The Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03, by 
Alexandre Herculano

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Title: Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03

Author: Alexandre Herculano

Release Date: November 30, 2009 [EBook #30566]

Language: Portuguese

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

                                             Rita Farinha (Nov. 2009)




OPUSCULOS




OPUSCULOS

POR

A. HERCULANO


SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE
DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
DO INSTITUTO DE FRANA (ACADEMIA DAS INSCRIPES)
DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.


TOMO III

CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS


TOMO I


LISBOA


VIUVA BERTRAND & C.^a--SUCCESSORES, CARVALHO & C.^a
Chiado, 78

M DCCC LXXVI




Lisboa--Imprensa Nacional




Contem este volume diversos escriptos sobre duas questes historicas. A
primeira, que se refere s tradies fabulosas cerca da batalha de
Ourique, quasi que no tem valor algum  luz da sciencia. Expr
semelhantes tradies era, por assim dizer, refut-las, e perante a
historia tal refutao seria de sobra. A segunda, relativa  situao
das classes servas na Hespanha desde o VIII at o XII seculo, versa
sobre a legitimidade da soluo que adoptei n'um dos mais difficeis
problemas que se me offereceram ao escrever o terceiro volume da
Historia de Portugal na epocha decorrida desde a fundao da monarchia
at o fim do reinado de Affonso III. As phases da lenta transformao do
escravo das sociedades antigas no obreiro, cidado livre das sociedades
modernas, obscuras ainda em parte na historia da civilisao e do
progresso humano entre as naes d'alm dos Pireneus, muito mais o so
quem delles. As divergencias, e divergencias profundas, entre os que se
dedicam a estudar o assumpto nascem dessa obscuridade, e  dos debates
que elle pode suscitar que ha de surgir a final a luz.

Como tantas vezes succede, no foi a questo grave e difficil que
alevantou arruido: foi a insignificante que despertou as attenes e que
produziu viva agitao na imprensa e fra da imprensa, dividindo em dous
campos o publico que l.  que na primeira interessava apenas a
sciencia, e a segunda contrariava os intuitos de uma parcialidade e as
preoccupaes dos espiritos vulgares, que constituem o grande numero. Se
a religio era extranha ao assumpto, ou antes ganhava na suppresso de
uma pia fraude, perdia com isso a maioria do sacerdocio, atarefada, hoje
mais que nunca, em tecer a rede de suppostos milagres em que parece
querer amortalhar o catholicismo. Escrevendo um livro serio, eu
affastara brandamente para o limbo das fabulas aquellas fices
ridiculas, porque era foroso faz-lo. Nem tivera a inteno do
escandalo, nem a cousa o valia. A maioria, porm, do clero no o
entendeu assim.

Na carta ao patriarcha de Lisboa, com a qual este volume comea, est a
resumida noticia das aggresses de que fui alvo e que por algum tempo
supportei com resignao ou indifferena, resignao ou indifferena em
que provavelmente, hoje, que sei melhor o que taes aggresses valem,
continuaria a permanecer. Estava, porm, ento naquella epocha da vida
em que a paciencia christan no  a virtude mais vulgar do homem. O
leitor ajuizar se os prelados portugueses foram ou no imprudentes em
tolerarem ou talvez favorecerem aquellas ineptas e brutaes manifestaes
da ignorancia e do interesse ferido.

Pelo que toca ao opusculo sobre o estado das classes servas da Peninsula
no decurso dos seculos VIII a XII, destinado a combater as opinies do
erudito Muoz y Romero,  bem de crer que ao meu illustre adversario no
faltassem argumentos para contrapr s objeces que lhe fiz; mas
affastaram-no do debate outros estudos, at que veio salte-lo a morte,
quando a Hespanha tinha a esperar os melhores fructos da alta
intelligencia daquelle incansavel cultor da historia. Buscando ambos a
verdade, a discusso encetada conduzir-nos-hia, provavelmente, a
modificarmos, tanto um como outro, as nossas ideas, talvez absolutas em
demasia, e a estabelecermos uma doutrina solida sobre to espinhoso
assumpto. Entretanto, ainda hoje me persuado de que, para nos
aproximar-mos, seria elle que teria de andar mais caminho. Julg-lo-ho
os que, depois de lerem attentamente o meu modesto trabalho, examinarem
com igual atteno o escripto de Muoz y Romero e a apreciao desse
escripto por Mr. de Rozire.

    Janeiro de 1876





A BATALHA DE OURIQUE




I

EU E O CLERO


AO PATRIARCHA DE LISBOA

(_Junho, 1850_)


 debaixo da impresso de vivo desgosto, e cedendo emfim ao impulso de
justa indignao, que dirijo a vossa eminencia esta carta. A desculpa
que merece um animo turbado por offensas immerecidas, e o favor que
sempre encontrei em vossa eminencia me fazem esperar que esse favor no
padecer quebra, se alguma phrase mais forte do que eu desejara me fugir
da penna ao escrever este papel; papel que, solemnemente o declaro desde
j, no tem por objecto, como alguem poderia suppr, pedir desaggravo
das offensas a que alludo. De natureza so ellas, que nem preciso nem
quero que outrem as puna. Sei e posso eu faz-lo, se cumprir, de um modo
que sirva de escarmento  ignorancia perversa e  hypocrisia insensata.
O meu intuito  apenas rogar directamente a vossa eminencia, e
indirectamente aos demais prelados de Portugal a cujas mos chegar esta
carta por interveno da imprensa, que, obstando a novas provocaes da
parte do clero, me poupem a dar uma dura lico a individuos, que,
desconhecendo os deveres do sacerdocio e incapazes de sentimentos de
moderao, tentam excitar as paixes odientas de um fanatismo que j
nem, talvez, o povo comprehende contra um homem que nunca lhes fez mal,
e que nem sequer se lembra delles, porque tem cousas um pouco mais
srias em que cogitar.

Ha quatro annos que publiquei o primeiro volume de uma Historia de
Portugal, que tem feito certa impresso no paiz, e ainda fra delle. Na
benevolencia com que esse livro foi recebido por naturaes e extranhos
nada ha provavelmente que deva lisonjear o amor-proprio litterario do
auctor, mas ha uma prova de que o publico reconheceu nelle certa
independencia de espirito e uma estricta imparcialidade, para a qual o
longo e severo exame dos factos o habilitava. Como eu o previra na
advertencia posta  frente daquelle primeiro volume, a sinceridade da
narrativa, estribada em monumentos indisputaveis, destruindo muitas
dessas tradies, mais ou menos improvaveis, que deturpam a historia de
todos os povos, suscitou contradictores. Era cousa natural. As
manifestaes de colera, as injurias vertidas contra mim na imprensa,
no podiam causar-me nem estranheza nem abalo. Estava resolvido a
guardar silencio perante ellas e a proseguir na senda que abrira, sem me
distrahir com luctas estereis. A verdade fica, e as preoccupaes
passam. Ao mesmo tempo a minha resoluo inabalavel era, e , desprezar
todos os respeitos humanos que se contraponham  voz da propria
consciencia. Todavia o no nos affastarmos dos seus dictames  empenho
que no sae de graa neste mundo de paixes pequenas e ms; e bem louca
esperana seria a minha, se a tivesse de evitar os effeitos de uma lei
universal. Era por isso que estava resolvido a esgotar resignadamente o
meu calix.

Pouco depois da publicao do primeiro volume da Historia de Portugal,
n'um periodico litterario da universidade de Dublin um critico ingls
punha em duvida se eu, que expurgara de lendas fradescas a historia do
bero da monarchia, teria esforo bastante para avaliar como cumpria as
longas e violentas dissenses dos reis da primeira dynastia com os
bispos e com a curia romana. Quando li isto, sorri-me. Nessa mesma
conjunctura publicava-se em Lisboa o meu segundo volume, onde se
continha a narrativa de boa parte daquellas discordias. Ahi me parece
ter dado documento de que os receios manifestados na imprensa inglesa
no eram dos mais bem fundados.

Mas esse volume, accendendo novas coleras, despertou em alguem a ida de
me refutar de modo inaudito. Do pulpito de uma das igrejas de Braga, da
antiga metropole, onde ainda devem estar bem vivas as memorias do
veneravel Caetano Brando, do illustre prelado que pretendia reformar o
breviario e missal bracharenses por causa _das suas intoleraveis
patranhas e falsidades_ (phrase do grande arcebispo), o meu nome foi
lanado s multides ladeado dos epithetos de hereje, de impio e de
outros semelhantes. Um egresso fanatico e ignorante (como o so
centenares de sacerdotes no meio do nosso clero, que no recebe ha
muitos annos nem educao moral nem educao litteraria) cubriu-me de
injurias diante de um concurso numeroso, segundo me informaram, porque
no meu livro usara do direito de historiador, qualificando devidamente
essas intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e
cubiosas que cingiram a thiara papal, e que se chamaram Gregorio,
Innocencio ou Honorio. A principio acreditei que isto no passara de um
impulso de fanatismo individual; mas em breve me desenganei de que o
facto pertencia a um systema organisado de aggresso. A imprensa
politica noticiou procedimentos analogos para comigo em outros lugares
do arcebispado. Se o objecto das invectivas era o mesmo, se igual a
violencia das expresses, ignoro-o: mas o que me pareceu evidente foi
que havia, como disse, em to insolito proceder um systema uniforme e
combinado.

Calei-me. A minha equanimidade foi bastante para tolerar este ataque
brutal  liberdade do pensamento; foi tamanha como a do respectivo
prelado, que guardou silencio, e que devera ter advertido o seu clero de
que, no havendo eu offendido doutrina alguma da igreja, e tendo-me
limitado a julgar os homens e os factos da epocha sobre que escrevia,
por mais erradas que fossem as minhas opinies, ellas no podiam ser
qualificadas publicamente de hereticas, concitando-se assim contra mim a
credulidade popular. Um sermo no  o meio de refutar erros
litterarios, e muito menos o  qualificar taes erros como offensas da f
para os transformar em crimes religiosos. Em semelhante terreno a lucta
sera impossivel, porque delle brota o risco pessoal, ou pelo menos a
perda da reputao moral para um dos contendores, ou melhor direi para a
victima indefensa, amarrada ao poste desse novo genero de patibulo. Os
ignorantes olhariam com horror para o Luthero ou Calvino que surge na
terra da patria, e esse odio publico  uma verdadeira coaco 
liberdade legitima do escriptor: legitima, digo, porque, apesar de
tantas declamaes e queixas,  evidente que no meu livro no ha uma
unica palavra que offenda a orthodoxia da igreja. Se eu tivesse
proferido alguma heresia, os prelados portugueses, e em particular vossa
eminencia como meu pastor, no seriam capazes de faltar aos seus mais
estrictos deveres, deixando de me advertir do erro com caridade
evangelica, e de me condemnar se eu insistisse n'elle. Era ento que aos
bispos, e no a qualquer desses cirzidores de farrapos de sermes
velhos, desses inimigos figadaes da lingua, da grammatica e do senso
commum, denominados, por antiphrase, prgadores ou oradores, que era
licito, que cumpria lanar sobre mim o anathema.

A guerra desleal que uma parte do clero (digo uma parte, porque no seu
gremio ha muitos homens leaes e verdadeiramente illustrados) me
declarara no norte do reino no tardou a apparecer no meio-dia, no
recincto da propria capital. O primeiro commettimento foi tentado n'uma
solemnidade notavel, e n'um dos templos mais frequentados de Lisboa.
Nesse acto o absurdo da aggresso nasceu antes da impropriedade do
logar, do que das formulas empregadas pelo aggressor, que se absteve de
injurias grosseiras. Lisboa no  Braga, e o negocio precisava aqui de
maior circumspeco. Entretanto a tentativa desagradou geralmente, e eu
pensei que emfim me deixariam em paz.

No succedeu assim. Ultimamente na minha propria parochia, e dous dias
depois n'outra igreja da capital, fui de novo arrastado perante as
turbas na torrente da eloquencia clerical. Se no primeiro caso houve a
inteno de se me administrar face a face uma correco fraterna, o
calculo falhou. Creio que vossa eminencia me faz a justia de acreditar
que no me deleito excessivamente em ir ouvir mus sermes de ha
sessenta annos, ou traduces detestaveis de fragmentos de sermonarios
franceses, declamadas, ou antes carpidas, em tom ainda mais detestavel.
O annuncio de um sermo  para mim por via de regra a espada percuciente
do anjo do paraiso flamejando  porta do templo. Salvo em rarissimos
casos, no haveria foras que podessem arrastar-me a assistir aos partos
da oratoria, que, por irriso sacrilega, se denomina sagrada. A
resistencia dos meus nervos em tal conjunctura seria mais forte do que a
propria vontade.

Em Braga, e creio que nos outros logares daquella diocese, a censura
tinha sido fulminada contra a liberdade com que falei dos chefes da
igreja nos seculos mdios, da curia romana, e talvez dos bispos
portugueses de ento. Ao menos l a invectiva tinha certa originalidade.
No patriarchado, porm, as accusaes, postoque menos brutaes, tiveram o
defeito de ser um verdadeiro plagio.

Narrando no primeiro volume da Historia de Portugal o recontro de julho
de 1139 em Ourique, reduzido s dimenses que supps e supponho exactas,
ommitti a fabula do apparecimento de Christo, como cousa indigna da
gravidade da historia, e, sob certo aspecto, demasiado irreverente para
com o sublime Fundador do Christianismo. Apenas n'uma nota alludi a essa
tradio absurda, affirmando que se estribava n'um documento falso, o
celebre juramento attribuido a Affonso I, juramento que ainda existe no
supposto original. Eis o grande escandalo para os prgadores de Lisboa.
Confesso que ahi tractei esse embuste com o desprezo que elle merece,
porque, na verdade, conhecendo eu muitos diplomas forjados com maior ou
menor destreza, este , sem contradico, o mais inhabilmente executado.

As poucas palavras que dediquei a semelhante ninharia suscitaram o zelo
de alguns individuos, persuadidos de que eu tinha despedaado, com as
tres ou quatro linhas que a tal proposito escrevi, o palladio da
independencia nacional, que bem fraca independencia sera se estivesse
como adscripta  crena ou  descrena n'um conto de velhas. Houve at
um pobre homem, o qual, no meio das discordias civis que assolaram o
reino pouco depois da publicao do meu livro, dirigiu aos povos do
Alemtjo uma proclamao, em que affirmava que, ligado por um pacto
infernal com os membros do governo ento derribado, eu ia demolindo as
glorias portuguesas para vendermos de commum accordo a independencia da
patria. No me recordo agora do preo, nem de quem foi o comprador, mas
a venda parece que era indubitavel.

Entretanto publicavam-se artigos de jornaes e folhetos avulsos contra
mim. Nada mais legitimo; nada mais liberal. Se os corsarios da palavra
de Deus, que esbombardeam o meu pobre livro de um logar aonde eu no
posso subir, do alto do pulpito, convertido em chapiteu de proa de junco
malaio, houvessem seguido este rumo, seria eu to ridiculo como o
instrumento da appario, se disso me queixasse a vossa eminencia ou aos
outros prelados do reino. A imprensa  uma estacada onde nos julgadores
do combate, e sobretudo de um combate litterario ou scientifico, ha j
um grau de illustrao, que at certo ponto affiana uma deciso justa.
Reptado ahi, eu podia erguer a luva, ou deixar, quando assim o
entendesse, que o livro delatado servisse por si mesmo de resposta aos
accusadores. Em um e outro caso procederia livremente, e no ficaria,
como no campo em que sou aggredido, collocado debaixo de uma coaco
moral. Ahi os reverendos prgadores, que tem tido a condescendencia de
tractar da minha humilde pessoa, at poderiam appellidar-me, se
quizessem, hereje, impio, atheu, demonio incarnado: eu respondia-lhes
que elles estavam bem livres de ser nenhuma dessas cousas, e ficavamos
perfeitamente pagos.

Dous dos folhetos avulsos dirigidos contra a Historia de Portugal, que
me chegaram s mos, tractavam justamente desse gravissimo negocio da
appario, que em parte me tem feito victima, por me servir de uma
phrase do padre Isla, da _dialectica eloquencia dos selvagens da
Europa_. Ambos comedidos e corteses, ao mesmo tempo que produziam no meu
animo um sentimento de tristeza, inhibiam-me de responder-lhes, ainda
quando no estivesse, como ha pouco disse a vossa eminencia, no firme
proposito de evitar luctas estereis. A tristeza que senti  leitura
daquelles folhetos nascia de achar nelles a prova da decadencia a que
tinham chegado neste paiz os estudos historicos. N'um livro que, com
bons ou maus fundamentos, mudava completamente o aspecto at aqui
attribuido ao complexo dos successos do nosso paiz, na infancia da
sociedade portuguesa, havia por certo mais de uma inexaco, mais de um
defeito importante, como obra que era de homem--de homem desajudado
n'uma empreza de tal ordem, e entregue unicamente aos proprios recursos
e foras. cerca, porm, das materias positivas, historicas,
susceptiveis de serio exame, apenas appareceu, que me conste, um artigo
no periodico litterario a _Revista Universal_, e outro no _Observador_
de Coimbra. As duas publicaes avulsas que me vieram s mos, ambas,
como disse, curavam exclusivamente de me demonstrar o milagre da
appario, milagre do qual (atrevo-me quasi a affirm-lo) ainda que os
meus adversarios o tivessem sustentado com boas razes _historicas,_ me
parece que eu, vossa eminencia, toda a gente, que no seja algum leigo
capucho, haviamos de continuar a rir, cada qual segundo o papel que
acceitou nesta grande comedia humana--uns em publico, outros em
particular.

Agora pelo que respeita aos motivos que, alm da razo geral j dada, me
inhibiam de responder aos dous escriptores, permitta-me vossa eminencia
que eu dilate um pouco o discurso a este proposito. No  a digresso
alheia ao assumpto. O meu silencio ante contendores francos e leaes, que
me buscavam com armas corteses no campo da imprensa, interpretou-o a
ignorancia como um signal de fraqueza. No contribuiria isto para
despertar a audacia dos meus anathematisadores? No seria eu proprio o
culpado da minha affronta? Desculpe vossa eminencia uma comparao,
acaso ambiciosa em demasia. Tem o merito de se referir a uma fabula, e
ns achamo-nos n'uma questo de fabulas. Quando o leo jazia moribundo,
foram as feras valentes e generosas que arrostaram o perigo. O onagro s
veio ferir-lhe a fronte pendida, depois que, averiguada a situao do
rei das florestas, se persuadiu de que podia injuri-lo a seu salvo.

Se fui, pois, o causador do mal, devo justificar o silencio que o gerou.
 a esse alvo que se dirige a digresso de que falo.

Um dos folhetos era escripto por um ancio respeitavel, no s pelas
suas cans, mas tambem pelos seus padecimentos physicos, considerao
fortissima para mim, que entendo ser sempre digna de respeito a
desgraa; era produco de um homem chegado quelle quartel da vida, em
que o espirito parece eivado da ruina do corpo, que vem annunciando a
proximidade do tumulo. Com a mo na consciencia eu protesto a vossa
eminencia que ainda hoje sentiria remorsos, se, na fora da vida e do
pouco talento que Deus repartiu comigo, no tivera sabido domar os
impulsos de um ridiculo amor-proprio; se houvera ido derramar a
afflico sobre o leito de dor do afflicto, para saborear o triste e
vergonhoso prazer de ouvir os apupos do publico a um pobre velho, que
queria, que tinha direito de morrer em paz abraado com as tradies da
sua infancia; que precisava de protestar contra um homem, o qual, embora
involuntariamente, ia prostituir-lhe no corao idas e affectos, amigos
constantes da sua larga existencia. Se Deus podesse fazer milagres
absurdos e inuteis, como o da appario, eu preferiria ver-me convertido
em cirzidor e carpidor de farrapos pareneticos a ter de accusar-me de
uma aco, que no sei qual seria mais, se covarde, se despiedada.

Quanto ao outro folheto, composto por um homem de talento, instruido, e
no vigor da idade, no militavam as mesmas razes de conveniencia moral;
militavam, porm, outras assaz fortes, e de natureza analoga. Affastadas
as consideraes poeticas, alheias a materias historicas, os argumentos
colligidos naquella publicao a favor do milagre de Ourique dividiam-se
em duas categorias, ou antes eram apenas dous argumentos. Um consistia
no consenso de certo numero de escriptores, todos de epochas mais
recentes que o meado do seculo XV. A futilidade desta argumentao 
evidente. Os _classicos_ so respeitaveis como mestres de lingua; mas
como testemunhas de um facto, que se diz acontecido pelo menos trezentos
annos antes que elles escrevessem, de nada servem. A qualidade de
classicos no exclue a de credulos, e nem sequer a de inventores de
patranhas. A chronica de Clarimundo, a da Tavola-redonda, a de Palmeirim
d'Inglaterra so escriptas por tres classicos como Barros, Jorge
Ferreira, e Francisco de Moraes, e eu supponho, no sei se me engano,
que esses livros no encerram seno mentiras. Se o auctor queria
provar-me a perpetuidade da tradio de Ourique, no devia esquecer o
_criterium_ estabelecido por Vicente de Lerins, e com elle pelo senso
commum, para distinguirmos das falsas as tradies verdadeiras: _Quod
semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est_. Era-lhe necessario
mostrar-me essa tradio atravs de todos os seculos, e sobretudo dos
seculos onde ella desapparece, os tres immediatos ao supposto facto.
Confesso a vossa eminencia um peccado, e alliviarei delle a consciencia,
porque o confesso perante o meu pastor: a minha intelligencia foi
demasiado orgulhosa para descer a refutar semelhantes objeces. Que me
importava, de feito, que a fabula tivesse este ou aquelle motivo,
nascesse no seculo XVI ou no XV? Tomara eu tempo e monumentos para
averiguar os successos verdadeiros e as suas causas, circumstancias e
effeitos. Genealogico d'embustes  mistr para o qual me falta
inteiramente a vocao.

A segunda categoria de argumentos, ou antes, o segundo argumento em
favor do milagre era a citao de dous textos precisos, de duas
auctoridades contemporaneas, que relatavam o successo. Uma era nada
menos que a de S. Bernardo; outra a de uma copia coeva do juramento,
copia conservada em Roma, e transcripta no volume 51 da _Symmitica
Lusitana_, manuscripto da Bibliotheca Real, de cuja existencia 
abonador o illustre Cenaculo. Este argumento estava longe da obvia
fraqueza de est'outro. A tradio a assim prender-se do seculo XV ao
XII, embora obscurecida no periodo intermedio. Alguem imaginar,
portanto, que para no responder a objeces deste valor apparente s me
conteve o proposito de evitar disputas escusadas. No foi assim.
Contiveram-me consideraes de maior monta. Se o eram ou no, vossa
eminencia o julgar.

Antes de tudo, observar vossa eminencia que eu digo _disputas
escusadas_. Digo-o, porque esses testemunhos contemporaneos no bastam,
como vossa eminencia sabe, para acreditarmos nos milagres da idade
mdia.  excessiva devassido e bruteza aquelles tempos de trevas uniam
uma crena fervorosa, confundida com superstio extrema. A ida
religiosa formulava-se em tudo, na guerra, na vida civil, nos affectos
do corao, nas artes, na litteratura, na sciencia; e quando uma ida
domina assim a sociedade, converte-se em prisma atravs do qual as
cousas se illuminam com as cres que elle lhes transmitte. O maravilhoso
introduzia-se em todos os factos em que as imaginaes, possuidas de uma
especie de febre moral, achavam pretextos mais ou menos plausiveis para
lh'o attribuir. Accrescia a tendencia innata dos homens para indagar as
causas dos diversos phenomenos. Comprimida n'um ambiente de ignorancia e
rudeza (ambiente em que vive boa parte do nosso clero), essa tendencia
dilatava-se, respirava pelo unico resfolgadouro possivel, pela facil
theoria do maravilhoso, do sobreintelligivel. Nas chronicas d'ento
quasi que o miraculoso  o regular, e o natural a excepo. Dos
chronistas dos seculos barbaros o mais despreoccupado  o benedictino
ingls Matheus Paris. Todavia centenares, que no dezenas, de milagres
absurdos so gravemente narrados na _Historia Major_. Permitte-me vossa
eminencia que lhe recorde um exemplo do modo de vr daquellas eras? Sem
sairmos do reino, nem do seculo XII, e at limitando-nos  vida do
personagem a quem se attribue o singular favor de Ourique, temos  mo
um exercito de milagres, postoque em sentido inverso ao da appario.
Alludo aos desgostos de S. Rosendo com o nosso primeiro rei. A vida do
sancto, _escripta no seculo XII_, foi, como vossa eminencia sabe,
publicada por Florez, e uma copia, talvez coeva, ou quando muito do
seculo XIII, existe ainda entre os manuscriptos de Alcobaa (codice
133). Ahi lemos que o rei portugus fora obrigado a levantar o sitio do
castello Sandino, nas margens do Arnoia, por uma tempestade de raios que
o sancto desfechou contra elle. Se acreditarmos o pio agiographo, o seu
implacavel heroe nunca perdoou a Affonso I, apparecendo por tres vezes a
diversas pessoas para protestar vingana contra o principe, que nas suas
correrias na Galliza no respeitara as terras do mosteiro de Cellanova.
Nesta lucta atroz entre o grande da terra e o grande do ceu, S. Rosendo
no poupava maravilhas. Debalde; porque, como observa o monge
historiador, o corao do rei, que elle compara caritativamente a Simo
Mago, estava obdurado, qual o de Phara, _para maior cumulo da sua
condemnao_. A malevolencia milagreira do sancto no abandonou Affonso
Henriques seno no tumulo. Os contratempos dos ultimos annos do reinado
do fundador da monarchia, incluindo o desbarato de Badajoz, a fractura
da perna, o aleijo com que ficou at a morte, tudo foi obra de S.
Rosendo, e havia mesmo quem affirmasse ter visto o sancto revestido do
corpo humano e muito atarefado, na occasio em que o rei de Portugal
cau prisioneiro do genro. So pelo menos vinte milagres attestados por
um escriptor desses tempos. Penso que no me accusaro de avaro ou de
desagradecido os que querem enriquecer  fora o thesouro das minhas
crenas com a appario de Ourique. Vinte por um. Indisputavelmente eu
sou muito mais rico do que elles em proviso de milagres.

De todas essas maravilhas, porm, apesar de subministrarem  credulidade
melhores fundamentos que a de Ourique, fao eu tanto caso como desta
ultima, pelas consideraes que indiquei, alis bem escusadas para a
comprehenso e litteratura de vossa eminencia. Mas nem foi unicamente o
preceito que a mim proprio impusera de no malbaratar o tempo em
questes desta ordem, nem essas consideraes, que obstaram a que eu
respondesse a um escripto, em que o erro, e talvez o despeito, vinham
envoltos em frmas to corteses, que tocavam a raia de lisonjeiras, e em
que a argumentao tomava emfim o aspecto de uma cousa sria. No,
eminentissimo senhor! A refutao sera na verdade facil, decisiva,
fulminante; mas ella lanaria uma torpe mancha sobre nomes illustres e
caros  igreja portuguesa. Repugnava-me sobretudo esta ida. Por maiores
precaues de que eu me rodeasse, a logica implacavel do publico tiraria
as legitimas illaes das minhas palavras, e convert-las-hia em
desdouro commum de uma classe que nenhum mal me havia feito. Se hoje a
necessidade de repellir a insolencia covarde, como a insolencia o 
sempre, me obriga a expr actos vergonhosos e inqualificaveis, a culpa
no m'a lancem. Dous annos de paciencia provam que o fao constrangido
por aggresses demasiado graves, no por si, nem por seus auctores,
cousas profundamente insignificantes, mas pelo logar onde se commettem,
por serem feitas com a inteno de excitar contra mim animadverses
immerecidas, por se tentar, emfim, converter atraioadamente uma
questo, que nem chega a ser historica, em questo religiosa. A gloria
do escandalo deixo-a inteira aos que o provocaram. Se vou bater sobre
campas, que cobrem cinzas envoltas em vestes sacerdotaes; se perturbo a
paz dos mortos para lhes bradar--_Falsarios!_--esta mo que se estende
para indicar os criminosos, esta voz que se ergue para os condemnar, so
minhas, mas protesto a vossa eminencia, que quem as suscitou no foi o
meu corao, nem a minha vontade. Ha no soffrimento um ponto que sem
deshonra no  licito ultrapassar. Consta-me que o mais recente dos meus
reverendos accusadores clamara no excesso do seu _sincero_ zelo pela
historieta da appario, que _melhor fora que eu no houvera falado em
tal_. Melhor ainda do que isso me parece teria sido que elle no
houvesse feito trasbordar o calix, j demasiado cheio, de uma justa
indignao.

A affirmativa de que no volume 51 da _Symmitica Lusitana_ se encontra
trasladada uma cpia do instrumento da appario, coeva de Affonso I, 
MENTIRA.

O texto de S. Bernardo, relativo  mesma appario, que se encontra
inserido no Breviario, no officio das Chagas,  FALSO.

Se algum dos reverendos cirzidores sabe latim ( licito duvidar disso
com a igreja, que manifestou a sua hesitao a este respeito mandando
accentuar as palavras dos livros rituaes com temor das syllabadas) que
venha  Bibliotheca Real, e ahi, no volume 51 da Symmitica a paginas
128, ler ou soletrar as seguintes palavras, escriptas na lingua
latina, por baixo do traslado do instrumento da appario, nota escripta
pela mesma letra do copista==_Brando, Monarchia Lusitana, Parte 3.^a
pagina 127. Extrahido de um codice que o auctor viu em Lisboa._==Eis em
que consiste o traslado da copia _coeva_. Cenaculo, citando o documento
pelo indice, quando podia cit-lo pelo logar competente da colleco, o
que lhe era igualmente facil, commetteu uma daquellas levezas que no
raro occorrem nos seus escriptos, ou practicou uma _pia fraude_? O bello
e nobre caracter do bispo de Bja me faria adoptar sem hesitao o
primeiro supposto, se o empenho em que elle entrara de provar a fara de
Ourique, cuja vaidade o seu elevado espirito necessariamente havia de
sentir, no podesse perturb-lo a ponto de practicar um acto indigno de
quem, como elle, era um homem de letras, um prelado virtuoso, e a todos
os respeitos um varo singular.

A historia da passagem falsamente attribuida a S. Bernardo, , porm,
materia mais grave, porque nessa vergonhosa historia se acha
compromettida a honra e a dignidade moral e litteraria do alto clero
portugus no meiado do seculo passado. No direi da curia romana, porque
nesse ponto no ha j para ella compromettimento possivel: vossa
eminencia conhece to bem e melhor do que eu os seus annaes. A narrativa
desse escandalo  em resumo a seguinte:

O patriarcha D. Thoms d'Almeida requereu a Bento XIV que concedesse ao
clero de Portugal o officio proprio e missa das cinco Chagas, que, por
decreto de 4 de julho de 1733, fora concedido a certas freiras de
Florena. Accrescentava-se na supplica dirigida ao pontifice que na
sexta lio se houvessem de addicionar as seguintes palavras==_Quas
lusitanum imperium etc._==que constituem o texto allegado contra mim.
Consistindo, porm, a sexta lio daquelle officio n'uma passagem de S.
Bernardo, uma vez que no houvesse a devida distinco entre essa
passagem e o novo additamento, este se converteria n'um testemunho
importante a favor da lenda da appario, de que provavelmente os homens
instruidos comeavam a rir-se depois do impulso que aos estudos
historicos dera o governo no reinado de D. Joo V.

Accedeu Bento XIV  supplica do prelado portugus. O decreto de
concesso, o officio e a missa expediram-se para Portugal impressos na
typographia da camara apostolica. Segundo parece, a impresso foi feita
no estio, e o compositor romano, no acto de compor a fatal sexta lico,
estava perturbado pela febre da _malaria_. O additamento ficou enxertado
nas phrases solemnes do grande abbade de Claraval com to subtil sutura,
que faria honra a um operador de rhinoplastica. Atacado tambem pelos
miasmas putridos das lagoas pontinas o revedor da camara apostolica
_esqueceu-se_ de emendar o erro. Aquelle _innocente_ engano partiu,
emfim, para Portugal.

Aqui, n'uma epocha em que ainda os estudos do clero no tinham chegado 
decadencia em que hoje os vemos e de certo vossa eminencia lamenta como
eu, e em que as cadeiras episcopaes do reino estavam occupadas por
muitos homens notaveis por sciencia e virtudes, o antecessor de vossa
eminencia que ento presidia  metropole de Lisboa _esqueceu-se_ de que
essa passagem perfilhada a S. Bernardo tinha um auctor bem moderno, e
entre os bispos, entre os theologos do clero secular no houve um s que
_advertisse_ no falso testemunho que na sexta lico do novo officio se
alevantava ao fundador dos cistercienses. Os seus filhos, os seus
proprios monges, calaram-se. Os prelos tm gemido durante um seculo com
as reimpresses do breviario, e neste longo periodo nem uma voz, que eu
saiba, se ergueu para dizer que em nenhuma edio, em nenhuma codice
manuscripto das obras de S. Bernardo se encontra a supposta passagem.

E que admirao?--respondeu-me um malicioso, a quem manifestava em
certa occasio o meu espanto  vista deste phenomeno singular.--O clero
no l os padres da igreja: deixou essa tarefa aos seculares. E para que
os havia de ler, se lhes  de sobra o Larraga?

Dou a minha palavra a vossa eminencia de que repelli com todas as minhas
foras este rude epigramma. Eu sei que ha, conheo, at, sacerdotes cuja
instruco  to solida como vasta. O tracto de vossa eminencia, durante
a epocha em que fomos collegas no parlamento, me fez conhecer um dos
mais distinctos entre elles. Infelizmente, esse epigramma, injusto na
sua frma absoluta, no deixa de ser merecido em muitos, talvez no maior
numero de casos.

Sabe vossa eminencia quem protestou contra essa falsificao audaz,
contra essa fingida ignorancia, contra esse torpor inexplicavel ou
explicavel de mais? Foi aquella ordem cerca da qual ento se repetiam,
e hoje se repetem diariamente graves accusaes de immoralidade. Foram
os jesuitas, que n'uma edio do novo officio, feita para o proprio uso,
separaram com um asterisco o texto de S. Bernardo da inveno moderna.
Acaso este procedimento deu origem a um livro, _os Novos Testemunhos_,
do celebre e implacavel inimigo dos jesuitas, o padre Pereira, livro que
se o no tomarmos como uma longa ironia, deshonra a memoria de uma das
mais fortes intelligencias que Portugal tem gerado.

Agora fica vossa eminencia habilitado para avaliar se eu procedi com
circumspeco guardando silencio ante as refutaes que se me dirigiam
pela imprensa; se no houve no meu proceder uma dessas abnegaes que
no so vulgares, em desprezar um triumpho to facil como decisivo,
preferindo ficar como vencido e humilhado aos olhos dos menos instruidos
a salvar o meu nome de uma nodoa litteraria e at certo ponto moral. Se,
emfim,  justo, se  decente, que membros do clero aggridam de um modo
illicito, e profanando a sanctidade dos templos e a sanctidade do seu
ministerio, um homem que sacrificou o proprio orgulho para no rasgar o
vu de uma fraude dessas, que os hypocritas qualificam de pias, e que eu
qualificarei de immoraes.

Como Sem e Japhet queria encubrir a falta de pudor de No: o sacerdocio
obrigou-me emfim a ser como Cham. Fizeram-me voltar a face:
contrangeram-me a descerrar os olhos. Practicaram uma boa obra: devem
della gloriar-se.

E quem  o homem que os prgadores de Portugal offerecem  execrao
publica, porque no quiz vender a sua alma ao demonio da mentira; porque
no quiz deshonrar-se e deshonrar com embustes o seu livro? Que vossa
eminencia me consinta fazer aqui esta dolorosa pergunta  minha
consciencia; interrogar severamente o meu passado. Tem o clero a
combater em mim um inveterado e perigoso inimigo?  o seu to insolito
proceder um impeto de vingana, que o excita a repellir um perseguidor
implacavel? Ha quinze annos que trabalho na imprensa, e seno por merito
proprio, ao menos por circumstancias, que no importa aqui recordar,
muitas das paginas avulsas que tenho deixado aps mim na carreira da
vida se derramaram por todos os angulos do paiz, penetraram aonde livros
e jornaes de mais alto pensar nunca haviam chegado, e talvez nunca
depois chegaram. Haver nessas pobres paginas alguma cousa que possa
incitar a colera sacerdotal? Como procedi eu sempre cerca da igreja e
do clero? As idas do seculo, recalcadas por uma compresso violenta, a
que, fora  confess-lo, a maioria do sacerdocio se havia associado,
tinham reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as
ruinas do passado quando eu entrei no campo da imprensa, no campo das
batalhas do espirito. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade
que fora, e no meio delles o clero, disperso, empobrecido, cuberto de
affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido
adverso e irritado. A situao da igreja portuguesa nessa epocha, e
sobretudo a situao dos regulares, sabemos todos qual era. Foram
feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja sangue. Os homens
das velhas opinies politicas, no meio do terror, vergados pelo
desalento de uma quda tremenda, duplicadamente dolorosa pela
desesperana, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava nesta terra de
Portugal a favor da igreja batida pela tempestade. Ainda ento esse
grupo de mancebos cheios de talento, de inspiraes grandiosas e de
crena fervente na liberdade humana, e pela liberdade na eterna justia;
essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem novos soldados, e
que no se envergonha de Deus nem do seu Christo, no tinha ainda
comeado a surgir para ser generosa, amplamente generosa, com os
adversarios das suas idas, quando a desventura os sanctifica. Na
imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu,
s eu, tive por muito tempo palavras de affeio e consolo para a
desgraa; s eu tive animo para accusar os homens do meu partido
d'espoliadores e d'insensatos; para tentar revoc-los  poesia do
christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do
progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a
mo que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da
agonia era bem pouco robusta, mas era leal! Como Yorick guardava a caixa
do pobre franciscano entre os symbolos da sua religio de affectos, eu
guardo para mim, e s para mim, mais de um papel escripto por mos
trmulas de velho monge, e talvez regado por lagrymas, em que se
reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas idas que no
fosse absolutamente um malvado.  sobre estas reliquias que eu quero
encostar a cabea para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que
todos devemos repousar. No receiem pois os que me chamam hoje impio e
herege, que eu os envergonhe com o testemunho dos que valiam mais do que
elles, dos verdadeiros martyres do passado. So cousas queridas e
sanctas para mim. Estejam certos de que no as prostituirei jmais.

Depois, pouco a pouco, foi-se estabelecendo nos animos uma reaco
salutar: comeou-se a sentir que o templo e o sacerdote eram importantes
elementos de paz, e que podiam ser instrumentos de liberdade. Vieram
outros pelejadores, todos mais fortes e dstros, combater na arena onde
por tanto tempo eu me tinha achado s. No foi de certo a minha
influencia litteraria que trouxe este resultado. Trouxe-o o progresso da
razo humana, a fora irresistivel da verdade. Entretanto, parece que,
retirando-me do posto que defendera com os limitados recursos que Deus
repartira comigo, merecia do clero, por si e pela igreja, um _vale_ de
paz.

Em logar disso tenho a guerra, acerba, covarde, atraioada. Porque?
Porque trouxe para o campo da historia o mesmo amor da verdade singela,
que tinha mostrado n'uma das mais graves questes sociaes.

No me arrependo do que fiz. Cumpri um dever que me impunham Deos e a
minha consciencia. No espero arrepender-me do que fao. Cumpro uma
obrigao litteraria, e estou certo de que bem mereo da terra em que
nasci escrevendo a verdade.

Sabe vossa eminencia sobre que eu hesito?  sobre a legitimidade
absoluta das minhas queixas;  sobre se, no que supponho um dever
d'honra, no haver um pouco da obcecao da vaidade.

Quando Roma, que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o
exterminio do catholicismo, crucifica no seu _Index_ nomes como os de
Chateaubriand e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, terei
eu, verme que passo  sombra do meu nada, direito de offender-me porque
de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus
ou ignorantes lanam sobre mim o vilipendio das suas palavras?

Quando a igreja, envolvendo a fronte no vu da sua immensa tristeza, e
sentindo humedecer-lhe os ps o sangue humano vertido pelo ferro
sacerdotal, contempla atterrada o futuro, ha dor de individuos a que
seja licito um brado?

Cerrarei aqui o discurso, porque temo ir mais longe do que eu quizera.
Permitta-me vossa eminencia que conclua fazendo um voto, ao qual sei que
vossa eminencia se associa, bem como os outros prelados de
Portugal:--Oxal venha em breve o dia em que o clero d'este paiz possa
receber uma educao digna do seu elevado destino, e conhecer, por
estudos severos e bem dirigidos, que o ser christo no  ser nem
hypocrita nem fanatico.




II

CONSIDERAES PACIFICAS

SOBRE O OPSCULO EU E O CLERO


AO REDACTOR DA NAO

(_Julho, 1850_)


A necessidade de reprimir o abuso do ministerio do pulpito que contra
mim se estava practicando obrigou-me a dirigir a sua eminencia o
Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem faltar  considerao
devida ao prelado da diocese, nem aos outros bispos do reino, entendi
que cumpria usar de uma linguagem severa, mas justa, para com a maioria
do clero. Habituado a patentear livre e singelamente as minha opinies
cerca dos homens e das cousas, no soube nem quiz buscar rodeios, ou
adoar as phrases para me exprimir de modo menos aspero n'uma questo
que me respeitava pessoalmente, e em que at certo ponto estava
compromettido, no s o meu caracter litterario, mas tambem, o que mais
importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa periodica, politica e no
politica, sem distinco de partidos, foi unanime em condemnar actos que
me obrigavam a dar um passo a que bem desejaria me houvessem poupado.
Como os outros jornaes, a _Nao_ reprovou as aggresses inauditas
perpetradas por uma parte do clero, e toleradas por outra. O
procedimento de v.. para comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre,
quanto  certo que a indole do seu jornal deveria talvez lev-lo a
rebater a opinio de diversas publicaes periodicas, se o sentimento da
justia no fosse mais forte no animo de v.. do que outras quaesquer
consideraes.  assim que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave
misso, e remedeia do modo possivel a decadencia do sacerdocio
religioso. Continuando, porm, a tractar de uma questo, que, embora
interessasse um simples e quasi obscuro individuo, era demasiado
importante pelo alcance e significao dos factos que a haviam
suscitado, v.. teve a bondade de dirigir-me algumas observaes, que me
pareceu exigirem de mim explicaes como christo e como homem de
letras. No as dei logo, porque no tardou a annunciar-se publicamente
uma refutao da minha carta, em desaggravo do clero. Falava-se n'um
milagre de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu teria de fugir
desalentado como os sarracenos de Ourique diante do da appario.
Citavam-se, at, nomes: falava-se em summidades da igreja e da eschola.
Como entendo que no  bom fugir sem ver de que, esperei que rebentasse
o temporal. Se fosse por elle submergido, de que aproveitariam as
explicaes dadas a v..? Se, porm, podesse salvar o meu fragil baixel,
pediria misericordia aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v.. razo
de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado no oratorio, com o ouvido
attento ao som que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora,
todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade, eu alimentava
esperanas de salvao com um argumento que fazia a mim mesmo. No 
provavel, dizia comigo, que um membro do clero illustrado e honesto
queira vir combater-me no terreno desigual e escorregadio em que a
imprudencia collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical tem impedimento
dirimente para entrar neste empenho. Para escrever  preciso saber ler e
ter lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por este lado podia
eu estar tranquillo.

 certo que o annuncio feito nos jornaes no foi materialmente vo.
Appareceu um folheto, que parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me
que  de um mancebo principiante. Revela, sem dvida, algum talento no
auctor. Com o tempo, e estudando, este pde vir a ser um escriptor
soffrivel, e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou d'outras
questes com honra sua e proveito do paiz.


            Non ragioniam di lui, ma guarda, e passa.


 pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei do modo mais breve que
me for possivel. Se alguma phrase menos comedida me fugir da penna,
declaro desde j que a retiro. Dirigindo-me a um escriptor como v.., to
urbano nas proprias censuras que me faz, embora sobre to melindrosa
materia como o so as cousas da f, espero que v.. no veja por caso
algum nas minhas palavras a menor inteno offensiva.

Tres censuras irroga v.. ao contedo da minha carta; a primeira contra a
antithese contida no titulo do opusculo _Eu e o clero_: a segunda contra
as expresses de _intelligencias vastas e energicas, mas corruptas,
violentas e cubiosas_, de que me servi para qualificar alguns papas: a
terceira contra a phrase, _Roma que parece ter jurado nas aras de
Jupiter Stator o exterminio do catholicismo_, e contra os terrores que
attribuo  igreja cerca do futuro. Considerarei em especial cada uma
dessas tres censuras.

Diz v.. que me era licito collocar-me em antagonismo com um ou outro
clerigo, porm no com o clero em geral, por honra e credito meu, que
nada podia ganhar em lucta to desigual, e que, a existir, seria a minha
condemnao. Antes de tudo  necessario observar duas cousas: 1.^a, que
o antagonismo no o creei eu: resultou de factos practicados pelo clero,
que tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria talvez sempre
em silencio, se no receiasse que no progresso da aggresso chegassem a
levantar-me um pulpito diante da porta, para d'ahi me fazerem um sermo
sobre a sanctidade dos papas da idade mdia, ou sobre os milagres
referidos por S. Bernardo: 2.^a, que  pelo opusculo e no pelo seu
titulo, que se h de avaliar at onde esse antagonismo vai, e se elle 
legitimo. No apparece uma unica passagem da minha carta em que eu me
refira com phrases hostis a _todo_ o clero portugus. Os homens que ha
no meio delle illustrados e virtuosos, respeito-os; respeito-os
duplicadamente pela sua illustrao e pelas suas virtudes; pelo seu
caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal. Esses no sobem aos
pulpitos a dizer despropositos; no me querem mal, nem a mim nem aos
meus pobres escriptos. Ao que eu me contraps foi s turbas tonsuradas;
foi  maioria material e numerica; minoria nos dominios da
intellectualidade, das idas, e dos puros e nobres affectos. Faria uma
offensa gratuita; practicaria uma brutalidade indesculpavel, estaria em
contradico comigo mesmo, com as minhas opinies, se assim, sem motivo,
sem provocao, tivesse o proposito de maltractar aquell'outra parte do
clero.

 esta a ida que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os
animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a
reler. Quanto a esses de quem me queixo, no sou eu homem que esconda as
proprias convices. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um
documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria
do nosso clero  tal como eu a qualifiquei, e se no fosse a natural
repugnancia a despedaar um cadaver, daria aqui as razes da minha
persuaso. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: no
tergiverso, no me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades,
seno mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu
somno deixasse de ser profundo, como o  habitualmente.

Postas as cousas nestes termos, que so os exactos, no me  possivel
comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra
padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta
desigual, que envolveria a minha condemnao_. Se v.. viu naquella fatal
antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas
um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu no valerei mais,
litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem,
mas mil, mas dez mil clerigos mus ou insipientes, ainda que os fundam e
os acrisolem, chegaro, acaso, a produzir o equivalente de um homem de
alguma intelligencia e de alguma honestidade? No. O resultado de todas
essas operaes ser sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou
de corrupo. Peccado de soberba no creio, portanto, t-lo commettido.
Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porm, v.. ao
perigo litterario? Tambem no pde ser.  v.. assaz instruido para
sentir que por esse lado a lucta me d tanto cuidado como daria a v.. se
estivesse no meu logar.  o perigo religioso? A ida da condemnao
antes de contestada a lide, e envolvida na proposio da causa, torna
talvez plausivel esta interpretao. Nessa hypothese, v.. no teria
advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero portugus no  a
maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico no constitue
por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposio
com esta; mas confio em que a Providencia me livrar de cair nesse
abysmo, no s agora, mas sempre.

Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, ser
condemnavel, seno pela substancia, ao menos pelos accidentes? Ser
condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes,
de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar
em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepo.  de um padre da
igreja, a cujas obras o nosso clero foi to affeioado, que at lh'as
quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos.
Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta so de suprema doura
comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a
corrupo, no do clero de um paiz, no da maioria desse clero, mas em
geral do sacerdocio do seu tempo. _Manou a iniquidade_--dizia S.
Bernardo--_dos ancios, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus;
daquelles que parecem governar o teu povo! J no  licito dizer_--_tal
o povo, tal o sacerdocio; porque este  peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os
teus maiores perseguidores so os que mais ambicionam a primazia, e
exercem na igreja o mando supremo_[1]. E, como se estas acres
expresses no bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta
dirigida, no a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio
II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da
indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os
bispos as cousas sanctas_ a ces, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e
elles em paga mettem-nas debaixo dos ps. Assim o quizeram, assim o
tenham_[2]. Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que
matinada se alevantaria contra mim!

Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu no
passo de um peccador e obscuro christo? Assim . Por isso o segui de
longe, _non passibus quis_. Comtudo, v.. no deixar de advertir em
que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge,
humilde, simples, sem pretenses orgulhosas, sem presciencia de que
tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O
espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bca esses brados
d'indignao, como loucas provocaes arrancaram da minha penna palavras
muito menos violentas.

J agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado portugus
quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasio de alludir na minha
carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brando cerca
do clero portugus no principio deste seculo. O metropolita explicava
n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a
desconsiderao sobre o poder pontificio: _So aquelles_--dizia o
arcebispo de Braga--_que  fora de supplicas importunas, de respeitos
humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir
da curia romana provises beneficiaes_, que mais parecem titulos de
contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos;
_provises a favor das quaes tem infestado as parochias e cros_
(collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos
indignos, etc.[3]. Que se leia inteira a passagem impressa daquella
carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais
desabrida linguagem.

Apesar disso, suas reverencias ho de tolerar-me a crena de que no
esto no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brando, nem a de S.
Bernardo.

Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me
quer ver collocado, em relao  maioria do clero. Foram apenas alguns
que me provocaram do pulpito, e eu chamo  autoria o grande numero. 
verdade. No sei com certeza seno de alguns factos de aggresso, mas a
noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns
constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem,
dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho.
 acaso provavel que se no repetissem por outras dioceses? Em Lisboa,
onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustrao, onde,
at, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria f  mais tibia,
onde, emfim, os prgadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria
delles, houve dous exemplos. No me ser licito inferir que, no tendo
eu uma policia s minhas ordens, ignoro muitos successos analogos?
Depois, houve,  vista desses factos repetidos, no digo punio de
semelhante abuso do ministerio sagrado, o que no peo, o que at me
contristaria, porque me lembro das palavras de Christo _Perdoa-lhes
Pae, que no sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a
renovao de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os
arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como
informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero
diocesano? No tenho eu direito de suppr que elles tambem entendem que
a sanctidade dos papas da idade mdia ou o apparecimento de Ourique so
partes integrantes da crena catholica, e que se trepassem ao pulpito, e
lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se no
esto de accordo com os prgadores, como se esquecem de que os padres de
Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados
_divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de
falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos
mesmos oradores que _no falem imprudentemente de milagres, limitando-se
aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de
peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois
v.. que eu no increpe o maior numero e que no o supponha alistado
contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?

Passando ao segundo capitulo de accusao, sinto verdadeira magoa em ser
constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi cerca
dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha.
Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas,
violentas e cubiosas, alguns delles que se chamaram Gregorio,
Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes
Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no
meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia
Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz,
creio eu, justia, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque
viveu antes de nascer a monarchia.  singular como v.. pde perceber
que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! No teria eu
direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van
a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me
parece indubitavel  que alguma convico historica preoccupava o
espirito de v.. quando nas minhas expresses vagas e geraes viu um
ataque directo e especial  memoria daquelles homens extraordinarios,
cujos meritos no neguei, nem tenho empenho em negar.

Entretanto no pense v.. que com isto pretendo lanar fra de mim a
responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III.
No tenho a minima dvida em lhes applicar as designaes de
intelligencias violentas e cubiosas, como no a tenho em chamar
corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV.  verdade
que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisao, e Innocencio III
com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e
litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisao
constitua dogma de f, e obste  liberdade do historiador para avaliar
como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que,
fundando-se as canonisaes em provas humanas, e no em factos
revelados, as decises pontificias a tal respeito so sempre falliveis,
o que bem se manifesta da orao que ainda no seculo XIV os papas faziam
na solemnidade das canonisaes, pedindo a Deus permittisse que no se
houvessem enganado. Esta doutrina  corrente, e v.. no a ignora, nem
poderia ignor-la[6].

Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous
pontifices a justia que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a
entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais
de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos
que a civilisao lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos no
conheo nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o
professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se
valer exclusivamente da ida em que se resume a historia do progresso
humano. Esta ida  a _lucta do espirito com a sua manifestao, com a
frma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no
meio da fora do acaso_[7]. Elle v-a representada, incarnada, digamos
assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e
tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da
instituio.  inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe
a manifestao da ida, e em philosophia historica os defeitos desses
papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por
que elles desempenharam a misso providencial do papado n'aquella
epocha. Todavia, na apreciao _moral_ dos seus actos como individuos, 
por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo
conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu
da historia _No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade no
se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. No so os
phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo
delles_. Para avaliar o pontifice como representante e typo da
instituio, a regra  exacta; para o avaliar como homem, no; porque a
_inteno_, a causa moral dos actos,  necessaria para a apreciao
abstracta de um caracter. A suberba, a ambio e at a cubia de
Gregorio VII esto pintadas nos factos a que accidentalmente me referi
n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se  possivel, documentos
irrefragaveis.

Queremos, porm, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa
inteno moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouamos um seu
contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas
cousas os sanctos padres. So respeitaveis auctoridades! _De
resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que no se
enfurea tanto comigo, e que a sua veneranda suberba no me fustigue com
to longa flagellao_[9].

De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um
pobre velho: S. Pedro Damio n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao
proprio cardeal. Verdade  que no saba quo grande sancto havia de vir
a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge
est explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu
na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior
intellectualmente aos outros homens, a ambio de os dominar a todos
f-lo at negar a realeza, no s como facto, mas tambem como principio.
Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? No o
creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas.
Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos
principes) no estar sujeita  que Deus estabeleceu para gloria
propria? Quem no sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes
pagos, os quaes por instigaes do diabo, _que  o verdadeiro principe
do mundo_, movidos por cega paixo e levados por intoleravel presumpo,
_usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com
esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os
crimes?[10] No lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse,
o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso
que o sancto varo fazia do famoso texto biblico: _Per me reges
regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._
Podemos ns os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio)
acceitar as idas do celebre S. Satanaz? No ha nessas idas um orgulho,
uma intolerancia para com os poderes da terra, que no
comprehenderiamos, talvez, hoje, se no tivesse vivido no nosso seculo
uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleo
Bonaparte?

Vamos s ultimas censuras de v.. em que me parece no ter mais razo do
que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_,
no pde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma
no se pde entender seno o poder pontificio, no se pde significar
seno o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S.
Bernardo para me salvar da condemnao eminente. Nesta contenda, no sei
porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre
da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellaes
para o papa, e alludindo a dous bispos allemes carregados de crimes,
que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro,
haviam sido repellidos nas suas pretenses e offertas, S. Bernardo
exclama: _Grande novidade! Quando at o dia de hoje rejeitou Roma
dinheiro?_[11] Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao
governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa
Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, no
pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bca do
grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a
opinio do severo cluniacense, _era mais facil entrar honesto, do que
tornar-se l homem de bem_[12]; essa curia que me obrigaria a encher
paginas e paginas de citaes se quizesse colligir as passagens
relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se
tractava de receber ouro, passagens que se encontram s dezenas nos
escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, at, versos das
cantigas populares contra a cubia da curia, o que prova ter-se tornado
proverbial a corrupo de Roma[13].

Mas concedamos que, ultrapassando alm da curia romana, eu tivesse em
mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos
publicos so do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos
moraes e politicos poderem trazer graves turbaes, dias de amargura 
igreja, no  licito a todo e qualquer christo deplorar essas
consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_
ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem
de ter a inteno directa de o destruir? Ou eu no sei portugus, ou
empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se
diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que
se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a
ida de attribuir a esse individuo a inteno directa do suicidio? Ou
ser que as expresses simples, as phrases innocentes dos outros homens
se convertem em peste e veneno, quando saem da bca do feroz herege que
ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo
cerca do milagre de Ourique?

Em que tempos estamos ns? Para onde caminha a reaco religiosa? Que!?
Eu no poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um
papa, em relao aos futuros destinos da igreja, e S. Thoms de
Cantuaria poderia sem ser um reprobo lanar em rosto a Alexandre III as
gravissimas accusaes de o trahir, e de querer conduzi-lo  morte[14]?
Poderia S. Thoms de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII,
ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro
dizia _no possuo nem ouro nem prata_--responder-lhe _que tambem era
passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e
anda_[15] epigramma pungente atirado s faces de um papa, cuja cubia
no conheceu limites; poderia, digo, S. Thoms ser um doutor da igreja,
depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo
Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilho de igrejas_[16]?
Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florena, que no
duvidou de pintar com as mais negras cres os vicios hediondos de
Clemente V[17]. No chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque
taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o
erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia
Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de
doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que no
sou nenhuma dessas cousas, no tenho direito de aferir pelos principios
eternos da moral, da justia e da caridade evangelica as aces dos
papas sem renegar da igreja.

No disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos.
Cada qual pde v-los  luz que julgar verdadeira. Ao que, porm, eu
tenho jus  a averiguar se  exacta a proposio absoluta de v.., de que
o futuro da igreja  muito sabido, claro e indisputavel _para os
catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do
catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em
que a proposio assim absolutamente enunciada, conduziria ao
impossivel? O que  certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um
dos seus membros,  que ella ser perpetua, indestructivel. Mas por
quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de
tribulao; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, viro ou
no como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore
eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v..
sabemos. Est acaso v.., que eu creio profundamente catholico,
habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea
revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que
as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram  voz da curia
romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compresso
inexoravel, preferida  politica evangelica da tolerancia, do perdo das
injurias, da caridade sem limites, poder varrer para sempre dos animos
italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e
o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor pde v.. julg-los
legitimos ou illegitimos: no disputarei sobre isso. Mas que elles no
existam; que elles no possam triumphar algum dia, eis o que v.., por
certo, no affirmar com a mo na consciencia. E nessa hypothese, quem
saber dizer at onde chegaro os excessos da colera e da vingana,
azedadas pelo padecer, e at certo ponto legitimadas por elle, se
legitimidade se pde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem
catholico  licito imaginar, sem que por isso vacille a sua f cerca da
perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve
entristecer, aterrada pelo porvir;  licito suppr que as lagrymas dos
seus futuros martyres vem j de antemo cair-lhe ardentes sobre o seio
materno. Se attribuir ao gremio dos fiis, composto de homens, os
affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, no , de certo, das
tradies evangelicas, nem das tradies dos antigos padres. J no
seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quo frequente era pintar-nos
o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio
Magno no duvidava de dizer: _A sancta igreja, emquanto vive esta vida
de corrupo, no cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que
passa_: e n'outra parte: _A dor esmaga a igreja quando v os perversos
prosperarem na propria maldade_[20].  dessas vicissitudes a que allude
o sancto pontifice que eu falo;  a essas vicissitudes, demasiado
provaveis, que os erros dos homens, as paixes anti-christans do
sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previses, um caracter de
terribilidade.

Tenho dado razo de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto
que o limitado espao de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo,
o inhibisse de assim o practicar. Gsto de ser advertido dos erros em
que caio, quando  a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister,
e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas
ulteriores observaes v.. me convencesse de que eu errava.  ignorancia
presumida, ou  insolencia estupida,  que no costumo fazer a honra de
responder. Quanto a esta questo, que no suscitei, e que at deploro,
ella terminou para mim. Que os hypocritas faam visagens beatas contra a
minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas
so essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras
inquisitoriaes, merc de Deus, acabaram para sempre. A raa dos escribas
e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle
mais cordealmente amaldioou,  immortal e immutavel; mas deix-la
viver. Quem diz ao sapo:--no sejas asqueroso?--Quem diz 
vibora:--no sejas peonhenta?--Babem e mordam;  o seu destino,
coitados!

O que no tolerarei  que me chamem de novo, a mim ou aos meus
escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se
deshonram os pulpitos. Que os prelados faam ou no o seu dever a este
respeito, pouco me importa. Estejam certos de que no ser a suas
excellencias que pedirei desaggravo.




III

SOLEMNIA VERBA


AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES

(_Outubro, 1850_)



     Porque vir tempo em que muitos homens no soffrero a san
     doutrina; mas..... accumularo para si mestres conforme aos seus
     desejos:

     E assim apartaro os ouvidos da verdade e os applicaro s fabulas.

             _S. Paulo, Epistola II a Thimoteo c. 4. v. 3, 4._


Permitta-me v.. que, sem existirem entre ns outras relaes que no
sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando
se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa,
uma carta a v..

Esta carta ser um pouco extensa. Ser talvez seguida de outras. No o
sei ainda. N'uma questo litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que o
procedimento de alguns individuos da ordem sacerdotal converteu n'uma
contenda que no sei at onde chegar, v.. fez-me a honra de ser meu
adversario, escrevendo dous opusculos em que combate as minhas opinies
n'um, ou para melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria.
Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas epochas, v.. se houve
sempre para comigo com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia de
um espirito cultivado. Pde haver ahi uma ou outra expresso mais viva,
que feriria certas vaidades demasiado mimosas; se, porm, as ha, no me
feriram a mim, endurecido j nestes recontros, e que tambem no sou dos
menos sujeitos a ceder s vezes aos impulsos da vivacidade.

No meio dos que me tem combatido, v.. representa a meus olhos a parte
san, os homens sinceros do gremio, da eschola, do partido (como quizerem
chamar-lhe, porque os nomes importam pouco) a que v.. pertence.
Representa, digo, essa parte, postoque, e ainda bem que assim , no a
resuma. Igual testemunho devo deixar aqui, se os meus escriptos tem de
viver mais algum dia que eu, cerca dos Redactores do jornal _A Nao_.
Meus adversarios tambem, no recebi delles na impugnao das minhas
doutrinas, seno provas de considerao e de urbanidade.

Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita em que quiz encerrar-se no
seu ultimo e recente opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses
homens probos e leaes que estimo e respeito, embora julgue erroneas,
deploraveis at, as suas opinies n'uma contenda, que, no por minha
culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma direco fatal. Deus
queira que os imprudentes que lhe deram origem no tenham de chorar a
sua loucura com lagrymas amargas!

Sera bem triste que essa poro de compatricios meus em cujos coraes
o amor do passado  um sentimento puro, postoque, a meu ver, s vezes se
manifeste de modo pouco reflectido, me cressem traidor  sancta causa da
patria. Se os erros de nossos paes e os erros de todos ns os que
vivemos, erros que nos trouxeram a uma situao que no posso, que no
quero definir aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal, ameaado
na sua independencia e nacionalidade, brade por todos os seus filhos
para um esforo supremo, para o salvarem ou para morrerem, espero em
Deus, e depois de Deus na minha consciencia, que, sem crer no milagre de
Ourique, no serei o ultimo a acceitar esse terrivel convite. O passado!
Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com
mais saudade para as suas tradies? Mas as tradies de que tenho
saudade; mas o passado que eu amo, no o so essas lendas absurdas
(desculpe v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas por
interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que sejam, nem a
philosophia nem o christianismo consentem se faa o cu instrumento. Nos
tempos que foram o que me sorri, no s como saudade, mas (porque no
direi agora o que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem como
esperana, so as tradies dessa liberdade primitiva, postoque
incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para me,
para abrigo das sociedades da Peninsula; dessa liberdade, rude e
turbulenta como uma creana educada  lei da natureza, mas como ella
robusta e viosa; dessa liberdade que se estribava nos habitos, que
resultava de instituies positivas e exequiveis, e no de instituies
copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os
Pyreneus; dessa liberdade que tornava a monarchia uma cousa sancta,
necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraa sua e nossa,
foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio,
politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e Commentarios
das escholas d'Italia; dessa liberdade, que, desenvolvida e organisada
logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez  gloria immensa,
mas para ns mais que esteril, de nos convertermos em victimas da
civilisao da Europa, de revelar o Oriente  sua cubia, para logo
virmos assentar-nos extenuados n'um occaso de tres seculos; dessa
liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em
esforos impotentes de emancipao, que tommos como lices
d'extranhos, e que era mais velha para ns do que o era para elles.
Eis-aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual no s
creio, mas tambem espero.

Peo a v.. e aos animos honestos que pensam como v.. se persuadam de que
o homem que no admitte certas narrativas infundadas, nem por isso deixa
de ser bom portugus, e que, se no est excessivamente inclinado a
adorar o Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em Deus.

Com elles, com v.. a discusso grave, pausada, modesta,  possivel; 
mais,  uma necessidade do espirito, em que este se sente viver da vida,
a elle to congenita, do raciocinio. Mas como replicar seriamente a
homens, no s ignorantes e ineptos, do que elles no tem culpa, mas que
falsificam, truncam, omittem as palavras do adversario, que lhe alteram
as ideas, que, mettidos no charco mais fetido dos becos da Alfama ou do
Bairro Alto, atram s faces do _impio_ que passa quanto lodo lhes cabe
nas mos, contrahidas e convulsas pela colera? A taes desgraados que se
pde fazer, seno dar-lhes a triste celebridade dos Cotins ou dos freis
Gerundios, e envi-los  gerao futura, envolvidos no sudario do
escarneo, para lhe distrahir os tedios?

Se as expresses, talvez severas e acres em demasia, que me escaparam
n'um impeto de indignao contra a maioria do nosso clero, e no contra
os homens honestos e instruidos que pertencem a essa classe, como sem
pudor se inculca, no estivessem justificadas pelos actos que as
suscitaram, as consequencias do meu escripto t-las-hiam remido. Dos que
me impugnaram, foi aos seculares que coube a moderao, a lealdade, e a
elevao dos pensamentos; foi a sacerdotes que couberam as manifestaes
de odio incrivel[21], a transfigurao das minhas ideas, e a linguagem
sem nome das prostitutas. Isto  significativo.  que esses seculares
nunca tinham trajado a roupeta, usada a cubrir mais hypocritas e
devassos ignorantes do que vares religiosos e sabios: tinham, sim,
vestido a farda de soldado, costumada a despertar tantas vezes nobres e
grandes instinctos. E que me importam a mim esse odio impotente, essa
linguagem vergonhosa? O que o futuro ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o
v.. As ameaas, que ahi se murmuram pelos cantos, essas causam-me d. Se
ao poder publico faltasse a fora para manter illesa a segurana dos
cidados, devolvia-se a estes o direito da propria defesa. Mas os
Jacques-Clementes no apparecem seno onde a sinceridade das convices
degenerou em delirio, e no onde as crenas so especulao. Para ser
Jacques-Clemente requer-se mais alguma cousa do que saber assassinar; 
necessario saber morrer.

Entrarei na materia.

Na questo suscitada pelo modo como tractei na Historia de Portugal a
lenda de Ourique, e ainda outras lendas analogas,  necessario confessar
que se tem partido sempre de um ponto nebuloso e fluctuante. Para se
chegar a um resultado preciso era necessario ter convindo em certo
numero de principios, acceitar certas formulas de raciocinio. No se fez
isso. E todavia, a crtica historica tem regras para a credibilidade,
regras a que todo aquelle que tracta de taes materias deve sujeitar-se,
porque se estribam, no s na acceitao dos homens de sciencia, mas
tambem na razo commum. Estes preceitos so no nosso seculo, em que os
estudos historicos tm feito na Europa tantos ou mais progressos que as
outras sciencias, assaz severos; mas essa severidade comeou a
desenvolver-se desde os fins do seculo XVII, em que a congregao de S.
Mauro, aquelle brilhante seminario de homens illustres, creou a
diplomatica. O estudo dos archivos, estudo alumiado pela philosophia
crtica, mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas compilaes de
trabalhos historicos dos seculos anteriores.  de S. Germo dos Prados,
de S. Brs da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos da Frana
e da Allemanha, que partiu o movimento intellectual da Europa nesta
parte do saber humano. O que o seculo presente, amestrado por maior
experiencia, tem feito  apertar mais as condies da credibilidade,
evitando ao mesmo tempo todo o genero de preoccupao que possa proceder
dos interesses de partido politico ou da incredulidade em materias de
religio;  tambem o ter dirigido as indagaes historicas mais para o
estudo da indole das sociedades, do que para os actos dos individuos.
No nega as tradies da antiga sciencia; completa-as, aperfeioa-as. No
exame dos monumentos, na sua confrontao, tem dado exemplos de
imparcialidade e de paciencia, que mereceriam os applausos dos grandes
reformadores benedictinos, se podessem contemplar os resultados da
eschola que elles crearam, embora a sciencia moderna, como era natural,
os tenha deixado bem longe de si. Os doutos que tm comparado os
_Monumenta Germani Historica_ de Pertz, os _Monumenta Histori Patri_,
publicados em Turin, a Colleco dos Archivos d'Inglaterra, a
continuao dos _Scriptores Rerum Francicarum_, e emfim as demais
publicaes desta ordem com o que os maurienses nos deixaram nesse
genero, sabem que passos gigantes tem dado a crtica das fontes
historicas. O uso dessas fontes, a applicao dos preceitos a ellas, tem
produzido historiadores como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amri,
Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira conhece e admira.  a
estes typos que hoje forosamente ha-de tentar aproximar-se quem
escrever historia, se no quizer deshonrar-se e deshonrar a litteratura
do seu paiz. Foi essa aproximao que eu tentei, persuadido de que bem
merecia por isso da terra em que nasci. Se  assim ou no, pertence
decidi-lo quelles que vierem aps ns. No meio de uma revoluo
litteraria no ha desafogo de animo bastante para se fazer inteira
justia, nem aos meus esforos, nem  candura das minhas intenes.
Conheo a difficuldade de se abandonarem antigas preoccupaes, e seria
louco se me irritasse com isso.

Mas para refutar as impugnaes que at aqui tm apparecido no me
parece necessario invocar a sciencia no seu estado actual, e nem sequer
a sciencia anterior na sua applicao  historia profana. Bastam-me as
regras acceitas pelos historiadores ecclesiasticos mais respeitaveis,
inculcadas por theologos, estabelecidas por membros illustres do clero,
a quem nem uma unica voz ousar accusar de menos crentes, ou sequer de
menos piedosos. , creio eu, e v.. o julgar, acceitar a situao mais
desvantajosa possivel:  tambem o que eu j tinha feito invocando a
regra de Vicente de Lerins. Se a religio (cuja base  a crena em
cousas que excedem a comprehenso humana, e que nos impe a synthese, o
dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente  analyse) exige dos
factos tradicionaes, antes de os acceitarmos, as condies de terem sido
acreditados _sempre, em toda a parte, e por todos_, quem pede para crer
ou deixar de crer factos puramente humanos (sujeitos pela sua natureza a
toda a discusso possivel) apenas as garantias de liberdade intellectual
que a igreja, to parca em conced-las, concede aos fiis para
acceitarem uma parte das suas crenas, no abdica evidentemente de uma
liberdade, de uma vantagem que  sua, que ninguem lhe disputaria? Mais
de uma vez terei talvez de appellar para a probidade litteraria e para a
intelligencia de v.. e dos homens sinceros e honestos que pensam como
v..; mas aqui, parece-me to evidente a materia, que a deixo  discrio
do espirito mais vulgar, da consciencia mais prevenida. Se Galileu,
quando descobriu que era a terra e no o sol que andava, tivesse
presentes as condies do Comonitorio, no o teria affirmado, e evitaria
as perseguies da inquisio, postoque deixaria para outro a gloria de
ter descuberto um facto importante. Aquelle canon, applicado  sciencia,
 mais perigoso para a verdade nova do que para o erro antigo.

Eu disse que as auctoridades que estabeleceram as regras historicas
acceitas por mim sero ineluctaveis para aquelles mesmos que mais
ferrenhos se mostram em conservar quanto os tempos passados nos
transmittiram. Essas regras, pois, ao menos as principaes, permitta-me
v.. que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver uma parte do clero
insultar-me nos pulpitos e na imprensa, calumniar-me nas praas e
corrilhos, porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas
_para se estudar e escrever a historia da igreja_ por homens que so a
gloria e honra da classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos, na
consciencia de todos no estivesse quanto escrevi cerca da decadencia
intellectual da maioria do nosso clero, parece-me que o que vou
transcrever sera medida sobeja para por ella se aferir essa verdade. J
que falei dos religiosos da congregao de S. Mauro, comearei pelo mais
celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon. Eis o que elle nos
ensina:

1.^o Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da
historia  em evitar todos esses vicios em que  facil cair; quero
dizer, evitar admittir por verdadeiro o que  falso, ou deixar-nos
dominar pelas affeies particulares dos historiadores.  necessario,
primeiro que tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se  idoneo e
sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou
seita...

2.^o Devemos averiguar _se o auctor que lemos  synchrono_
(contemporaneo); se escreveu elle proprio, ou se copiou outro; se 
prudente nas suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas;
porquanto, dada a paridade no demais, deve preferir-se a opinio do
auctor coevo  do mais moderno. Digo--dada a paridade no demais--porque
pde acontecer, e acontece s vezes, escrever a historia com inteira
madureza o auctor no synchrono, estribado _em monumentos serios_ e boas
razes, e o contemporaneo muito ao contrario, ou seja por negligencia,
ou seja por ignorancia dos factos, ou seja por alguma preveno, ou
finalmente porque o _subjuga a fora do proprio interesse_.

3.^o Segue-se d'aqui _no se dever confiar demasiado naquelles factos
sobre que os escriptores rigorosamente contemporaneos, ou quasi
contemporaneos, guardaram silencio_; postoque possa acontecer que um
auctor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados
em logar occulto quando os factos aconteceram, ou visse escriptores
synchronos, ou quasi synchronos, cujas obras depois se perdessem.

_Se, porm, esses escriptores, ou os que lhes succederam, no intervallo
de um at dous seculos, nada dizem a tal respeito, e no obstante isso,
um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho ou
auctoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente esses factos,
bem pequena conta se deve fazer delle_, alis abririamos ampla estrada
para errarmos, e para enganarmos os outros.

4.^o Com todo o cuidado nos devemos premunir para no sermos
illaqueados por alguns auctores suppositicios, inventados nestes nossos
tempos...

5.^o No se deve proscrever qualquer auctor por um ou outro defeito de
paixo ou allucinao, pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeio
propria da natureza humana, comtanto que seja sincero e pontual no
resto...

6.^o No se devem desprezar os antiquarios, auctores de resumos
historicos, e compiladores...

7.^o Quando as narrativas variam, no nos devemos deixar attrahir pela
considerao do numero, mas sim pelo merito e gravidade[22] dos
auctores; visto que muitas vezes acontece que a auctoridade de um auctor
grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos f,
_porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discusso e
diligente exame das cousas_...

8.^o Por este mesmo motivo no deve fazer-se grande fundamento na quasi
innumeravel multido de casos que muitos modernos costumam amontoar nas
vidas de certos sanctos... Dizendo isto, sinto apertar-se-me o corao,
e com magua devo accrescentar, que so muitissimo mais exactos os
auctores profanos escrevendo vidas de ethnicos, do que muitos christos
relatando vidas de sanctos, o que j no receou affirmar Melchior Cano,
referindo-se a Diogenes Laercio e a Suetonio.

Ouamos ainda n'outra parte o fundador da diplomatica francesa:

 necessaria a crtica para distinguirmos as historias verdadeiras das
falsas; para no darmos temerariamente credito a narraes
supersticiosas, a vans opinies, a delirios aereos, a _milagres fingidos
ou duvidosos_, a _escriptos suppostos dos sanctos padres_. O veneravel
Guigo, quinto geral dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma de
crtica: ..._Buscae a prova de tudo; o bom respeitae-o. Quem cr de
prompto  leve de corao._

Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador da igreja catholica.
Depois de varias consideraes sobre os documentos falsos com que o
clero innundou a Europa nos seculos de trevas, e da falta de instruco
que entre elle reinava, o historiador observa:

Outro resultado da ignorancia  tornarem-se os homens credulos e
supersticiosos, por falta de principios seguros de crena e de exacto
conhecimento dos deveres religiosos. Deus  poderosissimo, e os sanctos
tm alto valimento para com elle: verdades so estas que nenhum
catholico rejeita: logo devo acreditar todos os milagres attribuidos 
intercesso dos sanctos. M concluso. Cumpre examinar as provas delles,
e com tanta mais exaco, quanto esses factos mais incriveis e
importantes forem. Porque, dar por certo um milagre falso nada menos ,
segundo S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus, como mui
judiciosamente observa S. Pedro Damio. Assim, longe de ser acto de
piedade cr-los de leve,  a propria piedade que nos obriga a
averiguarmos com rigor as provas em que se fundam. _O mesmo se deve
dizer das revelaes, das apparies de espiritos, das operaes do
demonio... Em summa, toda a pessoa dotada de bom juizo e religiosidade
deve ser cautelosissima em acreditar factos sobrenaturaes._

Mas observemos as precaues de que Fleury se rodeava, as balisas que
para si proprio punha, ao comear o immenso lavor da sua _Historia
Ecclesiastica_, ainda hoje no substituida, apesar de tantas
monographias excellentes com que depois tem sido illuminada, por um ou
por outro aspecto, n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis os
limites que elle estabeleceu  credibilidade n'um genero de escriptos
onde esta poderia ser mais ampla, limites que  _fortiori_ no ser
nunca licito ultrapassar em matria de tradies humanas. Mas antes
permitta-me v.. que cite algumas passagens, as quaes me parecem
grandemente applicaveis a essa parte do clero, que, em vomitando, no
pulpito ou na imprensa, contra quem diz a verdade, quantos adjectivos
injuriosos contm o diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra
dessas fabulas e crendices que esto costumados a propalar entre o povo,
provavelmente pela mesma razo por que prgam mal, isto  _porque os
festeiros gostam d'isso_, embora os concilios lh'o prohibam, os
apostolos os condemnem, os membros mais doutos e pios da igreja
catholica lhes mostrem o abysmo em que se precipitam! Para onde has tu
fugido, oh religio de Christo?!

Vejo bem--diz Fleury--que a minha historia no ha-de agradar aos
espiritos acanhados, atidos s suas preoccupaes, e sempre promptos em
condemnar os que pretendem desengan-los; aos que tapam os ouvidos
quando a verdade soa, para se abraarem com as fabulas, buscando
doutores que vo com elles. No lhes faltaro livros acommodados ao
paladar. Escrevo em vulgar para ser util aos homens de juizo...

Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um de credulidade, outro de
critica. Nem s a simpleza faz credulos. Pessoas ha que o so por
politica e por deploravel sobranceria. _Julgam que o povo  incapaz ou
indigno de saber a verdade; e tem por necessario alimentar-lhe todas as
opinies que lhe foram inculcadas como religio_, receiosos de abalar o
que  solido, atacando o que  frivolo. Na essencia, estes suberbos
politicos so ignorantissimos. Desconhecendo a religio, no a tomam a
serio, e nada os liga a ella seno as preoccupaes da infancia e os
interesses temporaes. Nunca examinaram as seguras provas do evangelho,
nem sentiram a excellencia da sua moral e a esperana dos bens eternos.
_ por isso que no ousam profundar as cousas antigas e temem
conhec-las_: sabem que lhes no so favoraveis. Querem crer que sempre
se viveu como hoje, porque no querem mudar de vida, como se nos fosse
proveitoso enganar-nos a ns mesmos, ou se a verdade podesse trocar-se
em mentira  fora de averiguaes. Graas a Deus, a f christan passou
pelo chrysol; o que ella _teme_[23]  que no a conheam.

A outra especie de pessoas credulas em demasia so christos sinceros,
mas fracos e escrupulisadores, que  propria sombra da religio
respeitam, e sempre receiam crer de menos. Falta a uns a instruco;
cerram os outros os olhos, e no querem fazer uso do entendimento. 
para os taes objecto de devoo crer quanto escreveram os auctores
catholicos e quanto cr o ignorante vulgo. A meu vr, a _legitima
devoo consiste em prezar a verdade e a pureza da religio, e em
observar, primeiro que tudo, os preceitos expressamente estabelecidos na
sagrada escriptura_. Ora, vemos que S. Paulo recommenda repetidas vezes
a Tito e a Timotheo que evitem as fabulas, predizendo tambem que uma das
desordens do fim do mundo ser o affastarem-se os homens da verdade para
se aterem a crendices; vemos que as fabulas eruditas no merecem menos
desprezo a S. Pedro que os contos de velhas de S. Paulo; e do mesmo modo
que elle condemna as fabulas judaicas, teria condemnado as christans, se
j ento as houvesse. Que diro a isto aquelles que a timidez torna to
credulos? No tero escrupulo em menosprezar semelhante auctoridade?
Diro que nunca houve fabulas entre os christos? Seria desmentir a
antiguidade em peso...

A critica  portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradies,
deve averiguar-se quaes so dignas de credito; devemos faz-lo, at, se
no queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem
que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os
milagres esto bem provados, para lhe no levantarmos falso testemunho,
attribuindo-lhe os que elle no fez.

Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico cerca dos milagres,
estribado nos livros que Deus inspirou. Quem ser, pois, o impio, o
incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos
homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que
esquecidos dos deveres, no digo do sacerdocio (porque neste caracter, o
seu procedimento no tem nome), mas do simples christo, ousam perguntar
ao historiador sincero: _Se  necessario, se  util que o historiador
se constitua campeo acerrimo contra essas tradies que deturpam a
historia?_ e que respondem:--_ um arrojo mui imprudente e reprehensivel
no historiador semelhante intento. Que preciso, que vantagem ha em
destruir as crenas theocraticas[24], que uma tradio de seculos fora
radicando no corao do povo? Nenhuma ha:_ e depois accrescentam esta
maxima impia de Laharpe--_a politica sabia e devia tirar partido do
poderoso movel da geral crena, cujos effeitos so geralmente bons em
todo o governo, mesmo quando a crena  erronea!_ No peo a v.. to
cavalheiro e to indulgente para comigo; peo ao homem que mais me
odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os
desgraados que no se envergonham, christos e sacerdotes, de invocar
contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que
insultam, no a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia,
mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo.

Mancebos, cujos coraes generosos a indignao pde desvairar! No meio
destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos
descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos
hombros seu velho e j to roto manto, e nua e vinolenta pragueja a
verdade, atira com a f aos ps da politica, rasga as sacras paginas,
maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, no volteis,
cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. No! A philosophia,
a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que esto sanctificadas no
livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no
templo ouvirdes dizer que a mentira  sancta, que o povo s pde ser
virtuoso se crer em falsos milagres, sa, porque o templo est polluido
pela blasphemia e pela calumnia; mas no renegueis da cruz. A cruz est
pura; a cruz ser eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio
chegasse, o que no creio, a corromp-lo inteiramente; se no achassemos
uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz l
est hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos
irmos abraar com ella: os mortos no tem ouro, os mortos no so
festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi no se tem
blasphemado.

Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christo sincero o
ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de
Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preo
por que o venderam, acolhamo-nos s placidas discusses da sciencia, e
vejamos, como j disse, as mais importantes dessas regras que o pio e
douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia
credulidade.

No tenho em conta de provas, seno o testemunho dos auctores
originaes, isto , daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou
pouco depois_. Porque a memoria dos successos no pde subsistir por
muito tempo sem ser escripta. _Bastante ser se durar um seculo._ O
filho pde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou av lhe
referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos
que tem passado por varias geraes no obtem a mesma certeza: cada qual
lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar.
_ por isso que as tradies vagas de factos muito antigos, que tarde ou
nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando
a factos provados. _Nem se diga que as historias pdem ter-se perdido;
porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas
nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos
anteriores a elles muitos seculos; _se no citam os auctores d'onde os
tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os
rumores vulgares_.....

Os proprios auctores contemporaneos no devem adoptar-se sem exame...
deve averiguar-se bem se o escriptor  digno de f, quasi como quem
inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em
outros diplomas da epocha, deve ser preferido s narrativas dos
historiadores._

At aqui Fleury. Para estas largas citaes preferi dous homens de
indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu
poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagos ou
protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma
questo que evidentemente no interessa os dogmas da nossa f. Poderia
invocar a bella sentena de Cicero: _Quem ignora que a primeira lei da
historia  no ousar dizer a menor falsidade, e a segunda no nos faltar
jmais valor para dizermos a verdade?_  certo que uma parte do clero
portugus do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--_Ignoramo-lo
ns._--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no
seculo XVII, as palavras de Joo Leclerc:--Quando se escreve a
historia, _sobretudo de tempos antigos_, no  licito dissimular a
minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita
muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulao, inutil para aquelles,
 profundamente damnosa a estes.--No me quiz aproveitar dessas
auctoridades summas, porque um no era christo, outro no era
catholico. Parece-me que  levar longe o escrupulo. E todavia, o
protestante Leclerc estribava-se na opinio de S. Isidoro
Pelusiota--Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras
encobrem a verdade, muito mais desgraados me parecem de que os que no
a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho no a
alcanaram, estes no so talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo
dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam,
commettem mais grave e imperdoavel peccado.

Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo
eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Sero os theologos de
profisso mais indulgentes para com as lendas e tradies no provadas?
Exigiro, ao menos em referencia  historia da igreja, maior credulidade
nos que a estudam ou escrevem? Ouamos o celebre Melchior Cano, o qual
ninguem accusar de excessivo amor pelos fros e liberdades do
raciocinio: eis algumas das suas observaes cerca do credito que deve
dar-se s tradies infundadas.

A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das
verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra
perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem
presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que
os presenciaram_...

 cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a
historia ecclesiastica no podem ser gente boa e sincera, e que toda a
sua narrativa  tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o
erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas so
as queixas de Luiz Vives cerca das historias inventadas no seio da
igreja; _prudentes e graves as arguies que dirige quelles que julgam
obra pia fazerem de mentiras religio_, cousa altamente perigosa e
profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos
acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos
bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado
tiraro, talvez, se no negar-se f s cousas verdadeiras por causa das
falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa
consciencia auctores de inteira veracidade_.

Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em
seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade,
outro bem diverso extracto. Juro que no o fao com o intento de
humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vr, cega um erro
deploravel.  para vingar a religio injuriada;  para dar ao paiz um
desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios
recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em
completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. S advirto
que a passagem  concepo de um sacerdote, que celebra por certo
tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as
paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras
que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro
tempo:

Hypocritas! Bem prophetisou cerca de vs Isaias, quando disse:

Esta gente honra-me com os labios; mas o seu corao est affastado de
mim.

Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peo venia de lanar,
depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que  dirigido a um
homem to delicado como v..

Os historiadores tm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios
singulares, que registavam em seus escriptos _no eram fundados seno em
rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta
precauo, j porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... j
porque elles no julgassem dever abalar a crena vulgar; bem convencidos
que  sombra de um prejuizo repousava s vezes uma verdade util, a que
talvez tivessem vergonha de prejudicar.

Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos
historiadores, cerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem
dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario  querer campar por uma
anomalia extravagante e ridicula..._

Se, porm, gravemente offende o melindre patriotico de uma nao
aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas
tradies historicas constantemente recebidos e venerados; quanto no se
torna mais altamente _ru d'este attentado_ aquelle escriptor, que no
s os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de  cara descuberta os vir
insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente
tenha commettido _to reprehensivel e extranho excesso_,  por certo o
auctor da carta aviltante, a respeito da Appario de Christo a D.
Affonso Henriques. _ uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e
aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropra...

Como  crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro
por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, no receio
diz-lo_, por effeito dessa universal crena dos sabios, _perdido a sua
natureza e deixado de o ser!!!_...

Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a
averiguar tranquillamente se os theologos de profisso concordam com os
eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda
algumas palavras de Melchior Cano.

Achareis outros, no to ineptos, mas quasi to imprudentes, que no
buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar
onde  raro encontr-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto
frequentemente aos inconstantes e leves de cabea; _porque os homens
graves e severos no costumam andar  caa dos dictos vos do vulgo_.

Desamos j aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como
lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenas mais sanctas e
legitimas em milhares de coraes. Vacillou, acaso, por isso a critica
dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de
tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua
falsa miragem? V.. o julgar pelas doutrinas de muitos vares religiosos
dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam
precedido. Por exemplo, o theologo piemonts Denina, diz-nos:

Acontecem algumas cousas fra da ordem natural, que, de per si s, so
incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres,
os quaes, _nem  licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem
acceitar todos sem seleco_...

Pertence  prudencia do historiador _nada escrever, que no saiba por
si proprio, ou no se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_,
cumprindo-lhe, no menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem pde ter
conhecimento do que narra, se no viveu no tempo em que os factos
aconteceram; nem sab-los de pessoas fidedignas, se estas no os
presenciaram_; nem escapa de credulo, se no explicar e expender as
razes, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o
fazem _nenhum credito merecem_...

Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar;
salvo constando que fra curioso em indagar e explorar...

Se o historiador referir cousas, no do seu tempo, mas succedidas
muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores
d'onde as tirou_, sendo _alis daquelles que as podiam saber_...

No duvido de chamar _mu historiador_ a todo aquelle que devendo ter
por norma o no ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo
para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que
motivo for_...

Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim
pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz
mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos,
a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituies de historia
ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito
canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As seces desses compendios
relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais so do que o
desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de
Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em
summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram
ex-professo ou accidentalmente da crtica historica. Andam esses livros
nas mos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este,
coitado, no sabe ler. No serei, por isso, demasiado extenso em
cit-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem
sobretudo ao intento.

Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente,
ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou
por vontade nos _queiram_ illudir, s podmos acquiescer ao seu
testemunho, se no houver razes sufficientes para duvidar da sua
habilidade ou sinceridade.

A auctoridade das testemunhas no  uma e a mesma, e portanto deve
attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relao aos
sentidos, 2.^o em relao ao entendimento, 3.^o em relao  vontade. Em
relao aos sentidos, essas testemunhas ou so de vista ou de ouvida.
_As de ouvida ou so coevas, ou no coevas mas que ouviram aos coevos o
que narram_...

D'aqui se segue, _que pouca f deve dar-se quillo que os escriptores
ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de
mencionar_...

A verdade dos conhecimentos historicos no depende de modo nenhum da
abundancia dos historiadores, visto que _no provm maior certeza a um
facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais
modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos
elles junctos no valem mais do que o primeiro que o referiu_...

A considerao do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que
escreveu importa muito em relao ao seu intuito de falar verdade.
N'alguns paizes a liberdade de escrever  franca; n'outros opprimida;
n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a
verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia
romana receberam s vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete
cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde
vigorou o terrivel tribunal da inquisio, a fogueira estava prompta
para a verdade._

No faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias
passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a
outros.

Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo
Dannenmayr:

Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos
principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor
de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos
e largamente provados._

Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina,
uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas
sinceros nas suas prevenes, houvessem de julgar-me, no tanto no foro
da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha
direito de trazer o litigio, mas n da mais restricta piedade. Em these,
a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e
que apologia, meu Deus!) das tradies fabulosas, no  comigo;  com os
apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os
theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava 
hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente
no se lembrou de que lhe caa a mascara, e de que alguem poderia
levant-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de
justia lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz
respeito, o meu dever  provar aos homens sinceramente pios que,
rejeitando falsas lendas, no ultrapassei os limites de uma crtica
irreprehensivel. Ser esse o objecto da carta immediata, que em breve
espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razo das minhas opinies
cerca da maioria do nosso clero, e cerca da curia romana.
Compelliram-me a isso; f-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os
conhecesse: ho-de ser satisfeitos.

Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a
vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas
suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes
dias de tempestade!




IV

SOLEMNIA VERBA


SEGUNDA CARTA

AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES

(_Novembro, 1850_)


Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais
exaco, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas
as principaes regras da critica, em relao s fontes historicas. Dessas
regras resulta o que a boa razo est por si indicando; que  necessario
premunir-nos contra a credulidade, no s por honra da sciencia e pela
considerao do proprio credito litterario, mas tambem, o que  mais
grave, para no deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos
livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os
outros se consubstanciam,  o atermo-nos unicamente aos testemunhos
synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que
presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos
contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer
sobrenaturaes e incriveis para a razo humana; quer elles nos sejam
transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos
do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porm, se
tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto 
certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impe as
palavras de S. Paulo, o dever de no levantarmos falsos testemunhos a
Deus.

Que podia eu fazer em relao ao supposto milagre de Ourique, escrevendo
a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas,
historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame
attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de
provas daquella celebre tradio, s tinha servido de convencer-me das
aberraes em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados,
quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os
caracteres desta a um preconceito. No me era possivel omittir a batalha
de Ourique. Que podia eu fazer, repito, cerca do milagre da appario?
Ou mentir  minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospr as
doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram
de critica historica, calcar aos ps a maxima do mais illustre escriptor
romano, ou ento manifestar sem hesitao as proprias convices, que
julgava e julgo legitimas, isto , proceder de um modo que v.. mesmo cr
nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, no sei se
est em perfeita harmonia com a ida geral que predomina nas
consideraes que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os
inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria
commum, da manifestao das minhas doutrinas.

Disse, pois, o que supps e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me
dilatar, sem exaggerao, sem pretenses a ter feito um importante
descobrimento historico; porque realmente o no era: disse-o
singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as
incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma
attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito diz-lo, nem v..
nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um
pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de
sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides
concentravam todas as foras em Africa, para salvarem o imperio da
ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem
a heroica guarnio de uma praa como Aurelia ao seu triste destino. A
narrativa anterior, o quadro da situao dos lamtunitas e das
perturbaes quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam
o leitor para por si fazer conceito das dimenses da batalha de Ourique.
Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar,
talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum
modo desculpar a significao exaggerada que depois se lhe attribuiu.
Sobre a appario disse apenas o restrictamente necessario para o leitor
vulgar conhecer que eu no a admittia. Se tivesse o proposito deliberado
de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo,
cr v.. que eu no teria recursos para aproveitar o lado contradictorio
e at ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se no possa
encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da
historia? Cr v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da
inveno dessa maravilha, e avali-las severa ou, se quizerem,
malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me
dizer que foi necessaria demasiada preveno contra mim, ou a favor da
inviolabilidade da appario, para se no ver que procurei, quanto me
era possivel sem offender a verdade, no converter os factos que se
prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas
com que finalisa cada volume do meu livro so destinadas para os homens
da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opinies. Estas
notas so, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores no se
cansa com essas discusses tediosas. Foi, porm, ahi que eu alludi ao
ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaa, o que fiz apenas pelo
desejo de dar uma satisfao aos homens professionaes. Se eu fosse o
impio, o atheu, e no sei que mais, que por ahi me chamam os padres
ignorantes e mal procedidos, no tiraria vantagem dessa falsificao
insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas
do cu para fins terrenos? No practicaria ao menos aquillo que a
justissima indignao de qualquer homem religioso o levaria talvez a
practicar? Se tal se houvesse de crer, no deveriam qualificar-me de
impio, mas sim de insigne mentecapto.

Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as
minhas opinies, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de
Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de
juramento conservado em Alcobaa, eu fiz uma citao
contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano no
nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao
citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaa?--_Quem desejar conhecer a
impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc._--Se o auctor
concorda comigo em que elle  falso, onde est a improcedencia da
citao? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que
v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma
que acreditava na appario, posto negasse a genuinidade do pergaminho
de Alcobaa, e que eu no creio nem no documento, nem no facto.
Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. No era, porm, para a
opinio manifestada pelo academico em relao ao successo, mas sim para
as suas razes contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o
que elle diz em favor do facto no  mais do que repetir o que outros
disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente
de Fra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, d como
provavelmente tirada _de outro original falso_. O que se v de tudo
aquillo  que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o
que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaa, quiz ao menos
salvar-se, protestando pela pureza da sua crena no milagre de Ourique.
Talvez, se eu vivesse ento, fizesse o mesmo, em atteno 
circumstancia que nos recorda Gmeiner: _onde vigorou o terrivel
tribunal da inquisio, a fogueira estava prompta para a verdade_.

Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho pelo meu paiz desta
necessidade de disputar cerca de um diploma falso, que se acha
depositado nos archivos do estado, onde qualquer pessoa pde examin-lo.
Qualquer pessoa, sim; porque no  preciso ter a menor ida de
paleographia para o reconhecer por falso. Basta pr-lhe ao lado dous ou
tres diplomas genuinos do meiado do seculo XII, e comparar. Esses
multiplicados recursos que possue a diplomatica para desmascarar
falsarios so aqui perfeitamente inuteis. Estou certo de que v.. nunca o
viu; porque tambem estou certo de que, se o houvera visto, eu acharia
v.. a meu lado para dizer aos homens sem pudor que ainda ousam inculcar
como legitima essa inveno torpe: _Sois uns miseraveis!_

Sinto sinceramente que v.. se dignasse de tomar para si, a favor da
appario, um argumento que devia pertencer precipuo aos apologistas dos
clerigos ignorantes e devassos. Consiste elle em que, negando eu que a
tradio de Ourique remonte aos tempos a que se refere, devo dizer
quando, como, e para que a forjaram. Onde existe semelhante canon de
critica historica? O que sei  que ella comeou a apparecer no ultimo
quartel do seculo XV, mais de trezentos annos depois da epocha em que se
diz succedido o milagre; o que sei  que em nenhum escriptor, nem em
nenhum documento legitimo, coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de
semelhante tradio; o que sei  que os escriptores modernos que a
publicaram no se referem a testemunho contemporaneo ou proximo; o que
sei, portanto,  que as regras de critica adoptadas por homens no menos
pios que sabios me obrigam a rejeit-la. Diga-me v..: se um devedor seu
pretendesse pagar-lhe certa quantia em moeda falsa, v.., depois de a
examinar e convencer-se da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios
por que pretende julgar-me, devia reconhec-la por boa e acceit-la,
emquanto no podesse mostrar quando, como, por quem e para que fora
forjada. No v v.. que uma tal regra de critica nos obrigaria a adoptar
como verdadeiras at as lendas indicas de Vishn e de Brahma?

Outro argumento me faz v.. que eu tambem desejara tivesse deixado aos
ex-frades ignorantes e hypocritas:  o da impossibilidade de nossos avs
terem adoptado uma tradio que no fosse verdadeira. Quer v.. que lhes
concedamos a mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma honra, o
mesmo amor da propria fama e dignidade que ns temos. Concedo por um
momento. Mas o patriotismo de v.. no ser to inimigo da logica, nem
to cego, que recuse os mesmos dotes aos avs dos actuaes castelhanos,
franceses, italianos e allemes. Por aquella doutrina, v.. deve
acreditar todas as lendas desses paizes, ainda quando a critica
historica as tenha feito abandonar aos castelhanos, franceses, italianos
e allemes de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo, acreditar _ fortiori_
a historia da papisa Joanna, embora j os proprios protestantes se riam
dessa calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou por
seculos. Mais ainda: v..  assaz instruido para no ignorar qual foi a
civilisao dos arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes
hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura, qual a nobreza do seu
caracter. Apesar disso, elles nunca deixaram de crer na tradio dos
milagres de Mafoma. No  de esperar da justia de v.. que recuse a esse
povo to culto os dotes intellectuaes e moraes que attribue a nossos
avs. Adoptar v.. as lendas mussulmanas cerca do propheta de Mekka?
Principios que provam tanto, ou antes que provam tudo, permitta-me v..
desconfiar de que no provam nada. Deus nos livre de pensar que uma
fabula que se generalisa, se converte por isso em verdade. Semelhantes
doutrinas, deixe-as v.., christo, cavalheiro, e homem de letras, para
essa parte da cleresia, que quer lucrar com as illuses populares. A
ns, christos, incumbe recordar-nos daquellas tremendas palavras do
divino Mestre:

Guardae-vos do fermento dos phariseus, que  a hypocrisia:

_Porque nenhuma cousa ha occulta que no venha a descubrir-se; e
nenhuma ha escondida que no venha a saber-se_....

E todo o que proferir uma palavra contra o filho do Homem ser-lhe-ha
dado perdo; mas _quelle que blasphemar contra o Espirito Sancto, no
lhe ser perdoado_.

V.. sabe, to bem como eu, que, segundo Sancto Agostinho, uma das
blasphemias contra o Espirito Sancto _ o negar a verdade conhecida por
tal_.

E  isto o que responde a todas as consideraes que v.. me faz sobre a
conveniencia de no desilludir o povo cerca das suas tradies
mentirosas: so estas palavras do Salvador, que fulminam os phariseus
modernos, como fulminaram os antigos, que me obrigam a falar verdade
escrevendo a historia. Ainda que essas consideraes fossem exactas, a
patria verdadeira do christo  o cu, cujas portas ficaro cerradas,
conforme a doutrina de Christo, aos que tiverem desmentido a verdade na
terra. A patria deste mundo  nosso dever am-la, sacrificar-lhe tudo,
menos a honra, menos as esperanas de alm do tumulo, menos a f.  esta
a mais sancta das tradies que herdmos de nossos paes. O crucifixo
sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os que nos geraram, no o
insultemos na vida, para podermos tambem despedir o ultimo alento,
abraados com elle, sem terror, sem remorsos, e para o legarmos
immaculado a nossos filhos; para que elles, no momento de o
transmittirem moribundos a nossos netos, no se lembrem horrorisados de
que essa imagem do Redemptor j foi bafejada pelo extremo respirar de um
blasphemo. Amemos e respeitemos a tradio divina, e tenhamos esforo
bastante para repellir mentiras, sobretudo quando, segundo as palavras
do apostolo, ellas envolvem um falso testemunho contra Deus.

Isto  para os christos. Para os falsos politicos, que cuidam ser a
religio apenas um instrumento que serve para conter os humildes e
pobres, a que Christo chama os grandes do seu reino, e a que elles
chamam massas brutas; para esses, que no crendo acaso em Deus, accusam
os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores de nossa gloria;
para esses liberaes e at democratas, que desprezam o povo ainda mais do
que o desprezavam os poderosos de outros tempos; para os taes no
applico eu s o dicto de Fleury, de que so ignorantissimos em materias
de religio; digo tambem que o so em materias de politica. Para o povo
ser livre,  necessario que seja religioso e honesto; no que seja
credulo. Para que elle seja religioso e honesto  necessario que conhea
as doutrinas do evangelho, que no so mais do que a confirmao divina
da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpre
inculcar-lhe os principios do christinanismo, e as consequencias
daquelles principios: cumpre illustr-lo, em vez de o conservar na
ignorancia; fazer-lhe sentir que a fora de practicar grandes e nobres
sacrificios, to recommendados por Jesus,  o caracter que distingue o
espirito immortal do homem do instincto que anima as alimarias. 
preciso convenc-lo de que o patriotismo, de que esse puro e sancto
affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as affeies do
corao, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a
intemperie das estaes, para irmos morrer n'um campo de batalha,
salvando a terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do
nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de nossas irms e mulheres, 
a manifestao mais solemne da energia do espirito humano, e da
abnegao christan. E estas verdades eternas; estas verdades, que,
gravadas nos coraes do povo, tantas vezes tm salvado as pequenas
naes dos intentos ambiciosos das grandes, d'onde se deduzem?  das
invenes dos milagreiros e falsarios, ou das divinas paginas da biblia?

V.. deve conhecer, como homem de letras que , a historia dos povos
mussulmanos. Houve nunca no mundo crena que se estribasse tanto como o
islamismo em falsos milagres, quasi sempre conducentes a inspirar o amor
da guerra e o enthusiasmo das multides credulas? E todavia, quaes foram
os effeitos desse enthusiasmo, que no correspondia a doutrinas accordes
com os instinctos naturaes da nossa alma, que no se fundava em
convices reflectidas, na certeza moral do dever, mas que se inspirava
de promessas fingidas do cu? Os mussulmanos devastaram e submetteram a
melhor poro da Asia e da Africa, e ainda uma pequena parte da Europa:
formaram quinze ou vinte naes de falsos crentes, e estas naes
cresceram e civilisaram-se combatendo sempre. E depois? Depois, quando
foi preciso conservar o edificio; quando se tractou de defender a
patria, em vez de a tirar aos outros; quando foi preciso repellir em vez
de aggredir, mostrar essa perseverana, que nem se exalta com o
triumpho, nem desanima com o revs; que padece, calada e soffrida; essa
perseverana que  a mais poderosa arma dos povos ameaados na sua
existencia, tudo faltou. As naes mussulmanas desmembraram-se,
fundiram-se, annullaram-se umas, desappareceram outras, e conservando
todas as suas crenas, todos os seus milagres, ei-las ahi esto as que
restam, ludibrio da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo ao
crepusculo da passada gloria, lanando nos dias da afflico e do perigo
os olhos para o occidente, a vr se os filhos da cruz estendem o brao
para proteger o crescente. As tradies das victorias, as maravilhas
celestes dos tempos heroicos de Islam l esto gravadas na memoria de
todos. Porque no salvam, no regeneram ellas essas sociedades
atrophiadas e moribundas?

Ainda hoje ha homens das novas idas, os quaes se dizem cheios de
illustrao e de philosophia, que, abandonando os milagres suppostos,
no porque os tenham por infundados ou absurdos em si, mas porque suppe
que o fanatismo pde lucrar com elles, no querem que se toque nas
tradies humanas que se ligam  gloria nacional.  verdade que no
sabem bem que deva consistir a gloria de uma nao, porque nunca
pensaram nisso. Para elles, que vivem no seculo XIX, onde quer que
pereceram milhares de homens, combatendo por interesses que no
comprehendiam, ou por torpe cubia; onde quer que o ferro e o fogo
arrasaram as cidades, despovoaram os campos, embora dessas cidades e
campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem
mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos
gigantes da assolao, dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,
avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens as faanhas dos
proprios avs. Se a historia pergunta:--Acaso esses combates, em que,
sem duvida, se practicaram grandes feitos, foram uteis ao progresso
moral e material do povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram a sua
decadencia? Est ou no essa gloria militar, alis indisputavel,
assombrada por grandes crimes? Foi a inteno, a qual s determina o
valor moral das aces, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos
elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela
ambio, ou pelo capricho de algum principe?--A historia que faz estas
perguntas ou outras analogas, porque esse  o seu dever, commette aos
olhos dos taes um crime de leso-patriotismo. O castelhano, por exemplo,
que disser:--As barbaridades e crimes commettidos por Cortez, Pizarro,
ou Almagro, na conquista da America, deshonram as emprezas arriscadas e
longinquas dos filhos da Peninsula, embora o descubrimento do Novo Mundo
demonstre a sua pericia, o seu ardimento de navegadores e de soldados.
Os effeitos dessa conquista foram o corromperem-se os costumes, morrerem
as industrias nascentes, despovoarem-se os campos da Hespanha,
seccarem-se, em summa, todas as fontes da sua prosperidade solida e
legitima: foram amontoarem-se nas mos do fisco e dos poderosos o ouro e
a prata, que, obtidos sem custo pelos crimes, se desbarataram sem pudor
pelos vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades, e com ellas o
sentimento da dignidade humana, cujo ultimo brado soou nas rebellies
contra a tyrannia de Carlos V:--o hespanhol que disser isto  um mau
cidado aos olhos dos mansos guerreadores destes nossos tempos. E
porque? Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se, elevar-se
pelas tradies da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas
vezes tracta de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde o bero de
farrapos at a enxerga rota em que fenece, vai travada de receios, de
sobresaltos, de desalentos, e de agonias, pensa l nas cutiladas que se
deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou quatro seculos, por
mos d'uns homens, cujos nomes e cujas faanhas se memoram n'uns livros
que elle nunca leu, porque no sabe ler, nem tem dinheiro para po,
quanto mais para livros? Que so essas palavras retumbantes de
regenerao pelas tradies, seno sons cos, que no correspondem a
nenhuma ida? Supponhamos, porm, que todas essas recordaes chegavam
ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de lico para as suas
necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza passageira destruiu os
habitos do trabalho e da economia, entorpeceu pela miseria, resultado
infallivel da prosperidade ficticia, a energia do corao, que faz
luctar o homem com a adversidade e venc-la, de que serve estar de
contnuo a prgar ao povo:--Teus avs levaram o terror do seu nome aos
confins do mundo, saquearam e queimaram emporios opulentos em plagas
remotas, metteram a pique poderosas armadas, derribaram os templos
alheios, violaram as mulheres extranhas, passaram  espada os que eram
menos valorosos que elles, abriram caminho ao engrandecimento dos outros
povos da Europa, e affeitos a gosos faceis, deposeram aos ps do
absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os grilhes que lhes
deitavam aos pulsos por que eram dourados, e tornaram-se ludibrio do
mundo.--Estas lices  que ho-de ensinar a actividade no trabalho, a
severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas verdadeira, o
desejo de cultivar as artes da paz, no meio de um paiz decadente, cuja
unica esperana de salvao est em se desenvolverem nelle essas e
outras tendencias analogas? No! O povo, que tem mais logica do que os
prgadores de vos apophtegmas, ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de
concluir que  assaz fidalgo para no contrahir habitos villos e ruins.
De historias d'aggresses e de conquistas brilhantes no se deduz a
necessidade de morrer obscuramente em defesa da terra da patria; no se
deduz a moderao revestida de firmeza, que faz respeitar pelas grandes
as naes pequenas; no se deduzem nem o amor do trabalho, nem o amor da
virtude. Em vez de contarem ao povo as faanhas da Africa e do Oriente,
contem-lhe qual era o commercio de Lisboa, e o movimento agricola do
paiz no no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia desses e de
outros factos analogos lhe  mais proveitosa, material e moralmente, de
que recordar-lhe a gloria de batalhas e de conquistas.

Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras lendas humanas nunca
salvaram um paiz, quando a podrido penetrou no amago da arvore social.
Onde e quando o homem renega da sua origem divina, vende a liberdade a
troco de delicias, esquece que o elevar-se acima de viciosas paixes
traz um goso interior que vale bem todos os que do os sentidos, no 
lisonjeando-lhe vaidades, que, nem sequer respeitam a magestade de Deus,
que o havemos de revocar ao sentimento da dignidade e do dever. V..
sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio romano, e
nomeadamente a historia do baixo-imperio. No leio essas paginas
melancholicas, sem que involuntariamente volva os olhos para o estado
actual de algumas naes modernas: as analogias que encontramos entre
estas e aquella so symptomas dolorosos; mas no vem para aqui. Eu peo
a v.. que reflicta sobre essa historia em relao  efficacia das
tradies. Ella completa o quadro que nos offerecem as naes
mussulmanas. No foi no tempo da republica, foi sob o ferreo dominio dos
cesares, que os poetas cantaram os mythos da gente romana, que os
historiadores celebraram as suas glorias, e deram a importancia da
verdade a centenares de lendas tradicionaes e fabulosas, que a sciencia
moderna, as investigaes do grande Niebuhr, reduziram j ao seu justo
valor. De que serviram, porm, essas glorias, esses milagres do
polytheismo, contados gravemente a um povo servo e gasto, que apodrecia
aos ps dos tyrannos? Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos
espraiavam-se em exaggeraes sobre as grandezas passadas, emquanto os
cidados recusavam combater por uma patria que se tornara em nome vo, e
preferiam o jugo dos barbaros a uma nacionalidade mentida. Os hymnos, as
gloriosas recordaes romanas serviram s para acompanhar ao cemiterio
da historia o atade de Roma.

Consinta v.. que a estas rapidas consideraes eu ajuncte ainda um
exemplo domestico, sobre o qual peo a v.. que medite. Na lucta violenta
e tenaz que Portugal sustentou nos fins do seculo XIV para repellir o
dominio estrangeiro, ninguem se lembrou de fortalecer os animos
invocando o milagre de Ourique; ao menos no espero que v.. me aponte o
menor vestigio historico que me desminta. A razo para desaproveitar tal
auxilio foi demasiado forte; foi a razo do cordeiro da fabula--_o
milagre ainda no era nascido_. E todavia o triumpho coroou os heroicos
esforos de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente ser livre.

Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava, absoluto e no
contradicto, no commum dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de
modo innegavel. E todavia, quasi sem combate, as espadas castelhanas
acabaram com a independencia de Portugal n'um dia.

Entre os dous factos est, alm do milagre, a grande gloria das
conquistas, gloria que no era uma tradio remota, quasi oblitterada na
memoria do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a bem dizer actual.
Alguns dos que mais tinham contribuido para ella ainda viviam.

Estes dous phenomenos, que determinam duas epochas principaes da nossa
historia, assim aproximados, so a negao mais solemne da utilidade dos
embustes religiosos, ou para melhor dizer, anti-religiosos, e do orgulho
selvagem de ter annaes escriptos com o sangue humano vertido em guerras
no provocadas, em guerras de aggresso, e sobretudo de cubia.

Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso singular, um general ou um
homem d'estado tirasse vantagem dessa deploravel fora moral que se
estriba nas supersties, ou nas idas de uma gloria feroz. A questo ,
se hoje o povo portugus tem alguma vantagem que tirar dessas tradies,
na situao em que a Providencia o collocou. Sejamos sinceros. Pde elle
sonhar em ser conquistador, ou sequer em constituir uma potencia
maritima ou continental que pse com demasiada fora na balana dos
acontecimentos politicos? Parece-me que nenhum sisudo o dir. Somos
pequenos; mas nem isso  vergonha, nem impedir que as grandes naes
nos respeitem, se formos respeitaveis. Para obtermos considerao basta
que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem  Europa que
sabemos, queremos, e podemos regenerar-nos pela sciencia, pelo trabalho
e pela morigerao.

Morigerao, trabalho, sciencia, eis as armas com que a philosophia
politica deste seculo ensina as naes civilisadas a combaterem n'uma
lucta generosa. Os espiritos mais altos, seja qual fr a sua crena
religiosa e politica, proclamam a paz e a fraternidade entre os homens.
E no s as proclamam, mas at empregam a poderosa alavanca da
associao para promoverem, digamos assim, uma cruzada sancta contra as
tendencias guerreiras. Os esforos collectivos desses homens summos
sero baldados? No o cremos. Elles tem um alliado irresistivel. Quando
os exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tiverem
devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e mais pura
seiva da sua vida economica,  ento que a philosophia politica hade
alcanar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa ser
seno o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de
dezenove seculos, de uma demonstrao practica e invencivel, de que a
lei moralmente necessaria das sociedades modernas  o christianismo,  o
verbo de amor e da paz revelado no Evangelho?

Nesses dias, que porventura tardam menos do que muitos pensam, que
destino daro os sacerdotes da bombarda, da lana e da espada aos seus
deuses fulminados? As palavras faanhas, gloria guerreira, conquistas,
como sero definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou
dous seculos? Como julgar a historia os milagres inventados para
sanctificar o derramamento de sangue humano?

Desculpe v.. esta digresso, que no creio nem inutil nem extranha ao
assumpto. De novo entrarei directamente nelle, para proseguir nas
explicaes que devo aos meus adversarios sinceros, honestos e
instruidos, e no  ignorancia malevola e presumida de hypocritas
insignificantes.

Comearei por dar a v.. a razo moral, a razo suprema, porque rejeito
no s o milagre de Ourique, mas tambem os outros milagres, como o de
Alcacer, a que ou a m f, ou a piedade pouco illustrada quizeram
attribuir a sorte das batalhas, sorte dependente dos occultos designios
da Providencia e de mil accidentes, previstos ou fortuitos, explicaveis
ou inexplicaveis para a historia. No creio que essas guerras contra os
infiis fossem cousa excessivamente christan, e por isso o meu espirito
recusa-se a acceitar como factos verdadeiros os testemunhos de
approvao divina a um procedimento anti-evangelico. Na idade mdia
passava como cousa corrente, que o guerrear os infiis e fazer-lhes
acceitar  fora o jugo, alis to suave e to livre, do christianismo,
era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se desta doutrina, ou,
para sermos justos, acreditavam-na, em geral, sinceramente:
acreditavam-na, at, a maior parte dos homens intelligentes e pios.
Entre estes se distingue o proprio S. Bernardo, que o excessivo zelo da
gloria do christianismo incitou a promover a segunda cruzada, cujo
infeliz resultado lhe acarretou tantas accusaes amargas, tantos
desgostos pungentes. A favor das guerras contra os mussulmanos durante a
idade mdia, principalmente a favor da que se fazia na Peninsula, podem
militar boas razes de politica, e at de direito, porque essa guerra
no era mais do que a reaco contra uma conquista. Razo religiosa 
que eu no vejo nenhuma que a favorea. Repugna-me  consciencia que o
Christo, o Deus de paz e misericordia, viesse pessoalmente ou enviasse
os seus anjos a incitar christos a derramarem o sangue humano, a
levarem a assolao e a morte ao meio daquelles que no o adoravam. Ser
este um modo errado de vr? A S. Thoms de Aquino, que ainda alcanou os
tempos das cruzadas, no fizeram fora alguma as opinies que haviam
dado origem quellas expedies longinquas, para deixar de estabelecer
que a diversidade de crena no  motivo bastante para um povo atacar
outro. Reprovando a guerra de religio, no era possivel cresse que Deus
approvava essas luctas crueis com manifestaes sensiveis. V-se,
portanto, que os _milagres militares_, que ento se contavam a tal
respeito, pouco credito mereciam a um dos homens mais pios do seculo
XIII, e sem contradico ao mais profundo philosopho do seu tempo.
Ouamos, porm, o grande historiador da igreja, falando dessas guerras
contra os mussulmanos.

Os christos--diz Fleury--devem applicar-se, no a destruir mas sim a
converter os infiis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer ao
mundo a guerra, da sequencia do seu discurso, e do procedimento dos seus
discipulos se manifesta claramente que s se referia s turbaes que
havia de excitar a sua doutrina celestial, turbaes em que a violencia
havia de vir toda dos inimigos, a quem os christos opporiam a
resistencia que as ovelhas oppem aos lobos. A verdadeira religio deve
conservar-se e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu,
pela prdica discreta, pelas obras virtuosas, e mais que tudo por
illimitada paciencia. Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres,
mais prompto ser o effeito. Quando Machiavello dizia que os prophetas
desarmados nunca saram com seus intentos, mostrava-se a um tempo
ignorante e impio; porque Jesu-Christo, o mais desarmado de todos, foi o
que fez conquistas mais rapidas e firmes; conquistas como elle as
queria, ganhando as almas, mudando de todo os homens, e tornando-os de
maus em bons, o que nenhum conquistador jmais fez....

Repito pois, que no se deve tractar de diminuir as falsas religies,
ou dilatar a verdadeira pelas armas e pela violencia: no so os infiis
que se devem destruir, mas sim a infidelidade, conservando os homens, e
illustrando-os cerca dos seus erros. Em summa, para isso no ha seno
um meio, persuadir e converter....

Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres d'Alcacer e de Ourique,
milagres em que se faz intervir o cu para o derramamento do sangue
humano; milagres, que nem tem o merito de originalidade, porque no
havia por essa pocha paiz da Europa, onde tambem a credulidade de
muitos, e a m f de alguns no tivessem associado largamente o cu s
luctas sanguinolentas daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres,
emfim, que, por sua natureza, so, religiosa e moralmente, absurdos.

De passagem lembrarei a v.. que no  bem fundada a accusao que me
dirige, de que no appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente de
Lerins, quando foi exactamente o contrario que fiz. Dos tres testemunhos
presenciaes que temos cerca daquelle celebre recontro, s em dous se
allude aos signaes miraculosos que se viram no cu. O auctor da Historia
Damiatana, que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia milagrosa.
No acha v.. significativo este silencio? Em todo o caso falta o _ab
omnibus_ de Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a doutrina de
Mabillon, citada por mim na carta antecedente, de que  _temerario_, no
s o acreditarmos em milagres falsos, mas at nos simplesmente
_duvidosos_. Quando o sentimento religioso, o respeito das doutrinas
evangelicas no obstasse  crena nesse favor do cu, obstar-lhe-hia a
severa doutrina do grande benedictino.

Se no fosse o desejo de dar satisfao plena aos homens escrupulosos,
mas capazes de se convencerem da verdade, como v.. talvez concluisse
aqui esta carta, porque as grosserias parvoas da ignorancia e os rugidos
do interesse ferido, que v fugir atraz da appario de Ourique todos os
milagres rendosos, s se punem com a immortalidade do ridiculo.

No concluirei, porm, sem dizer alguma cousa em especial sobre a
tradio do apparecimento de Christo a Affonso I, considerada na sua
origem, e no modo como foi propagada e defendida. Os principios mais
solidos da critica, o silencio absoluto, no s dos contemporaneos, mas
tambem de dez geraes successivas, bastaria para condemnar a tradio
aos olhos dos desapaixonados, quando ella no fosse absurda em si,
porque  absurdo pr Deus em contradico com a indole do christianismo.
Ha, porm, na historia da inveno, propagao, e aperfeioamento dessa
lenda tanta hesitao, tantas contradies, tanta imprudencia, tanta
falsificao, tantos desejos de se illudir ou de illudir os outros, em
homens que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas, que o
colligir as provas disso  offerecer uma lico salutar do perigo que ha
em abusar do sentimento religioso do povo para fins mundanos, e da
miseria a que podem chegar ainda os altos engenhos, quando se esquecem
das doutrinas evangelicas, e de que as duas cousas que o Salvador mais
solemnemente amaldicoou neste mundo foram a mentira e a hypocrisia.

O silencio de mais de tres seculos sobre um facto estrondoso, que
deveria andar na memoria de todos, como o milagre de Ourique, no  s
negativo, por assim nos exprimirmos;  tambem positivo. Conjuncturas
houve, antes dos fins do seculo XV, em que elle se teria publicamente
invocado, se no fosse uma fabula ainda no inventada. Citarei duas.
Seria inexplicavel, se admittissemos a existencia da tradio cem annos
antes de 1485, que nem um s dos prgadores, letrados, e capites de D.
Joo I, os quaes mais de uma vez, nas suas allocues ao povo e aos
soldados, reccorreram s cousas religiosas para accender os animos
contra os castelhanos, e para crear a confiana de victoria final na
lucta brilhante da independencia; que nem um s desses prgadores,
letrados e capites, os quaes no cessavam de accusar os inimigos de
scismaticos, pretendendo ligar  sua causa a causa de Deus, se lembrasse
jmais de citar as promessas feitas por Christo a Affonso I, o que era
decisivo. Antes disso, tambem, nos principios do seculo XIV,
tractando-se com grande empenho da separao da ordem de Sanctiago em
Portugal do gro-mestrado de Castella, o mestre e os freires portugueses
dirigiram ao papa um longo arrazoado em que argumentavam, que, sendo os
bens que a ordem possuia em Portugal, reino separado e independente de
Castella, dados pelos reis deste paiz, no era justo que o gro-mestre
castelhano os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para firmar na
origem do reino a independencia daquella parte dos cavalleiros que nelle
residiam, o mestre Pedro Escacho e os seus commendadores allegavam ao
papa um facto novo, mas do qual era quasi impossivel que separassem a
historia da appario, se della houvesse vestigios. O facto novo era a
acclamao de Affonso I em Ourique.

Outr'ora--diziam em Roma os procuradores dos spatharios--o rei de
Portugal, D. Affonso I de clara memoria, o qual, esmagando com mo
poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo de Ourique, foi
elevado a rei pelos seus nobres e _pelos outros concelhos_, combateu os
dictos sarracenos inimigos da religio orthodoxa com todas as foras,
para exaltao da f catholica e defenso do proprio reino. O mesmo rei,
debellando e expugnando os infiis, acommetteu-os e tirou-lhes
castellos, fortalezas e muitas terras. Acceso em zelo da f, e
attendendo ao esforo do mestre e freires de Sanctiago que ento viviam,
concedeu-lhes, etc.

No fazendo caso da ignorancia dos procuradores de Pedro Escacho[28]
cerca do estado da sociedade portuguesa no meiado do seculo XII, quando
mencionam os villos dos concelhos como intervindo n'uma eleio de rei,
no faz peso a v.. que no se lembrem do milagre da appario? Se
existisse a tradio, poderiam elles ignor-la, e no a ignorando
ommitti-la, quando tanto convinha invoc-la? No era evidente que o
titulo e a independencia do rei obtinham incomparavelmente mais
importancia e firmeza dos mandados positivos de Christo, do que das
acclamaes da soldadesca? Deixo  imparcialidade de v.. o resolver
estas questes.

Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas as memorias e
documentos anteriores a 1485 cerca da appario no  s negativo; que
 tambem positivo. Mas existe realmente este silencio?--perguntar-me-ha
v.. Conforme a sua opinio, estribada na de Cenaculo e Pereira, elle no
existe. No folheto recentemente publicado, que v.. intitulou _Nova
Insistencia_, com lealdade de cavalheiro e de homem de letras v..
abandonou o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que tambem o antigo
documento da _Symmicta_ ao destino que elles mereciam; mas insiste nos
outros documentos que se citam. Examinarei se v.. tem razo na
insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar aqui v.. das injurias que
a bruta ignorancia de um pobre tonto vomitou indirectamente contra v..
por no distinguir o texto attribuido no breviario a S. Bernardo;
cabe-me, digo, consol-lo com o meu exemplo, e com o de um sacerdote
instruido, que, enganado com v.. por aquella insigne falsificao,
expondo-lhe eu as minhas opinies cerca do milagre de Ourique, me
contrapunha o testemunho do grande abbade de Claraval, inserto no
breviario. Como, porm, para escrever a historia do nosso paiz 
necessario caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja, l com todas
as prevenes contra os salteadores, c attentos sempre a que no nos
illuda a cada momento um fabricante de mentiras ou um falsificador de
documentos e textos, amestrado pela experiencia repliquei que duvidava
da passagem do breviario, e que duvidava sobretudo pelo adjectivo
_lusitanum_, que nella se l, e que eu tinha a certeza de no se
encontrar em monumento nenhum do seculo XII para significar _portugus,
cousa portuguesa_. Na duvida, passmos a examinar o texto do sancto, e a
falsificao appareceu-nos logo mais clara que o dia. Assim v.. teve
companheiros na illuso; nem creia que tem tido s dous: ha-de ter tido
milhares delles. Ria-se destes eruditos que adivinham tudo quanto se
lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra, que logo distinguem _pelo
estylo_ quatro ou cinco linhas interpoladas nas obras de qualquer
escriptor.

Mas, voltando s cousas srias, v.., repito, insiste nas outras provas,
desprezadas as evidentemente falsas. E quaes so as que ficam? Creio que
v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon, e de toda a gente que
no esteja em guerra declarada com o senso-commum, _de que no provm
maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos
auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que o outro
tinha dicto. Todos elles junctos no valem mais do que o primeiro que o
referiu._ Assim, tendo nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam
o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do seculo XVI annullam-se
completamente. Ha, porm, outras anteriores, dir talvez v..  verdade
que Cenaculo as prope. Mas quaes so ellas? Examinemos.

1.^o Um indice, escripto em Roma, de documentos relativos a Portugal em
que se memora o facto da appario.

Como Cenaculo nos no diz a data do indice, estamos desobrigados de
discutir o documento a que se refere: provavelmente havia de ser pelo
gosto do da Symmicta.

2.^o A doao ao mosteiro de Claraval, feita por Affonso Henriques.

Tem o pequeno inconveniente de ser falsa. Joo Pedro Ribeiro reduziu-a a
lastimoso estado na segunda das suas Dissertaes Chronologicas. Estou
certo de que o bispo de Bja, se resuscitasse, no havia de ter vontade
de tornar a falar nella.

3.^o Nos _Commentarios_ de Affonso sabio, traduzidos em portugus no
tempo de Affonso IV, termina o capitulo 416 por uma passagem, em que
Cenaculo quiz ver a memoria do milagre, embora nella no haja uma
palavra a semelhante respeito.

Este testemunho, ainda suppondo que a passagem diga o que no diz, tem
tambem outro pequeno inconveniente.  que Affonso sabio no escreveu
Commentarios nenhuns. Veja v.. se os encontra mencionados no extenso e
minucioso artigo cerca de Affonso X, na _Bibliotheca Hespanhola_ de
Rodrigues de Castro, ou se acha em parte alguma vestigios de taes
Commentarios.

4.^o Uma passagem de uma chronica inedita dos reis de Portugal, que,
_pela frma da letra e pela linguagem_, se conhece ser do tempo de
Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta de um codice da camara
d'Evora.

Pedirei pela primeira vez um favor a v..  que no acredite demasiado na
pericia paleographica de Cenaculo. A diplomatica ainda no acho meios
sufficientes para distinguir com certeza pela frma dos caracteres, nos
codices portugueses, os que so do seculo XIV ou do XV. Tanto em letra
assentada como em cursivo, no ha nelles seno a alleman pura, ou a
francesa com maior ou menor resabio de monachal ou alleman. Isto 
commum a ambos os seculos. A mesma romana pura ou restaurada, que comea
a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio da monachal. Pelo que
respeita  outra adivinhao de Cenaculo relativamente  linguagem, v..
como homem de letras, est por certo habilitado para avaliar a _fora_
deste meio de apreciao. Se o bispo de Bja vivesse, eu compromettia-me
a apresentar-lhe passagens extensas, escriptas em vulgar no meio do
seculo XIV e outras escriptas j na segunda metade do XV, e se elle
fosse capaz de dizer quaes eram as antigas e quaes as modernas, dava-lhe
a minha palavra de honra de ficar crendo no milagre de Ourique. Esta
experiencia que eu offereceria ao erudito bispo, estou prompto a
offerec-la a quem quer que pretender tent-la.

Agora accrescentarei mais alguma cousa. No archivo da camara d'Evora,
que examinei por meus proprios olhos, posso certificar a v.. que nada ha
anterior a D. Joo I; nem diplomas, nem codices. Que  feito da tal
chronica que o bispo de Bja diz existir no archivo da camara d'Evora? O
que havia de estimao naquelle archivo foi distrahido pelo antiquario
Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de Cenaculo. Isto  sabido pelas
pessoas eruditas d'aquella cidade. V.. deduzir d'aqui as concluses
legitimas.

A erudio immensa de Cenaculo tem um defeito que nelle provinha do
excesso de uma util faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa.
Era essa faculdade a da memoria comprehensiva e tenaz. Lia muito e
fiava-se na fora da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos
seus escriptos que grande numero das citaes que fazia e das
auctoridades em que se estribava no as verificava, e que a memoria o
trahia s vezes, quando menos em particularidades e accidentes que
modificavam a significao dos textos, servindo mal os intuitos do bom
do prelado e tornando suspeita a sua candura.

Os _Commentarios_, por exemplo, de Affonso sabio, traduzidos em
portugus, podiam ser, no uma inveno, mas sim uma reminiscencia, ou
uma nota tomada  pressa por Cenaculo, e talvez a chronica inedita dos
reis de Portugal, que _pela frma da letra e pela linguagem_ se conhecia
ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa analoga aos taes _Commentarios_,
isto , apenas uma confuso de idas, ou, quando muito, uma inexaco de
apontamentos.

Existe uma compilao historica em vulgar, ou colligida ou accrescentada
nos meiados do seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal abrange
a regencia e morte do infante D. Pedro (cap. 438) e nada contm
posterior a este facto, continuando nos capitulos seguintes a historia
dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se tres exemplares desta
compilao, que constitue, ao menos intencionalmente, uma historia geral
das Hespanhas desde os tempos mais remotos at os seculos XIV e XV. Em
Pars e em Madrid conservam-se os dous exemplares mais antigos. O de
Pars trasladou-o o dr. Nunes de Carvalho com o intuito de imprimir
aquelle curioso inedito. Dadiva do meu to erudito como modesto amigo
Jos Gomes Monteiro, possuo eu o terceiro exemplar, que parece ter
pertencido a Manuel Severim de Faria. O codice de Madrid  talvez o
mesmo que menciona pouco explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de
Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A _Cronica General_ attribuida
a Affonso sabio subministrou ao compilador a historia fabulosa e a
historia antiga da Peninsula at a epocha leonosa. A corographia
d'Hespanha, bem como a narrao da entrada e conquista desta pelos
mussulmanos e dos primeiros tempos do seu predominio so extrahidas da
historia arabe de Arrazi, conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro
Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e  iniciativa daquelle
principe uma traduco do livro do historiador musulmano, e
effectivamente esta parte da compilao  uma daquellas que parecem mais
antigas pela rudeza da linguagem. A chronica do Cid, publicada
modernamente pelo P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por
Masdeu, era conhecida j do compilador, que largamente a aproveitou na
composio do seu livro.

No exemplar de Pars, conforme o que se v da copia de Nunes de
Carvalho, faltam os capitulos 411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no
exemplar de Madrid. Encontram-se, porm, no que pertenceu a Severim de
Faria; e  justamente nestes capitulos, desde o 412 at o 438 que est
inserida a chronica dos reis de Portugal, comeando na vinda do conde D.
Henrique e finalisando nos primeiros annos do governo de Affonso V. 
uma narrativa asss resumida, distinguindo-se apenas a parte relativa
aos reinados de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos verdadeiros ou
fabulosos so mais particularisados.

Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto, com o n.^o 79, um antigo
codice transferido para alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de
Coimbra. Contm varias memorias historicas e outros papeis avulsos
escriptos por diversas mos, tudo colligido, segundo parece, nos fins do
seculo XV. Acaba o codice por dous chronicons em vulgar[29]. Um tem por
titulo _Como e donde descenderom os reis de Portugal_: o outro _Aqui
se compea a istoria dos reys de Portugal_: Ambos se referem em breves
palavras ao conde Henrique, dilatando-se com os successos e lendas da
vida de Affonso Henriques, successos e lendas aproveitados pelo
chronista Galvo. Ao passo, porm, que o primeiro chronicon no
ultrapassa a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque em breve
resumo, as vidas dos seus successores at D. Dinis. Em relao aos
tempos de Affonso Henriques so em parte identicos, no s no contexto,
mas at nas phrases. Ha todavia entre elles uma differena digna de
reparo:  a de que no primeiro se repetem mais de uma vez as palavras
_conta a historia_, que no apparecem no segundo, ao passo que n'aquelle
se referem tradies relativas a Affonso I ommittidas neste, donde se
conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho historico mais antigo,
de que talvez o segundo seja apenas um extracto, embora accrescentado
com leves traos dos subsequentes reinados.

No exemplar da compilao que pertenceu a Severim de Faria a narrativa
dos successos de Portugal durante a vida de Affonso I pde dizer-se que
 um complexo dos dous chronicons de Sancta Cruz, s vezes perfeitamente
semelhante, outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se os
chronicons na compilao ou tiraram-se della? Por outra: qual dos tres
monumentos  mais antigo?  o que no importa nem eu me atrevo a
resolver.

O que importa  o que se l nestes monumentos, os mais remotos que nos
restam escriptos em vulgar, cerca da batalha de Ourique. Vejamos se l
se encontram vestigios do celebre milagre.

O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos que Affonso Henriques,
acclamado rei pelo exercito antes do combate, depois deste, _por memoria
daquelle boo aquecimento que lhe deus dera ps no seu pendam cinquo
escudos por aquelles cinquo reis e pose-os em cruz por renembrana da
cruz de nosso senhor ieshu christo, e ps em cada huum XXX dinheiros por
memoria daquelles XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu christo._

No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada da lucta de
Affonso Henriques com sua me e com o conde de Trava (a que faz seguir
immediatamente o recontro de Valdevez) e a lenda do cardeal legado e do
bispo negro medeia a noticia da batalha de Ourique por estas simples
palavras: _E depois ouve batalha em nos quanpos dourique e venceo a._
Indicio notavel de que ainda no seculo XV havia quem desse quelle
acontecimento uma importancia secundaria.

Na compilao a passagem relativa  jornada de Ourique  a seguinte:
Ajuntou suas gentes e foyse sobre os mouros e correolhes a terra ds
coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e correo toda a terra ataa
o campo de Ourique, onde achou elRey ismar, que a essa sazon era Rey da
estremadura, com sinco Reys que o vinham buscar sabendo o grande dapno
que lhes fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha no lugar que
se chama crasto verde, e vencos e prendos e matou a mayor parte de
todas suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha os seus o
alaram por Rey, e ds enton se chamou Rey de portugal: e depois que os
Reis forom vencidos, elRey dom Affom de portogal, por memoria daquelle
boo acontecimento que lhe deus dera trouve por armas sinco escudos por
aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrana da cruz de nosso
senhor jesu cristo, e poz em cada huum escudo trinta dinheiros por os
trinta dinheiros por que judas o vendo, e dsi tornouse para sua terra
muy honradamente.

Onde estar o milagre em qualquer destas tres passagens no posteriores
aos meados do seculo XV e que por ventura so mais antigas?

 muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa e variadissima leitura,
tivesse visto alguma copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente a
compilao no exemplar de Severim de Faria, que viveu no Alemtejo, onde
tambem Cenaculo residiu longamente, e onde o manuscripto podia
conservar-se ainda no tempo do bispo de Beja. Uma circumstancia digna de
notar-se torna mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim do
capitulo 416 dos suppostos _Commentarios_, e na compilao os ultimos
periodos do capitulo 415 so os que se referem  batalha de Ourique e
aos seus resultados. O logar do capitulo citado  o mesmo: a differena
est na numerao deste, e essa differena  apenas de uma unidade.
Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz derivar o imaginario
escudo de Affonso Henriques, nada mais facil do que Cenaculo, citando de
memoria, dar  compilao, tirada em grande parte da _Cronica general_,
o titulo de Commentarios d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta
Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo tempo a lenda do escudo
d'armas com a lenda da appario, acerca da qual no ha ahi uma palavra.
Tudo isto no passa de conjecturas, mas de conjecturas que pem em salvo
a probidade litteraria de um dos nossos mais illustres prelados de uma
epocha ainda pouco remota, em que os bispos portugueses eram bispos, e
no vigarios do papa[30].

Em Cenaculo a defenso do milagre de Ourique era empenho cego. No sei,
nem me importam os motivos. Importa-me o facto, que annullaria melhores
testemunhos do que esses que cita, quando elle fosse o seu unico
abonador. Quer v.. uma prova decisiva da cegueira do douto prelado? Eu
lh'a dou, e irrefragavel:  o seguinte periodo:

O advertido padre Pereira faz ver que desde o seculo XV se acham
escriptores mui auctorisados, que referem o acontecimento como de cousa
_ento vulgar entre as pessoas que haviam tractado os immediatos
contemporaneos do successo, em maneira que a tradio  coetanea._

Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer que em 1485 (epocha do
primeiro testemunho preciso sobre a appario, o de Vasco Fernandes de
Lucena), havia gente que tinha conhecido individuos do tempo da batalha
de Ourique, ou por outra, que no seculo XV havia pessoas _com trezentos
annos de idade._

Quem diz isto pde dizer livremente o que lhe aprouver. Quando um
espirito no-vulgar chega a este estado, que nos resta seno
confessarmos o nosso nada diante da summa intelligencia de Deus?

Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto me foi possivel, a falar de
leve na appario; eis porque tenho at hoje reluctado em descer 
discusso especial dessa mentira ridicula, com que os prgadores vo
ludibriar o povo na cadeira do evangelho. Estas miserias e vergonhas, e
as que successivamente apontarei, sobre quem recaem? Sobre homens que
alis tm direito  reputao que adquiriram na historia litteraria do
paiz e nos annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso talvez de
amor proprio[31], talvez uma piedade ou um patriotismo irreflectido,
fizeram com que, em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova de que
tal ou tal cousa era verdade, caminho deploravel em cujo termo  certo o
precipicio.

Fra dos testemunhos cujo nenhum fundamento acabo de mostrar, Cenaculo
reduziu-se a adoptar as pretendidas provas do padre Pereira, sem
exceptuar o juramento de Alcobaa. E note v.. que elle o conhecia to
pouco ou era to fraco diplomatico, que no hesitou em escrever estas
palavras memoraveis:--_Duvidar da appario_ emquanto o desconhecimento
dos testemunhos a faz presumir de piedade popular e crena apaixonada,
_pode ser critica_; mas a interpretao livre e esquerda da palavra real
e fundada (o juramento de Alcobaa) merece ser sempre vista com
desapprovao e desagrado.--Isto quer dizer que, se no houvesse o
instrumento da appario, podiamos com boa critica deixar de crer no
milagre. Assim, se o bispo de Bja vivesse hoje,  vista da declarao
official da falsidade do documento, que o meu amigo Rebello da Silva
arrancou ao juiz mais competente na materia, o lente de diplomatica e
guarda-mr interino do Archivo Nacional, elle teria de passar com armas
e bagagens para o campo dos _impios_, se quizesse (havia de querer)
intitular-se bom critico.

Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria hoje a opinio de
Cenaculo, vamos aos _Novos Testemunhos_ do padre Pereira. Disse eu que
este escripto traria deshonra ao auctor da _Tentativa Theologica_, e da
_Vida de Gregorio VII_, se no fosse uma ironia. Confesso a v.., que
antes quero salvar, por esta hypothese, a reputao de um nome illustre
na nossa litteratura, do que acceitar a anecdota, a que alguns attribuem
a concepo dos _Novos Testemunhos_, anecdota que mais de uma vez tenho
ouvido referir. Conta-se, que, sendo o padre Pereira pouco aferrado ao
dinheiro ( defeito de classe: no creia v.. que usurario nenhum fosse
nunca homem de letras) veio a achar-se um dia com a bolsa completamente
vazia. Advertido da apertura da situao pelo creado, pegou n'algumas
folhas de papel, escreveu os _Novos Testemunhos_, mandou-os ao seu
editor, e recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos por dous ou
tres dias. Eu prefiro a ironia  anecdota, que no sei se  verdadeira.
Mas ou a musa do opusculo fosse a preciso de dinheiro, ou fosse a
vontade de gracejar, o que tenho por certo  que, a no ser assim, a
obra fora indigna de um homem, que pulverisou as pretenses illegitimas
e insolentes da curia romana, e que fez tremer boa meia duzia de
hypocritas e pedantes do seu tempo. As provas de que os _Novos
Testemunhos_ precisam da minha explicao, ou d'outra qualquer, vou
d-las a v.., comeando por transcrever uma passagem da introduco do
opusculo. Depois de apresentar como demonstrao de no ser forjado _o
juramento d'Alcobaa_ o haver, antes de Brito o publicar, testemunhos
_da tradio_ de Ourique (argumento na verdade singular!) o padre
Pereira prosegue:

Mas quanto a verificar o caso da appario, tem a dita demonstrao _o
defeito de que nenhum dos testemunhos em que ella se funda remonta a
maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel_. E assim _podero_ os
emulos das nossas glorias _repr_ que uns _testemunhos do principio do
XVI no so sufficientes_ para extorquir delles o assenso a um facto,
que se suppe _acontecido no meio do seculo XII_.

Depois d'isto, que digam todas as pessoas que lerem esta carta, no
sendo algum clerigo mau e ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte
quaesquer prevenes, o que se deve esperar no opusculo? O auctor
confessa que a favor da appario no bastam os testemunhos posteriores
ao anno de 1495, insufficientes para provas de um facto succedido em
1139, logo elle vai offerecer-nos documentos, trezentos, ou, pelo menos,
duzentos annos anteriores. Eu digo o que nos offerece Pereira em logar
dos _testemunhos insufficientes_.

1.^o A narrativa de Olivier de la Marche na introduco s suas
Memorias.

Esta introduco foi comeada a escrever em 1492, conforme o proprio
auctor das Memorias declara[32]: isto , as passagens relativas s armas
reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres annos antes de comear a
epocha em que os testemunhos cerca de um milagre succedido 357 annos
antes nada provam, segundo confessa o padre Pereira, advertindo que, por
esses no prestarem, nos a expor quatro novos, _todos de tanto peso e
authoridade, que no ha para que se desejem outros mais graves_. Destas
premissas segue-se, que o testemunho dado a favor de um facto 357 annos
depois do tempo em que se diz succedido  _defeituoso e insufficiente_,
mas dado 354 annos depois do successo  igual ao de qualquer pessoa, ou
de muitas pessoas que houvessem presenciado este, visto que _nada ha
mais grave_, do que um testemunho posterior de 354 annos, emquanto o
posterior de 357 no presta para nada.

Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico? Deixo a escolha a v..
postoque estou certo de que das duas explicaes ha-de preferir a
ultima.

Mas o caso no pra aqui. Tenha v.. paciencia, porque no fui eu que
quiz discutir o milagre de Ourique; foram os padres, que me tm
insultado porque o tractei como elle merecia, que me compelliram a isso.
Ho-de esgotar o calix da ignominia at as fzes. Elles dizem do pulpito
abaixo que era melhor que eu no tivesse falado em tal; e eu digo-lhes
da imprensa, do meu pulpito, que era melhor continuarem a aleijar o
latim do breviario e do missal, e deixarem-me em paz escrever a historia
verdadeira do meu paiz.

Digo que o caso no pra aqui, porque o modo como  narrada a historia
da appario por Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas,
 curiosissimo. Segundo elle, o conde Henrique tinha escudo branco:
depois este escudo adornou-se por quatro vezes: 1.^a quando Affonso I,
passando o Tejo, desbaratou em campo d'Ourique (_Cambdorick_) os cinco
reis mouros, e, em alluso a cinco bandeiras que lhes tomou, ps no
escudo branco cinco escudetes azues. 2.^a Houve nova mudana quando _o
mesmo rei foi a Roma_ emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno
consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu pondo-se
inteiramente n, e desafiando o papa e os cardeaes para que lhe
mostrassem todos junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes das
que elle tinha recebido pela f de Christo. Era maravilhoso, de feito, o
numero d'ellas: cinco com visiveis indicios de deverem ter sido mortaes,
a no se haver dado milagre no caso. O argumento fora peremptorio. O
papa e os cardeaes disseram-lhe que vestisse a camisa; e para lhe darem
uma satisfao da injusta pronuncia, mandaram-lhe que em cada um dos
escudetes posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria daquellas
famosissimas lanadas de que os mouros o haviam servido. 3.^a Tendo o
infante D. Fernando, rei de Portugal, casado em Frana com a condessa
Maria de Bolonha, teve um filho, chamado Henrique, o qual accrescentou a
orla do escudo em que esto os castellos. E sobre este ponto discute o
auctor o erro que havia nos dictos castellos, estribando-se na opinio
de portuguses notaveis. Entre estes devo advertir, para o que v.. logo
ver, que elle havia j mencionado especialmente _e com elogios
extraordinarios_ o celebre Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a
dignidade de escano de Madama Margarida, viuva de Carlos o
Temerario[33]. A 4.^a alterao, que vinha a ser a quinta frma das
armas reaes portuguesas, foi o pr-lhes uma cruz firmada no escudo um
rei de Portugal (j se v que muito posterior a Affonso I), facto cuja
origem _alguns attribuiam (aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido uma
cruz no cu_ durante uma batalha com os sarracenos, o que vendo o
principe dissera, orando a Deus, que _mostrasse_ antes a _cruz_ aos
infieis, e _assim se fez_, com o que os mouros ficaram desbaratados.
Accrescenta Olivier de La Marche que talvez o milagre seja verdadeiro;
mas que _para elle a verdade  que o bom rei Joo_ (D. Joo I) foi quem
ajunctou s armas portuguesas os quatro braos floreteados firmados no
escudo.

Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la Marche em toda a sua fora e
pureza, postoque resumido. No lhe fao commentarios. Deixo a v.. e a
todos homens instruidos que os faam. Eu por mim estou satisfeito.

Inverterei aqui a serie dos quatro _irrecusaveis_ testemunhos do padre
Pereira, porque tenho uma razo de ordem que me obriga a reservar o
segundo para o ultimo logar. Falarei, portanto, do terceiro.

Gomes Eannes de Azurara, na continuao da chronica de D. Joo I por
Ferno Lopes, transcreve um discurso feito quelle principe pelos seus
confessores, frei Vasco Pereira e frei Joo Xira, a quem elrei pedira
lhe dissessem se era servio de Deus intentar a conquista de Ceuta. A
resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se no exemplo de muitos
outros principes e cavalleiros famosos, que haviam acommettido os
infiis na persuaso de que practicavam uma obra meritoria,
offerecendo-se  morte. Os que a tinham alcanado, entendiam os dous
frades que ficavam equiparados no cu aos martyres, e que os que no a
haviam obtido, nem por isso deixavam de ser sanctos, estando resolvidos
a morrer alegremente pela f. Os theologos terminaram a serie dos
exemplos (nos quaes figuram entre aquella especie singular de
bemaventurados o Cid Ruy Dias e o conde de Castella Ferno Gonalves,
que nunca desconfiaram de que eram sanctos) pela seguinte passagem,
conforme se l na edio de 1644:

...temos ante nossos olhos a memoria do mui notavel, fiel e catholico
christo elrei D. Affonso Henriques, cujas reliquias tractamos entre
nossas mos. Vde, senhor, os signaes que trazeis em vossas bandeiras, e
perguntai e sabei como e por que guisa foram ganhados; os quaes
certamente de todas as partes mostram a paixo de Nosso Senhor
Jesu-Christo, _por cuja reverencia e amor o bemaventurado_ rei offereceu
o seu corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles cinco reis, como
vossa merc sabe. Considerae _isso mesmo_ (do mesmo modo) Senhor, _se
elle duvidara se o seguinte trabalho era servio de Deus, no tivereis
vs hoje em dia esta mui nobre cidade_ (Lisboa) nem a villa de Santarem,
com outros logares, etc.

Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque illustrava o sentido das
phrases relativas  batalha de Ourique. O que frei Joo Xira queria
dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera a morrer por
Christo em Ourique, entendendo que fazia servio a Deus, como depois, na
tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala aqui no milagre? Se
houvesse outras testemunhas daquella epocha (1415), que positivamente
referissem a appario, ainda se poderia, embora com violencia, suppr
nas phrases do frade uma alluso ao successo; mas faltando-nos
absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa tal supposio. Trazer
esta passagem para provar, que j em 1415 existia a tradio, ao passo
que, para ella poder ter a significao forada que se lhe quer dar 
necessario suppr a existencia da mesma tradio, o que , seno um
circulo vicioso, uma petio de principio? No , porm, s isso. Nestas
lendas, inventadas com fins humanos por milagreiros e falsarios, quasi
que no  possivel dar um passo sem encontrar falsificao. A chronica
de Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra contra os castelhanos,
depois da revoluo de 1640, e precedida por uma gravura representando a
appario, foi viciada nesta passagem, provavelmente para se ver nella
uma alluso obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu ver, o padre
Pereira. No codice authentico do Archivo nacional, onde no impresso se
l _vencendo_, est escripto _vendo_. Vendo torna o sentido da
passagem claro. O rei _vendo_ os _cinco_ reis mouros, offereceu o seu
corpo a Jesus, e ps nas suas bandeiras os _cinco_ escudos. Substituida,
porm, a palavra _vendo_ por _vencendo_, a phrase obscurece-se; a causa
de se prem os cincos escudos nas bandeiras, isto , o serem os reis
mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que se cria tirar vantagem em
1644, ganha em frei Joo Xira um novo, postoque bem debil, alliado.

Mas supponhamos tudo quanto quizerem. Adoptemos como exacto o texto
impresso de Azurara: vejamos ahi a appario, embora no haja l uma
unica palavra a semelhante respeito. O testemunho singular de frei Joo
Xira em 1415 no seria um pouco tardio para provar um successo de 1139,
profundamente esquecido nos chronicons e monumentos coevos? No o
rejeitam as regras da critica sincera; regras estabelecidas accordemente
por tantos e to respeitaveis escriptores ecclesiasticos; regras, emfim,
cuja solidez a experiencia demonstra de contnuo aos que se votam a
serios estudos historicos? Quer v.. um exemplo domestico da utilidade
das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos, dos Fleurys,
desprezadas s por aquelles que desprezam tudo, menos os dezeseis
tostes de um sermo de milagres?  exemplo que no est no cartorio da
camara de Evora, nem nos Commentarios ideaes de Affonso X, mas no
Archivo Nacional, onde todos o podem vr. Consiste n'uma especie de
summario historico dos reis de Portugal, lanado no 4.^o volume de
Inquiries de Affonso III, no reinado de D. Joo I. No preambulo
daquelle summario, destinado a avaliar-se,  vista dos factos
historicos, a genuinidade das doaes dos reis anteriores, affirma-se
que para o escrever se averiguara com extrema exaco a verdade,
fixando-se assim a serie chronologica dos principes portugueses. Sabe
v.. qual  a exaco desse monumento destinado a servir de padro legal,
para por elle se afferirem diplomas que importavam  fortuna particular
e aos direitos da cora? Citarei s os erros relativos a Affonso I.
Segundo o summario official, elle nasceu em 1092, foi casado com a filha
de D. Affonso de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em dezembro
de 1184. D'aqui ver v.. o credito que deveriam merecer-nos os
testemunhos do seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre do seculo
XII, quando esses testemunhos existissem, e no fossem um rol vergonhoso
de falsificaes e mentiras.

O quarto testemunho do padre Pereira  o proprio instrumento da
appario, que existiu em Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o
de Alcobaa. O auctor dos Novos Testemunhos diz que no sabe se os dous
foram uma e a mesma cousa, passando o celebre documento do archivo
daquelle mosteiro para o d'Alcobaa. Como demonstra elle, porm, essa
existencia? Pelo depoimento de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556, e
publicado por outro frade cruzio, insigne forjador de textos e diplomas,
e chronista da ordem, frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario
pelos seus proprios confrades[34]. Se acreditarmos este, os conegos de
Sancta Cruz, _empenhados em fazer canonisar Affonso I_, requereram se
tirasse um depoimento de testemunhas sobre os milagres do primeiro rei
portugus, do _Phara obdurado_ dos monges de Cella-Nova. Quem
primeiramente deps foi um _dos conegos empenhados_, e foi este que
disse constar o milagre de Ourique pelo juramento que existia do mesmo
rei. Desse juramento original tiraram-se ento em duplicado copias
authenticas; uma para se guardar no mosteiro, outra para ir a Roma, o
que no chegou a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz o original e
uma copia em instrumento, e fra d'alli outra copia authentica. Tudo
isto se perdeu, e nada resta de um documento de tanta valia, que
forosamente se havia de guardar com recato, seno a grosseira impostura
dos frades bernardos, restando tambem, nos fins do seculo passado, um
traslado que se dizia transcripto de _um original_, diverso no seu theor
do _outro original_ de Alcobaa, e s semelhante a elle em ter sellos
pendentes, cousa que no existia na epocha em que o juramento se diz
exarado.

O que tudo isto vem a ser  uma serie de vergonhas e miserias
repugnantes, e sobretudo de falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios,
elles nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os seus embustes. Se
frei Nicolau, ou os conegos de 1156 (porque eu no sei se a historia do
depoimento se verificou, ou se  inveno do chronista) se lembrassem do
que passou antes d'elles, teriam procedido com mais cautela nas suas
mentiras. Quem l a faanhosa chronica dos conegos regrantes conclue que
no tempo de frei Nicolau os pergaminhos originaes eram aos milhares em
Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui est o que no s elle proprio,
postoque fraca testemunha, mas tambem escriptores mais serios, que se
reportam a um documento coevo, nos referem como acontecido em 1411. No
dia de Corpo de Deus desse anno, uma tempestade que estourou sobre
Coimbra produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu o mosteiro de
Sancta Cruz. A agua (diz o auto que sobre isto se redigiu) levou, alm
de muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas de memorias
antigas e de doaes que os reis fizeram ao dicto mosteiro, que _todas_
foram molhadas _e a mr parte dellas perdida_. Sabendo elrei D. Joo I
do successo, segundo confessa o mesmo frei Nicolau, ordenou se
trasladassem em publica frma as _doaes e mais escripturas_ que
restavam dando-se a este transumpto a mesma fora dos originaes, _com o
que_, prosegue o chronista, _se restaurou parte da perda de tantas e to
antigas escripturas que hoje nos fazem grande falta_. De duas uma: ou o
instrumento da appario depositado em Sancta Cruz pereceu em 1411, ou
escapou. Se escapou, devia ser trasladado no chartulario em que, segundo
a ordem delrei, se lanou o que restava. Esse chartulario existia ainda
no tempo do chronista, e provavelmente existe ainda hoje. Para que
inventaram, pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaa? Porque, em vez de
imaginarem cem mentiras para amparar a tradio, no foram a Sancta Cruz
extrahir desse traslado authentico dez ou cem traslados novos, que
tambem seriam historica e at legalmente authenticos? Porque no vo l
busc-los ainda hoje para confundirem a minha impiedade? Se, porm, o
pergaminho original pereceu em 1411, que so essas historias de
publicas-frmas _do original_ feitas pelos notarios Manso e Thom da
Cruz, e no sei por quem mais, seno embustes, ou copias tiradas de um
documento falso. Porque eu no disputo, nem me importa, que elle fosse
forjado pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de S. Bernardo.

Falta o segundo testemunho, que deixei para ultimo logar, porque se
prende com o que me resta a dizer a v.. sobre a lenda da appario. Esse
testemunho  o de Vasco Fernandes de Lucena, que, indo como orador da
embaixada enviada por D. Joo II ao papa em 1485, referiu a historia da
appario no discurso que recitou perante Innocencio VIII e perante a
curia. Como prova do successo, elle tem pouco mais ou menos o valor do
de Olivier de la Marche. Se aos historiadores que escreveram depois de
1495 se no pde attribuir, segundo Pereira, e muito mais segundo as
doutrinas dos pios e eruditos escriptores a que me referi na carta
antecedente, auctoridade bastante para nos compellirem a acceitar a
tradio de Ourique, t-la-ha, porventura, o testemunho singular de um
homem que o refere apenas dez annos antes, tractando-se de um milagre
que se diz succedido n'uma epocha anterior de mais de tres seculos? 
impossivel que v.. no sinta que semelhante auctoridade nada vale.

Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu. O primeiro e o segundo so
dos fins do seculo XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a um s.
Persuadem-no o affirmar Olivier de la Marche que sobre a questo das
armas portuguesas ouvira pessoas _notaveis_ de Portugal com quem
tractara[35] tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos elogios 
sciencia e talento de Vasco de Lucena. O terceiro  uma passagem, alis
viciada, de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer correcta, no
contm uma unica palavra cerca da appario. Finalmente, o quarto  o
juramento de Affonso Henriques, que _consta_ existia em Sancta Cruz
muito antes de Fr. Bernardo de Brito encontrar o de Alcobaa, o qual se
no sabe se  o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas que ns sabemos
perfeitamente que  falso. Eis aqui os testemunhos do milagre de
Ourique, _de tanto peso e auctoridade, que no ha para que se desejem
outros mais graves_.

Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo a decidir se o padre Pereira
escreveu isto em seu juizo, ou se estava dando largas  sua jovialidade.

Resta-me s fazer um esforo para acceder, at onde  possivel, a uma
pretenso de v.. embora j ficasse provado que ella era infundada. Diz
v.. que para refutar plenamente a fabula da appario deveria eu dizer
quando, como, para que, e por quem fora inventada.  evidente que o
falsario havia de precaver-se para no o descubrirem, e s elle poderia
dizer positivamente qual era o seu intuito quando forjou a patranha.
Sendo homem astuto, saberia no somente guardar segredo, mas tambem
fazer espalhar com arte a fabula. Que calumnias no tem alevantado uns
aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos? Muitas dellas,
passando primeiro de boca em boca, vindo  imprensa, combatidas pelos
calumniados, nem por isso ho deixado de generalisar-se, e de tomar s
vezes tal consistencia, que  possivel passarem algumas, d'aqui a um
seculo, por factos historicos, at que uma critica severa e
desapaixonada as reduza ao seu justo valor. Sobre a origem da fabula de
Ourique no se podem produzir factos decisivos, mas podem reunir-se
alguns, que, assim aproximados, offerecero fundamento a suspeitas
vehementes sobre a epocha do nascimento da tradio, sobre seus
auctores, e sobre os fins com que foi inventada. Note v.. que eu falo da
tradio e no do juramento, que provavelmente, no estado em que hoje o
temos,  mais moderno. Quanto a esse invento grosseiro, considerado em
si, confesso que me fallece o animo para o analysar.

Partamos de um facto. O primeiro testemunho sobre a existencia da
tradio relativa ao milagre de Ourique, preciso, incontroverso,  o de
Vasco Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais so chronicas que _se
perderam_, vestigios que _se apagaram_, obras que _ninguem conhece_.
Isto faz lembrar o gracioso livro das _Antiguidades de Evora_, que
muitos tem tomado por obra de um tolo, e que na realidade so a satyra
dos falsarios e crendeiros, feita por um homem espirituoso e engraado.
Tudo quanto se cita anterior a 1485 so embustes e ridicularias, sem
exceptuar as chronicas do tempo de Affonso Henriques attribuidas aos
imaginarios chronistas Joo Camello e Pedro Alfarde, onde se diz que
_talvez_ se achasse a tradio. A inveno dos taes chronistas, frades
de Sancta Cruz, tinha j sido reduzida a p pelo cruzio D. Thoms da
Incarnao, e por frei Manuel de Figueiredo, frade d'Alcobaa. A
referencia a semelhantes mentiras feita por Pereira e por Cenaculo, que
escreveram depois de ellas estarem refutadas, prova a _sinceridade_ com
que foram redigidos nesta parte os _Cuidados Litterarios_, e tambem os
_Novos Testemunhos_.

Temos, pois, um homem celebre, um castelhano, erudito, valido de D. Joo
II, que, n'um discurso recitado perante Innocencio VIII, menciona pela
primeira vez a appario. Singular origem de uma fabula, que, revelada
por um estrangeiro, vem  luz em terra estrangeira, regida por um
governo theocratico, que tem por fundamento primitivo do seu dominio
temporal um titulo falso.

A memoria de D. Joo II  odiosa. Entre todos os reis legitimos
portugueses,  elle o unico ao qual sem injustia a historia pde
attribuir a qualificao de tyranno. Elle foi quem deu o golpe mortal
nas velhas liberdades desta nossa terra. No seu reinado tem de ir buscar
o historiador a causa fundamental da nossa decadencia, que comea com o
estabelecimento do absolutismo, embora a podrido que corroe a arvore se
esconda por alguns annos no cerne.  tambem singular por esta
circumstancia a origem da tradio. Nasce, dilata-se, cresce, firmando
as raizes no tumulo da liberdade.

Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado do _principe perfeito_ um
foragido portugus, seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da
Costa. Depois do assassinio judicial do duque de Bragana, o cardeal
aproveitou o ensejo para malquistar o rei portugus com Sixto IV. Em
consequencia d'isso (ao menos assim se acreditava), o papa enviou em
1483 um nuncio a Portugal, a queixar-se dos abusos do poder temporal
contra as pretendidas immunidades da igreja, que o filho de Affonso V
respeitava tanto como os foros politicos do reino. Foi o rei emprazado
para apparecer ante o papa, por si ou por procurador, para dar
explicaes cerca do seu procedimento. Nomearam-se embaixadores; mas
antes de partirem, Sixto IV relevou o rei da citao, diz-se que a
instancias do mesmo cardeal que excitara a tempestade, receioso de que
os ministros portugueses, chegando a Roma, lhe pagassem em igual moeda,
fazendo-lhe perder parte do poder e credito de que gosava[36].

Parece, porm, que, emquanto proseguia em Portugal a lucta tenebrosa e
encarniada de uma aristocracia suberba com um rei ambicioso e
inexoravel, o cardeal no dormia em Roma. Invectivava-se ahi ou
fingia-se invectivar contra a frouxido de Sixto IV, que deixava o rei
portugus quebrar os privilegios do clero sem se lhe comminarem
censuras[37]. Deste clamor sincero, ou desta fara, resultou uma bulla
concebida em durissimos termos, que se expediu nos primeiros mezes de
1484. A linguagem della era a linguagem habitual da curia, insolente e
grosseira; mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo. O papa
recordava uma cousa de que os reis portugueses se haviam esquecido;
recordava a D. Joo II que _tinha a dignidade real por dadiva da s
apostolica e de que era seu tributario[38]_. Uma bulla destas faria hoje
desatar a rir quaesquer ministros portugueses, at em pleno parlamento.
Naquelle tempo, porm, ainda o negocio era um pouco serio. D. Joo II,
se riu, foi em particular.

O arcebispo D. Joo Galvo, um dos valdos do rei e inimigo figadal da
familia de Bragana[39], tinha sido transferido, ainda em tempo de
Affonso V, da s suffraganea de Coimbra para a metropolitana de Braga. O
arcebispo olhava para as cousas ecclesiasticas como certos prgadores
d'hoje olham para a prdica; pelo lado solido. Sem lhe importar obter o
pallio, foi usando do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas da
mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava devorar pacificamente to bom
quinho na mesa ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir o
clero[40]; mas at que ponto eram graves as culpas do arcebispo, que
assim se arriscava a perder a dignidade archiepiscopal (como tem
succedido a muitos outros) no sei eu dizer: falo pela boca do papa, que
lhe dirigiu tambem uma carta de ameaas. O que  certo  que o movedor
das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal da Costa, no devia
esquecer-se de carregar a mo no valdo do seu adversario. Odio de padre
contra padre ainda  mais profundo e tenaz do que contra qualquer
secular.

As relaes com Roma offereciam, pois, um aspecto pouco agradavel,
quando Sixto IV veio a fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura em
que elrei apunhalava em Setubal o Duque de Viseu, mandava envenenar o
Bispo d'Evora, assassinar D. Gotterre no fundo de um calabouo, e
degolar e esquartejar em praa outros fidalgos. D. Joo I tomara da
crte de Inglaterra o esplendor, os habitos cavalleirosos, o amor da
cultura litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje distinguem as
classes elevadas na Gran-Bretanha. Seu bisneto tomava da crte de Frana
apenas um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava modelar as manifestaes
da sua alma.

A casa de Bragana procedia de D. Joo I, mas de D. Joo I antes de rei
e simples mestre da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se enlaado
com as armas de Portugal, porque D. Joo I no se esquecera, depois de
rei, de que fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava.

Com as mos tinctas do sangue do duque de Viseu, D. Joo II arrancou a
cruz do escudo de Portugal, e alterou a posio dos escudetes lateraes,
collocados at ahi horisontalmente, dando assim nova frma s armas do
reino. Dir-se-hia que at d'alli quizera affastar a memoria da linhagem
dos seus principaes adversarios.

Era essa a causa da mudana? No o sei. Ruy de Pina, um dos amoucos do
principe perfeito, attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar ou
recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O que  certo  que a
alterao se fez no mesmo anno de 1484.

Hoje a heraldica e os brases so dixes com que se entretem as creanas
barbadas: o jogo do xadrez  cousa incomparavelmente mais grave. Nos
fins do seculo XV no era, porm, assim. A atteno da Europa devia
volver-se principalmente para o ensanguentado drama que se representava
na crte de Portugal; mas a cruz de Christo expulsa das moedas, dos
sellos e das bandeiras do reino, pelas mos de um rei algoz, havia de
dar occasio a mais de um commentario pouco favoravel.

Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco escudetes representassem
uma cruz, e ao mesmo tempo contivessem uma alluso mysteriosa  paixo
de Christo; se as arruellas que os ornavam representassem os trinta
dinheiros por que Judas vendeu o Senhor, que falta faria a cruz
floreteada de Aviz nas armas de Portugal? No ficava ahi uma cruz
mystica, um symbolo piedoso?

Fallecido o papa que recordara a D. Joo II qual era a origem da
independencia de Portugal relativamente a Leo, e que ainda ousava
lembrar-se do signal de vassallagem que outr'ora se offerecera  igreja
de Roma, elle fora substituido por Innocencio VIII. Sabido o successo,
elrei resolveu mandar a Roma uma embaixada, para orador da qual escolheu
um homem de plena confiana, o castelhano Vasco de Lucena.

Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor que as bullas de Lucio II e
de Alexandre III cerca da independencia do reino, e que talvez Affonso
Henriques houvesse dado a guardar aos seus chronistas, Joo Camello e
Pedro Alfarde? Se o tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem
dessa circumstancia o novo papa, tirando assim  curia a vontade de
repetir as doutrinas carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV.

Porei aqui a parte mais interessante do discurso, que o orador de
Portugal fez ao papa rodeado dos seus cardeaes, em cujo numero se
contava o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre Pereira j
traduziu uma poro desse discurso; mas era um preguioso aquelle bom do
padre Pereira. V.. hade permittir que eu o seja menos, e d um talho
mais largo.

Depois de indicar em poucas phrases as origens de Portugal, o orador
fala dos primeiros annos do governo de Affonso I e da pequenez dos seus
estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas e conquistas: Leiria,
Santarem, Lisboa tomadas, o Tejo transposto, a provincia transtagana
submettida, com Evora sua capital, Cezimbra e Palmela, fortalezas
inexpugnaveis, reduzidas, sendo por elle desbaratados _milhares
infinitos_[41] de mouros com poucos cavalleiros. Outra vez (ou
_novamente_)--prosegue Lucena--no campo de Ourique, naquelle sitio a que
o _vulgo_ chama _agora_ Cabeas dos Reis, com um pequeno exercito venceu
cinco poderosissimos reis mouros. Na qual batalha, para se ver quo
porfiada fosse, e quo excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram
as lanas dos barbaros os escudos que embraava na mo esquerda. Desta
singular e famosa victoria procedeu _fixar elle as insignias e armas dos
reis de Portugal_, pondo nellas cinco escudos, e collocando em cada um
delles cinco dinheiros, sendo sabido que at ento as armas eram um
escudo s, todo semeado de besantes. Estes cinco escudos _postos em
frma de cruz_, e estes besantes quinarios _tambem distribuidos em
cruz_, que nos indicam seno os trinta dinheiros, preo do sangue de
Christo, pelo qual este foi entregue aos judeus pelo crudelissimo Judas?
Antes de dar o signal para a batalha, este rei, orando de joelhos, viu o
Salvador pendente da cruz, e foi tal a confiana do regio animo, tal a
f gravada no seu corao, que, sem se aterrar com a estupenda
maravilha, _se atreveu_ a dizer que _no convinha_ que Christo
apparecesse a um firmissimo crente, mas que tal apparecimento era
necessario aos hereges, aos que se afastavam da f christan. D'isto e
d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa sanctidade conhecer mais
claro que esta luz que nos alumia _por qual constancia d'animo, por qual
ardor de virtude, por que prendas, por quaes degrus e successos subiu
ao fastigio regio_; como esse varo to religioso, forte e pio augmentou
os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo jugo da
servido; com que razo, por fora da _clarissima vontade e da suprema
direco_ (optimo auspicio) _da eterna magestade_, com _auxilio do povo_
e _adjutorio_ da sancta igreja romana, _tomou o regio nome com direito
perfeito_ (optimo jure) _e o legou aos seus successores_; mais feliz
nisto que outros principes, dos quaes muitos aspiraram ao titulo real
pelo favor dos povos; outros por temor dos seus satellites armados;
poucos, a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro caminho da
virtude.

Aqui tem v.. o que se l na orao de Lucena relativamente a Affonso I.
Note v.. que o orador passava por um dos homens mais instruidos do seu
tempo, e no podia por ignorancia fazer o que fez; isto , inverter a
ordem dos successos do reinado d'aquelle principe. Deste discurso o que
se deduz  que a batalha de Ourique foi a ultima faanha notavel delle,
posterior a tudo, inclusivamente  tomada de Evora, e quem sabe se 
bulla de Alexandre III, que concedeu ao principe portugus a
qualificao de rei? O que  certo  que, se a chronologia fingida por
Lucena fosse verdadeira, a batalha e o milagre de Ourique, em que elle
visivelmente quer fundar a independencia de Portugal, _embora com o
favor do povo e de Roma_, teriam sido posteriores  carta de feudo  s
apostolica e  bulla de acceitao de homenagem expedida por Lucio II.
Assim, a dignidade do rei e a independencia de Affonso I assentariam
n'um titulo, no s incomparavelmente melhor, qual era a vontade de Deus
milagrosamente manifestada, mas tambem posterior  offerta e acceitao
da homenagem feita em 1144, que por esse facto ficavam invalidadas por
inuteis. Presupposto isto, a impertinente recordao da curia romana,
inserida na bulla _Ut saluti_ de Sisto IV, ficava tambem de todo o
ponto refutada.

Mas dir v..--o cardeal D. Jorge da Costa, presente ao acto, no podia
impugnar este inaudito milagre?--No se impugnam assim milagres.
Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra mim, porque no seculo
XIX no creio n'uma fabula provada tal at a saciedade, e imagine se um
padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre nos fins do seculo XV; e
quando se atrevesse a dizer alguma cousa, seria em particular ao papa e
aos cardeaes. Outra flagrante mentira dizia ahi Lucena sem temor de que
D. Jorge o contradissesse: era a historia dos cinco dnheiros em cada
escudete, desmentida por todas as armas reaes gravadas nos sllos e
moedas dos nossos antigos reis da primeira dynastia, comeando em Sancho
I. Restam muitos desses sllos e moedas; muitos mais deviam restar
naquella epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa notavel: havia
de ter visto muitissimos; mas nem por isso Lucena titubeou, antes nesta
parte o seu discurso, geralmente frio, melifluo, calculado, tem certo
sabor de colerica invectiva contra os que disso duvidassem. O
descaramento , ha muitos seculos, um dos dotes do homem d'estado.

Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador de Portugal no concilio
de Basila, e na embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as oraes de
abertura nas crtes de 1478 e de 1481. Todas essas oraes, que no
deviam ser menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas escapou a da
embaixada de Roma de 1485, e no s escapou, mas tambem foi impressa, e
no s foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se della duas edies em
caracteres gothicos e sem data, ao que parece, estampadas _fra do
reino_ e com todos os signaes de _pertencerem aos primeiros tempos da
arte da impresso_[42]. Se de feito a orao foi reproduzida pela
imprensa pouco depois de recitada, devia s-lo fra do reino, onde a
imprensa de livros latinos e vulgares no consta que existisse ainda.
Mas duas edies da mesma epocha, que provam, seno que _alguem
interessava em dar quelle discurso a maxima publicidade_?

Recorde-se v.. do que eu disse a proposito de Olivier de la Marche, e da
influencia que  provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista
flamengo cerca das armas de Portugal. V-se que em 1492, em que este
escrevia, as opinies andavam encontradas. As armas que ahi mais se
deviam conhecer eram as antigas com a cruz d'Aviz, porque a reforma de
D. Joo II tinha apenas oito annos. Entretanto a noticia do milagre de
Ourique, postoque alterada, corria j alli, e a alterao provinha de
quererem _alguns_ acommodar a fabula s armas antigas. Consequentemente,
outros no queriam: logo disputava-se cerca disso: logo a historia da
appario era uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a explicao
sabida e ordinaria, como Lucena dissera em Roma, teria De la Marche
accumulado a serie de despropositos que anteriormente transcrevi? Elle
falara cerca d'isto com muitos portugueses, e escrevia  vista das suas
informaes. O que indica essa completa confuso d'idas do chronista?
Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente no meio das lendas que
se ligavam ao brazo dos reis de Portugal, as tinha inteiramente
baralhado.

Agora note v.. que por estes mesmos annos de 1491 e 92 Lucena devia
estar em Flandres, porque  neste tempo que elle comea a intitular-se
conde palatino (titulo que parece provir-lhe do cargo d'escano da
viuva de Carlos o Temerario), ao passo que nessa conjunctura o achamos
ausente de Portugal[43]. V.. ajuisar das illaes que destes factos se
podem tirar.

Mais ou menos inexactas que sejam as noticias que nos restam cerca da
existencia em Sancta Cruz de Coimbra de um monumento relativo 
appario, parece todavia que alguma cousa ahi houve, e o transumpto do
juramento de Affonso I, feito pelo notario Manso _em tempo d'elrei D.
Joo II_, no  de desprezar, logo que um homem como frei Francisco
Brando affirma t-lo visto. Tal transumpto, se no prova a existencia
de um documento verdadeiro, faz crer que _alguma cousa sobre a appario
tinha_ apparecido _em Sancta Cruz no tempo daquelle rei_.

Advirta, porm, v.. que D. Joo Galvo, o arcebispo de Braga, valdo de
Joo II, tinha sido prior mr de Sancta Cruz, devendo por isso conservar
estreitas relaes com os frades, e que a familia Galvo parece ter tido
particular tendencia para aquelle mosteiro; um outro D. Joo Galvo era
seu prior crasteiro no principio do seculo XVI, e, como vimos, diz-se
que em 1556 um frade cruzio, velho de oitenta annos, o _cartorario_ D.
Manuel Galvo, deps que existia o auto do juramento de Affonso I, _em
que os prelados e os grandes da corte estavam assignados_, grossa
mentira, seja de passagem dicto, porque o estylo constante, sem excepo
no seculo XII e ainda no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo
notario que os exarava os nomes dos prelados e ricos-homens
confirmantes. Mas os Galves no acabam aqui. Duarte Galvo, _irmo do
arcebispo valdo_, escrevendo depois de 1500 a chronica de Affonso
Henriques (no fim da qual adverte _innocentemente_ que seu irmo o
arcebispo lhe dissera que tinha motivos para crer _que Affonso Henriques
fora sancto_,) introduz na narrativa da batalha de Ourique a historia da
appario, aperfeioada com a scena do ermito que esquecera a Lucena.
Galvo refere-se nesta parte ao que _elle mesmo_ (Affonso I) _disse, e
dentro da sua historia se contm_, o que parece alludir a uma especie de
memoria ou diploma em que figura o filho de D. Theresa, o _Phara
obdurado_. Tudo o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em fama;
isto , a reprehenso dada pelo rei a Christo por lhe apparecer a elle;
as promessas da proteco perpetua do reino feitas por Deus; emfim tudo
aquillo que os frades de Alcobaa metteram para dentro do _seu original_
do juramento, porque em verdade era pena que andasse tanta cousa boa s
em _confirmada fama_, como diz Duarte Galvo. Mas se os frades bernardos
souberam aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem um
juramento vistoso, e de uma appario rachitica uma appario ancha e
acabada, o chronista no tinha mostrado menos juizo em lhe dar uma
applicao util. Para D. Joo II, morto e sepultado, no servia ella j
de nada. A bulla _Ut Saluti_, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio
VIII tinham desapparecido da scena politica. Na cadeira de S. Pedro
estava assentado o sancto padre Alexandre Borgia, que tinha assaz que
fazer em administrar piamente a igreja de Deus, para no cogitar na
sujeio politica de Portugal  sancta s. O milagre de Ourique andava
de todo desaproveitado. Era uma lastima. O chronista olhou para o
mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro dos Galves, e entendeu que
a appario lhe podia ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente
da appario, no que ninguem at ahi sonhara. Fora a causa de tamanha
merc do cu o ter Affonso I fundado e enriquecido Sancta Cruz _com
grande devoo_. Na verdade isto era em parte mentira; porque as grandes
doaes de terras, castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques
quelles frades, so todas posteriores a 1139 e anterior  batalha de
Ourique apenas a de uma horta em Coimbra[44]. Antes, porm, da
pontilhuda dialectica dos diplomaticos no se olhava de to perto para
as cousas. A mentira util tornava-se em verdade pelo consenso dos
sabios, e sabios eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade de
explorar a tradio em beneficio dos conegos cruzios era indisputavel.
Os caseiros e emphyteutas do mosteiro, raa dura e rebelde em pagar suas
rendas e foros, no pagava, e ria-se das excommunhes; os officiaes da
coroa quebravam impiamente os privilegios da ordem, e at,
anteriormente, os villos de Montemor tinham ousado accus-la de haver
obtido com dolo e mentira parte das suas rendas e direitos
senhoriaes[45]. Depois, naquella conjunctura, o mosteiro estava gasto e
desbaratado das guerras que pouco antes o prior D. Joo de Noronha
tivera com o bispo de Coimbra, em razo de uma pouca de carne furtada da
cozinha do bispo pelos criados do prior; guerras em que se deram cruas
batalhas nas praas de Coimbra, sendo necessario que o poder publico
mandasse marchar tropas para pacificar  fora os dous reverendos
campees[46]. Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes, os bens
e rendas de Sancta Cruz sob a proteco de um bom milagre, naquella
occasio desoccupado, d'ahi s podia provir utilidade aos cruzios sem
damno de terceiro. Valia a pena, por isso, de achar a causa verdadeira
do milagre de Ourique, com que ninguem ainda tinha atinado.

Paro aqui; e peo desculpa a v.. da minha linguagem. Ha cousas que
nenhuma equanimidade basta para dellas se falar sem indignao, ou sem
riso.  necessario escolher, e eu prefiro o ultimo quando se tracta de
embustes e miserias que j no fazem mal. V.. tomar na conta que
merecem os factos e as reflexes que no decurso desta carta lhe
submetto, e de que no seu foro intimo tirar as concluses que julgar
razoaveis. Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado pela
imprensa que se retirava da arena da discusso. Por mais oppostas que
sejam em tantas cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica com um
homem honesto, cortez e instruido, era-me summamente agradavel. Mas
d'hoje avante, dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que no faria uma
aco boa. At certo ponto sera ferir pelas costas um adversario leal.
Cessou por isso a nossa correspondencia. Restam mil outros meios de
falar com o geral dos homens de bem e sinceros, e de dizer ao meu paiz
as verdades em que a guerra da maioria do clero me obriga, por propria
defesa, a faz-lo pensar.




V

A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA


AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO

(_Maro, 1851_)


Meu amigo.--Remette-me v.. o folheto de A. C. P. (que me diz ser um
academico o sr. Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os
crimes, as fabulas, as contradices, as ignorancias e no sei quantas
cousas mais, em que o peccador de mim caiu na narrativa da batalha de
Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa no seu jornal acerca desta
publicao, a qual fez, segundo v.. affirma, certo effeito, por causa
das garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por lithographia ao
folheto, como prova dos progressos da arte typographica entre ns, que 
o mais que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas. Sabe o bom
redactor da _Semana_ a primeira impresso que o folheto me causou? A que
em mim produzem muitas cousas que se publicam nesta nossa terra.
Lembrei-me da Divina Providencia, para lhe agradecer que o estudo da
nossa lingua esteja to pouco generalisado na Europa. A reputao
litteraria do paiz ganha immensamente com isso. Dizem que no se deve
nunca desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que litterariamente
desesperava della, se no fosse a mocidade,  qual Deus queira dar
bastante amor do estudo, e alumi-la com um sancto horror a cruzar os
umbraes da Academia. A dizer a verdade, meu amigo, comea a fallecer-me
a paciencia e a vontade para discutir cousas que nos escorregam para o
cho quando tentamos submett-las  analyse. Demais, do que eu tracto
agora  de pr quanto antes na imprensa o quarto volume da _Historia de
Portugal_, que, em consciencia, me tem dado mais que pensar do que todas
as criticas academicas, presentes e futuras. Com a mo no corao,
digo-lhe que, _exceptis excipiendis_, o areopago censorio mais
inoffensivo, mais divertido at, que ha em todo o mundo  a Academia de
Lisboa. Collectivas ou individuaes, as censuras que partem d'alli nem
sequer arranham a supposta victima. Se no escorchassem, por via de
regra, a grammatica e o senso commum, no s seriam suaves e morbidas;
seriam at, permitta-me diz-lo, voluptuosas. Traduzidas em chim,
tomavam-nas por obra de algum collegio de mandarins letrados do celeste
imperio. O opusculo que o meu amigo me remette  pasmoso no genero:  um
botaru da maravilhosa fabrica das memorias e actas academicas tirado do
seu logar, e a que fizeram perder aquella parte de formosura que lhe
houvera resultado da harmonia do todo. Sinceramente,  uma cousa que
lastimo.

Agora o que, tambem sinceramente, eu no esperava era achar no opusculo
certa cortezia nas frmas que o auctor empregou. Saba que se estava
imprimindo contra mim um cartapacio mourisco. Pensei que fosse obra dos
reverendos, que, to pobres de saber e de intelligencia como ricos de
odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria a colera que os abafa. E
ainda bem! Apesar do nojo que tenho desses pobres-diabos, no quero que
elles estourem, porque so meus irmos, como em gira jesuitica se
costuma dizer a cada punhalada que se d no proximo. Estou j to
affeito aos improperios da imprensa devota,  caridade dos nossos
khatibs e ul-mis, que no esperava no imminente opusculo seno mais uma
prova a favor da minha crena na atrophia moral e intellectual da
maioria do nosso clero, crena que elle se encarregou de demonstrar at
a saciedade. Enganei-me: era obra secular; academica, porm cortez;
cortez (entendamo-nos) at o ponto de no usar o auctor das phrases dos
prostibulos e das tabernas, mas no at o ponto de respeitar o meu
caracter moral, porque ahi sou accusado de _falto de sinceridade_ (pag.
10), de _critico cheio de fel_, de _criminoso_ (pag. 15), de _aviltador
do valor portugus_ (pag. 18). Isto, porm, pode ser violento, mas no 
immundo. Os mentecaptos indecentes so os que a minha dignidade de
escriptor e de homem me no consente refutar. Assim, ser-me-ha licito
satisfazer aos desejos do bom redactor da _Semana_ e remetter-lhe
algumas notas cerca deste curioso papel.

Uma explicao. Quando digo que no posso refutar mentecaptos
indecentes, no quero significar que essa guerra que se me faz, atroz na
inteno, ridicula nos effeitos, ha de ficar sem punio. No sou homem
disso; mas tambem no sou homem que gaste polvora com guerrilhas. Hei de
ir buscar a seu tempo as columnas de infanteria e os macissos de
cavallaria que esto atraz dellas. As miserias que ahi vo pela imprensa
contra mim so um veu que encobre, ou antes descobre por demasiado raro,
negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se a Europa catholica se
hade infeudar de novo s corrupes da curia romana, com o seu cortejo
de jesuitas de todos os formatos, de todas as idades e de todas as
mascaras; com os seus titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas em
miniatura. Tenta-se este solo de Portugal: manda-se hostilisar em mim o
progresso das novas idas, a independencia das opinies, no porque eu
seja o mais forte, mas porque circumstancias, que no preparei nem
provoquei, me collocaram na primeira linha do combate. O que  certo 
que alguem se ha de enganar cerca do desfecho da lucta, ou ns, ou esse
grupo, essa cousa, que por ahi anda a ajunctar quanto p e podrido ha
no cemiterio dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida; essa cousa
hedionda, que, incapaz das ambies grandiosas, do despotismo esplendido
da Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho que ella desmente,
fulminada pela philosophia que ella detesta, depois de apurar as suas
doutrinas espirituaes nas fontes catholicas das margens do Neva, vem
refocilar-se para a peleja, e desafiar a justia de Deus e dos homens
atraz dos olhos buliosos da madona de Frosinone. Aqui, no ultimo
occidente, o recontro final ha de ser mais tarde. Que a mocidade no
durma, porm! Prepare-se para os dias de prova, e talvez de tribulao,
com a severidade dos costumes, que d a energia moral, e com a
severidade do estudo, que subministra as armas para a victoria. Por ora
pedem-nos s jesuitas; o perigo da petio no  grande. A igreja da
_Memoria_, cujas grimpas vejo d'aqui, collocada l a meia encosta, vigia
a foz do Tejo. Os filhos de Loiola no passariam quem da barra sem que
o sangue de D. Jos I gemesse nos fundamentos do templo, e este gemido
retumbaria pelo reino de Portugal, porque a imprensa tem echos.

Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por no deshonrar esta terra:
empreguemos unidos os nossos esforos para augmentar os thesouros da
civilisao no paiz; associemo-nos lealmente a quantas idas generosas e
puras de progresso material e intellectual surgirem no meio de ns.
Filhos da imprensa, os nossos deveres so arduos; mas  necessario
cumpri-los. Porque estou eu tranquillo no meio da tormenta que ruge?
Porque tenho a consciencia de os haver desempenhado escrevendo a
historia. Se transigisse com vaidades e mentiras; se vendesse a minha
penna a paixes pequenas e ms; se recuasse diante de consideraes
miseraveis, as horas da solido e do silencio, que so as mais da minha
vida, no seriam to repousadas para mim. Alumiado por essa luz moral,
que nunca devemos perder de vista, espero levar ao cabo o empenho que
tomei, at porque a historia de Portugal  uma das mais ricas em lices
para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas, e essas lices
so hoje altamente proficuas. No ha nella, sob tal aspecto, uma s
epocha infertil, desde os tempos barbaros em que o arcebispo Joo
Peculiar, furioso contra o seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos
paos episcopaes deste, convertia a cathedral em estabulo dos seus
cavallos, e espalhava por terra as sacras frmas, n'um impeto de bruta
colera, at aquelles, no barbaros mas corruptos, em que os devotos e
pios inquisidores, depois de mandarem desconjunctar nos tractos do potro
os membros delicados das virgens hebreas, ou das tidas por taes, iam,
curvados sobre o leito da dr, pousar mollemente os olhos lubricos nos
debeis corpos das martyres, e fartar a sua luxuria de tigres palpando
aquellas carnes pisadas e sangrentas. Quando a justia de Deus pe a
penna na dextra do historiador, ao passo que lhe pe na esquerda os
documentos indubitaveis de crimes que pareciam escondidos para sempre
debaixo das lousas, elle deve seguir vante sem hesitar, embora a
hypocrisia ruja em redor, porque a misso do historiador tem nesse caso
o que quer que seja de divina.

E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo! O opusculo tinha-me
profundamente esquecido.

O eruditissmo academico meu adversario declara-me inhabilitado para
escrever a historia do dominio mussulmano na Hespanha, porque no sei
arabe.

Pois ento dou-a por no escripta. Largo o titulo de historiador; mas
consolo-me com a boa companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras no sabiam
arabe; Barros no sabia o sanskrito; Raynal no sabia as linguas bunda,
tupinamba e iroquesa; Bossuet no sabia as setenta e duas linguas da
torre de Babel.

O auctor do opusculo passa a demonstrar como eu no sei arabe. No era
preciso: nas notas do meu livro estou mais que confesso. Nunca citei um
texto escripto nessa lingua, que no dissesse de que traduco me tinha
valido.

Eis, todavia, as provas _da minha_ insciencia:

Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem phenicia.

E contino a attribuir-lh'a. O nome radical do rio  _Ana_: e os
eruditos concordam geralmente em que a palavra  phenicia. _Guadi_,
_wadi_, ou como em mouro direito for,  rabe, e significa rio. At ahi
chega o meu arabismo. Mas no so essas syllabas que o distinguem,
porque os sarracenos as ajunctavam a muitos _nomes proprios_ de rios.
_Guadiana_ nada mais  que o _rio Ana_.

Segunda: Digo que _Alcacer_ significa _paos reaes_.

E porque no o havia de dizer? Os _Vestigios arabicos_ de Moura do-lhe
a significao de _palacio acastellado_; e eu, que no sei arabe, mas
que sei outras cousas que o auctor do opusculo ignora, affirmo-lhe que
naquella epocha o _Al-kassr_ ou _Al-kassba_ (aqui me colhe n'alguma
tropelia arabica) era isso, ou mais exactamente, um _castello
apalaado_. Quanto ao adjectivo _reaes_, asseguro-lhe  f de christo
(e tanto da gemma, que no entendo o alcoro) que em virtude das
instituies politicas d'aquelles tempos, assim entre sarracenos como
entre nazarenos, o _alcacer_ era necessariamente _real_, isto ,
dependente do poder publico.

Terceira: Chamo a _Ourique_ nome proprio de logar.

Sobre isso falaremos d'espao.

Quarta: Interpreto _Iman_ dignidade religiosa.

Esta accusao deixou-me quasi academico. Para um arabista parece-me
gracejo forte de mais. Pois _Iman_ no significa dignidade religiosa? O
auctor do opusculo devia ento dizer-nos se o _iman_ era algum capito
de mar e guerra, mercador de retalho, dentista, ou que demonio era o
_iman_. Quem a mim me metteu nestes trabalhos sei eu. Foi o celebre
traductor e refutador do alcoro, Marraccio, que teve a insolencia de
dar sempre  palavra _iman_ a significao de _chefe do culto_, de
_principal sacerdote (sacrorum antistes)_[47]: foi o orientalista
Von-Hammer[48], que sabe mais das cousas mussulmanas, que toda a eschola
arabica de Lisboa desde a sua fundao at hoje: foram todas as
exposies da organisao religiosa entre os mussulmanos, no s da
Peninsula, mas de todo o mundo.

Quinta: Digo ser _Ismar_ corrupo de _Omar_ ou de _Ismael_.

 possivel que eu me enganasse: todavia, porque no me fez o auctor do
opusculo um favor especial; porque no me citou na historia de
Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou na de Al-Keiruani, onde
se mencionam milhares de individuos mussulmanos, um s que se chamasse
_Ismar_? Assim fico em duvida, e desconfiado de que tenhamos outra
anecdota como a d'_Iman_.

Felizmente as provas no continuam. Se o auctor proseguisse, temo que
demonstrasse contra mim que eu saba arabe. Era um aperto em que me
punha; porque na realidade eu no sei decifrar um unico daquelles
engaos de passas, que elle lithographou ao cabo do seu opusculo.

Passado o preambulo, o auctor annuncia que vai provar-me pelos
historiadores arabes que a batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o
_golpe fatal dado no dominio mussulmano_. Sancto breve da marca! Sempre
so mouros! Se tal affirmam, digo ao illustre arabista que no os
acredite. Os monumentos christos, ainda os mais exaggerados, no contam
tanto. O dominio mussulmano ficou como estava depois da jornada
d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para os seus estados, ao
norte do Mondego, porque saba do officio de soldado. Sessenta annos de
lucta depois da bulha d'Ourique no bastaram para expulsar de todo do
actual territorio portugus os mussulmanos. Apesar da celebre jornada de
1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando palmo a palmo a
Estremadura e o Alemtejo. Que _golpe fatal_ foi, portanto, esse de
Ourique? Ah mouros, mouros! Isso  debicar com o proximo.

Depois de citar o que eu refiro como introduco  narrativa da batalha,
o opusculo vem deitar-me tudo por terra com um sopro. Errei a
chronologia, os nomes dos imperadores almoravides, tudo. Oh peccador de
mim!

L vai o texto do nosso academico arabico:


     Nada tem o facto de Ourique, succedido no reinado de
     Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este Aly-Ibn-Iussuf foi
     o primeiro imperador da dynastia dos morabethins e falleceu no anno
     496 da Hegira, 1103 da era Christ...

     No foi, _portanto_, no reinado de Aly-Ibn-Iussuf, nem durante o
     de Aly-Ben-Taxefin, que comeou a pretenso do celebre El-Mohdy,
     mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly, que succedeu a
     Aly-Ben-Taxefin, isto , principiou no reinado do III imperador e
     s tomou seu maior incremento no meio do reinado do IV imperador da
     dynastia dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin: logo no
     reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi a batalha de Ourique,
     no houve revoluo, nem politica, nem religiosa, que distrahisse
     as tropas; o que tudo confirmamos, convidando nossos leitores a que
     leiam os capitulos desde 32 at 36 inclusivamente da Historia
     Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por
     Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim.


Transcrevi todas estas blasphemias historicas, para que se veja com
quanta razo dou graas a Deus de que a nossa lingua seja pouco
conhecida, e o que se deve esperar de uma academia onde ha destes
eruditos. Ps  vista de todos o corpo de delicto. Vamos ao auto.

A serie dos imperadores almoravides que resulta das precedentes
passagens  a seguinte.


  1.^o Aly-Ibn-Iussuf       1103 (morto)
  2.^o Aly-Ben-Taxefin      1139 (batalha d'Ourique)
  3.^o Taxefin-Ben-Aly           (apparecimento do Mahadi)
  4.^o Ibrahim-Ben-Taxefin.


Em que se funda o auctor? Que  o que cita em seu abono?

Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia de Assaleh-Ben-Abdel-Halim,
ou Salihn Abd-Alihim, conforme for em mouro a graa de sua merc, porque
no ha dous arabistas que escrevam um nome de gente do mesmo feitio.

Ora os capitulos citados[49] tem apenas o pequeno inconveniente de se
referirem s primeiras conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento
do seu dominio na Africa _na segunda metade do seculo XI_.  no capitulo
37 que se narra a primeira passagem  Hespanha de Iussuf-Ibn-Tachfin e a
victoria de Zalaka em 1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a terceira
em que Iussuf incorporou nos seus dominios os estados mussulmanos da
Peninsula, que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf foi o primeiro
imperador almoravide d'Africa e de Hespanha.

A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos 39 e seguintes da
Historia de Assaleh-Abdel-halim :


  1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido) em                 1106
  2.^o Aly-Ibn-Iussuf (appel. Abu-Hassan) (fallecido) em 1142
  3.^o Tachfin-Ibn-Aly (morto em)                        1145


Se o meu amigo comparar isto com o que se diz no opusculo, no me ha-de
acreditar. Tem razo.  monstruoso,  incrivel,  absurdo; mas est la.
Se quizer desenganar-se, procure a verso de Assaleh pelo padre Moura
esplendidamente impressa pela Academia em papel pardo e letra safada.
Veja o que diz o historiador arabe, o que eu digo, e o que diz o
opusculo. Depois julgue-nos; e, ainda depois, faa idea do que ir pela
_Classe de Sciencias Moraes e Bellas-letras_ (ou, como quem o dissesse
em portugus, _e Boas-letras_) da Academia[50].

 assim que esta gente salva a gloria nacional e vindica a bulha
d'Ourique contra a minha m f, contra o fel da minha critica.

A m f  minha. Repare bem nisso.

Mas haver outros textos de Abdel-halim, que tenham alguns capitulos 32
a 36, que nos contem essas historias do opusculo?

Na parte da _Historia do Dominio dos Arabes_ por D. J. Conde, relativa 
dynastia almoravide, o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte do
seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve aproveitar-se com cautela.
Todavia Conde era incapaz de commetter um erro to grosseiro como
transtornar completamente a chronologia daquella epocha. Isto estava
reservado para um membro da nossa academia.

Eis o resumo da chronologia de Conde quanto  dynastia almoravide[51]:


  1.^o Abu-Bekr-Ibn-Omar (unicamente na Africa)
  2.^o Iussuf-Ibn-Tachfin, fallecido na egira           500
       (1106-1107)
  3.^o Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na egira               534
       (1139-1140)
  4.^o Tachfin-Ibn-Aly fallecido na egira               541
       (1146-1147)


A ordem dos imperadores  a mesma. Conde atraza dous annos a morte de
Aly-Ibn-Iussuf e adianta um a de seu filho. Ainda admittida a
chronologia Conde, a jornada de Ourique cai dentro do reinado de
Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira 534 correu de _agosto_ de 1139 a agosto
de 1140.

Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan e Ibn-Al-Khatib consideram
Iussuf-Ibn-Tachfin como o fundador da dynastia almoravide. Eis a
chronologia seguida por elles:


  1.^o Iussuf, fallecido na egira     500 (1106-7)
  2.^o Aly, fallecido na egira        537 (1142-3)
  3.^o Tachfin, fallecido na egira    539 (1144-5)[52]


J se v que, segundo a chronologia de Ibn-Khallekan e de Ibn-Al-Khatib,
a ordem da dynastia  a mesma, e que o successo d'Ourique tambem cai no
reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre Abu-l-Feda concorda com elles. Na
Egira de 500--diz Abu-l-Feda--morreu Iussuf-Ibn-Tachfin, _amir
al-moslemin_. Succedeu-lhe Aly seu filho (Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o
titulo de _amir al-moslemin_, como seu pae[53].

Resta apontar o que resulta da narrativa do principal historiador arabe
do dominio mussulmano Peninsula, Al-Makkari, cerca da dynastia
almoravide:


  1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin                 1052 a 1106
  2.^o Aly-Ibn-Iussuf                     1106 a 1143
  3.^o Tachfin-Ibn-Aly                    1143 a 1145
  4.^o Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin      1145 a 1147[54]


Que tal parece ao meu amigo a erudio arabica da parte sarracena da
nossa Academia?

Nos arabes v-se que se encontra exactamente o contrario do que se l no
opusculo. Certamente o auctor descubriu essa deliciosa historia dos
almoravides, que nos conta, nos escriptores christos coevos ou quasi
coevos. Sempre era gente que se confessava. Mouro e judeu mentem por
officio. Vejamos:

A chronica dos godos nas suas referencias aos imperadores almoravides:


  1.^o Iussuf          (batalha de Zalaka)  1085 alis 1086
  2.^o Aly-Ibn-Iussuf  (cerco de Coimbra)   1117[55]


A conimbricense:


  2.^o Aly      (cerco de Coimbra) 1117[56]


Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII mais instruido na
litteratura arabe e christ da Peninsula, estabelece para a dynastia
almoravide d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55 annos desde a
Egira 484 at a Egira 539, a seguinte chronologia:


  1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (principio da dynastia)  1091-2
  2.^o Aly-Ibn-Iussuf
  3.^o Tachfin-Ibn-Aly (fim da dynastia)           1144-5[57]


Ao _digno_ academico restam talvez para estribar as suas famosas
historias _almoraviditicas_ (na falta de arabes e christos) alguns
historiadores tartaros, mongoles, ou chinas.

 provavel que seja assim.

Perde, meu amigo, estas extensas citaes. Era necessario dar uma
prova, que no admittisse subterfugios, dos deploraveis, por no dizer
vergonhosos, extremos a que o desejo de me combater tem levado certas
pessoas.

O auctor do opusculo negou, com a mesma sem cerimonia com que
transtornou a serie dos imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi
(Mohammed-Ibn-Tiumarta) comeasse a revoluo almohade no reinado de
Aly, e que nos ultimos annos deste reinado, isto , na epocha da batalha
ou recontro de Ourique, essa revoluo houvesse tomado um incremento
irresistivel. Todavia so os mesmos escriptores arabes que contam o
successo como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim, em que elle
finge estribar-se com uma citao _falsa_; _falsa_, digo, porque tanta
confuso involuntaria  moralmente impossivel. A narrativa de
Abdel-halim , que em 1120 appareceu o Mahadi; que de 1122 a 1125 j se
achava com foras para vir assentar campo perto de Marrocos; que, tendo
fallecido em 1130, tomou o commando dos almohades Abdel-mumen, o qual
foi acclamado imperador em 1133, continuando guerra incessante contra os
almoravides at os destruir[58].  elle que, depois de narrar as
victorias de Tachfin-Ibn-Aly contra os christos desde 1126 at 1137,
refere que logo passara  Africa[59]. Conde diz-nos que fora chamado por
seu pae ameaado da ultima ruina[60]. Habil e feliz general contra os
christos, esta causa da sua partida parece confirmada, no s pela
razo, mas tambem pelo texto de Al-Khatib[61]. Um monumento christo,
escripto por individuo do mesmo seculo, a _Chronica Adefonsi
Imperatoris_, confirma e particularisa o facto. Narrando os successos de
1138, diz que Tachfin levara comsigo, retirando-se para a Africa, at os
mosarabes e os prisioneiros christos para os oppr aos almohades[62].
Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas almoravides, quando a
defesa de Marrocos o obrigava a converter em soldados os proprios
nazarenos captivos? Destroem-se estes factos com citaes falsas? Como
se explica o abandono d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande
batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco) no occidente da
Peninsula entre almoravides e portugueses, quando de Africa se no
dispensava um soldado para a salvao d'aquella chave da fronteira
musulmana? Que se pde dizer que tenha um vislumbre de senso commum
contra o que a este proposito reflecti?

Quem d documentos de m f? Sou eu ou os meus adversarios?

Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico arabe no vale a pena
disso.

Depois d'estas faanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusaes
curiosissimas. Fora extenso de mais cit-las todas. Uma d'ellas  que
chamo  serie dos imperadores almoravides _dynastia lamtunense_ para
explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para
taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a merc de
dizer-me que o vocabulo _lamtunense, ou antes almolatamenense_, no
serve para indicar covardia. Devras? E eu que no caa em nada! Isto 
incrivel, amigo redactor da _Semana_. Digo mais: era impossivel haver
quem fizesse d'estas, se no houvesse academias. Chamei aos principes
almoravides _dynastia lamtunense_, ou _lamtunita_, porque todos os
historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib,
Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou
covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raas bereberes que
serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era
a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da
tribu de Masufah pertencente a essa raa. Aquella phrase do opusculo
_ou antes almolatamenense_,  deliciosa. Como o nosso arabista
precisava de mostrar a sua pobre erudio, fez pouco mais ou menos este
raciocinio: o auctor da Historia de Portugal denomina os principes
almoravides _lamtunenses_; eu digo-lhe, _ex auctoritate qua fungor_ que
era melhor chamar-lhes _almolatamenenses_: ora como esta denominao
provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres
n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforo, embora
elle no usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehend-lo
por isso; porque  uma violencia negar a um pobre escholar arabico a
occasio de mostrar erudies _reconditas_. Sabe o meu amigo o que isto
faz lembrar? Faz lembrar o prgador que punha o barrete na borda do
pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o  sua
vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra
mim:

Que os principes almoravides usaram do titulo de _amir-el-muminin_[64].

A prova disto  curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no,
segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado
duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de
Cordova. No o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que
fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, 
incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se v
que o titulo dos soberanos lamtunenses era _amir-al-moslmin_ (principe
dos mussulmanos). Ouamos agora o sr. Gayangos: No consta da
historia--diz elle--que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores
tomasse nunca o titulo de _Amiru-l-muminin_, que era reservado para o
khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo
contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de
_Amiru-l-muslemin_, ou _principe dos moslems_ (de Africa e de Hespanha).
Os proprios sultes de Cordova, postoque descendentes do tronco dos
Benu-Umeyyah, e to intimamente ligados com a familia do propheta, no
se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbs
no chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o
uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova
e d'outras cidades da Peninsula[65]. Effectivamente Abu-l-Feda nos
certifica que Abderrahman III foi o primeiro entre os principes
ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de _amir-al-muminin
proprio do Khalifa_[66].

Isto no so citaes falsas. Por ellas pde ver o meu amigo com quanta
exaco eu escrevi cerca dos almoravides, embora no fosse esse o
objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o
opusculo sarraceno destinado a refutar-me. No fica, porm, aqui o
negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da
lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia
almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de _amir-al-muminin_, porque,
diz elle, o de khalifa s se deu aos imperadores do oriente, e estas
palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeo
a ultima novidade; mas eu no escrevia grammatica; escrevia historia, e,
politicamente, as duas expresses eram synonimas. Que se pensaria de
quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que,
falando do imperador da Russia, dissesse _o czar ou autocrata_? Por
outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de
khalifa se deu ou no se deu aos principes mussulmanos do occidente,
ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha,
cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6
d'Al-Makkari, ahi achar que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam
III foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu _os titulos de
khalifa e de amiru-l-muminin_. Se tambem quizer saber se os principes
almohades tomaram ou no o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e l
achar este periodo: El-Mohdi _elevou o khalifado_ para os que lhe
succederam[67], e mais adiante, onde se conta certa anecdota do
primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, ler que um poeta da crte
dizia a outro: At quando importunars tu _o khalifa_?; porque  de
advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha
criticos academicamente originaes.

Mas, em consciencia, meu amigo, eu s vezes merecia ser feito socio
effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha
simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta
mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue
toda a matalotagem arabica do _digno_ academico, se lhe rebella e
tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E seno,
ouamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leo e ao papagaio, de que
Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador,
traduzidas por Moura na sua verso de Abdel-halim, so _as victorias e
o poder competem ao califa Abdelmumen_[68].  verdade que o auctor do
folheto, que repete a historia do leo e do papagaio, no sei para me
provar o que, traduz, em logar de _califa_, _successor_. Mas aqui para
ns, meu amigo, postoque eu no saiba arabe, apostava que isso foi uma
esperteza, e que naquella expresso _algalifatu_ (ou, como Moura l,
_el-califa_) anda o que quer que seja de _khalifa_.

Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha
como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraa,
duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso
paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique no 
nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa
_adversidade_ ou _infortunio_.

Sou, porm, nesta parte absolvido do peccado, porque quem me deitou a
perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos
isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento,
que o digno academico fez,  exactamente a contraria da que elle
desejava. Se assim , torna-se impossivel achar jmais uma passagem de
auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora
at aqui no tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas
desde que a palavra ourique (tirei-lhe o _O_ maiusculo, no pensem que
teimo em faz-la nome proprio) significa s _adversidade_ ou
_infortunio_, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no
fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtjo  um facto provado
pelos testimunhos que eu colligi; o que no est provado, nem se ha de
provar nunca,  que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor
arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de
Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do _campo de
Ourique_; mas como o auctor do opusculo no consente que esse pobre _o_
tome as dimenses de letra maiuscula, qualquer passagem que apparea ha
de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: Houve em 1139 um
combate entre os moslems e os infieis _no campo da adversidade ou do
infortunio_. Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e
consequentes, houve muitos recontros entre os christos e os
mussulmanos, segue-se que no saberemos a que conflicto allude o auctor
arabe; porque todos os campos de combate so de adversidade ou
infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este
modo de defender a importancia da batalha de Ourique  galantissimo.

O que, porm,  verdadeiramente academico e digno do pincel de Molire 
o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura cerca da
etymologia de Ourique.  bem clara--diz elle--_ainda para os que no
sabem arabe_, a nenhuma analogia que se nota _com o ouvido_ entre
_orique_ e _arique_. Agora, quer o meu amigo saber com que palavra
arabe _orique_ se parece muito?  com _araka_. Isto no precisa de
commentario. Nas contendas dos nossos rapazes cerca da Stoltz e da
Novello, quem devia dar a sentena definitiva era o illustre arabista.
Proponham a questo  Academia.

Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo
paragrapho.  uma novidade que escapou a todos os etymologistas e
ethnographos. Na translao das palavras de umas linguas para as outras,
ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta
da ignorancia das multides, que so quem ordinariamente faz essas
adopes de termos peregrinos. As proprias transformaes das linguas
so assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas
da Europa occidental. Nestas mudanas e adopes no ha letra que no
possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para no o
ignorar. Agora oua o meu amigo um mysterio da lingua arabe: Moura--diz
o opusculo--foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo _araka_, cuja
primeira letra radical, que  um _alif, no soffre a converso_ para a
letra _o_ nas linguas europeas. Isto quer dizer que aos rudes
portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras,
quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes
caam nas unhas, era prohibido tocar no _alif_, especie de
_noli-me-tangere_ arabico. Certamente, meu amigo, no alcoro ha uma sura
intitulada _Dos escorchamentos etymologicos_ onde o propheta diz:
Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra _alif_ para della
engenhar um dos seus maldictos _s_, vai preso. Foram peccados meus que
me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair
por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo
sarraceno.

Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como
isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de
sciencias moraes e bellas-letras, elle entender assim melhor a phrase);
vem uma longa chicana sobre as palavras _fossado_, _correria_,
_entrada_, e no sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudio
pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado  expedio de Affonso
I em 1139, porque todas as etymologias do mundo no podem fazer com que
uma cousa deixe de ser o que . O fossado era uma expedio que se fazia
em regra todos os annos no comeo do vero s terras inimigas:
questionar sobre isto no sera mais do que mostrar-se profundamente
ignorante das nossas cousas antigas. _Correria_  um nome que cabe ao
fossado to bem como _expedio_; porque correria  uma especie do
genero expedio, mais nada. Quem faz uma expedio, fossado, ou
correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcoro ou a
Academia no mandarem o contrario) e por consequencia faz uma _entrada_.
No  uma miseria, alm disso, affirmar-se n'um papel que tem a
pretenso de ser cousa sria, que eu me contradigo, porque, chamando
correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a ida de que os
mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o
passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se
ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos no podiam
precaver-se? Que resposta sria se pde dar a isto? Fique-se entendendo
que quando um paiz  invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar
como carneiros e no se unem para se defenderem, ou que os soldados que
fazem correrias, no andam, mas voam, ou vo em aerostatos descer aonde
e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de
Ourique no houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas
almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem,  cousa to absurda,
quanto  certo que essa expedio importava uma longa marcha de
cincoenta leguas (que tantas iro de Coimbra ao campo de Ourique) quasi
toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos,
Ourique ficava _no corao das terras mussulmanas_. Qualquer cabo de
esquadra sabe que difficuldades se offerecem  marcha de tropas, embora
disciplinadas (como de certo no eram as de Affonso I) atravez de um
paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O
principe portugus deixava, alm disso, na sua retaguarda, por um e por
outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos,
taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a
volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim,
meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o
fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos,
embora no tivesse as dimenses que lhe attribuiram depois, foi ou no
foi um acto de bastante ousadia.

De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho
que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as
minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo _derrota_ por _destroo_
ou _desbarato_ (dos sarracenos em Ourique). No escrevi o meu livro para
se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico portugus, e
por isso na sua lingua, ao menos at onde eu a saba.

Vamos  questo principal. Para a tractar no me parece que fosse
necessario accumular previamente tanta inexaco e tanto desproposito.
Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos
transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio cerca da
batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposio
_contraria_, isto , que nesses diversos escriptores arabes se
encontram, no s vestigios della, mas tambem a sua _descripo_, e as
suas _consequencias terriveis_.

Algum de ns, pois, engana o publico; algum de ns commette uma aco
indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta  verdade. Eu
consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio
mussulmano na Peninsula, e que esto traduzidos. Era essa unicamente a
minha obrigao, porque no sei arabe. O auctor do opusculo _devia_
t-los visto antes de escrever, e _podia_ ter lido outros, porque diz
que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros
comparados com os monumentos christos, e o auctor achasse que esses
no-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era
preferivel ao delles e ao dos monumentos christos, sendo accordes uns
com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa
de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa
concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda
no seculo XII ou nos comeos do XIII. Das tres fontes historicas resulta
ou no resulta o que eu disse? Resulta ou no resulta, que antes de
julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo
as tropas que pde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christos?
 verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou _de abril a setembro
ou outubro_[69]?  verdade que os seus defensores pediram debalde
soccorro a Tachfin, _que se achava ento em Africa_? So, portanto, bem
deduzidas as minhas inferencias de que  absurdo imaginar que havia
trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito
do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso
Henriques, e no os havia para descercarem uma praa daquella
importancia?  para responder negativamente a estas perguntas de um modo
to categorico como eu as fao, que desafio o auctor do opusculo
sarraceno.

Ao que se colhe dos monumentos christos e mussulmanos coevos ou quasi
coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porm, oppr o
_digno_ academico? Vejamos:

Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, _que viveu no principio do seculo_
XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da
epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou
transcrever, porque gsto de apresentar o corpo de delicto:

E dizem alguns dos sabios precedentes _sobre_ o governo da Andaluzia
(_sic_) que ella muito se engrandeceu: _e na verdade conquistou com boa
posse_ (_sic_) muitos dos logares _os_ (_sic_) mais notaveis: e foi isto
depois que l'Enrick _derrotou_ os mussulmanos; (_sic_) no persistiram
estes depois disso no paiz seno quando obravam pacificamente; e _por
isso_ (_sic_) ficaram os christos neste paiz senhores de suas terras e
de suas riquezas (_sic_), (_sic_), (_sic_).

O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que
at certo ponto simula lingua portuguesa, ha, _no s claros vestigios_
da batalha de Ourique, mas tambem a _descripo della e das suas
consequencias_. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes
antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na
Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns
daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes
que eu no soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia
e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel
achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opinies
aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo
XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi v em meio-mouro.
Realmente a cousa  sria, sobretudo exornada com as erudies e
commentarios do traductor, a quem Deus d alguma inclinao mais
proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos
viajantes marroquinos.

Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a
l'Enrik (que  possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos
escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no
principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender
antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra
_ulm-i_ para significarem os _seus_ historiadores. Vamos por partes. Se
o sr. Hamed escreveu _sabios precedentes_,  porque j tinha dicto quem
elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertao cerca da palavra
_ulm-i_, no seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o
traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah
traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as
notas de sr. Gayangos  verso de Al-Makkari, notas preciosas como fonte
de erudio arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para
sabermos que importancia deveriamos dar aos _sabios precedentes_ como
auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava.
Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem
vindo a Hespanha e repetissem o que por c tivessem ouvido cerca do
recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos
antes, provariam tanto a favor della como a _precedente_ traduco prova
que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa
lingua. Suppondo, porm, que Hamed se refira no principio do periodo a
historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o
que  certo  que a phrase relativa a l'Enrik no  dos taes _sabios
precedentes_, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe
bastante da lingua franca para ver que desde as palavras _e na
verdade_ no so os _sabios precedentes_, mas sim o proprio Hamed, em
corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu
testimunho o dicto delles, se  possivel perceber aquelle _imbroglio_
que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior  que o proprio
texto est provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a
facto algum especial, se refere em geral s victorias e conquistas de
Affonso I, (se  que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que
eu particularisei com a miudeza e exaco, a que os _sabios
precedentes_, os _ulm-i_ da nossa terra, no tinham chegado. Se Hamed
se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik,
tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as
consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como j disse,
Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de
terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtjo,
ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabea ao jugo christo.

Aqui tem o bom redactor da _Semana_ o que  e o que vale o papel da
tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos
monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis.  o
dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se
fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que
terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio  s
vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias!

O famoso texto do viajante marroquino  reforado com um contraforte
tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do
uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante
passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o
texto _inedito_ de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe
 luz do dia:

E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139)
desbaratou o general Taxefin as multides dos christos _nos campos de
Attibbat_; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de
seus prisioneiros _seis mil captivos: em consequencia do que_ partiu
para Marrocos, e  sua chegada _lhe saiu ao encontro seu pae_, o
imperador dos mussulmanos, _que ficou em profundo desgosto e cheio de
grande susto_.

No capitulo 33 do Kartts traduzido pelo padre Moura no vem esta
passagem. Entretanto no devo crer que o auctor do opusculo a
inventsse. Cumpre suppr que elle se serviu de algum exemplar mutilado,
viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na verso de
Moura  no capitulo 40 que se contm as ultimas aces do Tachfin na
Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz:

No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o
principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido
e tomado de assalto _a cidade de Segovia_, levando comsigo _seis mil
captivos_; e tendo chegado a Marrocos _veio seu pae encontr-lo_ com
grande pompa e _se alegrou com elle_, etc.[71]

As duas passagens so, se no identicas, por certo parallelas. Tracta-se
em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um
triumpho em que captivou seis mil homens. A differena est nas
circumstancias, e _na data_. Qual dessas se deve preferir? Vejamos.

Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas pe-na como
immediata  reduco de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de
1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao
anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a
sada do principe almoradive para a Africa devia verificar-se j em 532,
isto , nos fins de 1137 ou nos principios de 1138.

Com esta data concorda o auctor da chronica de Affonso VII, mencionando
a partida de Tachfin para alm-mar entre os successos de 1138, e
descrevendo a mensagem que lhe enviaram  Africa os defensores de
Aurelia durante o cerco posto a esse castello por Affonso VII _em abril
de_ 1139. O chronista christo vai de accordo na chronologia com os
historiadores arabes sem os conhecer, e limitando-se a narrar os factos
que _ouvira s pessoas que os tinham presenciado_[72].

No quero suppr, torno a repetir, que o auctor do opusculo forjasse a
passagem que cita, ou que alterasse a data da hegira para provar que
Tachfin estava em Hespanha em julho de 1139. N'uma questo em que se tem
procurado associar  ida de que ca n'um erro historico a de que tive
em mira deshonrar o meu paiz, tal procedimento fora duplicadamente
torpe. Todavia o _digno_ academico ainda assim tem d'escolher entre a
ignorancia e a m f. Se conhecia a chronica de Affonso VII, a narrativa
de Conde e a verso de Assaleh por Moura, tinha que fazer duas cousas:
primeira, provar que essas auctoridades em que eu me estribava eram
insufficientes; segunda, mostrar que o seu manuscripto tinha uma
importancia, uma auctoridade tal, que as annullava. Onde o fez? Como o
fez? Acaso s porque se mandaram escrever n'uma pedra lithographica uns
poucos de caracteres arabicos ou o que quer que seja, provou-se que as
palavras que resultam da sua unio so indubitaveis como o evangelho, ou
sequer que  preferivel a leitura do codice de que se tiraram  leitura
de codices j conhecidos e traduzidos por outros arabistas, que pelo
menos sabiam tanto arabe como o auctor do opusculo?

 vista destas simples e claras reflexes, o texto de Abdel-halim citado
pelo digno academico vale tanto e prova tanto como o de Hamed-el-Nabil.
Eu, porm, acceito-o por um momento. Vamos a discuti-lo em si.

Que diz o tal texto? Que Tachfin desbaratou no campo da total destruio
(Attibbat) as multides dos christos; que aprisionou seis mil homens, e
que partiu para Marrocos, com o que seu pae ficou cheio de desgosto e de
susto. Onde se fala aqui em Ourique? Para entender _Ourique_ por
_Attibbat_ o auctor faz o seguinte raciocinio:--a batalha de Ourique
foi de _total destruio_ para os mussulmanos, logo _Attibbat_ 
Ourique:--e querendo provar que o recontro de Ourique foi uma grande
batalha, faz outro raciocinio do mesmo jaez:--Attibbat quer dizer
Ourique, logo em Ourique houve uma _total destruio_.--Todos os
argumentos, todas as erudies do folheto nesta parte, embora por outras
phrases, reduzem-se a isso; reduzem-se a duas peties de principio.
Depois, no  admiravel o desgosto e susto de Aly-Ibn-Iussuf vendo seu
filho voltar  Africa depois de uma victoria em que desbarata os
christos, mata muitos, e leva seis mil captivos? Felizmente para Aly,
Tachfin no levou, em vez de seis, doze mil captivos, e no deixou o
resto passado inteiramente  espada. Se tal acontece, o pobre amir
el-moslemin caa fulminado por uma apoplexia. At o auctor do opusculo
achou a cousa absurda. Mas como sau da difficuldade? Dizendo-nos que o
texto arabe tanto pde significar _Tachfin desbaratou os christos_
como _os christos desbarataram Tachfin_. Estava eu to desgostoso por
no saber arabe como o velho Aly por seu filho ganhar victorias, quando
veio esta declarao consolar-me. A historia  impossivel na lingua
arabe; porque a mesma phrase significa branco e significa preto; exprime
os dous factos mais oppostos. Os traductores de historias sarracenas tem
andado a debicar com a Europa: onde dizem que tal batalha foi ganhada
por A contra B, podiam ter dicto com a mesma veracidade que fora ganhada
por B contra A. Isto, meu amigo, no se discute: est discutido por si.

Depois de vermos sacrificada a logica e at o simples senso commum 
necessidade de achar um texto arabe que prove a importancia da batalha
de Ourique, o que  mais divertido  o completo esquecimento em que o
auctor do opusculo sarraceno, enlevado no seu Abdel-ha-lim _particular_,
deixa os monumentos christos coevos que referem o successo. A chronica
lamecense, a conimbricense, a dos godos, todas dizem que o general
sarraceno era Ismar (_prside rege Smare_). Se Ismar no significa
Tachfin como Attibbat significa Ourique, segue-se que ou mentem as
chronicas coevas, ou mente o Abdel-halim _particular_, que diz ter sido
o general dos sarracenos o proprio Tachfin, ou a passagem citada no se
refere ao successo de Ourique. Daqui parece-me que no ha fugir. A
ultima explicao  sem duvida a verdadeira. Essa passagem 
evidentemente a que Moura traduziu, e Conde substanciou; passagem que se
combina chronologicamente com a narrativa da chronica de Affonso VII, e
que no opusculo apparece alterada nas circumstancias e na data. Quem a
alterou, e para que fim? Isso pertence a Deus, que v os coraes, e nos
ha de julgar a todos no dia de juizo.

Depois, como accommodar os factos, que o auctor do opusculo acceita do
seu Abdel-halim particular em demonstrao da grandeza da batalha, com o
que nos diz a chronica dos godos e com o resultado daquella jornada?
Pois os mussulmanos so postos em fuga ao primeiro recontro, por um
troo de cavalleiros escolhidos (_electi milites_) ficando
entrincheirados os restantes dos poucos soldados (_paucis suorum_), de
Affonso Henriques, e Tachfin, que foge, leva seis mil prisioneiros? Que
digo eu, seis mil! Segundo o commentario do digno academico eram muitos
mais. Aquelles seis mil foram escolhidos um a um, no meio do grande
vagar que para isso tinham os sarracenos fugitivos, entre milhares de
christos de rebotalho, aos quaes iam cortando os pescoos. As causas
determinantes da escolha (que eu deixarei nas paginas do opusculo,
porque no as consentem as paginas da _Semana_) deviam tornar os bons
dos sarracenos demasiado pechosos na seleco, e pelas minhas contas,
para apurarem seis mil como lhes eram precisos, no podiam deixar de
refugar os seus cento e noventa quatro mil, esmando pelo baixo. A mim
parece-me, salvo o respeito devido a um representante da parte sarracena
da Academia, que era melhor ter traduzido do Abdel-halim particular,
(lithographando tambem no fim do opusculo o original mourisco e
subministrando assim mais abundante alimento  pasmaceira dos parvos)
uma carta de Tachfin dirigida ao principe portugus, escripta ao comear
a retirada, e concebida pouco mais ou menos nos seguintes termos: Meu
Affonso-Ibn-Errik. Estou capaz de renegar Mafoma com a grande rta que
me dste. Vou para Africa amuado, metter-me em casa de meu pae, que se
chama Aly-Ibn-Iussuf, embora os _ulm-i_ academicos da tua terra queiram
 fina fora chamar-lhe Aly-Ben-Taxefin. A guerra  guerra, e uma
batalha perdida ou ganhada no  motivo para nos desestimarmos. Eu
preciso de levar comigo em ar de prisioneiros uns seis mil rapazes
christos airosos e bempostos. Se os podres dispensar, far-me-has nisso
particular favor e uma aco de cortezia. S Deus  Deus e Mohammed o
seu propheta. Aos 26 de zilkhada da Hegira 533.--Com isto ficava tudo
explicado. Os seis mil prisioneiros tinham sido uma generosidade do
_Phara obdurado_, embora fingida; porque, tendo Christo acabado de lhe
asseverar que havia de vencer sempre os sarracenos, no s podia fazer
presente a Tachfin de todos os soldados imberbes do exercito, mas tambem
de quanto soldado barbudo, velho e relho, achasse alli  mo vasculhando
o acampamento, os quaes, se no prestassem para mais nada, prestariam
para bichos da cozinha do amir-el-moslmin.

Meu amigo, n'outro qualquer paiz, uma academia, cujos membros fossem
capazes de escrever opusculos destes, dissolvia-se para se reconstruir
com outros elementos, aproveitando s, e com grandes cautellas, o pouco
que ahi houvesse de aproveitar. A nossa Academia, especie de congregao
bernarda que come e dorme, acodem-lhe s vezes  pelle estes tumores
litterarios, estas secrees eruditas, que, longe de a matarem, lhe
fortificam a compleio. Deus lhe d uma longa vida.




DO ESTADO

DAS

CLASSES SERVAS NA PENINSULA

DESDE O VIII AT O XII SECULO


1858




I


Por mais que a tradio de antigas malquerenas e o ciume da nossa
autonomia nos affaste dos outros povos da Hespanha, dos quaes os eventos
politicos fizeram, mais ou menos foradamente, uma s nao,  certo
que, apesar de todas as repugnancias entre portugueses e hespanhoes, nas
opinies, nos costumes, nas tendencias moraes de ambas as naes se est
revelando a cada passo uma origem commum. Postoque cada uma dellas tenha
defeitos especiaes, como os ha de provincia para provincia, do-se
alguns to nossos e to hespanhoes, que de per si, sem outros
adminiculos, provam de sobejo essa communidade de origem.

Esta reflexo occorreu-me naturalmente ao comear um escripto, em que
tenho de dizer poucas palavras crca do homem a quem elle  dirigido.
Ha na Academia da Historia, de Madrid, um modesto empregado, envolvido
na obscuridade da sua situao, sem cargos publicos, sem condecoraes,
sem pingues sinecuras, e de que talvez se podesse dizer--sem po--se a
Academia no o houvera encarregado das suas colleces litterarias. Este
empregado modesto, este homem socialmente obscuro,  todavia um dos
maiores eruditos da Hespanha, um dos que mais profundamente e com mais
san consciencia (dote raro nestes nossos tempos) tem cavado na rica e
to pouco explorada mina das antigas instituies e costumes da
Peninsula, isto , do que na historia della ha mais serio, mais
importante e mais difficil d'estudar. Falo de Thoms Muoz y Romero, do
auctor da _Colleccion de Fueros Municipales_, obra notavel, que, sendo
de um homem s, honraria uma corporao litteraria, que a houvesse
emprehendido e executado. E todavia, esse livro importante foi
interrompido, segundo me affirmam, por falta de proteco; e Muoz y
Romero ainda nada mais  hoje do que era ha dez annos, quando publicou
aquelle seu primeiro trabalho, o modesto official da bibliotheca da
Academia da Historia!

 o que provavelmente succederia ao livro e ao homem nesta terra, neste
fragmento da Peninsula chamado Portugal, irmo gemeo desse maior
fragmento, que chamam especialmente a Hespanha.

Na _Revista Espaola de Ambos-Mundos_, nos numeros correspondentes a
novembro de 1854, appareceram successivamente dous artigos, assignados
por Muoz y Romero, sobre o estado das pessoas nos reinos de Asturias e
Leo nos primeiros seculos posteriores  invaso dos Arabes. Escriptos
como aquelles, manifestaes to brilhantes de verdadeira sciencia, no
so frequentes em publicaes periodicas, ainda alm dos Pirenus. Li-os
com avidez e interesse sempre crescentes. Ahi encontrei que aprender, e
sobretudo pude emfim assentar as minhas idas crca da origem, ou antes
da denominao dos malados e das maladias, ponto em que a propria
opinio que adoptara no terceiro volume da Historia de Portugal no me
satisfazia completamente. Vi, porm, que discordavamos n'uma questo
capital d'historia; no modo de apreciar o estado das classes servis nas
Asturias e Leo durante os seculos immediatos  reaco christan, e tive
o desgosto de no poder, apesar de todas as consideraes do sr. Muoz,
abandonar a propria opinio para adoptar a sua. Ou seja por um modo
errado de interpretar os antigos monumentos, a que o meu espirito se
tenha affeito, ou porque a razo esteja do meu lado,  certo que nenhum
dos muitos documentos que o sr. Muoz oppe s minhas opinies me
pareceu contrari-las: alguns, pareceu-me que at serviam para as
corroborar. Desde esse momento entendi que no sera absolutamente
inutil ao progresso dos estudos historicos da Peninsula expr as duvidas
e reflexes que me occorriam sobre a materia, deixando depois aos homens
competentes comparar os dous systemas e escolher entre elles.

Quando pensava em realisar este designio, sobrevieram acontecimentos que
durante quasi dous annos me foraram a abster-me dos trabalhos
historicos. Affastado por to largo tempo dos meus habituaes estudos,
se,  custa de serios desgostos, aprendi muito a respeito dos homens e
das cousas do meu tempo e do meu paiz, esqueci tambem muito do que saba
ou cria saber crca dos homens e das cousas do passado. Aberto para mim
de novo o caminho dos trabalhos historicos pela fora da opinio em
lucta com a immoralidade do poder, renovei esses abandonados estudos,
mas renovei-os como um dever de consciencia, como um servio que me
exigem, como o cumprimento de um contracto tacito com o publico. O amor,
diria antes a religio ardente, com que cultivava a sciencia da
historia, perdi-o no campo de batalha. Escrever  hoje para mim o mesmo
que ser vereador, jurado, ou membro de um conselho de districto:  um
encargo e mais nada. No horisonte das minhas ambies, e Deus sabe se
falo sincero, s vejo o dia em que possa depr a penna, e sumir-me em
completa obscuridade. Ser esse o melhor da minha vida. Na situao
d'animo em que por tanto tempo me achei, a questo dos servos na
Peninsula durante os seculos medios esqueceu-me completamente. Veio
recordar-m'a, porm, uma circumstancia casual. Tendo de examinar um
volume da _Revue Historique du Droit Franais et tranger_, passou-me
pelos olhos um artigo de M. de Rozire (julho e agosto de 1855) sobre o
escripto do sr. Muoz, escripto que o illustre professor, a quem devo
mais de uma prova de benevolencia, resume com a sua habitual lucidez, e
cuja doutrina acceita como a mais verosimil. A doutrina, porm,
expressamente combatida pelo auctor do opusculo sobre o estado das
pessoas nos reinos de Asturias e Leo, nos primeiros seculos depois da
invaso arabe,  unicamente a minha.  de mim que elle declara discordar
completamente sobre a natureza da servido na monarchia no-gothica
desde o VIII at o XII seculo. A verosimilhana da sua opinio torna
portanto menos provavel para o illustre professor da _cole des Chartes_
a doutrina que estabeleci. Se a questo pendesse to smente entre mim e
o sr. Muoz, demorar, ou, at, pospr completamente a defesa da minha
theoria crca da servido n'aquelle periodo no teria grande
inconveniente. Os documentos invocados pelo sr. Muoz e as suas
ponderaes, e bem assim os documentos que eu citei e as concluses que
delles deduzi esto ao alcance dos homens de letras da Peninsula que se
dedicam aos trabalhos historicos; e os archivos de Portugal e de
Hespanha encerram centenares de outros monumentos ainda no estudados,
que poderiam lanar nova luz sobre o assumpto. Nada mais facil, at, do
que conduzirem-nos novas investigaes, a mim ou ao sr. Muoz, a
abandonar o proprio systema, porque ambos buscamos sinceramente a
verdade. Mas desde que a materia do debate, transpondo os Pirenus, foi
exposta a uma luz que no creio verdadeira, por um homem como Mr. de
Rozire, e a um publico privado dos meios de apreciar por si proprio os
documentos e raciocinios em que se fundam as duas opinies oppostas,
entendo que  do meu dever publicar as observaes que se me offerecem
relendo os artigos do sr. Muoz, observaes que, feitas ha dous annos,
quando estas materias eram quasi a unica occupao do meu espirito,
seriam sem duvida mais efficazes para a defesa de um systema que ainda
hoje me parece ser o que melhor se estriba nos antigos documentos, e que
ao mesmo tempo melhor os explica.

Antes de tudo cumpre determinar bem a materia controversa e
circumscrev-la. Tanto eu como o sr. Muoz falmos da servido no
periodo em que por successivas transformaes o homem de trabalho, o
homem escravo, o homem _cousa_ dos romanos chegou a ser a pessoa civil,
a pessoa livre, o cidado mais ou menos humilde dos tempos modernos.
Deixando de parte maiores ou menores differenas de opinio entre ns
quanto aos tempos da monarchia gothica, ou que se possam deduzir das
nossas palavras quanto aos tres ultimos seculos da idade mdia,
limitar-me-hei a expr o que contradictoriamente entendemos cerca da
situao das classes servis do VIII at o XII seculo. Escrevendo um
artigo e no um livro, procurarei affastar todas as questes secundarias
que se ligam a esse grande facto da transformao das classes
trabalhadoras, e abstrahindo das causas e consequencias da situao em
que se acharam os servos depois da invaso arabe e da reaco asturiana
(successos coevos e quasi simultaneos) em tudo o que no fr
indispensavel para a clareza da materia, reduzirei o discurso ao que a
razo persuade e os monumentos confirmam cerca do facto geral da
transformao gradativa da populao serva naquelle periodo de quatro
para cinco seculos.




II


O estudo reflectido dos historiadores arabes e dos monumentos christos
da pocha da conquista e do dominio sarraceno tem feito sentir que essa
conquista e esse dominio extranho foram, na historia das invases e da
sujeio de raa a raa, de povo a povo, entre os factos de semelhante
ordem, um dos que custaram  humanidade menos tyrannias, menos lagrymas
e menos sangue. Tem-se dado o devido desconto s exaggeraes das
chronicas e  linguagem de certos escriptores christos contemporaneos,
aonde auctores mais modernos foram buscar os lineamentos dos seus
quadros de terror, quando ahi mesmo se encontram as provas de que os
factos no correspondem s expresses genericas com que  descripto como
um dos mais crueis flagellos o predominio dos sarracenos na Peninsula.
Se juncto ao Guadalete se desmoronou o imperio dos godos, a sociedade
wisigothica ficou. As provincias ou as cidades que acceitaram sem
resistencia o jugo dos novos senhores no tiveram que padecer seno as
consequencias dos grandes movimentos militares sobre qualquer
territorio, as violencias accidentaes e individuaes durante a lucta. Em
geral, a ordem das relaes civis, e uma parte das publicas continuam a
subsistir do mesmo modo que d'antes. O tributo e o exercicio das altas
funces da administrao do Estado  que mudam. Nas provincias
meridionaes da Hespanha fica, at, por algum tempo um simulachro do
imperio gothico, o reino de Theodemiro, tributario mas livre, que se
incorpora obscuramente depois nos dominios do khalifa. No meu livro
busquei desenhar com fidelidade essa nova situao; dar aos successos o
seu verdadeiro valor, estribando-me nos monumentos coevos, e fazer
sobresair a populao mosarabe (godo-romana), to esquecida em geral
pelos historiadores.

Entre os mosarabes a situao dos servos devia ser a mesma que entre os
godos antes da conquista. No  provavel que esta formula da sociedade
civil se alterasse quando todas as outras se mantinham. Nessa parte a
conquista arabe no trouxe o que trazem sempre os grandes abalos
politicos, um progresso de civilisao.

Succedeu o mesmo com a reaco asturiana? Podia succeder? Ps este
problema a mim mesmo, e resolvi-o negativamente; porque a razo e os
documentos me foravam a essa soluo negativa.

O levantamento de Pelaio no chegou a ser uma revoluo: foi uma
resistencia: resistencia feliz nos primeiros passos e que no tardou a
converter-se n'um perigo serio para o dominio mussulmano. Dentro de
poucos annos a reaco obscura de um punhado de soldados godos fundava
uma monarchia christan e independente, que se contrapunha ao islamismo
triumphante, que estabelecia fronteiras, embora variaveis, e que tomava
ou fundava logares fortes, onde os novos senhores da Hespanha
encontravam dura repulsa s suas diligencias para suffocar esta perigosa
entidade politica. Da desproporo das foras entre as duas potencias
mussulmana e christan, se o nome de potencia pde dar-se aos estados de
Pelaio e dos seus immediatos successores, resultava necessariamente um
facto. Todo o homem vlido devia ser chamado s armas nas Asturias, mas
de um modo em que interviesse a espontaneidade individual. No alcano
sequer como podesse ser de outro modo. A servido dos godos; os senhores
levando os servos armados ao combate, sem crena, sem ardor, sem
interesses moraes ou materiaes que defender, como nos tempos gothicos,
sera um facto que no sei como poderia dar em resultado a fundao e
engrandecimento da monarchia de Oviedo.

Na verdade, com o tempo, as instituies wisigothicas foram-se
restaurando  medida que se engrandecia o novo reino, que uma parte do
territorio deixava de ser perenne campo de batalha, e que a segurana,
maior ou menor, favorecia o maior ou menor desenvolvimento da
agricultura e de uma especie de industria. Uma parte da populao
mosarabe, ou pelas migraes tanto foradas como espontaneas, ou pela
aggregao successiva de territorios habitados por ella, incorporava-se
gradualmente na sociedade no-gothica, e, trazendo comsigo a
jurisprudencia antiga, que tinha conservado intacta sob o jugo
sarraceno, devia exercer naquelle sentido uma influencia, digamos assim,
reaccionaria. Mas o que no podia era destruir a fora das
circumstancias; o que no podia, n'uma sociedade em cuja origem, em cujo
amago estava a resistencia, a espontaneidade, a liberdade, era
restabelecer a servido pessoal antiga em toda a sua plenitude.

Supponhmos um nobre, e at um simples _possessor_, acolhendo-se s
Asturias, a Oviedo, nos tempos de Pelaio ou dos seus immediatos
successores. Como arrastar elle comsigo os servos que o rodeiam?
Invocar a fora publica, a auctoridade mussulmana para os constranger a
acompanharem-no? Sera absurda a hypothese. Esse nobre, ou esse
_possessor_ ha-de descer  persuaso; ha-de falar de manumisso, ha-de
approximar de si o homem envilecido, ha-de recorrer aos afagos, s
promessas. Ficar onde se acha  para o servo a liberdade, quando o
senhor abandona o lar domestico. Devemos acaso crer que nelle esto
inteiramente mortos todos os instinctos humanos?

Supponhmos a conquista; a accesso de territorio. O mosarabe senhor de
servos, que se incorpora por esse facto na sociedade ovetense, acha
actuando energicamente nesta o sentimento da liberdade e da
espontaneidade individuaes, as classes servis armadas, os antigos laos
hierarchicos quebrados em grande parte. Esse facto no influir em nada
nas suas relaes com os proprios servos? Depois, alm, pouco alm,
esto os castellos sarracenos, a administrao mussulmana. Se elle no
affrouxar os rigores da servido; se no ligar a si o homem de trabalho
por algum interesse, por algum motivo racional, ser difficil que esse
homem o abandone, e que conquiste pela fuga, e talvez pela mudana de
f, a sua emancipao?

Se os documentos nos no provassem que a servido de gleba fora o passo
immediato dado pelas classes infimas para a liberdade, a razo, longe de
nos persuadir que a servido se mantivera em Oviedo e Leo como nos
tempos gothicos, far-nos-hia antes acreditar que ella fora substituida
pelo colonato espontaneo. O colonato, eis o grande meio de ligar o homem
de trabalho  terra, por este instincto, por este amor quasi connubial,
que une a me commum ao individuo que a faz fructificar. Da servido
gothica, porm, para a adscripo havia um passo gigante, e as classes
servis eram asss rudes para no perceberem toda a differena do
colonato  adscripo, porque essas differenas so pela maior parte de
ordem moral. Na practica, materialmente, sobretudo em tempos de bruteza
e violencia, n'uma sociedade perturbada e vacillante, as distinces
entre a posse e o uso da terra pelo colonato ou pela adscripo no
podiam ser demasiado sensiveis. O sentimento, a aspirao do individuo
que cultivou o solo, que construiu a choupana, que plantou a arvore 
principalmente o no separar-se do campo, da choupana, da arvore. A este
sentimento correspondem ambas as formulas de consorcio entre o homem e a
terra, mais ou menos imperfeitamente, no tanto em virtude das condies
theoricas de cada uma das duas formulas, como do estado mais ou menos
civilisado da pocha em que se applicam. Acaso a historia no nos
subministra provas de oppresses exercidas sobre colonos espontaneos, e
consagradas at por contractos, to barbaras como as que padeciam os
adstrictos  gleba, quando j a adscripo do homem tinha cedido o campo
 servido exclusiva da terra?

Assim comprehende-se como a transformao do servo em adscripto podia
resultar da situao em que se achou a monarchia ovetense-leonesa no
seculo VIII, em vez de resultar della o colonato livre, que  primeira
vista a razo nos pinta como mais provavel, e que de feito o era, se
abstrahirmos das circumstancias sociaes para s attendermos s
politicas.

Mr. de Rozire, expondo o debate entre mim e o sr. Muoz, diz: Esta
transformao (a da servido para a adscripo) tinha-se realisado de
todo quando os christos se refugiaram nas Asturias sob o mando de
Pelaio? No o cr o sr. Muoz, e combate, neste ponto, a opinio dos
historiadores de maior credito. Os exemplos, em que esteia o seu pensar,
do a este um alto gru de verosimilhana. Nelles se vem escravos
destinados ao servio domestico; uns so cozinheiros, padeiros,
sapateiros ou alfaiates; outros empregam-se no commercio e servem nas
lojas de venda. Nada ha fixo nas suas funces, que dependem do capricho
do dono. A sorte dos escravos agricolas no  mais segura: uns
trocam-nos por cavalgaduras; outros entregam-nos aos mussulmanos em
resgate de captivos: todos podem ser separados da propria familia e do
campo que cultivaram.

N'esta exposio ha uma inexaco chronologica: a doutrina que eu
estabeleci no  que a adscripo se tinha j substituido  servido
quando occorreu o alevantamento de Pelaio:  que este alevantamento e a
fundao do reino de Oviedo trouxeram de necessidade essa transformao.
Sejam quaes forem a differena ou a semelhana entre o meu modo de
pensar e o sentir do sr. Muoz sobre a servido gothica, no  ahi que
est a profunda divergencia entre ns. A divergencia completa refere-se
aos tempos posteriores  invaso dos arabes. , at, o que se deduz do
titulo do opusculo do sr. Muoz:  a essa pocha que verdadeiramente se
refere o trabalho publicado na _Revista de Ambos-Mundos_. Eis as suas
palavras: Um escriptor... do vizinho reino de Portugal estabelece a
doutrina de que a servido se distinguia, _na pocha de que tractamos_,
em estar vinculada ao solo, no admittindo outra classe de servos seno
a dos adscriptos  gleba. A seu vr no existia nenhuma outra servido
pessoal seno a dos arabes captivos na guerra, o que cremos no ser
conforme com o que o mesmo escriptor diz n'outra parte, isto , que o
servio domestico dos senhores e nobres parece ter sido desempenhado,
sob o dominio leons, por membros das familias adscriptas, e que este
servio se converteu n'um acto espontaneo no seculo XIII. Se os homens e
familias podiam contra sua vontade ser separados da gleba, onde se
achavam estabelecidos, para o servio domestico, no podiam chamar-se
adscriptos, porque este nome traz comsigo a ida de inamovibilidade do
colono do torro que cultiva. Alm d'isso, a sua opinio no concorda
com os monumentos da nossa historia.

N'outra parte do opusculo do sr. Muoz leem-se as seguintes passagens,
em que elle estabelece positivamente a sua theoria relativa  servido
dos tempos neo-gothicos. A condio dos servos era indubitavelmente a
de cousas. Podiam ser vendidos ou dados como um animal domestico, como
uma alfaia... Esta opinio, que sustentmos n'uma obra publicada ha
annos, foi impugnada pelo sr. Herculano n'uma extensa nota sobre o
caracter da servido na monarchia no-gothica... Na monarchia
no-gothica continuaram os servos a ser o mesmo que na dos godos... E se
em Asturias e em Leo se encontram vestigios de servido diversa da dos
adscriptos, podero julg-lo os que examinarem os documentos que j
publicmos e os que damos agora  luz.

Effectivamente aos documentos impressos na _Colleccion de Fueros
Municipales_, o sr. Muoz ajuncta muitos outros tendentes, segundo cr,
a corroborar a sua doutrina. Que antes de entrar na apreciao delles,
me seja permittido fazer breves reflexes.

O sr. Muoz, limitando o debate aos textos dos documentos posps os
factos sociaes e politicos de que deduzi, digmos assim _ prior_, a
necessidade de uma profunda alterao das classes servis nas origens da
sociedade no-gothica. Os factos podem no ser como eu os exps, ou as
consequencias que delles tirei ser inexactas, ou finalmente essas
consequencias no ter tido fora bastante para mudar a situao
d'aquellas classes: podem peccar de muitos modos as largas observaes
que fiz a este proposito no terceiro volume da Historia de Portugal, e
que tentei resumir em poucos periodos deste modesto trabalho. Mas seria
licito deixar ou esquecidas ou inconcussas essas ponderaes? O methodo
que segui foi estudar os acontecimentos, examinar qual devia ser a sua
influencia na condio dos servos, e verificar se os documentos
confirmavam _ posteriori_ as illaes deduzidas dos mesmos
acontecimentos. Bem sei que, prevenido por essas illaes, era possivel,
era at facil, se quizerem, apreciar preoccupadamente os documentos; no
poderia, porm, o sr. Muoz, interpretando-os sem attender aos factos
geraes, s consequencias naturaes dos successos historicos, s leis
moraes que regem as phases das sociedades, dar-lhes uma significao
diversa da verdadeira? Foi, se no me engano, o que de feito lhe
succedeu.

 essa justamente uma das difficuldades capitaes dos trabalhos
historicos relativos  idade media. O historiador tem de attender
constantemente  aco e  reaco mutuas dos factos politicos e dos
factos sociaes uns sobre os outros para d'ahi deduzir factos
desconhecidos; tem de substituir por illaes fundadas nas leis que
actuam nas sociedades humanas, independentes da vontade dellas, o
silencio tantas vezes inopportuno dos monumentos. Quando estes existem e
so genuinos, claros e precisos, sem duvida constituem o guia mais
seguro para determinar os factos, e se as illaes que tirmos os
contradizem,  necessario confessar que os principios eram inapplicaveis
 hypothese, ou que se applicaram mal. Mas, abstrahindo da questo de
genuinidade, so a clareza e a preciso qualidades vulgares nos
documentos dessas pochas tenebrosas? O sr. Muoz sabe to bem como eu
quo raros so os que achamos com taes condies; quantos annos, quantas
vigilias  necessario applicar ao estudo dessas fontes historicas para
nos habituarmos a comprehend-las.  difficuldade, que resulta das
referencias a cousas vulgares no tempo em que o documento se redigiu, e
que actualmente so desconhecidas ou conhecidas imperfeitamente,
ajuncta-se a lingua barbara, s vezes horrivelmente barbara, que nelles
se empregava, mistura monstruosa de latim de todas as epochas com uma
linguagem vulgar que hoje se pode reputar morta, to transformada se
acha nas linguas modernas da Peninsula: accresce a isto a differena
profunda entre os homens daquelle tempo e os do nosso, no modo de
conceber e exprimir as idas; ajuncta-se a tendencia, quasi invencivel,
para vermos as cousas da idade media atravs do prisma dos habitos, das
opinies, dos costumes, e direi, at, das preoccupaes actuaes.
Subjugar esta tendencia  difficil; porque presuppoem um esforo de
abstraco, de que no so capazes s vezes os mais robustos espiritos.

Mas, vencidos todos estes obstaculos, resta ainda a vencer o que resulta
da comparao dos proprios documentos, especialmente quando nelles
estudamos as instituies, a organisao da sociedade.  ahi que o
talento historico tem de passar por mais dura prova, e onde o
discernimento nas apreciaes precisa de ser mais subtil. A idade media
no procedia sempre como ns das idas geraes para a applicao
especial, ou antes possuia poucas idas geraes. Os costumes, as
instituies, os usos, os factos tinham principalmente o caracter
individual, local. Essas poucas idas geraes que havia eram pela maior
parte mal circumscriptas, fluctuantes. D'aqui as antinomias nas
doutrinas, a contradico frequente nos factos. Na verdade o senso
moral, a tendencia instinctiva para a generalisao produziam a maior
parte das vezes em contraposio ao desordenado, ao repugnante, as
analogias ou a identidade de factos, quando se davam as analogias ou a
identidade de circumstancias; mas o phenomeno era mais casual do que
intencional, e nem por isso faltavam as excepes, a desharmonia, quando
as paixes, os interesses ou a inexperiencia vinham augmentar a confuso
natural dos tempos barbaros. Saber deduzir os caracteres geraes de uma
pocha, debaixo dos seus diversos aspectos, no dos principios que
guiavam os homens na vida practica, porque a maior parte das vezes no
os havia, mas dos factos isolados, dos monumentos especiaes; differenar
a regra da excepo, regra e excepo, que no raro existem s por uma
abstraco para ns, e que no existiam para elles, eis a summa
difficuldade no estudo dos documentos, da legislao, e das memorias
historicas da idade mdia, mas difficuldade que cumpre superar para se
escrever de modo util a historia daquellas obscuras ras.

Longe de mim a pretenso vaidosa de ter navegado sem naufragios nesse
mar d'escolhos; mas seja-me ainda permittido duvidar de que tal
infortunio me occorresse na questo do estado dos servos do VIII at o
XII seculo; seja-me licito por emquanto suspeitar que fiz fazer um
progresso  historia da Peninsula, collocando  sua verdadeira luz a
situao dessa classe durante aquelle periodo.

Como j disse, o sr. Muoz, abstrahindo das consideraes _ priori_ que
fiz a semelhante respeito, limita-se a combater a minha opinio e a
propugnar a sua com os factos que elle cr resultarem de um grande
numero de documentos que invoca: limitar-me-hei tambem por isso a
apreciar esses documentos e a examinar o que elles provam, recorrendo
smente a outros quando o julgar indispensavel para estribar melhor as
minhas affirmativas.




III


Estabelecendo a doutrina de que o servo contina a ser na monarchia de
Oviedo e Leo o que era entre os godos, o sr. Muoz funda-a n'uma serie
de factos, que em seu entender resultam dos documentos e caracterisam a
condio do escravo, a posse e dominio absolutos do homem sobre o homem,
a servido na sua frma mais completa e humilhante, a do homem-cousa, a
do homem animal de trabalho. Estes factos consistem na venda, doao e
troca dos individuos sem dependencia de um contracto crca do solo em
que elles habitam; em serem arrebatados nas guerras privadas os colonos
de herdades privilegiadas ou nobres ou ecclesiasticas, reduzidos 
escravido dos raptores e vendidos por estes como escravos; na entrega
dos servos christos aos sarracenos como preo de resgate de nobres
captivos (pag. 5 a 7)[73]; em exercerem os servos os diversos misteres
do servio domestico e os officios mechanicos, sendo parte de taes
misteres incompativeis com o cultivo do solo; em viverem alguns nos
coutos de igrejas e mosteiros obrigados a servios geraes, isto , a
quaesquer que lhes mandassem fazer (pag. 12 a 13). Excluidos da
representao em juizo pela lei (wisigothica), que no admittia o seu
testemunho seno  falta de outras provas, no tinham aco para
perseguir um delicto contra a propria pessoa ou contra os filhos; ao
dono competia sollicitar a indemnisao do damno padecido pelo servo
como de cousa sua. No caso de homicidio, era elle quem tambem obtinha a
compensao pecuniaria; e do mesmo modo se o servo matava, feria, ou
atacava propriedade alheia, o responsavel era seu dono (pag. 15 e seg.).
Os filhos de um servo e de uma serva de diversos donos eram pessoalmente
divididos entre elles (pag. 24 e 25).

Taes so os factos sociaes que o sr. Muoz apresenta como contrariando a
minha opinio: esses factos estriba-os nos documentos cujas passagens
correlativas transcreve, referindo-se outras vezes aos monumentos por
elle j publicados na _Colleccion de Fueros_, ou a alguns que se
encontram em outros escriptos, principalmente nos appendices da _Espaa
Sagrada_.

Se o meu animo no fosse sincero; se eu no quizesse trazer  evidencia
o erro em que me parece laborar o sr. Muoz, limitando-me ao que menos
importa,  defesa do meu livro, facil me seria annullar as illaes
tiradas dos documentos invocados contra mim, visto que o sr. Muoz no
nos mostra, nem talvez lhe sera possivel mostrar, que elles se referem
a servos de raa e no a prisioneiros de guerra, a sarracenos captivos
nas continuas luctas entre os reis de Oviedo e Leo e os principes
mussulmanos, ou aos filhos e descendentes desses captivos[74]. Um ponto
em que estamos ambos de acrdo  que a sorte destes era a de verdadeiros
escravos. Das chronicas de Sebastio de Salamanca, de Sampiro, do
Silense e de outros vemos que o systema de exterminio adoptado a
principio pelos immediatos successores de Pelaio no tardou em ser
modificado, e que milhares de captivos vinham successivamente car nos
ferros da escravido, ou reservando-os o rei para si, ou distribuindo-os
pelos seus guerreiros. Uma parte dos edificios religiosos alevantados
por Fernando-magno foram construidos por esses desgraados, salvos da
morte por uma politica menos deshumana que a dos barbaros reis das
Asturias.

Com um monumento, porm, to incontroverso como explicito, eu provei[75]
que ainda no meiado do seculo XII a sorte dos mosarabes, aprisionados
com as armas na mo pelos soldados dos principes christos, era analoga
 dos crentes do islam, sendo como elles reduzidos  escravido. No 
crivel que a sua sorte fosse melhor nos seculos anteriores. Ainda
suppondo que os documentos citados pelo sr. Muoz se devessem entender
em geral como elle pretende que se entendam, ninguem poderia affirmar
que os nomes gothicos a que ahi se allude no fossem sempre e em todos
elles de captivos mosarabes ou de filhos seus e no de mouros
convertidos ou no convertidos. Tambem me parece que poderia limitar-me
a advertir que, fundando-se a minha opinio em muitos documentos, que o
sr. Muoz no se encarrega de interpretar de um modo acorde com a sua
doutrina, e tendo, alm disso, a meu favor as illaes que tirei dos
successos politicos, poderia considerar todos esses diplomas a que elle
recorre apenas como manifestaes das violencias, das excepes; como
mais uma prova da falta de caracteres constantes, de regras geraes
absolutas nos factos sociaes de uma pocha de barbaria e de
transformao.

Mas estas solues, que talvez bastassem ao debate, no bastariam 
minha consciencia: poderiam abonar uma opinio, alis estribada em
outros fundamentos, mas deixariam certa duvida no espirito dos que
estudassem o assumpto. Desamos, por isso,  analyse dos factos e
documentos a que o sr. Muoz recorre para assentar a existencia da
escravido pessoal como regra nos quatro primeiros seculos da monarchia
leonesa.




IV


A venda, troca e doao dos individuos da classe servil sem dependencia
de um contracto relativo ao solo em que habitam  o primeiro facto que
affirma o sr. Muoz, e que estriba nos seguintes documentos:

1.^o Carta de doao  s de Oviedo por Affonso II em 812. Incluem-se
entre as dadivas _mancipia, id est, clericos sacricantores_, dos quaes
um  presbytero, outro diacono, e os mais simples _clericos_, talvez
ostiarios, psalmistas, exorcistas, etc. Alguns, declara-se terem sido
comprados pelo rei. Os outros _mancipia_ so seculares, declarando-se
tambem que alguns foram havidos por compra. Os nomes tanto de uns como
de outros so godos.

2.^o Carta de dote de 887. O noivo doa  esposa, alm de alfaias, bens
semoventes e dinheiro, dez _pueros_ e dez _puellas_, 30 villas (aldeias
granjas) as quaes diz serem situadas _in Nemitos_, e enumera-as
_Generoso_, _Vivente_ etc.

3.^o Doao de marido a mulher, de 1029. Doa, entre outras cousas,
_mancipios et mancipiellas quos fuerunt ex gente hismaelitarum et
agareni_, os quaes nomeia: uns tem nomes godos, outros nomes arabes.
Alm destes, doa-lhe _de avolengarum criazone parentum_ varios
individuos cujos nomes parece serem todos godos.

4.^o Carta de agnio de 962 em resultado de uma demanda entre o
mosteiro de Cella-nova e o conde Ordonho Romaniz. Versava a questo
sobre duas granjas ou aldeias, querendo o conde tirar _homines et
hereditates de jure monasterii volens eos ad servitutem abdigare_.
Apresentaram os monges os seus titulos perante elrei, e quando iam a
provar, diz o sr. Muoz, que o rei Ramiro dera os homens que o conde
usurpava, e o bispo D. Rosendo os entregara ao mosteiro, o conde
supplicou aos magnates que obtivessem dos monges darem-lhe as duas
villas em prestamo vitalicio, _absque homines in adtonitum_, no que os
monges convieram.

5.^o Carta de agnio de 1074, em resultado da demanda entre o mosteiro
de Cella-nova e a condessa D. Guncina, que affirmava ter o rei Ramiro
tirado do testamento (predio ecclesiastico) de Vanate dez homens, os
quaes dera ao mosteiro de Porcria. Replicava o abbade de Cella-nova que
_de hodie, quod est 120 annos nunquam auditum fuit istum tale verbum_.
Julgou-se a favor do abbade.

6.^o Doao de 1094 feita  s de Lugo por Suario Moniz de varias
_villas cum sua criacione et homines pertinentes... excepto Alvito Pepiz
et suos filios_.

7.^o Carta de arrhas de 1108 em que o noivo doa varios bens de raiz, e
alm disso, um cavallo baio e _uno homine de creacione_.

8.^o Doao do mosteiro de Sobrado em 1118 feita pela rainha D. Urraca a
Fernando Peres e a seu irmo com todos os termos e coutos antigos e suas
pertenas, _et cum sua criacione, servos et ancillas, exceptis
quibusdam_.

9.^o Memoria da diviso de Rovoredo, sem data, caractres do seculo
XIII. Na opinio do sr. Muoz pertence ao seculo XI. Um certo Vermudo
Cresconiz comprara o sarraceno Sendimiro (nome godo) que fora visav de
Diogo Erit. Este foi a Rovoredo e casou com uma mulher que era vaqueira
de Ardio Dias, uma de duas irmans, que, herdando Rovoredo, haviam
dividido entre si o predio. Veio em busca delle Pelagio Froilaz
(provavelmente herdeiro ou representante de Vermudo Cresconiz) e levou-o
comsigo. Seguiu-se uma manda entre Ardio Dias e Pelagio Froilaz, que
terminou por uma composio, em virtude da qual ficou Diogo Erit em
Rovoredo e foi dada em trco delle uma irman da vaqueira de Ardio Dias.

Taes so os documentos de doao, vendas e escambos, exclusivamente de
individuos, que o sr. Muoz cita em prova da inexaco da minha
doutrina.

No 1.^o documento peo que se note que as pessoas doadas so denominadas
_mancipia_, e no _servos_, e que entre elles um  presbytero, outro
diacono, e outros simples clerigos; que os seculares so tambem
denominados _mancipia_, e que todos elles tem nomes godos. Pergunto:
tolerava a disciplina ecclesiastica recebida na Peninsula naquella
epocha, que homens servos, e que continuavam a ser servos, doados ou
vendidos depois a bel-prazer de seus donos, fossem elevados no s menos
importantes funces do culto, mas  ordem do presbyterado e ainda do
diaconado? No era impossivel acumular as condies da servido e do
sacerdocio? Basta abrir o resumo dos canones da igreja d'Hespanha
publicados por Aguirre e Cenni para nos desenganarmos da impossibilidade
desta associao monstruosa. Todavia o facto da venda de um presbytero,
de um diacono e de outros clerigos deu-se no principio do seculo IX,
como o prova este documento. No haver, porm, atraz desse facto outro
ou outros que o expliquem?

A designao de _mancipium_, applicada a individuos dos mais elevados
grus do sacerdocio, o presbyterado e o diaconado,  no menos singular.
Notei mais de uma vez no meu livro[76] que a palavra _mancipium_, entre
os godos, sem deixar de se tomar s vezes na significao lata de servo,
significava de ordinario o servo infimo, o _escravo_, o individuo
reduzido  ultima degradao; significava antes uma _situao_ de
aviltamento do que uma _condio_ originaria. So notaveis a este
proposito dous logares do codigo wisigothico, a lei que tracta dos
_escravos dos servos fiscaes_, e a que tracta dos _mancipia_ dos judeus,
quer _ingenuos_, quer servos. Antes de mim j Masdeu tinha feito com
pouca differena a mesma observao. Entre os romanos _mancipium_ era
synonimo de _servus_, mas a origem dos vocabulos era diversa: _servus_
de _servire_; _mancipium_ de _manu captum_, do homem aprehendido, do
prisioneiro reduzido   escravido. Evidentemente a designao de
_mancipium_ serviu a principio para indicar o captivo, o individuo a
quem se deu a vida, que se lhe podia tirar, para o collocar na situao
de um animal de carga, de uma alfaia; representou um facto accidental,
personalissimo, differente da servido herdada, da servido de raa, ou
para exprimirmos com dous vocabulos modernos duas idas semelhantes, mas
diversas, o _mancipium_ era servo, mas _escravo_. Na Russia ha _servos_;
na America ha _escravos_. Note-se, porm, que com este exemplo no quero
estabelecer analogia completa entre a distinco primitiva e a
distinco actual.

Baste, porm, que _mancipium_ servisse entre os godos para exprimir
especialmente a mais vil servido, a escravido. No teria a palavra na
monarchia neo-gothica este mesmo valor especial, embora s vezes pela
fluctuao da linguagem (fluctuao que existe sempre, mas que 
grandissima nas epochas barbaras) se tomasse como synonimo de servo, por
isso que, n'um grande numero de relaes, a sorte de um e a sorte de
outro eram identicas? No 3.^o documento que cita o sr. Muoz, os
individuos doados so denominados _mancipios_ e _mancipiellas_, e
exprime-se que so da gente ismaelita e agarena; que so captivos. N'uma
carta de doao  s de Lugo[77] de 897 Affonso III doa-lhe, alm de
outras cousas, _mancipia, quae ex hismaelitarum terra captiva duximus_.
No meio de uma lucta odienta e atroz, como foi durante o seculo VIII e
ainda durante o IX a das monarchias de Oviedo e de Cordova,  natural, 
crivel, sequer, que a sorte dos prisioneiros de guerra que no eram
passados  espada fosse inteiramente a mesma dos servos de raa, classe
a que, alm de outros, um documento de 985 chama _servos
originales_[78], por infima que se reputasse a condio destes? E no
haveria um meio de expressar por palavra ou por escripto a differena
das duas situaes, quando fosse necessario faz-la sentir?

 indubitavel,  vista das chronicas coevas e dos documentos, que os
reis de Oviedo e Leo e os seus capites, alargando os limites da
monarchia ou reduzindo o poder mussulmano por victorias repetidas, por
saltos e correrias inesperadas, por devastaes e incendios, conduziam
annualmente para o interior das provincias ovetense-leonesas milhares e
milhares de captivos. Devemos acaso suppr que nenhum desses contractos
sobre individuos pessoalmente escravos, em que se calla a procedencia
dos mesmos individuos, se refira a prisioneiros de guerra, e que entre
estes no houvesse muitos mosarabes? A pretenso parece-me que sera
insustentavel. Embora eu no queira, nem seja preciso explicar por esse
facto muitos dos documentos citados pelo sr. Muoz, ha outros em que
semelhante explicao  a mais simples e natural, e a este numero
pertence indubitavelmente a doao de 812.

Civilmente, socialmente, os mosarabes eram sarracenos. Do modo como essa
grande maioria da populao romano-gothica buscava em geral assimilar-se
aos conquistadores temos sobejas provas nos escriptos contemporaneos de
Alvaro de Cordova, d'Eulogio, do biographo de Joo de Gorze, nas actas
dos martyres Voto e Felix e em outros monumentos. Os mosarabes serviam
nos exercitos mussulmanos e por consequencia combatiam contra os seus
correligionarios. Entre os altos officiaes da coroa na corte de Cordova
figuram condes godos, e apparecem-nos a cada passo magistrados,
funccionarios, prelados, sacerdotes godo-romanos nas provincias do vasto
imperio dos Benu-Umeyyas. Quantos destes, pospondo as questes
religiosas, e adoptando a tolerancia dos dominadores arabes, seriam
verdadeiramente addictos  situao politica em que se achavam, elles
que abraavam no raro os nomes proprios, os costumes, as usanas, a
civilisao e a lingua dos mussulmanos, a ponto de esquecerem
completamente o idioma neo-latino, segundo o testemunho de Alvaro de
Cordova; elles que admittiam, at, a circumciso, se acreditarmos o
_Indiculum_ e a biographia de Joo de Gorze? No achamos ns ainda no
seculo XI os bispos mosarabes, esquecidos das funces episcopaes, e
dedicados inteiramente  vida politica, empregarem-se no servio profano
dos respectivos soberanos sarracenos?[79] Se nos proprios estados dos
reis de Leo a mistura dos usos mussulmanos com os christos dava s
vezes, nas exterioridades do culto, occasio a factos que seriam
comicos, se no fossem irreverentes[80], o que seria essa mistura entre
mosarabes e ismaelitas nos estados mahometanos?

Imaginar, portanto, que entre os milhares de captivos que annualmente
eram arrastados da Spania para os sertes das Asturias e de Leo no
vinha um grande numero, digamos assim, de _sarracenos christos_; que
entre uns e outros captivos se fazia distinco, se poderia sequer
fazer; que os violentos e brutaes bares e cavalleiros dos reis leoneses
consentiriam em perder uma parte dos seus escravos, que exteriormente em
nada se differenavam dos restantes, dos verdadeiros mussulmanos, ainda
admittindo gratuitamente que os principes o desejassem, seria suppr uma
cousa inacreditavel, embora no existisse o testemunho do biographo de
S. Theotonio, testemunho preciso de que a praxe era inteiramente
contraria.

Na adiantada civilisao de hoje no se comprehenderia o direito de vida
ou de morte sobre os prisioneiros de guerra, e nem sequer a escravido
para o vencido, ou que possa haver outros prisioneiros seno
combatentes. Deste estado da civilisao derivam a distinco entre
prisioneiro e prisioneiro, e os diversos grus de benevolencia e de
attenes para com os mais qualificados. Entre barbaros ou nas eras
barbaras, o nosso proceder, as nossas idas actuaes a este respeito
seriam igualmente incomprehensiveis. Na verdade o senhor do captivo,
sabendo que se apoderara de um homem opulento, importante entre os
adversarios, podia por calculo de cubia tract-lo melhor, evitar-lhe os
padecimentos e as injurias  espera de avultado resgate. Mas a regra, o
principio, a ida de ento consistia em ser o captivo, fosse quem fosse,
como um ente novo, a cujo nascimento, digamos assim, no se tinha
opposto o gume da espada. O passado desse ente no importava para nada.
Era um animal, uma propriedade do que o captivara e que licitamente
poderia ter feito com que no existisse: era o _manu-captum_, a
acquisio, o escravo; emfim, o _homem-cousa_.

Tendo presentes todos estes factos, que o sr. Muoz no ignora, mas que
me era necessario recordar aqui, entende-se facilmente a doao de
Affonso II  s de Oviedo: entende-se como esses clerigos podiam ser em
parte comprados, em parte libertados pelo rei, e unidos  s ovetense.
Eram mosarabes arrebatados, mau grado seu, por occasio de alguma
correria. Pelos canones da igreja gothica os sacerdotes viviam n'uma
especie de adscripo canonica  igreja a que pertenciam, e Affonso II,
conforme o chronicon de Albaida, foi quem restabeleceu em Oviedo as
jerarchias civis e ecclesiasticas dos godos[81]. Resgatando aquelles
individuos da escravido, e ligando-os indissoluvelmente  s ovetense,
respeitava as idas do seu tempo e mantinha a antiga disciplina
ecclesiastica, embora o fizesse de modo um tanto rude. Se admittissemos,
porm, a hypothese de que elles eram servos originarios semelhantes aos
servos dos tempos gothicos, que como taes haviam recebido ordens sacras,
que, depois de doados  s de Oviedo, continuavam a ser o que eram,
segundo a theoria do sr. Muoz, isto  cousas e no pessoas, e que,
portanto, podiam ser destinados pelo bispo Adaulfo para exercerem os
mais abjectos misteres, o diploma de 812 ficaria no s repugnando 
historia, mas sendo, alm disso, um indecifravel mysterio.

Este documento no me escapou quando redigia o VII livro da Historia de
Portugal; mas tinha de attender a muitos outros, de condensar muitos
factos sociaes em poucos periodos. No podia descer  analyse minuciosa
delle. Estava to convencido da verdade da doutrina que estabeleci, que
no o julguei sufficiente para a destruir. O leitor avaliar se elle
effectivamente a destroe. Supps que, quando muito, era uma das
anomalias to frequentes nos factos sociaes dos tempos barbaros, a
manifestao da anarchia que reinava ainda nas idas e nos factos. A
analyse parece-me provar que nem sequer isso era.

O 2.^o documento explica-se como o antecedente pela existencia
d'escravos captivos.  notavel que nelle tambem se evite a palavra
_servos_, mais generica, para se empregar a singular expresso _pueros_
e _puellas_. Parece haver a necessidade de recorrer a um vocabulo
especial para exprimir uma variedade da servido. Alm disso, este
documento parece igualmente entrar na categoria de varios outros que
citei no meu livro para provar a adheso do servo originario  gleba,
pelo modo por que indistinctamente se empregava o nome do individuo ou o
da propriedade para designar esta. Doando trinta granjas, o doador
declara que so situadas no districto de Nemitos, e que so _Generoso_,
_Vivente_ &c. nomes proprios de individuos e no de predios.

O 3.^o documento creio servir antes para combater a opinio de sr. Muoz
do que a minha. O doador distingue em dous grupos os servos doados: a
1.^a dos _mancipios_ e _mancipiellas que foram das gentes dos ismaelitas
e agarenos_, e dos quaes, todavia, uns tem nomes godos, outros nomes
arabes: a 2.^a dos _homens de creao havidos de avoengas_ (heranas de
familia) _dos antepassados_ (do doador) e cujos nomes so todos godos.
Porque a diviso em dous grupos, se a condio dos que pertencem a uma e
a dos que pertencem a outra  absolutamente identica? Porque uns so
chamados _mancipios_, outros _homens de creao_, equivalente de servos
de raa? Porque entre os _mancipios_ tem uns nomes godos e outros
arabes, emquanto os de _criazione_ so todos godos? Peo ao sr. Muoz
que aproxime estes factos das ponderaes que acima fiz, e que decida
depois se o documento prova contra a minha, se contra a sua doutrina.

Refere-se no 4.^o documento a historia de uma demanda entre o conde
Ordonho Romaniz e o mosteiro de Cellanova crca de certas herdades do
mosteiro e dos homens que n'ellas viviam. O que neste documento importa
para a questo  o desfecho da contenda. Convencido de que no tinha
razo, o conde props aos monges uma transaco, que acceitaram, e que
consistia em elle possuir as granjas emquanto vivo _absque homines in
adtonitum_. Nestas ultimas palavras o sr. Muoz v a separao dos
homens da terra. Ser essa a verdadeira interpretao?

_Adtonitum_  evidentemente a traduco latino-barbara da palavra
_atondo_. _Atondo_ significava alfaia, _traste de uso_, _objecto de
servio_. As obrigaes do servo de gleba, como depois as dos colonos
livres em seculos mais proximos de ns, eram, em relao ao senhor da
gleba, e depois em relao ao senhorio directo do predio, de duas
especies--prestaes agrarias e servios pessoaes; estes abrangiam
servios de todo o genero, ainda os mais baixos; alguns, at, que
poderiam ser feitos por animaes domesticos. Nada mais facil, portanto,
do que applicar a palavra _atondo_ ao servio pessoal dos servos, n'uma
pocha que de certo se no distinguia pela preciso rigorosa da
linguagem[82]. Que ficava percebendo Ordonho por aquella concesso dos
frades? As prestaes agrarias. Os servios pessoaes ficavam ao
mosteiro. E os monges procediam assisadamente fazendo uma concesso
restricta ao homem poderoso. Pelos individuos que agricultavam as
glebas, cujos redditos senhoriaes elles cediam vitaliciamente ao conde,
ficando alis esses individuos ligados pelos servios pessoaes ao
mosteiro, era facil provar a todo o tempo a quem o solo pertencia, se,
como eu creio, o servo se achava unido ao predio que agricultava e onde
vivia.

No comprehendo como possa applicar-se  materia debatida o 5.^o
documento citado pelo sr. Muoz. Para elle servir ao intento era
necessario que a condessa D. Guncina provasse o que affirmava. No o
provou, porque a sentena deu-se a favor dos frades. Logo a separao
dos dez homens pelo rei Ramiro nunca existiu conforme o que pretendia o
abbade de Cellanova. Supponhamos, porm, que fosse verdade o que ella
dizia. N'esse caso perguntaria: d'onde consta que dez glebas do
testamento de Vanate no passaram com os dez homens para o dominio do
mosteiro de Porcria? A contenda podia versar sobre os dez servos e os
dez predios, embora se falasse unicamente de homens: esta confuso da
linguagem juridica nos documentos daquelles tempos  uma cousa que me
parece ter demonstrado no meu livro at a evidencia.

No 6.^o documento doam-se varias granjas _com sua criacione et homines
pertinentes_, exceptuando um d'estes homens com seus filhos. No
comprehendo igualmente como se possa invocar contra mim um documento de
que me poderia ter servido, cumulativamente com tantos outros, para
estribar a minha theoria, se o houvera conhecido. A phrase
latino-barbara acima citada exprime exactamente a situao dos servos:
doam-se as glebas com a _sua_ creao, com os homens _que lhes
pertencem_. Supponhamos que a reserva que se faz de uma familia
signifique o que o sr. Muoz pretende. Sera um acto legitimo ou
illegitimo; mas o que  certo, pelo menos,  que at ahi essa familia
pertencia quellas glebas como os outros homens de creao. Isoladamente
este documento no seria bastante para provar o facto geral da
adscripo, embora prove que havia adscriptos; mas o que elle de certo
no prova  que a situao dos servos na sociedade leonesa fosse a mesma
dos tempos gothicos.

A adheso  gleba era um facto de indole complexa. Por um lado era um
progresso immenso das classes laboriosas no caminho da liberdade; por
outro uma garantia para os donos do solo; porque, circumscrevendo,
coarctando a aco do senhor sobre o servo, a tornava por isso mais
legitima e por consequencia mais solida. Nas relaes entre ambos havia
vantagens mutuas, de que espontaneamente se podia ceder de parte a parte
para as trocar por outras vantagens maiores. A adscripo no era uma
lei escripta, como na Russia moderna; pelo menos nenhuns vestigios
restam de que o fosse: era um facto social, um costume, uma praxe, que
resultava da natureza das cousas, de factos politicos anteriores. 
possivel apparecerem exemplos de separao entre o servo e a gleba por
um acto violento do senhor. De que actos violentos deixa de nos
subministrar exemplos a idade media? Mas o senhor tambem podia quebrar
os laos que prendiam o servo ao predio com vantagem e assenso delle,
como por exemplo para o unir a uma gleba mais productiva ou mais vasta,
sem que por isso se reputasse offendida a praxe, a especie de lei mental
que a fora das cousas trouxera, e sem que hajamos de inferir d'ahi a
no existencia do facto contrario como regra. Isto explicaria a reserva
de Alvito Pepiz e seus filhos na doao de 1094  s de Lugo, se no se
podesse tambem entender que com elles fora exceptuada a respectiva
gleba.

Depois do que fica dicto a analyse dos 7.^o, 8.^o e 9.^o documento do
sr. Muoz parece-me inutil, e a theoria da adscripo no obstar por
certo  sua facil interpretao. Seja-me, todavia, licito fazer algumas
observaes a respeito do ultimo documento. No me lembra ter jmais
visto mencionado, nem nos historiadores nem nos monumentos, um unico
mussulmano cujo nome seja godo. E comtudo na memoria da diviso de
Rovoredo menciona-se o _sarraceno_ Sendimiro. No sera um captivo
mosarabe? Mosarabe, porm, ou arabe, elle no fora um homem de creao,
fora um escravo. Diogo Erit fugindo para Rovoredo casou ahi. Mas porque
no sera a mulher da sua condio e da sua raa? E ento porque no se
daria em troco d'elle uma irm da sua mulher? Que pde esse facto provar
contra a adscripo dos servos originarios? Onde neguei eu que a
escravido dos sarracenos ou de seus filhos fosse a servido pessoal?




V


Outra ordem de factos, que o sr. Muoz recorda como vehemente indicio de
que a condio dos servos era a mesma dos tempos gothicos,  que s
vezes os poderosos nas suas depredaes roubavam uns aos outros os
colonos e iam vend-los, o que no poderia acontecer se a servido
pessoal no existisse; que se davam servos aos mouros em resgate
d'illustres captivos[83]; que os servos eram obrigados ao servio
domestico, a trabalhos mechanicos da industria, como por exemplo, a
serem cozinheiros, padeiros, teceles, carpinteiros, ferreiros,
alfaiates, etc.; que alguns tinham os mais baixos encargos, como limpar
os logares immundos, concertar os caminhos, tractar das cubas em que
seus senhores se banhavam etc.[84]; o que tudo, no entender do sr.
Muoz, repugnava  adscripo. Lembra-se ento de alguns monumentos em
que esses factos podem estribar-se, e que cr servirem para condemnar a
minha opinio. Examinemo-los.

N'uma doao de Bermudo III  s de Santiago fala-se de um certo
Galiariz, que, entre outras rapinas que fez, roubou seis homens alheios
e vendeu-os como captivos (_et vendivit eos sicut captivos_). Se eu
procurasse um documento que positivamente contradissesse a doutrina do
sr. Muoz, no o acharia por certo mais a proposito. Galiariz vendeu os
servos alheios _como se fossem captivos_, e este acto enumera-se entre
os seus delictos. O que pois se vendia sem offensa dos usos e costumes
era o prisioneiro, _captivum_. Vender como tal o servo alheio  uma
circumstancia que aggrava o roubo, e porque? Porque o servo, o homem
d'alguem, no era um captivo, uma _cousa_ venal. Peo que se reflicta
neste documento.

Dous nobres de Galliza, conforme refere a Historia Compostellana, foram
aprisionados pelos sarracenos. Tractou-se do seu resgate, e deram-se
para os remir LX _captivos christianos, tamen ex servili conditione_. E
 sobre semelhante texto que o sr. Muoz assenta a ida de que se
entregavam servos originarios aos sarracenos em resgate de cavalleiros
leoneses! Que  o que se deu pelos dous nobres? Captivos christos. Pois
_captivo_ foi nunca synonimo da palavra generica _servo_? _Captivo_, na
idade media, significava o que significa hoje, o que significou sempre,
o prisioneiro. O que houve foi uma troca de prisioneiros. Deram-se por
dous sessenta, facto que o historiador explica: _tamen ex servili
conditione_. Se dessem sarracenos nobres dariam um, dous, quatro, ou
seis. No tinham prisioneiros de mais elevada jerarchia ou no os
quizeram entregar: deram sessenta de condio servil. Mas esses homens
eram christos. Por certo; mas tambem eram indubitavelmente captivos. A
Compostellana  igualmente explicita a ambos os respeitos. Eis a
necessidade de nunca esquecer a populao mosarabe. Por ella se explica
facilmente a existencia de prisioneiros christos em poder de christos.
Aprisionados com seus senhores ou sem elles n'uma batalha ou n'uma
correria dos leoneses na _Spania_, tinham mudado de donos, e agora
entregavam-nos a outros donos em cujo poder de certo a sua condio
desgraada no melhoraria. Eis o que unicamente se pode inferir com
plausibilidade da narrativa da Compostellana.

No escrevendo a historia de Leo, ou dos outros estados da Peninsula,
mas a de Portugal, eu era obrigado a esboar rapidamente a organisao
social da Hespanha de que se desmembrara a monarchia portuguesa; s,
porm, at onde fosse necessario para se entender a historia social do
meu paiz. Apesar disso, creio que fui o primeiro que tentei fazer sentir
aos escriptores hespanhoes a importancia de dedicar profundas
investigaes  historia dos mosarabes, dessa populao distincta, que,
em meu entender, devia constituir a maioria dos habitantes da Peninsula,
ainda dous ou tres seculos depois da invaso dos arabes e da tentativa
de Pelaio, pela simples razo de que a grande massa da populao de um
vasto paiz no se pode substituir como o poder supremo, como o
predominio de um precedente conquistador, sobretudo quando se tracta de
uma nao civilisada, e no de tribus selvagens, sempre insignificantes
em numero, e que a atrocidade fria e permanente dos vencedores chega a
destruir no decurso de seculos. Depois das invases e conquistas
germanicas, a grande massa da populao do imperio romano ficou sendo
celto-romana: depois da invaso e conquista da China pelos tartaros
mantchs, a maioria dos habitantes daquelle immenso paiz ficou sendo
chim: o sangue ingls  o sangue anglo-saxonio, apesar do predominio
normando. E todavia nenhuma daquellas raas de conquistadores foi to
moderada, to benigna para com os vencidos como os arabes na Hespanha.
Por essa mesma brandura e tolerancia certa ordem de factos politicos e
sociaes, que se do depois dos grandes cataclysmos das naes, deviam
ser mais prominentes, mais efficazes na Hespanha, e portanto influir
mais poderosamente nas phases dos acontecimentos posteriores tanto
politicos como sociaes. Ns, os homens d'hoje, que vimos ou ouvimos
contar a nossos paes as scenas do dominio francs na Peninsula no
principio d'este seculo, deveriamos saber adivinhar o estado moral da
populao romano-gothica depois do estabelecimento do imperio dos
khalifas, se alis os monumentos fossem menos explicitos ou guardassem
silencio a tal respeito. O transitorio dominio francs na Peninsula no
deixou de produzir logo um grande numero de _afrancesados_ na Hespanha e
de _jacobinos_ em Portugal. Qual sera o jacobinismo, permitta-se-me a
expresso, entre os godo-romanos em relao aos sarracenos pode
imaginar-se tendo presente o estado de dissoluo moral do imperio
wisigothico, anniquilado n'uma unica batalha; o longo dominio dos
arabes; a superioridade da sua civilisao material; a sua tolerancia
para com a religio dos vencidos; o respeito guardado s instituies
civis destes; a benevolencia, emfim, dos principes mussulmanos para com
os seus subditos christos. No quero dizer com isto que o patriotismo
wisigothico; que a impaciencia do jugo extranho; que o sentimento de
hostilidade religiosa no ardessem em muitos coraes, e at subissem ao
gru de fanatismo. Pelo contrario. No era preciso que os monumentos nos
dissessem que a reaco se manifestava at na corte de Cordova. O
conhecimento da indole das paixes humanas dispensa s vezes em historia
o testemunho dos monumentos. O homem  essencialmente o mesmo em todas
as epochas. Mas  por isso que os interesses, a reflexo, os vicios, as
virtudes, os habitos, a educao, as mil causas moraes que impellem e
dirigem o individuo e lhe determinam os affectos e as tendencias, deviam
impellir outros, e talvez o maior numero, a manifestaes oppostas. O
_Indiculo Luminoso_ de Alvaro de Cordova, especie de extenso artigo de
fundo de jornal partidario, libello apaixonado contra o mosarabismo,
revela-nos quo numeroso e importante era o partido arabe entre os
romano-godos da Spania, partido que abrangia nobres, guerreiros,
prelados, sacerdotes, magistrados, povo. Se no existisse este
testemunho insuspeito, a razo e a experiencia nos diriam o mesmo que
elle nos diz[85].

Imagine-se agora qual sera durante a lucta entre a monarchia
no-gothica e o imperio dos Benu-Umeyyas o papel dessa maxima parte da
populao peninsular chamada os mosarabes: uns indifferentes  contenda,
acceitando do mesmo modo o dominio dos reis d'Asturias e Leo ou o dos
principes sarracenos, no meio dos stos da guerra; outros forcejando por
identificar-se com a nova sociedade que se constituia  semelhana da
patria wisigothica; outros, emfim, addictos por esperanas, por cubia,
por beneficios recebidos, e at por laos de sangue, resultado dos
consorcios mixtos,  manuteno do dominio mussulmano, e calcule-se
quantos factos politicos haviam de dimanar de um estado de cousas tal;
quantas peripecias, quantas violencias se dariam em qualquer districto
ou provincia da Hespanha a cada invaso, a cada correria, quer dos
sarracenos, quer dos leoneses; como se traduziriam em vinganas acerbas
os odios occultos; como as paixes mais oppostas trariam a mudana de
partido e at de crena; como os homens da mesma raa e da mesma
religio se perseguiriam, se denunciariam por desleaes a um ou a outro
dos dous poderes publicos, que pelos accidentes da guerra se succediam
to frequentemente nos variaveis limites dos dous estados; como a
condio do mesmo individuo mudaria mais de uma vez; como o nobre, o
rico, o funccionario, o sacerdote poderiam cair de repente da situao
mais elevada na mais abjecta servido, e os mais humildes elevarem-se
por acontecimentos imprevistos at as mais altas graduaes sociaes;
como, finalmente, os monumentos na sua linguagem, nos factos que delles
resultam podem illudir-nos, se entre os elementos a que devemos recorrer
para a sua apreciao esquecermos o elemento mosarabico.

Que se me permitta referir aqui uma anecdota que pinta a vida agitada da
populao mosarabe nos territorios submettidos ora pelos arabes, ora
pelos leoneses, no meio das vicissitudes da guerra, e que est
confirmando o que precedentemente disse crca do mosarabismo e das
peripecias a que estavam sujeitos os individuos naquella situao
incerta e cambiante. Dos territorios da Hespanha nenhum, talvez, mudou
mais vezes de senhores durante a lucta do que os districtos d'entre
Douro e Tejo, sobretudo nas proximidades do oceano, e porventura que em
nenhum ficaram mais vestigios da existencia da sociedade mosarabica, da
sua civilisao material, das suas paixes, dos seus interesses
encontrados, e at dos seus crimes e virtudes. A publicao, que a
Academia prepara, dos documentos dessas epochas, e especialmente dos que
nos foram conservados nos archivos da cathedral de Coimbra e do mosteiro
de Lorvo, lanar grande luz sobre o assumpto.  um desses documentos,
tirado do chartulario de Lorvo, o Livro dos Testamentos, e que foi
publicado j por Fr. Munuel da Rocha, mas horrivelmente deturpado, que
me subministra os elementos de uma narrativa, a qual reproduz, embora
apenas n'uma das suas phases, o viver daquelles tumultuarios tempos.

Era nos fins do seculo X e regia o abbade Primo o cenobio de Lorvo.
Coimbra, em cujo territorio estava situado o mosteiro, pertencia  coroa
leonesa pouco antes da epocha em que a espada irresistivel do hadjib
Al-manssor fez recuar de novo as fronteiras da monarchia no-gothica
para alm do Douro (987). Os districtos ao sul deste rio, que depois da
invaso de Tarik e Musa tinham pertencido a maior parte do tempo aos
sarracenos, encerravam uma populao essencialmente mosarabe. Cordova
era ainda para ella a capital da industria, das artes, da civilisao. O
architecto cordovs Zacharias viera a Lorvo, provavelmente chamado pelo
abbade Primo para alguma obra do mosteiro. Sabendo isto, os regedores de
Coimbra falaram com o abbade para que o architecto cordovs construisse
algumas pontes sobre os rios das circumvizinhanas. Primo accedeu, e
acompanhou Zacharias na empreza. Edificaram-se ento quatro pontes, em
Alviaster (Ilhastro), em Coselias (Coselhas), em Latera Buzat (Ladeiras
do Bussaco?) e na ribeira de Forma (Bosso?) Aqui, em memoria da ambos,
e por conselho do architecto, Primo construiu umas azenhas que ficaram
pertencendo ao mosteiro. Taes foram os factos succedidos nos fins do
seculo X que narra o documento de Lorvo.

Passaram tres quartos de seculo. Coimbra e o seu territorio, submettidos
de novo por Al-manssor, tinham-se conservado sob o jugo do islam.
Fernando magno veio, porm, a unir definitivamente aquella provincia 
coroa de Leo nos meiados do seculo XI. As azenhas da ribeira de Forma
j no eram do mosteiro. Fernando I restituiu-lh'as, ajunctando o
senhorio da ponte. Pelagio Halaf, nome que indica um mosarabe christo,
fora, segundo parece, espoliado naquella restituio. Demandou os
monges, affirmando que seu av Ezerag edificara as azenhas, ao passo que
o abbade Arias invocava os nomes de Primo e Zacharias. O mosarabe
Sisnando, conde ou wasir de Coimbra, exigindo o juramento de Arias
crca do que este affirmava, manteve a restituio. Surgiu ento novo
contendor. Era Zuleiman Alafla, primo-coirmo de Pelagio, talvez
mussulmano, talvez christo, mas como elle da raa mosarabe. Sisnando
enviou os contendores  curia do rei. Ahi, longe de estribar o seu
direito na fundao do av, Zuleiman recorreu a um titulo que hoje sera
singular, mas que ento elle cria asss natural, e sufficiente para
legitimar a sua pretenso. Era a historia do que se havia passado quando
Al-manssor se apoderara de Coimbra. Ezerag habitava em Condeixa quando
se restabeleceu o dominio de Cordova. No tumulto da invaso os
habitantes das aldeias internavam-se nos bosques. Ezerag pensou ento
que a desordem geral podia enriquec-lo. Dirigiu-se ao chefe sarraceno
Farfon-ibn-Abdallah, e abraou o islamismo. Depois pediu trinta soldados
sarracenos, escondeu-os nas brenhas, e dirigindo-se  gente foragida,
aconselhou-os a voltarem aos seus lares, asseverando-lhes que tudo
estava pacificado. Acreditaram-no e voltaram s aldeias. Os soldados
sarracenos, saindo ento dos escondrijos, captivaram muitos, e
levando-os a Santarem venderam-nos por grossas sommas. Os captivos foram
conduzidos a Cordova com guia de Ibn-Abdallah e com o preo por que
tinham sido vendidos. Ento Ezerag pediu em recompensa os moinhos de
Forma e diversas aldeias. Al-manssor concedeu-lhe tudo; porque
Al-manssor era um heroe, e os heroes no tem tempo para pensar nos
direitos da humanidade conculcados[86]. Era nesta concesso que Zuleiman
fundamentava a sua justia.

A doao do hadjib aos olhos de Alafla, do neto do renegado, era um
titulo legitimo, embora essa merc tivesse tido por causa uma atroz
villania, e procedesse de um acto de auctoridade que o tribunal leons,
conforme as ideas de hoje, no poderia reconhecer. Zuleiman, porm,
suppunha to legitima, to respeitavel a concesso de Al-manssor como o
julgamento da curia de Fernando-magno. Era um poder que passara na
terra: era outro que nella existia agora. Nisto se resumia,
necessariamente, a crena politica de uma grande parte dos proprietarios
e agricultores mosarabes. Mas o mais importante neste documento  o
proceder d'Ezerag e os factos que d'ahi resultaram. Elles nos explicam
como quaesquer individuos da grande maioria da populao podiam descer
ao misero estado d'escravos. Sem duvida a historia de Ezerag no  a
unica da sua especie succedida naquelles quatro seculos de uma terrivel
lucta: devia repetir-se com circumstancias variadas. E  mais que
provavel que as converses ao christianismo por baixos intuitos de
cubia, de vingana ou de traio, fossem, pelo menos, to frequentes
como as converses mussulmanas.

Insisti neste ponto, porque o reputo capital. Passemos agora  objeco
deduzida de serem os servos originarios obrigados a trabalhos
industriaes e ao servio domestico dos senhores, trabalhos e servios
que, no entender do sr. Muoz, repugnavam  adscripo da gleba.

No opusculo do sr. Muoz parece-me haver duas preoccupaes que
allucinam o illustre escriptor. A primeira  a das idas modernas
applicadas s expresses, s phrases e aos factos da idade media. Desta
 facil possuirmo-nos, e nella terei eu cado mais de uma vez. A outra 
na verdade singular, mas em boa parte deriva da primeira. Consiste em
suppr a impossibilidade de accumular os trabalhos da vida rural com os
industriaes e mechanicos, ou com os servios pessoaes feitos a outro
individuo. Entre as naes onde o progresso das industrias fez
predominar quasi exclusivamente o principio economico da diviso do
trabalho, effectivamente no se d tal associao: o official mechanico,
o operario fabril, o creado domestico no associa de ordinario a
occupao a que se entregou com o grangeio dos campos. Mas assim como a
diviso e subdiviso dos misteres se vai multiplicando com o
desenvolvimento industrial, assim quanto mais atrazado se acha um povo,
mais o homem vara de occupaes, porque  obrigado a variar, e porque
justamente a imperfeio das industrias, a simplicidade e grosseria dos
artefactos favorecem a accumulao e a variedade das occupaes
individuaes. No sei o que succede em Hespanha: em Portugal, nos
districtos ruraes, mais de uma industria fabril se associa com a
agricultura sob o tecto do lavrador. E todavia, por atrazado que esteja
este paiz nos progressos fabris, est sem comparao mais adiantado do
que a monarchia leonesa no seculo X ou XI.

Recusar admittir que o servo da gleba podesse separar-se do cultivo da
mesma gleba para se empregar de outro modo no servio do senhor, no 
s negar o passado;  negar o presente. O campons russo  servo da
gleba, e nem por isso deixa de separar-se della para exercer outros
misteres. O que no pode  ser vendido como os brutos. Muda de senhor,
ao menos legalmente, s quando  alienada a terra a que pertence.

O V volume da Historia de Portugal, ainda no publicado, conter uma
parte relativa ao systema do tributo, da renda, e do servio publico nos
seculos XII e XIII. Ahi se encontraro numerosas provas de que n'uma
pocha em que j a adscripo voluntaria succedera  forada existiam
para o colono, pessoalmente livre, ao lado das prestaes agrarias esses
mesmos encargos de servio pessoal que ao sr. Muoz parece repugnarem,
no ao colonato livre, mas  propria servido da gleba; e o mais  que
continuamos a encontr-los ainda nos contractos emphyteuticos de seculos
mais modernos. Por singulares, por extranhos  vida rural que esses
servios se nos affigurem nos documentos citados no opusculo que
examino, os dos colonos portugueses do seculo XIII, colonos
indubitavelmente livres de uma gleba serva, no so menos singulares e
extranhos. Lembrarei, entre outros, o encargo que pesava sobre os
moradores de tres casaes de Tras-os-Montes. Deviam ir servir de espias
em Leo quando a isso os enviassem.[87] Era, por certo, um servio mais
abjecto do que o _purgare tristigas_ de que falam os documentos
leoneses.

Mas o mais notavel  que o proprio sr. Muoz se encarregou de combater a
sua opinio. Ao lado da servido _pessoal_ dos servos _originarios_
admitte a existencia da servido de gleba, a existencia simultanea de
adscriptos, de que frma uma classe  parte. Depois de enumerar as
prestaes agrarias que pagavam esta especie de colonos-servos, o sr.
Muoz adverte[88] que, alm de uma quota de fructos, e de variadas
foragens, esses colonos forados estavam adstrictos a servios pessoaes,
que consistiam nos amanhos de predios diversos da propria gleba, em
construces de edificios, e _em fazer quanto se lhes ordenasse_. Supps
o sr. Muoz que havia contradico em dizer eu que os servos originarios
eram todos adscriptos e ao mesmo tempo obrigados a servios pessoaes
fra da respectiva gleba, e todavia no s acceita essa doutrina
contradictoria no seu mesmo opusculo, mas, alm disso, acceita-a depois
de affirmar a sua impossibilidade, para desta inferir contra mim a
continuao na monarchia ovetense-leonesa da servido wisigothica. Se os
servios pessoaes alheios ao cultivo da gleba importavam forosamente a
no-adscripo,  necessario confessar que a adscripo, cuja existencia
o sr. Muoz cr descubrir ligada com quaesquer encargos de servio
pessoal ao senhor,  um sonho, e que os documentos que se referem a esse
estado de cousas, ou so falsos, ou se ho de entender, custe o que
custar, de escravos semelhantes aos dos wisigodos ou aos captivos
sarracenos.

Na _Colleccion de Fueros Municipales_[89] publicou o sr. Muoz dous
interessantes documentos sem data, mas que parecem do seculo IX,
relativos aos encargos pessoaes dos servos originarios. A estes
documentos se reporta igualmente no seu opusculo para abonar a these que
estabelece da existencia simultanea de adscriptos e de escravos
originarios.  o primeiro uma memoria dos servios a que era obrigada
para com a s de Oviedo cada familia serva da terra de Gauzon:  o
segundo uma memoria especial das obrigaes dos servos de Pravia, logar
ou aldeia incluida no mesmo territorio de Gauzon. Na _Colleccion_ v-se
que as idas do sr. Muoz fluctuavam ainda. Estas duas memorias
suppe-nas elle ahi relativas indistinctamente aos servos da s ovetense
residentes naquelle territorio, quer adscriptos, quer no: no
opusculo[90] suppe-nas, porm, relativas exclusivamente aos
no-adscriptos, isto , aos servos de raa, que, segundo a sua doutrina,
continuaram a ser na monarchia no-gothica de condio identica  dos
servos do VI e do VII seculos.

Permitta-me, todavia, o sr. Muoz pensar que se houvera reflectido mais
detidamente nestes documentos elles o teriam, talvez, conduzido a
diverso resultado. Suppondo que se refiram a servos que, no seu
entender, equivaliam a cousas, e de que seu antes dono que senhor podia
dispr livremente, a propria existencia dessa especie de memorias sera
incomprehensivel. Na idade media no se escreviam cousas absolutamente
inuteis, porque a arte de escrever poucos a possuiam, e at a materia da
escriptura era assaz rara. Ora nada mais completamente inutil do que
esses _cobrinellos_ ou ementas, dada a theoria do sr. Muoz. Para que
escrever n'um pergaminho: _a familia de fulano de tal aldeia ou granja_
(villa) _ obrigada a tal servio_? Pois uma familia de escravos, que
pode ser empregada a bel prazer do senhor nos mais oppostos misteres
dentro do mesmo anno, do mesmo mez, do mesmo dia, como um animal
domestico; que por arbitrio delle pode mudar de domicilio quando isso
convier; que, em summa, pode collectiva ou individualmente ser vendida,
escambada, doada; uma tal familia, digo, tem acaso obrigaes
determinadas, de que seja necessario conservar a memoria para o futuro?
De que serve declarar a granja, o villar, o casal onde cada uma dessas
familias reside, se, no dia seguinte ao da redaco da ementa, o senhor
pode achar mais conveniente outra distribuio dos seus escravos? Apesar
da facilidade com que hoje se escrevem cousas inuteis, no se reputaria
louco o proprietario que escrevesse e archivasse a seguinte memoria: _A
raa do cavallo N. tem de conduzir madeiras; a raa do touro_ _N. tem de
lavrar taes terras; tal vehiculo tem de servir de transporte a tal
objecto; tal alfaia  destinada a tal uso_?

Na minha opinio, o que estas memorias provam  o mesmo que provam
directa ou indirectamente todos os documentos que se referem  condio
ou aos encargos dos servos originarios, ou homens de creao:  que
estes esto unidos a certos predios indissoluvelmente; que desse
complexo do homem e do predio o senhor tem de auferir prestaes
agrarias e servios determinados. Nesta hypothese o _cobrinellum_  uma
cousa racional. A _casata_, isto , a familia que vive n'uma certa
choupana ou grupo de choupanas, (_casa_) tem de satisfazer, de gerao
em gerao, perpetuamente, aquelles encargos. Os enlaces inevitaveis com
outras familias podem produzir complicaes de direitos entre diversos
senhores, mas o _cobrinellum_ ou ementa particular de cada um servir
para os deslindar, indicando os servios, independentes das prestaes
agrarias, que essas familias devem, _debent_. Esta ida de dever que se
manifesta nos documentos presuppem a do direito. O escravo no tem
deveres; porque as _cousas_ so incapazes delles. Nos proprios tempos
barbaros dever e direito so inseparaveis; porque as duas idas so
forosamente correlativas.

Conforme o que n'outro logar adverti, a adscripo no era de feito
simplesmente uma grande restrico da liberdade; importava tambem
vantagens, as de uma especie de co-propriedade do servo colono na sua
gleba. O sentimento do servo de gleba devia ser analogo ao do campons
russo dos nossos tempos. No momento em que os servos separados da
terra--diz o marquez de Custine--vissem vend-la, arrend-la, cultiv-la
independentemente delles, amotinar-se-hiam de golpe, clamando que os
despojavam _dos seus bens_[91]. Do mesmo modo que na Russia, onde se
caminha da barbaria para a civilisao, nas origens barbaras da
monarchia no-gothica a adscripo como regra succedeu naturalmente 
servido pessoal, e a servido da terra cultivada por um colono
pessoalmente livre succedeu  adscripo nos seculos XII e XIII, como me
persuado que demonstrei no meu livro. Suppr que da escravido se passou
de salto  liberdade pessoal affigura-se-me a supposio de um
impossivel historico.

Effectivamente: como achamos mais geralmente estabelecido o colonato nos
seculos XII e XIII? O colono  _obrigado_ a morar no predio que cultiva,
mas no  forado a isso. Se delle sai, no lhe  licito cultiv-lo;
perde-o; no o reconduzem, porm, violentamente a elle. A unio do homem
 terra subsiste, mas essa unio no  indissoluvel. A liberdade pessoal
nasceu. Entre esta situao e a do homem-cousa, do escravo, ha um
abysmo. Como se transps? O meio principal consistiu na servido da
gleba. O homem-cousa foi-se transformando em _pessoa_ serva: a pessoa
serva em pessoa livre; mas ficou ainda adscripta na qualidade de colono.
Para ser plenamente pessoa livre precisava de desaggregar de si esta
qualidade; de divorciar-se da gleba, a que alis o prende esse amor
ardente do homem de trabalho ao solo que cultiva. E que importava, se
_podia_ faz-lo?  por isso que disse no meu livro que a servido desceu
do homem para a terra. Depois, lentamente,  que veio o colonato na sua
frma quasi definitiva: o lao unico que liga o colono  a soluo do
canon e a prestao dos servios pessoaes ao j no _senhor_, mas
_senhorio_. Depois, finalmente, chegou-se  formula definitiva: os
servios pessoaes ou desappareceram ou poderam ser substituidos, 
vontade do colono, pela soluo de um _quantum_ que os representasse.
Desde este momento o colonato no conteve mais em si elemento algum que
repugne s nossas idas actuaes de direito, e nem sequer s da economia
politica.

Eu cri ver a liberdade humana despontando tenue nos horisontes da vida
do povo desde os tempos wisigothicos. Para o sr. Muoz a noite profunda
da escravido durou nesses horisontes at a fatal jornada do Guadalete.
E no s, na sua opinio, durou at aquella epocha, como tambem
subsistia ainda com todo o peso das suas sombras no seculo XI. Mas em
que periodo collocar a transio para a liberdade pessoal dos seculos
XII e XIII, cuja existencia demonstrei como facto predominante no
colonato dessa epocha, se no for no estado dos servos originarios da
monarchia leonesa? Se assim no houvera sido, singular excepo  lei de
desenvolvimento gradual e constante do progresso humano sera a historia
da Peninsula durante quatro seculos!




VI


O sr. Muoz contrape ainda  minha opinio varios factos, que entende
provarem ser o estado dos servos o de cousas na monarchia de Oviedo e
Leo. Um delles  no ter o servo representao em juizo, nem poder
servir de testimunha, havendo outro meio de prova.

De se me oppr este facto parece poder inferir-se ter eu affirmado em
alguma parte que o servo se convertera em homem plenamente livre na
monarchia leonesa. Nesta hypothese a objeco poderia parecer plausivel,
ainda que realmente o no seja; porque no se segue da plena liberdade
do individuo, em qualquer estado social, a necessidade positiva de ser
igual em direitos, ainda civis, a todos os individuos livres. O que,
porm, affirmei, e o que julgo poder continuar a affirmar  que a
servido mais ou menos absoluta dos wisigodos se tornou na monarchia
no-gothica em servido da gleba, e que esta modificao foi um grande
passo para a emancipao das classes populares. Se o servo no podia
desaggregar-se da gleba,  evidente que a gleba tambem no podia
desaggregar-se do servo, e que desse estado resultava para elle uma
especie de co-propriedade de facto, que, por indestructivel, creava um
direito positivo. O alcance deste direito era tal que as suas
consequencias, na successo dos tempos, deviam trazer mais tarde ou mais
cedo a plena liberdade pessoal, como de feito trouxeram. Eis o que eu
estabeleci. Objectivamente, a existencia da pessoa civil resulta da
manifestao da sua capacidade juridica, embora essa manifestao seja
incompleta. Entre os romanos, o servo considerava-se como cousa, porque
objectivamente era incapaz, no de um ou de outro direito, mas de todos
elles, e por isso perdia a personalidade: nas sociedades modernas,
porm, o privilegio, a jerarchia, a idade do homem, o seu estado physico
ou moral produziram sempre e produzem ainda differenas de direitos, at
civis, que nem por isso destroem a personalidade de ninguem. Fosse o
poder publico, fosse o proprio adscripto que podesse invocar o principio
da adscripo para no ser violentamente separado da gleba nativa; fosse
o costume, a opinio, ou a lei que sanctificasse a unio da terra com o
seu cultor, o que  certo  que se invocava, sanctificava e mantinha um
direito, uma vantagem importantissima do adscripto. Fosse qual fosse a
dependencia deste do respectivo senhor, a sua personalidade existia.

Assim, quaesquer que fossem as restrices que houvesse a respeito dos
servos no systema judicial desde o seculo VIII at o XII, essas
restrices nem provam contra a personalidade objectiva dos servos, nem
importam  adscripo ou no adscripo. Sobre aquelle systema judicial
e sobre o papel que os servos representavam nos pleitos poderia
accrescentar aqui algumas ponderaes que me parece mereceriam a
atteno do sr. Muoz, mas que me levariam mais longe do que comportam
as dimenses deste pequeno trabalho, e que seriam sobejas para o fim que
me proponho. Deixando, pois, de parte questes agora inuteis, venhamos a
outros factos juridicos em que o sr. Muoz v a morte da personalidade,
e que evidentemente no provam o que elle pretende, antes em parte
demonstram que do mais ou menos incompleto dos direitos civis em
individuos desta ou daquella classe nunca se poder deduzir a
escravido, a no-personalidade, a suppresso absoluta desses direitos.

Competia ao dono smente--diz o sr. Muoz--reclamar a indemnisao do
damno padecido pelo servo como cousa de sua propriedade[92]. Os
documentos, alis numerosos, em que esta affirmativa pde estribar-se
no servem de modo algum para dirimir a contenda; porque para provarem a
no-personalidade dos servos e a sua no-adheso  gleba (suppondo que o
facto o provasse) cumpria mostrar que elles se referiam aos servos
originarios, e no a escravos captivos. Admittindo, porm, que taes
documentos se refiram a servos originarios, essa concesso de nada
servir para revalidar a opinio do sr. Muoz. A representao pelo
senhor no se limitava ao escravo, e nem mesmo a este e ao servo de
gleba: estendia-se a individuos livres collocados na dependencia
juridica de alguem. Seguir-se-ha d'ahi que semelhantes individuos eram
cousas; no tinham personalidade?

O sr. Muoz estabeleceu excellentemente no seu opusculo[93] a natureza
da malada. O malado era o homem livre, que se collocava n'uma especie
de vassalagem para com seu senhor adoptivo, e esta especie de relaes
provei eu que eram inteiramente pessoaes e independentes do caracter de
colono, situao em que o malado podia estar em relao a outro senhor,
bem como mostrei a transmisso da maladia de paes a filhos[94]. A
reparao, porm, dos damnos feitos aos malados revertia ainda no seculo
XI em beneficio do patrono[95]. Admittida a doutrina estabelecida depois
pelo sr. Muoz, esta jurisprudencia provaria contra elle proprio;
provaria que o malado, longe de ser, como tal, homem livre, era apenas
uma cousa, apenas uma propriedade do _dominus_.

Como os malados, os solarengos (solariegos) eram colonos livres. Di-lo o
sr. Muoz, e com elle dizem-no os monumentos. Todavia ns lemos no Foro
Velho de Castella[96]: _Ninguem deve pousar nem entrar por fora em
casa de nenhum solarengo, e se alguem o fizer deve pagar 300 soldos ao
senhor, de quem for o solar, e o damno em dobro ao lavrador que recebeu
o aggravo_. Nos foraes do typo de Salamanca lemos tambem: _Se alguem
matar o creado de qualquer vizinho, receba este a multa do homicidio. O
mesmo  applicavel ao seu hortelo, ao caseiro que lhe paga quartos, ao
seu moleiro e ao seu solarengo_[97].

A simples relao de vassalagem e clientela produzia s vezes os mesmos
effeitos. Assim, em alguns desses foraes do typo de Salamanca se estatue
tambem que _se forem assassinados homens que alguem tenha nas suas
herdades, ou que sejam seus vassalos pertencer ao senhor a multa do
homicidio_[98].

Eis aqui como ainda nos seculos XII e XIII o senhor ou patrono havia a
multa dos crimes commettidos contra os seus dependentes, sem que d'ahi
se possa nem por sombras inferir que a dependencia do cliente, do
vassalo, do malado, do solarengo ou do creado fosse a da escravido.
Nada direi acerca de o sr. Muoz qualificar a _calumnia_, a multa
judicial, _de compensao pecuniaria imposta como pena ao matador_. O
sr. Muoz sabe perfeitamente que no era essa a indole de taes multas:
foi uma phrase inexacta que lhe escapou na rapidez da composio, como
talvez me tero escapado a mim outras analogas. Mas o que no posso
deixar de observar  uma circumstancia que prova como os espiritos mais
elevados e de mais solida sciencia chegam a precipitar-se quando
subjugados por um preconceito. Possuido da ida da escravido dos servos
originarios nos quatro primeiros seculos da monarchia leonesa, o sr.
Muoz, ao passo que viu dimanar a no-personalidade do servo do direito
do senhor s multas dos crimes perpetrados contra elle, no viu,
buscando estribar-se em documentos, que o primeiro que citava, tirado de
um chartulario do mosteiro de Cellanova, continha a refutao
peremptoria da sua doutrina. Este documento do anno 940  uma carta ao
mesmo tempo de _agnio_ e de _incommuniao_, em que Pelagio
_incommuna_ os bens que tinha em certas aldeias a D. Ilduara e a seus
filhos, por elle haver com uns clientes seus espancado por tal modo
Froila, _junior_ de D. Ilduara, que o espancado morrera, e Pelagio, no
podendo talvez pagar a D. Ilduara a multa que lhe fora imposta, recorria
ao expediente de lhe _incommuniar_ aquelles bens[99]. Mas Froila era um
_junior_, colono da mais humilde classe, porm livre. O texto das cortes
de Leo de 1020 e a sua antiga verso em vulgar no consentem que se
interprete de outro modo a palavra _junior_: nisto o sr. Muoz est
perfeitamente de acrdo comigo no seu commentario quelle celebre
monumento legislativo[100]. Como, pois, se invoca um diploma que
formalmente contradiz a doutrina que  destinado a sustentar?




VII


Os consorcios entre individuos das classes servis offereciam varias
hypotheses juridicas: o servo podia casar com uma serva do mesmo senhor,
ou com a de outro: ter um ou mais filhos ou nenhum: o marido podia ir
viver na residencia anterior da mulher, ou a mulher na residencia
anterior do marido: materialmente, essas translaes de domicilio podiam
occorrer com licena do senhor ou sem ella. Estes diversos factos
influiam necessariamente nas relaes do senhor e do servo. Restam em
Portugal e em Hespanha bastantes documentos de que elles se davam, e de
que se buscavam arbitrios para solver as difficuldades que d'ahi
procediam. Achamos contractos, inqueritos, memorias particulares,
sentenas, em que se previnem, se memoram, ou se remedeiam as
consequencias dessas varias hypotheses em relao aos direitos dos
senhores, e em que, portanto, obtemos a certeza de ellas se haverem dado
desde o VIII at o XII seculo. Para occorrer aos conflictos de
interesses e de direitos, v-se dos mesmos documentos que se recorria 
diviso das familias. Em que consistia esta diviso? O que  que se
passava na realidade?

O desacrdo entre mim e o sr. Muoz j se v que deve ser completo na
apreciao dos documentos relativos a semelhante assumpto. Elle v a
escravido como condio geral dos individuos da classe servil do seculo
VIII ao XII: eu vejo-a s em relao aos captivos sarracenos, e a
servido da gleba em relao aos _homines de creatione_, aos _servi
originales_. N'uma nota do meu livro[101] mostrei, segundo creio, que os
documentos com que elle pretendera provar que os filhos do servo e da
serva de differentes senhores se dividiam entre estes[102] se deviam
entender de um modo diverso. Na minha opinio, o que se dividia eram os
servios pessoaes, e em certos casos (como na incerteza de pertencer a
um ou a outro senhor o dominio da gleba habitada pelo homem de creao)
as prestaes agrarias. Em relao s glebas possuidas de paes a filhos
pelas familias servas, a minha theoria era e  que o _dominio_ e o _uso_
de qualquer desses predios se moviam em duas espheras: que o _dominio_,
manifestado, traduzido materialmente na percepo das prestaes
agrarias e na exigencia de servios, era a propriedade do senhor;
constituia o objecto de uma grande parte desses milhares de contractos
do seculo VIII ao XII que restam nos archivos da Peninsula; que o que se
vendia, doava, escambava mais ordinariamente era o direito a haver dos
servos, dos _juniores_, dos malados, dos solarengos, do homem de
trabalho, em summa, ingenuo ou no ingenuo, certas prestaes agrarias e
certos servios pessoaes, que nas glebas servis derivavam da duplicada
servido do homem e da terra a que estava unido, e que na herdade ou
casal do peo (_junior_), na maladia, no solar, derivavam de um
contracto voluntario, tacito ou expresso; que as prestaes e os
servios do adscripto, representando a renda da terra e a obrigao
servil do individuo nella incorporado, eram duas cousas que facilmente
podiam distinguir-se quando por consorcios, ou por outra qualquer
eventualidade, o direito s prestaes da gleba e aos servios do homem
ou da familia vinha a achar-se dividido entre dous proprietarios
(_domini_) diversos; que, assim distinctos, tanto aquellas prestaes,
como aquelles servios podiam no s affastar-se, unir-se de novo, mudar
de proprietario separadamente por toda a especie de transmisso, mas at
fraccionar-se em si mesmos ou accumular-se, sem que por isso mudasse a
condio do individuo que usufruia o predio, quer como adscripto, quer
como colono livre.

No sei se varios documentos que o sr. Muoz cita, logo no principio do
seu opusculo[103], provam, como elle pretende, que as palavras _servus_,
_homo_, _creatio_, _familia_ se applicavam indistinctamente aos servos,
s familias da mesma origem, aos adscriptos, e no poucas vezes aos
homens livres, postoque sujeitos a alguma especie de vassalagem. No vem
isso para esta questo. O que sei  que mostram, como muitos outros, a
verdade da precedente theoria, por ser ella unicamente que os explica.
Assim, lemos alli que em 934 Eximina doou a aldeia ou granja de Malares
ao mosteiro de Sobrado com todos os seus bens e pertenas, _e com todos
os seus homens, assim servos como livres, que serviram na mesma aldeia
no tempo de meus paes e avs_; lemos que em 1016 o mesmo mosteiro fez um
escambo com Gutier Dominico dando este a aldeia de Luzario com as suas
dependencias e _com a sua creao, servos e libertos e homens livres,
quantos servem na mesma aldeia_; vemos que na doao de certas aldeias
ao mosteiro de S. Salvador, em 932, se diz doarem-se _com a familia,
libertos e pessoas livres (que faam) ao dicto mosteiro e aos dictos
senhores o servio que costumavam fazer_. Como explicar doaes e
escambos de pessoas livres e ainda de libertos conjunctamente com os de
servos e com os das aldeias em que tantos estes como aquelles moravam,
se entendermos esses documentos ao p da letra? No  evidente que se
tracta das prestaes agrarias, que pagavam tanto as glebas servis, como
os predios colonisados por homens livres, e dos servios que tanto os
adscriptos como os ingenuos, foradamente uns e por contractos
espontaneos outros, eram obrigados a fazer? No vemos, at, no 1.^o
documento que os individuos de ambas as categorias so, sem distinco,
_herdeiros_, uns nos predios colonisados, outros nos predios de
adscripo, porque os servios que delles devem uns e outros vem de
tempos remotos: _tam servis seu ingenuis qui ad ipsam villam
deservierunt in vita aviorum et parentum meorum_?

A hereditariedade do servo na gleba, consequencia forosa da adscripo,
eis, como j disse n'outra parte, o grande passo dado na Peninsula,
desde o seculo VIII at o XII, pelo homem de trabalho, pelo antigo
escravo, para a liberdade. Quando o artigo VII do concilio ou cortes de
Leo de 1020 diz:--_Ninguem compre_ a herdade do servo da igreja, do rei
ou de alguem. _Quem a comprar perca-a e o que deu por ella_--faz-nos
recordar a doutrina parallela do codigo wisigothico[104]. Mas ha na lei
de 1020 duas palavras que assignalam um abysmo entre as duas
legislaes: _haereditatem servi_, phrase que seria monstruosa no seculo
VII, mas que no XI indica apenas um facto asss trivial para exigir
providencias que o regulem e limitem. _Haereditas_  nas actas daquella
assembla, como em geral nos documentos das Hespanhas, o _hereditagium_
de alm dos Pirenus;  o predio possuido de paes a filhos, o predio em
que se succede por herana. O servo ligado  gleba sabe que, quando
morrer, ficaro ahi os proprios descendentes; porque tambem sabe que
elles e a gleba mutuamente se pertencem. Nas palavras _herdade do servo_
est resumida a historia de uma transformao social.

Que oppe o sr. Muoz a um facto que as leis, os contractos, as decises
forenses conspiram em mostrar no s como existente, mas tambem como
universal em relao a todos os servos originarios ou homens de creao?
Uma difficuldade practica. Suppe que o servo de uma gleba poderia ir
casar com uma mulher de uma gleba remota e de diverso senhor. Prestaes
agrarias no as podia pagar, porque a terra era de outro dono; servios
pessoaes no os podia prestar, pela distancia em que vivia. Assim seus
filhos. Dividindo-se estes materialmente, e levando o senhor do pae
metade delles, emquanto a outra metade ficava na gleba materna, aquelles
podiam ter o destino que conviesse a seu dono se eram escravos, ser
repostos na gleba paterna se fossem de raa adscripta. D'aqui a
necessidade de entender os documentos no seu sentido apparente, e de
crer que a praxe de se dividir a prole dos servos de dfferentes
senhores era a geralmente seguida. Ora esse facto, equiparando a classe
servil aos bens semoventes e aos moveis, destruia a personalidade dos
individuos de semelhante classe, escrava em tal hypothese, situao que
o opusculo do sr. Muoz tende a provar ser a dos servos desde o VIII at
o XII seculo.

Mas este argumento pcca pela sua propria indole. Inferir que no
existiu, ou pelo menos que no foi geral e predominante certa
instituio, de ter ella inconvenientes, que alis no existiriam
predominando uma instituio diversa ou contraria, e concluir d'ahi que
foi esta a que existiu ou predominou, parece-me que seria um pessimo
raciocinio na historia de pochas e de paizes altamente civilisados,
quanto mais na de eras semi-barbaras e de um paiz semi-barbaro. Que
havia em Oviedo e Leo desde o VIII seculo at o XII no direito publico,
na administrao, no estado das pessoas, nas relaes civis, que fosse
absoluto, uniforme, sem excepo na practica? Que condies sociaes
havia que no fossem incompletas, antinomicas, obscuras sob um ou sob
outro aspecto? Que foi a idade mdia, seno a infancia dolorosa e longa
da civilisao moderna; que foi, seno uma serie de experiencias e
tentativas de organisao das naes, que surgiam do singular consorcio
da sociedade romana, corrupta e dissolvida, com as aggregaes quasi
selvagens das hostes e das tribus germanicas, mixto tornado ainda mais
confuso na Peninsula pelo influxo da cultura arabe? Que cousa mais
enredada, mais desharmonica, mais cheia de solues difficeis do que a
vida social d'ento? Sem duvida que certas leis supremas, que regem a
humanidade em qualquer situao que ella se ache, actuavam ento entre
os povos, como sempre, e as paixes impelliam os individuos do mesmo
modo e produziam effeitos identicos ao que produzem em todos os tempos;
mas disto  perfeio,  harmonia das instituies vai uma distancia
immensa.

Acceitando, porm, a doutrina do sr. Muoz sobre a escravido absoluta
dos servos originarios ficam, acaso, resolvidas as difficuldades de
applicao practica que elle v na existencia da servido de gleba? A
hypothese que lembrou pde modificar-se. Supponhamos que o escravo, ido
para outro logar e ahi casado com uma escrava de diverso dono, tinha um
filho s. Como se dividiria materialmente esse individuo? Supponhamos
que tinha um filho e uma filha.  luz a que os escravos eram
considerados, isto , como animaes de carga, como machinas de trabalho,
como cousas, emfim, o sexo dos individuos representava forosamente um
valor diverso. A quem cabia o filho? A quem a filha? Mais: supponhamos a
unio infecunda. Conforme quer o sr. Muoz, o meio ordinario de reparar
a perda do escravo ou escrava, que pelo consorcio ia viver na gleba de
um senhor differente, era a repartio material dos filhos. Na falta
destes, resignava-se, acaso, o senhor do servo fugido a perder os
servios delle, porque, no podendo dissolver-se o matrimonio e vivendo
a familia escrava a grande distancia, no era possivel exigi-los?

A lei wisigothica, porm, ainda em vigor na monarchia no-gothica,
estatuia a respeito destes consorcios, no devidamente consentidos,
entre servos de differentes donos uma regra clara e exequivel. Aquelle
dos dous senhores que se aproveitara desse acto irregular, que se
appropriara por tal meio o servo ou a serva alheios, perdia os dous
conjuges e a respectiva prole em beneficio do que fora espoliado[105].
Se a situao dos servos originarios no tinha mudado, porque no se
applicava a lei? Que a diviso das familias, quer como a entende o sr.
Muoz, quer como eu a entendo, constituia j a jurisprudencia ordinaria
do seculo XI  uma cousa de que os documentos citados por elle, e outros
que poderia citar, no permittem que se duvide. Porque se oblitterou a
lei wisigothica nesta parte?  evidentemente porque, tendo mudado a
situao dos individuos a que ella era applicavel, devia buscar-se um
meio de reparar a offensa do direito sem tractar os servos como bens
semoventes.

O direito dos senhores das glebas, s quaes os servos pertenciam, sobre
as prestaes agrarias das mesmas glebas e aos servios dos individuos
ou familias a ellas adscriptos no offereceria realmente os
inconvenientes practicos que suscitaria o systema supposto pelo sr.
Muoz. J notei que este argumento  mu; mas  certo que nem esse mu
argamento favorece a sua opinio. O servo, que se desaggregava da gleba
sem consentimento do senhor, podia ser reconduzido violentamente a ella.
Este era o principio. Mas se elle lhe fizesse os servios pessoaes que
d'antes fazia, parece que devia ser facil o chegar-se a uma transaco,
a um acrdo. A gleba l ficava cultivada pelo resto da familia adscripta
e produzindo as mesmas prestaes agrarias, ao passo que o individuo
desempenhava os mesmos deveres pessoaes. Suppondo que este fosse residir
a grande distancia (hypothese rarissima n'uma epocha em que no existia
a menor facilidade de communicaes) esses servios podiam ser
transformados em prestaes em generos, ou em moeda. Se o servo se
casava e tinha filhos, metade dos servios da nova familia pertenciam ao
seu antigo senhor, obrigao herdada, que podia ser satisfeita do mesmo
modo. Era um systema complicado, e que daria, como dava, origem a mais
de um pleito entre senhor e senhor, mas que me parece no offereceria
hypotheses insoluveis como a theoria adoptada pelo sr. Muoz.

Na _noticia_ dos homens do mosteiro de Cartavio publicada na _Colleccion
de Fueros_[106] l-se _in Garrio, Maria Ectaz medium cum suis filiis
mediis... in Mirites... Savaricum integrum... in Mintes... Petrum Vistiz
integrum cum suis filiis mediis_, etc. Temos, pois, nos proprios
documentos publicados pelo sr. Muoz a prova de que um individuo morador
em certa granja ou aldeia podia pertencer integralmente ou parcialmente
ao dono dessas glebas.  uma das hypotheses que eu figurei, e que o sr.
Muoz nos no diz como se resolveria no seu systema.[107]

A interpretao que dou aos documentos que se referem  diviso dos
servos originarios, e que eu supponho geralmente adscriptos,  to
obvia; esses documentos provam to pouco que a diviso dos membros da
familia serva se haja forosamente de entender como uma diviso
material; era to possivel moverem-se os individuos, em relao ao
dominio, n'uma esphera diversa daquella em que se moviam as prestaes
agrarias e os servios pessoaes; a confuso da terra com o homem, da
obrigao com a pessoa a quem ella imcumbia, era to vulgar na linguagem
juridica, que o proprio sr. Muoz adopta o meu systema de interpretao
a proposito de documentos analogos nas expresses quelles com que
pretende refutar o mesmo systema. Falando de diplomas, em que se faz
doao, venda, ou permutao de solares incluindo os solarengos,
accrescenta: _Obstam muito pouco alguns documentos de venda, doao e
troca feitas junctamente com os solarengos. No quer isto dizer que se
vendessem as pessoas; mas sim os tributos e servios que estas tinham
obrigao de prestar._ Se a linguagem dos documentos se pde tomar como
figurada em relao aos solarengos, porque no se poder entender do
mesmo modo em relao aos servos originarios ou homens de creao? Como
se pretende deduzir dessa linguagem um argumento para provar que estes
eram vendidos, escambados, ou doados como cousas, como bens semoventes,
e sem personalidade, no se permittindo tirar igual inferencia a
respeito dos solarengos?

A questo do estado das classes servas na monarchia no-gothica
comportava maiores desenvolvimentos. Esses desenvolvimentos no cabem,
porm, neste breve opusculo e na forma de publicao a que  destinado:
por isso pararei aqui. Permitta-me o sr. Muoz y Romero que repita,
acabando, as expresses de sincero apreo pelo seu alto merito
litterario, e pelos seus esforos para derramar luz nas trevas da nossa
idade media. O que ha de abnegao, de zelo pela sciencia, de foras
intellectuaes consummidas em desbravar os desvios por onde o sr. Muoz
se embrenhou s o conhece aquelle que nesse duro lavor deixou passar os
melhores dias da vida, sem saber o que a mocidade tem de gozos, a idade
viril de ambies, e a velhice de vaidades, e cuja recompensa unica ser
escrever-se-lhe na campa: _Aqui dorme um homem que conquistou para a
grande mestra do futuro, para a historia, algumas importantes verdades._




INDICE



*A batalha de Ourique*


I   Eu e o Clero                            3
II  Consideraes pacificas                35
III Solemnia Verba 1.^a                    72
IV  Solemnia Verba 2.^a                    99
V   A Sciencia arabico-academica          185


*Do estado das classes servas na Peninsula*


I                                         237
II                                        245
III                                       263
IV                                        265
V                                         285
VI                                        317
VII                                       318




Notas:

[1] Sermo De Convers. S. Paul.

[2] Epistolar. Epist. 152.

[3] Mem. de D. Fr. Caetano Brando, T. II, p. 411.

[4] Concil. Trident. Sess. 25, Decr. de Purgat.

[5] Concil. Colon I, tit. 6 c. 25.

[6] Van-Espen, Jus Eccles. P. 1 tit. 22 cap. 10.

[7] Gesch. der Italienisch. Staat. IV B., 4 kap.  6.

[8] Vol. 1 Nota 3 p. 466 e segg.

[9] S. P. Damiani Epistol. ad Sum. Pontif. L. 1 Epist. 16.

[10] Greg. VII Epistolar. Liv. 8 Epist. 21.

[11] De Considerat. L. 3 c. 3.

[12] Ibid. Liv. 4 c. 4.

[13] Um grande numero dessas passagens e cantigas, relativas aos seculos
XI, XII e XIII, acham-se colligidas na Historia dos Hohenstaufen de
Raumer, Vol. 6, pag. 178 e segg.

[14] Scriptores Rer. Francicar., T. XVII p. 558.

[15] Art de Verif. les Dates, vol. 1 pag. 299.

[16] Matth. Paris, p. mihi 607 col. 2.

[17] Chronic. pag. mihi 287.

[18] Def. de la Declar. I. 6.

[19] D. Hilar. Pictav., In Psalm. 53.

[20] D. Gregor., Expos. in Job L. 8 c. 6, L. 13 c. 4.

[21] Recordo-me de ler em a _Nao_ um communicado de Coimbra, assignado
por um parocho, em que se me dizia que, se as assaduras da inquisio
tinham acabado, c estavam os bispos. O bom do homem ainda espera que os
bispos de Portugal possam queimar gente.  uma doce illuso como
qualquer outra.

[22] ne ab uberiori auctorum copia alliciamur, sed potis ab ipsorum
merito et _gravitate_; multotis enim fit, ut _gravis_, periti atque
sinceri scriptoris auctoritas, etc.

Que diria um desses furiosos que crm que o vocabolario dos prostibulos
pde supprir os rudimentos da sciencia, e que me condemnou como
ignorante por falar em _gravidade da historia_ em relao, no ao
estylo, mas sim  materia, se ouvisse o venerando Mabillon falar na
gravidade do historiador tambem em relao  essencia e no  forma, e
isso duas vezes n'um unico paragrapho!! Chamava-lhe ignorantissimo. Oh
clero portugus, clero portugus!

[23] Elle _ne craint que_ de n'tre pas connue: Fleury diz que, no a
igreja, mas o proprio christianismo _teme_. Em Portugal a theologia das
tabernas entende-o d'outro modo.  uma consolao ser impio e herege com
o virtuoso prior de Argenteuil. Pobre igreja portuguesa.

[24] Todas as pessoas mediocremente instruidas sabem o que quer dizer
_theocratico_; mas o demente que escreveu estas blasphemias no sabe
portugus, quanto mais grego. Fez uma phrase ridicula para introduzir
ahi um vocabulo que os ignorantes no entendessem e que portanto
admirassem.

[25] Accentuado por causa das freiras que dizem missa. A ignorancia das
freiras  a razo capital da accentuao nos livros rituaes, segundo o
digno sacerdote que, por vingana, acceitou das _capellas_ o pio mister
de me injuriar e calumniar sanctamente.

[26] Nova Insistencia, etc., pag. 34.

[27] Demonstrao pag. 34.--Insistencia pag. 10.

[28] Poucos annos antes, os embaixadores de D. Dinis tinham offerecido
inutilmente ao pontifice uns artigos com o mesmo intuito, e contendo em
substancia o mesmo que os de Pedro Escacho. Ahi nem uma palavra se diz
sobre a acclamao em Ourique, em que tambem no fala nenhum dos
chronicons coevos. Assim, a inveno da historia da acclamao pde
fixar-se no principio do seculo XIV, tendo talvez em parte dado motivo a
ella esta questo da desmembrao da ordem de Sanctiago, negocio que foi
assaz rudioso e importante. Veja-se a Historia de Portugal, Vol. I, pag.
489 (Nota XVIII).

[29] Estes chronicons esto publicados nos _Portugaliae Monumenta
Historica_, Vol. 1, p. 26.

[30] Tanto este como os dez paragraphos precedentes foram supprimidos
nas edies avulsas das _Solemnia Verba_. Era uma digresso que pouco
servia para rebater as opinies adversas, e que entretanto affrouxava o
cerrado da argumentao.

[31] Os Cuidados Litterarios de Cenaculo, a Memoria de frei Joaquim de
Sancto Agostinho sobre os codices d'Alcobaa, o Elucidario de Viterbo,
as Observaes de J. P. Ribeiro publicaram-se proximamente pelo mesmo
tempo. Viterbo, frei Joaquim de Sancto Agostinho, Ribeiro eram
_innovadores perigosos_ ento, como eu o sou hoje. Cenaculo era um bispo
erudito. Quantas palestras litterarias, quantas contendas oraes
precederiam a publicao daquelles escriptos oppostos!

[32]  l'heure que je commence a dicter ce present escrit je suis en la
soixante sexieme anne de ma vie. Petitot f-lo nascido em 1426.
Falleceu no 1.^o de fevereiro de 1502, segundo se deprehende da sua
inscripo sepulchral, com 76 annos d'idade.

[33] D'aqui vinha por certo o titulo de _conde palatino_ de que usava
Vasco de Lucena, titulo que tanto tem feito scismar os nossos
antiquarios.

[34] Vejam-se as provas indisputaveis d'isto em Ribeiro, Observaes de
Diplomatica, pag. 79 e seg.

[35] Et cette opinion je tiens de plusieures notables gens portugalois
qui ont est de ma congnoissance.

[36] Pina, Chron. de D. Joo II, c. 15.

[37] Bulla: _Ut saluti_ 5 febr. 13.^o Sixti IV.

[38] Preafatae ecclesiae, a qua regiae dignitatis culmen accepisti,
cuique annuum censum debes: Ibid.

[39] Bulla: _Venerabilis frater_: 6 febr. 13.^o Sixti IV.

[40] Carta de D. Alvaro de Bragana escripta de Castella a D. Joo II.
(Ms. da Biblioth. R.)

[41] Talvez seja gente de mais. Mas deixe v.. passar; porque isto era j
estylo peninsular naquella epocha.

[42] Jorn. de Coimbra, 1813, Abril, p. 310.

[43] Memor. do R. Archivo, pag. 59.

[44] Chancell. d'Aff. II. (M. 12 de For. Ant. N.^o 3).

[45] Veja-se o alvar de D. Manuel, de 1502, no Liv. dos Privileg. de
Sancta Cruz fl. 2, o doc. de 1458 a fl. 157 do mesmo Liv., o do L. 5 da
Estremadura fl. 116 v. no Arch. Nac., etc.

[46] Chron. dos Coneg. Regr., L. 9, c. 29.

[47] Prodrom. ad refutat. Alcorani _passim_.

[48] Uber die Lnderverwaltung unter dem Khalifate (Berlim 1835)
Schaefer, Gesch. Span. 3 Th. S. 145.

[49] O _digno_ academico refere-se evidentemente  traduco de Moura;
porque nem o commum dos leitores, que elle convida para lerem esses
capitulos, entendem o arabe, nem o original tem capitulos, como se
deprehende do prologo de Moura, e se v das citaes do texto arabe
feitas pelo sr. Gayangos nas suas notas  verso inglesa de Al-Makkari.

[50] Nesta classe, como em todas, ha excepes respeitaveis: falo em
geral.

[51] Dominac. de los Arab., P. 3 in fine.

[52] Al-Khatib, Bibl. apud Casiri Bibl. Arab., T. 2, p. 216 e segg.

[53] Abu-l-Feda, Annales Moslemici, T. 3, p. 359.

[54] Al-Makkari (verso de Gayangos), Liv. 7 c. 5 e segg. L. 8 c. 1 e 2.
Veja-se tambem a taboa chronologica a p. 89 dos Append. do 2 vol., e os
extractos no livro _Kitabu-l-iktif_ (Append. C. ad fin.). O reinado de
Abu-Is'hk, sitiado em Marrocos pelos almohades, foi apenas nominal.

[55] Chron. Gothor. ad aer. 1125-1155.

[56] Chron. Conimbric, ad aer. 1155.

[57] Roder. Tolet. Histor. Arabum, cap. 49.

[58] Assaleh, verso de Moura, c. 43, 44, 45.

[59] Ibid. c. 40.

[60] Conde, P. 3, c. 33.

[61] Casiri, T. 2, p. 218, col. 2.

[62] Espaa Sagr., 21, 373.

[63] O nome mais geral nos auctores arabes  _Lamtuna_; mas Ibn-Khaldun
(Gayangos, vol. 1, p. 408 nota _a_) chama-lhe _Lamtah_ e Leo Africano
(Casiri, vol. 2, p. 219) _Lemta_.

[64] A pag. 22 do opusculo diz-se que escrever _emir_  erro do vulgo
dos traductores em vez de _amir_ (o caso  serio), e a pag. 11 diz-se
que em vez de _emir-el-muminin_ eu deveria escrever _emir el-muminina_.
Em que ficamos? Em _emir_ ou em _amir_? Quanto a _muminina_, Gayangos,
Casiri, etc. escrevem sempre _muminin_.

[65] Gayang. vers. d'Al-Makkari, Vol. 2, p. 386

[66] Abulfeda, Annal. Mosl., T. 2, p. 471.

[67] Verso francesa de Pellissier et Rmusat p. 192. Ibn-Khalddun
denomina frequentemente khalifas os imperadores almohades. (Gayangos,
Vol. 2, App. D.)

[68] Assaleh. c. 45. Neste capitulo fala-se muitas vezes no _califado_ e
no _califa_ Abdelmumen.

[69] No  s a chronica de Affonso VII que refere a queda de Aurelia:
os Annaes Toledanos referem-na igualmente.

[70] O Kartts (titulo da historia d'Abdel-halim),  propriamente,
segundo o testimunho de Haji-Khalfah, e conforme o que se l em diversos
exemplares da obra, escripto por Ibn-Abi-Zara, que viveu no seculo XIII.
Ab-del-halim parece ter sido um copista, ou talvez um abbreviador.
Veja-se a nota do sr. Gayangos ao L. 8, c. 2 de Al-Makkari.

[71] Assaleh--vers. de Moura, c. 40 p. 182.

[72] Chronica Adef. Imper. Praef. et  64.

[73] Sigo a paginao do opusculo, tirado  parte depois d'impresso na
_Revista de Ambos-Mundos_. Um exemplar delle que possuo, devo-o 
urbanidade e benevolencia do sr. Muoz, que teve a bondade de m'o
remetter.

[74] Em documentos do seculo XIII vemos ainda a designao de servos
applicada aos escravos mouros. N'um testamento de 1232 so legados ao
mosteiro d'Alcobaa _sarracenos et sarracenas servos et servas_. Doc. de
Alcobaa na Collec. Especial, Gav. 81 na Torre do Tombo.

[75] Hist. de Port., T. 3, p. 313 da 3.^a edic.

[76] Hist. de Port., T. 3.^o, p. 255 (nota 4) 274 &c.

[77] Esp. Sagr., T. 40, Append. 19.

[78] Doc. de Moreira na Torre do Tombo, Collec. Especial, G. 78.

[79] Por exemplo, o 1.^o bispo de Coimbra depois da restaurao,
Paterno, que, sendo bispo de Tortosa e vindo por embaixador dos
Beni-Huds de Saragoa a Fernando-magno, foi alliciado pelo alvasir
Sesnando para acceitar o episcopado de Coimbra, o que fez alguns annos
depois. _Qui suprafatus episcopus_ (diz o documento do Livro Preto da S
de Coimbra que refere o facto) _eo tempore Tortuosane Urbis sedem
tenebat, sed propter societatem paganorumofficium et ordinem suum minim
adimplere valebat_.

[80] N'uma doao de 1083  igreja de Vousla (Livro Preto f. 144)
mencionam-se entre outras alfaias _una casula tiraz et una dalmadiga
tiraz_. O _tiraz_ era um estofo precioso de fabrica sarracena, de que
usavam as pessoas principaes entre os mussulmanos, onde se liam bordadas
oraes do culto islamitico e sentenas de koran. Quando os sacerdotes
da igreja de Arcozelo  qual tinham pertencido aquelles paramentos, ou
os da de Vousla,  qual se doaram, celebrassem, revestidos com elles,
os officios divinos, os assistentes que no ignorassem a leitura do
arabe poderiam ir misturando as preces da igreja com as do islamismo, e
lendo as sentenas do koran, emquanto os celebrantes repetiam os textos
do evangelho.

[81] Gothorum ordinem... tam in ecclesia... quam in palatio... statuit:
Chron. Albeld  58.

[82] Martim Moniz (genro do conde Sesnando e seu successor no governo de
Coimbra) doa perpetuamente a Joo Gosendes os bens na villa de S.
Martinho _que ibi obtinuit Cidel Pelagis in autondo de consule domno
Sesnando_. (Livro Preto da S de Coimbra f...) Aqui _atondo_ significa
servio (_no servio do conde Sesnando_) ou retribuio por servio, mas
temporaria, por isso que os bens se doam depois hereditariamente a
outro.

Documento hoje publicado nos _Portugali Monumenta Historica, Diplomata
et Chart_, Pars. 1.^o N.^o 770.

[83] Pag. 7.

[84] Pag. 12 e 13.

[85] surda aure cum inimicis summi Dei amicitias conligamus, et
placentes eis nostrae fidei derogamus--Quotidie opprobriis et mille
contumeliorum fascibus obrupti, persecutionem nos dicimus non
habere--Christianos contra fidei suae socios, pro regis gratia et pro
vendibilibus muneribus et defensione gentilium praeliantes, non
maledicimus nec detestamus, sed religiosos pro vero Deo certantes
anathemate percutimus et infamamus--Nonne ipsi qui videbantur columnae,
qui putabantur ecclesiae petrae... nullo cogente... Dei martyres
infamaverunt? Nonne pastores Christi, doctores ecclesiae, episcopi,
abbates, presbyteres, proceres et magnates haereticos eos esse public
clamaverunt?--Dm enim circumcisionem ob improperantium ignominiam
devitandam... cum dolore etiam non medio corporis exercemus--Et dm
eorum versibus et fabellis mille suis delectamus, eisque inservire, vel
ipsis nequissimis obsecundare etiam premio emimus... ex inlicito
servitio et execrando ministerio abundantiores opes congregantes,
fulgores, odores, vestimentorumque, sive opum diversarum opulentiam, in
longa tempora nobis filiisque nostris atque nepotibus praevidentes,--ob
honores saeculi fratres cum crimine regibus impiis accusamus,.. inimicis
summi Dei ad occidendum gregem Domini gladium revelationis porrigimus,
ducatumque eorum et ministerium ad ipsum facinus exercendum pecuniis
emimus.--Nonne omnes juvenes christiani, vultu decori, linguae disserti,
habitu gestuque conspicui, gentilitia eruditione praeclari, arabico
eloquio sublimati, volumina chaldaeorum avidissim tractant,
intentissim legunt, ardentissim disserunt?--linguam suam nesciunt
christiani, et linguam propriam non advertunt latini, ita ut omni
Christi collegio vix inveniatur unus in milleno hominum numero, qui
salutatorias fratri possit rationabiliter dirigere litteras, et
reperitur absque numero multiplex turba qui erudit chaldaicas verborum
explicet pompas. _Alvar. Cordub. Indicul. Lumin. passim._

[86] ille dixit quomodo fuit suo avolo Ezerag de Condeixa, et quando
filarunt mauros Colimbria fuit ille Ezerag ad Farfon ibn Abdella et
fecit se mauro et petibit XXX.^a mauros de arragaza et metivit illos in
matos et dixit ad illos christianos de illas villas exite gente
benedicta quia jam pace filavi cum mauros et exibant de illos matos et
populabant illas villas et exiebant illos mauros de illos matos et
levarunt eos ad Sanctaren et venundabant eos et fecerunt in illos VI
haretas de argento et inderenzarunt illos ad Cordova cum carta de Farfon
et cum isto ganato, et petivit illos molinos de Forma et alias villas
multas et donavit illos. Almanzor: _Lib. Testamentor. f. 76 v._

[87] Na freguesia de S. Martinho, aldeia de Valloura, districto de
Aguiar de Pena, havia 3 casaes, cujos moradores, alm de outros onus,
tinham o seguinte: _et vadunt in mandatum ad Legionem, ut sciatur per
ipsos quid facit rex legionensis_: Inquiries de 1220: Liv. 5 de D.
Diniz f. 118 v.

[88] Pag. 19 e 20.

[89] Pag. 124 e 153.

[90] Pag. 12.

[91] La Russie, Lettre X.

[92] Pag. 15.

[93] Pag. 44 e segg.

[94] Hist. de Port., T. 4, pag. 336 e 482.

[95] Doao de Diogo Olidiz a Tructesindo Gutierriz da igreja de S.
Marina: damus ad vobis illa pro plagas et feridas malas que cemus
(_sic_) ad vestros malados, et non abuimus unde illas pectare: Doc.
original do mosteiro de Moreira de 1075 no Arch. Nacional.

[96] Liv. 1, Tit. 7, l. 2.

[97] Qui conductarium alienum occiderit dominus ejus accipiat inde
homicidium. Similiter de suo ortolano et de suo quartario et de suo
molendinario et de suo solarengo.

[98] Et homo de Nomam qui suos homines habuerit in suis hereditatibus,
aut sui vassali fuerint, et aliquis illum mactaverit, suus senior
colligat inde homicidium: For. de Numo de 1130.

[99] ...... peccato impediente battivimus vestro junior, nomine Froila,
cum alios meos galiasianes... et pervenit ipse Froila de ipsa badtedura
ad mortem, et pro ipso homicidium abui vobis ad dare in judicato quinque
boves, et pro ipsis quinque boves incommunio vobis pro medio &. Est. de
las Person., pag. 15.

[100] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 130 e seg.

[101] Hist. de Port., Vol. 3., Nota final XVI.

[102] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 126.

[103] Pag. 2.

[104] Liv. 5, tit. 4, l. 13.

[105] Liv. 2, tit. 4, l. 5.

[106] Pag. 160

[107] A confuso, na phrase, entre o colono e o predio, tomados um pelo
outro, confuso que sobretudo se deduz claramente das singulares
expresses _homem inteiro_, _meio homem_, etc. apparece ainda s vezes
nos nossos monumentos do seculo XIII. Nas Inquiries da terra de Faria,
feitas naquella epocha, l-se, por exemplo: S. Leocadia de Pedrafurada:
homines de ista collacione solebant pectare vocem et calumniam, sed modo
non pectant nisi quinque homines et medium qui dant annuatim singulas
gallinas, et _medius homo_ dat mediam gallinam: et ista casalia... dant
vocem et calumniam et singulas gallinas et duos, duos solidos, tribus
vicibus in pedida, sed _medium casale_ medium forum facit. Inquir.
d'Affons. III, L. 7, f. 14 v.




Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   21| a a que             | a que                |
  |#pg.   36| aggressses         | aggresses           |
  |#pg.   50| encarnada           | incarnada*           |
  |#pg.  106| esse inveno       | essa inveno        |
  |#pg.  137| instinctos          | intuitos*            |
  |#pg.  157| desprezados         | desprezadas*         |
  |#pg.  160| de                  | do*                  |
  |#pg.  171| as creana          | as creanas          |
  |#pg.  187| giria               | gira*                |
  |#pg.  191| pena                | penna*               |
  |#pg.  249| ?uccessores         | successores          |
  |#pg.  287| da                  | de*                  |
  |#pg.  288| prudente            | precedente*          |
  |#pg.  292| conpio            | condio*            |
  |          |                     |                      |
  |#nota   80| celebran            | celebrantes*         |
  +----------+---------------------+----------------------+

* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Aspas foram adicionadas nos locais onde deveriam existir: (#pg. 50:
delles. Para)

O nmero da nota de rodap #55 (#pg. 202) encontra-se omitido na obra,
tendo sido acrescentado neste e-book.

Variantes da palavra "mussulmano" foram mantidas de acordo com o
original.





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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