The Project Gutenberg EBook of Talitha, by Pinto da Rocha

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Title: Talitha
       evangelho em tres actos

Author: Pinto da Rocha

Release Date: April 29, 2009 [EBook #28639]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Pedro Saborano





                              Pinto da Rocha

                                  TALITHA

                           EVANGELHO EM TRES ACTOS

                               Segunda Edio




                            LIVRARIA CHARDRON
                             DE LELLO & IRMO
                          Carmelitas, 144-Porto
                                   1909




                                  TALITHA




                              Pinto da Rocha

                                  TALITHA

                           EVANGELHO EM TRES ACTOS

                               Segunda Edio




                            LIVRARIA CHARDRON
                             DE LELLO & IRMO
                          Carmelitas, 144-Porto
                                   1909




O _accordo_ assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1889, entre
o Brazil e Portugal, assegurou o direito de propriedade literaria e
artistica em ambos os paizes.


A presente edio est devidamente registada nas _Bibliothecas
Nacionaes_, de Lisboa e Rio de Janeiro.

Imprensa Moderna, de Manoel Lello
R. da Rainha D. Amelia, 61--PORTO
Grande premio na Exposio do Rio de Janeiro de 1908




PERSONAGENS

    TALITHA, cga                       18 annos
    JOO FULGENCIO, cura da aldeia      80 "
    DR. RUY DE ORNELLAS, medico         25 "
    JOAQUINA, irm do cura              65 "
    MARQUEZA DE RILMA                   50 "
    Um escudeiro--Camponezas--Lavradores

A aco passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal

ACTUALIDADE




INTERPRETAO

NO RIO DE JANEIRO EM 1906

    Talitha               Maria Falco
    Joaquina              Jesuina Saraiva
    Marqueza de Rilma     Barbara Wolckart
    Joo Fulgencio        Chaby Pinheiro
    Ruy de Ornellas       Henrique Alves

NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907

    Talitha               Maria Falco
    Joaquina              Maria Pinheiro
    Marqueza de Rilma     Olivia de Almeida
    Joo Fulgencio        Chaby Pinheiro
    Ruy de Ornellas       Joo Lopes

A _Talitha_ subiu  scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio
de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria
Falco.




                    E tomando a mo da menina disse-lhe:
                    --Talitha cumi:--Filhinha levanta-te.

                    _Novo Testamento._ S. Marcos, V. 41.




PRIMEIRO ACTO

Jardim, na residencia do Cura.-- direita, um banco de pedra junto a um
poo:  esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com porto.--Vista
de estrada e campo.


SCENA I

Joaquina e Ruy

Joaquina

    Louvado seja Deus! Como est bello e forte!

Ruy

     verdade, Joaquina, o clima aqui da terra
    encheu-me novamente o corao de alento.
    Posso dizer que entrei neste bondoso lar
    vigiado, sem d, pelos olhos da morte.
    E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,
    as aguas desta fonte, o sadio alimento,
    o seu cuidado santo, amigo e tutelar,
    fizeram-me robusto.

Joaquina

                       E Deus no lhe fez nada?

Ruy

    Foi elle quem salvou a minha mocidade,
    porque a divina mo que fez os cos e os montes,
    que deu flores  terra e deu frescura s fontes,
    que faz vibrar a luz e a voz da passarada,
    que impelle a nuvem branca em plena immensidade,
    um dia vos creou as almas caridosas
    que vivem nesta casa, humildes e serenas,
    felizes com o Bem, suaves como as rosas,
    mais simples do que o trigo, a neve e as aucenas!

Joaquina

    Ento, menino, cr tambem que Deus existe?!

Ruy

    De certo, minha amiga.

Joaquina

                           E no  um hereje,
    dessa raa maldita e negra que desmente
    as obras do Senhor?

Ruy

                        Ingenua creatura!
     to alegre a crena e no crr  to triste,
    que mesmo sem querer o corao da gente
    acredita num Deus que todo o mundo rege,
    num Pae que assim te deu alma simples e pura!
    Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus
    e adormecer  noite abrindo a consciencia
    aos beijos do luar, sorrir de madrugada
     frescura que vem do azul ethereo e vasto,
    que o nosso olhar ascende s amplides dos cos
    sem esforo nenhum, como a espiral da essencia
    que se evola da flr, se a abelha delicada
    lhe poisa na corolla o vo leve e casto!

Joaquina

    Bemdito seja Deus! No pde imaginar
    como eu fico contente ouvindo assim fallar!...

Ruy

    Mas que ida fazia ento de mim? Julgava
    talvez que eu fosse atheu?

Joaquina, _benzendo-se_

                               Deus me perde... pensava!

Ruy

    Como poude a sua alma angelica e to boa
    fazer-me, sem motivo, essa enorme injustia?

Joaquina

    Ah! mas no foi por mal, nem o pensei  ta:
    eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...
    E a gente v s cara e no v coraes...

Ruy

    E se o visse, Joaquina!...

Joaquina

                              E que  que me servia
    o ver-lhe o corao?

Ruy

                         Nada,  certo. Entretanto
    conheceria bem as minhas intenes,
    a esperana que faz brotar, em cada dia
    que passa, um pensamento alegre, puro e santo...

Joaquina, _interrompendo_

    , mas diz o rifo que est o inferno cheio
    de boas intenes!...

Ruy

                           Tem razo; mas no minto
    se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:
    s vezes mais parece um verdadeiro inferno
    este peito infeliz...

Joaquina, _benzendo-se_

                          Abrenuncio, menino!...
    Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...
    Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,
    em Deus Nosso Senhor, no diz tal desatino!...
    Virgem Maria! Credo!

Ruy

                         Alma boa de santa!...
    A tua vida inteira adormeceu. A aurora
    j para ti no tem aquelle brilho vivo
    que a primavera, em luz, alastra pelos campos...
    Tudo se transformou em outra vida; agora
    a fonte j solua, a brisa j no canta;
    aos teus olhos a lua  d'um fulgor esquivo,
    o sol no tem calor, o co j no  glastro,
    as estrellas febris parecem pirilampos;
    trazes o teu olhar constantemente a rastro;
    smente a f te anima;  por isso que extranhas
    o inferno abrasador que muita vez domina
    a minha mocidade.

Joaquina, _com sorriso_

                      Isso me bacoreja
    algum amor perdido ahi por essas eiras...

Ruy

     possivel, quem sabe? Os ares das montanhas
    tem caprichos assim, pde bem ser, Joaquina!

Joaquina, _cariciosa_

    E diga-me, que olhar  esse que negreja
    a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...

Ruy, _enleiado_

    Que olhar?

Joaquina, _interrompendo_

               Mas  segredo?

Ruy

                              , por ora  segredo...

Joaquina

    Ah! no confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo
    que eu descubra o mysterio, a princeza encantada
    que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...

Ruy

    No  mysterio, no. ... cousa complicada!...

Joaquina

    Faz muito bem zelar a flr dos seus amores;
    no os conte a ninguem; se acaso as desventuras
    lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...

_tomando-lhe a mo e fallando-lhe ao ouvido_

    Reze constantemente  Senhora das Dres.
    Acceite este rosario e tenha-o por bordo.
     bemaventurado aquelle que padece,
    porque  delle, menino, o reino azul dos cos...
    E Deus a quem promette estende sempre o po;
    reze e ser feliz... Essa alma bem merece...

Ruy

    Santa velhinha, santa...

Joaquina, _tapando-lhe a bocca_

                             E nem um ai, silencio...
    Olhe quem vem ali...

Ruy, _voltando-se_

                         O Padre Joo Fulgencio
    e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...

Joaquina, _a Ruy_

    Parece que ficou um tanto atrapalhado...

Ruy, _encobrindo a verdade_

    Sempre que a vejo, assim to cheia de bondade e
    cga...

Joaquina

            Ento, que sente?...

Ruy

                                 Uma dr inaudita,
    que reveste de luto as minhas alegrias:

               Ha tanta luz espalhada
               na concha astral dos espaos!
               E os olhos della to baos!
               E a fronte to macerada!


SCENA II

Os mesmos, Padre Joo e Talitha

_Talitha vem apoiada ao brao de padre Joo_

Padre

    Pois Deus Nosso Senhor nos d muitos bons dias.

_assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mo_

    Como passou a noute?

Ruy

                         Assim; mais descanado...
    Sonhando... E o Senhor Cura?...

Padre

                                    Eu? Ah! na minha idade
    j se no dorme; eu passo a noute toda em claro,
    de rosario na mo, pedindo a Deus por ns!
    E quando surge o dia e mal o Sol desponta,
    dando o brao a Talitha, encaminho-me  Egreja.

Talitha

    Diz a missa que ou ouo...

Padre

                               E  raro, muito raro,
    voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, ss.
    s vezes vem comnosco esse infeliz sargento
    que arrasta por ahi o longo soffrimento,
    velho e cego tambem, e eu, mortia candeia,
    a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!

Talitha

    Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,
    nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!
    No emtanto est comnosco ha sete mezes, no?

Joaquina

    Isso mesmo eu j disse...

Ruy

                              Eu dei a explicao...

Talitha

    E poder-se- saber? No  curiosidade?

Padre

    Talvez seja, talvez...

Ruy

                           No !

Talitha

                                  Ento ouamos!...

Ruy

    Eu rezo no silencio o santo sacrificio,
    no fundo de minh'alma elevo o meu altar,
    sob o docel azul das minhas esperanas!...

Padre

    E eu sem conhecer mais essa novidade!...

Talitha

    Qual?

Padre

          Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...

Ruy

    Padre no  smente aquelle que a rezar
    esgota uma existencia ao peso do cilicio
    e vae pelas manhans, feliz como as creanas,
    curvar humildemente a fronte e a consciencia,
    na sombra da capella, aos ps do Redemptor...

Talitha

    Mas ha d'outros, ento?

Padre

                            Eu no conheo, filha!

Ruy

    Sacerdote  tambem aquelle que tem culto
    ao qual offereceu toda a sua existencia.
    Padre, quem se dedica um dia com fervor
    a amar alguem na terra a cujos ps se humilha,
    tambem  sacerdote...

Padre

                          E eu, sacerdote, exulto
    ouvindo do seu labio esta expresso severa.

Joaquina, _que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy_

    Bemdito seja Deus! menino, quem me dera
    conhecer a mulher que tem um filho assim...

Talitha

    S eu no posso vl-o!...

Ruy, _entre alegre e enleado_

                              Obrigado, Talitha!

Talitha

    No tem que agradecer, disse-o sinceramente!
    Que pde desejar mais uma cga, diga?...

Padre

    Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor,
    ouvindo-me a orao, tenha pena de mim
    e acuda com remedio ao mal dessa desdita!

Ruy

    Como eu fra feliz...

Joaquina

                          E eu seria contente!...

Ruy

    Se pudesse voltar,  minha boa amiga,
    aos seus olhos de cga o perdido fulgor!...

Talitha

    Nunca mais, nunca mais...

Padre

                              Porque  que te condemnas
    se toda a nossa vida  uma esperana apenas?...

Talitha

          Se  toda de esperanas esta vida,
          j me fugiu aquella que voava
          bem junto do meu seio e que roava
          sobre a minh'alma a aza foragida.

          Nem sei onde ella vae, talvez perdida
          nao volte a mim por no morrer escrava
          na escurido da noite immensa e cava
          dos meus olhos sem luz e sem guarida...

          Nunca mais fulgirs, dce promessa,
          na minha treva densa e prematura,
          como o branco luar em noite espessa.

          Se vive, o olhar dos cgos no fulgura,
          dorme na sombra e de sonhar no cessa
          na tristeza sem fim da noite escura!

Ruy

    No descreia, Talitha, as suas illuses
    no fugiram, por ora, esparsas na lufada!
    Quem foi que lhe roubou a ultima esperana,
    que braos sem caricia, ou duras privaes
    lhe puderam vibrar to rude punhalada?
    Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalana
    a dizer-lhe, Talitha:--o seu formoso olhar
    to cheio de fulgor, um dia ha de voltar...

Joaquina

    S milagre de Deus!

Padre

                        E Deus pde fazel-o:
     Pae de todos ns!

Talitha, _com desanimo_

                        Tenho rezado tanto!

Ruy

    Implore mais ainda, espere, tenha crena!

Talitha

    Tenho pedido muito e tanto me flagello
    que banho as oraes nas bagas do meu pranto
    e aqueo-as ao calor da minha dr immensa.
    A mesma escurido tremenda me apavora,
    nem um raio do luz, nem um vago lampejo;
    nunca mais hei de vr o campo que se inflora
    nem do luar terei um luminoso beijo...

Padre

    A tua redempo ainda no surgiu...

Joaquina, _pondo as mos_

    Eu tenho tanta f!

Ruy

                       O meu presentimento
    no sei o que me diz...

Talitha

                            Que o corao sentiu,
    que a sua alma pensou nessa dce ventura,
    eu creio porque sei quanto  nobre e bondoso.
    Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento
    smente acabar no cho da sepultura,
    onde tudo tem fim, embora tenebroso!...

Padre, _olhando o co_

    Perda-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...
    Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...

Talitha

    Eu sei bem o que disse; a minha crena  essa.
    Ha muito que eu imploro ao co a proteco
    e rezo com fervor  dce Conceio,
    pedindo-lhe, a chorar de dr, que no esquea
    a minha noite escura e tristemente agreste
    como a sombra que faz a copa de um cypreste.
    Aos ps do seu altar curvei-me como escrava
    e emquanto pela igreja o incenso espiralava,
    e as simples oraes subiam na espiral,
    fechei-me na mudez do meu fervor mental
    e fiz uma promessa...

Ruy, _com interesse_

                          E ento qual foi, Talitha?

Talitha

    Votar a minha vida ao divino servio,
    se um dia terminasse o meu padecimento;
    nem peo mais a Deus,  tudo o que cubio.

Ruy

    E se tornar a ver?

Talitha

                       Entrarei num convento
    a vestir o burel de freira Carmelita.

Padre, _crente, pondo as mos_

    Se Deus te ouvisse, filha!

Joaquina, _com unco religiosa_

                               E o Bom Jesus quizesse!...

Ruy, _com amargura_

    Se tivera valor a minha humilde prece!...

Talitha, _curiosa_

    Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?

Ruy

    No pediria a Deus esse milagre extremo...

Talitha

    Porque?

Ruy

            Porque seria arrancal-a da treva
    e lanal-a de novo em mais cruel negrura.
    Juntando toda a f que de minh'alma fle
    eu iria pedir, como um favor supremo,
    que as almas alevanta e os coraes eleva,
    que me guiasse a mo na lucida aventura
    de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido
    aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora
    que faziam inveja ao proprio olhar de Flra!

Padre

    E seria capaz?

Joaquina

                   Credo!

_Sae_


SCENA III

Padre Joo, Ruy e Talitha

Ruy

                          E to convencido
    estou de que o Senhor a mo me guiaria
    nesse instante feliz, que no hesitaria
    um momento sequer... A simples catarata
     facil de operar e em dez dias exactos
    Talitha voltaria  luz que o co desata
    e que d vida  terra, aos fructos e aos regatos!...
    Pense, Talitha, pense e permitta que eu faa
    esse dce milagre.

Talitha

                       E eu tornarei a vr
    o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,
    as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?

Ruy

    Os seus olhos vero a luz da eterna graa
    no sorriso gracil da alvorada, ao nascer
    nas bandas do oriente em nuvens to suaves,
    como um rebanho astral de timidos cordeiros!

Talitha

    E que mais hei de vr?

Ruy

                            Que mais? Ver tambem
    um velhinho a sorrir com lagrimas na face,
    e uma velhinha branca e trmula a chorar,
    e ao p delles, alegre, o olhar de mais alguem,
    numa dce orao to leve e to feliz,
    como se a propria brisa aqui se demorasse
    um momentinho s tambem para rezar!

Talitha, _alegre_

    E eu voltarei de novo aos encantos da luz?
    E hei de vr tambem o jardim do mosteiro
    onde floresce a f que a nossa vida arrima,
    as rosas enfeitando a Virgem que as anima,
    o corpo de Jesus exanime e trigueiro,
    entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...
    E ento assim feliz...

Ruy, _interrompendo_

                           E ento, Talitha, e ento?

Talitha

    Rezarei pelo Ruy, to bom, to generoso,
    que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso
    a esmola angelical d'um lucido claro!


SCENA IV

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _entrando_

    Padre Cura, uma carta.

Padre

                           Uma carta? Mas donde?

_recebe-a e examina_

    Hum! e de quem ser?

Talitha

                         Joaquina, d-me o brao...

_Joaquina d-lhe o brao. A Ruy_

    Dr. Ruy, at j.

_ao cura_

                     At j, meu Padrinho...

Ruy, _que se tem conservado triste_

    Talitha!...

Talitha, _voltando-se_

                Meu Senhor!...

Ruy, _indo a ella_

                               Perdo, Talitha... nada!

Talitha

    Arrependeu-se, no? E tambem no responde...
    Desconfia de mim?... Outro tanto eu no fao
    Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...

Ruy, _com interesse_

    Que foi que adivinhou?

Talitha, _com malicia_

                           Uma coisa adorada...
    que s tres coraes conhecem bem: o seu,
    o della, e o Senhor que tudo v do co...

Ruy, _admirado_

    Della, Talitha, quem?

Joaquina, _com inteno_

                          Daquella princesinha
    d'olhos da cr do co, vestida de andorinha...

Talitha

    Ouviu, Doutor, ouviu?

Ruy

                          Juro...

Talitha, _interrompendo_

                                  No jure falso!...

_a Joaquina_

    Vamos, Madrinha, embora:  tempo de almoar.

_sahem_


SCENA V

Padre Joo e Ruy

_Desde que recebe a carta, Padre Joo l com a maior atteno. Pela sua
face corre toda a expresso de espanto que vae recebendo. Quando sahem
Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao
approximar-se Ruy, suspende-se._

Padre

    Esta agora  que foi!

Ruy

                          E que foi, Senhor Cura?

Padre

    Quem sabe? Pde ser um pequeno precalo,
    mas pde ser tambem que venha de mistura
    alguma dr maior. E no posso evitar!...

Ruy

    O que essa carta diz deixou sua alma afflicta:
    um segredo talvez que vive no seu seio?!...

Padre

    Foi, sim, mas ja no . Agora s receio
    que m'a levem daqui...

Ruy

                           Que a levem? quem?

Padre

                                              Talitha...

Ruy

    E quem a levar deste remanso augusto?
    O convento, a promessa?...

Padre

                               Oh! no...

Ruy

                                          No tenha susto!
    E quem mais poder, nesse caso, arrancal-a
    do lar em que nasceu?

Padre

                     A Me...

Ruy, _surprehendido_

                              Ah! mas... ento...

Padre, _baixinho_

    Ento... j percebeu?! Ella foi engeitada...
    Eis aqui o segredo em que esta vida abrao.

_baixa a cabea, scismando_

Ruy, _depois de uma pausa_

    Oh! meiga creatura!

Padre

                        E no poder salval-a!...

Ruy

    Engeitada!...

Padre

                  Sim, sim. Ao romper da alvorada.
    Ha muito tempo j. Inda no co brilhava
    a estrella da manh; vieram procurar-me;
    bateram ao portal com desusado alarme...
    Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava
    os campos e eu pensei que um pobre moribundo,
    no momento supremo em que deixava o mundo,
    quizesse receber da minha propria mo
    o balsamo final da santa extrema-unco,
    e abri desta choupana a porta sempre franca.
    Parecia o jardim uma toalha branca.
    Era um frio cruel, cortava como fsse
    o gume de uma faca e o fio de uma fouce...
    Sahi, olhei em roda e j no vi ninguem.
    No co luzia s a estrella de Bethlem!
    No sei porque a fitei nesse feliz momento.
    Um silencio profundo amordaava o vento;
    dormia a natureza um somno indefinido,
    vibrou ento no espao um timido vagido...
    Estremeci de horror...

Ruy, _com anciedade_

                           Era a pobre Talitha?!

Padre

    Approximei-me e vi, aqui junto do banco
    um cestinho de verga envolto em panno branco.
    Banhou-me o corao uma dr infinita.
    Na tragica mudez da alvorada deserta
    tomei nas mos, tremendo, a delicada offerta
    e agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a
    como quem agasalha o corpo de uma estrella
    que tombasse do co...

Ruy, _com mais anciedade_

                           E esse penhor amigo?!...

Padre

    A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,
    alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.
    Parece que ao romper daquella madrugada
    to fria, to cruel, mas to abenoada,
    que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,
    teve o banho castalio, o baptismo de luz
    da mesma estrella exul que baptisou Jesus.
    Por isso  que minh'alma agora no sopita
    a magua de perdel-a...

Ruy

                           E quem ter coragem
    energica e viril de arrebatar Talitha
    ao seu amor leal e bom, dce miragem,
    no deserto feliz desta velhice austera?

Padre

    A me que a vem buscar...

Ruy

                              A me no tem direito...
    A me que engeita a filha  peior que uma fera!

Padre

    Mas  me!...

Ruy

                  Sim, ser, sem corao no peito.

Padre

    Engana-se, doutor, a me que hoje a reclama,
    depois de tanto tempo,  que lhe tem amor...

Ruy

    Como a engeitou, ento?

Padre

                            A fera tambem ama...
    Quem sabe o que ter soffrido essa mulher?
    Sabe-o smente o co, calcule-o quem puder.
    E diz-me o corao que vou perdel-a em breve.

_Erguendo as mos ao co_

    No me tires, meu Deus, esse gentil penhor!
    Repara que j tenho os cabellos de neve,
    to tremulas as mos, e os labios descorados,
    como sonhos que vo batidos e levados
    num extremo soluo... O que eu tenho no mundo,
    pouco mais  que um ai e o golpe agora  fundo!

_Enxuga os olhos e se_


SCENA VI

Ruy e Talitha

_Ruy v sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no cho,
sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce,
tacteando, at junto delle._

Talitha

    Padrinho, ento no vem?

Ruy, _sobresaltado_

                             Ah! Talitha...

Talitha

                                            Perdo!
    Pensei que estava aqui...

Ruy

                         J se foi...

Talitha

                                      Obrigada...

_Vae retirar-se_

Ruy

    Talitha!

Talitha

             Senhor Ruy!

Ruy

                         O seu bom corao
    inda no lhe contou, baixo, muito baixinho,
    quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,
    diga, no lhe contou?

Talitha, _com muita simplicidade_

                     Que pergunta engraada!

Ruy

    E vive ento sereno?

Talitha

                         Ah! Sim, tenho certeza!

Ruy

     bem feliz, Talitha, a sua singeleza!
    Outro tanto, porm, ao meu j no succede
    que o sinto palpitar acceleradamente,
    como quem vae fallar e o soffrimento impede.

Talitha

    Eu bem lh'o disse ha pouco...

Ruy

                                  Entretanto eu lhe juro...

Talitha, _interrompendo_

    No jure que  peccado a jura de quem sente
    que no diz a verdade.  mais bello e mais puro
    no negar.

Ruy

               Tem razo, mas eu no disse, ainda
    qual era o juramento...

Talitha, _ingenua_

                       E qualquer que elle seja...

Ruy

    Diga, diga o que sente...

Talitha

                              Ha de ser...

Ruy, _curioso_

                                           Ha de ser?

Talitha

    No digo...

Ruy

                Diga, sim, a sua voz bemvinda
    ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja
    que a minh'alma sem luz precisa de viver.
    E do seu labio casto apenas um sorriso
    vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.

Talitha

    Assim o quer, direi; jamais o seu protesto
    pde ser verdadeiro...

Ruy

                           E porque no, Talitha?...

Talitha

    No sei, no sei porque. A jura  como o gesto
    que abala fortemente, a nossa vida agita,
    mas passa e foge...

Ruy

                     Ah! sim, quando falla smente
    o labio, sem fallar tambem o corao...
    Ah! de certo que assim o labio sempre mente.
    Mas quando o sangue esta e faz tremer a mo
    de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,
    apenas num momento, empallidece e tomba,
    bem como se a rora a ponta fria da aza
    feita de gelo e dr de alguma extranha pomba,
    quando um homem que sempre olhou de frente o sol
    tem medo de encarar o olhar de um rouxinol,
    e treme at de ouvir-lhe a voz encantadora,
    quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora
    do vento e dos troves...

Talitha, _interrompendo_

                              Ento?...

Ruy

                                        Assim revela
    que  grande, generoso e casto o sentimento
    que apenas se traduz e que to mal se vela
    na gaze pueril d'um simples juramento!

Talitha, _ingenua_

    Quem foi que o ensinou a fallar assim?

Ruy, _timido_

                                           Digo?...

Talitha, _ingenua_

    E porque no? Quem foi?...

Ruy, _timido_

                               Nem mesmo eu sei, Talitha!

Talitha, _insistido_

    Nem sabe onde aprendeu?

Ruy, _sorrindo_

                            Quer aprender commigo?

Talitha, _ingenua e triste_

    No me quer responder, nem confessa, nem nega...
    Se eu pudesse aprender, de que valera  cga
    saber fallar assim?

Ruy, _triste_

                         cga?

Talitha, _simples_

                                E  Carmelita?...

Ruy, _ancioso_

     Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos
    recuperando a luz, como duas estrellas,
    iro illuminar as fragas e os escolhos
    das montanhas da  Syria, entre as monjas Carmellas?
    Quer sepultar-se em vida?

Talitha

                              E no  cemiterio
    maior a escurido deste pavor funereo,
    sem vr o sol que doira as nuvens do poente,
    sem vr a lua assim como um bero dolente
    embalando no azul um sonho que no morre,
    no vr duma colmeia o mel que filtra e corre
    como um rio de luz nascendo num enxame,
    sentir e adivinhar a suprema belleza
    da madrugada em flr, das noites constelladas,
    dos mares e do co, de toda a natureza,
    ter olhos e no vr, inda haver quem chame
    vida a tal vida? No! Mais negras, mais cerradas
    do que esta noite immensa e triste, sem estrellas,
    no pde ser, de certo, a solido das cellas,
    e o sol que tudo aquece, aquecer de leve
    a macerada fronte  monja que no teve
    nem um seio de me que um dia a amamentasse,
    nem a luz d'um olhar na pallidez da face,
    e nem um corao...

Ruy

                        Talitha!

Talitha, _ingenua_

                                 Meu doutor!

Ruy, _com inteno_

    Um corao?

Talitha, _ingenua_

                Qual foi?

Ruy, _tomando-lhe a mo_

                          O meu...

Talitha, _comprehendendo, envergonhada_

                                   O seu?

_Retira a mo_

Ruy, _enleiado_

                                          Perdoe.

_Pausa prolongada_

Talitha, _implorando_

    Que mal lhe fiz?

Ruy

                     Rasgou-me o corao, Talitha;
    e pensar, talvez, que no me fere a dr
    de vl-o assim rasgar?

Talitha, _humilde, implorando_

                           Mas creia, Ruy, que foi
    sem que eu desse por isso. E se o mal est feito
    seja agora gentil e no me rasgue o peito.
    Esquea a minha falta, esquea esta maldita,
    no se lembre da cga e deixe-a definhar
    na torva escurido desta noite polar...

Ruy

    E se eu no conseguir tirar do pensamento
    o seu casto perfil, celeste e macilento,
    se a minh'alma quizer viver escravisada
    unindo o meu destino  corrente doirada
    que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,
    se o meu olhar prefere esse apagado cirio
    dos seus olhos de cga  lucida manhan
    do amor sentimental de alguma castellan,
    como esquecel-a ento?

_Joaquina apparece ao fundo_

Talitha, _triste_

                           No creio...

Ruy

                                        Mas porque?
    J to cedo a sua alma angelica descr
    da minha que, arrastada  fimbria azul da sua,
    por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?
    No recorda, Talitha, o dia amargurado
    em que eu entrei aqui perdido e quasi morto?
    No se lembra da noite em que eu fui condemnado?
    No se lembra talvez das horas de conforto
    que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flr
    me trouxeram a rir, como um remedio santo
    da minha vida enferma  cruciante dr?
    No recorda talvez que esse supremo encanto,
    essa graa divina, aligera e bemdita
    a vida me salvou?

Talitha

                      No creio...

Ruy, _curioso_

                                    to cruel!
    Porque razo no cr, a minha alma fiel
    simplesmente traduz o que a sua entendeu?

Talitha, _com inteno_

    S porque a sua mo na minha no tremeu.

Ruy

    Entretanto, Talitha, eu amo-a...

Talitha, _tremula_

                                     Ruy!...

Ruy, _apertando-lhe a cintura_

                                             Talitha!

    _Beija-lhe docemente a mo_

Talitha

    Ah! E eu sem poder vr o labio que me beija!...
    Que destino fatal, que desgraada eu sou!

Ruy

    No foi a minha bocca ardente que a beijou.
    Foi o dce rumor da abelha que voeja
    sugando  sua mo de branca flr de liz
    o magico licr, o aroma delicado,
    que vem do rosicler florido e perfumado,
    no sangue que palpita em vibraes subtis!!

Talitha

    Mas, Ruy, o seu amor no ve como eu sou pobre!!

Ruy, _interrompendo_

    Pobre sou eu que peo a esmola angelical
    desse affecto gentil que a vida transfigura.

Talitha

    To pobre que no tenho um Pae que me conforte,
    nem caricias de me que veja esta tortura...

Ruy

    A sua alma divina essa tortura encobre...

Talitha

    To pobre que este olhar perdido  glacial
    como um floco de neve, e a desfazer flucta...

Ruy

    Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.

Talitha

    Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...

Ruy

          Alma branca de luz que illuminaste
          a ventura das minhas esperanas,
          bemdito seja o vo de negras tranas
          que sobre a minha vida desnastraste!

          Bemdito seja nesse dce engaste
          das palpebras subtis brancas e mansas
          o mesto olhar que cobre de bonanas
          a vida deste amor que tu salvaste!

          s para mim a linha do horisonte,
          curva do co,  noite, constellada,
          agua lustral de uma sagrada fonte,

          toda a ambio dest'alma allucinada,
          e a nuvem que circumda a minha fronte
          como um disco de treva avelludada...

Talitha, _de mos postas_

    Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vl-o!...

Ruy

    Sim, Talitha, ver; o meu maior desvelo
    ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.


SCENA VII

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com
lentido e junto de ambos exclama:_

    Caia a beno de Deus neste formoso par...

_Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se_

Ruy, _recuperando a serenidade_

    Talitha assim o quiz!

Talitha, _perturbada_

                         A culpa no foi minha...

Joaquina, _sorrindo e acariciando-a_

    A culpada fui eu que te deixei ssinha!

CAE O PANNO




SEGUNDO ACTO

Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas.
Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.


SCENA I

Joaquina e Padre Joo

_Conversando alegremente_

Joaquina

    Graas a Deus, chegou por fim o grande dia...

Padre

     verdade,  verdade! irm, quem nos diria
    que a linda pequenita...

Joaquina

                             A formosa engeitada...

Padre

    Que Deus nos enviou naquella madrugada
    inclemente de inverno...

Joaquina, _interrompendo_

                             E parece-me ainda
    vr a neve a cahir num p macio e branco
    no cestinho de vime, ali, ao p do banco...

Padre

    E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda
    que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu
    depois de ter mamado...

Joaquina

                            E, lembras-te, que fina!
    To branquinha, to loira, a rir, to pequenina!

Padre

    Se me recordo, irm!?... Pois ento, se fui eu
    quem primeiro velou, durante o dia inteiro,
    o somno encantador da candida innocente!...
    Se me recordo, ento?!...

Joaquina, _sorrindo_

                              Mansa como um cordeiro!...
    Mas uma coisa eu sei que esqueceste...

Padre, _curioso_

                                           Qual ?

Joaquina

    No te digo, adivinha...

_Pausa prolongada_

                              do primeiro dente...

Padre, _alegre_

     Joaquina!  verdade! O que se fez!... At
    parece que a alegria andava  tentao;
    e ns a rir, a rir, a rir perdidamente...
    Sempre ha coisas, meu Deus!...

Joaquina

                                   A vida  uma illuso,
    ligeira como o vento, s vezes nem se sente,
    no  verdade?

_Pausa_

                   Falla?...

Padre

                             , de certo, Joaquina.

Joaquina

    Pois ento que mal faz que a gente esteja agora
    a rir do que l vae por essa vida fra?!...
    Pois agora  que  rir, que passou a desgraa,
    quando a gente  feliz t na morte acha graa.

Padre

    Por causa desse dente esteve a pequenina
    tres dias por um triz...

Joaquina, _triste_

                             Bem s portas da morte...

Padre

    Valeu-lhe a vela benta...

Joaquina

                              Inda foi uma sorte
    eu ter guardado aquella...

Padre, _rapidamente alegre, interrompendo_

                               ! mana, e o baptisado?...
    Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado,
    com rodellas de paio; inda me esto lembrando
    aquelle arroz de forno e aquelle vinho brando...
    Recordas?

Joaquina, _com malicia_

              Bem me lembro, at nesse jantar
    o vinho comeou a subir e a trepar...

Padre, _interrompendo, com gravidade_

     mana...

Joaquina, _saudosa_

              E j l vo uns bons dezeseis annos...

Padre, _pensativo_

    Mas como corre o tempo!

Joaquina, _nostalgica_

                            E como a gente muda!...

Padre

    A vida no  nada! A magua, os desenganos,
    a enfermidade e a dr fazem a gente velha;
    e no ha santo algum no co que nos acuda!

Joaquina

    Pois sim, sim, mas depois os filhos vo crescendo
    e os paes a cada instante, a rir, vo-se revendo
    na luz do seu olhar em que tambem se espelha
    o tempo que passou...

Padre, _interrompendo_

                          Como o tempo  cruel!
    E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?...
    Recordas? Que manh! Mais amarga que o fel!

Joaquina, _olhando o co_

    Se me lembro, Senhor, quando ella ficou cga,
    que s podia andar guiada por alguem!...
    No hei de recordar? Recordo muito bem!
    Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediu
    que lhe fsse comprar dois olhinhos melhores
    para trocar os della...

Padre, _limpando os olhos_

                            At se me despega
    o corao de dr!...

Joaquina

                         E nenhum dos doutores
    atinou de a curar, nem sequer as promessas
    deram com ella a vr...

Padre

                            Quantas vezes subi
    os tres degros do altar e rezando pedi
    ferventemente a Deus, por amor de Jesus,
    que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luz
    a viso que perdera...

Joaquina

                           E agora tu confessas
    que a sorte a perseguiu sem d nem piedade,
    apezar de ella ser um mimo de bondade?

Padre

    Confesso. At que Deus mandou a desventura
    da sua juventude a alvorada feliz
    desse primeiro amor...

Joaquina

                           E se Elle assim o quiz!...

Padre

    Que seja feita a sua energica vontade,
    nos cos como na terra e que um dia a tortura
    tenha fim!

Joaquina

               Pois no teve, afinal?...

Padre

                                         Eu no sei...
    Dizem vocs que teve e a operao deixou
    o melhor resultado...

Joaquina

                          Elle diz que a curou!
    O que elle fez no sei, nem mesmo perguntei
    mas que ella torne a vr...

Padre

                                 isso o que deseja
    a minh'alma sincera,  vl-a venturosa!
    Entretanto, meu Deus, por que Talitha o seja
     preciso, talvez, que a vara da desgraa
    me toque o corao e a fonte caprichosa
    das lagrimas estale. A dr que me ameaa
    enche-me de pavor. Tenho um presentimento
    que me no abandona um dia, um s momento!

Joaquina

    Isso no vale nada...

Padre

                          Entretanto eu medito
    naquelle casamento.

Joaquina, _interrompendo_

                        O casamento?...

Padre

                                    Sim;
    o casamento, sim, que vae arrebatal-a
     nossa pobre vida... Est, porm, escripto,
    e Deus que o destinou ha de por fim leval-a
    e nunca mais trazel-a aqui, junto de mim.

Joaquina

    E quem nos diz a ns que essa desconfiana
    no seja apenas medo?

Padre

                          O corao, irm!...

Joaquina

    Ah! Sim o corao... o corao tambem cana!
    J no regula o teu, nem serve de evangelho,
     corao de padre e padre muito velho...

Padre

    Pois bem, no servir, mas inda esta manh,
    por occasio da missa, as lagrimas vertidas
    tombaram-me da face ao calix consagrado,
    ao recordar, ento, que um dia, angustiado,
    hei de vl-a partir! Como fram sentidas
    essas bagas leaes que, em silencio, chorei
    e que juntas ao vinho eu mesmo consagrei!
    Eu creio em Deus e espero o golpe do destino
    como um favor do co purissimo e divino!

Joaquina

    Descana, meu irmo! O Ruy  bom rapaz,
    tem muito amor  gente, ha de ficar, vers!
    Parece alma de santo e s pensa no bem.

Padre

    Pde ser, pde ser, mas recorda tambem
    a promessa que fez a nossa pequenita
    e, se ella conseguir outra vez a viso,
    l se nos vae embora a meiga Carmelita...

Joaquina

    Ah! disso eu no receio; ento crs que o convento
    tenha fora capaz de virar-lhe a razo
    o fazel-a esquecer, assim, o casamento?

Padre

    Mas se no a levar o voto de novia
    ha de a levar o amor que quanto v cobia.
    De certo a chamar, talvez para bem longe,
    a palavra inspirada e convicta do monge
    que nos fez o milagre e deu olhos  cga...
     por isso, meu Deus, que est'alma no socega!


SCENA II

Os mesmos e Ruy

Ruy, _entrando_

    Bons dias, Senhor Cura.

_A Joaquina_

                            E a me Joaquina, ento,
    como passou a noute? Aposto que sonharam
    muito commigo, sim?

Padre

                        Foi tal qual!...

Joaquina

                                         Pois eu, no;
    tive mais que fazer, dormi regaladinha
    durante a noite inteira...

Ruy

                               E bem conchegadinha?

Joaquina

    Nem mais!...

Ruy

                 E claro ento que nem, sequer, cuidaram
    de Talitha...

Joaquina

                  Cuidei, sim senhor...

Ruy, _prazenteiro_

                                        No entendo...
    se dormiu toda a noite...

Padre, _a rir_

                         , eu no comprehendo
    tambem como se possa, a um tempo s, dormir
    e velar!...  bem certo o rifo: mais depressa
    se agarra um mentiroso...

Ruy, concluindo

                              Exacto; do que um coxo...

_Ambos riem muito_

Joaquina

    Mas eu  que no sei que tanto tem que rir!

_A Ruy_

    Nem  da sua conta

_ao Padre_

                       e nem da sua! Pea
    a Deus Nosso Senhor que d mais tento aos dois:

_batendo com um dedo na testa_

    talvez haja por l um parafuso frouxo...

Padre, _com gravidade comica_

     mana, isso  demais...

Ruy, _abraando-a_

                             No v subir  serra;
    deixemos essa historia a resolver depois
    e vamos conversar da luz que se descerra
    e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...

Padre

    Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.

Joaquina

    E quer saber, menino, o que elle me dizia?...

Ruy

    Pois diga, francamente, e no esquea nada...

Padre

    No havia segredo, era to natural
    e to simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...

Joaquina

    Deixe-o fallar, menino, anda que  mesmo um louco;
    no diz coisa com coisa, a tudo julga mal
    e j pelo peior!

_Contando pelos dedos_

                     Primeiro, que a pequena
    breve nos deixar, que o Ruy vae desposal-a,
    e depois, o convento: ora veja se cabe
    uma cantiga assim na cabea d'alguem?
    Se ella ha de preferir aquella quarentena
     casa dum marido!... A mim j no abala
    essa ideia!...

_Ao Padre_

                   Voc nunca soube, nem sabe
    um marido bonito os encantos que tem...

_A Ruy_

    Finalmente, receia...

Padre, _interrompendo_

                          Eis onde pega o carro!...
    E sabe Deus, Doutor, que se no fsse a crena!!...

Ruy

    Pois bem, Joaquina, diga, em que  que o Cura pensa?

Joaquina

    Que depois de casada...

Padre, _interrompendo_

                            Oua-me ento, eu narro:
    Receio,  natural, que ella siga o marido,
    e venha a solido morar nesta choupana
    onde eu mesmo no sei como tenho vivido!
    E que ser de mim e que ser da mana,
    diga-me, Ruy, tambem o que ser de ns,
    dois velhos, nesta casa, enfermos e to ss?...
    vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos
    da saudade e da dr, sem ter no dia extremo
    aquella mo leal que feche os nossos olhos?!...
    Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...

Ruy

    Sim, mas no tem razo, pensemos na ventura,
    nessa immensa ventura...

Joaquina, _interrompendo_

                              mesmo assim que eu penso...

Ruy

    Que vae sentir Talitha ao vr a luz do sol,
    tantos annos depois de longa noite escura,
    envolto o dce olhar num vo pesado o denso!
    Vamos fallar de ns, deste novo arrebol
    que nos ha de banhar o corao e a alma,
    como um luar de outomno, uma alvorada calma,
    quando ella abrir  luz a languida pupilla
    dos olhos ideaes, to doces e to flavos,
    que so como um casal de abelhas que assimilla,
    nas flres dos jardins, o loiro mel dos favos.
    Pensemos na expresso que o seu olhar vae ter
    quando ella vir ao sol to brancos os cabellos
    do Senhor Cura...

Padre

                      Assim como a neve a descer
    sobre a minha cabea, em flcos e novellos...

Joaquina, _saudosa_

    E ns dois a curvar ao peso da nevada,
    o corpo j pendido, a procurar a estrada
    que ve  eternidade...

Ruy, _interrompendo alegremente_

                            E j pensou, Joaquina,
    no famoso jantar?

Joaquina

                      No, depois se combina.
    Como faltam ainda uns dias ao Natal
    vamos tratar primeiro...

Padre, _atalhando_

                             Isso! do nosso almoo,
    porque eu j estou sentindo um enorme alvoroo
    c por dentro.

_A Ruy_

                   Que diz?

Ruy

                            Tudo quanto fizer
    a me Joaquina, est bem feito.

Joaquina, _ironica_

                                    Agradecida!
    Eu j volto.

_Sae_


SCENA III

Padre e Ruy

Padre

                 Ento, Ruy, pensou no resultado
    que vae ter para ns a sua operao?

Ruy

    Tenho pensado muito e s me felicito:
    parece que se abriu um vasto rosicler,
    enchendo de perfume o lar da minha vida;
    descanta-me no peito o corao alado
    to viva, to alegre e limpida cano,
    que me parece ouvir palpitar o infinito
    e a dce voz de Deus abenoar-me o nome...

Padre

    Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome
    os meus dias; medito e tenho muito medo
    de uma lucta que vae ser travada, em segredo,
    no seio de Talitha...

Ruy

                          E ento que lucta  essa?

Padre

    O encontro,  luz do Sol, do amor e da promessa.
    Conheo-a muito bem. Alma branca de prola,
    possue alguma coisa assim divina e crula.
    Foi creada por mim, na dce regio
    em que repoisa a crena  sombra da orao...
    e sei que a pobresinha, um dia, prometteu
    professar e vestir o burel carmelita,
    se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar.
    A Me de Deus ouviu a prece, mas agora
    que um novo dia aponta a curva azul do co,
    mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora
    de amor e de ventura, a angelica Talitha
    ver, na sua frente, erguer-se e fluctuar,
    constante, pertinaz, energica e severa,
    a promessa que fez, a consciencia austera
    a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor
    a sorrir e a tental-a...

Ruy

                             Esse mesmo receio
    tambem me preoccupa. Eu j presinto a dr
    que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.
    Assim a Providencia s vezes desconhece
    o proprio mal que faz e como que se esquece
    da victima innocente e nessa lucta enorme
    a desgraa feroz que no cana, nem dorme,
    de certo vencer, se ns que a divisamos
    ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer
    to alto, que domine aquelle pobre ser.
    E preciso pensar e vr bem se afastamos
    da sua intelligencia a ideia do convento,
    como se afasta a flr dos impetos do vento.

Padre

    E quem ter prestigio e fora de arrancar
    quella consciencia, a dce, a delicada,
    a candida expresso da promessa sagrada
    que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?

Ruy

    Nao desejo arrancar essa illuso formosa
     crena da sua alma... A raiz dessa rosa
    no  muito profunda, apenas esbraceja
     flr do corao, por isso no viceja
    ainda como o seio altivo e perfumado
    de uma corola aberta!... Um boto delicado
    agora principia a despertar  luz...
    Dessa casta misso, que mover Jesus,
    smente, Senhor Cura, a sua phrase austera
    se pde encarregar; o prestigio da idade,
    a alvura de luar das cans alabastrinas,
    a palavra de amor, piedosa e severa,
    do seu conselho bom, to cheio de amizade,
    a sua consciencia e as affeies divinas
    que avizinham do co o seu viver de santo,
    a f que o seu olhar inspira a quem o fita,
    ho de estancar, por certo, a dr, fonte do pranto,
    nos olhos virginaes da mimosa Talitha.

Padre

    Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,
    nas duras provaes, na dr, nos desenganos,
    sem nunca haver mentido uma s vez na vida,
    tenho medo que a voz de commoo me trema,
    que me fuja o valor  hora assim blasphema
    de entregar  mentira esta fiel guarida...

Ruy

    Caridosa mentira,  culpa dce e casta
    que salva uma esperana e mais um anjo afasta
     amargura cruel de um grande sacrificio!
    Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,
    acredita que Deus condemne uma existencia
    purissima de flr, a tamanho supplicio?
    Que peccados ter Talitha a redimir
    que precise descer em vida  sepultura,
    agora que brilhou a estrella do porvir
    aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?
    No mente, Senhor Cura, o labio quando salva:
     aspera a mentira e tem a cr terrena,
    ao passo que a sua alma  branca, de aucena,
    e a sua phrase  s,  redemptora,  alva!
    Em vez de sacerdote, a confessar a freira,
    seja Pae que dirige o corao da filha!
    Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,
    desviou-lhe a razo para diversa trilha.
    Estenda-lhe o seu brao, ampare-a no caminho,
    traga de novo a rola ao palpitar do ninho!

Padre

    E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia,
    deva pedir que a filha afaste da lembrana
    a promessa que fez, com tanta segurana,
    quando implorava a Deus piedade e clemencia?...

Ruy

    Meu amigo, nao v que esse immenso fervor
    nascia do tropel da magua e do pavor?
    Que, assim feita, a promessa, alm de no ser santa,
    as almas enlanguece e os coraes quebranta?
    No v que faltou luz quella intelligencia?
    Que aquella alma vergou  estolida exigencia
    do desespero intenso e brbaro, que a ancia
    de revr inda o sol da sua alegre infancia
    envolver-lhe a cabea em nimbos de ventura
    a levaram, talvez, nessa hora de tortura,
     extrema tentao de dar a mocidade
    por um dia feliz de viva claridade?
    Levita, cuja mo diariamente eleva
    ao throno do Senhor a hostia consagrada,
    levanta esse sacrario  curva constellada,
    a flr que pede sol no viver na treva!...

Padre, _depois de uma pausa_

    Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vs perda,
    porque ha no meu peccado uma inteno to boa,
    to pura e to leal, que eu sinto adormecido
    o velho corao por nunca haver mentido...


SCENA IV

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _entrando_

    Que grandes trapalhes, aqui a badalar
    numa palrice enorme e toda a gente  espera
    que o doutor mais o cura acabem de fallar...

Ruy

    Por que ha de ser assim to m e to severa?

Padre

    Rabugice de velha!...

Joaquina

                          s meu o proveito...

Ruy, _abraando-a_

    Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo  tudo inveja...
    da sua mocidade!...

_Riem ambos_

Joaquina, _entre risonha e severa_

                        Ai, ai! o malcreado!
    Esquece a obrigao e falta-me ao respeito!
    E a culpada sou eu! Ora no ha! Pois veja
    que emquanto est gastando o seu palavreado,
    seria bem melhor que cuidasse da enferma,
    que vive ali no escuro abandonada e erma.

Padre

    E voc que fazia?

Joaquina

                      Eu fui tratar do almoo;
    no andei de conversa  espera que o man
    nos cahisse do co.

Ruy

                        Por isso falla grosso!

Joaquina

    No  da sua conta, ouviu?

Ruy, _com a maior gravidade_

                               Ouvi...

Joaquina

                                       Pois v
    tratar do seu dever porque no faz favor...

Padre

    Ento que succedeu?

Joaquina, _amenisando a voz_

                         que a pobre pequena
    j canou de esperar e quer vr se o doutor
    lhe permitte que venha at aqui  sala.

Padre

    Que diz, Senhor Doutor?

Ruy

                            Que se Talitha ordena...

Padre

    Pois faa-se a vontade...

Joaquina

                              Ento, eu vou buscal-a...

_Joaquina sae.--O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy,
encostado  meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.--Pausa
cheia de anciedade._


SCENA V

O mesmos, Joaquina e Talitha

_Talitha entra de olhos vendados, pelo brao de Joaquina. Ruy e Padre
vo ao seu encontro e tomam-lhe as mos para conduzil-a a uma cadeira.
Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha
e conversam um pouco._

Padre

    Como te sentes, filha?

Talitha

                           Afflicta, muito afflicta
    por ver a luz do dia...

Ruy, _tomando-lhe a mo_

                            A mesma curiosa
    de sempre!...

Talitha

                  Se parece  sua intelligencia
    que no tenho razo!... Ha tantos annos cga!...

Joaquina

    Deixa-o fallar, Talitha, isto  mais tagarella
    do que as creanas, vs?

Ruy

                             Pois no creia, Talitha!...

Padre, _tomando Ruy  parte_

    Prepare o corao e veja que anciosa
    aquella vida est... tenha a maior prudencia!

Ruy

     muito natural; s emquanto no chega
    o instante de tirar a venda que lhe vela
    o dulcissimo olhar...

_A Talitha_

                          Diga, Talitha, ainda
    sente alguma dr?

Talitha

                      No! apenas a impresso
    do leno que me causa a maior afflico,
    a vontade feliz, viva, crescente, infinda
    de vr de novo a luz...

Ruy

                            E no ha quinze dias
    que lhe descubro a vista?

Talitha

                             Ha, sim, mas l no escuro,
    onde eu no vejo nada...

Padre

                             Assim  que convem...
    Depois de tanto tempo, ento, j pretendias
    vr livremente o sol? Seria prematuro...

Joaquina

     muito perigoso!...

Ruy

                         E sentia-se bem?
    Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto
    ou a forma geral de qualquer um objecto?

Talitha

    Muitas vezes, pois no; primeiro vagamente,
    depois com nitidez.

Padre, _alegre_

                        Mas ento a doente
    Recuperou a vista!?

Joaquina

                        Abenoada a hora
    em que o menino entrou nesta pobre choupana!...

Ruy

    Agradeam a Deus!

Talitha

                      Doutor, porque demora
    esta venda cruel que o meu olhar empana?

Ruy

    Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.

Talitha

    Que  muito feio e mo...

Joaquina

                              Bem feito!

Ruy

    E da Joaquina?...

Talitha

    Penso della que  santa e que tem de setim
    cr da neve o cabello, a pelle muito fina,
    como eu creio que so as santas da capella.

Ruy

    E o nosso Padre-cura?

Talitha

                          Um velhinho bondoso,
    que vive para o bem e sobre os pobres vela!
    Supponho que elle tenha a cabea bem branca,
    o olhar muito suave e d'expresso to franca,
    que apparea na face enrugada e senil
    a dce candidez da sua alma infantil...
    E, cogitando assim, parece-me que vejo,
    dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,
    como um jardim florido, a minha dce infancia
    vicejando a sorrir, a sombra do seu brao,
    e o seu olhar de Pae enchendo todo o espao
    de luz, de muita luz, to dce e to leal,
    como o luar banhando as ondas de um trigal
    numa noite estreitada, e o sangue me palpita
    no seio, e o corao ardentemente agita
    na immensa anciedade afflicta e pressurosa
    de poder innundar a sua mo rugosa
    de lagrimas febris e de beijos sem fim.

Ruy

    Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...

Talitha

    Exactamente, Ruy; a saudade de vl-o
    augmenta a cada instante o meu triste flagello,
    porque nos braos delle um dia adormeci
    e no despertei mais... e ao Ruy...

_baixando a voz_

    eu nunca vi...

Ruy, _com caricia_

    Pois vae tornar a vr a boa da Joaquina
    que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.

_Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda_

    Vae vr o Padre-cura e matar os desejos
    de lhe cobrir a face e as mos de muitos beijos...
    E vae me conhecer...

_Tira-lhe a venda_

_Silencio. Commoo geral. Talitha, acostumada  treva, no supporta a
luz; tapa os olhos com as mos; depois habitua a vista, levanta-se,
olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das
pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos._

Talitha, _ luz, correndo  janella_

                          Cos! Vejo novamente
    a luz que me faltou durante a meninice!
     Sol da minha infancia, a sorrir de contente
    torno a vr-te de novo. Azul do co, meiguice
    que ha muito no beijava o meu perdido olhar,
    como deves ser lindo ao dce despontar
    da madrugada clara!

_Ao oratorio_

                        Oratorio velhinho,
    junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,
    como sinto vontade, agora que revejo
    o teu branco Jesus, do amor e do carinho
    com que pela manh e  noite eu te beijei,
    e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!

_Passa as mos nos olhos, como para certificar-se que v bem_

    Mas parece-me um sonho!

_Pausa. De novo esfrega os olhos_

                            Eu j no sou a cga...

_Pausa_

    Eu vejo tudo...

_Estaca; olha as paredes_

                    Sim, sim tudo...

_Olha para o tecto, baixa os olhos ao cho, volta-se para os lados,
palpa as cadeiras, palpa a meza, corre  commoda_

                                     Eu no me engano.
    Eu vejo a minha mo!

_Olha para as mos_

                         Mais branca do que o panno

_pega o avental e examina_

    do meu lindo avental!

_Pe a mo sobre o peito, como que desmaiada_

                          Ah! corao, socega...

_Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para
amparal-a, dizendo_

Joaquina

    Credo! Jesus, Senhor!

Talitha, _como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vl-a tem uma
commoo e exclama_

                          Joaquina!  boa e santa
    velhinha, dce me que tanta dr e tanta
    lagrima derramaste, aos ps do meu bercinho!...

_Vendo o Cura, lana-se a elle, soluando; abraa-o, beija-o, v-o,
chora, ri, torna a abraal-o, doida de alegria_

    Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avsinho!

_Deixa afinal o Cura e corre para Ruy_

    E Ruy que me salvou...

_Vae para abraal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio_

                           Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...

Padre, _soluando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a
mo e leva-a junto de Ruy_

    Beija-o, Talitha; beija, elle  digno de ti,
    emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,
    graas por essa luz que nos teus olhos brilha.

_Sae, enxugando os olhos_

Joaquina, _a Ruy_

     Virgem prometti uma lampada accsa
    durante uma semana, e por sua inteno,
    se Ella daqui levasse as dres e a tristeza,
    fazendo este milagre. Hei de accender o azeite
    e rezar a seus ps, com toda a devoo,
    pedindo  Virgem Me que este meu voto acceite.
    Louvado seja Deus! O Co vos abene!

_Sae_


SCENA VI

Talitha e Ruy

_Depois de uma pausa prolongada_

Talitha, _sempre pudica_

    Porque me encara assim? Offendi-o? Perde.

Ruy, _caminhando para ella_

    Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar,
    como um rio de luz suavissima, innundar
    a minha mocidade inhospita e sombria,
    num banho redemptor de dce calmaria.
    E parece-me vr a sombra avelludada
    da sua fronte branca, e pura, e macerada,
    fugir espavorida  luz desse claro...

Talitha

    Que eu devo to smente  sua compaixo...

Ruy

    Esquea que fui eu...

Talitha, _interrompendo_

                          No sei como se esquece...

Ruy

    Ento recordar, por toda a sua vida,
    o nosso amor feliz?

Talitha

                        A sua alma duvida?

Ruy

    Eu no duvido, eu peo, e vae na minha prece
    quanto minh'alma tem de puro sentimento...

Talitha, _curiosa_

    Na sua prece?

Ruy

                  Sim, to cheia de fervor
    como a casta orao que a sua crena augusta
    solua de manh, mais triste que um lamento,
    que vae, azul em fra, ao throno do Senhor,
    no murmurio subtil dessa bocca venusta.

Talitha

    Eu nunca olvidarei a dulcida ventura
    daquella noite densa, atormentada, escura,
    em cujo manto negro a sua mo bondosa
    rasgou a dce aurora alegre e luminosa...
    O caridoso amor, que os seus labios deixaram
    gravado nesta mo que tanta vez beijaram,
    foi um sonho feliz numa noite polar,
    sonho de primavera em noite sem luar:
    nunca mais sahir d'entre as minhas lembranas.
    Como um beijo de me na face das creanas,
    a primeira affeio nunca se desvanece,
     como a flr da lenda: a todo o instante cresce!
    Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!

Ruy

    Talitha, minha vida, a densa cataracta
    no poude escurecer a lucidez suprema
    da sua alma christ, que vale um diadema
    de rainha e de santa, a cujos ps se inclina
    a minha alma que vae sobre a esteira argentina
    que o seu vestido traa ao longo da jornada,
    como no azul do mar as velas da jangada...

Talitha

    E se a vela, batida ao vento da desdita,
    levar  sombra eterna essa infeliz Talitha
    que a sua mo salvou da mesma sombra eterna?

Ruy

    Irei onde ella v. Se a aragem fr galerna
    e o nosso amor levar a gondola encantada,
    sobre o dorso da vaga em branca espumarada,
    eu seguirei, sonhando,  pra, na epopa
    que o seu divino olhar de candida sereia
    ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.
    Se o vento arremessar a vela que enfunou
     rude penedia e sossobrar a barca,
    hei de salvar, ento, a pequenina arca,
    onde vive encerrada a pomba da alliana,
    que faz do nosso amor uma alegre esperana!

Talitha

    Apenas esperana, e nada mais! A vida
     um sonho que passa e foge; perseguida,
    occulta-se a esperana  sombra de um asylo,
    to occulto tambem que, para descobril-o,
    desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaos
    a nossa f mais pura e a crena, em estilhaos,
    desapparece e vae, por esse mundo fra,
    como nuvens no co ao despontar da aurora...

Ruy

    Porque razo, Talitha, os nossos pobres sonhos
    no podero florir, alegres e risonhos,
     plena luz do Sol?

Talitha

                        Sonhos so illuses
    que a madrugada esbate em limpidos clares,
    e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas
    iro fazer o ninho  sombra... As andorinhas
    tem que mudar de clima ao comear o inverno,
    levando para longe o seu amor materno...
    A minha acostumou-se  sombra da cegueira:
    se na sombra passou quasi uma vida inteira!
    Na sombra adormeceu, na sombra soluou
    e na sombra sorriu... A sua mo rasgou
    este sulco de luz no meu perdido olhar,
    e a triste, acostumada  sombra tumular,
    fugiu espavorida ao lucido lampejo
    e to distante foi, que nem sequer a vejo...

Ruy

     o receio infantil que vem da escurido!
    A esperana, Talitha, ainda um s instante
    no sahiu do calor que faz do corao
    o ninho aconchegado, o bero palpitante
    e o sacrario fiel do nosso casto amor!
    Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flr
    sem perder o perfume!... E a esperana, Talitha,
     o perfume do amor, a essencia que dormita
    serena e s desperta ao carinhoso afago
    dum beijo a murmurar em sonho dce e vago...

Talitha

    Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz
    do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus
    e aos ps de sua Me ella havia ajoelhado
    no fervor da orao, em dia torturado,
    prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.
    Entre ns dois agora eleva-se um altar,
    e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,
    sorrindo para o co, por ter sido fiel
     promessa que fiz...

Ruy

                          E o nosso amor, Talitha,
    no foi uma promessa?

Talitha

                          Ah! foi, mas a desdita
    lanou-lhe a maldio no dia em que nasceu
    e o nosso puro amor agora feneceu.

Ruy

    E a tua mo divina, angelico floro
    de algum ciborio astral, a tua mo de rosa
    e jaspe  que me vem ferir esta affeio
    que banhava em frescor a vida bonanosa
    deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,
     sombra do mosteiro, a tua phantasia
    volver para o passado esse formoso olhar
    to cheio de candura e te fizer sonhar;
    quando a espiral do incenso  curva do docel
    subir da tua mo occulta no burel,
    como a dce expresso duma saudade immensa;
    quando  noite o luar, vencendo a treva densa,
    entrar na tua cella e fr beijar-te a face,
    como se por ventura envolta nelle entrasse
    a minh'alma saudosa a visitar a tua:
    quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua
    a pureza vestal da tua castidade,
    sorrindo, remontar  dce claridade
    das estrellas no co, minha gentil Talitha,
    recorda o nosso amor, formosa cenobita,
    e pensa na tortura intermina e profunda
    desta vaga de fel que a minha vida innunda,
    medita nesta noite atroz, que me apavora,
    e tu me ds em paga a fulgurante aurora
    que o meu amor te deu, sorrindo de ventura...
    Bemdita seja a treva, a noite de amargura,
    bemdita seja a dr, para sempre bemdita,
    que vem da tua mo, angelica Talitha!

_Talitha, em lagrimas, solua. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que
entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dr, fita os olhos, ora em
Talitha, ora em Ruy._


SCENA VII

Os mesmos e Padre

Padre, _junto de Talitha_

    Porque choras, creana?

_Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluar de
Talitha._

                            O teu silencio abala
    toda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla...

_Silencio. A Ruy_

    A sua commoo... Ruy! Mas que succedeu?

Ruy

    Foi mais uma illuso que se desfez... morreu!

_Sae_


SCENA VIII

Padre e Talitha

Padre, _abraando Talitha_

    No te apoquentes, filha! A dr que te devora
    eu j previra ha muito. A noite tambem chora
    no calice da flr, e o co que tem a luz
    das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus
    abriu por sobre a terra a sombra dos seus braos,
    abenoando a dr que vaga nos espaos...
    Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,
    no devem, por emquanto, andar annuviados
    que se pdem cegar de novo, sem remedio...

Talitha, _rapidamente, entre alegre e chorosa_

    Ento se eu lhe pedisse...

Padre

                               O quer que seja, pede-o...
    Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...

Talitha, _lacrimosa_

    Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!

Padre

    No te apavora a noite immensa e tenebrosa?!

Talitha

    No me amedronta mais! A lua carinhosa
    vive na escurido. Fui to feliz na treva
    que chego a ter saudade e o corao me leva
    a pedir que me deixe ind'outra vez banhar
    na sombra eterna e msta a luz do meu olhar...

Padre

    Que blasphemia, Talitha!

Talitha

                             O meu labio no erra,
    e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.

Padre

    Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor
    envolva a tua crena em seu divino amor!

Talitha

    Pois oua-me um instante a confisso singela
    da incomparavel dr que a minha vida gela:

_Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado_

    Tinha soffrido muito; o immenso desespero
    de um dia de tortura, afflictivo e severo,
    me fez allucinar e, erguendo para os cos
    as mos de quem supplica, eu implorei a Deus
    clemencia a tanta dr. A noite de flagicio,
    que dava  minha vida o aspecto de um supplicio,
    parecia sem fim, sem luz e sem aurora.
    E, como a flr que  noite exhala, espao a fra,
    o aroma delicado e puro do seu seio,
    vencendo o meu temor e o natural anceio,
    eu dei, como penhor da luz que supplicava,
    a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;
    e prometti  santa e casta Samarita
    votar-me para sempre ao burel carmelita...
    Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma
    despontava, sorrindo, uma esperana calma
    que innundava de luz o corao da cga,
    e commigo pensei:--Deus, de certo, no nega
    que veja agora a luz quem sempre foi escrava:
    e nesse pensamento a vida concentrava.
    Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa
    de uma dce affeio que tem a cr da rosa;
    e, sem pensar, jmais, em vr de novo o mundo,
    o meu amor cresceu e fez-se to profundo
    que para desprender-lhe as tumidas raizes
    eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...
    Depois a mo de Ruy abriu para os meus olhos
    o vo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,
    toda em pedaos feita, a minha pobre herana,
    perdida para sempre a querida esperana
    que eu havia sonhado em dias de cegueira...
    Se sacrifico o amor pelo burel de freira
    eu deso  sepultura em plena mocidade;
    se no cumpro a promessa e minto  santidade
    do voto que levei  pedra de um altar,
    no devo conservar a luz do meu olhar
    e rogo novamente a Deus que m'a desfaa
    e  Virgem que conceda a pequenina graa
    de receber de novo esse penhor to puro,
    deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!

Padre

    Escuta, minha filha.--A Providencia, s vezes,
    se manda aos coraes as dres e os revezes
    no  que se compraza em opprimir as almas
    para lhes dar mais tarde as viridentes palmas
    do martyrio, no! No, minha ingenua Talitha.
    Eras ainda tu mimosa e pequenita
    quando ficaste cga. Abrira para o mundo,
    apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo
    sorria para a luz. Assim, innocentinha,
    tu ias de manh commigo  capellinha
    e, emquanto eu murmurava as oraes da missa,
    tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,
     Virgem que te ouvia, a Salv Magestosa,
    bem como se a rezara o labio de uma rosa...
    Desse labio subia um fervor to intenso
    como a espiral azul e timida do incenso...
    Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste
     mesma hora de sempre,  missa. E que contraste;
    tu, pequenita e cga e o Sol com tanta luz!
    Muitos annos pediste  Madre de Jesus
    que te restituisse um dia o teu olhar,
    como se a Virgem fsse autora da desdita
    que te ferira assim, minha meiga Talitha...
    Pois creana, tu crs que a Me que soffreu tanto
    no dia em que perdeu o filho casto e santo
    te pudesse roubar dos olhos transparentes
    a luz que illuminava as pupillas ardentes?
    Pois ella que te viu de rastros, a rezar,
    em todas as manhs, aos ps do seu altar,
    levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flres,
    podia assim voltar a crueldade e as dres
    sobre a tua cabea ingenua e piedosa,
    Ella que foi a Me mais dce e generosa!?
    Escuta, minha filha:--o livro do Senhor
    descreve que, uma feita, andava na Juda
    o divino Jesus prgando a sua ida...
    Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta
    a quem a dr matara a filha pequenita,
    e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse  vida
    o cadaver da filha extremosa e querida.
    Abenoando a me que aquella dr humilha
    disse Jesus ento: a tua pobre filha
    estava adormecida e agora est acordada;
    volta que a encontrars a rir, j levantada.
    E a pobre me, que vira a pequenina morta,
    depois, ao regressar, foi encontral-a  porta,
    sorrindo alegremente, entre as demais creanas,
    como um bando gazil de cordeirinhas mansas!
    Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu
    smente, no morreu. Quando a cga pediu,
     Virgem Me de Deus, que um dia t'o salvasse,
    o seu divino olhar fitava a tua face
    e despertou do somno o teu formoso olhar
    que nunca fra cgo e, apenas a sonhar,
    adormecera. E agora, agora que acordou
    pde fitar a mo de quem lhe descerrou,
    em nome de Jesus, a noite que o toldava,
    que te fazia triste e lacrimosa, escrava...

Talitha

    E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti
    votar-me ao seu burel, por tanto que soffri,
    querer perdoar a minha negra falta?

Padre

    Escuta-me, Talitha:

_Ruy surge ao fundo e escuta_

                        O corao exalta,
    pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa
    muito, muito, em silencio, indaga a tua crena
    e faze o que disser a tua consciencia,
    mas no esqueas, filha, a dce confidencia
    de Ruy que illuminou o teu escuro olhar,
    e lembra-te, depois, que, s por muito amar,
    o Christo perdoou  pobre Magdalena.
    E agora, que a tua alma est bem mais serena,
    attende-me!--Rezando adormeci. A aurora
    despertou-me, sorrindo, e entrevi, quella hora,
    um sonho que fugia, em busca de outros lares!
    Subia docemente, ao claro azul dos ares,
    o vulto da Senhora, abrindo pelo Co
    o palio virginal do seu materno vo,
    desnastrado o cabello, um manto de rainha
    recamado de ses; a nuvem que a sustinha,
    toda cheia de luz, deixava atraz de si
    um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...
    Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,
    ao peso esmagador das longas invernadas;
    e assim, postas as mos, olhando para o vulto
    da Virgem que eu adoro em fervoroso culto,
    pedi-lhe que mandasse um raio de luar
    s lagrimas de fel da tua dr sem par...

_Talitha comea a sorrir_

    E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,
    baixou por sobre o meu um dce olhar bemdito
    e eu vi rolar no azul da immensa vastido,
    no fulgor de uma estrella, o beijo do perdo...

Talitha, _correndo para a porta_

    Ruy!

_Encontra-se com Ruy e pra, pudibunda, de olhar no cho_

Padre, _s,  frente da scena, mos postas, a olhar para o co_

          Perda, Senhor, se lhe menti, perda;
    o meu labio peccou, mas a inteno foi boa!

CAE O PANNO




TERCEIRO ACTO


Modesta sala de jantar em casa do Cura.  direita, um oratorio sobre uma
commoda antiga;  esquerda, entre portas, um orgam.


SCENA I

Joaquina, s

_Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do
oratorio, accende-lhe as velas, comea a pr a meza para a ceia; tudo em
silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy._


SCENA II

Joaquina e Ruy

Ruy, _entrando_

    Boas noites, Joaquina!

Joaquina

                           As mesmas Deus lhe d!
    Inda bem que chegou; pensei que no voltasse
    aqui  nossa casa!

Ruy

                       Essa agora... e porque?

Joaquina

     boa! Inda pergunta? Esteve l por fra
    durante todo o dia e sem que se lembrasse
    que neste pobre asylo ainda vive e mora
    gente boa e christ...

Ruy, _interrompendo_

                           E quem lhe disse tanto?
    Vo vr que foi intriga ou treta de algum santo!...

Joaquina

    Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo
    e ha de vr se  feliz! No sabe que o Natal
     a noite sagrada?

Ruy

                       , sei! No foi por mal
    que faltei. Pela vez primeira no assisto
     missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos
    que falleceu meu Pae: rompia a madrugada.
    Comearam-me assim os tristes desenganos
    e a lucta da existencia abriu-se amargurada.
    Desde ento, minha Me, boa e santa velhinha,
    recorda tristemente, apenas se avizinha
    a noite do Natal, a dr daquella aurora,
    e emquanto tudo ri, ella solua e chora...

Joaquina

    Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della.

Ruy

    E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela.
    Creio que neste instante os seus labios de crente
    envolvem numa prece encantadora e mesta,
    num templo illuminado, ao celebrar da festa,
    o esposo que morreu e o proprio filho ausente.

Joaquina

    Devera ser ento mais um grande motivo
    de no faltar  missa.

Ruy

                           E creia que  bem vivo
    o meu pezar. Entanto a razo dessa falta
    foi sagrada e vae vr como ella tanto exalta
    a minha consciencia.

Joaquina, _ironica_

                         Eu imagino bem!

Ruy

    No posso vr soffrer o corao de alguem...
    Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia
    negar-me, sem peccar, ao dever que exigia
    de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo
    ardendo em alta febre e bem proximo ao termo
    duma longa existencia asperrima e deserta,
    onde apenas a dr tinha uma entrada aberta.
    Conhece aquelle atalho escuro e retirado
    que vae dar  capella?

Joaquina, _benzendo-se_

                           Onde foi enforcado
    O marido da Emilia?

Ruy

                        Exactamente, ahi.
    Mesmo nesse logar em que ficou a cruz
    existe uma choupana  qual me recolhi
    para fugir  chuva. O caminho conduz,
    pela esquerda,  Capella; a direita, ao moinho
    do velho reformado! Entrou-me na choupana
    a neta do sargento a dizer que o avosinho
    quasi estava a expirar. Fra maldade insana
    deixar morrer o velho  mingoa de cuidados.
    Fui. Mas antes no fsse. Em nada lhe valeu
    a visita que fiz, o velho falleceu...
    Como devem morrer os bravos e os soldados
    assim elle expirou, fitando bem a morte,
    firme como um leo e simples como um forte.
    Uma miseria extrema; os netos quasi ns,
    com fome e sem comida ha dois dias!

Joaquina, _benzendo-se_

                                        Jesus!
    E aqui tanta fartura!

Ruy

                          A Patria  bem madrasta!
    Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta,
    tem no peito e na face algumas cicatrizes
    das lanas do inimigo.

Joaquina

                           Ah! so bem mais felizes
    os soldados que vo  guerra e que l morrem
    no campo da batalha.

Ruy

                        Exacto. Os outros correm
    o perigo maior de morrer desprezados, como
    esse pobre velho.

Joaquina

                      E esto abandonados
    os netos, Sr. Ruy?

Ruy

                       No esto; felizmente
    fallei ao regedor e tudo se arranjou;
    demais a mais tambem, segundo me informou,
    tm direito  penso que o velho Av doente
    no poude receber.

Joaquina

                       E quem receber
    essa triste penso, se o velho que serviu
    no poude recebel-a e nem sequer a viu?

Ruy

    Tambem j pensei nisso e tudo se far,
    minha boa Joaquina. Assim, o moribundo
    me obrigou a faltar  missa do Natal.
    Se um pobre que estivesse a deixar este mundo
    lhe pedisse um amparo, a sua alma leal
    negaria essa esmola?

Joaquina

                         Ainda m'o pergunta?

Ruy

     sombra desse olhar tudo se abriga e junta
    e eu leio na pupilla esmaecida e pura,
    num misto de mudez, de pranto e de ternura,
    que o seu bom corao tambem acudiria.
    E por isso faltei; tenho, porm, certeza
    que Talitha por mim, ao menos, rezaria.
    E quando assim se tem to lucida pureza
    a interceder por ns aos ps da Divindade,
    parece que a nossa alma, em dce alacridade,
    mergulha no baptismo, em aguas de um Jordo
    todo feito de amor, de beijos e perdo!

Joaquina

    Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado
    depois que aqui chegou!... Como isto est mudado!

Ruy

    Tudo  to natural que no nos vale a pena
    gastar tempo a pensar em cousa to pequena.

Joaquina

    Ento  cousa pouca uma pobre engeitada,
    ha tanto tempo cga, e sem me, desprezada,
    encontrar quem lhe d de novo o seu olhar,
    e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?

Ruy

    Engeitada, que importa? O corao no pensa,
    ama smente e assim no indaga a nascena
    da mulher que o inspirou. Mas no  desprezada
    a formosa Talitha; esta manso amada
    serviu de lar paterno  sua dce infancia
    e, se aqui respirou a magica fragrancia
    de uma alma aberta, em flr, se a sua mo, Joaquina,
    materna, a acompanhou desde assim pequenina,
    pouco importa que a me a tivesse engeitado;
    amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado
    o sonho do porvir...

Joaquina

                         Diga, e quando casar
    vae leval-a d'aqui?

Ruy

                        Seria derrancar
    o santo corao do velho Padre-Cura;
    nem tanto necessita a completa ventura
    das minhas illuses, nem teria coragem
    para tamanho mal; seria mais selvagem
    que a propria malvadez

_abraando-a_

                           tirar ao seu amor
    o prazer de aspirar o aroma dessa flr,
    que ao seu lado cresceu, to branca e to fagueira,
    como um lyrio do valle ao p de uma roseira!

Joaquina

    Sim; isso diz agora e depois de casado
    ha de pensar, de certo, em sua me saudosa,
    e para que ella veja, alegre e carinhosa,
    o filho salvo e bom, to robusto e crado,
    o Ruy tem de levar comsigo a pequenita
    que nos serve de filha e que nos faz felizes!...

Ruy

    Descance, boa amiga; este amor tem raizes
    que eu nunca poderei arrancar de Talitha,
    nem penso em perturbar a paz do vosso azylo
    que a propria mo de Deus formou assim tranquillo.

Joaquina

    Se Deus que nos dou a innocentinha, agora
    mandasse a Me aqui para leval-a embora,
    onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem,
    porque a trouxe no collo e quero tanto bem
    que passo a minha vida olhando o azul dos cos,
    para vr se descubro a Santa Me de Deus
    e pedir-lhe que deixe  tremula velhice
    dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice,
    daquelle corao que eu vi desabrochar...

Ruy

    E o co que lhe responde?

Joaquina

                              O co?... Nada! A rezar
    tenho passado a vida e, nesta idade, a gente
    j no pde chorar, as lagrimas seccaram
    e por isto se soffre, a dr  mais pungente
    quando se quer chorar e os olhos j canaram.

_Ouve-se a voz de Talitha, fra_

Taitha

     Joaquina! Ruy, Ruy...

Joaquina

                            Ahi vem a traquina;
    E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...

Ruy, _corre  porta_

    Mas como vem alegre...

_Entra Talitha_


SCENA III

Os mesmos e Talitha

Talitha, _ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:_

                          Eu bem disse ao padrinho...

Ruy, _tomando-lhe a mo_

    Que foi que tu disseste, alma da cr do linho?

Talitha

    Que ninguem pde crr na jura...

Ruy, _interrompendo com meiguice_

                                     Das mulheres?...

Talitha, _ralhando com carinho e retirando a mo_

    Dos homens... atrevido, ainda tens coragem
    de rir?...

Ruy, _alegremente_

               Ou de chorar, se tu assim preferes...

Talitha

    Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem
    da noite de Natal?

Ruy

                       Pois pergunta  Joaquina...

Joaquina, _intervindo_

    A mim? no sei de nada...

Ruy, _a Talitha_

                              Ella est gracejando;
    sabe tudo to bem como eu, mas imagina
    que tu s ciumenta e ento, de vez em quando,
    a recordar o tempo em que era rapariga,
    faz pirraas  gente, armando alguma intriga...

Talitha

    A verdade, porm,  que faltaste e eu no.

Ruy

    Pois bem, faltei; mas tive uma forte razo:
    o velho reformado estava agonisante
    e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante
    assistir-lhe  agonia. Expirou-me nos braos:
    ia o sol a fugir na curva dos espaos,
     hora em que solua o sino das trindades
    o Angelus sagrado envolto nas saudades
    que a terra balbucia, agradecendo ao co
    a luz que lhe mandou na flacidez do vo
    crepuscular e dce, oiro tecido em gaze,
    sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

Talitha

    E nunca mais o vi, nem o verei jamais!...
    Foi cgo como eu fui. Nas manhs estivaes
    muita vez o encontrei, canado dos trabalhos,
    pedindo esmola ahi por todos os atalhos.
    Elle ia pela mo da neta, uma creana!
    Era um velho senil  sombra da esperana!
    Eu a recostada ao brao do padrinho
    e, ao sentir-me, dizia: ampare-me esse anginho
    --amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja
    --como um velho soldado, a mendigar, rasteja
    --neste mundo de Christo--. E ficava a pensar
    naquelle desgraado. O meu perdido olhar
    novamente voltou, quando o delle se apaga
    na escurido mortal que tudo cobre e alaga...
    Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Ruy

    No faltar calor s meigas andorinhas.

Joaquina

    E quem lhes ha de dar?

Ruy

                           Quem?

Talitha

                                 Deus, Jesus e ns!

Ruy, _com ingenuidade_

    Ns seremos os paes:

_a Joaquina_

                         tu e o Cura, os avs...

Joaquina

    Valha-te Deus, tontinha!

Ruy, _a Talitha_

                             Encantadora e casta;
     Virgem Conceio, flr, ingenua madrasta,
    bemdito seja o dia em que te amei, formosa,
    sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...

Talitha, _admirada_

    Que tem isso de mal? Tambem elle era cgo,
    no podia cuidar da neta que o guiava
    e agora, felizmente, eu tenho no aconchego
    da minha mocidade a luz que me faltava
    e posso olhar por ella. A minha desventura
    no teve neste asylo o amor do Padre-Cura?
    Depois no tive ainda?!...

_Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se_

Joaquina, _beijando-a_

                               Ah! minha tagarella!...

Ruy

    Depois tiveste ainda o teu formoso olhar
    que andava l no co illuminando a estrella
    d'alva. E agora tambem tens muito que narrar
    do que viste na igreja...

Talitha

                              Ah! na missa do gallo?
    Eu vinha exactamente aqui para contal-o...
    O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura
    dizia aquella missa!... Inda agora fulgura,
    sobre a minha retina, a vivida impresso
    do seu olhar to dce e manso, de perdo...
    Inda agora o sorriso, angelico e furtivo,
    do seu labio de rosa, orvalhado e festivo,
    innunda de frescor a minha vida inteira,
    como o rcio da noite  flr da amendoeira.

Ruy

    Quem foi que te sorriu com tamanha affeio,
    que fez vibrar tu'alma em tanta commoo?

Talitha

    Um milagre de Deus! Se tens f, acredita
    no que te vou dizer.

Ruy

                         Dize, minha Talitha!

Joaquina, _approximando-se_

    Conta, conta o que foi.

Talitha

                            Pois nesse caso, ouvi:
    Quando eu entrei no templo um borborinho enorme
    encheu toda a capella; ento foi que eu senti
    como  triste ser cgo e ter olhar que dorme
    tantos annos de vida, em funda lethargia,
    sem a beno gentil de vr a luz do dia!
    Toda a gente fallava, olhando para mim,
    e eu muito satisfeita a caminhar assim...

_Imita o andar magestoso_

Ruy

    Como tu s vaidosa!

Joaquina, _sorrindo e pondo as mos_

                        E como ella  catita...

Talitha, _a Ruy, ingenua_

    Mas se eu fsse a teu lado, inda era mais bonita!...
    Deram-me tanto abrao e beijaram-me tanto!
    A capellinha estava alegre, era um encanto.
     entrada muita flr, o altar com muita luz,
    e num bercinho branco o menino Jesus,
    to lindo, to mimoso e to engraadinho,
    que parecia mesmo um rouxinol no ninho.
    Uma velha fitou-me e disse: que princeza!
    Um velho lavrador olhou-me com surpreza
    e bem alto fallou: Que Deus Nosso Senhor
    te d um bom marido...

Ruy

                            E que disseste, amor?

Talitha

    Nem uma palavrinha! Eu a bem calada,
    entre muito contente e muito envergonhada.

Joaquina

    E depois?

Talitha

              E depois... fui ento ajoelhar,
    ssinha, nos degros que sbem ao altar,
     espera que viesse, a meia noite, a missa.
    Rezando ali, a ss, com fervor de novia,
    lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram,
    subindo-me do seio aos olhos que as choraram.
    Eu sentia uma dr immensa, por fugir
    ao voto que fizera e, em vo, quiz resistir,
     minh'alma affluia um extranho remorso
    e embora eu despendesse o mais sincero esforo,
    para conter o pranto, o corao vergava
    e, numa agitao convulsa, palpitava
    acabrunhado e triste...

_Ouve-se o repicar dos sinos_

Joaquina, _interrompendo_

                            Ai! que acabou a festa
    e a ceia por fazer, mas que cabea  esta!...

_Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa_

Ruy

    Mas no te lembras j que, em nome do Senhor,
    o Cura abenou o nosso casto amor?
    No te lembras tambem da lucida viso
    que te trouxe do co a estrella do perdo?

Talitha

    De tudo me lembrei; no sei que fora extranha
    pesava sobre mim, como immensa montanha,
    e no deixava erguer o meu olhar medroso
    para encarar de frente o vulto magestoso
    da Virgem Me de Deus! Mas quando o Cura entrou
    parece que a minha alma

_torna o sino a repicar_

                            alegre despertou...
    Senti uma esperana illuminar-me o seio
    e dissipar-se ento esse cruel receio!
    Rezei muito, rezei com tanta commoo,
    pedi com tanto ardor, com tanta devoo,
    que a minh'alma subiu, to leve e to submissa,
    aos ps da Me de Deus, durante aquella missa,
    como se fsse presa a hostia consagrada
    que o Cura levantava  cruz abenoada...
    Com ella o meu olhar de supplica subiu.
    E fitando, sem medo, a face alabastrina
    da candida judia, eu vi que Ella sorriu
    com to dce expresso de placidez divina
    que me banhou de luz amortecida e calma
    a minha santa crena e fez vibrar minh'alma!
    Senti que era o perdo que vinha, n'um sorriso,
    abrir  minha vida um novo paraiso...
    Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella
    e, beijando-lhe a mo que sobre o mundo vela,
    ouvi, como um soluo, a sua voz to pura,
    dizendo-me em segredo, em intima ternura:

                Que lindos olhos, Talitha,
                os olhos que o Ruy te deu:
                tem uma luz infinita,
                parecem feitos no co...

_Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narraro de
Talitha, enlevada, abraa-a, lacrimosa, beija-a..._

Ruy, _emquanto Joaquina abraa Talitha_

    Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena?

Talitha, _desprendendo-se de Joaquina_

    Ouvi perfeitamente; a voz era serena,
    to serena e subtil que a mim se affigurava
    ser o proprio silencio assim que me fallava.

_Ouve-se o repicar dos sinos e comea-se a ouvir as primeiras vozes dos
cros distantes._

    Estremeci de alegre e acreditei ento
    que surgira, afinal, o dia do perdo;

_Approximam-se as vozes_

    desci do altar, corri, deixei a missa e vim,
    como se o corao cantasse dentro de mim,
    para dizer-te, Ruy, que a minha vida  tua.

_Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos
timida, brincando com o avental: pausa e silencio._

Joaquina, _percebendo_

    Filhos, no serei eu quem assim vos destrua
    as santas illuses...

_ouve-se o cro muito perto_

                          Se Deus as abena!...

_Sae_

Talitha, _vendo-a sahir_

    Ruy!

_Corre para elle_

Ruy, _recebendo-a nos braos_

         Ah! minha Talitha!

Talitha, _abraada, beija-o_

                            Oh! meu amor!

Ruy, _beijando-a_

                                          Perda!

_As vzes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de
fles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem._


SCENA IV

Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes

_O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois
que se beijam e Joaquina que est estupefacta, junto  porta._

Padre, _fingindo que no v e fallando alto_

    Raparigas, entrai, a noite  de alegria...

Talitha, _surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz_

    Tem razo, meu padrinho, nossa phantasia
    deve expandir-se agora...

Padre, _com caricia, baixo a Talitha_

                              Assim, aos beijos, no...

Talitha

    Quem poder conter o nosso corao?

_s raparigas_

    Raparigas, cantae! A cga j tem vista;
    que a Virgem Me de Deus a todas vs assista;
    a freira, que devia entrar para o convento,
    teve hoje a redempo do seu cruel tormento!

Um rapaz

    Viva a cguinha!

O grupo

                     Viva!

Outro rapaz

                           E mais o Padre Cura!
    Viva!

Uma rapariga

          Viva quem fez este milagre!

O grupo

                                      Viva!

Um rapaz

    E a me Joaquina, ento, que  mesmo uma ternura?!

Todos

    Viva!

Joaquina

          Muito obrigada!

Ruy

                          Olha como  altiva!

Padre

    Raparigas, danae!

Ruy, _a uma rapariga_

                       Pois cante a cotovia,
    e vibre essa garganta at romper o dia...

_As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com
Talitha e Ruy  frente, danam a Ciranda. O Cura, sentado em uma
cadeira, observa alegremente a scena._

Uma rapariga

            Quem deu espinho s roseiras
            no teve muita razo,
            antes dsse ao corao,
            como deu s Tarangeiras.

            Deus que creou tantas flres
            fez as estrellas aos centos:
            no dorme quem tem amores,
            que os amores so tormentos.

Segunda rapariga

            Toda tu pareces feita
            com a cra das abelhas,
            quando alguem d'aqui t'espreita
            ficam-te as faces vermelhas.

Primeira rapariga

            Quem ao p do Sol caminha
            anda sempre com calor,
            Quem  lua se avizinha
            pde at crear bolr.

            As tuas tranas so pretas,
            pareces de cra mol,
            no te abeires muito ao sol,
            olha l no te derretas...

_O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e
acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e
encaminha-se para o grupo:_

Padre

    Tambem eu quero entrar na dana, raparigas,
    e ser como a papoila em meio das espigas!

Primeira rapariga

            Viva, viva o Sr. Cura,
            que  o paesinho desta aldeia,
            que tem a alminha mais pura,
            mais alva que a lua cheia.

_Neste momento ouve-se bater  porta violentamente, ao mesmo tempo que
cessam os guizos denunciativos de um carro que parou  porta.
Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformao de
physionomia que todos os circumstantes percebem._

Padre

    Um carro, Santo Deus!

_Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, pe as
mos em orao._

Ruy, _acudindo_

                          Senhor Cura, que tem?

_Ouve-se bater de novo_

Padre, _pensativo_

    Ha tantos annos j!

_Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae  porta e
abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com
malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente._


SCENA V

Os mesmos, Marqueza e Escudeiro

Padre

                         Perdo! Procura alguem?

Marqueza

    O Cura Joo Fulgencio!  Vossa Senhoria?

Padre

    Sou eu mesmo, Senhora!

Marqueza

                           Inda bem, obrigada!
    Eu j tinha certeza, o co me conduzia.
    No quero perturbar a alegria da noite:
    Viajante, ssinha, e quasi desviada
    pela neve que tomba, eu peo onde me acoite.

Talitha

    Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tecto
    encontrareis conchego e o mais sereno affecto.

Marqueza, _olhando-a_

    Obrigada, creana!

Talitha

                       A Noite  de Natal
    e o nosso corao no sabe fazer mal...

Padre

    Deveis estar canada, o inverno vae to duro!

Marqueza

    Pensei que no chegava  sua residencia.
    A nevada  cruel, o caminho coberto,
    o frio  de cortar, o co est escuro,
    nem um astro se v, perde-se a consciencia
    da nossa propria vida, a estrada  um deserto...
    Nem sei como cheguei...

Talitha

                            Jesus a protegeu...

Marqueza

    Eu creio bem que sim e dou graas ao co!

Padre

    E no quer repousar?

Marqueza

                         Antes, porm, quizera,
    Senhor Cura, dizer o que me traz aqui...

Padre

    Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouvera
    que eu pudesse remir a dr que presenti...

_a Talitha e Ruy, fingindo alegria_

    Ide com Deus, cantae!

_O grupo retira-se em silencio, curiosamente_

Talitha, _a Ruy_

                          Quem ? Quem te parece?

Ruy

    No sei, mas esta voz a minh'alma conhece.

_sahem_


SCENA VI

Marqueza e Padre

Padre

    Senhora, estamos ss! Vossa Excellencia ordene!

Marqueza

    Oua-me, Senhor Cura! oua e no me condemne!

Padre

    E condemnar por que? Se tem algum peccado,
    o corao de Deus no estar fechado!

Marqueza

    Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,
    estaria acabado este immenso desgosto
    que me tortura a vida; a asperrima inverneira
    embaraou-me o passo e augmentou-me a canceira.

Padre

    E vem de muito longe?

Marqueza

                          Ah! sim, de bem distante,
    anciosa, esperando este feliz instante.
    Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,
    alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...

Padre

     verdade, Senhora!

Marqueza

                        Uma carta pedia
    ao Cura desta alda a esmola caridosa
    de guardar a creana, at que a me chorosa,
    depois, a procurasse. Afinal esse dia
    felizmente chegou e a me que a dr humilha,
    Senhor Cura, a seus ps, vem procurar a filha...

Padre

    E como poderei saber se esta senhora
    que se confessa me, embora peccadora,
     realmente a me da creana engeitada
    ha tantos annos j, naquella madrugada
    tristissima d'inverno?

Marqueza

                           A carta igual quella
    que o Senhor Cura achou no bero, junto della...

Padre, _tomando a carta_

    Mas falta alguma cousa...

Marqueza

                              A prola? est aqui...

_D-lhe a prola_

    Pois desde aquella noite eu jmais a perdi
    de vista e a conservei com cuidadoso afan,
    como alguem que resguarda um rico talisman.

Padre

    Seija feita de Deus a sagrada vontade,
    embora se me parta o corao de dr...

Marqueza

    Essa dr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!
    Eu no quero quebrar to dce piedade
    que fez de minha filha o seu risonho amor,
    nem desejo apagar a luz da sua vida
    num soluo de magua.

Padre

                         Ento no vem buscal-a?

Marqueza

    No, no, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.
    A minha desventura, emfim, se condoeu
    dest'alma cruciada e triste que viveu
    reclusa na saudade, apenas na esperana
    de vr um dia ainda essa gentil creana...
    Se nunca procurei saber dessa existencia
    no  que se apagasse em minha consciencia,
    como um sonho infeliz, a lembrana dorida
    dessa flr do peccado em anjo convertida.
    Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus smente!
    Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,
    e quanto passei eu por causa desta filha
    dil-o, com eloquencia, a dr que me polvilha
    a cabea de cans. Amal-a com ardor
    e ter de estrangular todo esse immenso amor!...
    Vl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,
    mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto
    as faces lhe banhava e no poder sorvel-o,
    que tormento cruel, que duro pesadello...
    Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,
    que at para soffrer  preciso mentir!
    No me pergunte, Padre, a origem desse amor
    ninguem perguntaria ao seio de uma flr
    como foi que nasceu o aroma que elle exhala.
    Bastar que lhe diga: a dr que me avassalla
     a amiga fiel que me segue ha vinte annos,
    que nunca me deixou; que os tristes desenganos
    dessas horas sem luz foram os companheiros
    da minha mocidade e os filhos feiticeiros
    que encheram o meu lar de pranto e de amargores,
    como um dia sem sol, como um jardim sem flres.
    Um dia, Sr. Cura, em confisso, no templo,
    diante do seu olhar que eu agora contemplo
    humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia
    da minha desventura e desta dr ingloria,
    mas no exija, Padre, agora, que eu recorde
    o passado infeliz, que o corao acorde
    do somno em que repousa, e desvende o segredo
    que a vida me cobriu de sombras e de medo.

Padre

    Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas;
    mas a minha velhice acostumou-se a vr
    em to meiga creana uma filha extremosa
    junto de mim crescer, florir como uma rosa
    ao p dum castanheiro, e fazer-se mulher.
    Aos dez annos cegou...

Marqueza, _interrompendo, afflicta_

                            cga a minha filha?

Padre

    Foi: ha dias, porm, a luz de novo brilha
    no seu formoso olhar. Emquanto a escurido
    durou, eu sempre a trouxe unida ao corao,
    apoiada ao meu brao.

Marqueza

                          E quem foi que a curou?

Padre

    Alguem que a soube amar. Um dia despontou
    na sua alma de flr um novo sentimento
    e a pobre cga amou e foi tambem amada.
    Queria dedicar-se  vida enclausurada
    na casta regio da cela de um convento,
    mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve
    o vago mysticismo e a Virgem que a fadou,
    condoendo-se della, o seu amor salvou...
    De modo que, feliz, dentro de pouco, deve
    desposar um rapaz, formoso corao...

Marqueza, _interrompendo_

    Ruy de Ornellas, talvez?

Padre, _admirado_

                             Mas como adivinhou?

Marqueza, _depois de uma pausa_

    No importa saber; prosiga, Senhor Cura,
    eu contarei mais tarde essa alegre aventura,
    to simples e feliz.

Padre, _proseguindo_

                         A mim, pobre ancio,
    uma alegria basta: a de morrer contente
    por haver feito bem  candida innocente.
    Do mundo nada espero, esta gentil creana
    era a minha formosa e unica esperana:
    arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola
    dessa flr, que me dava a encantadora esmola
    do seu perfume agreste, arrasta a minha vida
     derradeira estancia,  ultima guarida...

Marqueza

    E quem lhe disse, Padre, as minhas intenes?

Padre

    Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os coraes
    carinhosos das mes no querem a partilha
    das caricias, do amor, dos beijos de uma filha.
    Talitha vae partir; que o Senhor a conduza
    e que uma boa estrella ao seu porvir reluza.

Marqueza

    Attenda, Sr. Cura! A me que ora lhe falla
    tambem sabe que a dr o corao estala
    e no lhe vem roubar a luz dessa velhice
    to cheia de bondade e simples de meiguice.
    A dr me fatigou e eu quero repousar
    de tantas afflices, e venho procurar,
    nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,
    a paz que no frui na minha mocidade.
    Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho
    onde acaba a existencia: , talvez, um capricho...
    Mas quero aqui viver ao lado desta filha
    que a sua alma de santo, alvissima, perfilha
    e nunca mais sahir deste sereno azylo
    to suave e to bom, to feliz e tranquillo,
    onde mora a virtude. A filha que eu procuro
    tambem  muito rica e tem porvir seguro.
    Se a desventura um dia a separou de mim
    a minha vida agora ha de chegar ao fim,
    aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.
    E o dce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,
    abrindo sobre ns o pallio da ventura,
    ha de envolver na sombra o corao do Cura
    que fez de minha filha a filha da sua alma,
    extremosa e leal. E Deus que tudo acalma
    ha de extinguir a dr de todo esse passado
    que eu vejo, felizmente, agora terminado...

Padre, _alegremente_

    Obrigado, Senhora. O corao que sente
    a alheia desventura e lana boamente
    o seu conforto amigo a quem j nada espera,
    tem, nas benos do co, eterna primavera...
    E agora que sabeis que a vossa filha  viva,
    attendei-me, Senhora,  santa rogativa:
    Talitha esteve cga. O homem que salvou
    o seu formoso olhar o amor lhe conquistou.
    Ella, uma encantadora e formosa creana,
    concentra nesse amor toda a sua esperana:
    tiral-a ser dar-lhe o mais cruel supplicio.

Marqueza

    No preciso pedir to duro sacrificio
    ao seu bom corao. Eu quero-a vr feliz,
    se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.
    Procurava uma filha, encontrei um casal:
    para mim, que sou me, jmais este Natal
    feliz esquecerei. E agora que conhece
    a Me da sua filha, attenda  minha prece
    e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.

Padre

    Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a.

_Entra e volta com Talitha pela mo_


SCENA VII

Os mesmos e Talitha

Padre, _entrando, a Talitha_

    Recordas que uma vez, em lagrimas banhada,
    disseste que a tu'alma andava amargurada
    a pensar que jmais a tua me verias?
    Recordas a palavra alegre, de conforto,
    que te disse a sorrir quando tu me pedias
    a luz do teu olhar que tu suppunhas morto?

Talitha

    Nem eu posso esquecer.

Padre

                           Pois, filha, a Providencia
    abriu  tua vida a sua immensa graa.

Talitha, _curiosa_

    E ento?

Padre

             Ento responde: em tua consciencia
    que mais desejas tu que o Santo Deus te faa?

Talitha

    Que eu possa vr um dia a minha Me querida!

Marqueza, _correndo para ella e abraando-a_

    Talitha, minha filha! Amor da minha vida!

Talitha, _surprehendida_

    Minha Me! Minha Me!

_Abraam-se em pranto_

Padre

                          Obrigado, Senhor;
    abenoado seja este Natal de amor!

Marqueza, _desprendendo-se de Talitha_

    Mas como eu sou feliz! Como tu s bonita!
    Que lindo nome o teu! Quem te chamou Talitha?

_Beija, abraa-a, encara-a sorrindo e soluando. Senta-a nos joelhos_

    Quero ver bem de perto o teu formoso olhar.

_Fita-lhe os olhos_

Talitha

    E j sabes, mam, que de tanto chorar
    com saudades de ti, um dia fiquei cga?

Marqueza

    Com saudades de mim?

Talitha, _agitada_

                         No crs, mam?

Marqueza

                                         Socega;
    eu acredito em tudo, a tua alma no mente...

Talitha

    Mam, como eu te quero!

_Abraa-a_

                            Olha-me bem de frente!
    Tanto tempo sem vr a imagem dos meus sonhos,
    agora que te encontro, eu desejo risonhos
    os teus olhos de Me que nunca vi mais bellos;
    quero beijar, sorrindo, os teus alvos cabellos
    e sentir palpitar o seio teu, amigo,
    e o meu seio de filha, a palpitar comtigo.

_O Cura, que se tem enlevado a contemplar a scena, sae p ante-p,
olhando o grupo e chama para dentro. Entram Joaquina e Ruy._


SCENA VIII

Os mesmos, Joaquina e Ruy

Marqueza

    Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes
    com tua me?

Talitha

                 Sonhava!

Marqueza

                          E o sonho que dizia?

Talitha

    Tanta coisa, mam! Quando os nossos revezes
    nos vinham perturbar, desde o romper do dia
    at o anoitecer, pensava em ti, mam,
    e, sem dormir, sonhava at pela manh.

Marqueza

    Mas revezes de quem?

Talitha

                         Desta immensa tristeza
    que vinha atormentar a vida de pobreza

_baixo, quasi em segredo_

    do nosso Padre Cura...

Marqueza

                           E o Padre Cura  pobre?

Talitha

    Muito, muito, mam, mas to bom e to nobre
    que nunca pude ouvir um lamento, sequer!

Marqueza

    D'hoje em diante, porm, no faltar mais nada:
    ser de todos ns aquillo que eu tiver.
    Tu s rica, Talitha, e d'alma bem formada,
    por certo acudirs de todo o corao
    por que no faltem mais nem ventura, nem po
    a quem te fez gentil, to boa e generosa...

Talitha

    Muito rica, mam?

Marqueza

                      Que te serve saber?

Talitha

     que o velho sargento acaba de morrer
    deixando na miseria immensa e dolorosa
    os netinhos com fome. O velho era cguinho!
    muita vez o encontrei mendigando, ssinho,
    para matar a fome e, se eu hoje sou rica,
    s este pensamento a dr me purifica
    e, se tu ds licena, o Ruy vae procural-os.

Marqueza

    Pois sim, minha Talitha, irs tambem buscal-os;
    que sejam teus irmos j que assim o quizeste.
    Mas dize, o Ruy quem ? Inda no m'o disseste...

_Durante este dialogo as duas no podero vr as demais pessoas,
enlevadas como esto. Ha sorrisos em todos._

Talitha, _perturbada_

    O Ruy?...

_Baixa os olhos, sorri e cala-se_

Marqueza

              Sim, sim o Ruy...

Talitha, _enleada_

                                O Ruy  um doutor...
    Quando eu estive cga... Eu era to cguinha!...
    Elle tratou de mim e fez a operao...

Marqueza

    S?!

Talitha

         O resto no conto...

Marqueza

                              E porqu?

Talitha

                                        Adivinha!

Marqueza

    E no furtou tambem o teu primeiro amor?

Talitha

    Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar,
    eu dei-lhe o corao...

Marqueza

                            Mas depois de casar
    deixars tu ssinho o velho Padre Cura?

Talitha

    Nem eu quero pensar em tamanha loucura.
    Viveremos aqui juntinhos da Joaquina
    que sempre me guiou, do tempo de menina.

Marqueza

    Pois vae dizer ao Ruy que tua me quer vl-o.

Talitha, _soltando-se do pescoo da me, sorrindo alegremente._

    Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello...
    Ruy! Ruy!

_Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraada e cobre o
rosto com as mos._

              Meu Deus, que susto!

Padre

                                   Ouvimos tudo, tudo!...

Marqueza, _voltando-se_

    Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo...
    A culpada fui eu...

Ruy, _surprehendido_

                        Ah! Senhora Marqueza!

Marqueza

    Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza
    o vl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou
    em busca deste co to puro que o salvou.
    Previ toda esta scena e quando aconselhei
    que viesse at c, senti que palpitava
    o meu seio de me. J v que adivinhei
    e o meu presentimento o bem me segredava...

Talitha, _admirada_

    Mam, tu s Marqueza?

_Silencio prolongado_

Marqueza

                          A Marqueza morreu...
    Agora sou a me da mimosa Talitha
    que vem pedir perdo a quem assim soffreu
    dessa magua sem par, dessa dr infinita,
    que tanto fez chorar a tua mocidade,
    as lagrimas febris e negras da saudade.
    Agora sou a Me que um dia te engeitou
    e que uma vida inteira a dr acabrunhou,
    que vem pedir perdo ao velho Padre-Cura
    do quanto padeceu para te dar ventura,
    que vem agradecer  santa da Joaquina,
    os beijos que te deu quando eras tamanina,
    que vem pedir a Ruy o supremo favor
    de dar  sua filha o seu primeiro amor...

Ruy

    Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola
    do casto corao da candida Talitha,
    como um beijo de luz que conforta e consola
    a dr da minha vida. O peito me palpita
    na suprema alegria e eu penso na alvorada
    desta noite feliz, de lucido natal,
    bemdizendo, Senhora, a dce madrugada
    que vae surgir em breve.

Talitha

                             Ao despontar o dia
    vamos todos buscar os netos do sargento...
    Tu concordas, mam?

_Ao Cura_

                        Acha que fao mal?

Padre

    Para ti, minha filha, a madrugada  fria.
    O Ruy ir commigo e apenas num momento
    as creanas viro: descana, pequenita.

Marqueza, _a Joaquina_

    Repare bem, Joaquina: este casal catita
    como envelhece a gente!

Joaquina

                            E Deus Nosso Senhor
    lhe d por toda a vida o seu sagrado amor!

Padre

    J toca  missa d'Alva...

Ruy, _a Talitha_

                             Estrella d'Alva, pura,
    immaculada estrella, o co desta ventura
    estende sobre ns a cupula sagrada
    e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada
    que faz de ti, creana, a dce Conceio
    do meu culto feliz, purissimo e christo.

_A Joaquina_

    Um dia, bem me lembro, a sua mo amiga
    mais trmula e subtil do que uma branca estriga
    s aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario
    da sua alma de santa, entregou-me um rosario.
    Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflico
    esse rosario amigo encheu-me o corao
    duma frescura immensa e assim se dissipou
    essa nuvem cruel que sobre ns passou...
    Quero beijar a mo da santa que me deu
    nesse rosario astral uma viso do co:
    a flr que se banhou na sua f divina,
    bondosa creatura, alvissima Joaquina!

_Beija-lhe a mo. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental._

Padre

    O dia vae surgir, o sino da capella
    convida-nos  missa. Ali pela janella
    j vem a madrugada entrando alegremente
    num baptismo de luz que brota do nascente.

Talitha

    Meu Deus, como  feliz a minha mocidade!
    Rasgou a mo de Ruy a dce claridade
    ao meu perdido olhar, depois a me de Deus
    envia-me o perdo do fundo azul dos cos:
    e, dando luz  cga e vida  condemnada,
    entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada
    do Natal de Jesus, a minha Me distante.
    Meu Deus, como  feliz neste sereno instante

_a Ruy_

    a nossa mocidade ao p desta velhice
    to boa e to leal! Antes que alguem cobice
    esta aurora de amor que ao co nos avizinha
    eu vou rezar por ns uma Salv-Rainha:

_Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio;
ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de p._

Talitha

    Salv, Rainha Me, cu de misericordia,
    vida e doura, amor, luz da nossa esperana,
    lanae por sobre ns o manto da concordia.
    Salv, Rainha, Me serena de bonana!
    A vs, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos,
    por vs que estaes no co, gemendo, suspiramos,
    neste valle de magua e dr. Eia, Senhora!
    Sde a divina Me, a dce protectora
    da nossa vida inteira e para ns volvei
    esse olhar piedoso e to cheio de luz!
    Sobre o nosso destino a vossa mo pendei,
    rasgae a nossa dr, mostrae-nos a Jesus,
    fructo do vosso ventre,  sagrada e clemente,
     Virgem dce e casta,  candida innocente!
     Santa Me de Deus, ouvi a nossa voz
    to simples e fiel, rogue no cu por ns,
    por que sejamos bons e dignos da promessa
    do moreno Jesus. Que a nossa vida aquea
    o materno calor da estrella de Bethlem,
     luz do vosso olhar, por todo o sempre.

Padre

    Amen!

CAE O PANNO




RESPOSTA  CRITICA INDIGENA

    _Toute l'operation critique se borne ainsi a constater un fait,
    depuis la cause qui l'a produit jusqu'aux consquences qu'il
    produira. Sans doute, un pareil travail contient une leon, et  se
    voir dans un miroir aussi fidle, un crivain peut reflchir,
    connitre ses infirmits, tcher de les marquer le plus possible.
    Seulement, la leon vient de haut, sort de la verit mme du
    portrait el n'est plus l'enseignement gourm d'un professeur. La
    critique expose, elle n'enseigne pas. Elle a compris elle-mme que
    son influence sur le niveau litteraire tait  peu prs nulle, car
    les tempraments restent indociles; et elle a prfr jouer le beau
    rle d'ecrire l'histoire litteraire contemporaine, explique et
    commente._

    E. Zola. _Documents litteraires_, pag. 334.


    _Est critique,  notre jugement, celui qui fait effort pour
    comprendre et qui juge avec sympathie._

    Nolet. _La vie et l'oeuvre de Chateaubriand_, pag. 673.


    _...si nous possedons quelques talents, nous nous empressons de les
    dprcier. Aprs les avoir levs au pinacle, nous les roulons dans
    la bosse; puis nous y revennons, puis nous les mprisons de nouveau.
    Nous ne pouvons souffrir de reputation; il nous semble qu'on nous
    vole ce qu'on admire: nos vanits prennent ombrage du moindre
    succs, et s'il dure un peu, elles sont au supplice._

    Chateaubriand. _Essai sur la litterature anglaise_. pag. 171.


    _Que la scne soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la mme
    distinction entre l'motion relle et l'motion esthtique. Il faut
    de toute necessit, pour que cette dernire soit possible, que
    l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne
    puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un
    intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre;
    c'est surtout au thtre que cette distinction entre le rel et le
    fait poetique est essentielle. L'illusion complte, loin d'tre le
    suprme degr de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la
    ngation._

    Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408.


RESPOSTA  CRITICA INDIGENA

A _Talitha_  uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo
corao  mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou
em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira
das paixes pretendeu ferir.

Devo, quero e vou defendel-a.

      *      *      *      *      *

Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu:

    Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant
    d'ecrire, et quand on a crit une page, on l'affirme, on la dfend.

    _La critique contemporaine_, pag. 356.

A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar
em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_
no  uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor no nasceu em
Portugal, nem brazileira porque a aco se passa em terra estrangeira,
entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da
provincia de Traz-os-montes.

      *      *      *      *      *

A censura  futil.

A critica esquece que Portugal  a patria da nossa patria; que o nosso
idioma nacional ainda no sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a
lingua de Cames foi a lingua de Gonalves Dias e ainda hoje  a lingua
de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de Jos de Alencar
vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello
Branco o atravs das quaes se impoz  grandeza do seculo que passou a
individualidade singular e forte de Ea de Queiroz, ao mesmo tempo que
se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de
Machado de Assis.

Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine:

    Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature
    vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu.

    H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11.

O homem  um producto do meio, este infle poderosamente na formao de
seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente.

A mocidade  mais docil em receber essa influencia natural e espontanea
do ambiente--do clima, das tradies, dos costumes, da religio, da arte.

 na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu
estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se
apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se
arrancam.

Spencer, na Educao moral, intellectual e physica, affirma que a
influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro.

A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas
escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna.

Com os portuguezes, moos como eu, senti os pezares d'aquelle grande
povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente.

 sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor
daquelle sol aqueci as minhas esperanas; no gelo daquellas neves
murcharam-me as mais perfumadas illuses; ao luar opalescente daquellas
noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas
estrellas peneirou no meu corao a voz dolentissima dos rouxines; com
a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar
quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flres das
suas aspiraes incipientes; com a lithania religiosa dos orgos ruraes
nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica
magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a
ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no
perfume das flres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e at no
merencorio soluar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias.

Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella
terra santa que  a patria da saudade, e, quando o meu corao comeou a
sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude
comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza

o delicioso pungir de acerbo espinho,

que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixra, do bero que
me embalra as horas da infancia, da voz materna que me acalentra a
puericia, do co que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue,
sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. d'este
sangue abenoado, fortemente oxygenado, que me d energia para as
luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia,
limpida e superior, as investidas da injustia e da critica.

E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao
meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da
minha vida?

E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar 
minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito
annos se vincularam ao meu espirito,  minha intelligencia,  minha
vontade,  minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma
subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para
fazer germinar as sementes, com que a palavra das mes penetra na alma
dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de
prata a agua dos lagos e dos rios?

      *      *      *      *      *

A _Talitha_  uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia
traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna;
_Talitha_ no  uma creao da minha phantasia,  a copia do modelo vivo
que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa
redempo do seu primeiro amor.

_Ruy de Ornellas_ foi meu irmo de lettras, foi meu amigo, meu
companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida
academica, nem o nome lhe occultei.

O velho cura _Joo Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa
affeio evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancio de oitenta
invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moos de alma nova
mas precocemente corrompida ao contacto das descrenas enervadoras e
fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafs,
vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras,
quando  mais facil, mais dce, mais humano, mais confortante, mais
nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e
das dedicaes.

A velhinha _Joaquina_, a irm desse honrado e justo sacerdote,  o
retrato fiel, copiado  intimidade da minha propria familia, em cujo
seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada
de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de
meu Pae.

A _Marqueza de Rilma_ no  um personagem ficticio, viveu, foi a me de
Talitha, no com o titulo de to elevada condio aristocratica, mas de
nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que
accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos.
Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, alm de
absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da aco dramatica: a
mais rudimentar educao, a mais vulgar delicadeza de sentimentos
mandavam occultar essa circumstancia, inutil  fidelidade da observao
e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem.

Que representa, pois a _Talitha_?

O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que no esqueceu o
passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar
uma divida de gratido, para abrir no seio um longo e profundo sulco de
reconhecimento  terra sagrada em que dormem seus avs o somno
ultimo e perptuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do
ancio que me deu o sr, onde eu deixei as geraes irmans que me
acompanharam na peregrinao astral das illuses academicas.

A perversidade incuravel dos zoilos, porm, occultou, de proposito
deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver
esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e
cos estranhos, j estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A
Fara_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio
em que vive.

E esse drama foi levado  scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma
sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi
largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico
Ribeiro e dr. Sebastio Leo.

Se no teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por
artistas, no pode caber ao autor a culpa de faltar entre ns uma
companhia dramatica nacional constituida de profissionaes.

A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle 
perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se no
sabe,  ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece
o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, no
pde exigir considerao nem respeito do meio litterario em que pretende
pontificar.

    Il y a mme, au fond de la grande majorit des critiques, un
    producteur manqu, qui se regisne  parler des oeuvres d'autrui,
    quand il voit que personne ne parle des siennes.

    Zola, oeuvre cit., pag. 349.

A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que
Taine, o mestre supremo, havia pontificado:

    La mthode moderne que je tche de suivre, et qui commence 
    s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer
    les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des
    faits et des produits dont il faut marquer les caractres et
    chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne
    proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.

    H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14.

Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre
invocado: condemnou, no explicou.

Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significao, sem
sondar a alma que o crera, fulminou a obra e insultou o espirito que a
produzira.

Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que  portuguez e
o estylo que no  brazileiro...

E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que
Shakespeare fra buscar  nevoenta Dinamarca a figura culminante de
Hamlet,  sorridente Italia dos laranjaes em flr, as suaves imagens de
Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo.

Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de
Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da Frana foram
pedir  Grecia e  Roma antigas,  Hespanha medieva e aos Barbaros a
quasi totalidade dos seus heres e das suas heroinas, deixando na
obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria
patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a
illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza pica
de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos
immortaes filhos da Frana e as imagens delicadas e formosas das
mulheres gaulezas.

De Corneille, _Meda_  uma simples imitao de Lucio Seneca, romano,
que a seu turno pedira inspirao ao theatro grego; _Cid_, que  uma
obra-prima, alm de ser puramente hespanhola a sua aco de altissima
tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro,
que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_  um assumpto romano
que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos so _Polyeucte_, _Cinna_
e _Pompe_, este inspirado por Lucano; _Mentor_  o velho personagem da
legenda grega de Ithaca, j reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta
Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_,
que so lampejos da constellao de decadencia de um genio, pertencem, a
primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles j havia
immortalisado na scena grega, a segunda  pura historia da Iberia em que
o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de
genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador
da nacionalidade lusitana.

Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_
e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio
que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de
Corneille vibrou pela patria, o seu talento no procurou conforto na
historia assombrosa da Frana: o seu corao voltou-se ainda para o
oriente, foi  Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e
deixou na _Imitao de Christo_ a ultima expresso do seu genio, como o
raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso.

De Racine, pde-se affirmar que escreveu as suas tragedias
inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia.

Assim o ensina um sabio mestre brazileiro:

    deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis
    de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade
    da concepo, porm mais tocante na pintura dos accessorios e que
    maior conformidade offerecia com o seu talento.

So d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phdre_, _Iphignie_.

So inspiradas na Biblia, a _Thbade_, _Esther_ e _Athalie_.

Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E
ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a
comedia _Les Plaideurs_, que  uma _charge_ temivel de espirito e de
genio, foi pedir s _Vespas_ de Aristophanes, no s a inspirao, mas o
exemplo, o paradigma.

Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao
Theatro da Frana que no as repudiou, que as ama, que as admira,
cultuando a memoria dos genialissimos poetas, no obstante o haverem
elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas
figuras orientaes.

Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para
escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a
soberba grandeza de Danton! Para dar  Escola romantica a sua data
inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi
buscar  Hespanha a inspirao dos versos maravilhosos do _Hernani_ e
deixou  litteratura dramatica da Frana as figuras esculpturaes de
_Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata
Ruy Gomez.

Mas onde o genio do grande filho de Besanon attingiu a altitude suprema
a que no chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phdre_, foi
no _Torquemada_, a epopa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o
inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado 
historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo,
illumina-a com as fulguraes do seu genio, como se em torno da
cariatide monstruosa da Inquisio ardessem as fogueiras dos
autos-da-f, e liga  litteratura dramamatica da Frana a figura
barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja.

No emtanto, na historia da Frana havia a linha cruel de Luiz XI, algoz
do duque de Alenon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime.

Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase
litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_,
_Dryade_, _Fille de Jepht_, _Femme adultre_, _Dolorida_, _Deluge_.

Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton,
cujo here  o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos,
procurou no suicidio a soluo para a vida das amarguras e tristezas que
arrastava o seu genio incomprehendido.

E Alfred de Vigny, to admirador de Andr-Chnier que n'este procurou
inspirao para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba
e tragica do poeta da revoluo, cuja cabea rolou no cadafalso como uma
cabea vulgar, no obstante:

    avoir quelque chose l dedans

E a Frana no engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a
_Comedie-Franaise_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo,
no obstante a opinio do Zola que a reputa:

    la negation du thatre.

A critica, severa para mim, devra ter vergastado primeiramente a
memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua
espada de guerreiro a obra politica da emancipao da Grecia; devra
anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a
reconstituio da vida romana  poca da decadencia cesarista de Nero;
devra ter condemnado  morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e
talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herana paterna,
preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis
nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japo
e na China; devra ter amaldioado e reduzido a p o sublime poeta
contemporaneo da Frana--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos
phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na
_Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da
filha da Juda, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna
d'Arc; devra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso
rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos
d'Italia_, sem ter jmais escripto uma pagina de viagem pela propria
Hespanha, sua patria; devra ter castigado os despojos funebres de
Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspirao hombrea com as de
Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial , depois de Shakespeare, a
creao mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a
sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao bero da tradio
adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_.

E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi
para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devra censurar
amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos
de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez
Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura pica do riograndense
Tamandar, lobo dos mares como o piloto de Palos, alm de guerreiro como
Patterson.

E a censura devra estender-se tambem a Gonalves de Magalhes que, em
vez de cantar o here dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi
que vive na tradio da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra
a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao
nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de Joo
Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi 
historia de Milo pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia
_Olgiate_, em cuja aco se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo
Visconti e o assassinato do tyranno.

E a critica, to rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a
citar a sentena do divino Almeida Garrett para aquelles que se
abalanam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devra
comear pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que
iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_,
_Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Cato_, antes de se
lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fra uma das heroinas de sua terra.

      *      *      *      *      *

Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, no tem sinceridade nos
seus conceitos.

Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta s
emoes do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de
apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um
encanto, uma joia.

A aco do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se
claramente na escola de Massenet, sbe  scena no Rio de Janeiro
interpretada por artistas italianos, sbe  scena em Porto Alegre
interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio,
extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_  italiana
pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense no se
julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na
obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os
nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e
caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o co, a
aventura da gloriosa e divina Italia da arte...

A critica emmudeceu.

Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue 
genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem
a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento
intellectual e moral...

A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas...
_passons l dessus_.

    Ds lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier
    l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...

    Zola--_Documents litteraires_, pag. 418.

      *      *      *      *      *

Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_,
condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada,
superior  modestia das suas condies de aldeos.

A critica  futil e no sabe o que diz.

_Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante
dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura.

A sua linguagem  simples, ingenua e lyrica.

Mas simples, ingenua e lyrica  a linguagem do povo portuguez, desde a
sua infancia at hoje.

As imagens que o autor lhe pe nos labios so as mesmas que borbulham na
phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade,
affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto
Ansures at Antonio Fogaa.

Pois a uma creana de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta,
intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura,
pde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que
caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na
atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou
aos oito annos?

Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cgo que escreveu a _Noite
do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a
_Primavera_, o _Outono_ e cgo  o anonymato popular que produz ha oito
seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que
andam na tradio oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de
todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o
_Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ at o
_Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e
Gualdino de Campos.

So da poesia popular, so do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu,
cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de
labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro,
Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam.

       I Nessas tuas mos pequenas
         como no vi em ninguem
         no sei como as minhas penas
         couberam nellas to bem.

                           II Perdes mais em me perder
                              do que eu perco em te deixar:
                              perco quem sabe offender,
                              tu perdes quem sabe amar.

     III Dizes que deixo saudades,
         no me posso conformar:
         pois se eu as levo commigo,
         como t'as posso deixar?

                           IV Acostumei tanto os meus olhos
                              a namorarem os teus
                              que de tanto confundil-os
                              nem j sei quaes so os meus.

       V Se os meus olhos te incommodam
         quando esto na tua frente
         hei de arrancal-os um dia
         para te amar cegamente.

                           VI Se eu soubesse que voando
                              alcanava o que desejo
                              mandava fazer as azas
                              que as penas so de sobejo.

     VII Eu jurei que no tornava
         a dar adeus a ninguem:
         quem parte saudades leva
         quem fica saudades tem.

                         VIII Essas tuas sobrancelhas
                              como nunca vi mais bellas
                              so laos de fita preta
                              unindo duas estrellas.

      IX No sei que quer a desgraa
         que atraz de mim corre tanto,
         hei de parar e mostrar-lhe
         que de vl-a no me espanto.

                            X Vae alta a noite, vae alta,
                              mais alto vae o luar,
                              mais alta vae a ventura
                              que Deus tem para me dar.

      XI  tua bocca ideal
         um palacio com jardim:
         as portas so de coral
         os degros so de marfim.

                          XII Aguas passadas no tornam;
                              deixae fallar o dictado:
                               saudade, s um moinho
                              mes com aguas do passado.

    XIII Pra tu, meu corao!
         onde estou eu, onde vim?
         triste caminho de lagrimas
         tem comeo e no tem fim.

                          XIV Ouo cousas que no ouo,
                              vejo cousas que no vejo:
                              olhos da minha saudade,
                              ouvidos do meu desejo!

      *      *      *      *      *

E a um povo que assim traduz to lyricamente, com tanta philosophia, com
tanto sentimento, todas as impresses da sua alma dce, que assim vibra
essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas,
nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um
povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e
mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera,
pde-se, com justia, arrancar essa linguagem que  caracteristica?

O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus
personagens, para que estes no paream superiores ao seu meio, mentiria
 propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que
quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria.

A um velho cgo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de
Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes
ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona
como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava
elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua
desgraa, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a
tradio religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria
popular estuava nas danas e folguedos; o rapazio espantado escutava-o
com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na
amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza
das suas lamentaes havia verdade de conceitos e a revolta justissima
de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza.

Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle,
que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na
simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua
irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raa,
filtrada na ara branca e pura de uma tradio de oito seculos.

    Diz toda a gente e eu no nego
    que Deus  pae de bondade,
    mas se isso  pura verdade
    como foi que eu nasci cgo?

                            L que Deus tirasse a luz
                            a quem rouba ou assassina,
                            era a justia da sina
                            que todo o mundo conduz.

    Mas a mim, no foi clemente
    porque eu no tinha nascido;
     que Deus tinha o sentido
    de cegar um innocente.

                            Aos lobos que andam na serra
                            matando ovelhas e anhos,
                            dizendo mal aos rebanhos
                            Deus no castiga na terra.

    No ha lobo que no veja,
    todos so filhos de Deus,
    s nos tristes olhos meus
    a eterna noite negreja.

                            No tocaria viola
                            se eu fosse fera damnada,
                            mas no andava na estrada
                            soffrendo e pedindo esmola.

      *      *      *      *      *

Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, no
curou de saber se no Paraiso a Me dos homens fra educada pela serpente
nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem
alcandorada, nem cogitou de saber se j naquelle tempo, no pincaro da
cordilheira industanica, se fallava o inglez.

A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe
nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem
indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poo de Jacob, j
se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta,
brilhante, artisticamente disposta sob a frma severa que Boileau,
Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois.

A critica, porm, mais cga que a minha desventurosa _Talitha_, mais
ingenua que a alma primitiva, mais ignorante que a Samaritana e mais
perfida que a Serpente, a sogra feroz de Ado, occultou o preceito de
Taine:

    Par cet excs de l'imitation litterale, l'artiste arrive a
    produire, non pas le plaisir, mais la rpugnance, souvent le dgut,
    et quelque fois l'horreur.

    Il en est de mme dans la litterature.

    La meilleure moiti de la poesie dramatique, tout le thatre
    classique grec et franais, la plus grande partie des drames
    espagnols et anglais, loin de copier exactemente la conversation
    ordinaire, altrent la parole humaine de propos deliber. Chacun de
    ces potes dramatiques fait parler ses personnages en vers, impose a
    leurs discours le rythme et souvent la rime. Cette falsification est
    elle nuisible a l'oeuvre?

    En aucune faon. L'experience en a t faite de la maniere la plus
    frappante dans une des grandes oeuvres de ce temps, l'_Iphignie_ de
    Goethe, ecrite d'abord en prose et ensuit en vers. Elle est belle en
    prose, mais, en vers, quelle diference! Ici, visiblement, c'est
    l'alteration du langage ordinaire, c'est l'introduction du rythme et
    du mtre qui communique  l'oeuvre son accent incomparable, cette
    sublimit sereine, ce large chant tragique et soutenu, au son duquel
    l'esprit s'lve au-dessus des vulgarits de la vie ordinaire et voi
    reparaitre devant ses yeux les hers des anciens jours, la race
    oublie des mes primitives, et, parmi elles, la vierge auguste,
    interprte des dieux, gardienne des lois, bienfaitrice des hommes,
    en qui toutes les bonts et toutes les noblesses de la nature
    humaine se concentrent pour glorifier notre espce et pour relever
    notre coeur.

    H. Taine--op. cit., vol. I, pag. 28 et 29.

E a critica indigena censura ao obscuro autor da modesta _Talitha_ a
ousadia de ter observado o preceito que Taine, o grande mestre da Frana
e do mundo, ordena que se faa, exactamente o que fez Goethe para dar
maior valor e mais gloriosa belleza  sua _Iphigenia_; exactamente o que
fez Rostand para poder impr  civilisao parisiense, na compleio
nevrotica de Sarah Bernhardt, a inferioridade da mulher da Biblia, a
hetara da Samaria condemnada ao supplicio da lapidao pelos heliastas
da Juda.

      *      *      *      *      *

Diante da bondade e em face das virtudes caracteristicas dos personagens
que se movimentam nos tres actos da _Talitha_, a critica sentiu arrepios
de indignao e abespinhou-se:  intelligencia dos censores 
inconcebivel a coincidencia de um encontro simultaneo de cinco almas
igualmente boas, simples, generosas, quasi santas; a sociedade repelle
essa pureza, os factos demonstram o contrario: o autor da _Talitha_ no
observou, phantasiou; o seu drama  um trabalho de gabinete, no ambiente
do mundo real essa hypothese no existe.

A critica pontificou _ex-cathedra_, infallivel como o successor de S.
Pedro, Vigario de Christo na terra.

Taine escreveu:

    Aprs avoir examine devant vous la nature de l'oeuvre d'art, il
    reste  etudier la loi de sa production. Cette loi peut, au premier
    regard, s'exprimer ainsi: _L'oeuvre d'art est determine par un
    ensemble qui est l'tat gnral de l'esprit et des oeuvres
    environnentes._

    H. Taine.--op. cit., vol. I, pag. 55.

 a influencia do meio na produco artistica: consequentemente, para
apreciar a obra d'arte, quando  sincera, a critica necessita de
conhecer o meio em que ella foi produzida, o estado geral dos espiritos
e dos costumes em cujo seio o pintor, o esculptor ou o escriptor, pintou
o quadro, esculpiu a estatua, ou escreveu o poema.

E dos criticos indigenas que se lanaram  _Talitha_, como San Thiago
aos moiros, apenas um viveu temporariamente em Portugal, mas nunca se
perdeu em terras trasmontanas, gastou o tempo nas ruas das cidades
populosas: a aldeia lusitana, se a viu no  a estudou, se a estudou
ou no a comprehendeu ou... tresleu.

De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o
meio que influiu na produco da _Talitha_, no tem noo, sequer, do
estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro
autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, 
ignorante e, como todo os ignorantes,  pretenciosa, balofa e
petulantissima.

Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo
evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a
sublime pastoral--_Os Velhos_--de D. Joo da Camara, cuja aco se passa
em uma aldeia do Alemtejo.

Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu 
representao dessa obra prima, extasiou-se e no viu que na formosa
comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, no cinco, mas
nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a
aco da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade.

Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. Joo da
Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual
era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante
escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles
personagens, aquella aco, aquelle ambiente correspondiam  realidade
objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se
seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisao
occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras,
virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento
mo, sem uma palavra rude, sem uma aco menos digna.

Ha nos dois primeiros actos da _Talitha_ uma profunda tristeza, a
amargura solua em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma exploso
de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na
realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso
que vae ao exaggero, diz a critica.

A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento
religioso, o culto catholico, a tradio christan, porque nunca viveu na
intimidade daquelles lares; o que lobrigou, atravs da obra suspeita e
viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos
grandes centros, envenenou-lhe a alma j preparada para receber a
semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para
maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos
gabinetes, acceitou as indicaes da alma perversa de algum mentor sem
sinceridade, explorador da inexperiencia de creanas talentosas e
esqueceu a lio de Taine:

    Pour plus de clart, nous prendrons un cas trs simple, simplifi
    exprs, celui d'un tat d'esprit dans lequel la tristesse est
    predominante.

    ..................................................................

    Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public
    attristent aussi l'artiste.

    Comme il est une tte dans le troupeau, il subit les chances du
    troupeau.

    ..................................................................

    Sous cette pluie continue de misres personelles, il deviendra
    moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste.
    Voil--un premier effet du milieu.

    ..................................................................

    Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les
    objets le caractre essentiel et les traits saillants: les autres
    hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit.
    Et comme ici le caractre saillant est la tristesse, c'est la
    tristesse qu'il aperoil dans les choses.

    H. Taine--Op. cit., pag. 68 e seguintes.

Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:

    O que deu nascimento, entre elles,  noo de fatalidade  uma
    concepo que se refere, no ao futuro, mas unicamente ao passado; o
    que , , e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto
    concluido no existisse.

    _A poesia e a arte no ponto de vista philosophico._--Cap. II, pag. 50.

O modesto autor da _Talitha_ no podia fugir  aco do meio em que se
encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia
oppr  verdade: _o que , , e um facto concluido, poder algum o annulla_.

Se o autor transformasse  medida do seu desejo, pensando em ser
agradavel  critica, mentiria  sua consciencia, deturparia as leis da
arte: os zoilos pdem maldizer,  vontade, o autor fica tranquillo e
contente com a fiel observancia das lies de Taine e do escriptor
brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau.

O facto  verdadeiro, era sufficiente que fsse verosimil: o autor da
_Talitha_ dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras
e a redempo dos seus personagens pelo amor,

    l'amor che muove il sole e l'altre stelle.

O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitao da
critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do
elogio mutuo e a paixo, a animosidade e malquerena politicas.

Zola pontificou:

    Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rve
    de distribuer des coups de frule.

    Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux ides nettes dans la
    tte. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De l les
    jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une
    veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue
    de verit et de justice qu'il faudrait y parler.

    Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens.

    Le vent qui les apporte, les emporte.

    _Documents litteraires; la critique contemporaine._--pags. 346, 347.

      *      *      *      *      *

O assumpto da _Talitha_  portuguez, portuguezes so os seus
personagens, portuguez o meio em que a aco se desenvolve, portugueza
foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua
mocidade: o drama no podia deixar de reflectir

    l'tat gnral de l'esprit et des moeurs environnantes.

De profundas amarguras, de lacerantes provaes para o povo portuguez
foi a poca dolorosa em que o modesto autor da _Talitha_ aprehendeu em
flagrante o desenrolar da aco dramatica do seu poema lyrico: e essa
ra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge,
a sua maxima intensidade.

Portugal acabava de receber o _ultimatum inglez_ na questo
pungentissima das possesses africanas, a natureza fra de uma dureza
extrema: s innundaes dos invernos succedeu a crise agricola que
esmagou a produco vinicola pela invaso phyloxerica, as agitaes
politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos
ameaando as instituies monarchico-religiosas de sete seculos e,
em meio dessas provaes a Providencia, esquecida da immensa piedade
d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em
que no soffre soluo de continuidade o culto da divindade catholica,
fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo:
Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme
de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro,
Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo
d'Avila, Ea de Queiroz, Alexandre da Conceio, Raphael Bordallo
Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e
Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a
luminosa regio dos seus cerebros geniaes com a inferioridade
crudellissima de uma bala.

Da nova gerao, Antonio Fogaa, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz
Barreto seguiram a estrada da morte.

A crise economica era pavorosa, a emigrao clandestina assustava os
espiritos mais fleugmaticos,  questo ingleza, seguiu-se a revolta de
31 de Janeiro e a situao geral era to delicada e complexa que nem o
genio de Jos Dias Ferreira, nem as combinaes politicas de homens como
Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver.

Ao desequilibrio financeiro succederam a questo monetaria e o augmento
da divida publica, fortemente aggravadas as condies do credito publico
pela questo internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos
escreve:

    Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade
    portugueza estrebuchando no esphaclo, ha quem tenha perdido de todo
    a esperana de regenerao; ha quem se persuada que esto
    chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da
    crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em
    grande parte este excesso de pessimismo.

    Portugal, como todas as naes contemporaneas, em maior ou menor
    gro, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos
    variadissimos.  uma crise politica, financeira, economica, mas
    sobre tudo social e moral.

    Teixeira Bastos--A Crise, pag. 435.

Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu
poderosamente na produco artistica e litteraria d'aquelle tempo e na
que se seguia.

Na esculptura destaca-se a estatua de _Hermengarda_ em que o talento de
Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de
Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos.

Na architectura no surge cousa alguma que atteste a sublimidade do
caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herana do passado,
soffre a influencia do desanimo, da indefferena, da tristeza geral que
domina.

 de Ramalho Ortigo o que se vae lr:

    Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos
    os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a
    mais desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos
    architectonicos da nao...

    Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dr e a
    vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam
    directamente a cumplicidade official. Os primeiros so uma
    consequencia do desdem: os segundos so um resultado de incapacidade.

    Ramalho Ortigo.--_O culto da Arte em Portugal_, pags., 19 e
    seguintes.

Quanto  vida e a produco litteraria, o autor da _Talitha_ invoca o
depoimento do grande critico portuguez;  elle quem affirma:

    Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
    abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver
    egreja que os reuna, e  j evidente esta enorme catastrophe: que na
    arte de portugal faltam coraes portuguezes.

    Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da
    vida intellectual.

    ..................................................................

    A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de
    applicao e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas
    nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta,
    cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o
    povo e para os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica
    das novas seitas.

    Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza
    de critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de
    apagada tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue
    vermelho da raa, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo,
    docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel,
    amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros,
    das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas
    camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de
    menestrel, susceptivel ainda das paixes mais profundas, todo de
    imposio e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente
    grandes, poetico, aventureiro e destemido.

    Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola
    portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos
    artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes,
    sem lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o
    povo de que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimentos.

    Ram. Ortigo.--op. cit., pag. 110 e seguintes.

      *      *      *      *      *

Embora modesta a _Talitha_, embora sem merecimento o seu autor obscuro,
como poderiam ambos--drama e escriptor--fugir a esse estado geral do
espirito e dos costumes, de que falla Taine?

Necessariamente deveriam obedecer  lei, e por isso apparece nos dois
primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que  o reflexo da
situao geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela
desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade.

    D'autre part, l'artiste a t lev parmi des contemporains
    mlancoliques; partant, les ides qu'il a reu et celles qu'il
    reoit encore tous les jours sont mlancholiques.

    La religion regnante, qui s'est accommode au lugubre train des
    choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie
    un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir

    H. Taine--op. cit., vol. I. pag. 65.

Alis  profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza
desse tempo, muito principalmente na poesia.

 um soluo de magua--o _Espirito Gentil_--de Luiz Ozorio; formam um
rosario de amarguras--as _Oraes do Amor_ de Antonio Fogaa;  um
gemido crudellissimo o _S_ de Antonio Nobre;  como um echo de
Necropole--_Nada_--de Julio Dantas.

No theatro, Marcellino de Mesquita lana a _Noite do Calvario_,
reproduco profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da
vida de um lar que o dramaturgo generalisa s condies da vida social,
alis j cruelmente desvendada nos _Castros_.

Para fugir  influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado,
 chronica, a historia e no consegue eximir-se  impresso da
desventura: _O que morreu de amor_  uma resurreio esmagadora de
magua; a _Severa_  um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; _O sero
nas larangeiras_  uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que
occulta, mascra, e pinta um immenso abatimento moral.

Gervasio Lobato passa nesse meio espalhando gargalhadas, ridiculo e
_troa_ sobre a sociedade carcomida pela crise e acabrunha de pilherias
a burguezia e a classe media no _Commissario de Policia_, no _Solar dos
Barrigas_ e na _Lisboa em Camisa_, passando do palco ao romance.

A _Velhice do Padre Eterno_  uma _charge_ monumental sobre o
ultramontanismo da sociedade religiosa: a _Patria_  uma objurgatoria
tremenda, um raio de colera olympica; os _Simples_, constituem um colar
de lagrimas de uma jeremiada genial e as _Oraes ao Po e  Luz_ so as
aspiraes tantalicas do genio ao seio da excelsa divinisao da arte,
como refugio extremo de uma alma que foge s revoltas da terra para no
cahir na lama das decomposies sociaes.

A _Rosa engeitada_, de D. Joo da Camara,  a dr vivendo e esmagando as
almas; os _Velhos_, apezar do seu encanto bucolico e purissimo,  um
crepusculo de sombras dces.

A _Cruz da Esmola_, de Eduardo Schwalbach,  a photographia nitida da
tortura e do desespero...

E tudo isso  a reproduco conscienciosa de um estado de pathologia
social... a menos que a critica no attribua tudo isso  phantasia dos
artistas pelo gozo requintado de esmagar a propria patria ao peso de
calumnias...

Mas neste caso como comprehender o collossal successo das obras
extraordinarias de Ramalho Ortigo na critica, de Ea do Queiroz ao
romance e de Raphael Bordallo na caricatura, profligando esse estado
geral de espirito e de costumes como Alphonse Karr, Gavarni e Flaubert
na alta cultura genial da Frana, em plena florao artistica e litteraria?

O terceiro acto da _Talitha_ no desta dos anteriores, a unidade no se
quebra, transmitte-se, completa-se: a mesma suave melancolia dos
primeiros conserva-se na narrativa da morte do sargento que _Ruy_
communica a _Joaquina_ e no _raconto_ que das suas desventuras, faz a
_Marqueza de Rilma_ ao velho cura Joo Fulgencio.

A mesma serenidade christan dos primeiros actos paira no terceiro
atravs da descripo em que _Talitha_, ao som dos sinos distantes da
missa do gallo, conta a _Ruy_ e a _Joaquina_ a sua allucinao
passageira e termina com a _Salve-Rainha_ rezada ao soluar do orgam e
ao repique da alvorada annunciando a missa d'alva.

A alegria que vibra n'este acto  mais intensa, realmente, mas n'elle se
encontram trez factos culminantes: a confirmao do noivado de Talitha
pelo perdo da Virgem na viso da missa; a cura radical e milagrosa da
sua cegueira e o apparecimento da me tanto tempo perdida.

Mas a alegria no surge alli de surpresa, repentinamente: no primeiro
acto ella vibra na scena final de amor em que as duas almas que se
comprehendem recebem a beno da velha Joaquina surprehendendo-as na
ventura do seu idyllio, e no segundo acto a primeira scena succede
naturalmente a essa e os dois velhos ligam, plas recordaes, a passada
alegria de outros tempos, a que se vae em breve descerrar quando _Ruy_
levantar definitivamente a venda aos olhos da redimida.

Ahi a alegria vae  intensidade das lagrimas,  a tristeza que
nasce das extremas emoes da felicidade que no  triste e, se
momentaneamente desapparece quando _Talitha_ se deixa vencer pela f
religiosa e rompe o juramento de amor para cumprir o juramento do voto
de clausura, de novo se reata e estala em um sorriso de supremo
arrebatamento, quando a piedosa e santa mentira do _Cura_, depois da
confisso, lhe relata o sonho da madrugada anterior em que elle viu
rolar no espao

	no fulgor de uma estrella o beijo do perdo.

      *      *      *      *      *

A virtude daquellas almas!...

E porque razo de alta monta o autor da _Talitha_ devia quebrar a
verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle no
phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio
da crise social moral que caracterizava aquella poca dolorosa de
provaes populares?

Introduzir um personagem que no tivesse as mesmas qualidades de
caracter seria deturpar os factos para obedecer ao _mtier_, a
carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez.

Alm de tudo, inutil: a emoo dramatica, o effeito theatral so
completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o
Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as
zonas e latitudes da terra.

Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:

    O artista que emprega suas faculdades ao servio de uma ida
    generosa no  menos artista por isso, se bem que no seja por isso
    que elle  artista. O amor e a intelligencia do bem suppem uma
    concepo superior das condies da vida individual e social que 
    preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...

    ..................................................................

    Entretanto ha uma observao a fazer neste ponto,  que parece mais
    facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu
    admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre
    quando era atacado pelos homens pudicos.

    To verdadeiros e vivos so os seus libertinos da alta o baixa
    sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, so ternos e mal
    acanhados.

    Op. cit. pag. 32.

Ainda mesmo quando o autor da _Talitha_ houvesse faltado  verdade dos
factos que observou, teria tentado o problema, na opinio do estheta
brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretao da
Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em
scena a aco do seu obscuro poema lyrico.

A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se
com as proprias armas.

      *      *      *      *      *

Que o autor da _Talitha_, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a
liberdade de escrever um drama em verso, frma litteraria que est
totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa.


 outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das
anteriores: a critica  vesga e no sabe o que diz.

Do theatro moderno ainda no foi banida a frma alta e pura do verso:
semelhante vandalismo seria uma violencia feita  arte,  belleza, ao
bom gosto,  suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem
naturalmente todas as manifestaes da vida e a linguagem da poesia do
metro e da rima, a altissima elegancia.

Moderno  Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em
verso: _Esmeralda_, _Burgraves_, _Ruy Blas_, _Cromwell_, _Torquemada_,
_Grandmre_, _L'pe_, _Mangerontils?_, _Sur la lisire d'un bois_, _Les
gueux_, _tre aim_, _La Fort-mouille_.

Modernos so Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramas
_Garin_, _Jean Dacier_ e _Marquis de Kenilis_ que Zola critica
asperamente na sua obra--_Naturalisme au Thtre_.

Moderno  Banville e produziu _Hymnis_, _Riquet  la houpe_ e _Socrates
et sa femme_, tres comedias em verso.

Moderno  Alphonse Daudet e entre as suas obras figura _Char_, comedia
em verso, em um acto.

Moderno  Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria: _Les marrons
du feu_, comedia; _A quoi rvent les jeunes filles_, comedia; e _La
coupe et les lvres_, drama, todos em verso.

Moderno  Ed. Pailleron e no seu theatro figuram _Narcotique_, comedia
em um acto, e _Hlne_, drama em quatro actos, ambos em verso.

Moderno  Ludovic Halvy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso,
a _Phryn_ e _Nina, la Tueuse_.

Modernissimo  Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e
da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas
peas. So em verso: _Cige_, _Paul Forestier_, _Homme de bien_,
_Aventurire_, _Gabrielle_, _Joueur de flte_, _Philiberte_ e
_Jeunesse_.

Moderno  Catulle Mends e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em
verso, _La Part du Roi_, em um acto; em 1888 fez representar a sua
formosa phantasia, tambem em verso--_Isoline_, em tres actos; e em 1889
produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos--_Fiammete_; em 1906, punha
em scena no Odon, o seu drama _Glatigny_, tambem em verso.

Modernissimo  Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comdie
Franaise o seu _D. Quichote_, em verso.

Modernissimo  tambem Andr Arnymede, que em 1906 assombrava a critica
parisiense com a representao triumphal de _La Courtisane_, em cinco
actos e em verso.

Modernissimo  Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos
sensacionaes do Paon que subiu  scena na Comdie Franaise.

Modernissimo  Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro
actos de _Embarquement Pour Cythre_, no palco do Theatro des Bouffes
Parisienne.

Modernissimo  Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta da
_Porte St. Martin_, os soberbos alexandrinos da _Majorlaine_, em cinco
actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis da _Reine de
Tyr_, no theatro Sarah Bernhardt.

Moderno  Franois Coppe, e em 1878, em collaborao com Armand
d'Artois, produziu o drama em cinco actos _Guerre des Cent ans_; em
1879, _Le Trsor_, comedia em um acto; em 1881, _Madame Maintenon_,
drama em cinco actos e um prologo: em 1883, _Severo Torelli_, drama em
cinco actos; em 1885, _Les Jacobites_, drama em cinco actos; em 1880,
_Le Passant_, em um acto; e em 1888, _La Grve des Forgerons_, em um
acto, e em 1905, _Scarron_, em cinco actos: e todos esses trabalhos so
em verso.

Rostand escreveu todos os seus dramas em verso: _Princesse Lointaine_,
_Romanesques_, _Cyranno de Bergerac_, _Samaritaine_, _Ayglon_ e
ultimamente os tres primeiros actos do _Chant-clair_...

Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo
genio de Sarah Bernhardt, _Les Boufons_, em verso alexandrino, obra
prima que a critica europea colloca, seno acima, ao lado do _Cyrano_.

E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou
de uma outra obra prima do talento de Catulle Mends, em soberbos
alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitula _Sainte Thrse_.

Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historica _Strafford_
e os dramas _Mancha no Brazo_ e _Regresso dos Deuses_, todos em verso.

Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos da _Filha
de Jorio_, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumento
_Francesca da Rimini_, em verso, como em verso havia escripto pouco
antes o seu extraordinario _Nerone_, o genio brilhante de Boito, e
Cavalloti o seu formosissimo idylio _Cantico dei cantici_, em 1882.

Na Hespanha, deixando de parte o _D. Juan Tenorio_, de Zorrilla: o
_Trovador_, de Gutierres; a _Roda de la Fortuna_, de Thomaz Rubi, todos
de 1850: Hartzemburch produziu mais recentemente _Los Amantes de
Terruel_; _Alfonso, el Casto_ e _La Madre de Pelagio_, e Echegaray o seu
conhecidissimo _Gran Galeoto_.

E todos esses dramas so escriptos em verso.

Em Portugal, Joo de Deus, o lyrico sublime, escreveu _Horacio e Lidia_;
Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor da
_Belkiss_ e de _Constana_, acaba de publicar o _Annel de Polycrates_;
Henrique Lopes de Mendona, o _Duque de Vizeu_ e a _Noiva_:
Fernando Caldeira, a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_; Marcellino de
Mesquita, a _Leonor Telles_; Julio Dantas, a _Ceia dos Cardeaes_;
Francisco Palha, a _Fabia_; Luiz de Magalhes, o _D. Quixote_, os dois
ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; smente
para citar os escriptores da actualidade, deixando de parte _O Cato_ e
a _Merope_ de Almeida Garrett e o _Cames_, de Antonio Feliciano de
Castilho.

Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonalves de
Magalhes, o _Olgiato_; Arthur Azevedo, o _Badejo_; Zeferino Brasil, o
_Outro_ e Coelho Netto, _As estaes_.

A critica, portanto, ou  ignorante ou mentiu propositalmente.

      *      *      *      *      *

Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepo: o
verso em theatro s se admitte para as tragedias historicas.

Outra cincada.

Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: a
_Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_ que nem so tragedias, nem tem
filiao alguma historica.

Na Italia, Cavallotti legou  lilteratura dramatica um primor de
lyrismo: o _Cantico dei cantici_ que no  tragico, nem historico.

Em Frana, Catulle Mends escreveu, em verso, os tres actos de _Isoline_
e os seis do _Fiammette_ que nada tem a vr com a historia, nem com a
tragedia.

Franois Coppe produziu _Le Trsor_, _Le Passant_, _La Grve des
Forgerons_, todos em um acto e que no tem a minima relao com a
tragedia, nem o menor vestigio de historia.

No Brasil, o _Badejo_, de Arthur Azevedo,  uma comedia, o _Outro_, de
Zeferino Brasil, um drama; _As estaes_, de Coelho Netto, uma
phantasia, todos em verso, sem relao alguma com a historia ou com a
tragedia.

A critica indigena

    appartient  ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande
    oeuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil
    et ne trouvent pas le temps d'crire la grande oeuvre. La vie se
    passe, l'ge arrive, ils restent des debutants.

    Zola, _La critique Contemporaine_, pag. 351.

Entretanto, Ren Doumic, um mestre da critica, escreve na _Revue des
Deux Mondes_:

    Je voudrais seulement que les potes qui se sentent une vocation
    d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succs ne peut
    tre obtenu par eux,  la scne, qu'en nous narrant des histoires
    romantiques ou des feries.

E Gaston Sorbets concle:

    M. Ren Doumic  assurment raison: la poesie dramatique est faite
    anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre coeur
    ou les aspirations les plus hautes de notre me. Il suffit de voiler
    de poesie la Verit nue pour faire de cette divinit une muse
    nouvelle.

Deixemos vociferar os maldizentes: ns ficamos com os criticos que sabem
sentir e... lr.

      *      *      *      *      *

Os zoilos que se lanaram  modestissima _Talitha_, censuraram ao seu
autor o atrevimento inaudito de no observar a regra do Theatro francez
de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e
agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades.

Mas a critica, absolutamente no tem competencia para impr aos
escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam,
as leis e as regras da arte poetica franceza.

Se a obra d'arte  portugueza ou brazileira, o auctor no se submette s
leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes.

E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor da
_Talitha_ affirma: no ha poeta algum na lingua de Cames, quer no
theatro, quer fra delle, que obedea s exigencias das prescripes
francezas, que, alis, o proprio Corneille, invocado pela critica, no
seguiu nem adoptou na _Imitation de Christ_:

    Le desir de savoir est naturel aux hommes:
    il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec eux
    mais,  Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes,
    que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux?

    Liv. I, Chap. II.

    Vanit d'entasser richesses sur richesses,
    Vanit de languir dans la soif des honneurs,
    Vanit de choisir pour souverains bonheurs
    de la chair et des sens les damnables caresses.

    Liv. I, Chap. I.

    Vraiment grand est celui qui dans soi se ravale
    qui rentre en son nant pour s'y connaitre bien,
    qui de tous les honneurs que l'univers tale
            craint la pompe fatale,
            et ne l'estime en rien.

    Liv. I, Chap. III.

Victor Hugo, o mestre supremo, tambem no obedeceu invariavelmente a
esta regra que a critica pretende impr dogmaticamente, como immutavel.

Vejamos na _Esmeralda_, acto I:

        Nous irons au clair de lune
        danser avec les esprits...
        Vive Clopin, roi de Thune!
        Vivent les gueux de Paris!

    Au milieu de la ronde infame
    qu'importe le soupir d'une ame?
    Je souffre! oh! jamais plus de flamme
    au sein d'un volcan ne gronda.

Em _La Fort mouille_, Scene II:

    Les moutons promis aux fourchettes
    Passent l-bas; j'entends leurs voix
        Sonnez, clochettes,
        au fond des bois.
    Le beau Narcisse est en manchettes;
    Silne a mis toutes ses croix.

Rostand, o impeccavel, na _Samaritaine_, tambem no se subordinou
absolutamente a essa regra, como se v logo na primeira scena:

    Pouss par la brise des nuits,
    et vagabond jusqu' l'aurore,
    je viens pour des fins que j'ignore,
    comme un fantme que je suis.
    D'une sandale sonore
    je viens, je glisse et je m'enfuis...
    Mais,  Jehovah que j'adore!
    quelle est cette grande ombre encore
    qui se tient debout prs du puits?

e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compe de
cento e nove versos.

E para que no diga a critica perversa que n'esses exemplos no ha
alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V,
em que Photina declama:

    Mon bien aim--je t'ai cherch--depuis l'aurore,
    Sans te trouver,--et je te trouve,--et c'est le soir;
    Mais quel bonheur!--il ne fait pas--tout a fait-noir:
                mes yeux encore
                pourrent te voir.

e assim por toda a _fala_ de Photina, gue se compe de mais de vinte
nove versos.

Na lingua portugueza, porm, no ha um poeta sequer que obedea  regra
da metrica franceza, nem no drama, nem no poema.

Junqueiro, na _Morte de D. Joo_, na _Musa em ferias_, na _Velhice do
Padre Eterno_, na _Patria_, ou nos _Simples_ usa indistinctamente as
rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas.

                         O pensamento humano
    mergulhou como um Deus nas grutas do oceano,
    embebeu-se no azul, andou pelo infinito,
    interrogou a historia, os ventos, o granito,
    todas as creaes, todas as creaturas,
    vermes, religies, abysmos, sepulturas,
    e disse-nos: Jesus, Socrates, Plato
    fallaram a verdade. Existe uma raso,
    uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea,
    que rege o movimento e as formas da materia...

    _Morte de D. Joo._--Introduco, pag. 31.

      *      *      *      *      *

    Hediondo! assassinar um homem que assassina!
    Collocar o direito ao p da guilhotina.
    Resolver a questo do crime--um cemiterio!
    Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio!
    Um carrasco de guarda  nossa segurana!
    O peloto--juiz e o tribunal--vingana!
    E  uma coisa que indigna, um facto que comove,
    que quasi ao terminar o seculo dezenove
    pensem como Marat, pensem como Cain
    as leis no velho mundo e o tigre em Bombaim!

    _Musa em frias_; Idilios e Satiras, pag. 137.

Julio Dantas, o brilhante poeta da _Ceia dos Cardeaes_ tambem no
adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar.

                             Xerez.
    Roma! Roma que viu, pela primeira vez,
    Beneditto XIV, um papa,--a receber
    Conselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire!
    ............................................

    As cartas de Voltaire, honram!
                            ...  natural
    fala como francez.
                  ... Fala como cardeal!
    ............................................

    Mas perdo... No ser politica de mais
    para uma ceia alegre? Emfim trez cardeaes
    no salvam Roma...

Como se v, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos.

E esse arrojo do eminente poeta portuguez no impediu que a _Ceia dos
Cardeaes_ tivesse oito traduces em allemo, francez, italiano,
hespanhol e no dialeto catalo, nem evitou que fsse representada mais
de quatrocentas vezes.

Entre os poetas brasileiros bastar citar dois nomes de primeira
grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette 
exigencia franceza da critica indigena.

A _Cruz da montanha_ do primeiro  um poemeto de 126 alexandrinos. Em
toda essa obra prima no ha dois versos agudos e apenas se encontra uma
parelha de esdruxulos.

Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composies como--_A
Enchente_, com 76 alexandrinos; a _Lagarta_, com 124 versos de vario
metro, onde apenas ha 14 rimas agudas: _Atmo_, com 88 alexandrinos,
entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo.

      *      *      *      *      *

_Asceno perigosa_, de Goulart,  uma poesia composta de 44
alexandrinos, dos quaes apenas quatro so esdruxulos e nem um agudo.

_Apocalypse_  formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, smente dois
esdruxulos.

      *      *      *      *      *

E a razo  simples,  natural,  formidavel: o idioma francez 
abundantissimo de agudos e o portuguez , relativamente, pauperrimo.

Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e
ftua pretende impr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas
agudas e o poeta incidiria na repetio das consoantes, o que constite
o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica.

Alm disso, os francezes no conhecem as palavras esdruxulas, ao passo
que a lingua vernacula  riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada
na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e
Racine, os poetas lusitanos e patricios vr-se-iam obrigados a escrever
alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas,
graves e agudas, o que seria, alm de fatigante e exhaustivo, de um
rebuscamento torturado, monotono, somnolento.

O obscuro autor da _Talitha_ preferiu deixar expandir-se naturalmente o
pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a
rima j de si so condies impostas pela exigencia artistica,
apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel,
equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na aco
dramatica.

O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente
seguida por outros poetas modernos--o emprego alternado de dois agudos e
dois graves, no evita a monotonia, principalmente quando se traduz o
pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida
real ninguem se exprime por essa frma.

Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto
possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o
encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas no so
excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o
pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da
psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo.

O proprio autor da _Talitha_ verificou praticamente o que acaba de
affirmar quando escreveu a _Viso de Colombo_, em um acto, obedecendo
systematicamente  regra da poetica franceza e emparelhando os
alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a
extenso do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos,
sem repetio de rimas.


Ramalho Ortigo ensina:

    no so as academias que pautam as proposies e os limites da
    creao artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de
    ter valor em arte. A obra de arte no  um producto de escola:  a
    livre expresso individual de uma alma, convertida em realidade
    objectiva e communicando aos homens uma vibrao nova de
    sentimento.

    A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria,
    deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra
    suggere e dos sentimentos cuja percusso ella determina.

    Op. cit., pag. 145.

Adherbal de Carvalho doutrina:

     no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; 
    neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.

    A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos.
    Vimos que a consequencia  a pobreza, a esterilidade do proprio
    pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta.
    O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppresso de
    regras no racionadas: liberdade  fecundidade.

    Op. cit., pag. 282.

E depois d'essas duas sentenas, atreve-se o autor da _Talitha_ a
perguntar  critica indigena como ser possivel arvorar em preceito
obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e
Corneille, quando a tendencia moderna  para supresso da rima e para a
cultura extremada do rythmo no verso branco?

A falla de _Cacambo_ e o episodio da morte de _Lindoya_ no _Uruguay_ de
Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: o
_Colombo_ de Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso
branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, na _Harpa
do Crente_ deixou primorosos lavores em verso solto.

Anthero Quental, cujas _Odes modernas_ arrancaram a Michelet uma soberba
exploso de espanto

    Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta das
    _Odes modernas_, Portugal continuar a ser um grande paiz vivo.

Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco.

E para no fallar na _D. Branca_ de Garrett, todo escripto em versos
soltos, bastar citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira: _Ara_
e _Raiz_, demonstrao brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende
a desapparecer cedendo  liberdade do pensamento.

O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica,
escreveu:

    Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem
    elasticidade, sem vibrao, se assim o podemos dizer, teem o que
    quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem
    se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como
    os graves nos apparecem, sem nos canarem: demais por isso mesmo que
    os vocabulos agudos so menos frequentes, d'ahi tiram os versos
    agudos um quid de exhibio e exquisitice que no parece frisar
    seno com as idas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas.

    Do expendido por boa razo se infere: l. que em toda e qualquer
    especie de metro so os versos graves que devem, predominar.

A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte
rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio
Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor da
_Talitha_ adopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os
manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos
em parelhas alternadas.

O autor da _Talitha_ no adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu
lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes
Junqueiro, Feij, Luiz de Magalhes, Lopes de Mendona, Julio Dantas,
Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonalves Crespo, Marcellino de
Mesquita, Fernando Caldeira que no a observaram, nem se
submetteram  lei de Corneille e Racine, e, o que  tudo, do proprio
Antonio Feliciano de Castilho que no adoptou a regra franceza na
composio dos alexandrinos emparelhados.

Isso em Portugal, porque no Brasil o autor da _Talitha_ encontra apoio
para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de
Andrada, Martins Fontes, Guimares Passos, Luiz Murat, Machado de Assis,
Valentim Magalhes, Lucio Mendona, Oscar Lopes, Pereira da Silva,
Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho
Netto que no consideram a technica franceza como adaptavel ao verso
portuguez, se bem que discretamente observem a opinio de Castilho,
relativamente  proporo das rimas agudas e graves.

Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da
primeira infancia, ha de permittir que o autor da _Talitha_ prefira as
autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao
impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de
autoridade litteraria, no chegou ainda se quer  categoria de
trintanario do _Pegaso_, na estrebaria de Augias.

      *      *      *      *      *

A critica indigena censura a pobreza de rima da _Talitha_: no tem razo.

A _Ceia dos Cardeaes_  uma obra prima: assim o prgou a critica, assim
a considera a opinio.

Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da _Talitha_
compe-se de 492.

A _Ceia dos Cardeaes_ tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da
_Talitha_ dispe de 127 rimas differentes: a proporo naquella  de 5%,
nesta  de 25%.

Na _Ceia dos Cardeaes_ ha apenas 31 rimas que no foram repetidas; no
1. acto da Talitha ha 80.

Na primeira, a obra prima, essa proporo  de 9%, na _Talitha_, a
condemnada, a proporo  de 17%. A critica indigena tem cabellos na
lingua e fel no corao.

A _Samaritana_  a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica
europea, assim a julga o proprio poeta.

O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.

Pois bem: entre esses ha 322 repeties, apenas em 17 rimas.

Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica
para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que 
pobreza ou riqueza de rima.

A opulencia de rima pde ser exigida em composies poeticas esparsas,
que no tenham grande extenso, mas em um poema dramatico essa exigencia
da critica  despotica,  absurda, principalmente quando os personagens
que o movimentam so da especie daquelles que figuram no entrecho da
_Talitha_.

Collocar nos labios de _Joaquina_ versos de rima escolhida, apurada, sem
repeties de termos que andam constantemente na conversa commum,
substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas,
smente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica,
equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma
santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a
espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao
rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo
rimador, o sentimento pela paciencia.

A opulencia da rima importaria necessariamente na elevao da
linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa frma o que
j condemnra, considerando alcandorada em demasia para personagens de
aldeia a linguagem que o autor da _Talitha_ confiou a cada um d'elles.

Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras so simples,
corriqueiras; o vocabulario dos aldeos  pouco extenso e
tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto
da vida, pde-se dizer, um termo que no se substitue, um conceito
consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros
termos, em phrase diversa, no  comprehendido.

O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o
notavel mestre da lingua vernacula, Snr. Jos Verissimo, doutrina
superiormente:

    O grande escriptor em todas as linguas  o que escreve e consegue
    todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, no s do
    povo--que  realmente pobre--mas da litteratura do seu tempo.

    Citao de Elysio de Carvalho no livro--_As modernas correntes
    estheticas_, pag. 27.

Em taes condies, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir,
quanto possivel, as condies normaes da vida e do personagem, attribuir
a este a expresso dos seus affectos, das suas dres, das suas alegrias,
dos seus desejos ou das suas esperanas, por meio de palavras em rima
opulenta, ser desnaturar o personagem, ser mentir  realidade, ser
phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, no
creou na vida real.

Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou
ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem pde e deve
ser alcandorada sem inverosimilhana, os personagens vem
distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que
substituem toda a realidade objectiva.

A admirao, a f e a idolatria pdem crear os maiores absurdos: Esopo,
Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado,
terso, brilhante, sonro, de rima opulentissima.

Zola escreveu:

    C'est, je le rpte, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le
    dedain du vrai. On est l en pleine convention, en pleine fantaisie,
    et le charme est d'y mentir, d'y chapper a toutes les realits de
    ce bas monde.

    ..................................................................

    Jamais les auteurs ne se trouvent acculs par la vraisemblance et
    la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils
    veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.

    ..................................................................

    La comdie et le drame, au contraire, sont tenus  tre
    vraisemblables.

    Zola. _Le Naturalisme au thtre_, pag. 357, 358.

Mas Joo de Deus, que foi em Portugal a mais completa encarnao do
lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupaes
estylisticas visando  erudio, que foi sentimento singelo, o amor,
esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida
simples e estylo simples, Joo de Deus que cantou a simpleza rural da
sua terra, a alma dce do povo e dos campos, esse que  o lyrico mais
portuguez como considera Fidelino Figueiredo, um grande scismador e um
grande artista, que no tem artificios na sua poesia, singela como todos
os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de
creana, suave e consoladora como uma parbola de Christo, serena e
luminosa como um dialogo de Plato, no dizer profundo de Alexandre da
Conceio, Joo de Deus no se preoccupou com a opulencia da rima, nem
mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um
acto _Horacio e Lydia_, romana pelo assumpto, grega pela technica.

Ora, a _Talitha_  composta de 1873 versos de varios metros,
predominando o alexandrino.

Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor da _Talitha_ reservou
as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura a _Ode s
Arvores_, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compe de 312
alexandrinos, e no tem sequer uma rima repetida, alm da grande
abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima  conhecida.

Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos
d'esse evangelho so indigentes de rima, nota que no 2. acto a palavra
enferma rima com erma e no 3. acto tambem enfermo rima com ermo.

E o zoilo exclama:

    Para _Enfermo_ o poeta encontrou apenas a rima _ermo_, uma rima
    pobrissima.

Mais pobre de espirito  o critico.

A _Talitha_ compe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente
encontrou a rima em _erma_, ainda assim uma vez no masculino e outra no
feminino, e fulmina a censura:

    o poeta s encontrou a rima _ermo_ para _enfermo_, rima pobrissima.

Ignorante, perverso, futil, ou lorpa.

Pois bem, o autor da _Talitha_ consultou os diccionarios de rima de
Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e para _enfermo_
apenas encontrou _ermo_, _termo_ e _estafermo_. As duas primeiras foram
applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto.

Quanto  terceira--_estafermo_--o poeta da _Talitha_ s a poderia
utilizar se fizesse referencia ao critico.

Para agradar  sua opinio e corresponder  sua exigencia, o zoilo
pretende que o autor da _Talitha_ deveria forgicar palavras,
neologismos, smente com o fim de no repetir a rima!

Mas se essa rima  pobrissima, que culpa tem o autor da _Talitha_, se a
lingua apenas lhe faculta, alm dessa, mais duas, uma das quaes
pertencente ao calo?

Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima de _enferma_ 
_erma_; no terceiro acto  palavra _enfermo_ foi dada a rima--_termo_.

2. acto, pag. 64:

    seria bem melhor que cuidasse da enferma,
    que vive ali no escuro abandonada e erma

3. acto, pag. 89:

    de acudir pressuroso ao leito dum enfermo
    ardendo em alta febre e bem proximo ao termo
    d'uma longa existencia...

Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo:  mentira.

      *      *      *      *      *

Por ultimo a critica indigena censura o autor da _Talitha_ por ter
escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente,
no terceiro, a _marqueza_, me da heroina.

E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que apparea
tambem o Pae de _Talitha_.

O autor no teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo
mais dois actos para apresentao da sogra de _Talitha_, se tambem a
critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, no houvesse
solicitado a redaco dos tres actos simplesmente aos dois primeiros
para que esse obscuro trabalho

    seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a,
    cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais
    o milagre e a orao; assim _Talitha_ ser um primor litterario...

    Critica da _Tribuna do Rio_.


    O drama  magnifico. E porque no dizer o melhor drama que se tem
    escripto no Brazil?

    Critica da _Gazeta de Noticias_, do Rio.


    Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha do a quem os ouviu a
    satisfao rara e salutar que s produzem as obras de arte, erguidas
    severamente com a segurana de que s  capaz a sinceridade.

    Critica do _Paiz_, do Rio.


    ...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na
    pea, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.

    ... pois nao ha muito disso por toda essa America afra.

    Arthur Azevedo--Critica da _Noticia_, do Rio.

 critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixo
politica, o autor da _Talitha_ contrape a critica da imprensa do Rio.

Ser vaidosa a citao d'essas opinies, mas o obscuro autor da
_Talitha_ tem orgulho do seu trabalho e esse orgulho  como a
soberbia das mes que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os
no corao como as imagens incomparaveis da suprema formosura.

A _Talitha_ no ser brasileira porque o assumpto e os personagens so
portuguezes; no ser portugueza porque o seu autor no teve a
felicidade de nascer em Portugal, mas...

Mas a _Talitha_  mais que portugueza, mais que brazileira,  humana.

Mas a _Talitha_  minha...  o producto do meu espirito, do meu
trabalho,  filha da minha mocidade...

 modesta,  pauperrima, e futil, mas  minha.

E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada;
pde viver noventa annos, como Srah, no haver Abraho na terra que
lhe arranque um Isaac das entranhas...

Os zoilos so admiraveis, sabem tudo e no fazem cousa alguma.

Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a
fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do co; desde a
constituio intima da familia  grandeza fulgurante da historia.

Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os
encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com
o typo legendario do gacho, a formosura das mulheres inspirando os
altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que d o aspecto
profundo  alma do povo, a vastido das campinas que modela a franqueza
limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que
imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos
homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a
intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo
isso a critica dos zoilos conhece... _ merveille_.

Sabe ella que o verso est banido do theatro moderno e s  admittido
nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e
devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser
emparelhados  maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e
graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas;
sabe ella que o rythmo do verso no deve ser apenas o junqueireano para
evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no
theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor s
exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola
romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir no
so os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac:
que os modelos acceitaveis so Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo
isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente.

Alm disso a critica tem talento, tem erudio, tem admiradores, tem
bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro
publico, tem o apoio da sociedade, no sabe o que seja a amargura da
lucta pela existencia...

Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flem, os annos se
succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e
magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e no
produz absolutamente nada.

Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a
colorao garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o
figurino do fato, empanturrando-se da leitura _ la diable_, maldizendo
do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu
pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos
alveja, fere, offende e babuja.

Vive para gozar e maldizer.

A critica indigena dos zoilos  como o Sahra: esterilidade completa,
beduinos e camellos.

 caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel.

                                                       Pinto da Rocha




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