Project Gutenberg's O Assassino de Macario, by Camilo Castelo Branco

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: O Assassino de Macario
       Comedia em tres actos

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: October 13, 2008 [EBook #26913]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ASSASSINO DE MACARIO ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)






O ASSASSINO DE MACARIO


Porto--Imprensa Moderna




CAMILLO CASTELLO BRANCO


O ASSASSINO DE MACARIO


Comedia em tres actos


Verso livre


Expressamente coordenada para a festa artistica do ACTOR DIAS

2. EDIO


PORTO
Livraria Chardron
De Lello & Irmo, Editores
1903




Propriedade absoluta dos editores


_Reproduco interdicta em todos os paizes_




PERSONAGENS


_Barnab._

_Liborio._

_Itelvina._

_Sebastiana._

A scena  no Porto.

Esta comedia no pde ser representada sem auctorisao dos editores,
para quem ficam reservados todos os direitos.




ACTO PRIMEIRO

Sala elegante. Porta ao fundo. Portas lateraes no segundo plano. Janella
 esquerda, no terceiro plano. Piano encostado  parede direita, no
primeiro plano. Canap  esquerda. Dois contadores pequenos  esquerda e
direita. Sophs, cadeiras, e tamborete de piano. Sobre o contador da
esquerda utensilios de barbear e espelho. No outro um relogio.


SCENA I

Barnab, (_s_)

(_Entra pela esquerda, trajo da manhan, traz na mo uma chocolateira e
toalha. Chama:_) Sebastiana!... Isto  que foi dormir alarvemente!
(_Olhando para o relogio_) J dez horas... e eu sem fazer a barba!
(_chamando_) Sebastiana! Esta creada  uma calaceira!... No ha
d'outras... Tive um sonho... Isto de sonhos  uma tolice... Sonhei que
estava pescando  cana... n'uma cazinha campestre, com transparentes
verdes... e um repucho!... Ah! o meu sonho d'oiro!... Logo que eu cazar
a filha... Um repuxo... (_chamando_) Sebastiana! Com effeito! (_Vai 
porta do fundo_) Sebastiana! Sebas...


SCENA II

Sebastiana e Barnab

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo_) Aqui estou, senhor!

BARNAB

No me tinhas ouvido?

SEBASTIANA

Perfeitamente. O senhor chamou-me quatro vezes.

BARNAB

Ento porque no vieste logo?

SEBASTIANA

Estava a almoar. Acho que o senhor no pretende que os creados no
comam.

BARNAB

No...

SEBASTIANA

Alm d'isso, eu sei que o senhor  pachorrento, um paz d'alma...

BARNAB

Abusas um pouco do meu temperamento.

SEBASTIANA

Est enganado... eu pelo senhor era capaz de me atirar ao lume...

BARNAB

Pois bem, vai atirar ao lume esta chocolateira... Quero barbear-me.
(_D-lh'a_)

SEBASTIANA

Dentro de 15 minutos aqui estou. (_Vai sahir_).

BARNAB

(_chamando_) Olha, Sebastiana...

SEBASTIANA

(_tornando_) No me mande fazer duas coisas ao mesmo tempo que me
atrapalha, ouviu?

BARNAB

(_ parte_)  uma creada como se quer! Boa bisca... (_alto_) Olha l...
Noto que vae na caza um socgo extraordinario! Minha filha estar
doente?

SEBASTIANA

No senhor; sahiu de manhan cedo.

BARNAB

Ah!  isso? (_Senta-se no canap_).

SEBASTIANA

E, na verdade, a menina faz um estardalhao! credo!... E  de pasmar
como o snr., to manso, to socegado, fez uma filha to...

BARNAB

To estapafurdia, pdes dizer...

SEBASTIANA

 isso, estapafurdia...  uma trovoada... credo!

BARNAB

Tu que queres?... A natureza tem desconcertos... Olha, Sebastiana, eu
nem sempre vivi dos meus rendimentos.

SEBASTIANA

Pois sim, sim...

BARNAB

Tive uma fabrica de ligas em Fradellos.

SEBASTIANA

De ligas? ora vejam...

BARNAB

Fazia pouco negocio... Resolvi ir para o Mexico, por que n'um paiz, n'um
paiz quente, bem percebes, mostra-se mais a barriga das pernas... Fundei
o meu estabelecimento no Mexico, e grangeei logo toda a freguezia das
boas pernas do paiz... com sias curtas.

SEBASTIANA

Olha que pechincha!...

BARNAB

Vais vr... um par das taes pernas... duas buxas fizeram-me uma
impresso profunda... Todas as profissoens tem os seus perigos...
Esposei...

SEBASTIANA

As taes buxas?

BARNAB

Sim... Ella chamava-se Dolores. Sete mezes depois, tinha uma filha...

SEBASTIANA

Sete mezes s? ora essa!...

BARNAB

No Mexico a vegetao cresce muito depressa,  o que ; e isso mesmo te
explica o genio impaciente da minha Itelvina... Ella no quiz esperar
que se completassem os nove mezes... sahiu...

SEBASTIANA

No admira, no...

BARNAB

E aqui tens tu, Sebastiana, como eu, um portuguez de lei, sou pae d'uma
mexicana...

SEBASTIANA

Agora  que eu percebo a differena dos dois genios.

BARNAB

O ceo do Mexico! Os costumes d'esse clima de fogo! Minha filha tem nas
veias o meu sangue; mas... mais quente... ferve-lhe mais... em fim, tem
uma temperatura mais alta...

SEBASTIANA

Acho que sim... intendo.

BARNAB

Ha-de haver um anno que passei o negocio e vim para a patria... Estava
rico... primeira felicidade; estava viuvo, segunda feli... Emfim, como
no nos davamos bem... segunda felicidade, est dito.

SEBASTIANA

Ento no se davam bem...

BARNAB

Quero dizer... a senhora Barnab... era muito fogosa... muito
atiradia... e chamava-me... maricas.

SEBASTIANA

Credo!

BARNAB

Em fim ella tinha desculpa... Eu bem me conheo... Mesmo hoje, com minha
filha, sou uma lesma, um fracalho... Ahi est ella a querer casar com o
valdevinos do Macario.

SEBASTIANA

Mas no basta querer ella.

BARNAB

Assim ; mas ella quer  fina fora e eu no quero; a final, quem hade
vencer  ella, que  a forte, e casar! So favas contadas. Era o mesmo
com minha mulher. Dizia-lhe eu quero; respondia-me ella no quero, e
eu... moita... nem palavra.

SEBASTIANA

Ento estavam sempre de harmonia?

BARNAB

Est claro. (_Rumor fra_)

SEBASTIANA

(_indo  janella_) Que ser isto?

BARNAB

Algum choque do americano com o Rippert.

SEBASTIANA

Nada, parece desordem... Tanta gente defronte da porta...

BARNAB

Da nossa?

SEBASTIANA

Sim, snr. Quer que eu v saber o que ?

BARNAB

No... que me importa a mim?... Olha se me aqueces a agua... anda.


SCENA III

Os mesmos e Itelvina (_Abre-se com estrondo a porta do fundo. Itelvina
entra afogueada e passeia muito colerica._)

BARNAB

l!... s tu?

ITELVINA

Sim, sou eu. Bom dia.

BARNAB

Tu que tens?

ITELVINA

Estou furiosa! (_Passa para a direita._)

BARNAB

D'onde vens?

ITELVINA

De pregar uma bofetada n'um sujeito.

BARNAB

Fizeste isso?

ITELVINA

N'um atrevido...

BARNAB

Talvez imaginasses...

ITELVINA

Qual imaginasse! um grosseiro que ousou dizer-me cara a cara: a menina
 encantadora.

BARNAB

E bateste-lhe por isso? Que farias tu se elle te chamasse estafermo?

ITELVINA

O seu sangue frio, meu pae, quando sou insultada! Castiguei-o, e espero
que a scena se no repita.

BARNAB

De te chamar encantadora?... Tambem me parece que o homem deve ter
modificado a sua opinio a teu respeito... (_A Sebastiana_) Que fazes tu
ahi? a minha agua quente?

SEBASTIANA

L vou j, snr. Barnab. (_ parte_) Muito atolambada  esta menina!
(_Sahe pelo fundo_).


SCENA IV

Barnab, Itelvina, e depois Sebastiana

ITELVINA

(_depondo o chapeu e o chaile, vae sentar-se ao piano e canta_) Trai la
ri, trai la ri, trai la r.

BARNAB

Isso  um bota a baixo! Agora  o piano que leva a sua conta...

ITELVINA (_Cantando_)

    Na primavera da vida
    Ambos e dois muito amigos
    Suspiravam por um ninho,
    Por um ninho entre os trigos.

BARNAB

Que  isso que tu cantas?

ITELVINA

Uma canoneta moderna, que se chama: _Um ninho entre os trigos_.
(_Canta_):

    E de brao dado juntos
    Ao repontar da manhan
    Iam fazer o seu ninho
    Nos trigos de Campanhan.

BARNAB

 mais natural que fsse nas arvores... Os passaros em geral preferem...

ITELVINA

Mas no se trata de passaros. (_Canta_):

    E depois elle cantava
    Pousado nos ramos novos,
    E ella aquecia, cantando
    No seu ninho os caros ovos.

BARNAB

Ah! ento no  de passaros que se trata? L me parecia que dois
passaros de brao dado por Campanhan...

ITELVINA

 uma menina e um rapaz.

BARNAB

(_pegando na canoneta com arremesso_). Basta! Deixa vr. (_L alto as
tres quadras que ella cantou_). E chama a isto um ninho o tratante do
canoneteiro! Quem diabo fez esta coisa?

ITELVINA

Foi um poeta inspirado. D-me c a muzica, ande!

BARNAB

Empresto-t'a para a estudares, de tarde, quando eu estiver a dormir a
ssta... (_ parte_). Mandem l ensinar piano s raparigas n'uma terra
em que os poetas inspirados dizem s meninas que se fazem ninhos nos
trigos de Campanhan!... e que se aquecem os ovos... O Porto est peor
que o Mexico a respeito de ovos e de ninhos...

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo_). Ainda havia agua quente. Ella aqui est
(_D-lhe a chocolateira_).

BARNAB

Bem, vou para o meu quarto (_Mudando de ideia_). Mas, se estiveres
quieta... Um pae pde escanhoar-se na presena da filha (_Arranja os
utensilios, e remeche o pincel na vasilha do sabonete_).

ITELVINA

(_a Sebastiana_) Veio carta para mim?... de Braga?

SEBASTIANA

No, minha senhora, o carteiro passou ha muito. (_Sahe pela porta do
fundo_)

ITELVINA

(_comsigo mesma_)  espantoso! Ha trez dias que Macario foi para Braga,
e nada de noticias! Se eu no tivesse inteira confiana no seu amor...
Talvez uma catastrophe! Acontecem tantas desgraas nos caminhos de
ferro!... (_Vae agitadamente para o pae que lhe voltou as costas e se
est barbeando_) Meu pae! (_com intimativa_)

BARNAB

Que ? cuidado, que por pouco me no cortei... Que temos?

ITELVINA

Acha isto natural?

BARNAB

Natural, o qu?

ITELVINA

Trez dias de auzencia sem me escrever?

BARNAB

Ah! sim, o Macario? (_ parte_) Bem me importa a mim isso... (_alto_) Se
elle foi buscar os papeis a Braga,  preciso dar-lhe tempo. (_Torna a
escanhoar-se_)

ITELVINA

(_passeando_) Dar-lhe tempo, dar-lhe tempo! Eu no exijo que elle volte;
mas que me escreva; no se est assim trez dias... a fazer o qu?... que
difficuldades encontrou?

BARNAB

No andes assim n'esse passo que me incommodas. Fazes tremer o sobrado.

ITELVINA

O pae no sabe o que  amor!

BARNAB

Soube-o primeiro que tu, e dou-te a minha palavra que depois que a gente
sabe o que isso , e pensa a sangue frio... no vale um caracol o
amor... Tu o sabers...

ITELVINA

Ha tres mezes que conheo Macario, e a toda a hora maldigo as
formalidades portuguezas, e pergunto de que servem para a gente se
casar, papeis, banhos, tabellio, padre, sacristo...

BARNAB

Ha pessoas que dispensam tudo isso... mas (_com energia_) fazem mal...
fazem muito mal... Sem tabellio, e banhos, e padre e sacristo no ha
honra.

ITELVINA

Finalmente, logo que Macario chegar com os papeis, no haver
impedimentos...

BARNAB

Isso l de impedimentos... veremos.

ITELVINA

(_derrubando uma cadeira, e indo direita ao pae_) Haver alguns? diga...

BARNAB

(_cortando-se_) C est um... vs tu?

ITELVINA

Um impedimento?

BARNAB

Um golpe de navalha... estou acutilado!

ITELVINA

(_estancando-lhe o sangue com o leno_) Deixe vr... Isto no  nada.

BARNAB

Arde-me... e bastante...

ITELVINA

Vae passar.

BARNAB

Falla-me, se queres, mas l de longe... Eu s de longe  que ouo bem.

ITELVINA

(_afastando-se e levantando a cadeira_) Fao-lhe a vontade; mas o pae
fallou de um impedimento... desejo conhecl-o.

BARNAB

 o meu consentimento.

ITELVINA

O seu consentimento?

BARNAB

Est claro; tu no pdes casar sem eu consentir... A lei  positiva.

ITELVINA

Que arrelia! Isso quer dizer que, se o pae no ama Macario, tambem eu
no posso aml-o...

BARNAB

L tu aml-o pdes... mas no basta...

ITELVINA

No posso casar com elle, se o pae o no amar?...

BARNAB

No.

ITELVINA

As leis portuguezas dizem isso? Existem absurdos taes n'um povo livre?

BARNAB

(_limpando a navalha e pondo-a sobre o contador_) Tal e qual, minha
filha. Ora agora, quanto a Macario...

ITELVINA

(_passando para a esquerda_) Meu pae, eu amo Macario!

BARNAB

Elle no tem chta.

ITELVINA

Amo Macario!

BARNAB

Passa a vida nos bilhares e nas cervejarias.

ITELVINA

Mas eu amo-o.

BARNAB

Sers desgraada com elle.

ITELVINA

Acabemos com isto. Amo Macario!

BARNAB

Amo Macario, amo Macario! Ests-me cantando o 1. acto da _Favorita_.
Eu o amo, eu o amo!

ITELVINA

D ou no d o consentimento?

BARNAB

No.

ITELVINA

No? (_Pega da navalha_) O pae  implacavel, hein?

BARNAB

Que  o que ella tem na mo? Ceus! a minha navalha!

ITELVINA

(_caminhando e brandindo a navalha e o pae a seguil-a_) Trato de me
evadir s leis infames d'este paiz. Suicido-me.

BARNAB

Larga a navalha.

ITELVINA

Ultima vez: consente?

BARNAB

Consinto: casa com elle.

ITELVINA

(_largando a navalha e abraando-o_) Obrigada, meu pae, obrigada!

BARNAB

Agora, asfixias-me... (_Passa para a direita, levanta a navalha e
colloca-a sobre o contador_) Cruzes!

ITELVINA

Mas o silencio d'elle assusta-me, meu pae! Trez dias sem noticias! Vou
escrever a Macario; e, se me no responder, amanhan parto para Braga. Se
lhe tivesse acontecido algum revez! (_A Sebastiana, que entra pelo
fundo_) Sebastiana, no estou em casa para ninguem, absolutamente para
ninguem (_Entra pela direita_)

BARNAB

Sou o pae d'esta pombinha...  um anjo... Se eu me vejo livre d'esta
ardente creatura do Mexico... Sebastiana, d-me o casaco e o chapo.

SEBASTIANA

Sim, senhor. (_Sahe pela esquerda_)

BARNAB

(_s_) Deixl-a casar com o Macario! O que eu quero, sobre tudo,  paz e
socego... O casamento favorece os meus projectos... Fallaram-me d'uma
quinta que se vende em S. Mamede de Infesta. O dono mora perto d'aqui;
vou tratar com elle; e, se no fr muito cara, o meu sonho d'esta noite
realisa-se... O repuxo! Ah! o repuxo!

SEBASTIANA

(_entrando com o casaco e o chapeo_) Aqui esto as coisas.

BARNAB

(_despindo o rob-de-chambre_) Obrigado... Ajuda-me... (_Vestindo-se_)
Irei viver sosinho em paz e socego.

SEBASTIANA

O senhor vem jantar?

BARNAB

Sim, mas ha de ser tarde. (_Sahe pelo fundo repetindo_) Em paz e
socego...

SEBASTIANA

(_s_) Muito bom sujeito! (_arruma_); mas a filha... Ah! tenho pena do
tal Macario, se casar com ella! Credo! se eu fsse homem, e topasse uma
creatura assim...  senhores!... Emfim, isto de homens gostam assim das
mulheres que puxem por elles... Mas esta ida a Braga... Quem sabe se o
tal Macario... _an, an..._ (_Toque fra_) Quem sabe se  elle? (_Liborio
entra pelo fundo_)


SCENA VI

Sebastiana e Liborio

SEBASTIANA

Ai! no  elle!

LIBORIO

No  elle: sou eu.

SEBASTIANA

O senhor que quer?

LIBORIO

A snr. D. Itelvina Barnab, uma mexicana de raa portugueza...

SEBASTIANA

 aqui; mas...

LIBORIO

Ella sahiu?  o que eu quero. (_Assenta-se, e apresenta um aspecto
risonho_) Vou-me ensaiar.

SEBASTIANA

Mas a senhora est em casa.

LIBORIO

(_erguendo-se de impeto, e tornando-se grave_) Reclho o meu sorriso;
n'esse caso vae dizer a tua ama...

SEBASTIANA

A senhora est a escrever, e prohibiu-me de a interromper.

LIBORIO

(_tornando-se a sentar risonho_) Muito bem... vou-me ensaiar.

SEBASTIANA

(_ parte_) A fallar a verdade, a menina  to exquisita que, se eu a
no aviso,  capaz de se escamar. (_alto_) O senhor como se chama?

LIBORIO

Como me chamo?

SEBASTIANA

Sim... vou avisar a senhora. Quem direi que a procura?

LIBORIO

Annuncia-lhe... um desgraado! (_passa para a esquerda_).

SEBASTIANA

Um desgraado?!

LIBORIO

No... (_ parte_) Seria parlapatice de mais...

SEBASTIANA

Ento que decide?

LIBORIO

A tua ama  nervosa?

SEBASTIANA

O senhor que diz? olha que pergunta!

LIBORIO

Deve ser nervosa... Olha bem para mim... Vs esta cara melancolica? vs?
pois vae dizer  menina Itelvina que est aqui um sujeito com cara de
quem chorou...

SEBASTIANA

Como? o senhor quer que eu diga...

LIBORIO

No, outra coisa... espera...

SEBASTIANA

O senhor no pense que eu vou agora incommodar a menina para lhe fazer o
seu retrato.

LIBORIO

Tens raso; no a incommodes... Esperarei... convem-me esperar...

SEBASTIANA

(_ parte_) Tem grande tlha o homem!

LIBORIO

Como te chamas?

SEBASTIANA

Para que o quer saber?

LIBORIO

Para qu?  para no estar a chamar-te creada; mas, tens raso... Que me
importa a mim? Eu queria chamar-te Mariquinhas ou Theresinha... Que
lindos olhos tu tens, e que cinta!... (_Cinge-a pela cintura_).

SEBASTIANA

Est bonita a chalaa!... foi para isto que veio c?

LIBORIO

No. Tu me impes o cumprimento de um dever. Obrigado, rapariga,
obrigado!

SEBASTIANA

(_ parte_) Elle  doido; mas aparelha bem com a minha ama... C se
avenham, que eu vou para a cosinha. (_Sahe pelo fundo, levando o
rob-de-chambre de Barnab, e os utensilios de barbear._)


SCENA VII

Liborio

(_s, arrumando  esquerda o chapeu e a bengala_) Eis-me a braos, com a
minha misso!... Aquelle diabo do Macario!... Acabou-se... No ha
remedio... Hontem  noite, entrei no caf Lisbonense, e estava l o
Macario a apostar ao bilhar. Assim que me avistou, veio direito a mim, e
disse-me: Liborio, s meu amigo? Eu conhecia-o de ter estado com elle
no collegio do Six, onde tinhamos rilhado de parceiros algumas raizes de
latinidade. Respondi-lhe: Sim, sou teu amigo para a vida e para a
morte.--Para a morte? exclamou elle.  o que eu exijo da tua amizade.
Se me amas, vaes matar-me! E em poucas palavras contou-me os seus
amores com uma mexicana a quem promettera casamento. Esta neta de
Montezuma, disse elle, no pega como uma obreia--agarra-se  gente como
colla forte:  um betume. Quer por fora pregar comigo na egreja. Se eu
no cazar com ella, mata-me; e eu prefiro antes morrer s tuas mos que
s d'ella. Fallou-me ento d'uma fantastica sahida para Braga, e
encarregou-me da misso que venho cumprir... Confsso que no me
encarregaria d'isto sem umas certas intenoens... O retrato que elle me
fez d'essa Itelvina realisa os meus ideaes. Uma rapariga selvagem  ave
rara no Porto!... Uma mulher que tem nas veias sangue dos Incas!... alto
l com ella! Est no meu gosto. Resolvi, por tanto, relacionar-me com a
pequena; e, se me agradar, tratarei de lhe dar algum alivio, e passo a
emprehender a conquista do Mexico. (_Olha para o lado direito_) Abre-se
uma porta...  talvez a pequena... Agora  que so ellas... Firme!...


SCENA VIII

Liborio, Itelvina (_entrando pela direita_)

ITELVINA

(_com uma carta na mo_) Est feita a carta... j p'ro correio...
(_avistando Liborio_) Um homem!...

LIBORIO

(_cumprimentando_) Minha senhora... (_ parte_) Fatia!... rica natureza!

ITELVINA

O senhor quem procura?

LIBORIO

A snr. D. Itelvina Barnab.

ITELVINA

Sou eu.

LIBORIO

(_sorrindo_) Minha senhora... (_ parte_) trabalha-se bem no Mexico...
(_alto_) Venho encarregado de lhe transmittir uma importante noticia...

ITELVINA

Noticia?

LIBORIO

(_ parte_) Circumspeco...

ITELVINA

Queira dizer (_apontando-lhe uma cadeira e sentando-se_)

LIBORIO

(_pegando de uma cadeira do fundo  esquerda e sentando-se_) (_ parte_)
Estou atrapalhado... (_alto_) Minha senhora, acabo de chegar de Braga.

ITELVINA

(_erguendo-se, e elle tambem_) De Braga?

LIBORIO

(_passando para a direita_) (_ parte_) Parece que o cavaco tem de ser
de p. (_Alto_)... Venho de Braga, onde estive com Macario...

ITELVINA

O senhor  amigo d'elle?

LIBORIO

Sim... isto ... sim... oh! certamente... amigo intimo...

ITELVINA

(_com vehemencia_) Por que no est elle aqui ao p de mim como
prometteu e jurou? Por que me no escreve? porque ? diga-me o senhor
por que ?

LIBORIO

(_ parte_) Que bonita ella  zangada!

ITELVINA

O senhor no responde?

LIBORIO

Responderei. (_ parte_) Circumspeco! (_alto_) Macario ficou em
Braga... e encarregou-me de communicar a V. Exc. as rasoens que o
prendem l.

ITELVINA

Mas acabe com isso... vamos direitos  questo... Nada de delongas...

LIBORIO

(_ parte_) Tambem no  feia na impaciencia!... (_alto_) Minha senhora,
o imprevisto  o machinista da existencia... O acaso arranja uns
scenarios, umas tramoias que parecem de pea magica...

ITELVINA

Que mais?

LIBORIO

(_ parte_) No vamos logo s do cabo. (_alto_) Ah! minha senhora... ser
joven, bello, amado de uma mulher... isso no  raso para impedir que
um mu destino... pelo contrario  peor...

ITELVINA

 senhor! por piedade! Acabe...

LIBORIO

Macario disse a V. Ex., creio eu, que ia a Braga buscar uns papeis...

ITELVINA

E mentiu-me?

LIBORIO

Quanto ao fim da viagem, mentiu. Ninguem hoje vae a Braga seno por dous
motivos.

ITELVINA

Quaes?

LIBORIO

Ou se vae ao Bom Jesus vr os judeus e comer frigideiras, ou terar no
campo da honra dois floretes, desde que os duelos no Porto, por muito
repetidos, tm a policia n'uma constante vigilancia.

ITELVINA

Um duelo!?

LIBORIO

Um conflicto de honra...

ITELVINA

Elle foi bater-se? Ficou ferido?

LIBORIO

Minha senhora...

ITELVINA

Ligeiramente ferido, sim? quasi nada? Oh! diga-me que no  nada!

LIBORIO

Minha senhora... Macario... ah!... no posso... Se V. Ex. soubesse...

ITELVINA

 ceus!... que foi?...

LIBORIO

(_ parte_) Chegou o momento.

ITELVINA

Macario?...

LIBORIO

Macario...

ITELVINA

Morto! (_Liborio est um momento silencioso; depois, ampara a cabea com
as mos_).

ITELVINA

(_expedindo um enorme grito_) Ah!

LIBORIO

Minha senhora...

ITELVINA

Morto! assassinado... elle!... ah! (_Roda sobre si mesma duas vezes e
vae desmaiar no canap_).

LIBORIO

Hein! ella desmaia!... ora esta! No a julgava capaz d'esta tolice!
(_vae junto d'ella_) Menina... Acho que chamo alguem... Mas que
historietas se vo arranjar com este caso!... Menina, peo-lhe que
recupere os sentidos... Se eu a despertasse... Mas  preciso bolir-lhe
nos colchetes... No, no me atrevo a fazer tanto... O corao
bate-lhe... Estou mais socegado...  gentil!...  mais que gentil, 
formosa! Isto  bom a valer!... E aquelle parvo do Macario a
desdenhar... Ella est ganhando cres... j lhe tremem as azas do
nariz... e pestaneja. Volta  vida... Se eu me safasse agora... (_Vae a
querer sahir e retrocede_) No: j agora fico, succeda o que succeder.

ITELVINA

Onde estou?

LIBORIO

Menina...

ITELVINA

Quem me falla? quem  o senhor? (_encarando-o_) ah!

LIBORIO

Por quem , socegue!

ITELVINA

Esta voz... esta cruel voz...

LIBORIO

Que ?

ITELVINA

Recordo-me... Macario, o meu noivo, a minha alma... ah! ah! ah! (_recahe
sobre o canap e chora_).

LIBORIO

(_ parte_) Palavra, que me mordem remorsos.... Se eu previsse...
Acabou-se... Vou-lhe dizer tudo... (_caminha para ella; mas
reconsidera_)  demais atormentar assim esta mulher com mentiras...
Diabo! como ella chora... (_avisinha-se_) Minha senhora, ento, ento...

ITELVINA

(_erguendo-se energicamente, limpando as lagrimas, e passando para a
direita_) Basta de fraqueza! Nada mais de prantos! Um scelerado matou
Macario... e eu aqui a carpir-me em vez de o vingar! (_Vae a Liborio_) O
senhor foi testemunha do duelo?

LIBORIO

Sem duvida... isto ... sim... fui testemunha (_com dr_) Fiz quanto
podia; mas...

ITELVINA

Sabe qual foi a causa do duelo?

LIBORIO

A causa? ora, se sei... pois no sei?... (_ parte_)  diabo!...
(_alto_) pois no heide saber a causa? no sei eu outra coisa...

ITELVINA

Ento diga l qual foi?

LIBORIO

Uma questo de carambolas... A paixo do Macario... bem sabe...  o
bilhar... Por causa de uma carambola...

ITELVINA

De uma carambola?

LIBORIO

Sim... o parceiro tinha descolado a bola.

ITELVINA

Est bem... no quero saber d'isso... Logo que o motivo no foi outra
mulher, o resto no me importa. Como se chama o adversario?

LIBORIO

O adversario?

ITELVINA

O nome d'elle?

LIBORIO

Ento quer que eu lh'o diga...

ITELVINA

O nome do assassino. (_Liborio hesita_) Vamos!

LIBORIO

Ah! sim o nome do assa... Ora espere... Mas  que eu fui padrinho do
Macario... e no conheo o outro...

ITELVINA

Ora essa! um padrinho deve conhecer os dois.

LIBORIO

Tem razo;  natural que m'o dissessem; mas a commoo...

ITELVINA

(_ parte_) O homem est atrapalhadissimo! (_alto_) Mas o senhor quem ?
como se chama?

LIBORIO

Liborio, minha senhora, Arthur Liborio; profisso, filho familia que
devora a legitima paterna; mas tenho muitos tios ricos...

ITELVINA

Pois ento, senhor Liborio, meu presado senhor Liborio, diga-me o
nome...

LIBORIO

De quem?

ITELVINA

Do assassino de Macario.

LIBORIO

Palavra d'honra que no sei...

ITELVINA

O senhor mente!

LIBORIO

 minha senhora...

ITELVINA

No  possivel...

LIBORIO

Antes isso... que  menos indelicado...

ITELVINA

Est bom: eu saberei o nome. Onde foi que se bateram?

LIBORIO

Onde foi?

ITELVINA

Tambem no sabe?

LIBORIO

No sei eu outra coisa! mas essas miudezas... (_ parte_) ella
embrulha-me!

ITELVINA

(_ parte_) Outra vez atrapalhado!

LIBORIO

Foi n'uma carvalheira... A snr. D. Etelvina conhece Braga?

ITELVINA

Nada.

LIBORIO

(_ parte_) Ainda bem! (_alto_) Braga tem a figura d'um enorme bacalhau
da Noruega, e tem 3 portas. Ns sahimos pela estrada de Guimaraens. Foi
ao p da Falperra. Carregando  mo direita topa-se uma azenha, depois
sobe-se um pedao de monte, toma-se para a esquerda, e entra-se n'uma
mata virgem... Foi ahi que se bateram.

ITELVINA

No preciso mais nada. A que horas se sahe para Braga?

LIBORIO

Ha tres comboios a escolher.

ITELVINA

Iremos no primeiro.

LIBORIO

Iremos?!

ITELVINA

Duvda acompanhar-me?

LIBORIO

Eu?

ITELVINA

Ir mostrar-me a fatal mata virgem, e auxiliar-me nas minhas pesquizas
at descobrir o assassino de Macario?

LIBORIO

Mas, minha senhora...

ITELVINA

No vae?

LIBORIO

Irei; mas...

ITELVINA

Vou escrever a meu pae, preparar a malta e vamos... (_vae para a
direita_)

LIBORIO

Sosinhos?

ITELVINA

Com meu pae... Jura que me espera?

LIBORIO

Faa favor de reflectir... minha senhora...

ITELVINA

Jura?

LIBORIO

Sobre os manes de Macario! juro!

ITELVINA

Obrigada! venho j. Oh! sim! a Braga, no expresso! (_sahe velozmente
pela direita_).

LIBORIO

(_s, cobrindo-se_) Toca a safar!  uma canalhice faltar ao juramento...
mas basta de asneiras... Onde esta o meu chapeo? A rapariga  bonita, 
adoravel; mas leval-a a Braga e mais o pae, e continuar esta tramoia
absurda...--onde poria eu o chapeo?--que eu vim representar no seio
d'esta familia (_Pe a mo na cabea_) C est o chapeo... Por aqui me
esgueiro... (_Vae a sahir pelo fundo, e encontra Barnab que entra_).


SCENA IX

Barnab e Liborio

BARNAB

(_vendo Liborio_) Olha o Liborio!... (_ parte_) que veio aqui fazer
este typo?

LIBORIO

O meu parceiro do quino!...

BARNAB

O grande pandego por aqui?

LIBORIO

(_ parte_) E eu que ainda hontem estive a jogar com elle... Isto vae
transtornar a patranha...

BARNAB

Ento que feliz acaso o trouxe aqui a minha casa?

LIBORIO

A sua caza?...  celebre coisa! Eu no sabia que o amigo Barnab era o
pae da menina... Muito gsto em o conhecer...

BARNAB

Ainda me no explicou o mais importante.

LIBORIO

Acabo de ter o prazer de communicar a sua filha uma tristissima
noticia...

BARNAB

Sim? ento que foi?

LIBORIO

(_querendo sahir_) No... J bastar... dispenso o _bis_... Ella c lh'o
contar...

BARNAB

(_sustendo-o_) Snr. Liborio, eu sou pae... ouviu?

LIBORIO

(_ parte_) A pequena  encantadora, e no ser mo sondar o pae...
(_alto_) O senhor conhece o Macario?

BARNAB

Muito... de mais.

LIBORIO

Vim annunciar-lhe que elle morreu.

BARNAB

(_com jubilo_) Que me diz?

LIBORIO

(_admirado_) Gosta?

BARNAB

(_reconsiderando-se_) No... pobre moo... Sem duvida, deploro esse caso
palpitante! mas em fim (_alegremente_) faz-me conta.

LIBORIO

Sim? Faz-lhe conta?

BARNAB

 o que eu lhe digo. Elle ia casar com a pequena... Consenti com muito
custo. No gostava do homem, eu; e persuado-me que minha filha se daria
mal com elle. Por tanto, como individuo, lamento-o; como pae, exulto.

LIBORIO

(_ parte_) Isto vae bem, vae bem... mas ento  inutil que eu o
convena de que... (_alto_) Snr. Barnab... (_Leva-o para a esquerda_)
_Psiu_... Macario est de perfeita saude.

BARNAB

O Macario que morreu?

LIBORIO

No  isso... no morreu...

BARNAB

Isso mo !...

LIBORIO

Ahi vae o inigma em duas palavras. Macario fez  sua filha juramentos
que no quer cumprir, percebe?

BARNAB

Diga o resto.

LIBORIO

E para fugir  vingana, pediu-me que viesse dar parte da sua morte.

BARNAB

 um caso bonito e extraordinario, esse...

LIBORIO

Eu fiz um relatorio em regra... um duelo em Braga, etc., etc., etc.

BARNAB

Ella havia de fazer ahi o diabo!... Ella no lhe bateu, hein?

LIBORIO

No; mas soluou, desmaiou, escabujou... Oh! soberba creatura na sua
angustia!

BARNAB

Est alli uma linda viuva, no acha?

LIBORIO

A final quer que eu v com ella a Braga.

BARNAB

O senhor?

LIBORIO

Eu e mais o senhor. Quer que vamos os trez.

BARNAB

Ento desconfia da pta?

LIBORIO

No, senhor. Quer ir vingar a morte do noivo.

BARNAB

Toma!

LIBORIO

E exige que eu lhe diga o nome do assassino; e como at esta data o
unico assassino de Macario sou eu...


SCENA X

Os mesmos e Itelvina, _que vinha entrando pela direita, e, ao ouvir a
ultima phrase, se esconde_.

ITELVINA

(_ parte_) Que disse elle?

LIBORIO

Agora, j o meu amigo entende a minha atrapalhao...

ITELVINA

(_ parte_) A sua atrapalhao!...

BARNAB

Porque lhe no disse um nome qualquer?

LIBORIO

No me occorreu essa ida...

ITELVINA

(_ parte_) Que mysterio  este?

LIBORIO

J v em que entalas eu me acho... A cada instante, quasi que me
estendia... Que colicas eu rapei! Eu no queria de modo algum que ella
soubesse que...

ITELVINA

(_ parte_) Que horrores eu estou adivinhando!

BARNAB

Soubesse o qu?

LIBORIO

Jogo franco. Macario fallou-me de sua filha n'uns termos que
espicassaram a minha curiosidade...

BARNAB

Com effeito... espicassaram-no os termos...

LIBORIO

Meu amigo, sympathiso com esta menina original...

ITELVINA

(_ parte_) Hein?

LIBORIO

 o que lhe digo... Amo as plantas exoticas... Gosto d'estes licores
capitosos de fabrica estrangeira, e regeito os charopes amelaados da
fabrica nacional.

BARNAB

Em summa, o senhor gosta de minha filha...

LIBORIO

Deveras.

ITELVINA

(_ parte_) Elle ama-me!... que horror!

BARNAB

Querido Liborio! (_ parte_) Elle  rico... (_alto_) O seu pedido faz-me
muita honra... mas...

LIBORIO

Recusa?

BARNAB

Acceito. (_Do-se as mos_).

ITELVINA

(_ parte_) Que revelao!

BARNAB

Mas o essencial  conquistar a vontade d'ella... Uma feliz lembrana!
vamos partir todos para Braga...

LIBORIO

Parece-lhe?...

BARNAB

(_gracejando_) O senhor no se arrisca a encontrar o assassino de
Macario, pois no?

LIBORIO

(_rindo_)  muito provavel que no...

BARNAB

Vocs viajam juntos; e em quanto finge que faz indagaes, vae lhe
fazendo a crte.

LIBORIO

 isso, perfeitamente.

BARNAB

Eu vou tambem... bem me custa; mas em fim no ha conveniencias a guardar
quando se trata do futuro de uma filha.

LIBORIO

Mil graas, snr. Barnab.

BARNAB

Venha commigo ao meu quarto, e ajuda-me a fazer a mala.

LIBORIO

Com muito prazer! Estou contentissimo!

BARNAB

E ento eu! Vi-me livre do Macario! Que bem fez o senhor em matar esse
bigorrilha! (_Entram pela esquerda_)


SCENA XI

Itelvina

(_s_) Elle! foi elle o assassino de Macario! E meu pae sabia-o! e ambos
elles querem que eu caze!... Mas que paiz  este... este Portugal...
este mundo onde o assassino cubia a noiva da victima! E pude conter-me!
E no avancei para elle como uma lea, como a pantera ferida! Oh! mas
elle torna, e ento... No, no  com um golpe de punhal que elle hade
morrer! Para crimes monstruosos  necessario vinganas excepcionaes!
Hade morrer no a golpes de punhal, mas a picadellas de alfinete! Elle
ama-me!... ama-me!... quer esposar-me!... por que no? por que no? Pois
no  justo que o seu nome e a sua honra me pertenam? (_ironica_) Ah!
com que jubilo eu no proferirei deante do sacerdote, o ditoso _sim_, a
doce renuncia de mim toda! Nunca uma noiva apaixonada, mais ternamente,
nunca uma solteirona de 35 annos ter proferido esse _sim_ com maior
exultao! Ah! parece-me que me estou vendo e ouvindo quando o padre me
disser: Recebe como esposo o snr. Liborio? e eu com a coroa de virgem
na fronte e a raiva no corao e a injuria nos labios e os olhos em
terra, responderei sim, sim, sim!  meu Macario, conta com uma
vingana desconhecida na Europa! uma vingana mexicana! Ah! l da manso
celeste, tua derradeira morada, ver-me-has com ufania!... Vem gente... 
elle!... Cala-te, meu corao!... Sorride meus labios! Silencio, minhas
saudades!  foroso!  foroso!... (_Senta-se junto ao piano_).


SCENA XII

Liborio, Barnab, Itelvina

BARNAB

(_fra_) Confio-lh'a; mas no lhe d grandes abalos. (_Entra pela
esquerda com Liborio_).

LIBORIO

(_com uma grande mala_) Peza que tem diabo!

BARNAB

Peza, peza... Obrigado... Eu  que j no posso com isso.

LIBORIO

(_vendo Itelvina, baixo a Barnab_) C est ella... lerta!

BARNAB

Justo... Faamos caras dolorosas. (_Avana e pra_) Cuidei que ella
estava arranjando as malas...

LIBORIO

(_baixo_) Est a pensar n'elle...

BARNAB

(_aproximando-se em tom maguado_) Itelvina, Itel...

ITELVINA

Quem me chama?

BARNAB

Ninguem... isto , sou eu, teu pae. (_Aponta para Liborio e faz com que
ella o veja com a mala_). Estamos promptos para partir...

ITELVINA

(_como se no entendesse_) Partir no entendo...

BARNAB

No entendes? boa!... O snr. Liborio contou-me...

ITELVINA

Ento j sabe?

BARNAB

Sim, sei. Que se lhe ha de fazer? A Parca  inflexivel!

ITELVINA

E o pap tem grande pena, no tem?

BARNAB

E que pena! aqui tens a prova... ali est a mala... Resigno-me a ir a
Braga, auxiliar-te nas tuas indagaoens.

ITELVINA

Quaes indagaoens?

BARNAB

Ento ns no vamos procurar o assassino de...

ITELVINA

(_erguendo-se de golpe_) O assassino de Macario?... (_Avana para
Liborio, que sustenta sempre a mala, e recua deante do olhar d'ella_) O
senhor que tem? que tem o snr. Liborio?

LIBORIO

Eu?... nada...

ITELVINA

Pensei que estava atarantado...

LIBORIO

Um pouco, com esta mala...

ITELVINA

(_ parte_) O remorso estrangula-o!... (_alto_) O senhor era amigo
d'elle, no era? muito amigo d'elle, pois no?

BARNAB

Est bom, est bom... tem muito tempo de conversar na jornada...

ITELVINA

Qual jornada?

BARNAB

Pois ns no vamos a Braga?

ITELVINA

Fazer o qu?

BARNAB

Mas o snr. Liborio no me disse que tu...

ITELVINA

Ah! sim... no primeiro momento, queria... pensava mas mudei de teno...
No vamos.

LIBORIO

(_deixando cahir a mala_) Hein?

BARNAB

Boa vae ella!

ITELVINA

De que serve procurar esse feliz contendor... O duelo  um jogo
d'azar... e a minha vingana no se submette ao acaso... (_Passa para a
direita_)

BARNAB

Apoiada! tens muita raso! isso  que  ter juiso! (_A Liborio_) Est
applacada!... Bravo!

LIBORIO

(_ parte_)  o arco da velha a annunciar trovoada.


SCENA XIII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo_) Est o almo na meza.

ITELVINA

Pe mais um talher.

BARNAB

Trez talheres?

ITELVINA

Pois ento, meu pae! no ha nada mais natural... O snr. Liborio, que
chegou de Braga, e que veio prestar-nos um servio, no duvidar
acceitar...

LIBORIO

Eu... mas... (_ parte_) Bem disse eu que era o arco da velha...
(_alto_) com muito prazer.

ITELVINA

O seu brao, snr. Liborio. (_Liborio offerece-lh'o e sobem_).

SEBASTIANA

(_ parte_) Este ser tambem um noivo?

BARNAB

(_ parte_) Que mudana ella fez!

ITELVINA

(_para o pae_) (_Parando  porta do fundo_) Ento, meu pae? Vem? est a
pensar no Macario, ou no assassino de Macario? Vamos almoar. (_Sahem_).

BARNAB

(_pensativo_) Mo! mo! Bem dizia o Liborio... O arco da velha vae dar
muita chuva... (_Segue-os_).

FIM DO 1. ACTO




ACTO SEGUNDO

Quarto de dormir. Ao fundo, um leito cujos cortinados, pendentes de um
docel, esto meio-cerrados. Um pouco quem uma porta que abre para um
gabinete de _toilette_.  direita, no primeiro plano, uma janella
fechada com cortinas e _store_. No fundo,  direita do leito, a porta da
entrada.  direita, no 3. plano, uma porta de communicao para o
quarto de Itelvina.  direita, na frente, uma meza.  esquerda uma
jardineira sobre a qual est uma caixa de charutos, phosphoros, e um
barrete de veludo. Ao p da jardineira, sobre uma cadeira, uma camizola.
 direita, uma cadeira de estofo sobre a qual esto as calas de
Liborio. Ao p uma bota e um chinelo.  cabeceira do leito, uma
bispoteira. Cadeiras de estofo, quadros, etc. Uma lanterna de furta-fogo
sobre a jardineira.


SCENA I

Itelvina, (_s_) Liborio, (_no leito meio occulto_)

(_Ao correr do panno, a scena est alumiada pela lanterna, deixando na
penumbra o leito. Quando corre o panno, Itelvina, erguida ao fundo sobre
uma cadeira, pendura uma das botas de Liborio n'um painel; depois desce,
pega da lanterna, examina a bota, e diz:_) Bem... est como se quer...
d'um bello effeito! Mas, se elle no visse... Ah! tenho aqui linha...
(_Pe a lanterna sobre a meza, e sacando da algibeira um novello de
linha torna a subir  cadeira, prende a extremidade da linha  bota; e
descendo, traa com o fio no taboado uma linha que vae at  meza sobre
a qual pe o novello; ahi pega d'um bocado de gis, senta-se e escreve
sobre a meza, fallando em voz alta._) Seguir o fio. (_Ergue-se, e vae
ao p do leito_). Acordaria elle?... no. (_Ouve-se resonar ao fundo_)
Elle resona, o miseravel resona! Condemnei-o a passar as oito primeiras
noites de casado em uma completa solido, e elle resona indifferente 
minha auzencia! Antes assim!... Hoje entramos na nova crize, a crize das
pequenas mizerias, as picadellas dos alfinetes antes das punhaladas...
Vejamos se me lembrou tudo. (_Senta-se  meza, e l em uma carteira 
luz da lanterna_). Despregar por tres lados os cortinados do leito para
que lhe ciam sobre o nariz. Isso est feito e bem me
custou...(_Lendo:_) Furar os charutos. J furei. Polvilhar de pimenta
o bonnet. J tem. Coser os lenos s algibeiras. Esto cosidos.
Esconder um dos chinelos e uma das botas; adiantar a pendula e atrazar
o relogio; deixar-lhe s um tosto no porte-monnaie, e cortar os
elasticos dos suspensorios. Est tudo feito. (_Lendo:_) Acordal-o de
sobresalto para lhe causar um grande estonteamento.  o que se vae
fazer. (_Ergue-se e dirige-se com a lanterna para a porta da direita_).
Ah! Liborio, assassino de Macario, o co  justo, e a hora da vingana
soou! (_Proferindo esta phrase, tira da algibeira uma pistola; dita a
ultima palavra, d um tiro e sahe fechando sobre si a porta. Completa
escurido._)


SCENA II

Liborio

(_s_) Ui! isto que foi? Que  isto? (_Espreita por entre as cortinas_).
Entre quem ! Quem est ahi? No  ninguem... quem foi que me acordou?
Parece que ouvi um tiro ou um espirro enorme, no sei bem o que foi...
Estaria eu a sonhar? Ninguem aqui vem espirrar de noite no meu quarto, e
mais sou casado, casado ha oito dias! Tudo est em repouso, excepto a
minha imaginao. Isto que horas sero? As cortinas esto fechadas...
no se v boia... escuro como um prego... Felizmente o meu relogio  de
repetio (_Toca na mola do relogio pendurado no espaldar do leito, e
ouve 4 horas_). Quatro horas! ainda quatro horas! Ah! as noites
solitarias!... como so eternas! Vamos vr se se adormece... (_Deita-se,
a pendula d horas, e elle conta-as em voz alta, erguendo a cabea a
cada nova pancada_). Uma, duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez... Dez horas! Como dez horas! E o meu relogio que s d
quatro... (_Assenta-se na cama_) E so ambos do mesmo relojoeiro! Mas,
se ja fssem dez horas, eu devia estar a p. Principiemos por abrir os
cortinados. (_Puxa pelas cortinas que cahem e o embrulham_) Que  isto,
com dez raios de diabos... Larguem-me, larguem-me!... Larguem-me o qu?!
Grande besta que eu sou! Ninguem me prende... so os cortinados que eu
agarro... que me agarram a mim. (_Ao desembaraar-se das cortinas cahe
da cama ao cho_) Que trapalhada  esta! o dia principia mal... Vou
correr as cortinas e os stores. No gosto da escurido. (_Abre:  dia
claro_)  dia claro! A pendula tinha raso. Toca a vestir depressa.
(_Pega das calas e vae vestil-as atraz do fauteuil; cala um chinelo e
procura o outro_) Onde estar o outro sapato? No me apparece seno
este... Parece-me obra do diabo isto! Vou calar as botas. (_Depois de
calar uma_) Onde est a outra? Como  isto de achar s um chinelo e uma
bota? Seria a Sebastiana? Ella ficou de me chamar s nove horas, e
entraria sem eu dar f... mas para que fim me levaria s uma bota?
(_Trata de cruzar um suspensorio que quebra_) Irra! agora so os
suspensorios! (_Aperta o outro, enraivado_) Que inferno este! (_Quebra o
outro_) L vo ambos! (_Atira-os ao cho_) A fivela estar direita?
est... segura-se... Valha-nos isso. (_Procurando_) O meu bonet? Est
acol... (_cobre-se_) A camisola? est aqui... (_veste-a_). Agora, vou
procurar... (_suspende-se_) Mas se ainda  cedo... (_espirra_) que raio
de cheiro a pimenta! Se a Sebastiana tivesse vindo, acordava-me como eu
lhe ordenei... No sero ainda nove horas? Receio de ir acordar... Vou
fumar um charuto. (_Pega de um charuto e phosphoro_) O fumar de manhan
aclara-me as ideas. Santo Deus, como  incommodo passear com uma bota e
um chinelo! (_Assenta-se  esquerda do gueridon_) Em quanto Sebastiana
no vem, recapitulemos os meus infortunios fumando um delicioso
havano... (_espirra_) Que  o que cheira aqui tanto a pimenta?
(_Pretende accender o charuto_) Era meia noite. Itelvina pertencia-me ao
cabo de trez mezes de scenas exquisitas; ella tinha proferido, de
manhan, com uma voz energica o _sim_ encantador que me dava sobre ella
direitos senhoriaes absolutos. Danava-se no salo amarello, e havia uma
hora que eu amaldioava os relogios (_No podendo accender o charuto
atira-o ao fogo e vae buscar outro_) que me pareciam todos parados.
Annuncira-se finalmente a ultima quadrilha, os danantes comeavam a
cancanizar-se um pouquito... (_espirra_) D'onde vir este cheiro a
pimenta? Minha mulher danava com o tabellio, e parecia muito
emocionada... Eu attribuia a mim esta emoo que o tabellio no
justificava de modo nenhum... Em fim, sa a meia noute. (_Ergue-se_).
Ouve-se um grito agudissimo... Corro e exclamo... (_Atira fra o segundo
charuto_) Que  o que tem estes charutos? (_Pega n'um terceiro_)... e
exclamo: Cos! minha mulher! Itelvina estava desmaiada. Tinha torcido um
p quando polkava com o tabellio; e eis-me aqui,  meia noute, a
primeira das minhas nupcias,  procura d'um indireita. A final, topo um;
e cuidando que  meia hora depois da meia noite, tinha direito a
examinar o estorcego do p da minha esposa, entro com a faculdade
algebrista at ao seu leito de dr. (_Accende o terceiro charuto_)
Baldada esperana! Nega-se-me obstinadamente este primeiro favor, e sou
obrigado a esperar n'um quarto proximo, com o pap Barnab, a sahida do
doutor que, depois de um quarto d'hora de angustias, veio em fim
declarar-nos que uma forte distenso dos ligamentos, uma contraco
terrivel da articulao, reteriam minha mulher quinze dias de cama; e
com effeito, depois... T'arrenego, diabo! este charuto est rto! E os
outros? (_Examina a caixa_) Esto todos estripados! (_espirra_) Com toda
a certeza, tenho pimenta nas ventas! (_Tira o bonnet_) Ah! aqui est a
pimenteira!  possivel!... como  isto? Sebastiana mette a pimenta no
meu bonnet... (_atira-o fra_) para o preservar do bicho... hade ser
isso, mas ella  idiota!... (_espirra_) Que  do meu leno? Est cosido!
Cozeram-me o leno  algibeira, como aos rapasinhos de escola... Ah!
isto  um cumulo! (_Puxa por um cordo de campainha proximo  chemin_)
No me importa acordar toda a gente! (_sacode a campainha_).

SEBASTIANA

(_fra_) L vae, l vae, senhor!

LIBORIO

Vamos a esclarecer isto tudo...

BARNAB

(_fra_) Que banz  este?

LIBORIO

O sgro... sgro de mo cheia... (_gesto ironico. Barnab e Sebastiana
entram pelo fundo_).


SCENA III

Sebastiana, Liborio, Barnab

SEBASTIANA

O senhor est doente?

BARNAB

Ser preciso chamar os bombeiros?

LIBORIO

(_a Sebastiana_) Vem c... e responde.

SEBASTIANA

Quem, eu?

BARNAB

Que tem o meu genro?

LIBORIO

Passados cinco minutos, tem-me s suas ordens. (_a Sebastiana_) Vem
c... Que horas so?

BARNAB

Ento foi para saber que horas eram...

LIBORIO

Snr. Barnab, no  comsigo que eu fallo. (_a Sebastiana_) Quantas horas
so?

SEBASTIANA

Oito e meia, senhor.

LIBORIO

Por que  ento que o meu relogio tem quatro e a pendula d dez e meia?

SEBASTIANA

Eu sei c! pergunte-o ao relojoeiro.

BARNAB

Ella tem raso; o seu officio no  esse. Ella de pendulas no percebe
nada.

LIBORIO

Espera um pouco. (_a Sebastiana_) Por que metteste pimenta no meu
bonnet?

SEBASTIANA

Eu?! que metti eu?

BARNAB

Sim... isso l da pimenta  com ella... Responde sobre a pimenta,
rapariga!

LIBORIO

Por que furaste os meus charutos?

SEBASTIANA

Eu furei os seus charutos!...

BARNAB

Ella furou os charutos?... Tu furaste... (_a Sebastiana_)

LIBORIO

Por que me coseste os lenos s algibeiras?

SEBASTIANA

Olha que espiga!

BARNAB

Pois tu coses os lenos?...

SEBASTIANA

Isso  falso, senhor!...

LIBORIO

(_mostrando_) Esto cosidos ou no esto cosidos?

SEBASTIANA

Eu c no fui.

LIBORIO

E os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos ps da
cama...

BARNAB

Nos seus ps, quer dizer o meu genro.

LIBORIO

Meu sogro, queira amordaar o seu espirito que me est arreliando. (_a
Sebastiana_) Em fim, responde, explica-te.

SEBASTIANA

No percebo patavina.

BARNAB

E dois.

LIBORIO

No percebem que se est aqui representando uma magica de pessimo
gosto... uma diabrura de auctores anonymos...

BARNAB

No est m essa! O senhor disfructa-nos!

SEBASTIANA

 l possivel a diabrura! cruzes, canhoto!

LIBORIO

Desde esta manhan estou sendo uma almofada em que mo desconhecida
espeta alfinetes... Notem isto... Aqui est uma bota. Pergunto eu: onde
est a outra? Aqui est um chinelo; e o outro onde est?

SEBASTIANA

(_procurando_) Eu procuro... (_Aproxima-se da meza e vendo o que est
escripto_) Esperem l!... (_Lendo_) Seguir o fio.

LIBORIO

(_approximando-se_) Seguir o fio?!

BARNAB

(_o mesmo_) Ento sigamos o fio. (_Seguem os tres o fio da linha.
Sebastiana  frente vae innovelando o fio. Barnab atraz_) Onde vae isto
parar? (_Vo indo at chegar  parede_) A linha aqui, trepa! (_Levantam
as cabeas_).

SEBASTIANA

(_vendo a bota_) Olha!

BARNAB

 ella!

LIBORIO

A minha bota!

BARNAB

A sua bota!

SEBASTIANA

 verdade, a bota!

LIBORIO

(_passando para a direita_) Quem a pendurou acol?

SEBASTIANA

(_tirando a bota para baixo_) Eu no fui.

BARNAB

Menos eu.

LIBORIO

Por consequencia...

SEBASTIANA

O snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto  uma chalaa... no
ha que vr...

LIBORIO

Hein?

BARNAB

(_rindo_) O meu genro hade ser sempre um pandego...

SEBASTIANA

Quiz-nos impingir esta comedia.

LIBORIO

Irra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...

SEBASTIANA

Oh senhor!...

BARNAB

Como imagina o senhor que esta rapariga...

LIBORIO

Se no foi ella... foi o senhor.

BARNAB

Meu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...

LIBORIO

Tem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o
certo  que ns aqui no smos seno trez. Minha mulher no pde ser,
porque est de cama com um p torcido.

BARNAB

A respeito d'isso, parece que ella est melhor do p... O senhor sabe
que ella est melhor do p...

LIBORIO

Como eu que sei?

BARNAB

Eu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.

LIBORIO

Eu?

BARNAB

E que balburdia o senhor fez!...

LIBORIO

Eu?

BARNAB

Se no receasse ser indiscreto, vinha c abaixo.

LIBORIO

O senhor est doudo! Eu no sahi d'aqui!

BARNAB

Ora, deixe-se d'isso...

SEBASTIANA

(_reflectindo_) Achei o que ... J sei...

LIBORIO

(_vivamente_) Achaste quem  que manga comigo?

SEBASTIANA

 o senhor mesmo.

LIBORIO

Eu?

BARNAB

Elle? dize l...

SEBASTIANA

(_a Barnab_) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de
noite...

BARNAB

Um somnambulo! Ella tem razo... O snr. Liborio  somnambulo.

SEBASTIANA

 isso,  isso, somnambulo...

LIBORIO

Eu somnambulo!... est bem!... fico sciente!...

SEBASTIANA

 que o senhor no se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou
pelo meu quarto dentro, e abraou-me; e eu como sabia que  um perigo
acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia no se
lembrava de nada.

LIBORIO

 l possivel que fsse eu!...

BARNAB

Ento quem havia de ser?

LIBORIO

 assim... --est tudo bem explicado... mas ser dificil fazer-me crer
que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu
bonnet e cozesse os meus lenos.

BARNAB

Aqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os
traslados a dormir...

LIBORIO

(_ parte_) Estou inquieto... (_Alto_) Meu sgro, e tambem tu,
Sebastiana, peo-lhes que no digam nada do acontecido a minha mulher.

SEBASTIANA

Eu c por mim...

BARNAB

Fique na certeza...

LIBORIO

(_scismando_) De mais a mais, eu no sei cozer... Como  possivel que eu
soubesse cozer a dormir?...

SEBASTIANA

 meu senhor, o meu primo s sabia abraar-me quando estava a dormir...
Chama-se a isso vista dobrada.

LIBORIO

(_ parte_) Este caso faz-me desconfiar...


SCENA IV

Os mesmos e Itelvina

ITELVINA

(_fra_) Quem me acode, quem me acode!

BARNAB

Minha filha!

SEBASTIANA

Senhora!... (_Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para
dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna
direita ligada encostando-se  parede_).

ITELVINA

Socorram-me... uma cadeira... amparem-me... (_Liborio e Barnab pegam em
Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena_).

BARNAB

Pois tu ergueste-te?

LIBORIO

Ento isso como vae? melhorzinha?

ITELVINA

Pelo contrario... cada vez peor.

LIBORIO

Era melhor ter tocado a campainha.

ITELVINA

(_deixando-se cahir no fauteuil_) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um
banquinho...

LIBORIO

(_chegando-lh'o_) Aqui est... venha uma almofada... (_Sebastiana traz a
travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na
perna da mulher_) Com licena...

ITELVINA

No lhe toque... Ai! a menor presso... (_pondo a perna sobre o banco_)
Ai!... como eu estou!... (_Sebastiana tem passado para a direita_).

BARNAB

Para que te ergueste tu?

ITELVINA

Eu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei,
achei-me to boa, que pensei poder vir at c; mas receio bem ter
aggravado o mal...

LIBORIO

(_ parte_) Vamos bem!... o casamento est para demora... O meu
matrimonio est pendente d'um p desnocado... Se isto no fr p de
cantiga, fico toda vida a fazer p de alferes a minha mulher coixa.

BARNAB

(_que tem estado a conversar com a filha_) Fizeste muito mal em te
levantares... Eu no posso demorar-me por que tenho de fallar com o Jos
Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carria... E, como no
pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me l.

ITELVINA

Ento o pae quer deixar-nos? Muda de casa?

LIBORIO

 meu sgro!... (_ parte_) No seria mo...

BARNAB

_Sgro_... precisamente... um sgro entre uns casados que se adoram, 
incommodo...  emprasador...

ITELVINA

Ora...

LIBORIO

Ora... (_ parte_) Diz muito bem...

BARNAB

E, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir
viver ssinho... o que me hade custar muito... na aldeia...  um
sacrificio... vou victimar-me  felicidade dos meus filhos... E alm
d'isso, est no meu gosto... a meditao... divagar solitario no seio da
natureza...

ITELVINA

Ento no o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoo.

BARNAB

No ser possivel... Tenciono almoar no botequim... No gosto de
almoar de garfo; prefiro o meu caf com leite, uma torrada, e o
_Primeiro de Janeiro_ que  tudo leve.

ITELVINA

Plena liberdade...

BARNAB

Liberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...

ITELVINA

No... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficar ao p de mim, e se fr
preciso, o Liborio vae chamar o medico.

BARNAB

E eu no me demorarei muito tempo... Se o Jos Francisco l estiver,
antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio...
Ento  verdade que ests melhorsinha?

ITELVINA

Sim... n'este momento quasi que no soffro.

BARNAB

Ento vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...

LIBORIO

V descanado, meu sgro.

BARNAB

(_abraando Itelvina_) At logo, minha Lili... Vou-me j safando, por
que, se fsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (_Sahe
pelo fundo_).

LIBORIO

(_acompanhando-o_) Arrange l os seus negocios e no se apresse...


SCENA V

Itelvina, Sebastiana e Liborio

ITELVINA

(_ parte_) Vou em fim saber o resultado das minhas primeiras picadellas
de alfinete.

LIBORIO

(_voltando de bom rosto para junto de sua mulher_) A senhora aqui... na
minha alcva... Que surpreza!

ITELVINA

Ora esta! O senhor traz uma bota e um chinelo?!

LIBORIO

Foi a Sebastiana que...

SEBASTIANA

Eu? E elle a dar-lhe...

LIBORIO

Ou eu...  muito possivel que fsse eu... Eu tenho padecido tanto depois
do nosso casamento... que posso estar doudo... (_Ergue-se_).

ITELVINA

(_ parte_)  possivel que elle se persuada...

SEBASTIANA

(_ao p do leito_) Ora esta! as cortinas esto rasgadas! quer vr?

LIBORIO

 isso,  isso; fui eu... Quando me erguia, puxei pelos cortinados, e
_zs!_...  preciso chamar o estofador.

ITELVINA

(_ parte_) Est persuadido que foi elle...

LIBORIO

(_ parte_) Ella acredita que eu sou somnambulo!...

SEBASTIANA

(_arrumando_) Este quarto est n'uma felga...

LIBORIO

(_ parte_) A mulher  capaz de ficar... Detestavel creatura!

ITELVINA

(_olhando para a pendula_) So onze horas?

LIBORIO

(_ parte_) Ai! j onze!

SEBASTIANA

No, minha senhora, s so nove horas... Eu no sei como isto seja! A
pendula do senhor adianta-se, e o relogio atraza-se.

LIBORIO

Como ser isso? entende-se bem...  muito simples... Sou eu que
desmancho tudo... Como heide eu andar direito, se o p torto de minha
mulher no me se do espirito?!

ITELVINA

Pobre Liborio! (_ parte_) Elle ser to estupido? (_Alto a Sebastiana,
mostrando-lhe os suspensorios que esto no cho_) Sebastiana, levanta
isso.

SEBASTIANA

(_erguendo os suspensorios_) O senhor estragou assim os seus
suspensorios?

LIBORIO

 verdade,  verdade... Foi de proposito.

ITELVINA

De proposito?

LIBORIO

Encommodavam-me. (_ parte_) A creada j me inoja...

ITELVINA

(_ parte_) Como elle  to philosopho, dobrarei a doze...

LIBORIO

(_a Sebastiana_) Sebastiana...

SEBASTIANA

Senhor.

LIBORIO

Seria bom tratar do almoo.

SEBASTIANA

Sim, meu senhor; mas, se a senhora precisar de mim?

LIBORIO

Se precisar, chamo-te... Faze um almoo ligeiro, refrigerante.
(_Sebastiana tem passado para a direita_).

ITELVINA

Eu tinha dado as ordens; mas, se as no approva...

LIBORIO

Eu? tudo o que a minha esposa quizer  o que eu quero... Sebastiana, vae
preparar o almoo que a senhora ordenou.

SEBASTIANA

Sim, meu senhor. (_Sae pelo fundo_).


SCENA VI

Itelvina e Liborio

ITELVINA

Ah! tu queres um _tte--tte_... Vamos a isso...

LIBORIO

(_ parte_) Sosinhos! estamos sosinhos! (_com transporte, sentando-se ao
lado de Itelvina_) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...

ITELVINA

Que , meu amigo?

LIBORIO

Desculpa a minha perturbao!... esta emoo!... este primeiro
_tte--tte_... porque  o primeiro... o primeiro... depois que s
minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu s minha, s o
meu bem, o meu thesouro, a minha vida...

ITELVINA

Sim, Liborio; somos um do outro, so inseparaveis os nossos destinos...
Eu sou sua como o senhor  meu... O senhor pde esquecer isso... eu 
que jmais!...

LIBORIO

Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu
passo!... o que me custa a adormecer... as reflexes que precedem o meu
somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?

ITELVINA

Pois sim, conte l.

LIBORIO

(_erguendo-se_) s vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda
do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os
dois n'um paraizo terreal como Ado e Eva... e eu a apertar-te ao
corao (_aproxima-se_) a apertar-te... (_Cinge-a com os braos_).

ITELVINA

(_gritando_) Ai! ai!

LIBORIO

(_recuando_) Tu que tens!

ITELVINA

Ah! que dres!

LIBORIO

(_ parte_) Diabolico torcego!...

ITELVINA

Isto passa... no  nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (_com
a voz natural_) Pde continuar, meu amigo.

LIBORIO

Em que estavamos ns?

ITELVINA

Estavamos no paraiso terreal.

LIBORIO

 verdade, um ao lado do outro.

ITELVINA

O senhor abraava-me...

LIBORIO

Mas, presentemente, no me atrevo...

ITELVINA

Isso no faz nada ao caso... o abrao era a sonhar...

LIBORIO

Itelvina!

ITELVINA

Liborio!

LIBORIO

O nosso cazamento no  um sonho... pois no?

ITELVINA

Decerto no, meu amigo.

LIBORIO

E todavia...

ITELVINA

E todavia...

LIBORIO

Olha, Itelvina, eu queria que o p torcido fsse meu; ainda que tivesse
torcidos ambos os ps no deixaria de me lanar nos teus braos... No
ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de
arvores carregadas de fructos que elle no podia trincar... Eis a minha
posio!... a arvore... s tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e no posso
comer... Horrivel!

ITELVINA

Ento o senhor padece muito, no  verdade?

LIBORIO

At ao extremo de me tornar cruel e insensivel s tuas dres... Quando
ahi te vejo, face a face, no ouo seno a minha paixo e...
(_abraa-a_)

ITELVINA

Ai! ai! meu Deus! ai!

LIBORIO

(_erguendo-se_) No, no, no... nada de novo... mesmo nada... (_
parte_) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...

ITELVINA

Ai que dres! que dres lancinantes!

LIBORIO

Se sou o culpado, peo desculpa...

ITELVINA

Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (_tom natural_:) Pde
continuar, meu amigo.

LIBORIO

Continuar... o qu?

ITELVINA

Isso que me estava contando... que era muito bonito...

LIBORIO

(_ parte_) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida!
(_alto_) Minha senhora, se me d licena, ataremos o fio partido do
cavaco quando a senhora estiver san.

ITELVINA

Mas... por qu?

LIBORIO

Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.

ITELVINA

Ah! sim? ento fallemos d'outra coisa.

LIBORIO

Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Maro, da
Serra da Estrella.

ITELVINA

Diga-me c, no o incommoda andar com uma bota e um chinelo?

LIBORIO

Incommoda-me horrivelmente... e, se me ds licena, calo a outra.

ITELVINA

Se dou licena? ora essa... Pde calar.

LIBORIO

(_calando a outra bota_) De mais a mais, este acto no  por nenhuma
maneira provocante nem estimulante... at acho que faria bem em me
vestir... (_tira a camisola_)

ITELVINA

Vestir-se?

LIBORIO

Smente vestir um colete e uma rabona (_ parte_) Creio que um marido,
sem faltar  decencia... (_Emquanto falla, vae abrir o gabinete da
toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita_) C
est o outro chinelo!

ITELVINA

Tinha-o perdido?

LIBORIO

Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...

ITELVINA

Pendurar um dos chinelos no gabinete de _toillete_...

LIBORIO

Sim... isto ... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos...
no, eu ponho-os ambos aos ps da cama; mas aconteceu que pendurei
este...

ITELVINA

(_ parte_)  admiravel! nada o espanta! Forte idiota!

LIBORIO

(_ parte, tirando a gravata do gabinete_)  inevitavel que eu seja
somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.

ITELVINA

 singular coisa! Tenho momentos em que no me doe nada o p...
perfeitamente ba...

LIBORIO

Esses momentos duram pouco (_Procurando atar a gravata_) No me
ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...

ITELVINA

Quer que o ajude, meu amigo?

LIBORIO

Agradeo, mas receio...

ITELVINA

Venha c... pois eu no sou sua mulher?

LIBORIO

Ah!

ITELVINA

O senhor diz _ah!_

LIBORIO

Eu c me intendo... (_Ajoelha aos ps da mulher estendendo-lhe o pescoo
e dando-lhe a gravata_) Tu no me percebes... mas eu  que me
comprehendo... Mysterios...

ITELVINA

(_sorrindo_) Ento tem segredos para mim, Liborio?

LIBORIO

Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu s! (_Itelvina aperta a
gravata_) Ai!

ITELVINA

(_ingenuamente_) Que tem?

LIBORIO

 que me afogas!

ITELVINA

 por que o senhor mexe-se.

LIBORIO

Eu mexo-me por que tu me asphixias.

ITELVINA

(_maviosamente_) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo
lao. (_Elle quer abraal-a_).

ITELVINA

Ah! Deus do co! que dr!

LIBORIO

(_erguendo-se_) No, no... no me lembrou... (_ parte_) Apre! que
situao! (_Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que
tira do gabinete_).

ITELVINA

Que dres! que dres!


SCENA VII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo_) Est prompto o almoo, senhora. Onde quer a
meza?

ITELVINA

No tenho appetite...

LIBORIO

Nem eu to pouco, a no ser que... Que ha que almoar?

SEBASTIANA

Ostras cruas, pasteis de camaro e sallada de lagosta.

LIBORIO

Ui! querem-me incendiar!

ITELVINA

No gosta do almo?

LIBORIO

Ha occasies, menina, ha occasies... mas, no estado actual, o que eu
precisava era limonadas e orchatas.

ITELVINA

Porque no vae almoar com meu pae ao botequim?

LIBORIO

Pensa que eu a deixava...

ITELVINA

No tem duvida... v que eu preciso descanar.

LIBORIO

Tambem eu...

ITELVINA

C fica a Sebastiana... V e demore-se por l, que eu preciso dormir.

LIBORIO

(_que passou para a direita_) Pois bem, seja assim; v dormir, que eu
vou tomar um pouco d'ar. (_ parte_) Ah! Itelvina, Itelvina, por que
polkaste tu com o tabellio! (_Sahe pelo fundo_).

SEBASTIANA

(_que passou para a esquerda_) Ento, pelo que vejo, ninguem almoa...

ITELVINA

Depois, Sebastiana, depois... mas tu no esperes. Almoas quando tiveres
vontade.

SEBASTIANA

Eu no posso deixar a senhora ssinha...

ITELVINA

Pdes... Vou dormir... Vae, e fecha-me esta porta. (_Sebastiana passa
para a direita_) Olha, para eu no acordar estremunhada, espreita, e
quando o senhor vier, vem prevenir-me.

SEBASTIANA

Sim, minha senhora. (_ parte_) Ella quer aqui dormir ssinha... porque
ser? (_Sahe pelo fundo_).


SCENA VIII

Itelvina

(_s_) (_est um instante quieta, mas, logo que a porta se fecha, desata
precipitadamente as tiras que lhe ligam a perna, e entra a caminhar
rapidamente_). Ah! sim? tu comers o almoo incendiario... hasde coml-o
por fora! quando s encontrares no teu _porte-monnaie_ um tosto para
pagar o leite e as limonadas,  natural que voltes ao teu posto... Essa
felicidade espero eu tl-a. Seja como fr, vou tratando de armar as
engenhocas para a noite que vem. Comecemos pelas campainhas de que elle
abusa... Onde acharei eu com que as corte? (_Vae ao gabinete da toilette
e encontra l uma faca de mato_) Uma faca de mato! Ah! tu tens facas nos
teus guarda-roupas?... tens!... est bom... esta hade servir-me... Vamos
primeiro cortar... Cortar, no! (_Atira com a faca para dentro do
gabinete que fecha_) O que se deve quebrar  o arame... Ah!... com a
cadeira sobre o leito, chego acima... (_Pega da cadeira, que pe sobre a
cama, e sobe acima cantarolando. Ergue-se, de costas para a parede, e
pega no arame com as mos ambas_) Oh! c'os diachos! parece-me muito
rijo!... _An!_  puxar... (_ouve-se tilintar a campainha_) Ai que eu
toquei! Se a Sebastiana me v aqui...


SCENA IX

Itelvina e Sebastiana

SEBASTIANA

A senhora chamou?

ITELVINA

Ai!

SEBASTIANA

Onde  que est? (_Vendo-a_) Ah!...

ITELVINA

_Sio!_ cala-te!

SEBASTIANA

Foi a senhora que...

ITELVINA

Cala-te, que te heide dar uma prenda.

SEBASTIANA

Ento que quer que eu faa, senhora?

ITELVINA

Espera ahi. (_Puxando pelo fio_) _Zz! Zz!_ Est quebrado! (_Quebra o
fio, e o mesmo tilintar da campainha continua_).


SCENA X

As mesmas e Liborio

LIBORIO

(_entrando pelo fundo quando sa a campainha_) Ella a chamar, a minha
querida a chamar...

SEBASTIANA

Ui!... meu Deus!...

ITELVINA

Oh! co' a breca! Estou aviada!

LIBORIO

(_no encontrando a cadeira em que Itelvina ficou sentada e passa 
esquerda_) Como  isto? Ella no est aqui? (_Vendo-a_) l!

ITELVINA

(_sempre sobre a cadeira; e com a maior naturalidade_) Ento j por c?

LIBORIO

Que fazes tu ahi?

ITELVINA

Como estava melhor do p, quiz experimentar um passeio.

LIBORIO

Passear l por cima?... Ah! tudo se explica! O somnambulo no era eu...
eram vocs as duas que...

SEBASTIANA

 senhor! os diabos me leve se...

LIBORIO

Retira-te.

SEBASTIANA

Mas senhor... Raios me parta, se...

LIBORIO

(_avanando para ella_) Rua! rua!

SEBASTIANA

Rua?... mas...

LIBORIO

Safa-te, ou eu... (_Sebastiana d um grito e foge pelo fundo. Liborio d
um pontap no banquinho_).


SCENA XI

Liborio e Itelvina (_Durante estas ultimas fallas, Itelvina desce
serenamente da cadeira, depois desce do leito, e ahi fica fria e
impassivel_).

LIBORIO

(_fechando a porta do fundo, e approximando-se de Itelvina_) Agora ns
dois, senhora! (_silencio de Itelvina_). Quando eu entrava no botequim,
a inquietao fez-me regressar... Vejo que fiz bem... (_silencio_) Que
geringona  esta? queira responder.

ITELVINA

Geringona, dizes tu? perguntas-me que geringona  esta?

LIBORIO

Sim!... pergunto e quero saber.

ITELVINA

(_formalisada_) Liborio, tu esmagaste o corao de uma mulher, o seu
primeiro amor...

LIBORIO

Eu? que esmaguei eu?

ITELVINA

Despedaaste a minha vida, cobriste o meu co com um crepe negro!...
Assassinaste Macario!

LIBORIO

Lerias!

ITELVINA

Atrz, assassino! atrz, que me horrorisas!

LIBORIO

Como? ento  p'ramr d'isso que?... Ora adeus! isso  pta... eu no
matei Macario nenhum.

ITELVINA

Pois tu no assassinaste Macario?

LIBORIO

No tinha eu mais que fazer!... E a prova  que Macario est vivo e so.

ITELVINA

Macario vive?

LIBORIO

(_reconsiderando_) Eu c de mim no o matei... (_ parte_) que ia eu a
dizer? Ella ama-o! e, se sabe que elle vive, temos novo chinfrim...

ITELVINA

Ah! tu negas? no tens a coragem do teu crime?

LIBORIO

Itelvina, palavra d'honra!... Quem te disse?...

ITELVINA

Nada de questoens... Voc est condemnado!

LIBORIO

Condemnado!

ITELVINA

Eu fiz um juramento, Liborio! e na minha patria no se quebram
juramentos!

LIBORIO

Isso ns veremos depois... A senhora jurou de encher de pimenta os meus
carapuos? coser os meus lenos?...

ITELVINA

Isso era um preludio... a fara antes da tragedia...

LIBORIO

Tragedia?!

ITELVINA

Para vingar Macario, cumpria que a sua vida me pertencesse, e por isso
casei comsigo!

LIBORIO

Ento foi s para isso que...

ITELVINA

Unicamente para me vingar, e nunca pelos seus attractivos, percebe?

LIBORIO

Mas a senhora, casando comigo, tambem me deu a sua vida e...

ITELVINA

A minha estava despedaada... O sacrificio que eu lhe fazia era d'uns
pedaos da minha existencia.

LIBORIO

Mas a senhora sabe que eu sou uma especie de balo que no obedece ao
movimento de vontades alheias?

ITELVINA

Os baloens obedecem ao capricho do vento, e os homens ao capricho das
mulheres.

LIBORIO

Sim? estou com curiosidade de vr isso...

ITELVINA

Eis o meu programma: (_Com energia_) Quero que cada um dos teus dias
seja uma catastrophe! cada uma das tuas horas uma tortura! cada um dos
teus minutos um grito de dr!...

LIBORIO

(_com ironia_) Diga l o resto.

ITELVINA

Heide fazer-te tragar todas as amarguras! cravejar-te com todos os
punhaes!... passars a vida sobre umas grelhas como S. Loureno, e eu de
vez em quando a voltar-te nas grelhas... e tu a arder, a rechinar...
oh!...

LIBORIO

Que enorme tlha!

ITELVINA

 o teu futuro!

LIBORIO

Mas  que eu fujo-te... podra!...

ITELVINA

E eu vou atraz de ti. Sou tua mulher; a lei obriga-te a receber-me.

LIBORIO

Excellente separao de corpos a que j estou habituado!... Divorcio-me.

ITELVINA

E as provas? Pensas no divorcio? Cuidas que eu no previ j esse caso
muito natural de me quereres escapar? Eu j li o teu codigo civil.
Ninguem se separa sem provas e testemunhas; e tu nunca hasde arranjar
testemunhas nem provas. Mulher mais terna do que eu, em publico, no
hade haver segunda, heide acariciar-te, ameigar-te, se fr preciso, que
isso me no custa nada...

LIBORIO

(_ parte_) Irra! estou a sentir uns calefrios na espinha...

ITELVINA

Em publico, sers o meu amante, o meu heroe, o meu Deus! Sers um mortal
ditoso e invejado!... possuirs uma gentilissima esposa,
dedicadissima... e, se, um dia, ousares queixar-te de mim, se promoveres
o divorcio, passars por um monstro extraordinario, por um ignobil...
malandro!

LIBORIO

(_ parte_) Isto  o Jos do Telhado disfarado em mulher!

ITELVINA

(_indo para Liborio que passa  esquerda_) Mas o anjo das salas ser o
demonio dos lares! quero que a tua vida se tea de espinhos
dilacerantes. No entrars em tua casa sem cahir n'uma esparrela! No
poders sahir sem te palpitar uma desgraa imprevista. E este amor...
este amor que me pedias, heide dl-o a outro!

LIBORIO

Oh! _Shocking!_

ITELVINA

Sim! heide cuspir na tua honra!

LIBORIO

(_furioso_) Senhora!

ITELVINA

Eis o teu futuro, Liborio! eis o teu futuro! (_sahe pela direita_).


SCENA XII

Liborio

(_s, atordoado_) Safa! caramba!  _bcarre!_ Estou a abafar! ardem-me
os miolos! Anda-me tudo  roda! Parece-me que estou n'uma jaula
_tte--tte_ com uma panthera solta... Falta-me a coragem para a lucta!
(_Ce prostrado perto do gueridon_) Que a panthera me devore!
Resistir-lhe -me impossivel!... (_Fecha os olhos e fica immovel..._)

SCENA XIII

Liborio e Barnab

BARNAB

(_entrando alegremente pelo fundo_) O meu negocio vae bem...
optimamente.

LIBORIO

 elle!... (_levanta-se e sobe um pouco_).

BARNAB

Ah! meu amigo Liborio, obterei a casa. O Braga ainda hesita quanto ao
preo, mas eu conheo-lhe o genio... elle  condescendente... e emfim,
viverei em paz e socego.

LIBORIO

(_dirigindo-se-lhe_) Em paz?... Sorri-lhe essa esperana? Pois no
viveste...

BARNAB

Sim... sorri-me esta esperana.

LIBORIO

O senhor  cumplice, no ?

BARNAB

Cumplice de quem?

LIBORIO

Da besta-fera de quem se intitula pae?

BARNAB

Snr. Liborio! Modere-se!

LIBORIO

 cumplice d'ella... Concorde... Apraz-me a sua confisso... Ao menos
que a minha colera encontre um homem em frente d'ella...

BARNAB

Eu no o percebo! Ser isto um ataque de somnambulismo?!

LIBORIO

Somnambulo! Ainda est n'isso, o senhor! No sabe que a fara se
desenvolveu depois... o vo veio  terra... descobri o inimigo do meu
descano, o ente mal-fazejo que se mettia, de noite, no meu quarto, para
me transtornar tudo...

BARNAB

Ento... quem ?

LIBORIO

A sua hedionda filha... a sua filha que o senhor teve artes de me
impingir!...

BARNAB

Itelvina? o senhor est a mangar...

LIBORIO

Sim... finja-se espantado!...

BARNAB

Com um p desnocado? a minha filha?

LIBORIO

(_rindo amargamente_) P desnocado! (_rindo_) Ah! ah! ah! ah! No v que
ella me bigodeou?

BARNAB

Mas para qu?

LIBORIO

Para qu? para vingar Macario que ella me accusa de eu ter assassinado!

BARNAB

Isso  incrivel!

LIBORIO

E quer saber o futuro que ella me destina? A sorte de Menelo de
Sganarello, de Vulcano e d'outras testas celebres.

BARNAB

E ella disse-lh'o? Mas, quando isso se d, as mulheres nunca previnem os
maridos...

LIBORIO

 uma excepo...

BARNAB

Tudo isso  to anormal... to extravagante... (_como assaltado por uma
idea_) Ah!

LIBORIO

Que ?

BARNAB

L vou... Foi a palavra _extravagancia_ que me orientou... Estou no
caminho...

LIBORIO

Caminho de qu?

BARNAB

O snr. Liborio sondou o pulso de sua mulher?

LIBORIO

Ora essa!... sondar-lhe o pulso!... No.

BARNAB

Fez mal. Esta excentricidade no seu proceder, este humor extravagante...
explica-se tudo...

LIBORIO

O qu? o que  que se explica?

BARNAB

 a crize ordinaria... Amigo Liborio, no succumba ao pezo da sua
felicidade... Liborio, vou dar-lhe um jubilo immenso... Olhe que vae ser
progenitor! Vae ser pae!

LIBORIO

(_exasperado_) Pae!

BARNAB

Sim! esses appetites desvairados... essa desordem moral...

LIBORIO

(_agarrando-o pelo colete_) Ah! patife!

BARNAB

Hein? voc chame-me patife? a mim?

LIBORIO

 a minha deshonra que voc aprega!

BARNAB

(_desagarrando-se sem poder_) Que diz?

LIBORIO

Voc sabia-o e no me gritou: _acautele-se!_

BARNAB

Voc esgana-me!...

LIBORIO

Mas agora estou convencido... (_sacode-o cada vez mais_).

BARNAB

Largue-me! socorro!  da guarda!


SCENA XIV

Os mesmos e Itelvina (_Itelvina entrando agitadamente pela direita; est
em toilette de quem vae a passeio_).

Que  isto? que aconteceu? (_Liborio larga Barnab, que cahe assentado
ao p da jardineira. Liborio fica um momento immovel entre o sogro e a
mulher, olhando-os alternadamente; depois despede um suspiro abafado, e
sahe precipitadamente pelo fundo, fazendo um gesto de horror_).


SCENA XV

Barnab e Itelvina

BARNAB

(_assentado_) Uf! (_bufando_)

ITELVINA

O pae que tem! parece que est sobresaltado!

BARNAB

Sim... com certeza... eu no me sinto bastante bem. (_respira
fortemente_).

ITELVINA

Mas que aconteceu?

BARNAB

(_erguendo-se_) Aconteceu... mas no, as explicaes so inuteis... Vou
deixar esta caverna...

ITELVINA

Mas emfim... que lhe disse o meu marido? onde foi elle?

BARNAB

No sei nem me importa... C te avm sem mim... Lavem c a sua roupa
suja como poderem, que eu tenciono ser estranho a esta barrela. Boas
tardes. (_Vae para sahir_).

ITELVINA

Mas... meu pae! venha c...

BARNAB

Convence-te de que me vou embora (_sobe_).

ITELVINA

(_tolhendo-lhe o passo_) Ao menos diga-me...

BARNAB

No digo... deixa-me!

ITELVINA

No hade sahir!

BARNAB

Impedir-me! (_indo para ella_) Minha filha!

ITELVINA

No sahe antes de me dizer...

BARNAB

Tudo o que eu tenho no corao? Vaes ser satisfeita! Tu, a meu pezar,
envolves-me nas tuas combinaoens ferozes! Pois bem... Tambem eu vou
torturar-te... e desde j fica sabendo uma pequena coisa que te vae dar
grande prazer! Macario existe! Macario vive!

ITELVINA

Macario!

BARNAB

Nunca se bateu... no era to bsta, como isso...  um maltrapilho, mas
 velhaco... Elle logo conjecturou a linda mulhersinha que tu serias...
e disse l com os seus botes: No quero contas com a mexicana e pediu
a este bajojo do Liborio que viesse annunciar-te a sua morte, e este
parvoeiro foi to asno... que...

ITELVINA

O pae est blasphemando...

BARNAB

Que  blasphemar?

ITELVINA

Macario vivo!... Macario auctor de tal perfidia!... no, no, 
impossivel!

BARNAB

Com que ento impossivel! E, se eu te disser, que elle, bem contente por
no entrar n'este langar, se consola em uma mancebia...

ITELVINA

Mancebia?

BARNAB

Sim... com uma creaturinha, de pouco mais ou menos, rua de Miragaya n.
1071, lado direito.

ITELVINA

Rua de Miragaya n. 1071, lado direito...(_Passa para a esquerda_).

BARNAB

Mudou de freguezia; mas no de costumes... O fedor dos escandalos de
Miragaya no passa da Cordoaria, e confunde-se com as flres do jardim e
do peixe do barraco...

ITELVINA

Oh! isso seria horrivel! horrivel! (_Liborio entra pelo fundo_).


SCENA XVI

Os mesmos e Liborio

LIBORIO

(_com o porte-monnaie na mo_) Minha senhora, eu tinha aqui 12$000 ris.
Foi a senhora que lhe deitou o gatazio?

ITELVINA

Logo o saber quando eu voltar (_Sahe_).

LIBORIO

Onde vae voc?

ITELVINA

Rua de Miragaya n. 1071. (_Sahe precipitadamente pelo fundo_).

LIBORIO

Que ? Rua de Miragaya n. 1071! Quem lh'o diria? (_A Barnab_) Foi o
senhor... Rua de Miragaya,  l effectivamente (_Ouve-se fechar  chave
a porta do fundo_) Ella fecha-nos! e vae a casa d'elle! a casa d'elle!
(_Indo  porta da direita_) Por esta porta... (_Ouve-se o rodar da chave
que a fecha_) Fechada! fechada tambem! (_correndo  chamin_)
Sebastiana! (_pucha pelo cordo da campainha_) No ha campainha! est
quebrada a campainha!

BARNAB

E o Braga que me est esperando para assignar a escriptura!

LIBORIO

Eis-me encarcerado!

BARNAB

E eu!

LIBORIO

(_fra de si, ameaando Barnab_) Ah! seu biltre! foi voc a causa de
tudo isto! (_Atira-se a Barnab, que procura fugir-lhe, aos encontroens
aos trastes. Liborio persegue-o vivamente. Cahe o panno, quando Barnab
est apitando_).

FIM DO ACTO SEGUNDO




ACTO TERCEIRO

A mesma decorao.--Grande desarranjo.--Os moveis tombados, um colcho
est meio cahido para fra do leito.


SCENA I

Liborio e Barnab (_ao levantar do pano, Barnab est sentado no
colcho, e Liborio,  direita sobre uma cadeira de braos, cahida.
Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae  janella_).

LIBORIO

(_examinando a rua_) Nada, no vejo vir ninguem. Que horas so, snr.
Barnab?

BARNAB

Outra vez... Depois do nosso combate... singular, j me perguntou isso
trez vezes.

LIBORIO

A quem heide eu perguntal-o? ao meu relogio?  minha pendula? Tudo aqui
est desmanchado (_ parte_) como a cabea de minha mulher (_Levanta a
cadeira_).

BARNAB

Ha cinco minutos que eu lhe disse que eram 3 e 25; agora, por
consequencia, so trez e meia.

LIBORIO

(_passeando com grandes passos_) Ella sahiu s duas horas... (_dirige-se
a Barnab_) Como explica o senhor isto? Auzente  hora e meia! (_Arruma
os trastes_).

BARNAB

No que d'aqui de Malmerendas a Miragaya so dois kilometros. D-lhe
tempo...

LIBORIO

Que lh'o d? Ella toma o que quer! Fechar o pae e o marido para ir...

BARNAB

Minha filha  incapaz de tal...

LIBORIO

 capaz de tudo:  Mexicana, e basta.

BARNAB

No o contraro, para voc no pegar de novo comigo. (_Levanta-se e pe
o colcho sobre o leito_).

LIBORIO

Ah! o senhor tem magnificas ideias! Que eu era pae! Esta s pelo diabo!
eu podia l ser pae, homem!

BARNAB

E eu podia l imaginar que o senhor depois de casado?... Emfim, o que eu
lhe disse era para o applacar...

LIBORIO

E para applacar minha mulher disse-lhe que o Macario era vivo. Foi isso?

BARNAB

Est claro; as minhas intenoens fram sempre boas... eu no tive culpa,
se o senhor  um marido... distincto.

LIBORIO

Que horas so?

BARNAB

(_tirando o relogio pacientemente_) Trez e trinta e dous minutos. Outra
vez. O melhor  ficar com o relogio na mo, (_fica assobiando_) at o
senhor acertar o seu.

LIBORIO

O senhor assobia?

BARNAB

Ento o senhor quer que eu chore? Deixe-me assobiar, homem! Ha paixoens
d'alma que no desafogam se no pelo assobio... situaoens crueis em que
um homem sente a necessidade de estar sempre no s a assobiar, mas at
a apitar.

LIBORIO

Tem raso. Quando se possue uma filha como a sua, e uma esposa como a
minha, todas as manifestaoens do assobio e do apito so permittidas.
(_Barnab continua a assobiar_) Tem raso. Assobie  sua vontade... use
de todos os instrumentos de spro... Desabafe, snr. Barnab, que eu fao
o mesmo. (_Assobia tambem. Ouve-se ruido de passos_). _Sio..._ escute...

BARNAB

Ser?... (_rumor na fechadura_).

LIBORIO

 ella!

BARNAB

Prudencia, snr. Liborio, prudencia...

LIBORIO

(_sentando-se n'uma cadeira  esquerda, e pegando de um jornal de sobre
o fogo_)  ella... (_atira os ps para cima de uma cadeira_).

BARNAB

(_ parte_) Elles vo-se agatanhar!... se eu podesse tingar-me...


SCENA II

Os mesmos e Itelvina (_Abre-se a porta do fundo precipitadamente.
Itelvina entra muito agitada, fita o pae e o marido, tira o chaile e o
chapeu que atira sobre a cama; depois, desce, torna a fitar o marido e o
pae, e diz a Barnab_):

ITELVINA

Meu pae! deixe-nos ss. (_Barnab, sem responder, safa-se apressadamente
pelo fundo_).


SCENA III

Liborio e Itelvina (_Itelvina est momentos sem fallar, olhando para o
marido que a no encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:_)

ITELVINA

Vi Macario. No estava s... Estava com uma creatura com um penteado de
estardalhao, muito estapafurdio. Iam sentar-se  meza... e eu puxei
pela toalha e quebrei tudo... (_Movimento de Liborio, que logo se
riprime, e retoma a sua apparente tranquilidade_). Levantaram-se ambos e
avanavam para mim; eu fiquei de braos cruzados, serena, immovel,
encarando-os assim! Depois affastei-me lentamente, sem dar palavra, e
sahi! (_Silencio. Itelvina d uns grandes passos_) Ah! o que so os
homens! o que so os homens! (_Torna para o marido_) Por que  que o
senhor me annunciou a morte d'elle? (_Silencio_) Eu sei-o, disse-m'o meu
pae... foi elle, esse miseravel que assim o quiz, no foi? O infame
Macario escarneceu o meu amor, ludibriou a minha angustia! Ah! 
incomprehensivel!  execravel! (_Pega da cadeira em que o marido tem os
ps e senta-se ao lado d'elle_) Como  que ns havemos de matar Macario?

LIBORIO

(_agitado, erguendo-se_) Que diz?

ITELVINA

(_fazendo-o sentar-se_) Ambos ns andamos mal, Liborio. Eu cuidei que tu
o matras... No se falle mais no passado... acabou-se... Agora,
unamo-nos para a vingana... Como  que se hade assassinar Macario?

LIBORIO

(_erguendo-se_) A senhora ter o diabo no corpo?

ITELVINA

Se estivessemos na minha patria, eu no o consultava; mas aqui, os
homens que fizeram as leis, reservam para si o monopolio da vingana, e
a honra de uma mulher nada importa, se no implica com a honra do homem.
Pois ento, snr. Liborio, visto que me esposou, a minha honra  a sua.
Um pulha, um sacripanta escarneceu sua mulher... cumpre-lhe evitar que
elle o escarnea tambem a si... (_com ternura_) Mata-o! filho! mata-o!

LIBORIO

(_ parte_) Arreda! estou em braza!

ITELVINA

(_formalisada_) Dar-se-ha caso que o senhor, escravo de vos prejuizos,
no queira attentar contra a vida d'elle sem expor a sua? Se  isso,
esteja descanado. Se Macario o matar, eu no lhe sobreviverei, nem
elle, por que morrer s minhas mos; matal-o-ei, matal-o-ei, e depois
l nos veremos... no ceu! (_Apontando-lhe para o ceu, bate-lhe com a
outra mo no hombro_).

LIBORIO

A senhora com toda a certeza est doida!

ITELVINA

Doida?

LIBORIO

Ento a senhora quer que eu vendime o Macario por que elle no quiz
cazar comsigo... Tomra eu obrigal-o a cazar...

ITELVINA

Senhor! veja l o que diz!

LIBORIO

Olhe, menina; isso que a senhora me prope j Hermione o propoz a
Orestes em uma tragedia de Racine, e sabe o que fez a canalha da
Hermione, depois que o parvo do Orestes matou Pyrrho? Poz-se a chorar
por Pyrrho, e mandou o Orestes  fava. Aqui tem a gratido das
mulheres...

ITELVINA

Por tanto, recuza?

LIBORIO

Redondissimamente. (_ parte_) Isto  que  o _chic_ da patifaria!

ITELVINA

Bem! Eu pedia-lhe a cabea de Macario para salvar a sua... Voc no
quer? no quer? no se falla mais n'isso.

LIBORIO

Isso que quer dizer... explique-se!

ITELVINA

Macario recuou deante dos laos indissoluveis; mas amava-me, estou certa
d'isso, e eu... ainda o amo.

LIBORIO

(_levantando os dois braos_) Que diabo!

ITELVINA

E visto que o senhor desculpa o proceder passado de Macario, ter de
desculpar tambem o futuro...

LIBORIO

(_agarrando-a pelos braos_) Mulher!... Ah! tu pensavas que...

ITELVINA

Largue-me!

LIBORIO

Amas Macario?

ITELVINA

Voc magoa-me!

LIBORIO

Os indigenas do Mexico que  o que fazem s mulheres que se parecem
comtigo?

ITELVINA

O senhor est-me a quebrar os braos...

LIBORIO

Pde ser; por que em Portugal, ns os homens, ao lado da lei, tambem
temos a fora.

ITELVINA

Isso  uma covardia!

LIBORIO

No sei se ; mas eu, se houvesse de matar alguem, no mataria o
Macario...

ITELVINA

Ai! (_Cahe de joelhos_).

LIBORIO

Olhe bem para mim, senhora! (_Ella quer morder-lhe a mo_) e no mrda!
Se cuidou que cazava com um cordeirinho, mude de opinio a meu respeito.
Este homem que se chama Liborio, nascido no Porto, no Poo das Patas n.
610,  de per si s mais feroz que todos os leopardos do Mexico... No
mrda, ouviu?

ITELVINA

Ai!

LIBORIO

Por emquanto, deixo-a viver; mas tenha juizo, muito juizo, ou dou-lhe a
minha palavra de honra que no tardarei a passar a segundas nupcias!
(_Deixa-a_).

ITELVINA

(_conserva-se um instante immovel, como humilhada de sua fraqueza;
relana  volta de si olhos furiosos, depois levanta-se de um pulo,
exclamando:_) Ah! a faca de mato! (_Corre para o gabinete da toillete_).

LIBORIO

Bem sei... (_Vae atraz d'ella, e fecha-lhe a porta por fra logo que
ella entra_).

ITELVINA

(_fechada_) Abra, abra a porta!

LIBORIO

(_pegando do chapeo_) Medite, senhora, que eu passados tres dias, volto
c. (_Sahe pelo fundo_).

ITELVINA

(_batendo na porta_)  infame,  abominavel! Snr. Liborio! Olhe que
quebro a porta. (_Pancadas cada vez mais fortes_) Abra-me a porta;
peo-lhe que me abra a porta por quem ! Oh! que vil, que indigno
procedimento!


SCENA IV

Itelvina (_fechada_) e Barnab

BARNAB

(_entrando pelo fundo_) Ora aqui est! Em quanto eu estive aqui fechado,
o Braga vendeu a casa da Carria... Tenho de procurar outra...
(_Itelvina bate  porta do gabinete. Barnab que est perto, recua
assustado_) Que diabo  isto?

ITELVINA

Abra-me a porta!

BARNAB

A minha filha fechada! (_alto_) Tu que fazes ahi?

ITELVINA

Abra, meu pae, abra!

BARNAB

Mas como foi isto? (_Vae para abrir_).

ITELVINA

Foi meu marido... Abra que eu lhe contarei.

BARNAB

(_retirando-se_) Teu marido!... diabo! diabo! isso  mais serio...

ITELVINA

Ento, abre?

BARNAB

Minha filha, um sgro no deve intervir entre marido e mulher.

ITELVINA

Ento no abre?

BARNAB

Procedo como fino politico... Mantenho-me na neutralidade, na no
interveno.

ITELVINA

Mas eu suffoco!... (_Grando tropel dentro_).

BARNAB

No suffocas, no... Isso passa!... (_ parte_) Ella arromba o
sobrado!... (_Sahe_).

ITELVINA

(_batendo sempre_) Meu pae! meu pae! Foi-se?... Socorram-me! Acudam-me!


SCENA V

Sebastiana e Itelvina (_Sebastiana entra pela direita, trazendo pratos,
talheres, pes e guardanapos_)

SEBASTIANA

A voz da senhora no gabinete de vestir... (_Pousa o que traz sobre o
marmore do fogo_).  a senhora?

ITELVINA

Abre, Sebastiana, abre a porta.

SEBASTIANA

Ahi vou, ahi vou. (_Abrindo_) Que foi isto?

ITELVINA

Pga! (_D uma bofetada em Sebastiana_).

SEBASTIANA

Ah! a senhora bate-me?

ITELVINA

(_percorrendo o theatro furiosa_)  raiva!  furor!

SEBASTIANA

Se eu soubesse que estava fechada...

ITELVINA

Perda-me, perda-me, Sebastiana...  a colera, so os nervos...
(_D-lhe dinheiro_) Pega l, guarda...

SEBASTIANA

Obrigado, minha senhora! (_ parte_) Ella  muito boasinha! (_Pe a meza
na jardineira_).

ITELVINA

(_cahindo n'uma cadeira  direita_) Tudo que me succede  incrivel! 
estupido! Este homem que eu julgava um choninhas, um maricas, um
fracalho, agarrou-me, e prostrou-me supplicante! Elle furioso,
parecia-me at bonito! (_Voltando-se para Sebastiana que pe a meza_)
Que ests a fazer?

SEBASTIANA

Ponho a meza, senhora.

ITELVINA

Aqui?!

SEBASTIANA

A senhora esqueceu-se das ordens que me deu esta manhan?

ITELVINA

Ah! sim, sim, esta manhan... ento ainda eu me preoccupava com
pieguices... Mas agora... (_Ouve-se a campainha_) Tocaram.

SEBASTIANA

Vou vr. (_Sahe pelo fundo_).

ITELVINA

(_s_) No pde ser meu pae nem meu marido... elles no tocavam. Se
fsse elle... ah! talvez seja... Macario! Quem sabe se a minha presena,
despertando-lhe lembranas, acordou a sua paixo... Ah! se fsse elle,
se fsse elle...

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo. Traz uma garrafa, copos e um papel_) Senhora, 
um homem, enviado pelo snr. Macario, com este papel.

ITELVINA

(_pegando no papel com anciedade_) D'elle? d c, d c. (_Passa para a
direita, em quanto Sebastiana pe a garrafa e os copos sobre o gueridon.
 parte_) Ah! no me enganei! Elle ama-me!... Triumpho, em fim!

SEBASTIANA

(_ parte_) Ella que ter?

ITELVINA

(_lendo_) Anno do Nascimento de... 1885, aos 24 dias de... a
requerimento... Hein? papel sellado! (_lendo_) A requerimento do snr.
Macario dos Anjos, eu, official de justia abaixo assignado, citei a
snr. D. Itelvina Barnab para pagar a quantia de 64$460 ris de
porcellanas e crystaes quebrados, etc. etc. etc. Ah!... (_Cahe em uma
cadeira  direita e fica silenciosa_).

SEBASTIANA

(_que tem continuado a pr a meza, corre para ella_) Ai! meu Deus! a
senhora achou-se mal?


SCENA VI

Os mesmos e Barnab

BARNAB

(_entrando cautamente pelo fundo e vendo Sebastiana que encobre a
senhora_) Sebastiana! A senhora ainda est no gabinete?

ITELVINA

(_indo para o pae_) Meu pae!

BARNAB

(_querendo safar-se_) Olha!...

ITELVINA

Venha c!...

BARNAB

Eu volto logo.

ITELVINA

Fique, meu pae. Vae-te embora, Sebastiana.

SEBASTIANA

Sim, minha senhora. (_Sahe pelo fundo_).

BARNAB

Vou-te contar... Descobri outra quinta no Candal.

ITELVINA

Meu pae, eu volto para o Mexico.

BARNAB

Com teu homem?

ITELVINA

J no tenho homem.

BARNAB

No tens homem? Ento Liborio o que ? Parece que tens razo... Elle
para homem parece-me muito atrazado... Tu l sabes...

ITELVINA

Fujo de Portugal, das suas leis, do seu codigo, dos seus costumes
(_ironicamente_) e da sua justia...

BARNAB

Mas, desgraada, tu vaes encontrar a mesma coisa no Mexico.

ITELVINA

No Mexico?

BARNAB

Portugal no tarda a l chegar com a sua influencia, com os seus
jornaes...

ITELVINA

Irei para a China.

BARNAB

No sabes que Portugal est em Maco! Basta l estar o Camoens na gruta.

ITELVINA

Vou para o Japo.

BARNAB

Esto l missionarios portuguezes... os jesuitas que tem um olho muito
fino...

ITELVINA

Irei para uma ilha deserta. (_Passa para a esquerda_).

BARNAB

Ah! sim! se achares uma... Ilhas desertas so hoje rarissimas... No se
apanha meia...

ITELVINA

O pae vae comigo?

BARNAB

Eu!

ITELVINA

 indispensavel...

BARNAB

Nunca! Pede-me o que quizeres; mas viver s comtigo, isso, nunca!

ITELVINA

No importa. Vou sosinha. (_Repassa para a direita_).

BARNAB

Filha!... juisinho, filha.

ITELVINA

Eu j no tenho pae... nem marido... nem familia. Parto! adeus! (_sahe
pela porta da direita_).

BARNAB

(_vendo-a sahir, depois diz tranquillamente_) Fallaram-me d'uma casinha
no Candal, e, se no fr humida, tem muitas commodidades. Fiquei de me
encontrar com o agente s cinco horas, e...


SCENA VII

Barnab e Liborio

LIBORIO

(_entrando pelo fundo, sem vr Barnab, e olhando para a porta do
gabinete que est aberta_) Ah! j a soltaram! Sim... definitivamente  a
melhor resoluo... (_Vendo Barnab_) Ol! o senhor!

BARNAB

Eu ia sahir.

LIBORIO

Eu tambem parto.

BARNAB

E para onde vae?

LIBORIO

Isso  que eu no sei; sei que vou para muito longe. (_Passa 
esquerda_).

BARNAB

Muito longe?

LIBORIO

Se vir sua filha, diga-lhe que morri.

BARNAB

(_tranquillamente_) Est bem; direi.

LIBORIO

Diga-lhe que me matou Macario--d-lhe esse regalo.

BARNAB

Est dito. V descanado.

LIBORIO

Vou arranjar a mala. (_Entra no gabinete_).

BARNAB

(_v-o sahir e ata o seu monogolo_)  no Candal, suburbios de Villa Nova
de Gaya; visitarei os armazens. Gaya dizem que tem um castello feito por
um rei Mouro, e uma fonte celebre com uma agua muito fina, que seria a
melhor bebida do mundo, se no estivessem ali perto as garrafeiras de
1815. Logo ali ao p est o convento da serra, um logar historico... 
um bello arranjo... com repuxo. (_Desapparece pelo fundo--A scena fica
vasia_).


SCENA VIII

Liborio e Itelvina

ITELVINA

(_entrando pela direita com uma malta_) Creio que deixei aqui o meu
chaile e o meu chapeu (_Pe a malta sobre a meza_).

LIBORIO

(_sahindo do gabinete com a mala_) Onde diabo deixei eu a minha _Guia de
viajantes_?

ITELVINA

(_achando o chaile e o chapeo sobre a cama_) C esto.

LIBORIO

(_achando a Guia_) Ella aqui est.

ITELVINA

(_parando junto d'elle_) Ah!... o senhor...

LIBORIO

(_surprehendido_) l!... a senhora.

ITELVINA

Voc parte?

LIBORIO

Parto.

ITELVINA

 boa! temos a mesma ideia!

LIBORIO

Tambem vae?

ITELVINA

Sim senhor... As ideas encontram-se.

LIBORIO

Muito bem; mas, embora se encontrem as ideas,  necessario que ns nos
desencontremos. Para onde vae?

ITELVINA

Para onde o senhor no fr.

LIBORIO

Temos o mesmo itinerario. (_Assenta-se perto da jardineira, tendo a mala
sobre os joelhos cujas correias afivela, depois de l ter mettido
pequenos objectos que tirou do marmore do fogo_).

ITELVINA

Eu vou para o sul.

LIBORIO

Paizes quentes... vae muito bem. N'esse cazo, tomarei o caminho de ferro
do norte.

ITELVINA

s mil maravilhas.

LIBORIO

Ora olhe... (_consulta o Guia_) Segue para Lisboa?

ITELVINA

Sigo no expresso.

LIBORIO

s 7 da tarde.

ITELVINA

To tarde!

LIBORIO

Vejamos a linha do norte. Quatro e quarenta e cinco... que zanga!

ITELVINA

D'aqui at l, que se hade fazer?

LIBORIO

Uma ideia que o estomago me inspira. Estou em jejum. Jantarei antes de
partir.

ITELVINA

Na estao de Campanh? Pois v!... Eu fao o mesmo.

LIBORIO

(_a sahir com a mala_) Adeusinho, e estimo que coma com bom appetite.

ITELVINA

Da mesma sorte. (_Vo ambos a sahir pela porta do fundo, e param,
cedendo a passagem um ao outro cortezmente_). Faz favor.

LIBORIO

Queira passar, minha senhora...


SCENA IX

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

Aqui est a sopa. (_Passa por deante de Liborio e colloca a terrina
sobre o gueridon_).

LIBORIO

A sopa!... Como cheira bem!

SEBASTIANA

Est uma delicia, meu senhor! (_sahe pelo fundo_).

ITELVINA

(_ parte_) Uma senhora sosinha n'um restaurante...

LIBORIO

(_aproximando-se da meza_) Que aromatica!...

ITELVINA

(_ parte_) O que eu devo fazer  deixar-me estar (_Depe a malta, o
chaile e o chapeo_).

LIBORIO

(_largando a mala_) Se eu tomasse um caldo...

ITELVINA

(_indo  jardineira, e achando Liborio a destapar a terrina_) Ento
sempre se resolve?...

LIBORIO

Ah!...  que eu... como o outro que diz...

ITELVINA

Sim... eu tambem reflecti que jantar sosinha n'um restaurante...
Repara-se, no  verdade?

LIBORIO

(_pegando da mala e passando para a direita_) Tem razo e eu cedo-lhe a
sopa.

ITELVINA

Ento o senhor... no come!

LIBORIO

Boa viagem. (_sahe pelo fundo_).


SCENA X

ITELVINA

(_s, parece muito agitada, e observa se Liborio no volta_) O tempo
deve estar entroviscado... C o sinto nos nervos! (_Senta-se  esquerda
da jardineira, e serve-se da sopa atabalhoadamente; come em silencio_)
Esta sopa  detestavel! e depois no tenho appetite nenhum! (_Arremessa
a colher_) Que  o que eu vou fazer a Lisboa?  uma tolice. Viajar, para
qu? Lisboa j eu conheo... Se eu fsse para o norte... (_Erguendo-se
raivosa contra si_) Oh! Itelvina! tu s incrivel!... fazes coisas!... Eu
fui muito injusta... porque elle amava-me... Meu pae foi o causador de
tudo... Para que lhe disse elle... Fez bem em matar Macario? Oh! com
certeza, teria elle feito uma boa aco, e a minha maior injustia foi
eu querer castigal-o por isso... Papel sellado!... que patife!...

LIBORIO

(_fra_) Vae ahi  Batalha chamar o trem, depressa.

ITELVINA

 a voz d'elle!... tornou!...


SCENA XI

Itelvina e Liborio

LIBORIO

(_entrando pelo fundo_) Queira perdoar, minha senhora! Chove a cantaros;
hade consentir que eu espere o trem que mandei buscar.

ITELVINA

Pde esperar, e como est em jejum, e a sopa est excellente... se
quer...

LIBORIO

A sopa cheira bem... muito bem... Isso  verdade.

ITELVINA

Se no receia que o envenene...

LIBORIO

Oh!... (_reconsiderando_) Em fim... (_jovialmente_) visto que a senhora
tambem come...

ITELVINA

Ento sente-se.

LIBORIO

Pois sim... Nada, no quero... Tenho visto muitas comedias em que
esposos zangados commettiam a imprudencia de comer juntos, e  sobremeza
tinham a desgraa de fazer as pazes... Eu no quero que a senhora se
persuada...

ITELVINA

Sem cerimonia... No quer?

LIBORIO

No duvido... mas peo licena para comer a minha sopa, longe, acol,
sobre aquella meza (_Leva para a meza da direita o seu talher e prato; 
parte_) Antes quero isto.

ITELVINA

 sua vontade... talvez estivesse mais seguro no pteo.

LIBORIO

Isso no, porque o vento me sacudiria a chuva sobre o prato. (_come_).

ITELVINA

(_comendo tambem_) Que triste tempo para viajar!...

LIBORIO

No tanto assim... Em primeira classe vae-se agasalhado... Mas pergunto
eu: a senhora por que vae?

ITELVINA

Porque no quero estar no Porto.

LIBORIO

Mas, visto que eu me retiro, a senhora fique.

ITELVINA

Sosinha?

LIBORIO

No: com seu pae e com o defunto Macario.

ITELVINA

Acha que  de bom gosto fazer-me troa?

LIBORIO

Pois no me disse ainda ha pouco que o amava?

ITELVINA

O senhor no me acreditou. Conhece-me bastante para saber que eu no sou
mulher que ame quem a ultraja... Quer beber? (_deita-lhe vinho no copo_)
Beba, ande. Ora v!...

LIBORIO

(_erguendo-se_) Muito obrigado (_Vae pegar do seu copo de sobre a
jardineira e bebe_).


SCENA XII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo com um prato_) Fil-a esperar, minha senhora: mas a
causa foi o senhor que me mandou buscar um trem (_a Liborio:_) J l
est.

LIBORIO

(_pousando o copo_) Ah! bem! (_saudando_) Minha senhora!

ITELVINA

(_a meia voz_) Deante da creada, no. (_alto_) Se, Sebastiana.

SEBASTIANA

(_pondo o prato sobre a jardineira_) Sim, minha senhora. (_Sahe pelo
fundo levantando a terrina e os pratos servidos_).

LIBORIO

Agora, se me d licena... (_faz menso de sahir_).

ITELVINA

Peo-lhe que se demore um momento... O meu fim no  fazer a tal scena
das pazes, descance. Mas, como no nos veremos mais  necessaria a
ultima explicao.

LIBORIO

De que serve isso?

ITELVINA

De mais a mais, sobra-lhe tempo para jantar aqui ou na estao.
(_Servindo-o_) Quer uma aza de perdigoto?

LIBORIO

O certo  que as emooens tem-me extenuado... Tomarei um posito; mas
deixemo-nos de explicaes, se faz favor... (_Pega d'um prato e po e
vae sentar-se  sua meza, a comer_).

ITELVINA

(_passados instantes_) Confesso que fui violenta, arrebatada; mas o
senhor julga-se innocente?

LIBORIO

De modo nenhum. Eu pratiquei o enorme e condemnavel crime de me
apresentar  senhora em frma de carta a participar um enterro.
Confesso, contrito, a culpa. Se me levassem a uma policia correccional e
o juiz me perguntasse: O snr. Liborio  ro? Eu respondia: Sou ro,
snr. juiz!

ITELVINA

O senhor prestou-se a uma ridicula mistificao, uma fraude ultrajante,
odiosa, s com o fim de dilacerar uma mulher.

LIBORIO

No foi isso.

ITELVINA

Ento que foi?

LIBORIO

O caso  este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu
tenho c para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se
deseja ser amado d'ella. A alma do homem  assim formada de estupidez e
capricho...

ITELVINA

Huum! (_Depois de um curto silencio_) Quer beber? (_Enche o copo_).

LIBORIO

(_erguendo-se_) Agradeo (_vae  jardineira_) Muito obrigado, querida
senhora! (_Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo_).

ITELVINA

(_tendo bebido_) Sempre o senhor me collocou n'uma situao bem
exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuaso, o
meu dever qual era? que me cumpria fazer?

LIBORIO

Mandar chamar o chefe da policia.

ITELVINA

Eu conheco l policias...

LIBORIO

Em vez d'isso, pensou l comsigo: Como  um scelerado, cazo com elle.
Se o mettesse na Relao, elle poderia fugir vestido de mulher; mas,
cazando com elle,  o mesmo que pl-o na Penitenciaria, d'onde no se
foge facilmente.

ITELVINA

(_erguendo-se e vindo ao meio_) E isso  to verdade que o senhor gosa a
liberdade de retirar-se quando quizer.

LIBORIO

Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe
dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide
esquecl-a; mas hade levar tempo... No me fingo mais forte do que
sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens so, senhora!...
As mulheres, s vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava
na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava
imbecilmente de saudade... d'amor! (_Ergue se_) Estupida confisso, mas
verdadeira!... (_Passa  esquerda_) Ah! Como os homens so bstas!
Graas vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (_Itelvina, sem lhe
responder, corre  janella que abre_).

ITELVINA

(_atirando dinheiro  rua_) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; v-se embora.

LIBORIO

Como  isso? elle  o meu cocheiro.

ITELVINA

Liborio! eu amo-te!

LIBORIO

Como?

ITELVINA

Tu no te vaes embora!

LIBORIO

No vou?...

ITELVINA

Peo-te perdo, peo-t'o de joelhos! (_ajoelha_).

LIBORIO

(_ajoelhando-se tambem_) Tu... de joelhos!

ITELVINA

Confesso que fui injusta.

LIBORIO

Sim... a fallar verdade... mas no...

ITELVINA

Perda-me!

LIBORIO

Perdo... E o p torcido? Destorceu-se?

ITELVINA

Estou boa de todo.

LIBORIO

Minha esposa!

ITELVINA

Meu marido! (_abraam-se sem se levantarem_).


SCENA XIII

Liborio, Itelvina, Barnab e Sebastiana

BARNAB

(_entra pelo fundo e reca_) Elles l se esto a trincar um ao outro!

LIBORIO

(_erguendo-se_) Est enganado... no nos trincamos.

ITELVINA

(_o mesmo_) Meu pae, eu adoro o meu marido!

BARNAB

Ora ainda bem!

LIBORIO

Aqui entre ns, eu creio que ella est de todo _desmxicada_.

BARNAB

Antes isso, meus filhos, antes isso... Eu vinha annunciar-lhes que me
installei definitivamente no Candal.

SEBASTIANA

(_a Liborio_) Meu senhor, a sege foi-se embora. Quer que se chame outra?

LIBORIO

S se fr para meu sogro que se muda, acho eu...

BARNAB

Effectivamente mudo para sermos todos felizes de uma assentada. Gosto do
Candal. Tenho l para me entreter o castello do rei mouro, os armazens
de Villa Nova. Nos armazens... oh! isso l  que ha fontes sem ser
moiras; fontes christans... christans talvez de mais, por serem muito
baptisadas... E depois a serra do Pilar, logares historicos, etc. Vocs
c ficam muito felizes...

ITELVINA

Sim, meu pae, muito felizes... (_abraa estremecidamente o marido_).

LIBORIO

(_com ternura_) Ento, esta noite, no me penduras a bota nem escondes o
chinelo?

ITELVINA

(_com meiguice_) No.

LIBORIO

Nem torces um p?

ITELVINA

Tambem no...

BARNAB

Bem! Regalem-se por c. Lua de mel  portugueza... e nada de Mexico...

FIM






End of Project Gutenberg's O Assassino de Macario, by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ASSASSINO DE MACARIO ***

***** This file should be named 26913-8.txt or 26913-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/2/6/9/1/26913/

Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
