teros e Companhias com que
faria frente ao Consul indigno que assim rasgava um Tratado solemne.

E depois de ter beijado a face de Lisia, n'uma despedida muda mas
melancholicamente expressiva, seguiu em marcha com os Mil Soldurios,
avanando em direco aos Vettes para formar o seu primeiro nucleo de
resistencia.

Corriam a trote largo, quando ao passarem por um rio, em que os cavallos
foram dessedentar-se, uma pobre lavadeira que estava ahi  beira d'agua,
fitou Viriatho com um olhar compassivo:

--Como uma festa to alegre do feliz casamento se interrompeu, sem
ninguem tal cuidar!

Os Soldurios no fizeram reparo do que dizia a pobre mulher, que lavava
 beira do rio; continuou murmurando:

--Elle _no morrer em batalha_, isso  bem certo! Lisia ficar sempre
noiva.

Em breve os cavalleiros se afastaram da margem e precipitaram a
carreira, seguindo Viriatho na frente, com a impaciencia de ir
defrontar-se com o perigo. E a obscura mulher, continuando a lavar 
beira do rio, fallando comsigo, sem ser ouvida por ninguem, dizia na sua
credulidade:

--Na minha choupanasinha eu tinha dependurada a _Boliana_, para me
revelar a sorte de Viriatho. Emquanto Viriatho andou dez annos a fio nas
guerras contra os Romanos, a Boliana estava sempre verde. S de hontem
para hoje  que reparei que a Boliana emmurchecia. Estou a vr o seu
destino; mas a Espada de Viriatho  invencivel! e Viriatho no morrer
em batalha! So a favor d'elle os agouros... s a Boliana  que est
emmurchecendo.

Ia a perder de vista a cavalgada, e lanando-lhe um olhar demorado,
murmurou a pobre mulher antes de continuar no seu trabalho:

--Esto-me a lembrar agora aquellas palavras da Cano do noivado!
Fallavam de morte, no meio de tanta alegria; no fui eu s que o notei,
quando cantaram:

    Lao que a unio celebra,
    Nem mesmo a morte o quebra.

O povo tem a intuio das cousas; na sua inconsciencia apparece por
vezes como vidente.




XLVIII


Cepio, por cumulo de sua perfidia, sabendo que o exercito de Viriatho
fra licenceado e que os Teros e Companhias tinham regressado s suas
terras e provincias, levou o descaro affrontoso a talar o solo da
Lusitania para se encontrar com Viriatho desarmado.

No seu caminho, Viriatho topou com multides de gente foragida das
cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Servilio Cepio.
Vendo-o passar, em grandes alaridos pediam soccorro, que acudisse a
tamanha calamidade; por que o Consul Cepio j estava alli perto, e
forra, com medonhos suplicios, alguns aldees a declararem o caminho
que Viriatho seguira, contando agarrar o general lusitano.

Viriatho, encobrindo a surpreza da noticia, e diante do perigo, resolveu
o plano a oppr-lhe: retirar-se para o paiz dos Vettes, aonde tinha
gente firme e da maxima confiana. Era-lhe facil ahi um levantamento em
massa. E para no perder tempo, mandou emissarios aos Gallaicos, para
acudirem ao attentado inqualificavel com a maior presteza, porque desde
o crime de Servio Sulpicio Galba, no se vira perfidia mais clamorosa
como esta agora de Quinto Servilio Cepio.

No emtanto, o Consul procurava com o seu exercito Viriatho, e sabendo
que elle est prximo da Carpetania, com homens recrutados pelo caminho,
mal armados, com foices roadoiras, machados, chuos e mangoaes, entende
que  essa a melhor occasio de atacar o caudilho lusitano e libertar o
dominio de Roma na Hespanha d'esse libertador patriota. Diante de um
exercito assim consideravel como o de Cepio, Viriatho, com um tino
pratico imcomparavel, reconheceu que seria rematada loucura acceitar
batalha em condies de tamanha desegualdade. E tirando da propria
difficuldade do momento os recursos para uma inesperada defeza,
descobriu no terreno aonde todo o exercito se perderia um ponto de que
soube aproveitar-se para a salvao. Recuando para um valle profundo,
para o qual dava entrada uma garganta estreita, por alli fez passar a
pouca tropa de que dispunha, embaraando com os seus Mil Soldurios, que
o exercito romano se aproximasse e o envolvesse. Durante esta passagem
para o valle amplo, os Cavalleiros simulavam movimentos como quem se
preparava para uma batalha campal; e os Romanos suspeitando que Viriatho
os attrahira para alli, porque teria no valle um consideravel exercito
sobre que se apoiava, fizeram alta, temerosos da cilada, porque viam
atravs da estreita garganta estendidos ao longo do valle negrejarem os
vultos dos Teros lusitanos.

Viriatho prolongou esta situao espectante, para dar tempo a pr fra
de perigo as pequenas foras do seu commando. Conseguido isso com a
maior felicidade, Viriatho, a um signal dado, dispersou-se com os seus
Soldurios com uma rapidez inacreditavel, desapparecendo por entre os
anfractuosidades do terreno com surpreza dos romanos, que debalde
tentaram irem no encalo d'elles em perseguio. Cepio, desesperado por
aquelle acto heroico de Viriatho, que assim lhe patenteava a sua
superioridade militar, avanou pelo territorio dos Vettes,
queimando-lhes as ceras, derrubando os casaes isolados e pondo a saque
as povoaes, passando  espada todos os que encontrava armados, dando
caa s guerrilhas que procuravam juntar-se a Viriatho.




XLIX


A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoaes inermes,
chegando a mandar expr nas praas pregados em cruzes os lusitanos que
lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forando-o a
um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:

--Aos estragos que Cepio est praticando, no sendo possivel oppr-lhe
j uma fora armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre
oppr-se-lhe n'este momento a fora moral.

--A fora moral? Objectou Minouro.--Em que consiste n'este transe a
fora moral?

--Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz
assignado por seu irmo Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo
Povo. Que pela nossa parte ainda o no infringimos, e que acreditamos na
fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que
tres dos meus mais leaes Companheiros vo d'aqui ao acampamento de Cepio
mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que  magestade d'elle
entregamos a nossa defeza.

E voltando-se para Ditlcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam
silenciosos, disse-lhes com voz firme:

--A vs, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao
arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem
dos Lusitanos; e em seguida s declaraes de confiana no Tratado de
Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado
entre Roma e a Lusitania.

E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a
Ditlcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para
o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho,
por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenes
pacificas. Os tres companheiros iam conversando:

--Viriatho, com certeza, no sabe quem  Cepio, um dos maiores devassos
de Roma? E  com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em fora moral!

--O Consul no perde esta occasio; e bem tolo ser se a no aproveitar
para vingar seu irmo Serviliano, forado por Viriatho a assignar esta Paz.

--So passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que no temos gente,
e carrega sobre ns a valer. Oh, se carrega! Nem fra elle to estupido
como general para cobrir a sua inepcia com este lance.

--Pde ser que as passadas no sejam perdidas! Porque Cepio  homem para
entrar em negocio...

--Em negocio?

--Ha s vezes combinaes imprevistas, que do novo rumo aos
acontecimentos.

--E esta occasio  asada para isso.

--O ponto est em sabel-a approveitar habilmente.

O dialogo entrecruzava-se, quando Ditlcon, Andaca e Minouro chegaram ao
acampamento romano. As vedetas e guardas avanadas avisaram de prompto;
Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem at  sua barraca os
parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham
annunciar-lhe a rendio do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese,
que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade
militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em
campo aberto. Porm Cepio afastando da mente esta conjectura que no
lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:

--Se me apresentarem um tal dosto, recusarei dizendo: Que deixo esses
combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do
povo, sempre vido de divertimentos.

E mandando entrar  sua presena os tres parlamentarios, divisou-lhes
uma expresso de quem antes de fallar j se entendia.




L


Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um
sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:

--Direis a que vindes.

--Envia-nos Viriatho.--Assim comeou Ditlcon, o mais velho e
auctorisado dos companheiros.

--Ouvirei attentamente.

--Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e
generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, -lhe
moralmente impossivel, sem pcha de traio, o pegar em armas contra a
poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de
estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas
confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vs,
vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e
ainda agora atacaes violentamente os Vettes e Gallaicos, lembra que
existe o Tratado assignado por vosso irmo e ratificado pelo Senado e
pelo Povo romano, no qual est garantida a paz e tranquillidade da
Lusitania. Pedia pois...

Cepio, mal podendo encobrir a colera:

--No posso ouvir fallar n'esse Tratado _assignado por meu irmo_, sem
que o sangue se me revolva. Perco a cabea. Ha certas occasies em que a
honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingana. Esta  uma
das taes.

--Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vres...

Cepio tomou nas mos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os
tres com um sorriso acanalhado:

--Quando eu acompanhei  Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que est
combatendo diante de Numancia, no foi para vir tomar os bellos res da
Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.

--Violaes ento a auctoridade da grande e generosa Roma!?

--Quem vos auctorisa a to monstruosa suspeita?--redarguiu Cepio.

--A letra...

--Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu r pulha, que
combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com r
insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:

--Os Tratados s tm a fora que lhes do as Espadas. Bem vejo que
Viriatho no est bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o
Tratado. Mas o Tratado... o Tratado j no existe. Quereis saber? Aqui 
puridade, e s para ns...

Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados
pela confidencia que iria fazer-lhes:

--O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmo, assignando esse
Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a
faculdade de hostilisar Viriatho, mas smente hostilisal-o...

Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditlcon parecia
abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes
as mos pelos hombros, continuava:

--Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo
caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania.
Quereis vl-as?

--Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.

--Nem podia deixar de ser assim,--proseguiu Cepio com enfatuado
desdem.--Accusaro os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas
nunca de um governo estupido! Pois era l possivel que sustentassemos
uma guerra desesperada em Numancia, que pertence  primitiva unidade
lusitana, e que estivessemos de mos atadas na parte occidental da
Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para ns os romanos
nunca deixou de ser o _Dux latronum_!

--Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu
com assombro Ditlcon.

--Como acabaes de o ouvir.

--A nossa misso parece terminada,--disse Ditlcon, quebrantado o animo.

--No a considereis terminada,--interrompeu Cepio, tornando a approximar
de si os tres emissarios.--Alguma cousa bem combinada se poder fazer
ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?

--Queremos! accudiram os tres.

--A Paz da Lusitania, mas no a Paz de Viriatho! disse o Consul com
orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho  o unico
embarao d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerar a Paz
da Lusitania seno como uma affrontosa derrota.

--Mas Viriatho  querido do Povo, que o acompanha cegamente.

-- por isso que Viriatho  um perturbador. A sua obra  uma loucura!
Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificao de elementos de
raas ha tantos seculos extinctas, imaginando _Lusonios_, com quem nada
tm as geraes actuaes.

Ditlcon acenou com a cabea, em signal de adheso quella ideia. E o
Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:

--Ns no podemos andar aqui em balanos ao grado dos sonhos de
Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e
autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos no existem
fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios.  tempo de acabar
com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a
civilisao de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.

Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as
suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e j com r determinado a quasi
imperativo:

--Para attingir este grande ideal da civilisao romana, do direito, da
administrao, da ordem publica,  de fora que renegueis a Patria
lusitana.

E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para
elles:

--Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu
vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidados
romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da
Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...

Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenes de Cepio,
comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspenso silenciosa do
Consul:

--Effectivamente, Viriatho est-se tornando um embarao.

--Quando se chega a certo gro de popularidade, em dados homens torna-se
isso um perigo.

--Um acto decisivo vale por annos de lucta.

O Consul volveu ento com frieza:

--Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impe-se n'este
momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma d-vos o titulo de
Cidados romanos...

--Qual de ns ha-de...

--D-vos as honras do Patriciado.

--A morte de Viriatho impe-se...

--D-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de
sestercios.

--Tiremos  sorte quem hade matar Viriatho.

O Consul estendeu o seu capacete, lanando dentro d'elle tres pequenos
seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a
sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==




LI


Era noite velha, quando Ditlcon, Andaca e Minouro regressaram ao
acampamento de Viriatho. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha
imaginra, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou rases
politicas se debatiam na barraca do general romano, para l se deterem.
De vez em quando occorria-lhe a conjectura de que Cepio, no
reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentarios, os teria mandado
passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como
refens para lhe impr condies de rendio. N'esta prolongada
preoccupao de espirito, e sob a presso dos inesperados
acontecimentos, que s poderiam ser contrabalanados pela energia e pela
astucia, Viriatho cahiu em um somno profundo, como aquelle em que se
fica immerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o somno
era agitado, como em homem costumado a estar lerta mesmo quando
descansava; e n'essa agitao, debatia-se Viriatho com um pezadello, um
sonho, que sem differena e por fatalidade coincidia com o que estava
prestes a acontecer. Na agitao d'aquelle somno dormido sobre a terra
recalcada poucas horas antes pelos cavallos, Viriatho sentia os passos
dos seus tres Companheiros, que se aproximavam silenciosamente da
barraca em que estava dormindo; um d'elles, Minouro, afastou o panno e
entrou escondendo de traz das costas um punhal de dois gumes. N'aquella
anciedade cataleptica, Viriatho quiz erguer-se, gritar, mas era
impossivel qualquer movimento; em seguida entrou Ditlcon, e Andaca
ficou quasi da parte de fra, mas era ainda visto claramente. Sob o
terror do sonho que o opprimia, Viriatho viu Minouro curvar-se sobre
elle, e erguendo ao r o brao com o punhal descarregar o golpe...

N'esse momento de extrema angustia acorda, e entre a illuso e a
realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoo; antes que o
sangue lhe embaraasse a voz, Viriatho, abrindo os olhos attonitos, pde
proferir as palavras:

--O meu maior amigo? Minouro...

Os borbotes de sangue que lhe encheram internamente o peito e
respingaram pelos pannos da barraca, no deixaram que podesse mais
exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, at ao ultimo alento, passando
assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua
lealdade, no ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa,
que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.

A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurana; os tres Companheiros
da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens
recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram  desfilada
para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi
acordal-o, e dizer-lhe:

--Morreu Viriatho!

Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o
somno, deu ordem ao Cavalleiro:

--Que esses entes abjectos esperem l fora, at que seja dia.




LII


Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua
presena era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava
luminoso e sereno, no apparecera; como faltavam tambem os seus tres
Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer
algum fjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o
exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a
barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar
se estaria cahido por doena; o que estava mais perto levantou resoluto
o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da
relva, sobre pstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:

--Est morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!

Aquelle brado sou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o
r ambiente; o trovo foi o rumor propagado entre os Soldurios e por
entre os Teros e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de
Viriatho.

--Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!

Para a barraca do general correram todos aterrados. No compareceram
Ditlcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforo
reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores
amigos,  que o tinham apunhalado traioeiramente, covardemente,
emquanto elle dormia!

Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de
Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.

A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo
inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente
do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoo
dado por mo certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem
agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado,
estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel,
 qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e no se
atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mo, diziam entre si:

--Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho no morreu em
batalha; assim lhe estava vaticinado.

--Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixra no vago a hypothese
atroz, de morrer apunhalado  traio pelos seus melhores amigos!

--Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por
uma ideia, do que esta sorte miseranda.

E por todo o exercito, em grupos, que se formavam em tamanha desolao,
levantavam-se alaridos, prantos de terror e de magoa; bem reconheciam
que aquelle desastre era a perdio de todos, e que sem o chefe
prestigioso achavam-se  merc do Consul romano, e para muitos annos
abafada a resistencia da Lusitania. Na angustia em que todos se viam, a
pouca distancia do exercito de Quinto Servilio Cepio, o desespero da
situao causava uma apathia, uma obnubilao para planear a defeza
urgente.

N'este momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriatho,
chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e
collocando-lhe a espada entre as mos, cruzada sobre o peito, exclamou:

--Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada
transmittir o esforo, truncado pela traio, quelle que cedo ou tarde
servir a aspirao de uma Lusitania livre.

E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:

--O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo,  prestar a Viriatho
as honras do funeral.

Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior
solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se
cantos de acclamao triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:

--Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.




LIII


No arraial de Quinto Servilio Cepio a inesperada noticia da morte de
Viriatho propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os
Legionarios:

--Quem seria o valento que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquelle
colosso?

--Morreu em duello Viriatho!?

--S por traio...

--Quem foi o romano astucioso?

--Quem teve essa gloria?

--No ha gloria em matar  traio.

--No foi nenhum romano; fram lusitanos, e amigos de Viriatho.

--Custa a crr.

--Elles esto ahi junto da barraca de Cepio para receberem o premio
promettido.

--Ento, foi Cepio que os comprou? que os aliciou para a traio?

--Sim! Nada podendo pelas armas, alcanou pela astucia o que nunca
poderam conseguir Vetilio, Plancio, Nigidio, Fabio, Quinccio e
Serviliano.  velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem no pde,
trapaca.

E n'estas conversas entre os Legionarios, a curiosidade aguava-se
estimulando alguns d'elles para irem vr como eram as caras dos tres
miseraveis que tinham, ao servio de Cepio, assassinado o general que
Roma tanto temia. Os Legionarios que passavam e encaravam com Ditlcon,
Andaca e Minouro, iam dizendo entre dentes:

--Ia jurar que aquelles homens no so lusitanos!

--Viste aquelle mais alto, e mais velho? Se no  um africano branco,
berber, mesmo ao pintar!

--E o outro? o loiro, parece celta.

--O da cara redonda  que se assemelha mais ao typo luso; mas assim
rolio, e puchando para a gordura...  com certeza ibero.

Afastaram-se  pressa, por que o Consul Quinto Servilio Cepio apparecera
 porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das
palavras trocadas entre elle e os tres traidores, palavras atropeladas,
e d'entre as phrases destacando-se as que Cepio proferiu com accentuado
e esmagador desdem:

--Roma no tem por costume dar premio a soldados que estrangulam o seu
general.

As trombetas abafaram o resto da phrase, tocando  formatura das Legies
e  parada geral do exercito. Emquanto esteve o exercito consular em
frma, Cepio conferenciou com os Centurios, estabelecendo o plano a
seguir depois da morte de Viriatho:

Primeiramente intimar ao exercito lusitano a rendio peremptoria e
incondicional; agora privado de chefe,  de todo impossivel a resistencia.

Depois d'isto, que Decio Junio Bruto avance com uma parte do exercito
romano e penetre na regio da Vettonia e v ao encontro dos Callaicos,
que tratam de prestar soccorro ao exercito, conforme o pedido que lhes
fizera o Caudilho.




LIV


Os Cavalleiros romanos, que chegaram com a intimao affrontosa de Cepio ao
arraial lusitano, podram vr e contaram as cerimonias grandiosas que se
praticaram no Funeral de Viriatho. D'entre os Mil Soldurios que sempre o
acompanharam, uns encarregaram-se de vestil-o magnificentissimamente com as
mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava
os jogos celebrando as derrotas romanas. Amarraram-lhe os cabellos na
testa, como se fsse para entrar em combate, pondo-lhe na cabea a triplice
cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoo o pequeno escudo
concavo, preso por corras, e em uma das mos um punhal largo ou faca de
matto, estendida a seu lado uma lana de ponta de bronze e gancho para no
deixar fugir a prza. Outros Soldurios acarretaram para cima de um alto
penhasco que estava na cora da montanha, grandes mlhos de rama de
pinheiro, de faias e carvalhos, formando alli uma estupenda pyra, sobre a
qual, com venerao, fram processionalmente collocar o corpo rigido de
Viriatho. Parecia um soberbo throno a pyra; e logo que cada um dos Mil
Soldurios foi junto do cadaver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em
grupos de duzentos, e pstos em frente uns dos outros, como quem vae entrar
em combate, esperando que fsse lanado fogo  enorme pyra. A chamma
comeou a atear-se, e assim que ella irrompeu intensa, principiaram as
dansas guerreiras em volta da pyra, em frma agonistica, batendo os
escudos, floreando as lanas, brandindo as espadas e entrecruzando-se
vertiginosamente, como se esse tripudio sanctificasse mais o acto lugubre,
continuando ininterruptamente, incansavelmente, at que a ultima labarda,
tendo combusto o corpo de Viriatho, se apagasse por no ter mais que
queimar.

E emquanto aquellas turmas de duzentos cavalleiros dansavam em volta da
pyra, dois outros grupos conservavam-se balanando-se como a accentuar o
rythmo de um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroismo de
Viriatho. O que esse Cro generoso e heroico vociferava, chegou na voz
dos tempos a penetrar na historia:


    ENDECHA FUNERAL

          PRIMEIRA TURMA:

    De obscura estirpe nascido,
    Fra em criana pastor:
    Certo prenuncio e augurio
    Que um dia, por seu valor,
    Intelligencia e denodo,
    Guiaria o Povo todo.

          SEGUNDA TURMA:

    Nos transes mais arriscados,
    A astucia e penetrao
    Dos seus planos de batalha,
    Descobria a salvao!
    Vimol-o em Tribula, quando
    Teve a Viria do commando.

          PRIMEIRA TURMA:

    Por trazer o Collar de oiro
    No deixou de ser affavel!
    Dava a todos egualdade,
    Contra Roma era implacavel!
    Nas Legies consulares,
    Mandava ao Orco aos milhares.

          SEGUNDA TURMA:

    Roma offereceu-lhe um dia
    Da Lusitania a Realeza!
    Simples, modesto no trato,
    Sceptro e purpura despreza,
    Fazer livre a Patria sonha;
    Por ella a morte  risonha.

Este grupo de Soldurios unindo-se, comearam uma carreira vertiginosa em
volta da pyra; e os que at quelle momento andavam em volteio
ballucinante pararam subito, cantando por sua vez, divididos em duas filas:

          PRIMEIRA TURMA:

    Dominou pelas victorias!
    Mas nunca sua vontade
    Altiva se exerceu fra
    Da Justia e da Equidade.
    Sempre as przas repartia;
    Nada para si queria.

          SEGUNDA TURMA:

    Valente, audaz, destemido,
    No seu viver era sbrio!
    Commodidades e luxo
    Tinha-os por vil opprobrio.
    Para a liberdade attreito,
    Tinha o duro cho por leito.

          PRIMEIRA TURMA:

    Triumphava nos perigos
    Pela astucia e pela audacia!
    Cansou Roma, a Paz lhe impondo
    Pela instante contumacia.
    Manietou os tyrannos
    Na campanha de dez annos.

          SEGUNDA TURMA:

    N'esses dez annos de lucta,
     sua voz tudo corre;
    Uniu-nos pela vontade
    Que a Patria lusa soccorre,
    A nossa Patria ditosa,
    Que, firme, libertar ousa!

          AS QUATRO TURMAS:

    E Roma, sempre vencida,
    S achou o assassinato,
    Pela perfidia affrontosa
    Para vencer Viriatho!
    Vergonha  Cidade eterna,
    Que pela traio governa.

O Canto do soberbo Cro acabou pela estranha Vociferao, condemnando a
traio execranda de Roma contra Viriatho emquanto dormia. Areytos e
Tripudios funerarios acabaram simultaneamente; e emquanto se abriu uma
vastissima cova para arrojar as cinzas de Viriatho, procedeu-se ao
sacrificio das victimas consagradas aos manes do general insubstituivel.
Cortaram as dextras dos prisioneiros romanos, que eram quasi todos
iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavallos. Dedicados amigos de
Viriatho combinaram entre si o suicidio religioso, para o acompanharem
alm da morte, sendo alli enterrados sobre as cinzas d'aquelle com quem
contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente apresentou-se 
beira da cova Bovecio, e exclamou com voz firme:

--Ao bom conselho de Viriatho devi o voltar  vida, de uma doena
mortal.  de meu dever acompanhal-o na morte.

E vibrando em si proprio uma punhalada, cahiu borbotando sangue na larga
cova aberta. Muitos dos Soldurios de Viriatho, levados pela mesma
vertigem, proclamaram o suicidio religioso. Ento Andergus, o espadeiro
de Toletum, propoz:

--Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriatho, quantos os
annos que duraram os seus combates contra Roma.

Avanaram para ao p de Andergus os Maioraes da Msta, Edovius, Togotes,
Uvarna, Suttunus, Semesca, e alguns chefes de Contrebias, taes como
Aernus e Candiedo; e comearam entre si um duello desvairado, jogando-se
golpes de morte, cada qual procurando no ser o ultimo sobrevivente.
Andergus foi o primeiro a cahir por terra. Mas a cerimonia inaudita teve
de ser interrompida por um successo impressionante: dois Cavalleiros
romanos, em nome do general Quinto Servilio Cepio, apresentaram-se
intimando a rendio do exercito lusitano.

--Nunca!--bradaram os primeiros que ouviram a intimao affrontosa.

--No se pacta com um general que julga chegar  victoria pela traio.

E os que iam suicidar-se pela confraternidade heroica, decidiram:

--Morramos, sim, mas em lucta desesperada contra o infame Consul.

E n'aquelle momento, lanando a ultima p de terra sobre a sepultura de
Viriatho:

--Para a frente! Tantalo, Tantalo seja o nosso general, para continuar a
campanha.




LV


Depois que Tantalo tomou o commando do pequeno exercito lusitano, alli
mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate
com Cepio:

--Temos dois recursos: ou debandar o exercito, indo cada um de ns
recolher-se a Numancia, e coadjuvarmos Salndico, que resiste com
valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que
est em poder dos Romanos,  verdade, mas cujas cercanias acham-se
povoadas por Turdetanos.

--Para Sagunto! Para Sagunto.

A marcha fez-se com precipitao, de modo que Cepio, vendo que os
Lusitanos no se rendiam, e dando ordem para o ataque immediato,
encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direces para
descobrir o caminho que os lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o
encalso, alcanando-os proximo das vertentes de Palancia e do Turia.

Tantalo no pde evitar o combate; reconhecia que era impossivel a
victoria, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos romanos.
E voltando-se para os Soldurios, que no funeral de Viriatho se ajuntaram
dois a dois para luctarem em duello at cahirem mortos para acompanharem
ao outro mundo o seu chefe, exclamou:

--Agora  que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificao de
Viriatho.

O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exercito de Cepio
foi de molde, que o Consul, seguro da victoria, julgou melhor, ainda
assim, no se aventurar s contingencias do momento; e antes de dar o
golpe decisivo, e dispostas todas as foras para o desfecho tremendo em
que seriam passados  espada, mandou dizer a Tantalo:

--Posso offerecer-vos a _Deditio_. Quero ser generoso com os bravos que
no temem a morte.

Tantalo explicou aos seus companheiros o que era a _Deditio_ concedida
pelo general romano:

--Se nos entregarmos como _Dedititios_, ficamos subditos de Roma, e como
taes ninguem nos poder reduzir  condio de escravos vendendo-nos nos
mercados como bestas de carga. Como _Dedititios_ tem de nos ser dado um
territorio para habitarmos como Colonos.

A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu quelles
cansados lusitanos; e ento Tantalo mandou entregar a sua espada a Cepio
como signal da rendio.

Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o
tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez
assassinar Viriatho, deu aos tros da gente que formava o exercito
lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para
o colonisarem pacificamente.

Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o
Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em
auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e 
cidade que haviam fundado e j se tornava florescente deu o nome de
_Valencia_, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.




LVI


Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas no estava pacificada a
Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e
entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas
do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salndico
resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de
Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptido em inventar uma cilada.
Roma no o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente
Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio
Furio Philo, Quinto Calpurnio Piso, at Cornelio Scipio Emiliano.

Pela indomavel bravura com que Salndico sustentou Numancia, chegou a
correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mos que estava a
Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde
est occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia
da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso
intuito, na rendio junto do Turia.

Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixaro inolvidavel o
anno de DCXIV; Lisia, smente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da
campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de
Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o r de
ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam,
lanaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma
rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente
lhe chamava:

--Sempre noiva! a Sempre noiva.

E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:

--O corao adivinha-me, que Viriatho est morto!

O velho respondeu com firmeza:

--Viriatho no podia morrer em batalha! Se no apparece,  porque anda
l por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou
Cynesia, organisando a resistencia. No desesperemos!

Lisia, cansada de incerteza, teceu uma cora de Verbena, a erva da
segunda vista, e collocou-a na cabea. Desde esse instante lhe occorreu
o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade
completamente, ainda que lhe causasse a maior dr. E o oraculo mais
sacrosanto e irreparavel nas suas revelaes era o das _Pedras
baloiantes_, os Loghans, visitados na regio dos Cynesios, junto dos
quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.

Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condio
livre, partiu com seu pae at  Ilha sagrada de Achale, aonde se
recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia,
para ouvir a sentena definitiva dos Loghans, na regio procurada por
tantos crentes. No tinha descanso emquanto no soubesse a verdade, mas
verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:

--Viriatho est vivo? Viriatho estar morto?

E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por
cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como
no somnambulismo da concentrao de uma saudade inconsolavel.




LVII


Contam-se maravilhas d'essa regio dos Cynetas, na qual se ouve, segundo
dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas
do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que
esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja
s praias, so a solidificao d'esses raios solares bruscamente
mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais
deslumbrava os espiritos  a dos _Loghans_, os penedos baloiantes, que
revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.

Logo que Lisia chegou ao paiz dos Cynetas, mandou que os seus ambactes
esperassem no povoado, dirigindo-se ella ssinha para os dois grandes
fraguedos sobrepstos, que estavam no caminho do Promontorio Sacro, e se
avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horisonte.
Aquelle aspecto infundiu-lhe um terror momentaneo; mas avanando sempre
chegou ao p dos dois gigantescos penhascos, para os quaes se subia por
saliencias, como imperfeitos degros formados pela eroso atmospherica.
Um d'esses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de
matagaes e dos pedregulhos que o tempo ia destacando d'elle, conforme o
fendiam os raios, a agua gelada nas suas cavidades, e as raizes de
mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este, e apesar de
ser um megalitho espantoso, podia-se notar que fra separado por uma
clivagem natural, e que tendo-se as juntas da estratificao corroido de
fra para dentro, ficou um ponto que escapando ao phenomeno da eroso, 
aquelle em que oscilla levemente o Loghan ou calho enorme.

Lisia, subira para o coruto do monolitho, que permanecia immovel;
sentou-se cansada, n'aquella solido e amplido immensa, contemplando o
mr ao longe, e vendo o sol sumir-se no occaso. Depois enegreceu o r,
as sombras da noite cobriram tudo em volta, e Lisia, comprehendendo a
situao da vida sem aquelle que tanto amava, ergueu-se resolutamente,
procurou o vertice do penhasco baloiante, e interrogou:

--Est vivo Viriatho?

A rocha ficou immovel. Lisia quiz ainda repetir a pergunta, mas entrando
em um desespero de presentimento, inquiriu:

--Est morto Viriatho?

A rocha oscillou levemente para o lado esquerdo da posio em que se
encontrava Lisia. Ella, como se vibrasse em si um ultimo golpe, renovou
a pergunta, repetindo-se a mesma oscillao sinistra. Lisia ficou n'uma
immobilidade attonita, n'um lethargo inconsciente, como se tivesse
cahido d'aquella enorme altura, e alli jazeu a noite longa, insensivel
s rajadas frias, prostrada em terra, debruos, como esmagada pela
impresso abrupta. A luz do sol  que a despertou; tinha voltado  vida,
no a do seu dourado sonho, que alli acabra, mas a do soffrimento que
no pde prolongar-se.




LVIII


No desmoronamento total da sua felicidade, Lisia lembrou-se de seu pae,
o velho druida; queria communicar-lhe a revelao tremenda, chorar com
elle a morte de Viriatho. Quando chegou  Ilha sagrada de Achale,
aquelle refugio quasi celeste pareceu-lhe um desterro, e a Torre redonda
consagrada ao Deus innominato appareceu-lhe como uma priso erguida
sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a
Ilha, veiu receber Lisia com o cro das nove Donzellas, que volviam a
acompanhal-a a ella, a--sempre noiva.

Lisia conheceu a inteno; e abraando o pae, em uma d'aquellas
angustias para que no ha lagrimas, proferiu apenas:

--Est morto Viriatho! Disse-o o Rochedo baloiante.

--Tambem o sei!--devolveu o velho druida, encostando a cabea da filha
sobre o peito.

--Quem vos trouxe a noticia?

--Veiu aqui Tantalo, o companheiro de Viriatho n'esses dez annos de
campanha gloriosa contra os Romanos; veiu entregar-me a Espada de
Viriatho, que conseguiu salvar...

--A Espada invencivel?

--A Espada sempre invencivel.

--Mas, Viriatho no morreu em batalha... Viriatho foi atraioado!... Foi
atraioado com certeza!

O velho druida, sustendo-a n'aquella hallucinao clarividente, disse
para Lisia:

--Atraioaram-no os seus tres melhores amigos, Ditlcon, Andaca e
Minouro! Comprou-os o Consul Quinto Servilio Cepio, o mais inhabil dos
generaes romanos; s assim teve a ignobil victoria.

--E a independencia da Lusitania, d'esta desditosa Patria nossa amada?

--Completamente perdida!--respondeu o druida desalentado.

--Perdida, mas no para sempre,--proferiu Lisia, com um accento de
vivacidade e esperana.--Quero vr a Espada de Viriatho!  o que me
resta do Esposo com quem estive sempre espiritualmente unida.

E pae e filha encaminharam-se para o subterraneo da Torre redonda, em
que se guardava o thesouro da Lusitania. Lisia reconheceu a Espada:

-- esta, a mesma que eu lhe cingi no ultimo dia da festa do nosso
noivado, dizendo-lhe com um beijo:--Regressa vencedor! Viriatho cahiu
apunhalado quando dormia: no foi vencido em batalha, no. No regressou
mais ao seu lar, aos braos da esposa que o esperava anciosa; veiu aqui
ter a sua Espada, que eu contemplo, que eu beijo...

E como se estivesse em um delirio suave, ao levar a Espada aos labios, o
brilho da lamina de ao reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de
lagrimas, e operou-se no seu espirito uma miragem do futuro, como se
conta na velha lenda dos _Espelhos de Salvao_. E n'um arrebatamento
prophetico e assombrada, continuou fitando a lamina fulgente, exclamando:

--Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vo passados sete annos.
Numancia ainda resiste corajosamente ao crco de Cornelio Scipio
Emiliano; e que loucura a do destemido Salndico! quiz fazer uma sortida
ao acampamento romano, e l ficou morto. Agora  que Numancia, sem
chefe, tambem est perdida. Numancia no se rende; os Romanos entram na
cidade e ficam assombrados diante do suicidio heroico da populao.
Morreram livres.

E passando a mo delicada pela lamina da Espada, para restituir-lhe o
brilho empanado pela respirao offegante, tornou a contemplar o quadro
do futuro:

--No bastou a traio de Cepio, nem a queda de Numancia para assegurar
o dominio de Roma na Hespanha.  aqui na Lusitania que Sertorio vem
encontrar o espirito de revolta para resistir contra as faces que o
exilaram de Roma.  com o valor dos Lusitanos de que se roda, e que
sonham com a sua independencia, que Sertorio derrota os generaes que
Roma contra elle envia. Mas, ai! Empunhar a sua mo a Espada de
Viriatho, que lhe foi confiada... e tal como Viriatho, cae tambem
assassinado por um seu companheiro!...

Depois de um grande silencio, como se contemplasse acontecimentos
incomprehendidos, como so esses da queda do Imperio romano, das
invases dos Barbaros do norte, das luctas contra os povos da Africa,
Lisia, passando a mo pelos olhos ennublados, contemplou novamente a
lamina scintilante:

A Espada de Viriatho, longo tempo sepultada n'esta ruina immensa, est
outra vez descoberta; eil-a brandida por um brao vigoroso e joven. Uma
era nova se me ostenta! vjo novos Symbolos, novos trajos; outra vez
desencadeamento de raas de encontro umas s outras! N'esta lucta dos
dois Symbolos, a Cruz e o Crescente, eu vjo a Espada de Viriatho nas
mos do joven Cavalleiro sustentando a independencia d'este territorio
que vae do rio Minio ao Durio!  um pequeno trato da antiga Lusitania,
mas que importa!  o fco d'onde irradiar o impulso para se
reconstituir a obliterada nacionalidade.

Por quarenta annos a Espada de Viriatho  brandida pelo corajoso
Cavalleiro, que vae estendendo o territorio lusitano ao Monda; j chega
a Scalabis; conquista a bella cidade que est no lez do Tagus. No vir
longe o dia, em que esse territorio alcance as fronteiras do Anas, e se
complete com a regio dos Cynesios.

A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura
absorvel-a na sua unificao. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma
herana real, e recorre  invaso. Por entre a Ala dos valentes
Namorados vjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho!
D'onde viria para a sua mo essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro
de Scalabis, que a desenterrou do cho em que se transforma o ferro no
ao mais puro!

Ento Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:

--A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a
tradio dos antigos navegadores liguricos, e lana-se  descoberta das
Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um
novo Imperio l aonde o sol se alevanta!  ainda a Espada de Viriatho na
mo firme do seu Capito _terribil_, que cimenta esse Imperio em bases
inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o
futuro? A Lusitania revive...

Lisia entregou a Espada de Viriatho ao velho druida para a guardar no
thezouro secreto da Ilha de Achale; e cansada da viso presciente cau
em um somno cataleptico, em que ficou por muitas e muitas horas
extactica, inerte, semi-morta, insensivel. A dr inconsolavel
divinisava-a; tinha na face uma expresso sobrehumana.




LIX


Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a
mo ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de
si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava
mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a
desolao sem esperana. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira
da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo
confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no
mesmo r ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!

E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do
suicidio, notando quanto mais felizes fram aquelles Companheiros de
Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte;
esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura at
cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um
sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho,
embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida
como uma degradao, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria
arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria
existencia.

Comera a estao hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as
insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre
redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e
desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro s
rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.

Lisia comeou a passar pela lembrana todos os lances do seu primeiro e
santo amor: como Viriatho lhe tomou as mos no alto da Torre redonda,
como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a
Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as
festas do casamento fram interrompidas pelas palavras:--Cepio rasgou o
tratado de Paz com a Lusitania!--e a brusca despedida de Viriatho para
nunca mais!...

Ao chegar a este ponto, a imaginao de Lisia obscurecia-se, cahia em
deliquio, em um goso de dr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa
angustia, reflectiu:

--O noivado ficou interrompido. E porque no hade ser finalisado? A
noiva deve acompanhar o esposo;  pela morte que eu tenho de chegar 
vida infinda com Viriatho; tanta delonga estupida, que parece
irresoluo covarde...

E logo que foi noite cerrada, desceu ao thezouro da Ilha sagrada, e
mesmo na escurido, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa
de ouro com que Viriatho a cingira, apanhou tambem a Viria que o esposo
lhe lanra ao pesco, e subindo apressadamente a escadaria, foi
galgando sempre at chegar ao ultimo andar da Torre redonda. A escurido
era espessissima, cortada a intervallos pela luz fulva e instantanea dos
coriscos. Lisia sentia um goso inexprimivel n'esta harmonia entre a
tempestade exterior e a agitao convulsiva da sua existencia moral.
Cingiu com recolhimento e lentido o Cinto de ouro; envolveu o pesco
eburneo e esculptural com a Viria, aquella mesma com que Viriatho,
fazendo-a sua esposa, se entregra  vontade d'ella, e--_para sempre_.

E olhando para aquellas joias, que tanto lhe diziam, no momento em que
um relampago se reflectiu n'ellas, ainda murmurou:

--Assim eu estava, quando elle partiu para sempre; assim mesmo vou ao
seu encontro.

Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre redonda, no baixo da
qual marulhavam as ondas arrebentadas nas restingas, deixando na
escurido tetrica a claridade de uma extensa phosphorecencia; e sobre
esse sudario nitido da ardentia, precipitou-se com toda a sua insondavel
amargura a formosa semnotha, sepultada nas aguas revltas, que na
piedade immanente na natureza fizeram que o seu corpo no fsse
profanado e nunca mais fsse visto.




LX


Idevor no tardou a dar pela falta da filha; recompoz de prompto a scena
do seu desapparecimento, e longamente fitou o mar, para vr se descobria
fluctuando o corpo d'aquella que ainda o prendia  vida. No podia
conter-se no ambito estreito da Ilha sagrada de Achale; e escondendo
todos os signaes com que se podesse descobrir o thezouro da Lusitana,
abandonou a Torre redonda, j perturbado da raso, dementado, exclamando:

--Ella vaticinou que a Lusitania renasceria! Aonde? Aonde? Aonde? N'esse
territorio que comea nas margens do Minio at ao Durio.  ahi,  ahi
que eu quero encher-me de esperanas. Ahi, na _Terra portucalense_,
ficar sepultada a Espada _Gaizus_, o talisman de Viriatho.

Depois da morte de Viriatho deu-se funda depresso no espirito das
tribus lusitanas, por effeito de um phenomeno astronomico inopinado:
appareceu no co um cometa, ao qual pela frma da sua cauda o povo
chamava a _Espada flammejante_, movendo-se em sentido retrogrado ou
oppsto ao movimento das estrellas! Na crena popular ligavam o seu
apparecimento com a terrivel calamidade da morte de Viriatho, e
perguntavam a Idevor se a _Espada flammejante_ no seria por ventura a
espada _Gaizus_. O velho endre respondeu:

--Em breve deixar de vr-se esse signal no co; mas em um periodo de
setenta a setenta e seis annos ser o seu reapparecimento. Ento a
Lusitania luctar de novo e com vantagem pela sua independencia...

De certo Idevor fixava o periodo da reappario do cometa retrogrado j
conhecido por algumas observaes uranographicas dos velhos annaes da
raa navegadora; a revivescencia politica era apenas uma aspirao, uma
esperana que ficava germinando nas almas.

O pobre velho seguia pelos caminhos com os longos cabellos brancos
revltos pelo vento e pela chuva, com os ps j ensanguentados, para as
margens do Minio, longe, muito longe. Os que o viam passar, diziam com
piedade:

--Anda como doido o velho endre.

E correndo agitado pelos caminhos e matagaes, parecia que ia em procura
de alguem, pela anciedade com que prescrutava em redor de si, ou fitava
o horisonte distante. E aos que o interrogavam, na carreira ininterrupta
e errante, respondia  pressa:

--Ando  procura da _Cerva branca_.  ainda a minha esperana; porque a
_Cerva branca_ hade um dia dar que fazer aos Romanos.

E o desgraado velho seguia incansavel ao vento,  chuva, desgrenhado,
absorto no anciado delirio de encontrar a _Cerva branca_.

Entretanto Cepio contava com a glorificao do Triumpho na sua proxima
chegada a Roma por ter acabado habilidosamente com as guerras de
Viriatho. Aquelle que tinha derrotado os exercitos consulares durante
dez annos successivos, no morreu em combate, mas passou do somno para a
morte. Este transito no fra previsto pelo Oraculo, e d'isso se
gloriava Cepio. Pensando em levar cativos lusitanos para lhe cercarem o
Carro triumphal, mandou agarrar o velho druida; quiz vl-o pessoalmente.
A figura do ancio era imponente, pelas barbas esqualidas, pelo olhar
hallucinado, pela cabea olympica; mas Cepio conheceu logo que Idevor
estava louco, pela preoccupao com que fallava:

--Ando  procura da _Cerva branca_. A Lusitania surgir rediviva, l do
Minio at ao Durio, s depois de apparecer a _Cerva branca_.

O vencedor romano no pde obter do velho outras palavras; e mandando-o
embora com desdenhosa indifferena, disse para os que o rodeavam:

--Elle est dementado: cr no renascimento da Lusitania! Um doido assim
iria deslustrar-me o Triumpho.

O velho encarou o Consul, como a amaldioal-o:

--O Senado aproveitar a infamia, mas hade renegar-te; e sers
encarcerado! soffrers o exilio! e as tuas filhas... sero arrastadas ao
prostibulo!

Cepio fez que no percebera o funesto agouro e correu com o velho.

E riram-se alvarmente da esperana no apparecimento da _Cerva branca_.
Ninguem comprehendia o sentido do estranho vaticinio; mas d'ahi a
setenta annos, Sertorio, que estava exilado e prfugo na Africa, em
consequencia das proscripes de Sylla, era chamado pelos Lusitanos, que
o fortificaram na lucta com o seu odio inextinguivel e com a sua
immorredoura esperana. As Guerras civis tinham sido previstas por
Cato, no discurso contra Galba, no senado, no anno de DCIII, como
consequencia da diminuio das attribuies dos Censores. Sertorio foi a
primeira victima; sabia o que era a perda de uma patria.

A _Cerva branca_ que lhe offereceram os Lusitanos quando o chamaram da
Lybia, seguia-o por toda a parte, coroada de flores, sem temor da
soldadesca; mostrava-a como um dom de Hertha, consultava-a como oraculo,
derrotando todas as legies romanas, pelo prestigio tradicional da Cerva
branca sobre a multido que o acclamra por chefe. Como Viriatho, vencia
todos os Consules, sendo como Viriatho tambem morto pela traio.


FIM





End of the Project Gutenberg EBook of Viriatho, by Tefilo Braga

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIRIATHO ***

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