The Project Gutenberg EBook of Julio Diniz, by Alberto Pimentel

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Title: Julio Diniz
       Esboo Biographico

Author: Alberto Pimentel

Release Date: April 28, 2010 [EBook #32156]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                           ESBOO BIOGRAPHICO




                              JULIO DINIZ

                    (JOAQUIM GUILHERME GOMES COELHO)

                           ESBOO BIOGRAPHICO

                                  POR

                            ALBERTO PIMENTEL



                                 PORTO
                    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
                       RUA FERREIRA BORGES, 31

                                  1872






ESBOO BIOGRAPHICO

DE

JULIO DINIZ


I

Ao cmoro do athleta, que cahiu fulminado pela morte, no deixaro d'ir,
em piedosa romagem, com as flores da saudade, os que mais d'uma vez lhe
viram lampejar as armas impollutas ao sol da gloria litteraria.  um
dever e um desafogo esta visita ao tumulo d'uma realeza que se extinguiu
para os homens do seu tempo, mas que deixou aps si um rasto luminoso no
qual ha de reviver atravez das idades futuras. E tanto maior dever , e
tanto maior desafogo se afigura, quanto  certo que a litteratura
portugueza, que parecia preparada para longa vida depois da fecunda
revoluo do romantismo, est vendo rarear dia a dia as suas fileiras,
j porque a morte lh'as dizima, e j porque a politica lhe vem roubar
com mo sacrilega os mais denodados legionarios para lh'os amollentar na
vida regalada dos encargos parlamentares e diplomaticos.

Cada vez se vo multiplicando as perdas e as deseres, e todavia no se
enxerga ainda no oriente o primeiro alvor d'uma aurora de redempo, que
prometta trazer novos apostolos e novos soldados, novos elementos de
vida, n'uma palavra, para o futuro das lettras patrias. Vejamos se 
isto verdade ou se no passa d'uma assero gratuita.

Percorramos, ainda que com o corao cheio de magua e os olhos marejados
de lagrimas, os fastos da litteratura moderna. A cada passo, ao
folhearmos to triste necrologio, encontraremos uma pagina tarjada de
lucto a recordar um talento que se apagou. Para logo se nos deparam os
nomes illustres de Lopes de Mendona, de Soares de Passos, de Coelho
Lousada, de Faustino Xavier de Novaes, de Jos Freire de Serpa, de
Arnaldo Gama, de Rebello da Silva, de Gomes Coelho, e de quantos outros
que nos no lembram agora! As deseres so por igual numerosas, mas,
visto que escrevemos no Porto, contemol-as apenas _intra muros_ e
recordemos alguns litteratos que se secularisaram, Jos Gomes Monteiro,
Augusto Luso, Alexandre Braga, e muitos outros que se dariam j por
affrontados se rememorassemos a sua velha familiaridade com as musas. O
mesmo aconteceu com o snr. Alexandre Herculano que, segundo parece,
trocou definitivamente as lettras pela agricultura.

Este mesmo pensamento j o snr. visconde de Castilho o deixou apontado
na _Conversao preambular_ que abre o _D. Jayme_: Dos nossos poetas,
diz elle, que tantos e to viosos pullularam sempre ao bafo
benignissimo d'estes ares, quantos apontamos hoje em dia? Morreram uns;
envelheceram outros, que  peior maneira de morrer; outros
secularisaram-se para os negocios; outros desertaram para a politica;
no poucos succumbiram  epidemia da inercia, e jazem, sobreviventes a
si mesmos, sobre os seus proprios nomes, como estatuas sobre tumulos,
armadas mas inertes. Raros so pois os que, infatigaveis, se conservam
ainda abroquelados para os mais galhardos torneios do pensamento, como
que zombando da idade, que  enfermia e cobarde o mais das vezes.

O author das linhas que deixamos citadas, o snr. visconde de Castilho,
todo se enleva ainda no doce poetar da sua lyra, vasando no suavissimo
rhythmo da lingua portugueza as mais formosas obras primas da
litteratura extrangeira. No ha de certo em paiz nenhum mais abundante e
prestimosa velhice.

O snr. Castilho  mais do que um traductor;-- um nacionalisador.
Rir-se-ho da sua gloria os meticulosos, dizendo que  crime de
lesa-magestade o pr mo reformadora nos monumentos artisticos. Ser.
Mas o que , em verdade, muito para louvar e agradecer,  que um
litterato portuguez esteja dando  sua patria um Anachreonte que ella
no tinha, um Molire que lhe faltava, e um Goethe que lhe no dera Deus.

Camillo Castello Branco  realmente um escriptor incansavel, que tem
enfermado na faina das lettras, e que n'ella espera morrer, como
aquelles guerreiros legendarios, de que falla a historia nacional, que
s largavam da mo a espada, quando a morte lhes desnervava o brao.

Julio Cesar Machado sustenta, ha longos annos, as boas tradies do
folhetim portuguez com uma graa e uma delicadeza que fazem ainda suppr
que elle no completou siquer vinte e cinco annos.

O snr. D. Antonio da Costa tem sido, , e ser sempre o apostolo
convicto da suada obra do bem, o propagador nunca esmorecido d'essa
grande verdade chamada instruco nacional, que aos espiritos mais
levianos de Portugal se afigura ainda, e Deus sabe por que tempo se
afigurar, infelizmente, uma formosa utopia de ministro poeta.

Pinheiro Chagas  d'estes combatentes vlidos e corajosos, que nunca
desanimam nem fraquejam nas campanhas litterarias, posto que seja muito
para receiar que a politica, que j lhe franqueou as portas de S. Bento,
venha um dia a adormecel-o na indolencia dos seus braos perfidamente
voluptuosos.

Poder causar reparo que no citemos o nome do snr. Mendes Leal; mas s.
exc., envolvido em negocios diplomaticos presentemente, s de longe a
longe apparece na imprensa ou desobrigando-se de encargos academicos ou
modulando um carme fugitivo que mais saudades nos deixa da sua lyra
poderosa.

O snr. Manoel Roussado, hoje baro d'este nome, e que era alis um
folhetinista de muito espirito, sahiu de Portugal para exercer no
extrangeiro um consulado, quando o visconde Ponson du Terraiil lhe
comeou a disputar tenazmente o _rez de chausse_ do _Diario
Popular_. So portanto tres ou quatro os lidadores que esto em campo, e
que ahi recolhem os louros do triumpho, sempre que sahem a provar a fina
tempera de suas armas. Outros ha, como Joo de Deus, Anthero de Quental,
Pereira da Cunha, visconde de Benalcanfor (Ricardo Guimares), Teixeira
de Vasconcellos, que, talvez enojados d'esta alluvio de verses a
tosto o volume e de questiunculas de fanatismo religioso e politica
bichosa, raro do mostras de vitalidade litteraria.

Intencionalmente deixamos para o ultimo logar o snr. Theophilo Braga,
por se nos afigurar que, escrevendo a _Historia da Litteratura
Portugueza_, est traando o epitaphio das lettras patrias cuja nova
historia s uma outra renascena, proxima ou remota, poder reatar.
Procurando as causas etyologicas d'esta crise litteraria, no seremos
dos que s attribuem o mal aos romances abstrusos de Ponson du Terraill,
 influencia nociva da sua eschola _realista_, e s operetas
d'Offenbach, mas sim dos que lanam a culpa a esta epocha revolucionaria
e anormal que est collocando a Europa toda sobre a cratra d'um vulco
que tem j vomitado as primeiras lavas.

No queremos ser prophetas da historia e aventar em que periodo e sobre
que zona geographica rebentar primeiro a medonha erupo. Ha de vir,
infelizmente acreditamos que ha de vir, mas no sabemos quando. O que 
porm certo  que esta ebullio politica europea tem affectado
sobremodo as litteraturas. A Frana, que d'ha muito ia sempre na
vanguarda das sciencias e das artes, vae fluctuando como pde sobre o
sangue derramado pela guerra com o extrangeiro e pela communa, e Deus
sabe quando os seus negocios tero um caracter definitivo e seguro. O
theatro francez est to abatido como o theatro portuguez, onde se do
hoje as comedias hispanholas entrajadas  portugueza, por no haver
realmente d'onde se importar melhor litteratura dramatica. A novissima
gerao, que poderia ser garantia de rehabilitao, resente-se d'esta
incerteza geral e espaneja-se de genero em genero mais por se desfadigar
de tristeza e tedio do que para amontoar peculio para o futuro, que
ser de certo a revoluo, e que portanto lhe havia de queimar as obras
antes de lh'as lr.

N'estas circumstancias especiaes e gravissimas  sobremodo para lamentar
o que em qualquer tempo  sempre para sentir,--a perda d'um athleta que
denodadamente luctava contra a indifferena geral, fazendo-lhe rosto e
obrigando-a, apezar de sua pertinacia, a dobrar-lhe o joelho em sincera
adorao. Joaquim Guilherme Gomes Coelho era um d'estes raros e
poderosos luminares das lettras patrias, que, por no serem j muitos,
se tornam indispensaveis. So estes homens os que devem ter uma
biographia, porque a dos que nasceram para no deixar vestigios da sua
passagem na terra resume-se apenas nas poucas palavras inscriptas na
lousa que lhes demarca os sete palmos de terra.


II

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, filho de D. Anna Gomes Coelho e de Jos
Joaquim Gomes Coelho, nasceu no Porto aos 14 de novembro de 1839.

 dever nosso dizermos, remontando-nos  sua infancia, que frequentou
primeiras lettras com Antonio Ventura Lopes, em Miragaya, sendo que
n'estes inexperientes adejos de ave implume, que, saudosa do ninho
paterno, receia defrontar-se com a figura mais ou menos severa d'um
homem desconhecido, o professor, lhe serviu de estimulo e conforto a voz
carinhosa e authorisada de seu irmo, Jos Joaquim Gomes Coelho. E pois
que veio de geito escrever-se este nome, digamos de relance que era o de
um profundo e notavel talento, que ainda hoje  motivo de justissimo
orgulho para os fastos gloriosos da Academia Polytechnica do Porto, onde
Jos Joaquim Gomes Coelho frequentara distinctamente o curso
mathematico.

O snr. J. J. Rodrigues de Freitas Junior, no seu discurso pronunciado na
abertura das aulas da mesma Academia em 1 de outubro de 1867, alludindo
aos mais distinctos estudantes dos cursos preteritos, fez meno honrosa
do irmo de _Julio Diniz_ e, no contente com isso, consagrou-lhe em uma
nota explicativa estas saudosas palavras:


    Gomes Coelho nasceu a 7 de novembro de 1834 e morreu a 30 de
    dezembro de 1855, tendo completado, havia dous mezes, o curso de
    engenheria civil. Foi premiado em diversas aulas; e sel-o-ia
    n'outras, se no houvesse perdo de acto em dous annos da sua
    frequencia,

    O grande poeta Soares de Passos escreveu o seguinte epitaphio para a
    campa do infeliz e sympathico mancebo:

        Vinte annos? Ai! bem cedo arrebatado
        O guardaste no seio,  campa fria!
        Flor passageira, succumbiu ao fado,
        E seus perfumes exhalou n'um dia!

        Quanta illuso desfeita em seu transporte!
        Sonhou glorias, talvez! sonhou amores!
        Tudo, tudo aqui jaz! Carpi-lhe a sorte;
        Derramai-lhe na tumba algumas flores!


Era norma inalteravel das melhores educaes d'aquelles tempos
desenvencilhar a meada das declinaes latinas, depois de estudada a
grammatica nacional, theorica e praticamente. Gomes Coelho, como era de
rigor, tomou assento entre a numerosa fila dos discipulos do padre Jos
Henriques d'Oliveira Martins, conhecido latinista do Porto, j
fallecido, e ento muito em voga como professor particular. Como se no
affrontasse demasiadamente o seu lucido espirito com o estudo da
litteratura romana, comeou, ao mesmo tempo, a iniciar-se na lingua
franceza, ensinada pelo irmo com sensiveis progressos do discipulo e
verdadeiro orgulho do professor. Familiarisado com os idiomas que eram
ento exigidos como preparatorios para um curso superior, matriculou-se
em logica nas aulas da Graa, denominao que n'esse tempo se dava s
aulas publicas do Lyceu e da Academia, reunidas no mesmo edificio e
principiou simultaneamente a estudar inglez com o snr. Narciso Jos
de Moraes Junior, professor particular.

As difficuldades que ordinariamente embaraam a traduco dos classicos
inglezes, no lhe foram obstaculo a que sobremodo os ficasse estimando,
seno de preferencia, ao menos a par dos poetas latinos e francezes que
a esse tempo j versava.  para notar que, sendo Gomes Coelho incorrecto
na pronuncia do inglez, a ponto de desafinar os tranquillos nervos
britanicos que por ventura o surprehendessem em peccado de lesaprosodia
(como me diz pessoa de suas intimas relaes e muito entendida no
assumpto) vencesse por uma notavel intuio as mais intrincadas
subtilezas que, no s a esse tempo, mas em todo o decurso de sua vida,
lhe podia offerecer a leitura de Shakspeare, Milton e Byron, chegando
muitas vezes, especialmente em Shakspeare, a sobrepujar a traduco
franceza de Guizot.

Entre os quatorze e quinze annos, idade que ento contava, matriculou-se
na Academia Polytechnica nas aulas de chimica e primeiro anno de
mathematica, regida pelo lente Antonio Luiz Soares.

Data d'essa epocha a sua intimidade com o notabilissimo poeta portuense
Antonio Augusto Soares de Passos, e como o espirito de Gomes Coelho era
d'estes que nascem com o privilegio de assimilarem toda a casta de
conhecimentos, por mais heterogeneos que sejam, comeou a manifestar
certo enthusiasmo pela litteratura, enthusiasmo que a convivencia com o
cantor do _Firmamento_ foi desenvolvendo, dia a dia, insensivelmente. A
poesia sorria-lhe j no intimo da alma uns doces sorrisos de viso
feiticeira, mas to egoista se sentia elle de tamanha felicidade, que
no ousava metrificar os seus secretos colloquios com a fada da
inspirao. Egoismo ou modestia,--ambas as coisas talvez. O certo  que
o poeta no se tinha revelado ainda pelos versos, mas se adivinhava j
pelos arrbos.


III

De 1854 a 1855 frequentou Gomes Coelho as aulas de segundo anno de
mathematica e physica na Academia Polytechnica. Devemos notar que em
todas as disciplinas que cursara obtivera classificaes honrosas e
_accessits_, no recebendo premio um anno por ter sido tirado  sorte, o
que no exclue a distinco.

Fique d'uma vez para sempre esta advertencia.

No anno lectivo seguinte, em que frequentava botanica e zoologia,
succumbiram a dolorosos soffrimentos pulmonares, molestia hereditaria,
porque a me de Gomes Coelho era tuberculosa, os seus dois irmos Jos e
Guilherme. Alanceado com este duplo golpe o seu affectivo corao,
parece que s encontrara balsamo para to profundas feridas n'umas
tristezas poeticas curtidas na solido luctuosa do lar, tristezas que
so tambem suaves, porque nascem da saudade, ao mesmo tempo espinho que
fere e flr que embriaga.

Em 1856 entrou Joaquim Guilherme Gomes Coelho na Eschola
Medico-Cirurgica, desempenhando-se das suas obrigaes academicas,
durante todo o curso, com notavel distinco.

Tenho sobre a minha banca a dissertao inaugural que defendeu em 1861,
perante o corpo cathedratico da mesma Eschola. Intitula-se: da
_Importancia dos estudos meteorologicos para a medicina e especialmente
de suas applicaes ao ramo operatorio_. Como trabalho litterario, que
s assim, ainda que mal, o podemos avaliar, afigura-se-nos digno de
confrontar-se com os escriptos posteriores de Gomes Coelho. Sobre o
merecimento scientifico pronunciou o tribunal academico o seu
_veredictum_ sobremodo honroso para o alumno que exemplarmente encerrava
o curso escholar.

No foi isenta de soffrimentos physicos a sua vida d'estudante; de
enfermidades moraes j vimos que tambem no foi.

No segundo anno do curso medico teve uma hemoptyse ligeira, bolando
sangue em pequena quantidade. Apezar d'este triste prenuncio, e da morte
recente de seus dous irmos, no esmoreceu na assiduidade com que
desvelava as noites abancado diante dos compendios sobre os quaes mais
d'uma vez se espanejaria, borboleta inquieta, o genio invisivel da poesia.

Em 1860 appareceram versos seus, com o pseudonymo de _Julio Diniz_, na
_Grinalda_.

D'elles nos occuparemos mais adiante.

Graduado em medicina, restava-lhe exercer a clinica. No lh'o consentia
porm uma certa repugnancia natural, um certo pudor, digamos assim, que
purpureava a consciencia do medico, quando de si para si tinha de
accusar de impotente a sciencia que professava,  cabeceira d'um
moribundo, ao lado d'umas creancinhas loiras que iam ser orphs ou d'uma
mulher lacrimosa que ia ficar viuva.

E depois o seu genio avesso a quaesquer expanses, a sua natural
melancolia, suave mas meditativa, oppunham-se diametralmente aos
predicados que se lhe afiguravam indispensaveis ao medico clinico, visto
o que elle escrevia do Joo Semana, nas _Pupillas do senhor reitor_:
Esta bossa anedoctica  sempre de grande valor para o facultativo que
aspira  vida clinica. Uma historia contada a tempo, e com graa, vale
bem tres recipes, pelo menos.

Foi de 1861 a 1862 que, j livre dos trabalhos escholares, escrevera o
romance _Uma familia de inglezes_ durante os tranquillos ocios do seu
gabinete, d'onde poucas vezes sahia, com a repugnancia que deixamos
mencionada, para visitar um ou outro doente.

Em abril de 1863 poz-se a concurso o logar de demonstrador da seco
medica na Eschola do Porto. Gomes Coelho apresentou-se candidato, no
tanto por se julgar habilitado  concorrencia, em razo da extrema
desconfiana que tinha da sua mesma proficiencia, como para
renunciar d'uma vez para sempre  vida clinica com que no podia
transigir. No meio dos assiduos estudos que ento fizera veio assaltal-o
a doena, e Gomes Coelho, poucas horas depois de ter tirado ponto teve
de abandonar o concurso diante do caracter assustador com que se
apresentou a pneumo-hemorrhagia.

Ento, a instancias de seu pae, foi passar algum tempo, tres ou quatro
mezes, a Ovar, onde tinha parentes.

Depois de escrever o romance _Uma familia de inglezes_,--a sua estreia
litteraria,--compoz o formoso romancezinho _As apprehenses d'uma me_,
em 1862, o _O espolio do senhor Cypriano_.

_As Apprehenses d'uma me_ comearam a sahir em folhetim a 11 de maro
d'esse anno, no _Jornal do Porto_. A redaco d'este periodico agradeceu
o mimoso presente, que de mo desconhecida recebia, com estas amaveis
palavras:


    Damos hoje principio  publicao do mimoso romance--_As
    apprehenses d'uma me_--que delicadamente nos foi offertado pelo
    cavalheiro que se embua com o pseudonymo de Julio Diniz.

    Sobrio de phrases e palavras retumbantes e arrevezadas, despido
    mesmo de atavios e damices de linguagem,--_As apprehenses d'uma
    me_--, na singeleza do seu dizer, o daguerreotypo dos singelos
    costumes da provincia do Minho, da melhor perola do nosso Portugal.

    Calamos elogios ao merecimento do romance, para que se no infira
    que vai n'elles a paga da offerta.

    O nosso silencio poupa a modestia do author; e a publicao do
    romance, apenas encetada, prova o apreo em que o temos.

    Se estas palavras so elogios, que traduzem agradecimentos,
    receba-os o snr. Julio Diniz, em boa hora, para que nos abram a
    porta da desculpa, que pedimos, por havermos, contra vontade,
    demorado a publicao das--_Apprehenses d'uma me._


A 4 de novembro do mesmo anno sahiu, no _Jornal do Porto_, o primeiro
folhetim do _Espolio do senhor Cypriano_, com o pseudonymo de _Julio
Diniz_.

Cabe, pois, ao _Jornal do Porto_ a honra de ter sido a lente que
reflectiu os primeiros alvores do seu talento. N'aquelle acreditado
orgo da imprensa portugueza muitas aguias, como em ninho querido, teem
ensaiado foras para voar depois s regies do poder e s eminencias
litterarias. Basta que citemos como exemplos, ao correr da penna, os
nomes de Jos Luciano de Castro, Barjona de Freitas, Ramalho Ortigo,
Augusto Soromenho, D. Jos d'Almada, Teixeira de Vasconcellos e _Julio
Diniz_. Um grande escriptor, porm, alli comeou a manifestar o seu
gentilissimo espirito, sem se namorar dos triumphos em que outros
pozeram mira, e a que chegaram pelos seus proprios merecimentos, que o
_Jornal do Porto_, diga-se de passagem, tem sempre combatido pelos
direitos publicos na vanguarda do periodismo portuguez, sem hypothecar a
sua opinio a influencias pessoaes ou compadrios politicos. Permitta-se
ao mais obscuro redactor d'aquella folha este sincero preito de
considerao pelo nobre caracter do seu proprietario.

O escriptor a que nos referimos chamava-se Francisco de Paula Mendes, e
outra individualidade no conhecemos que mais relaes de similhana
tivesse com o romancista, cujo esboo biographico estamos traando.

Ambos herdaram de suas mes os germens da molestia a que succumbiram; em
ambos era igual a modestia; ambos honraram as columnas do _Jornal do
Porto_; ambos foram procurar  ilha da Madeira a saude que j no podiam
encontrar; e ambos, finalmente, deixaram lacunas quasi irremediaveis no
jornalismo e na litteratura.


IV

De 1862 a 1863 escreveu Gomes Coelho o romancezinho--_Novellos da tia
Philomella_, que principiou a ser publicado no _Jornal do Porto_ em 22
de janeiro d'este ultimo anno.

Foi em Ovar, onde o deixamos em patriarchal tranquillidade, que planisou
e traou os primeiros capitulos das _Pupillas do senhor reitor_. O seu
espirito, refocillado nos ocios d'uma convalescena despreoccupada,
comprazia-se nas variadas scenas com que a imaginao poderosa do poeta
anima um mundo phantastico que para si creou. Assim se explica a
espontaneidade com que no s encetou o romance _Pupillas do senhor
reitor_, mas com que tambem foi trabalhando simultaneamente n'esse
formoso esboceto--_Uma flor d'entre o gelo_--, cuja publicao comeou
no _Jornal do Porto_ em 21 de novembro de 1864, apparecendo pela
primeira vez o seu nome--Gomes Coelho.

Em maio de 1864 sahiram no mesmo jornal dois folhetins, creio eu, com o
titulo de _Cartas ao redactor do Jornal do Porto cerca de varias
coisas_, rubricadas com o pseudonymo de _Dianna de Avelleda_. Facil foi
reconhecer-se ento sob aquelle vo transparente a individualidade
litteraria de Gomes Coelho. Entrelembro-me que a maior parte de um
d'esses folhetins era consagrada  memoria de Rodrigo Paganino, talento
que, pela sua extrema delicadeza e o seu amor aos assumptos campesinos,
tinha estreita affinidade com o de _Julio Diniz_. Em agosto d'esse anno
publicou com o mesmo pseudonymo, e no mesmo jornal, alguns folhetins,
poucos foram, sob a epigraphe--_Impresses do campo, a Cecilia._

Em 1867 appareceram ainda com igual pseudonymo, no jornal litterario
_Mocidade_, umas _Cartas  vontade, a Cecilia_, devidas  penna sempre
modesta de Gomes Coelho.

As _Pupillas do senhor reitor_ no vieram completas, quando o author
regressou ao Porto, e a causa de s comearem a ser publicadas no
_Jornal do Porto_ em maio de 1866 foi de certo o ter de se preparar para
concorrer pela segunda vez em janeiro de 1864 ao logar de demonstrador
da seco medica da Eschola.

No anno seguinte, apresentou-se pela terceira vez candidato ao mesmo
logar, e n'esse mesmo anno foi despachado.

J que estamos fallando da sua carreira cathedratica, diremos que por
decreto de 27 de julho de 1867 fra promovido a lente substituto da
mesma seco, e que por decreto de 27 d'agosto do mesmo anno
recebera a nomeao de secretario e bibliothecario da mesma Eschola.

Em maio de 1866, como j dissemos, principiaram a sahir em folhetins as
_Pupillas do senhor reitor_, que em outubro do anno seguinte se
publicaram em livro. D'este romance, o primeiro volume que se brochou
offereceu-o _Julio Diniz_ a seu primo e amigo, o snr. Jos Joaquim Pinto
Coelho, como brinde natalicio, sendo esta uma das mais intimas festas de
familia a que no costumava faltar.

O romance _Pupillas do senhor reitor_ conta j tres edies successivas.

No _Jornal do Porto_, de 7 de fevereiro d'este anno (1872) appareceu a
seguinte noticia:


    JULIO DINIZ.--O rasto luminoso que o talento de Julio Diniz deixou
    na liiteratura portugueza no se apagar jmais.

    O dito d'Horacio no ,--ainda bem!--uma palavra v--_Non omnis
    moriar_. Julio Diniz comea a reviver na posteridade, e o _Diario de
    Noticias_ do dia 5 mais nos entalha na alma esta profunda convico
    com a seguinte noticia:

    Lord Stanley of Alderley est preparando a verso para inglez do
    lindo romance--_As Pupillas do senhor reitor_, de Julio Diniz.

    D-nos esta interessante noticia o _The Athenaeum_, jornal de
    litteratura que se publica em Londres, e do qual  correspondente em
    Lisboa o snr. Soromenho.


A 2 de maio de 1867, afoitado pelo successo d'este romance, encetou a
publicao da sua estreia litteraria--_Uma familia de inglezes_,--que no
anno seguinte sahiu  luz em volume com o titulo de _Uma familia
ingleza, Scenas da vida do Porto_.

Este livro j teve duas edies.

A _Morgadinha dos canaviaes_ foi escripta com extrema rapidez e comeou
a publicar-se no _Jornal do Porto_ a 14 d'abril de 1868, sendo
reimpressa em volume logo depois.

Em maro d'esse anno subiu  scena em Lisboa o drama que o snr. Ernesto
Biester extrahiu do romance _Pupillas do senhor reitor_. Gomes Coelho
foi a Lisboa, acompanhado pelo seu amigo o snr. Jos Augusto da
Silva, no proposito de assistir como simples e obscuro espectador 
estreia do drama. Estava elle no theatro da Trindade, pensando de certo
em gozar a modesta tranquillidade do incognito, quando o snr. Henrique
Nunes, distincto photographo portuguez, que o conhecia do Porto, o
denunciou como author das _Pupillas_. A noticia circulou com a rapidez
da electricidade, e para logo proromperam as plateias em enthusiastica
ovao, sendo Gomes Coelho victoriado pelo publico e cumprimentado por
alguns litteratos distinctos que estavam presentes.

O _Diario Popular_, de 24 de maro de 1868, escreveu mais
circumstanciadamente do assumpto, quando pela terceira vez se
representaram no theatro da Trindade as _Pupillas do senhor reitor_:


    O exito d'esta pea correspondeu ao muito que esperavam d'ella os
    que prezam as boas lettras e se occupam com interesse de novidades
    theatraes. E na realidade  to raro vr sobre a scena portugueza
    dramas puramente nacionaes, que no podemos deixar de applaudir a
    appario de uma comedia que pelo desenho dos costumes, pela
    contextura, e pela linguagem honra o magro repertorio dramatico do
    nosso paiz. Dividida em sete quadros, resume a comedia todas as
    principaes scenas e peripecias, que do vida ao romance com que o
    snr. Gomes Coelho enriqueceu a litteratura moderna, e cuja primeira
    edio foi esgotada em menos de um mez.

    Como os leitores sabem j, as _Pupillas do senhor reitor_ foram
    representadas no sabbado em beneficio da actriz Delfina. A mais
    escolhida sociedade occupava os camarotes, balces e plateias.

    El-rei D. Luiz, no querendo deixar de honrar com a sua presena a
    festa da distincta actriz, foi primeiro do que a nenhuma outra
    parte, provar a Delfina o muito apreo que liga ao seu talento.

    Desde o final do primeiro acto at que o pano baixou terminando o
    espectaculo, os applausos repetidos e enthusiasticos testemunharam o
    prazer com que era recebida a produco, que o snr. Biester com
    tanta habilidade desentranhou d'aquella chronica d'aldeia, que n'um
    s dia deu nome ao que a havia escripto. Na primeira representao o
    publico chamou no fim do terceiro quadro o snr. Biester, que veio 
    scena agradecer. Quando novamente foi chamado no fim do sexto
    quadro, sabendo j que o celebre author do romance, o snr.
    Gomes Coelho (Julio Diniz) se achava na plateia, veio ao palco o
    snr. Biester, pediu silencio, e disse pouco mais ou menos as
    seguintes palavras:

    Aquelle que realmente merece os vossos applausos est entre ns. Eu
    no fiz mais que apresentar debaixo da frma dramatica um dos mais
    notaveis livros que se tem publicado n'este paiz. A esse escriptor
    j coroado dos applausos publicos peo eu agora a honra de
    permittir-me que o apresente n'este logar ao publico que o deseja
    vr.

    A plateia levantou-se para applaudir o snr. Biester e o snr. Gomes
    Coelho, que se recusou a subir ao palco. Veio buscal-o  plateia o
    snr. Biester, e, mal appareceram ambos no palco, o enthusiasmo do
    publico chegou ao delirio. A todos commovia a modestia dos dois
    escriptores; um escondendo-se na plateia e furtando-se aos
    applausos, outro pretendendo que toda a gloria coubesse ao snr.
    Gomes Coelho.

    Os actores que ainda estavam em scena abraaram o snr. Gomes Coelho
    que profundamente commovido mal podia proferir uma palavra.


O correspondente de Lisboa dizia na sua carta para o _Jornal do Porto_
no mesmo dia e mez de maro de 1868:


    O Porto teve dois triumphos em Lisboa nos ultimos dias--o da opera
    _Arco de Sanct'Anna_, do snr. Noronha, e o das _Pupillas do senhor
    reitor_, do snr. Gomes Coelho (romance transformado em drama pelo
    snr. Biester.)

    Ambos estes filhos do Porto foram victoriados delirantemente, o
    primeiro no theatro de S. Carlos, e o segundo na Trindade.

    O drama agradou, e o desempenho foi bom por parte dos actores
    Taborda, Izidoro, Queiroz, Emilia Adelaide e Rosa: pelos outros
    apenas supportavel.


Quanto ao merecimento do drama, consignemos de passagem que no satisfez
a critica litteraria seno por ser um reflexo, ainda que pallido, do
romance de _Julio Diniz_.

Pinheiro Chagas revelava-o em folhetim do _Jornal do Commercio_, poucos
dias depois da primeira representao:


    A luz do proscenio,--escrevia elle--digamol-o emfim,  uma luz
    mentirosa; a perspectiva do theatro tem condies especiaes. Ponham
    os frescos de Raphael recortados nos bastidores, e eu lhes juro que
    no produzem metade do effeito de quatro borres espraiados na lona
    pelo snr. Procopio.


Em 6 de julho do mesmo anno, estando no Porto a companhia do theatro da
Trindade, pz em scena o drama _Pupillas do senhor reitor_. Copiemos
ainda do _Jornal do Porto_ o que no dia seguinte escrevia a tal
respeito:


     muito difficil adaptar bem  scena o entrecho d'um romance. Para
    que qualquer obra litteraria se considere absolutamente boa 
    preciso que os factos que n'ella se expressam, debaixo de nenhuma
    outra frma se manifestem melhor. Um bom drama feito com o mesmo
    assumpto que inspirou um romance, seria a condemnao d'este, e
    equivaleria a dizer o dramaturgo ao romancista: As tuas trabalhadas
    descripes e a esmerada pintura dos teus typos estavam de mais nas
    trezentas e sessenta paginas do teu livro: aqui tens os mesmos
    effeitos n'um s dialogo em tres actos.

    A razo de no ser mais perfeito o drama que vimos hontem consiste
    em ser muito bom o romance que lemos ha poucos mezes. A unica culpa
    de Ernesto Biester  Julio Diniz.


E mais abaixo:


    A sala estava inteiramente cheia. Pela manh j no apparecia um
    bilhete de plateia inferior. De tarde pedia-se libra e meia por um
    camarote de terceira ordem.


V

J seria occasio de estudarmos a _maneira_ do romancista. Todavia,
attendendo a que _Julio Diniz_ primeiro se revelou ao publico poeta que
romancista, corre-nos obrigao, por amor da chronologia, de primeiro o
avaliarmos, consoante nossa opinio, nos seus versos, que nas suas
novellas.

A pagina 40 do terceiro volume (1860) da _Grinalda_ apparece pela
primeira vez o pseudonymo _Julio Diniz_ rubricando uma poesia que se
intitula _A J..._ Quem fosse _Julio Diniz_ no se sabia ento; no o
sabia o mesmo redactor da _Grinalda_, Nogueira Lima, que recebera os
versos pelo correio.

Gomes Coelho, apesar de o conhecer pessoalmente, porque Nogueira Lima
era tambem amigo dos seus mais intimos amigos, os snrs. A. A. Soares de
Passos, Custodio Jos de Passos, Augusto Luso, Jos Augusto da Silva e
outros, no ousara, por excesso da sua peculiar modestia, impr-se
delicadamente como collaborador da _Grinalda_, procurando o redactor e
proprietario, e entregando-lhe os seus versos. No fizera assim.
Enviara-lh'os cautelosamente e, por mais d'uma vez, escutara em silencio
Nogueira Lima sobre o merecimento d'uma ou outra composio poetica 
medida que pelo correio as ia recebendo com a rubrica _Julio Diniz_.

A inicial que serve de epigraphe  poesia publicada em 1860 na
_Grinalda_ envolve de certo um segredo intimo do poeta, e por
conseguinte insondavel. Gomes Coelho morreu celibatario, viveu sempre na
solido amiga dos seus livros e, no obstante, em todos os seus versos,
em todos os seus romances, modelava o typo da mulher por um formoso
ideal de perfeies quasi divinas.

O que  certo  que na sua alma havia a tristeza temperada dos poetas
que, como Lamartine, nascem para cantar e soffrer. As paixes revoltas
de Byron e Espronceda no as conhecia elle. Era portanto o poeta da
solido, que vivia do seu ideal, longe do bulicio da sociedade, onde
outros iam afinando a lyra pela excitao febril dos sentidos.

 justo que transcrevamos na sua integra os versos de que vimos
fallando, no s por este destino mysterioso que elle lhes dava, como
por serem os primeiros que sahiram publicados com o seu habitual
pseudonymo:

                  A J...

    Acredita que os anjos tambem soffrem
        N'esta manso de dores,
    E no olhes o mundo lacrimoso,
    Quando o vires despido de fulgores.

    Mal sabe a rosa, ao vecejar lasciva
        Em plena primavera,
    Que  passageira a quadra, que apoz ella,
    Se despovoa o prado e a morte a espera.

    O terreno, que pizas n'esta vida,
        Occulta um precipicio;
    O caminho, onde ao fim vemos a gloria,
    Quantas vezes termina no supplicio!

    Eu j vi, junto a um tumulo isolado,
        Um grupo de crianas,
    Dando as mos e travando em cho de morte,
    Com risos infantis, alegres danas.

    Vi-os tambem sorrirem descuidados
        Se piedoso viandante
    Parava pensativo e, murmurando
    Uma humilde orao, passava adiante.

    Assim tambem sorris, se melancolico
        Eu penso no porvir,
    Quando uma sombra vem turbar-me a fronte,
    Tu, como elles, contemplas-me a sorrir.

    Mas olha, quer's saber a historia triste
        D'esses tres innocentes,
    Que, sobre as cinzas frias d'uma campa,
    Se entregavam a jogos complacentes?

     noite a me, beijando-os, estranhou-lhes
        Da face a pallidez,
    E um presagio sentiu ao alvor do dia...
    Eram frios cadaver's todos tres.

     que os ares do tumulo do morte
        Em afago homicida,
    N'esse ar infecto em que se extingue a chamma
    Tambem arqueja e expira a luz da vida.

    Teme pois tambem tu, candida virgem,
        O ar que aqui respiras,
    E no perguntes mais ao viandante,
    Que pensamentos d'amargor lhe inspiras.

Transparece d'estes versos,--seno os primeiros, uns dos primeiros de
_Julio Diniz_,--a luz pallida d'uma alma triste. Em todas as composies
posteriores, que litterariamente valem muito mais, especialmente as
ultimas, prevalecem as cadencias melancolicas, que fazem lembrar o
_Cahir das folhas_ de Millevoie e as _Azas brancas_ de Garrett.

No quinto numero do mesmo volume veem novas estrophes suas, que teem
estreita relao com as que acima deixamos transcriptas. Intitulam-se
_Apparencias_. _Julio Diniz_ extranha o teimoso sorriso nos labios da
pessoa a quem se dirige:

    Sempre o riso em teus labios! N'essa fronte
        Nem uma sombra apenas!
    Nem uma nuvem s, l no horizonte
    A ameaar-te com futuras penas?!

Presente-se uma alma de poeta em completo antagonismo com outra alma,
que ou nasceu fadada para estranhas alegrias ou, menos sincera, sabia
concentrar em si mesma o segredo das suas maguas.

    Quem sabe! Quantas vezes  mentida
        Dos labios a alegria?
    Quantas vezes no peito comprimida
    Nos devora latente uma agonia!

Ainda na colleco do mesmo anno vem uma terceira poesia de _Julio
Diniz_, cujo assumpto  estranho ao das duas precedentes. Todavia o
poeta, sempre delicado, compraz-se em cantar os primeiros
estremecimentos d'um corao de mulher, e intitula o seu canto--_O
despertar da virgem_.

No quarto volume (1862) da _Grinalda_ sahiram duas poesias de _Julio
Diniz_. Intitula-se a primeira--_A noiva_.  ainda o corao da mulher o
assumpto,--da mulher que est sentindo alternadamente os jubilos e os
sobresaltos do noivado. , podemos dizel-o, um estudo psychologico
escondido n'uma tradio da idade-media. A noiva est prompta, toucada,
anciosa...

    A noite passra em vela.
    E que noiva a dormiria?
    E, ao desmaiar das estrellas,
    Alvoroada se erguia
    E a alva flr da larangeira
    Ao vo de neve prendia.

Estas alegrias nupciaes no podiam deixar de ser anuveadas pela
inspirao melancolica do poeta. Passam-se as horas, e o noivo no
chega. Em compensao, vem a noticia de ter sido morto em combate. A
noiva succumbe

    E a alva flr da larangeira
    Com ella  campa descia.

A segunda poesia denomina-se _Thereza_, e na ideia tem alguma coisa
d'aquella suavidade dolorida dos versos de Soares de Passos. O ninho
querido onde o poeta modula os sens carmes  o corao da mulher.
_Thereza_  a historia d'uma creana pallida e triste, d'aquella
tristeza scismadora das almas fadadas para o soffrimento, que s tem
sorrisos nos labios no dia em que presente a morte...

    Era uma criana loira
    Quando a vi na sepultura;
    Da aucena tinha a alvura,
    Teve o seu curto durar.

    ...............................

Folheando o quinto volume da _Grinalda_ encontramos tres poesias de
_Julio Diniz_. A primeira  uma verso de Henri Heine, que de certo
Gomes Coelho escolheu pela delicadeza peculiar das legendas allems, que
a caracterisa. A segunda,--_No altar da patria_-- uma formosa
composio realmente, em que o corao da mulher lucta entre duas foras
igualmente poderosas,--o amor da patria e o amor de me.

    -- me, da-me uma espada.
    Ouo da patria a voz
    --Eil-a!  immaculada.
    Era a de teus avs.

    --Pura a trarei, voltando...
    Se no morrer alli.
    --Vai, disse a me, chorando,
    Eu rezarei por ti.

E trava-se o combate, e sibila a metralha, mas o soldado no volta.
 ainda,--e sempre,--a ideia da morte que inspira o poeta. A terceira
poesia, que tem por titulo--_A despedida da ama_--e  offerecida ao snr.
Jos Joaquim Pinto Coelho,  igualmente inspirada pelo corao feminino
em lucta com as praxes sociaes, com o despotismo da superioridade. So
lagrimas d'uma mulher que se deixou amar como se fra me uma criana
que no era seu filho.

    Puz,  volta do teu bero,
    Todo o amor, que um seio tem,
    E arrancam-te dos meus braos
    Porque eu no sou tua me?

De anno para anno so sensiveis os progressos do poeta. A frma
desenvolve-se, torna-se flexivel  inspirao, e o colorido vai ganhando
em mimo o que jmais  ideia faltou em sentimento.

_Os paes da noiva_, poesia publicada no sexto volume da _Grinalda_,
valem muito no s pela correco metrica, que  irreprehensivel, como
pelo thema, que  terno, mavioso, commovente. Tudo  festa em derredor
da noiva. S duas pessoas, os paes, teem lagrimas nos olhos. Quando a
rapariga parte sob uma chuva de flores, recolhem-se os dous velhos para
chorarem em segredo a sua profunda saudade. Est de lucto o lar; a
velhice saudosa  peior do que a morte. Seis dias volvidos  tristemente
verdadeiro o lucto. Os paes da noiva no poderam com o fardo de tamanhas
tristezas. Succumbiram ambos.

Do mesmo volume quizera poder transcrever na sua integra a poesia--_A
esmola da pobre_--que  uma delicadissima composio, em que duas
creanas, uma rica e outra pobre, soccorrem uma velha mendiga, a rica
dando-lhe esmola, a pobre beijando-lhe a mo...

No primeiro dos folhetins que em 1864 publicara no _Jornal do Porto_ sob
o titulo de _Impresses do campo_ veem estes formosos versos que so, a
meu vr, um modelo de naturalidade e singeleza:

      O BOM REITOR

    Sabem a historia triste
       Do bom reitor?
    Misero! toda a vida
       Levou com dor.

    Fez quanto bem podia...
       Mas... a final
    Morre e na pobre campa
       Nem um signal.

    Nem uma cruz ao menos
       Se ergue do cho!
    Geme-lhe s no tumulo
       A virao.

    Vedes, alem... na relva...
       Junto ao rosal
    Flores que ha desfolhado
       O vendaval?

    Cobrem-lhe a lousa humilde;
       A creao
    Paga-lhe assim a divida
       De compaixo.

    Pobres, que amava tanto,
       Nunca, ao passar,
    Choram, curvando a fronte
       Para rezar.

    Nunca, ao romper do dia,
       O lavrador
    Pra e lamenta a sorte
       Do bom reitor.

    As criancinhas nuas,
       Que estremeceu,
    J nem sequer se lembram
       Do nome seu.

    No salgueiral visinho,
       Ao pr do sol,
    Vai-lhe carpir saudades
       O rouxinol.

    Lagrimas... pobre campa!
       Ai, no as tem.
    S da manh o orvalho
       Rocial-a vem.

    Da solitaria lua
       A triste luz
    Grava-lhe em vagas sombras
       Estranha cruz.

    E elle repousa, dorme...
       Vive no co;
    Dorme, esquecido e humilde
       Como viveu.

    Ha n'esta vida amarga
       Sortes assim.
    Vive-se n'um martyrio,
       Morre-se emfim...

    Sem que memoria fique
       Para dizer
    s geraes que passam
       Nosso viver.

    Quem me escutar, se um dia
       Ao prado for,
    Ore pelo descanso
       Do bom reitor.

Quem sabe se a inspirao d'estes versos, que se nos afiguram escriptos
muito antes de serem publicados, foi ainda o germen de que desabrochou,
recendente ao perfume das serras e colorido com as tintas mimosas das
flores do campo, o romance _Pupillas do senhor reitor_? Cremos que sim.
O gro que o semeador deixa cahir na leiva  na primavera flor, no
outomno fructo, e no inverno riqueza.

Assim tambem a ideia, que o espirito recebeu um dia, pde florir manh,
fructificar depois, e opulentar para todo o sempre os celleiros onde se
apascenta a intelligencia humana. Toda a primavera foi boto, e o mesmo
sol, que ao meio-dia deslumbra, primeiro se mostrou diluclo...

No _Almanach das senhoras para 1871_ appareceu uma poesia de _Julio
Diniz_ epigraphada--_A folha solta do ulmeiro_--uma formosa
allegoria em que o corao da mulher, sedento de liberdade,  comparado
 folha do ulmeiro que, anciosa de desprender-se do tronco, voa um dia,
aps as borboletas, impellida pelo ar, at que, depositando-se na terra,
fica perdida no monturo...

    Virgens, gravae na memoria
    Este conto verdadeiro;
    Que pde ser vossa a historia
    Da folha solta do ulmeiro.

Outros versos escreveria _Julio Diniz_ de que no obtivemos noticia; e
alguns deixou elle ainda por corrigir, motivo por que no podem e no
devem ser publicados.

Alm d'estes, outros se encontram disseminados pelos seus romances, como
a lenda da _Cabreira_ e a _Trigueira_, nas _Pupillas do senhor reitor_;
o _Tabaco_ na _Familia ingleza_; e especialmente aquellas formosas
quadras da _Flor d'entre o gelo_, uma das quaes, em que o poeta
apostropha s andorinhas,

    S eu, que vos sigo com vistas saudosas
    Ao vosso desterro, dos mares alm,
    J quando ao prado brotarem as rosas,
    Talvez no reviva co'as rosas tambem,

parecia encerrar uma prophecia que infelizmente j se converteu em
realidade.


VI

Os padecimentos de Gomes Coelho aggravaram-se sobremodo desde 1868,
especialmente depois de escripto um pouco afadigosamente o romance
_Morgadinha dos canaviaes_.

Nem a ida a Lisboa, nem as distraces e passeios que os seus amigos
lhe proporcionavam, poderam suster o curso progressivo da doena,
accidentada no mez de setembro d'esse anno por uma dor nevralgica. A 20
d'outubro, dia em que se celebrava intimamente a festa natalicia do snr.
J. J. Pinto Coelho, assistiu, como tinha de costume, ao jantar de
familia, se bem que visivelmente incommodado. Os dias que se seguiram
foram para Gomes Coelho de verdadeira recluso. No mez de novembro
augmentaram os padecimentos, e a pneumo-hemorrhagia foi mais violenta do
que precedentemente havia sido.

Em janeiro do anno seguinte (1869) resolveu-se a ir passar uma temporada
a Lisboa, hospedando-se n'uma casa da rua Direita da Graa,  Cruz dos
quatro caminhos, onde se conservou cerca d'um mez.

A vida de Gomes Coelho na capital foi triste e concentrada, chegando a
passar dias inteiros sem fallar com outras pessoas alm das que estavam
de portas a dentro. Aconselhado pela medicina, cremos que pelo doutor
May Figueira, tomou a rapida resoluo de partir para a Madeira. Tirou
passagem no vapor d'Africa e sahiu o Tejo no dia 5 de fevereiro. A cento
e sessenta leguas do continente, n'essa pyramide de terreno vulcanico
que se estende de leste a oeste sobre o oceano occidental,--a
Madeira--como disse o desventuroso Arnaldo Gama,[1] devia de
encontrar Gomes Coelho a pittoresca realidade d'esse formoso quadro que
traara na _Flor d'entre o gelo_, d'essa collina elevando-se graciosa
do meio de uma amplissima e vicejante bacia, onde uma constante chusma
de invalidos ia pedir allivio  piedade da milagrosa _Senhora da Saude_
e  profunda sciencia do doutor Jacob Granada.


    A maior parte d'estas casas (as que alvejavam por entre a verdura da
    encosta)--dizia elle--era habitada por uma populao fluctuante de
    valetudinarios ou convalescentes que procuravam vigorar foras,
    respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas e dos
    bosques.

    Pela manh, quando as nvoas principiavam a dissipar-se e, por entre
    a folhagem das arvores, o sol penetrava mais fomentador de vida e ia
    evaporar o orvalho que ainda rociava as hervas dos caminhos, viam-se
    subir a collina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses
    pallidos doentes, que pareciam renascer s ao receberem aquellas
    auras embalsamadas pelos perfumes das flores, e suavisadas pelos
    primeiros calores da manh.

    Era o velho quebrantado e tremulo, parando a meio caminho da ladeira
    que subia, a fitar o co, como se d'antemo procurasse decifrar o
    problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e
    pensativo, de aspiraes ardentes e subidas e em to alto gro que
    no empenho de as realisar lhe falleceram as foras e no forte da
    lucta sentia-se succumbir; a virgem, meiga e melancolica, como uma
    das mais ideaes creaes ossianicas, errante por entre as arvores
    seculares ou pendida  borda das correntes, escondendo uma lagrima
    ou simulando um sorriso, manifestaes diversas na apparencia e
    ambas denunciadoras tantas vezes d'uma grande tristeza interior; a
    me joven e doente, em torno  qual brincava um bando de creanas
    alegres e cheias de vida, ignorando, os innocentes, que todo o seu
    destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam
    agora d'aquellas arvores, onde se balanceavam risonhas, d'aquellas
    viraes que lhes aoutavam os cabellos soltos e annelados.

    Assim pois o luctar da vida e da morte era o que por toda a parte se
    via. Contrastes de esperana e de desalento, antitheses de sorrisos
    e de lagrimas formavam a feio mais caracteristica do quadro.


Esta devia de ser a realidade do seu poetico ideal, ideal dizemos, se
bem que as almas privilegiadas pelo talento possuam a excepcional
intuio de lerem atravez do futuro os caracteres do seu mesmo destino...

Em maio d'esse anno, regressou Gomes Coelho da ilha da Madeira, posto
que bastante enfermo, relativamente muito melhor. Conservou-se no Porto,
tomando parte nos trabalhos escholares, e nos principios d'outubro
partiu para Lisboa, sahindo para a ilha no dia 15 do mesmo mez.
Regressou em maio do anno seguinte (1870) e nos primeiros dias d'outubro
tornou a embarcar para a Madeira, voltando  patria em maio de 1871.

Cumpre notar que em 1870 sahiram em volume, editados pela casa
Mor, e sob o titulo de _Seres da provincia_, os quatro
romancezinhos--_Apprehenses de uma me_,--_O espolio do senhor
Cypriano_,--_Os novellos da tia Philomella_, e--_Uma flor d'entre o
gelo_.

Durante as tres epochas que demorou na ilha foi que _Julio Diniz_
escreveu o seu ultimo romance--_Os fidalgos da casa mourisca_,--posto
que das duas ultimas alternasse os trabalhos de redaco com estudos de
economia politica. Em maio, como j dissemos, regressou ao Porto,
gravemente doente, atacado, alm dos seus padecimentos chronicos e
fataes, d'uma dor sciatica.

Ento devia j ter-se feito noite n'aquelle grande espirito, e a ideia
da morte havia de interpor-se, cada vez mais intensa e melancolica,
entre o presente e o futuro.

Declinava o sol; o occaso estava proximo.

Que dolorosos pungimentos de saudade lhe no havia de dar a cada momento
a memoria,--aquella vivaz e fiel memoria dos phtysicos,--ao recordar-se
dos tranquillos dias da sua mocidade, das suas excurses a Aveiro, a
Felgueiras, a Leiria, sempre rodeado d'amigos, sempre querido d'elles,
agora que, por uma barreira invencivel, se via, e para sempre,
distanciado d'um amigo que sinceramente o estimava,--o publico!


VII

Em Gomes Coelho to identificados andavam o homem e o litterato, que no
havia surprehendel-os na menor contradico. O mesmo  lr os seus
versos, os seus romances sobretudo, e descortinar para logo a limpidez,
a tranquillidade, a nobreza d'aquella alma. Os quadros que devemos  sua
penna so placidos, azues e luminosos, e estes serenos esplendores que
lhes davam animao partiam directamente, sem jmais atravessarem um
meio viciado, do foco intimo e puro,--do seu grande e nobilissimo espirito.

Eu folgo muitas vezes de, seguindo o rumo da critica moderna, estudar o
_eu_ subjectivo no homem material e nas suas mil relaes com a
sociedade.  um trabalho duplamente interessante, e to curioso estudo
em ninguem mais dar to promptos e satisfactorios resultados como
em Gomes Coelho.

Julio Cesar Machado, escrevendo ha pouco tempo ainda do popularissimo
doutor Thomaz de Carvalho, perguntava singela e intencionalmente:


    Conhecem o quarto? Gabinete de estudo, e museu de amador, tanto mais
    interessante que reflecte por alguma maneira o caracter, habitos,
    genero de predileces de quem o constituiu com o gosto e cuidado
    inseparaveis de sua indole. Ha alli muito da sua individualidade; 
    tudo d'elle e por elle alli; uma especie de transfigurao de sua
    pessoa; como que o sobretudo d'aquelle espirito multiplice e
    fecundo. Ao mesmo tempo, quarto modesto e reservado--como convem
    para o estudo, no tendo sequer a indiscrio de olhar para as ruas.


Ora eu lembro-me de ter em 1868 visitado Gomes Coelho na casa em que
ento morava no largo de S. Joo Novo. Entrei para o seu quarto,
modestamente mobilado, e pela elegante singeleza que reinava alli, pela
regularidade systematica, e pela graciosa disposio dos seus papeis e
dos seus livros recordava-se a gente subitamente dos romances de _Julio
Diniz_.

Devia de ser traioeiro aquelle quarto para os que no soubessem que o
mesmo homem absorvia as duas individualidades...

Corao d'ouro, affectuoso, impressionavel, caracter honesto, justo,
incapaz d'uma ligeira offensa, a si mesmo se daguerreotypa
involuntariamente nos seus romances, nos seus personagens admiraveis de
candura e pureza, porque em todos elles havia alguma coisa da sua alma.
Eu encarno-me nos meus personagens--dizia elle a alguem da sua
familia--antes de os desenhar. Supponho-me elles, fao-os pensar o que a
mim me parece que pensaria em tal caso, obrigo-os a dizer o que eu diria
por ventura em identidade de circumstancias.

Outros escriptores tero colorido mais vivo, mais pittoresco at; poucos
lograro vencel-o na observao escrupulosa, na moralidade dos quadros,
na doura dos assumptos, e finalmente no desenvolvimento dramatico da
aco, circumstancia importantissima, porque o romance 
simultaneamente narrao e drama, dialogo e descripo, como observou
Pelletan.

Realista, porque elle o era em litteratura, jamais se occupou em
reproduzir os quadros negros da sociedade, as paixes revoltas e baixas,
as enormidades do crime, os typos ridiculos ou hediondos.

Suppondo mesmo que o no sabiamos, facilmente conheceriamos que o
espirito de Gomes Coelho fra educado na leitura do romance inglez. Os
seus personagens, pelo menos em alguns dos seus livros, se no so to
humildes, se no professam officios mechanicos, como os de George
Elliot, so typos escolhidos na galeria rustica do campo.

As suas novellas so chronicas d'aldeia, como elle mesmo as denominava.
Nos _Fidalgos da casa mourisca_ est completamente photographada a
indole do romance moderno que os inglezes adjectivam de sociologico.
Qual  o fim d'este romance? Que problema se prope resolver? O
professor Buchner, da faculdade de lettras de Caen, escolheu ha pouco
tempo para assumpto d'uma conferencia interessantissima a nova direco
que a litteratura britanica tem dado ao romance depois de Dickens e
Thackeray, os heroes da satyra e do bom humor, como elle mesmo lhes
chama. No bastavam as zombarias humoristicas d'estes dois romancistas,
as suas verberaes violentas  burguezia e  nobreza para implantarem a
nova reforma social. Era preciso mais alguma cousa do que censurar o
mal;--era preciso apontal-o, sondal-o, e cauterisal-o. D'esta misso
humanitaria e prestimosa se encarregou o romance sociologico,
occupando-se primeiro que tudo da educao nacional, como fez Bulwer no
_Pelham_, e passando da familia, onde as creanas lhe merecem srias
attenes, a combater na sociedade os velhos preconceitos, os monopolios
escandalosos, as tradies classicas, antigas inimigas da verdadeira
liberdade. Tudo isso se presente nos primeiros romances de _Julio
Diniz_, nas _Pupillas do senhor reitor_, por exemplo, onde a medicina
moderna, representada em Daniel, tem de fazer rosto  velha sciencia
hyppocratica de Joo Semana, e tudo isso se manifesta claramente nos
_Fidalgos da casa mourisca_, onde a aristocracia, ciosa dos seus
pergaminhos, lucta e porfia com a nobreza do trabalho, onde a
civilisao antiga digladia com a sociedade moderna, n'um combate
proficuo  humanidade.

Os romances de _Julio Diniz_ resentem-se portanto da sua educao
litteraria e, a meu vr, compartilham das virtudes e dos defeitos do
romance sociologico inglez. Reflectidamente accusa o professor Buchner
os modernos romancistas da Inglaterra de descurarem um pouco a frma por
attenderem demasiadamente  materia; finalmente de uma exuberancia
extrema de pormenores, e at de personagens, exuberancia esta que por
mais d'uma vez abafa o centro de gravidade, o verdadeiro heroe do romance.

De resto no ha ahi litteratura mais doce, mais consoladora, mais
orvalhada de lagrimas refrigerantes para os que na lucta ficam vencidos,
e mais cheia de serenas alegrias para os que, vencedores, recolhem os
louros do triumpho.

Na esphera do _realismo_, visto esta palavra andar hoje em voga, Gomes
Coelho est no polo opposto ao dos irmos Goncourts, Zola, Gaboriau,
Feydeau, e muitos outros. Ns, entendendo _realismo_ do unico modo por
que pde admittil-o a consciencia e confessal-o a razo, julguemol-o s
observador consciencioso, reproductor discreto para nos servirmos das
palavras de Mendes Leal, e veneremos em Gomes Coelho, no _amavel
moralista_, como lhe chama o mesmo escriptor, essas qualidades que elle
possuia em grau eminentissimo.

No  nosso intento, nem o comportam as exiguas dimenses d'um esboo
biographico, fazermos uma critica especial sobre cada livro de _Julio
Diniz_. Propozemo-nos simplesmente estudar-lhe a _maneira_, fazer sentir
a sua individualidade exclusivista, e com isso nos contentamos.

Co limpido, atmosphera pura, montanhas vagamente esbatidas no
horizonte, campinas cobertas de flores e esmaltadas por aguas
scintillantes e suspirosas, a amenidade da aldeia n'uma palavra, a
natureza rude mas casta,--n'isto se resumia a _mise-en-scene_ dos
seus dramas. Os seus personagens no eram os pastores anachronicos de
Gessner ou Virgilio, os pegureiros ignorantes das alturas de Barroso.
Eram, como j deixamos vr, os coraes formosamente singelos, como as
flores d'entre as serras, o reitor, o herbanario, o camponez abastado, o
cirurgio, o fidalgo, e as mulheres cujos coraes desabrochavam para
florir na primavera perpetua do bem. A mulher! oh! essa nobilitava-a
elle sempre, modelando-a pelo seu ideal de formosura e bondade,
pondo-lhe no corao balsamos para todas as chagas, conforto e
ensinamento para todos os obcecados pela paixo infrene. Destacam-se
sobre um horizonte azul, como a vela branca na amplido das aguas
dormentes, os seus incomparaveis typos de mulher, ou estudemos a
Margarida das _Pupillas do senhor reitor_, ou a Jenny da _Familia
ingleza_, a Magdalena da _Morgadinha dos canaviaes_ e a Bertha dos
_Fidalgos da casa mourisca_. Sempre a mesma doura, a mesma bondade
intelligente, a mesma elevao, a mesma pureza de ideias e sentimentos!

Notaremos de passagem uma circumstancia muito para significar at onde
ia a magnanimidade de Gomes Coelho.

Aproveitando o typo do velho cirurgio, mais experiente do que
instruido, com maior peculio de anecdotas do que de conhecimentos
scientificos, dando-nos aquelle interessante e completo Joo Semana das
_Pupillas do senhor reitor_, no foi para fazer d'elle a caricatura do
proto-medicato, um personagem grotesco e risivel, seno para nos obrigar
a estimarmol-o e a respeitarmos a sciencia antiga apresentada n'um homem
de nobilissimo corao. O mesmo no aconteceu a Silva Gaio, escriptor
eminente  certo, mas critico incisivo e quasi sempre apaixonado,
mormente em assumptos historicos, que fez do Joo Marques, do _Mario_, a
caricatura cruelmente verdadeira do charlatanismo medico.

Os romances de _Julio Diniz_ foram profusamente apreciados pela
imprensa. Alm do seu valor real offereciam certa novidade para o
publico portuguez,--nacionalisavam o moderno romance britanico,
desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho
collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, aps elle,
muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto
romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era
mais um gravame pesado de que um galardo para a consciencia.

Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um seno apontado
pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta,
especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na _Gazeta litteraria
do Porto_--era que _Julio Diniz_ falseava a cada passo a linguagem dos
seus personagens, recrutados na populao dos campos, quando esta
linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural
aos ouvidos menos exigentes.

Pouco  o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciao,
assim exigida pela natureza d'um esboo biographico, concentramos as
nossas opinies, que por menos contrahidas, no se alterariam n'um
estudo de mais latas dimenses.


VIII

Em junho de 1871 annuiu Gomes Coelho a retirar-se com a familia de seu
primo, o snr. Jos Joaquim Pinto Coelho, para a rua do Costa Cabral, na
enganadora esperana, que alimentavam os seus, de que a proximidade
benefica dos campos seria obstaculo  marcha, cada vez mais accelerada
da molestia.

Levou comsigo alguns livros, especialmente inglezes, a cuja leitura se
entregava com interesse. No obstante os extremos carinhos da familia
que o rodeava, e a solicita assistencia dos seus intimos amigos, o
primeiro mez foi de continuo definhar, sendo-lhe j motivo
d'aborrecimento, muitas vezes, o rever as provas dos _Fidalgos da casa
mourisca_, que se estava imprimindo, apesar de auxiliado n'este trabalho
por seu primo, e podemos dizer enfermeiro, o snr. Pinto Coelho.

Assim foi declinando a vida de Gomes Coelho, at que  uma hora da
madrugada do dia 12 de setembro, tendo passado a noite com seu primo, e
o seu intimo amigo o snr. Custodio Jos de Passos, sem denunciar to
proximo desenlace, exhalou o derradeiro alento, depois d'uma longa
agonia de tres quartos d'hora.

O _Jornal do Porto_, que fra o primeiro a festejal-o, foi tambem a
primeira folha do paiz que divulgou a triste noticia do seu passamento,
n'estas sentidas palavras escriptas pelo meu amigo Sousa Viterbo, ento
colaborador effectivo do mesmo jornal:


    Aproximam-se as tristezas do outomno e s tristezas da natureza
    ajuntam-se as melancholias do corao.

    O paiz e as boas lettras acabam de perder um dos seus mais
    estimaveis talentos. Joaquim Guilherme Gomes Coelho expirou esta
    madrugada  uma hora.

    Mais que a nenhum outro jornal do paiz, ao _Jornal do Porto_
    cabe-lhe o dever de derramar uma lagrima de saudade sobre o tumulo
    do grande romancista. Foi nas columnas do nosso diario que o author
    das _Pupillas do senhor reitor_ principiou a sua brilhante carreira
    litteraria.

    Era com a maior avidez que os nossos leitores seguiam os folhetins
    do _Jornal do Porto_, quando esses folhetins publicavam as perolas
    da nossa litteratura, que se denominam--as _Pupillas do senhor
    reitor_, _Uma familia ingleza_, e a _Morgadinha dos canaviaes_.

    A Providencia no quiz conceder a Gomes Coelho mais um momento de
    vida para rever as ultimas provas do seu derradeiro romance--_Os
    fidalgos da casa mourisca_. Que saudades que no levaria elle do seu
    livro!

    Gomes Coelho no era smente romancista: era tambem um homem de
    sciencia. Tres vezes concorreu s cadeiras da Eschola-Medica e de
    tres vezes o seu talento robusto deixou um rasto fulgurante. Todos o
    reconheciam como uma das primeiras capacidades d'aquelle
    estabelecimento scientifico.

    Como Soares de Passos, de quem foi amigo, Gomes Coelho deixa uma
    lacuna difficil de preencher na nossa litteratura. A sua carreira
    litteraria estava por completar ainda. A sua imaginao estava ainda
    fresca como um dia de primavera. Que de flores que se no perderam;
    que de fructos esmagados sob a lousa d'um tumulo!

    Gomes Coelho deixou retratado o seu espirito nas paginas suaves,
    doces, innocentes dos seus romances. Era uma alma singela como as
    scenas que to delicadamente nos descrevia. Observador profundo,
    enamorava-se do que havia de bello na alma popular e deixava no
    escuro as miserias que ennegrecem a vida. Comprehendia que a
    litteratura tinha uma sacrosanta misso e nunca manchou a sua penna
    nas torpezas da comedia humana.

    Gomes Coelho ha muito que se debatia com as agonias da doena. O seu
    espirito de gigante debalde luctava com a debilidade do corpo. Os
    seus profundos estudos, a sua assiduidade no trabalho deviam-lhe
    minar forosamente a existencia. Debalde procurou na ilha da Madeira
    allivio aos seus padecimentos. Os amigos que o viram partir da
    ultima vez ficaram nutrindo a esperana de que os ares purificados
    da perola do oceano lhe dariam novo alento. A esperana foi
    illudida.

    Durante a sua estada na ilha da Madeira, Gomes Coelho conviveu com
    um talento privilegiado, a quem o _Jornal do Porto_ deveu tambem os
    thesouros opulentos da sua penna. Mais feliz que Francisco de Paula
    Mendes, Gomes Coelho veio morrer ao solo natal, entre os amigos que
    o queriam e a familia que tanto o estremecia.

    Entre os membros d'essa familia conta-se um confrade nosso (era o
    snr. J. J. Pinto Coelho, ento nosso redactor) que a estas horas
    verga ao pso d'uma dor excruciante. Enviamos ao confrade amigo e
    aos seus o testimunho da nossa profunda magua.


Na typographia estava-se compondo o segundo volume do seu romance,
quando a noticia da morte de Gomes Coelho corria de bocca em bocca,
despertando geral commoo. Mezes depois, em janeiro de 1872 sahiam a
lume os _Fidalgos da casa mourisca_. E todavia, quella hora em que a
triste nova circulava de praa em praa, de casa em casa, restava apenas
do grande talento de Gomes Coelho um cadaver preparado para o sepulchro,
ao sop d'um Christo alumiado pela luz arquejante dos cirios.

O _Jornal do Porto_, fazendo-se cargo de acompanhar  ultima morada os
despojos mortaes do escriptor cuja gloria primeiro prophetisara,
escrevia no dia seguinte:


    Baixou hontem  terra o cadaver do chorado e talentoso escriptor,
    cuja morte prematura noticiamos na nossa folha de tera-feira.

    Os responsos de sepultura foram rezados na velha Igreja de
    Cedofeita. Era grande o numero das pessoas que assistiram a este
    acto funebre: entre ellas o corpo docente da Eschola-Medica, de que
    o finado fazia parte, e alguns professores de outras corporaes
    scientificas e litterarias.

    Pegaram s azas do caixo seis dos antigos condiscipulos do snr.
    Gomes Coelho, a quem elle tinha na conta de seus mais caros amigos.
    Foram os snrs.: Ernesto Pinto d'Almeida, Augusto Luso da Silva,
    Eduardo Augusto Falco, Jos Augusto da Silva, Miguel Teixeira Pinto
    e Jos de Macedo Araujo Junior.

    A chave do caixo foi depositada nas mos d'um dos mais intimos do
    fallecido, o irmo do grande poeta que escreveu a _Viso do
    Resgate_. No rosto do snr. Custodio de Passos desenhava-se a dor do
    triste sacrificio que lhe impunha a amizade.

    Entrou no seio da natureza o corpo d'aquelle que to bem a tinha
    sabido representar nos seus quadros de poesia campestre. O seu
    espirito, porm, ficou encarnado nos seus livros e viver entre ns
    emquanto se souber prezar a belleza das grandes obras d'arte.

    O nome de Gomes Coelho no  d'estes nomes ephemeros que se gravam
    em lettras douradas no marmore d'um tumulo luxuoso.


Eu, profundamente impressionado pela morte de Gomes Coelho e obrigado
a sahir do Porto, por motivos extranhos  minha vontade, no dia
do seu enterro, fui dos primeiros a depr uma flr de saudade no
tumulo havia pouco cerrado, porque era realmente um dos seus mais
sinceros admiradores. Nas ultimas paginas do livro--_Esboos e
episodios_--escrevia eu emboscado n'umas paragens sombrias do concelho
de Sinfes:


    D'esta vez j c no encontrei as andorinhas. Sahi do Porto dias
    depois d'ellas partirem, e mais uma vez averiguei que sempre com
    ellas emigra para mais lucidas espheras a alma d'um poeta que
    succumbe  melancolia do outomno. Este anno as andorinhas e a alma
    de _Julio Diniz_ partiram ao mesmo tempo. Estava a natureza de
    lucto, e a litteratura tambem.

    Era um dia triste, pesado, chuvoso.

    As andorinhas poisaram em bando nas cornijas musgosas da igreja de
    Cedofeita. Estavam a discutir provavelmente a necessidade de
    emigrar, a combinar talvez a hora da partida.

    Michelet no seu formoso livro denominado--_L'Oiseau_--cita um
    exemplo eloquente d'estas discusses animadas das andorinhas
    momentos antes da partida. As pobrezinhas sacudam, tremendo, os
    pingos d'agua que lhes emperlavam as pennas. Estavam amedrontadas da
    neblina. Deviam partir. De repente reboam os echos do campanario com
    uma toada lugubre. Era a voz do sino que annunciava o passamento de
    Gomes Coelho. No pensaram mais um momento, no reflectiram
    siquer.[2]

    Partiram em direco ao mar, atravessando os campos.


Pobre scismador, que sentia dentro do craneo a chamma dos predestinados
para a gloria e no peito a urna embalsamada d'um corao sem macula, com
que inexplicavel melancolia, e porque longas horas de dilacerante
angustia, no veria elle destacarem-se, nos campos visinhos, sobre o co
pardacento do outomno, os troncos das arvores cada vez mais despidos e
solitarios! Era aquelle um sentir-se resvalar para o tumulo, dia a dia,
um despedir-se lentamente das suas affeies, dos seus romances que
resumiam horas de enlevo e melancolia, e do seu ultimo livro,
especialmente do seu ultimo livro, folha, que, ao voar do recinto da
familia para a officina typographica, fra talvez rociada pelas lagrimas
furtivas d'um presentimento pungente.

Era que tinha de ser a ultima d'uma primavera que, em pleno esplendor de
suas galas, via enovelar-se ao longe, avanando sempre, a nuvem negra do
simoun que levaria aps si folhas e flores para abysmar umas e outras
nos despenhadeiros do sepulchro.

E a nuvem aproximou-se, e o simoun passou, e tudo o que estava ainda
enthesourado nos cofres opulentos da primavera perdeu-se, mas a folha
verde dos intimos vergeis tinha j voado, nas brisas suavissimas da
gloria, a enastrar-se n'uma cora entretecida por outras, suas irms,
porque da mesma seiva se nutriram, e que pairava a uma altura superior
s impetuosas correntes que impellem o homem desde a vida inconsciente
do bero at aos abysmos insondaveis da eternidade.

De Gomes Coelho s morrera o homem; o escriptor ficara.


FIM


    [1] _A Caldeira de Pero Botelho_, romance, pag. 200.

    [2] N'esta ruim profisso das lettras, to escassa de rendosos
    benesses,  licito orgulhar-se a gente de certos galardes
    espontaneos que lhe do  alma um momento de conforto. Por tal razo
    se transcrevem as palavras que nos enviava o snr. D. Antonio da
    Costa com relao ao artigo transcripto:

    Mando-lhe um abrao pelo sentido artigo biographico que escreveu a
    respeito do pobre _Juio Diniz_. Li-o, e muito gostei d'elle.





End of the Project Gutenberg EBook of Julio Diniz, by Alberto Pimentel

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opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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