The Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by 
Jos Duarte Ramalho Ortigo

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Title: O culto da arte em Portugal

Author: Jos Duarte Ramalho Ortigo

Release Date: November 12, 2009 [EBook #30456]

Language: Portuguese

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                                             Rita Farinha (Nov. 2009)




O CULTO DA ARTE

EM

PORTUGAL




_RAMALHO ORTIGO_


O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL



_Monumentos architectonicos--Restauraes--Desacatos
Pintura e esculptura--Artes industriaes
O genio e o trabalho do povo--Indifferena oficial--Decadencia
Anarchia esthetica
Desnacionalisao da arte--Dissoluo dos sentimentos
Urgencia de uma reforma_




LISBOA
Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
50--Rua Augusta--52
1896




Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa




_ Commisso dos Monumentos Nacionaes_


dedica respeitosamente
este humilde trabalho


_O AUCTOR_




Durante a Renascena, e ainda atravez da Edade Mdia, to
insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
fausto e a pompa hierarchica no smente construindo palacios e
castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforos do
talento de uma raa, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
em nome do rei, em honra da patria.

N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
pintura das vidraarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbao dos sentidos pelo
peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
o vo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
paz, de verdade e de justia.

Dentro d'essas egrejas, ameaadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendes dos
officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
franquias, os foros da communa. Ahi se prgava o Evangelho, se resava a
missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
o orgo emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
bysantinas, e as las e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
repique das castanholas e ao rufar dos adufes.

Ao lado dos brazes e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.

Esse alcaar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaar mais
sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
sagrado, aos maltrapilhos, aos villes, aos mendigos, aos lazaros e s
lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, s mulheres adulteras, s
mancebas, s mundanarias, s barregs.

O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
de to grandes obras. Creamos instituies de caridade, fazemos
regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
pela revoluo liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
fundamentalmente incapazes de consagrar  pratica das virtudes, de que
julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
nossos avs lhe levantaram _a proll do comum e aproveitana da terra_,
dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
de Alcobaa ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoo e
a sua escudella debaixo do brao, participava, alm da rao quotidiana
que se lhe distribuia pelo caldeiro da communidade, de um agasalho de
principe e de um luxo d'arte com que hoje no competem os maiores
potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
de todas as joias artisticas de que pela abolio dos vinculos e pela
extino das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
bric--brac.

Falta-nos a alta noo de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegao, falta-nos
a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f dos nossos
avs.

Na architectura trabalhamos unicamente para ns mesmos, sem cuidados de
futuro, sem pensamento de continuidade de raa ou de familia,
deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.

Entre as nossas antigas construces hydraulicas ha o aqueducto de
Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias geraes successivas
acarretaram para essa construco os materiaes; e lentamente,
pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
que de to longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
empresa  a humilhao e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
egual carinho ao futuro aquillo que deve  previdencia, aos sacrificios
e aos desvelos do passado.

O nosso ideal na arte de construir  que a obra se faa em pouco tempo e
por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
pedra e a madeira, em que  nimiamente moroso para a morbida inquietao
do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga misso
perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
enformar a vapr a habitao moderna e o moderno edificio publico--a
gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.

O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
No succede assim, porque so inviolaveis as leis do progresso. Ao
seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
nunca em nenhum outro periodo da civilisao chegaram  eminencia
attingida pelos investigadores contemporaneos.  tambem em sua maneira
um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
erigiu a erudio do nosso tempo, constituindo scientificamente a
archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigaes a
cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que to amplo claro teem
derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuio das
raas, da formao das linguas. Fixaram-se pelas escavaes de Troia, de
Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confuso
existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
bronzes, a das joias, a da tapearia, a da illuminura. Desvendou-se o
conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
classificaram-se as inscripes gregas e romanas dessiminadas pela
Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
lapidares da edade mdia e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
hieroglyphicos e cuneiformes das inscripes egypcias, caldas, assyrias
e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuao e pela
evoluo da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
greco-syriaco do Museu Britannico at a minuscula italiana egual  dos
primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
primitivas habitaes do homem, as suas primeiras fortificaes, os seus
mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
at o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto  como
a estatistica moral das sociedades extinctas.

D'esse novo criterio resultou a atteno especial com que todos os povos
cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
publicos.

Em mais de um documento da edade mdia se encontram provas de que os
antigos poderes no abandonavam, to completamente como hoje se poderia
suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
edificaes consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
6., titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: Por bienaventurado
se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Seor Jesucristo,
et como quiere que todo home  mujer la puede facer a servicio de Dios,
pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
en las vestimientas...

Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos aougues, e eram do
antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
esse tempo edificava. E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
estam e em as ditas casas faram muito, e ainda  nobresa as cidades
haverem em ellas bas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
fundamento he as faser para ns em ellas havermos de pousar, Ns vos
rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
Esteves mestre das nossas obras em essa cidade ter cuidado de as tirar
donde estam, etc. Estas linhas so um trao caracteristico da policia
do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
interveno regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
operao que hoje se realisa com menos formalidades, e at, como 
sabido, sem formalidade alguma. Era porm entendido como doutrina
corrente no desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
neologismo restaurar  operao desconhecida dos antigos. A obra
architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
edificaes, quer em reparao de antigas, o systema e o stylo da epocha
em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
reconstruces se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
tradio, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
que haviam servido  glorificao de feitos anteriores, como no arco de
Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
influencias diversas atravez das successivas phases da construco por
differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
desenvolvem-se romanicos; outros comeam romanicos e concluem gothicos;
outros, gothicos de nascena, acabam no clacissismo greco-romano do
renascimento; e  frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mr no stylo barroco
de D. Joo V, de D. Jos ou de D. Maria I. D'esses casos de
polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
Jeronymos, na Batalha.

A cathedral de Colonia  n'este ponto de vista, um facto particularmente
expressivo. A construco, principiada no meado do seculo XIII,
proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio,  ornamentada em
stylo rococo. Smente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
restaurao authenticamente archeologica, segundo o plano original,
cabendo o projecto da concluso a um architecto que ao mais profundo
estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
perspicaz.

Na historia da cathedral de Milo circumstancias analogas s de Colonia
veem ainda corroborar a affirmao de que unicamente ao seculo XIX cabe
o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milo iniciada no seculo
XIV,  interrompida por desavenas entre os architectos, uns allemes,
outros italianos, outros francezes;  continuada no seculo XVI em stylo
da renascena; e to smente em 1805 a restaurao do monumento no seu
stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
determinada por Napoleo I, o qual pela vastido do seu genio, ainda que
pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
muitas campanhas da intelligencia indicou de antemo o ponto da
victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
carta do Piemonte o logar de Marengo.

Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
quem primeiro indicou em Frana o programma das restauraes
architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se no emprehende obra
de especie alguma nos edificios monumentaes sem prvia consulta da
commisso dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
Allemanha, que haviam precedido a Frana na proteco da arte nacional;
na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
Grecia, na Turquia.

Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, no smente
ampliando os seus preceitos, mas dando da applicao d'elles o mais
notavel exemplo na restaurao do castello le Pierrefonds.

Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com to paciente
laboriosidade, escriptos com to lucido e penetrante engenho, e
conhecida a legislao europa baseada n'esses estudos to completos e
to perfeitos, a questo puramente administrativa de dar aos monumentos
nacionaes de cada povo a proteco que se lhes deve, quando menos por
simples solidariedade intellectual na civilisao do nosso tempo, 
questo perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.

Vejamos agora qual  em Portugal, perante as responsabilidades da
administrao, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
o fim de pr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.


Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos
architectonicos da nao, os quaes assignalam e commemoram os mais
grandes feitos da nossa raa, sendo assim por duplo titulo, j como
documento historico, j como documento artistico, quanto ha, sobre a
terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
dignidade, para a gloria da nossa patria.

Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dr e a vergonha
de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
cumplicidade official. Os primeiros so uma consequencia de desdem; os
segundos so um resultado de incapacidade.

A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
conservao e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
mesmo no tome essa resoluo lamentavel, assassina-o. Na primeira
hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
no definido vernaculamente na applicao pratica.

Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
monumentos, o desastre denominado _restaurao_.

Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
factos so de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
materia de que se trata.

Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
nao, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
Batalha.

Nos Jeronymos a construco desmoronou-se, sem provocao alguma de
agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
commentario. A restaurao, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
programma de tal restaurao?! As seguranas de execuo falham
precisamente na parte mais rudimentar do problema.

Attente-se em que no se trata ainda de uma questo de archeologia, nem
de uma questo de arte; no se apresenta nenhuma d'essas subtis
difficuldades inherentes ao estudo das frmas constructivas ou
ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
das antigas escolas no tempo e na regio a que o edificio pertence.
Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construco, e esquece,
incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
dos scenographos, que a primeira condio de um architecto a quem se
confia a restaurao de um monumento  que elle seja, antes de tudo,
acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
os constructores.

Na Madre de Deus, onde alis o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
tempo de D. Joo III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
ornamentao vegetal do nosso seculo XVI se v reinar nos entablamentos
a figurao, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigao da
autopsia.

Nas restauraes da Batalha, umas j em realidade, outras ainda em
projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
materiaes, condies de resistencia e de equilibrio, systema geral de
structura, determinao do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
seus motivos dominantes at os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
at o extremo desdobramento d'esses motivos, mo de obra, direco e
apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.

Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alados, photographias,
desenhos de projectos, systemas de stylisao, methodos de estudo e de
trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos ns, que no somos
architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
decidir se o restaurador da Batalha est ou no est ao nivel da sua
misso. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
entrega a restaurao de um monumento, ns no podemos julgar seno de
um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
execuo, para o qual nos fallece a competencia profissional.

Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque  o unico architecto portuguez de
quem conhecemos, com relao  historia do edificio e ao plano da
restaurao da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
que me refiro, alm de mui interessantes revelaes sobre os vandalismos
perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
visitantes com cabeas das figuras de que elles se compunham, contm
alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
comprehendia a sua delicada misso. E excellente o methodo por elle
proposto para a conservao das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
restaurador repugna adoptar, para o fim de pr o monumento ao abrigo das
intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
tempo da construco primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
cimentos modernos na vedao de uma cobertura, etc. A memoria programma
de Mousinho de Albuquerque  no obstante um trabalho de incontestavel
merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
primeira vez a atteno dos poderes publicos.

At Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castells, os seus
paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
attributos--lanas, montantes, elmos, guantes de ferro, falces, adagas,
bstas e bandolins, pediam um scenario de fortificao feudal, fossos e
pontes levadias, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
menagem, amplas chamins com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que no
eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
romance historico, tanto em voga durante a gerao litteraria de
Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas s da poesia
cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.

A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira appario da
_Abobada_ no _Panorama_, at hoje, o _grande livro de marmore_, o
_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
affirmao da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lana de D. Nuno
Alvares Pereira e pela penna de Joo das Regras.

Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
destinado a commemorar esse feito, por voto de D. Joo I. Mas d'ahi a
poder-se dizer que o edificio da Batalha , como a epopa dos
_Luziadas_, a imagem technica das idas e dos sentimentos da patria,
medeia--me parece--um largo abysmo.

Olhemos por um momento a historia d'esta construco.

Frei Luiz de Sousa diz que El-rei chamara de longes terras os mais
celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
officiaes de cantaria dstros e sabios; convidara a uns com honras, a
outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto. Este
testemunho  precioso e est acima de toda a suspeita, porque nos vem de
um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundao.

Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
d'elle se sabe que teve parte na direco das obras nos primeiros annos
da fundao, e no consta de documento authentico que qualquer outro
architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
medeiam entre o seu comeo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
1402.

Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
opinio; de modo que se tornou uma cousa to corrente como se estivesse
demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.

James Murphy, porm, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
_informaes que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
Tombo_, que o encarregado da construco foi o architecto inglez Stephan
Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua sde
principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por interveno da
rainha D. Filippa, mulher de D. Joo I, ingleza de nao, filha do duque
Joo de Lencastre e neta de Eduardo III.

O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
York no permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
edificios. Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
de um portuguez ou de um inglez, a verdade  que as duas igrejas
nasceram de inspiraes artisticas analogas, homogeneas e
contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impresso
tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.

Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.

Na Torre do Tombo no se encontra documento algum relativo  construco
da Batalha, nem  vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.

 claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
o facto de ter estado ou no em Portugal o architecto de York. No
consta to pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
fra de toda a contestao.

O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
da obra foi Affonso Domingues, diz que no v razo para pr em duvida a
habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. Joo I, na
qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nao da Europa se achava mais
adeantada que a nao portugueza, tanto na arte da architectura, como em
todas as outras_.

O patriotismo imprudentemente levado at s affirmaes da natureza das
de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que  o de
fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicao dos nossos
sentimentos civicos  historia da arte europa.

Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
de Frana e na regio circumstante. Foi n'esses logares que at o seculo
XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
em Frana aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
Chartres.

Os allemes e os inglezes teem contestado  Frana a prioridade do
emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
procedem. O que, porm, est acima de todo o litigio,  que o systema
ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, no
procede da inveno dos paizes meridionaes, de cu azul, mas sim das
regies nevoentas de longos e rudes invernos.

No norte da Europa, durante a edade mdia, tratou-se de edificar a
grande cathedral que dsse um abrigo espaoso s numerosas congregaes
de fieis e de cidados; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
construco, que, sem difficultar a circulao da gente com grandes e
repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
no pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltrao da
humidade no interior do templo.

Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
condies sociaes, e no de um mero capricho inventivo, que resultou
para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
puzeram de parte, para o fim de dar logar na construco das basilicas
christs  enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.

Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fra das
influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
da indole da nossa raa, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
Batalha.

A affirmativa de que nenhuma nao da Europa, com excepo da Italia, se
achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. Joo I, nas artes
da architectura, smente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou no viajou
nunca em Frana e na Allemanha, ou no visitou n'estes paizes os
monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.

A egreja da Batalha, que data d'essa epocha,  chronologicamente um dos
ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
de toda a sua belleza, est, como obra d'arte e como magnificencia
monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
(1248), Notre-Dame (1275), etc.

Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construco do
convento da Batalha, encorporada na colleco das memorias da Academia,
tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma ida do
enorme abysmo que no tempo de D. Joo I nos distanciava ainda dos
grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.

Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
Hispanha, Burgos e Toledo.

Anterior  Batalha no ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
prepare e explique a appario d'este.

Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulaes
estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
chegava o tempo para desbravar o slo e para bater os inimigos, que de
todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
aguerrida.

A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, j ento consagradas
na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
planta exotica.

D'onde  que foi transplantado para terra portugueza este producto de
uma civilisao superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
iniciada pelas fortes corporaes operarias e mercantis, impellira as
communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
nas cidades novas, um asylo de religio e um fco de vida civil?

No sei responder peremptoriamente a esse quesito.

O problema assim estreitado , no fim de contas, de pura curiosidade.

O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
estylo ogival no tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
S poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
corporao de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
eram as unicas corporaes que na edade mdia possuiam os conhecimentos
necessarios para o plano e para a execuo dos edificios sagrados, quer
para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.

Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
livres se compunham de cidados de todos os paizes, que reconheciam a
supremacia da egreja romana, no seria possivel determinar positivamente
os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
logar preciso do seu bero.

Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
no so a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
congregao encerrando no seu gremio homens de todas as naes.

Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig l-se com referencia s associaes
maonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
formando uma s corporao dirigida por um ou por varios chefes.
Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construces em toda
a Europa e so auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
construces d'essa poca fundamentalmente identico. As associaes
alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemes,
flamengos, francezes, inglezes, escocezes e at gregos. Foi d'essa
maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
Milo, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
Inglaterra.

Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque no conheo os documentos
positivos em que se baseia o escriptor allemo--condiz perfeitamente com
a lio de Frei Luiz de Sousa, e  talvez de todas a mais verosimil com
relao aos constructores da Batalha.

Que fosse, porm, uma associao de artistas e de operarios; que fosse
Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que no
inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
Huet, de nao inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
emfim, a hypothese que menos verosimilhana offerece  a de ter sido o
monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.

O mais superficial exame aos edificios anteriores  Batalha manifesta do
modo mais evidente que no tinhamos nem escola, nem tradies, nem
tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
a egreja da Batalha.

Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a verso
relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
accrescenta:  muito para admirar, no devo negal-o, que houvesse
n'aquella poca em Portugal um artista to consumado como o que fez o
risco do monumento, achando-se a architectura entre ns, antes da
execuo d'esta obra em um estado, que, se no era de grande atrazo,
tambem no se lhe poder chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
escola d'onde pudesse sahir um artista to completo.

A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
com a tradio geralmente recebida, exclama um tanto contricto: N'este
caso lanarei mo de uma conjectura, no pela necessidade de sahir do
embarao, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
acclamao do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeioar
na sua arte. Bem sei que n'essa poca no eram dados os artistas, pelo
menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmo natural, filhos
de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
architectura gothica no genero da Batalha.

Confessemos que  preciso ter vontade de attribuir por fora a Affonso
Domingues uma obra que este no podia fazer, para formular a conjectura
de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
filhos de Duarte III.

Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
seu irmo com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
de que no ha o minimo vestigio historico, no ser talvez inutil
reflectir que depois d'essa excurso a Inglaterra--paiz to debilmente
_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que no
tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
pr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
proximamente no mesmo estado em que para l tivesse ido, o que
facilmente se demonstra, como vamos vr.

Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
Lombardia, essas associaes de artistas seculares, architectos,
esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
renascena da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
universal.

Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
de _franco-maonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
exercer a profisso na qualidade de mestres.

Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
adjacentes.

Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
cessaram emfim de ter obras em que empregar a associao, cada vez mais
numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
sua actividade fora do solo natal.

Este expatriamento no representava unicamente uma expanso artistica
mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
internacional da egreja latina.

Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
Norte da Europa, constituia como que um solido reforo esthetico,
temporal, naturalista e humano  sagrada legio espiritual vulgarisadora
do credo latino pela ramificao das ordens religiosas sobre todas as
latitudes da terra.

Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.

A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, to
importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
influencia da antiga civilisao hellenico-romana.

Como incentivo e amparo da vasta odyssa, a que se aventuravam os
denominados pedreiros livres receberam ento da auctoridade pontificia,
emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
destinados a assegurar  confraria errante uma especie de inviolavel
monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
resultar de um congresso universal, tendo em vista pr acima de qualquer
contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.

Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
reconhecido a f catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
oriunda.

Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposio obrigatoria
para os naturaes do paiz em que se encontrasse.

S  associao caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
prover em capitulo, sem appellao nem aggravo, a quanto dissesse
respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
artista no iniciado nem admittido na associao estabelecer para com
ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
de excomunho, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
rebeldia s prescripes da egreja.

Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
confederados, vindo em seguida allemes, francezes, belgas e inglezes.

Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
communicao com os chefes das demais decurias e com a direco central.

Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
e bispos, accrescentavam a fora e o prestigio da associao,
alistando-se como membros da irmandade.

Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
distinces e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.

Para o fim de evitar que individuos estranhos  associao aproveitassem
fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
bem assim para que, em qualquer regio do mundo, cada irmo pudesse
communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciao e o
seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
maonicos_, por meio dos

quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
acto de iniciao e matricula de formalidades solemnes, de provas
especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
se obrigava no smente a no revelar a quem quer que fosse os signaes,
com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
que a associao tinha a posse. Esta collaborao phenomenal dos
melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
periodo  mais alta perfeio scientifica e technica, a que jmais
chegou a obra da intelligencia e da mo do homem.

Quando a longa e laboriosa gestao de todos os demais ramos do saber
humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
confuso tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
mais caracteristicas frmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
confraria dos maons morreu a tradio de que elles tinham a guarda e o
segredo.

No tempo de Eduardo III a maonaria, que s um seculo depois acabou na
Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.

Ora, dado que s muito lentamente e por via de provas espaadas e
progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir  qualificao
de mestre, e s como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
de utilisado em qualquer obra, parece-me no haver um excessivo arrojo
em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho 
maonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
seria ento da maonaria e no d'elle o monumento de que se trata.

Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
elle no encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
ameaava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.

Sem exposio de plano referido s obras que recentemente se tem feito,
e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discusso, quem, como
eu, no tem voto na materia para a resolver por sentena, precisaria de
entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
demonstraes para pr em evidencia todos os erros que em taes obras se
teem comettido. Para no tornar pelo emprego d'esse processo,
excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
restaurao da Batalha.

Pela entrada principal da egreja,  semelhana do que succede em grande
parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
se me no engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
assistido de razes plausiveis para modificar o alludido systema,
rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
esse modo tendo de altura a dimenso de duas larguras em vez de largura
e meia approximadamente, segundo a dimenso primitiva. O architecto
havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estaes
superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
approvao.

Ser difficil encontrar em um to breve episodio de construco uma to
vasta affirmativa de desoladora ignorancia.

Poder parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
da sua profisso. O erro  todavia no caso sujeito to flagrante que no
supporta defesa. Um barbarismo architectonico est tanto ao alcance de
um escriptor como um barbarismo grammatical est ao alcance de um
architecto.

Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
proporo e de relacionao que se chama a _escala_. Sem escala no ha
obra de architectura nem ha construco alguma sensata, por mais
subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
unidade abstracta d'essa medida  o modulo. Na architectura da edade
mdia a unidade  o homem. N'este simples principio, to magistralmente
exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
architectura medieval. D'essa referencia de toda a construco 
pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
da cantaria  altura das paredes e das pilastras, porque a escala
gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
s dimenses do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
evidencia na sobreposio das cantarias, a vista calcula rapidamente,
por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
estabelecendo a proporo entre as dimenses da pedra e a estatura do
homem, e entre a altura do homem e a elevao da nave.

Do que fica exposto resulta que a simples substituio de uma pedra por
uma pedra de dimenso differente na base de uma hombreira no portal da
Batalha , em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
a dimenso exacta e precisa, que  esquadria da cantaria impe a
dimenso do bloco,  um elemento fundamental da escala pela qual se rege
todo o edificio; e no pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.

Mas temos de considerar ainda que com essa mudana de pedra se offendeu
o preceito da unidade, alterando a frma e a dimenso de um dos mais
importantes membros da construco. O conjuncto de um monumento--diz
Quatremre de Quincy-- de tal modo combinado, que n'elle se no pode
nem tirar nem pr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Du
desenvolve esse preceito da maneira seguinte:  um erro grosseiro
suppr que um qualquer membro de architectura da edade mdia pode ser
impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura no ha
membro algum, que no esteja na escala do monumento para que foi
composto. Alterar esta escala  tornar esse membro disforme... Os erros
de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restaurao. As
dimenses das portas--j dizia Vinhola--devem ser de uma proporo
relativa  escala pela qual se construir o edificio,  grandeza das suas
differentes peas e finalmente s particularidades da obra e do local em
que esta fr feita. Com relao s portas nas ordens jonica, dorica,
corinthia e toscana as propores entre a altura e a largura dos
portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porm um papel mais
preponderante que em qualquer outro systema de construco. De hora
avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
deixar de augmentar em proporo com o edificio, porque, sendo feita
para o homem, conservar sempre a escala propria do seu destino.

A medida de extenso na edade mdia era a toeza, correspondente 
estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
portador de uma lana de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
ou de um pendo, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
toezas e meia, segundo as regies em que se construia. O portal gothico
tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
condio de representar na fachada do templo como que um summario de
toda a obra.  do principio da arcada, de que a porta  o motivo
predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
demais frmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
baldaquinos, trifolios, que so na egreja da Batalha seno applicaes e
desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
constitutivas da porta principal do templo?

Quo tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
os servios da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
uma repartio publica auctorise, para que um ministro da cora
sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade mdia, alterando
as frmas de uma porta, que  a porta principal d'essa gloriosa egreja
de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alaram
pela bitola dos estandartes, dos balses e das bandeiras de Aljubarrota,
e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
cimeira do morrio dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!

Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restauraes da
Batalha teria de referir-me s vs deturpaes por que est passando a
capella do fundador; ao detestavel altar mr, em cuja pedra to
miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
um mosaico, e a odiosa colorao das vidraas, em que o doce tom de
ambar, que os vidristas da edade mdia obtinham por uma emulso de mel
na preparao da tinta, se v substituido pelo de um reles amarello cru,
de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
horrorisado espanto perante esse to insolente e to irrespeitoso abuso
do pseudo-gothico, em proporo e em escala unicamente permittidas, por
longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.

O meu fim porm no  fazer a critica das restauraes da Batalha, mas
sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
caracteristicos e capitaes, que nas restauraes emprehendidas tanto
n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
a expensas do estado, no houve antecedencia de programma, nem estudo
previo, nem determinao de methodo, nem sanco critica, nem
fiscalisao technica, nem policia artistica de especie alguma.

Pelo numero e pelo quilate das mutilaes, deturpaes e superfetaes,
inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que so objecto os
monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
esto no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.

Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome  villa. Esta ponte,
em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
por dois castellos ogivaes. A vereao, com o motivo de desafogar a
vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
as ameias da alludida ponte.

Outra vereao, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
Maria de Marvilla, fundao dos primeiros tempos da monarchia, para o
fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
razo uma praa. A Real Associao dos architectos civis prope-se a
esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
junta de parochia prefere derretel-os.

No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
crte na edade mdia, certos festeiros em noite de gala, derribam a
columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
e de pyrotechnica.

Na alcaova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.

A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
_Viagens na minha terra_,  arrasada, juntamente com a capellinha de
Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No oramento d'essa
demolio, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
tempo se no podia protrahir_, fra vantajosamente arrematada pela
quantia de trinta e nove mil ris, calculando-se em mais de cem mil o
valr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
alegria oramental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
as espadas e as lanas gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.

A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
disposio do respectivo municipio.

A destruio das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
a grande preocupao vesanica das municipalidades modernas,
absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradies locaes
de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.

Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser difficil disputar o
primeiro logar da serie pathologica  cidade do Porto.

O Arco da Vendoma,  rua Chan, que havia sido uma das portas da
circumvalao sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de Frana pelo bispo D.
Nonego,  desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
seculos de existencia.

Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razes algumas que expliquem
mais esta demolio que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
espontaneamente cedido  armada de D. Joo I para a expedio de Ceuta.

 Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol s resta o nome, foi
acclamado D. Joo I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasio das suas bodas com
o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.

O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo  linda narrativa
portuense de Almeida Garrett,  sacrificado como os demais ao alvio
municipal da cidade invicta.

O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festes de flores pendentes
das velhas janellas de resalto,  flamenga, sob punhados de trigo,
reluzente no ar em chuva de ouro.

Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se est
mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
Torre das Cabaas.

Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
medidas do cche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
percorrer, e desfizeram-se diligentemente a pico, nas ruas da villa,
todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
entalao para o trajecto da real berlinda.

No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
transito. Entre a Torre do Alporo e a Torre das Cabaas o passo porm
apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
cche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
mandra previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fra,
presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
dois monumentos. Ento, depois de haverem marrado por um momento no
problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
difficuldade, redobando a fita da medio inutilmente esticada, mettendo
os solicitos e suados covados debaixo dos braos, e mandando
simplesmente arrasar a Torre do Alporo, monumento do dominio romano, do
alto do qual, durante a occupao serracena, o arabe dictava ao povo a
lei de Mahomet.

A Torre das Cabaas  muito menos antiga e menos documental que a do
Alporo. Com quanto Garrett a faa invocar anachronicamente no _Alfageme
de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invaso castelhana, como um
dos traos mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
torre data apenas do tempo de D. Manoel. No tem caracter propriamente
architectural,  uma simples pea de alvenaria quadrada. Mas o seu
estranho remate, em grande elevao, formado pelo sino a descoberto,
sustido na convergencia superior de quatro vares de ferro, estribados
obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
tanger das horas e dos signaes de rebate, d-lhe uma feio
verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. No ser talvez o
mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas  de certo o mais
suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa to formosa campina
ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
_relogio das cabaas_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
ouvido  lembrana das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
improvisao e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
parece armada em quatro pampilhos,  uma verdadeira obra d'arte, que
lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradio pastoral da
regio em que surgiu.

Os conspicuos burguezes do senado de Santarem no podem ter opinio
sobre esta questo de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaas, a
qual evidentemente se no construiu para que suas excellencias a
alveitassem doutoralmente de dentro dos paos do concelho, ou c fora na
praa, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaas fez-se
para ser olhada do vasto campo da Golleg ou do campo de Almeirim, vindo
do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
cabeada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaas de
barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
no vejo em arte razo alguma plausivel para que, como motivo ornamental
de uma torre,  folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.

No! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella est a sua to
caracteristica torre, para que se no diga que dos tres potes, que de
antiga tradio consta acharem-se soterrados na Alcaova, um cheio de
ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
no encontrou seno o ultimo para o despejar sobre os monumentos
publicos sujeitos  sua jurisdio e confiados  sua guarda.

Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
Torre do Alporo, para passar uma rainha,  uma desdita em extremo
lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
Torre das Cabaas, para que passem os proprios vereadores,  um desando
grande da publica administrao para muito peior do que estavamos no
tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.

A torre da S Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nao.
Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
documentos ineditos das relaes do marquez de Pombal com D. Francisco
de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
historia da demolio da torre da S Velha. Em carta de 3 de setembro de
1773, D. Francisco de Lemos d conta ao marquez de que demoliu a torre:
...A dita torre era um monto de pedra e cal sem arte e figura, que
servisse de ornato  cidade, e antes estava tirando a vista do Pao das
Escolas, e de muitas casas. E principalmente  muito nociva  Imprensa,
porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente  vista de todas
estas razes que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
o que foi preciso fazer. Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
de Pombal: Que est muito bem feita a providencia sobre a torre da S
antiga. E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
de D. Francisco de Lemos: Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
e resoluo que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da S antiga
que no servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, s
proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.

Do mosteiro de Alcobaa desapparece todo um claustro do tempo de D.
Affonso Henriques.

Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimenses da rosacea no
frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
risco todo o equilibrio da empena. Alm d'isso, para o fim de aproveitar
a pedra para outras applicaes, desampara-se a abobada, deitando abaixo
a ala do convento que lhe servia de encontro.

No castello de Palmella e em S. Salvador de Pao de Sousa acham-se
violados e deshonrados pelo mais completo despreso, alm das campas dos
cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
Egas Moniz, que em Pao de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
de um bebedouro publico.

A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundao de
D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
capiteis e os floridos arcos da sua restaurao manoelina, converte-se
em uma das cavallarias do regimento aquartelado no convento.
Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
liturgicamente. Parece que no houve tempo para satisfazer essa to
breve formalidade de respeito.

As saras, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
ser a esculptura removida para S. Joo do Alporo pela benemerita
commisso administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal 
memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
Alcacer-Ceguer se deixou morrer s lanadas para salvar a vida do seu
rei.

O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associao
dos architectos trazido para o museu do Carmo.

Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasio em que se lhe
destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
para bebedouro especial dos cavallos com mormo.

As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe j de
quem eram, por que, para no escorregarem os cavallos do regimento,
desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
continham.

A sepultura de Pedro Alvares Cabral est na egreja da Graa, um dos
bellos templos da fundao da monarchia em Santarem. Esta egreja 
cedida pelo governo  pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
meios para custear o decoro do culto e a conservao do edificio.
Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
 egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
azylo que n'ella fundou. A egreja da Graa de Santarem est portanto, a
bem dizer, desamparada. A quem  que se acha confiado o tumulo de Pedro
Alvares Cabral? No se sabe bem, e so grandes, como pessoalmente tive
occasio de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
com o depositario das chaves para ver a egreja. s gloriosas cinzas
d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.

O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.

Em Guimares mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
parte da egreja, revestem de caixilharia envidraada a graciosa arcaria,
e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, 
impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
corrida, perfurada por quatro oculos.

Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este vero, um raio
fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mr, despedaa a
madeira do arco que a separa da nave, e pe a descoberto, por baixo
d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
esculpturaes de uma arcaria da Renascena, em que cherubins voejam,
sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laaria
afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
esculptura haviam sido desbastados a pico para nivelar a superficie da
pedra em que assentara a madeira.

Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
columnas, os artezes e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
camada de pintura. O material subjacente  o lindo marmore polychromico
da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a inteno esthetica de
imitar a borres d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie to
sordidamente conspurca.

Quando ha quatro annos o governo mandou pr em hasta publica uma parte
do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
qual  do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
pedir soccorro  imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos,  a mais
delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
n'esse interessante periodo da transio do stylo romanico para o
advento do gothico, na evoluo capital da arte na Edade Media. A
virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
preceituao hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, 
invasivamente tocante na concepo de varios episodios d'esta
composio, como o da Annunciao, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
Adorao dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificao de
Jesus, que, pela primeira vez nas representaes d'este periodo, nos
apparece flagellado pela cora de espinhos e com os dois ps
sobrepostos, fixados ao madeiro por um s cravo. Acompanhando e
envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pr em
suggesto o pensamento que d'essa obra deriva.

 uma construco ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religio,
no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpo ou de orgulho.
Nem um s nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazo, cora,
paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambies, a
fora, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
espheras. A mesma aconchegada dimenso do recinto, parecendo amoldado ao
passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de novia, que
poderia do cho acarinhar as imagens dos capiteis com uma flr de
aucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
vegetao arbustiva, que ainda sobrevive  antiga ornamentao floral do
pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
uma expresso intradusivel. O claustro de Cellas , pela extranhesa e
pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
fonte, ineffavel e perenne, em que a agua no vem de alterosos e
magestaticos aqueductos cantar ao sol em taas brunidas de prophyro ou
de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
violetas em flr.

Providenciando sobre o destino de um to delicado monumento, posto em
leilo pela quantia de um conto de ris, dispunha o governo que os
capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
recolhessem n'um museu!

No sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
que sei  que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
da perpendicularidade das suas columnas, no espera seno o primeiro dos
mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.

Na linda egreja de S. Joo, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
mais villa cantaria.

Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
periodica, os desacatos por que est passando o antigo mosteiro das
Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
Iria pela devota Berengaria com a collaborao de Santa Isabel.

Na S de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
logares para onde as transferiram, e, com o fim de no transtornar
inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os ps
decepados aos joelhos das figuras.

Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
Affonso, filho de D. Joo I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
entre dois anjos em adorao. A caixa tumular, ornada de brazes,
cingidos de arabescos e silvados em relevo, descana sobre lees. Em
1881 foram roubadas as cabeas dos lees, os ps e as mos da estatua, e
os dois anjos que ladeavam a cabea do principe. O templo est
completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
tudo de branco--madeiras e cantarias.

A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
Evora.

Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaa os de D.
Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pao de Sousa o de Egas Moniz; como
em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento alis se attribue uma
verba s reparaes d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
Alemquer, o de Damio de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
egreja da Varzea.

Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
descobridor da India no tivesse mais importancia historica que a que se
liga a qualquer pedreira.

Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
praa, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paos do
concelho, edificada em tempo de Affonso V, por Joo Mendes Cecioso, o
_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alteraes_,
to minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. Joo II.

Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece at haver
sobre tal assumpto uma resoluo assente, o projecto inaudito de
eliminar toda a bella alpendrada da praa, da rua Ancha e da rua da
Porta Nova.

Outra resoluo da camara de Evora, resoluo definitiva e aprasada para
muito breve,  a de destruir a pequena e to graciosa egreja do convento
do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praa entre as duas ruas
de Machede e de Mendo Estevens, s quaes faz esquina aquelle templo.

A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
D. Alvaro da Costa,  um dos mais graciosos documentos architectonicos
do seu tempo.

Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
colleco de praas largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
bairros historicos so hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
muitos logares, onde esses bairros no existem, esto-os inventando,
esto-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa  tradio
historica,  poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
pelintrismo das suas innovaes, bota abaixo os mais venerandos
monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
effeito de bordado a cortia ou a miolo de figueira; pica os seus
historicos brazes para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
reporters.

Mas eu  que no posso deixar de dizer  cidade de Evora, que o que a
ella nos attrae e n'ella nos retem no so as suas novas avenidas, nem
as suas praas, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, so os seus velhos
mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
estreitas e sinuosas, to curiosos e to archaicos como o de
_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
da_ _Condessa_; so os quadros incomparaveis do seu pao archiepiscopal;
so os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
architectura da Renascena, to especialmente amoiriscada n'esta parte
do Alemtejo; so os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
a tapearia, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; 
talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doaria famosa dos seus
conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pdre, de
farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
hebreus da Biblia,  mesa de Abraho.

Com as improvisaes do seu modernismo Evora  como Vianna do Castello,
Braga, Guimares, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que smente
interessam os viajantes pela sua antiga arte, e no valem realmente a
pena de que alguem as visite pelo que do de novo.

Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo  de uma
magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores smente se pode comparar
 de Mafra. A mo d'obra  de uma perfeio magistral a ponto de parecer
indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente  sua
concluso a cupula do tecto e o lageamento do cho. Taparam-lhe o arco
da entrada a pedra e cal, no tem cobertura, e est servindo de armazem
de arrecadao do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.

A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
ornamentao to portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
acabou de desapparecer, como o convento da Esperana, sem se saber
porque, nem para que.

A restaurao, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fra,
to particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
nobreza d'aquelle templo.

Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
objecto a S de Lisboa so to lastimosos quanto innumeraveis.

Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
companhia de illuminao a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
suggestivo padro da nossa gloria militar e maritima, j no emerge da
areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
como a alvura de uma hostia em elevao se destaca do fundo de um
retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
Sacrosanta pela sua expresso moral, como a immaculada estalactite,
formada  beira do mar pela concreo mysteriosa de todas as lagrimas,
de saudade, de ternura, de consternao e de enthusiasmo, choradas por
um povo de embarcadios; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascena, mais
expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
emparceira-se com a chamin do mais vil e sordido barraco, a qual
sacrilegamente a cuspinha e enoda com salivadas de um fumo espesso,
gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
houvesse sido to subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
dias de gala, se desfralda e tremula o pavilho das quinas, mascarrado
de carvo como um chch de entrudo.

Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles parea attentar em um
tal desdouro, expresso viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
perante as suas tradies historicas e artisticas, podia chegar a
degenerao de uma raa. Por seu lado o parlamento e a imprensa so
insensiveis  responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
perderam o sentimento de nacionalidade e a noo de patria, relaxando
completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
legitima representao, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.

Consta no emtanto que brevemente ser celebrado em Lisboa o centenario
da India; e da comprehenso que temos d'esse feito culminante da nossa
historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
mostrando o monumento que commemora tal faanha, envolto, como nas
dobras de um crepe, pela fumaada de uma fabrica, que ns mesmos lhe
puzemos ao p, para o deshonrar.


Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel,  mais lastimoso
ainda o espectaculo da nossa incuria.

Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
que ainda resta do nosso patrimonio artistico.

Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.

Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudana de
dono, pela mudana de destino, pela transformao mais radical da vida
interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
typo das habitaes nobres em Lisboa.

Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel,  Junqueira; o do
marquez de Pombal s Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela colleco das suas mobilias; 
Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olho; o do marquez de
Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
do seculo, como o do baro de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
conde de Almada, e o do conde de Sampaio.

A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invaso franceza,
verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peas das
industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
e bahus monumentaes de charo, bufetes e contadores feitos na India ou
fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
Manoel, por artistas indianos.

Os servios de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
mais preciosas porcellanas da China e do Japo. A colleco das colxas e
dos panos de armar, com que no dia da procisso de Corpus-Christi se
revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
nos mais deslumbrantes desenhos persas.

Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
industrias famosas de Lisboa.

Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.

As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em besties e em
silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laarias, eram
um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
festas do anno em todas as casas de jantar.

O mogno francez do imperio, com as suas applicaes de bronze,
representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
invadira com as modas da revoluo liberal muitas casas lisboetas, sem
todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascena, em
cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na poca de D.
Joo V e de D. Maria I.

Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
madeira, polychromicos, em escala mui clara, to caracteristicos da
nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
nas obras de Bouro, de Tibes, de S. Gonalo de Aveiro, e da S Nova de
Coimbra.

O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que no
occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
sua machineta em forma de urna, semelhante s que se destinavam a conter
uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.

Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
galeria de pintura: paineis de devoo, retratos de antepassados, e um
ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
Guiard, por Grard e por Therbouch, em casa do visconde de Sobral.
Entre os quadros de devoo destacavam-se frequentes obras primas
nacionaes, do seculo XVI, referidas  vida da Virgem Maria,  lenda de
Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
Verissimo, Maxima e Julia.

Nos sotos d'essas antigas casas havia accumulaes seculares de moveis
inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
na evoluo europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canaps
desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charo,
abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
as primeiras composies de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montes de
manuscriptos, montes de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
que ns fomos os primeiros que fabricmos e que introduzimos na Europa,
ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
companheiros de Ferno Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
apparelhos de ch, com os primeiros vasos de porcellana, com as
primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florena, a
Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
civilisao moderna.

E tudo isso desappareceu, ou se est evolando, com o successivo
desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casares
despejados.

Esto nas bibliothecas extrangeiras, em Frana e na Inglaterra, as mais
preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
genealogicas.

Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino Jos Rodrigues, de
Antonio Ferreira, de Machado de Castro, j no ha intacta seno a
colleco da S. Destroaram-se as da Madre de Deus, do Corao de Jesus
e do marquez de Borba em Santa Martha.

O que ainda persiste da obra to curiosa e to caracteristica dos
barristas de Alcobaa est ao desamparo no abandono d'aquelle
incomparavel monumento.

Lanas, espadas, adagas, elmos de todas as frmas--almafres, capellinas,
bacinetes, barbudas e morries--, couraas, escarcellas, grevas,
manoplas, escudos e rodellas, todas as peas, emfim, da armadura dos
nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balas, as
sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.

A espada de Vasco da Gama  hoje propriedade de um particular, que ha
pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.

Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
Mestre de Aviz, peas ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
resguardo que as defenda da irreverencia do publico, esto na Batalha 
merc dos moos, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.

Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
disposio testamentaria de Henrique II de Trastamara, v-se uma
armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
rgo, em todo o respeito devido a um tropho sagrado. E um dos guardas
da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--Aquella  a
armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
batalha de Toro contra ns outros, tendo tido decepadas as duas mos,
morreu s lanadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei. E em
frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a p da
padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual p
uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
viajantes que para esse fim lhe vo bater  porta.

No est feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
esmaltes, da iconographia da nossa habitao, e do nosso trage.

Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
desfigurada nas suas dimenses primitivas pela interpollao de um novo
hostiario e de duas pilastras, que j no so do primeiro ouro das
conquistas, mas de simples prata dourada.

Depois dos to numerosos e to grosseiros erros a que tem dado origem a
investigao da identidade de Gro Vasco, a historia, a classificao e
a attribuio da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
ainda por fazer.

A restaurao dos antigos quadros est constituindo na historia da nossa
arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restaurao da
nossa architectura.

Alguns annos mais sobre o systema devastador que se est seguindo, e
ninguem poder reconhecer nas taboas da nossa grande poca uma s
pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
Massys ou os Dierik Bouts.

N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
portugueza desde o meiado do seculo XV at o fim do seculo XVI, isto ,
durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
apogeu da nossa gloria. So raras as puras composies historicas e
raros os retratos d'esta poca. Os grandes feitos da navegao e da
guerra celebravam-se de preferencia nas tapearias, que se perderam, e
constituiam o principal adorno d'arte dos paos dos reis e dos palacios
dos nobres. Na pintura religiosa, porm, e nos quadros votivos,
conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
misturam-se em brilhante anachronismo s figuras sagradas, e muitas
authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos est ahi, por
ns mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
devocionarios portuguezes. Ahi esto os reis, as rainhas, os sacerdotes,
os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascena. So
essas as caracteristicas figuras dos nossos avs: as faces cheias, a
pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
essas nobres e delicadas cabeas femininas serviram de modelo as mais
lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulao leve, sinuosa e
ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
utensilios da casa e os estados do espirito.

O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
bella obra da nossa historiographia.

_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
que collaborariam todas as aptides intellectuaes de que dispe o paiz,
por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
quadro:

1. _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
portugueza, que ns to opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
jardim de acclimatao, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
da Europa, pela introduco do ch, do caf, do assucar, do algodo, da
pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylo, do cravo das
Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
do pau de Solor, do anil de Cambaya, da ona, do elephante, do
rhinoceronte, do cavallo arabe.

2. _O mobiliario_, cuja fabricao to fecundamente desenvolvemos por
meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administrao de
Affonso de Albuquerque.

3. _A indumentaria_, comprehendendo, alm da historia do _traje_, a dos
_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
China, da Persia, de Benguella, to profundamente influenciadas pelo
nosso contacto nas suas origens, to especialmente desenvolvidas no
Reino, pelo lavr do pao, onde trabalhavam ao bastidor e  agulha as
mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas  rainha pelos capites
da India.

4. _As armas_, de guerra, de torneio e de crte.

5. A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
to curiosa evoluo em Portugal da frma e do ornato dos calices, das
custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peas
em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascena,
como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
taxos de perfumar luvas, copas, taas, gomis, bacias d'agua s mos,
maas, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
guarnies de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
guarnies de coifa, tranadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabea,
tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.

6. _As embarcaes_--galees, naus, caravellas, bergantins, fustas,
toda essa portentosa colleco dos nossos barcos de guerra e dos to
variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestes do
mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que  o navio grego
do tempo de Herodoto.

7. _A olaria e a cestaria popular_, em que to atticamente se affirma o
hereditario engenho artistico da nossa raa, e cujos productos tanto se
compraziam em reproduzir os nossos pintores.

8. Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
etc.

Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
artistica da nao, no ha porm catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa s fontes
da tradio e da nacionalidade, em que cada um de ns tem a mais
restricta e a mais instante obrigao de ir retemperar e fortalecer de
portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educao a que se
pode condemnar um paiz.

No ha colleco publica, chronologicamente completa, dos nossos
incomparaveis azulejos. Esta industria artistica  no emtanto d'aquellas
de que mais legitimamente nos podemos gloriar. At o seculo XVII o
azulejador portuguez acompanhou a evoluo peninsular, de influencia
mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
azul e branco, em vastas composies historicas e de genero, paizagens,
merendas, caadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
talento de composio historica e decorativa.

Raro ser o anno em que de Portugal no tenha desapparecido um quadro
inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de cohero,
sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das crtes ou da
imprensa.  hora a que escrevo estas linhas me dizem que est  venda ou
vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindra um
fidalgo da sua crte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
era uma gloria da nao.

No , em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.

 bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
suavemente, a pouco e pouco, at chegar a no existir do deposito
primitivo seno unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
sido collocado.

O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
por Estacio da Veiga, ainda hoje se no acha instalado.

Da inestimavel colleco das antigas peas de loua e de obras de barro,
que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
tudo.

To vasta  a nossa riqueza artistica e to profundo o desleixo de a
escripturar, que so quasi to frequentes as surpresas no que se
encontra como no que se perde.

Como exemplo direi que era assentado no haver em Portugal vestigio
algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e no
existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
propriedade da _Bibliothque Nationale_, em Paris.  entretanto nosso, e
existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
personagens,  da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
quatro paineis, de dimenses eguaes, relacionados entre si por analogia
de data e de assumpto. Est bem conservado, e acha-se, com os tres da
serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
Vicente de Fra, no vo de uma janella, junto dos aposentos habitados
n'essa occasio por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.

O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
reproduco photographica, destinada a illustrar a nova edio ingleza
da _Chronica da Guin_.

Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
Nepomuceno comprou por 300$000 ris, e se achava encorporada no mosteiro
fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
bella pedra d'Anan, que  simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
mo d'obra e pelo estado de conservao em que se acha, uma das obras
capitaes da esculptura da Renascena em Portugal. Compe-se de dezesete
figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
est prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
Soledade, as tres Marias, Nicodemus, Jos de Arimathea e S. Joo
Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
trage do seculo XVI. Enquadra a composio um bello portico, de columnas
e tabellas preciosas, chancellado pelo brazo dos Valles. S outro
Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
 esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.

Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthon dos
Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
cinco sarcophagos de que se compe o jazigo verdadeiramente regio dos
Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mr da egreja constituem
uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
contos de ris.

Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
dispersos pelo paiz, so em numero talvez superior aos dos quadros de
mesma poca recolhidos pelo estado depois da abolio das ordens
religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, s  sua
parte, noticia de no menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadao da Academia das
Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, no ha uma s photographia
registrada pelo Estado,  semelhana do que se faz em todos os museus do
mundo.

Por occasio da ultima exposio, to interessante, realisada nas salas
devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
Antonio, a direco das Bellas Artes no respondeu ao pedido da modesta
quantia de 50$000 ris que a commisso executiva da mesma exposio lhe
dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
manuscripto na mo do redactor.

Por essa mesma occasio os peritissimos e benemeritos photographos
portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes to valiosos e
desinteressados servios devem as artes portuguezas, dirigiram ao
governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.

Inutil me parece alludir ainda  disperso das mais ricas peas do
mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascena artistica
e industrial do nosso seculo XVIII.

Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapearias da Persia, bordados e
rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
antigas da India, do Japo e da China, credencias, leitos torcidos ou
empennachados, canaps e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
Real Fabrica das sedas, louas artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric--brac extrangreiro nos leva em
cada anno, com uma cubia e uma rapacidade que bem melancholicamente
lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
Cicero que s ficou da arte o que a ganancia no quiz. Ainda ha Verres,
como no tempo do velho mestre romano, mas j no ha verrinas.

D'esta desorganisao geral de toda a policia da arte resulta mais ou
menos lentamente, a quebra da tradio esthetica nacional, que  a seiva
de toda a produco artistica.

 infecundao do individuo pelo espirito da raa corresponde o
desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
esterilidade do estudo, a degenerao da phantasia, o abandalhamento do
gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
decadencia geral, a desnacionalisao pelintra de todo um povo.

Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo  producto
da arte tudo o que no  unicamente obra da natureza.

O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
fatalmente a configurao das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
lhe enformam a personalidade.

Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver egreja
que os reuna, e  j evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
Portugal faltam coraes portuguezes.

Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
intellectual.

Em resultado de no termos uma historia geral da arte portugueza,
devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
seus capitulos, vemos grassar, no s entre o vulgo mas entre pessoas de
saber, incumbidas de guiar e de reger a opinio, o erro criminoso,
profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
de concepes artisticas originaes.

A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de applicao e
de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
seitas.

Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de apagada
tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue vermelho da
raa, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
paixes mais profundas, todo de improvisao e de repentismo, capaz das
coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.

Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola
portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos
artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimento.

Por egual razo no teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
mercantil, todas as nossas industrias.

A decapitao official da nossa educao artistica manifesta-se ainda de
mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
apparencia dos predios, na decorao das praas, das avenidas, dos
cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das reparties do estado e
das habitaes particulares.

Em Lisboa, por exemplo, onde no ha uma sala de concertos populares, nem
vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
Maria se no representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
Carlos se no canta Marcos Portugal, onde no ha um museu de arte
decorativa, nem um simples mostruario da nossa produco industrial, nem
um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
a lio que um museu contm, ha pelo contrario escaparates de
apparatosos armazens, que so para quem anda pelas ruas o contagioso
exemplo da mais corrompida perverso, do mais provocante e pomposo
relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
construco. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
mdia era um accessorio movel, e s no seculo XVI se principiou a fixar
com pregos ao banco ou  cadeira, invade boalmente todo o movel, armado
em ripes de pinho, como uma ea de defunto, embrulhado em pelucia, que
nos esburaca os olhos pela insolente m creao da cr. E horripilantes
lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulao do contorno at o
material empregado, porque todas as linhas so aleijadas, a prata 
zinco, o marfim  gesso, o charo  de papel e o marmore esculpido  de
sabo. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
de canalhismo de casta para a vida toda.

Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
transito do publico, em vez da ornamentao da flora regional, em vez
dos longos massios de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
fosquinhas para trambulhes do viandante.

Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
em Lisboa  prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.

Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradio portugueza caem em
desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a aco do nosso
clima.

O to commodo, to modico e to gracioso typo da nossa antiga casa de
campo  substituido nas construces modernas pelas frmas de um
exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
chinfrins, hybrida confuso allucinada do chlet suisso, do cottage
inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
Em presena de um to inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicaes, anedocticas e
chorographicas, ser capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
que casta de gente se est passando a pea. Tal  a delirante epidemia
de que esto combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
um indicio nacional da nossa tradio, entre as casas de campo ou de
praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
ir a Cascaes vr o typo, unico, da habitao dos condes de Arnozo, to
saudosamente semelhante  casa de nossos avs, com o seu pequeno eirado
sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
pedra, destinados s varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
de craveiros e de mangericos, em frente do poo de roldana, no mais doce
e tranquillo sorriso d'outr'ora.

Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominaes que
esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
esthetica dos habitantes.

No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas to sympathicamente
suggeria a lembrana bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
do _Moinho de Vento_, a do _Poo_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradio lisboeta, para
dar s ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
moram ou se diz que por l passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
n'um borro de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
vinculados  historia do povo e  historia da cidade, como o da Rainha
Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.

Os trages populares, alguns to pittorescos, to suggestivos e to
bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
abastardam-se ridiculamente, porque no ha entre a gente culta quem
preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.

Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
populares.

Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de cr e mais graa de risco
esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
estopa, com linho, com l ou com algodo, de que se fazem os panos
liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
de Loul.

Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, to
pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.

Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve  iniciativa
e  propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto
considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeo da esthetica e da arte em todas
as suas mais complexas e mais variadas manifestaes no pode deixar de
ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, so um
verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
consagrado de _ruskineana_. Grande homem de aco, gloria dos da sua
raa, tomando por divisa _To day_, Ruskin no se emparedou, como a
maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
contemplaes expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
ris da legitima paterna em subvenes das mais generosas empresas
sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundaes de
escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
trinta contos a edio) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu  arte
todo um novo ideal e uma religio nova, creando uma pleiade
brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
emfim que deu a mais alta expresso  auctoridade esthetica em nossos
tempos, impedindo, em nome da arte, que um traado de caminho de ferro
deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
commisso da Camara dos Lords a consultar uma commisso de artistas
sobre se a passagem de uma linha ferrea no affectaria ruinosamente a
parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
certo valle.

 porm com um intuito especial,--a proposito das nossas to resistentes
industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
Ruskin.

O trabalho rural da fiao  mo e da tecelagem no estreito e primitivo
tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradio ingleza. Ruskin,
considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
satisfao, de educao esthetica e de intima poesia, destruidos pela
suppresso d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
inglez, dedicou-se com um esforo portentoso a fazer reviver em Langdale
e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
de l em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
fora individual uma vela de moinho nos cabeos das collinas ou a
corrente da agua  beira dos riachos. Elle mesmo d o exemplo da nova
organisao do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
Laxey. Recompe-se uma antiga roda de fiar com as peas desarticuladas e
esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
uma velha tecedeira.  reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
espadelado, assedado, fiado, crado e tecido pela mesma mo de mulher, 
porta ou  janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
substituida  banal perfeio estupida e antipathica do apparelho
mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiao a vapor, cae em moda
entre as pessoas de gosto aperfeioado, recebe a alta proteco da
princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
faz-se pagar mui remuneradoramente por preos consideravelmente
superiores ao dos productos da grande industria mechanica.

Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
ilha de Man.  conhecida no s em toda a Inglaterra mas em toda a
Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados  mo, de
desenhos combinados na urdidura e na trama com as cres naturaes da l,
sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caa,
de viagem, de equitao,  o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. 
a esta evoluo das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
remunerativo com as grandes industrias, e no a destructiva absorpo do
trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
chamo _transformao de industrias caseiras em industrias de
concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
d'aquelle que eu lhe ligo.

Em Portugal  certo que definham de dia para dia, e que successivamente
se vo extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
calamitosamente, por culpa da administrao economica dos nossos
governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragana a industria da
sericultura e a da fabricao do veludo. Acabou em Guimares, entre
outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
e dos brocados. No Algarve talvez que j hoje se no faa um unico
trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
caseiros na Covilh, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
margens do Lima, porm, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a l, o algodo,
e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
consistentes e mais bellos, de sua fabricao exclusiva em todas as
phases por que passa a materia prima, desde que  cegada no campo ou
tosquiada no carneiro at se converter em vestido.  feira semanal de
Vianna as raparigas d'essa regio trazem em lindas canastras, alm dos
ovos e dos frangos que criam, alm da manteiga que fabricam, as teias de
pano de linho, os cortes de saias de l e de algodo, as peas de
sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou  agulha. As
de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
Thomar vende-se em graciosos novellos da frma de casulos a melhor
linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
ainda a antiga tradio das _mantas do Alemtejo_, citadas j por Gil
Vicente na _Fara dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de l, que so o
_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
estamenhas, briches, saragoas, jardos, sorrubecos.

Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
que  primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
industrias, desde que os aperfeioamentos da electricidade desloquem o
eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
tenue fio de arame o quinho de fora que tem para distribuir por cada
operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforo propulsr do
sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das mars, da corrente dos rios,
dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presena da
revoluo das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
tradio desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
a tradio sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
todas as oppresses que a esmagam!

 notoria desde o seculo XVI a aptido artistica, que distingue o nosso
marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
torcido ou entranado. Ninguem como elle manusa os ferros e as
amarraes, o poleame e o talhame, o cabo, a adria ou o pano. Ninguem
como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unho, a boa, a
linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E no o ha mais
dextro em lanar a volta, em enastrar a pinha e em dar o n de escota,
de fateixa ou de botija, o n direito e o n torto, o de cogula, o de
borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
at o Guadiana, a enorme variedade de frmas nas embarcaes da pesca
maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
persistencia da tradio no grande genio maritimo de to pequeno povo.

Os que ainda vo  pesca do bacalhau,  Terra Nova, equipam de uma
maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porm o typo latino
do hiate e do lugre. Os que vo  cavalla,  pescada e ao sarrajo, no
mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olho, semelhantes aos de toda
a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de pra redonda,
apparelhando com dois bastardos.  pesca do alto vae a lancha de
Caminha, construida no portinho de Gontinhes; a lancha pveira, de
bocca aberta, apparelhando com um s mastro e a verga munida de uma
grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canas de Belem, de
Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
_canas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
empregam-se embarcaes numerosas e variadissimas. Na arte de galeo
agrupam-se: o _galeo_, coberto, de pra direita e arrufada,
apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de pra e caa 
ppa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
roda de pra e sem coberta; a cana do galeo, e o _acostado_, que se
emprega no transporte do peixe. Na armao fixa do atum e da sardinha,
nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calo_, grande
lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
banda, tendo na pra arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _lade_.

Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calo_ , como alguns
barcos do Douro, de pra comprida e alta, propria para atracar a margens
escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
das embarcaes portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.

_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
Douro at a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
da Gal, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
_muletas_ e os _bateis do Seixal_.

O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
embarcaes empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcao
portugueza da nossa costa meridional, a _caadeira_ e a _focinheira de
porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueiro da ria de Aveiro_, a _lancha
de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
typos da Africa, dos Aores, da ilha da Madeira, no descriptos,
infelizmente. So ainda de notar, entre as jangadas mais
caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fo e da
Apulia, para a apanha do sargao; as de Neiva e as de Sedovem.

Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
os outros povos,  verdadeiramente inacreditavel que em Portugal no
haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
No ha tal museu.

Em terra  to variada a colleco popular das vasilhas, dos fogareiros
e dos cestos caseiros, como  variada na agua a frma das embarcaes. A
simples nomenclatura do vasilhame portuguez d, s de per si, uma ida,
ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas frmas, porque ha
typos que variam de regio para regio, de dez em dez leguas de
perimetro. Esses typos principaes so a talha, o pote, o cantaro, o
caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boio, o tarro, o cantil, a
almofia, o alcatruz, o porro, o ccho, o picho, o pichel, a almotolia,
a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeiro, a caldeira e a
caldeirinha, o tacho, a caoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
pichorra, a botija, a cabaa, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
correspondente  velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastio,
sobreviveu porm na tradio e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
quatro decilitros de capacidade, to maneira, to graciosa, to bem
proporcionada a uma sde d'agua,  ainda hoje na olaria de Coimbra o
pucaro consagrado, que no pote da regio, de uma elegancia to fina e
to attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.

As frmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
bombylio, etc., so por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
mais bellas, as mais engraadas ou as mais nobres, as mais
irreprehensivelmente puras, parecendo que  roda mechanica do operario
as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a pea por pea, o
sorriso acariciante de um artista.

De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
Molellos, deduziram em Frana o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
bule de um servio de almoo, que ficou tradicional na fabricao de
Svres.

A industria popular da cestaria acompanha na evoluo das frmas a
industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
nosso paiz notariam que cada regio tem a sua canastra, o seu cabaz e o
seu gigo, differentes na frma ou no ornato. Ha-os de todas as
configuraes, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
frma e a construco americana dos samburs, dos tipitis e dos cfos
tupis, feitos de taquara e de cip, que introduzimos talvez no Brazil
ou, mais provavelmente, l aprendemos a fabricar, deixando o typo do
balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configurao,
semelhante  de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
canistel, a cesta, a condea, o ceiro e a ceira, a alcofa e a
alcofinha. A materia prima do cesto  o vime, o junco, a fasquia de
castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa  o
esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a taba, a juta e a
pita. Em algumas regies, como nas Caldas e Vizeu, os cestos so obras
primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, 
um simples prodigio de fabricao minudente e delicada. No Algarve a
alcofa, de filiao arabe,  por vezes ornada de apparatosas flores
bordadas a seda ou a l.

Sem embargo, continuando a affirmar-se que no temos sentimento
artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
domesticas, e no negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
to originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
d'esses tecidos, nem a loua, nem a cestaria, nem a filigrana,
immobilisada em typos decrepitos, e da qual to lindos effeitos se
tirariam, applicando-a em ouro a servios de toucador, a frascos de
cristal, a molduras de retratos, a encadernaes de devocionarios, etc,
etc.

Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
civilisao artistica.

A arte que menos estudamos  a arte hispanhola,  qual todavia
indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
temperamento, de tradio e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a produco
artistica da Peninsula imprimiram a feio differencial mais
caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
stylo romanico, ogival e da renascena. E da mesma procedencia, mosarabe
ou mudejar, so algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
encadernao, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordoves_ por
nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
esparto, de palma, de pita. At o fim do seculo XVI artistas
portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catales,
asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
celebrando identicos feitos de guerra, de religio e de amor, servindo
reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
mesma invocao popular.

Das nossas relaes com Flandres s conheciamos--at ha bem poucos
annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
reciproca aco dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
proteco dada aos artistas nacionaes por D. Joo II e por D. Manoel, de
uma s vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.

Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos esto sendo diligentemente
continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.

Em uma recente publicao do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais  Envers
au XVI^{me} sicle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licena para ahi
viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
seus creados, foi para a civilisao que os acolheu de uma importancia
incomparavelmente superior  que jmais exerceu a colonia flamenga em
Portugal.

Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundao da
primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
alm das exportaes do reino, o commercio das especiarias trazidas da
India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasio
da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
senhores trajavam de brocado e seda cr de purpura, bordada de ouro e de
rubis, com botes, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraa e espada,
vestiam librs de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
moult riche et triomphante  voir_.

Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
Filippe de Hispanha, de D. Joo II e de D. Manoel. Em outro arco de
triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
Felicidade, da Religio, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. Joo
I, D. Manoel e D. Filippe II.

Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
queimar canela em todas as fogueiras das chamins.

Outro portuguez, Simo Rodrigues d'Evora, era baro de Rhodes,
cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
reduzidas  indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
mulher D. Anna Lopes Ximenes de Arago.

O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
conferida pelos portuguezes a Alberto Drer ficou assignalada pelas
grandes festas a que deu origem. Drer retribuiu esses favores com
presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
Portugal.

Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Drer, de
Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.

Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
Lopes, Damio de Goes, etc.

Outro curioso symptoma da nossa desaffeio dos estudos da arte nacional
 a estagnao das velhas idas preconcebidas na apreciao dos nossos
monumentos architectonicos. J me referi ao co basbaquismo privilegiado
de que  objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.

Por notavel superstio epidemica, por inercia de espirito, por
servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
commodidade, por conveno admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
criticos portuguezes, que mais teem governado a opinio, estabeleceram
axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal  o
da Batalha. Toda a modificao nas linhas constructivas ou nos motivos
ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. Joo em
Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
Decadencia emfim toda a obra architectonica da poca manoelina.

A termos acceitado tal principio na sua applicao pratica, teriamos
tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
invariavel, como o neo-greco-romano da renascena, que  o triumpho
consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
de construir, a cristalisao da rotina, a sujeio de toda a
imaginao, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como to cegamente, to
estupidamente, to inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
os seus correspondentes aphorismos de proporo e de symetria, seu
pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilho, a
mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gta, a mesma carranca! Ora
precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
effuso esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
suas despropores e todas as suas assymetrias, no  precisamente seno
a contraposio da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
 enfatuao idolatrica,  pedantesca preceituao rhetorica, ao
esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
neo-classicismo da renascena razoirou todo o talento humano. O stylo
gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
palpitao do seu lavor evocaes de idas e de sentimentos proprios dos
homens da sua raa e da sua terra. Os artistas manoelinos no teriam
feito talvez monumentos _correctos_, na accesso indigente em que as
academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
_expressivos_,--o que  melhor. Porque no so as academias que pautam
as propores e os limites da creao artistica. Tudo o que se pode
formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte no  um
producto de escola:  a livre expresso individual de uma alma,
convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
vibrao nova do sentimento.

A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
deduz-se da maior ou menor quantidade das idas que a sua obra suggere e
dos sentimentos cuja percusso ella determina. Nos monumentos
architectonicos  pela sobreposio do ornato esculptural s linhas
geometricas da construco que a arte se exerce.  principalmente na
esculptura que reside a expresso poetica do monumento.

Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construco,
submettendo assim as frmas constructivas  ornamentao esculptural. Os
grandes criticos da Inglaterra, que to consideravel impulso teem dado
s idas estheticas e  moderna evoluo artistica, entendem porm, ao
contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas  na
construco de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
affirmativa envolve a consagrao da escola manoelina pela critica que
n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
arte gothica e a arte da renascena.

Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes to vigorosamente
accentuaram a palpitao victoriosa do genio, da originalidade, da
poesia, da gloria do povo lusitano.

O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evoluo do stylo
gothico em Portugal  a modificao portugueza d'esse stylo,  a sua
nacionalisao,  a originalidade local, imposta pelos architectos
portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construco, commum a
toda a Europa. Diro que no  isso precisamente um novo stylo.
Certamente que no, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura 
constituio complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
tomarmos a palavra stylo em tal accepo, nenhum stylo  novo em toda a
architectura da edade mdia e da renascena. Todo o processo
constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
Syria, do Egypto. Os mesmos gregos no inventaram a columna, nem os
romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
architectura de qualquer povo , como em Portugal, na poca manoelina, a
subordinao de um systema qualquer de geometria architectural s
condies do clima e da paizagem,  natureza dos materiaes empregados, 
flora,  fauna,  concepo religiosa,  historia,  poesia, ao
temperamento e  psychologia dos artistas, em cada regio. Quanto mais
intensa for a interveno d'esses factores mais original ser a obra.
Assim, na evoluo do gothico na architectura portugueza, quanto menos
modificado, isto , quanto mais _puro_ fr o stylo, mais insignificante
ser o monumento como documentao artistica, como expresso social.

  _decadencia_ do gothico da Batalha que ns devemos o incomparavel
claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
flammejante janella da sala do capitulo  a obra mais eloquente, mais
convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
estremecidamente portugueza, que jmais realisou em nossa raa o talento
de esculpir e de fazer cantar a pedra.

Na ornamentao d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
da ida christ, todo o sagrado pantheismo das velhas religies da
India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
acompanhada ao orgo, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
aucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggesto mais profunda. O
artista, em plena posse da sua ida, em completa independencia do seu
espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execuo, desdiz todos
os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
nas entranhas da sua propria vaidade a opinio de si mesmo, unicamente
porque tem f na verdade que enuncia, porque concentrou toda a fora da
sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixo do seu sangue, no
amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.

As columnas na janella da sala do capitulo so polipeiros de coral, dos
mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
cobriu o bero da civilisao no littoral mediterraneo, providencia dos
peregrinos nos oasis do deserto,  qual os arabes da Peninsula dedicavam
uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminao do polen,--a
arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
 um attributo da paixo e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
demais elementos decorativos so as ondas do mar, taes como ellas se
representam na heraldica; so os troncos seculares e as raizes profundas
dos sobreiros dos nossos montes, extrema expresso de fora na
fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradio e a
familia prendem a debil e errante creatura humana, ao corao da terra
em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas  carreta
alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortia, enlaam a
decorao, amarrando-a vigorosamente  empena por fortes argoles, como
se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composio, partindo
das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
n'uma trepidao de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
na vastido dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
um galeo da India.

O nosso povo porm desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.


Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
os productos d'arte.

Em julho de 1890 o ento ministro da Instruco Publica consultou sobre
a questo de que se trata uma commisso de artistas, de archeologos e de
escriptores. Da resposta, at hoje inedita, d'essa commisso, de que me
coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.

O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se prope effectuar o
ministerio da instruco publica e das bellas artes --ponderava o
relatorio--a pedra fundamental de toda a construco destinada a dar 
arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
nacionalidade, na orientao do sentimento collectivo do povo, no
conjuncto dos elementos de impulso e de progresso para o
desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
Europa.

O inventario de que se trata, comprehendendo no s os edificios
monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentao preciosa para a
historia da arte em Portugal,--determinao das suas origens ethnicas e
sociaes, fixao dos seus caracteres distinctivos e sua relao com a
psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspiraes, com as
ideias, com os costumes e com as instituies sociaes. Esse repositorio
tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
modalidades, segundo as influencias especiaes de cada poca, de cada
phase de cultura, de cada estadio social, todas as foras emotivas,
todas as aptides estheticas da nossa raa. A historia dos seus
monumentos  para cada povo a historia da sua individualidade, porque
no ha monumento artistico que no traduza, mais ou menos directamente,
a aco intellectual e politica da sociedade que o concebeu.

A ideia do inventario projectado no --para honra nossa--inteiramente
nova. No reinado de D. Joo V existia na Bibliotheca Real uma obra em
cinco volumes, datada de 1686 e intitulada Theatro do reino de Portugal
e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
por scenas repartido. Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
Frei Luiz de S. Jos, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
os debuxos de todas as povoaes do Minho, o que elle cumpriu no anno de
1726. Por indicao da Academia Real da Historia, e para o fim de
inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos no chegaram a
ser dados  estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
casas dos duques de Bragana, ao Thesouro Velho.

As disposies do alvar de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
trecho do mesmo alvar: Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessa
de qualquer estado, qualidade e condio que seja, desfaa ou destrua em
todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
inferiores at o reinado do Senhor Rey D. Sebastio; nem encubro ou
ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego s camaras das cidades
e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, daro conta
ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
que se lhes participar, podero dar a providencia que lhes parecer
necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
Etc.

Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar sobre a mesma materia, assim
designado: Alvar com fora de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
servido suscitar o alvar de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservao e
integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peas de
Antiguidade: mandando que as funces do mesmo Alvar, que at agora
pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
Publica; tudo na forma acima declarada.

Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mr da Bibliotheca Nacional de
Lisboa Jos Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
seguintes termos: Para o bibliothecario mr passaram attribuies que
competiam  Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
tem sido at hoje letra morta, a tal ponto que at ignoram as suas
disposies os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
detrimento, no s d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
acha estacionario em aquisies archeologicas, mas tambem de todo o
reino, onde o bibliothecario mr deveria sempre ter, por obrigao do
seu cargo, promovido a conservao e segurana dos monumentos que no
podem ou no devem transportar-se.

Em seguido prope o bibliothecario que se torne effectiva a
responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
o bibliothecario, etc.

Ficou porm to morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
se refere.

Por decreto de 10 de novembro de 1875  nomeada uma commisso para
propr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
plano de um museu, as providencias que julgar mais adquadas 
conservao, guarda e reparao dos monumentos historicos e dos objectos
archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino. A
commisso alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fra
confiado.

A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
Associao dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
de lanar em 1880 as bases de uma inventariao systematica dos
monumentos nacionaes, no foi, assim como o zeloso trabalho da commisso
de 1875, seguida de resultados praticos.

Independentemente da preceituao official, teem sido modernamente do
mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
artisticos a Exposio Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
Lisboa em 1882, a exposio de Coimbra, a exposio de Aveiro, a
exposio de Guimares, a recente exposio do centenario antonino, e as
exposies de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
Instruco.

De algumas das exposies alludidas ficaram documentos de alto valor.
Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
colleco photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
museus e das exposies celebradas, se poderia extrahir desde j um
esboo de inventario, que no seria difficil aperfeioar e prehencher,
emprehendendo novas exposies e systematisando completamente as
investigaes e os estudos correlativos.

A commisso de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
das pesquisas que, convm continuar, para recolher ou arrolar os valores
artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporaes ou
de particulares, a commisso incumbida do inventario geral e definitivo
desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
peas de que ha conhecimento, j pelo exame de que foram objecto nos
museus onde existem, ou nas exposies at hoje feitas, j pelos
catalogos e relatorios que d'essas exposies existem, j pela
consideravel colleco de photographias que reproduzem os objectos
expostos.

Emquanto  catalogao e  conservao dos objectos pertencentes a
particulares ou a corporaes de caracter civil ou religioso, no
conviria desde j estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
dos delegados do governo em tal servio seria indicado pelas
circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porm altamente
para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
vinculos que ligam o esplendor das artes  gloria do catholicismo,
conseguissem fazer penetrar na convico das auctoridades eclesiasticas
das suas circumscripes quanto  inseparavel da historia da egreja a
historia da arte christ, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
catholicos,  ainda uma frma do culto ou um desdobramento d'elle na
ordem civil, alm de ser o permanente attestado da alliana da crena
religiosa com a immortal aspirao da poesia no corao e no espirito da
nossa raa.

Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
expor  indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
lei, semelhante  que existe hoje na Italia, em Frana, nos Paizes
Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
fim definir claramente e assegurar, de combinao com a legislao
canonica, com os principios da concordata e com a legislao geral da
propriedade, os direitos especiaes do Estado com relao  guarda dos
monumentos e  parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.

Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commisses
regionaes, dependentes da commisso central, e incumbidas, em suas
localidades, da guarda e da conservao dos monumentos e dos objectos
d'arte. Estas commisses,  semelhana do que foi disposto na lei
italiana de 1878, da qual se inspirou em Frana, para a organisao de
eguaes servios, a Direco das Bellas Artes, seriam compostas de oito
vogaes, sendo quatro da nomeao dos municipios e quatro da nomeao do
governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
governador civil ou do administrador do concelho.

Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
estuda, que o comprehende.  a collaborao preciosa d'esses pobres
poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
publico, que aos organisadores das commisses locaes compete acolher e
utilisar.

O processo de inventariao de cada pea artistica constaria de duas
partes.

A primeira seria a reproduco photographica, ou em gesso, ou pela
galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
clich ou molde.

A segunda, a confeco de um simples verbete, impresso, correspondendo 
photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
quesitos: 1. Descripo summaria do objecto; 2. Logar onde elle se
encontra; 3. Nome do individuo ou da corporao em cuja posse se acha;
4. Antecedentes; 5. Attribuio; 6. Avaliao; 7. Escala em que
houver sido feita a reproduco.

Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
Vienna,  o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
expedito. Com applicao ao inventario da arte hispanhola elle foi
proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposio
historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pr em execuo,
tendo-o sanccionado a approvao unanime de uma commisso presidida pelo
sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
indiscutivel e de uma notoriedade europeia.

Com a colleco completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nao um
inventario to desenvolvido e to perfeito como o que outros paizes
possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.

Da colleco integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
differentes criterios de classificao que se lhe applicassem, se
extrairiam colleces especiaes, em edies mais ou menos modestas,
relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas s
escolas de bellas artes, s escolas industriaes, aos museus das escolas
primarias e secundarias, s officinas, aos operarios, facultando assim,
ou gratuitamente ou por infimo preo, a todas as classes sociaes um
pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
arte em cada uma das suas mais especiaes applicaes, da evoluo das
frmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.

Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
quesitos de classificao, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
mais simplesmente pedagogicos, a discernir as pocas e os stylos,
retendo todas as diversidades da frma pela memoria da vista.

Alm do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
architectonicos e das riquezas artisticas da nao, o estado fundaria
simultaneamente o mais interessante museu de reproduces.

A Commisso dos Monumentos Nacionaes no  inteiramente, pelos seus
meios de aco e pelos seus fins, a commisso a que se refere a consulta
de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commisso se
reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commisso
do inventario geral da d'arte, ao qual  urgentissimo que se proceda.

Na parte em que a commisso tem de responder pela conservao dos
monumentos nacionaes,  preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pr em
execuo esse programma, no de um modo como at hoje officioso e
facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
esse effeito a aggregao e a collaborao effectiva de dois
architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicao periodica de
um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
do trabalho feito.

Conseguidas as condies de consistencia technica, de auctoridade e de
expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe 
commisso arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
monumentos confiados  sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
possue; nomear as commisses locaes; definir claramente o que 
_conservar_, o que  _restaurar_, e o que  _continuar_ ou _concluir_ um
monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
minudencias (porque n'este ponto tudo est por definir e por
estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
rigorosamente todo o projecto de conservao, de restauro ou de
acabamento na obra de cada edificio.

Os cuidados de _conservao_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
os monumentos. Para esse effeito o programma  simples, e a despesa
insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasies em
que cabe _restaurar_ so relativamente raras. E nenhum edificio,
qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
_concluir_, a no ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
adaptar a algum dos servios vigentes da civilisao contemporanea. Este
mesmo criterio economico se deveria applicar  opportunidade das
_restauraes_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
uma habitao particular![1]


Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
com to patriotico desinteresse constituem a Commisso dos Monumentos
Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentao e
auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.


Se o Estado no intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
decisivo esforo de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.

Est-nos dado o exemplo na actividade e na abnegao de alguns cidados
benemeritos.

O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
emprehende e realisa, sob a intelligente collaborao do sr. Antonio
Augusto Gonalves, a restaurao da S Velha e a de Santa Cruz, com uma
segurana de criterio, de que no ha exemplo em obra alguma do mesmo
genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.

O sr. bispo de Beja applica um egual fervor s obras do convento da
Conceio; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
por concurso patriotico de alguns cidados, funda-se o mais copioso e o
mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.

Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si s a dispendiosa
reparao do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria j
desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
D. Joo II.

Na ultima visita que fiz, em setembro passado,  S de Braga, ahi me foi
affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
reconstituio artistica d'aquelle importante monumento.

Em Cette e em Pao de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
esforos para a conservao dos monumentos gloriosos a que n'esses
logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonalo Veques e de Estevam
da Gama.

A obra to desvelada da extincta Sociedade de Instruco do Porto e a da
Sociedade Martins Sarmento, em Guimares, so verdadeiros monumentos de
erudio, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.

Para a constituio integral da historia da arte e da tradio artistica
portugueza, quantas contribuies dedicadas, quantos esforos
individuaes, desassociados e dispersos, na obra, to incomprehendida e
to despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
Antonio Augusto Gonalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimares, Alberto Sampaio, Julio de
Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
Bellino, Teixeira de Arago, Vilhena Barbosa, Conceio Gomes, Filippe
Simes, Manoel de Macedo, Jos Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
Brando, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimares, Freire
d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
obscuros!

O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que s
devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
Possam ellas ao menos communicar a outros coraes a sympathia, que
filialmente prende o meu  terra em que nasci, e  raa de que procedo!

 pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religio da
nacionalidade se exteriorisa e se exerce.

Desde que nas consciencias se extinguiu a f,  por meio da arte que as
tradices se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
affectos se depuram, que as paixes se enobrecem.  pela arte, que a
exprime, que a poesia do christianismo sobreviver aos seus dogmas no
enternecimento, no amor, na saudade dos homens.  tambem pela arte que
em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituies, dos
systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.

A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attraco para as
idas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu s
anteriores, como succeder s que se seguirem.

No momento presente so unicamente os poetas, os philosofos e os
artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
effuso de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdo, que
caracterisa bem o nosso tempo, e de que no ha na historia outro
exemplo.

Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
deu motivo o tratado de Loureno Marques, quem na minha susceptibilidade
portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
os estadistas inglezes (tratava-se ento do sr. Disrali e do sr.
Gladstone) lhe no mereciam nem mais respeito nem mais considerao que
duas velhas gaitas de folle.

Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
tender sempre e irrevogavelmente a terna gratido do nosso espirito.

 unicamente pela arte, inherente  natureza humana, progressiva e
eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
solidariedade da especie.

 pela arte que o genio de cada raa se patenteia, que a autonomia
nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
no s pela sua especial comprehenso da natureza, da vida e do
universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.

 pelo culto da arte, e pela educao artistica que esse culto
comprehende, que a produco industrial se especialisa, se valorisa pela
originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
nao, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
na Allemanha, por via da simples reconstituio dos museus e da
multiplicao das escolas.

Finalmente,--se para cada povo a arte  a segurana da tradio, o
refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
at politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
na magoa e na ruina de tantas crenas extinctas, de tantos ideaes
desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte  ainda--como
diz Schopenhauer--_a unica flr da vida_.




*Notas:*


[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado  Commisso dos Monumentos
Nacionaes, em sesso de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
pelas concluses seguintes:

5. O Templo deve ficar destinado, smente, s grandes celebraes
religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
e Navegadores portuguezes.

6. Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
e installao do Archivo Nacional, convindo que essa installao se ache
concluida at o mez de maio de 1897.

No concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
transporte para o edificio annexo  egreja dos Jeronymos o archivo da
Torre do Tombo, e to pouco em que se remova da egreja o exercicio
parochial do culto.

Por complexas razes, que no vem para aqui desenvolver, eu votaria por
que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, alm de que, em minha
humilde opinio, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem  uma
instituio historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
respeito  tradio do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
bula a doao do infante  ordem de Christo, e instituiu em parochia a
primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
para os navegantes e para o publico seno o de se rezar a cada missa,
aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvao da alma do infante
D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
estatua do infante  porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
lavar das mos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou  ordem de Christo.

A data d'esta carta de doao  de 26 de dezembro de 1498.

Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratido, e um torpe desacato
remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
voto dos fundadores se cumpra, como  de razo juridica e de probidade
nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
pea um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
pela de el-rei D. Manoel.

Que se adopte porm ou se no adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
o que technicamente no  de certo admissivel  que as obras dos
Jeronymos se prosigam e se concluam sem resoluo tomada cerca do
destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.




Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   71| ta boas             | taboas               |
  |#pg.   74| onem                | nem                  |
  |#pg.   74| dimens             | dimenso             |
  |#pg.  105| ascebispo           | arcebispo            |
  |#pg.  142| privilegido         | privilegiado         |
  +----------+---------------------+----------------------+

Variantes dos nomes prprios foram mantidas de acordo com o original.





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Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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