The Project Gutenberg EBook of Jos Estevo, by Jaime de Magalhes Lima

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Title: Jos Estevo

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: May 21, 2009 [EBook #28902]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JOS ESTEVO ***




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                         Jayme de Magalhes Lima



                              Jos Estevo



                          Frana Amado, Editor.

                              Coimbra. 1909.




                              JOS ESTEVO



             Composto e impresso na Typographia Frana Amado,
                  rua de Ferreira Borges, 115--Coimbra.




                         JAYME DE MAGALHES LIMA


                               JOS ESTEVO




                                 Coimbra

                        F. Frana Amado, Editor

                                  1909




Pde o racionalismo alinhar argumentos para annular o despotismo da
auctoridade pessoal e nos persuadir de que os unicos poderes legitimos,
na direco individual ou collectiva dos homens, so a consciencia e a
verdade, reveladas e illuminadas pelo pensamento, pela logica, por um
exame intimo, completamente alheio  considerao e interferencia das
qualidades e da attraco ou repulso d'aquelles que nos cercam,
presentes aos nossos sentimentos, em contacto immediato ou na imaginao
e recordao historica. Pde mesmo no rigor da deduco levar-nos a
confessar que assim deve ser, quando o espirito attingir uma maioridade
authentica, uma independencia etherea. Mas a realidade das cousas,
perseverante, na placida e indulgente ironia em que docemente escarnece
da firmeza dos conceitos e das presumpes da razo, continua a
deixar-se levar mais pela seduco das pessoas do que pela exactido e
belleza dos systemas. Afasta do caminho abstraces, ainda as mais bem
fundadas, no desiste de ordenar que os homens se guiem por influencias
humanas e lhes obedeam, preterindo por esse modo e sem cessar as
determinaes e instancias de syllogismos, que facilmente atraioamos a
cada passo, convencidos todavia da perfeita bondade e rectido do nosso
proceder.

Por certo, uma fora occulta nos conduz; e, pela energia e tenacidade,
dever ser to legitima como os mandados da razo. Dir-se-ia que, para
se tornar efficaz, a doutrina, sobretudo a doutrina moral, carece de
personificao consentanea e de exemplo. Porventura, nem a sublimidade
christ teria conseguido triumphar se Jesus, pobre, flagellado,
paciente, a no houvesse santificado, immolando-lhe o sangue perante as
multides e o vulgo, se, pelos actos mais do que pelas palavras, no
houvesse dado testemunho, at ao martyrio e morte ignominiosa, da plena
consubstanciao do corpo e do espirito arrebatados n'uma unica
aspirao. Uma mysteriosa e vaga lei psychologica querer talvez que a
verdade s seja verdade quando se mostrou em frma palpavel, e s possa
dominar dominando-nos pela capacidade e fascinao dos homens nos quaes
transitoriamente encarnar.

D'essa tendencia  confiana e abdicao na auctoridade estranha no
encontrei melhor exemplo, em toda a minha vida, do que a preponderancia
de Jos Estevo em Aveiro entre os homens da sua gerao e entre
aquelles que immediatamente lhe succederam.

Quando comecei a sentir conscientemente o que em volta de mim se
passava, j tinha morrido Jos Estevo. Mas que profundo e absoluto
imperio no o vi exercer?!... Que largo e indisputado reinado! A sua
vontade era a sentena ultima; o seu julgamento a suprema justia. O que
queria elle? O que desejava? Como apreciava os factos e as
intenes?!... Em tudo, nas cousas pequeninas como nas grandes, no se
podia ir alem, fossem quaes fossem os caprichos em jogo, sem averiguar
primeiro do conselho e mandados de Jos Estevo, irrevogaveis. A tutela
era perfeita. Esse homem, que se batera pela liberdade, deixra-nos
escravos do seu proprio dominio; escravido voluntaria, sem embargo, no
fundo um despotismo. Nem sequer era prudente aventurar juizos sobre o
caracter dos contemporaneos com quem elle tratra; estavam julgados, e
seriam bons ou maus, conforme nos seus olhos se houvessem reflectido.
Jos Estevo dizia..., Jos Estevo queria...; chegadas a esse
ponto, as discusses rematavam. A lembrana das suas palavras, dos seus
gestos e attitudes e do seu proceder dirimiam pleitos que a mais avisada
ponderao no lograva solver. Os motivos d'auctoridade prevaleciam
sobre toda e qualquer outra tentativa d'explicao. A amizade, que o
rodera de to grandes dedicaes emquanto andou no mundo, redobrava
d'affecto depois que elle d'aqui partira; e constantemente o resurgia
das cinzas para o interrogar e seguir. Belleza e bondade, rectido e
injustia, at o aspecto comico das cousas, tudo elle havia apontado e
regrado d'uma vez para sempre, pela imposio do seu pensamento, pelo
calor de iras sagradas, e no raro pela rutilencia e agudeza dos
gracejos. A voz baixava ao pronunciar-se-lhe o nome; se alguem invocava
aquella sombra e ella voltava no seu esplendor d'eterna gloria,
emudeciam, por uma insinuao profunda de respeito e carinho, quantos
entreviram a appario.

Viveu-se assim em Aveiro durante prolongados annos, n'este temor e
venerao ultra-tumular d'uma magestosa figura, sob a soberania d'uma
alma nobre entre as mais nobres. N'esta sujeio se vive ainda. E oxal
em igual obediencia os vindouros possam viver no correr dos seculos!

Que armas constituiram e constituem aquella fora sobrenatural? Por que
extraordinario conjuncto de faculdades e sentimentos, por que impulsos e
indefectivel vehemencia d'elevao se divinisou aquelle homem?

Eis o que n'estas paginas procuro analysar, antecipadamente certo de que
nunca me ser dado desfiar, fio a fio, as prises que nos subjugaram.
Por muito feliz me tenho se algumas tiver destrinado; sem falsa
modestia o confesso, e tambem sem corar da propria insufficiencia, to
ardua se me afigura a empreza. Ha invariavelmente no genio qualquer
cousa essencial e irreductivel, d'uma integridade invulneravel,
inaccessivel ao exame, e resultando em que, depois de percorrermos um
largo circulo de observaes, ao fim, fatigados da louca obsesso de
aprehender sempre illudida, temos de renunciar ao esforo improficuo e
render-nos a um derradeiro poder, revelando-se-nos s para ser adorado e
nunca perscrutado--o encanto.




I

IDEIAS POLITICAS


IDEIAS POLITICAS


I

Por muito que a dependencia pse ao orgulho da especie, a grandeza dos
homens tem de referir-se s circumstancias do seu tempo. A vulgaridade
do preceito e os vicios e erros da sua applicao infinitamente repetida
no lhe prejudicaram a legitimidade e inteireza; no isentam da
necessidade de o considerarmos e respeitarmos na apreciao de qualquer
cuja physionomia tentamos analisar, heroe ou deus que elle houvesse
sido. No mais vil como no mais nobre penetrou uma parcella, por vezes
minima e em muitas outras capital, d'uma energia alheia e inconsciente,
arrastando, involvendo e confundindo na sua vibrao o caracter
individual. Agora succumbe e logo resiste, hoje cede e amanh domina,
ora lucta e se defende, ora se identifica e conforma, mas sempre ter de
mover-se sob a influencia d'attraces exteriores, vagas, impetuosas,
das quaes jmais conseguir libertar-se absolutamente.

De tal intimidade e to persistente ficaro a todos, sem excepo, no
aspecto, nas tendencias e inclinaes, em todo o modo de ser physico e
moral, traos que no so nossos, que no viram de ns, que no
cremos, que nos foram como impostos, gravados por actividades externas;
e ao mesmo tempo, sob essas presses, perdem-se elementos proprios da
nossa personalidade ou, pelo menos, atenuam-se e afrouxam na expanso. O
criminoso e o santo, o maior resplendor e a infima miseria, nenhum fugiu
s contingencias d'essa lei. Quantos se ergueram em fama e ventura e
quantos rolaram no p da ultima desgraa e da obscuridade, todos foram
bafejados ou flagellados pelos turbilhes anonymos da sua epoca.

Para bem comprehendermos Jos Estevo, teremos pois de comear por uma
inquirio summaria das correntes de pensamento a cujos impulsos se viu
sujeito. Politico e soldado, teria de as sentir profundamente. Talvez
mesmo dissessemos melhor que foi politico e soldado porque, por uma rara
agudeza de intuio moral, as sentiu profundamente. Mas, seja como fr,
inspirado por ellas e reagindo ou sofrrendo-lhes apenas o impeto, a
regra que nos manda ligar a mentalidade dos homens s condies da sua
epoca  de respeitar em toda a hypothese, obrigando de preferencia
n'aquella em que o pensamento, traduzido immediatamente em aco, tem de
contar com o correctivo do movimento simultaneo das actividades
oppostas. Pde o poeta e o philosopho architectar um mundo a seu modo,
abstraindo quasi por completo do tumulto que o cerca; o que os outros
fazem pouco lhe perturbar o sonho. No pde porm ser assim o luctador
que desce  arena e, em vez de enlevar ou convencer, quer estabelecer
novos moldes d'existencia terrena. Este encontrar, nas construces j
feitas e nas que outros procuram erguer, graves estorvos ao seu
emprehendimento, limitando-lhe os planos, apertando o espao livre para
a sua orbita, e no raro coagindo-o a desistir e emigrar para regio
mais favoravel, ou, caso bem frequente, a contentar-se na realidade com
uma parte modestissima de idealismos gigantescos. Accrescentarei mesmo,
antecipando reflexes que ao deante desenvolvo, que por todas essas
provaes passou Jos Estevo perante as surprezas e contrariedades das
presses do seu tempo. Tambem elle, apezar do vigor athletico do
corao, sentiu e confessou tentaes de desistir da peleja, d'emigrar
dos arraiaes politicos para outros mais tranquillos e salutares, de se
render, vencido, e deixar o campo a adversarios e a camaradas, muitos
dos quaes se revelavam mais funestos  realisao das suas aspiraes do
que os inimigos declarados. E, quanto  redaco pratica da largueza dos
seus sonhos, experimentou-a a cada passo, sabe Deus com que dr.

Uma cousa se no reduz nem amesquinha todavia com as circumstancias do
tempo;  a estatura intellectual e moral dos homens. Essa salva-se
sempre de toda a derrota. Aquillo que cada um recebe do ambiente no
anulla afinal, nos verdadeiramente fortes, o caracter da personalidade;
este sobrepe-se-lhe e, sem perder o que possue de commum e geral,
sobreleva-lhe, distinguindo-se com uma intensidade e realce que o
apartam do vulgo. No pde a grandeza d'alma crear sociedades  sua
imagem e semelhana, veio encontral-as feitas, cortadas d'influxos
differentes, uns impuros, outros claros, conduzindo uns a profundezas
tenebrosas, levando outros a regies illuminadas; mas o modo por que
ella se houve em meio d'estes turbilhes, a energia inspirada e a
audacia que revelou, modificando-os e encaminhando-os, o vigor com que
emergiu de caudaes revoltos e turvos para uma atmosphera crystallina,
isso nos dar a medida da grandeza. Para que um organismo cresa e se
desinvolva e para que a pujana d'um temperamento possa manifestar-se, 
necessario, indispensavel, que seja de natureza identica  do ambiente,
onde os acasos do destino o collocaram; opposta ou heterogenea,
dar-lhe- a morte subita ou lenta, n'um definhar ignorado e infecundo.
Mas, parallelamente, se a actividade propria assume um alto grau
d'intensidade, a reaco d'esse organismo sobre o ambiente ser to
efficaz que em determinados momentos a preponderancia se inverte.

Portanto, para julgar com exactido dos resultados e suas causas,
carecemos ter presentes  lembrana todas as foras que se conjugaram na
creao e attitude d'aquelles vultos superiores que nos deslumbram pela
estatura, pela magestade e pelos feitos. S assim lhes prestaremos o
culto que merecem, n'uma perfeita lucidez de consciencia; e s assim
tambem os poderemos seguir sem errarmos a jornada pelo desvairamento de
illusorias miragens.


II

Jos Estevo nasceu em 1809. Antes dos vinte annos tinha entrado na
politica. Aos desoito batia-se com as armas na mo, e, vencido,
emigrava.

Nos combates a que, moo generoso, corria inflamado em esperanas de
dias venturosos para a sua patria, encontrava-a sob o dominio espiritual
da Frana. As nossas revoltas e aspiraes eram reflexo do que se
passava em Frana. Reflexo frouxo, alterado, produzindo frequentes
distores do modelo abstrusas at  caricatura, fazendo degenerar por
vezes largos gestos divinos de gigantes em esgares de anes impotentes,
mas reflexo authentico em todo o caso, constantemente derivado d'aquella
mesma luz e, em mar de fortuna, valha a verdade, reproduzindo-a com um
brilho igual ou superior ao do fco d'origem, alis deslumbrante.

Tenhamos sempre este facto em lembrana.  capital.

Reconheceu-o Jos Estevo, em 1840, claramente, quando, no primeiro
discurso do Porto Pireu, fallou da Frana que sempre aqui se nos
inculca por modelo; e lembrava que a esse grande arsenal da legislao
franceza vo de continuo os nossos estadistas buscar os exemplos e as
theorias governamentaes. E, poucos dias depois, no segundo discurso do
Porto Pireu, respondendo a Almeida Garrett, insistia na influencia da
Frana sobre o pensamento e proceder dos nossos homens publicos. Esto
no Pireu, disse, os que no seculo XVIII mandam vir de Frana por
atacado quintaes e quintaes de discursos do abbade Maury e d'outros e
que, ensopando estas insossas comidas com molho de Guizot e
Rover-Collard, expem  venda como eguaria exquisita a chanfana da
soberania da razo, da supremacia legal das capacidades, julgando que a
grosseira cosinha doutrinaria, que com seus pasteis tanto tem arruinado
a sade dos povos e reis, ainda pde satisfazer o delicado paladar das
naes, acostumadas aos apetitosos guisados da soberania popular, da
igualdade e da justia.

Julgou porm legitima essa influencia, embora na passagem citada
precedentemente a indicasse mais para castigar a fraude, o commercio de
mercadorias avariadas que a astucia nem sempre desinteressada dos
contrabandistas ia buscar alm dos Piryneus, do que para ostentar o
fulgor do ouro de lei que de l importavamos. Em 1858,--desoito annos
mais tarde, note-se, e a distancia entre as duas datas d'affirmaes
identicas pde esclarecer-nos sobre a persistencia do facto a que so
allusivas, em 1858, discursando no parlamento sobre o triste incidente
da barca franceza _Charles et George_, sob o pungir d'aggravos fundos e
no poupando  Frana a accusao dos seus erros, observava, calma e
nobremente, com aquelle espirito de justia que jmais o desamparou, sem
se perturbar pela agudeza da dr, que a Frana, se no foi a primeira
iniciadora da liberdade na Europa, pde dizer-se que foi quem primeiro a
ensinou em escola publica na mesma Europa, porque a pz em linguagem
vulgar, porque a sujeitou  apreciao de todos os povos, porque a
adaptou a costumes com os quaes se assemelham os costumes da maior parte
das naes europas.

Eis as fontes em que bebiamos o pensamento da nossa politica, as boas e
as ms, as salutares e as maleficas. N'essas palavras d'apostolo e de
soldado, bem medidas e ponderadas, encontraremos a revelao bastante da
proveniencia das correntes em que fluctuavamos, da attraco da sua
limpidez e tambem, miseria humana! da vasa que traziam suspensa e por
momentos a escurecia.


III

A Frana do tempo de Jos Estevo vivia na anciedade de saldar o encargo
formidavel que a sua audacia lhe impozra,--a victoria e consolidao
d'aquillo que na historia se designou pelo nome de principios da
Revoluo Franceza. Procurava, n'uma inquietao interminavel, cumprir
as obrigaes que as circumstancias politicas e a propaganda e promessa
fascinante dos seus genios havia creado,--trazer aos povos de todo o
mundo a redempo dos males e angustias passadas, provenientes do
despotismo dos homens e das classes governantes, e dar-lhes em troca,
por uma nova constituio social adequada, a felicidade perpetua. O
seculo XVIII legra-lhe um amontoado informe de destroos e aspiraes,
que ora se mostrava tenebroso ora resplandecia, uma confuso
indistrinavel de cousas caducas, mortas e putridas, e de sementes a
despontarem e a germinarem, tumidas de vigor e irradiando belleza;
alternavam, n'uma extenso infinita, as ruinas irreparaveis e os fructos
tentadores de fecundissimas seras. E era d'isto que o engenho e o
esforo dos homens havia de tirar uma sociedade renascida em riqueza e
justia, em plenitude dos bens do corpo e da alma, em toda a sorte de
formosura; d'esse tumulto haviam de surgir a paz, a alegria e toda a
ventura, reinos de bemaventurana como o mundo jmais conhecra. A
miseria, a oppresso, quanto nos faz a vida sombria e triste, iam
varrer-se da face da terra para os limbos infernaes da historia.
Affirmavam-n'o apostolos exaltados que pela crena davam o sangue e o
ultimo alento, sacrificando-os gloriosamente no patibulo e nos campos da
batalha.

Se quizrmos dar uma ideia do grande movimento que foi a revoluo
franceza, diremos nas palavras de quem a estudou e conhece
profundamente[1] , que foi a destruio de tudo o que era meramente
tradicional e o estabelecimento da existencia humana n'uma base de pura
razo, por meio d'um rompimento directo com tudo o que era historico. O
despotismo dos reis e da nobreza feudal, prolongando na realidade a
servido da gleba, quando j o espirito do tempo e as lies da
experiencia a haviam condemnado como uma desgraa e monstruosa;
privilegios e desigualdades calamitosas que redundavam em fome de
milhares de boccas e na corrupo sordida d'alguns poucos privilegiados;
um clero e uma egreja que pelo exemplo negavam a toda a hora a doutrina
christ e a substituiam por formulas magicas, cujo monopolio lhes
pertencia e cuja observancia dava a graa e a salvao eternas; a
degradao da religio, por este modo convertida n'um culto de signaes e
em devoes estupidas, apagando-lhe n'um ritualismo inane toda a
elevao em espirito e toda a limpidez de consciencia, e isto ao mesmo
tempo que os sacerdotes de Jesus davam o triste espectaculo da
sensualidade e do luxo perante multides de trabalhadores a morrer
d'indigencia; uma demencia de vaidades, gozos e interesses sobrepondo-se
 miseria geral dos povos; e, por outro lado, o anathema dos pensadores
e philosophos, desvendando a lepra das sociedades e inflamando-as em
vises de cura, de sade e de fora, posto que este ultimo elemento no
fosse na opinio de bons espiritos o principal e influissem mais no
assombroso movimento de revolta os factos e as cousas do que o estudo, a
reflexo e a phantasia dos prophetas d'uma era nova[2] :--todo esse
descredito do passado e do existente fermentou e explodiu n'uma onda de
destruio e de sangue. A arvore carcomida, que exteriormente parecia
robusta e magestosa mas no intimo estava apodrecida e desfeita, ruiu
n'um momento com um estampido pavoroso. Ouviu-o com espanto a Europa
inteira, e embriagou-se nos fumos que os destroos exalavam. Abalaram-se
os fundamentos de toda a ordem constituida. Aquella vertigem, embora
primeiro se revelasse em Frana com uma intensidade sem precedentes, era
commum, em differentes grus, a toda a Europa central e do occidente,
exceptuando a Inglaterra que muito se antecipra j no caminho das
reformas pedidas em tamanha violencia; e, se em Frana se manifestava
primeiro, era porventura porque alli haviam attingido maior extenso e
mais duro imperio os males a que se pretendia pr termo, e alli tambem
haviam nascido, em mais larga escala e mais profundos, os devaneios
generosos de redempo e a confiana n'uma instantanea e segura
converso da miseria em fortuna, medeante o triumpho de puros principios
philosophicos. N'uma febre de reforma nunca vista, varreu-se o passado
com todos os seus bens e com todos os seus males; na esperana de dias
melhores caiu-se n'um delirio de mudar a ferro e a fogo as instituies
e os homens, no raro pelo simples amor de mudar, de todo esquecida a
razo de ser d'aquillo que se proclamava ruim e como tal se reduzia a
p.

    [1] G. Brands, _Main Currents in Nineteenth Century Litterature_.
    Ed. ingleza. (W. Heinemann, 1906).

    [2] Barante considera infundada a assero de que os auctores do
    seculo XVIII eram responsaveis pela revoluo que nas suas duas
    ultimas decadas o assignalou. Julga a litteratura d'essa epoca
    apenas um symptoma da doena geral. A litteratura seria a expresso
    do estado social. Na sua opinio, a guerra dos sete annos teria
    feito mais para enfraquecer a auctoridade em Frana do que a
    Encyclopedia; e o caracter profano da crte de Luiz XIV, emquanto
    perseguia protestantes e jansenistas, fez maior mal  reverencia
    pela religio do que os sarcasmos e os ataques dos philosophos.

As injustias com a antiga ordem social, perseguida e combatida por
muito funesta, coincidiam porm a cada passo com a deficiencia e
desastres das tentativas e concepes modernas para satisfao das
aspiraes que estavam destinadas a realisar immediata e completamente.

Era certo, visivel e manifesto, que uma transformao da consciencia
politica se havia operado e reclamava traduco consentanea nas leis e
nos costumes. O congresso de Philadelphia, treze annos antes da
revoluo de 1789, em 1776, definira n'estes termos a nova crena:
Consideramos como evidentes por si as verdades seguintes--Todos os
homens so iguaes; possuem direitos inalienaveis. Entre estes direitos
encontram-se a vida, a liberdade, o esforo pela felicidade. Os governos
foram estabelecidos entre os homens para garantir estes direitos, e o
seu justo poder baseia-se no assentimento quotidiano dos governados.
Todas as vezes que uma forma de governo qualquer se torna destruidora
dos fins para os quaes foi estabelecida, o povo tem o direito de a mudar
e abolir.

A legitimidade da revoluo e o caracter sagrado dos principios em nome
dos quaes se fazia, no se punham em duvida. As divergencias iriam
encontrar-se nos processos d'execuo, e sobretudo na forma e natureza
da construco politica que havia de substituir o antigo e decrepito
edificio. Sobre esse ponto, o seculo XVIII legra  Frana, juntamente
com indomaveis impulsos humanitarios de liberdade, igualdade e
fraternidade, tres correntes politicas, tres attitudes differentes bem
accentuadas na empreza herculea de firmar na terra o reinado da
justia:--a corrente que Voltaire personificou, corrente de puro exame e
negao, apenas dissolvente, apontando com uma ironia mortal os erros,
iniquidades, crimes e insensatez do antigo regimen, porventura no se
detendo a esboar outro systema, porque acreditava na reparao completa
dos vicios predominantes por um movimento moral interno, dispensando
d'abandonar as formulas constituidas, e limitava a tarefa de saneamento
a infundir-lhes novo espirito e novos costumes no exercicio dos seus
poderes;--a corrente que encarnou em Rousseau, constructiva, corrente
d'organisao, refundindo a sociedade em outras bases, num plano logico,
absoluto, radical, que no admittia desvio ou alterao e ignorava
diversidade ou dissemelhana entre os instinctos humanos, todos bons,
segundo o philosopho conjecturava, no estado de natureza;--e por ultimo,
corrente mais frouxa, menos nitidamente traada, mas, sem embargo, com
uma existencia to real, persistente e efficaz como as demais tendencias
em aco, a corrente que Montesquieu trouxe  luz, bem inspirado no
profundo conhecimento da vida pratica em que os encargos profissionaes o
fizeram penetrar, e que magistralmente esboou no _Espirito das Leis_,
condemnao do dogmatismo e prodromos adeantados do criterio
evolucionista, estabelecendo, d'uma vez para sempre, com um rigor que as
theorias scientificas modernas confirmaram e ampliaram, que as leis teem
de sr fundadas em multiplas e complexas condies de raa, de
temperamento e de tradies, e nunca, para serem estaveis e proficuas,
podero derivar de principios absolutos, inalteraveis, fixos.

Prevaleceram no primeiro impeto da revoluo franceza a negao
voltairiana e o dogmatismo philosopliico, destituido d'elasticidade,
d'uma rigidez deshumana, apertando, em excessos quasi prohibitivos, o
espao necessario  expanso da variabilidade das paixes e instinctos,
que alis lhe competia regular e libertar, como annuncira, captando por
isso as sympathias dos ingenuos. Mas no se manteve nem podia manter-se.
A seccura do racionalismo, alm d'ignorar as necessidades psychologicas
da imaginao e da phantasia, temperando de devaneio poetico as durezas
da existencia, esqueceu tomar em conta as particularidades da raa e da
historia de cada povo, com as suas concepes religiosas e as
inclinaes moraes correlativas, sentimentos a que correspondem
necessidades de realisao pratica, que levaram seculos a crear e no se
destroem n'um dia por um simples gesto de quem manda, ou seja imperador
ou tribuno, victima da f em uma uniformidade absurda, tomou por crime
sujeito a sanco penal o que no estivesse d'accordo com a deduco de
principios abstractos, e assim preparou a reaco e a propria desgraa,
congregando contra si todos os elementos violentamente excluidos do seu
plano ou por qualquer causa contrariados. E quem assistisse aos
acontecimentos e os visse com o olhar dos genios, poderia desde logo,
como de facto succedeu, julgar o futuro pelo presente e pelo passado e
fazer a historia antes que os tempos lhe ratificassem a assombrosa
prophecia. O seculo XVIII, escreveu ento M.me de Stael, proclamra
os principios d'um modo excessivamente incondicional:  possivel que o
seculo XIX explique os factos n'um espirito de excessiva resignao com
elles.

Veio a reaco, primeiro com o imperialismo napoleonico, depois com a
restaurao pura e simples da monarchia e seus velhos systemas. No lhe
faltavam elementos, muitos se haviam conservado fieis  antiga ordem
politica, por egoismo, pelas saudades dos seus ocios e regalos, pelas
honrarias e riquezas abolidas e offendidas, por simples passividade ou
indifferena, pelo respeito do passado e seduco de sua magestade e
esplendor, dos seus aspectos de opulencia e solidez, pelo poder do
habito que fazia acceitar como boas as sujeies mais odiosas e como
naturaes e legitimas soberanias absurdas, superioridades e distinces
de sangue e de classe que a mais leve reflexo devia dissipar
instantaneamente. Demais, a gloria de batalhas vencidas por toda a
Europa encaminhava o espirito popular para o plo opposto a aspiraes
de liberdade, igualdade e fraternidade, cujo maior inimigo  e ser
sempre o militarismo, com a disciplina degenerando em annulao total da
liberdade, e com a fora preterindo constantemente o direito e negando
sem cessar a fraternidade. Rolando as cousas politicas em esse novo
pendor, inventaram-se concordatas com a egreja catholica, cuja
auctoridade no houvra meio d'esmagar. De concesso em concesso,
talvez, ou pelo menos em parte, pelo cansao das proprias guerras e
luctas, e muito pelo desengano da felicidade que tardava e no se
approximava s pelo effeito de derrubar o passado, succedeu  furia da
justia a ancia d'ordem, vaga negao da liberdade, declarada exigencia
do restabelecimento da regra e da imposio, restaurando, com as penas
correlativas, obrigaes e deveres sociaes d'outros tempos que a
revoluo desprezra e contestra. A anarchia, propria de toda a epoca
demolidora, gerou o despotismo que  soccorro obrigado de situaes
semelhantes; e d'esse incidente partiu a orientao para novo rumo. Aos
principios de liberdade, tomando-a pela dissoluo de multiplos vinculos
sociaes e invocada no interesse individual, veio oppr-se o principio da
auctoridade, coagindo a sujeies em nome do interesse da communidade.
At aquelle largo e generoso humanismo que, derrubando fronteiras, fazia
do mundo uma familia e de todos os homens irmos, comeou a perder
terreno, vencido pela ideia de patria; a reaco do principio do seculo
XIX, chamando em seu auxilio as tradies nacionaes, logo por esse facto
traava limites, marcava divergencias entre os povos e combatia o enlevo
humanista, de sua natureza universal, propenso a apagar radicalmente
todo o vestigio de divises de territorio, raa, costumes e
instituies.

Na logica instinctiva do seu impulso, a reaco em Frana, avanando e
substituindo pelo absolutismo tradicionalista o absolutismo
revolucionario, erro por erro, foi terminar na restaurao pura e
simples do passado, no rei, na crte, no predominio da hierarchia
ecclesiastica, nos privilegios, supremacias e dependencias, esquecida a
breve trecho do que em tudo isso havia d'oppresivo e injusto, a tal
ponto insupportavel que determinra as violencias destruidoras da
revoluo. Afferrando-se aos preconceitos e bastas vezes  obsesso de
retaliaes e vinganas e  simples instigao de conveniencias
temporaes, convertendo a restaurao da ordem politica e religiosa
historica na restituio de proventos, commodidades e gozos com a
privao dos quaes nunca tinham podido conformar-se as aristocracias
reinantes, cegas e indifferentes  miseria profunda dos povos que o
feudalismo omnimodo e sem caridade importava, a reaco tradicionalista
cantou victoria alegremente, de todo alheia ao facto de que a revoluo,
boa ou m segundo diverso criterio, era um acto consumado e consagrado,
a registar tambem entre as tradies, tendo d'ora avante logar marcado
entre os factores das sociedades, seno pelo que d'ella ficasse
inabalavel, ao menos pelos vestigios das construces que architectra,
na verdade por um e por outro modo. Atravez de todos os impulsos e
tentativas conservadoras, muitas sem duvida legitimas, uma dissoluo
formidavel da antiga ordem social se tinha operado, condemnada no s
pelas desgraas a que conduzira, pela fome e miserias que gerra, mas
ainda por falta de base sufficiente, abalados como se mostravam os seus
fundamentos cosmogonicos e theologicos, pela analyse, pela observao
scientifica, e por um lucido despertar da consciencia da dignidade
humana. No via a reaco que as sociedades so mudaveis de condio, e
ho-de mover-se e transformar-se emquanto viverem, d'aspirao em
aspirao; tinha por definitivo o que era transitorio, e at o que se
encontrava morto para sempre; em accessos d'egoismo desvairado reputava
crime, para o qual pedia e applicava rigores extremos, todo o esforo
pelo progresso na fundao d'um systema de relaes sociaes mais de
perto inspirado na justia do que aquelle que at alli se havia mantido
e se degradra em aviltada corrupo. Banira-se-lhe do espirito a noo
do sentimento que equiparava entre si todos os homens e jmais poderia
ceder das suas instancias; nem mesmo a percepo da fraternidade christ
e seus deveres lhe restava, possuida, como andava, d'uma falsa
comprehenso do principio d'auctoridade que, no seu conceito e na
pratica do seu governo, resultava n'um principio de sujeio, a bem ou a
mal, aos poderes constituidos, legitimados e sagrados pela religio,
intervindo com a graa de Deus, apposta pelos sacerdotes, para
sanccionar o direito de quem mandava e o dever de obediencia dos que
eram mandados.

Uma reaco d'essa natureza no podia vingar. Assim como a revoluo
fra vencida por virtude do caracter abstracto, por no conceder o seu
logar a motivos de sentimento, de cuja satisfao a felicidade humana
no prescinde, a reaco tinha de cair por excluir do seu campo as
aspiraes de liberdade e reforma que quelle tempo j ninguem podia
arrancar do corao dos povos. Nem mesmo muitos dos que apoiavam a
reaco ignoravam que alguma cousa da revoluo tinha de perpetuar-se e
dilatar-se; se apparentemente o negavam, era por calculo, por
hypocrisia, por adulao e lisonja dos vencedores, para irem
aproveitando os favores do poder em quanto elle durasse, promptos a
tributar igual respeito a quem quer que substituisse os governantes
quando os ventos mudassem. A revoluo tinha sido um despotismo
invertido, usando de toda a violencia dos tempos anteriores  sua
exploso, mas agora em beneficio dos principios revolucionarios e,
quando Deus queria, das ambies proprias dos que eram designados para a
representar na lei e no mando. Depois de quarenta annos de luctas, a
Frana no tinha alcanado ainda a famosa liberdade pela qual andava
suspirando e sangrando, e meditava novos meios de a conquistar, formas
de governo que lh'a assegurassem, em paz e estabilidade.

Ao tempo em que Jos Estevo entrava na politica, nos derradeiros annos
da terceira decada do seculo XIX, a Frana, sonhando pr termo aos
conflictos em que desde a revoluo se vinha esgotando, chegava a esse
compromisso que se intitulou a monarchia constitucional. Tudo l havia
de caber, o passado e a revoluo, a liberdade e a auctoridade, a
religio e o estado, os padres e os seculares, os apostolos e os
mercantes, o idealismo e a cobia. Na opposio de tendencias em todas
as quaes havia uma parcella de verdade e bem entendida conveniencia e
interesse social, a rectido dos homens bons e sinceros hesitava; ora se
inclinava a reformas, ora se convencia das vantagens de manter a
constituio historica, abonada por seculos de grandeza. Aos que menos
lucidamente distinguiam as razes fundamentaes e nobres d'essa incerteza
de caracteres superiores, smente e lealmente preoccupados com a ambio
d'acertar, essa attitude afigurava-se contradictoria e dando facil presa
a suspeies, que nunca faltam em conjuncturas identicas. Mas, atravez
de mil aspectos e vicissitudes, era certo que, pela experiencia das
revolues e contra-revolues succedendo-se durante um largo periodo,
preponderava ento nos homens publicos mais reflectidos e a todos os
respeitos mais capazes o pensamento de que, se a revoluo tinha muito
de justo, o passado tinha tambem no pouco de essencial  boa fortuna
das comunidades humanas. E conjunctamente o povo, nada sensivel ao
encanto de principios abstractos, cuja harmonia tanto captiva os poetas
e os philosophos e to facilmente os induz a afastar-se da realidade,
expondo-os s dres da desilluso, o povo favorecia as inclinaes dos
chefes politicos. Sendo a victima mais flagellada das disputas
revolucionarias, cansado de guerras interminaveis, inquietaes
permanentes e fomes prolongadas, queria a tranquillidade a todo o custo.
O melhor governo, para elle, seria ento, como hoje, aquelle que lhe
deixasse os filhos para o trabalho e no lh'os pedisse para as chacinas
dos exercitos, e que lhe permittisse comer em socego o po amassado com
o suor do rosto.


IV

Pelas proximidades de 1830, a Frana, na anciedade de descobrir formulas
politicas que lhe dessem riqueza e paz, inclinra-se, consciente ou
instinctivamente, s doutrinas de Montesquieu; ia reconhecendo pela
imposio dos factos que o clima, a raa, a situao geographica, e
sobretudo as tradies historicas de cada nao so foras activas e
invenciveis no modo de ser politico dos povos. s abstraces da
revoluo oppozera-se a ideia de patria e o sentimento nacional,
differenciando e limitando, e dividindo o mappa do mundo em
circumscripes diversas de caracter e d'interesses. Ai da fraternidade
dos povos! Descobriram-se razes para justificar o egoismo das
collectividades. Mas tambem, em meio da fortuna varia do liberalismo e
da reaco, atravez de periodos longos de dictadura e absolutismo,
firmra-se a confiana em moldes novos de constituio politica;
acceitava-se em principio a igualdade dos homens e em larga escala se
traduzia nas leis civis e politicas, assentes d'ora avante em bases
juridicas repassadas de philosophia do liberalismo humanitario. O
compromisso entre o passado e o futuro, entre os factos e as aspiraes,
ia estabelecer-se por uma partilha de dominio, o mais das vezes
arbitraria, que era uma tregua e no uma soluo do conflicto.

Em Portugal seguira-se caminho parallelo ao que em Frana conduzira
n'essa epoca  monarchia constitucional,--bem entendido, n'aquella
reduco e larga distancia que nos designava o grau da nossa civilisao
comparada com a civilisao franceza. Tambem ns haviamos conhecido os
esplendores e decadencia do regimen absoluto, a fome e miseria que a sua
corrupo importra, egoismos sordidos e imbecis de padres e reis e
aviltamento das plebes trabalhadoras na servido e na lisonja, illuses
breves do doutrinarismo liberal e a reaco immediata a poder de forca e
enxovia, luctas civis, e finalmente a victoria dos partidos
revolucionarios, desenganando do que o passado no podia subsistir tal
qual fra e estava irremediavelmente condemnado perante novas
aspiraes. Em 1836, quando o exito de sacrificios prolongados e
batalhas sangrentas assegurou o dominio dos liberaes, tudo nos conduzia
a adoptar a forma do governo estabelecida em Frana, seguindo-a passo a
passo, ns que de resto, ento e depois, nunca procurmos nem tivemos
outro modelo e mestre, embora sempre lhe comprehendessemos mal as lies
e no raro deixassemos cair a imitao em aleijes. No temos de que nos
surprehender quando em 1837 encontramos Jos Estevo, eleito deputado
pela primeira vez, a fazer na camara a sua profisso de f n'estes
termos: Eu amo os thronos, porque vejo n'elles um principio innocente
na organisao social, julgo que todos os damnos que teem feito no vem
d'elles, mas do modo de os constituir, do erro de os cercar de direitos
terriveis que lhes so funestos.

Este respeito da constituio historica, temperada pela insinuao dos
novos principios philosophicos, acompanhal-o- em toda a carreira
politica, corrigindo com igual firmeza, invariavel, os impetos
demolidores e as resistencias d'uma reaco obtusa e hirta, incapaz por
natureza de sair das formas mortas em que se refugiava. Em 1839,
definindo e justificando a sua attitude, dizia: Eu sou um homem de
principios; reputo em muito valor este meu brazo: n'elle se cifra todo
o meu orgulho. Para os homens de principios ha uma grande vantagem,
n'elles a ambio no  um vicio mas um pensamento, no  ambio
pessoal, mas  desejo sensato de os vr triumphar. Eu sou um homem de
principios, (repito) mas reconheo que todos os principios esto
sujeitos s conveniencias publicas, e que todo o homem que tem
principios entende que  do interesse d'elles submetter-se prudentemente
s circumstancias sem deslumbre de sua posio. E em outra passagem
esclarecia assim o conceito: Qualquer doutrina, por mais justa que
seja, sendo invariavelmente seguida nos negocios publicos, ha-de dar
pessimos resultados e comprometter as suas proprias exigencias; ha-de
assassinar a moral em nome da moral, e sacrificar a palavras a
prosperidade publica; tal doutrina importaria uma oppresso tyranica
sobre os factos, sobre os homens e sobre as cousas; seria finalmente um
fatalismo politico, mil vezes mais pernicioso que o fatalismo
philosophico. Onze annos depois, discutindo no parlamento o censo
eleitoral, de novo reconhecia a impraticabilidade e utopia do
radicalismo, ou reaccionario ou reformador: O congresso sabe que eu sou
partidario do voto universal; o voto universal  um grande principio, 
uma grande esperana,  base de todo o futuro europeu, base em que vo
parar todas as constituies, seno pelo seu estado politico, ao menos
pelo seu estado economico:  impossivel recuar da tendencia que levam
esses principios, pela connexo entre o estado economico da Europa e o
seu estado politico. Sr. presidente, ns somos fanaticos do presente e
do futuro, somos por isso utopistas; e os que so fanaticos do passado
so to utopistas como ns, porque o so tanto os que pretendem a
realisao d'uma lei que os tempos mesmo ainda tornam impossivel de
realisar, como aquelles que esperam se torne a realisar uma que os
tempos j condemnaram ao esquecimento.

Esta concepo do equilibrio politico, radical n'uma base historica, e
historico n'uma ideia de desenvolvimento progressivo, este pensamento de
conservao e progresso em permanente conjugao das actividades e
tendencias proprias dos elementos concorrentes, o criterio
evolucionista, como hoje se diria, seguir Jos Estevo em toda a
conjunctura politica, desde a profisso de f do moo vidente, exaltado
em esperanas de dar a felicidade aos povos, at ao parlamentar
desilludido pelo commercio dos homens e pelo espectaculo das suas
fraquezas. Em 1857 renova as affirmaes anteriores, julgando que a
regenerao foi uma correco prestadia  politica desmasiadamente
theorica de todas as administraes passadas. Nem sequer em momentos de
suprema e divina elevao, como foi esse do discurso sobre o apresamento
da barca _Charles et George_, deixou de condemnar o absolutismo no
governo, fosse qual fosse a forma que revestisse, tradicionalista
inflexivel ou reformista intransigente. Um governo que por honra de
familia, dizia ento, por influxo de datas, em virtude de
recomendaes testamentarias, haja forosamente de ter certas ideias,
certos principios, certas aprehenses, certas tendencias, conservar os
mesmos amigos, repellir os mesmos inimigos, e tudo isto sejam quaes
forem as epocas, as conjuncturas, as necessidades publicas, no 
governo,  um absurdo, um devaneio; uma especie de pyrrhonismo politico.
Um governo d'estes no tem pensamento nem aco sua:  um verdadeiro
automato; os seus actos so determinados por principios alheios  sua
vontade, marcados, numerados e classificados: um governo d'estes no se
abalana a andar, sem estar certo de que vae pela estrada por onde foram
os seus augustos avs. Pra onde elles pararam, e treme d'ir mais longe
do que elles foram. Ora um governo na epoca actual deve ser sobretudo
maneavel, facil e prompto em movimentos e capaz de os executar em todos
os sentidos e direces.

Ainda poucos mezes antes da sua morte, Jos Estevo sustentava a mesma
regra de governo, crendo e confessando que smente seria efficaz a
politica que procedesse attribuindo valor igual  tradio e ao
progresso,  inteireza dos principios e s condies do momento;
considerava que ha em todos os partidos um principio decisivo--so as
opinies fortes, formaes, sem transaco, sem composio, as opinies
absolutas, que no consideram o estado bem regido sem que ellas
triumphem completamente. E a par d'este principio ha outro que avalia
essas mesmas opinies absolutas, que julga da sua applicao s
circunstancias dos tempos, que as qualifica de proprias ou improprias, e
que modera a sua aco e as torna praticaveis. A experiencia das
revolues europeias, j longa n'esta epoca, acautelava Jos Estevo
contra os perigos de toda a rigidez logica em materia politica, e sem
duvida previa e temia no radicalismo as consequencias que at agora,
por desgraa, teem levado a democracia de irritao em irritao, de
desconfiana em desconfiana, d'opo em opo, de ensaios em ensaios, a
acabar desgraadamente em dictaduras, umas vezes grandiosas, outras
vezes desastrosas[3].

    [3] Sesso de 30 d'abril de 1856, _Discurso acrca do caminho de
    ferro._

Foi em doutrina e na pratica um moderado, avsso por caracter a
excessos, e por ponderao d'espirito contrario a extremos, respeitando
o passado e a ordem existente e tomando-o por valor essencial, sem
prejuizo todavia da crena na belleza da nova ordem e nos principios
revolucionarios, no perdendo opportunidade de os insinuar e applicar
com zelo e paixo onde podessem ter logar efficazmente, em hora propria
para uma applicao adequada, feliz e duradoura.

A questo da admisso das irms da caridade, debatida no parlamento com
ardor, mostrou-nos Jos Estevo confirmando em materia religiosa o seu
modo de ser politico, porventura accentuando ahi mais claramente do que
em qualquer outro campo a confiana nos principios tradicionaes da
constituio social das naes da Europa occidental. Para elle, a
historia e os seus incitamentos eram uma bussola cujas indicaes no
podiamos deixar de seguir sem grave risco, porque assim como a religio
 um elemento indispensavel de disciplina moral, a historia  um
elemento indispensavel de disciplina politica. Indispensavel, note-se o
termo. A negao do doutrinarismo abstracto no pde ser mais
cathegorica.

No queria as irms de caridade, porque significavam uma violao das
leis do reino, d'aquellas que haviam levado ao throno a dynastia da
senhora D. Maria II, que teve sempre um instincto finissimo, instincto
feminino, dos principios sobre que repousava a sua dynastia; porque
nunca capitulou, dentro da esphera do poder e das sympathias, com
aquellas invases surrateiras do poder ecclesiastico, que para ella eram
suspeitas de ser contrarias ao governo representativo. Respeitemos
estas leis, dizia, porque vivemos por ellas; so as nossas leis, so o
nosso corao, so a nossa vida, so a nossa historia... Com essas leis
no pensamento entramos sete mil perseguidos, sete mil expatriados, n'uma
cidade que tinha mais do que ns essas leis no pensamento, porque tinha
visto n'essas congregaes religiosas os instigadores e conselheiros
d'uma tyrannia nefanda; porque tinha visto sair d'essas casas ou
corporaes religiosas cohortes de testemunhas falsas, que tinham ido
aos tribunaes levantar com os processos judiciaes os patibulos d'onde
deviam cair as cabeas d'aquelles que ellas tinham marcado como nefastos
ao seu predominio...  preciso que nos convenamos de que no podemos
salvar os objectos que veneramos, se no reunirmos todas as nossas
foras constitucionaes e moraes para desfazermos e contrariarmos as
intrigas e embustes, pelos quaes se quer repr outra vz no seu throno e
predominio estas instituies, que ns combatemos, destruimos e
desfizmos. Receiava que aquellas instituies, pelas riquezas e
influencias das familias, se tornassem nefastas aos poderes do estado e
ao exercicio das liberdades publicas.

Depois, alm dos perigos do espirito catholico congreganista, adverso
aos principios liberaes e por isso carecendo de ser vigiado de perto,
porque as irms de caridade eram uma emanao do espirito jesuitico, e
em volta d'essa congregao se juntaram todas as ideias que ficaram
desbaratadas e destruidas pela perseguio que se fez a essa
instituio, vinham os inconvenientes da forma e apparencias da sua
vida e misso, vinham problemas propriamente moraes e religiosos,
sobrepondo-se s relaes politicas das communidades em discusso. A
religiosidade, no sentido que lhe do os theologos, no dispensa o culto
externo; e o culto externo das irms de caridade  pouco consentaneo com
as formas, com os costumes e com as prevenes da auctoridade civil.

Sem embargo, as irms de caridade so uma boa instituio, julgava o
tribuno. Mas podiam prejudicar o paiz... podiam influir no sentimento
publico, podiam offender a caridade particular, podiam quebrar o nexo
que liga as pessoas votadas a fazer o bem, podiam ser um vehiculo
d'indisposies, podiam tolher a liberdade d'aco do governo do paiz,
emfim podiam trazer mil inconvenientes que era mistr evitar. Por isso
as combatia, sem quebra do respeito que lhes votava e tinha por
merecido, dizendo: Eu venero e respeito a instituio das irms de
caridade, venero os preconceitos d'onde ella nasce, respeito as ideias
erroneas que a sustentam. Smente achava que era exaggerada e
desnecessaria, pois, para realisar a misso d'aquelles institutos,
temos duas associaes, uma religiosa e outra natural; temos a parochia
e a familia. Para que havemos de entrar na questo escolastica da
intelligencia dos velhos estatutos, nem pr em comparao diversas
escolas de caridade? Associemo-nos todos, cada um na sua parochia; o
chefe de familia para vigiar, regular e acompanhar os actos de caridade
dos differentes membros da sua familia, e o parocho para ser o nucleo
religioso, o conselheiro, o orador, emfim o lao da caridade humana com
a caridade divina. E parallelamente, quanto ao ensino, queria um
ensino publico e religioso que fosse pago pelo estado e vigiado pela
auctoridade civil, admittindo o ensino livre emanado dos poderes
civis, acompanhado da instruco religiosa, mas da instruco dada pelo
clero portuguez.

A taes compromissos o obrigava o espirito da epoca, todo de atenuaes e
concesses.  monarchia constitucional, partilha de soberania entre o
rei por direito de herana e o povo por direito natural, tinha de
corresponder, na ordem religiosa, a religio do estado, systema de
concordatas e beneplacitos entre soberanias de differente origem, com
poderes civis dando attribuies ecclesiasticas e poderes ecclesiasticos
sanccionando determinaes dos poderes civis e intervindo nos seus
actos. Mais uma vez vencia no espirito de Jos Estevo a fora da
tradio. Atravez de todas as consideraes, queria salvar e salvava a
qualidade de catholico, confessando-a e justificando-a com uma firmeza
viril. Snr. presidente, dizia na camara dos deputados, na sesso de 9
de julho de 1861, eu sou catholico e admitto que todos os theologos
regulares ou irregulares, leigos ou no leigos, inquiram os quilates da
minha religio, a sinceridade das minhas crenas; mas, se fizerem iguaes
inquiries das suas, ho-de reconhecer que ha uma razo suprema que
suppre a escolha impossivel n'este assumpto de religio. Esta razo
suprema que suppre a escolha da religio  a tradio da familia, porque
o homem, quando vem ao mundo, segue sempre a religio de seus paes. Eu
sou catholico, porque meus paes e minha familia eram catholicos; e isto
bastava para eu preferir esta a todas as religies, por mais santa,
clara e justa que fosse a sua doutrina. Eu aconselharia sempre que no
se dispensasse nunca na escolha da religio a tradio de familia, e que
ao dogma religioso se juntasse sempre o dogma de nossos paes; da
percepo das verdades supremas podemo-nos desviar ou pela fraqueza ou
pelo orgulho, e no meio d'estes desvios a religio da familia  uma
garantia,  um principio de f humana. Se o religioso de bom-senso me
perguntasse qual a minha religio, dir-lhe-ia que sou catholico; e qual
a razo?--Porque meu pae o era. Respondo assim a todos os theologos, e a
todos os esquadrinhadores da minha consciencia.

Mas que no haja equivoco sobre a natureza do catholicismo que Jos
Estevo professou, sobre a largueza com que o entendia; no se imagine
que foi o servidor de privilegios ou supremacias ecclesiasticas, que
quiz o catholicismo como instrumento de reinar ou por qualquer outro
motivo que no fosse simplesmente a expresso religiosa, o
reconhecimento das relaes do homem com a divindade e o culto que d'ahi
deriva. Foi elle mesmo que se encarregou de definir o seu catholicismo,
quando em 24 de maio de 1862, discorrendo sobre a liberdade do ensino,
dizia no parlamento: Eu sou religioso, catholico apostolico romano. O
homem vivo da faculdade de pensar e de sentir. No o estorvemos a cada
passo, no o calumniemos, no o supponham to indigno que no possa
elevar-se nas azas do seu espirito, e librando-se na immensidade
procurar por effluvios mysticos o inexplicaveis as relaes que existem
entre elle e a divindade... Eu sou catholico, repito, segundo os
principios em que fui educado, creio em Deus, e elle me deixa crr e
esperar tambem que este seja o melhor de todos os cultos, porque
satisfaz as minhas necessidades d'espirito, os desejos do meu corao, e
no diz  minha razo nada que repugne s minhas aspiraes. Gosto do
catholicismo puro, e no gosto d'este catholicismo philosophado, d'estes
enxertos de philosophia; gosto da doutrina pura dos bons doutores, gosto
da f viva, da virtude s, de muita moral e menos formas. No quero
portanto o catholicismo philosophado (sempre assim fui), nem o
catholicismo almiscarado; quero o catholicismo puro, purissimo em todas
as suas manifestaes, quero-o em toda a parte, fra da egreja, como na
egreja, sem distinco de logar. Em uma palavra, gosto do catholicismo
que generalisa a ideia religiosa manifestada em todas as formas, quer
doutrinaes quer moraes. Agora, no sei se sou impio. Para o illustre
deputado, (_voltando-se para o Sr. Pinto Coelho_) parece-me que o sou.
Mas emfim seja o que quizerem, impio ou no impio, isto  o que eu sou.

Uma outra razo prendia Jos Estevo ao catholicismo. No a confessa,
talvez mesmo no a tivesse sentido clara e conscientemente; mas deixou-a
bem transparecer e insinuar em todas as suas affirmaes sobre esta
materia. Era catholico, no podia deixar de o ser, porque, demagogo
convicto e ardente, no sentido mais nobre da palavra, as suas tendencias
religiosas, como as demais, eram as tendencias do povo que amava com to
exaltada dedicao. Sorriria a toda a sua ingenuidade na poesia e na
crena, com aquelle mesmo affecto que o consagrra ao respeito da sua
grandeza no trabalho e  defeza dos seus direitos na ordem social e
politica. Por isso concebia o catholicismo e queria-lhe, como quelles
nos quaes em toda a singeleza o encontrava; e sympathisava mais com o
catholicismo milagreiro do que com o catholicismo philosophico, e
gostava mais do nosso catholicismo peninsular, salvas as fogueiras, que
as houve por muita parte, do que do catholicismo francez, que tem muitos
louvores da philosophia mundana, e que lhe parecia mais uma escola
philosophica rebocada de religio, do que um gremio verdadeiramente
catholico[4].

    [4] _Discurso sobre as irms de caridade_, em 9 de julho de 1861.

O seu corao nunca se affastava do corao do povo, onde quer que elle
batesse.

Se sonhou opposio entre o espirito do catholicismo, dogmatico, de
obediencia mortal, e a liberdade de pensamento, com as responsabilidades
de consciencia respectivas, que iniciava tempos novos, tudo conciliou
pelo predominio final da inspirao affectiva sobre a phantasia
revolucionaria que promettia paraisos terrestres s pela negao de
poderes sobre-humanos, pela abolio do culto, por incendio das imagens
e pelo morticinio dos sacerdotes. Do orgulho que por certo o incitaria a
decidir exclusivamente pelo proprio entendimento e a crr na razo,
abdicou, consciente e reflectidamente, na experiencia e na f dos que
haviam vivido antes d'elle e lhe tinham dado o sr, e na poesia candida
da alma popular. A logica cedeu ao amor; e o amor, que sempre o movia,
quebrava-lhe aqui quaesquer veleidades de destruio.


V

A revoluo franceza, cujos evangelhos o liberalismo portuguez seguia,
sem muito discriminar nem a sua conveniencia para a situao historica
nacional nem mesmo as consequencias de diversa natureza que cedo comeou
a produzir nos paizes d'origem, importava, na multiplicidade dos seus
aspectos e resultados, uma transformao economica formidavel, alm de
transformaes religiosas, politicas e muitas outras. A fermentao
economica do seculo XVIII em Frana coincidiu, se  que no a precedeu,
com a fermentao politica; o exame das relaes economicas do individuo
e do estado e das diversas classes entre si mostrou no menos funda
desgraa do que aquella que se atribuia ao absolutismo dos reis e da
egreja. A revoluo no podia limitar-se a capricho; tinha de renovar
toda a organisao moral e juridica das sociedades e dos homens. Desde
que no seculo XVI um grande movimento do espirito humano, lentamente
elaborado em seculos de meditao e na prolongada atribulao dramatica
das consciencias sedentas de verdade, veio abalar a constituio intima
e a manifestao externa do pensamento, legitimando a duvida e a
discusso das relaes do homem com Deus, ferindo crenas at ento
sagradas, intangiveis; desde que essa tendencia se revelou e cresceu em
extenso e intensidade, chegaria um dia, evidentemente, em que igual
liberdade tinha de conceder-se, por maioria de razo, para discutir as
relaes dos homens entre si em todos os modos e formas do commercio
humano, e para averiguar, portanto, por que motivos e com que direito e
auctoridade uns mandavam e outros obedeciam, uns eram ricos e viviam na
opulencia e outros eram pobres e se arrastavam indigentes.

Muito cedo, logo no principio do seculo XVIII, os systemas de liberdade
economica nascidos na Inglaterra passaram ao continente e viram
encontrar em Frana apostolos eminentes. A pobreza das povoaes ruraes,
o peso oppressivo e desigual dos impostos, a ruina das finanas
publicas, protestavam contra a organisao vigente e demandavam uma
profunda reforma. Os escriptos de Boisguillebert, que votou ao estudo
d'esses problemas um talento notavel, traduziram desejos de novo rumo e
desvendaram o descredito irreparavel do systema existente. Condemnando
toda a regulamentao arbitraria do commercio interno e externo;
insistindo em que a riqueza nacional no depende dos governos, cuja
interferencia faz mais mal do que bem, em que as leis naturaes da ordem
economica das cousas no pdem ser violadas ou desprezadas impunemente e
os interesses das differentes classes da sociedade, n'um systema de
liberdade, so conformes, e os interesses do individuo coincidem com os
do estado; reclamando igual solidariedade para as differentes naes
entre si, e crendo que d'este modo de considerar os homens e os povos
resultaria a paz e a harmonia; dividindo os homens em duas classes, a
dos que nada fazem e tudo gozam e a dos que trabalham desde manh at 
noite sem conseguir ganhar a simples subsistencia; inclinado a favorecer
estes ultimos por todo o modo e procurando corrigir as desigualdades
nefastas de que os impostos andavam eivados:--Boisguillebert no estava
longe das doutrinas de liberdade economica que prevaleceram no segundo
quartel do seculo XIX. Respirava-se j alli a atmosphera que,
expandindo-se atravez de mil luctas, veio a embeber a politica economica
da maioria das naes da Europa.

A economia politica, tal qual os mestres a traavam depois de 1820 e os
politicos a confirmavam com enthusiasmo, subordinando-lhe as leis do
estado, seria cousa to simples como fertil em beneficios. Libertassem o
individuo das peias do antigo regimen, dos estorvos d'um systema
complicado de direitos e obrigaes, dssem-lhe liberdade at 
pulverisao completa das massas sociaes, dispersas em atomos d'um
movimento uniforme, e ia surgir um mundo todo de harmonia perfeita;
porque, procurando cada um o seu interesse pessoal, no fim todos os
interesses se sommavam e encontravam satisfeitos e, por conseguinte, a
felicidade era plena. Do cos sairia a ordem. Quanto mais liberdade,
melhor; deixassem os proprietarios, os rendeiros, os operarios, os
capitalistas e os commerciantes debater livremente os seus interesses, e
cada um receberia a justa recompensa do seu trabalho, da sua capacidade
e dos seus bens. Quanto mais viva e geral fosse a concorrencia, mais
cedo se alcanaria o equilibrio. Eram d'esperar crises, perturbaes,
miserias, desastres e lamentos na fundao do novo regimen; mas,
asseguravam-nol-o os economistas, tudo isso, mal transitorio resgatado
por beneficios incalculaveis, havia de sanar-se para fortuna dos homens
pelo simples jogo das foras em confronto. Quando se houvesse varrido o
campo de todos os obstaculos legaes e moraes da
concorrencia,--regulamentos, prejuizos, sentimentos, ignorancia,
sujeies de toda a casta,--a paz, a abundancia e a equidade viriam
naturalmente dos atomos libertos, guiados smente pelo interesse
egoista.

Assim se fez. Veio a liberdade; diversas naes a experimentaram,
sobretudo a Inglaterra. E a miseria que de tal systema resultou ou,
melhor, a miseria que uma tal ausencia de systema determinou, ficou
memoravel nos annaes da humanidade.

A nova ordem foi o triumpho completo da burguezia capitalista.
Admiravelmente servida nos seus fins pela revoluo mecanica da
industria que, d'inveno em inveno, condemnava processos antiquados
de produco, deixando a pedir esmola os que os usavam e d'ahi tiravam o
po de cada dia, e conferindo um poder sem limites a quem tivesse
capital bastante para montar a fabrica moderna; favorecida pela lei,
liberalissima, que lhe permittia explorar  sua vontade o trabalho,
acceitando-o ou regeitando-o ou reduzindo-o a seu capricho, tratando o
salario como materia prima insensivel e morta, com o mesmo calculo e
frieza que empenhava na construco da officina e na determinao da
fora motriz respectiva: a burguezia tirou um imperio crudelissimo da
famosa liberdade que os philosophos offereciam como o resgate das
angustias d'outro tempo. Medrava o capitalismo, e ao lado da sua
grandeza alastravam-se em proporo crescente as plebes famintas. O
povo, na revoluo, julgava ter vencido e haver-se emancipado; e
descobria agora, com espanto e angustia, que apenas collaborra n'uma
transferencia de dominio, na creao de novos despotas. Esforando-se
pela victoria da burguezia e applaudindo-a, preparra para si uma
tyrannia mais desapiedada do que aquella em que o feudalismo, a
aristocracia territorial e as dependencias corporativas o haviam tido
por tantos annos. A burguezia, invocando a eminencia e beneficios da
liberdade, apoiada no doutrinarismo utilitario, seu fiel companheiro e
filho legitimo, arrogou-se o direito, que larga e funestamente exerceu,
de explorar e escravisar o trabalho alheio, isentando-se ao mesmo tempo
em absoluto da caridade e auxilio que no antigo regimen prendiam o servo
da gleba e o seu senhor, e riscando das obrigaes moraes o que j
estava abolido nas relaes juridicas, os laos de proteco e
solidariedade, o nexo poderoso da consciencia do interesse commum que,
emquanto exigia servios, logo impunha, por necessidade indeclinavel,
deveres de patronato.

A revolta no tardou, aterradora, manifestando-se em tumultos de
multides ameaadoras, e interpretada na esphera do pensamento
especulativo por homens de genio, como foi Carlyle.

Era certo que a abolio dos monopolios e privilegios dra liberdade ao
capital para exercer, em seu proveito, summa presso sobre o trabalho.
Era certo que, em virtude d'isso, o capital em breve se mostrou o poder
dominante da sociedade, regida por um utilitarismo brutal e governada
por uma burguezia infinitamente mais nociva s reivindicaes
democraticas do que as antigas aristocracias, com maior riqueza e maior
fora, incitada por cobias ardentes, plebeias, soffregas, e pela
energia de geraes robustas, violenta no arrojo e nos processos, por
completo desprendida da sujeio moral d'outros tempos, que suavisava as
relaes entre servo e senhor, considerando-os unidos por vinculos de
familia. Perante o triumpho capitalista de 1830, definia-se, porm, no
proletariado, que elle crera, a consciencia da propria situao. Da
explorao vieram miserias; das miserias a dr e a revolta; e o
instincto, que no erra, determinava a associao dos opprimidos, para
melhor defeza. Assim se fortalecia um terceiro estado que,
reconhecendo-se escravo e soffrendo as amarguras da sua condio,
amaldioava, de punhos cerrados e flamejando coleras, o systema que o
trazia subjugado sob to insensiveis tyrannias. Vagamente, comea a
entrevr-se a restaurao, em novas bases, da ordem tradicional.
Far-se-ia agora em beneficio dos trabalhadores o que algum dia se
inventra em proveito do feudalismo. Havia de renovar-se, pois era
essencial  nao inteira,  tranquillidade dos grandes e  prosperidade
dos pequenos, a traduco efficaz da solidariedade das classes nas
instituies politicas e sociaes, que se via arruinada e banida por um
individualismo soberano e anarchico, sem represso nem regra. A
ostentao d'essa ferocidade barbara, substituindo a salutar concepo
historica da communidade d'obrigaes e deveres pelo ajuntamento
desconnexo d'unidades cuja lei unica, exclusiva, era a expanso e
imposio do proprio egoismo, sem outro limite alm d'aquelle a que os
egoismos alheios por seu turno o coagissem, avolumava de hora a hora um
tremendo movimento de reaco. Dos proletarios communicava-se  pequena
burguezia que, sentindo a presso do capitalismo e por elle expropriada
tambem, vinha encorporar-se nos bandos das victimas do monstro
insaciavel. E ao clamor do povo juntava-se a reflexo dos pensadores,
excitada pela piedade, resultando em que a erupo individualista,
assoladora, era temida e combatida ao mesmo tempo pelos indigentes que
produzia, e pela razo e pela justia a que repugnava. Significava a
preterio de toda a vida moral e da caridade christ e uma perigosa
incerteza politica; de continuo trazia abalada a estabilidade dos
governos o da propria fortuna particular. Ninguem se encontrava
tranquillo e satisfeito. Uns tinham fome; outros traziam turvada a
consciencia. Nem talvez os proprios despotas que o liberalismo
utilitario cevava e enthronisava, andariam de todo contentes;
naturalmente, quereriam igual mantena de ambies e menos risco da
pessoa e bens, ameaados d'assassinio e incendio.

Esta reaco era todavia vga, confusa, um perpetuo rugir de
condemnados, gritos de desgraa e cantos mysteriosos d'esperanas,
conflictos de crenas. Vinha longe aquella clareza de intuio e
proposito em que o socialismo moderno se definiu. A democracia comeara
por ser negativa, antes de ser constructiva. Porventura Voltaire e
Rousseau tinham resumido duas correntes que, embora contemporaneas na
origem, haviam de ser successivas nos effeitos. A primeira involvia a
negao religiosa; a segunda, tendo por base a justia, carecia de se
apoiar em sentimentos idealistas. Uma destre; a outra reedifica. Ora
ainda a destruio no estava consumada, e j a necessidade de
reconstruir se mostrava urgente. Entre a concepo do problema politico,
como destruio, e a concepo do problema social, como organisao,
medeiava apenas meio seculo que, apezar de revolues incessantes, no
logrra varrer o terreno do passado para o deixar amplo s edificaes
futuras. D'ahi vinha que simultaneamente procuravam vingar duas ideias
de progresso quasi antagonicas, uma que no conseguira vencer
completamente, que ainda no derrubra tudo o que se havia proposto
derrubar, e a outra que, ganhando entretanto consciencia da sua razo de
ser, reclamava uma constituio social que por momentos era ou parecia a
regresso ao passado. A confuso poderia ser de facil desenlace para os
doutrinarios; para um politico era temerosa[5].

    [5] Hoje tornou-se clara e corrente a interpretao d'estes factos.
    Mas, para mostrar que labyrintho representaria no tempo de Jos
    Estevo, bastar lembrar que, quando Oliveira Martins pela primeira
    vez a fez magistralmente no _Portugal Contemporaneo_, com relao 
    nossa historia politica, ainda ento muito bons espiritos lhe
    desconheceram a exactido. E a muitos pareceu um reaccionario,
    miguelista, porque no commungava na furia liberalista de deitar
    abaixo; a outros se afigurou blasphemo e sacrilego, a cuspir
    censuras, quando apenas apontava erros e fraquezas de glorias
    consagradas; e para outros no merecia confiana, ia para o rol dos
    utopistas e incomprehensiveis, porque no se emendra d'aquelle
    socialismo dos bons tempos que partilhou com Anthero de Quental.

No que o systema fosse incompleto. O utilitarismo individualista tinha
a liberdade e a concorrencia para darem riqueza, felicidade e harmonia;
mas, onde por acaso houvesse deficiencia, onde as miserias tivessem
escapado aos beneficios do desafogado embate dos interesses, l estava a
philantropia para acudir a desgraas. Simplesmente acontecia que a
avidez dos interesses nunca faltava, calcando e esmagando quem lhe
ficava no caminho, e a philantropia apparecia raro, e sempre mal
provida, a soccorrer as victimas cujos gemidos formavam um cro a todos
os respeitos sombrio e pungente. E comearam ento os philosophos, os
politicos, os pensadores e os crentes, todos aquelles que pelo espirito
ou pelo corao sentiam a desordem e a crueldade, os que a temiam como
um perigo para a prosperidade das naes e os que a choravam como um
aggravo a eternas e impreteriveis leis moraes, comearam ento a
procurar um outro systema de reger os povos, no qual a equidade e a
justia, em vez de serem devoo, passassem a ser obrigao e direito,
efficazmente reconhecidas nas leis do estado e nas prescripes
juridicas.

Jos Estevo viu os tempos heroicos do socialismo, a aurora d'esse sonho
admiravel no mundo activo, a derrota dos seus paladinos, passados todos,
com sobranceria e desprezo, ao livro das inutilidades perigosas pela
burguezia triumphante e pelos seus prophetas. Viu a cegueira e desastres
dos tempos d'iniciao, e viu tambem que, mal succumbiam os vencidos,
logo outros soldados surgiam a combater, cada vez mais numerosos;
qualquer cousa de novo se affirmava irreductivel, com que a politica e a
democracia tinham a contar. O periodo de 1830 a 1850 foi notavel para o
adeantamento e definio da concepo socialista do estado. A evidencia
dos factos obrigava a attender ao que ha muito vinha sendo apregoado por
almas d'eleio e verdadeiros videntes, e fra tido por phantasia de
poetas. A estrella do puro liberalismo declinava entre maldies de
trabalhadores famintos.

Proudhon, o demolidor terrivel de tantos altares consagrados do
liberalismo, nasceu poucos mezes antes e morreu dois annos depois de
Jos Estevo. Pde este assistir ao exame do capitalismo, que aterrava e
horrorisava os corypheus das escolas individualistas. _Da Justia na
Revoluo e na Egreja_, o _Systema das Contradices Economicas ou
Philosophia da Miseria_, a affirmao de que a propriedade  um roubo,
esses anathemas d'um mundo d'oppresso, em que o rebelde precedia Karl
Marx, na critica da propriedade e na analyse do capitalismo, e se
anticipa a Bakounine no repudio da auctoridade e na exigencia d'uma
liberdade perfeita, so do tempo de Jos Estevo, e por elle teriam sido
ouvidos de perto, emigrado como esteve em Frana nos annos que
immediatamente precederam a revoluo de 1848. Pde ver mais, pde ver
Proudhon absolvido, quando foi chamado aos tribunaes por causa do _Aviso
aos Proprietarios_, porque, pretendia a sentena, se encontrava numa
esphera d'ideias inaccessivel ao vulgo; e, embora mais tarde, pela
_Justia na Revoluo e na Egreja_ fosse condemnado a tres annos de
priso, sempre  certo que, por um rapido momento, os proprios
magistrados da lei estatuida tributavam respeito  nova f, apregoada
com indomavel ardor pelo apostolo.

Proudhon era porm apenas o demolidor eloquente e violento.
Anteriormente e simultaneamente, outros esboavam a cidade futura.
Roberto Owen[6] , Saint Simon[7] e Fourier[8]. todos haviam j formado e
apregoado com exaltao, partilhada por numerosos sectarios e martyres,
systemas de relaes sociaes muito differentes d'aquelles deshumanamente
liberrimos sobre que a burguezia fundra uma tyrania sem precedentes.

    [6] 1771-1858.

    [7] 1760-1825.

    [8] 1772-1837.

Roberto Owen defendra e tentra uma organisao social baseiada na
cooperao, oppondo-a  anarchia selvagem da concorrencia commercial
desenfreiada do periodo primitivo do capitalismo, e propondo o seu plano
de aldeias d'unidade e cooperao, nas quaes os empregados se
juntariam em communidades autonomas, onde mutuamente se sustentavam pelo
producto dos seus diversos trabalhos. D'experiencia em experiencia,
d'estudo em estudo, convencera-se de que os grandes males das sociedades
eram na sua essencia de natureza economica e acabava pregando a pura
doutrina socialista,--que o povo nunca ser senhor dos seus direitos,
emquanto no possuir as officinas e os campos, no em propriedade
particular mas em propriedade collectiva, estabelecida em bem da
communidade. Declaro perante o mundo, escreveu, que, at hoje, o
homem tem sido o escravo d'uma trindade monstruosa: a propriedade
particular, os systemas religiosos irracionaes e infantis, e,
finalmente, o casamento.

Saint-Simon, representando uma vigorosa reaco contra os excessos
doutrinarios do seculo XVIII, que lucidamente considerou um periodo de
critica e dissoluo, ao qual tinha de oppr-se no seculo XIX uma epoca
d'organisao, viu como seria insufficiente a destruio do passado, que
alis no amava, se ella se limitasse a mudanas da forma do governo,
sem alterar as demais condies religiosas, moraes e economicas de que
dependia a felicidade dos homens. E, comprehendendo a inanidade da
revoluo propriamente politica, desenganado pelos acontecimentos, de
que em Frana era testemunha, inventava uma aristocracia de homens
capazes para governar as naes, abolia o direito de successo na
propriedade, estabelecia condies de iniciao na vida iguaes para
todos, reclamando que os instrumentos do trabalho, terra e capital,
fossem possuidos pelos membros unidos da sociedade, e sonhava o estado
perfeito, a communidade em que os mais aptos tivessem todo o poder e uma
parte ampla do producto, procedendo de modo a que o estado trabalhasse
para melhorar a condio material e moral dos mais pobres.

Seguia-o de perto Fourier, embora se imaginasse longe[9]. Descobrindo no
homem a paixo do _uniteismo_, que significava a tendencia natural dos
homens a juntarem-se em grupos sociaes e trabalharem juntos pelo bem
commum, em vez de combaterem entre si tomando para regra moral e lei um
systema de disputa, tirava d'ahi a sua famosa phalange ou unidade
social, de que muitos se riram mas que, apz varia sorte e criticas de
todo o genero, hoje se verifica ter proximo parentesco com a concepo
moderna da municipalidade socialista. Esses planos, que pareceram
phantasia d'um sonhador generoso, modificaram-se e completaram-se; e
hoje no ser desacerto tel-os como simples antecipao de formas de
vida social, que em muitos paizes se vo experimentando e propagando,
com no pequena vantagem e efficacia na boa ordem das sociedades.

    [9] Fourier, referindo-se a Owen e Saint-Simon, acautelava o leitor
    contra os laos e charlatanismo das duas seitas, no considerando
    as affinidades manifestas da cidade de Owen e da aristocracia de
    Saint-Simon com as suas proprias aspiraes, que consistiam na
    organisao da industria do modo mais conveniente aos interesses
    collectivos. Todos tres partiam d'um principio--a produco da
    riqueza em beneficio da communidade.

Tudo isso, porm, que foi muito na evoluo da democracia e na
definio, inevitavelmente lenta, das suas necessidades e aspiraes,
foi muito pouco perante um facto de maior alcance, que Jos Estevo
teria observado e ponderado, devendo encontral-o na edade de maior
energia politica. Por certo no lhe escaparam nem a apreciao da sua
essencia nem, muito menos, a previso das consequencias larguissimas que
virtualmente importava.

1839 e os annos que se lhe seguiram at 1848, marcam na historia do
socialismo uma epoca notabilissima, a passagem do socialismo utopista e
negativo s reclamaes positivas e cathegoricas d'um programma de
governo. Em 1839 publicou Luiz Blanc a _Organisao do Trabalho_. D'ahi
podemos datar uma era nova. Para os interesses das grandes massas
trabalhadoras, estava julgada a esterilidade do reinado dos Bourbons, da
conveno, da republica, da dictadura, do consulado, do imperio e depois
ainda da restaurao monarchica. Quasi meio seculo d'experiencias
revolucionarias e reformadoras concluia, na meditao do pensador
politico, pela necessidade de inscrever entre os deveres primordiaes do
estado a garantia de trabalho regular a todo o cidado. Como
consequencia directa, immediata, o trabalho tinha de ser organisado sob
a direco do estado--granjas para os lavradores, fabricas para os
operarios e armazens para os commerciantes, convertidos em propriedade
sua, do estado, todos os grandes instrumentos de riqueza, os canaes, as
minas, as grandes industrias e os bancos. As associaes cooperativas,
que Fourier e Owen deixavam  iniciativa e bom senso particular,
passava-as Luiz Blanc a encargo do estado. As officinas sociaes do
grande reformador foram talvez uma das mais claras antecipaes da
constituio do estado socialista. Pedimos a communidade dos
trabalhadores, escrevia elle em 1840, resumindo as reclamaes
revolucionarias, isto , desejamos abolir o commercio dos homens no
trabalho dos homens, e, em vez d'isso, estabelecer officinas nacionaes
em que a riqueza produzida se reparta entre os trabalhadores e no haja
mais servos nem senhores.

Estava fundado o socialismo como elemento politico e fora activa, com
direitos exigiveis e exigidos na constituio social das naes, nos
seus costumes, e sobretudo nas suas leis. Fossem quaes fossem os
desastres das primeiras tentativas, o socialismo passra, d'uma vez para
sempre, das dissertaes especulativas, em que a compaixo de suppostos
visionarios o concebeu, para as assembleias dos legisladores em que as
naes teriam de determinar as condies praticas da sua execuo.


VI

No era dado ao politico ignorar um movimento de semelhante magnitude,
nem o apostolo fervoroso da democracia poderia deixar de o ver com
sympathia. E Jos Estevo sentiu-o profundamente.

Outros aspectos da transformao politica do seu tempo lhe teriam
offerecido ensejo de maior brilho para a eloquencia e de valoroso
esforo para o seu brao. Nenhum todavia lhe despertou do peito palavras
mais sublimadamente repassadas d'amor pelo povo e de f na sua
libertao.

As victorias da burguezia em Portugal assumiam um caracter muito
differente do que tinham na Inglaterra e na Frana, paizes que nos
inspiravam e procuravamos imitar, fazendo-o por desgraa muito mal.
Embora a diversidade de condies seja evidente, convm apontal-a n'este
ponto e no a esquecer, para uma justa apreciao do pensamento de Jos
Estevo, para avaliarmos at onde podia avanar sem exaggero ou erro,
provenientes do desconhecimento das circumstancias proprias do paiz. No
havia para ns questo das grandes industrias nem a sua cauda obrigada
de proletarios; nem a pobreza da nao a consentia, nem to pouco a sua
iniciativa e inventiva em materia de transformao mecanica a provocava.
Debalde procurariamos qualquer cousa que se assemelhasse  ruina dos
teares manuaes e  converso da officina domestica em grande fabrica,
pondo d'um golpe milhares de familias na indigencia ou, pelo menos, na
dependencia anonyma, sem d nem piedade, de gigantes capitalistas
terriveis e phantasticos, que se no viam e todavia tudo ordenavam;
debalde esperariamos as multides amotinadas que a desgraa recrutou e
desvairou em odios e ameaas. A exiguidade de foras economicas
livrar-nos-ia das tormentas que a abundancia levantava entre os
poderosos do mundo industrial.

Mas nem por isso deixavamos de sentir a repercusso do movimento,
amesquinhado e aviltado pelo atrazo e miseria nacional; nem por isso,
por sermos pobres e incultos, deixavamos de vr a burguezia triumphante,
a substituio de classes no governo politico, na posse dos bens e em
toda a extenso do dominio social, o clero e a aristocracia, ha pouco
senhores absolutos da nao, preteridos e excluidos por seus antigos
dependentes e por homens vindos de profisses at ento alheias aos
encargos e honras de mandar nas cousas publicas.  falta de fabricas que
explorassem o trabalho humano e o reduzissem a pura mercancia, tinhamos
a usura a cevar-se na ruina dos que pela nova ordem iam decaindo; e, no
havendo grande conquista a fazer nos despojos das classes expropriadas,
contentavamos-nos com o assalto aos bens dos conventos e com uma cobia
selvagem de honrarias, julgando que, por transpr a chaparia das fardas
dos fidalgos para as rabonas dos plebeus, isso bastava para que as
insignias trouxessem de prompto, a quem as usasse, nobreza e imperio.
Tinhamos a questo da terra e dos modos de a possuir e usufruir, os
morgados e os foros, libertaes que degeneravam em oppresses,
emphyteutas que passariam a rendeiros, sem estabilidade,  merc da
incerteza da hora presente, tirando das fadigas muito estrictamente o
po de cada dia, que o resto era para o proprietario ou para o
prestamista, vidos, ricaos de fresca data, destituidos d'aquelle
desinteresse e largueza que a diuturnidade da posse dava a antigas
linhagens, como um fastio em que andavam saciadas, insensiveis ou
indifferentes ao gozo dos bens. Tinhamos uma aristocracia territorial a
desfazer-se pelas proprias dissipaes e pelas guerras civis,
offerecendo presas opimas s astucias sordidas da avareza. Tinhamos o
bandidismo de varia especie que invariavelmente segue as calamidades de
toda a sorte, a fome, a peste, a guerra, o incendio e o naufragio.
Tinhamos a desordem das finanas do estado, continuamente afflictas por
soccorro, um erario faminto, exgotado pelas luctas civis e pela ausencia
d'administrao proveniente da instabilidade dos governos, facultando
assim ao capitalismo estrangeiro e indigena um banquete facil e commodo,
permittindo explorar em globo, pelo mecanismo dos impostos e pela
coaco concomitante da fora publica, o suor de toda a miseria
nacional[10]. Tinhamos finalmente, como nas demais naes em
conflagrao, a questo da repartio e lanamento dos tributos,
onde claramente se definiriam todas as tendencias, thermometro seguro,
ento, agora e em todos os tempos, das iniquidades na distribuio da
riqueza entre as diversas classes e da justia ou injustia com que
entre ellas so julgados os direitos e deveres de cada uma em face do
producto do trabalho commum. Se nos faltava uma burguezia industrial
opulenta, abundavam os sentimentos que em outros logares a
caracterisavam; e aqui tambem, esgravatava-se, s migalhas, em montes
d'esterco, o que algures se apanhava, aos punhados, em montes d'ouro.

    [10] A agiotagem tem invadido todas as reparties publicas, e
    procurando elaquear todos os poderes do estado, j se atreveu a
    entrar no palacio, e a atacar as prerogativas da cora, pedindo a
    conservao de ministros!... Os publicistas dividem os poderes a seu
    bello prazer, e marcam a sua independencia, como se tivessem sobre
    elles senhorio absoluto; mas quantas vezes as nomenclaturas e as
    extremas, que se acham nos livros, se baralham e confundem no trato
    mundano. _Os poderes_, diz a constituio, "_so o judicial, o
    legislativo, o executivo, e todos elles so independentes em suas
    funces_". A despeito porm d'esta determinao, os acontecimentos,
    ora roubam a efficacia a taes poderes, ora os reunem em uma s mo,
    ora os fraccionam e multiplicam, porque o poder  um facto, que
    subjuga e conquista a vontade da lei e a doutrina dos sabios. Ha
    entre ns um poder, em que a constituio no falla e para cuja
    independencia no providenceia; entretanto elle  o maior que
    conhecemos; refiro-me ao poder agiota. Tem-se elle ligado ao poder
    legislativo, e esta terrivel accumulao vae-nos sendo fatal. 
    preciso separal-os, quanto antes.

    Jos Estevo, _Discurso sobre o oramento do estado_, em sesso de 8
    de junho de 1839.

Perante esse tumulto de vilanias, Jos Estevo no descreu todavia de f
individualista. Seguindo a estrella d'altissimos espiritos do seu tempo,
esperou tambem da generosidade do corao o termo de males que
impensadas liberdades amplamente provocavam. Discutindo o incidente das
irms de caridade, dizia: Quantas terras, quantas povoaes
importantes, quantos centros de populao no carecem de hospitaes
precisos, no para acudir a epidemias, porque esse  o extraordinario
das miserias humanas, mas para acudir ao movimento das doenas
ordinarias? E isto emquanto que em outras povoaes se accumulam
instituies riquissimas, que gastam uma grande parte dos seus
rendimentos em faustos, pompas e luxos religiosos, ou se consomem por
abusos administrativos de confrarias, aonde no  possivel metter luz,
emquanto que em outra parte os doentes agonisam, no faltos de remedios
mas faltos d'agasalho! Acontece isto, quando em outra parte a velhice,
extenuada pelo resultado do trabalho domestico, pede esmola, sem haver
um estabelecimento que lhe abra as portas no ultimo quartel da vida; e
quando em outras das nossas povoaes vemos chusmas de creanas de ambos
os sexos, pedindo a instruco e o agasalho que se lhes no d, havendo
alis n'essas povoaes casas aparatosissimas, destinadas para tratar
outras miserias estabelecidas com o maior luxo, e sem se fazer uma
distribuio equitativa da caridade por todas as miserias da vida
humana. E em 1839, quando discutia o oramento do estado, no seculo em
que os agiotas so potentados, no seculo em que as fortunas publicas e
dos estados lhes andam nas mos, segundo a sua propria expresso, to
fiel e exacta pela verdade historica, revoltava-se contra essa
preponderancia sordida e seus manejos, dizendo: Se ellas (as leis da
usura) esto revogadas pelos poderes da terra, ainda esto vigentes para
as almas nobres, e eu hei-de ser sempre anachronico nos sentimentos de
indignao que voto  classe que trafica com a miseria e com o suor dos
seus semelhantes.

Estas passagens so elucidativas; valem um largo compendio para a
revelao do pensamento de Jos Estevo em pontos capitaes do mecanismo
economico. Afiguravam-se-lhe attribuies das misericordias e institutos
de beneficencia os deveres que hoje reputamos obrigaes elementares do
estado organisado n'uma base de justia--a velhice extenuada pelo
trabalho domestico, chusmas de creanas pedindo a instruco e
agasalho, uma distribuio equitativa da caridade por todas as
miserias da vida humana. Seria obra de coraes bem formados o que
agora se reputa simples direito de todo o elemento organico da
communidade. As leis da usura vigoravam smente para as almas nobres,
e pareciam votadas a estes reinos sem esperarem, como hoje esperam onde
no o conseguiram j, que as leis do estado as estabelecessem,
determinando a distribuio e uso do capital. Dominava o individualismo;
e o tribuno, embora o sentisse cruel, quereria moderal-o respeitando-o,
corrigil-o por foras estranhas, sobretudo moraes, que no offendessem o
principio essencial. De certo por amor  liberdade, fanatico das suas
victorias, no ousava encarceral-a n'uma organisao juridica severa,
para que ella no opprimisse os desgraados e lhes deixasse no mundo o
espao que lhes competia, e lhes era indispensavel  sade physica e
moral.

Mas no o cegava to completamente a fascinao do liberalismo
utilitario,--appressemos-nos a reconhecel-o, que o apostolo das mais
puras aspiraes no previsse com sympathia calorosa e lucida tempos
novos, annunciando uma outra liberdade, quer na vida dos estados, quer
na vida individual, unicamente legitima emquanto no offendesse a
equidade e a justia. Presentiu-os e desejou-os. Claramente o dizia aos
discipulos, nas lies d'economia politica do seu curso: Em vez do
congresso da paz socialista, houve batalhas sociaes. O periodo da sua
realisao affasta-se, mas o seu apparecimento no  menos urgente:
ha-de chegar um dia, e ser aquelle em que raiar o verdadeiro progresso
para o mundo e em que os principios christos ascenderem  sua
verdadeira altura. E de passagem diremos que no nos cumpre classificar
d'utopia seno o estacionamento. A infiltrao da crena socialista 
manifesta; estava n'ella o verdadeiro progresso, e identificava-a j,
como de futuro se identificou, com os principios christos. A agudeza
d'espirito, exaltada pelo amor, descobria-lhe, n'um relance de
illuminado, as fundaes religiosas e moraes d'aquella grande aspirao
politica. E, passando a definil-a e exemplifical-a em pontos de execuo
pratica, acrescentava: A nossa populao tem subido a quatro milhes de
habitantes, e cresceria mais se se removessem os obstaculos que impedem
o seu desenvolvimento. Se os morgados fossem abolidos; se o credito
fosse assentado nas suas verdadeiras bases, ampliado, estendido e
applicado  terra; se aclarassem os meios de posse territorial; se se
reforassem as hypothecas; se se desse  terra amparo contra as argucias
forenses que se levantam para pr em duvida posses sanccionadas pelo
tempo e trabalho, de certo que a nossa populao cresceria rapidamente.
A apreciao do valor da pequena propriedade advinha-se n'essas breves
palavras; e quem tanto a amava, anceiando por lhe facultar caminhos
novos e garantias solidas, e no ignorando o que ella representa na
consolidao das sociedades democraticas, fazia por aquelle modo uma
profisso de f politica, no menos nobre nem cathegorica do que as
demais que firmra nos feitos militares e nos impetos da eloquencia
parlamentar.

, porm, na discusso do lanamento dos impostos que Jos Estevo mais
particularmente accentua a sua comprehenso dos problemas economicos; 
ahi que com mais vigor se insurge contra as iniquidades que, apezar de
reformas politicas, da carta constitucional, do parlamento, do direito
de voto e mais formulas e exterioridades liberaes, mantinham de p, se 
que no as aggravavam, oppresses e servides, annulando de facto por
completo os beneficios da mudana de regimen. A minha reforma
politica, declarava, consiste na reviso de todos os tributos, no s
antigos, mas dos ultimamente lanados, para de todos se formar um
systema pelo qual se possa distribuir a contribuio com igualdade; e as
contribuies novas que eu votei, e s quaes reitero o meu voto, no
formam ainda um systema completo e perfeito, porque o resultado  que a
contribuio no tem attingido, j no digo a igualdade possivel mas a
igualdade toleravel, porque os pequenos martyrios que os homens
desvalidos, os homens do povo soffrem, so muitos, so immensos, e 
necessario procurar dar remedio a esses males. Detesto, disse em
outra occasio no parlamento, acho repugnante, altamente injusto,
radicalmente anti-democratico e desigual o imposto indirecto. E, entre
as apostrophes eloquentes que o apresamento da _Charles et George_ lhe
inspirou, veremos irromper aquella condemnao do parasitismo, que
sempre lhe vinha de prompto aos labios no fervor constante do desejo
d'um mundo novo ungido de justia: No ha naes morgadas, assim como
no pde haver familias morgadas. A humanidade no cabe no mundo, nem
com o seu numero nem com as suas aspiraes. E esta verdade, que  hoje
experimental, impossibilita a existencia da propriedade territorial,
inculta e descuidada, seja nas mos dos individuos ou na mo dos povos.
O trabalho  o principio e complemento de todo o direito de possuir.

Tal era a concluso a que o levava o espectaculo de proprietarios
ociosos na abundancia, guardando, improductivos, bens valiosissimos,
perante as plebes ruraes, indigentes  mingua d'um pedao de terra do
qual tirassem o po. Convencido por este exemplo, por esta ordem de
factos economicos, de que o trabalho era o principio de todo o direito
de possuir, tanto lhe bastaria para que, pelos impulsos logicos do
espirito e ainda mais pelas inspiraes do seu corao, viesse a tirar
d'esse principio as consequencias que contem, applicando-o a muitos
outros e complexos phenomenos, encaminhando todos a resultados communs
que a evoluo politica dos estados civilisados vae gradualmente
traduzindo. Na confuso das ideias do seu tempo n'esta materia e nas
circunstancias do paiz em cuja administrao era chamado a intervir,
anarchico e pobre, alheio por isso aos tumultos proprios dos jorros
abundantes da riqueza, que em naes adeantadas constituiam
simultaneamente a extrema fortuna e angustias oppressivas, Jos Estevo
no podia na realidade avanar mais do que avanou na aspirao
socialista. Mas, sem embargo, a viso da nova era mostrou-se-lhe em todo
o esplendor, e tinha-o rendido s suas seduces.

De resto, a tradio da vida particular de Jos Estevo confirma as
confisses da vida publica sobre o modo por que concebia a sociedade
democratica. A igualdade que reclamava nas leis do estado, a
illegitimidade de que accusava a propriedade inculta ou sequestrada em
morgadio, o respeito do trabalho como principio unico da posse, a
averso a impostos indirectos que sacrificam os miseraveis e poupam os
ricos, todo esse novo regimen juridico que no pensamento se lhe ia
esboando, ajustavam-se no trato ordinario a uma inclinao permanente a
conviver e familiarisar-se com operarios e gente humilde. Em Aveiro essa
tendencia ficou memoravel, e quasi constituiu uma escola de nivellamento
social de todas as classes e condies, que ainda hoje d um aspecto
singular  vida quotidiana da cidade. Aquelle homem que era temido e
querido entre os maiores da sua epoca, burguez de nascena, filho d'um
medico e neto dum official publico, bem cedo fidalgo consagrado pelo
talento, pelo caracter e por uma distinco irresistivel, acolhido na
aristocracia da capital com affecto e summo respeito, como se lhe
pertencesse pelo sangue, ou ainda mais, esse homem a que por tantos
motivos poderia perdoar-se a vaidade e o orgulho, victorioso de tantos
combates, apetecia o convivio dos mais pequeninos e n'elle se deliciava,
do direi smente accessivel  gente do povo e  de toda a condio, mas
procurando-a e amando-a, atraido por um poder de sympathia intima e
plena. Estou mesmo bem certo de que a razo principal da sua
popularidade em Aveiro foi mais este reconhecimento instinctivo dos seus
sentimentos intimos do que a admirao do seu genio, cuja grandeza
escapava ao vulgo. Foi amado, porque amava.


VII

Monarchico e catholico, partidario e defensor de formas de constituio
politica, religiosa e social que representam grave desigualdade e graus
infinitos de hierarchia; por outro lado e ao mesmo tempo, empenhando-se,
sempre apaixonado, em assegurar nas leis do estado os direitos
populares, sobretudo aquelles que, conferindo s classes trabalhadoras a
independencia economica, mais solidamente lhe outorgam a unica base
efficaz de soberania e igualdade--Jos Estevo parecer, a quem quizr
esboar o systema das suas ideias, contradictorio ou fraco, sem coragem
de levar s ultimas consequencias os principios que professava, ou
negando-os repetidas vezes pela acceitao de principios oppostos, em
relaes essenciaes da communidade politica. Contradices e fraquezas
d'esta natureza, se as tivesse, justifical-as-ia plenamente o seu tempo.
Justificava-as uma epoca em que no era facil determinar o quinho do
passado e o das aspiraes do futuro em toda a extenso da mentalidade
humana. O passado no fra arrazado totalmente, e, pelo contrario, ao
fim de diversas tentativas e experiencias, mostrava-se indestructivel e
vantajoso em muitos dos seus elementos, o que perturbava as energias
reformadoras; e o futuro no lograva apresentar-se to isento de sombra
e duvida que fosse possivel conceder-lhe sem hesitao ou exame, de
corao leve, quanto elle pedia.

Mas, para comprehendermos a attitude politica de Jos Estevo nos
diversos aspectos que apresentou, no carecemos de recorrer  invocao
do espirito de incerteza e fluctuao que a vitalidade e respeito das
tradies, em conflicto com os impulsos revolucionarios, communicava 
maioria das naes da Europa. Reflectindo, acharemos que a concepo
politica de Jos Estevo era, na verdade, coordenada, sem atraioar a
boa logica ou prejudicar o caracter, e muito menos sem os devaneios
romanticos de radicalismos que a destituissem de efficacia e capacidade
pratica. A historia encarregou-se de mostrar at que ponto a mais alta
elevao do sentimento politico pde coexistir com um opportunismo
attento e flexivel, mas no fundo incapaz de corromper-se, sejam quaes
forem as transigencias a que o pendor e instancia do momento possa
coagil-o. O desenvolvimento e victorias successivas e progressivas do
socialismo moderno nas monarchias da Belgica, da Allemanha, da
Inglaterra e d'outros paizes, confrontado com movimentos parallelos nas
republicas, quer da Europa, quer da America, tem-nos dado e continua a
dar-nos abundantes e elucidativos exemplos da possibilidade de
coexistencia da realisao de radicalissimas aspiraes sociaes com
instituies politicas e religiosas obsoletas, muitas condemnadas, e
quasi todas n'um declinar de popularidade que as ameaa de morte. A
observao dos factos, j longa e variada, inclina antes  demonstrao
de que a emancipao politica e religiosa dos povos, a transferencia
plena da soberania para os elementos activos das naes e a libertao
de todo o dogmatismo, para serem duradouras, estaveis e beneficas em
toda a extenso, necessitam de ser precedidas de constituio social
adequada. O primeiro passo na conquista das liberdades democraticas ser
a conquista do po, como um direito e no como uma esmola. Sem isso, a
oppresso e a tyrannia jmais se afundam; e medram, ou sob mantos
d'arminhos ou nas casas fortes do capitalismo republicano, ou se chamem
_trust_ ou se intitulem czar. Quem sabe que desilluses no nos prepara
a lucta terrivel do imperialismo e da democracia?! Quem pde
assegurar-nos que um novo cesarismo no vae avassalar o mundo?!... No
se estar gerando um novo drago d'esse consorcio infernal do
capitalismo e dos armamentos monstruosos? E, se elle vencer, que doura
e supremo bom senso no coroar a memoria d'aquelles, como Jos Estevo,
que por vezes nos teriam parecido hesitantes e timidos, smente porque
uma agudissima sensibilidade, revelando-lhe a justia intima das cousas,
os livrou de cair em extremos?!...

Paraphraseando o lema d'um agitador notavel da Inglaterra[11], que se
insurgiu contra o egoismo industrial do seu paiz, talvez no nos
affastassemos muito da verdade resumindo em tres palavras a concepo
social e politica de Jos Estevo:--O altar, o throno e a choupana.
Inspirado pelo deslumbramento da gloria do passado e pela sua fora e
opulencia, ao mesmo tempo exaltado por uma febre de justia que no lhe
deixava repouso emquanto no a visse triumphante, vibrando d'indignao
perante toda a vilania, teria sonhado um estado de trabalhadores
vigorosos, e sos e dignos, na plenitude de bens do mundo e da
consciencia, coroada a fortuna d'essas communidades felizes por um
governo e por um culto resplendentes de magestade e nobreza. Porventura
quereria que  elevao do sentimento correspondesse a grandeza das suas
manifestaes exteriores e a symbolisasse, na sumptuosidade e nos ritos,
nos palacios, nas magistraturas e nos templos, satisfazendo necessidades
indeclinaveis do corao humano.

    [11] Oaslter.

De sua natureza mudaveis e sujeitas a infinitas contingencias, importam
todavia muito pouco as concepes politicas, em face da sublimada
inspirao moral que inflamou o genio de Jos Estevo e dominou todo o
seu ser.  mr. Lamartine, disse elle, um poeta que carpiu todas as
miserias da humanidade, que exaltou todas as suas glorias, que excitou
todos os seus melhores instinctos, que levantou a coragem dos povos, que
acalmou as suas demasias, que suspendeu com a sua palavra todas as
paixes revolucionarias da Frana; esse homem cuja composio moral e
intellectual  no meu presentimento como o simulacro da fortuna politica
e dos futuros governos da Europa... Era assim que Jos Estevo,
julgando pintar a physionomia alheia, traava fielmente a propria
imagem, e, honrando o nome estranho, entretecia a cora de gloria que
convm  sua propria fronte. Disse, felizmente, a sua eloquencia o que a
nossa adorao seria incapaz de traduzir. N'essas curtas palavras,
legou-nos um retrato precioso.

Procuremos agora observal-o com a pausa e carinho que um sentido culto
exigem.




II

CARACTER E ARTE




CARACTER E ARTE


I

Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleio moral de Jos
Estevo e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os
errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuao e
fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo
para as organisaes nimiamente sensiveis e promptas em responder ao
incitamento estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade
invencivel, sentiu-as para lhes resistir e no para se lhes render.
N'uma crise em que o principio da liberdade, traduzido na pratica
ordinaria e nos costumes em relaxao e despejo, emancipando de toda a
tutela rigorosa da antiga constituio social, religiosa, politica,
moral e litteraria, facilmente induzia a uma indisciplina absoluta,
obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixes,
crimes e aberraes, em que a phantasia e no raro a vaidade precipitava
a gente moa, mal precavida de experiencia e reflexo,  maravilha o
poder de sacrificio e o esforo constante d'um homem para fazer
prevalecer na sua terra o imperio da justia.

A tentao era temerosa. Muitos, alis de valor, lhe cederam, caindo em
culpas e desgraas que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento
lhes teria poupado. A crena romantica encontrava boas razes para toda
a sorte de desordem. No triumphava a liberdade? Para que
constrangimentos? Era necessario perseguir at  anniquilao todos os
despotismos, os canones da moral como os da egreja, o absolutismo
estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem limites dos reis.
Porque no poderia cada um abandonar-se sem peias nem reservas s
tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas
salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? No seria at um
erro contrarial-as? No seria uma violao das leis naturaes e um
aggravo  felicidade humana? No era do concurso de todas as liberdades
que havia de resultar a harmonia dos homens e o progresso das
sociedades? No espirito de muitos dos seus hallucinados sectarios, a
liberdade no significava a simples abolio de privilegios odiosos e
instituies oppressivas, caducas e corrompidas, para as substituir por
outras que conviessem a aspiraes sociaes mais nobres e conformes com a
dignidade humana; era o desregramento, a ausencia de preceito que
interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as aces, um
absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade
de pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes
e da familia, liberdade d'aco e at de inaco, de indifferena e
cynismo, exaltaes mysticas, egoismos abjectos e cobias sordidas, para
tudo isso encontraram explicao bastante as philosophias liberaes
d'astuciosa commodidade. Aviltamento e nobreza eram plos da esphera
moral que iam a apagar-se; j ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma
estranha e nunca vista concesso, as paixes sairam como doidas das
prises em que as continham encarceradas os espectros de deveres
inexoraveis, e vinham expandir-se  luz do sol, ora em bem, ora em mal,
e sempre impetuosamente.

A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte
deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice, e
portentoso, deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo,
brilhante, d'esse estado d'espirito que, se para muitos foi exaltao
merecida, se para a humanidade foi uma crise de renovao e renascimento
necessaria e fertil em beneficios, foi tambem para outros fonte
amarissima de desenganos, de tristeza e desgraa, que tantas vezes se
refugiou na morte, e por todas as naes da Europa determinou,
invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com
fortuna varia para os destinos dos povos.

No ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a
litteratura; nenhum os reflecte to claramente e, talvez por isso,
porque os expe na mais transparente lucidez,  ao mesmo tempo effeito
das correntes estabelecidas e causa da sua propagao, moderando ou
accelerando, pela revelao plena do que encerram d'atraente ou de
repulsivo, as tendencias de que andar impregnada. Nem a estatistica, com
a seccura, desligao, insufficiencia e abstraco dos seus dados, nem a
propria historia com as longas narrativas, em que o espirito e
inclinaes do historiador facil e ingenuamente favorecem ou prejudicam
a reproduco exacta dos acontecimentos, supprem a litteratura na arte
de guardar integra e perfeita a memoria do estado mental e tendencias
sociaes de determinado momento, collocando-nos em contacto directo com
os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos em movimento e
aco. Ora a litteratura romantica que Jos Estevo respirou nos
melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior
influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu corao, a
litteratura romantica, na sua constituio moral, distinguiu-se pela
adorao de duas divindades, que serviu com ardor e brilho
incomparavel:--a felicidade do homem e a natureza. Dos tormentos e
miserias geradas pelo absolutismo oppressivo de todas as actividades e
impulsos que se afastassem dos seus mandados, veio-se, pela reaco
natural dos organismos opprimidos e atrophiados, ao extremo opposto,
passando-se do idealismo da uniformidade ao idealismo da liberdade sem
limites, do abuso da regra  desinvoltura da dissoluo; e, para que os
homens se curassem de males e de futuro vivessem felizes, concluiu-se
pela exigencia d'uma emancipao no menos absoluta do que a sujeio
precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e imperio!
No constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mgoas e dres
se transformariam em alegrias e riso e fora! E viu-se ento uma
expanso do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela
fecundidade, pela grandeza, pelo arrojo da ambio e pela extenso dos
horisontes, inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de
miragens celestes. O homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligaes
d'um mundo decrepito e abominavel, amava livremente, pelas florestas
virgens, pelos ermos e pelas ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas
pela paixo e nos seus fachos gloriosamente consumidas; e os cavalleiros
e os santos e os martyres surgiam, por milagre e em exercitos, das
profundezas da terra, armados de coragem infatigavel e sedentos de
sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu sangue e do seu
peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe, no
temendo convenes nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e
auctoridade que no fosse a sua propria inspirao; e entraria nas
espheras da mais alta beatitude. No era assim em toda a natureza? No
viviam d'esse modo os animaes bravios e as plantas?!... E havia
porventura felicidade que no possuissem, harmonia que no
realisassem?!...

Uma antecipada promessa de perdo incitava ao desmando. A percepo da
necessidade e eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as
paixes e subordinando a natureza  consciencia, o que, na verdade, se
manifestou desde o comeo d'esse extraordinario movimento, era ainda
frouxa e sobretudo vaga, incerta, ora tentando galvanisar concepes
mortas e sentimentos corrompidos, ora modelando novos deuses sem
consistencia, hoje nascidos e amanh desfeitos em p. E nas ondas
incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem bussola almas
nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos infernaes, com
uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da embriaguez e
do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e
prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspiraes.
Deveriam ter sido legio as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos
errados e fataes que a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella
que, de facto, e involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia
como criminoso ou arriscado e indigno. E o perigo de tentao era tanto
mais grave quanto era certo que, na atmosphera revolta do romantismo, o
mundo mal acautelado contra a distinco de limites em que  licito
moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos, prostrado d'assombro,
semi-louco e em delirio d'admirao e imitao, via erguerem-se a
alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem sabe?
valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar
 humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma  capaz de
exaltar-se.

Foi do meio d'esta confuso terrivel que Portugal viu levantar-se,
proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia
o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o
corao, o pensamento e o brao, a vida inteira, consagrada ao dever e
n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.

Como revelao do caracter de Jos Estevo, essa attitude, cuja
soberania a nao reconheceu pela auctoridade que conferiu s suas
palavras e pelo respeito que lhe votou,  decisiva e, em certo modo,
quasi milagrosa. A sensibilidade de Jos Estevo e a riqueza das suas
faculdades, at uma sensualidade manifesta[12], deveriam determinar um
extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um
enfraquecimento de vontade funesto  energia d'aco e tenacidade de
proposito e emprehendimento. A pujana do temperamento explicaria e
desculparia hesitaes e tibiezas, o abandono a impresses passageiras,
traies frequentes  f jurada em espirito ou em palavras, desvios e
tergiversaes. A sua vida, porm, pela constancia inalteravel no
combate e nas aspiraes, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude
radicalmente opposta a fluctuaes e desmandos ou desfallecimentos.

    [12] Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do
    Porto, o batalho academico, como todas as demais foras fieis,
    seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de
    julho (1828). Jos Estevo fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem
    roupa e sem calado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite
    deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. Jos Estevo levra
    comsigo um pequeno cordo de oiro, talvez uma recordao de familia;
    mas em Lobios desfez-se d'elle, no para occorrer a alguma das suas
    muitas necessidades de occasio, mas sim para satisfazer a sua
    gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar _gemas_.
    Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes _gemas_, basta
    dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia ento por 600 ris
    uma bra de po de milho que poderia valer 100 ris. Snr. Marques
    Gomes, _Jos Estevo, Apontamentos para a sua biographia_. Porto;
    Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.

N'este ponto, Jos Estevo no foi do seu tempo. Foi mais longe do que o
seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a
capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as
ruinas do passado, o naufragio das crenas e a inundao d'um
scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas
germinava e s de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A
grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe
de suspeitar as affirmaes vigorosas e triumphos resplendentes com que
no final do seculo XIX a renascena idealista seria coroada pelo estudo
paciente da historia, pela penetrao da estructura psychologica das
sociedades humanas e das suas condies fundamentaes, e pela consequente
creao de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos,
deslumbrando e convencendo, graas  desusada formosura das suas obras,
e convertendo  adorao de novos altares, cheios de luz e mansido,
pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa
resurreio de Lazaro, doente de descrena e perverso, das feridas de
luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a
revoluo, Jos Estevo foi, na verdade, um precursor abenoado,
alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sas se
fortalecem para superiores destinos.


II

Eu detesto os heroes todos, disse um dia Jos Estevo[13]. Os heroes
so excepes monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de
vermos os seres da nossa especie exceder as condies ordinarias da
nossa existencia, mas essa vaidosa satisfao custa sempre cara. Os
heroes so uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispem,
em proveito das suas paixes, do oiro, do sangue e da honra do mundo:
que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de
mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre,
ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do bero
commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou
lh'a deixa apontada  indignao publica para que os aborream.

    [13] Discurso sobre o apresamento da _Charles et George_.

O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina
encarnao do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando,
ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, excepes da
natureza, de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por excederem as
condies ordinarias da nossa existencia, affirmava, peremptoriamente e
sem reservas, que essa vaidosa satisfao custa sempre cara, e os
heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispem, em proveito
das suas paixes, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam
aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.
Porque a ns, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de Jos
Estevo,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jmais o
vimos dispor, em proveito das suas paixes, do oiro, do sangue e da
honra da nao, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do
proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E
muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que
instantemente nos aponta a sua sepultura, no para a aborrecermos mas
para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e
purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regies o genio o erguia e
em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao
deparar-lhe com a perverso e tomando-a pelo seu caracter unico e
consequencia. Num desejo vehemente da punio dos seus crimes, esquecia
as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em
homens d'eleio, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar
humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a
candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos,
passaria na terra agitada de paixes, sem que o heroismo o pervertesse,
e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu
poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em
vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor
que s pela justia se inflamavam e a nenhuma sollicitao de baixeza
jmais responderam.

Para o homem consagrado por instigao da consciencia a uma misso
sobre-humana, por ella sujeito  obediencia e imperio de foras
sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu
intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias,
ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, no ha
seno tres solues da crise moral, em que necessariamente tem de
debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as
aspiraes e as tentaes do mundo. Perante os conflictos eternos do bem
e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai
d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso
lh'o exige; perante essa interrogao temerosa, smente tres estradas v
abertas:

--a abdicao, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade
premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento
absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples
contemplao, passiva e paciente, por effeito da identificao com a
alegria do universo, ou na acceitao da dr, como inexoravel, e
procurando ento a salvao em si, descrendo da possibilidade de
modificar a fatalidade e se lhe oppr;

--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que
s na dissoluo do proprio sr encontrar a paz; e

--a aco, o voto heroico, derivado da confiana e f na vontade e no
esforo dos homens, a converso immediata do sonho em motivos de
proceder e tentativa de realisao, para resgatar d'angustias e produzir
na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.

Ora, entre estes tres modos de sr, Jos Estevo, por temperamento, por
educao e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o
involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.

Nada temeu como a inaco. Foi para elle a suprema desgraa. Em 1852,
fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o
seu ministerio, disse n'uma expontanea confisso, e valiosa para a
comprehenso do seu caracter: Nenhum soffrimento da minha carreira
politica me custou tanto como essa perseguio. Um homisio d'um anno,
no estando bastante compromettido para me resignar aos martyrios d'uma
emigrao, no podendo exercitar livremente no paiz as faculdades mais
nobres do espirito, nem cultivar as relaes de parentesco e amizade,
instigado pela minha innocencia legal a comparecer deante dos tribunaes,
constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de mim mesmo, vendo dos
incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas peregrinaes cair
num mar de sangue a estrella brilhante da revoluo europeia, recebendo
e abraando no meu captiveiro os meus cumplices j absolvidos e
restituidos  liberdade, de que por tal causa eu era o unico privado,
tudo isto compozra para mim n'aquelles tempos uma d'estas situaes
equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as
desgraas profundas e irremediaveis[14].

    [14] Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 115.

O heroe, exaltado na impaciencia d'aco, a tudo poder sujeitar-se,
toda a dr e sacrificio poder acceitar d'animo sereno, menos aquelle
estado de sequestro do mundo e de interveno nos seus feitos, que
significa a annulao completa de todas as faculdades, a condemnao ao
espectaculo da propria esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E
Jos Estevo, victima docil do seu temperamento e partilhando da sorte
d'aquelles a quem por sua gloria coube igual dote no livro do destino,
no pde resignar-se com o terror d'esse apartamento violento, para elle
peior do que a morte, porque era a immobilidade junta  constancia da
aspirao, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o como o mais
angustioso tormento. Desde que, moo quasi imberbe, se armou cavalleiro
na batalha da Cruz dos Marouos, at que a morte o arrebatou, anciado e
ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma
tenacidade pica pela justia e pela verdade, confiado na victoria do
seu reino, que os coraes como o seu haviam de estabelecer na terra,
por um trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou
a derrota sero sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas
faanhas.

O temperamento heroico no se inocula por artes pedagogicas, por
contingencias do acaso ou por virtude de simples condies externas; ou
uma scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma,
alheia a essa vibrao, poder creal-o. Se Jos Estevo o possuiu e
d'elle foi luminoso reflexo,  que o trouxe quando viu a luz, ou que
alguma fada lhe bafejou o bero. Esse espirito era seu, propriamente
seu; e foi elle que derramou da sua robusta figura d'athleta a
irradiao de claridade que a engrandeceu.

Todavia, sem embargo, as condies transitorias, se no pdem gerar o
heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril
na inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expanso,
contrariar-lhe os impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E Jos
Estevo teve a fortuna de vir ao mundo n'uma epoca em que a educao
classica e a exaltao do civismo, provocado pelo ardor das paixes
politicas, se mostraram singularmente propicias a revelar-lhe e
fortalecer-lhe o caracter.

Primeiro, a educao. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino
para despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, to repassado
de philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim.
E, como todos os portuguezes cultos do seu tempo, Jos Estevo teve essa
educao unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de
Horacio, de feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.

Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legies romanas,
suspirando pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e
receber entre os applausos das multides freneticas os louros da
victoria, com aquella intensidade de desejo e commoo que os mestres
nos communicavam facilmente, n'um insensivel e involuntario contagio,
porque em alto grau a sentiam tambem. Durante mezes e annos no se
fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrra superior, nenhuma nos
merecera maior admirao, nenhuma constituia aspirao mais nobre.
Mandar nos homens e governal-os para os conduzir  gloria era a suprema
elevao e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia
conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educao
requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas
decadas do seculo XIX, embora tivesse origem em reflexes e estudos de
longa data iniciados e adeantados, mas que at ento eram qualquer cousa
estranha e sobreposta  vida civica, sem influencia na sua base moral. A
inveno de que o egoismo  uma lei to real e merecedora de respeito
como o desprendimento, e a cobardia to natural como a coragem; a
justificao de mil baixezas, outrora julgadas abominaveis e criminosas
e hoje fundadas n'um arsenal de razes physiologicas e psychologicas,
retintas todas de rigor scientifico e com pretenses a verdades
essenciaes; este apuro de impudor e de asceno da animalidade estupida
e cruel  cathegoria d'um modo de ser normal, a negao do sentimento do
dever pela acceitao plena da fatalidade, seja ella qual fr,
indistincta; o inteiro quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a
reputao de enfermidade atribuida ao genio, ao heroismo,  santidade,
ao simples escrupulo de bem fazer--isso  moderno. Na verdade, s agora
se propagou com louvor e a contento dos sacerdotes da sciencia e dos
profanos. A educao d'outros tempos, da renascena at ao meiado do
seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a admirao da magestade
romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moos que entravam na
vida e para ella se preparavam; a concepo pag da robustez, da fora,
da ordem e da justia, a devoo civica posta acima do preceito
religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio
christianismo que se lhe interpozra e a abalra, formava capitulo
parte, j atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas
conciliadoras da egreja catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A
santidade seria apenas para Deus, objecto d'ermitas, de conventos e
d'almas piedosas; para o mundo, o heroismo era cousa mais de venerar e
seguir. Scipio valeria, pelo menos, tanto como S. Paulo; o borburinho
de togas e de lanas no era menos grato aos ouvidos do que o murmurio
das oraes e canticos dos templos, nem se cobiava menos o capacete do
guerreiro do que o resplendor seraphico; a expanso do idealismo
judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho
das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.

Se do bero trouxera o temperamento heroico, Jos Estevo deveria
sentil-o vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza
propria e o caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos,
confundiam-se e completavam-se na uniformidade de tendencias.

Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinao ingenita, favorecida e
afagada no periodo de formao e desenvolvimento pelas lies dos
experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia
o clamor de luctas politicas. Desde creana o ouvia a aproximar-se, cada
vez mais perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia
houve paixes politicas na historia de Portugal, foi ento. A sde de
liberdade que inflamou o povo romano, renascia. Convinha que se
renovassem os heroes e os tribunos, que a apregoavam e saciavam.
Reabria-se o forum. Viessem os consules administrar justia;

Para to alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou
magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer
ou coroar-se de louros pela fortuna dos homens e s por ella combater. E
partiu ao encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas
sangrentas, das amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do
destino d'aquelles que mais amava, da perseguio, da indigencia e da
fome, e, peior ainda, das mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo
talento e designios escurecia ou contrariava. E tudo soffreu nobremente,
invencivel na inteireza e fora do seu corao, que jmais succumbiu ou
esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o erguer-se no pedestal
d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis provaes,
para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a iseno
perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da
consciencia e imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do
orgulho:

Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu no ouvi as injurias;
e as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo  do paiz: est
adjudicado ao cumprimento das nossas obrigaes. Mas  nosso o sangue
que nos corre nas veias; e a sua primeira hypotheca  feita  nossa
honra.

Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma
estrella de justia?!... A paixo do bem publico, que havia de reinar
dentro do parlamento[15] enchia-lhe o peito, e d'elle expulsava todo o
sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as energias do seu brao e da
sua alma lhe estavam consagradas, porque os caracteres superiores e os
superiores talentos--e a esse divino bando pertencia, so aquelles que
teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como fora para propugnar
por ella[16]. E essa fora jmais o abandonou.

    [15] _Discursos_, pag. 215.

    [16] _Discursos_, pag. 421.

Nem a gloria militar,--e  certo que muito lhe quiz, o desviaria de
servir os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o
seu brilho no se escurecesse em infamia. Tinha asco  guilhotina e no
tinha considerao pela espada, quando ella serve a violentar os povos,
porque a guilhotina  sempre a ignominia das revolues, e a espada
muitas vezes o opprobrio dos governos[17].

    [17] _Discursos_, pag. 331.

Ah! Como so valiosos, como so uma preciosidade moral, uma fonte de
bens ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular,
os caracteres lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes
provaes, e superiores aos lances da fortuna! Que ha no mundo que os
possa supprir? Que ha na sociedade que possa desempenhar a misso
d'elles?

Pois Jos Estevo foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes
quilates, um cidado d'esta valia. Toda a sua vida foi uma consequencia
rigorosa da sua composio moral.

Frequentemente attribuimos  fortuna os feitos dos vares illustres.
Esta explicao dos elogios alheios  suggerida pela inveja. Por tal
expediente, poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da
nossa obscuridade. O malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos
nossos projectos, o desfavor dos nossos concidados, quasi sempre provm
de ns mesmos, e o infortunio contra que nos tornamos, nasce das nossas
proprias culpas.

Jos Estevo  uma prova irrefragavel d'esta grande verdade.
Representa, por todos os factos da sua vida, o grande principio da
responsabilidade moral do homem.

Foi o homem de grande merecimento, d'altas faanhas, de inapreciaveis
servios, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidados.
Quaes so as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas esto
todas n'elle; com elle nasceram, e com elle acabaram. Abraou pela
critica intima da sua intelligencia as ideias que se lhe offereceram
como mais justas  sociedade do seu tempo, e logo se dedicou todo ao
servio d'ellas, sem mais pensar em vida, affeies e interesses, quando
estas ideias requeriam o seu auxilio e sacrificios. Era d'indole
dulcissima, de corao affectuosissimo, bom sem limites, compassivo sem
restrices, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem
intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo
em conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes
males da vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que Jos
Estevo era um homem de uma condio sublime, que a sua alma era forte,
que o seu espirito era elevado, e a fortuna no d, no pde dar, estes
predicados moraes, estas supremas excellencias. Se as dsse, podia mais
do que Deus, mais do que as raas, mais do que o sangue, e n'esse caso
antes o horror d'uma absoluta incredulidade do que o culto do acaso.

Mas Jos Estevo, pela rectido do seu caracter, pela segurana do seu
juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral.
Foi um partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros
comprometimentos politicos. Como homem publico, era independente: como
chegado ao rei, fiel. Trabalhou por vezes contra os seus adversarios
politicos. Foi vencido. Os aggravos d'essas luctas esqueceu-os;
conversava sobre estes acontecimentos com extrema magnanimidade. Tendo
de hombrear pelos seus encargos de homem publico com pessoas de
variadissimas extraces e maneiras, tendo de descer da vida
cerimoniatica e estudada das altas regies da sociedade para a
convivencia do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem
affectao, lhano e accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque
lhe batia o corao. No emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era
homem convicto e a sua convico era o seu norte. Entendia a liberdade e
queria-a. Confessava-se seu adepto e sujeitava-se aos seus preconceitos.
Zelava a sua crena mais do que as honras postias do mundo.

Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o corao de levantar o brao
contra os seus irmos, mas no o pungiu o remorso de haver feito mal 
patria e  humanidade. Pelejavam de manh e abraavam-se  tarde.
Pelejavam como soldados e abraavam-se como homens.

No lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um s
assassinato juridico. Respondia por quanto fizra. E apezar das
contendas desnecessarias, das desavenas pessoaes, de perniciosas
fatuidades, deixou a terra que o creou, regida por melhores leis que
ella tinha quando lhe deu o sr, e gosando de maiores beneficios do que
disfructara quando lhe foi dado conhecel-a[18].

    [18] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. cit._, pag. 146 e seg.

So de Jos Estevo essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da
Terceira, quando elle morreu, em 1860. Smente substitui o nome do duque
pelo do tribuno. Mas que admiravel exactido na imagem!... Por fortuna
nossa e dos vindouros, o caracter de Jos Estevo ficou ahi estampado a
primor, e mais do que estampado, confessado com uma sinceridade plena.
Se to lucidamente o comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no
intimo o sentiu fundamente; e glorificando os irmos no ardor civico,
embora pequenos e pobres de recursos a seu lado, com a ingenuidade que 
tambem condio do heroismo, porque a reflexo o enfraquece e lhe 
fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros que lhe coroariam a
fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admirao do valor
alheio, fez justia  sua propria vida.


III

Tenhamos em lembrana a affirmao do tribuno: Os caracteres superiores
e os superiores talentos so aquelles que teem tanta perspicacia para
conhecer a verdade como fora para propugnar por ella.

O espirito heroico, o arrebatamento na aco e a capacidade, inumeraveis
vezes demonstrada, de se lhe consagrar em corpo e alma, no podia
perturbar em Jos Estevo a lucidez do politico; porque, caracter
superior e superior talento, lhe era to prompta a penetrao da
verdade como impetuosa a energia de combater por ella. A concepo
politica da organisao do estado e das obrigaes dos governos, para o
inteiro dominio da justia e para o derramamento da felicidade entre os
povos, formava-se e modificava-se no seu espirito parallelamente com a
expanso do ardor civico; e, se este tinha de manter-se inalteravel,
integro, porque de sua natureza era irreductivel, a ideia politica havia
de transformar-se com a experiencia das cousas, porque  por essencia
mudavel e progressiva. Um mesmo sentimento guiava, porm, e conduzia as
vises do apostolo e os planos e arte do homem d'estado quella altura
em que uns e outros deviam collocar-se para serem todos igualmente
grandes. O heroismo no pde significar a insensatez e excluir o
respeito de condies elementares de prudencia para se tornar efficaz no
bom exito dos seus propositos. Comprehendendo as difficuldades e
restrices impostas  realisao dos seus sonhos pelas paixes que
redemoinhavam por todas as estradas da revoluo, cauteloso por
incitamento previdente da propria intensidade do desejo, para evitar os
escolhos da jornada, mantendo o que estava ganho e preparando novas
conquistas, avanando sem comprometter a posse do terreno adquirido,
Jos Estevo seguiu em toda a conjunctura sua estrella heroica,
transigindo sem abdicar, concedendo e conciliando o impulso da aspirao
com as presses do momento, sem jmais renegar, antes de continuo
proclamando a sua f. O opportunismo, quando as circumstancias lh'o
impozeram, foi smente uma pausa na febre das suas esperanas, retraidas
para se renovarem com maior vigor em ensejo propicio  victoria; nunca
significou fraqueza ou desanimo, e muito menos desprendimento ou
apostasia por exigencias d'um egoismo commodo. Onde o idealismo se
mostrou chimera, absoluta ou transitoria, cedeu, salvando
invariavelmente o que do naufragio podia salvar, com uma dedicao e
coragem indefectiveis. A natural e rara ponderao do seu temperamento
guardava-lhe o heroismo da degenerao em temerarias arremetidas
estereis, e, em meio da exaltao, livrou-o dos perigos que M.me de
Stael apontava como fataes ao renascimento das sociedades europeias
turvadas e em desordem: e assim nem proclamou os principios d'um modo
excessivamente incondicional, nem, muito menos, acceitou os factos
n'um espirito d'excessiva resignao com elles.

S a absoluta ignorancia dos acontecimentos, estreiteza manifesta
d'entendimento ou uma perverso morbida do caracter propenso a
enxovalhar toda a grandeza d'alma e a aviltal-a para a tornar sua igual,
s essa miseria humana poder achar contradico entre o revolucionario
destemido, o setembrista valoroso e o soldado da opposio ao
cabralismo, que foi Jos Estevo, e o deputado, homem positivo e
pratico, chamado a intervir na soluo de problemas de mera mas urgente
importancia administrativa, que apoiou, em 1852, o movimento chamado
regenerao,--prompto, de resto, a combatel-o quando e onde se mostrou
funesto, quando, pelo seu lado moral, se revelou o inicio entre ns da
prevista acceitao dos factos n'um espirito de excessiva resignao
com elles, dando direito de cidade a fraquezas, medradas em volume e
audacia no correr dos tempos at constituirem o deploravel imperio da
corrupo, de que as geraes presentes agora colhem a ruina economica e
a deshonra perante o mundo civilisado.

Quem examinar com atteno, desprendida de preconceitos e suspeitas, as
affirmaes de Jos Estevo, no primeiro periodo da sua carreira
politica, e as reclamaes do parlamentar, no momento em que foi
necessario olhar a serio para a restaurao e progresso das foras
economicas do paiz, no s immediatamente comprehender a diversidade de
objecto que em duas epocas differentes sollicitou a discusso e a
applicao das faculdades do tribuno, mas ver tambem, com uma evidencia
perfeita, a unidade de caracter, superior e integro, que em toda a
situao o manteve no mesmo logar.

O que queria o setembrista?

Queria uma monarchia feita por ns, levantada nas nossas lanas,
monarchia que tivesse suas raizes no corao do paiz e nos degraus de
cujo throno se sentassem os officiaes da hierarchia social, e no as
raas que a vaidade distingue: uma monarchia bella, generosa e forte
como a juventude, sensata, economica e prudente, como a edade
provecta[19]: juiz s, a julgar s; um rei s, com ministros
responsaveis, a executar s; um corpo legislativo s, a legislar
s[20]; a extinco de todas as aristocracias e a propagao da
unidade social[21] ; uma constituio popular; um rei sem arbitrio;
uma representao extensa; uma familia social; nacionalidade segura;
administrao sem opprimir; auctoridade com confiana; centralisao com
fros; justia com independencia; fazenda regulada; despezas com
economia; tratados com industria; reciprocidade sem perdio; ordem sem
enthusiasmo; e liberdade sem sophisma[22].

    [19] _Discursos_, pag. 90.

    [20] _Discursos_, pag. 27.

    [21] _Discursos_, pag. 86.

    [22] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 70 e seg.

Tudo isto elle queria, e por tudo isto soffreu nas fadigas o nos riscos
dos campos de batalha e nas desoladas amarguras do exilio, perseguido e
odiado por aquelles cujo despotismo nefasto combatia. E tudo isto elle
julgou realisavel, sem muito contar com a multido de terriveis
fermentos moralmente morbidos, que sempre se insinuam em todo o
movimento politico e contrariam, desfazem e annulam a tarefa d'aquelles
que se propozeram moldar as sociedades em formas de belleza estreme.

O que encontrou foi a desilluso dos seus sonhos, ainda mesmo quando
pareciam ter vencido e estarem prestes a dar ao paiz a fortuna por que
elle anceiava. Imaginra uma perfeio moral e um equilibrio mental 
sua imagem e semilhana, a mesma f e iseno e coragem, ignorando o ser
d'excepo que no seu peito habitava; e ficava prostrado de dr, ao
descobrir que esse paraiso terrestre se desvanecia, quando julgavamos
abertas as suas portas, e que no havia modo de banir da nossa
existencia em geral, e em particular da nossa politica, a quda, o
peccado, a baixeza explorando a generosidado e escarnecendo-a, a
debilidade das resignaes foradas e os assaltos do desalento, um
abysmo entre a aspirao e a realidade.

Nem o seu proprio partido politico escapava ao contagio. Quando veio a
julgal-o, verificou-lhe a impotencia e confessou que sempre o achra
leal, franco, valente e guerreiro, mas mais inquieto do que
revolucionario, pouco substancioso, muito musical, com muitos hymnos e
com muito pouca disposio de luctar arca a arca, peito a peito, com os
abusos que era do seu dever combater e destruir. Tinha vivido bastante
no meio d'elle, e desgraadamente via que o partido progressista, quando
ia ao poder, no ia para pr em execuo as suas ideias, mas para
mostrar que no tinha ideias[23].

    [23] _Discursos_, pag. 278.

A desilluso, no pungir do seu golpe, levou-o talvez bem proximo da
injustia. Porventura atribuiu a inanidade de companheiros
inconsistentes e frouxos o que era apenas a imposio cruel e
indeclinavel dos factos. E estranhou e lamentou, como infelicidade e mu
sestro do seu gremio, o que era desgraa commum aos agrupamentos
politicos e s cousas humanas.

Mas de todo o desastre cobrava animo. No se quedava paralysado pelo
extasi de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios.
Porque ao fim de vinte annos de luctas politicas via reduzidas a
propores mesquinhas as conquistas do seu sonho, no cruzava os braos,
abandonando o campo a inimigos, mais persistentes e activos na ruindade
do que os bons nas obras de salvao. O abandono poderia ser soluo
para ambies ephemeras dos temperamentos vulgares; no o tolera, porm,
o espirito heroico. Emquanto houver a disputar um beneficio, uma esmola,
um lenitivo a tormentos, haver eternamente motivo de combater. Hoje
bate-se por uma cidade, amanh por um castello, depois por uma choupana;
hoje desembainha a espada por Deus, amanh por sua dama, depois pelo
rei, e depois ainda pelo infimo servo: jmais se convence de que o seu
brao possa jazer inerte, deante do si tem continuamente vises que lhe
exigem o esforo.

Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As
liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes
e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcanar nas leis do
paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais no tinham
podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, j
no encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez
tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos
credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte
se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presena dos
representantes da nao, que no estava disposto em nome de palavras,
em nome de tradies, a applicar o seu fraco talento e a sua sade a
revolues sem substancia, a ministerios sem principios e a coalises
sem necessidade. No estava para isso. Isso no era vida para um partido
forte e robusto. Preferia antes reduzir-se  sua pobre e insignificante
individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se
estragam as faculdades e no se faz nada para a causa publica[24].

    [24] _Discursos_, pag. 309.

Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras naes da
Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o po para o malfadado
povo portuguez, exausto de luctas vs em que dissipava as foras e a
fazenda; do que se tratava era de pr em ordem e prospera a casa
arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas,
restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um
cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza
constituiu-se para ns, como para muitos outros povos, o primeiro
elemento de fortuna e grandeza, e Jos Estevo, no desconhecendo a
situao nem podendo ficar indifferente  atraco d'esse explendido
crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era
mister para a sua patria render-se s condies e exigencias da nova
phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes
reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade
manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupo dos
homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro,
deixaria a espada pelo alvio; e trocava-se o manto de magistrado pela
blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas no mudou
nem de logar nem de corao, que sob todo o vestido era o mesmo,
inviolavel; no se turvou a limpidez da energia moral com que manejou
ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situaes e
attitudes foi identico a si mesmo. Estava a desapparecer totalmente,
disse, a gerao que inaugurra a liberdade na nossa terra. Para os
feitos e para os homens d'esse tempo comera j a posteridade. 
pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa gerao resgatar o
tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que
lhe abrandassem a severidade dos vindouros[25]. E elle vinha pagar o
seu tributo  redempo com a mesma generosidade com que o pagra s
illuses. Tambem cara em falta; justo era portanto que partilhasse
tambem da penitencia.

    [25] Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 149.

No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira j que
uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do
problema economico e afigurava-se-lhe que viver d'industria era o
grande pensamento d'aquelle seculo[26]. E dezoito annos mais tarde, em
1857, pretendia que os homens de todos os paizes que por diversos modos
esto empenhados na civilisao e no progresso, os industriaes mais
activos e mais emprehendedores que querem vr postas por obra as suas
concepes... o que teem em conta so governos solicitos, que aproveitem
os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe
em suas naturaes faculdades[27].

    [26] _Discursos_, pag. 43.

    [27] _Discursos_, pag. 319.

Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que
inauguravam a nova era. Louvou a creao do ministerio das obras
publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. A creao do novo
ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os
cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do
governo, pois quanto existia na administrao publica para promover as
industrias ou abrir communicaes era por tal modo desmaselado,
rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles
interesses sociaes estavam eliminados da gesto governativa, e entregues
 sua propria fora, escassa as mais das vezes para lhes dar uma
existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a
esforos inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de
Lisboa ao Porto  a maior medida que se podia tomar para imprimir nova
vida a esta nao...  o primeiro manifesto de adheso  moderna
economia das naes[28].

    [28] Artigo publicado na _Revoluo de Setembro_ de 2 de setembro de
    1852. Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 123.

Da bondade e legitimidade da obra a que Jos Estevo agora dedicava o
talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, no
tinha duvida. O passado e o presente no se contradiziam,
completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da
administrao e da politica nacional,--no era outra cousa a
regenerao; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de
quem sem reservas e constantemente consagrra  sua patria todo o
corao. A simplicidade da situao moral era perfeita. E, na carta que
dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de
1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a
hesitao d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima
attitude do setembrista exaltado. Senhores eleitores, dizia, no
busqueis por agora em mim o homem politico. Esse no sei se morreu em
alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no
exilio o po estrangeiro. Quem se vos apresenta,  simplesmente um homem
ingenuo e um cidado, que julga ser util ao paiz, encaminhando os
negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos
os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os
vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das
suas convices profundamente democraticas, chega com as suas sympathias
a um dos lados do throno. A ninguem peo venia para esta respeitosa
affectuosidade, porque para todo o homem livre a religio das ideias e a
dos sentimentos so dois cultos independentes e tolerantes[29].

    [29] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 125.

Quando morreu a rainha D. Maria II, Jos Estevo, n'um dos seus muitos
impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciao das obras
alheias e um exame de consciencia _coram populo_, a justificao do seu
passado e a razo do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe
representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que
n'ella influira to poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos
encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem  de
superior importancia para elucidao da sua vida:

Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens
crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras,
torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que  duas vezes
nossa, uma pelo direito do bero, outra pelo direito do resgate,
conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue
e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem
reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar
 nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas
gentilezas... Mas todas estas mortes so glorias, so
triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente
grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade.
Foi-se o legislador e o capito da liberdade, e a liberdade no pereceu
com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se
amparra, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As
instituies teem entre ns resistido por longo tempo  aco desregrada
dos partidos,  ambio turbulenta dos estadistas, ao desleixo
governativo, s corrupes desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, s
exaggeraes populares, s restrices governamentaes. As liberdades
publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as
prises, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de
maior provao esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se
atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha  uma grande
admoestao para os partidos. Faamos todos exame de consciencia, j que
Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem
poder, tambem teem vida, e so chamados a contas.  no interior dos seus
archivos, e no sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das
prosperidades dos povos. Acabou-se j um reinado depois do systema
constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, no o
foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que
fizemos durante esta epoca? So desenove annos preciosissimos pelos
acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles
se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis
emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitmos ns todas estas vantagens,
imitmos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso
seculo? Dmos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar?
Levantmos cada classe  altura a que ella podia subir? Honrmos a
gerao a que pertencemos, a nao que nos deu o nome? Responda cada um
a si, responda  sua consciencia que  o mesmo que responder a Deus. E
seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em
regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um
regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre
ns a civilisao sem a qual ellas no podem arreigar-se nem medrar. A
obra  de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo
leal e resoluto[30].

    [30] Artigo publicado no _Campeo do Vouga_ em 17 de novembro de
    1853.

A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em
quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperana, cada
amargura; em cada passo no caminho da aspirao o assaltam e torturam
desilluses. A candura de Jos Estevo representra-lhe na regenerao
uma empreza, honesta e ch, de fomento da riqueza, e pelos meios que a
epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida,
deshonesta no era na inteno e lisura com que concedia  miseria dos
homens,  satisfao de muitas das suas fraquezas, aquelle quinho
indispensavel para que se mantivessem quietas e no fossem impedimento 
realisao de mais altos destinos. Um dia viria, porm, em que, pelo
crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de
governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as
fraquezas dos homens em beneficio da nao, depois de se usar a
corrupo para alcanar o bem publico, aconteceria que a nao seria
explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado 
corrupo.

Portanto, errra? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma
voz intima o tranquillisava:

Folheio os fastos parlamentares, s vezes sem intuito, s vezes com o
intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma
questiuncula, de saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas
que no traga de l a mais intima, a maior satisfao que pde trazer um
homem probo e um homem de consciencia; acho a minha coherencia, toco-a,
encontro-a, sae-me a cada pagina de cada livro; e eu, tendo uma fraca
memoria de todos os meus actos, respondo pela logica d'elles, porque
confio no meu caracter e na minha consciencia[31].

    [31] _Discursos_, pag. 189.

Antes da dissoluo da camara era equivocamente regenerador. Mas,
depois da dissoluo, depois que achei no governo caracter politico,
entidade politica, teno politica, plano politico, coragem e deciso de
iniciativa, decidi-me e fui regenerador at que a regenerao acabou,
porque hoje essa denominao de regenerao e no de regeneradores, tudo
isso at certo ponto pde servir para fins mas no diz nada[32].

    [32] _Discursos_, pag. 274.

Aproximava-se aquella terrivel conformidade excessiva com os
acontecimentos que M.me de Stael promettera e fra como uma pesada
maldio. Imaginra Jos Estevo uma transformao politica sem perda do
caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterio ou
quebra da elevao moral, a riqueza aureolada de nobreza e isenta de
toda a mancha de degradao em sordidez; e o que a situao lhe
offerecia era a dissoluo do caracter em proveito de fatalissimas
baixezas, que iam a tornar-se invasoras e absorventes.

No era isso que elle sonhra e esperra, porque muito nobremente
considerava que os partidos teem tanta difficuldade em viver como em
envelhecer, mas o envelhecer  uma cousa que custa muito para se fazer
com dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condio, mas
envelhea com amor s suas ideias, com amor s suas tradies e aos seus
principios[33]. Comprehenderia a necessidade da transformao que o
correr dos annos importava, foi a isso de certo que elle chamou o
envelhecer e declinar; repugnava-lhe porm a apostasia, e contra ella
protestava.

    [33] _Discursos_, pag. 275.

Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido,
juntando-se e atraioando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade
 causa publica por cobias deprimentes e a devoo generosa, isenta e
nobre aos interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da
virtude dos partidos e confiando ainda no civismo e na rectido onde
quer que habitassem, afastado da vileza dos bandos mas crendo,
incorregivel, na pureza de consciencias d'eleio, invocava a unio e
esforo dos homens de boa vontade para salvao da patria. E na _Carta
aos eleitores_, de 15 d'abril de 1861[34], deixou-nos esboado este seu
ultimo sonho.

    [34] Vid. Jacintho Augusto de Freitas Oliveira, _Jos Estevo_.
    Lisboa, 1863. Pag. 349.

Para o futuro, dizia, pertencerei de certo ao partido, que comea a
formar-se, que j est crescido, que vive entre ns sem termos dado por
tal, que nos inspira sem ns o sentirmos, e que mesmo do bero dirige as
coisas publicas e domina at os homens da mais forte vontade. Este
partido ser um producto de todos os partidos que ora existem; ainda com
um nome politico mas sem substancia doutrinal, producto alcanado, no
pelo concerto de individualidades, de coalises ephemeras, de parcerias
ambiciosas, mas pela triturao da opinio publica, pela aco da
consciencia universal, pela solibilidade das pequenas paixes e das
importancias artificiaes no grande e irresistivel sentimento nacional,
que transforma tudo quanto lhe convm assemelhar, e destre todas as
heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe no servem. Este partido
no se parecer em caracter com nenhum dos partidos existentes, nem se
filiar nas glorias de nenhum d'elles, nem ser um engenho politico
incapaz d'aco propria e embargante da aco dos outros, em seu gremio
ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas todos os que se
no curvam s suas idolatrias. Este partido ser a ligao de todas as
capacidades prestaveis para a governao publica, tendo por intuito a
civilisao do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra
dos homens ou a sua creao podsse ser contrariada por elles, talvez se
no fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situao.

De desengano em desengano, chegra  condemnao do partidarismo e  sua
expropriao por utilidade publica. Outra cousa no era esse derradeiro
sonho d'um partido totalmente expurgado das doenas que os caracterisam,
a todos, e apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A
grandeza da aspirao obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o
que smente dentro do seu peito existia.

Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor
crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a viso liberal se
dissolvia, tinha morrido.

Se vivesse, assistiria, no  ligao de todas as capacidades
prestaveis para a governao publica, tendo por intuito a civilisao do
paiz em todas as suas formas, mas  desagregao da grande maioria das
capacidades, determinada pela satisfao da miseria politica em todos os
seus modos. Como o grande capito da India, mal com o rei por amor dos
homens, e mal com os homens por amor do rei, Jos Estevo, incapaz de
abdicar dos principios e aspiraes que o exaltavam no anceio d'uma era
politica de bemaventurana, e simultaneamente comprehendendo a
necessidade, por condio humana e imposio da realidade, de tolerar e
conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixes que
lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria
amargamente os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, no
podendo conciliar o que  de sua natureza irreconciliavel, mal com as
illuses, rainhas do seu corao, por causa do mundo que ellas haviam de
regenerar e no regeneravam, e mal com o mundo, por causa das illuses
cujo imperio elle havia de respeitar e incessantemente desacatava,
proseguiria na f dos apostolos e na tristeza dos vencidos.

Naufragio algum o curaria d'illuses. Haviam de renascer, e era justo
que renascessem. Embora no lhes assistisse aos ultimos triumphos,
assegurava-lh'os a crena e a justia. Das que o possuiram, nascidas
n'um rubor d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de
crepusculo, ficaria na terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas,
essas illuses da epopeia liberal, que, embora se dissipassem quasi
estereis para as garantias da liberdade individual e para o
reconhecimento das liberdades publicas, conduziram ao cumprimento de to
altos deveres de humanidade, como a abolio da pena de morte, e ao
fortalecimento de to solidas bases democraticas, como a abolio dos
morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente protegido pelo
systema de successo e partilha adoptado pelo codigo civil. No foi
baldado o heroismo dos que por ellas combateram.


IV

Em 1840, o oraculo mysterioso da ordem, invocado por Jos Estevo e
interrogado sobre o numero de partidos que havia na camara dos
deputados, respondeu: No paiz ha dois partidos e duas faces, e n'esta
camara um partido e uns poucos d'illudidos[35].

    [35] _Discursos_, pag. 88.

Quem to solemnemente lhe ouvia os segredos, estaria entre o numero dos
illudidos, por decreto dos avisados e prudentes que combatia, seno at
pelo reconhecimento intimo, esclarecido em repetidos desenganos. E,
todavia, esse filho da illuso que como ella deveria ser innocente e
ephemero, o cavalleiro phantasma que com suas correrias impetuosas
surgia em meio de todas as pelejas e deveria confundir-se e afugentar-se
facilmente na supposta inconsistencia do seu ser, voltava sempre,
atraioando-a e negando-a de continuo, terrivel e audaz, renascido das
tenues sombras em que o julgavamos dissipado, para semeiar o terror
entre os fortes e os grandes, verdadeiros potentados da terra. Tremiam
dos seus vaticinios e anathemas os que mais seguros se reputavam; e os
mais frios e incredulos erguiam-se da prostrao e desanimo, despertando
pela harmonia d'aquella voz divina. O illudido, que pela fatalidade da
sua natureza vira ao mundo condemnado  derrota, era a cada passo o
vencedor, exaltado pelo clamor das multides, derrubando na passagem
muita grandeza falsa, desfazendo idolos e reduzindo a p mentirosas
virtudes que pretendiam cobrir-se com os trajos da dignidade.

Singular poder! Sendo tamanho, profundamente temido dos que flagellava e
ardentemente adorado dos que protegia,  na sua constituio d'uma to
homogenea espontaneidade, d'uma ingenuidade to constante e perfeita,
que quasi escapa  analyse e se torna impossivel decompol-o e observal-o
nos seus elementos.

No pde sem impropriedade ou violencia applicar-se a palavra arte 
eloquencia de Jos Estevo. Arte oratoria, esta disposio reflectida e
determinada dos pensamentos e a escolha meticulosa de termos que os
exprimam, tendo em atteno o effeito que ho-de produzir sobre o
ouvinte e amoldando-se para esse fim a caracteres e tendencias
psychologicas, previamente estudados e astuciosamente explorados, o
calculo da impresso,--essa arte no a teve Jos Estevo. De todo a
desconheceu.

A sua palavra corre como correm os rios, rebentando onde um impulso
natural os fez rebentar, sem nada cuidarem dos obstaculos ou inclinaes
propicias que os esperam, escavando aqui e amontoando acol, ora
derrubando e destruindo, ora fertilisando e fazendo crescer, resultando
de tudo afinal belleza e explendor, dos destroos e ruinas como das
creaes magnificas. Logica, gradao d'argumentos por sua progressiva
intensidade, crescendos de fora arranjados com sabedoria, o caminhar a
uma mta que nunca se perde de vista e para a qual ns dirigimos os
passos, regulando-os e guardando-lhes toda a viveza e celeridade para o
derradeiro lano decisivo, a famosa arte de persuadir, levada ao
fastigio em remotas eras por talentos assignalados com justia nos
annaes da humanidade,--isso  cousa que em vo se procurar nos
discursos de Jos Estevo. Muitos d'elles e dos mais celebres podiam
baralhar-se, trocando o fim pelo principio e o meio pelos extremos, e
ficariam igualmente bellos, sem perderem um atomo da energia d'aco
sobre o nosso espirito. Examinando-os, teremos talvez de concluir que
esse homem que tantas vezes persuadia e sempre subjugava, no fallou
para persuadir nem para subjugar, mas apenas para dizer a verdade e por
amor d'ella, para a dizer tal qual no seu entendimento e sobretudo no
seu corao se revelava, por uma necessidade indomavel e intima, e no
para no impulso prender ou esmagar os estranhos. Por vezes, poderemos
convencer-nos com boas razes de que quem to duramente castigou e to
nobremente enalteceu, nunca pensava em castigar ou enaltecer o quer que
fosse, e apenas buscava dar satisfao a surdas e indistinctas
exigencias da consciencia, que no lhe permittiam ficar quieto e calado.
Se esse modo de ser redundou em uma arte sublime, no foi por seu
querer, no foi porque o procurasse; e tudo quanto a critica poder
descobrir na observao e meditao das suas obras, ser, no a sua
arte, que a no teve, mas os caracteres e fundamentos da sua eloquencia,
o que  differente.

Gabavam-lhe a imaginao. Era famosa. De facto, abundou no seu
temperamento e sempre lhe assistia, nas cousas graves da vida e nas mais
vulgares, no convivio quotidiano com os amigos e nos grandes lances da
fortuna nacional.

Fallando de D. Fernando I, no parlamento, ia dizendo:--Este rei fraco e
versatil tinha uma filha formosa.... Corrige-lhe o erro Almeida
Garrett.--No era formosa, diz-lhe n'um aparte. No seria, replica
de prompto Jos Estevo. Julguei que fosse contra as prerogativas da
cora chamar feias s princezas[36].

    [36] _Discursos_, pag. 118.

O segundo discurso do Porto Pireu  uma torrente de imaginao,
rebentando em borbotes, incessante, colorindo e animando toda a orao,
e dando-lhe um relevo primoroso. A historia da _ordem_ e a enumerao
dos que Jos Estevo ia vendo no Pireu, incidentemente, em diversos
momentos do discurso, marcam at hoje o apogeu do explendor do
parlamento portuguez, e no  facil conceber como nem quando ser
excedido, porque soffrem sem deslustre a aproximao das mais bellas
paginas d'esse genero legadas por qualquer epoca ou civilisao.

Passo  historia da _ordem_, disse o tribuno. N'ella tudo  grandeza,
doura, prazer e maravilha. Assim a empreza fosse facil! Que lingua pde
revelar os seus mysteriosos trabalhos, descrever com delicadeza a
efficacia portentosa dos seus meios, e a pompa dos seus resultados? Que
engenho pde comprehender todos os phenomenos da ordem, e abranger a
extenso dos seus dominios? Quem pde, arrombando os umbraes da
eternidade, ver a ordem, luctando com o cos, obrigar a natureza s leis
da harmonia?

A ordem, primeiro, encerra no centro d'esse cos as materias
vulcanicas, essas massas anarchicas da natureza, depois empola os
montes, escava os valles, encana os rios, recolhe os mares, azula o cu,
alumia a terra, suspende os passaros nas azas, equilibra os peixes no
nado, levanta nos ps os outros animaes, tira do p o rei gozador
d'estas maravilhas, da costella d'esse rei a rainha sua companheira, e
inspira a esse par ditoso o seu primeiro beijo, beijo creador e fecundo,
de que a nossa vida  um presente. Ingratos! Devemos a vida  ordem, e
negamos-lhe os respeitos que ella merece!

Por outro lado, quem forjou a espada organisadora de Nemrod? A ordem.
Quem salvou das aguas do Tibre os infantes fundadores de Roma, e com
elles os fados do Lacio? A ordem. Quem ensinou os caminhos, quem
conduziu atravez de todas as difficuldades os barbaros do norte? A
ordem. Quem fez dum almocreve arabe o chefe duma religio? A ordem. Quem
deu a Carlos Magno a sua poderosa espada? A ordem. Quem compoz o balsamo
de Ferrabraz? A ordem. Quem fez as botas de Carlos 12. o chapu de
Henrique 4. e o casaco de Napoleo? A ordem. Quem finalmente inventou
as bellas artes, a musica, a pintura e a esculptura, e a grande e nobre
arte da gastronomia? A ordem. Ingratos! E devemos tudo  ordem, e no
lhe damos a considerao de que ella  credora!

Quando a expedio restauradora, epilogo romantico de esperanas, de
receios, de saudade e valor, quando essa expedio que em si encerrava
maiores fados que a nu sagrada dos athenienses, atirou pea de leva nas
lagoas dos Aores, quem se poz ao leme dos seus navios? A ordem. Quem
abateu os mares, quem enfreou os ventos, quem fez singrar os escaleres,
quem deu a mo ao soldado para saltar em terra, quem tangeu os clarins,
quem rufou os tambores, quem limpou o fusil, quem fez rodar o canho? A
ordem... Est decidido; no ha outro poder na terra seno a ordem. Todo
o mundo material e politico lhe pertence. Entelechias de Malebranche,
turbilhes de Descartes, monadas de Leibnitz, gravitao de Newton,
principio utilitario, escola sentimental, fora de costumes, educaes
religiosas, genio de legisladores, tudo isto  nada, e o mundo no lhe
deve nem bem nem mal. S a grammatica se pde apresentar como rival da
ordem, e disputar-lhe o imperio do mundo; tambem ella tem pretenes
anteriores, grandes e importantes, e j um seu predilecto as sustentou
com gravissimas razes.

Sabeis vs os que esto no Pireu? So aquelles que com uma carta de
recommendao mercantil, assignada pela ordem, cujas letras no mercado
politico esto agora valendo tanto como os titulos azues na nossa praa,
julgam converter o paiz em uma feitoria sua de poder, alcanando que
todos os ministerios lhes venham sempre consignados... So os que tendo
feito alguns lucros de reputao, quando a praa tinha menos
negociantes, julgam que podem esperdiar o ganho, reputando que alguns
papeis de credito, que ainda teem em suas carteiras, so effeitos de
grande valor, e no vendo j sobre os seus escriptorios o sello da
quebra, e a impossibilidade de apurar da massa fallida sommas que possam
exceder s quantias necessarias para o pagamento priviligiado de
caixeiros, creados e outros que lhe ajudaram a grangear suas poucas
riquezas scientificas.

Sabeis vs os que esto no Pireu? So aquelles que vem despachar s
alfandegas da publicidade estes fardos avariados da historia, sem o
sello da critica, e expr  venda no bazar do parlamento, em vez dos
panos finos da verdade, as baetas do sofisma.

Esto tambem no Pireu os que, vendo voltar dos bancos das eleies
muita embarcao carregada de quartolas de confiana, de barris de
votos, de dornas d'actas, e tendo muitas vezes emprehendido sem successo
esta pesca d'alto com perda de barcos e apparelhos, agora julgam
fazer-se senhores do ganho de toda esta especulao, fingindo-se
caixeiros e guarda-livros da nao, e querendo comprar por sua conta
todo o pescado, passando para tudo isto lettras em nome d'ella, com o
mesmo direito com que uma vez tres alfaiates inglezes proclamaram em
nome da Gr-Bretanha.

Esto no Pireu os que, considerando a cora como uma mina, se associam
a todas as campanhas nacionaes e estrangeiras para a explorar, meditando
largar a empreza logo que a veia estiver pobre, e as galerias de
minerao inundadas... Esto no Pireu os que, depois de terem feito suas
genuflexes  estatua de ferro de usurpao, foram para a emigrao
adorar algumas estatuas de ouro que por l se levantaram, e que depois
se recolheram ao paiz para se associarem, no com aquelles que haviam
sustentado o colosso da tyrannia, julgando que combatiam pelo bem da
nao e pelos direitos da realeza, mas com os que sem acreditarem causa
alguma as seguem todas, que teem a chronologia das desgraas publicas
marcada no peito com as insignias das mercs, e que havendo levantado o
usurpador do p do nada, depois que tiraram todo o partido dos seus
maleficios, procuraram minar o seu poder para servirem outro senhor que
melhor lhes pagasse.

Esto no Pireu os actores de todos os entremezes, comedias e tragedias
ministeriaes, que vestem com a mesma facilidade a jaqueta de gatuno, o
manto do rei tyranno, e o chambre d'aulico retirado, sem lhes importar
os apupos da plateia e as censuras dos litteratos, procurando s que
haja boas enchentes, que as escripturas da empreza sejam cumpridas,
embora todos os dias mudem os emprezarios.

Esto no Pireu os que, deixando o licito commercio da virtude e da
honestidade, se pozeram a traficar em gales, plumas e lantejoulas, e
que, sollicitando um logar nos mercados das crtes estrangeiras, para
irem expor  venda suas fazendas, o no poderam alcanar.

Esto finalmente no Pireu os que vieram para a casa commercial
Revoluo & Companhia, como a mocidade do Minho vem para as lojas do
Porto, e que, tendo feito alguma fortuna pela bondade dos patres, agora
os perseguem, desacreditam e procuram arruinar por todo o modo.

Mas quem  toda esta gente que se acha no Pireu? Que est ella l
fazendo? Foi um sonho! No Pireu s vejo uma companhia de trabalhos
braaes, que corre avidamente  praia, quando chega alguma carregao
ministerial, e que carrega por todo o preo os fardos de que ella se
compe, qualquer que seja a firma commercial com que venham
marcados[37].

    [37] _Discursos_, pag. 91, 93, 95, 101 e seg.

Foram longas as citaes, apparentemente abusivas. Mas quem as houver
seguido, logo comprehender que constituem documentos essenciaes da
nobreza de Jos Estevo, pergaminhos inseparaveis do seu nome, onde quer
que elle apparea. A fulgurao do seu genio deslumbra e entontece
n'esses momentos.

Quando, porm, se lhe tornou necessario passar da reproduco pitoresca
do presente  resurreio da simples verdade historica, quando conveio e
lhe aprouve trocar pela contemplao grave d'outros tempos a feira de
cobias e vaidades, a que assistia e de que pintou to completamente a
diversidade de gentes e trajos, e a azafama e tumulto de mercar e
ganhar, encerrou largos horisontes em curtissimos quadros, favorecido
sempre por igual poder de imaginao. Em breves traos exprimiu e
resumiu crises profundas, condensando n'um rapido lampejo uma situao
moral, economica, politica e militar, sem preterio dum s dos seus
caracteres e pondo-os todos manifestos com uma transparencia
cristallina. A imaginao puramente descriptiva no ficava quem da
imaginao creadora. A renovao do acontecido e distante no foi menos
perfeita do que a obra de phantasia, na qual traduziu a realidade
presente, moldando-a, vestindo-a e compondo-a em formas desusadas e
inesperadas.

N'aquelle mesmo discurso do Porto Pireu, rememorando as circumstancias
do paiz no principio do seculo XIX, dizia:

Depois d'estes successos, (a invaso franceza e factos correlativos),
sabido  como a flr da nossa juventude, o ouro dos nossos cofres, a paz
dos nossos campos, a gala das nossas cidades, o sangue dos nossos
soldados, a devoo dos nossos povos, se empenharam pela destruio do
poder colossal do imperio. Sabido  como a Inglaterra considerou pouco
estes esforos, depreciou o valor d'estes sacrificios e calou a
gentileza das nossas armas.[38].

    [38] _Discursos_, pag. 132.

Avalie-se por este mero exemplo, escolhido quasi ao acaso, a destreza e
a robustez do gigante. Cada palavra vale uma pagina. Maravilhosa
capacidade de condensao! Tudo o que um instante temeroso na historia
dum povo pde trazer de inquietao, de ruina, de dedicao, de valor,
de perfidias e ingratides, todo o abalo e commoo dos lances de
guerra, tudo alli resurge tirado da obscuridade por um singelo e sereno
claro.

No basta, todavia, a imaginao para base de to extenso e duradouro
poder sobre os homens como aquelle que Jos Estevo em sua vida exerceu.
No  sufficiente para transformar n'uma arma penetrante e inflexivel as
simples consideraes d'um orador. A imaginao poder provocar a
admirao e conquistar celebridade, mas no basta para constituir
auctoridade; e o que Jos Estevo alcanou, unicamente pela virtude do
seu verbo, foi uma fora excepcional d'influencia sobre o espirito,
consciencia e aces d'aquelles que de perto ou de longe o escutavam. A
imaginao poder captivar pelo capricho dos seus vos e revelaes, por
uma rapida atraco transitoria, mas no lograr conferir um imperio
permanente e efficaz; isso demanda laos mais resistentes e susceptiveis
de supportarem a aco do tempo sem afrouxarem; e o imperio de Jos
Estevo prolongou-se por toda a sua existencia, at  morte. A
imaginao, por isso mesmo que se expande em brilho, esve-se no
contacto de elementos d'energia menos fugaz, no resiste d'ordinario 
tenacidade penetrante da reflexo, que nunca deixa de lhe seguir o
rasto, para o embaciar e frequentemente para de todo o apagar. Por muito
realce que  obra de Jos Estevo houvesse dado, no podia ser ella
explicao basilar da sua inalteravel efficacia. Os fundamentos
d'aquelle prestigio incomparavel teem d'assentar em terreno mais solido
do que esse pulverulento e doirado em que a phantasia se dilata.

Notemos desde j a feio mais accentuada da imaginao de Jos Estevo;
attente-se no seu caracter e no objecto que preferia. Talvez isso nos
inicie na comprehenso da sua fora.

No se detem e espraia na embriaguez dolente de prolongadas cadencias
musicaes, no se adelgaa em melodias languidas, nem se estende em cavas
sonoridades retumbantes.  viril e austera. Ruge como o estampido dum
roble que se despedaa; no verga como o sibillar ondeante d'um
canavial.  magestosa e grande; no se amesquinha a recortar
frivolidades.

Depois, que procura? Os traos comicos dos homens e das cousas, para os
expor s gargalhadas d'um publico vido de folgana e avesso a tomar a
vida a serio? No.  evidente que de passagem os toca bastas vezes,
accidentalmente; um espirito da sua pujana e uma sensibilidade to
aguda como a sua, que a nenhuma impresso ficam de todo estranhos,
percorrem a escala inteira das emoes. Mas so incidentes, verdadeiros
incidentes, notas passageiras, em que no insiste nem procura fazer
insistir os que o ouvem.

O que a imaginao de Jos Estevo procura constantemente, o objecto que
mais lhe apraz e em que de preferencia se quda e escava,  a pintura
dos caracteres, a investigao dos mobis moraes que nas aces humanas
se occultam e as dirigem. N'aquelles mesmos trechos do discurso do Porto
Pireu que acabamos de repetir, no extenso rl dos mercadores que
enxameiam na praia, cada um leva no rosto, taes quaes elle lh'os
estampou, os signaes certos, a indicao segura do credito que merece,
das baixezas que praticou e dos contractos infames a que se presta e em
que sonha. Com o resto prendeu-se pouco; no lhe importa a gentileza da
figura ou a deformidade do corpo, que a graa ou a fealdade viro do
intimo, e  a descobril-o que se applica com ardor. Os factos e os
homens no so cousas que tenham vida sua, na essencia do conceito e
arte de Jos Estevo; ho-de tiral-a do valor moral que possuirem; e 
para o aquilatar que a sua imaginao se exalta a reconstituir factos e
homens e lhes pe a n e em relevo a estructura.

Junte-se a esta uma outra circumstancia notavel, e estaremos porventura
proximos a penetrar o segredo da magia d'aquella fascinao soberana:--o
ataque  habitualmente directo. Ironia, astucias vulpinas, surprezas de
flanco, disfaradas, se por acaso surgem, aqui e alm, logo as abandona
e troca por armas mais a seu molde. O espirito heroico compadece-se mal
com esses engenhos de malicia, inveno de timidos e defeza de cobardias
que no se afoitam a entrar em campo raso. Combate peito a peito. Nem
procura escudos para o seu, sempre a descoberto, nem tambem se deleita a
arranhar o adversario e a cobril-o de sangue  flor da epiderme, sem lhe
tocar as entranhas. Vibra os golpes ao corao, e por isso que lh'os
conheciam e sabiam que eram mortaes, por isso os temiam tanto. A ninguem
poupava a exprobrao d'erros e fraquezas, se se convencia de que tinham
sido aggravo  causa publica. Toda a torpeza e mentira desmascarava, sem
uma funesta piedade, sem attenuantes nem dissimulaes que, no tremor
duma consciencia persistentemente vigilante, se converteriam de prompto
em suspeita de cumplicidade.

Que ha pois afinal no fundo de todo esse movimento brilhante da
eloquencia de Jos Estevo? Varrida a arena dos fumos do combate, que
ficou de inexpugnavel no seu logar, que fortaleza prostrou tantos
inimigos, e desbaratou e poz em fuga to numerosas hostes e luzidas? Uma
assombrosa intuio moral, a facilidade de lhe exprimir as revelaes
com uma conciso e uma exactido maravilhosas, a coragem de as dizer
alto na presena d'aquelles a quem mais feriam, a absoluta iseno com
que s por amor da patria assim procedia,--eis o segredo do poder d'essa
voz unica na historia da politica portugueza e grande entre as maiores
da humanidade. Se toda a vida de Jos Estevo foi uma consequencia
rigorosa da sua composio moral, como j notamos, os recursos da sua
arte, mais ainda do que o esforo do seu brao, d'ahi tiraram todo o
poder de encanto e victoria.

Ouamol-o ainda, em momentos de sereno julgamento. As horas de calma
confirmaro a verdade de que nos deram testemunho os momentos de
phantasia estimulada e abrasada pela presena dos adversarios, pelas
suas provocaes e pela viveza do combate:

Foram os ministros da carta que, depois da conveno d'Evora-Monte,
consentiram que o punhal das faces andasse solto pela capital,
vingando odios e malquerenas passadas, que os moribundos viessem
arrastando-se a dar o ultimo arranco na sua presena, e no sei mesmo se
com as rodas das suas berlindas pisaram algumas vezes os cadaveres dos
infelizes que deixaram assassinar! Este punhal devastador passou da
capital para as provincias, e das mos dos fanaticos politicos para a
dos salteadores faccinorosos. Penetrou as nossas mais pequenas
povoaes, infestou todas as nossas estradas, e semeiou por toda a parte
os seus horrorosos estragos! Isto so factos, sr. presidente: o
assassinato comeou em Portugal por fanatismo politico, alentou-se por
desleixo, continuou pelo exemplo, e generalisou-se por necessidade. Por
necessidade, sim! sr. presidente. A lei mais imprudente, a mais atroz e
provocante, a lei das indemnisaes, levantou esperanas enganosas,
suscitou pretenses esquecidas, sanccionou exigencias indiscretas, e
distraiu dos seus mestres o laborioso artista, o pequeno commerciante,
o proprietario de poucos teres, com a espectativa de promettidas
delicias, com a mira dos prejuizos resarcidos. A illuso dissipou-se, e
os homens illudidos, tendo perdido o habito do trabalho, entregaram-se
s violencias para haver aquillo que a lei lhes tinha promettido, e cuja
recusa reputavam depois um roubo que lhes dava direito a outro roubo. A
lei das indemnisaes espalhou no paiz mais de tres mil punhaes, e
perdeu muito cidado util e honesto. Recaia pois a culpa d'esses
assassinios sobre quem promulgou a lei[39]!...

    [39] _Discursos_, pag. 77.

Passagens como esta, e contam-se por muitas dezenas, leem-se e
repetem-se n'uma invariavel impresso de pasmo e confuso e applauso, em
que no sabemos o que mais nos captiva e turva, se a nitidez do desenho
e do quadro, to firmemente traado como ponderadamente illuminado, se a
profundeza da analyse dos sentimentos conjugados para um mesmo crime, se
a exposio dos desvarios, desordens e dissoluo que d'elle resultaram,
se o peso da condemnao que pela simples palavra d'um s homem lhe
castigou os fautores e instrumentos, deixando-os eternamente marcados de
ignominia. S a supremacia moral, que, no nos enganemos,  o unico
poder verdadeiro[40], ser capaz do impulso inicial para taes milagres.
E, se por uma rara concesso do destino vem favorecel-a e traduzil-a a
prompta justeza d'expresso, resultar n'um explendor soberanamente
glorioso.

    [40] _Discursos_, pag. 322.

O genio latino, que encarnou no heroe de tantas batalhas pelejadas pela
liberdade, para o lanar no fragor temeroso das armas e para o fazer
subir aos rostros do forum, infundindo-lhe no animo o mais depurado
civismo, a plena imolao ao bem da patria, resurgiu n'elle tambem para
a lucidez perfeita da concepo do pensamento e para a consequente
sobriedade de o enunciar, para a renovao d'essa arte que at hoje
ficou como qualquer cousa extrema, culminante, da capacidade da raa e
suas tradies. Filho abenoado e dilecto d'esse genio, Jos Estevo
fielmente o serviu.

Se encontrava um estado de miseria, de confuso e d'anarchia, logo via
deante de si os punhaes dos assassinos, a debilidade dos tumultos e o
desleixo da indifferena[41]. Se procurava a ordem que convinha 
estabilidade das naes e  prosperidade dos povos, essa ordem teria
toda a efficacia d'um principio sem ter os desvarios d'uma paixo; era
um elemento governativo e no a bandeira dum partido; era um sedativo e
no um cauterio para as paixes populares; confessava-se sem alarde e
servia-se sem galardo[42]. No admittia que se suspendessem as
garantias s pela possibilidade de revolues, s pela possibilidade
d'ataques  ordem publica; porque, se se enthronisa tal principio, a
liberdade fica um receio constante, o despotismo uma preveno
permanente, o arbitrio o direito commum, a lei a excepo[43]. E sempre
assim pensava e assim dizia, n'esta impetuosa penetrao e comprehenso
das situaes moraes em toda a sua latitude, definindo-as immediatamente
em todos os graus e aspectos, n'uma subita e clarissima enunciao, to
exacta e condensada como completa. Assim nos desvendava n'um relampago
mundos extensissimos, em que as paixes politicas se agitavam, e assim
verberava, s por os apontar e expor  justia, os vicios e erros que
n'ellas se involviam e as corrompiam. Assim nos tinha atonitos e
subjugados, por fim escravos da sua vontade, do seu querer e dos anceios
sem macula do seu corao.

    [41] _Discursos_, pag. 74.

    [42] _Discursos_, pag. 96.

    [43] _Discursos_, pag. 173

Porventura, a prodigiosa destreza do genio na arte foi compensao das
penas de muito desengano do apostolo e ergueu-o de muito desalento, para
renovar suas cruzadas em prl da felicidade dos homens e da dignidade da
patria. Este poder de definir, esta rara e superior capacidade de
exprimir em formas de rematada belleza todas as emoes da alma, e
particularmente as suas aspiraes de rectido e justia, de continuo
inflamadas e alvoroadas pelo decorrer dos acontecimentos,
cristallisavam em uma obra magnifica, honra e gloria de quem a edificou
e da raa que a produziu, e ao mesmo tempo representando um propulsor
energico da realisao dos sonhos que a inspiraram. E Jos Estevo, em
meio das magoas e contrariedades que soffria na carreira politica,
ferido de desilluses a cada passo e por ellas rendido  consciencia de
successivos e interminaveis desastres, havia necessariamente de sentir,
n'uma vaga aprehenso do proprio valor, que deixar os erros dos homens e
as desgraas da nao estampados com aquella radiante eloquencia,
chorai-os com aquelle poder de vibrao communicativo, era j s por si
uma alta e nobilissima victoria, era precaver os incautos e os vindouros
contra iguaes desvarios, corrigir severamente os culpados e incitar os
bons ao resgate do mal e  conquista de melhores dias. Era, por
conseguinte, trabalhar n'uma obra, duradoura e solida, de grandes
beneficios, cujo encanto e premio intimo no lhe consentiam repouso e
perenemente o traziam em sua obediencia, assegurando-lhe a proficuidade
do combate. Se toda a sua arte foi consequencia da sua composio moral,
e  indubitavel que o foi, no parece menos certo que a sua composio
moral deveria singularmente ser auxiliada e mantida em toda a pureza por
effeito da arte, que lhe permittia auscultal-a, vl-a, tocal-a em formas
d'um enlevo captivante e soberano, avivando d'este modo o seu bemfazejo
dominio.

Ao abrigo dos incitamentos e instancias parlamentares, fra das
distraces a que de bom ou mu grado tinha d'acudir por virtude do
logar e da situao, no remanso que lhe permittia toda a pausa e
reflexo, quando o orador pde tornar-se escriptor, a divina obsesso de
considerar nos homens e nas aces o seu valor e significao moral
attingiu em Jos Estevo a ultima e mais alta perfeio.

O retrato que nos deixou do rei D. Pedro V vale a melhor esculptura dos
mestres, se  que a arte de modelar e fazer reviver a substancia etherea
do sentimento humano no  superior ao talento d'animar o marmore e lhe
insinuar as palpitaes da carne.

Como morreu o rei? Porque morreu o rei?, escrevia Jos Estevo. A
paixo publica  grande e as paixes so inventivas, imaginosas,
despoticas, desarrasoadas, absurdas. O sentimento pelas vidas que nos
so caras cae em desconhecer o poder dos factos e arroja-se at a negar
as leis da natureza.

No queriamos que o rei morresse. No acreditamos que o rei tenha
morrido. Louca pretenso! V incredulidade!

Os medicos diro que nome scientifico poderam dar aos padecimentos
corporaes que pozeram termo  existencia do rei; e que elementos haveria
na sua compleio physica que apoucassem a resistencia ao mal que o
acometteu.

Esta sentena deve aquietar todos os animos e persuadir o paiz 
resignao.

Mas, se o sentimento publico quer descontinuar causas malevolas,
machinaes tenebrosas na morte do rei,--se se quer desconsiderar os
imprescrutaveis decretos da Providencia para substituir a pensamentos de
humildade concepes peccaminosas,--se se obstina em no imputar este
triste acontecimento s suas causas naturaes, no nos ser permittido
investigar se os acontecimentos da vida do rei e a sua composio moral
concorreram muito para apressar o fim dos seus dias?

A consciencia timida do rei, a exaggerao dos seus escrupulos, os seus
desejos de completa perfeio na vida privada e na vida politica, as
suas aturadas occupaes, os seus infortunios domesticos tinham gasto as
suas foras e acabrunhado o seu espirito.

Pouco expansivo no tracto, com um viver recolhido, com o espirito
continuamente preso a ideias determinadas, sempre mal contente dos
negocios publicos, impossibilitado pela sua lealdade constitucional de
metter n'elles a mo mais profundamente, confiando talvez que o poderia
fazer com utilidade publica, deixou-se consumir e ralar d'esta
complicao d'embaraos, d'aspiraes, impossibilidades e conveniencias.

A apprehenso continuada sobre as difficuldades do seu cargo politico,
aggravada em cada occorrencia mais grave pelo receio de no sair bem
d'ella, tinha levado o seu espirito a considerar a arte de governar nos
termos d'um problema scientifico, que o trazia sempre occupado. Os
espinhos da sua situao no s o pungiam, mas eram o objecto das suas
meditaes, e todas as suas faculdades carregavam com o duplicado
trabalho de resolver os negocios occorrentes e d'investigar por que
modos e com que maximas um rei podia fazer a felicidade dos seus povos,
sendo estimado dos contemporaneos e admirado dos vindouros.

O rei passava, s, largas horas no seu gabinete. S, no dizemos bem,
que o acompanhavam de continuo a consciencia e a historia. Sabresaltado
por uma e estremecendo da outra, o seu espirito luctava no mar
d'incerteza, e, depois de muito trabalhar, nem acabava satisfeito dos
expedientes que se lhe antolhavam, nem das solues doutrinaes que lhe
vinham  mente.

Correndo pelo sentido os casos da sua curta e tormentosa vida no
achava n'estas recordaes com que robustecer o seu animo, nem onde
repousar o espirito da sua agitao interior.

Rei muito antes da epocha em que o seu amor filial lhe consentia
desejal-o, em que a sua sisudeza lhe permettia acceitar a cora com a
confiana de bem preparado para os encargos d'ella; viuvo na edade em
que a maior parte dos homens no tem ainda escolhido esposa, e no
momento em que o seu corao comeava a gostar os prazeres da vida
conjugal; no havia bem que no viesse do mal, nem ventura que a fortuna
lhe no roubasse.

Ferido nos seus affectos intimos, mortificado de desastres, as
epidemias parece que esperavam a sua asceno ao throno para assaltarem
o povo. Perseguia-o a infelicidade como rei e como homem. Dir-se-ia que
a morte estava apostada a trazer-lhe sempre deante dos olhos o seu
horror, e este sestro havia de pesar-lhe ao corao como um presagio.

Infelizmente as qualidades do rei careciam d'aquelle equilibrio que
contrapeza os bens com os males da vida. Nos raros gosos que a sua sorte
mesquinha lhe consentiu, sentia sempre o amargo essencial que ha ainda
nos affectos mais gratos da vida. Por outro lado o pezar para elle era
extremo: no levava em si nenhum lenitivo. O seu espirito no
comprehendia as atenuaes naturaes de todo o infortunio, nem o seu
corao era feito para conhecer a _alegria_ da desgraa.

A expresso ser temeraria ou infeliz; mas ha nas mais densas cerraes
da alma uma luz, embora tenue, que rasga a escurido e que nos deixa
enxergar ao longe horisontes menos carregados, e s vezes at risonhos.
Para alm d'estes horisontes estanceiam as consolaes humanas, to
variadas e efficazes como so numerosos e terriveis os males da vida.
Mas o rei no respirava as auras d'aquella regio. No sabia
consolar-se, e falto d'este auxilio indispensavel nos tormentos do mundo
decaiu na superstio do infortunio. Julgou-se votado a elle e curvou-se
 sua sorte[44].

    [44] Artigo publicado no _Districto d'Aveiro_. Vid. Marques Gomes.
    _L. c._, pag. 156.

Foi este o monumento, do qual apenas destacmos um pedao, que Jos
Estevo ergueu sobre a sepultura de D. Pedro V, logo apz a sua morte.
Depois d'elle, outros vieram que pelo bronze e pela palavra tentaram
consagrar a sua memoria. Nenhum, porm, jmais o excedeu, nem sequer o
igualou, na resurreio da nobreza ingenita do rei e da magestade
tragica da sua queda.

Pelo labor expontaneo das suas energias, o genio de Jos Estevo
constituiu-se n'um tribunal, esclarecido e augusto, com tanta rectido
para condemnar a perverso criminosa e a combater, emquanto importasse
estorvo ou aggravo  felicidade humana, como magnanimidade para sanar
por indulgencia as feridas que por dever fosse coagido a rasgar.

Quando deixou de pulsar o corao que o animava e movia na terra, foi um
dia negro; espalhou-se em torno como uma onda de sombrio e desesperado
terror. A profundeza da dr confessou a magnitude da perda. Emudecera
para a democracia, para os apostolos dos seus sonhos e para os
opprimidos das escravides que a suffocam, o eleito que lhes ouvia os
gemidos e lhes interpretava a anciedade, quem lhes restituia os direitos
e lhes fazia vingar as aspiraes. No era um homem que a morte
arrebatava; era um templo sagrado que se submergia. No era um tropheu
dos escudos nacionaes que se esfarrapava, uma flamula das suas glorias
que se desfazia; era um cco da justia divina que para sempre se
calava, precipitando em angustia os que consolava, defendia e amava.




BIBLIOGRAPHIA


Smente de tres livros me servi para este pobre estudo:

_Discursos parlamentares de Jos Estevo Coelho de Magalhes_,
colleccionados por Joaquim Simes Franco e editados por A. Augusto de
Souza Maia, Aveiro: Imprensa Commercial, 1878.

_Jos Estevo, Apontamentos para a sua biographia_, por Marques Gomes,
Porto: Typographia Commercial, 1889.

_Jos Estevo, Esboo historico_, por Jacintho Augusto de Freitas
Oliveira, edio de Franois Lallement, Lisboa: Sociedade Typographica
Franco-Portugueza, 1863.

Sobre a parte anedoctica da vida de Jos Estevo encontram-se notas
interessantes nas obras do meu amigo e illustre escriptor Sr. Mello
Freitas, particularmente no seu livro _Violetas_ e nas conferencias que
sobre este assumpto fez em Aveiro, em 30 d'abril de 1909 e 14 d'agosto
do mesmo anno.




INDICE

                                               Pag.
    PODER D'ENCANTO                            VII
    I. _Ideias politicas_                        1
    Os grandes homens e o seu tempo              1
    Fontes do liberalismo portuguez              6
    Phases e aspectos da Revoluo Franceza      9
    A Frana de 1830                            25
    Jos Estevo e a tradio politica          27
    A sua concepo religiosa                   32
    O seu catholicismo                          37
    O movimento economico                       42
    Victoria da burguezia                       61
    Criterio economico de Jos Estevo          65
    O caracter politico                         75
    II. _Caracter e Arte_                       83
    Jos Estevo e o romantismo                 83
    Espirito heroico                            92
    Caracter moral                             105
    Exigencias da evoluo politica            110
    Ultimas aspiraes                         122
    Derradeira esperana                       129
    O orador                                   133
    A imaginao                               136
    Intuio moral                             149
    O genio latino                             152
    O escriptor                                155




DO MESMO AUCTOR


_Vozes do meu lar_, 1 vol.

_Na Paz do Senhor_, romance, 1 vol.

_Reino da Saudade_, romance, 1 vol.

_Via Redemptora_, 1 vol.

_Apostolos da Terra_, 1 vol.

_Sonho de Perfeio_, romance, 1 vol.

_S. Francisco d'Assis_, 1 vol.





End of the Project Gutenberg EBook of Jos Estevo, by Jaime de Magalhes Lima

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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