The Project Gutenberg EBook of Petronio, by Marcelino Mesquita

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Petronio
       Pea livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz

Author: Marcelino Mesquita

Release Date: February 23, 2009 [EBook #28154]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)





                             PETRONIO


                       _MARCELLINO MESQUITA_

                             PETRONIO

               PEA LIVREMENTE EXTRAHIDA DO ROMANCE

                             QUO VADIS

                                DE

                        HENRYK SIENKIEWICZ




                              _LISBOA_
                        MANUEL GOMES, EDITOR
               _Livreiro de Suas Magestades e Altezas_
                    61--Rua Garrett (Chiado)--61

                             M DCCCC I


              Typ. do DIA, calada do Cabra, 7--Lisboa




Esta pea foi representada, pela primeira vez, no theatro D. Amelia, na
noite de 8 de maro de 1901. Foram os interpretes:

_Petronio_, poeta satyrico............................ _Eduardo Brazo_
_Nro_, imperador romano................................ _Augusto Rosa_
_Paulo de Tarso_, apostolo christo........................ _Joo Rosa_
_Marcos Vinicio_, consul, sobrinho de Petronio............ _Luiz Pinto_
_Chilon_, philosopho charlato........................... _A. Pinheiro_
_Tigelino_, chefe dos pretorianos, rival de Petronio...... _A. Antunes_
_Sencion_, patricio romano............................ _Carlos Bayard_
_Vitelio_, idem............................................. _Joo Gil_
_Lucano_, poeta....................................... _Henrique Alves_
_Vatino_, intendente das festas............................. _F. Senna_
_Domicio_................................................. _A. Sampaio_
_Musonio_, philosopho e poeta.............................. _F. Salles_
_Ursus_, escravo lygio................................ _Alfredo Santos_
_Pitagoras_, ephebo, favorito de Nro................. _Maria Ferreira_
_Nerva_, patricio de Cumas............................. _Alvaro Cabral_
_Lucio_, idem............................................... _S. Ayres_
_Seneca_, philosopho......................................... _J. Reis_
_Teiresias_, liberto de Petronio......................... _A. Quaresma_
_Um escravo de Petronio_............................... _Antonio Silva_
_1. Rabbino_................................................. _Salles_
_2. Rabbino_............................................... _A. Pedro_
_Gulon_, liberto de Vinicio................................. _A. Silva_
_Outro escravo_............................................. _N. Gomes_
_Timon_, gladiador............................................. _N. N._
_Croton_, idem................................................. _N. N._
_1. Senador_.............................................. _J. Subtil_
_2. Senador_................................................ _Germano_
_Poppa_, concubina de Nro................................ _Maria Pia_
_Eunice_, escrava de Petronio........................... _Maria Falco_
_Acta_, ex-amante de Nro.............................. _Angela Pinto_
_Lygia_, donzella christ............................. _Amelia Pereira_
_Calvia_, dama romana................................... _Elvira Costa_
_Nigidia_, idem........................................... _F. Salazar_
_Crispinilla_, idem...................................... _C. de Sousa_
_Flavia_, idem......................................... _Elvira Santos_
_Pomponia_, idem...................................... _A. O'Sullivand_
_Lucrecia_, idem...................................... _Maria Ferreira_
_Julia_, dama cumense........................................ _Candida_
_Octavia_, idem.......................................... _M. Ferreira_

Senadores, palacianos, ephebos, pretorianos, escravos, augustanos, povo
romano, gladiadores, damas da crte, escravas, etc., etc.




ACTO PRIMEIRO


QUADRO PRIMEIRO

Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em marmore.
Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes,
ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As
negras acabaram de o pentear.

ESCRAVA BRANCA

Que manto? (as escravas negras sahem)

PETRONIO

O azul. (a escrava sahe e traz)

EUNICE, que, de joelhos, compe a tunica

Bello... como um Deus!

PETRONIO, sorrindo, delicado

Animal impudens, de Sneca.

O INTRODUCTOR

O consul Marcos Vinicio.

PETRONIO

Oh!

MARCOS grave

Salve, Petronio!

PETRONIO

Salve. S bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da guerra.

MARCOS

Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclpias e Cypris.

PETRONIO

Que o tal Asclpias me perde; no tenho f n'elle. Um Deus cuja mi se
ignora! Sabe-se l se  filho de Arsino ou de Cornida? Que far do
pai! Quem, por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser
filho... do pai? (Marcos, ri contrafeito) Ests preocupado?

MARCOS

... No.

PETRONIO

Dos Asclepiades j tive de me servir, o anno passado... para a bexiga.
Sabia que eram charlates; mas o mundo repousa sobre o charlatanismo e a
vida mesmo no  seno uma illuso! O que  precizo  saber distinguir
as bas illuses das ms. Eu mando aquecer a minha estufa com madeira de
cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos mus
cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter
coxeado, amorosamente, dois mezes; mas, emfim,  uma ba deusa a quem
espero sacrificars, em breve, as brancas pombas.

MARCOS

Talvez. Se as flechas dos Parthas me no alcanaram, em compensao, fui
tocado pelas do Amr, d'uma maneira imprevista.

PETRONIO

Sim?

MARCOS

A dois passos das portas de Roma.

PETRONIO

Pelas Graas! conta-me isso.

MARCOS

Tanto mais que precizo do teu conselho...

PETRONIO

 escusado perguntar se o teu amr  correspondido! (olhando-o) Se
Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta do Palatino sob a frma
d'um Hercules juvenil. (Eunice offerece-lhe e pe-lhe o manto)

MARCOS (olhando a escrava)

Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo no se encontrar nem em
caza do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.

PETRONIO

Tu s meu parente... e eu no sou egoista; nem to austero, como um Aulo
Plaucio...! Se queres...?

MARCOS

Como te veio  ideia Aulo Plaucio?  d'elle que te venho fallar.

PETRONIO

Estars, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo!
Velha... virtuosa... Lamento-te.

MARCOS

No  de Pomponia. Oh! No!

PETRONIO

De quem?...

MARCOS

Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia
porque  do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro  Calina. Estive
doente em caza d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...

PETRONIO

Qual?

MARCOS

Desloquei um p, n'uma queda do cavallo...  uma caza estranha: cheia de
gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei
que uma deusa a habitasse. Vi-a, uma manh, a banhar-se n'um tanque, sob
as arvores. E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios
da Aurora brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma appario, uma
sombra que os raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo!
Desde ento, no tive mais tranquilidade; no tive mais descanso; no
tive outro desejo; no vejo outra mulher! Tudo me merece desprezo; o
oiro, os bronzes de Corintho... Aborreo os vinhos, os festins; s vejo,
s quero Lygia! O mundo para mim  ella... e s ella!

PETRONIO

 uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.

MARCOS

No  uma escrava.

PETRONIO

Uma liberta, ento?

MARCOS

Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?

PETRONIO

Quem , pois?

MARCOS

A filha d'um rei.

PETRONIO

Hein? Comeas a intrigar-me...

MARCOS

 filha de Vanio, rei dos Suvos.

PETRONIO

O que teve guerras, no tempo de Claudio?...

MARCOS

Com os sobrinhos; que levantaram, contra elle os Lygios, terrives na
rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou Hister, legionario do
Danubio, que vigiasse para que a paz no fsse alterada. Hister exigiu
aos Lygios a promessa de no invadirem a fronteira, e, como refem
recebeu a filha e a mulher do chefe.

PETRONIO

D'onde sabes, tu, isso?

MARCOS

Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu.
Hister ficou com a mi e a filha. A mi morreu pouco depois, e Hister
para se desembaraar da creana, mandou-a a Pomponio, governador da
Germania e vencedor dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em
triumphador, a pequena Lygia seguia o seu carro; mas como era um refem e
no uma escrava, Pomponio entregou-a a sua irm, mulher de Aulo. N'esta
caza onde tudo respira virtude, cresceu, to virtuosa e to pura, que ao
p d'ella, Poppa, que passa pela mulher mais bella de Roma,  como um
figo do outomno, ao p d'um pmmo das Hesperides!

PETRONIO

E, ento?

MARCOS

Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...

PETRONIO

Ella  ento transparente como uma lampreia...!

MARCOS

No gracejes, Petronio.

PETRONIO

Pois bem, diz-me o que queres, claramente.

MARCOS

Quero Lygia! Quero que os meus braos a apertem; que a minha bcca
respire na sua bcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens!
Quero-a, eis tudo! Tl-a, guardl-a, at que a minha cabea branquje
como a crista do Sorate, no hinverno!

PETRONIO

... Se no  uma escrava, , em todo o caso uma rapariga abandonada.
Plaucio pde ceder-t'a, se quizer.

MARCOS

No conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como filha!

PETRONIO

Pomponia? conheo:  um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio.
Mas , diga se, mulher d'um homem s; o que faz que entre as nossas
romanas, quatro e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!

MARCOS

Mas... Petronio...

PETRONIO

Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheo muito bem Aulo Plaucio,
como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas
que poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te
enganas.

MARCOS

O teu espirito  inexgotavel em expedientes...

PETRONIO

Exageras.

MARCOS

Todo o mundo te conhece.

PETRONIO

Como o rei da elegancia? sim.  o meu reino. Se fosse o da Lygia eu no
teria seno prazer em te offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.

MARCOS

No fallars a Plaucio?

PETRONIO

... No.  inutil. Mas... fallarei a Cezar.

MARCOS

Melhor ainda...

PETRONIO

Se Lygia  um refem, Cezar pode dispr d'ella, pode offerecer-t'a.

MARCOS

Fallar-lhe-has, ento?

PETRONIO

Sim.

MARCOS

Hoje mesmo?

PETRONIO

Hoje... talvez.  precizo esperar occasio de o poder louvar, pelo
canto, ou pelos versos, ou pela aptido de cocheiro, de actr... A
proposito, fazes versos?

MARCOS

Nunca pude arranjar um hexametro.

PETRONIO

No tocas cithara, nem alade?

MARCOS

No.

PETRONIO

No guias um carro?

MARCOS

Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.

PETRONIO

Bem. Estou descanado a teu respeito. O melhor  no fazer nenhuma
d'essas coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. s
bello e Poppa pode agradar-se de ti.  um perigo. Nero no t'o
supportaria.  verdade que Poppa est uma mulher experiente: d'amr os
dois primeiros maridos saciaram-na; Nero  para outra coisa.

MARCOS

Que  feito de Othon?

PETRONIO

O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre
os rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu os habitos da
galanteria, que hoje, com o penteado, s gasta tres horas por dia!

MARCOS

Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.

PETRONIO

O qu?

MARCOS

So valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legies
fieis...

PETRONIO

Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas no se dizem, nem como
hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppa e de Nero:
arranjava uma legio, mas no era de homens, era de mulheres!... (Eunice
entra com um frasco.) Ah! a verbena. (deita nas mos e esfrega as
fontes) No imaginas como isto vivifica, d fra!

MARCOS

Mas... Lygia...

PETRONIO

Sim, homem, descana.

MARCOS

No posso, Petronio. Se eu no consigo comer nem dormir! Vou passeiar um
pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...

PETRONIO, reparando

 verdade, tu no fizeste a barba, hoje!

MARCOS

Nem hontem!

PETRONIO, toma-lhe o pulso

Tens febre. Escuta. Eu no sei o que te prescreveria um medico, um
d'esses asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei
o que  o amor, e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a pde
substituir! A belleza, porm, encanta sempre; e uma bella escrava...

MARCOS

No, no quero.

PETRONIO

A novidade faz esquecer... por um novo desejo... (Pondo a mo no hombro
de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena) Repara, um pouco, n'esta
filha de Cs. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres
admiraveis phebos: tres maravilhas dignas do pincel de Scopas!
(olhando-a com interesse)  curioso; como no dei ha mais tempo pelos
seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.

MARCOS, apertando a cabea

No, no a quero: no quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino,
ao palacio de Cesar?

PETRONIO

Vou.

MARCOS

Bem... Voltarei mais tarde. Vou  outra margem do Tibre...

PETRONIO

No. Vais almoar comigo. Eunice?

EUNICE

Meu senhr.

PETRONIO

Tomars o teu banho: ungirs o teu corpo, com os melhores perfumes, e
irs para casa de Marcos Vinicio.

EUNICE, ajoelhando-se

, meu senhor, no! No me faais sahir da vossa casa! Prefiro ser,
aqui, a ultima das vossas escravas! ser aoitada todos os dias, contanto
que me no deis a ninguem! No posso, tende piedade de mim! No posso!
no posso!

PETRONIO, surprehendido

Hein?

EUNICE

Repito-vol-o, senhr. No irei para caza de Marcos Vinicio. No sahirei
de vossa casa. Tende piedade! Sde bom, como sois!

PETRONIO

Vai chamar Teirsias. (Eunice sahe)

MARCOS

Petronio, eu no a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...

PETRONIO (brandamente)

Uma escrava!

MARCOS, vendo entrar Eunice e Teirsias senta-se a lr

Perda-lhe.

PETRONIO, a Teirsias

Leva Eunice, e d-lhe quinze chibatadas. (baixo) Com geito para lhe no
estragares a pelle. (a Marcos) O que ls?

MARCOS

O teu livro: o Satyrikon. J no fazes versos?

PETRONIO

No. Desde que Nero  poeta e os faz...  perigoso.

MARCOS

Se amasses!

PETRONIO

Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.

MARCOS

Uma deusa! Alcanar-ma-has, Petronio?

PETRONIO

Ser tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.

MARCOS

Tu s filho de minha irm e por isto me foste sempre muito caro; mas,
agora, collocarei, nos meus lares, uma estatua tua, (indicando a estatua
de Petronio) to bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios. (vendo
a) Tu s verdadeiramente bello, Petronio! Se Pris era assim, Helena
teve razo na escolha.

PETRONIO

Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos. (Eunice entra de semblante alegre)
Recebeste as chibatadas?

EUNICE

Sim, meu senhor, quinze, s!

PETRONIO

S! (a Marcos) No comprehendes?

MARCOS

No.

PETRONIO

Comprehendo eu. (a Eunice) Tu tens um amante, aqui?

EUNICE, joelhando-se-lhe aos ps

Sim, senhor! (inclina a cabea)

PETRONIO

Quem ? (Eunice inclina mais a cabea, silenciosa) Quem ? (repara na
mulher) Hei-de sabl-o. (a Marcos) Vamos almoar. (Pe-lhe a mo sobre o
hombro, olha com interesse Eunice) Vamos. (Sahem)

(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco da
verbena e, fingindo sahir, espreita. No vendo ninguem, volta, toma a
cadeira onde se sentou Petronio; colloca-a ao p da estatua; sobe,
abraa o marmore e, ao mesmo tempo em que os cabellos loiros lhe cahem
pelas costas, colla os labios aos labios da estatua).

O PANNO DESCE


QUADRO SEGUNDO

Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Nro.) No 1. plano tres mezas,
em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras.  esquerda uma
balaustrada que se suppe dar para uma escada, inferior, de entrada. As
mezas esto promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de
escravos, at  chegada dos convivas. Entram Lygia e Acta.

LYGIA

Dize-me, minha ba Acta,  bem certo que, Nro, Cezar, matou a mulher,
a mi, o irmo?

ACTA

 certo... e quantos outros!

LYGIA

E, dizias-me que o amavas?

ACTA

Conhec-o, moo, bello e generoso!  sempre essa imagem, esse Nro que
eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os
senadres, o proprio povo, esse no o conheo. Esse pertenceu sempre a
outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse  de Poppa, a divina!

LYGIA

Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vr de novo em caza de
Pomponia: ou na campina de Rma, s, abandonada que fosse. Se eu
pudesse... se tu pudesses, generosa Acta, proporcionar-me a fuga!

ACTA

Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar 
absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, s uma coisa sua, na vida e na morte!

LYGIA

Uma coisa...!?

ACTA

Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, l
em cima, ha um Deus cujo filho morreu por ns! Mas sobre a Terra no ha
seno um Deus:  Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu
sou... uma concubina!... e manda-te preferir a morte  deshonra--como os
estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...

LYGIA

Sempre!

ACTA

Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha
de Sejano, uma creana de doze annos, foi condenada  morte. A lei
prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que
resolveu, Tiberio?

LYGIA

Eu sei!

ACTA

Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!

LYGIA

Que horrr!

ACTA

Reflecte. No irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra so sempre
sanguinarios. s bella, nova, e to ba...! S cautelosa e espera no
futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudr.

LYGIA, abraando-a

Como tu s ba, Acta!

ACTA

Sem alegria e sem felicidade,  certo;... mas no sou m. Elle tambem
o no era.

LYGIA

Lamenta-l'o?

ACTA

Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus no morreu por amr dos que o
mataram?

LYGIA

E, perdoou-lhes.

ACTA

O amr  o perdo. (Como subindo a escadaria e voltando a entrar no
salo, no 2. plano, comeam a entrar os senadres de togas bordadas nas
bandas, sandalias ricas, tunicas de cres. Mulheres vestidas e penteadas
 Grega ou  Romana, as cabeas coroadas de flres, etc.)

LYGIA

Que de gente sobe.

ACTA

Os convivas que chegam.

MUSONIO, entrando e passando com Sneca

Salve, Acta!

SNECA

Salve, divina Acta!

ACTA

Salve, Sneca!

LYGIA

Quem  este velho, de grave aspecto?

ACTA

 Sneca, o filosofo, mestre de Nro. Um filosofo que manda desprezar as
riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhes de
cestercios!

LYGIA

E, o companheiro?

ACTA

 tambem filosofo; mas bom: um estoico.

LYGIA

Como se chama?

ACTA

Musonio.

TIGELINO, entrando com Calvia

Salve, Acta!

ACTA

Salve! (a Lygia) Tigelino o infme, o corruptr, o valido de Nro. O que
fornece as orgias e os venenos!

LYGIA

E, a mulher?

ACTA

Calvia; a mais impudica das, cortezs, de Roma. Cinco vezes divorciada.

LUCANO, entrando com Nigidia

Que os deuses te conservem sempre a belleza e o corao.

ACTA

Salve. (a Lygia) Lucano o poeta e Nigidia a amante.

LYGIA

 to novo.

ACTA

E  bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos so melhores do que os
d'elle e Cezar no perda. A sua vida no vale uma moeda d'oiro.

LYGIA

E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...

ACTA

 uma creana. (Entra Crispinilla, com Pitagoras.) Crispinilla a
devassa, cheia de incestos...

LYGIA

E o mancebo? aquelle adolescente?

ACTA

 Pitagoras, o phebo favorito de Nro.

LYGIA

Como favorito? Ama-o muito?

ACTA, lembrando-se da inocencia de Lygia

Sim... Ama-o, muito! (Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta
de longe, sem grande respeito). Sencion, Vitelio, Domicio... Vs como
me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me
s Deusas e beijar me os ps! So os cortezos de todos os tempos. (O
grupo sobe)

LYGIA

Onde vo?

ACTA

Dizer a Poppa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!

LYGIA

Como tudo isto faz mdo!

ACTA

E asco! (Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai
para os grupos; Vinicio v Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio.
Estes conheces de certo.

LYGIA

Marcos!

MARCOS

 mais pura das virgens da Terra,  mais bella das estrellas do Cu, 
divina Lygia, salve!

LYGIA

Salve, Marcos Vinicio.

MARCOS, tomando o pulso d'Acta e beijando-lh'o

Salve, Acta. Por Vnus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Nro.

ACTA

Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, no
tendes como elle a faculdade de que Nro oia pelos vossos ouvidos e
falle pela vossa bca.

MARCOS

O louvor  to perigoso em Caza de Cezar?

ACTA

 que dirigido a mim pode parecer epigrama.

MARCOS, a Lygia

Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a
tua voz mais dce do que as citharas e as flautas!

LYGIA

Como fiquei bem, ao vr te! Que mdo tenho de estar aqui! Sabias que me
encontravas?

MARCOS

Sabia e todavia ao vr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!

LYGIA

Como sabias?

MARCOS

Disse-m'o Aulo Plaucio.

LYGIA

Como estar! e os seus! E porque estou eu aqui?

MARCOS

Por mandado de Cezar.

LYGIA

E para qu?

MARCOS

Cezar no d conta, a ninguem, dos seus actos.

LYGIA

Nada d'isto  natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o
presentimento de desgraas! Tu s bom: leva-me para caza dos Plaucios, a
caza onde eu vivi tranquilla e to feliz! Faz-me mal este ruido, esta
gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com
Aulo? O que me convem a mim  o socgo e a obscuridade. No nasci para
festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Nro... tenho mdo, leva-me!

MARCOS

Acalma-te! Estou ao p de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, no o crs?

LYGIA

Sim, Marcos.

MARCOS

E, tu m'o dissste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno
Aulo. E, eu no ouvi nunca mais outra voz; no vi outro olhar seno o
teu; no pensei, no tive outro querer, outra vontade seno a ti.

LYGIA

O socgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!

MARCOS

Tu s a minha felicidade,  mais bella do que Vnus! A minha felicidade
completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, pde sentir
maior alegria do que um mortal (abraa-a, delicadamente) que sente bater
contra o peito um peito querido! Assim,  Lygia, o amr nos eguala aos
Deuses!

LYGIA

A tua palavra  como a luz, que afugenta as trvas e dissipa os
terrres. Entrego-me a ti. Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta,
amar-te-ha como se fsse tua mi: abenoar-nos-ha e seremos felizes! Por
ella e pelos seus te agradeo o prazer que lhe dars; e, por mim,
Marcos, amar-te-hei at ao fim da minha vida.

(Na sala do fundo, onde esto, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra
de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram
dos lados)

MARCOS

Vem Cezar. (Vai a querer subir)

LYGIA

No me deixes, s!

MARCOS

No. (Acta, desce) Aqui tens Acta... Eu volto j. (Sobe.)

LYGIA

Oh! Acta! (agarrando-lhe a mo)

ACTA

Que tens?

LYGIA

Foje-me a vista.

ACTA

Serena-te (beijando-a) Isso passa!

(Nro apparece ao fundo.  maneira que passa, a multido aclama-o.
Comeam a cahir flres do tecto at ao fim do acto. Os escravos trazem
brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)

VOZES

Av, Cezar!

Av, Jupiter!

Av, divino Cezar!

Salve, divino!

Olympico!

Hercules!

Immortal!

NRO, junto a meza

 meza! (Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e
cadeiras. Os escravos enchem as taas de vinho que veem em baldes com
glo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Nro,
reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que
entoei um dos meus hymnos!

PETRONIO

 a condico dos Deuses. A sua presena basta para arrancar as
saudaes dos homens.

NRO

Estas? Que significam? Os romanos so verdadeiros selvagens. No me
entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?

PETRONIO

Que noite!

NRO

Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na minha vida, uma impresso
egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?

PETRONIO

Como um mortal! E, desmaiaste, at, nos meus braos, exclamando: Onde
ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que so os Gregos! eis a Grecia!

NRO

Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por
cantar em publico; como se a arte divina pudsse manchar a purpura dos
Czares!

PETRONIO

Voltaremos?

NRO

Certamente. Tu sabes que as profecias me do a soberania do Oriente e do
Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de
realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo
gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a
Asia e o Egypto. Viver a vida, no dos homens, mas dos Deuses. Vogar
atravez do Archiplago, em galras d'oiro,  sombra de vlas de purpura,
embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris!
Reinar ... viver... sonhar...!

PETRONIO

Eis o sonho d'um Cezar!

NRO

Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as
pyramides ho-de parecer brinquedos de creanas! Farei construir uma
esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto,
semelhando-a a mim! E, os seculos futuros no fallaro d'outra coisa: do
monumento e de Nro!

LUCANO

Pelos teus versos tu te erigiste, j, um monumento, no sete, mas
setenta vezes maior do que a de Chops.

NRO

E, pelo meu canto?

PETRONIO

Se tu pudsses levantar uma estatua,--como a de Memnom--, que ao nascer
do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto
coalharam-se-hiam de navios, onde as multides, das tres partes do
mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!

(Nro, radiante, bebe e todos o acompanham)

NRO

E... emfim, desposarei a Lua, que  viuva, e serei verdadeiramente um Deus!

PETRONIO

E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelao de Nro!
(A Vitelio, gordissimo, que est de p, na meza do centro, de taa em
punho, brio) Cazars Vitelio com o Nilo para gerarem hipoptamos.

TIGELINO

E a mim, que destino me ds?

PETRONIO

Cezar pode dar-te o deserto e sers rei... dos chacaes.

TIGELINO, aparte

Insolente!

(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pe no olho uma
esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrdos amorosos, todo
curvado.)

MARCOS, alto

Como eu te amo, Lygia! (apertando-lhe o pulso)

LYGIA

Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.

MARCOS

Oh! divina, ama-me muito! (beija-lhe o pulso) muito!

ACTA

Cezar est a olhar-vos.

MARCOS

Que me importa?

ACTA

Tu brincas com a vida, Marcos; no bebas mais.

MARCOS

O Phalerno  to dce e Lygia to bella! (Offerece-lhe a taa; Lygia
recuza; Marcos bebe)

NRO, deixando de olhar, depe a esmeralda na meza

Petronio, quem  a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?

PETRONIO, asustado

A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.

NRO

Ah! De que povo ?

PETRONIO

Dos Lygios.

NRO

Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.

PETRONIO

Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio
achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabea de dormideira
n'um p esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a
haste, aposto--por muito difficil que seja julgar das propores d'uma
mulher sentada--aposto que j lhe viste o defeito?...

NERO, piscando os olhos para vr

No tem ancas.

PETRONIO

Nenhumas. (malicioso)

SENCION

No sei o que questionavas, mas sou da opinio de Cezar.

PETRONIO

Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia:
Cezar affirmava que eras estupido como um burro! (gargalhadas)

NRO, rindo exageradamente, inclina o pollegar para o cho

E est dito!

VATINO

Seja como fr, eu creio nos sonhos. Sneca um dia disse-me que tambem
acreditava... como Plinio.

CALVIA

Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.

NERO, rindo, batendo as palmas, o que todos imitam

Bravo!

CALVIA

E, ento? So todas velhas e feias, as vossas vestaes. S Rubria tem
frma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na
primavera, tem a pelle cheia de manchas rxas.

SENCION

De que so?

CALVIA

Ella  que sabe... e os mdicos.

LUCANO

 o abrir dos botes. Flres do amr!

PETRONIO

Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?

CALVIA

Tu s um impertinente.

PETRONIO

No era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.

CALVIA

s capaz de dizer que te no resist, satyro? Que no estiveste a meus ps?

PETRONIO

Para os encher d'anneis. (Calvia olha instintivamente os ps: todos riem)

VITELIO, cambaleando

O meu annel. (r estupidamente)

NRO

De que diabo r esta barrica de cbo?

PETRONIO

O riso  proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que no  um porco.

VITELIO

O annel... perd o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu
pai...

PETRONIO

Que era sapateiro.

Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.

CALVIA

Que queres? O atrevido.

NIGIDIA

Elle no perdeu o que procura.

LUCANO

E... ainda que o ache no ser capaz de o usar.

(Os escravos reenchem as taas. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)

LYGIA

O jantar durar muito, ainda, Marcos?

MARCOS

Inda agora comeou. No ests bem?

LYGIA

Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...

ACTA

Toma o meu leque. Queres um vinho geldo?

LYGIA

 no. Queria sahir.

ACTA

 impossivel.

Nro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio,
levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas.
Nro faz gesto negativo.

SENCION

Pela arte e pela humanidade!

NRO

No estou em voz. Onde est Poppa?

UM ESCRAVO

Doente; no pode vir.

NRO

Chamai-a (o escravo sahe)

PETRONIO

Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!

LUCANO

Cezar, no sejas implacavel.

VATINO

No sejas implacavel!

VOZES

S magnanimo, Cezar!

NRO

O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.

SENCION

Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a
tua voz se enublasse!

NRO

Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.

TODOS

Graas, Cezar.

Entra Poppa, sumptuosa e bella.

VOZES

Salve, divina Augusta! Salve,  Deusa! Salve, divina!

NRO

Um momento, bella Poppa. Vou recitar o meu novo hymno a Vnus. Precizo
de tl-a diante.

LYGIA

 Marcos,  possivel! Poppa, a sanguinaria,  esta mulher de uma
belleza divina?!

MARCOS

Sim,  bella; mas tu s cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha
os meus labios no sitio dos teus! (Offerece-lhe a taa, que Lygia recusa)

Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e
adormece, emquanto Nero recita. Este v-o.

NRO, recitando

    Embalde pretendi deixar a escravido,
    Que nos impe o amr!
    A Deusa luminosa
    Que accende, em Chypre, o facho da paixo
    Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa
    Arrancou-me do peito o corao,
    E foi depl-o aos ps, da mais formosa
    Das Romanas, Poppa, a minha amada!

    Da Vnus Aphrodite a incandescente lava
    Passou pela minh'alma!
    As intimas ternuras,
    S pode soluar a minha lyra escrava
    Do seu divino olhar, das calidas alvuras
    Do seu colo de neve, da bcca onde os Prazeres
    Moram em ninho rubro entre desejos...
    Uma lyra que chora a pedir beijos!

    Vem, amada Poppa, e escuta a Deusa:
    S como ella, de quem tens a frma,
    Caritativa e dce!
    Abre o teu leito
    Aos segrdos do amr, ao eterno gozo!
    Eu sou um Deus! que troca a divindade,
    Do mundo o senhorio, a magestade,
    Pelo logar do esposo!

TODOS

 poeta divino! Salve!

TODOS, com palmas e gritos

 voz divina!

 immortal!

 Jupiter!

 artista divino!

 resplandecente!

Salve! Salve! Salve!

POPPA, vem beijar magestosamente a mo de Nro

Obrigada, Cezar! (sahe)

Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o phebo
Pitagoras vem joelhar-se ao p do leito de Nro e fica. Sentam-se de
novo alguns convivas, outros ficam de p.

PETRONIO, empunhando a taa

A Cezar olimpico! (Todos bebem)

NRO, consultando

Petronio?

PETRONIO

Os versos so admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja!
Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.

LUCANO

Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa
como a luz do sol a luz d'um candieiro!

NRO, a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido

Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.

TIGELINO, deitando veneno n'uma taa

Lentamente?

NERO

No.

ACTA

Musonio adormeceu emquanto Nro recitava!

LYGIA

 um crime?

MARCOS

De lesa-magestade.

LYGIA

E vo acordal-o?

MARCOS

Para dormir outra vez... para sempre!

TIGELINO

Eh! Musonio? eh! filosofo?

MUSONIO, aparvalhado

Que ? Que queres? Maldito co!

TIGELINO

Cezar, chama-te. (Musonio, levanta-se)

NRO

O qu sonhavas?

MUSONIO

Que Cerebero me ladrava, raivosamente.

NRO

Tu vs, Vatino,  preciso acreditar nos sonhos.

TIGELINO

Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!

Musonio, percebe, e hesita em pegar na taa.

TIGELINO

Vamos: a Cezar olimpico.

Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.

LYGIA, levantando-se

Que horrr!

Dois escravos levam-no

ACTA

Tem coragem. Senta-te.

NRO

Os gladiadres? (Entram Croton e Timon) Croton, no te esqueas de que
s o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se
substitue um mestre.

Os gladiadres luctam. O interesse cresce.

NRO

Bravo, Croton.

PETRONIO

Bello grupo para marmore.

MARCOS

Bravo! Timon.

CALVIA

Que bellas frmas!

PETRONIO

Vestal, silencio!

NRO

No  uma bella arte?

PETRONIO

A mais bella, depois do canto e da musica.

NRO

Hei-de de experimental-a, tambem.

PETRONIO

Sereis invencivel!

Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.-- voz
de Nro: abraa-o e ergue-o.

NRO

Alto! Bravo, Croton! (applausos) Exercita-te, Timon. Por momentos
tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e no te esqueas de que me
deves a vida.

TIMON

Ella  vossa, divino Cezar!

NRO

Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que no hei-de engulir a sco
esta aza de pavo de Samos. (deitam-lhe vinho) Que comes, tu, Calvia?

CALVIA

Una bocado de cabrito de Ambracia.

NRO

Ests em familia! Petronio, ests triste? A tua vista tem fome de graa
e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graa assyria.

Tigelino sobe. Ouve-se o cro bachico. Danarinas assyrias, semi-nas,
de cabeas ornadas de flres, envoltas n'um vu ligeiro, braos e
tornezellos com braceletes d'oiro, entram danando com o cro. Os
convivas comem e bebem, conversando em segrdo. Cro e danas esmorecem
lentamente. Os escravos do vinho s bailadeiras. Algumas sentam-se.
Todos esto bebedos, excepto Lygia e Acta. Durante as danas as luzes
das salas esmorecem.

SENCION, de p

Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella
morre j! A falta  dos rapazes que no tem f e sem f no ha virtude.

VATINO

Quem  que diz de Roma vai morrer?

SENCION

Os filosofos.

VITELIO

M raa, essa, dos filosofos.

LUCANO, com Nigidia no colo

No ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia  uma
adega cheia de dres... os filosofos. Quanto mais ccos, maiores so.
Disse-o no sei se Epicteto.

NIGIDIA

Nunca disse isso, Epicteto.

LUCANO

No? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Ento,
digo-o eu.

SENCION

No, Roma no morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho!
(chora sobre o colo de uma bachante.)

BACHANTE

No chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. (empurra-o
levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)

LUCANO, enrolando-se na hera d'uma amphora

Eh! l, Bachantes, aqui est um Fauno!

NRO

Pitgoras, vem c! (a Petronio) conheces alguma coisa mais bella? (beija
as mos do phebo) Hei-de cazar comtigo! Mos to bellas, nunca vi.
Vi... j... quando? (lugubre) Eram de... minha me! (pausa e espanto)
Eram de minha me... Sim, d'Agrippina! (baixo) Dizem que pelas noites de
luar pelas aguas da Baa... vagueia como que  procura... no se sabe de
qu! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadr que a viu, morre!

VATINO

Nos Deuses no acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!

NRO

E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! No a quero
vr... Cinco annos! cinco annos! Matei a, mas fui forado a isso!
Matava-me ella, se no o fao! Se eu tivesse morrido no me tinheis
ouvido, hoje!

TIGELINO

Graas, Cezar, por ns, pela cidade, pelo mundo!

NRO

No a quero vr! (gritando) Vinho! e que esses timbales rujam!

LUCANO

Eu sou um Fauno!   ... cho...   . Os faunos amam as florestas! Nos
jardins de Nro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda...
vamos para o bosque!

NRO

Tem razo Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim,
agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas.
(obedecem) Quero danar tambem. E archotes... quero luz... muita luz...
tudo bem claro, que a no quero vr!

CALVIA

Quem?

NRO

A mulher das mos brancas... como as de Pitgoras! (reparando em Acta
que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e
Lygia)  bella e generosa Acta! d-me o teu brao. Vou cantar, para ti,
uma cano  Lua!  casta Lua, serena como tu, velada e meiga!

ACTA, acceitando-lhe o brao

Senhr, sou a vossa escrava.

NRO

No; s uma estrella do meu cu! Um comta que s apparece, de longe em
longe! (sobem todos)

MARCOS, agarrando brutalmente Lygia

D-me os teus labios! Hoje ou amanh... que importa? Para que esperar?
s minha! Cezar roubou-te para mim!

LYGIA

Marcos...

MARCOS

Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no
banho... na! No o sabias? Como s bella! Sahias da agua como a Vnus
das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanh
vaes para minha caza... D-me os teus labios! (fora para beijal-a)
D-mos, j, agora.

LYGIA, recuando aflicta

Marcos, no te conheo... tem piedade!... no, nunca...!

MARCOS

Piedade? no; amr! s minha, quero beijar-te... quero a tua bcca!
D-m'a! (agarrando-lhe brutalmente a cabea)  d-m'a, por Jupiter! ou...

O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.

LYGIA

Es tu? (atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)

URSUS

No tenha mdo... sou eu! (leva-a a colo)

MARCOS, levantando-se tonto

Lygia! Lygia! (vai a querer seguil-a, e cambaleia) Por Hercules!
(ampara-se a uma assyria que bebe) Que ? que foi?

ASSYRIA, dando-lhe a taa

Um sonho! Bebe!

Marcos bebe e cahe sobre o leito.

URSUS

Eis os senhores do mundo! (sahe, levando Lygia).

No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo
levanta a cabea aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As
rosas sahem sempre. O panno desce, lento.

FINAL DO 1. ACTO




ACTO SEGUNDO


QUADRO TERCEIRO

Caza de Vinicio. O tablium ornado com flres. Perfumadres no cho.

PETRONIO

Estavas bebedo, hontem. No gostei de te vr. Andaste como um carroceiro
dos montes Albanos. No sejas nunca to sfrego. Lembra-te que um bom
vinho deve ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?

MARCOS

Por Altacino.

PETRONIO

 de confiana?

MARCOS

Da maior. (passeia agitadssimo) Que demora!

PETRONIO

E, faze por lhe alcanares as bas graas. Pe-na de bom humr, para lhe
destruires o mu effeito das brutalidades de hontem.

MARCOS

Que demora!

PETRONIO

S generoso, que ella merece-o.  bella! S magnanimo!

MARCOS

Deviam, c estar, ha meia hora.

PETRONIO

De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de
Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristteles, meu mestre, o estheta
maximo?

MARCOS

No... Deviam j ter chegado.

PETRONIO

Est dito... Deviam j ter chegado.

MARCOS

Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadas por falta de exercicio.
Terei de os fazer correr diante das varas.

PETRONIO

Elles no so o amante que espera. Tu no tens paciencia, nem
serenidade.  precizo ser distincto, sempre! E, depois, no se traz
assim uma princeza, uma filha do rei da Lygia.

MARCOS

Tu zombas?... se fsse comtigo!

PETRONIO

Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse
divina.

MARCOS

A demora no  natural... Eu vou vr...

PETRONIO

No percas a tua bella linha esthetica. Espera; no sejas vulgar.
(ouve-se ruido) Tanto mais, que me parece que chegam. (o ruido augmenta.
 porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos
ensanguentados)

MARCOS

Onde est Lygia?

OS ESCRAVOS

Ai, Senhr!; ai, Senhr!

MARCOS

Onde est Lygia? (avana furioso)

OS ESCRAVOS

V o sangue, Senhor! V o sangue!

UM ESCRAVO

Defendmo-la, at  ultima.

MARCOS

Que  d'ella?

UM ESCRAVO

Raptaram-na!

MARCOS

Ah! miseravel. (atira-lhe uma taa  cabea) Gulon?

GULON, apparece

Senhr.

MARCOS

Cem varadas a cada um.

OS ESCRAVOS

Senhr, piedade!

MARCOS

At a morte! (os escravos sahem, em grita, adiante de Gulon)

PETRONIO

Est doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale. (sahe)

MARCOS, postrado, senta-se

Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai
d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas
furias! se foi Nro n'uma das suas nocturnas pescas de Perolas, como
elle lhes chama?! E, quem podia ser seno, elle, Nro? Quem ousaria
oppr-se  sua vontade? Viu-a hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar
diverte-se comigo! Por cate, por rebo, por vs  Deuses do lar, (toma
terra n'um vaso e espalha-a pelo o cho) juro que quem quer que foi,
escravo ou imperadr, mendigo ou Cezar, mato o! (ao introductor, que
apparece) O meu manto.

O INTRODUCTOR

Acta deseja fallar-vos.

MARCOS

Acta? Em ba hora. Venha. (A Acta, que entra, agarrando-lhes as mos)
Onde est Lygia?

ACTA

Vinha perguntar-t'o.

MARCOS

No sei; roubaram-ma no caminho. (junto do rosto d'Acta, com os dentes
cerrados) Acta, se tens amr  vida, se no queres ser causa de
desgraas, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar
quem m'a robou?

ACTA

Cezar no sahiu hontem do palacio.

MARCOS

Pela memoria de tua mi, por todos os Deuses, Lygia no est no Palatino?

ACTA

Pela memoria de minha mi, Lygia no est no Palatino, nem foi Cezar
quem t'a robou.

MARCOS, cahindo na cadeira, com a cabea nos punhos

Ento foram os Plaucios! Ai d'elles!

ACTA

Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.

MARCOS

Hypocrisia! Se no soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.

ACTA

Tambem procurou.

MARCOS

A mim?

ACTA

De manh.

MARCOS

No o vi, nem me fallou.

ACTA

Os teus servos contaram-lhe o acontecido. (Pausa) No, Marcos, o que
aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.

MARCOS

Tu sabias que ella queria fugir?

ACTA

Sabia que ella no consentiria em ser tua concubina!

MARCOS

E... tu? que tens sido toda a tua vida?

ACTA

Eu?... s pouco generoso! Eu era uma escrava!

MARCOS

Seja como fr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da
terra. Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque no? A
minha concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite!
Dal-a-hei, ao ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho
da costa d'Africa. Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que
seja precizo empregar todas as legies.

ACTA

Tu deliras...! Tem cautella em no metter Cezar, na busca, porque te
arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.

MARCOS

Como?

ACTA

Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a
passeiar nos jardins. Encontrmos Poppa e a pequena Augusta, sua filha
e filha querida de Nro, nos braos da ama negra.  tarde a creana
cahiu doente e Lilith, a ama, diz que foi a estrangeira que a
enfeitiou! Se a creana melhora, tudo esquecer: se pera Poppa ser a
primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, no ter salvao!

MARCOS

Talvez que ella enfeitiasse a creana... e a mim tambem!

ACTA

A negra diz que a pequenita se pz a chorar logo que passou por ns. 
certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da
creana no falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais...
por ti!

MARCOS

Por mim? Disse-t'o ella?

ACTA

Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dr sentida. Como velei
por ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto
de ti.

MARCOS

Como?

ACTA

Invocando a tua generosidade para ella.

MARCOS

Zombas de mim: se no sei onde pra...

ACTA

Ainda o podes saber: deixa-a em paz.

MARCOS

No posso.

ACTA

Desposa-a.

MARCOS

Nunca!

ACTA

No  uma escrava,  um refem de guerra: os refens so sagrados.

MARCOS

Concorreste, j vejo, para o rapto?

ACTA

Talvez.

MARCOS

Contra, Cezar.

ACTA

No; contra ti.

MARCOS

E, ds-lhe razo?

ACTA

Defendo-a.

MARCOS

Tu ama-la?

ACTA

Quanto ella merece.

MARCOS

Porque te no paga, como a mim, o amr com o desprzo.

ACTA

Homem cgo, ella amava-te.

MARCOS

A mim? Que amr  esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia
seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de
alegria? Que amr  esse, que tem mdo do prazer e sde dos sofrimentos?
 que ella me odeia, do corao!

ACTA

Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais
adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza,
roubaste lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua
concubina! Feriste-lhe os olhos inocentes com o espectaculo da orgia,
sem comprehenderes que aquella creana candida preferiria a morte 
deshonra! Sabes tu quaes so as suas crenas? sabes que Deus adora? e se
esse Deus no  melhor do que essa Vnus impudca e essa Isis que os
Romanos veneram, no seu impudr? Que te importou tudo isto? A pobre
creana, quando fallava de ti, crava: amava-te! Como lhe pagaste a
aspirao pura do primeiro amr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como
a uma escrava, insultando-a!

MARCOS

Eu no a insultei!

ACTA ironica

Generoso senhr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que  agora um
corao de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te:  mais facil
vencer os barbaros. Amava-te;  possivel que te despreze, agora!

MARCOS

Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.

ACTA

Se ella te no amar, essa satisfao deve ser bem mesquinha. O amr de
dois  um misterio divino: o de um s: uma torpeza! Nobre consul, adeus!

PETRONIO, entrando: a Acta que vae a sahir

Salve, divina Acta.

ACTA

Salve, galante Petronio.

PETRONIO

Dou-vos graas pela bondade com que tratastes Lygia.

ACTA

Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graa das pombas...

PETRONIO

Que vam.

ACTA

Officio de quem tem azas. Adeus. (sahe)

PETRONIO

Sabes alguma coisa de Lygia? Acta a que veio?

MARCOS

Saber d'ella... No sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas.
Ella ou o tal gigante, ho-de apparecer.

PETRONIO

Tens sorte em que no seja Cezar o raptadr. Trago-te uma boa nova.

MARCOS

Qual?

PETRONIO

Eunice, a minha escrava,--desde hontem que reparo que  verdadeiramente
bella!--conhece um homem capaz de a descobrir.

MARCOS

Quem ?

PETRONIO

Um tal Chilon, mdico, sabio, feiticeiro, ou o que , que l o destino e
prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?

MARCOS

Que venha.

Petronio faz signal para dentro. Chilon entra.  um corcovado, tunica no
fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, etc.

CHILON

Salve, senhores nobilissimos!

MARCOS

Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?

CHILON

Pelo o que em toda a Roma se falla, no  difficil de adivinhar.
Roubaram aos teus escravos, nobre senhr, Lygia, ou Calina, filha
adoptiva dos Plaucios. Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fra,
onde estiver.

MARCOS

Que meios tens para isso?

CHILON

Os meios tens, tu, senhr. Eu s posso o genio.

PETRONIO

 homem para a descobrir.

MARCOS

Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te
desfazer com varadas.

CHILON

Eu sou um pobre filosofo, senhr, e um filosofo no pode deixar de
pensar na recompensa, sobretudo quando ella pode sr da especie que
acabais de me fazer entrevr, to magnanimamente!

PETRONIO

Ento s filosofo?; mas Eunice disse-me que eras mdico ou adivinho.
D'onde a conheces?

CHILON

Veio consultar-me. A minha fama chegou at ella.

PETRONIO

Sobre qu?

CHILON

Materia d'amr. Queria curar-se d'um amr, no partilhado.

PETRONIO

E, curaste-a?

CHILON

Fiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amr reciproco: um fio do
cinto da Vnus de Chypre.

PETRONIO

De que escola s tu, divino sabio?

CHILON

Senhr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela
paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como no tenho
liteira, tenho de andar a p, de taberna em taberna, a dar lies aos
que me pagam o vinho, sou um peripathetico.

PETRONIO

Gostas de vinho?

CHILON

Heraclito disse que o vinho era fgo e que o fgo era uma divindade!

PETRONIO

Deante da qual o teu nariz se illumina.

MARCOS

J te tens empregado em cargos semelhantes?

CHILON

Hoje, senhr, a virtude e a sabedoria teem to pouco valr, que um pobre
filosofo se v forado a lanar mo de todos os meios de existencia!

MARCOS

Quaes so os teus?

CHILON

Saber tudo o que se passa e offerecer os meus servios a quem preciza
d'elles.

PETRONIO

E pagas-te?

CHILON

Conforme os meus meritos. Que remedio!

MARCOS

No devem ser grandes porque te no deram ainda para um manto.

CHILON

Sou modesto, senhr. O que  pequeno no  o meu merito  a gratido dos
homens. Quando se esconde um escravo de preo quem o descobre? Quem
indica os culpados dos pasquins em _louvr_ de Poppa, a divina? Quem
descobre nas livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que
se no podem confiar aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os
alfaiates, os taberneiros e capta a confiana dos escravos a saber tudo
o que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as
ruas, praas, bcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas
thermas, no circo...

PETRONIO

Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem s.

CHILON

E quanto valho.

MARCOS

Bem. Tens necessidade de indicaes?

CHILON

Eu? Tenho necessidade de armas.

MARCOS

Quaes?

CHILON, fazendo o gesto de dinheiro

Os tempos vo to mus, para os filosofos...

MARCOS, atirando-lhe a bolsa

Ahi tens.

CHILON, apanhando-a

Comeamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia no foi roubada
por Aulo, nem est no Palatino. O rapto foi feito por Ursus, o gigante
seu escravo, e pelos christos.

PETRONIO

Ouve, Marcos.

CHILON

Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas;
 Christ...

MARCOS

Como o sabes?

CHILON, com emphase

Sou christo!

PETRONIO

Tu?

CHILON

Desde hontem, senhr, desde hontem.

MARCOS

Reflecte Chilon. Tu no s um imbecil. Querers presuadir-nos de que
Pomponia e Lygia pertencem  seita dos inimigos do genero humano, dos
envenenadres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?

CHILON

 christ, senhr, tende a certeza absoluta.

PETRONIO

O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as
creanas encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste
em caza de Aulo vs como isto  uma calumnia ou uma tolice! Ou ento os
christos no so o que se diz.

MARCOS

Seja como fr. Foi ento esse Ursus quem a roubou?

CHILON

Com os christos.

MARCOS

E, encontral-a-has? Sabers onde est?

CHILON

Esta noite, ainda, trarei noticias.

MARCOS

Duplicarei a offerta se a achares. Gulon? (para dentro)

GULON

Meu senhr.

MARCOS

D um manto capaz a esse... filosofo.

CHILON

Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrs d'uma vez, com a mesma
capa: a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale. (Sahe)

PETRONIO

Adeus... _collega_. No me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia,
vers. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de
perfumes a filosofia est muito atrazada... s conhece... os naturaes.
Fica-te com os Deuses... Sabes que amanh  a festa do Lago?

MARCOS

Sei.

PETRONIO

Dizem que Vatino inventou maravilhas. No podes faltar. Cezar poderia
notar a tua falta. E... bas novas, at l.

MARCOS

Gulon?

GULON

Meu Senhr. O jantar?

MARCOS

O meu manto e o estilete. (paseia agitado)

GULON

Eil-os. (Veste-lhe o manto) Ides s?

MARCOS, mettendo o estilete no cinto

S. (Sahe)

O PANNO DESCE


QUADRO QUARTO

Salo no palacio de Nro. Ao fundo um terrao d'onde se v Roma. Mezas,
cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.

PETRONIO, a Marcos que vai a passar ao fundo

Dou graas aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.

MARCOS

Ah! Petronio.

PETRONIO

Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se
sabia onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?

MARCOS

Talvez.

PETRONIO

Mas tu ests mal, meu sobrinho, muito mal.  evidente que Vnus te
perturbou o espirito e te faz perder a razo! Por Pollux, se a chama que
te consome te no reduz a cinzas, tu metamorfoseias-te n'aquella
esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amr pela Lua, se tornou
indifferente ao dia, de modo a s esperar a noite, para poder com os
olhos de pedra, namorar a amante!

MARCOS

Oxal me transformasse em esphinge!

PETRONIO

... Se no sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou
tinhas de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.

MARCOS

Como assim?

PETRONIO

Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as
sombras?

MARCOS

A mulher mascarada?

PETRONIO

Sim.

MARCOS

No sube, nem quiz.

PETRONIO

Era Poppa.

MARCOS

Heim?

PETRONIO

Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amr, que
era feito de ti?

MARCOS

Tel-o-hia recuzado.

PETRONIO

Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitao que mostraste, valeu-te o
seu odio. As mulheres no perdam, nunca, essas coisas... e ento
Poppa...! Acautela-te.

MARCOS

Desprezo-a.

PETRONIO

A pequena Augusta morreu...

MARCOS

Que me importa?

PETRONIO

A morte atribue-se aos feitios de Lygia.

MARCOS

Imbecs!

PETRONIO

E, a proposito... Lygia?

MARCOS

Tu no calculas, Petronio, o que me tem acontecido.

PETRONIO

Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...

MARCOS

N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.

PETRONIO

O filosofo?

MARCOS

O tal. Sabia de Lygia, vinha propr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu,
elle e Croton, o gladiadr, embuados, ao Ostrianum, o velho cemiterio,
 sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christos e
l ouvi Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle,
envolta n'um manto escuro, embebida, a ouvil-o, n'uma allucinao de
todo o seu sr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua figura d'uma
belleza ideal...

PETRONIO

Adiante.

MARCOS

Todo o meu amr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei
tel-a. Alli, era perigoso: os christos eram alguns centos. Seguimo-la
at a caza,  sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou
n'um pateo com o velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a
no larga, nunca. Escondemo-nos n'um corredr  espera de occasio
propicia, eu e Croton, porque o filosofo no sendo capaz de entrar...
ficou de vigia, na rua. Ursus veio buscar agua  cisterna do pateo. Era
occasio: virei-me para Croton e disse-lhe: matta. O gladiadr atirou-se
ao escravo como um tigre; eu corri pelo corredr, empurrei a porta
entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para fra. Desmaira.

PETRONIO

Bello grupo dariam para um rapto.

MARCOS

Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominava Croton vergado sobre
um joelho, apertando-lhe, com uma das mos, o pescoo. O gladiadr tinha
um estertr na garganta, os olhos sahiam-lhe das orbitas! Ao vr-me,
Ursus, applicou sobre o peito de Croton um murro tal que este rolou pelo
cho, de bcca aberta, jorrando sangue. Estava morto!

PETRONIO

Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.

MARCOS

De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este brao e partiu-m'o.

PETRONIO

Depois?

MARCOS

No me lembra seno d'uma voz, feita de todos os sons das citharas,
dizer: Ursus, no mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me
uma pobre viuva, um filho e... ella!

PETRONIO

E foi ella quem te tractou?

MARCOS

Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicao,
dias e noites! Contando mesmo as horas dolorosas da doena, passei,
alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda a vida e
morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos
de caridade, de amr e de perdo! Se tu o ouvisses!

PETRONIO

No me faltava mais nada! O que faz o amr! Comeavas a achar essa
religio adoravel, porque era a de Lygia.

MARCOS

Talvez.

PETRONIO

 assim. O amr transforma as pessas completamente, opinies e gostos.
Como a mim me est acontecendo. D'antes s gostava do perfume da
verbena; lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, 
d'este que eu gosto mais.

MARCOS

Eunice?

PETRONIO

Sim, Eunice. Ah! tu no sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella
recuza...  uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de
Praxiteles...!

MARCOS

E a tua Chrisotmis?

PETRONIO

Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas...  como quem diz: vai
passeiar.  o meu processo; ellas j sabem. Chrisotmis, francamente,
era contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste...
e o que  feito da tua Lygia?

MARCOS

Fugiu-me.

PETRONIO

Outra vez?

MARCOS

No dia em que me levantei, ella sahiu.

PETRONIO

Tinha mdo de ti?

MARCOS

Tinha mdo de si, propria.

PETRONIO

 extraordinario!

MARCOS

Dizes bem. Ella no  como as outras mulheres!

PETRONIO

Ah! no? Ento no perdes nada com a abstinencia.

MARCOS

No podemos entender-nos.

PETRONIO

Decerto, no. Que o Hades confunda esses christos que te fazem perder o
senso commum.

MARCOS

Tu no conheces a sua doutrina.

PETRONIO

Enganas-te, conheo. J li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras.
 uma doutrina anti-humana: porque a felicidade s vem da belleza, do
amr, e da fora! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias!
Retribuir o mal com o bem... Que justia! O que devemos ao bem? Se a
sano  a mesma para o bem e para o mal, porque seriam os homens bons?

MARCOS

Segundo elles a sano comea na vida futura, eterna.

PETRONIO

Isso so coisas a verificar... depois da morte.

MARCOS

A vida para elles comea com a morte.

PETRONIO

 natural.  como se se dissesse: o dia comea com a noite! Vais raptar
Lygia outra vez?

MARCOS

No. Prometti-o.

PETRONIO

Tens teno de adoptar a doutrina christ?

MARCOS

Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppe.

PETRONIO

Emfim, s capaz de esquecer Lygia?

MARCOS

Nunca!

PETRONIO

Ento vai... viajar. (entram escravos com amphoras e taas que collocam
nas mezas do 1. salo e nas da varanda) Vem Cezar. O que vieste fazer?

MARCOS

Cezar mandou-me convidar para a leitura da Triada.

PETRONIO

Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?

MARCOS

No sei...

PETRONIO

Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.

Entra Cezar, Poppa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. escravos.
Poppa sobe para o terrao, com outras damas, onde bebem. Os phebos
galanteiam, etc.

NRO, aborrecidissimo

Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tdio,
de aborrecimento! A minha viagem  Grecia, adiada!

PETRONIO

Porqu?

NRO

Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de l. To ao
ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.

TIGELINO

Ficmos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.

NERO

Que linda garganta que tem Rubria! Que branca! (bebe) Eu precizo
distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! No posso lr! Nem cantar! Nem
tenho paciencia. No posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo,
n'estes bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de
ruellas immundas. Um ar empestado chega at aos jardins, chega at aqui!
Porque no houve, nunca, um tremr de terra que destruisse Roma? Se um
Deus, na sua colera, a nivelasse com a terra, eu ensinaria como se
edificava uma cidade para capital do mundo!

TIGELINO

No dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?

NRO

Sim e ento?

TIGELINO

No s, tu, um Deus?

SENECION

Podes fazel-o.

VATINO

Fal-o.

NRO

...No lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente!
Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.

PETRONIO

No o egualaste?

NRO

No...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe
um modlo. Nunca vi arder uma cidade, no o posso pintar.

PETRONIO

Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus
versos...

NRO

No, no. Responde-me a uma questo, Petronio. Tens pena que tenha
ardido Troia?

PETRONIO

Pena de qu? Por Marte, pelo contrario. Tria no teria ardido sem o
fgo dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a
guerra a Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e
Homero a Illiada. Quero mais a estes dois poemas do que  tal Troia,
provavelmente uma villoria de cazas de madeira, velhas e sujas!

NRO

Eis o que  fallar com tino.  poesia e  arte tem-se obrigao de
sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu
poma! Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma
cidade em chamas!

Silencio geral de receio.

VITELIO, avinhado

Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vr, via-a!

TIGELINO

Era facil.

PITAGORAS

Poppa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.

PETRONIO

Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde  bella, o ar cheio de
perfumes dos jardins.  natureza s falta um cantico...

MARCOS

O teu, Cezar!

NRO

 cdo ainda. (olha para Tigelino, misteriosamente)  cdo, ainda.

VITELIO

Eu adoro a musica.

PETRONIO

Das taas.

NRO

Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?

PETRONIO

A tua, sobretudo, quando a oio, faz-me sentir um mundo de prazeres
novos. A musica  um mar, onde  onda succede a onda,  agua, agua sem
fim, at... ao infinito...! e  sempre impossivel vr a outra margem.

NRO

 assim que eu penso da musica. Quando canto e tco, eu, Cezar, senhr
do Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca
sonhados! Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um spro estranho passa, a
esphera vibra em roda de mim e dir-te-hei (leva Petronio, pelo brao,
para o lado) que eu, Cezar e Deus (muito baixo) me sinto to pequeno
como um gro d'areia!

PETRONIO

S os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!

NRO

Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cgo ou idiota?
Pensas que no sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripes
injuriosas, pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu
irmo, e de minha mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus
inimigos?... Um homem bom pde ser cruel?

PETRONIO

Pde.

NRO

Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me to
bom como uma creana no bro.

PETRONIO

Os Romanos nunca vos souberam apreciar.

NRO

Os Romanos! Como eu odeio os Romanos! (Vai  meza beber. Anoitece mais)
Tigelino?

VITELIO

Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.

NERO

Ah! sim... Escurece.

PITAGORAS

Cezar, o cantico? (ao fundo)

CEZAR

Ainda  cdo... (Desce a Petronio) Sou em tudo um artista. A musica
abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o
explorar esse infinito! Para ascender s regies olimpicas no ser
precizo, primeiro, praticar algum prodigioso acto propiciatorio?

PETRONIO

No te entendo, Cezar.

NRO, baixo

Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior
sacrificio que pode fazer um homem: minha mulher... minha mi... foi
para isso que ellas morreram! Mas  precizo um sacrificio ainda maior
para abrir as portas do Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!

PETRONIO

...Qual  o teu projecto?

NRO

Vais vr... de aqui a pouco. (sobe)

PETRONIO, aparte

Extranho-o.

NRO, bebe e desce

Mas, antes, v bem que ha dois Nros: um o que os homens conhecem; o
outro o que s tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como
Bacho! E, mata, porque odeia a baixeza, tudo o que  vil e lhe repugna
tudo o que no merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida ser
pequena quando eu desapparecer!

PETRONIO

Comprehendo o teu corao e as tuas mguas!

NRO

Como o meu corao , por vezes, negro! Como este mundo e esta terra so
pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta
vida, e esmagarei este mundo!

(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se ruido ao
longe. Pitagoras, desce)

PITAGORAS

Cezar, Roma est a arder!

PETRONIO

Qu?

TODOS, levantando-se e olhando

A ardr?

NRO

 Deuses immortaes!... eu vos dos dou graas!.. Posso em fim vr uma
grande cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!

VOZES, do fundo

Cezar? Cezar?

NRO

Ah!  agora o momento. A minha cithara? (Sobe)

UM CENTURIO, entrando rapido

Divino imperador?

NRO

Qu?

CENTURIO

A cidade  um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrr
enloquece!

NRO

 a vontade dos Deuses! A minha cithara? (Trazem-lh'a. Terpnos, Diodoro
e os musicos correm)  Deuses, que espectaculo sublime! Graas, por
poder vr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar!
(sobe)

MARCOS

Centurio, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, j?

CENTURIO

Todo, Senhr. Foi o primeiro.

MARCOS

Maldico! Se ella morreu... (sahe, doido)

(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre gente para
o terrao. Nro sobe os degrus e de cithara em punho, acompanhado, canta)

NRO

    Bero de meus pais,
        Roma divina!
    Quanto eras cara
         minh'alma!...

O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das fras. O panno desce.

FIM DO SEGUNDO ACTO




ACTO TERCEIRO


QUADRO QUINTO

Sala no palacio de Nro. Nro e Poppa, Vinicio, Tigelino, Petronio,
Vitelio, Senecion e Vatino.

NRO, descendo

Ha tres dias que componho o meu poema. No posso perder tempo. Sejamos
breves. Roma est exaltada?

TIGELINO

Gravemente.

NRO

A animadverso cresce?

TIGELINO

Cada vez mais.

NRO

O Senado?

TIGELINO

Indignadissimo contra ti.

NRO

 o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo
romano; que mais quer?

TIGELINO

Mas as miserias, as mortes causadas...

NRO

No abri os meus jardins ao povo? No tem elle que comer,  farta?

TIGELINO

Os pequenos esto satisfeitos. Os grandes...

NRO

 preciza uma deciso rapida. Que havemos de fazer, o que ser
conveniente...? A tua opinio, Petronio.

PETRONIO

Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.

SENECION

 facil partir: voltar  que no ser to facil.

PETRONIO

Por Hercules, voltaremos, se fr precizo,  frente das legies da Asia!

NRO

Assim, farei.

TIGELINO

Escuta-me, Cezar. O conselho  desastroso. Antes de chegares a Ostia,
rebentar a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do
divino Augusto, se no se far proclamar imperador?

NRO

Farei que nenhum exista. Tu sabes como.

TIGELINO

Mas ser um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer  multido que
se devia proclamar alguem, como Thrazias!

NRO

Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?

TIGELINO

A vingana.

NRO

A vingana?... quer victimas? (Pausa e silencio) Se ns lanassemos a
nova de que foi... (olhando-os) Vatino, quem incendiou a cidade?

VATINO, empalidecendo

Eu?... Quem sou eu,  divindade...?

NRO

Tens razo.  preciso alguem mais importante. (circunvagando o olhar):
Vitelio!

VITELIO, riso amarello

As minhas banhas faro rebentar um novo incendio.

NRO

Tigelino?... Tigelino, fste tu que incendiaste Roma!

TIGELINO, audaz

Por tua ordem, Cezar!

NRO

s meu amigo?

TIGELINO

Tu o sabes, Senhr.

NRO

Bem. Sacrifica-te por mim.

TIGELINO, hypocritamente

Eu bem o quizera, Senhr; mas no posso fazl-o. (ironico) O povo
murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faa o mesmo,
pelo seu chefe?

UM ESCRAVO

A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.

TIGELINO, a Cezar

Permittis? (Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)

NRO

Aqueci uma serpente no seio! (a Petronio) Vamos, falla tu. Confio em ti.
Tens mais senso do que todos elles juntos e s meu amigo.

PETRONIO

Vamos para a Grecia.

NRO

Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado no
proclame outro imperadr? O povo era-me fiel... no . O senado!... Ah!
se este povo e este senado tivesse uma cabea, s!

PETRONIO

Se queres conservar Roma, Cezar,  precizo deixares alguns Romanos.

NRO

Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor
de mim, aqui, no ha, seno traio! (subito) Petronio, a plebe murmura
pelas praas... se eu fsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o
que cantei durante o incendio... no poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?

VATINO

A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.

NRO

Pois vamos para a Grecia.

POPPA, entrando com Tigelino

Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingana e uma victima! Que digo eu?
uma? centenas, milhares! Existem as que o devem sr, devem-se-lhe.
Ignoras que na cidade se acoita um exercito de christos? No os
conheces? No te fallei, eu, tanta vez dos seus crimes e das suas
infames cerimonias? das suas profecias segundo as quaes o mundo acabar
pelo fgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. Ninguem
os v nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e no
fste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! 
preziso dizl-o. Viram-nos levando nas mos as tochas incendiarias! O
povo tem sde de vingana? d-lha. O povo quer circo, quer sangue?
d-lh'o! Conheces os culpados! manda!

PETRONIO a Marcos, aparte

A caa a Lygia.

PETRONIO

Coragem!

NRO, levantando as mos ao ceu

Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actra, vs, todos,  Deuses immortaes, porque
nos no socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?

TIGELINO

Vinga-a!

VATINO

Faz justia!

NRO

Que castigo terrivel, que torturas sero bastantes para punir tal crime?
Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal
espectaculo, que d'elle se falar, em Roma, pelos seculos dos seculos!

PETRONIO, aparte

Que Cezar bandido! (olhando Marcos, que passeia louco)  precizo salvar
Lygia. Ou me perco, ou a salvo. (approximando-se galante, natural,
brincando com a tunica gracioso) Assim... encontrastes as victimas? bem;
mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos,
tendes a fra! Ento sdes leaes. Entregai os christos ao povo,
supliciais-os; mas confessai primeiro que no foram elles que
incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas
as elegancias dir-vos-hei, que no supporto to miseraveis comedias!
(Pasmo) Com relao a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da
posteridade, reflecte o que ella dir de ti! Pela divina Clio!
Nro-Senhr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era to formidavel
na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que
lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou
pensar em to extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria  tua, no
a renegues. Ao p de ti o que ser Priamo, Agamenon, Achilles? os
proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicaes indignas; porque ento
a posteridade poder dizer-te: Nero queimou Roma; mas to pussilamine
Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a
falta por sobre os innocentes! Tal aco no honrar a tua memoria!

TIGELINO

Senhr, d-me licena para que sia. Aconselham-te a lanares-te no
maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante...
Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.

PETRONIO, aparte

Cezar hesita? Estou perdido! (a Tigelino) Tigelino, a ti  que eu chamei
comediante, porque o s, ainda n'este momento.

TIGELINO

Porque no posso escutar as tuas injurias?

PETRONIO

Porque figuras um grande amr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo
todos e elle, o ameaaste com a guarda de pretorianos.

POPPA

Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse
alguem os diga deante de ti?

NRO

 assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?

MARCOS, aparte

Petronio perdeu-se por mim!

PETRONIO

Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que
me ditou a lealdade que, emfim, te devo!

POPPA

Renova os insultos.

TIGELINO

Punide-o, Senhr.

VATINO

Castigai o insultadr.

VOZES

Castigai-o! (affastam-se de Petronio)

NRO

Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o
corao; mas quero que elle saiba que este corao s tem para os
amigos, o perdo.

PETRONIO, aparte

Conheo o teu perdo! (alto) Cezar! (inclinando-se, faz signal a Marcos,
e sahem.)

POPPA

Quereis ouvir as testemunhas?

NERO

Que venham.

Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, um escriba
e Chilon.

1. RABINO

Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!

2. RABINO

Salve, Senhr do mundo!

CHILON

Salve, Cezar, Leo entre os homens! tu cujo reino  semelhante 
claridade do sol, ao cedro do Libano, ao balsamo de Jerich!

NRO

Accusais os christos de terem incendiado Roma?

1. RABINO

Ns, Senhr, s os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de
Roma. De terem muita vez ameaado a cidade e o mundo, com o fogo do cu!
O resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira,
porque nas veias de sua mi corria o sangue do povo escolhido!

NRO

Quem s, tu?

CHILON

O teu co fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!

NRO

Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem
repugnam-me; como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar
Musonio...

CHILON

Senhr, eu sou um estoico por necessidade. Cobre o meu estoicismo, 
Resplandecente, com uma cora de rozas e po-lhe, deante, uma taa de
vinho e elle cantar Anacronte!

NRO

Gosto de ti.

TIGELINO

Vale quanto peza.

NRO

Que sabes dos christos?

CHILON

Permittir-me-has que chore, divino Cezar?

NRO

No. Aborrecem-me as lagrimas.

CHILON

E ters, cem vezes, razo; porque os olhos que te viram uma vez, no
devem chorar nunca.

NRO

Falla dos christos.

CHILON

Ouve, divino Isis! De creana me dediquei  filosofia e procurei a
verdade. Procurei-a na academia de Athenas e na de Alexandria. Tendo
ouvido fallar da doutrina dos christos, julguei que fosse uma escola
onde achasse algumas parcellas da verdade. Relacionei-me com elles e,
por minha desgraa, o primeiro que conheci foi um tal Glaucos, medico de
Napoles. Sube por elle, que adoravam um certo Christo que promettera
exterminar os homens e aniquilar todas as cidades da Terra. Por isso
odeiam os homens, envenenam as fontes e em suas assemblas cobrem de
improperios os templos onde adoramos os nossos Deuses. Christo foi
crucificado, mas prometeu-lhes que no dia em que Roma fosse destruida,
voltaria  terra, a dar-lhes o reino promettido.

NRO

Ento  a occasio.

POPPA

O povo comprehender porque Roma foi queimada.

CHILON

Muitos o sabem j, divina Augusta! N'isso se falla nos Jardins, no Campo
de Marte, a toda a hora. O povo levanta-se, sedento de vingana! Essa
vingana ser a minha.

NERO

Porqu?

CHILON

Ouvide, divino Cezar! Glaucos, o medico, no me ensinava que a doutrina
christ ordenasse que se odiassem os homens; pelo contrario dizia que
esse Christo era uma ba divindade e que a base da sua doutrina era o
amr. Amei Glaucos e tanto d'elle confiei que com elle partilhava o meu
po e o meu dinheiro. Um dia, entre Napoles e Roma, deu-me uma punhalada
e vendeu-me a mulher, a minha Berenice, to formosa e to bella! a um
mercadr de escravos!

POPPA

Pobre homem.

CHILON

Chegado a Roma procurei os seus chefes para obter justia contra
Glaucos. Nada obtive; mas fiquei conhecendo o apostolo Pedro, o apostolo
Paulo, o filho do Zebedeu, Crispo e muitos outros. Sei onde habitavam,
antes do incendio e onde se reunem. Posso indicar o subterraneo do
Vaticano e o Cemiterio d'Ostrianum. N'este, ouvi pregar o apostolo
Paulo. Vi Glaucos degolar creanas para que o apostolo derramasse o
sangue sobre a cabea dos neophitos e ouvi Lygia, a filha adoptiva dos
Plaucios, gabar-se de ter enfiteiado a tua filha, divina Osiris! e a
tua,  Isis, a pequenina Augusta!

POPPA

Cezar, vinga a nossa filha! Ouves, Cezar?

NRO

Por Hercules!

CHILON

Ouvindo isto quiz apunhala-la. Impediu-m'o o nobre consul Marcos Vinicio
que estava ao seu lado e que a ama!

NRO

Quem?

CHILON

O consul Marcos Vinicio.

NRO

 christo? Oh! a tragedia degenera em fara!

CHILON

Senhr, pela luz que vm de ti, te juro que o . Como o  Pomponia, o
pequeno Aulo, Lygia, Ursus, Lino e milhares d'outros, cujos templos
secretos posso indicar! As vossas prises no chegaro para os conter!

POPPA

Cezar, vinga a nossa filha. Ordemna.

CHILON

E, appressai vos, alis, o consul Marcos Vinicio ter tempo de a
esconder. Sahiu correndo... dir-vos-hei a caza...

TIGELINO

Dou-te dez homens. Vai l immediatamente.

CHILON

Dez homens... com Ursus l dentro... nem de longe!

NRO

Tigelino, entrego-t'os.

POPPA

E, nossa filha, Cezar?

NRO

Por todos os Deuses que ser vingada! Oh, os christos! no deixarei um
sobre a face de Terra! Os lees de Numidia e os tigres de Hircania tero
o mais lauto banquete de que ha memoria, na historia do mundo!

UM ESCRAVO, entra appressado

Cezar, um velho que se diz ex-centurio da Juda pede para te fallar.

NRO

Que quer?

ESCRAVO

No o disse. Quer fallar a Cezar...

NRO

Entre quem seja.

PAULO, entra, com ar rude

s tu o Cezar?

NRO

Creio que sou. E, t, quem s?

PAULO

Paulo de Tarso!

NRO

No conheo; mas falla... Estou hoje de bom humr... Vens da Juda?

PAULO

L estive, pela segunda vez, depois de percorrer a Lygia, a Cilicia e a
Galacia. Depois de ter fundado a egreja de Thessalonca e de ter prgado
em Athenas e em Corintho.

NRO

Prgado, o qu?

PAULO

A religio de Christo, nosso Senhr, meu e teu!

NRO

s christo?  o primeiro que vejo...

PAULO

Pela graa de Deus.

NRO

Qual Deus?

PAULO

O unico que ha. Que est no cu! e que um dia desceu  Terra e morreu
pelos nossos pecados e pela nossa remisso!

NRO

Tambem por mim?

PAULO

Por todos.

NRO

Ignorava que devia esse favor a teu Deus! Sneca nunca me fallou d'essa
divindade! Encarrego-te de lhe agradeceres por mim!

PAULO

O meu Deus  superior s tuas zombarias...

NRO

Mas o que queres, tu, afinal, com o teu Deus?  para me fallares d'elle
que aqui vieste?

PAULO

Em seu nome.

NRO

s christo. Vens pedir o perdo para ti e para os teus?

PAULO

De qu?

NRO

Do seu crime.

PAULO

Qual crime?

NRO

O de terem incendiado Roma.

PAULO

Gritam isso nas praas, vs o espalhastes! A plebe miseravel, sedenta de
sangue, pede para elles o circo e a fogueira!

NRO

E tel-a ho.

PAULO

Porqu?

NRO

Porque fram elles...

PAULO

Que...

NRO

... Incendiaram a cidade.

PAULO

Nro, Imperadr dos Romanos, Rei do mundo, Cezar augusto... mentes! (Vai
a lanar-se a elle)

NRO

Deixai. Velho, tu s um doido por fra.

PAULO

Chamo-me Paulo e sou apostolo de Christo!

NRO

 poderoso o teu Deus. S assim...

PAULO

Tu o vs. Tu s Cezar, cercado dos teus, defendido pela tua guarda
pretoriana, tendo ao teu dispr, dezenas de legies: eu sou Paulo, um
velho cujas pernas tremem no andar, cujos braos oscilam quando ora, e
eu fao, pelo meu Deus,--o que tu no serias capaz de fazer pelos teus
falsos Deuses--rio-me de ti, de teu poder, porque elle no alcana mais
do que at  morte!

TIGELINO

 o maior alcance.

PAULO

No  nenhum. A vida da terra  transitoria e mesquinha: s  grande a
que vem depois da morte: infinita, eterna!

NRO

Quem t'a garantiu?

PAULO

O meu Deus; que eu vi morrer na Cruz, no Calvario, ao p de Jerusalem,
para nol-a dar em troca! O que prgou a egualdade na Terra, o que
amaldioou o despota e levantou o escravo; o que prgou o desprezo da
carne e santificou a alma! O que condemnou,  Romanos, a vossa luxuria
trpe, a vossa prostituio feita de todas as abominaes e infamias! O
Deus dos Christos! Aquelle que fez com que eu, o mais humilde dos seus
pastores, vos fale como se fra o vosso imperador e elle... o
verdadeiro, pense...

NRO

No supplicio a inventar de que sejas digno, divino apostolo!

PAULO

Todos me agradam, Nero. Desde o harpo dos teus gladiadores, at aos
dentes das tuas feras! Est assente para mim... agradeo-te! Mas ha uma
legio de pobres que nunca te fizeram mal; que vivem felizes na
humildade das suas crenas com o seu Deus e que, como elle ensinou, do
a Cezar o que  de Cezar e a Christo o que  de Christo! Nunca
perturbaram os teus prazeres, nunca disputaram o teu poder, nunca
insultaram publicamente os teus affectos, nem tentaram contra a tua vida
ou a dos teus. Innocentes d'um crime de que os accusam, s podem
defender-se, morrendo! So fracos, humildes, ignorados! No carregues a
tua memoria com crimes inuteis; porque, em verdade te digo, que se o
fizeres ters de responder por elles...

NRO

Ante quem?

PAULO

Ante o nosso pae, que est no cu!

NRO

Cala-te.

PAULO

Cezar, disse!

NRO

De mais. Tigelino mette-me na cadeia esse apostolo, esse pastor, a vr
se o tal poderoso Deus o tira de l. (A Paulo) E, quanto s tuas
ovelhas, prepara-te para vres, no Circo, como os lees lhes tosquiam a l.

PAULO

No ha piedade na tua alma, Cezar?

NRO, ironico

No sou um Deus...

PAULO

No. Ha um, s! E, em nome d'elle, eu te amaldio! Assassino de tua me
e de tua irm! Anti-Christo! O abysmo abre-se a teus ps! a morte vae
empolgar-te! o tumulo abre a guella para te engulir! Amaldio-te,
cadaver vivo! porque morrers no espanto e no terrr! e sers condemnado
por todos os seculos dos seculos sem fim! (Agarram-no) Maldito sejas,
assassino! incendiario! matricida!

TIGELINO, vae a matal-o com o estylete

Cala-te, velho!

NRO

Tem audacia, por Jupiter! Guarda-m'o para o circo, quero vr como 
feito, por dentro, um apostolo christo!

(Os escravos levam-no, arrastado)

Emfim, consegui distrahir-me, hoje. Vamos jantar.

D o brao a Poppa. Vo sahindo.

O PANNO DESCE


QUADRO SEXTO

Jardim de Petronio.

PETRONIO, inspeccionando as mezas e flres

Poucas flres. O calr do incendio chegaria a Cumes?

O INTRODUCTOR

Procura-te um servo de Numa, com uma carta.

PETRONIO

Vem de Roma?

O SERVO, entrando

De Numa. (da-lhe um rolo de pergaminho)

PETRONIO

Como vai o teu senhr?

O SERVO

Bem, nobre Petronio.

PETRONIO, lndo

.......... Aviso-te de que recebers, em breve, ordem de no abandonar
Cumas e dias depois a de te abrires as veias... Eis o que est decidido
no palacio de Cezar... Vale. Sneca. Vir atrazada a ordem. Licio,
dirs a teu amo que lhe agradeo a carta e que j estava prevenido.
Leva-lhe esta taa (d-lhe uma d'oiro) como recordao minha e penhr de
nossa longa amizade. (o servo sahe) (ao escravo) Chama Eunice. (rindo)
Julgava, talvez, surprehender-me esse bandalho de Cezar! Como se eu lhe
no conhecesse as manchas de toda a vida! Como no respondi, logo,  sua
carta, decidiu-se. Pois ha-de agradar-lhe a resposta. (Entra Eunice, de
branco. Petronio, senta-se) Vem Eunice; abraa-me e beija-me! Amas-me?

EUNICE

Se fsses um Deus, no te amaria mais. (ajoelha-se-lhe aos ps)

PETRONIO

E tu sabes a quem deves o meu amr?

EUNICE

A ti,  tua bondade!

PETRONIO

E a Chilon.

EUNICE

A Chilon?

PETRONIO

No te vendeu elle dois fios da cinta da Vnus de Chypre?

EUNICE

Oh, o charlato! Ninguem pode modificar a vontade dos Deuses?

PETRONIO

Nem mesmo o nobre Chilon?

EUNICE

Nobre?

PETRONIO

 hoje um dos companheiros de Nro. Uma arma de Poppa. Delatou os
christos.

EUNICE

Oh, o infame!

PETRONIO

Tal imperadr, tal crte! (acaricia-lhe a cabea) Mas tu s,
verdadeiramente, bella, Eunice.

EUNICE

Meu Senhr!

PETRONIO

Feliz aquelle que, como eu, encontrou o amr habitando em tal corpo!
Parece-me s vezes que smos duas divindades! Nem Lyzias, nem
Praxiteles, criaram, nunca, linhas to bellas! No ha marmore mais
quente, mais rozado do que o do teu collo! (Toma um punhado de violetas
e deita-lh'o pela cabea e hombros) Eis o que os christos querem
abolir: o culto da belleza! Um selvagem no criaria uma to ridicula
filosofia. Trata sempre o teu corpo bello, como um dom divino! S sempre
Deusa, bella, adoravel, Eunice! (Beija a)

EUNICE

Tu s to bom, meu senhor, to bom, que eu quizera ser realmente uma
Deusa... e tua escrava, como sou!

PETRONIO

Enganas-te. Tu no s minha escrava: pertencem-te esta casa, estes
jardins, os meus escravos, os campos e os rebanhos.

EUNICE

A mim?

PETRONIO

A ti. Libertei-te ha muito. Nada te disse. O consul dispensou a tua
presena. Fiz-te, sem saberes, os meus presentes de nupcias.

EUNICE, beijando-lhe as mos

Meu senhor e para qu?

PETRONIO

Porque vamos talvez separar-nos.

EUNICE, levantando-se

Como, senhor?

PETRONIO

Socega... terei de fazer uma longa viagem...

EUNICE

Leva-me comtigo.

PETRONIO

No posso.

EUNICE

No podes?

PETRONIO

 uma desconhecida viagem... que se tem de fazer, s!

EUNICE, receiando comprehender

S?

PETRONIO

S!

EUNICE, comprehendendo

Petronio! meu senhor. (Joelha de novo).

PETRONIO, respondendo  pergunta, muda, do olhar de Eunice

Sim!

EUNICE

Que desgraada sou! Os deuses no permittiro...

PETRONIO

Eunice, eu quero morrer... como me compete!

EUNICE

Comprehendo, meu senhor. (Domina-se completamente.)

PETRONIO

Tu s bella, livre, rica! A mocidade e a belleza tem os seus direitos.
Lembra-te de mim... com amor!

EUNICE

No, meu senhor, eu no sou rica nem livre. No o quero ser. Sou a tua
escrava!

PETRONIO

Ento eu serei o escravo da minha escrava. (Acaricia-a) Eunice, faz
servir o jantar. (Do um longo beijo.) Que a belleza seja sempre adorada!

EUNICE

E a bondade!

Eunice sahe e volta com Nerva, Lucio, Octavia e Julia. Ao entrar uns
adolescentes coroam-nos de rozas. Trazem-se perfumes. Ha uma orchestra
invisivel.

TODOS

Salve, Petronio.

PETRONIO

Salve, salve.

Reclinam-se. Os escravos servem.

JULIA

Que noticias de Roma?

PETRONIO

Cesar mandou-me chamar.

JULIA

 teu amigo, Cezar.

PETRONIO

Muito.

OCTAVIA

Acaso sers tu, agora, o querido dos homens, como tens sido sempre o das
mulheres?

PETRONIO

Que os Deuses se amerciem de mim, formosa Octavia. Na minha edade! (Riem).

NERVA

E, no vais?

PETRONIO

No vou.

LUCIO

Ficars ento em Cumas?

PETRONIO

Para sempre.

OCTAVIA

E o imperador?

PETRONIO

Que cante e dance.

JULIA

 a sua maneira de descanar.

PETRONIO

; porque para se fatigar vae matando os christos.

NERVA

A perseguio contina?

PETRONIO

Cada vez mais terrivel.

OCTAVIA

Haver, ainda, muitas tardes de circo?

PETRONIO

 natural. Os christos so j aos milhares, em Roma, como em outras
cidades da Italia, na Grecia e na Asia. Ha-os entre os legionarios,
entre os pretorianos, nas melhores familias de Roma.

NERVA

Dizem que nunca houve tres tardes de circo, como as dos christos!

PETRONIO

Nunca!

JULIA

Estiveste em todas, Petronio?

PETRONIO

Em todas.

OCTAVIA

Amas o espectaculo?

PETRONIO

No: necessitava de l estar.

LUCIO

Conta-nos.

PETRONIO

Nenhum de vs esteve em Roma?

NERVA

Nenhum; creio.

PETRONIO

Pois foram celebres as tardes. Nero lanou a ordem de priso.
Agarraram-se homens e mulheres, velhos e novos, creanas e virgens! Na
primeira tarde, vestiram-nos com pelles de animaes e largaram-lhes os
ces fulvos de Peleponso e os molossos zebrados dos Pyrenus,
esfaimados, de dias. As prezas, porm, eram extranhas, e os ces
hesitaram no attaque. Mas logo que o primeiro enterrou os dentes na
espadua d'uma rapariga, os outros, ao verem sangue, cahiram sobre o
monte dos christos, ajoelhados! Ento, por entre as convulses, os
estertores de agonia, os uivos dos mastins, ouviam-se vozes, que diziam:
pelo Christo! pelo Christo! As feras mutilavam e, sobre a arena, corria
em rgos o sangue entre membros decepados e os corpos sedentos dos ces
insaciaveis! O cheiro do sangue e dos intestinos abertos cobriu os
perfumes da Arabia e encheu o circo! Os ces no venciam a tarefa. O
povo rugindo, em delirio, pediu os lees. Viram-se ento cabeas
desapparecer em guellas vermelhas, peitos abertos com um roar de garra,
coraes e ventres extravazados, e o ruido dos ossos triturados por
maxillas de ferro! O povo esmagava-se, descendo as bancadas, para vr
melhor: os lees enchiam de troves as arcarias do Circo!

OCTAVIA

E acabou?

PETRONIO

No. Havia ainda muitos vivos. Abriram-se as jaulas e sahiram os tigres
do Euphrates, as pantheras de Java, ursos, lobos, hyenas, chacaes! A
scena perdeu toda a apparencia de realidade! Entre os gritos, os urros,
os rugidos, ouviam-se gritos, aqui e ali, pelas bancadas, gritos, entre
dentes, de mulheres em espasmo, cujas foras se iam exgotando!
Empallideciam os rostos e vozes gritavam: basta! basta! Um exercito de
Numidas, armados de flechas, fez recolher as fras. Limpou-se a arena;
as fontes jorraram aguas perfumadas e uma nuvem de adolescentes,
vestidos de amres, encheu o circo de petalas de rosas! Caso extranho e
unico no circo: Nero desceu  arena, tomou a cithara e cantou um hymno!

LUCIO

E foi applaudido?

PETRONIO

Como sempre.

OCTAVIA

A mim era-me impossivel assistir a uma tarde de circo.

JULIA

E tu, Petronio, cujo gosto e prazeres teem um to grande cunho de
elegancia e de delicadeza...

PETRONIO

Comecei por dizer, bella Julia, que precisava de l estar.

NERVA

E, a segunda?

LUCIO

Conta-nos a segunda.

PETRONIO

Foi menos interessante. Limitaram-se a queimar muitos e a sacrificar os
restantes. Todo o prazer do espectaculo, para quem o achava, estava em
gozar a morte lenta, a agonia das victimas! (Reparando) Por Pollux, eu
deixo de contar, se apenas empregaes os vossos sentidos em me ouvir.

NERVA

Escutamos-te e comemos, ao mesmo tempo.

PETRONIO

Mas no bebeis. (faz signal; os escravos enchem as taas)

LUCIO

Conta a terceira.

OCTAVIA

 mais curiosa, a terceira tarde?

PETRONIO

Terrivelmente curiosa, para mim. Foi de noite. Na noite a seguir quella
em que Nro passeiou, entre crucificados christos, breados, a arder,
pelos jardins!

JULIA

Que crueldade!

PETRONIO

E qu cheiro! A peripecia extranha foi esta. Quando soaram as cornetas,
correu-se a grade d'um subterraneo e um homem colossal, um Lygio, de
cxas herculeas e braos, os musculos do peito que pareciam dois escudos
unidos, tal era o relvo, appareceu, na arna! Quando se esperava que
inimigo lhe dariam, abriu-se a grade fronteira e um toiro da Hespanha,
negro como a noite, rompeu pelo circo, trazendo, atado s hastes, no
cachao, o corpo semi-n d'uma virgem christ. Lygia! rugiu o escravo ao
conhecer a rapariga! Lygia, tem coragem!... E, de espinha curva, rapido,
cortando a terra, o olhar em braza, as mos em garra... aproximou-se do
toiro, e d'um salto, cahiu-lhe na frente, agarrando lhe os cornos!
Fez-se um silencio profundo! Ouvir-se-hia o vo d'uma msca! Homem e
toiro quedaram se na imobilidade do marmore, semelhantes a um trabalho
d'Hercules, esculpido! Para se libertar do jugo, o toiro, fincando-se
nas patas, dobrou-se, em arco: turgiam-se os musculos do homem a estalar
a pelle que se fazia purpura! No peito de Nro, como no das vestaes,
como nos do povo inteiro, os coraes saltavam! Corria o suor pelas
testas! A palavra expirava nos labios! Homem e toiro, n'um suprmo
esforo, dir-se-hiam pregados no solo! Estes momentos duraram sculos.
Subitamente, ouviu se como um vagido surdo, e, como n'uma allucinao, os
olhos viram a cabea da fera, voltar, voltar, quasi imperceptivelmente...
Ouvia-se o respirar offegante do homem; mas a cabea do toiro continuava
a voltar-se, lentamente, lentamente... quando, de subito, da bcca
sahe-lhe, pendida a lingua cheia de baba! Um momento mais... um ranger
de vertebras... e n'um tremr subito, o olhar bao, o pescoo estendido,
como uma massa inerte, o toiro cahe!... morto!

NERVA

Por Jupiter, eis ahi um homem!

JULIA

Por Venus!

LUCIO

Por Hercules!

OCTAVIA

E, foram perdoados?

PETRONIO

O povo ergueu-se pedindo-o. Nro recuzava, quando, de subito, um bello
rapaz, um guerreiro, salta  arena, rasga a tunica no peito, para
mostrar as cicatrizes das batalhas e levanta os braos para o povo,
cobrindo com o manto o corpo n da christ. O povo rugiu improperios e
Nro, com mdo, cedeu.

JULIA

Quem era esse mancebo? Um amante?

PETRONIO

Um apaixonado, que a pretendera arrancar  prizo que tentava salval-a,
ainda, nos subterraneos do circo, e que, sem esperana, estava a meu
lado, branco como um cadaver!

JULIA

Chamava-se?

OCTAVIA

Quem era?

PETRONIO

Marcos Vinicio, o filho de minha irm. Eis porque vos disse do comeo,
bella Octavia, que precizava de l estar.

JULIA

Que tormentos d'amante!

PETRONIO

A felicidade  como a vida: nasce entre dres!

NERVA

Que  feito d'elles?

PETRONIO

Cazaram e foram para o campo, para a beira mar, afogar em beijos os
terrres e lagrimas passadas!

OCTAVIA

Que os Deuses os protejam.

PETRONIO

Pois brindemos aos Deuses pela sua felicidade. (bebem)

JULIA

Amava-lo muito, Petronio?

PETRONIO

Tanto, que arrisquei, por elle, o favr de Cezar!

NERVA

Como?

PETRONIO

Defendendo os christos.

LUCIO

Os christos?

PETRONIO

Os christos que me importavam? Defendia Lygia e Marcos.

NERVA

Espantava-me que defendesses os Deuses estranhos.

PETRONIO

Nem os estranhos, nem os nossos.

LUCIO

No amas os nossos Deuses?

PETRONIO

Muito... para figuras de rethorica!

OCTAVIA

O que amais ento no mundo, elegante sceptico?

PETRONIO

As arvores e as flres; as joias e os perfumes; as estatuas de
Praxiteles e os bronzes de Corintho; os vinhos velhos da Grecia e as
mulheres novas... de toda a parte.

JULIA

Tendes amado muito.

PETRONIO

E, ainda os livros, a poesia, os versos--excepto os de Nro--.

OCTAVIA

Dizem que os scepticos so, sempre, alegres.

PETRONIO

Ser por isso que me esforcei por viver, sempre, alegremente, e o farei
at ao fim... o que ser facil... agora! (tomando a taa)  Rainha de
Chypre! por Eunice!

NERVA

Aos Deuses, pela felicidade de Petronio!

EUNICE, aparte a Petronio

Ao meu senhr! (bebem os dois, ss)

PETRONIO, levantando-se um pouco sobre o leito

Amigos, perdoai-me o fazer-vos um pedido: eu quizera que cada um de vs
se dignasse de acceitar a taa com que brindou aos Deuses e  minha
felicidade. (toma a taa) Eis a taa do meu brinde  rainha de Chypre,
por Eunice. Nenhuns outros labios bebero por ella; nenhuma outra mo
ousar levantal-a, em honra de outra divindade! (atira-a ao cho e
parte-se: espanto) Amigos, alegrai-vos. A velhice  a triste companheira
dos nossos ultimos annos. Dou-vos um exemplo e um conselho.

NERVA

Que queres fazer?

PETRONIO

Gozar, beber, contemplar as frmas divinas que repoisam a meu lado e
adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz j as minhas
despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer, no meus adeus. (tira
um rolo e l) Sei, divino Cezar, que me esperas impacientemente e que
para premiares a minha ida para junto de ti, no duvidarias dar-me o
comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve, officio para
que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em particular
pelos manes de tua mi, de teu irmo, de tua mulher, juro-te que me 
impossivel ir. A vida  um thesoiro de que eu sube extrahir as mais
preciosas joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de
suportar at ao fim! No vs pensar que me indignou o assassinato de tua
mi, de teu irmo, de tua mulher; que me revoltei contra o incendio de
Roma; que me offendeu o teu processo de matar todos os homens honrados
de teu imperio! No; mas por largos annos ainda, deixar-me esfolar os
ouvidos pelo teu canto, vr as tuas pobres tibias escoicear nas danas
pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu modo--pobre poeta
d'agua dce--semelhante perspectiva  superior a minhas fras. Resolvi
morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de gargalhadas! E, eu?
eu no quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de Cerebero ser-me-ha
menos penoso: no sou amigo d'elle, no tenho de crar pela sua voz!
Goza e passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas no faas
versos! envenna, mas para-te de danar! incendeia as cidades, mas deixa
em paz a cithara! Tal  o conselho do teu amigo, Petronio. (d o rolo
ao escravo) Queima esta carta e manda entrar o mdico.

NERVA

... Mas  a morte!

LUCIO

E, ns...?

PETRONIO, rindo sereno

Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta.
(Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de
oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial).

EUNICE

Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um
imperio, para te deixar, eu no faria nunca! Tenho pois o direito de ir
comtigo... concede-m'o!

PETRONIO

Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o queres.

EUNICE, alegre, estendendo o brao ao medico

Abre. (O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre o
peito de Petronio).

PETRONIO

Phalerno! (Um escravo deita-lh'o) Servide antes, s damas, o xaroposo
Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! (Inclina se para Eunice)
No queres tu, Divina, que bebamos, na tua taa, pela ultima vez, aos
Deuses, por toda a felicidade que nos deram?

EUNICE

Sim, meu senhor. (Bebem os dois).

O INTRODUCTOR

Marcos Venicio e Lygia.

PETRONIO

Bem vindos! (Ao medico) No posso morrer ainda; estanca-me o sangue. (O
medico liga-lhe o pulso, rapido).

MARCOS, entra

Salve senhores! salve Petronio.

TODOS

Salve Marcos!

TODOS

Salve Lygia!

NERVA

Salve, formosa Lygia!

PETRONIO aos dois que chegam junto d'elle

Salve! Salve! (Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia
sentam-se). Que vieste fazer a Cumes, Marcos?

MARCOS

Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa
casa da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos
buscar-te. s preciso  nossa ventura!

PETRONIO

Admiro o teu corao: como me admira que dois noivos se possam lembrar
d'um amigo ausente.

LYGIA

Tu s para ns muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!

PETRONIO

Foi o vosso Christo quem vos salvou! (Levemente ironico).

LYGIA

No rias...

PETRONIO

Oh, no; mas  preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem
fizeram alguma coisa para o caso.

MARCOS

Vem comnosco, Petronio.

PETRONIO

No, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para
onde me queres levar, eu no o poderia fazer. Se alguma coisa depois da
morte--ao contrario da opinio de Pyrrhon--subsiste e vive, a que
animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice,
espera-me! (Indicando-a) Est morta! (Arranca a facha do pulso e aperta
Eunice contra o peito).

MARCOS

Petronio!

LYGIA

Meu amigo!

PETRONIO

No vos afflijaes! Para vs nasce a aurora da vida, para mim, pz-se j
o sol, cerca-me o crepusculo! Tinha de ser: conheces Nro, comprehendes
o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! No vos afflijaes! A morte
 um episodio da vida! J vs, Marcos, que te enganas, se pensas que s
o teu Deus d a tranquillidade na morte! V como morro tranquillo.
Plato diz que a virtude  uma musica e a vida do sabio uma harmonia! Se
assim , vivi e morro virtuoso. (Toma a taa) Permitte, virtuosa Lygia,
que me despea de ti, com as palavras com que te saudei, na primeira vez
que nos vimos. Vi durante a minha vida povos sem conto, mas uma mulher
que te egualasse, eu no vi nunca! (Aos dois) Se eu tenho uma alma,
ella ir poisar junto  vossa casa, na forma d'uma borboleta, ou, como
querem os egypcios, na de um falco. S, assim, irei. (Levantando a taa
e todos) O ultimo brinde aos noivos. (A voz enfraquece levemente) Que a
terra de Sicilia se metamorfoseie para vs n'um jardim dos Hesperides,
que os Deuses dos campos, dos lagos, das fontes, faam nascer as flores
sob os vossos ps, e que em todos os acanthos dos vossos pyristilos
vivam e noivem, eternamente, as pombas brancas! (Bebe e todos.
Inclina-se a beijar a cabea d'Eunice).

O INTRODUCTOR

Um servo de Numa.

PETRONIO

Outro?

O SERVO

Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu
senhor, dizer-te...

PETRONIO

O qu?

O SERVO

Revoltou-se Vindex, com as legies da Galia. A guarda pretoriana,
amigos, escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o
deixaram s! S, de mdo, suicidou-se!

PETRONIO

 tarde! (Desmaia e morre sobre a cabea de Eunice).

MARCOS

Que dr!

VOZES

Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!

MARCOS

Sabeis, vs, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graa e a Belleza!

LYGIA, joelhando

 Christo! tende piedade das suas almas!

(O PANNO DESCE, LENTO)

FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO





End of the Project Gutenberg EBook of Petronio, by Marcelino Mesquita

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO ***

***** This file should be named 28154-8.txt or 28154-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28154/

Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
