The Project Gutenberg EBook of Silva Porto e Livingstone, by 
Antnio Francisco Ferreira da Si Porto

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Title: Silva Porto e Livingstone
       manuscripto de Silva Porto encontrado no seu esplio

Author: Antnio Francisco Ferreira da Si Porto

Release Date: January 3, 2009 [EBook #27691]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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     *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos
     neste texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso
     final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
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                                             Rita Farinha (Jan. 2009)




Sociedade de Geographia de Lisboa

SILVA PORTO

E

LIVINGSTONE


MANUSCRIPTO DE SILVA PORTO

ENCONTRADO NO SEU ESPOLIO


LISBOA
_Typographia da Academia Real das Sciencias_
1891




Sociedade de Geographia de Lisboa

SILVA PORTO

E

LIVINGSTONE

MANUSCRIPTO DE SILVA PORTO

ENCONTRADO NO SEU ESPOLIO


LISBOA
_Typographia da Academia Real das Sciencias_
1891




Este trabalho foi encontrado entre os papeis do illustre sertanejo
portuguez que deram entrada na Sociedade de Geographia de Lisboa, depois
da morte d'elle.

Foi escripto no Bih em 1868. Convm ter sempre em vista esta
circumstancia e esta data.




APONTAMENTOS SOBRE A OBRA

DO

EX.^{MO} SR. D. JOS DE LACERDA

EXAME DAS VIAGENS DO DR. DAVID LIVINGSTONE

POR

UM PORTUENSE



                                                                Leitor


Uma das testemunhas avocadas na obra do ex.^{mo} Sr. D. Jos de Lacerda,
devo explicaes sobre muitos dos seus artigos, pois que a recusa
d'ellas, seria crime de lesa-nao, em aggravo do bom nome portuguez.

O reverendo dr. David Livingstone mereceu, sem duvida, a cora que seus
concidados lhe votaram pelos servios prestados n'estas partes de
Africa; no entretanto, fora  confessal-o, ella foi desfeita pelo
illustre viajante, visto havel-a manchado com a peonha da calumnia.

Quiz chegar aos fins importando-se pouco com os meios.

Em abril ou maio de 1853, no dia em que teve noticias minhas, um raio
que lhe cahisse proximo no causaria a impresso que lhe produziu
semelhante nova, porque, necessariamente havia de comprehender que, mais
cedo ou tarde, teria de se achar em face de um competidor, obscuro pelo
seu fraco talento, sim, mas testemunho vivo de prioridade nos mesmos
logares em que o dr. se julgava com direito a chamar-se o primeiro
europeu que os visitou. Ella no me pertence inteiramente,  certo,
visto que outras pessoas percorreram esses mesmos logares antes de mim e
muito antes do illustre viajante, mas pertence-me de facto, pois que
essas pessoas eram enviadas por mim, existiam, e existem ainda,
presentemente, no maior numero, ao meu servio: umas naturaes de Loanda,
outras de Golungo-alto, outras de Ambaca, outras de Pungo-andongo,
outras, finalmente, do Bih.

O illustre auctor do _Exame_ no tem porventura provado at  evidencia
que ella pertence desde epocha remota aos portuguezes?

Mas, modernamente, pelo que me diz respeito, e em relao ao illustre
viajante, creio no estar em erro dizendo que, a prioridade no interior
do continente Africano  minha.

Para o provar poderia reportar-me  epocha de 1840; mas como no
pretendo exaggerar nem sequer allegar servios, trarei unicamente para a
arena a data de 1845, da primeira viajem ao Lui, muito anterior 
appario do illustre viajante e seus companheiros, em 1 de agosto de
1849, no lago Ngami, percorrendo ento, as pessoas que acabo de
designar, o Rianbeje em todas as direces, como adeante terei occasio
de mostrar.

Oppondo muitos nomes quelles de que se serve o illustre viajante para
designar coisas e pessoas, no fao mais do que servir-me dos termos
empregados pelos indigenas, a fim de designar essas mesmas coisas e
pessoas, visto que pela maior parte, se forem interrogados sobre o
assumpto, no obstante darem por alguns, outro tanto no acontecer em
relao a outros; e nem fao mais do que servir-me da orthographia da
minha lingua materna, bem assim como o illustre viajante usou da
liberdade de se servir da sua. Outro tanto no direi da situao
geographica dos logares aqui indicados, attendendo a que no so
marcados com a bussola, mas sim segundo a posio em que nasce e se pe
o sol; para me subtrahir a taes inconvenientes dirigi a carta que abaixo
segue ao illustre viajante, julgando-o ento em Rinhande.

Hoje mesmo, que o governo portuguez se delibere a enviar uma pessoa
pratica nas sciencias naturaes e geographicas, e eu, com muito gosto me
promptifico a acompanhal-a a todas as paragens d'esta parte da Africa
para o indicado fim, que ser o unico meio de pr termo, de uma vez por
todas, a invectivas menos justas de naturaes e estranhos.

Eis a carta a que me refiro.


                                                   Meu illustre amigo.


_Bih_, 22 de setembro de 1861.


Os grandes heroes que a historia proclama, a mr parte das vezes o so,
assolando a terra, e devastando a raa humana. A esses, pois, tal titulo
significa uma blasfemia! Em identicas circumstancias, mas por frma
diversa, que  por certo maior gloria, ao vosso zelo, perseverante
vontade, e  custa de immensos sacrificios a prol das sciencias, e a
favor da humanidade, ella com justia e verdade, vos ter de acclamar de
seu heroe.

Poderei ser to feliz que tenha a dita de vos tornar a vr? Se assim se
verificar desde j ponho a minha gente s ordens do meu illustre amigo,
para estas paragens, e n'ellas, ou mesmo para qualquer parte que
pretenda seguir, a minha pessoa fica desde j tambem  sua disposio.

Assigno-me com toda a considerao


                                           De V. S.^a

                                        Amigo attencioso

                           _Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto_


Disse e repito que, o illustre viajante quiz chegar aos fins
importando-se pouco com os meios; vejamos se assim no .

A carta que acabo de transcrever e que lhe dirigi julgando encontral-o
em Rinhande,  a confirmao plena da minha boa vontade, quando, puz os
meus bons servios  sua disposio. A tel-os acceitado, a sua misso
seria completa, porque eu levava-o, facilmente, s nascentes dos
seguintes rios: Riambeje, Quango, Cubango, Cunene, Quanza, e outros que
vo desaguar no atlantico ao sul de Loanda at Benguella. Regeitou,
porque no quiz que uma segunda pessoa partilhasse tal gloria, muito
principalmente sendo essa pessoa estranha  sua nacionalidade; preferiu
occupar-se exclusivamente, e mais de espao, em pintar com sombrias e
carregadas cres, o hediondo quadro dos incorrigiveis traficantes de
carne humana; da sua prioridade no descobrimento do interior do
continente Africano, e finalmente na pregao da Biblia, como palavra
descida do Co.

Deixou o rio Lunga, affluente do Cabombo, e esteve na povoao do soba
Machico. Devia de saber alli que d'esse local  nascente do Riambeje,
apenas se contam dez dias de viagem, como affirma o actual soba do paiz,
que por vezes foi  caa dos elephantes para essas partes; parece-me que
valia a pena accrescentar esses dias na ambicionada viagem de Loanda,
embora se tornasse mais demorada, a fim de marcar com preciso a
latitude e longitude da nascente do manancial de mais longo curso,
conhecido aqui em Africa, se  que o rio Cubango se no dirige para o
mar, e pe termo  sua carreira no lago Ngami, como  a opinio do
illustre viajante. Proseguiu vante, deixando tudo em trevas, como quer
fazer acreditar aos olhos do mundo civilisado, fazendo-nos passar por
inteiramente ignorantes; e note o illustre viajante que falo em marcar
com preciso, e no em descobrir o que ha muito j se acha descoberto.

Poderia eu dirigir-me s nascentes d'esses mananciaes que ficam
descriptas a fim de que se viesse no conhecimento das suas verdadeiras
origens, mas attendendo a que a sciencia exige mais alguma cousa, alm
de uma simples descripo, por este motivo tenho desistido da empreza
aguardando que de futuro pessoa competente na materia, venha resolver o
problema.

Pondo remate a esta minha introduco, peo indulgencia para algumas
phrases menos mal cabidas, que porventura se encontrem no decurso dos
meus apontamentos; mas, sendo ellas to amiudadas na descripo que o
illustre viajante nos apresenta, seria necessaria a paciencia de um
santo para deixar de respostar ao p da lettra.

_Lui_, 14 de setembro de 1868


                           _Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto_




Principiaremos pelas nossas coisas, e vem a ser que, tratando o illustre
auctor do _Exame_ a ps. 12, das misses, diz o que segue:


     A extinco das ordens religiosas, e com ella a de todas as
     misses, foi perda irreparavel para as nossas possesses africanas,
     que tanto podiam e deviam ter com ellas aproveitado. As funestas
     consequencias esto-se experimentando, e desde logo tinham de
     prever-se: de certo, porque de todo o ponto  fra de duvida que,
     misses regularmente constituidas, e d'onde hajam a esperar-se
     effectivos e avantajados resultados, s por via das corporaes
     religiosas podem obter-se. O que, n'este intuito, podem fazer as
     corporaes religiosas, s ellas podem fasel-o, porque s ellas
     podem preparar, escolher e ter  mo, mediante os votos monasticos,
     os obreiros mais competentes; as condies to especiaes,
     proporcionadas pelos votos, mormente pelo da obediencia, no ha
     nenhum outro modo de serem suppridas.  por isso que tanto fizeram
     outr'ora os nossos missionarios em uma e outra Africa, e na India,
     e na America, e na China, e no Japo, e na Cochinchina, e em toda a
     parte; e  por isso tambem que to pouco tem feito quaesquer
     outros missionarios no pertencentes s congregaes religiosas:
     estes vo aonde querem ou aonde podem, aquelles aonde os mandam:
     para estes, tudo so estorvos e tropeos, para aquelles, sem
     familia, sem bolsa e sem vontade propria, no ha obstaculo, porque
     obdecem: estes hesitam, porque deliberam; aquelles obram, porque
     no carecem de resolver-se. etc.


Assim o creio no que diz respeito s misses, visto que os missionarios
que ento existiam pelas colonias nada tinham com a politica seguida na
metropole, no dizendo outro tanto dos seus ultimos tempos em Portugal,
porque os factos praticados pelos membros de que se compunham as
differentes ordens religiosas durante o periodo de 1828 a 1833, so de
todos conhecidos, e foram o que deram causa  sua extinco. Os
ministros que representam Jesus Christo na terra devem occupar-se
unicamente da misso sagrada do seu ministerio, e no de negocios
mundanos, inteiramente em desharmonia com ella.

 indubitavel o incremento do nosso poder no interior d'este vasto
continente, sob a aco das misses, e a sua decadencia depois da
extino d'ellas; o Bih gozou dos seus beneficos effeitos tendo por
capito-mr Antonio Francisco da Conceio e Mattos, nomeado em 11 de
maio de 1791, no governo de Manuel de Almeida e Vasconcellos,[1] e a
misso dirigida por um barbadinho italiano, que celebrava os officios
Divinos n'uma casa apropriada ao fim, na povoao do dito Mattos,
baptizou grande numero de sertanejos que ao tempo existia no paiz, uns
naturaes da Europa, e outros do Brazil, outros finalmente indigenas, mas
todos portuguezes, ministrando egualmente o mesmo Sacramento, a grande
parte do povo Bihano, o qual, na falta de sacerdote no seu territorio,
tem por habito receber o baptismo na cidade de S. Filippe de Benguella.

Em 1842 conheci egualmente n'esta cidade o seu vigario (padre Manoel),
que tambem exerceu o ministerio no Bih, e em Caconda. A sua benefica
influio devia de ter chegado s terras da Lunda, Luvar e Lui,
attendendo a que os habitantes d'estas regies so to sociaveis como o
povo Bihano, no se podendo dizer outro tanto em relao a grande parte
da tribu Quimbunda, a que pertence a Bihana, visto que os quimbundos se
conservam no estado primittivo de selvagens, e bem assim a raa
Ganguella, cuja familia se pode dizer composta de diversas tribus, como
aquella.

Finalmente, venham missionarios para as nossas possesses, mas
missionarios portuguezes. Com o intuito de se reparar o erro, foi
restaurado o collegio de S. Jos do Bombarral, sendo do dever do governo
lanar vistas para assumpto to momentoso, a querer que conservemos a
importancia que nos compete como nao de grande considerao colonial.

A paginas 30 e 31 o seguinte:


     Vou occupar-me do lago Ngami, um dos descobrimentos de que to
     grande alardo fez o dr. Livingstone. No capitulo 3.^o l-se a pag.
     65 o seguinte: Doze dias depois que nos apartmos dos wagons em
     Ngabisane chegamos  extremidade nordeste do lago Ngami; e no 1.^o
     de agosto de 1849 descemos todos  bacia do lago, e, _pela primeira
     vez_, observaram europeus este magnifico lano de agua.


Sendo interrogado pelo illustre viajante sobre se conhecia o Cubango,
respondi affirmativamente, ao que retorquiu alimentar o lago mencionado;
disse eu ento que no omittia opinio segura, mas que me parecia no
limitar-se ao lago unicamente, visto ser um rio de grandes dimenses.

No dia 22 de maio de 1846 digo o seguinte: Continumos a viagem, e
fomos fazer quilombo nos mattos, na margem direita do rio Cutato dos
Mangoias. Caminho plano, mattos fechados, em partes, em outras
despovoado de arvoredo, falta de riachos, terreno fertil. Uma hora de
marcha distante d'esta paragem, existem as nascentes de dois rios
caudalosos: Rio Cutato dos Mangoias, dirigindo o seu curso para o norte
a desaguar no rio Quanza, e o rio Cubango, dirigindo o seu curso para o
sul a desaguar no mar para o nascente.

Ora, comprehendendo as vertentes d'este grande manancial at ao lago
Ngami, no quero discutir se com effeito  ahi o seu termo, ou se segue
vante como acabo de transcrever no trecho acima da minha Viagem, no
citado anno,  cidade de Benguella, o que fica para ser resolvido por
pessoas competentes, mas sim fazer ver que os portuguezes de Quilengues,
desde antiga data, mantem no interrompido commercio pelo interior para
o sul e sueste, comprehendendo o lago em questo.

Os portugueses de Caconda, Quingollo, Galangue, e Caquingue, s mais
tarde  que principiaram de transitar para esses mesmos logares; e
finalmente os portuguezes do Bih; todas as paragens do interior d'este
vasto continente, desde antiga data, e at ao presente teem sido, e so
por elles percorridas em no interrompido commercio com os indigenas. Em
virtude do que, no teem razo de ser a pretenso do illustre viajante 
descoberta do lago, visto que em setembro de 1841, achando-me na cidade
de Benguella, ahi encontrei j grande movimento commercial para as
terras que acabo de designar: e para que parte seguiriam essas fazendas,
a no ser para esses logares que ficam indicados? Regressando ao Bih
n'esse mesmo mez e anno, o mesmo presenciei, e para que parte seguiria
esse commercio, a no ser para o Ribebe, e terras circumvisinhas,
Ganguellas, Luvar e Lunda, onde a concorrencia era immensa para cera,
marfim e escravos, mas com especialidade para estes ultimos, pelas
grandes vantagens que ento se davam, mas que tinham de ter termo como
todas as cousas o teem n'este vae-vem terrestre? E a concorrencia
continuou de affluir  terra da Lunda, depois d'elle; porque no
obstante a extinco do trafico, sempre foi um grande mercado de marfim,
explorado de antiga data pelo povo de Cassange; da mesma sorte a terra
j citada do Ribebe e circumvisinhas, situadas nas vertentes do Cubango;
em identicas circumstancias as terras da grande familia Ganguella sob
diversas denominaes, que no obstante a extinco do trafico, sempre
se tornaram uns grandes mercados de cera, n'umas, e d'este mesmo
producto e marfim, egualmente, em outras. Finalmente, temos as diversas
terras da grande familia Quimbunda, tambem sob diversas denominaes,
cujo commercio consta unicamente de escravos, e que em virtude da sua
visinhana ao litoral, sempre foram habitadas, de antiga data, por
europeus que n'ellas fixaram residencia, e hoje por seus filhos, netos e
bisnetos, sobrepujando a todas, a terra do Bih, grande centro de todo o
commercio do interior, na epocha em que o trafico era licito, e annos
depois por contrabando at 1845. Ellas no bastavam a abastecer o
mercado do litoral, e os sertanejos  porfia procuravam e percorriam as
terras que acabamos de designar para o indicado fim: acabado o trafico
hediondo da escravatura, pelos principios philantropos e humanitarios,
assim chamados, so da mesma frma procuradas as terras do interior,
onde apparece a cera e o marfim.

Que fosse pois at essa epocha, que o illustre viajante nos quizesse
expor  censura geral como entes desmoralisados, v: advertindo que,
ainda lhe restava a presumpo do parallelo entre portuguezes e
inglezes; considerando que estes depois do aprisionamento de qualquer
navio negreiro, conduziam os desgraados africanos para as suas
possesses, e no os vendiam por toda a vida, e por preos fabulosos,
como faziam os infames contrabandistas, mas sim por uma modica quantia e
por um determinado espao de tempo no fim do qual, o filho de Africa se
tornava livre!

Mas presentemente, e tanto de espao tratar de uma questo que se pde
dizer extincta, parece incrivel que a tanto se aventurasse!

Esteve no meu estabelecimento em Catongo: quantas correntes cheias de
infelizes encontrou?

Se tal se desse teria materia de sobejo para um volume.

E se me desviei do assumpto que me tinha proposto, de mostrar a
prioridade dos portuguezes no lago Ngami, assim era de necessidade a fim
de mostrar que para a permutao de escravos no era necessario sahir de
territorio Quimbundo do anno de 1845 por deante.

A paginas 62 sobre a mosca _tse-tse_,--os Macorrollos do-lhe a
denominao de _Zeze_, o povo Lui d-lhe a denominao de _Madinda_, e
finalmente, o povo Bihano d-lhe a denominao de _Bisumangalla_ ou
_Apopullo_,--eis o que digo a respeito d'este insecto damninho, no dia
26 de junho de 1853:

--Continumos a viagem, e fomos fazer quilombo nos mattos, logar
denominado Maranhati. Caminho plano, mattos fechados, terreno fertil,
legoas andadas 6, rumo de sul.

Encontrmo-nos com tres grandes manadas de gado, que se dirigiam com
destino a Quiceque e Rinhande, tendo sahido poucos dias antes da minha
partida da capital do Lui. Seguiam pois os conductores munidos de
escudos e azagaias, pelos lados do gado, este, formando o centro,
carregando, sobre a cabea, e ligado entre a armao, os couros
preparados, e que servem de cobertura aos mesmos pastores; seguindo
manso e vagaroso, o som do apito de um unico pastor como guia, na sua
frente: os chefes da comitiva seguiam por ultimo, para que no se
desgarrasse alguma creao.

Quando chegam na margem de alguma lagoa ou rio, tiram os couros que o
gado conduz, e este principia de pastar, isto pelo espao de duas horas,
pouco mais ou menos, tempo em que o geral do povo se entrega a tomar
tabaco, a fumar, a comer, e finalmente ao descano; e, ao cabo de cujo
espao tornando de pr os utensilios em cima dos animaes, continuam a
marcha encetada, que, no maior rigor, no excede jmais a cinco horas
diariamente, excepto por certas e determinadas paragens, nas quaes se
torna indispensavel a marcha nocturna, em consequencia de uma mosca de
mordedura venenosa que, sendo em grande abundancia se torna o flagello
(do gado) visto seguir-se a morte ao cabo de determinado periodo. Por
estas paragens  denominada de Zeze, e pelos bihanos de Bisumangalla; 
um pouco mais comprida que a mosca ordinaria, mas muito mais dura de
pelle, pois que para se matar  necessario pizal-as com os ps, bem
assim, andar o viajante munido de ramos nas mos para as afugentar do
corpo, pelos mesmos logares onde se tornam abundantes.

Verificada a occasio da marcha nocturna, um pastor na frente, servindo
de guia, e tangendo uma frauta, o mais povo dos lados, e na retaguarda
os chefes com ties accesos, fecham o sequito de uma numerosa manada de
gado; logo que chegam no logar destinado para o curral, este  feito
n'um momento, de paus e ramos das arvores, que cortam para o indicado
effeito: no centro repousa o gado, em circulo, e encostado ao cerco o
mais povo da comitiva para evitar qualquer assaltada do rei das selvas,
e em virtude do que no deixam de velar continuamente.

N'essa occasio, levando a cavalgadura do meu uso, por me livrar de um
excesso, vim a cahir no excesso contrario: livrei-me de um, deixando de
costear o Riambeje por causa dos rios seus affluentes que forosamente
tinha de passar em canoas, e cuja passagem se tornava perigosa para
ella; deixando por esse motivo de visitar a catarata Chungo ou
Mosioatunia cuja descoberta ento teria a regalia de disputar ao
illustre viajante, mas no assim aos meus concidades, fosse qual fosse
a sua cr e condio;--comtudo, visitei-a mais tarde como terei occasio
de mostrar--e cahindo por consequencia no excesso contrario por causa da
mosca de que acabo de falar, visto que fui obrigado a deixar ficar a
cavalgadura no dia 30 d'esse mesmo mez e anno, n'uma das povoaes do
povo Guete, fazendo por tal motivo a jornada a p d'esse local para
Rinhande, e vice-versa, para o que me no achava preparado.

A paginas 71 o seguinte:


     Contando-nos a sua marcha para o interior do continente africano,
     e o seu encontro com Sebituane, celebre chefe indigena, em o esboo
     que desveladamente d'elle nos bosquejou, diz o dr. Livingstone:
     Tendo conquistado todas as convisinhanas do lago Kumadau
     (_Mculadau_), ouvio fallar dos homens brancos, que viviam na costa
     occidental; e esporeado pelo que parece ter sido o sonho de toda a
     sua vida, o desejo de abrir communicao com os brancos, passou ao
     sudoeste. Mais adeante se l: Sebituane (_Xabitane?_) formou o
     designo de descer o Zambeze at s terras dos homens brancos. Tinha
     a ida fixa, que _no sei d'onde lhe viera_, de que, se possuisse
     uma pea de artilharia, lhe seria possivel viver em paz. Sebituane
     passara a vida na guerra, e todavia ninguem mostrava desejar a paz
     tanto como elle. Um propheta o persuadiu a voltar de novo para
     oeste. Aquelle homem, por nome Tlapano, era chamado Senoga, isto
     , que trata com deuses... Tlapano apontando para o oriente,
     exclamou: Alli, Sebituane, vejo fogo: evita-o:  fogo que pode
     abrazar-te. Os deuses dizem que no vas alli. Voltando-se para o
     oeste, exclamou: Vejo uma cidade e uma nao de homens negros,
     homens da agua: o seu gado  vermelho: a tua tribu est a acabar, e
     toda ser destruida: tu has de governar os homens negros, e depois
     que os teus guerreiros tiverem captivado o gado vermelho, no
     consintas que os donos d'elle sejam mortos. So elles a tua futura
     tribu, elles ho de formar a tua cidade. Sejam poupados, para que
     te obriguem a edifical-a. E tu, Ramosini, sabe que a tua alda ser
     totalmente arruinada. Se Mokari se apartar d'aquella alda elle
     perecer primeiro, e tu, Ramosini, perecers ao depois. Com
     respeito a si proprio accrescentou. Os deuses foram causa de que
     outros homens tivessem agua para beber; porm a mim s me
     concederam a pessima bebida do chakuru (rhinoceros.) Chamam-me para
     si. No posso demorar-me mais.


Disse que para provar a nossa prioridade ao illustre viajante, traria
unicamente para o caso a data de 1845 da primeira viagem ao Lui, o que
passo a demonstrar.

A minha perigrinao por estas paragens data de 1840, tendo partido da
Cidade de S. Paulo d'Assumpo de Loanda; porm em 1841, dirigindo-me 
cidade de S. Filippe de Benguella, como j tive tambem occasio de
dizer, os meus commissionados dirigindo-se pelas terras do interior que
ficam designadas, passavam e repassavam o Riambeje, no dominio da Lunda,
e nas terras dos Ganguellas; o ponto a que se dirigiam era para a terra
do Lutembo, povo asss turbulento, e mescla das tribus Bunda e
Zambueira, com o intuito de se obter passagem para a terra do Lui, j de
grande nomeada pelas amiudadas incurses que fasia o seu povo s terras
circumvisinhas a fim de se assenhorear do gado que na epocha abundava
por todas. Eram taes as maravilhas que circulavam d'esta California em
prespectiva, que se tornava necessario l chegar, fossem quaes tivessem
de ser os sacrificios a fazer.

O soba Cabitta, ento senhor da dita terra, ou porque quizesse o
exclusivo do mercado do marfim que negociava com o soba do Lui (Cacoma
Mulonga ou Sanduro), e permutava com sertanejos do Bih, semelhantemente
ao Jaga de Cassange, com o Matiamvo,--ou receioso de ser aggredido mais
amiudadamente depois de franqueado o caminho aos da mesma procedencia, 
certo que sempre se recusou a prestar o seu consenso; porm no anno de
1845, mediante extorses inauditas, e a clausula de dois empregados que
foram constrangidos de ficar comprando os generos por preos fabulosos,
foram abertas as portas de par em par  comitiva para a terra da
promisso, e obtida esta primeira conquista, restava ainda outra de no
menos difficil empenho e vinha a ser o pr termo as excessos do senhor
de Lutembo, visto que as extorses se foram grandes na ida, se tornaram
muito maiores no regresso, exigindo-se dentes de marfim como tributo da
passagem concedida para o Lui.

Prompta, pois, a comitiva para a partida, recommendei ao seu chefe,
Francisco Monteiro da Fonseca, um diario da dita viagem, e bem assim,
procurar por todos os meios ao seu alcance, passagem para o Lui que no
fosse a da terra j citada.

No anno de 1847, na segunda viagem  dita terra, eis o que digo a este
respeito:

A terra do Lui propriamente dita,  habitada presentemente pelo povo
Genge, (synonymo de audacioso, posto pelos indigenas aos Macorrollos, e
pelo qual se ficou denominando o paiz,) o qual se assenhoreou do paiz
pela imbecillidade do soba Riumbo, antigo senhor do mesmo. Este se bem
que tarde conhecesse a sua fraqueza, jmais quiz ser tributario
d'aquelles a quem o havia entregue, e por esse motivo, expatriando-se,
com parte do seu povo, se veiu refugiar n'esta terra denominada Locullo,
antigamente sua tributaria, e hoje sua crte, denominada Lui. O soba
Riumbo tem seguros sessenta annos de idade, e no obstante a mesma,
ainda no depz as armas de guerreiro, pois se tarde conheceu a sua
fraqueza entregando o paiz aos seus inimigos; presentemente no lhes tem
cedido um palmo de terra.  paiz de grande extenso, com immensas terras
que lhe so tributarias, cujos sobas seguidos do seu povo, annualmente
vem prestar tributo ao soba Riumbo, com os seguintes generos: marfim,
escravos, canoas, pelles de todas as qualidades, mantimentos, carnes de
caa, peixe, mel e sal; no ha gado domestico de especie alguma, visto
que o possuido antigamente, ficou em poder do povo Genje; a unica
creao domestica que possuem so gallinhas.

 pois este povo, d'entre o geral do gentio, de costumes simples e no
corrompidos; o unico instincto que possuem  o de Deus e nada mais: usam
trajar pelles dos differentes animaes bravios, as quaes so por elles
mui bem preparadas; as suas armas, so: arcos e frechas, lanas curtas e
compridas.

Pelo que diz respeito ao soba Cabitta, as coisas continuaram da mesma
frma, e relativamente a buscar differente caminho, no foi possivel
persuadir os Bihanos para tal fim.

No anno de 1849, da terceira viagem, falleceu o soba Riumbo,
succedendo-lhe seu primogenito Machico, e de cujo acontecimento nenhum
damno resultou para os viajantes, attendendo  boa indole do povo, e
attendendo egualmente ao estylo seguido alli tambem:--_Morreu o rei:
Viva o rei_.--pois que o defunto soba no passa alm de vinte e quatro
horas insepulto, e o herdeiro j existe occupando o seu logar, passando
por consequencia o acontecimento desapercebido como qualquer outro.

As extorses do soba Cabitta, j para com as pessoas da comitiva, j
para com dois empregados que de rigor eram obrigados de ficar, como tive
occasio de dizer, continuavam da mesma maneira, dando logar n'esta
occasio a ter eu de lanar mos das armas para repellir do quilombo o
dito soba e a turba de que se fazia acompanhar a fim de lhes infundir
respeito aos viajantes; para evitar taes disturbios aquelles se fitavam
mutuamente, concorrendo cada um com o peculio indispensavel, e em
proporo das fazendas que cada contribuinte recebia da minha mo, e
depois de entregue, segundo o preo imposto pelo insaciavel e turbulento
soba, e de bem examinados todos os objectos, respondia este: _agora sim,
esto desempedidos; podem seguir viagem quando quizerem_.

No entretanto, estes vexames no eram praticados unicamente na ida; no
regresso, apresentava-se o licencioso soba no quilombo exigindo dentes
de marfim de tributo, e segundo o que cada pessoa conduzia, visto que
assistindo  passagem da comitiva no rio Lutembo, em cuja margem
esquerda se acha situada a libata grande, que vem a ser a povoao
principal ou chefe da terra, contava e recontava as cargas de marfim que
do porto eram conduzidas para o abarracamento, dizendo sem rebuo em tal
acto, que era para que o no enganassem; tornava-se necessario pr termo
a taes excessos, mas, como vamos vr, a um acaso providencial se deve
semelhante successo.

No anno de 1850, da quarta viagem, ainda o soba Cabitta gozou na ida da
comitiva o direito de passagem, porm chegando ella na margem direita do
Riambeje, como era de costume dispararam-se as armas a fim de dar aviso
da chegada de hospedes na terra, e a cujo signal de prompto acudiam os
canoeiros; o silencio n'esta occasio, bem assim no dia seguinte, foi a
resposta que os viajantes obtiveram; acto continuo formaram conselho
sobre o que restava a fazer, e o accordo foi geral de que Machico tinha
sido guerreado pelos intrusos visinhos, e por consequencia havia mudado
de local, e ento que se devia descer o rio com o intuito de se
entabolar negociaes com o chefe dos Macorrollos; para este effeito
deram caa a dois pretos da tribu Nhengo, que depois de presos para no
fugirem, serviram de guias  comitiva at s povoaes de Ribonda, ao
noroeste do Riambeje, e situadas na sua margem direita, onde, depois de
postos em liberdade e gratificados, regressaram ao logar da sua
nacionalidade.

Por ordem do chefe do local foi a comitiva impedida, julgando-a povo de
invasores, at ulterior deciso da libata grande do paiz, para onde
tinham seguido emissarios com a participao da sua chegada, regressando
ao cabo de dois dias com outros enviados do soba, a fim de a conduzir
para o local que lhe era indicado para fazer o estabelecimento, ou
Quibango, como o denominam na lingua Bihana, em frente a Nariere, ento
corte do povo Macorrollo no Lui.

Esta povoao ficou inteiramente deshabitada depois da revoluo de
setembro de 1864, que elevou ao poder Hipopa, actual senhor do paiz, e
ultimo filho de Cacoma Mulonga ou Sanduro, muito conhecido do illustre
viajante, visto que esteve ao seu servio por concesso de Hiquereto,
ento sob o nome de Lutango.

Recebeu o chefe da comitiva  sua chegada no local, um dente grande de
elephante, um boi, e grande poro de mantimento, e no dia seguinte,
seguida dos seus companheiros, apresentou-se em Nariere, que, como era
de esperar, estava litteralmente apinhada de povo, avido sempre de
novidades.

Na praa, ou centro da povoao, Hebitane; Pepe, seu logar-tenente no
Lui; Hiquereto, seu filho e successor, pastoreando ento o gado n'esse
tempo; Borollo, seu irmo; inclusiv as pessoas do sexo masculino da
familia, e mais optimatos da tribu assentados em bancos rasos a curta
distancia da residencia do soba; os viajantes proximos, e a turba na
praa se achava apinhada, como j disse, assentada no cho; sendo
recommendado silencio, levantou-se o chefe da comitiva, e no idioma
Ganguella deu conta de todas as particularidades relativas  viagem; da
terra da sua naturalidade; por quem eram enviados, e finalmente as suas
intenes de manter relaes de amizade com o chefe do paiz, o que foi
transmittido a Pepe, e este, acto continuo, passou a transmittir a
Hebitane, o qual respondeu achar-se de accordo, visto serem esses os
seus desejos.--A Quiceque, disse elle, chegaram Macuas do Oriente,
apontando para o indicado ponto, (No dia 12 de maro de 1853 falo d'esta
gente, procedente de Inhambane ou talvez de Quelimane), mas havendo-se
retirado, no teem regressado. Por differentes vezes, continuou elle,
tenho ouvido falar de Macuas do Occidente em Locullo, sem que se
apresentassem no local, o que tinha dado logar a mandar guerrear
Machico, a fim de vr, se, continuariam de o procurar, ou ento se
vinham ao local como acabava de se realisar, e por cujo successo todos
se deviam congratular.

Findo o que, teve logar a entrega de presentes, mutuamente, e o
dispersar de actores e espectadores para seus logares; e agora, que o
soba Cabitta desappareceu da scena, visto que morreu em 1854, e visto
egualmente que d'elle nos no tornaremos a occupar, porque a comitiva na
torna viagem passou pela terra do Cutti: permitta-me o leitor que
desviando-me do assumpto, relate um caso que tem relao com uma
heroina, me d'este mesmo soba fallecido, e em cuja familia  innato o
despeito.

No dia 30 de maio do corrente anno, na margem direita do rio Cubangui,
emissarios de Muene Gambo ou Muene Calunga, (a me de Cabitta) me vieram
da sua parte pedir um dia de demora no local, a fim de fazer negocio do
dente direito de um elephante, e de cujo animal j tinha comprado o
dente esquerdo na cabeceira do dito rio; respondendo affirmativamente,
esperei, e eis o que digo a este respeito:

--_31 de maio de 1868._ Pelas duas horas da tarde chegou Muene Gambo
com uma comitiva excedente a duzentas pessoas, no trazia marimbas, mas
trazia os tambores que  de uso fazer concerto com os ditos
instrumentos, e o indispensavel farcista ao estylo do Luvar e da Lunda,
cujo unico servio consiste em ser varredor, fazer visagens, e repetir
continuamente a saudao usual do dito povo: _Averi! Averi!_

Tendo feito alto fra do quilombo, (arraial), dei ordem para que fosse
introduzida, e hospedada n'uma barraca que lhe tinha destinado, e depois
de haver descanado algum tempo, mandei comprimental-a, e saber se
queria fazer negocio do dente de marfim, que j a tinha precidido;
respondeu negativamente, dizendo que: o seu cancao era grande, em
virtude da jornada que j no comportava a sua edade; e em presena de
semelhante deciso, lhe mandei dar algumas gallinhas, carne de vacca
secca, e farinha de massango, para o seu jantar: concluido este dever,
tratei egualmente de apromptar os generos necessarios para o negocio em
questo, a fim de estar prevenido para o dia seguinte.

Frio, e vento forte de Nordeste.

_1.^o de junho._ Eram oito horas quando mandei comprimentar Muene
Gambo, e saber se estava disposta a tratar do negocio, apresentou-se
pessoalmente com seis dos seus macotas (conselheiros), fazendo-me vr
que, o seu fim tinha por objecto conhecer-me, e o dente de marfim, era
presente que me fazia: retorqui agradecendo a visita; e dizendo que no
tinha por habito receber presentes de valia, e ento seria melhor
tratarmos do negocio, attendendo a que se no daria mal. Com effeito,
sendo esta gente bastante impertinente em assumptos de mutua troca, com
esta velhinha ainda robusta, eram nove horas quando o negocio estava
concluido, muito a seu contento e dos seus conselheiros, jurando ella
que de futuro, cera ou marfim que lhe fosse possivel obter, teria o
cuidado de conservar a fim de me ser enviado para o dito effeito; no
necessitando dizer que, o direito de passagem que teria a fazer ao seu
subdito Muene Camgamba, (soba do local, mas que nada recebe de tributo
dos viajantes, em virtude de n'elle vir situar muito posteriormente 
passagem de comitivas para Lui) o fiz a ella em mais avultado quinho,
mas no exigido, e dado com muito gosto.

Esta mulher deve com effeito ufanar-se da sua existencia, visto que tem
sido me de treze filhos que por seu turno reinaram em diversas partes,
sendo, seis do sexo masculino, e sete do sexo feminino, existindo apenas
Chiella sua filha, actualmente em Cangilla, e av do actual soba da dita
terra, de que falei a 22 do mez proximo findo; presentemente ento
governando os seus netos e bisnetos de ambos os sexos, sendo os
seguintes de maior considerao: Soba Liatto no Lungubungo, de quem 
feudatario o soba da terra de Muatamjamba; sobas das terras de Cangilla,
Gonga e Lutembo; o celebre Catongotongo, hoje situado proximo das
vertentes do rio Cutti, tambem  seu neto.

Concluindo, direi que, Muene Gambo tem para mais de oitenta janeiros,
estatura baixa, e reforada de corpo; cabellos brancos, cheios de
missanga branca grossa, entretecida de maneira a dar-lhe  cabea a
apparencia de coberta com um capacete. Uma especie de baculo de canna,
de que ha abundancia nos bosques da Lunda, imitante a canna da India,
lhe servia de arrimo; trajava pannos de zuarte, e sobre o hombro
direito, trazia um especie de enx bastante enfeitada. Notei que tinha o
passo firme, no obstante a sua avanada edade; e, como acabo de dizer,
eram nove horas quando o negocio estava concluido; depois de nos
haver-mos despedido, dei ordem para alevantar a comitiva. Continumos a
viagem, passmos o rio Cubangu, e proseguindo a marcha, fomos entrar no
quilombo sito na sua margem esquerda, onde nos encontrmos a 14 de
novembro do anno passado, eu, e o meu amigo Bonifacio Jos Rasquete.

Tempo frio e vento forte de Nordeste.

Agora, voltando ao assumpto de que me tinha desviado, direi que da
quinta viagem no anno 1852, est o illustre viajante bastante ao facto,
visto que n'ella tive a honra de o conhecer, o que, hoje, em virtude do
que se tem dado julgo que melhor fra se no tivesse realisado. O
illustre viajante sabe perfeitamente que a ingratido  uma dama que
causa tedio! Quanto melhor no fra que tivesse tratado simples e
puramente da sua viagem no interior d'este continente? deixasse viver em
paz os pobres traficantes? no tratasse tanto de uma ephemera
superioridade, que hoje eleva para amanh abater? e finalmente tratasse
mais da Biblia, como palavra descida do co...

Hebitane, tinha tido conhecimento de viajantes portuguezes do Oriente e
do Occidente, muito tempo antes do illustre viajante pr ps em
territorio africano. Os primeiros vieram a Quiceque, e os segundos
faziam parada em Locullo, apenas a cinco dias de distancia de Nariere,
como j tive occasio de dizer; que sejam classificados de negociantes,
sertanejos, ou _mambari_, (parte a cr) isso pouco importa. O illustre
viajante  conhecido commummente pelo seu nome:--O Reverendo Dr. David
Livingstone,--mas entre os indigenas simplesmente pelo appellido de
_Monare_; a pea de artelharia, encommenda de Habitane, na occasio da
retirada dos meus empregados, e que mandei vir de Lisboa, teve-a seu
herdeiro no poder, mais tarde, isto , em 1854, mas o destino que lhe
deu, foi o de a mandar refundir para manilhas dos braos e pernas, visto
que era de bronze, e pouco menos de calibre um; o mesmo destino lhe
daria seu pae, a dar-se o caso de no ter fallecido.

Admira pois que o illustre viajante perdesse o seu tempo com taes
futilidades, como a da prophecia; pense que ninguem  propheta na sua
patria, e muito menos na alheia: Hebitane tinha um tanto de lunatico, e
era um selvagem; nada mais natural do que acreditar nos ditos do
embusteiro Tlapano, que, em parte se realisaram com a revoluo de
setembro de 1864, preludio do massacre de seu irmo Borollo, regente na
menoridade de seu sobrinho Ritari, de toda a sua familia, e de toda a
tribu Macorrollo, aqui no paiz, e que, como j tive occasio de falar,
elevou ao poder o actual soba Hipopa, filho de Cacoma Mulonga.

Esta terrivel catastrophe para a tribu em questo, s poupou algumas
mulheres que de bom grado acceitaram a nova ordem de coisas,
entregando-se voluntariamente nas mos d'aquelles que na vespera
curvavam a cerviz ao jugo estranho, e que no curto espao de vinte e
quatro horas, trocando-se os papeis, passavam de escravos a senhores. 
excepo d'essas infelizes que inda assim assistiram  tragedia, o
massacre foi geral, no poupou creana de peito! Effeitos violentos de
medidas que emanam sempre do terror, e que mais tarde ou cedo fazem
acabar os que as empregam s mos do mesmo terror, mas no de vaticinios
sem connexo, nem mesmo com o merecimente da novidade.

Senhor do mais bello paiz central do continente africano, que o acaso
havia deposto a seus ps, sem que lhe custasse a mais minima gotta de
sangue, Habitane no o soube gozar, nem mesmo soube aplanar o caminho
para os seus, a fim de que para o futuro o viessem a desfructar;
principiou por ordenar o exterminio d'elles, no obstante o seu j
reduzido numero; at que a morte o veiu colher em 1851, em Rinhande de
Muanamgombe ou sitio Dumbua, capital que havia fundado, e onde jaz
sepultado. Uns dizem que de morte natural, outros, e d'estes o maior
numero, dizem que envenenado; o que deixo para ser averiguado por
pessoas competentes, que de futuro se occupem com as nossas coisas de
Africa.

Hiquereto, seu primogenito, assumindo o poder, transferiu a capital para
Rinhande, local mais ao Sueste, e a oito horas de distancia, porm,
trilhando a mesma vereda de seu pae, pode dizer-se que o seu governo foi
um continuo sorvedouro de vitimas, mandadas assassinar sob a mais leve
apparencia de suspeitas, j ao supremo arbitrio, j em virtude de
feitios contra a sua pessoa. Depois de uma longa enfermidade do mal de
Lazaro, foi mandado estrangular no leito da agonia por seu tio Borollo,
segundo o prego da turba, em 1863, e sepultado n'esse mesmo local de
que foi fundador, e que durante os primeiros annos do seu governo, se
tornou um grande centro de animao e movimento.

Borollo, vendo que o poder, depois da morte de Hiquereto, passava s
mos de sua me, apresenta-se em Rinhande a fim de o disputar (1863), o
que consegue depois de uma grande batalha, em que a victoria depe a
cora de vencedor a seus ps, assumindo por essa occasio a regencia
durante a menoridade de seu sobrinho Ritari e recolhendo  terra do Lui
que torna a readquirir a sua antiga preponderancia da capital do paiz.
No entretanto, em logar de poupar os da sua tribu a fim de equilibrar a
governao entre elles e os indigenas ao contrario de seu irmo e
sobrinho, continua o seu exterminio sem descano, a fim de desaggravar
as injurias porque havia passado no governo d'este ultimo: o que visto
pelos naturaes, foi o signal de alarme para sacudir o jugo dos
Macorrollos em setembro de 1864, como acabei de dizer.

A paginas 72 e 73 o seguinte:


     Conta o Dr. Livingstone que, tendo-se dirigido de Naliele a
     Sesheke (deve ser de Rinhande), cento e trinta milhas ao nordeste,
     e descoberto o Zambeze no centro do continente, e visitado o paiz
     limitrophe, fra procurado, e o seu companheiro Oswell, por muitos
     individuos, que trajavam baetas de differentes cores, e um d'elles
     algodo pintado; e nos informa de que taes mercadorias eram obtidas
     por via dos Mambari, que demoram nas proximidades do Bih, os quaes
     as tinham trocado por creanas de ambos os sexos. Accrescenta que,
     em 1851, se realisara um rasgate de duzentos rapazes de 13 a 14
     annos de idade por espingardas portuguezas, as quaes tinham a marca
     de _Ligitimo de Braga_. Ora os Mambari eram, por assim dizer,
     commorcos do Bih, e estavam em intimas relaes com os
     portuguezes, com quem traficavam em escravatura, e de quem eram
     corretores, e a quem, como  sabido, e, como veremos, attesta o
     mesmo Dr. Livingstone, acompanhavam nas suas excurses commerciaes
     pelo interior de todas aquellas regies. No pde pois deixar de
     ter-se por certo, porque se torna incrivel o contrario, que tinham
     dado os Mambari largas noticias do Zambeze central.


No j citado anno de 1845, os negociantes da praa da cidade de
Benguella que at ento depositavam inteira confiana nos seus
sertanejos do Bih, e de futuro continuaram, entregavam as suas fazendas
a estes sem condies previas, quer dizer: que as dividas at essa data
fossem solvidas em escravos, em cera, ou em marfim, isso no era
questo, esta limitava-se a que se fizesse o pagamento, em prazo mais ou
menos longo, no obstante o estipulado na escriptura que era de seis
meses; no entretanto, no j citado anno, foi imposta condio positiva
de taes dividas serem pagas em cera e marfim, o que sempre se tem
verificado at ao presente.

No necessito dizer que isto foi motivado pelo rigoroso cruzeiro ento
estabelecido para a total suppresso do contrabando.

Disse egualmente que as diversas terras de que se compunha a tribu da
grande familia Quimbunda, e  qual pertence a Bihana, faziam o seu
exclusivo, de escravos, e, a ser possivel a exportao d'elles, sendo a
praa da cidade de Benguella o grande centro de affluenci do commercio
do interior, n'um momento dado em que lhe fosse necessario, mil, ou dois
mil escravos, no tinha mais do que enviar emissarios pelo interior,
para que no curto espao de um mez, tal numero se apresentasse. O Bih
demora apenas a dez dias de distancia d'esta cidade, e d'aqui para baixo
as mais terras da tribu designada. Ora, os sertanejos em questo, no se
podiam afastar de uma condio imposta muito antecipadamente ao
contrahimento da divida, e na mesma escriptura, que, para todos os
effeitos reputavam de sagrada, e dada tal hypothese, significaria faltar
 f dos contractos, a que por certo se no queriam expor; menos, quando
fosse possivel a exportao de escravos no litoral por qualquer
circumstancia fortuita como acabei de falar.

Porque haviam de aventurar-se ento a um mercado de tal natureza, to
longiquo como a terra do Lui, Luvar, ou mesmo da Lunda, tendo-o  porta,
e por todo o interior nas differentes terras de grande familia
Ganguella, depois de se transpor os rios Cuquema e Quanza,
comprehendendo o quadrante do norte e sul, a limitar por leste com as
tres terras acima, nas quaes, muito antes das medidas suppressores do
trafico, o melhor escravo no excedia jmais dez lenes, (medida de
cinco covados cada lenol,) e d'este preo para baixo at tres lenes.

E sendo o primeiro preo, aquelle porque regula qualquer escravo entre a
tribu Quimbunda, no necessito dizer que, cahe por terra qualquer
argumento em contrario ao que acabo de expender.

No Lui, os escravos eram comprados pelos Bihanos com os pagamentos que
se lhes fazia, que nunca excedeu para todas as terras do interior, alm
de tres lenes, na ida (para a cidade de Benguella regulava o mesmo
preo na ida, porm na recolhida em seis lenes;) e outros tres na
recolhida, fazenda que dava perfeitamente para dois escravos, que
serviam de carregadores ao senhor, em quanto que elle passava a carregar
a carga do sertanejo. E hoje que se no do negocios taes n'este paiz, e
se realisam na terra da Lunda, os Bihanos seguem  porfia para esta.

Relativamente ao resgate ou melhor diremos compra, de duzentos rapazes
de 13 a 14 annos de edade, pelas taes espingardas denominadas
portuguezas, no teem qualificao possivel tal asserto; no entretanto,
notaremos que  um excessivo numero de instrumentos mortiferos para quem
lhes sabe o valor intrinseco, mas no na mo d'esta gente que, ao menor
desarranjo em qualquer mola, e na falta de mestre para o concerto, as
vendem por um lenol de fazenda ou um macete de missanga. Qualquer
sertanejo procedente do Bih quando se dirige para este paiz, nunca traz
mais de uma at duas caixas de espingardas, segundo a quadra do anno,
que vem a ser no primeiro caso, trinta, e no segundo, sessenta armas;
uma parte d'este numero fica no caminho permutado por cera e marfim; nas
comitivas, de ordinario, sempre veem um numero muito maior, mas  para
sua defeza.

D'onde, sahiu pois o numero indicado pelo illustre viajante?...

Emquanto ao rotulo, significa usurpao pura e simples d'aquelle de que
faz uso seu primitivo auctor, visto que a procedencia d'essas armas,
hoje,  das fabricas da Allemanha e Inglaterra, que as mandam ao mercado
por modicos preos e em virtude dos quaes o verdadeiro auctor no pode
fazer competencia.

At 1854 foram aquellas as armas que para aqui vieram, e todas as tribus
para o poente no fazem uso de outras, porm, como os Macorrollos
sympathisassem mais com as raiunas, introduzidas pelo illustre viajante,
principiaram estas, d'essa epocha por deante at 1864, de affluir ao
paiz, mas em consequencia dos acontecimentos cahiram em desuso, para de
novo darem entrada quelles, as quaes, bem como polvora, chumbo em
balas, e munio, arame de lato grosso, contaria de diversas cres e
qualidades, fazendas finas e ordinarias, e finalmente roupas, finas e
ordinarias, genero de grande extraco, so de exclusiva negociao com
o soba, attendendo a que este concentra na sua pessoa como senhor
absoluto, todo o machinismo mercantil, negociao unicamente feito, por
elle, e pelo sertanejo que se apresenta. Concluida, ella tem logar a
entrega do marfim, e por consequencia a distribuio dos generos pelos
magnates em geral; tem egualmente logar ento a disperso do povo da
comitiva para as terras limitrophes, onde se permuta o marfim,
egualmente os escravos, sendo este segundo ramo da attribuio dos
Bihanos, que, se do melhor com elles, que no com os da sua raa, em
consequencia da humildade d'elles, j para o seu servio, j para
satisfazer Milongas (crimes), j finalmente para permutar por cabeas de
gado, cujo preo  de seis bois grandes (castrados) por um escravo, o
que o possuidor decora com o pompso titulo de sua manada de gado. E
todo aquelle que possue esta, e, ainda alm d'ella, quatro ou seis
escravos, sahiu da classe plebea para a nobre; j por ter maior numero
de concubinas, que uma honraria adquirida  razo de um escravo ou um
boi; e j finalmente porque entra na classe de pombeiro, recebendo
fazendas dos sertanejos, pelo que  obrigado de acompanhal-os para toda
a parte; sendo a isto que o Bihano aspira unicamente, dando principio 
sua carreira pelo tirocinio de carregador.

Pelo que fica dito se v que o nome de _Mambari_, applicado
indistinctamente ao povo Bihano pelos indigenas, e alternadamente
_Himbari_, e _Bimbari_, pelo povo Ganguella,  synonymo de _Quimbar_ ou
_Himbar_, com o qual so designados os escravos pertencentes aos
sertanejos, entre a raa Qimbunda,  qual, como j tive occasio de
falar, pertence a terra do Bih, e mais terras para o poente at 
cidade de Benguella, comprehendo algumas que demoram para o norte e sul.
Em virtude do seu dialecto especial, e unico assim denominado,
apresentando-se os sertanejos do Bih pelo interior a tratar de seus
negocios, os habitantes julgando o povo da comitiva como sujeito aos
mesmos, os ficaram designando de vez pelos nomes que ficam notados, e
com os quaes se no deshonram os Bihanos, povo excencialmente
commerciante.

Nas mesmas pag. 73 e 74 o seguinte:


     Quando os Mambari (narra Livingstone) divulgaram entre os seus, em
     1850, noticias favoraveis do novo mercado, aberto no Oeste, muitos
     mulatos portuguezes, dados ao commercio da escravatura, foram
     induzidos a ir alli em 1853; e um, que _similhava perfeitamente um
     portuguez_, chegou a Liniante (_Rinhande?_) emquanto eu alli
     estava. Este homem no trazia mercadorias, e affirmava ter vindo
     unicamente com o fim de indagar que sorte de fazendas teriam sahida
     no mercado. Pareceu-me muito transtornado com a minha presena.
     Sekeletu (_Hiquereto?_), deu-lhe de mimo um dente de elephante e um
     boi, e, tendo-se (o portuguez) encaminhado a distancia de perto de
     cincoenta milhas a Oeste, levou comsigo uma _aldeia inteira de
     Bakalahari_ (_Bacalaliari?_) pertencente ao Makololo
     (_Macorrolos?_). Trazia comsigo grande numero de escravos armados;
     e como todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e creanas
     foram levados, e o facto ficou ignorado at muito tempo depois, no
     se sabe se elle realizou o seu intento por meio da fora, ou se
     mediante seductoras promessas. Em todo o caso a escravido foi a
     sua sorte. O portuguez era conduzido n'uma maca, dependurada de
     duas varas, de modo que tendo a configurao de um sacco, os
     Makololo, o nomeavam o pae-do-sacco.


Este homem to infamemente ultrajado, e que foi meu visinho no Bih,
presentemente morador no concelho do Dombe, no districto da cidade de
Benguella, chama-se Caetano Jos Ferreira, natural do Barreiro, suburbio
de Lisboa, e tem tanto de mulato, quanto o illustre viajante tem de boa
f nos seus escriptos.

Sahindo comigo do Bih a 20 de novembro de 1852, e seu companheiro
Norberto Pedro de Senna Machado, natural de Setubal, a 16 de janeiro de
1853, a comitiva dos ditos senhores tomou a direco do Sul, para as
vertentes do rio Quando, e a minha, a direco de Nordeste para aqui.

Caetano Jos Ferreira, por suggestes das pessoas principaes da
comitiva, foi levado a contrahir juramento com o soba do local onde
permutou seus negocios, dominio do ento soba Hiquereto, como
actualmente o  do soba Hipopa.

Este juramento que os indigenas denominam Cacendo, consiste na diabolica
cerimonia dos contrahentes fazerem uma pequena inciso no peito,  qual
depois de applicados os labios, mutuamente chupam o sangue que d'ella
sae, e concluido tal acto, dizem-se inseparaveis para a vida e para a
morte; bem assim com direito reciproco nos seus bens, havidos e por
haver.

N'esta scena repugnante que rapido acabo de bosquejar, verificou-se,
porm, o contrario do que naturalmente era de esperar, visto que um mez
depois da retirada do mesmo senhor para o Bih, succede morrer o soba, e
os selvagens affirmando ser proveniente do sangue que tinha sorvido do
europeu, em razo de tal ceremonia achar-se unicamente em uso entre os
naturaes, aguardaram ensejo de se apresentar alli em 1854 uma comitiva
minha, para preparar o assassinato de dois Bihanos, como represalia do
acontecimento, notificando ao chefe de dita comitiva, que, se Caetano
Jos Ferreira se no apresentasse, ou gente sua, a fim de pagar o crime
da morte do soba, os dois assassinatos que tinham commettido, seria o
preludio de vinganas mais estrondosas na occasio em que no local, ou
circumvisinhanas, apparecessem comitivas do Bih.

Effectivamente, os dois assassinatos foram _pagos_ pelo dito sr. no Bih
aos parentes das victimas, e, acto continuo, foi constrangido a mandar
enviados seus com fazendas, para satisfazer ao arguido crime da morte do
soba em questo, a fim de evitar maiores complicaes e prejuizos de
futuro.

E sendo o caso que acabo de descrever a consequencia de uma imprudencia
irreflectida, qual no seria aquelle que immediatamente se seguiria ao
attentado do sequestro de uma _aldeia inteira de Bakalahari?!!_ Eu vou
dizer ao leitor: O chefe da comitiva, o seu companheiro, inclusive
brancos naturaes do paiz, e brancos para mais de mil, seriam massacrados
ao furor da turba de taes paragens, sempre avida de sangue, attendendo a
que para tal carnificina, seriam sufficientes quarenta e oito horas, se
tanto, de communicao pelo rio Quando, a fim do soba Hiquereto enviar a
ordem, depois de recebida a participao, no que no seria economico,
muito principalmente tendo por mentor o illustre viajante inglez.

No appliques aos outros aquillo que, no desejas te seja applicado, diz
o rifo. De fado, o illustre viajante no pensou jmais que mui proximo
teria de ser victima d'este proloquiio, pois que recebendo debaixo da
mais boa f, do dito soba, a gente que o conduziu a Loanda, bem assim o
marfim para alli lhe permutar, parte d'este genero serviu de costeio 
dita viagem, affectuada a qual nos nivela com zero; e tornando de
receber identico beneficio na viagem premeditada e realizada a
Moambique, tornou ainda a abusar da boa f do mesmo soba, porque o
actual senhor do Lui espera ainda pelo marfim e gente que acompanhou o
illustre viajante  mencionada terra.

Terminarei este paragrapho com duas palavras sobre a questo das cres.
Os inglezes sabem bellamente o quanto lhes teem custado estes mesquinhos
preconceitos. Os portuguezes esto ao facto da malquerena que entre
elles e seus irmos do Brazil existe: no entretanto, nem uns nem outros
querem tomar o juizo perante os exemplos, a fim de uma vez por todas
acabarem com elles.

Nas mesmas pag. 74, 75, e 76 o seguinte:


     Mpepe (Pepe?) favorecia estes commerciantes de escravos, e elles,
     segundo o seu costume, fundavam as esperanas de se tornarem
     preponderantes no bom resultado da rebellio meditada. Conheceram
     que o apparecer eu em scena havia de pezar na balana contra os
     seus interesses. Um grande golpe de Mambari tinham vindo a Liniante
     (_Rinhande_), quando eu andava herborisando nos prados ao sul do
     Chobe (_Rio Quando?_). Chegando-lhes a noticia de eu estar alli
     proximo, mudaram de rosto; e quando alguns Makololo, que nos tinham
     ajudado a atravessar o rio voltaram com os chapos que eu lhes
     dera, os Mambari fugiram precipitadamente.  do costume que os
     visitantes peam licena com formalidade antes de se retirarem da
     terra do chefe onde se acham, porm a appario dos chapos fez que
     os Mambari enfardassem  pressa. Os Makololo informaram-se da causa
     da precipitada retirada, e lhes disseram que, se eu alli estivesse,
     lhes tomaria os escravos e as fazendas; e posto que Sekeletu lhes
     assegurasse que eu no era salteador, mas sim homem de paz, fugiram
     de noite, achando-me eu a sessenta milhas de distancia. Marcharam
     para o norte, sob a proteco de Mpepe, construram uma forte
     estacada, d'onde alguns mulatos, commerciantes de escravos,
     capitaneados pelo portuguez nativo, continuaram no seu trafico, sem
     fazerem caso do chefe, em cujo territorio tinham feito incurso com
     a maior semceremonia.

     Accresce que, n'outro logar Livingstone, referindo-se a este mesmo
     facto, accrescenta: _Alguns Mambari nos visitaram quando estavamos
     em Naliele_. So da familia Ambonda (_Quimbunda?_) que habita o
     territorio ao sueste de Angola, e falla o dialecto bunda
     (_Quimbundo?_) commum aos Barosse, (_Brose_, _Bruse?_) Baicie, etc.
     So to negros como Barosse, mas _vive entre elles grande numero de
     mulatos_, distinctos pela sua cr peculiar de amarello doente. Os
     _mulatos_, _os portuguezes nativos_, todos sabem lr, e escrever, e
     o cabea do bando, se _realmente no  portuguez, tem o cabello
     europeu_, e obrigado provavelmente pela carta de recommendao do
     cavalleiro Duprat, arbitro por parte do governo de S. M. F. na
     commisso mixta ingleza e portugueza na cidade do Cabo, mostrou-se
     sinceramente desejoso de apresentar-me todos os bons officios ao
     seu alcane. Estas pessoas, _estou certo_, foram os primeiros
     individuos de sangue portuguez, que viram o Zambeze no centro do
     paiz, e chegaram l dois annos depois da nossa descoberta em 1851.


Ja tive occasio de dizer que, o soba como senhor absoluto do paiz
concentra na sua pessoa todo o poder, todos affirmam, mas ninguem se
aventura de reprovar a minima de suas aces; elle, e o sertanejo, so
as duas pessoas que unicamente se entendem sobre negocios: feliz d'este
se  primeira partida de marfim que recebeu lhe paga a factura, porque
todo o mais que fr apparecendo de tributo at ao dia da sua retirada,
pertence-lhe, porque o vae recebendo proporcionalmente ao passo que fr
chegando.

O tributo de escravos  sua chegada, depois de escolher os melhores para
o seu servio,  distribuido pelo povo da localidade, verificando-se a
mesma particularidade nos mais ramos tributarios, com excepo das
canoas, e redes de pescar; aquellas para o servio geral, e estas para
distribuir pelos pescadores. De tal regalia gozaram Pepe, em virtude dos
seus poderes illimitados; mais tarde Hiquereto; mais tarde Borollo; e
goza actualmente Hipopa. Esse grande numero de rapazes de 13 a 14 annos
de edade que tanto deram no goto do illustre viajante, tambem disse s
poderia ser transaco dos Bihanos. O sertanejo quando d as suas
fazendas s diversas pessoas de que se compem a comitiva,  para a
permutao de marfim e jmais de escravos.

Agora, rebellio de quem, a favor de quem, e contra quem?...

Eu teria tudo a perder com ella, e nada a ganhar; no entretanto posso
affirmar ao illustre viajante que, effectivamente, tive propostas do
infeliz soba Pepe de cooperar com elle para o extreminio do soba
Hiquereto, a que respondi negativamente, fazendo-lhe vr que tinha vindo
tratar dos meus negocios, e no ingirir-me em outros que me no diziam
respeito.

Propostas identicas me foram mandadas fazer da parte do soba Machico,
que rejeitei egualmente; ora se eu fosse natural de Zamzibar, e, quia,
que inglez, tendo como tinha sufficientes meios de que dispor para o
effeito, talvez me inclinasse a acceitar taes offerecimentos que na
realidade eram brilhantes; mas sendo de opinio differente, no quiz
acceitar o que por tres vezes me foi offerecido: uma pessoalmente pelo
infeliz soba Pepe, e duas por parte do soba Machico, como acabei de
dizer. As medalhas teem verso e reverso, e quem assim no pensar
arrisca-se de cahir de muito alto.

E eu dava tanta importancia ao apparecimento do illustre viajante em
scena, ou melhor direi  sua sem razo no assumpto a que se refere, que
por elle sou justificado na minha semceremonia de transitar em todas as
direces, n'um paiz que no era meu, mas onde, no entretanto, para
usofruir de tal regalia, havia comprado esse direito, contribuindo com o
competente tributo, como  de uso em todas estas paragens.

Quereria talvez o sr. Levingstone o exclusivo d'elle como Mentor do soba
Hiquereto?!

Dependeria eu d'elle em alguma coisa?!

Mas os Bihanos fugiram de que? Pela appario dos chapos, ou pela
noticia que tiveram de se achar proximo o illustre viajante, visto que
andava como diz: herborisando nos prados ao sul do Chobe?

Responderei que nem por uma nem outra coisa. Retiraram-se mas foi
realmente pelo illustre explorador andar herborisando... na boa f do
soba Hiquereto, que a no ser tal circumstancia, talvez este se
resolvesse a vender o marfim que possuia, e que no vendeu por
insinuao sua, dirigindo-se ento elles para Quiceque, e logares
circumvisinhos, bem assim para territorio do dominio da tribu Batebere,
onde permutaram as fazendas pelos dentes de elephantes, e no:
Marcharam para o norte, onde, sob a proteco de Mpepe, construiram uma
forte estacada. Esta estava concluida em fevereiro, quando a disperso
do povo da comitiva teve logar em maro de 1853, como passo a
demonstrar. Ella, e a bandeira das quinas que dei ordem de arvorar  sua
chegada, causariam ao illustre viajante sem duvida, a impresso de um
raio, qual a da minha appario no Lui, como j tive occasio de dizer.

Por esse lado no tem razo, como effectivamente a no tem na maior
parte dos seus escriptos, attendendo a que a prioridade das descobertas
em Africa pertence de facto e de direito aos portuguezes. Agora, que na
terra a fora disponha da justia, o reverendo Dr. David Livingstone,
sabe perfeitamente que acima de ns existe um poder superior a ns,
perante o qual todos teremos de ser julgados.

Relativamente  celebre estacada de Catongo, ou muro de pau a pique, de
que acabei de falar, responderei que querendo eu ficar na margem d'alm
do Riambeje, por estar ao facto das desintelligencias do soba Pepe com o
soba Hiquereto, aquelle fez-me vr que tal passo no era do seu agrado,
em virtude do que, dei ordem para se passar para a margem d'aquem.
N'esta, foi-me destinada a montanha denominada Catongo, para fabricar o
estabelecimento, local verdadeiramente bello pela elevao que occupa, e
pela prespectiva que apresenta da sua sumidade. Dei principio e
concluso quelle fabrico em fevereiro do j citado anno, seguindo o
povo da comitiva para os differentes pontos do paiz no mez de maro
seguinte, bem assim a comitiva de Moambique, e isto depois de recebida
a ordem do soba Hiquereto para o indicado effeito, quando ainda o
illustre viajante no tinha chegado da sua to apregoada segunda viagem.

Desgostoso pelos acontecimentos, fiz formal teno de no voltar ao Lui;
despachei os meus empregados no anno seguinte de 1854, porm regressando
elles ao Bih junto a emissarios do soba Hiquereto, e de sua ordem,
tanto insistiram commigo que resolvi seguir viagem em 1858. Chegando no
paiz fiquei na margem d'aquem do Riambeje, no estabelecimento de Luiz
Albino Rodrigues, e local dos primeiros, onde continuou fluctuando a
bandeira das quinas, alm da que nos era inseparavel, quotidianamente,
na frente da comitiva, sendo ento logar-tenente de Hiquereto, seu tio
Borollo, com quem communiquei no que dizia respeito aos meus negocios,
attendendo a que aquelle era apenas um automato da vontade d'este, e o
Lui, _Broze_, e _Bruse_ dos indigenas, era simplesmente a sombra de sua
passada grandeza. O movimento, e a vida do paiz, estava litteralmente
falando, em Rinhande.

Depois de ter despachado a comitiva para os seus differentes pontos, e
de ter chegado a esta capital, n'um dia, em occasio de conversar com
Hiquereto, disse-me elle que: o illustre viajante lhe havia dito no
approvar no paiz a presena de Macuas de Oeste, pois que pretendiam
apossar-se d'elle, havendo as provas do que avanava, na estacada por
mim feita em Calongo!!

Respondi ser falsa semelhante assero, tendo elle provas mais
convincentes do contrario na minha recusa de voltar ao paiz, e quem
pretendesse assenhorear-se de qualquer dominio, no dava, por certo
semelhante passo, nem, ainda, se apresentaria com a fora com que eu me
apresentava; poderia pois socegar por este lado, porque no seria da
minha pessoa que lhe resultaria o menor damno.

Podendo inferir-se de um to insolito procedimento, a razo de ser que
existe na confrontao de portuguezes e inglezes, descripta a ps. quinze
da introduco, 68 e 231 do _Exame_, accrescentarei, que no levei
jmais a audacia a ponto de malquistar meus irmos perante os selvagens,
considerando como meus irmos todos aquelles que andam peregrinando por
estas paragens seja qual fr a sua procedencia e naturalidade.

Em presena do que acabo de dizer, perguntar o leitor para que dirigia
a carta de offerecimento dos meus servios ao illustre viajante;
responderei que ento no quiz dar credito ao que Hiquereto me disse,
attribuindo a revelao a intriga dos familiares; hoje, porm,
verifica-se o contrario em presena dos factos que se apresentam.

 menos exacto egualmente o que o illustre viajante diz sobre dialectos,
isto , ser commum a lingua Quimbunda ao povo Lui e Baieie; Como a ps.
191 do _Exame_ se trata mais detidamente do assumpto, responderei que, 
commum a lingua Quimbunda a grande parte do territorio Africano, podendo
fazer-se egual parallelo entre ella, e o dialecto Bunda (de Angola e
suas dependencias) quelle que se d entre a Portugueza e a Castelhana:
mas j no assim em relao aos dialectos Cafrial, Ganguella, Humbe,
Macorrollo, e Mullua; no menciono a tribu numerosa dos _Cassaqueres_,
especie de ciganos, de cr pardo claro, e errante pelo interior do
continente, em virtude do seu estado vagabundo. Aquelles tribus
espalhando-se com o correr do tempo pelo extenso e vasto solo que lhes
deu o bero, vieram mais tarde a mesclar-se umas com as outras, formando
naes diversas, e taes como existem presentemente. Os sabios de futuro
tero de resolver o problema.

Reservando para aqui as palavras que de proposito sublinhei de: _Alguns
Mambari nos visitaram quando estavamos em Naliele_. direi que no tem
qualificao possivel, visto que o illustre viajante foi visitado por
mim, e no pelos Bihanos, faltando por consequencia ao que deve a si
como cavalheiro, nivelando um outro com os selvagens.

A paginas 77 e 78 o seguinte; ouamos o que diz ao ponto o Dr.
Livingstone, e ficaremos desenganados:


     Mr. Oswell e eu nos dirigimos para Sesheh (_Quiceque?_) a cento e
     trinta milhas ao Nordeste, e, no fim de junho de 1851, fomos
     recompensados das nossas fadigas com o descobrimento do Zambeze no
     interior do continente. Isto era de grande momento, porque d'antes
     no se sabia que existisse alli aquelle rio. Os mappas portuguezes
     todos o representam como tendo origem muito mais a ste do lado
     onde nos achavamos, e se em algum tempo tivesse existido coisa que
     semelhasse uma serie de postos commerciaes atravez do paiz, entre
     as latitudes 12.^o e 18.^o Sul, esta magnifica poro d'aquelle rio
     devia ter sido conhecida. Ns o vimos no fim da estao estiva,
     tempo em que o rio est mais diminuido, e comtudo levava ento
     corrente de agua profunda na largura de tresentas a seis centas
     jardas. Mr. Oswell declarou que nunca vira rio to formoso (_que
     no tem em tal logar formosura, visto ser despido de arvoredo_),
     nem mesmo na sua India. No tempo da sua inundao annual eleva-se
     perpendicularmente vinte ps e alaga quinze ou vinte milhas de
     terras adjacentes s suas margens.


No obstante repizar n'um objecto que no admitte controversia, como
seja o Riambeje visitado em antiga data pelos meus concidados;
anteriormente a 1845 pela minha gente em territorio do dominio da Lunda,
e d'esta data por deante no Lui, lembrarei a feira de Cassange
estabelecida de antiga data, e da qual ainda me no occupei. Os
portuguezes ahi estabelecidos enviavam e enviam suas fazendas pelo
interior, tomando diversas direces, e em algumas, segundo os pontos a
que se dirigem, passam e tornam a repassar o Riambeje. Em identicas
circumstancias temos os portuguezes residentes nas Pedras de
Pungoandongo, as suas fazendas seguem da mesma frma para todos os
pontos do interior, em alguns passam e tornam a repassar o
Riambeje,--_Riambei_ e _Riambeje_, nomes empregados commummente pelos
indigenas por estas paragens, para designar o grande rio, e cujas terras
banha com as suas aguas, o qual, como j tive occasio de falar,  o
manancial de mais longo curso conhecido aqui em Africa.

No dia 20 de janeiro de 1848 na viagem dos meus empregados, eis o que
digo em relao a este rio:

--Passmos o Riambeje para a margem opposta, ao qual se torna
impossivel marcar as braas que poder ter, em consequencia de ser um
grande descampado todo cheio de agua na presente estao; o rio dirige o
seu curso pelo centro, as canoas largando da margem direita para a
esquerda, gastam seis horas de bom remar na ida e volta. O Riambeje tem
a nascente na terra do dominio da Lunda denominada _Musso-candanda_, e
vae desaguar no mar para o Oriente.

Na actual viagem encontrei no estabelecimento Bonifacio Jos Basquete e
o seu empregado Joo Francisco da Silva; aquelle senhor na sua viagem do
Bih para Cazembe-mucullo, passou, a um dia de distancia d'aquella
terra, o Riambeje, com agua pela curva da perna; accrescentando o dito
seu empregado, que, a gente da povoao Namoanna Hicungo, do j citado
dominio de Musso-candanda, est situada na cabeceira do rio em questo,
d'onde tiram agua para seu uso diario. A povoao de um dominio qualquer
pode existir hoje, e amanh desapparecer em virtude da sua frma de
governo, mas j no a terra de Musso-candanda, ou mesmo outra qualquer
em dominio poderoso; mudam apenas os sobas. Concedendo porm que assim
no seja como acabo de transcrever,  fra de toda a duvida que qualquer
rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel que seja com a agua pela curva da
perna, d'ahi  sua cabeceira no podem distar mais de quatro dias de
jornada, a experiencia assim m'o tem ensinado. Fica pois demonstrado que
no tem razo de ser a pretenso do illustre viajante  descoberta do
Riambeje no interior do continente, em 21 de junho de 1851, querendo
ainda corroboral-a com a presena de mr. Oswell, attendendo a que muito
anterior  sua apresentao no dito local, isto , de fins do seculo
passado at ao presente, os portuguezes o teem passado e repassado em
todos os pontos banhados pelas suas aguas.

A paginas 79 e 80 o seguinte:


     Fallando do reino de Matiamvo, e do desejo que tivera de visitar
     este potentado, diz o dr. Livingstone: Que lhe asseguram, assim os
     commerciantes indigenas, como os naturaes de Balonda (_Calundas?_)
     que um brao consideravel do Zambeze, corre no territorio a leste
     da capital, e caminha ao sul. Todo este brao (accrescenta o dr.
     Livingstone) incluindo o ponto, d'onde toma a oeste, para Masiko
     (_Machico?_) est assignalado no mappa (d'elle Livingstone)
     provavelmente em demasia ao nascente. Foi assim marcado quando eu
     pensava que o Matiamvo e Cazembe ficavam mais a leste do que tive
     ao depois motivo para julgar. Sendo todas estas indicaes
     derivadas do testemunho dos indigenas, eu as dou com desconfiana,
     e como carecendo de ser verificadas por novos exploradores.


Machico acossado por Pepe, e mais tarde seu tio Rimba, que habitava as
lagoas do rio Nhengo, onde se tinha exilado, depois de Hebitane se
assenhorear do paiz, foram fixar domicilio no mesmo local a oito horas
de marcha, de distancia um do outro, onde vinham permutar seus negocios
as comitivas procedentes das Pedras de Pungo-Andongo, de Cassange e do
Bih; mas depois de ser assassinado por seu tio Hipopa, este
assenhoreou-se do dominio, que desfructou at o momento de ser acclamado
senhor do Lui, e por esse motivo aquelle ponto presentemente  dominio
seu feudatario, dando logar a que no seja to concorrido.

 d'esse mesmo local que eu disse por occasio da passagem do illustre
viajante para Loanda, achar-se apenas a dez dias de distancia da
nascente do Riambeje, segundo as indicaes de Hipopa, que por vezes foi
 caa dos elephantes para essas partes. Com effeito, no espao que
medeia entre Machico e Catende para o sul e sudoeste, que so
necessarios dez dias para percorrer, deve effectivamente encontrar-se a
nascente do grande rio.

De Catende para Catema, temos cinco dias, d'esta terra para Chaquilembe
outros cinco dias; estas tres terras so tributarias do Matiamvo, e
n'ellas limita o seu dominio com a tribu do Lui, do Luvar e do Quiboco,
sendo em Chaquilembe que as comitivas procedentes das terras que acabei
de designar, se refazem de mantimento para continuar a sua viagem mais
para o centro, e quem, seguindo por ellas, tomar a direco do nordoeste
e leste, no passa o Riambeje porque o deixa ao sul e sudoeste, como
acabei de dizer.

Agora, as comitivas da mesma procedencia tomando esta ultima direco,
teem necessariamente de passar pelas terras de Musso-candanda e
Canunguessa, egualmente do dominio Matiamvo, e passar o Riambeje na sua
nascente, a vau ou em ponte, segundo as localidades a que se dirigir.

Se, pois, o illustre viajante, pondo de parte preconceitos mesquinhos e
futeis puerilidades, tratando com mais afinco dos objectos em immediata
relao com a sciencia, partisse de Machico com destino a estas ultimas
terras, e n'ellas tratasse de investigar o que tanto prendia com o seu
dever, teria sem duvida achado a chave do enigma, como seja a nascente
do Riambeje, deixando por consequencia de luctar n'aquella duvida do ser
e no ser, como infelizmente se veiu a realizar para a sua pessoa.

A mesma pagina 80 o seguinte:


     Expondo a extranheza que lhe causou o phenomeno de um rio correndo
     em duas direces oppostas, nota o dr. Livingstone que no
     advertira, quando tinha atravessado o Lotembua, qual direco toma
     a corrente d'este rio; mas que, tendo feito reparo, ao achar-se da
     outra banda do lago Dilolo, de que seguia para o sul, presumiu que
     nascia no grande pal, que observara indo para o nordeste, e
     continuava correndo para o meio dia; porm que chegando  margem
     meridional, ali o informaram de que a parte do rio, que tinha
     acabado de atravessar, caminha ao norte, e no desagua no lago
     Dilolo, mas sim no rio Kasai. Posto que eu no observei a corrente
     (adverte Livingstone) de nenhuma sorte duvido de que seja exacta a
     assero, que alis me foi confirmada, nem de que, por conseguinte,
     o lago Dilolo sirva de reservatorio commum dos rios que vo
     correndo uns para o nascente, outros para o poente.


A este respeito s a sciencia geographica pode apresentar um trabalho
completo, o que no est em relao com os meus conhecimentos; no
entretanto, apresentarei aquillo de que posso dispor, dizendo que os
rios de uma mesma origem, e com direces oppostas, abundam aqui em
Africa:--aquelles de que tenho conhecimento segundo as informaes
obtidas, so os que seguem descriptos nas minhas differentes viagens:

_Rio Loengue_, na terra de Miqueselumbue. _Rio Lungubungue_, no
territorio Ganguella, das tribus Luchiaje e Bunda. _Rio Quando_, no
territorio Ganguella, das tribus Zambueira e Bunda. _Rios Cuito da
Zambueira, Cuime_ e _Cuiba_, no territorio Ganguella, entre as tribus
Luchiaje, Zambueira, e Quiboco. _Rios Caquema_, _Cuito_ e _Cunhinga_, no
territorio Quimbundo, do dominio do Bih, descampado denominado Inhana
Umbolobulo. _Rios Cubango_ e _Cutato dos Mangoias_, no territorio
Quimbundo proximo s terras de Candumbo e Sambo, descampado denominado
Acaca e Acatumbo. _Rios Quebe_ (_Cubo_ na sua foz ao sul de Loanda) e
_Cunene_, no territorio Quimbundo, na terra do Ambo, montanha denominada
_Ecunjo_, e assento da libata grande da dita terra, podendo dizer-se
que,  ella e suas circumvisinhanas, a paragem onde tem origem todos
os rios que deitam suas aguas no Atlantico, comprehendendo todo o
litoral ao sul de Loanda at Benguella. No falo do Cunene, visto que
segue curso mais longiquo pelo interior, at  sua foz ao Sul de Cabo
Negro. Tambem  voz tradiccional que n'ella existem minas de oiro,
explorado em principio do seculo actual pelo sertanejo de Benguella Joo
Pedro Costa.

A paginas 91 depois de fazer vr o illustre auctor do _Exame_ que, o
conhecimento da navegao e do curso do Zambeze pelos portuguezes, j 
de antiga data, conclue como segue:


     Eis aqui as palavras do homem to competente, como insuspeito a
     que me referi, fallo de mr. V. A. Malte-Brum, que dando noticia do
     mappa de Zambezia e Sofalla do sr. visconde (hoje marquez) de S da
     Bandeira, que vae publicado no fim d'este volume (do exame) assim
     se explica. A carta que temos  vista comprehende a parte da
     Africa Austral, que se estende do 10.^o ao 24.^o grao de latitude
     meridional, e do 25.^o ao 41.^o gro de longitude oriental do
     meridiano de Greenwich.

     O mappa representa o curso do Zambeze desde Seshek, capital dos
     Makololos, at  foz do rio, e tem por objecto fazer conhecido,
     qual  sobre as suas duas margens, e no interior do continente
     africano austral, os estados dos conhecimentos e dos dominios
     portuguezes.

     No ha duvida em que, por esta costa oriental da Africa, os
     portuguezes hajam ha muito penetrado muito mais vante do que
     nenhuma nao europea; mas tambem nada mais certo do que, quer
     fosse por motivos politicos, quer fosse por indifferena
     relativamente aos interesses scientificos, haver-se guardado
     silencio cerca de descobertas que s o engodo commercial tinha
     provocado. Hoje os portuguezes parece que soffrem o castigo d'este
     silencio premeditado; silencio que deu naturalmente occasio ao
     esquecimento; e comtudo elles reclamam a prioridade das descobertas
     feitas pelo reverendo David Livingstone sobre as margens do Chire e
     do Nhanja... O mappa permitte que se faa ida exacta da extenso
     que tinha adquerido o dominio portuguez sobre a costa de Sofalla, e
     sobre as margens do Zambeze, e contem indicaes uteis, que debalde
     se procurariam n'outra parte.


A prioridade das descobertas pelos portuguezes, est demonstrando at 
saciedade que lhes pertence de facto e de direito, faltando unicamente
para que fossem o que deviam ser, e era de esperar, que, o governo ou
mesmo sociedades scientificas, enviassem homens praticos nos
conhecimentos dos differentes ramos da sciencia humana, a fim de
explorar, investigar, e descrever tudo o que teem immediata relao com
essas descobertas, e quando tivessem a desgraa de serem seifados pela
morte, como succedeu ao dr. Francisco Jos de Lacerda e Almeida, era do
dever no desanimar, proseguindo sempre na obra encetada at o seu
complemento. As honras, as grandezas, e os premios, foram instituidos
para renumerar taes feitos, visto que como diz Mr. Matte-Brun, o engodo
commercial obriga a grandes reservas, e distrae os espiritos para a
sordida avidez dos interesses.

Mas que  o que pode prosperar sobre a terra sem esse agente que se
chama commercio?! Aquelles, que vivem exclusivamente d'elle, no so
competentes para metter hombros a taes emprezas, e os exemplos temol-os
de casa.

Se a minha obra fosse o que deveria ser, ha muito que estaria publicada,
e talvez que em diversas linguas, obrigando o illustre viajante, a se
tornar mais commodido nos seus escriptos; no o tem sido pela falta de
valor litterario, nunca  tarde porm para se emendar e corrigir erros.

As pag. 96 e 97 o seguinte. No cap. 12 escreve o dr. Livingstone:


     Procurando certificar-me se por ventura Santura (_Sanduro?_) tinha
     sido visitado em algum tempo por homens brancos, no pude achar
     vestigios de tal visita: no existe prova de que alguem da tribu de
     Santura tivesse visto um homem branco antes da minha chegada e de
     Mr. Oswell em 1851. Aquelles povos no tem,  certo, recordaes
     escriptas; porm os acontecimentos notaveis so commemorados por
     nomes, como Parke observou ser costume nas terras por onde viajara.
     O anno da minha chegada foi honrado com o nome do anno em que
     chegou o homem branco. Depois da primeira visita de minha mulher
     muitas creanas tiveram o nome de _Ma-Roberto_ (applicado  me e
     no ao filho, synonimo das primeiras lettras; depois do trao  o
     nome do filho. A tribu Quimbunda serve-se das lettras Ma, para
     designar Me) ou me de Roberto, nome do seu filho mais velho,
     outros tiveram o nome de Espingarda, Wagon, Monare, Jesus, etc,
     porm posto que os nossos nomes e os dos nativos portuguezes, que
     vieram em 1853, foram adoptados, no ha vestigio de que tivesse
     logar cousa semelhante mais cedo entre os Barotse: a visita do
     homem branco  acontecimento to notavel, que, se tivesse occorrido
     durante os ultimos cem annos, devia ter d'ella ficado tradio.

      muito para notar esta insistencia do dr. Livingstone em que no
     eram os portuguezes conhecidos dos Barotse. Esta demasiada
     insistencia faz desde logo nascer suspeitas no animo do leitor
     desprevenido, e mrmente se porventura est familiarisado com a
     maneira de escrever do celebre missionario: n'elle a insistencia
     longe de significar segurana, quasi sempre indica hesitao, e no
     acontecer agora o mesmo? Examinemos.

     Em uma nota ao logar citado diz o dr. Livingstone: Os Barotse do
     a si o nome de Buloiana, ou pequenos Baloi, como procedendo do Loi
     ou Lui, segundo a commum pronunciao. Lui tem sido visitado pelos
     portuguezes, porm como a posio de Lui no est bem fixada,
     voltaram-se as minhas indagaes para verificar se porventura era a
     mesma que a de Naliele. Perguntando ao cabo dos Mambari, chamado
     Porto, se tinha ouvido dizer que Naliele tivesse anteriormente sido
     visitada, respondeu negativamente, e declarou que por tres vezes
     tentara elle ir alli do Bih, porm que sempre lhe tolhra o
     intento a tribu dos Ganguellas. Elle quasi o conseguiu em 1852,
     porm foi repellido. Agora (1853) tentou ir ao nascente de Naliele,
     mas retrocedeu para Barotse, no podendo ir alm de Kamko, povoao
     situada junto ao rio Bashukulompo, a oito dias de distancia. A
     gente de Porto desejava com ardor obter a recompensa promettida
     pelo governo portuguez. O no ter sido elle bem succedido,
     confirmou-me na inteno de ir para Oeste. Porto benevolamente se
     offereceu a acompanhar-me, querendo eu ir com elle ao Bih, porm,
     no acceitando eu, precedeu-me a Loanda, e, estava publicando o
     _Diario_ da sua viagem, quando cheguei quella cidade. Ben-Habibe
     contou-me que Porto tinha remettido cartas para Moambique pelo
     arabe Ben-Chombo, que eu conheci; e depois assegurou, em Portugal,
     que elle mesmo fra a Moambique com as suas cartas.


O illustre viajante sendo menos exacto na exposio dos factos, taes,
como se deram, permitta-me de os narrar como se passaram.

No dia 1.^o de fevereiro de 1853, cheguei na terra do Lui, margem
direita do Riambeje, isto , ao estabelecimento feito pelos meus
empregados em 1850, sendo n'este mesmo mez que passei para a margem
esquerda, e dei principio e fim ao novo estabelecimento, e ficando por
consequencia depois da sua concluso, esperando, que chegasse a licena
do soba Hiquereto, para a comitiva tomar os seus differentes destinos.

Com effeito, ella no se fez muito demorada, porque a 12 de maro
chegaram os emissarios do soba Pepe que tinha partido para Rinhande 
nossa chegada no paiz, juntos a outros do soba Hiquereto, que
acompanhavam doze dentes grandes de elephante para permutar por polvora,
com ordem para a comitiva transitar por onde bem lhe conviesse: o que
logo se levou a effeito, visto que tudo se achava prestes para o dito
fim; bem assim a partida da comitiva de Moambique, realizada a 25 do j
citado mez e anno, como egualmente tive occasio de falar.

Projectando Pepe, em fins de maio, prestar homenagem ao seu Suzerano, e
em atteno,  qualidade de seu hospede com que era tratado, convidou-me
para a jornada, que, gostosamente acceitei, em virtude da recente
noticia da chegada de um homem branco com carros a Rinhande. Este homem
era o illustre viajante.

Partimos a 20 de junho, eu por terra, o soba Pepe pelo Riambeje, em
companhia de quem enviei Jorge Jos Motta meu empregado, com dois fardos
de fazendas, (esta fazenda voltou intacta para o estabelecimento) para
permutar por marfim, segundo a indicao d'aquelle.

A 3 de julho cheguei a Quiceque, onde, os primeiros emboras da minha
recepo foram a noticia do assassinato do soba Pepe, traioeiramente,
s mos de seu primo Hiquereto, e victima por consequencia da sua
bonhomia e boa f.

Confesso que bastante impressionado fiquei com tal acontecimento,
fazendo-me luctar na alternativa de retroceder, ou de proseguir vante,
mas vencendo esta fraqueza, optei em proseguir a minha jornada, chegando
a Rinhande a 12 do j citado mez, onde fui minuciosamente informado,
pelo dito meu empregado, do homicidio em questo, o qual o illustre
viajante em virtude dos seus usos, teria o cynismo de attribuir a
connivencia nossa e os mais que aps se seguiram na desditosa familia da
victima, quando o pequeno leo senhor do Lui fosse assistido de qualquer
portuguez, como era assistido da sua pessoa.

Pela minha parte no lhe quero arrogar semelhante injuria.

No dia 13 estava prestes a seguir para a libata grande ou povoao do
soba, comprimentar este, reservando para depois a mesma cerimonia para
com o branco, que os indigenas appellidavam geralmente de _Monare_
(synonymo de negociante ou sertanejo, como o illustre viajante me
disse), quando, inesperadamente se apresenta o primeiro seguido de um
numeroso sequito, como  de costume entre os Macorrollos, e aps elle, o
illustre viajante, pelas nove horas da manh.

Depois de trocados os comprimentos do estylo, puzemo-nos a conversar;
segundo as minhas indicaes falava o interprete Joaquim Marianno,
conhecido dos indigenas pelo appellido de _Hindere_ (synonymo de branco
na lingua quimbunda), com Hiquereto, j seu conhecido da viagem de 1850,
pastoreando elle ao tempo o gado no Lui, como j tive occasio de falar,
e eu, com o illustre viajante que, dirigindo-me a palavra sobre se eu
falava inglez, francez, latim, etc., respondi negativamente, no
dissimulando o meu constrangimento em presena de taes interrogaes.

Apresentei-lhe papel e lapis a fim de inscrever o seu nome, o que fez,
fazendo eu outro tanto por baixo, bem assim, passei a inscrever o de
Caetano Jos Ferreira, segundo a indicao do illustre viajante,
trabalho a que se no quiz dar na occasio da visita do mesmo senhor no
local, pelo julgar, qui, de superfluo; retirando-se o soba e o seu
sequito, bem assim o illustre viajante, eram onze horas.

No dia 14 recebi dois dentes grandes de elephante e um boi, presente do
soba Hiquereto, que retribui na occasio, e mais tarde, na minha
retirada para o Bih, e n'este dia, pelas dez horas, fui retribuir as
visitas recebidas na vespera, a primeira ao soba por ter a certeza de
que no seria to demorado, e a segunda ao illustre viajante, onde me
demorei bastante tempo e tive a honra de jantar.

Antes porm de proseguir vante, permitta-me o illustre viajante, que
passe a transcrever os trechos que seguem, e que vem aqui muito a
proposito; o primeiro tem relao com o assassinato do infeliz soba
Pepe, prova de que nada diz a seu respeito, e  este:

_10 de julho de 1853._ Continumos a viagem, e fomos fazer quilombo nas
povoaes de Rinhande. Caminho plano, mattos de espinheiro, e palmeiras,
abundante de sal, terreno fertil, leguas andadas 6, rumo de oeste. Este
local serviu de theatro ao mais atroz attentado, no assassinato do
infeliz soba Pepe, perpetrado por seu primo o soba Hiquereto. O homicida
no tendo a menor considerao para com aquelle que espontaneamente lhe
havia entregue o poder, to cobarde se mostrou, que o commetteu 
traio, e revestido do seguinte facto: Em maio do corrente anno, partiu
Borollo da capital do Lui, dizendo ao seu superior que seguia para
Rinhande a visitar Hiquereto; na realidade assim se verificou, porm, o
objecto da sua visita teve por fim a ambio do poder em mira,
servindo-se das armas da calumnia, para levar a cabo seus malevolos
intentos contra quem o havia salvo da morte, livrando-o da azagaia de
seu irmo o defuncto soba Hebitane; diz o rifo que quem seu inimigo
poupa nas mos lhe vem a morrer. Tendo a calumnia na mente do inexperto
soba sortido o desejado effeito, com a sua inexperiencia de moo e
selvagem, no quiz recorrer a provas para a salvadora justificao da
victima, mas sim, servindo de juiz e algoz a um tempo, saciou a sede de
sangue n'aquelle que lhe apontavam de rival. Foi, pois, n'este local,
que sahindo ao encontro da sua victima, e a titulo de obsequio, a
deshoras, commetteu o homicidio, degolando o infeliz. Egual sorte espera
no futuro o calumniador, muito principalmente n'este paiz, em que a
vontade do chefe  a lei suprema.

Os dois paragraphos que seguem  para que o leitor possa avaliar o
cavalheirismo do illustre viajante, na linguagem empregada nos seus
escriptos em relao  minha pessoa.

_13 de julho._ Fui visitado pelo soba Hiquereto, que esteve a conversar
perto de duas horas no quilombo, ao cabo de cujo espao, e seguido do
seu sequito, se retirou  sua povoao. Ao mesmo tempo tive a honra da
receber a visita do dr. David Livingstone, missionario inglez, enviado
pela Sociedade da propaganda da f em Londres, a fim de explorar o
interior de Africa.

_14 de julho_. Fui visitar o dr. Livingstone, e vendo at que ponto
pode chegar a industria dos inglezes, completamente admirei o seu
arrojo. A comitiva do dr.  composta de oito pessoas, e em geral, bem
como elle, falam perfeitamente a lingua dos macorrollos; dois grandes
carros de quatro rodas cada um, e puxados cada qual por seis juntas de
bois, transportam uma immensa bagagem, que, a ser conduzida por pretos,
indispensavel seriam sessenta carregadores. Sahindo, pois, do Cabo da
Boa Esperana, at  capital do povo Macorrollo, gastou seis mezes de
viagem, passando unicamente dois rios caudalosos, Orange, proximo do
Cabo, e Quando, proximo de Rinhande; havendo ao mesmo tempo paragens,
nas quaes no encontrava agua em cinco dias consecutivos. , pois, esta
a segunda viagem do dr. David Livingstone a Rinhande, e a querer
emprehender viagem para o Occidente com taes carros, inteiramente se
tornava impossivel, em virtude dos mattos fechados a percorrer, serras a
transpor, grandes paues, e finalmente abundancia de rios caudalosos.
Teve a bondade de me fazer ver todos os seus mappas, uns completos e
outros incompletos, e ao mesmo tempo, que desejava seguir em minha
companhia at  capital de Angola, ao que annuindo, lhe fiz ver que com
muito gosto acceitava a sua companhia; depois de nos havermos despedido,
retirei-me ao quilombo.

Tornando ao assumpto de que me tinha desviado. Depois dos comprimentos
indispensaveis, o illustre viajante apresentou-me os seus mappas, uns
completos e outros incompletos, e um mappa antigo portuguez, de pequeno
formato, contra cujo auctor se mostrou o illustre viajante agastado, por
no haver marcado precisamente como era do seu dever, a posio e
largura do rio Loanja, apresentando-o muito fra do seu natural.

Objectei que os rios na estao invernosa, so uma cousa, e na estao
secca, outra, talvez que essa mesma circumstancia se desse em relao ao
rio Loanja, sendo visitado na primeira d'essas estaes pelo auctor do
dito mappa, o que o fizera cahir em erro, mas que tendo eu transitado
pela sua margem direita, tres dias consecutivos, e trazendo a direco
do sul para Quiceque, lhe assignalara tres braas de largo, sem comtudo
o haver passado, e com a particularidade de ser na estao secca; no
insistindo mais sobre este ponto, aqui terminou o incidente, do qual me
tornarei a occupar. Disse mais se tinha conhecido o soba Hebitane. A uma
proposio to insolita, respondi indicando o interprete Joaquim
Mariano; a isto nada retorquiu.

Perguntou mais quantos dias eram do Bih ao logar em que nos achava-mos;
respondi que s apresentando o Diario da minha viagem poderia dizer
alguma cousa com preciso.

Fomos jantar, e depois d'este, apresentou-me o illustre viajante um
mappa em branco, que desenrolou; deu-me um lapis, a fim de marcar a
posio do Bih, e pontos principaes por onde tinha transitado. Mais um
vexame para mim, por me fazer passar por ignorante aos olhos do illustre
viajante, visto que tive mais de uma vez de lhe responder negativamente,
dizendo no ter os conhecimentos necessarios para tal. Enrolou o mappa,
que guardou, bem assim a bussola, e depois apresentou-me a carta do
cavalheiro Duprat, especie de circular s auctoridades e subditos de S.
M. F., recommendando o illustre viajante, a qual, depois de ter acabado
de ler, dobrei e entreguei; e como fossem j cinco horas da tarde
despedi-me e retirei ao quilombo.

No dia 15 de julho, fui percorrer a povoao de Rinhande, e tendo sido
prevenido de que Hiquereto partia no dia seguinte para o Lui, pelo
Riambeje, em companhia do illustre viajante (foi n'esta occasio que
elle visitou a catarata Cungo (_Chungo_) ou Mosioatunia, e que tiveram
logar os assassinatos de que acabei de falar, na desditosa familia do
infeliz soba Pepe) dispuz a minha partida para o mesmo dia, mas por
terra, e pelo mesmo caminho da vinda, em consequencia de ter ficado a
minha cavalgadura no caminho, a quatro dias de distancia de Quiceque,
por motivo da mosca _Zeze_ em que abunda as margens do Loanja, do que j
tive occasio de falar.

A 16 de julho parti de Rinhande, e depois de vinte dias gastos no
caminho, em marchas e demoras, cheguei ao estabelecimento a 4 de agosto.
Acto continuo  minha chegada mandei chamar a gente que tinha partido
para Moambique a 25 de maro, a fim do seu chefe dar conta dos motivos
que originaram o aborto da viagem, cujos se acham descriptos no logar
competente. Aps esta audiencia tambem mandei chamar as pessoas
principaes da comitiva, a quem expuz os pormenores relativos  viagem
que acabava de fazer, bem assim a teno immediata de continuar jornada
para o nordeste, a fim de me encontrar com os pombeiros de
Miqueselumbue, unicos que faltavam no estabelecimento. Isto era um dever
a que me no podia eximir, segundo a pratica estabelecida, e concluido
elle, dei por terminada esta segunda audiencia, e ordem para os
preparativos de partida.

No dia 5 de agosto apresentei-me na libata grande, onde pernoitei, a fim
de comprimentar Hiquereto, bem assim o illustre viajante; retirando-me
no dia 6, visto haver cumprido esse dever de civilidade. N'esta povoao
denominada Nariere, entre outras coisas de que falmos, veiu a do
illustre viajante fazer meno dos recentes assassinatos, consequencia
do trama preparado por Borollo; respondi que egual sorte aguardava este
no futuro. Disse mais que desejava viver retirado, e, se, com este
intuito no haveria para o occidente uma terra para n'ella residir;
respondi negativamente, visto que o illustre viajante havia delineado um
segundo paraiso. E, interrogado mais sobre se em Loanda haviam
hospedarias, e inglezes, respondi affirmativamente, accrescentando elle
que, pretendia dirigir-se a Ribonda fazer algumas observaes, e que no
seu regresso aproveitaria o ensejo para me visitar; a que retorqui
achar-me s suas ordens.

No dia 7 alevantei com direco ao nordeste a encontrar-me com os
pombeiros de Miqueselumbue nas margens do Loengue, unicos que faltavam
no estabelecimento de entre o grande numero que tinha despachado para
diversas paragens, como acabei de dizer, e prompto para despachar pela
segunda vez a comitiva para Moambique, isto depois de ter recommendado
o bom agasalhado do illustre viajante, como  minha propria pessoa.

Nos mattos, a dois dias de distancia, da terra de Miqueselumbue, isto ,
depois de dezaseis dias de marcha, e no dia 22 de agosto,
encontramo-nos, passando acto continuo a tomar contas aos diversos
negociadores sobre a permutao que haviam feito. No entretanto, a minha
misso no estava terminada; tinha vindo ao encontro d'esta gente, 
certo; mas no seu numero faltava a arabe Ben-Habibe, a quem eu queria
confiar a minha gente para a viagem de Moambique, pelo julgar mais
habil que seu tio Ben-Chombo, que j se tinha recolhido ao
estabelecimento, e ambos haviam recebido fazendas minhas. Mas havendo
ficado ainda  retaguarda, e no me sendo possivel ter mais demora, no
dia seguinte 23 de agosto retrocedendo para o Lui, cheguei ao
estabelecimento a 6 de setembro, tendo a noticia de que o soba
Hiquereto, bem assim o illustre viajante, tinham partido para Rinhande
cinco dias antes da minha chegada. Acto continuo mandei chamar
Ben-Chombo ao qual propuz a commisso de Moambique em companhia da
minha gente, mediante o perdo da quantia em que tinha ficado alcanado,
e a gratificao de cem pezos, no caso de bom exito, acceitando
promptamente e ficando por consequencia  minha disposio; (ainda no
satisfiz esta divida em virtude de se no ter apresentado o arabe depois
que desempenhou a commisso) tratando-se unicamente n'este meio tempo
dos preparativos das duas viagens: a de Moambique realisada a 22, e a
minha para o Bih levada a effeito a 30 d'esse mesmo mez.

Posto isto, direi que, em referencia  terra no ser visitada por branco
algum, antes, e mesmo no tempo de Sanduro, se o illustre viajante se
dsse ao incommodo de visitar o local onde jaz sepultado este mesmo
soba, (todos os sobas depois de acclamados tem por habito construir a
sua respectiva povoao, ahi residem, e ahi so enterrados, e sempre no
valle de Lui) alli encontraria vestigios do contrario n'umas campainhas
que foram do dito Sanduro: eis o que digo relativamente:

_15 de setembro de 1867._ Hoje fui ao local de romagem dos sobas
primitivos d'este povo, e, tambem dos senhores intrusos durante o seu
dominio no paiz, que nada teem a admirar, exceptuando as Eandeiras e
Palmeiras que contam para mais de seculo de existencia, seguindo a
posio das mesmas a frma oval, como so todas as povoaes dos
selvagens; hoje, apenas apresenta a frma semi-circular, visto que o
tempo destruindo algumas da parte de sueste, damnificou de alguma
maneira o todo pittoresco do local, em consequencia da situao que
occupa no meio d'este descampado immenso, e despovoado de arvoredo, que,
tem uma elevao de dez ps acima do nivel terreo, onde nunca chegou a
agua, mesmo em annos de grande inundao; e que segundo informaes dos
velhos que me assistiram, foi mandado entulhar pelo soba Sanduro.

Proximo do mesmo, sobranceiro ao Riambeje pequeno, do lado do norte, e
junto, do lado de leste, existem duas povoaes a cargo de cujos
habitadores est confiada a sua limpeza; no centro, e junto de uma
corpulenta Eandeira, est a sepultura do fundador que com facilidade se
distingue em virtude de oito grossas forquilhas de pau ferro com as
hastes bastante compridas e agudas, e nas quaes o soba manda depositar
uma pea de fazenda fina, ( primeiramente rasgada aos pedaos) logo que
na terra faz entrada qualquer comitiva de sertanejos, e que ahi 
consumida pelo tempo. Tambem ahi encontrei quatro campainhas antigas.

Como fosse prevenido para o effeito, depositei egualmente quatro jardas
de algodo e quatro campainhas pelos ditos paus, presenteando egualmente
o chefe do local, velho de oitenta janeiros, com duas jardas de baeta, e
missanga aos seus companheiros e para a turba que me rodeava; aps o que
me retirei, deixando todos satisfeitos da minha visita, qui, que
anhelando outras identicas pelo proveito que d'ellas lhes resulta.
Spleen de Londres, e vento vario de dia e de noite.

De que parte sahiram essas campainhas antigas de que acabo de fazer
meno: do Oriente ou do Occidente?

Quem  tambem o auctor do mappa de pequeno formato, antigo e portuguez,
cujo auctor tanto tinha attrahido a colera do illustre viajante, pelo
erro relativo ao rio Loanja?

O povo Lui segue o costume de beijar as palmas das mos, e tambem o de
se oscular, costume que ainda no vi reproduzido entre as mais tribus
d'estas paragens; isto quando por qualquer circumstancia se avistam
parentes e amigos, ou mesmo por caso fortuito se encontram; se o soba
segue para a guerra, e dada a circumstancia de regressar victorioso, o
povo de ambos os sexos acode pressuroso ao seu encontro para o
victoriar. Como emblema da victoria, cada individuo previne-se de dois
ramos verdes de arvore especial, que leva em cada uma das mos, e
chegado na margem de qualquer rio, lago ou laga, mettem-n'os como
emerso na agua, tirando-os acto continuo, e espargindo-se  imitao de
agua benta, e como que purificando-se.

Concluida esta primeira cerimonia, a um tempo, e seja qual fr o numero
de pessoas, todas em ala, com os ramos sempre nas mos, canto monotono e
candenciado, mas que tem um tanto de agradavel e harmonico, em louvor do
soba e dos seus, pela victoria acabada de alcanar, a passo grave e
candenciado, dirigem-se em ala para elle. A um tempo tudo se prosta de
joelhos, dando principio de lhe beijar as palmas das mos,
alternadamente a direita e esquerda; primeiramente as pessoas de elevada
jerarchia, seguindo-se aps estas, as pessoas plebeias, isto por tres
vezes successivas, tendo logar primeiramente a esparso da agua, a fim
de ter logar aps a mesma, o beijar das palmas das mos. Os osculos teem
logar entre pessoas de egual jerarchia; o soba  to smente osculado
por pessoas da sua familia, s quaes tributa alguma considerao.

Dado o caso de ser em occasio do seu regresso, e depois de transpor os
limites da capital, que a turba venha ao seu encontro, o soba pra, e
egualmente o povo da guerra, a fim de ter logar a cerimonia que acabo de
descrever: continuando da mesma frma na libata grande, at que o povo
em geral, da capital, tenha cumprido tal dever, acompanhado de tributo
segundo o custume do paiz, mas tributo que se no torna oneroso, visto
que cada pessoa deposita aos ps do soba aquillo de que pode dispor, e
em virtude do habito de que ninguem se lhe apresenta sem que leve alguma
cousa.

D'onde, pois, veiu tal habito ao povo Lui: dos missionarios catholicos
ou protestantes? creio que d'aquelles e no d'estes, em presena de no
haver exemplos em contrario.

Finalizo dizendo que na digresso por mim feita a encontrar-me com os
pombeiros de Miqueselumbue, gastei at ao logar do encontro, dois dias
quem do rio Loengue, 16 dias. Para Moambique, da primeira vez em que a
viagem abortou, sahindo a minha gente como j disse do estabelecimento a
25 de maro de 1853 at  terra do soba Camgomba, alm do rio Lohunje,
em 7 de junho do citado anno, 75 dias, sendo 46 de viagem e 23 de demora
nos differentes pontos por onde transitou; recorrendo, pois, o illustre
viajante ao seu mappa, e no qual grandes modificaes teem a fazer, vir
no conhecimento da falta que commetteu em se deixar levar das
informaes menos bem cabidas de Ben-Habibe.

Em identico caso estamos na minha precedencia ao illustre viajante a
Loanda, bem assim na minha ida a Portugal. As minhas viagens at o
presente, a partir da epocha em que tivemos a honra de nos conhecer-mos,
teem-se limitado unicamente: da terra do Bih para a cidade de
Benguella, e vice-versa, e da terra do Bih para o Lui, e vice-versa. E
que,  imitao do illustre viajante poderia eu egualmente desmentir as
suas palavras sob a assero de ter visitado o Riambeje em companhia de
Mr. Oswell, em 21 de junho de 1851, mas sim haver realisado tal excurso
na sua segunda viagem em 1853, da qual data a sua visita  catarata
Chungo ou Mosioatunia, visto que assim me foi affirmado por Hipopa,
dizendo que na occasio em que o illustre viajante e Mr. Oswell, se
dirigiam para Quiceque, tivera logar o seu encontro com a comitiva de
Pepe e Hiquereto, que se dirigiam para Rinhande, em consequencia da
morte do soba Hebitane, e que regressando, se retirra poucos dias
depois para o Cabo, fazendo tal excurso na segunda viagem como acabo de
dizer.

Fao simplesmente a narrao, tal como me foi affirmada; mas no
respondo por ella.

A paginas 120, o seguinte.


     Por occasio de encarecer a affeio dos Bechuanas aos filhos,
     quando estes ainda em tenra edade, diz o dr. Livingstone: Tive
     conhecimento de varios casos de avs que amamentaram os netos.
     Masina de Kuruman no tinha tornado a ter filhos desde o nascimento
     de sua filha Sina, e no tinha leite depois que Sina fora
     desmamada, o que costuma ter logar quando a creana tem dois ou
     tres annos de edade. Sina casou quando contava dezesete ou dezoito
     annos, e teve dois gemeos. Masina, decorrido o intervallo pelo
     menos de quinze annos desde que amamentara o ultimo filho, pegou de
     uma das creanas e a poz ao peito, e o leite correu em tal
     abundancia, que ella poude s por si alimental-a. Masina contava
     ento pelo menos quarenta annos.


Vou egualmente corroborar o facto apresentado pelo illustre viajante. No
Bih havia uma familia oriunda de paes europeus, fallecidos muito tempo
antes da minha chegada ao paiz; o chefe era homem que sustentava a me,
velha sexagenaria, e duas filhas que vinham a ser netas da velha; das
quaes, tendo-se amancebado a mais velha, que foi habitar para a
companhia d'aquelle que a tinha escolhido para sua companhia, veiu a
constar a familia unicamente de tres pessoas. Acontecendo porm este
mesmo homem ter a desgraa de ser arguido de feiticeiro por um europeu,
que levou a barbaridade a ponto de o mandar assassinar, segundo o estylo
do paiz, ficou por consequencia a familia sem chefe, seguindo a av, e a
neta por tomar estado, para a companhia d'aquelle que, ainda no havia
decorrido um anno tinha elegido para sua companheira a filha do homem
barbaramente assassinado, e o qual cumprindo os deveres d'este, veiu a
ser o arrimo da familia, succedendo por essa occasio dar a sua
companheira  luz um infante, mas fallecendo poucas horas depois do
parto.

A pobre creatura ferida no amago d'alma por dois golpes, se pode dizer
repetidos, a perda do filho que era o seu arrimo, e aps ella a perda da
neta, sabendo ser delicto entre a tribu Quimbumda que reduz  escravido
a familia que em virtude de um tal acontecimento entregasse a creana a
peitos estranhos para amamentar: toma o bisneto recemnascido em seus
braos, e trata de cumprir o dever do amor maternal, alimentando-o a
seus resequidos peitos, a que acorde copiozo alimento, o qual serve de
conservar a existencia ao innocente por espao de um mez, no fim do qual
expirou, mas em virtude de doena que lhe sobreveiu.

Por egual extraordinario, talvez, em tal acontecimento,  a natureza ter
produzido um ente em paiz culto, que em Africa, pela falta absoluta de
conhecimentos, de mistura com a sua fraqueza veiu a adquirir os habitos
dos selvagens, tornando-se uma fera como aquellas que habitam as selvas,
por suggestes d'aquelles que o rodeavam. E para honra da humanidade
taes actos apontam-se.

A paginas 158 o seguinte.


     As aldas dos Barotse so construidas sobre defezas, algumas das
     quaes dizem que foram elevadas artificialmente por Santuru, antigo
     chefe dos Barotse, e, durante a inundao, todo o valle toma a
     apparencia de um grande lago, com as aldas sobre as defezas como
     ilhas, do mesmo modo que succede no Egypto com as aldas dos
     egypcios.


J tive occasio de falar d'este local onde jaz sepultado o pae do
actual soba do paiz, unico que foi mandado aterrar por elle, e tambem de
que ha exemplo; os mais logares ficam pelo descampado ou valle, onde
residiram e foram enterrados os antecessores do actual soba, (a sua
povoao corre de noroeste para sueste,  a maior que tem existido, e
approximadamente contm duas mil pessoas; por occasio da inundao
d'este anno no fizeram mudana, visto que a agua se conservou a vinte
passos de distancia do local) e do povo Lui propriamente dito que em
parte habita os lados marginaes ou encosta dos mattos, e em parte o
descampado, sobre monticulos de maior ou menor ambito e elevao, nos
quaes pela maior parte tambem cultivam o gro, que fica sempre de vez em
antes de se realisar o periodo da inundao,  excepo dos logares
proximos aos mattos, e mesmo por estes em ambas as margens do
descampado, bem assim as dos monticulos de que acabei de falar; este
povo no tem por habito cultivar a terra nos logares baixos do valle;
emquanto a inundao vae tomando incremento, no lhe do importancia,
mas no momento em que principia a chegar s povoaes, e s n'este caso,
ento do immediatamente logar  sua mudana para ambas as margens do
descampado, porque  indicio da inundao tomar maior incremento, o que
de ordinario tem logar nos mezes de janeiro e fevereiro, tendo logar o
regresso nos mezes de abril e maio, nos quaes a agua vae diminuindo
progressivamente. Para este effeito esto de ordinario prevenidos com as
canoas, porque ento se pode dizer um mar ou grande lago o geral do
descampado, formando ilhas de maior ou menor ambito os monticulos como
que espalhados por elle, e como seja o seu elemento favorito, e pelo
qual de ordinario almejam; a caada ao hipopotamo, e a de toda a especie
de aves, em que ento abunda, torna-se o seu divertimento de todos os
dias: ao passo que a gente do sexo feminino passeia de uma para as
outras povoaes. Porm no havendo indicios de que a inundao v em
progressivo augmento, conservam-se nas suas localidades, sendo n'este
caso o gado o unico objecto que no admitte de longar, porque effectuam
de ordinario a sua transferencia no mez de dezembro, para ambas as
margens do descampado; reservando unicamente aquelle de tirar leite, do
seu uso diario, o qual,  mudado no caso de se verificar a mudana do
proprietario, visto haver logares conhecidos dos indigenas por onde pode
passar sem perigo.

Foi pois Sanduro que mandou aterrar o local em que habitou, o qual no
tem mais de uma milha em toda a sua circumferencia, isto provavelmente
por ter escolhido para sua residencia, justamente uma ilha formada por
um brao do Riambeje, a partir do lado de noroeste, a desembocar no de
nordeste, e que tem a designao de Riambeje pequeno; paragem mais baixa
que o geral do descampado. Na mesma ilha, em egual direco, e na
distancia de uma legoa, existe o local denominado Nariere, antiga crte
do povo Macorrollo, hoje inteiramente deshabitada como j disse. Fra da
dita ilha, em egual direco, e na distancia de uma legoa egualmente,
existe a povoao de Hipopa, da qual tambem acabei de falar.

A paginas 162 e 163 o seguinte:


     Tera feira 17 de janeiro (1854) fomos honrados (narra
     Livingstone) com uma grande recepo por Shinto. Sambanza reclamou
     a honra de nos apresentar, porque Manenko se achou um tanto doente.
     Os portuguezes nativos e os Mambari iam armados de espingardas a
     fim de darem uma salva a Shinto, fazendo o tambor e o trombeteiro
     todo o ruido que lhes era possivel com instrumentos muito velhos. O
     Kotta, ou logar da audiencia era uma praa de perto de cem jardas,
     e viam-se em uma das extremidades dois agradaveis specimens de uma
     especie de Banina, (_arvore, cujos ramos pendem para a terra, e,
     tomando n'ella raiz, engrossam e formam novos troncos, etc.,
     Eandeira, ou ulemba dos Quimbundos; existem seis especies._)
     Debaixo de uma d'ellas estava assentado Shinto, sobre uma especie
     de throno, coberto com uma pelle de leopardo; trajava com vstia
     variegada, saiote de baeta vermelha agaloada de verde, pendiam-lhe
     do pescoo muitos fios de contas grossas, e os braos e as pernas
     enfeitadas de braceletes e varios ornamentos de ferro e de cobre,
     na cabea tinha posto uma sorte de capacete feito de contas de
     vidro entretecidas com primor, e coroado de grande penacho de
     pennas de pato. Proximo a elle estavam assentados tres mancebos com
     grandes feixes de settas sobre os hombros, etc.


Admiramos unicamente a belleza do estylo empregado pelo illustre
viajante no trecho que acabamos de reproduzir, e seguintes, descrevendo
a recepo que lhe fez o soba de Catema, que a falar a verdade nem
merece as honras do titulo, no porque o queira humilhar, mas pelo papel
que representa, elle e todos os mais do dominio da Lunda perante o seu
Suzerano, ou dado o caso de virem enviados d'este a exigir-lhes tributo,
como adeante terei occasio de falar.

Entre as tribus Ganguellas ou Quimbundas constituidas pela maior parte
sob a frma republicana, poderiam gozar das prerogativas de estados de
segunda ordem, porque ento poderiam taes sobas dizer-se, senhores do
_quero, posso e mando_; mas debaixo do jugo ferreo do Matiamvo,
tornam-se simples automatos da sua vontade.

O illustre viajante deve de estar ao facto do tratamento dado por
Hiquereto quelles potentados que se lhes apresentavam com tributo, ou
mesmo teria ouvido falar das extorses feitas pelos seus emissarios,
quando, enviados em qualquer commisso aos ditos sobas, que, por via de
regra, vinha a ser pela tardana de tributo, faziam e fazem ainda
presentemente (e quando deixaro de o fazer!) pelas suas localidades:
pois n'uma e n'outra terra  identico o tratamento; com a differena
porm de que, no Lui no fazem ostentao dos assassinatos prepetrados e
mandados perpetrar; ao passo que na Lunda  um acto de glorificao do
Matiamvo. Posto isto, passaremos a narrar os factos taes como se passam,
e cujos significam o reverso da medalha.

Os sobas Chinde, Catema e Catende, que so precisamente aquelles por
onde transitou o illustre viajante, em antes da extinco do trafico e
quando os elephantes percorriam os seus respectivos dominios, vendiam
escravos, e tributavam com elles o Matiamvo, correndo-lhes tudo por esse
motivo s mil maravilhas, monteando-se aquelles animaes  imitao dos
outros, para seu alimento, ficando, por consequencia, os dentes no mesmo
local em que era morto o elephante, expostos  deteriorao e sem que
ninguem os procurasse, (presentemente ainda se d esta celebre anomalia
para o sul alm do rio Cubango, nas paragens percorridas pelos
Cassaqueres); mas findo o trafico as coisas tornaram-se outras; o marfim
teve principio de ser procurado, os indigenas deram principio egualmente
de o prem debaixo de guarda; e tendo finalmente logar d'essa epocha por
deante o tributo de escravos e marfim para o Matiamvo, em virtude das
suas ordens.

Os caadores Quibocos como fossem conhecendo o valor d'este genero em
presena dos concorrentes, principiaram no seu paiz de mover guerra de
exterminio aos mesmos animaes, que afugentados por esse motivo, se foram
internando pelo interior, onde da mesma frma se lhes continuou tal
guerra, pela ambio a que o marfim tinha dado origem, ficando o caador
com o dente esquerdo e dando o direito ao senhorio em cujo dominio era
morto o elephante. A perseguio no diminuiu; pelo contrario, foi em
progressivo augmento, visto que j se no falava em escravos pelas
mesmas terras, mas sim a ordem do dia era marfim, porque ao passo que
affluia ao mercado do littoral, ia tendo alta de preo; dando-se por
consequencia a mesma circumstancia pelos differentes pontos do interior.
A isto se deve a descoberta de novos mercados, de outras terras, e
finalmente de outras tribus, at ento desconhecidas. Os elephantes
foram escaceando no dominio dos tres sobas que acabei de designar, e
outros, at o seu total desapparecimento; e como era foroso de
apresentar tributo annualmente ao Matiamvo, faziam-no com escravos,
fazenda, missangas, pelles e alguns dentes de marfim, quando os podiam
obter dos caadores; em presena de que, se tornava excessivamente
oneroso tal encargo, visto que para arranjar fazendas e missangas
sufficientes, se lhe tornava necessario dispr de dez escravos, termo
medio, alm d'aquelles com que tributavam o seu suzerano. Por este
motivo a decapitao de taes sobas principiou a ter logar mais
amiudadamente, j na occasio em que se apresentavam com o tributo na
crte, j mandando o Matiamvo saber porque motivo se demorava o tributo
alm do tempo marcado; se por um lado quando se apresentam, ficavam por
via de regra desempedidos, pelo outro ficavam detidos de permeio com o
povo de que eram acompanhados, empregando-os em todo o servio que lhes
era destinado, at que ao cabo de um ou dois mezes, e s vezes mais
tempo, lhes era permittido regressar aos logares de suas naturalidades.
Se, pelo contrario na occasio em que se apresentavam com o tributo, o
Matiamvo no ficava satisfeito com qualquer dos apresentantes, em acto
continuo o mandava decapitar, depois de lhe tiraram do pulso a insignia
do poder, que vem a ser uma manilha ou bracellete de metal, envolvida em
certos e determinados preservativos do seu conhecimento e superstio,
que acto continuo vo depositar aos ps do Matiamvo. Este, pegando
n'ella e depois de ter mandado vir  sua presena o successor immediato
da victima, porque necessariamente deve acompanhal-a, depois de lhe
recommendar o bom regimen do seu dominio, e o que deve fazer em relao
ao tributo, entrega-lhe a insignia do poder, que o investe no mandato do
seu decapitado parente, ficando por consequencia habilitado para o
exercer, se por acaso no vier a ter egual sorte.

Verificando-se porm o caso de que o Matiamvo envie emissarios ao
dominio de taes sobas, estes tornam-se martyres das extorses que lhes
so feitas, e emquanto no so despedidos, a sua auctoridade torna-se
nulla na povoao; havendo alguns, como tem acontecido, que fazendo
observaes contra to insolito procedimento, o enviado puxando do
_Mucuale_(faco de dois gumes) decepa-lhe a cabea sem mais ceremonia
que a sua vontade, e sem opposio da parte do povo da povoao,
tira-lhe do pulso a insignia do poder, que entrega ao successor
immediatamente, dizendo-lhe simplesmente que seja mais pontual que o seu
antecessor no desempenho das ordens do Matiamvo; depois de mandar
preparar o craneo, isto , raspar por dentro e por fra a fim de lhe
serem extrahidas todas as particulas admissiveis de putrefaco, para
ser guardado cuidadosamente com outros que teem egual sorte, e que na
sua retirada para a crte, apresenta como tropheus na presena do
senhor, que lhe diz simplesmente ter cumprido o seu dever, dando-lhe a
maior importancia proporcionalmente  maior poro de objectos de valor,
lhe fosse possivel conduzir  sua presena.

Algumas vezes subornados pelos ambiciosos do poder, estes mesmos
enviados do Matiamvo, a que do o nome de _Cacoattas_, ao entrar na
libata grande do dominio a que se dirigem, intimam o soba existente a
fim de abandonar o logar para que o seu successor o possa occupar, o que
executa acto continuo sem mais observaes, no lhe sendo permittido
levar coisa alguma, alm das pelles ou pannos que tinha no corpo, e com
os quaes o encontraram na occasio; porque lhe advertem immediatamente,
que, tudo quanto existe na povoao pertence ao Matiamvo. As pessoas que
lhe so affeioadas s depois da retirada do enviado  que se lhe vo
aggregar, e, se na occasio da expulso se no lembrou de entregar a
insignia do poder, seguem logo emissarios em seu alcance para que a
restitua, e no que tambem no faz a menor objeco, visto que por
felizes se reputam aquelles a quem a sua boa estrella concedeu
semelhante graa.

Finalmente, taes atrocidades so frequentes, e os Cacoattas tornam-se os
flagellos dos sobas secundarios; taes oppresses teem dado logar a que
alguns se tenham rebellado, mas no obstam ellas, os pretendentes ao
poder so muitos, e no so exemplo a causar-lhes a menor impresso,
visto que do acontecimento de hoje j ninguem fala manh; advertindo,
que, no  s entre os Mulluas que ellas se do e repetem, os mesmos
episodios so identices no Batebere, no Cazembe, no Lui e entre o povo
Macorrollo, potentados poderosos para estas paragens.

Para alm, isto  para o Oeste, entre a raa Quimbunda que se pode
reputar excepcional, temos as seguintes terras de potentados poderosos:
Bailundo, Bih, Gallangue e Quiaca; mas n'ellas as unicas barbaridades
que se do, vem a ser o assassinato de quatro pessoas, o maximo, no
governo de cada potentado para differentes preservativos, em virtude da
arreigada crena de seus antepassados, bem assim a de feiticeiria, que,
leva a perpetrar o assassinato por differentes frmas, na pessoa do
desgraado que fr arguido de tal epitheto.

A paginas 175 e 176 o seguinte:


     O dr. Livingstone censura Manuel Caetano Pereira de ter exagerado
     egualmente o seu poder. Indagando eu, escreve Livingstone, se
     ainda se faziam sacrificios humanos no reino de Cazembe, como no
     tempo de Pereira, informaram-me que taes sacrificios nunca tinham
     sido to communs como Pereira os representara, e que s tinham
     logar occasionalmente, quando o chefe carecia de certos
     encantamentos, porque ento era morto um homem por serem para
     aquelle precizas algumas partes do seu corpo. N'outro logar
     accrescenta: O Cazembe alm de ser visitado por Lacerda, tambem o
     foi por Pereira, que deu do poder d'aquelle chefe grandiosa
     informao, a qual no foi confirmada pelas minhas investigaes.


Se bem que tenha acabado de tratar da materia, e, se bem que sob
differente assumpto, o volver a ella nunca se torna demasiado.
Assassinar sob que pretexto fr, sempre  commetter o homicidio; o
illustre viajante esquece aquelles que continuamente commettia
Hiquereto, no obstante a sua assidua assistencia entre os Macorrollos,
a quem, se no diariamente, ao menos uns dias por outros, fazia ouvir a
palavra da Biblia, como descida do ceu, para se dar ao incommodo de
investigar o que outros escriptores, muito tempo antes, relatavam sobre
o assumpto, no qual pecca como em todos os outros, por menos veridico
nas asseres.

Como pode ser que taes assassinatos tenham logar occasionalmente, dada a
circumstancia de se tornarem necessarios para os preservativos d'esses
mesmos poderosos potentados?! Se o seu instincto  a sede de sangue, com
elle so ammamentados, e n'elle iniciados, at que assumindo o poder se
fartam  semelhana do tigre que habita as selvas! E, porventura, se
taes crueldades no fossem continuas, o seu poder no seria ephemero?
Decerto que o seria, visto que para se sustentarem n'elle, ellas so
perpetradas com assiduidade, at que uma conspirao urdida nas trevas,
em presena de uma indisposio qualquer que elles sintam, lhes pem
termo  existencia, j propinando-se-lhes veneno, j torcendo-se-lhes o
pescoo, e j finalmente a decapitao, se um chefe audacioso preside 
conspirao. O herdeiro assumindo as redeas do governo, no modifica
estas disposies tradicionaes do seu codigo, cumpril-as-ha  risca, se
porventura se no tornar mais sanguinario.

Enviando uma expedio qualquer contra um estado rebellado, o chefe e
seus adjuntos devem apresentar no regresso o sacco dos craneos do soba e
mais pessoas de subida jerarchia do mesmo estado, que despejam com
grande ceremonial aos ps d'esses grandes potentados (Matiamvo e
Cazembe), e que acto continuo vo designando a quem pertenceram, porque
 n'isto que se cifra a sua maior vaidade; aps este acto segue-se a
entrega do despojo, que, por via de regra  o que reservam para o fim do
ceremonial. Se, pelo contrario, em logar d'estes signaes de victoria,
foram derrotados, apresentando-se dando conta do successo, sejam quaes
forem as razes que possam allegar, ellas tornar-se-ho baldadas perante
o suzerano, porque a um signal seu particular, so mandados retirar da
sua presena, a fim de serem decapitados, um a um, sem o menor queixume
da sua parte por lhes ter chegado a sua ultima hora.

Este ceremonial de caveiras, tem logar unicamente no Cazembe, e na
Lunda, na terra do Luvar, entre a raa Ganguella, se o soba segue para
qualquer excurso, bem assim por occasio da sua morte; agora, entre o
povo Batebere, Lui, Macorrollo, no se do ao incommodo de decepar
cabeas, o assassinato sendo perpetrado  azagaia, e na presena do
soba; o cadver  arrastado para fra da povoao, onde  consumido
pelos animaes; e sendo commetido fra, ahi mesmo o deixam ficar para ter
egual destino; que seja proximo ou distante  coisa que pouco importa.

Finalmente, em relao ao poder do Cazembe, direi que  elle muito fraco
para affrontar o poder do Matiamvo, mas muito forte para o repellir em
caso aggressivo. O illustre viajante sabe perfeitamente o proverbio:
Duas aves de rapina no se fazem companhia; no mesmo caso temos ambos os
chefes indigenas e consanguineos.

A folhas 203 o seguinte:


     A situao do Bih no  bem conhecida. Estando ns em Sanza,
     asseveraram-nos, que demora ao sul d'aquelle ponto, a oito dias de
     distancia. Esta noticia pareceu confirmar-se pelo facto de
     encontrar-nos muita gente, que vinha do Bih para o Matianvo
     (_Sobre este ponto consulte o Diario de Joaquim Rodrigues  sahida
     do Bih_) e para Loanda. Toda esta gente veiu reunida at Sanza, e
     alli se separou, tomando uns para o nascente, e outros para oeste.
     A nascente do Coanza por conseguinte no fica provavelmente longe
     do Bih.


A 10 de dezembro de 1853 digo o seguinte--Continumos a viagem,
passamos o rio Quanza em ponte e a vau; n'esta paragem de quatro braas
de largo, e d'ella  sua nascente dois dias de viagem. Proseguimos a
marcha, e fomos fazer quilombo nos mattos, margem direita do dito rio.
Caminho plano, mattos fechados, abundancia de riachos, terreno fertil,
legoas andadas 3, rumo de leste.

Mais tarde pude colher a seguinte informao: Que o rio Quanza procede
de um lago sito no local denominado Gunda-angongo, povo de raa
Ganguella da tribu Nhemba. Em relao ao Riambeje disse j o seguinte:
Concedendo, pois, que assim no seja como acabo de transcrever,  fra
de toda a duvida que, qualquer rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel
que seja com agua pela curva da perna, d'ahi  sua cabeceira no pode
distar mais de quatro dias de jornada, a experiencia assim m'o tem
ensinado.

Posto isto, direi ser applicavel o que fica dito ao rio de que nos
estamos occupando, e que concordamos inteiramente com a opinio do
illustre viajante, pelos exemplos que passamos a apresentar.

_Rio Nhengo_, _Ninda_ na sua cabeceira: Direco de Oeste para Leste,
leito de areia e pedra, e de margens apauladas; da sua nascente  sua
desembocadura no Riambeje, nove dias de marcha; vadiavel nos quatro
primeiros dias a partir da mesma, d'ahi por deante a partir para a sua
foz, percorre-se em canoas. _Rio Cutti_: Direco do Norte para o Sul,
leito de areia e argilla, e de margens apauladas no espao de duas
milhas, isto  da margem direita para a esquerda do matto; da sua
nascente  sua desembocadura no rio Quando, oito dias de marcha;
vadiavel nos quatro primeiros dias, a partir da mesma, e d'ahi por
deante a partir para a sua foz,  percorrido em canoas. _Rio Cubangui_:
Direco do Norte para o Sudoeste, leito de argilla, pedra e areia, e de
margens apauladas; da sua cabeceira vante quatro dias; j no d vau,
tornando-se necessario construir ponte para se passar para a sua margem
esquerda; dirige o seu curso para o rio Quando. _Rio Quando_: Direco
do Norte para Sueste, leito de argilla e areia, e de margens apauladas;
da sua nascente vante quatro dias, offerece passagem em ponte e a vau;
d'ahi para a sua foz no Riambeje proximo a Quiceque,  percorrido em
canoas. _Rio Caimbo_: Direco de Nordeste para Sueste, leito de
argilla, pedra e areia, e de margens apauladas; a sua nascente procede
de um lago, e d'ella vante dois dias, offerece unicamente passagem em
ponte e a vau, com difficuldade, pelo motivo da sua corrente veloz;
d'esta passagem  sua foz, no rio Quando,  percorrido em canoas. _Rio
Cuttau_: Direco de Sudoeste para Noroeste, leito de areia, e de
margens apauladas; espraia muito, e por este motivo se pode dizer
vadiavel at  sua foz no rio Lungubungo; este dirige o seu curso Para
o Riambeje. _Cuito da Zambueira_: Direco do Norte para o Sul, leito de
argilla e areia, e de margens apauladas; da sua nascente vante cinco
dias offerece passagem a vau, e em ponte, e d'ahi para a sua foz no
Cubango,  percorrido em canoas. _Rio Varia_: Direco do Sul para o
Norte, leito de argilla; da sua nascente vante cinco dias, offerece
unicamente passagem em ponte, e vante tres dias na sua desembocadura no
rio Cuime, (este tem a sua foz no Quanza)  percorrido em canoas. _Rio
Quanza_: Direco do Sul para o Norte, leito de argilla e pedra, e
margens de argilla; oito dias da sua nascente vante, no porto do Cuio,
onde se passa em canoas. _Rio Cuquema_: Direco de Nordeste para
Sudoeste, leito de argilla e pedra, e margens de argilla; cinco dias
vante da sua nascente, no porto do Bissongue, onde se passa em canoas,
dando-se a mesma circumstancia d'ahi para a sua foz no Quanza, nos dois
dias a percorrer. Finalizo dizendo que os rios que ficam notados,
existem a partir do Lui para o Bih, e vice-versa, e aquelles unicamente
cujas cabeceiras se passam, ou existem distantes do caminho do transito
os dias que ficam marcados; o que julgo sufficiente a provar o que fica
dito em relao aos rios Quanza e Riambeje.

A ps. 256 o seguinte:


     Chegado ao rio Loembua, no proseguimento da marcha comeada,
     refere o dr. Livingstone, que a presena de um homem branco
     infundio terror nas mulheres, e que, n'estes casos, pareciam muito
     contentes quando elle dr. Livingstone acabava de passar sem se ter
     apoderado d'ellas; que o espreitavam das fendas das portas, at que
     elle se approximava, e ento se recolhiam fugindo para o interior
     da casa.


O illustre viajante quiz mostrar mais uma vez, a degradao a que chegou
por estas paragens o immoral e escandaloso commercio de escravos, dando
logar a que o bello sexo horrorisado nem se atreva de apparecer aos
olhos dos desmoralisadores traficantes de entes humanos, verdadeiro
flagello da humanidade n'esta parte do mundo chamado Africa. Mas isto em
relao  situao reciproca de duas partes mutuantes na aco de
contrahir um negocio qualquer; jmais no caso de aprisionamento de
pessoas, que se torna muito mais melindroso como aconteceria com a
_aldeia inteira de Bakalakau_; tal procedimento daria causa a graves
represalias, como ento tive occasio de fazer ver, e ao facto de
correrem muito risco todos os sertanejos do Bih, Caconda, Cassange,
Pungoandongo, de Quilengues, que no obstante partirem de pontos
oppostos, muitas vezes se encontram pelo interior d'este vasto
continente; mas quando se no desse essa mesma circumstancia, quem
deixar de ignorar que piratas no necessitam de negociar?

Aqui tem o illustre viajante o reverso da medalha. Depois de se transpor
os rios Cuquema e Quanza, as comitivas do Bih so honradas na pessoa do
seu chefe, pelas pessoas de ambos os sexos em massa, das povoaes dos
Ganguellas das tribus Luchiaj, Bunda, e Zambueira, nas terras por onde
passa, da maneira que segue: _O nosso senhor veiu! O nosso branco veiu!
O nosso amigo veiu!_ Isto  appario do chefe da comitiva, batendo
palmas continuamente, e fazendo-lhe um cerco entre o qual com
difficuldade caminham os conductores da tipoia. E no momento em que elle
tenha transposto a povoao, o povo, da mesma sorte corre
precipitadamente para a frente, a fim de repetir a mesma ceremonia que
finda depois de terem acompanhado o negociante na distancia de uma a
duas milhas, retrocedendo ento depois de canados s povoaes d'onde
sahiram.

Entre a tribu dos Quibocos, estas demonstraes de jubilo excedem muito
alm do que acabo de referir, porque aturam pelo espao de dois a tres
dias, acompanhando a comitiva com seus generos, que permutam logo que se
acha concluido o trabalho de construir o quilombo, retrocedendo s suas
povoaes ao cabo do dito espao; agora, se o illustre viajante no
recebeu applausos semelhantes, muito principalmente tendo effectuado a
sua passagem pela terra d'esta tribu,  isso devido ao pequeno numero de
pessoas de que se compunha a sua comitiva, limitando-se por consequencia
a vel-o pelas frestas das portas, como diz; mas no com receio de que
aprisionasse pessoa alguma, ou mesmo de que fosse anthropophago, como as
mes persuadem s creanas indicando-lhes a approximao de qualquer
europeu,  maneira de papo, a fim de as adormecer.

Finalmente, no tendo o condo de adevinho, no obstante achar-me no
paiz onde em larga escalla se exercita essa arte, quer-me parecer que
foi a obra do illustre viajante que em 1866 ou 1867 deu logar a tanto
alardo na camara alta em Portugal para a total suppresso da escravatura
em todas as possesses portuguezas, no reflectindo jmais os nossos
legisladores que  um negocio asss melindroso de um trao de penna
acabar com ella, e que alm d'isso temos uma lei que fixa para 1867 a
mesma suppresso.

Quaes so as medidas j adoptadas depois do celebre decreto de 22 de
abril de de 1858, para que aquelles que podem mandar, tenham aquelles
que sabem obedecer?

Respondero: o trabalho livre! Esperemos e veremos.

A ps. 261 o seguinte:


     Como d'este ponto (do Zambeze interior) deviamos separar-nos para
     o nordeste, resolvi-me a visitar na seguinte manh a catarata
     Victoria, chamada pelos indigenas Mosioatunia, e mais antigamente
     Shongu (_Chungo?_) Tinha-mos ouvido fallar d'ella desde que
     entramos n'estas terras, e uma das perguntas que me fez Sebituane
     foi Tendes na vossa terra fumo que faa estampido? Elles (os
     indigenas) no se atrevem a approximar-se to perto que possam
     examinal-a; porm, referindo-se ao vapor e ao estrondo
     Mosi-va-tunia o fumo alli estrondea. Outr'ora a catarata
     chamava-se Shongu, mas nunca pude saber a razo de lhe darem este
     nome. A palavra que entre elles designa a vasilha de cozer a comida
     tem similhana com aquella, e acaso quereriam significar uma
     caldeira a ferver, comtudo no tenho certeza d'isto. Persuadido de
     que Mr. Oswell e eu fomos os primeiros europeus, que visitmos o
     Zambeze no interior do paiz, e de ser esta catarata o annel que
     prende as duas pores, _conhecidas e desconhecidas_, d'aquelle
     rio, decedi-me a usar da mesma liberdade com que se auctorisaram os
     Makololo, e lhe dei aquelle nome inglez, sendo esta a s occasio
     em que appliquei um nome da minha nao a alguma parte das terras
     que investiguei...


_Chungo_, _namatittima_, _imbto ea mahenza_: D'aquelles local (o
abysmo) sae fumo, que molha a gente, e que atemoriza como o fragor do
trovo, dizem os indigenas do local, tribu Baleia ou Guete (nome
generico pelo qual  denominada esta numerosa familia composta de
diversas tribus) d'estas paragens. _Mosi-oa-tunia_:--O fumo alli
estrondea, diziam outr'ora os Macorrollos, ao approximarem-se do local
d'onde sahem as columnas de fumo da catarata, e que por assim a terem
chrismado, assim se ficou denominando.--_Victoria falls_, repete o
illustre viajante  imitao dos intrusos senhores, querendo coroar a
obra da sua gloria na parte conhecida e desconhecida, do grande
manancial.

Eu penso, e creio no me enganar, que se os Macorrollos a um tempo se
fossem precipitar no abysmo da catarata que chrismaram como acabei de
dizer de Mosioatunia, o illustre viajante no os seguia, visto que a sua
prudencia assim lh'o aconselhava, mas j o amor proprio lhe no permitte
recusa na denominao em paiz estranho, a objectos, applicando-lhes
nomes do seu paiz natal, porque ao passo que o quer engrandecer, tambem
engrandece a sua pessoa! Vaidade das vaidades, e tudo vaidade.

Eis os nomes que lhe so applicados pelos indigenas aos differentes
pontos do seu curso a partir do Lui para Quiceque, e vice-versa.

_Sioma._ Povoao proxima da catarata;

_Gonhe._ Principio da catarata, e no qual as canoas so conduzidas por
terra em virtude dos escolhos.

_Cale._ Local mais vante por onde passam as canoas com praticos.

_Luo._ Local mais vante por onde passam as canoas com praticos.

_Gambue._ Local mais vante, no qual as canoas so conduzidas por terra
em virtude dos escolhos.

_Lucibe._ Local mais vante por onde passam as canoas com praticos.

_Molele._ Local mais vante por onde passam as canoas com praticos.

_Acicuti._ Local mais vante por onde passam as canoas com praticos, bem
assim onde habitou o fundador de que ha tradico, do mesmo nome, e
chefe da tribu Baleia.

_Chungo._ Mosioatunia, synonymo do primeiro nome; fim da catarata e
local do abysmo, e no qual as canoas so conduzidas por terra em virtude
dos escolhos.

E, eis o que digo egualmente em 23 de julho de 1858 sobre o assumpto:

23. Continumos a viagem por mattos fechados, e chegamos na cachoeira
do Riambeje, sitio Catongo, onde se fez quilombo. Paragem de transito
sem inconveniente algum, terreno fertil, horas de marcha 9-1/2, rumo de
sul.

Estamos nas margens do magestoso rio sem rival n'estas paragens, que
banha com suas aguas os contornos de Senne, Tete e Quilimane; o seu
curso  apenas interrompido por tres cachoeiras, prestando no mais do
seu transito, livre e seguro apoio quelles que com as suas canoas,
sulcam as suas aguas. N'esta paragem que ter de extenso seis legoas,
as canoas em partes so carregadas por pretos, e em outras proseguem na
sua carreira pelos differentes braos que sahem do rio; formando este
aqui e alli, ilhas de maiores ou menores dimenses, cheias de arvoredo
secular, e em outros logares de cannaviaes impenetraveis; bem assim, os
contornos cheios de arvoredo gigante. O rio comprimido aqui pelas suas
margens alcantiladas, em partes cobertas de areia mui fina e clara, que
as enchentes vo accumulando segundo a direco do seu curso, formam um
contraste inteiramente sublime; o terreno contiguo n'esta estao todo
gretado, bem assim algumas lagoas cheias de pedras, acham-se cobertas de
espessas camadas de sal, que os naturaes preparam com alguma perfeio.
Finalmente, o dr. David Livingstone, penna intelligente a toda a prova,
e que bastantes servios tem prestado  causa das sciencias, e a prol da
humanidade, por vezes tem percorrido estas paragens em investigaes
scientificas, ninguem, pois, melhor que elle, poder apresentar o quadro
completo da topographia do paiz, cousa muito fra da esphera dos meus
conhecimentos, como o meu amigo leitor facilmente dever comprehender, e
que me no envergonho confessar.

A ps. 286 o seguinte:


     N'outro logar conta Livingstone que, achando-se na tribu de
     Mpende, cujo chefe lhe difficultra o passo, dous velhos vieram, de
     ordem d'este, perguntar-lhe quem era. E que lhes respondera. Sou
     inglez. A isto replicaram os velhos que no conheciam aquella
     tribu, e que suppunham que elle e os seus eram Muzungos
     (portuguezes) com os quaes n'outro tempo haviam combatido. Ento
     (accrescenta Livingstone) como eu ainda no sabia que a palavra
     Muzungo era applicada aos portuguezes, e pensei que queriam com
     ella designar os mulatos, mostrei-lhes o meu cabello e a pelle do
     meu peito, e perguntei se os Muzungos tinham o cabello e a pelle
     como eu? Como os portuguezes costumam cortar o cabello rente, e so
     alm d'isso menos claros de que ns, os velhos responderam. No,
     ns nunca vimos pelle como essa to branca. E continuaram Ah! vs
     decerto pertenceis  tribu que tem corao para os homens pretos.
     Eu com satisfao lhe respondi que sim, etc.


Diz inconsideradamente o illustre viajante: Sou inglez! Julgaria por
ventura que a Inglaterra enviasse a sua esquadra e desaggravar o seu
assassinato, dado o caso de que os selvagens o tentassem?! Felizmente
que taes arrogancias quem Bih, no se podem contar e apontar, ao passo
que alm, a partir da mesma terra para o litoral, no s se apontam,
como infelizmente se contam repetidas! E, ai quando tal se realizasse na
pessoa do illustre viajante, em presena do seu caracter um tanto
irrascivel, no teria por certo direito a melhores honras, que aquellas
que tiveram tantos outros portuguezes, cujas ossadas insepultas por
essas mesmas paragens, reclamam incessantemente dos transeuntes a orao
funebre pelo eterno descano de suas almas, j que outra cousa no podem
obter em desaggravo do seu desastrado fim.

O sr. Gamitto diz-nos no seu _Muata Cazembe_ que, os chefes designam os
portuguezes por Muzungos. Segundo o mesmo sr. a raa de Cazembe d-lhes
egual denominao. A raa da Lunda chama-lhes _Hinder oe comema_; a raa
dos Ganguellas, _Sungo_, e a antecedente, bem assim, _Hinder ea numba_;
a raa do Luvar d-lhes aquellas denominaes, a raa dos Quimbundos,
_Sungo_; a raa Bunda, de Angola e suas dependencias: _Sungo_, e
_Cangundo_; a raa Lui e Macorrollo: _Macua do Oriente_, e _Macua do
occidente_, indicando as ditas partes do globo. Pela mesma maneira
designaro o Allemo, o Belga, o Hespanhol, o Francez, o Inglez, e
finalmente o Russo, em virtude da sua cr, de natos da mesma parte do
globo, de filhos de alm mar; mas no que sirva a distinguir uma raa
qualquer, como o illustre viajante quer fazer acreditar. Que nos venha
dizer que, este ou aquelle regulo se no chame Hiquereto, sua segunda
Providencia, e que em virtude da sua indole, fizesse menos preo da sua
pessoa, levando a audacia ao ponto de o querer impedir na jornada, 
cousa que se entende, mas no a insinuao opprobriosa sob o nome
portuguez, simplesmente pela circumstancia de alguns membros da mesma
familia empregarem-se, no odioso trafico de escravos; o que no est em
harmonia com a posio que occupa na sociedade, e muito menos com o
caracter de que se acha revestido. A no ser essa sua segunda
Providencia, torno a repetir, o illustre viajante teria effectuado a sua
viagem a Loanda auxiliado por esses mesmos a quem amiudadamente pretende
expor no pelourinho da irriso publica, como empregando-se n'um genero
de vida que j de ha muito deixou de ser. Teria egualmente effectuado a
sua viagem a Moambique auxiliado pelo bom governo portuguez, a cuja
fraqueza deve o bom exito da sua viagem de Costa a Costa, para mais
tarde o escarnecer, como effectivamente o fez;... a retribuio seria
sempre a mesma!

Oh! se esta bella joia engastada como est na cora de Portugal,
pertencesse  de Frana ou da Inglaterra, o commercio da escravatura
far-se-hia sempre, ento, no direi que para possesses estranhas, mas
sim nas proprias; havendo a certeza de que uma potencia no tomaria
contas  outra por semelhante procedimento. O illustre viajante
percorrendo Africa como acaba de realisar, diria ento: Acabo de fazer a
minha digresso na terra por excellencia denominada a oitava maravilha
do mundo, visto que est ainda por vir  luz. Mas se bem que lhe pese,
ella pertence a Portugal, e isso  sufficiente para a desacreditar, no
obstante os obsequios com que por toda a parte foi honrado.

As vicissitudes do acaso so assim, um tanto inconstantes para os
individuos como tambem para as naes, e para fortuna sua e dos seus, um
Pombal  como um meteoro; apparece de tempos a tempos, para desaggravar
e elevar a sua patria.

Qual ser o potentado poderoso ou secundario em Africa, que abomine o
trafico da escravatura? Se d'ahi lhe provm a sua grandeza, que se pode
dizer ephemera, porque para se sustentar no poder, tem necessariamente
de ser prodigo!... E a prodigalidade  exercida em virtude dos pleitos
que quotidianamente decidem, e dos quaes so provenientes os escravos, o
gado, a fazenda, as enchadas, a cera, alguma ponta de marfim, e
finalmente toda a especie de creao miuda, fonte principal do seu
rendimento; visto que nem todos se podem chamar senhores da Lunda, Lui,
Cazembe, Batebere, Risucatebe e Macorrollos, onde abunda o marfim; os
Ganguellas, onde apparece o marfim e abunda a cera; o Humbe, onde
apparece o marfim e abunda o gado, mas que tambem permutam os escravos
em maior ou menor escala, attendendo a ser a fora principal da sua
populao.

Embora a total suppresso se approxime do termo, o illustre auctor do
_Exame_ pode ter a certeza de que o trafico no cessar jmais alm do
dominio das Quinas, visto que ahi se do egualmente lucros para
especuladores; compram escravos para o servio, para a troca do marfim,
da cera, do sal, do gado e finalmente para satisfazer Milongas (crimes),
como j tive occasio de falar.

E como poder deixar de ser assim, se os escravos e o gado, so os
unicos dois elementos que frmam a riqueza principal e unica de todas as
classes, aqui no interior d'este grande continente?

Estudem primeiro o caracter, a indole, as leis tradicionaes, usos e
costumes dos seus habitantes, e depois falem-nos do odioso trafico da
escravatura, visto, repito, que no ha nenhum potentado poderoso ou
secundario que o abomine.

 certo egualmente que sem restrices o condemna a doutrina de Jesus
Christo, mas tambem no  menos verdade que ella manda illuminar os
pobres de espirito, a fim de que venham no conhecimento dos beneficios
recebidos e por receber.

E, j que desgraadamente em tudo imitamos o extrangeiro, imitemol-o
egualmente na formao de companhias para o bem estar das nossas
possesses, no tocante a religio, civilisao e progresso; a fim de no
estar-mos unicamente com a mira no governo. Agora, prestar-se-lhes taes
beneficios sem o previo conhecimento d'elles, , creio-o, do intimo da
minha alma, procurar a nossa ruina. Quem l chegar o reconhecer, como
diz o rifo.

Acabo aqui o meu trabalho bastante desagradavel pelo motivo que lhe deu
origem, e, logo que o illustre viajante traz para a arena o incidente de
triste recordao para os portuguezes do _Charles e George_, responderei
que, sou da opinio d'aquelles que preferem morrer na brecha, a ver a
sua patria ludibriada, visto dizer-nos o sr. conselheiro Bastos que:
Antes inveja que piedade, vale mais ser invejado que lastimado. N'este
ultimo caso existe a infeliz e desditosa Polonia! E, mal da Inglaterra
se todos os seus filhos nutrissem sentimentos eguaes aos do illustre
viajante, porque ento seria a unica dominadora do mundo, ou riscada do
mappa das naes.


Fim




Passo agora a transcrever o documento a que me referi, e que devo 
bondade de Joo Francisco da Conceio e Mattos, filho do agraciado; por
elle se vir no conhecimento, que a nomeao de capites mres do paiz 
muito anterior a 1791.


Manoel de Almeida e Vasconcellos, Cavalheiro da Sagrada Ordem de S. Joo
de Jerusalem de Malta, do conselho de Sua Magestade Fidelissima;
Governador e capito general d'este Reino, e suas Conquistas, etc. etc.
Fao saber aos que esta Minha Carta Patente virem, que por justas
consideraes do Real Servio, e do bem dos povos,  absolutamente
necessario prover-se o posto de Capito mr, e Juiz da Provincia do
Bih, povoao do Amarante, freguezia de Nossa Senhora do Desterro, e S.
Gonallo, jurisdico da Capitania de Benguella, que vagou por
fallecimento de Joaquim Jos Rodrigues, que o exercia, em Pessoa de
satisfao, e merecimentos, que bem o haja de exercer; e tendo
considerao aos de Antonio Francisco da Conceio, ter servido a Sua
Magestade no posto de Capito Mr e Cabo da dita Provincia do Bih, com
aptido, e prestimo; e me pertencer este provimento pelo cap. 9.^o do
Regimento d'este Governo: Hei por bem de o prover (como por esta o
provo) no dito posto de Capito-mr, e Luiz da Provincia do Bih,
povoao de Amarante, freguezia de Nossa Senhora do Desterro, e S.
Gonallo, jurisdico da Capitania de Benguella, em quanto a Rainha
Nossa Senhora no mandar o contrario, e eu entender he conveniente ao
seu Real servio; com a declarao de que ser obrigado a residir na
dita Provincia, e a guardar todos os Regimentos, Leis, e ordens, que se
lhe communicarem, dilatando o commercio, a agricultura, e a industria,
quanto permittirem as foras da mesma Provincia, e as Regras da Justia,
e de que no ser reconhecido por tal Capito-mr, fra da dita
Provincia, no fazendo guerra aos Negros, nem acto nenhum de
hostilidade, sem expressa ordem Minha, e dos meus Successores, e que
attrahir e dilatar os Vassallos, e Dominios de Sua Magestade, pelos
meios justos e suaves, da paz, da justia, e do commercio, fazendo que a
cada um se pague os servios que fizer, ou os generos que vender, e que
escuzando-se, no sahir do Governo sem que primeiro seja rendido por
aquelle que Eu nomear. Pelo que mando ao Governador da Capitania de
Benguella conhea ao dito Antonio Francisco da Conceio por
Capito-mr, e Juiz da Provincia do Bih, e como tal o honre, estime,
deixe servir, e exercitar o dito posto, dando-lhe d'elle Posse, e
juramento na frma costumada, de que se far assento nas costas d'esta
Carta Patente; e as pessoas suas Subordinadas, que em tudo lhe obedeo,
cumpro, e guardem suas ordens por escripto, e de palavra, no que
pertencer ao Real servio, como devem, e so obrigados. Na Thesouraria
Geral das Tropas ordeno se lhe faa o seu Assento nos livros
competentes, para delles tirar sua F de officios quando lhe convier. E
por firmeza de tudo lhe mandei passar a presente por mim assignado, e
sellada com o sello das Minhas Armas, a qual ser registada nos livros
da Secretaria do Estado deste Reino, e aonde mais tocar. Dada nesta
cidade de So Paulo da Assumpo a onze de Maio. Hippolito Fernandes
Pinto official menor da mesma Secretaria, a fez. Anno de mil setecentos
noventa e um, Joaquim Jos da Silva, Capito-mr encarregado do
expediente da Secretaria do Estado a fez escrever.


                                   _Manuel de Almeida e Vasconcellos._


Carta Patente porque V. Ex.^{cia} ha por bem prover Antonio Francisco da
Conceio, no Posto de Capito Mr, e Juiz da Provincia do Bih,
Povoao de Amarante, Freguezia de Nossa Senhora do desterro e So
Gonallo, Jurisdico da Capitania de Benguella, como nella se declara.


                                                Para V. Ex.^{cia} ver.

Por Despacho de S. Ex.^a de 11 de Maio de 1791.

Reg.^{da} af. 39 do L.^o 25 de Patentes e af. 41 do L.^o 5.^o dos Postos
para fora fica assentada a sua Praa. Thesouraria Geral das Tropas 12 de
Maio de 1791

                                                _Manuel Pinto Delgado_


Cumpra-se e registe-se.
Q.^{el} de Benguella 25 de maio de 1791.

                                 _Francisco Paym da Camara e Ornellas_


Reg.^{da} af do L.^o 21 de Patentes que deve n'esta Secretaria do Estado
d'este Reino. So Paulo da Assumpo a 11 de Maio de 1791.

                                               _Joaquim Jos da Silva_


Reg.^{da} af. 111 do Registo Geral d'esta Capitania. Benguella 26 de
julho de 1791.

                                                  _Francisco Bermesso_


Principiei pelas nossa cousas, e por um acaso findei egualmente por
ellas, visto ter-me vindo  mo o documento que acabo de transcrever,
accrescentando, que, somos bastantes pigmeos para no seguir-mos a
vereda de nossos antepassados. Ento, procuravam, elles, estender e
dilatar o nosso poder. Presentemente, no s se trata de o incurtar,
como tambem abandonar! Assim se verificou com a Feira de Cassange, terra
subjugada em 1850 pelo bravo Francisco de Salles Ferreira, e mandada
abandonar pelo sr. Joo Baptista de Andrada em 1862...


  Bih 2 de maro de 1869.

                           _Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto_




Notas:

[1] Veja-se o diploma no fim.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   12| Na capitulo         | No capitulo          |
  |#pg.   14| grande smanadas     | grandes manadas      |
  |#pg.   25| 1352                | 1852                 |
  |#pg.   25| iudigenas           | indigenas            |
  |#pg.   29| papinas             | paginas              |
  |#pg.   33| Acarta              | A carta              |
  |#pg.   33| relativamete        | relativamente        |
  |#pg.   37| eutra               | outra                |
  |#pg.   38| fnturo              | futuro               |
  |#pg.   39| chegei              | cheguei              |
  |#pg.   42| artificialment     | artificialmente      |
  |#pg.   44| seuhores            | senhores             |
  |#pg.   45| apresentayam        | apresentavam         |
  |#pg.   50| ?ndigenas           | indigenas            |
  |#pg.   56| o declarao        | a declarao         |
  |#pg.   56| Annno               | Anno                 |
  +----------+---------------------+----------------------+





End of the Project Gutenberg EBook of Silva Porto e Livingstone, by 
Antnio Francisco Ferreira da Si Porto

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     of receipt of the work.

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     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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