The Project Gutenberg EBook of Historia de um beijo, by Enrique Prez Escrich

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Title: Historia de um beijo

Author: Enrique Prez Escrich

Translator: A. J. Lione Soutelo

Release Date: June 13, 2010 [EBook #32793]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Pedro Saborano





                                XLVII
                               Coleco
                            Horas de Leitura

                          Enrique Perez Escrich

                                HISTORIA

                                  DE UM

                                  BEIJO

                                2. Edio

                                   1912
                         GUIMARES & C.--Editores
                68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70
                                  LISBOA





Historia de um Beijo




COMPOSTO E IMPRESSO NA IMPRENSA DE MANUEL LUCAS TORRES RUA DIARIO DE
NOTICIAS, 93




Coleco Horas de Leitura

_Obras publicadas, a 200 ris o volume_

1 a 4--*Ivanho*, de W. Scott, (2. edio) 800

5--*O frade negro*, por Clemencia Robert, (2. edio) 200

6 e 7--*As Semi-Virgens*, de Marcello Prvost, (3. edio illustrada) 400

8--*Werther*, de Goethe, (3. edio illustrada) 400

9--*Madame Flirt*, de Jaques Yvel, (2. edio) 200

10 a 12--*A Taberna*, de Zola, (2. edio) 600

13--*O Vigario de Wakefield*, de Goldsmith, (2. edio) 200

14--*A vida aos vinte annos*, de Dumas, filho, (2. edio) 200

15--*A agua profunda*, de Bourget, (2. edio) 200

16--*O domin amarello*, de Marcello Prvost, (2. edio) 200

17--*Cortez*, de A Belot, (2. edio) 200

18--*O Rosquedo*, de Delfim Guimares, (2. edio) 200

19--*Os Vagabundos*, de Maximo Gorki, (3. edio) 200

20--*A escravido moderna*, de Tolstoi, (2. edio) 200

21--*Os degenerados*, de Maximo Gorki, (3. edio) 200

22--*A Dama das camelias*, de Dumas, filho, (3. edio illustrada) 200

23--*As Virgens*, de G. d'Annunzio, (2. edio) 200

24--*Na priso*, de Maximo Gorki, (2. edio) 200

25 e 26--*A Dama das perolas*, de Dumas, filho, 400

27--*Varenka Olessova*, de Maximo Gorki, 200

28--*O jardim dos suplicios*, de Octavio Mirbeau, (2. edio) 200

29--*Saudades*, (Menina e Moa) de Bernardim Ribeiro, (2. edio) 200

30--*Na Esteppa*, de Maximo Gorki, 200

31--*Nami-ko*, Tokatomi, 200

32--*Um conchego de Solteiro*, Balzac, (2. edio) 200

33--*Sapho*, de Daudet, (a sahir 2. edio)

34--*Um comeo de vida*, de Balzac, 200

35 e 36--*O Paraiso das Damas*, de Zola, (esgotado)

37--*Amor e liberdade*, de Tolstoi, (esgotado)

38--*Casamento de Amor*, de Theuriet, (esgotado)

39 e 40--*Illuses perdidas*, de Balzac, 400

41 e 42--*Esplendores e miserias das cortezs*, de Balzac, 400

43--*A ultima incarnao de Vautrin*, de Balzac, 200

44--*Mater dolorosa*, de Ernesto Daudet, 200

45--*O Immortal*, de Affonso Daudet, 200

46--*Ares do Minho*, de Delfim Guimares, 200

47--*Historia d'um beijo*, de E. Perez Escrich, 200

48--*O intruso*, de Gabriel d'Annunzio, (esgotado)

49--*A mulher de 30 annos*, de Balzac, 200

50 e 51--*Germinal*, de Zola, 400

52--*O crime de Silvestre Bonnard*, de Anatolio France, 200

53--*Miseraveis*, (Caas y barro) de Blasco Ibaez, 200

54--*O Abade Constantino*, de L. Halvy, 200

55--*O Dr. Rameau*, de Jorge Ohnet, 200

56--*Agua corrente*, de Severo Portella, 200

57--*O luxo dos outros*, de Bourget, 200

58--*O tio Goriot*, de Balzac, 200

59 e 60--*A derrocada*, de Zola, 400

61--*O canto do Cysne*, de Tolstoi, 200

62--*Contos*, de G. de Maupassant, 200

63 e 64--*Nn*, de Zola, 400

65--*A Sonata de Kreutzer*, de Tolstoi, 200

66--*O Padre Maldito*, de Silva Pinto, 200

67--*Paulo e Virginia*, de Sain-Pierre, 200

68 e 69--*O Dinheiro*, de Zola, 400

70--*Confisso d'um Amante*, de Prvost, 200

71--*A sepultura de ferro*, de H. Conscience, 200

72--*A musa do departamento*, de Balzac, 200

73 e 74--*A Obra*, de Zola, 400

75--*Genoveva*, de A. de Lamartine, 200

76--*Um filho do povo*, de Escrich, 200

77 e 78--*O crime do padre Mouret*, de Zola, 400

79--*Casamentos fidalgos*, de Feuillet, 200

80--*Amor tragico*, de A. Hermant, 200

81--*A Religiosa*, de Diderot, 200

82 a 84--*Ana Karenine*, de Tolstoi, 600





COLECO HORAS DE LEITURA

Enrique Perez Escrich

Historia de um Beijo

TRADUCO DE

A. J. LIONE SOUTELLO

2. Edio



1912

GUIMARES & C.--Editores

68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70

LISBOA




CAPITULO I

Uma chavena de caf

    Um beijo  muitas vezes a esmola que faz uma mulher a uns labios
    lisonjeiros; outras um pedao d'alma que se escapa pela bcca. No
    primeiro caso o homem  a victima, no segundo  a mulher.


Existem na terra creaturas to bem organisadas, coraes to generosos,
que no necessitam ser correspondidas para amar com toda a sua alma,
para terem gravada em seu corao uma imagem querida.

Estes entes soffrem com o rosto sereno e choram com o sorriso nos
labios, porque se chora de dois modos: umas vezes deixando correr as
lagrimas, outras recolhendo-se ao corao a queimarem essa bella flr da
juventude chamada a esperana.

A vida n'estes casos  um desejo infinito que se afoga em pranto porque
se v a felicidade que se deseja rodeada de uma muralha cheia de
impossiveis. Se pudesse conquistar-se a tiro, conhecer-se-hiam os nomes
de muitos heroes ignorados.

A incerteza, essa anciedade da alma que tem o poder de reduzir e
prolongar o tempo segundo o seu capricho, faz-se sempre sujeita 
poderosa magia de uma syllaba. Um _sim_, resoa docemente no ouvido do
namorado e tem a encantadora poesia do mez de Maio com os seus perfumes,
as suas flres, e o harmonioso canto das aves; um _no_, tem a aridez do
deserto, a melancholia da desgraa, a solido da morte.

Vou, pois, contar-lhes uma historia sentida, um gemido do corao.

Vou dar-lhes a conhecer a protogonista do meu livro e supplico-lhes o
perdo para a fraqueza da sua alma: o coquettismo.

Chama-se Amparo, nome cujas seis letras encerram uma promessa de amor
nunca realisada.

Procurarei pintar com as cres da verdade o seu rosto, formoso como um
sonho da adolescencia; a sua fronte radiante como a luz do sol quando
apparece, ao romper do dia, do fundo do mar; os seus olhos claros e
expressivos atravs dos quaes se lem todas as impresses da sua alma,
sensivel como as harpas das filhas de Sio que vibram ao menor sopro do
zephiro.

Se os impressionam as scenas terriveis, as grandes catastrophes, as
situaes inverosimeis, fechem o meu livro, porque em suas paginas s
acharo a historia de um corao que se partiu em pedaos.

..........................................................................

Ernesto foi para Roma, pensionista do governo hespanhol. Era um rapaz de
25 annos, cheio de vida, de illuses, um genio; muitas vezes nos seus
sonhos de pintor julgava egualar-se a Velasquez, Murillo e todos esses
grandes homens que brilham em primeiro logar na historia da pintura
hespanhola.

Vivia n'uma pequena casa nas immediaes da Cidade Eterna, a Deusa da
arte; pensando na gloria, trabalhando sempre, porque Ernesto era um
sonhador infatigavel, o mundo para elle resumia-se nos seus quadros, nos
seus pinceis, na sua paleta.

Nunca amara seno sua me, que j tinha morrido, e a gloria, que
desejava alcanar.

Corao impressionavel, mas adormecido, as mulheres eram para elle como
flres formosas de um jardim.

N'uma palavra, Ernesto ainda no tinha encontrado o seu bello ideal, o
perfume da sua alma.

A mulher formosa, para elle, s era uma bella obra onde o grande
artista, que se chama a natureza, derramara os seus mais preciosos
dotes.

Vejam, pois, como a casualidade lhe proporcionou o meio de pagar de um
modo terrivel o tributo das almas sensiveis, que  o amor.

Como dissmos, Ernesto habitava uma casinha nas proximidades de Roma.

O _atelier_, situado na parte que dava para o jardim, recebia a luz de
duas grandes janellas por onde entravam os caprichos e interessantes
braos de algumas trepadeiras.

Era uma tarde do mez de Maio. Ernesto estava retocando uma figura quando
veiu o creado dizer-lhe que um cavalheiro e uma senhora desejavam
falar-lhe.

--So hespanhoes, disse o criado, e parece-me que o conhecem.

--Hespanhoes? exclamou Ernesto, largando a paleta. Que entrem
immediatamente!

Ernesto dirigiu-se para a porta seguindo o creado, quando ouviu uma voz
que lhe no era desconhecida, dizendo:

--Onde est este mau hespanhol, que  preciso vir a Roma,  Via Appia
para lhe dar um abrao?

--Oh!  o sr. D. Ventura! exclamou o pintor, vendo entrar um sujeito
d'uns 50 annos, dando o brao a uma menina to formosa como elegante.

--Sim, sou eu, querido pintor, sou eu, o D. Ventura do caf Suisso, o
amigo dos artistas, o enthusiasta pela divina arte de Apollo; eu que,
apezar do meu enthusiasmo pela pintura, nunca soube collocar n'um rosto
o nariz no seu verdadeiro lagar. Mas, senta-te, querida Amparo,
senta-te; os homens do talento so sem-cerimonia como aldeos, e francos
como a verdade--e apoz pequena pausa, continuou:

--Comearei por pedir-lhe duas chavenas de caf.

Ernesto deu ao creado as ordens necessarias.

A joven, que se sentara n'uma cadeira d'onde distrahidamente contemplava
os quadros do _atelier_, dispensou um sorriso de cumprimento ao pintor,
deixando vr uns dentes pequenos como os de uma creana, e brancos como
o miolo do coco.

Tudo o que  bello attrae irresistivelmente os homens de talento.

Ernesto fitou a joven.

Amparo teria 20 annos. O seu rosto de uma graa attrahente, provocadora,
via-se quasi animado por um d'esses sorrisos em que ficamos em duvida se
so a manifestao do coquettismo ou a ternura da alma.

Os seus labios bastante vermelhos e humidos pelo constante roar dos
dentes, ficavam s vezes entreabertos como se fossem a exhalar um
suspiro ou a receber um beijo.

Os seus olhos eram grandes e negros como amoras maduras; mas to
movimentados, to inquietos, to cheios de vida, to promptos em
manifestar as impresses da alma, que to depressa se viam enlanguescer
com a sombra embriagadora de um amor platonico, como brilhar com todo o
fogo da paixo que conduziu Ovidio a um calabouo e Sapho  morte.

Ernesto estudava dissimuladamente aquella joven que to profunda
sensao causava na sua alma, virgem das terriveis tempestades do amor;
e, cousa rara, o seu genio de artista, to depressa encontrava em Amparo
a belleza sensual e provocadora das mulheres de Rubens, como o pudor
candido das virgens de Murillo.

Emquanto a D. Ventura s diremos que era um homem de 50 annos, calvo,
com os poucos cabellos que possuia j grisalhos, um rosto cheio de saude
e alegria; n'uma palavra, uma d'estas physionomias que sorriem sempre,
at quando choram; o typo, emfim do honrado commerciante que conseguiu,
depois de muitos annos de trabalho, reunir um peculio que o livra de
necessidades na velhice.

Amparo era filha unica; fra educada n'um dos melhores collegios de
Madrid, e possuia um dote de quatro milhes de pesetas para quando
achasse quem a merecesse.

D. Ventura era feliz, revendo-se na filha, nova, formosa, vivaz e
alegre; tocava piano com bastante correco, cantava regularmente e
pintava quasi com tanta perfeio como o divino Raphael.

Amparo era, por assim dizer, rainha absoluta, e seu pae um ministro
bastante condescendente.

A mulher nova e livre, quando a riqueza lhe permitte emprehender viagens
de recreio durante a estao calmosa, precisa de alguma cousa mais do
que mudar de paiz para distrahir-se; a viagem torna-se fastidiosa se a
alma no toma parte e o coquettismo no esgrime as suas armas, to
deliciosas como traidoras, para matar o tempo.

Fazer uma conquista sem graves compromissos, sem funestos resultados,
n'um commodo _wagon-lit_; trocar olhares expressivos com qualquer
mancebo pela praia de Biarritz ou no cume das montanhas da Suissa, tem
tantos attractivos para as jovens viajantes!...  to agradavel ao
corao de uma mulher encontrar a duzentas leguas da patria um patricio
que se torne seu escravo, que esteja disposto a salval-a, a defendel-a e
juncar-lhe de flres a terra que pisa, que no pde resistir  tentao
de pr em jogo todas as suas seduces.

Demais, a mulher tem a facilidade de comprehender a impresso que causa
e sabe aproveitar-se d'ella. Quando volta o inverno, quando as primeiras
nuvens do outomno as obriga a recolher aos seus lares, esses ternos
bandos de aves emigradoras, com saias de _piquet_, chapu de palha e
botas brancas, recordam-se ento j ao calor do fogo, de todas as
loucuras, de todas as innocentes concesses feitas ao ar livre e
poetisadas pelo vento da montanha ou pela brisa do mar; e como no ha
mulher que no saiba calcular, como o melhor mathematico, pensa se deve
acabar ou continuar com os amores do vero.

Amparo, pois, encontrou casualmente Ernesto em Roma. Tinha ouvido dizer
que possuia talento; agradaram-lhe alguns quadros que viu no _atelier_,
e no lhe parecendo m a figura do pintor, dirigiu-lhe alguns olhares e
sorrisos, d'esses que no corao de um homem sincero e apaixonado causam
uma terrivel tempestade.

No pensava a joven que aquelle coquettismo era condemnado pelo
bom-senso. Empregou-o com a mais santa inteno, apezar de comear a
sentir-se aborrecida em Roma, onde andava s com seu pae por toda a
parte. Ernesto, ento, foi olhado, como um recurso, como uma distraco.

Quando Amparo sahiu de casa do pintor, ia convicta de que o tinha
captivado.

--Pensar em mim, disse ella, vir vr-me, falaremos de pintura, de
musica e d'esta frma aborrecer-me-hei menos.

Amparo ignorava ainda as terriveis consequencias que os seus olhares e
sorriso deviam exercer na alma do artista. Se o soubesse,
indubitavelmente se teria abstido, porque o seu corao era bom,
generoso e to impressionavel, que se commovia ante a mais ligeira
contrariedade, como a folha do trmulo alamo ante o mais ligeiro sopro
do zephiro.




CAPITULO II

Uma noite no Colyseu


Quando Ernesto ficou s, em vez de pegar na paleta e nos pinceis
approximou-se da janella e ficou pensando na joven hespanhola que
acabava de sahir.

Depois de uma hora de meditao, retirou-se da janella, dizendo para
comsigo:

--Se me encommendassem um quadro onde figurasse alguma das tres
encantadoras filhas de Jupiter e de Eurinome pediria a Amparo para me
servir de modelo.

E, tomado de uma subita inspirao, pegou na paleta e nos pinceis e
comeou a pintar, n'um pedao de tela, uma cabea, mas com tanta rapidez
que, em vinte minutos, estava completamente esboada.

Afastou-se um pouco do cavallete para examinar o seu trabalho, e disse:

--Sim,  ella. Tenho boa memoria.

E como no se contentasse com a sua opinio, chamou o creado e
perguntou-lhe:

--Com quem se parece esta cabea?

--Bravo! Com quem se ha-de parecer? Com a senhora que esteve c,
respondeu o creado sem vacillar. No  preciso ser muito esperto para a
reconhecer.

Ernesto tornou a pegar nos pinceis e retocou o seu trabalho.

Duas horas depois tinha terminado um soberbo retrato de Amparo, que o
pintor mais escrupuloso no recearia pr em exposio.

Tinha promettido a D. Ventura ir no dia seguinte almoar com elle ao
hotel de Londres na praa de Hespanha, onde estavam hospedados.

Ernesto levantou-se cedo, fez a barba, vestiu-se com mais cuidado do que
de costume, admirando-se de ter gasto tanto tempo ao espelho.

Assim que terminou a sua _toilette_, satisfeito de si mesmo, enrolou a
tela com o retrato de Amparo, embrulhou-a n'um papel e sahiu de casa
dizendo ao creado que tinha o dia livre, visto no voltar seno  noite.

D. Ventura e a filha occupavam dois quartos no primeiro andar do hotel
de Londres.

Quando Ernesto subia a escada ouviu os accordes de um piano. Deteve-se:
tocavam a magnifica symphonia de _Guilherme Tell_.

--Ser Amparo? pensou elle.

E vendo um creado no corredor, disse-lhe:

--Qual  o quarto do sr. D. Ventura d'Aguillar?

--O seis: ahi onde esto tocando.

Ernesto no se tinha enganado: era Amparo quem to magnificamente
interpretava uma das mais bellas composies de Rossini.

Receoso de interromper aquella brilhante corrente de notas que to
docemente resoavam no corao, esperou junto da porta que terminasse a
symphonia.

Logo que ella acabou bateu  porta.

--Entre, disse D. Ventura.

Entrou. Amparo estava ainda sentada ao piano. Por cima d'este estava um
grande espelho e no limpido crystal Ernesto viu retratado o
encantador rosto de Amparo, que sorria, enviando-lhe um olhar que o
perturbou por um momento.

--Bravo,  um homem de palavra, disse D. Ventura. Ahi est uma qualidade
que no  muito vulgar nos artistas.

--Ento no me esperavam?

--Eu esperava, mas o meu pae, no, disse Amparo, fazendo girar o banco
do piano, at ficar voltada para o pintor.

Amparo tinha um vestido to simples como elegante. O seu cabello negro e
frizado, estava atado com uma fita azul que fazia realar a brancura do
seu rosto e o tom rosado das faces.

O pintor achou-a muito mais formosa do que no dia anterior.

De ba-vontade ficaria contemplando o encantador modelo que tinha ante
si; mas isso lm de inconveniente seria ridiculo.

A donzella, por seu lado, olhava o pintor com o mais seductor dos seus
olhares e enviava-lhe o mais bello dos seus sorrisos.

Comprehendera o que se passava na alma de Ernesto. S D. Ventura no via
nada.  bem certo o dictado que diz que os paes so todos myopes.

--Que traz ahi, sr. Ernesto?  algum quadro? perguntou Amparo vendo o
rolo que o pintor tinha na mo.

--Como estava distrahido! respondeu Ernesto. Hontem de tarde fiz um
trabalho.  um atrevimento que espero me desculpem.

O pintor desenrolou a tela e apresentou-a, sorrindo-se.

A joven no poude conter um grito de assombro, e D. Ventura pronunciou
uma interjeio.

--Sou eu!

-- a minha filha!

-- um retrato d'esta senhora, e venho offerecel-o como uma recordao
da visita que tiveram a bondade de me fazer.

--So levados da breca estes pintores, exclamou D. Ventura. Como se pde
reter na memoria de uma frma to completa as feies de uma pessoa e
passal-as para a tela com tanta verdade?! Porque s tu! Sim, to
parecida como duas gottas d'agua; muito mais parecida do que uma
photographia.

Ernesto sorriu-se das admiraes de D. Ventura. Amparo parecia
agradecer-lhe com um olhar cheio de ternura aquella recordao to
delicada.

--Pois  a cousa mais facil do mundo, disse o pintor olhando para
Amparo, comprometia-me a fazer outro d'aqui a tres annos sem me esquecer
do menor detalhe do vestido e do penteado que tem n'esta occasio.

--Pegue-lhe na palavra, pap, disse Amparo, e d'aqui a tres annos, se
nos encontrarmos em Madrid havemos de vel-o ficar mal.

--Fica encommendado o retrato. Mas agora parecia-me melhor que nos
servissem o almoo e que pensassemos em que devemos entreter o dia.

--J visitaram as _vilas_ ou casas de campo dos arredores? perguntou
Ernesto.

--J visitmos uma... Como se chama a que vimos hontem? perguntou D.
Ventura  filha.

--_Vila Aldobrandini_.

-- magnifica, mas est pouco menos do que abandonada. Deliciosa manso
se se arranjassem os jardins em frma de amphitheatro. O Dominiquino
deixou-nos n'essa casa sumptuosa uns quadros inegualaveis. Faz pena
ouvir, no meio de tanto abandono, o cadente murmurio das suas cascatas
que se assimilham  harmonia dos orgos aquaticos da antiguidade como ao
mesmo tempo vr as soberbas estatuas e outros objectos de esculptura de
grande merito.

--Com franqueza no a achei grande cousa... como disseste que se
chamava, Amparo?

--_Aldobrandini_, pap. Valha-o Deus, que cabea a sua!

E Amparo trocou um sorriso com Ernesto.

--Podemos vr outras que esto melhor conservadas, ajuntou o pintor. Por
exemplo,  digna de visitar-se a _Vila Borghse_ pelo seu grandioso
lago, pelo hypodromo, pelo templo, pelos jardins e, sobretudo, pelo rico
museu de numismatica, e se desejarem visitaremos a _Vila Albani_ e o seu
celebre museu. Os antigos romanos tiveram grande predileco pelas casas
de campo. Os historiadores d'aquelle tempo contavam cousas fabulosas. Os
poetas, esses sonhadores de todas as epochas, esses pobres loucos que
no tendo um real de seu phantasiam palacios e cascatas brilhantes,
falam com grande entusiasmo das quintas que nos arredores de Roma
possuia Cesar, Lucullo, Marcello, Nero, Pompeu, Salustio e muitos outros
homens celebres; mas hoje no existem mais do que ruinas. A casa de
campo de Mecenas, onde iam Augusto, Virgilio, Horacio, Plocio, Tiscca e
Polion descanar das fadigas de Roma, converteram-se hoje em forja de um
pobre ferreiro. Que ode to sentimental escreveria o pudico auctor da
_Eneida_ se ressuscitasse ao contemplar as ruinas de Roma.

D. Ventura ouvia Ernesto de bcca aberta. Tudo isto para elle era grego.
Amparo no deixava de se sorrir. Entre elles comeava a existir uma
grande intimidade, a intimidade que produz as sympathias.

--Sabe o que desejo vr, sr. Ernesto? disse Amparo.  o Colyseu. Li, no
me recordo em que livro, que visto n'uma noite de luar  surprehendente.

--Os viajantes julgam segundo a impresso que os objectos produzem no
seu temperamento. Por isso emquanto uns ao percorrer a Palestina a
descrevem cheia de frondosidade e poesia que a adornava no tempo de
Salomo, outros a classificam de um arido areal, um deserto
insupportavel, pobre, povoado por tribus selvagens e ascorosas, mas o
Colyseu comeado por Vespasiano e acabado por Tito, visto, quer  luz do
sol quer  da lua  verdadeiramente admiravel.

--Ainda assim prefiro vel-o de noite, disse Amparo.

--Ento aproveitaremos o luar, e hoje mesmo se pde realisar o seu desejo.

--Que dizes a isso, pap?

--Que estou ao teu dispor.

--Fica, pois, combinado para esta noite.

Almoaram como bons hespanhoes, depressa e sem lhe dar grande
importancia, pois no  a Hespanha a terra dos Lucullos.

Do meio-dia s 5 horas da tarde visitaram algumas casas de campo dos
arredores de Roma.

D. Ventura estava encantado. Ernesto sabia tudo; era, como vulgarmente
se diz, um livro aberto.

No encontraram uma pedra, uma columna, um sepulchro do qual o pintor
no soubesse a historia.

Amparo escutava-o com prazer. Encostando-se-lhe familiarmente ao brao
fazia-lhe perguntas, principalmente quando encontrava alguma inscripo
latina.

O dia passou-se agradavelmente para os tres; as horas foram curtas, e os
laos de amisade estreitaram-se duplamente com aquelle agradavel passeio.

s seis horas regressaram ao hotel. O jantar j os esperava. Depois
metteram-se n'um trem que os conduziu ao Colyseu.

A noite estava serena; a lua no seu auge, e a sua clara luz banhava as
colossaes ruinas onde em outros tempos oitenta e sete mil espectadores
iam gozar o barbaro espectaculo das luctas humanas.

Ento, o povo romano pedia po e circo, e os imperadores tinham o
cuidado de satisfazer os desejos da terrivel fera que dormia,
lambendo-lhe os ps.

Ernesto levava os dois amigos a um e outro lado, esplicando-lhe com o
mesmo conhecimento que poderia fazer-lhe um _cicerone_ do tempo do
imperador Claudio, descrevendo-lhe ao mesmo tempo aquellas terriveis
luctas, dos adestrados gladiadores, cujo sangue regou com abundancia a
arena do circo.

--Assistiram mulheres a esse barbaro espectaculo? perguntou Amparo.

--Ao principio era-lhes prohibida a entrada, respondeu Ernesto, mas
depois foi auctorisada, reservando-lhes Octavio Augusto as bancadas mais
altas do amphitheatro. Precisamente aqui onde estamos era a tribuna do
imperador, e alli a das vestaes, cujo docel era egual ao do imperador. A
este sitio chamava-se _Spoliarium_, para onde conduziam os cadaveres
dos gladiadores ou os que estavam mortalmente feridos, puxando-os com um
gancho de ferro. Esta obra colossal foi construida no curto espao de
quatro annos. Tinha setenta portas, sem contar com as entradas
reservadas para o imperador e a sua crte. As festas da inaugurao no
tempo de Flavio Sabino Tito duraram cem dias consecutivos, e n'ella
perderam a vida dois mil gladiadores.

--Parece impossivel que to sanguinolentos espectaculos agradassem a
mulheres, exclamou Amparo.

--A vida dos feridos, continuou Ernesto, quando caam banhados de sangue
na arena, ficavam sempre  disposio dos espectadores. O vencedor
collocava a ponta da espada no peito do vencido e esperava que o publico
lhe dissesse; Mata ou Perda. Outras vezes o ferido arremessava as
armas e caa ao p das grades a implorar clemencia. Se os espectadores
levantavam o dedo pollegar, concedia-se-lhe a vida; mas se o viravam
para baixo, ento o ferido apresentava o peito ao seu adversario para
que o acabasse de matar.

--Mas perdoavam sempre? disse D. Ventura.

--Algumas vezes. Durante o reinado do infame Caracalla nem uma s vez se
concedeu o indulto aos gladiadores vencidos. O povo romano de ento, era
to feroz como sanguinario, e s gozava com a agonia dos seus
similhantes, pois, como disse o grande poeta inglez Lord Byron, crca
dos costumes do povo, assim apparecem singelas e naturaes as cousas mais
horriveis e sangrentas.

D. Ventura escutava em silencio o narrador, que lhe contava com a
preciso de um bom livro, todas as horriveis scenas que tiveram logar no
Colyseu.

Algumas vezes Amparo, para caminhar com mais segurana por aquellas
sumptuosas ruinas, dava a mo a Ernesto. Aquellas duas mos apertavam-se
docemente, transmittindo um suave estremecimento.

D. Ventura era um homem de bem, mas um homem todo prosa; e aquillo tudo,
apezar do luar e das descripes historicas de Ernesto, parecia-lhe
um monto de ruinas, uma toca de lagartos.

Comtudo, para no ser _desmancha-prazeres_, dizia de quando em quando:

--Soberbo! Magnifico!

 meia-noite regressaram ao hotel.

Quando Ernesto se despediu, Amparo disse-lhe, apertando-lhe a mo e
dirigindo-lhe um olhar cheio de doce esperana:

--Passei uma noite deliciosa. Estou certa de que sempre me lembrarei do
Colyseu de Roma.

Para Ernesto aquella despedida foi uma promessa irm da esperana, essa
bella flr que perfuma a alma.




CAPITULO III

Sonhos cr-de-rosa


Ernesto teve aquella noite um sonho cr-de-rosa, porque a bella Amparo
foi o anjo do seu sonho.

Os homens de genio e sobretudo os pintores, quando pensam no amor, antes
de amar, criam um typo perfeito como todas as sublimes creaes da
imaginao; uma d'essas mulheres de extraordinaria belleza cheia de luz,
sem um _seno_ no moral, sem um defeito no physico, perfeita de corpo e
d'alma: mas quando chega o momento de, ou canados do celibato, ou para
pagar esse tributo de que poucos se salvam, chamado matrimonio, se
decidem a casar, ento j  outra cousa, pois muitas, mesmo muitissimas
vezes a poesia se incarna na prosa, e depois... Satanaz toma parte
activa na symphonia do matrimonio.

O amor  cego, e os homens e as mulheres devem resignar-se a no vr
bem, precisamente quando deviam ter olhos de lynce.

Ernesto levantou-se alegre e cantando a symphonia de _Guilherme Tell_; e
pensando em Amparo pegou na paleta e poz-se a pintar no seu quadro.

A filha do D. Ventura tinha-se photographado d'uma maneira to profunda
na sua imaginao, que o pintor achou sem saber como que uma das figuras
do seu quadro tinha grandes parecenas com Amparo. Admirou-se, mas
agradou-lhe ao mesmo tempo.

s dez horas largou a paleta, almoou, e pegando n'uma folha de papel,
poz-se a pintar uma aguarella do Colyseu visto  luz do luar.

--Isto ser uma recordao dedicada a Amparo, disse elle. Dir-lhe-hei
que a colloque no seu gabinete para que nunca se esquea da noite que
representa.

Ernesto esmerou-se marcando com arte e delicadeza todos os detalhes da
aguarella. Collocou n'um ponto conveniente um pintor tirando o _croquis_
do Colyseu, e ao seu lado um cavalheiro e uma joven.

Apezar das figuras terem apenas duas pollegadas, o pintor tinha o maximo
empenho em que ficassem parecidas com os originaes que representavam. A
empreza era difficil; mas por fim, apoz algum trabalho, conseguiu o que
desejava.

Satisfeito com a sua obra e com a alegria do homem que sente na alma os
primeiros perfumes do amor e julga causar uma surpresa agradavel 
provocadora dos seus sonhos, ao cair da tarde dirigiu-se para Roma.

D. Ventura e a filha estavam tomando caf. Tinham acabado de jantar.

--Chega a proposito, disse D. Ventura.

--Dou-me por feliz, respondeu Ernesto, cumprimentando a joven.

--Sente-se e tome caf comnosco.

--Primeiro que tudo, desejo saber em que consiste a opportunidade da
minha chegada.

--Aborreciamo-nos, disse Amparo, Roma  uma cidade morta; nem sequer tem
theatros.

--Diz muito bem. Roma  um cadaver que todos os annos ressuscita pelo
Carnaval, e vive um mez commettendo as mais excentricas loucuras;
depois torna a cahir na soledade da tumba, at ao anno seguinte.

--Quer dizer que errmos a epocha da nossa viagem, disse D. Ventura.

--Justamente. Mas se a sr. D. Amparo quizer ir ao theatro, temos
actualmente um aberto.

--Qual?

--O do Tiano.

--Dizem que no  bonito.

--Sim, mas em compensao representam admiravelmente.

--Sabe, senhor Ernesto, que esta noite tive uma ideia? disse Amparo,
cerrando docemente as palpebras para conservar a luz dos seus formosos
olhos fixos no pintor.

--Estou crente, de que foi uma ideia sublime.

--Vaes ouvir, pap; o senhor Ernesto j disse que a minha ideia era
sublime; agora s necessito que o pap a ache tambem.

--Olha que os artistas so muito aduladores; no te fies n'elles. Mas
vamos, dize qual  a tua ideia.

--Resume-se em deixarmos Roma e irmos passar um mez em Florena; mas com
uma condio: que o senhor Ernesto nos acompanhe como nosso _cicerone_.

--Essa exigencia  uma loucura, filha da pouca experiencia propria da
tua edade, disse D. Ventura. Ernesto est pintando um quadro que tem de
mandar para a proxima exposio de Madrid, em setembro.

--Sim, o senhor Ernesto tem o quadro muito adeantado e d'aqui at
setembro vo ainda quatro mezes, disse rapidamente Amparo, dirigindo ao
pintor um olhar supplicante para que elle annuisse.

--Acceito sem vacillar, disse Ernesto, e dou as minhas razes. Preciso
s de um mez para concluir o meu quadro. E antes de voltar a Hespanha
tinha necessidade de ir a Florena para tirar uns croquis da _Venus de
Mdicis_, do _Grupo de Niobe_ e de alguns quadros da escola flammenga
que existem no celebre palacio de Pitti. Quero tambem tirar alguns
_croquis_ da _cathedral de Santa Maria de Fiore_, d'essa memoravel
architectura da qual Miguel Angelo, disse ser impossivel fazer outra
mais bella, pois era digna de servir de frontespicio ao Paraiso, e que o
imperador Carlos V devia pl-a n'um estojo para melhor a conservar.
Assim pois, tudo se resume em adeantar dois mezes a minha viagem a
Florena. Quando partirem para Hespanha, eu regressarei a Roma para
terminar o meu quadro, e prometto que o vero collocado n'um dos sales
da Exposio no dia 20 de setembro.

Amparo applaudiu, como uma creana que manifesta sem reserva a sua
alegria. A viagem projectada por ella era encantadora. Grande foi o seu
contentamento vendo que era acceite o seu plano, porque nada  to grato
ao corao de uma mulher joven, como realisar um dos seus sonhos
cr-de-rosa que de vez em quando lhe acariciam a alma.

Na noite anterior deitara-se, pensando no seu poetico passeio ao
Colyseu. Como o somno se mostrasse rebelde, recapitulou na memoria at
as mais pequeninas cousas acontecidas nas celebres ruinas.

Os olhares de Ernesto, os suaves apertos de mo, a lua que banhava,
poetisando, as pardas e as derrubadas galerias do Colyseu, as
descripes historicas que com doce e carinhoso accento narrava Ernesto,
tudo isto formava um conjuncto agradavel ao corao de Amparo.

Amava Ernesto? Nem ella mesmo sabia que responder a esta pergunta que
fez pelo silencio da noite.

O pintor era novo, elegante, bem parecido, com uma educao pouco
vulgar, e pelo menos era-lhe sympathico.

Como ha sempre algum egoismo no corao da mulher, Amparo pensou que
continuar a sua viagem pela Italia acompanhada de Ernesto tinha muito
mais encanto, era mais divertido do que viajar ssinha com o pae.

Amparo no pensou seno em si. Com algum conhecimento mais profundo da
vida material dos artistas, isto , a prosa do talento, teria pensado
que talvez Ernesto no se encontrasse em condies de emprehender
uma viagem em carruagem de primeira classe, e installar-se n'um hotel de
luxo.

 bem certo que Amparo ignorava o valor do dinheiro: gastava o do pae,
que era rico, sem se preoccupar com o valor que tem um duro[1]
para quem no possue vinte reales.

Por outro lado Ernesto, um verdadeiro artista, sonhava que era um
principe e julgava os seus sonhos uma realidade... Era mais ambicioso de
gloria do que de ouro.

Quando acceitou a projectada viagem por Amparo, sem pensar se o dinheiro
que possuia por sua unica fortuna chegaria para occorrer a todas as
despezas, s pensou na felicidade de viajar com aquella mulher formosa,
por uma terra encantadora, cujo cu azul e o perfume das brisas so o
orgulho das filhas de Toscana, a admirao dos estrangeiros.

Combinada a partida para quatro dias depois, Ernesto apresentou a
aguarella do Colyseu, que arrancou um grito de admirao e muitos
olhares de agradecimento a Amparo.

O pintor regressou a casa j bastante tarde, to alegre, to feliz, que
no teria trocado a sua existencia por cousa alguma d'este mundo.

A felicidade est s vezes em to pequenas cousas!... O pobre artista
julgava-se amado, e comeava a amar com toda a sua alma virgem e
apaixonada.

Quando chegou a casa, pegou n'uma folha de papel para fazer o oramento
das suas despezas.

--Necessito, disse elle, de quatro mil reales para a viagem. Vejamos
como estou a respeito de fundos.

Ernesto s tinha seiscentos. Era-lhe preciso arranjar dinheiro.

Procurou na memoria os nomes de alguns amigos pintores que como elle
viviam em Roma, mas um sorriso lhe assomou aos labios.

--Todos elles, disse, so to pobres ou mais do que eu; no devo
expr-me a uma negativa forada, que  to desagradavel a quem a d como
a quem a recebe. Melhor ser sacrificar alguns dos meus quadros. O
senhor Daniel  um judeu, menos judeu que os dez mil que pelo interesse
do commercio o pap consente em Roma. Escrever-lhe-hei.

E pegando na penna escreveu:


                                                _Senhor Daniel Raithany_

Meu bom amigo

    Vou emprehender uma viagem a Florena e preciso vender alguns
    quadros. Tenha, pois, a bondade de vir hoje ao meu _atelier_,
    onde o espero at s quatro horas da tarde.

                                                         Seu amigo,

                                                    _Ernesto Alvarez_.


O pintor chamou o creado e disse-lhe:

--Amanha, quando te levantares, vaes a Roma entregar esta carta ao sr.
Daniel, negociante de quadros. Mora no bairro dos judeus; j o conheces.

Depois deitou-se para sonhar com Florena e Amparo.

Ernesto achava-se na ditosa edade dos sonhos cr-de-rosa, e viu durante
algumas horas passar pelos olhos da sua illuso um panorama encantador
onde a flr mais perfumada, mais bella, mais resplandecente, era Amparo
que, olhando-o com languidez, lhe dizia uma e mil vezes mais: amo-te!
amo-te! amo-te!

E para que desperta um homem d'estes sonhos encantadores?




CAPITULO IV

O pintor e o judeu


Daniel Raithany era um dos maiores negociantes do bairro judaico. Tinha
em toda a Europa fama de intelligente e honrado, apezar de ninguem
ignorar que vendia caro e comprava barato. Esta qualidade era
descupavel, tratando-se de um negociante judeu; mas, em compensao,
tinha uma grande qualidade, que era que quando um admirador de pintura,
ainda que de Londres, Paris, Vienna, S. Petersburgo, Madrid ou de
qualquer das grandes capitaes da Europa necessitava para a sua galeria
um quadro d'este ou d'aquelle auctor celebre, escrevia-lhe uma carta, e
no olhando a preo tinha o que desejava.

Nunca enganava ninguem, dando uma copia por original. Daniel era
intelligente, e apezar de no saber pintura, to conhecedor era das
escolas que mais de uma vez, em casos duvidosos, o chamavam como perto.

Todos os pintores eram amigos de Daniel e era to difficil enganal-o
vendendo-lhe gato por lebre, como vulgarmente se diz, que ninguem
tentava fazel-o.

Dizia-se que o negociante conseguira juntar muitos milhes. Comtudo a
sua loja apresentava sempre o mesmo aspecto modesto, e a sua pessoa
conservava a mesma linha; isto , usava constantemente uma sobrecasaca
verde com grandes abas, calas e collete preto, uma gravata de velludo,
um chapu usado, um chapu de chuva velho debaixo do brao e uma cadeia
d'ao, em cuja extremidade estava preso um modesto relogio de prata.

Daniel era um homem alto, magro e pallido, nariz arqueado, cabello
grisalho, olhos verdes, pequenos o encovados; um d'esses typos vulgares,
mas em quem, olhados com atteno, se encontra bondade e doura no
semblante.

Ernesto estava pintando. Eram dez horas da manh quando viu entrar no
_atelier_ o judeu.

Daniel entrou como sempre, sorrindo-se, com o chapu de chuva debaixo do
brao, e a caixa do rap que nunca abandonava, na mo esquerda.

--Bons dias, millionario, disse Ernesto, extendendo-lhe a mo. Muito
agradecido pela sua pontualidade.

--Em questo de dinheiro, respondeu Daniel,  preciso sermos pontuaes, e
aproveitarmos o tempo. Por um minuto se pde perder um bom negocio.

--Pelo que se v o senhor  negociante at  medulla dos ossos. Mas
vamos falar do nosso.

O pintor deixou a paleta e os pinceis, indicou-lhe uma cadeira e
sentou-se n'outra.

--Preciso dinheiro.

--J o suppunha.

--Por isso lhe pedi que me viesse visitar.

--E eu, conhecendo a impaciencia dos artistas, apressei-me em vir.

--Agradecendo-lhe pela segunda vez, comearei por lhe dizer que dentro
de tres dias parto para Florena.

--Uma viagem de recreio.

--De recreio e estudo. Tenciono tirar alguns _croquis_ da celebre
galeria do palacio de Pitti.

--Bello pensamento!

--E como para ir a Florena  preciso dinheiro e como eu no o tenho, ou
melhor, tenho pouco, quero que me compre alguns quadros. Pde escolher,
exceptuando o que est no cavallete, pois esse , como sabe, para a
Exposio de Madrid, e pde dizer-se que me no pertence.

Daniel guardou silencio, levantou-se, poz os oculos e comeou a passar
revista aos quadros, e estudos que estavam nas paredes.

Ernesto entretanto accendeu um charuto e recostou preguiosamente a
cabea no espaldar da cadeira.

Mais de tres quartos de hora durou a revista passada s telas por
Daniel. Quando estava perfeitamente inteirado, tirou os oculos, com todo
o seu vagar, guardou-os no bolso, e, sentando-se, disse:

--Tem seis quadros de comestiveis, quatro pequenos de costumes
hespanhoes, e dois de flres. Fico com os doze, pois tenho probabilidade
de os vender a um inglez que me encarregou de comprar alguma cousa
n'este genero, e dou por elles quatrocentos duros.

-- pouco dinheiro.

Daniel encolheu os hombros.

--No dou mais, respondeu;  impossivel.

--Dou-lh'os por doze mil reales e creia que ainda ganhar uns duzentos
por cento.

--N'estes tempos no  possivel. Desde que a photographia pde offerecer
o _fac-simile_ de uma obra-prima por um franco, a pintura perdeu muito.

--Senhor Daniel, concedo-lhe o direito de regatear o preo de um quadro,
de dizer que  mau sendo bom, mas no lhe consinto que ponha a
photographia a par da pintura. Poder ter-se uma copia do Ticiano
estampada em um boccado de papel por dois reales, mas no se ter
Ticiano, nem pela photographia se poder nunca formar uma ideia, ainda
que vaga, do que vale o citado auctor.

Daniel fez um gesto de indifferena, o ajuntou:

--Sabe que tenho em muita considerao os seus trabalhos, e que se no
estivesse to occupado, o encarregaria de algumas copias, e isso deve
inspirar-lhe confiana para crer que no procuro exploral-o. Quem sabe
se terei quatro ou mais annos armazenados na loja esses doze quadros que
pretendo comprar. E se assim succeder, o senhor bem sabe que dinheiro
vale dinheiro, e isso representa uma grande perda.

Ernesto comprehendeu que o judeu no lhe daria mais, visto conhecer a
necessidade que elle tinha do dinheiro.

Calculou que com a importancia offerecida e o que possuia podia fazer
desafogadamente e at com luxo a viagem e resolveu acceitar o negocio.

--Est fechada a transaco, disse o pintor. Mando-lh'os ainda hoje mesmo.

Daniel tirou a carteira, e d'ella a importancia offerecida em notas do
Banco Romano, e entregou-a ao pintor, dizendo:

--Muito dinheiro podia ganhar!

--No desejo outra cousa, respondeu Ernesto, pondo o dinheiro sobre a mesa.

--Seriamente?

--O dinheiro  a primeira necessidade do homem n'este valle de lagrimas.

--Ento posso offerecer-lhe  volta de Florena algumas notas mais, se
me trouxer algumas copias da escola flammenga e franceza dos originaes
que existem no palacio Pitti.

--Isso depende do tempo.

--A actividade augmenta as horas.

--No me comprometo, mas farei todo o possivel porque receio que me faa
falta o dinheiro para ir a Hespanha expor o meu quadro.

--Pois j sabe o meio de o obter.

Daniel comeou a despendurar os quadros que comprara e ia-os collocando
todos juntos, para que Ernesto ao mandal-os se no esquecesse de algum.

Depois despediu-se do pintor, tornando-lhe a recommendar que trabalhasse
muito.

--O trabalho, senhor Ernesto,  a maior fortuna do homem. No se esquea
de que as formigas e as abelhas so muito mais ricas do que as cigarras.

Ha conselhos que s produzem um ligeiro murmurio nos ouvidos de quem os
ouve.

Daniel sahiu. Ernesto chamou o creado.

--Logo levas esses doze quadros a casa do senhor Daniel Raithany,
disse-lhe. Vou fazer uma viagem a Florena. Demoro-me um mez. Podes
dispor de ti como te aprouver, n'esses trinta dias, mas nem uma s noite
deixars de dormir em casa.

Entregou o dinheiro que julgou sufficiente para o sustento do creado,
mandou que lhe servissem o almoo, e depois sahiu.

Uma vez em Roma comprou alguma roupa para a viagem.

 tarde foi visitar os seus amigos e jantar com elles.

D. Ventura comeava a olhar Ernesto como da familia;  verdade que
quando se encontra um compatriota a algumas centenas de leguas distantes
da me patria, sente-se uma alegria to grande no corao que o tratamos
como se fosse um parente.

A D. Ventura parecia o mais natural do mundo que um rapaz to bem
educado, to fino, to illustrado como Ernesto o acompanhasse na sua
viagem a Florena.

Emquanto a Amparo, no pensou seno em realisar o seu desejo; viajando
com Ernesto, tinha mais encanto a excurso, porque o pintor lhe era
sympathico.

Os olhares, os sorrisos, os apertos de mo, as palavras carinhosas so
impulsos muitas vezes naturaes do corao feminino, e  sem duvida por
isso que no lhes do nenhuma importancia.

Mas Ernesto pensava de outro modo, e ia reunindo na sua alma simples e
apaixonada, um sem numero de esperanas encantadoras, que eram o seu
maior thesouro, e que deviam tornar-se a sua maior desgraa, porque o
amor quasi sempre  um jogo em que um dos jogadores perde.

Os preparativos de uma viagem em que esperamos gozar e divertirmo-nos
so muito encantadores. Ernesto offereceu a D. Ventura um _Guia do
forasteiro em Florena_, preciosamente illustrado, e a Amparo um
elegante album para desenhos.

--Temos que trabalhar muito, dizia o pintor, e no podemos consentir que
nos importune com perguntas.

--Sim, sim, o senhor Ernesto tem razo; temos que fazer muitos desenhos,
e para que se no aborrea, emquanto trabalhamos, ler o seu _Guia_
deante das obras d'arte que vamos visitar.

D. Ventura para quem no havia maior felicidade do que a alegria de
Amparo, vendo-a contente e feliz, ria-se com a expanso de um pae que
ama com loucura a filha.

S uma vez se poz serio vendo crescer aquella sympathia entre Amparo e o
pintor, e disse:

--E a rapariga acaba por se enamorar de Ernesto. Fez algumas reflexes
mentaes e ajuntou:

--Diabo, Ernesto  pobre; minha filha tem quatro milhes de dote no dia
do casamento e mais oito quando eu morrer.

Aqui tornou a deter-se; mordeu o labio inferior como o negociante que
pensa n'um negocio importante, mas rapidamente se lhe alegrou o rosto e
exclamou:

--Se ella o ama e quizer casar com elle, que se case; vale mais ter por
genro um homem como Ernesto, pobre, do que um parvo rico.

Desde aquelle momento, Ernesto podia contar com a proteco do pae.

Chegou o dia da partida. A viagem podia fazer-se de dois modos: em
pequenas jornadas, parando-se para vr as povoaes de alguma
importancia artistica, ou em caminho de ferro.

D. Ventura optou pela ligeireza da locomotiva, e os nossos tres
viajantes, alegres como estudantes em ferias, installaram-se n'um
compartimento de primeira classe. A fortuna favorecia-os: iam ss.
Emquanto foi dia, Amparo e Ernesto passaram a maior parte do tempo 
janella da carruagem, admirando o panorama que se ia desenrolando a seus
olhos.

Os jovens s trocaram algumas palavras em voz baixa; mas os olhos tem
uma linguagem to expressiva, que dizem tudo, quando se movem
impulsionados por uma alma apaixonada.

D. Ventura lia o livro offerecido pelo pintor, ou dormitava. Quando
chegou a noite, Ernesto bastante timido, apoderou-se de uma das mos de
Amparo, no menos linda do que a da Laura que inspirou a Petrarcha
quatro sonetos, e disse-lhe:

--Que feliz eu sou!...

Amparo sorriu-se e retirou a mo.

Depois, reclinando a cabea em um dos cantos da carruagem, cerrou os
olhos, fingindo que dormia.

Assim collocara certa distancia entre si e Ernesto. Amparo, apezar de
nova, tinha mais conhecimento do corao humano do que o seu companheiro
de viagem, e temeu que prolongando a conversao  tenue luz do vagon e
quasi tocando-se os joelhos, fizesse alguma d'essas concesses de que
mais tarde se arrepende a mulher.

Ernesto procurou tambem posio commoda e tentou dormir, mas foi em vo.

Nasceu o dia, e com elle a animao entre os viajantes.

A linha seguia n'aquelle momento o curso do rio Arno. A conversao
renovava-se a cada paragem do comboio. D. Ventura lia o nome das
estaes e procurava no _Guia_ a parte interessante da terra.

Em Signa atravessaram o Arno e no demorou muito vr-se ao longe as
torres elevadas de Florena, os quatro pontos e os quatros bairros.

Ernesto exclamou:

--Alli est Florena, bero do renascimento das artes, patria de Dante,
de Petrarcha, e de Galilu!




CAPITULO V

O grupo de Niobe


A Florena dos nossos dias  muito differente da que engrandeceram os
Mdicis; mas por toda a parte se encontram as pgadas de Cosme o
Virtuoso, chamado o pae da patria, talvez pelo excessivo rigor com que
tratava os filhos.

Indubitavelmente os Mdicis foram grandes negociantes. A sua fortuna
fabulosa e a sua honradez ao mesmo tempo, elevou-os  primeira
dignidade da republica florentina.

Mas como em todas as familias ha sempre um judas que vende a sua raa,
succedeu que emquanto Cosme o Virtuoso, chamado pae da patria, mandava
emissarios por todo o mundo em busca de manuscriptos para enriquecer as
bibliothecas, pensionando com luxo artistas, e Loureno Magnifico sahia
em segredo de Florena e apresentando-se ante Fernando de Napoles, com
quem estava em guerra, dizia-lhe: _Aqui me tens s e desarmado. Se  a
mim a quem odeias satisfaz a tua vingana com a minha morte, pois ditoso
me julgarei libertando com a minha vida a de tantos valentes, dispostos
a despedaarem-se pelas nossas rivalidades_, outros Mdicis deshonraram
o illustre appellido que tinham herdado de seus nobres antepassados.

Sublime foi o rasgo de abnegao levado a cabo por Loureno de Mdicis,
evitando a corrente de sangue que ameaava inundar Napoles e Toscana,
apezar de dizer a historia que o pap Sixto IV preferia a guerra,
esquecendo-se de que era um representante de Christo, do Deus da
bondade, do perdo e da tolerancia.

Mas a natureza  variada, e depois dos grandes Mdicis da republica
vieram os pequenos ladres do despotismo.

Chegou Alexandre, verdugo do povo, morto s mos do sobrinho, que com
incrivel cynismo lhe perguntou ao enterrar-lhe a espada no peito:
_Senhor, estaes dormindo?_ Veiu depois Fernando, que morreu d'uma
indigesto de fructa verde, e por ultimo o estupido Cosme III, cuja
esposa Margarida de Orlans, no podendo supportar a repugnancia que lhe
causava o marido, o abandonou, envergonhada de lhe ter pertencido. Para
que a estupidez de Cosme chegasse ao cumulo, dedicou-se em procurar a
mulher pelas crtes da Europa: mas em toda a parte se riram d'elle,
despedindo-o vergonhosamente como a um ente repugnante.

Deixemos os Mdicis  historia, e continuemos a narrao interrompida ao
avistar as altas muralhas de Florena.

Na estao, entre os muitos corretores d'hoteis que disputam os
estrangeiros, D. Ventura encontrou-se com um hespanhol que tinha casa de
hospedes, entrou em ajuste com elle, e conduziu-os n'um trem para casa.

D. Ventura alugou todo o rez-do-cho, com o direito de lhe pertencer o
jardim plantado de laranjeiras, limoeiros e grandes acacias.

O rez-do-cho compunha-se de um quarto com janellas para o jardim, uma
sala grande, um quarto de vestir, uma casa de jantar e uma sala. Amparo
installou-se em dois quartos. D. Ventura e Ernesto ficaram com a sala e
outro quarto contiguo  casa de jantar; a sala declarou-se terreno
neutral e todos podiam dispr d'ella para o que necessitassem. Era o
ponto de reunio dos nossos viajantes.

O senhor Rosales, dono da casa, era um sujeito muito amavel e servial.
Disse-lhes que tinha sempre muitos bons hospedes; que o primeiro andar
estava todo alugado ao sr. Conde de Loreto e ao seu velho mordomo; que
no segundo estavam varios portuguezes e que era to apaixonado das
cousas de Hespanha, que mandava vir gro e chourio hespanhoes, para que
quando algum hospede quizesse de vez em quando comer rico cosido
madrileno, podel-o servir.

D. Ventura esteve quasi a abraar o seu hospedeiro, porque como bom
madrileno comeava a sentir a falta d'aquelle manjar predilecto.

Emquanto a Amparo acercou-se da janella do gabinete, viu o formoso cu
de Florena, aspirou o perfume das laranjas e dos limes, exclamou:

--Oh! que delicioso cheiro! que bem que ficamos aqui!

A alegria de Amparo reflectia-se no corao de Ernesto.

No primeiro dia entretiveram-se os nossos viajantes em arranjar
itinerario. Ernesto propoz visitar na manh seguinte o palacio de Mdicis.

Em Florena o cu tem sempre luz, doura, poesia. Os nossos viajantes
levantaram-se, dispostos a emprehender o seu passeio. A manh no podia
estar melhor, o cu mais azul.

Como no necessitavam de _cicerone_, porque Ernesto conhecia Florena
to bem como Roma, sahiram em direco ao celebre palacio de Mdicis.

Amparo e Ernesto levaram os seus _carnets_, e D. Ventura o seu _Guia_.

Logo que chegaram ao palacio e entraram nos jardins, Ernesto, depois de
fazer observar aos seus amigos as duas distinctas architecturas do
edificio, a construida na Edade Media e a edificada por Vasari no seculo
XIV, exclamou:

--Quando o viajante passeia por estes vastos jardins, parece que
encontra de menos Loureno de Mdicis, cognominado o Magnifico. Oh!
ditosa epocha aquella em que Loureno, agarrando o brao de Miguel
Angelo, reprehendia com doura paternal a indolencia do grande artista,
incitando-o ao trabalho! Ditoso tempo aquelle! Loureno ria e applaudia
os comicos epigrammas do alegre Pulci, fazendo-o escrever o _Morgante
Maggiore_, o poema heroe-comico mais celebre de Italia, e em que Angelo
Poliano lhe lia os discursos de historia e philosophia.

E mudando de entoao continuou com accento alegre:

-- preciso confessar, meu caro senhor D. Ventura, que hoje os reis, os
potentados da terra se occupam pouco ou nada dos pobres sonhadores, dos
filhos do genio. Ento, ante o talento dobravam a fronte os soberanos.
Cosme de Mdicis encontrou um manuscripto de Tito Livio, enviou-o a
Fernando de Napoles, com quem estava em guerra, e foi to grande a
alegria d'este rei, que receando ser ingrato, assignou o tratado de paz
que Cosme solicitava; devendo as mes de Italia a sua tranquillidade e a
vida dos filhos a umas folhas de pergaminho manuscriptas. Hoje, nem
todos os preciosos manuscriptos das bibliothecas romanas decidiriam dos
reis, quando disputam um palmo de terra, a deporem as armas. Mas
entremos na sala que immortalisou o cinzel do filho de Paros.

D. Ventura, que ouvia com satisfao as palavras de Ernesto, exclamou:

--Para que diacho me comprou este livro se aqui no diz nada do que tem
estado a contar?

--Senhor D. Ventura, respondeu o pintor, sorrindo-se, breve chegar a
hora em que lhe seja util. A colleco de camafeus, medalhas e debuxos
compe-se de vinte e oito mil estudos e _croquis_, feitos pelos mais
celebres pintores italianos, e em chegando ahi, fecho a bcca e pego no
lapis.  ento que o livro falar pelo _cicerone_.

Ernesto conduziu os seus amigos  sala de Niobe e ao chegar deante
d'aquelle grupo que representa a mais sublime epopeia da dr maternal,
ao deter-se em frente d'aquella me, cem vezes mais dolorosa do que a
dos Machabeos, tirou o chapu com venerao e ficou como que fascinado
ante aquella esculptura, creada pelo magico cinzel de Scopas 478 annos
antes de Christo, para que fosse o pasmo e a admirao das edades futuras.

D. Ventura descobriu-se tambem, apezar de no comprehender o valor de
to interessante grupo que tinha ante si. Para elle, aquillo era uma me
chorando seu filho morto e uma joven ferida que agonisava; para Ernesto
e Amparo, que tinham uma alma mais artistica, mais enthusiastica,
aquelle drama maternal, aquella cabea sublime modelada, enlouquecida
pela dr, era uma obra sem rival. Scopas, o _artista da verdade_,
apparecia ante os seus olhos como o gigante da esculptura.

--Que bello grupo!

--Sim, senhora D. Amparo, respondeu Ernesto. Para os que tem a arte em
alguma conta s para vr esse grupo vale a pena vir a Florena, ainda
que das regies mais afastadas do universo. Essa scena  to
sublime, to dramatica, que os exigentes criticos de Athenas inclinaram
a cabea com admirao, assombrados de to grande obra. Na figura da me
est toda a alma de Scopas.

D. Ventura, que no compartilhava do enthusiasmo do pintor nem de
Amparo, um pouco enfadado com tantas exclamaes, nas quaes no podia
tomar parte por se julgar profano no assumpto, disse, instigado pela
curiosidade:

--Mas o que representa esse grupo que tanto admiram?

--Scopas foi um artista pago. No seu tempo estava em moda a Mythologia,
e os homens adoravam as deusas e os deuses do Olympo, apezar dos seus
defeitos e fraquezas, disse Ernesto. Pois bem, Niobe era filha de
Tantalo e esposa de Anfior, rei de Tebas, to presumida da sua
fecundidade, que se queixou amargamente aos deuses vendo que no Olympo
se dava sensivel preferencia sobre ella  deusa Latona, filha de Saturno
e de Febe, me de Apollo e Diana, e esposa, segundo se assegura, de
Jupiter. Os deuses irritaram-se da soberba d'aquella pobre mortal que se
atrevia a refutal-o e combinaram um terrivel castigo. Appollo e Diana
feriram com as suas flechas os filhos de Niobe; Jupiter converteu em
pedras os subditos da orgulhosa rainha de Thebas, que queria ser mais do
que uma deusa. Durante nove dias, os filhos de Niobe permaneceram no
solo cobertos de sangue; a agonia foi grande, terrivel, tragica, at ao
grau mais sublime; Niobe, louca de dr e de amargura, derramando um mar
de lagrimas, arrancando os cabellos de desespero, pedia soccorro com
gritos d'alma, mas os seus vassallos permaneceram immoveis e
indiferentes. Por fim ao decimo dia Jupiter compadeceu-se d'aquella me
e julgando-a j sufficientemente castigada, tornou  vida os thebanos,
permittiu que tomassem algum alimento, mandou enterrar os filhos, e
convertendo Niobe em uma rocha, collocou-a no cume d'um solitario monte,
onde chora eternamente a perda dos queridos fructos das suas entranhas,
sendo um monumento de vergonha dos vingativos deuses do Olympo.

Quando Ernesto acabou o conto mythologico D. Ventura, movendo a cabea
em signal de duvida, disse:

--Mas tudo isso  uma fabula.

--Que deu bastante assumpto, respondeu o pintor, para que Scopas,
deixasse essa sublime e inimitavel esculptura, que  uma verdade
admirada por todas as naes; grupo sublime do qual nos permittir que
tiremos um rapido _croquis_.

E Ernesto comeou a copiar a obra prima do celebre filho de Paros.

D. Ventura encolheu os hombros, e emquanto Amparo e Ernesto desenhavam a
Niobe, entreteve-se a vr os bustos antigos, as estatuas egypcias, os
sarcophagos e o retrato de Bruto feito por Miguel-Angelo.

O rico commerciante passava com ligeireza por todas aquellas obras de
merito. Para elle no tinham a importancia que lhe attribuiam; e do
fundo do corao dizia que os artistas eram uns pobres loucos que viviam
de illuses, exaggerando tudo.

Ernesto e Amparo entretanto tiravam um desenho do grupo: e to embebidos
estavam no seu trabalho que no repararam que um rapaz elegantemente
vestido, de correctas feies e maneiras distinctas, se deteve a poucos
passos d'elles, e tomando das mos de um creado que o seguiu o _carnet_
de desenhos, comeou a tirar uma copia da celebre esculptura de Scopas.

Chamava-se Fernando de Villar, Conde de Loreto.

Quando Amparo desviou os olhos do papel onde desenhava viu o conde, e
este cumprimentou-a com um ligeiro movimento de cabea. Ernesto
cumprimentou-o mas com uma certa frieza que demonstrava o desgosto que
lhe causava a presena d'aquelle homem.

Ao sair da sala de Niobe, D. Ventura disse:

--Viram o conde de Loreto?

--Era o joven que desenhava proximo de ns? perguntou Amparo.

--Sim. Occupa o andar por cima de ns.

E deixando a conversao continuaram visitando o palacio.

O rico museu dos Mdicis, contem dezenove galerias.

No , pois, nosso intento percorrer minuciosamente estes immensos
arsenaes da arte, detendo-nos ante cada obra-prima que se apresenta aos
avidos olhos do viajante enthusiasta.

Os nossos amigos dedicaram os dias a vr os museus, as bibliothecas e as
egrejas. Para as noites ou assistiriam aos espectaculos, ou passeariam
nos jardins, aspirando os perfumes.

A segunda noite da sua estada em Florena, Amparo passeava no jardim com
Ernesto, quando lhe chegaram aos ouvidos as melodiosas notas de um orgo
expressivo, tocado com tanto gsto como mestria. Detiveram-se e ouviram
com a religiosidade dos amantes de musica.

No dia seguinte Amparo perguntou ao senhor Rosales quem tocava o orgo.

--O senhor conde de Loreto.  um grande musico.

Desde ento Amparo abriu algumas noites a janella para ouvir o orgo

Um dia D. Ventura deteve-se deante da celebre mula negra do palacio Pitti.

--Isto ser um capricho de algum celebre esculptor? perguntou.

--Isto  a vergonha de um nobre to ingrato como parvo, respondeu Ernesto.

--Temos outra historia como a da Niobe?

--No, esta  historica e vergonhosa para o auctor. Luc Pitti foi um
homem cuja riqueza e liberdades lhe tinham grangeado a estima dos seus
concidados e a aura da popularidade. Pitti quiz luctar em magnificencia
com Cosme de Mdicis, e comeou a construir um palacio, que  este em
que nos achamos; mas bem depressa se viu arruinado, e a obra teve que
suspender-se. O povo sempre generoso e agradecido com os que d'elle
se recordavam e os Mdicis, protectores da arte, vieram em ajuda do
soberbo Pitti, publicou-se um decreto concedendo o perdo a todos os
criminosos e malfeitores que viessem trabalhar no palacio de Luc. O povo
correu em tropel a trabalhar nas obras: todos os condemnados de Italia
vieram tambem. O palacio acabou-se com o suor dos pobres; mas Pitti to
nescio como ingrato, fez construir essa mula gravando-lhe no pedestal um
distico latino para sua eterna vergonha, pois prova-nos a sua
inqualificavel ingratido, porque a mula representa o povo e o distico
diz: _Esta azemola trabalhou e conduziu tudo; pedras, marmores,
madeiras e columnas._

Outra tarde Ernesto conduziu os seus amigos  egreja de So Giovanni,
fazendo-lhes admirar os quadros de Andrea del Sarto, to miseravelmente
retribuido pelos frades, e ante a inimitavel _Virgem do Sacco_, por cuja
obra, que admira o orbe, pagaram-lhe com um sacco de trigo os irmos
servitas da Annunciada, abusando da pobreza do artista, que se vingou,
pondo o mundo por testemunha da sua humilhao dando  sua obra o nome
de _Virgem do Sacco_.

Visitaram tambem os sepulchros dos poetas e dos grandes artistas. Junto
ao de Dante Alighieri, onde chora a poesia e medita a estatua de
Florena, Amparo e Ernesto recordaram Beatriz e os seus interessantes
amores.

Assim se passavam os dias, crescendo nas almas dos dois jovens esse
preludio do amor que se chama sympathia.

Mas deixemos a luz d'esse esplendoroso sol de Florea, para gosar dos
poeticos raios da lua. A noite tem tambem os seus attractivos.




CAPITULO VI

Um beijo


Os nossos viajantes foram varias vezes aos theatros mais importantes de
Florena; ao de _Pergola_ que comporta duas mil e quinhentas pessoas,
que tem cinco ordens e cento e dez camarotes, ao de _Los Intrepidos_ e
ao de _Alfieri_.

O tempo passava-se sem se sentir.

D. Ventura disse uma manh:

-- preciso pensar na nossa volta para Hespanha, e contando que sempre
nos demoraremos quinze dias em Paris, no temos muito tempo para
permanecer em Florena.

Isto foi um grito de alarme para Ernesto. Era to feliz ao lado de Amparo!

Os vinte cinco dias passados em Florena tiveram para elle a durao de
um minuto. Milhares de vezes durante esse periodo esteve a ponto de lhe
assomar aos labios o segredo que se lhe occultava no corao.

O receio detinha-o. Amava Amparo com to firme, to pura paixo, que o
medo de um desengano lhe emmudecia a bcca.

Uma tarde D. Ventura sahiu para receber uma lettra. Amparo, sentada
proximo da janella, entretinha-se em colleccionar e guardar um grande
numero de desenhos, feitos pelo seu companheiro, das bellezas artisticas
que juntos tinham admirado.

Ernesto entrou no gabinete. Amparo extendeu-lhe a mo sorrindo-se:

--Bem v, senhor Ernesto, que como a nossa partida se approxima,
occupo-me em colleccionar convenientemente estes preciosos desenhos, que
conservarei toda a minha vida, pois encerram a historia d'esta
viagem encantadora, viagem que, como todas as cousas terrestres, tem que
acabar em breve.

Ernesto julgou ouvir sair um debil suspiro dos labios de Amparo. O seu
corao bateu com violencia, fez-se pallido e como receasse que as
foras o abandonassem, sentou-se n'uma cadeira ao lado da joven.

--Para que a vi em Roma?!

Esta exclamao que se lhe escapou do corao fez estremecer Amparo; mas
serenando immediatamente disse:

--Tem pena que a casualidade nos tivesse feito amigos?

Ernesto deixou cair a cabea sobre o peito. A sympathica physionomia do
pintor tinha n'aquelle momento a expresso da mais profunda tristeza.

Amparo compadeceu-se d'aquelle amante respeitoso que se no atrevia a
declarar-lhe o seu amor.

A compaixo, essa bella e delicada qualidade da alma da mulher,
apoderou-se do corao da joven, e com uma doura infinita, perguntou:

--Mas, meu Deus. O que tem, Ernesto? Nunca mais nos tornaremos a vr?

Ernesto, que sentia penetrar no fundo do seu corao a doce voz de
Amparo, levantou a cabea, fixou n'ella um amoroso olhar, e disse:

--Irei a Madrid antes do fim de setembro; mas durante esses tres mezes
que faltam, a minha alma viver em eterna solido, rodeada de triste
melancholia porque vae partir, e eu amo-a como um louco.

Amparo crou. As suas formosas faces cobriram-se d'esse encantador
carmim que to bem assenta s jovens e que tanto arrebatam e enlouquecem
os homens.

--Sim, para que occultar-lh'o por mais tempo? continuou Ernesto. Deve
tel-o comprehendido. Se os meus labios ainda lh'o no disseram, os meus
olhos tem-lh'o confessado infinitas vezes. Quando se ama pela primeira
vez, com a vehemencia filha de um amor to firme como verdadeiro, 
trabalho em vo dissimulal-o. Os olhos revelam o sentimento da alma e
atraioam-nos. No  verdade, Amparo, que j tinha adivinhado que eu
desde Roma a amava com toda a minha alma? Oh! isto certamente no era
segredo para si.

Amparo suspirou. Os seus olhos bellos, cheios de melancholica expresso,
fixaram-se com certo receio no joven, e com voz tremula e doce, respondeu:

--Sim, Ernesto, adivinhei-o e, no obstante, fui a causadora d'esta
viagem. Se em Roma nos tivessemos separado, talvez que a estas horas j
no pensasse em mim.

--No pensar em si! Isso para mim  to impossivel como seria a Tasso
no pensar em Leonor, a Raphael esquecer a Fornarina, cujo retrato
contemplmos os dois de mos dadas em Roma, e cuja copia admirmos
tambem em Florena. Para certos homens  um passa-tempo, uma nuvem de
vero carregada de mais ou menos electricidade, mas que passa e que
rapidamente desapparece; para outros, o amor  a vida,  a luz,  o ar
que d vida, fora  imaginao, alegria  alma, porque o amor  para
elle a unica luz que lhe embelleza tudo; tirando-lhe esse amor, ficam
rodeados das mais profundas trevas e morrem de tristeza.

Ernesto ia continuar quando se ouviu a voz de D. Ventura, que falava na
sala anterior com o senhor Rosales.

--Por Deus, Ernesto, disse Amparo com voz supplicante, que meu pae no
suspeite nada!

--Esteja descanada, Amparo. No receie que a importune; para amar no 
preciso ser correspondido. Esta noite estarei  meia-noite no
caramancho do jardim. Espero-a at que amanhea: se vier, a bella flr
da esperana renascer na minha alma, perfumando a minha existencia, se
no vier, manh, com qualquer pretexto, partirei para Roma e no nos
tornaremos a vr.

Amparo guardou silencio. Ernesto poz-se a arranjar os desenhos,
procurando dissimular a sua commoo.

Quando entraram Rosales e D. Ventura, os dois jovens occupados com os
desenhos, no inspiraram a menor suspeita ao honrado commerciante.

--Fazem muito bem em dispor tudo, disse D. Ventura. Entre quatro ou
cinco dias tomaremos o caminho de Frana.

--Com que ento decididamente partimos, pap? perguntou Amparo.

--Filha, ha crca de tres mezes que sahimos da nossa casa,  preciso
voltarmos a ella.

--Em verdade, senhor D. Ventura, que esta viagem tem um tanto de
traioeira, respondeu Ernesto esforando por rir-se. Emfim, brevemente
nos veremos em Madrid.

--Diga que  a melhor terra do mundo.

--Assim a reputo.

--Creio que hoje no temos nada que fazer, proseguiu D. Ventura.

--Esta noite, se quizerem, iremos ao theatro. Estreia-se uma opera em
Pergala.

--No, estou muito canado, e esta noite quero-me deitar cedo; mas se
quizer no se prenda por nossa causa.

--Convem-me ficar em casa. Temos que aperfeioar alguns desenhos,
tirados tanto  pressa, que apenas so quatro traos. Tambem fico em casa.

--Ah! esquecia-me dizer-te que estive falando com o visinho do primeiro
andar.

--Com o conde de Loreto?

--Sim.

--Dizem que  um sujeito que deu muitos desgostos  me... disse Amparo.

--Em Madrid est sempre em ordem do dia a mexeriquice: O conde de Loreto
 um rapaz como muitos outros, que se divertem quanto podem, porque teve
a sorte de herdar dos paes uma grande fortuna. Imagina que esse rapaz
tem agora 28 annos, possue uma fortuna de quinze milhes. Demais, dizem
que  muito instruido. O nosso hospedeiro no se cana de o gabar.

-- um bom hospede, disse Amparo, sorrindo-se.

Ernesto no tomava parte na conversa: desagradava-lhe ouvir elogios do
conde.

Mas deixemos correr as horas, e com a rapidez do pensamento
transportemo-nos ao jardim da casa que occupavam os nossos conhecidos.

Os relogios de Florena acabam de dar as onze e tres quartos, quando
Ernesto saltou da janella para o jardim dirigindo-se para o caramancho,
coberto de madresilva, lupulo e hera.

Dentro do caramancho haviam quatro bancos e uma mesa. Ernesto sentou-se
n'um disposto a esperar toda a noite como tinha dito a Amparo.

A lua estava em quarto minguante, o cu limpido e de um azul escuro
carregado onde as estrellas brilham de uma maneira extraordinaria.

A brisa nocturna roubava a essencia perfumada das flres, e, sempre
prodiga, espargia pelo ambiente como se tivesse envergonhado d'aquella
usurpao.

N'um relogio de torre soou a meia-noite.

Ernesto levantou a cabea, poz-se de p e foi pr-se em uma das entradas
do caramancho. O corao dizia-lhe que Amparo vinha.

A noite  em todos os paizes a protectora carinhosa dos namorados,
porque o amor, vulgarmente timido  luz do sol, cobra valor e energia
antes esses tibios reflexos que a lua envia do cu.

Ernesto, de p junto da entrada do caramancho, com uma das mos sobre o
corao e a outra languidamente cada, dirigia olhares cheios de
inquietao para o silencioso edificio d'onde devia vir a sua
felicidade, a sua dita, o anjo dos seus sonhos.

Passou-se um quarto de hora. Amparo no vinha, e os segundos passavam
com um vagar, com uma monotonia aborrecedora para Ernesto.

Por fim os labios entreabriram-se-lhe, sem duvida para dar um grito de
prazer, mas conteve-se. Vira desenhar-se entre as sombras das arvores a
encantadora silhueta de um corpo para elle conhecido, e em seguida
uns passos se ouviram na areia das ruas que conduziam ao caramancho, e
o ligeiro _frou-frou_ de um vestido que se approximava.

Ernesto sahiu ao encontro de Amparo, porque era ella; pegou-lhe n'uma
mo e conduziu-a at ao caramancho.

A joven tremia; estava nervosa e pallida.

Ernesto sentou-a n'um dos bancos procurando tranquilisal-a.

--Obrigado, Amparo, obrigado por tanta bondade. Tranquilise-se, os
homens honrados que amam como eu, sabem respeitar o objecto do seu amor.

--Ernesto, respondeu a joven, commetti uma imprudencia. Nunca devia ter
vindo.

--To pouca confiana lhe inspiro?

--Sim, muita, meu amigo, muita; de contrario no teria vindo. Mas sou
franca, no pude resistir, porque as ultimas palavras que me disse esta
tarde pareciam recriminar-me. Bem v: aqui estou, apezar de tudo. Tive
um susto terrivel. Para vir ao jardim era preciso passar pelo quarto de
meu pae; receei despertal-o. E sabe o que fiz? Pois bem, vou-lhe dizer:
saltei pela janella. Nem eu mesmo posso explicar como tive coragem para
tanto: tratava-se de me despedir de um amigo bom e leal, e no tive
animo para faltar.

Ernesto tinha entre as suas as mos de Amparo, que apertava docemente,
escutando ao mesmo tempo aquella voz encantadora que to suavemente lhe
vibrava no corao.

Nunca experimentra um prazer to completo, uma felicidade to ineffavel.

O perfume das flres, o aroma da madresilva que se espalhava n'aquelle
recinto; a luz tibia da lua, que penetrava no caramancho pelos
intervallos das folhas; aquella mulher, bella como o mais perfeito e
encantador sonho da sua alma de artista, tudo contribuia para que
Ernesto se julgasse arrebatado da terra pelos anjos e transportado a
esse paraizo de amor que tanto embriaga as pobres creaturas.

--Ha momentos de felicidade, exclamou Ernesto, que nunca deviam acabar.
Se ao homem fosse dado escolher o momento da sua morte sem passar por
suicida, eu escolheria este.

--Est louco, Ernesto?

--Quem sabe! Talvez. O amor no  outra cousa seno uma loucura sublime
que conduziu Raphael aos ps de uma moleira, Tasso a uma priso e Ovidio
a uma masmorra. A historia conta-nos tantas loucuras de amor, que seriam
necessarios muitos volumes para a descrever. Mas, feliz o que ama e 
correspondido! Ditoso o que ao dar metade da sua alma, recebe em troca
outra metade que lhe envia um peito agradecido em mutua correspondencia.

Amparo suspirou em silencio. Ernesto, julgando que esse suspiro era uma
confisso, levou aos labios a mo da donzella, imprimindo n'ella um beijo.

Amparo estremeceu sem retirar a mo.

Esta condescendencia animou o pintor.

--Vamo-nos separar, Amparo; no nos veremos durante tres mezes;
necessito ouvir antes uma palavra que inunde de felicidade o meu peito,
que deposite o perfume da esperana em meu corao. Tambem me ama?

--Ernesto, Ernesto, tudo isto me parece uma loucura, respondeu
debilmente Amparo.

--No, no  essa a resposta que desejo,  outra, meu anjo. Ama-me, sim
ou no?

--Pois bem, sim. Ha muito que o devia saber; desde a noite do Colyseu de
Roma.

Ernesto no poude conter um grito de immensa felicidade, e enlaando com
o brao a cintura da donzella exclamou:

--Juro pelas cinzas de minha me amar-te emquanto viva, e conquistar um
nome to glorioso que te sintas orgulhosa chamando-te minha.

Este juramento, esta exclamao, brotaram de uma alma de artista, cheia
de f, de enthusiasmo, de amor.

Amparo assim o comprehendeu, e, agradecida por to grande paixo,
achava-se n'um d'esses momentos de fraqueza em que a mulher no tem
foras para resistir, momentos perigosos, dos quaes s se aproveita o
homem para satisfazer um desejo, causando a infelicidade d'aquella a
quem jura um amor eterno e por quem n'esse instante faz os maiores
sacrificios.

Mas Amparo rapidamente serenou; conheceu que era uma imprudencia
permanecer  beira de to grande precipicio, e ainda que Ernesto lhe
inspirasse absoluta confiana, como elle mesmo acabava de dizer, amor
no  outra cousa seno uma loucura sublime; por isso poz-se de p e disse:

--Separemo-nos, Ernesto, estou desassocegada e por enquanto convm que o
nosso amor seja um segredo.

--J? disse o pintor, tornando a cingil-a pela cintura. Pensa, querida,
que em poucos dias nos vamos separar.

--manh nos tornaremos a vr aqui, se eu puder vir; mas hoje... hoje
no devo ficar mais tempo.

--Pois bem, sim, separemo-nos, no quero que estejas inquieta; sou
demasiado feliz para te desgostar; mas se te inspiro confiana, se
queres que seja esta a noite mais bella da minha vida, permitte-me que
selle com um beijo a mutua promessa que acabamos de fazer.

--Meu Deus, Ernesto, por compaixo! Ah! Para que vim?

O pintor estreitou docemente o desfallecido corpo de Amparo de encontro
ao seu. Aquellas duas cabeas jovens, apaixonadas, uniram-se; aquellas
duas boccas tocaram-se e o doce som de dois beijos confundidos n'um
fugiu nas azas da brisa nocturna.

Pobre Ernesto! Elle tinha dado toda a sua alma n'aquelle beijo, emquanto
que Amparo s lhe tinha feito uma esmola como paga de agradecimento que
a sua deferencia para com ella inspirava.

Amparo desprendeu-se dos braos de Ernesto, sahindo rapidamente do
caramancho.

Ernesto deixou-se cahir n'um dos bancos, murmurando em voz baixa:

--Meu Deus! Esta felicidade que sinto  demasiadamente grande para que
seja duradoura!




CAPITULO VII

Separao


No dia seguinte quando Ernesto appareceu no quarto de D. Ventura, este
disse-lhe:

--Que pallido que est? Que  isso? No se sente bem? So ms as aguas
de Florena?

--Pallido? respondeu Ernesto. Estou como sempre, estou bom.

--No, no, est com muito m cr. No achas, Amparo?

--Acho-o na mesma, pap, respondeu Amparo de um modo natural.

--Seja como fr, disse Ernesto sorrindo-se, no pensemos n'isso e
tratemos de aproveitar o tempo que nos resta.

D. Ventura, que no tinha vontade propria, pegou no Guia, Ernesto e
Amparo nos seus _carnets_ de desenho e sahiram de casa com a incanavel
curiosidade dos viajantes.

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..........................................................................

N'aquella noite foram ao theatro de _Alfiere_, onde se representava _O
pae de familia_, do celebre poeta cmico Carlos Goldoni, a quem chamavam
o _Molire italiano_.

Ao comear o primeiro acto abriu-se o camarote fronteiro ao dos
nossos amigos e entrou um joven vestido de rigoroso luto.

--Olhem, disse D. Ventura.  o nosso visinho do primeiro andar, o conde
de Loreto.

Amparo dirigiu o olhar machinalmente at ao camarote.

Ernesto, como sempre, ao ouvir pronunciar aquelle nome sentiu uma vaga
inquietao.

O conde de Loreto teria vinte e oito annos. Era alto; no podiam vr-se
com facilidade as suas feies, mas de longe parecia muito pallido,
elegante e sympathico. Era um d'esses typos distinctos que fazem com que
se fixe n'elles a atteno. Como o panno acabra de levantar, o conde
sentou-se. Durante o acto esteve ouvindo com grande atteno. Ao acabar
sahiu do camarote para no tornar.

A mais de metade do terceiro acto, D. Ventura que parecia gosar falando
do seu visinho, disse:

--Que homem to extraordinario!

--Quem? perguntou a filha.

--O conde de Loreto. Durante o primeiro acto, nem pestanejou, ouvindo
com atteno os versos de Goldoni, e durante o segundo e terceiro no
tornou a entrar, mostrando a indifferena irritante dos nossos elegantes
de Madrid em noite de estreia.

Amparo nada respondeu. Ernesto guardou silencio.

Depois da comedia representava-se uma d'essas faras em um acto que
tanto agrada aos italianos em que toma parte a figura de Polichinello;
faras vulgarmente improvisadas pelos actores que as representam.

Como D. Ventura era um bom hespanhol, no sabia passar sem o cigarro, e
sahiu do camarote para satisfazer o innocente vicio.

Ernesto e Amparo ficaram ss.

Durante alguns segundos ficaram silenciosos; ella parecia preoccupada,
elle triste.

Por fim Ernesto rompeu o silencio.

--Que tem, Amparo? Noto nos seus formosos olhos uma melancholia que me
entristece.

--Penso que em breve nos vamos separar.

--Ah! sim!  verdade! Mas esta noite...

--No, Ernesto, no; esta noite no vou ao jardim, receio que meu pae
saiba.

--Pois bem, no quero ser exigente; no sias, mas ao menos abre-me a
janella para que possa vr o luar sem testemunhas importunas; que possa
dizer-te no silencio da noite o que sente o meu corao.

--manh, Ernesto, manh, prometto-te abrir a janella para me despedir
de ti; hoje sinto-me mal; necessito descanar.

--Mas  uma crueldade roubar-me uma noite quando to poucas nos restam.

Amparo fixou os seus olhos no pintor, e compadecida da triste e
apaixonada expresso de Ernesto, disse:

--Bem, abrirei.

Ernesto fez um movimento como para se apoderar de uma mo da Amparo, mas
esta conteve-o com o olhar, exclamando:

--Que vae fazer? Que imprudencia!

Ernesto conteve-se, e s ento se recordou que se achava no theatro.

Durante a fara, D. Ventura riu-se muito. Ao acabar dirigiram-se para casa.

 uma da madrugada, Ernesto estava junto  janella do quarto de Amparo.
Chamou suavemente. A janella abriu-se. Amparo apagara a luz; assomou 
janella e comearam um d'esses dialogos, doces, apaixonados, cheios de
encantadoras trivialidades, que s tem valor aos ouvidos dos namorados.

Quando eram tres horas. Amparo disse:

--Separemo-nos j, Ernesto.

--Bem, separemo-nos, mas d-me outro beijo de despedida.

Amparo inclinou a cabea e como na noite anterior, duas boccas se
juntaram, e um beijo cheio de amorosa ternura interrompeu o silencio da
noite.

Ernesto e Amparo, durante aquellas duas horas de amoroso colloquio,
fizeram mil promessas de amor e fidelidade.

--No me esqueas nunca, disse o pintor; pensa sempre em mim.

Amparo tirou uma fita de seda com que prendia os cabellos e deu-a a
Ernesto.

--Esta fita ser a que une os nossos coraes. Pega, conserva-a.

Ernesto cobriu de beijos aquella fita, que jurou conservar toda a sua
vida como uma recordao de to feliz noite.

Quando o pintor entrou no seu quarto, pegou na penna e escreveu na fita:
_Florena, 2 de Julho de 186..._.

Depois deitou-se, e no demorou muito em gosar um d'esses sonhos de que
no quizera despertar.

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..........................................................................

Dois dias depois, Amparo, seu pae e Ernesto entravam na sala de espera
da estao. O comboio estava preparado para partir; faltavam alguns
minutos para se pr em andamento.

O pintor esforava-se por se mostrar satisfeito, mas uma enorme tristeza
lhe opprimia o corao.

Nunca Amparo lhe parecera to bella como n'aquella occasio, mas era
preciso resignar-se  separao.

Os olhares furtivos que ella lhe dirigia pareciam dizer-lhe:

--Confia e espera. Em breve nos tornaremos a juntar.

Rapidamente D. Ventura pz a sua mala de mo sobre um banco da estao e
disse:

--Oh! Aquelle no  o conde de Loreto?

Ernesto e Amparo voltaram-se.

Effectivamente, o conde estava sentado a um canto com um livro na mo, e
falando em voz baixa com um velho de cabellos brancos, gravata branca e
sobrecasaca preta que o ouvia em respeitosa attitude.

O velho era um d'esses typos proprios para mordomo de casa rica; de
parecer carregado, severo e completamente barbeado.

O conde de Loreto parecia dar-lhe algumas ordens; o velho cumprimentou e
sahiu do salo e foi para o local destinado aos despachos na estao.

Ernesto poude vr ento perfeitamente aquelle rapaz, que parecia
seguil-o como uma sombra.

Era, em verdade, bello e distincto, notando-se-lhe na pallida e
sympathica physionomia uma profunda melancholia que interessava.

A julgar pelo traje, o conde ia emprehender alguma viagem.

--Ir para Paris, tambem? pensou Ernesto, sentindo-se inquieto, mau
grado seu, ante o conde de Loreto.

A sineta deu o signal. Os passageiros dirigiram-se para a gare afim de
escolherem logares.

D. Ventura, que caminhava  frente, deteve-se junto de um compartimento
de primeira classe, e disse:

--Aqui.

E subiu adeante para dar a mo a Amparo.

N'um canto do compartimento e sobre um banco estava uma mala de viagem;
no da frente o velho que pouco antes estivera falando com o conde de
Loreto.

Era por acaso ou propositadamente a escolha de D. Ventura? Quem sabe?
Talvez que o honrado commerciante, vendo n'um compartimento de primeira
classe o mordomo do conde de Loreto, escolhesse aquella carruagem com o
firme proposito de viajar com um compatriota de sangue azul, ou talvez
no reparasse seno depois no silencioso e sympathico ancio.

Mas a escolha causou um profundo desgosto a Ernesto, que pela primeira
vez sentiu no peito a terrivel punhalada do ciume.

O pintor apertou a mo do commerciante e depois a de Amparo,
enviando-lhe toda a sua alma n'um olhar.

--At setembro, lhe disse.

N'aquelle momento ouviu-se uma voz varonil, mas doce e respeitosa, que
disse em castelhano:

--D-me licena, cavalheiro?

Ernesto deixou-o passar. O conde de Loreto cumprimentou e subiu para a
carruagem, indo sentar-se em frente do seu mordomo.

Apitou a locomotiva, e comeou o comboio a mover-se e a sahir
pausadamente da estao.

Amparo e D. Ventura assomaram  janella e acenaram com um leno ao seu
bom amigo.

Um momento depois, o comboio tinha desapparecido; mas Ernesto como se
estivesse pregado ao cho permanecia immovel e preoccupado.

..........................................................................
..........................................................................

N'aquella noite, Ernesto partiu para Roma, levando a duvida na alma e o
ciume no corao.

Pobre sonhador! Infeliz artista, que tinha trocado por um beijo, a
felicidade, a paz do seu espirito e todos os seus sonhos de gloria!




CAPITULO VIII

Caminho de Hespanha


Ernesto encerrou-se no _atelier_. Era preciso ganhar o tempo perdido;
era preciso acabar o seu quadro quanto antes e regressar a Hespanha e
sobretudo era indispensavel fazer uma obra-prima que cobrisse o auctor
de gloria, que fosse falada em todo o mundo, e que Amparo se sentisse
orgulhosa. Mas ai! o pobre artista tinha a imaginao demasiadamente
occupada, a alma pouco socegada para conseguir o seu fim.

Comtudo, fez esforos heroicos, trabalhava emquanto tinha luz, e
durante as noites, fechado no quarto, passava longas horas, escrevendo
as impresses da sua alma no meio da soledade em que vivia.

--manh, quando nos tornarmos a reunir, pensava elle, entregar-lhe-hei
estas folhas de papel em que diariamente escrevo os meus pensamentos, e
ella ver que a no esqueci nem um s instante, que a continuo amando
como nunca.

Ernesto pintra um pequeno quadro, representando a scena do caramancho,
no momento de dar e receber o beijo de Amparo. Os dois jovens, docemente
abraados, estavam illuminados pela debil luz da lua.

O grupo era encantador; respirava amor, ternura, poesia.

Era aquelle quadro uma grata recordao que a sua alma sensivel
transportra  tla.

Em volta do quadro collocou a fita que lhe dera Amparo.

Durante a noite, Ernesto passava s vezes um quarto de hora contemplando
o pequeno quadro, pendurado n'uma parede do seu quarto.

Depois pegava na penna e escrevia. Isto consolava-o.

O pintor acabou por fim o seu quadro e convidou para almoar alguns
amigos para que vissem a sua obra e dessem a sua opinio.

A opinio geral foi de que ganharia o primeiro premio.

Ernesto meneou a cabea em signal de duvida.

--Parece-me que podia fazer mais do que o que fiz, e duvido muito que o
meu quadro tenha o merito que suppem.

Os seus companheiros trataram de convencl-o de que o seu desalento, a
sua falta de confiana eram infundados.

No dia seguinte, Ernesto escreveu uma carta ao judeu Daniel.

O negociante de quadros, como sempre que se tratava de fazer algum
negocio, apresentou-se com pontualidade.

--Vou para Hespanha, disse Ernesto.

--O que quer dizer que precisa de dinheiro.

--Sim, vou expr o meu quadro; por conseguinte escolha o que gostar.

Daniel passou revista aos quadros com a sua tranquillidade costumada, e
escolheu a maior parte das pequenas telas que o pintor possuia.

Depois de ajustar e ao entregar o dinheiro, disse Daniel:

--So os artistas to pouco agarrados ao dinheiro!... E comtudo, o
dinheiro  a alma da vida. Com que ento vae para Madrid?

--Sim, senhor. manh saio de Roma.

--No museu de Madrid ha quadros de muito merito, como tambem em varias
egrejas; e se o senhor fosse um homem de palavra...

Ernesto sorriu-se.

--Se eu no soubesse o quanto me aprecia, respondeu, quasi teria direito
a offender-me com as suas palavras.

O senhor Daniel que nunca abandonava a caixa de rap, tomou uma pitada
com gravidade, e disse:

--Em Madrid existem preciosos originaes dos melhores auctores. Temos ahi
sobretudo os da escola hespanhola, e se quizesse tirar-me algumas copias
feitas com consciencia, no teria inconveniente em ficar com ellas.

--Isso depende do trabalho que tiver na minha patria.

--Ser pouco. Em Hespanha no ha costume de proteger as artes. A
politica, os touros e a bolsa absorvem a atteno dos hespanhoes. As
artes e a agricultura encontram-se em completo abandono. Para ser
artista em Hespanha, precisa ter a fora de vontade de Aristoteles, a
paciencia de Job, e o estomago privilegiado dos arabes; e para ser
agricultor a resignao de Santo Isidro, com a desvantagem de que no
tempo d'aquelle santo, os anjos desciam  terra e lavravam para que o
santo dormisse, e hoje os anjos no lavram. Mas, emfim, o senhor
pensar o que lhe convm e n'esse sentido me escrever indicando-me
os tamanhos e o preo por que m'os vende.

Ernesto comprehendendo que o judeu tinha razo, no o contradisse,
porque sabido  que sendo Hespanha um paiz agricola, no tem outra
proteco seno a da Providencia. Quando chove muito succede como no
Egypto, tem boa colheita. Quando chove pouco, os pobres lavradores
pagam o mesmo ao _protector_ governo que no se occupa d'elles e morrem
de fome; mas isso pouco importa, comtanto que se receba a contribuio,
porque n'essa desgraada nao chegou a ser impossivel encontrar-se um
governo _bom_ e _barato_.

Resumindo: Ernesto partiu de Roma, no dia seguinte, levando no quadro
uma esperana de gloria; no beijo que abrazara a sua alma uma esperana
de amor.

Tres mezes tinham decorrido desde o dia em que se separou de Amparo.
Durante este tempo, nem uma s carta recebra.

Ernesto levava, sem saber porqu, a tristeza na alma. Ha presentimentos
que perseguem o homem com a tenacidade da sombra. O conde de Loreto fra
para Ernesto, desde o primeiro dia, uma ave de mau agouro.

Deixemol-o viajar at Hespanha, e encontremo-nos novamente com a formosa
Amparo.

O corao da mulher  insondavel; no se pde definir, porque  vario e
caprichoso como a mesma natureza. Por isso Amparo, que indubitavelmente
sahiu de Florena enamorada do pintor, chegou a Paris pensando muito no
seu companheiro de viagem, o joven conde de Loreto.

Vejamos o que succedeu.




CAPITULO IX

De Florena a Paris


Fernando del Villar, conde de Loreto, depois de cumprimentar
respeitosamente com um movimento de cabea os seus companheiros de
viagem, accomodou-se do melhor modo possivel no canto, e pz-se a lr.
Em frente d'elle, grave e immovel como _El banquero de Cera_, de Paulo
Fval, estava o velho mordomo. D. Ventura pensou que com uns
companheiros to graves se iria aborrecer extraordinariamente, mas
restando-lhe a consolao de lr at que se apresentasse melhor
occasio, tirou o _Guia_ que lhe offerecra Ernesto.

Amparo, alguma cousa preoccupada com a recente despedida do homem a quem
julgava amar, fechou languidamente os olhos e entregou-se a essa doce
vida das recordaes em que o passado  o presente da imaginao.

Durante a primeira hora tudo se passou da frma por que acabamos de
descrever. Depois, como se prolongasse o silencio, Amparo, olhava
dissimuladamente o joven aristocrata que to embebido estava na leitura.

O conde de Loreto era um d'esses homens a quem as mulheres no podem
olhar impunemente, porque o seu rosto pallido e formoso, a triste
expresso do seu semblante, convida o bello sexo a fazer esses terriveis
commentarios que lhe so to peculiares.

Porque seria que sendo o conde de Loreto immensamente rico, estava to
triste? Isto pensou Amparo. E vendo atravz aquella melancholia
impropria da juventude, uma historia interessante, teve empenho em
conhecel-a.

Desde aquelle momento a felicidade de Ernesto estava ameaada da morte.

D. Ventura, que tinha passado a maior parte da sua juventude atraz de um
balco, com os olhos alegres, o sorriso nos labios, a lingua disposta a
entabolar conversao com os freguezes, aborrecia-se extraordinariamente
no meio d'aquelle silencio enfadonho e do ruido da trepidao que a
machina transmitte aos vagons.

No podendo supportar aquella situao por mais tempo, deixou o livro e
dispz-se a falar com a filha, pensando que talvez assim conseguisse
interessar o conde na conversa.

--Olha, Amparo, que delicioso panorama apresenta essa povoao collocada
assim na falda d'esse monte, exclamou Ventura. Oh! decididamente a
Italia  um paiz encantador.

--Que povo  este? perguntou Amparo.

--Diabo!  difficil de t'o dizer porque me esqueci de comprar o Guia dos
Caminhos de Ferro.

O conde levantou a cabea e assomando-a  portinhola, disse com voz
harmoniosa e clara.

--Este povoado, chama-se, se me no engano, _Santa Maria della Spina_.

Amparo cumprimentou com a cabea, como dando os agradecimentos ao conde
pela sua deferencia.

--Obrigado, senhor conde, disse D. Ventura, no tom mais amavel que lhe
foi possivel.

O conde tirou um livro da sua mala de mo, e dando-o a D. Ventura,
continuou:

--Possuo por casualidade dois Guias Geraes dos Caminhos de Ferro de
Italia e Frana. Se o senhor quer acceitar um...

--Bem vs, Amparo; isto  o que se chama viajar com sorte. Em Roma
encontrmos o bom Ernesto, que foi para ns o melhor dos _cicerones_;
aqui o senhor conde de Loreto offerece-nos um _Guia_ que tirar pelo
caminho todas as duvidas.

Fernando sorriu-se, e respondeu:

--O favor  to insignificante, que no merece a pena falar n'elle;
sobretudo, entre compatriotas e visinhos, pois creio que somos visinhos
ha um mez.

--Sim, senhor, em casa de Rosales.

--Tive o prazer de ouvir esta senhora tocar piano algumas noites; toca
admiravelmente.

--E o senhor conde, segundo me disse minha filha, toca muito bem orgo.

Amparo se pudesse teria tapado a bcca a seu pae. Mas j dissmos que D.
Ventura tinha muita vontade de falar, e sobretudo fazer-se amigo do conde.

--Ah! incommodei com o meu orgo algumas noites esta senhora?

--Pelo contrario, pelo contrario, senhor conde; ouvimol-o com muito
prazer. Abriamos as janellas para o ouvir melhor, ajuntou D. Ventura.

--O orgo, disse Amparo, tomando parte na conversa, receando sem duvida
que seu pae commettesse alguma imprudencia,  um dos instrumentos que,
quando bem tocado, expressa melhor o sentimento da musica.

--Sim, minha senhora, quando seja bem tocado, accrescentou o conde,
deixando assomar aos labios um sorriso imperceptivel: mas,
desgraadamente, no succede isso commigo; toco por curiosidade, e nada
mais. Apaixonado pela musica at ao exaggero dedico-lhe alguns momentos
d'ocio. Admiro os grandes mestres, mas em mim a musica, como em tantos
outros, no  mais do que um adorno, uma parte da educao. Toco, 
verdade, mas toco muito mal, o que  o peior.

D. Ventura estava encantado com a singeleza e naturalidade com que se
expressava o conde.

--Quizera, comtudo, disse o pae de Amparo, saber tanto como o senhor.

--Saberia muito pouco, meu amigo; sobretudo, na Italia que estamos
atravessando, onde todos so musicos.

--O senhor conde chamar-me-hia indiscreto se lhe fizesse uma pergunta?
disse D. Ventura.

--Entre compatriotas que viajam juntos na mesma carruagem deve reinar a
maior franqueza. Pde perguntar o que quizer.

--Vae directamente para Paris, ou pensa detr-se em alguma cidade de
Italia?

--Vou para Paris; j percorri tres vezes toda a Italia.

--Ento faremos a viagem juntos.

--Pelo que me considero extremamente feliz.

--Paris  o povo mais alegre da Europa.

--E tem a vantagem de que os estrangeiros em Paris encontram-se quasi
to bem como na sua patria.

--O caracter parisiense  a reunio da alegria e da amabilidade; gostam
de ser amaveis, e esforam-se para o conseguir.

--Sempre que d'isso lhes resulte alguma vantagem, continuou o conde, mas
seja como fr, passa-se admiravelmente uma temporada n'aquelles modernos
_boulevards_, onde o luxo reuniu todas as encantadoras loucuras. Oh! S
para cear uma noite no caf _Tortoni_, almoar na _Maison Dore_ e
passear uma tarde no _boulevard dos Italianos_ vale a pena fazer-se uma
viagem a Paris.

--E vae estar muito tempo na capital de Frana? perguntou D. Ventura.

--Tenho muito que fazer, disse Fernando, sorrindo-se; primeiro ouvir a
Patti na _Somnambula_, depois correr uma egua arabe nas proximas
corridas de cavallos. Quero ganhar o premio que offerece a Imperatriz,
que  uma rosa de brilhantes.

Amparo, que ouvia com prazer a conversa, ainda que no tomasse parte
n'ella, s ultimas palavras do conde, pensou que no seria pelo valor da
rosa de brilhantes que elle desejava ganhar o premio, mas para fazer com
elle uma offerta a alguma pessoa querida.

Desde aquelle momento Fernando del Villar, conde de Loreto, era para
ella um homem que comeava a espicaar-lhe a curiosidade.

--Ah! disse D. Ventura. Tem em Paris a egua que vae correr?

--Tenho em Madrid os meus cavallos, mas mandei vir para Paris a minha
invencivel _Rabeca_. Creio que assistiro s corridas.

--Teremos muito gsto desde que se effectuem dentro d'um mez, e ao mesmo
tempo uma grande alegria em que seja vencedor.

Quando se comea uma viagem, durante os primeiros momentos, mais ou
menos prolongados, segundo o caracter dos viajantes, s reina o maior
silencio; cada um pensa quem ser o companheiro da frente ou lado, mas
uma vez entabolada a conversa estabelece-se uma certa intimidade
agradavel que dura toda a viagem e s vezes toda a vida.

Durante a viagem dos nossos conhecidos, reinou a maior harmonia. Amparo
e o conde falavam de musica; o mordomo e D. Ventura, de numeros. O
honrado millionario estava satisfeito por ter encontrado to bons
companheiros.

Uma vez em Paris, como D. Ventura era um homem rico que viajava por
prazer e no tinha casa na moderna Babylonia, deixou ao conde de Loreto
a escolha do hotel onde deviam hospedar-se.

Fernando optou pelo Hotel do Louvre, e installaram-se em dois quartos
contiguos no segundo andar com toda a commodidade que offerece aos
passageiros o citado estabelecimento.

O conde quiz que se collocasse um orgo no quarto de Amparo,
offerecendo-se para lhe dar algumas lies.

--Sou muito pouco habilidosa, disse Amparo, agradecendo-lhe com um olhar
aquella deferencia.

--Ora, respondeu o conde. Para uma mestra de piano como Vossa
Excellencia nada mais facil que aprender orgo. Creia que em quinze dias
pde tocar perfeitamente.

--O que me vae custar uns oito ou dez mil _reales_, disse D. Ventura,
porque terei de comprar um.

--E nunca em melhor occasio do que agora que estamos em Paris, onde os
constructores mais afamados tem os seus armazens. manh
visitaremos alguns, com tres mil francos na carteira.

--Vejo, que tanto o senhor conde como Amparo, conspiram contra a minha
bolsa.

No dia seguinte compraram um orgo, precioso instrumento de doze
registos, incrustado em madreperola; uma verdadeira obra de arte que
custou a D. Ventura seis mil francos, e que foi escolhido pelo conde, e
o ex-commerciante no quiz deixar mal o joven aristocrata.

Pagou D. Ventura, encarregando o fabricante de lh'o remetter para
Hespanha, e no se tornou mais a falar no assumpto.

Todas as tardes Fernando dava lio de orgo a Amparo. Ao principio
estas lies foram curtas, depois prolongaram-se a duas horas.

Quando cantava a Patti iam juntos ao theatro; smente o conde ia para as
cadeiras e D. Ventura para um camarote, mas durante os intervallos o
conde visitava o millionario.

Assim se passaram vinte dias. Amparo comeava a pensar muito no conde e
pouco em Ernesto.

Quando a mulher faz comparaes, a derrota de um dos comparados 
infallivel. Vejamos como o conde de Loreto cahiu a fundo sobre o pintor.

Tudo estava preparado para as corridas.

A Imperatriz Eugenia, com toda a sua crte, devia assistir.

D. Ventura tinha conseguido a peso d'ouro, alugar uma luxuosa caleche.
Amparo mandra fazer uma elegantissima _toilette_. A festa promettia ser
das mais brilhantes. Toda a aristocracia de sangue e de dinheiro se
reunia n'aquellas corridas. Amparo desejava vivamente que Fernando
ganhasse o premio. D. Ventura, pela sua parte, dizia:

-- uma questo de honra nacional.

Ao meio dia appareceu Fernando: estava pallido, nervoso; no rosto tinha
marcados signaes de desgosto.

--Succedeu uma grande desgraa, exclamou.

--Morreu _Rabeca_? perguntou D. Ventura.

--No, respondeu, esforando-se por se rir.

--Mas o que ? disse Amparo.

--O meu jockey que est doente e que no pde correr.

-- verdade que  um contratempo. Mas no se encontrar outro?

--Outro? exclamou o conde assombrado. E quem me responde pela sua
habilidade, pelos seus dotes, pela boa f de um jockey alugado? Todos os
lees de Paris, todos os afficionados de equitao, que no so poucos,
que frequentam  noite a _Maison Dore_ e  tarde o _boulevard dos
Italianos_ conhecem _Rabeca_ e tem grande interesse em que fique
vencida; e seriam capazes de comprar o jockey que n'ella corrresse, para
que a sopeasse e perdesse. Demais isso  sriamente grave para mim. Se
no corre a minha _Rabeca_ perco cinco ou seis mil francos que apostei a
noite passada com um _lord_ que traz tambem um dos seus cavallos para a
corrida de hoje. A aposta est feita com as seguintes condies: Se por
qualquer casualidade um dos cavallos no puder correr d-se por perdida
a aposta.  preciso portanto que _Rabeca_ corra, e por isso venho
dizer-lhes que no os posso acompanhar, pois que sou eu quem a vae correr.

--O senhor? disseram ao mesmo tempo pae e filha.

--Sim, eu. Sei que  uma desvantagem para mim. O jockey do meu
adversario pesa escassamente tres arrobas:  um liliputiano, um homem em
miniatura,  o rei dos jockeys, emquanto eu pso muito mais. Mas no
quer dizer nada: a minha egua far um esforo e vencer.

--Permitta-me que lhe diga, disse D. Ventura, que se expe...

--Isso  o menos. Quando chegar  terceira volta, saltarei j
affoitamente. Tenho confiana na egua.

E o conde, depois de algumas respostas dadas aos argumentos que lhe
apresentavam os seus amigos, sahiu, despedindo-se d'elles.

Como se pde calcular o interesse de Amparo cresceu uns setenta e cinco
por cento.




CAPITULO X

A rosa de brilhantes


Uma hora depois, a caleche de D. Ventura estava parada quasi ao fim da
pista.

D'aquelle ponto tinha a vantagem de vr perfeitamente o cavallo que
chegasse em primeiro logar  meta e estar proximo do camarote imperial
onde o vencedor devia ir receber o premio.

Amparo, de p sobre as almofadas da carruagem, com a mo esquerda
appoiada no hombro do pae, percorria com o binoculo o pittoresco
panorama que a rodeava.

Parecia-lhe impossivel que se pudesse reunir tanto luxo, tanta riqueza
n'uma cidade.

Dizem os francezes que Paris  a capital do mundo civilizado, e em
verdade assim .

Quando a imperatriz Eugenia entrou no camarote, fez um signal com o
leno para que comeassem as corridas, e ouviu-se ento o sonoro som dos
clarins.

Amparo sentia palpitar o corao com violencia; deixou de olhar para o
camarote e viu na pista, no ponto por onde deviam entrar os
concorrentes, o conde de Loreto.

N'aquelle momento daria tudo quanto lhe exigissem para conceder a
victoria ao seu companheiro de viagem.

Pouco depois, ouviu-se o tropel que vinha do lado para onde se fixaram
todos os olhares, e o precipitado e forte galope de muitos cavallos
chegou aos ouvidos de Amparo como surdo rumor da tempestade que avana
com rapidez.

Comearam por admirar os cavallos; de todos os lados se ouviam bravos e
gritos de enthusiasmo, misturados com exclamaes de raiva.

Quando um cavallo passava adeante de outro, ouvia-se um rugido de raiva
que exhalava o peito do vencido.

Entretanto aquella quantidade de cavallos, deitando espuma pela bcca,
fogo pelas narinas, avanava com uma velocidade vertiginosa at ao sitio
onde estava Amparo.

Aquillo era um furaco de carne, empenhado pelo amor-proprio; parecia
que arrebatava tudo.

Amparo tremia; estremecia, mau grado seu, procurando avidamente o conde
de Loreto entre aquelles bonets de variadas cres.

Subitamente soltou um grito e fez com que D. Ventura, que contemplava
boquiaberto aquelle soberbo espectaculo, voltasse a cabea.

--Que ? perguntou elle.

--Alli, alli! exclamou Amparo. Vem  frente e traz n'uma mo o bonet e
na outra o _stick_.

--Oh! meu Deus! Que loucura! Pde cahir.

N'aquelle momento o conde de Loreto passou pela frente da caleche de
Amparo com velocidade de um raio. Mas apesar d'isso, cumprimentou-a com
o bonet.

Amparo levou a mo ao peito como para conter as palpitaes do corao.

Fernando levava pelo menos quarenta metros de avano a todos os outros
concorrentes.

Quando chegou  ultima valla, _Rabeca_ saltou com tanta facilidade como
se aquelle fosse o primeiro obstaculo. Um applauso geral resoou dedicado
ao cavalleiro e cavallo.

O conde de Loreto ganhra a rosa de brilhantes e os cincoenta mil
francos, e no tardou que no estivesse rodeado de admiradores e curiosos.

Fernando del Villar apertava a mo de alguns desconhecidos e
cumprimentava os espectadores.

O _lord_ approximou-se montando um soberbo cavallo de pura raa arabe.

--Ganhou, senhor conde, disse apertando-lhe a mo. Esta noite espero-o
para cear na _Maison Dore_, no s para lhe pagar o que lhe devo, como
tambem para lhe propr um negocio, crca da sua preciosa egua.

N'essa occasio approximou-se um dignitario da crte a dizer-lhe que a
imperatriz Eugenia esperava o vencedor.

O conde no esperou segundo convite: dirigiu a egua para o camarote
real. Grande quantidade de cavalleiros o acompanharam.

Ao chegar, Fernando desmontou-se e foi introduzido no camarote pelo
fidalgo.

--Disseram-me que era hespanhol, disse Eugenia em castelhano.

--Nasci na Andaluzia, senhora, respondeu o conde inclinando-se
respeitosamente.

--Ainda bem, somos compatriotas. Aqui tem o premio que ganhou.

A imperatriz entregou-lhe um estojo de velludo. O conde ajoelhou-se para
o receber, beijou a mo e sahiu do camarote.

Amparo no perdera o conde de vista nem um s momento. Quando viu que se
dirigia para a sua carruagem, sentiu uma commoo desconhecida, como
nunca tinha experimentado.

Fernando foi at ella, sorrindo-se.

--Bravo! bravo! exclamou D. Ventura, enthusiasmadissimo. Fazia o senhor
muito bem, caro conde, em ter toda a confiana na valente _Rabeca_.

-- invencivel, disse elle. Tinha inteira segurana, de que, a no me
succeder uma desgraa, o triumpho era meu.

E extendendo o brao, apresentou o estojo a Amparo, dizendo-lhe:

--Senhora D. Amparo, como sei que pedia a Deus para que me concedesse a
victoria, como sei o interesse que tomou, ouso pedir-lhe que acceite
como uma recordao d'este dia o premio que me acaba de offerecer a
imperatriz dos francezes.

Amparo pegou com mo trmula no estojo, e antes de ter tempo para
responder uma s palavra de agradecimento por aquella amabilidade, o
conde partiu a galope em direco a Paris.

D. Ventura estava louco de alegria.

Amparo commovida, pallida, seguiu o conde com a vista.

-- um cavalheiro, disse o commerciante.

--Sim, pap; no se pde ser mais delicado.

--Mas, vamos vr isso que tens na mo. Parece que no ests em ti.

E D. Ventura, notando que a filha corava, sorriu-se maliciosamente.

Amparo abriu o estojo: tinha um broche de brilhantes. No se podia
exigir mais gosto n'uma joia d'aquella natureza.

--Em verdade,  um bonito premio, disse D. Ventura, fixando os olhos no
broche.

Amparo guardou silencio.

..........................................................................
..........................................................................

Sigamos o conde de Loreto, que, entregando a egua ao creado, tomou um
trem de praa que o conduziu ao hotel do Louvre.

--Pdes dar-me os parabens, meu leal Francisco, disse o conde, abraando
o velho mordomo.

--Quer dizer que ganhou o primeiro premio!

--No s o primeiro premio como tambem a aposta que tinha feito com lord
Rutheney.

--Que grande alegria me d, senhor conde, disse Francisco sem perder um
s momento a sua peculiar gravidade. Temos gasto tanto dinheiro durante
a viagem!

--Ahi vens tu com os teus malditos numeros.

--Senhor, o interesse que tomo pela casa faz com que muitas vezes tenha
certas liberdades...

--Vamos, Francisco, no comeces a attribuir a ti faltas que no
commetteste. Quando o meu pae morreu disse-me: Nunca deixes Francisco;
viu-te nascer, estima-te com idolatria e  honrado e leal. Desde
ento ainda no tive de que pense que no  to grande como devia ser,
em relao ao que gasto; mas que queres... quando estiver arruinado,
quando me vir como vulgarmente se diz com a corda na garganta, ento
seguirei o teu conselho e casarei. E a proposito: Que tal te parece a
filha do nosso companheiro de viagem?

-- extremamente formosa!

--E nada mais? perguntou o conde, sorrindo-se.

--E que tem doze milhes de dote.

--O que te traz preoccupado. Emfim, at l veremos. Quem sabe se ters
razo, aconselhando-me a que case! Mas, d-me algum dinheiro; vou cear
com alguns amigos  _Maison Dore_ e talvez se jogue.

--Hontem dei ao senhor conde tres mil francos.

--Sim, e hoje no tenho nem um centimo,

Francisco exhalou um suspiro, abriu a gaveta e deu tres notas de mil
francos ao amo, dizendo:

--O tal inglez no pagar esta noite?

-- natural; mas no devo acceitar um convite com sentido no que me devem.

Fernando calou as luvas, pz o chapu, pegou n'uma delicada bengala de
canna da India, e sahiu.

A _Maison Dore_  um dos taes estabelecimentos que s se encontram em
Paris. Ponto de reunio da elegante e louca mocidade, centro d'esses
seres felizes, sempre occupados em no fazer nada; come-se, joga-se e
murmura-se, gastando dinheiro s mos cheias.

Ahi tudo se sabe, tudo se commenta; e mais de uma vez tem ficado a
honra das mulheres da moda, de mistura com o _Champagne_ e o _Rheno_
sobre aquellas elegantes mesas.

O conde de Loreto estava convidado para jantar com o lord que fizera a
aposta, que o esperava com pontualidade britannica.

Depois de cumprimentar, lord Rutheney tirou a carteira e entregou
friamente os cincoenta mil francos que perdera.

--Senhor conde, antes que comecemos a jantar, e segundo o costume
inglez, de no fazer nada depois de nos levantarmos da mesa, vou
propr-lhe um negocio. Quer vender-me _Rabeca_? Dou-lhe por ella egual
quantia  que me fez perder.

--Mylord, desejo conservl-a.

--Ento no falemos mais no assumpto.

E pediu que lhes servissem o jantar.

Durante este, lord Rutheney fez elogios  egua do conde.

-- um precioso animal, dizia. Se me pertencesse, nas proximas corridas
annunciadas em Londres, jogaria duas ou tres mil libras esterlinas com
certeza de ganhar. Pena ser se soffrer algum desastre.

Depois de jantar lord Rutheney e o conde de Loreto entraram no caf.

Depois passaram  sala do jogo e o conde sentou-se proximo ao banqueiro.

Fernando jogava forte, mas com pouca sorte.

Meia hora foi sufficiente para perder quanto trazia comsigo.

Ento voltou-se para o inglez que estava a seu lado ganhando mais de mil
francos e disse-lhe sorrindo-se:

--Mylord, fica fechado o negocio: _Rabeca_  sua.

Lord Rutheney inclinou a cabea em signal de approvao, e entregou ao
conde cincoenta notas de mil francos.

Depois, tirou tranquillamente a charuteira e d'ella um havano e
dirigiu-se pachorrentamente para a sala de fumo.

Sentou-se n'um commodo divan, e comeou a saborear o delicioso charuto.

Proximo do sitio em que se achava o conde, fumavam quatro rapazes,
conversando em voz alta.

Nenhum d'elles reparra, em Fernando.

--Desengana-te, Heitor, dizia um d'elles, o teu cavallo est muito longe
de ser o que  a egua do hespanhol, e o arabe de lord Rutheney.

--Pois apezar da tua opinio, respondeu com voz alterada Heitor,
garanto-te que se o meu jockey no tivesse sido um parvo, ganhava o
primeiro premio.

--A ti succede o mesmo que a Marco Antonio quando os seus gallos iam
combater com os de Octavio Augusto, que perdia e para consolao  sua
pouca sorte arranjava sempre uma desculpa. O cavallo de lord Rutheney
levava ao teu mais de vinte metros de avano. Emquanto ao do hespanhol
no se fala, esse no era um animal, era um raio: nem mesmo o vento
corria mais do que elle.

--Os hespanhoes, respondeu Heitor, em tom desdenhoso, tem nas veias um
sangue mixto de godo e arabe, e no  para estranhar que saibam dar
vantagens aos cavallos nas corridas. O conde de Loreto parecia um cigano
correndo d'aquella maneira.

Fernando ao ouvir estas palavras, pz-se de p e pallido, com o olhar
turvo e ameaador, dirigiu-se para o grupo que falava de si e encarando
o que acabava de falar, disse-lhe:

--O conde de Loreto sabe correr como um cigano e bater-se como um
cavalheiro.

E dizendo isto, atirou uma luva ao rosto de Heitor, que se lanou sobre
o seu antagonista.

Fernando extendeu o brao e deteve-o com incrivel facilidade.

Todos o rodearam.

Da parte do conde foi um creado chamar lord Rutheney.

--Que foi? perguntou elle.

--Quer ser meu padrinho?

--Como? Tem alguma pendencia?

--Sim, senhor. Este cavalheiro acaba de me insultar e tenho de me bater.

--Tem a escolha das armas.

--Cedo-a ao meu adversario: espero-o no caf.

Pouco depois lord Rutheney reunia-se ao conde de Loreto.

--J est tudo combinado, disse o inglez. Batem-se ao florete, manh,
s oito horas da manh, no bosque de Bolonha.

--Perfeitamente. Espero-o s seis no hotel do Louvre.

-- sufficientemente forte ao florete para se pr na frente de um
adversario que o escolhe para se bater?

--Manejo-o regularmente, e tenho pouco amor  vida; com estes dois
requisitos no me devo arrecear d'um lance. Mas se me permitte,
retiro-me. So dez horas: esta noite canta a Patti, e desejo ouvil-a,
porque manh mata-me o meu adversario.

Lord Rutheney conduziu-o na sua carruagem  Opera.

Quem visse Fernando na sua cadeira applaudindo com enthusiasmo a celebre
Patti, no supporia que elle se ia bater no dia seguinte.

 meia noite entrou no seu quarto do hotel do Louvre, sentou-se,
accendeu um charuto, e dirigindo um olhar tranquillo a Francisco,
disse-lhe:

--manh bato-me s oito horas da manh.

O mordomo recuou dois passos, e exclamou assombrado:

--Outra vez?!

--Sim,  a quinta. Quem sabe se ser a ultima? No  vontade minha;
quando menos se pensa, um insolente ou um enfatuado atravessa-se-nos no
caminho, insulta-nos, e a honra exige que nos batamos. Cinco vezes me
tem succedido isso. Prepara, pois, os meus floretes, e deita-te. Ah!
Esquecia-me. manh cedo, mandars por um creado _Rabeca_ a lord
Rutheney; vendi-lh'a; e, verdade verdade, que isso me desgosta mais do
que o duello.

Francisco fez um gesto como se fosse para falar.

--No te inquietes, no te inquietes com reflexes inuteis; o duello 
inevitavel. Quero dormir para estar fresco. Ba noite. Acorda-me s
cinco e tres quartos.

E o conde principiou a deitar-se.

Francisco sahiu triste e preoccupado.

Alguns minutos depois o conde de Loreto dormia profundamente.

O honrado mordomo no se deitou: ser-lhe-ia impossivel dormir, e
preferiu estar levantado.

s cinco horas e meia entrou no quarto do amo.

O velho esteve-o contemplando por alguns momentos. Notava-se-lhe na
triste expresso do rosto o estado do seu espirito. Receava pela vida do
amo.

Por fim disse em voz alta:

--Senhor, so horas.

O conde abriu os olhos, bocejou, e, fixando um olhar somnolento no
mordomo, disse:

--Nunca perdoarei ao meu adversario este delicioso sonho que me rouba.
Que mau costume baterem-se de manh!

Fernando vestiu-se com esmero, como se fosse fazer uma visita de
cerimonia, com a differena de que em vez do frack ridiculo e
incommodativo, vestiu uma sobrecasaca preta.

--Querido Francisco, disse o conde, dando o ultimo toque na gravata em
frente ao espelho, se o meu adversario me matar, o que  provavel, mas
no impossivel, tu te arranjars como puderes, com os meus crdores; e
visto o remanescente da minha fortuna ser para a avarenta da minha tia,
a marqueza del Ramo, aconselho-te que fiques com tudo quando te seja
possivel, porque no  justo que ao cabo de tantos annos de bons
servios, tenhas que procurar um novo amo, que indubitavelmente te no
trataria como mereces. Agora faze o favor de dizer ao creado que me
sirva o ch. Mylord no se pde demorar; so j seis horas, e  pontual
at ao exaggero.

Effectivamente lord Rutheney, acompanhado de outro amigo, entrou no quarto.

--Creio, senhores, que temos tempo de tomar uma chavena de ch, disse o
conde.

Rutheney olhou para o relogio.

--Os meus cavallos conduzir-nos-ho em menos de uma hora: temos tempo,
isto , podemos dispor de sessenta minutos.

--Creio que este cavalheiro, ajuntou o conde, indicando o companheiro do
lord, ser o meu segundo padrinho.

-- _mister_ Carlos Bobbe, meu medico e meu amigo; servir, pois, de
medico e de testemunha.

--Tanto melhor. Mas vamos ao ch.

O creado entrou trazendo uma bandeja com chavenas e pratos, que deixou
sobre uma meza.

_Mister_ Bobbe bebeu cinco chavenas de ch; lord Rutheney tres e o conde
uma.

--Quando quizerem, meus senhores, disse Fernando, vendo que os padrinhos
collocavam as chavenas na bandeja, como prova de que no queriam beber
mais.

Fernando abraou o mordomo, cujo rosto circumspecto e os olhos
arroxeados o fizeram sorrir.

--No receies, lhe disse; sahir-me-hei bem como das outras vezes. E
partiu.




CAPITULO XI

Mais um


Quando Francisco ficou s, no poude conter as lagrimas; deixou-se cahir
n'uma cadeira e chorou.

A dr do mordomo era to profunda, to verdadeira que ao entrar o creado
para o servio, nem sequer deu pela sua presena.

O creado que servia seis quartos do corredor do segundo andar era um
rapaz to diligente como desembaraado, e ao vr o profundo pesar do
velho creado do conde e que este sahira to cedo, acompanhado de dois
amigos, suspeitou tudo, mas em vez de dirigir a palavra a Francisco,
julgou que era mais conveniente confiar as suas supposies ao hespanhol
que occupava o quarto n. 14, intimo do conde de Loreto. Assim,
dirigiu-se para o quarto de D. Ventura e chamou-o.

D. Ventura ainda no perdera o costume de madrugar; estava levantado
e disposto a barbear-se. Abriu a porta, julgando que fosse o conde a
propor-lhe algum passeio para aquelle dia, e encontrou-se com o creado e
o seu eterno sorriso.

--Que ha? perguntou D. Ventura.

O creado falava, ainda que mal, o hespanhol, mas o sufficiente para se
fazer comprehender pelos hospedes.

--Cavalheiro, disse elle, sei que sou um tanto indiscreto e importuno
batendo to cedo  porta de um hospede...

--Bem, bem. Que ? perguntou D. Ventura.

--Mas sei tambem, continuou o creado, que o senhor  o amigo intimo do
senhor conde de Loreto.

--Sim, homem, sim, acaba.

--Pois bem, o senhor conde deve correr algum perigo, porque o vi sahir
acompanhado de dois inglezes; e o mordomo do conde assim que elle sahiu,
pz-se a chorar amargamente. No quero equivocar-me, mas julgo que o
senhor conde vae bater-se.

--Diabo! Bater-se? Isso  grave!

-- muito, cavalheiro.

--Mas no sabes porqu?

--S vi metter no trem os floretes.

D. Ventura sahiu precipitadamente do quarto, e entrou no do conde.

Francisco continuava prostrado na cadeira e com o rosto occulto entre as
mos.

--Que novidades temos? perguntou em voz alta D. Ventura.

O mordomo levantou a cabea. Aquelle rosto veneravel estava decomposto
pelas lagrimas e pela dr: tinha uma expresso de profunda tristeza.

-- certo o que me acabam de dizer?  certo que Fernando foi bater-se?

--Desgraadamente  certo, senhor D. Ventura.

--Diabo! No sei para que se expe a vida assim com tanta facilidade. Eu
tive pelo menos, cincoenta mil questes, e nunca tive necessidade de me
bater com pessoa alguma. Para que temos os tribunaes, se fazemos
justia por nossas mos? E demais, o que deu origem ao duello, valeria a
pena?

--No sei detalhes; s me disse que se ia bater; mas ia apostar em como
o meu amo o no provocou, pois que o conde  incapaz de offender alguem.
Oh! se o seu adversario o matasse era uma desgraa.

--Era, era! Mas tenho esperana em que no ser assim. Ora o diabo do
rapaz!...

E como o mordomo continuasse gemendo e suspirando, D. Ventura pz-se a
passear pelo quarto.

Assim se passou meia hora. Nenhum dos dois falava. D. Ventura pensou,
por fim, que seria mais conveniente esperar o resultado no seu quarto do
que junto do mordomo, cuja dr o affligia duplamente.

--E a que horas saberemos o resultado? perguntou D. Ventura.

--Creio que s nove, pouco mais ou menos.

--E so s oito! Mas, no se poderia dar parte s auctoridades para
evitar o duello?

--Se tal fizessemos, o senhor conde nunca nos perdoaria.

--Diz bem; no ha outro remedio seno esperar e conformarmo-nos com a
sorte. Ora o diabo do rapaz! Vou vr se a minha filha j se levantou, e
peo-lhe que to depressa saiba alguma cousa me avise.

O quarto de Amparo era separado do de seu pae por uma debil parede
communicando por uma porta.

Amparo ouvira entre sonhos parte do que o creado dissera a D. Ventura.

Quando este entrou j estava levantada.

--No me occulte nada, disse, quero saber tudo quanto se passa.

--Pois, filha, o que se passa  pouco agradavel. Fernando a esta hora
bate-se em duello.

Amparo empallideceu e como se lhe faltassem as foras, sentou-se n'uma
cadeira.

--Que  isso? Ests doente? Era s o que faltava.

--No se assuste; no tenho nada.

--Nada! nada! No me capacitas de que  sem motivos que perdes as
cres, commoveste-te, e isso  natural, muito natural, sim, senhora;
porque demais, o conde  um joven que se faz estimar; e se tivessemos a
desgraa de o perder, se o seu inimigo o matasse...

--Cale-se, pap, cale-se! exclamou Amparo estremecendo. No diga isso
nem a brincar.

--Sim, ba brincadeira, no haja duvida! Ora o diabo do rapaz!

D. Ventura, depois de barbeado, assomava  porta a cada momento.

Nunca o tempo lhe parecera to comprido.

Quando o relogio do quarto deu as nove horas, disse:

--J se no pde demorar.

Como se estas palavras fossem como um amuleto magico, ouviram-se os
passos de varias pessoas no corredor.

D. Ventura chegou  porta e no poude conter um grito.

-- elle? perguntou Amparo.

--.

--E como vem? perguntou a medo.

--Perfeitamente, andando pelo seu p. Ah! Louvado seja Deus!

E dizendo isto, sahiu precipitadamente do quarto, entrando no do conde.

--Venha um abrao, venha um abrao, exclamou.

O conde deixou-se abraar.

--Com que ento, foi feliz? perguntou D. Ventura com infantil alegria.
Muito folgo, muito folgo.

Fernando dirigiu um olhar de censura ao mordomo, e deixando assomar aos
labios um amargo sorriso, disse:

--Sabe ento que me bati. Pois, visto isso, s me resta dizer-lhe que o
lance foi desgraado; teve graves consequencias.

--Como? Est ferido? exclamou D. Ventura.

--No, infelizmente.

--No o comprehendo.

--Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro
se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra,
o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha
cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma
maldio est suspensa sobre a minha cabea. Tenho m mo para desafios.

E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo
abatimento.

--Conheo, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em
matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em
frente um inimigo armado que cubia a nossa vida temos o dever de
disputl-a.

Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que
parecia vivamente incommodado.

--Agradeo o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo
tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem s, pois estou
fatigado e preciso descanar.

Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderra do conde e
os seus amigos retiraram-se.

D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se
passra, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente
ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella
no conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando
relaes de amizade que iam tomando o caracter de uma paixo verdadeira.

Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto
do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se
assenhoreou d'elle algum momento.

Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a
cabea e disse:

-- uma desgraa que j no tem remedio; tenho uma mo fatal. Esta 
a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dr a um pae.

E passando a mo pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes
pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.

Francisco, o mordomo, to pallido, to commovido como o amo, entrou com
uma luz na mo.

--Bas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.

--Bas noites, Francisco. J sabes; matei um homem.

--E todavia o senhor tinha-me dito que no mais se bateria ainda que o
insultassem.

-- verdade; jurei no me bater, mas para que ninguem duvidasse de que
sei defender o meu decoro, no me pude conter, e agora arrependo-me. Ah!
se fosse em Hespanha no me tinha batido.

--O remedio que ha, disse Francisco,  esquecer o passado.

--Isso  mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa
d'ao, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. S a
morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: j no tem
remedio. Prepara tudo, que manh sahiremos de Paris. Necessito, pelo
menos, afastar-me d'esta terra.

--E para onde vamos, senhor?

--Para Hespanha.

--Est bem.

Fernando del Villar exhalou um suspiro e sahiu do quarto dirigindo-se ao
de Amparo.




CAPITULO XII

Como se pede


O piano  um grande recurso para aquelles que possuem e sentem na alma
as doces e gratas impresses da musica, essa linguagem universal a que
renderam tributo at os proprios deuses.

Amparo estava tocando. Tinha na estante a partitura da _Estrangeira_,
mas os dedos percorriam machinalmente o teclado, e os olhos fixavam-se
distrahidamente nas notas.

A musica para ella n'aquelle momento no era mais do que um grato ruido,
adormecedor, como o sussurro cadencioso de uma fonte que convida 
meditao.

No pensava quasi nada no piano, muito pouco na partitura que tinha ante
si, mas muito no conde de Loreto.

De Florena a Paris, isto , trinta e seis horas de comboio, foram
sufficientes para a formosa hespanhola se enamorar.

Antes d'esta viagem a casualidade collocra, ainda que momentaneamente,
no palacio de Mdicis, Fernando e Amparo; depois em Paris as corridas de
cavallos e o duello reforaram a ideia fixa que comeava a dominl-a.

N'este momento Amparo estava s. D. Ventura sahira, depois de lhe contar
tudo quanto sabia referente ao desafio do conde.

Tocava, pois, piano, pensando no seu companheiro de viagem, quando ouviu
passos atraz de si; voltou a cabea, e encontrou-se com Fernando que lhe
dirigiu um cumprimento respeitoso e um sorriso cheio de tristeza.

--Bas noites, senhora D. Amparo. Talvez a venha incommodar, disse o conde.

--Incommodar-me? respondeu ella, parando de tocar. Pelo contrario. Bem
v que estou s... Meu pae  um valdevinos; abandona-me e ento o piano
 o meu recurso. Mas que tem? Est mais pallido que de costume, e
noto-lhe uma expresso de tristeza na physionomia.

--Suppunha que no ignorava a desgraa que me succedeu hoje, e venho
despedir-me.

--Como? abandona Paris?

--manh.

--To depressa.

--Pensava passar aqui alguns mezes, mas agora -me impossivel; necessito
vr outro sol, respirar outro ar.

--E para onde vae?

--Para Hespanha.

--Ento, sr. conde, no tardar muito que nos vejamos l, porque, apezar
de tudo, creio que o cu de Hespanha  o melhor de todos.

--Diz muito bem, e sobretudo quando no cu de Paris a imaginao
preoccupada v algumas manchas de sangue que perturbam o socego e roubam
a paz de espirito.

--Verdadeiramente,  uma desgraa que as leis da honra imponham aos
homens deveres to desagradaveis. Meu pae contou-me tudo, e posso
garantir-lhe que to desgraado acontecimento me penalizou bastante.

O conde sentou-se n'uma cadeira proximo do banco de Amparo.

--No parece seno que me persegue algum genio fatal, disse elle, como
se falasse comsigo. Quando o destino me colloca ante um homem com a arma
homicida na mo, juro-o pela memoria de meu pae, sempre preferi morrer a
matar, e expuz generosamente o peito ante o perigo, sem me preoccupar em
evitl-o. Mas indubitavelmente uma fora superior  minha vontade guia a
minha mo, e sempre vejo cahir sem vida o meu adversario. S a
primeira vez que me bati tive desejos de sahir vencedor; era uma
creana, e a vaidade e o amor proprio cegavam-me. Ento tive a desgraa
de matar um amigo intimo, um antigo condiscipulo. Pobre Arthur! E
sobretudo, pobre me aquella, em cujos olhos no mais se lhe sccaram as
lagrimas, at que a dr a conduziu ao sepulchro!

O conde deteve-se. Bastava vr-lhe o semblante, ouvir-lhe o timbre da
voz para comprehender o estado do espirito. Amparo escutava-o
interessada e sem se atrever a interrompl-o.

O conde, mudando de tom, continuou.

--Com franqueza, no sou ridiculo? Vim despedir-me de V. Ex., e
estou-lhe contando historias que s a podem commover; mas ha dias em que
se apodera de mim uma tristeza to grande que no sei falar de outra
coisa seno da minha vida passada, ou o que  o mesmo, dos meus
remorsos, porque os sinto, senhora D. Amparo, e a minha sorte 
duplamente desgraada porque no tenho uma pessoa, que sendo depositaria
das minhas amarguras, me console com os seus conselhos.

--Senhor Fernando, exclamou a joven verdadeiramente commovida, receando
que s o desespero fosse o motivo da melancholia do conde; senhor
Fernando, se julga que posso ser essa amiga, apezar da minha pouca
experiencia do mundo, no me occulte nada e honre-me com a sua confiana.

--Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, pde ser para mim o
anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo,
conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu
errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me
comprehenda, um corao bondoso que palpite com o meu e que se compadea
de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O
bulicio do mundo no  sufficiente para distrahir a tenacidade do meu
pensamento, a soledade da minha alma. Para esquecer o passado
necessito que comece para mim uma vida nova;  indispensavel regenerar o
meu corao, porque no pde calcular a persistencia com que me persegue
o infortunio. Um anno depois do meu desgraado lance com Arthur a quem
matei, estava na Italia, precisamente em Florena, no palacio de
Mdicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...

O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabea, e exclamou:

--S uma creana ou um louco seria capaz de entabolar similhante
conversao; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha
senhora, e perde-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto
manh, talvez que nos no tornemos a vr mais, porque, j lhe disse,
como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me
comprehenda, que se una  minha e que me d parte da sua paz, da sua
tranquillidade, da sua seiva. Ao vl-a, disse:  este o anjo que
cubio. Mas creio-me indigno de merecl-o; e j que o segredo do meu
corao assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora
teria j comprehendido que a amo, e s me resta supplicar-lhe que no me
guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir
apertar-lhe a mo como amigo.

Se Amparo no tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se no estivesse
disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido to rara como
incoherente a declarao que o conde lhe acabava de fazer.

Mas Amparo amava o conde, e no se enganava ao pensar que era amada por
elle. Por isso, aturdida, trmula, com voz commovida e pouco firme, o
olhar fixo no cho, extendeu a mo a Fernando e disse:

--Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade,
confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos
para Hespanha.

O conde soltou um grito, pegou na mo que Amparo lhe offerecia, e
cobriu-a de beijos.

..........................................................................

N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mo da filha.

O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante
pedido lhe causava. Era-lhe to agradavel ouvir chamar  filha
condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condies
de D. Ventura.

Mas, ainda assim, no se precipitou: ouviu com apparente serenidade o
pedido, e concedeu o seu consentimento, depois de ouvida a opinio da
filha.

Quando o conde sahiu, D. Ventura foi ao quarto de Amparo.

--Venho dar-te uma noticia surprehendente, inesperada, talvez agradavel.

--O que  pap?

--Que o conde parte para Hespanha.

--J sabia.

--J sabias?! E quem t'o disse?

--Elle proprio.

--Mas sabes que quer partir manh, se isso lhe fr possivel?

--Sim.

--E sabes tambem que me pediu a tua mo?

--Calculava tambem, meu pae, accrescentou Amparo, sorrindo-se.

--Por conseguinte atraioaram-me?

--O que perdoar, porque  muito generoso.

--Ser possivel que todos os paes sejam malucos?

--Malucos s no preciso, isto , d'alma e corao.

--Sim, sim. Mas, dize-me que lhe hei-de responder.

--Responda-lhe que sim,  o mais logico.

--E o casamento.

--Celebrar-se-ha em Madrid.

--Claro. Quem se casa em Frana residindo em Hespanha?

--Pois ento j sabe; quando o conde lhe perguntar pela resposta
definitiva, diga que sim e  assumpto concluido.

--Mas olha, Amparo, agora que j se pde dizer que s a promettida
esposa do conde de Loreto, vou contar-te uma cousa. Em Florena, suppuz
que tu e Ernesto se amavam; mas assim  melhor; enganei-me, com o que
muito folgo, porque, minha filha, n'estes tempos  mais acceitavel para
marido um conde rico, do que um artista pobre. Ernesto pinta muito bem,
mas no tem uma peseta.

Amparo ao recordar-se de Ernesto commoveu-se; mas a commoo foi
passageira, como a ave que cruza sobre a nossa cabea para no mais voltar.

Dois dias depois, um compartimento de primeira classe conduzia a
Hespanha com a velocidade da locomotiva os nossos conhecidos. Era o dia
28 de junho.




CAPITULO XIII

Os tres amigos


Dois mezes depois dos ultimos acontecimentos que acabamos de narrar,
isto , no dia 1 de setembro s seis horas da manh, dois rapazes
passeavam na gare da estao do sul, esperando o comboio correio de
Alicante.

--Garanto-te, dizia um d'elles, que Ernesto traz um grande quadro.

--E eu concedo-lhe o primeiro premio, ainda antes de o vr.

--Tem muito talento.

--Sim, mas segundo pude perceber nas suas ultimas cartas, est enamorado.

--O amor abre muitas vezes o caminho.

--Quando nos no conduz a precipicios horriveis.

--Isso tudo depende da mulher que o inspira.

--Dizes bem; ella faz do homem ou um heroe ou um parvo, mas quasi sempre
o segundo caso.

--No te concedo voto no assumpto.

--Como! Collocas-me fra das leis do sentimento humano?

--Sim, porque s um exaggerado e odeias o sexo fraco.

--Tenho motivos para isso. Procurei estudar a mulher e estou convencido
de que para ellas o mais importante  a exterioridade. Uma gravata bem
posta, brilhante e bem feita bota de polimento; n'uma palavra um _dandy_
adamado e escravo da moda, e que tenha o cabello sempre bem apartado,
tem muitas probabilidades de ser amado; emquanto que um homem de
verdadeiro merito, que cuide mais da sua intelligencia do que do seu
traje, fica sempre derrotado em questes de amor. A historia
apresenta-nos milhares de exemplos: todos os homens que honraram a sua
patria no tiveram a quinta parte das aventuras amorosas de Lovelace,
cuja arte se reduzia em fazer olhares ternos e trazer magnificas
fivellas de prata nos sapatos.

--Ovidio foi amado por uma princeza.

--Quase esqueceu d'elle ao vl-o n'uma masmorra.

--Tasso foi amado por uma fidalga.

--Que lhe no mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa
estava no calabouo escrevendo, _Jerusalem libertada_. Mas tu s me ds
dois exemplos. Olha, Andr, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande
figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um
imberbe creanola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pr ao
conquistador do mundo, uma cora que no era por certo de louro. Pobre
Cesar! Como era calvo, a sua cabea estava sempre ameaada.

Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem
conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava Andr,
ambos amigos intimos de Ernesto e a quem este remettra de Alicante
um telegramma avisando-os da sua chegada.

Marcial e Andr viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um
creado para ambos e comiam no caf Suisso.

O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de Andr, os
pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e
tanto Marcial com os seus dramas; como Andr com os seus quadros,
ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia
de alguns companheiros.

Mas continuemos na gare, que no tardar que visitemos a mansarda da rua
do Prado.

O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio
entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discusso e dispuzeram-se a
abraar Ernesto.

Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lanou nos
braos dos seus amigos.

--Agora que j te abracei, digo que te acho muito abatido, disse Marcial.

--Effectivamente, estavas melhor quando partiste de Madrid, ajuntou
Andr. Roma contina a ser uma cidade doentia.

--Pois estou bom, completamente bom, e com um appetite devorador,
respondeu Ernesto; mas, quando se va de Roma a Civita-Vecchia, de
Civita-Vecchia a Marselha, de Marselha a Alicante, de Alicante a Madrid
sem descanar nem uma noite, e quando de mais temos a infelicidade de
enjoar no mar, creio que se no pde exigir a um corpo como o meu, magro
e doente, que se apresente ante os seus amigos com as bochechas e a
barriga de Sancho.

--Mas porque no vieste por Paris?

--Tinha pressa de chegar a Madrid, e receei demorar-me na capital do
visinho imperio mais do que podia. E bem sabes que breve se fecha o
praso para a apresentao dos quadros; chego, pois, a tempo.
Arranjaram-me casa?

--Tens a nossa. Ns temos casa.

--Tenho quarto?

--Vivers como um principe desthronado, no te apoquentes.

--Conduzam-me, ento, para onde quizerem.

--E a tua bagagem?

--Reduz-se a uma mala, dois caixotes com quadros, e a tela que venho
expr, que vem enrolada em um cylindro de madeira. Aqui est a guia.

--D-m'a. Pepe encarrega-se de tudo.  um rapaz muito esperto.

Os tres amigos sahiram da estao, entregaram a guia ao creado que se
chamava Pepe, e subiram para um trem.

Para chegar  mansarda dos artistas era necessario subir noventa e seis
degraus.

Uma vez vencida a difficuldade dos noventa e seis degraus, a mansarda
occupada pelo pintor e pelo poeta era alegre como uma manh de maio.

Alli respirava-se o ar puro; d'alli o cu parecia mais azul e a vista
espairecia contemplando as arvores do Retiro e do Prado.

Andr fizera da sala o seu _atelier_, onde tudo se encontrava n'uma
desordem encantadora e propria do genio.

Marcial reservara a saleta para escriptorio. Ficava ainda a casa de
jantar bastante grande, outra sala, dois quartos e a cosinha.

A segunda sala estava adornada com moveis alugados para receber Ernesto.

Devemos advertir que era uma d'essas mansardas decentes, que tem fogo
em todas as casas, e que rendem ao senhorio oito mil reales por anno.

Quando os tres amigos se installaram na sala que servia de _atelier_ a
Andr, este disse:

--Aqui tens o nosso palacio, que de hoje em deante ser tambem teu, se 
que desejas viver comnosco.

--Est claro! Acceito uma parte da casa, porque vejo que tem um
grande _atelier_ e admiraveis luzes para trabalhar.

--O que quer dizer que vens disposto a continuar com os pinceis.

--Bem sabes que so elles o meu unico patrimonio.

--Ai! Ernesto, por desgraa, em Hespanha a pintura pouco rende.

--Bem sei; mas trabalhando muito, espero no morrer de fome.

--Morrer de fome, estando comnosco!? exclamou Marcial. Isso no  facil;
aqui os bens so communs e d'esse modo nunca nos falta nada. Demais o
teu quadro ser premiado, tu ficas rico, garanto-t'o eu.

--No confio em promessas de poetas.

--O tempo te convencer de que laboras n'um erro. Mas tratemos de outra
coisa. Que tal te dste em Roma?

--Bem como sempre. Roma  a minha patria.

--Sim,  a patria dos artistas. Mas agora dize-me com franqueza, tu
tiveste o mau gosto de te enamorares?

--Meu caro Marcial o amor no  outra cousa do que uma contribuio que
todos pagamos, mais tarde ou mais cedo.

--Em boa hora o fosse. Eu procurarei pagl-o o mais tarde possivel. Mas
com o direito que me concede a boa amizade, permitte-me que te continue
a interrogar.

--Pergunta o que quizeres.

--Amas?

--Creio que sim.

--Vamos vr. Quantos graus attinge o teu amor?

--Muitos, respondeu Ernesto, sorrindo-se.

--E quem  ella?

--Se me permittem, guardarei segredo.

--No ha inconveniente; mas sem dar nome ao santo, creio que nos pdes
dar alguns pormenores.

--Isso  diverso.

-- nova?

--Vinte annos.

--Formosa?

--Como o mais bello sonho d'um pintor.

--Bem, bem, a arte deve ser irm da belleza.  rica?

--Sim, por meu mal.

--Diabo! Isso no se explica.

--Digo por meu mal, porque se fosse pobre como eu, j seria minha mulher.

--To enamorado ests?

--Para que negl-o? No tenho segredos para vocs, que so os meus
unicos amigos: amo-a com toda a minha alma.

--De frma que, quando terminar a exposio, regressas a Roma.

--No, porque ella vive em Madrid.

--Anh! Isso  diverso; do mal o menos. Esperamos que nol-a apresentars
quando j no fr segredo o teu amor.

--Prometto-o, to depressa alcance o consentimento do pae. Por agora s
lhes peo uma cama onde me deite algumas horas, porque estou muito
moido.

--Tens razo, vem. Ns mesmo te vamos acompanhar ao quarto que te
reservmos, mas no consentimos que durmas at muito tarde, porque
convidmos uns amigos para almoar.

--Acordem-me quando quizerem.

Um quarto de hora depois dormia docemente emballado pela gloria e pelo
amor.

Pobre Ernesto! Como estava longe de imaginar a volubilidade da creatura
a quem entregra toda a sua alma n'um s beijo!




CAPITULO XIV

Curiosidade no satisfeita


Emquanto Ernesto dormia, os seus amigos collocaram convenientemente a
tela que o pintor trouxera de Roma.

--Magnifico! exclamou Marcial ao vl-a. Estou crente que na Exposio
no apparecer nada melhor.

-- uma grande obra, ajuntou Andr, contemplando o quadro com olhos de
entendedor. Ernesto obtem o primeiro premio.

--Mas espera. J vi esta cabea de mulher em alguma parte, disse o poeta
fixando uma das figuras do primeiro plano, que representava a rainha
Esther.

--Eu tambem, ajuntou o pintor.

--Recordemo-nos onde.

Mas de repente deu uma palmada na testa, e exclamou:

--Espera, j sei! Esta cabea no  outra seno a de uma menina que
conheo e que mora em Madrid.  a filha do milionario D. Ventura
d'Aguillar.

--Ah! Sim! Aquelle sujeito que vem muito ao Suisso e que  to amigo dos
artistas.

--Esse mesmo.

--E que faz esse senhor?

--No o vejo desde o inverno passado. Deve andar viajando.

--Preoccupaes dos ricos durante o vero.

--Sabes que examinando este magnifico retrato me assalta uma suspeita?

--Qual ?

--Que seja a linda Amparo o amor de Ernesto.

--Tambem me parece que tens razo em o suspeitares, visto que no ha
muito ainda nos disse que ella era rica.

--Decididamente est decifrado o enigma.

--Sendo assim, sou de opinio que Ernesto deve dar, o mais breve
possivel, o n gordio.

--Nunca! Um artista de merecimento, um homem de talento deve ser
solteiro toda a vida; o matrimonio  um obstaculo para a sua gloria.

--Seja como fr, o quadro  admiravel.

--E devemos confessar que Ernesto ser uma gloria nacional.

--O quadro produzir um effeito grandioso; tambem eu no esperava menos.

--Se Ernesto encontrasse um Cosme de Mdicis, tinha a fortuna feita.

--Desgraadamente para os pintores aquelles tempos passaram.

--Sim, dizes bem.

s onze horas chegaram tres amigos de Ernesto, pintores tambem, que
estavam convidados para almoar com Marcial e Andr.

Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora
que passaram entretidos a contemplar o quadro.

Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama
entre applausos, felicitaes e abraos dos amigos.

Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:

--Hoje estou com os meus amigos; manh... oh! manh irei vl-a ao seu
palacio de Caramanchel.

Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.

Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava
encommendado o almoo.

Os poetas e os pintores so to pobres de dinheiro como ricos de
imaginao. Quando a venda de um quadro ou a estreia de uma pea
lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo
desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela
intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses
sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da
gloria e pela interminavel melodia das suas illuses.

O restaurant do Arminho hoje j no existe; ha ainda pouco tempo que
fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fr,
occupemo-nos do primeiro.

O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, no era frequentado por
pobres ou economicos. O servio era  lista, e os pratos caros, mas bons.

Os frequentadores sabiam que um simples almoo lhes custava um par de
duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, no s os manjares que
depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o
servio de prata em que eram servidos.

N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um
lado, emquanto que do outro alguns desgraados morrem de fome.

Marcial encarregra-se do almoo. N'aquelle dia os estomagos dos amigos
estavam  sua disposio. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de
que devia compr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as
sobremezas e os vinhos.

Os seis jovens, alegres e cheios de illuses, tinham bom apetite;
comeram como quem no sente remorsos na consciencia, falaram de
pinturas, de theatros, de mulheres.

Ernesto ouvia com certa satisfao os seus amigos; fallava menos do que
elles sem duvida, porque tinha a imaginao mais preoccupada.

Quando chegou o _Champagne_, o vinho da alegria, do amor, quando
comearam os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com
um copo na mo, e disse:

--Brindo pelo original que serviu de modelo ao nosso amigo para
pintar a formosa figura de Esther no quadro que ser a admirao de Madrid.

Todos esvasiaram os copos.

--E se essa figura que tanto celebras fosse uma creao minha? disse
Ernesto, sorrindo-se.

--Ento, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creaes
do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar,
pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que
no consumarei o sagrado lao do matrimonio sem que encontre uma de
carne que seja egual  do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que j
vi a tua Esther com trajes  moderna.

--Ests enganado, respondeu Ernesto com embarao.

--Senhores, disse Andr, levantando-se, eu, em nome da fraternal amizade
que nos une, peo que respeitem o silencio do nosso amigo.

--Pois eu, pelo contrario, peo que nos conte todos os seus segredos,
exclamou um dos convidados. Entre amigos como ns, tudo  commum, at os
segredos.

--Tem razo. Ernesto no deve ser avarento dos seus segredos, j que
nunca o foi da sua bolsa.

--Fala!

--Conta-nos o que fizeste em Roma desde o dia em que pisaste a cidade
eterna, at ao momento em que partiste para nos trazeres o melhor quadro
que vero os contemporaneos.

--Sim, conta-nos a historia dos teus amores.

--Basta, senhores! exclamou Ernesto, estendendo os braos para
restabelecer a ordem. Quem diabo lhes disse que estou enamorado?

--Foi Marcial.

-- uma calumnia.

--Podemos provar-te o contrario.

--De que maneira?

--Apresentando-te o original da tua Esther.

Ernesto estremeceu.

--N'esse caso, s se poderia attribuir a uma casualidade, disse
inquieto.

--A amizade no deve ser exigente, disse Andr desejoso de livrar o seu
amigo d'aquelles apuros. Visto que Ernesto no conta, respeitemos o seu
silencio, e tomemos caf.

--Sim, sim; tomemos caf, ajuntou Marcial, e com pouco assucar, para que
allivie um pouco a cabea, dissipando os vapores do vinho!

--Isso  um insulto; chamas-nos _piteireiros_.

--Pde ser que tenhas razo, disse outro. Apesar de tudo, o piteireiro 
um ser feliz.

--Que seria dos homens se no existisse o vinho?

--Uma sociedade de paes graves.

--Um vasto cemiterio.

--Viva o vinho!

--E os homens despreoccupados, que se no importam de se embriagarem!

--Viva a Inglaterra, onde a embriaguez  respeitada.

--E est na ordem do dia.

--Ah! Ns, os hespanhoes, somos uns hypocritas; criticamos os
piteireiros, mas bebemos vinho.

Desde aquelle momento a conversa dos seis rapazes foi to animada, to
alegre, que nos seria difficil reproduzil-a.

Contos, anecdotas, escandalos da capital, tudo serviu de assumpto, em
redor d'aquella mesa, onde fumegava a digestiva _moka_ e o estomacal
_cognac_.

s seis da tarde abandonaram o restaurant, e dirigiram-se para
Castelhano. Necessitavam respirar o ar fresco do campo.




CAPITULO XV

Carta interrompida


Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em _Carabanchel
de Arriba_; mas no nas elegantes e luxuosas habitaes, pois que Amparo
que  quem procuramos, est n'um caramancho situado no extremo de uma
recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.

Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de
vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastar dar-se ao incommodo de
lr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.

Leiamos, pois:


                                                    Minha querida Luiza

    Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto , ha um
    mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora
    que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia
    em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.

    Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabea, e
    aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma
    necessita da doce quietao que me rodeia, para poder expressar-te
    toda a immensa felicidade que sinto.

    Ah! Luiza, j sei que amas um homem, e que s egualmente amada por
    elle. Porque se no casam? E porque no veem para o campo?

    Ignorava que no corao d'uma creatura o amor infundisse uma
    felicidade to ineffavel como a que experimento.  bem verdade que
    Fernando, meu marido,  o melhor dos homens.

    Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para
    commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno
    paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e
    Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural at o
    mais estranho e excentrico.

    Muitas vezes pergunto a mim propria se esta felicidade poder durar
    muito. Mas porque no ha de durar? Quando o amor  verdadeiro, dura
    tanto como a vida. Que digo? Mais do que a vida, pois acompanha a
    alma at  eternidade.

    Mas vou-te falar de Fernando a quem s conheces superficialmente.
    Imagina, querida Luiza, um rapaz bonito, com um corao de anjo, a
    quem os genios da musica e da pintura bafejaram em creana, pois que
    Fernando  musico e pintor.

    Toca orgo de uma maneira admiravel, e desenha quasi to bem como
    Gustavo Dor, cujos bellos trabalhos conheces.

    Junta a isto uma bondade sempre disposta a comprazer e poders
    imaginar quem  o homem que me coube por sorte para companheiro de
    toda a minha vida.

    Demais, Fernando tem uma conversao que fascina.

    Quando de noite passeamos pelo jardim de brao dado, deleita-me
    ouvir-lhe os planos que formulou para que a minha felicidade seja
    mais duradoura.

    Se soubesses as viagens encantadoras que projecta para a proxima
    primavera!...


Estava a carta n'este ponto, quando Amparo ouviu pronunciar o seu nome;
levantou a cabea e no poude conter um grito.

Tinha na sua frente, seu pae e Ernesto.

D. Ventura, alegre e risonho como sempre; o pintor pallido como um cadaver.

Amparo ao vl-o, deixou cair a penna da mo, exclamando:

--Ah!  o sr. Ernesto!

--Elle proprio, respondeu D. Ventura, collocando familiarmente uma mo
no hombro do pintor. Surprehendeste-te, no  verdade? Pois olha que a
mim tambem me succedeu o mesmo, apezar de o esperar mais dia, menos dia,
visto a exposio abrir em meados do mez.

Durante este curto dialogo, Ernesto guardou silencio. Os olhos tinha-os
fixos em Amparo e os labios entre-abertos deixavam assomar um sorriso
to amargo como doloroso.

Amparo por sua parte, parecia perturbada. A presena inesperada de
Ernesto produzira-lhe um effeito desagradavel. Nos olhos d'aquelle homem
estava o ameaador olhar do amante offendido.

Aquelle homem era para ella um terrivel presagio, um vivo remorso.
Desejava estar a cem leguas d'alli.

--Sem duvida, que viemos importunar esta senhora, disse Ernesto
procurando dominar-se.

--No, senhor Ernesto; escrevia a uma amiga, e tenho tempo. S  noite 
que parte o correio.

--Demais, disse D. Ventura, o senhor no  uma visita importuna para
ns, mas um bom amigo a quem tratamos com o maior prazer e recebemos
sempre com satisfao. Se assim no fosse commetteriamos uma ingratido.
De frma nenhuma se esquecem facilmente as nossas excurses por Florena
e Roma.

Innocentemente D. Ventura feriu no mais recondito o corao da fllha.

--Creio, senhor Ernesto, que concluiu o seu quadro que vimos comeado em
Roma, disse Amparo.

--Sim, minha senhora, concluio-o, e espero depois de manh,
requerer um logar para a proxima exposio.

--Onde iremos admiral-o e orgulharmo-nos, porque somos amigos do pintor,
ajuntou D. Ventura.

--Quem o duvida?

--Mas dize-me: onde est o teu marido. Desejava apresentar-lhe Ernesto.

--Fernando foi esta manh a Madrid e no volta seno  tarde.

-- pena; mas tudo se pde remediar, ficando Ernesto e almoando comnosco.

Decididamente D. Ventura parecia disposto a atormentar a filha.

Ernesto comprehendeu que Amparo desejava vr-se livre da sua presena,
mas a noticia inesperada do seu casamento, causra-lhe to terrivel
effeito, que acceitou o almoo que lhe offerecia D. Ventura, s pelo
prazer de atormentar aquella _coquette_ que brincra com o seu corao
para depois o despedaar.

O almoo ia ser egualmente terrivel para os dois, mas Ernesto devorado
pelo ciume, pela raiva, pelo desespero, estava resolvido a soffrer tudo.

Acceite o convite, D. Ventura, que no sabia estar quieto em parte
alguma, teve ainda outro ensejo mais lamentavel para atormentar a filha
do que os anteriores.

--Ernesto  como da familia e como fica para almoar, vou dar as ordens
necessarias e escrever duas cartas; passeiem pelo jardim, que eu venho
buscal-os depois.

E dizendo isto dirigiu-se precipitadamente, para casa.

N'aquella occasio Ernesto daria a D. Ventura, a vida, e at a gloria;
tinha necessidade de falar com Amparo sem testemunhas, de ouvir uma
explicao da sua conducta; e demais, continuar o fingimento, a
dissimulao, seria impossivel.

Quando n'um peito cheio de juventude e apaixonado se levanta essa
terrivel tempestade do ciume,  difficil dominl-a, chega o momento
em que, esquecendo-se dos deveres sociaes, estala e produz um conflicto.

Ernesto, ao vr-se s, suspirou com fora.

Amparo comprehendeu a sua situao e conhecendo o generoso corao de
Ernesto, juntou as mos, deixou assomar aos olhos duas claras e
transparentes lagrimas e com voz commovida, disse:

--Pela memoria de sua me, pela recordao d'aquellas noites imprudentes
de Florena, rogo-lhe, Ernesto, que se esquea de tudo e me perde.

O pintor fixou um olhar intenso, sinistro, n'aquella mulher que nunca lhe
parecra to bella, e dominando-se, mas estremecendo ao mesmo tempo,
como se o fosse a acommetter um ataque nervoso, disse:

--Perdoar,  facil; basta ter um corao grande e generoso; esquecer 
impossivel, senhora, quando se tem uma alma como a minha, quando se
sente na bcca o fogo de um beijo que ha de causar a minha desgraa e a
minha morte.

E levando a mo  cabea, em tom desesperado, exclamou:

--Tudo isto  um sonho!  impossivel que isto seja realidade! Que mal
fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o cu, me lance no
abysmo do desespero?

--Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheo que fui uma imprudente,
que sou culpada, mas que quer...

--Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem
Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e
o seu,  um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se
eu n'este momento em que a vida me  indifferente, commettesse um
d'esses crimes que lana o desespero nos homens, seria mais desculpavel
ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.

-- verdade,  verdade! murmurou Amparo, escondendo o rosto nas
mos. Pde-me matar se lhe apraz.

--No tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me
defender. At ainda ha pouco a esperana, essa bella flr da vida que
tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu corao,
porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de
ternura, illuminava todo o meu sr; mas, agora, encontro-me subitamente
mergulhado na mais profunda escurido. Foi tudo um sonho, tudo uma
mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florena foram momentos
passageiros de delirio, entretenimento de mulher _coquette_, esmola
concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade
de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a
minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido
compaixo de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta,
dizendo-me: Ernesto, esquea tudo quanto se passou entre ns; vou
casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o,  um compromisso que
no posso evitar... uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque
ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas no; a senhora,
pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas
illuses. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de
esperana e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferena como se
me falasse de um dos seus negocios: Amparo casou com o conde de
Loreto. Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta
noticia? As palavras no matam porque eu ainda vivo.

Amparo chorava. S ento comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O
conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o
de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas
recriminaes que lhe dirigia Ernesto, no teria pronunciado o _sim_ de
esposa junto ao altar.

Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra
um corao enamorado e sensivel, dera os seus terriveis fructos e j
era tarde para retroceder.

Por isso Amparo no encontrava palavras com que se defendesse, com que
se justificasse.

N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado,
ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdo.

Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de
Ernesto e a bondade do seu corao; por isso appellou para o segundo
recurso, e, levantando a cabea, apresentou ante os olhos do pintor o
seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:

--Pois bem, sim, Ernesto; fui uma _coquette_, uma imprudente, uma
leviana. O meu procedimento no tem desculpa; mas amo o meu marido e
preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus
deveres de esposa me impem. Se no  bastante generoso para perdoar,
mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais
pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor 
bom e ter d de mim.

Ernesto comeava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que
no se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo
aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.

--Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos;
irmo, se quizer, mas perde-me e esquea-me... no ser to cruel que
m'o negue.

--Amparo, a senhora no pde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz
bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraa da mulher
que amo de toda a minha alma? Perdo-lhe todo o mal que me fez, mas
esquecer...  impossivel. Para amar no  preciso ser correspondido. Mas
para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaa o corao?
Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois
abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual esto sepultadas
todas as minhas illuses, toda a minha felicidade.

E Ernesto sahiu do caramancho como o demente que arrebatado pela
vertigem do seu doente cerebro no sabe para onde caminha.

O primeiro movimento de Amparo foi detl-o; porm conteve-se, calculando
que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias
do que a primeira.

Uma vez s procurou serenar-se.

--Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que
fosse to grande o seu amor. Ah! Tem muita razo para me odiar. Foi uma
imprudencia.

E, recordando-se de que uma s palavra de Ernesto poderia perturbar a
sua felicidade, exclamou:

--Meu Deus! Permitti que esse homem no seja assaltado pela terrivel
paixo da vingana.

Amparo fixou o olhar na carta que escrevia to alegre, poucos momentos
antes,  sua amiga, e no tendo paciencia nem socego n'aquelle momento
para concluil-a, guardou-a na carteira do seu estojo de viagem.

Quando o pae voltou, Amparo estava quasi socegada, ou pelo menos fingia,
para que se no suspeitasse nada da scena que acabra de dar-se
n'aquelle logar.

--Aonde est Ernesto? perguntou D. Ventura.

Rapidamente imaginou uma desculpa que motivasse a precipitada fuga do
pintor.

--Ernesto, disse, acaba de sahir.

--Mas, volta para almoar?

--No; disse-me para lhe pedir desculpa de se retirar, mas havia-se
esquecido de que tinha uma entrevista importante em Madrid s duas horas
da tarde.

--Todos os artistas tem a cabea  razo de juros. Mas emfim que
remedio! Almoaremos ssinhos.

E offerecendo o brao  filha, dirigiram-se para casa.




CAPITULO XVI

Propostas


Ernesto chegou a casa e deixou-se cahir desesperadamente na cama;
sentia-se fatigado, um desejo irresistivel de chorar, um calor immenso
nas fontes e um frio glacial no corao.

Deitou a cabea nas almofadas e chorou.

s cinco horas da tarde, Marcial e Andr foram buscal-o para irem
jantar, e ao verem-n'o pallido, com o parecer decomposto e os olhos
avermelhados, perguntaram sobresaltados:

--Ests doente? Que tens?

--Nada, meus amigos, nada; quero estar s. Deixem-me; esta tarde no
tenho appetite.

--Mais uma prova de que estas doente, e por isso no te abandonaremos.

--Por Deus, no me obriguem a levantar. Um boccado de socego far-me-ha
bem. Repito-lhes que no tenho nada. Vo tranquillos que lhes peo eu.

Depois de meia hora de inuteis perguntas, Marcial e Andr sahiram
afflictos do quarto de Ernesto.

--Indubitavelmente ha alguma cousa, disse o poeta.

--Que diabo succederia? ajuntou Andr.

--Parece-me que anda n'este mysterio o original da formosa Esther do
quadro.

--Tambem o creio.

--No te disse elle esta manh, que ia a Carabanchel?

--Sim.

--Em Carabanchel tem D. Ventura uma casa de campo.

--Que lhe succederia?

--Quem sabe! Talvez algum desengano.

--Seja o que fr, procuremos indagar.  uma desgraa ter um corao
impressionavel como o de Ernesto; vae dar-lhe muitos desgostos.

Marcial e Andr recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.

Ernesto continuava deitado; no quarto no tinha luz. Marcial
approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vr se o seu amigo
ainda dormia.

O pintor tinha os olhos abertos.

O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma
cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.

--Olha, Ernesto, a dissimulao s tem logar entre pessoas que se no
estimam.  em vo que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres,
tens uma d'essas dres immensas que opprimem o corao. Basta olhar-te
para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um
irmo, no me posso retirar tranquillo, s porque me dizes: No tenho
nada. Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas.
Quem sabe se poderei servir-te de consolao?

Ernesto apertou carinhosamente a mo do amigo e disse:

--Sei quanto me estimas; sei de quanto  capaz o teu generoso corao.
Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para
duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peo-te que
respeites o meu silencio e que me deixes s.

--Est bem, obedeo; mas no esqueas nem um s momento de que me
encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso
evitar-te algum desgosto.

Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasio em que ia a entrar Andr.

--Onde vaes? lhe disse.

--Vr Ernesto.

--Deixa-o, est dormindo; o que precisa  de socego.

No dia seguinte Ernesto levantou-se de melhor parecer, e os tres amigos
tomaram juntos uma chavena de ch e alguns biscoitos inglezes.

Nem Andr, nem Marcial tornaram a perguntar a causa da sua tristeza, mas
elles tambem estavam tristes e desgostosos.

N'aquelle mesmo dia ficou o quadro de Ernesto na exposio.  noite
reuniu-se com os amigos no caf. Todos respeitaram a taciturnidade do
pintor, porque todos o estimavam e se compadeciam da sua
incomprehensivel tristeza.

Assim se passaram quinze dias. A exposio de pintura abriu as portas ao
publico, e o quadro de Ernesto arrancou um grito de admirao aos
espectadores.

A figura de Esther era uma obra to perfeita como a Virgem de Murillo. O
quadro tinha sempre um grupo de admiradores, que o contemplavam com
verdadeiro extasi.

Uma manh Ernesto acabava de se levantar quando Jos, o creado, entrou
participando-lhe que um cavalheiro lhe desejava falar.

Esse cavalheiro no era outro seno Fernando del Villar, Conde de Loreto.

Ernesto procurando simular uma serenidade que no sentia, offereceu-lhe
uma cadeira, e perguntou tranquillamente o que desejava.

--Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposio de pintura, disse
o conde.  na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que
alcana o primeiro premio, e venho vr se o senhor m'o quer vender.

--Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais
merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo
desfazer-me d'elle emquanto o jury no resolver.

--Entretanto pde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o
primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro como uma obra-prima. Pde
pedir-me quanto quizer sem receio de que me parea exaggerado o preo.
Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.

--Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente
da casa de Rotschild j me fez proposta sobre o quadro.

--Rotschild  mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho
mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.

--O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto
para onde o conde desejava levar a conversa.

--Sim, porque o senhor no ignora que a cabea de Esther tem uma grande
parecena, parecena de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em
muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.

--No serei eu que o contradiga na sua opinio, senhor conde, mas se 
retrato,  por pura casualidade, pois foi pintado de imaginao.

--Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que
n'estas coisas o melhor  falar com a maxima franqueza.

--Nada ha de que eu mais goste.

--Assim, pois, comearei por lhe dizer o que o senhor no ignora, e 
que a cabea de Esther no  outra cousa seno o retrato de minha
mulher, a quem o senhor conheceu em Roma e em Florena.

--Pois bem, senhor conde, ainda que assim seja, ainda que visse e
tratasse em Roma e Florena com a senhora que hoje  sua esposa, ainda
que a minha memoria tivesse sido to feliz que retivesse as suas feies
e as transportasse  tela, tudo isso no  mais do que uma liberdade que
tomei, e se o offende essa liberdade, a questo, entre pessoas de bem,
tem uma soluo que o senhor no ignora.

Ernesto pronuncira estas palavras com a altivez de quem provoca. O
conde ouviu-o tranquillamente e sem demonstrar a mais leve agitao.

Quando o pintor concluiu, o conde fez um movimento de olhos e de rosto,
manifestando o desgosto que lhe causava similhante provocao.

--Senhor, disse pausadamente, primeiro que tudo, previno-o de que no
vim aqui ao som de guerra e julgo por tanto fra de proposito a soluo
que acaba de me propr. Que conseguiriamos batendo-nos? Justamente o
contrario do que desejo e do que o senhor desejar manh. Poderia
provar-lhe, sem que lhe ficasse duvida alguma, que no sou um cobarde, e
que me tenho batido mais de uma vez.

Ernesto sorriu-se.

--Perdo-lhe essa nova provocao, ajuntou o conde, e torno a pedir-lhe
no s que me venda o quadro, como tambem que espalhe a noticia de que
eu lh'o encommendei em Roma, pedindo-lhe que este fosse o retrato de
Amparo.

--Nunca!

O conde estremeceu, augmentou de uma maneira terrivel a sua pallidez, os
seus olhos brilharam momentaneamente de uma frma sinistra, e fazendo um
esforo violento para dominar-se, continuou sem levantar a voz, com
humilde entoao.

--Creia, meu amigo, que est em completo erro se julga que vim aqui com
exigencias; longe do meu espirito toda a ideia de ameaa; s supplico.
Se o senhor se nega a vender-me o quadro, mas se deseja evitar a minha
mulher graves desgostos, creio que por fim ceder a publicar um artigo
nos jornaes em que explique satisfatoria e convincentemente para todos,
a similhana que tem a figura de Esther com Amparo.

E o conde, levantando-se ajuntou:

--Pense, e pense tambem nas graves consequencias que a todos podem
trazer a sua negativa. Espero at manh a sua resposta em minha casa.
Este carto indica-lhe a minha residencia em Madrid.

E deixando sobre uma mesa um bilhete de visita, cumprimentou-o e sahiu.

Ernesto permanecia sentado com o olhar provocador, sem se dignar
corresponder ao cumprimento que o conde lhe dirigira ao sahir.




CAPITULO XVII

Confiana


Quando o conde entrou na carruagem que o esperava  porta, deu ordem que
o conduzissem para casa, e deixou-se cahir no assento rugindo de raiva.

--Ah! exclamou falando comsigo. Aquelle insensato julgou talvez que tive
medo. E no conheceu o horrivel tormento que me causava o conter-me.
Terei que matar outro homem? No, no, mil vezes no. Consentirei antes
que elle me esbofeteie, preferirei fazer saltar os miolos.

Quando o conde chegou a casa, situada na rua do Barquillo, entrou no
quarto de vestir de Amparo, que o esperava inquieta e commovida.

--O tal senhor Ernesto, disse o conde, sentando-se n'um sof,  menos
generoso do que suppunhas. Nem quer vender-me o quadro, nem publicar uma
communicao em que explique decentemente a natural curiosidade de todos
que te conhecem.

--Mas elle no tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar
n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.

O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse:

--No pdes calcular o quanto me fez soffrer esse homem. Durante a nossa
entrevista, falei-lhe com doura, com humildade, pedi-lhe que me
vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas
palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o
atrevimento de me dizer que se no ficava satisfeito com a sua
negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens.
Desgraado! Necessitei de todo o valor, de toda a fora do homem que se
no pde bater, depois de ter morto cinco homens, para no o esbofetear
na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me far faltar ao
meu juramento e terei de matal-o.

--No, no, Fernando! No quero que te batas! No quero que te exponhas!
A tua vida pertence-me!

--Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu
importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que
hei de fazer seno bater-me?

--Pensa que um duello no serviria seno para augmentar essa
maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.

--Sim, concordo; mas no vejo outro caminho.

--Dize-me, Fernando, tens confiana em mim?

--Se a no tivesse, estaria como estou, aqui?

--Obrigada, meu amigo.

--Mas a que proposito veiu essa pergunta?

--Porque conheo o bello e nobre caracter de Ernesto.

--Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?

--No; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu
conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florena. Bondoso e
illustrado, levou-nos a toda a parte, e no demorou muito que no
percebesse que eu lhe no era indifferente. Bem sabes, Fernando, que no
tenho segredos para ti, porque o meu corao e a minha vida
pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.

--Sim, sim, no tenho duvidas a esse respeito e comprehendo
perfeitamente tudo quanto se pde passar entre uma menina e demais
formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te,
fez-te uma declarao que no regeitaste, j por coquettismo, j
por compaixo. Isso  natural nas mulheres, no as censuro; mas s vezes
traz ms consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a
Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a
minha desgraa, e apezar d'isso no tenho a mais pequena duvida de que
esse rapaz tem uma boa alma, um generoso corao.

--Dizes bem,  uma desgraa. Tomei aquelles passeios em Florena, por um
passatempo, por uma distraco. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario,
julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo to funesto
engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu
procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar
este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a
tua felicidade, meu Fernando.

--Repara, Amparo, que o que me propes  uma imprudencia. Ernesto para
ceder aos teus pedidos, pde ser exigente.

--N'esse caso, dir-te-hei: Fernando, sou tua; o teu amor  a minha
vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.

O conde soltou um grito, abraou com enthusiasmo a mulher.

--Ah! disse Amparo, este abrao prova-me que te inspiro confiana, e que
annues ao meu pedido.

--Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro
horas esse homem no explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para
mim, a parecena da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, no
me fica outro remedio seno matal-o.

E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.

Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaa que o
marido acabava de proferir.

Pela primeira vez comprehendeu at onde podia conduzil-a a
imprudencia do seu coquettismo em Florena.

Rapidamente lhe passaram pela imaginao as recordaes d'aquellas
noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.

-- preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu
marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da
minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto
succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. No,
no, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fr preciso.

Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.

--Mas se lhe peo uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a
nobre inteno de evitar uma desgraa, se se sabe que a mulher do conde
de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, ento...

Amparo escondeu o rosto entre as mos, rompendo em amargo choro, porque
comprehendia que por todos os lados smente encontraria difficuldades.

N'aquelle momento entrou D. Ventura.

--Que  isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido
que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me
convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um
plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre
julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso
continue assim, separo-me de vocs, ainda que o no te vr me amargure a
velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.

D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e
as lagrimas que lhe comeavam a assomar aos olhos.

--Meu querido pae. Creio que nos ameaa uma grande desgraa.

Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.

--Uma desgraa! exclamou. E que desgraa  essa?

--Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.

--E  s isso? perguntou D. Ventura que no via motivo para se
sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo  o quadro, se no querem que
elle continue exposto, comprem-lh'o, e  assumpto concluido.

--Mas elle no o quer vender.

--Ora! Porque no lh'o pagam bem.

--No, meu pae, no. Ernesto no o vende ainda que lhe offeream um milho.

--Pateta! Nem tu nem Ernesto sabem o que  um milho. No ha quadro do
mundo que valha essa quantia.

--O pae no conhece Ernesto.

--Mas entendamo-nos. Que  que tu queres? Que elle retire o quadro?

--No  smente que o tire da exposio, como tambem que publique nos
jornaes um artigo, assignado por elle, dizendo que o quadro  do conde,
o qual teve o capricho de que Esther fosse o retrato da esposa.

--Pois bem, falarei com Ernesto, e tudo se arranjar.

--Mas Ernesto recusa-se!

--Como! E porque recusa?

Amparo comprehendeu que era preciso revelar tudo ao pae, porque s elle
podia valer-lhe n'aquelle apuro, e pegando-lhe carinhosamente nas mos e
olhando-o com doce expresso, disse-lhe:

--Porque Ernesto ama-me; porque tem ciumes, porque ao chegar a Hespanha
e encontrando-me casada lhe fugiram todas as esperanas do seu generoso
corao, e receio que commetta alguma loucura.

--Diabo! Diabo! Isso  muito differente! E teu marido sabe que Ernesto
te ama?

--Suspeita-o, e jurou bater-se com elle, se antes de vinte e quatro
horas no ficar completamente resolvida a questo do quadro.

D. Ventura deu um profundo suspiro.

Comeava a vr a questo sob o seu verdadeiro ponto de vista, e receava
que tivesse um desenlace fatal.

--Bem v, meu pae que o meu sobresalto e o meu receio  fundado. Se
Fernando e Ernesto se baterem, se algum d'elles morrer...

--Tudo, menos isso.  preciso liquidar esse negocio. Vou falar com Ernesto.

--Negar-se-ha; estou crente. Ser mais conveniente que eu lhe fale, mas
no na sua casa.  preciso que o pap o chame.

--No vejo inconveniente. Mas onde? Amparo reflectiu um momento.

--Occupo o meu rez-do-cho d'esta casa; pois bem, escreva-lhe uma carta
pedindo-lhe para vir aqui; no a casa do conde de Loreto, mas-- sua.

D. Ventura sentou-se a uma mesa, pegou na penna e disse:

--Dicta a carta.

Amparo pensou alguns instantes. Depois disse:


                                                _Senhor Ernesto Alvarez_

Meu bom amigo

    Peo-lhe para que to depressa receba esta carta tenha a bondade de
    me vir procurar em minha casa pois desejo falar-lhe de um assumpto
    da maior importancia.

    Julgo inutil participar-lhe que moro no rez-do-cho, onde o espero,
    confiado em que se apressar em satisfazer o pedido de um amigo que
    tanto o estima.

                                                Sempre seu amigo,

                                             _D. Ventura de Aguillar._


Fechada a carta, enviou-a immediatamente por um creado.

Depois, D. Ventura e a filha desceram para o rez-do-cho.

--Agora, meu pae, disse Amparo, s lhe peo que quando vier Ernesto
me deixe a ss, com elle, mas  preciso que, detraz d'aquelle
reposteiro, seja testemunha da nossa entrevista.

--Farei o que quizeres, porque estas questes apoquentam-me atrozmente.

--Preciso, para que se manh tentarem debicar em mim, ao menos o meu
pae saiba que no sou uma d'essas mulheres que faltam aos seus deveres
com facilidade.

Uma hora depois Ernesto era introduzido no gabinete em que estava Amparo.

D. Ventura occultou-se precipitadamente no quarto contiguo.




CAPITULO XVIII

A golfada de sangue


Ernesto, de p, com o chapu na mo, pallido, e surprehendido por se
encontrar com Amparo, no se atrevia a dar um passo.

Amparo que fazia grandes esforos para dominar a commoo que
experimentava sorriu-se e extendeu-lhe a mo.

--Que  isso, meu amigo! To zangado est comigo que no quer apertar-me
a mo?

--Senhora condessa, em verdade que a no esperava encontrar aqui,
tartamudeou Ernesto.

--Porque a suspeital-o no teria vindo, no  verdade? Agora vejo que
fiz bem em pedir a meu pae que escrevesse a carta. Mas, peo-lhe que se
sente aqui, ao meu lado; tenho que lhe falar de um assumpto de que
depende a tranquillidade da minha alma, o senhor que sempre foi to bom
para commigo creio que no deixar de sel-o neste momento.

Ernesto sentou-se ao lado de Amparo, mas sentia-se muito commovido,
agitado e quasi sem foras para fixar os seus olhos no formoso rosto da
condessa.

--Conheo, senhor Ernesto, que me no assiste nenhum direito para lhe
pedir algum favor por mais insignificante que seja, porque comprehendo
que deve estar resentido commigo. Seria inutil desculpar-me; confesso-me
culpada, e fui, se assim quizer, uma _coquette_ que pagou esse tributo
de vaidade de que poucas mulheres escapam, e por isso vou-lhe falar, no
ao homem em cujo brao me appoiei para visitar o Colyseu de Roma e cujas
palavras carinhosas resoaram nos meus ouvidos como uma embriagadora
musica durante as noites de Florena, mas a um cavalheiro, a um homem
generoso e desinteressado, em cujo nobre corao s se albergam
sentimentos nobres, emfim, a si, senhor Ernesto, a quem no quero
occultar a situao em que me encontro, a si de quem depende a paz do
meu lar, a tranquillidade do meu espirito.

Amparo deteve-se, levou uma das lindas mos aos olhos e enxugou as
lagrimas que durante a conversa lhe assomaram.

--No creia, senhora condessa, que os meus labios pronunciem uma s
palavra que seja de recriminao, disse Ernesto. Desde que cheguei a
Madrid, e assim que soube que a senhora pertencia a outro, que era a
esposa do conde de Loreto, senti to profunda dr no corao, to grande
magua na alma, que s ento pude avaliar a enorme paixo que me tinha
inspirado. No sou d'aquelles homens que se resignam a perder n'um
momento as esperanas que durante muito tempo acariciaram. Ser isto uma
desgraa, concordo, porque no devemos encarar a srio esta vida.

Ernesto passou a mo pelo rosto, fez um esforo para se dominar e
continuou:

--Sou um nescio! Estou falando de mim, a senhora condessa, em logar de
lhe perguntar o que deseja e apressar-me a satisfazel-a. Peo-lhe
desculpa das minhas anteriores divagaes, e ordene tudo quanto lhe
aprouver.

--No, senhor Ernesto, no; conheo todo o mal que o meu coquettismo lhe
causou, e por conseguinte no podem ser-me indifferentes os seus
soffrimentos. O que quero, o que lhe imploro  que me perde e me no
odeie, o que lhe peo  que annua ao que esta manh lhe foi pedir meu
marido, porque s assim poder a minha alma viver tranquilla e
restabecer-se a paz n'esta casa.

--E... pensou bem no que me pede, minha senhora?

--Sim, sei que para si  um grande sacrificio. Se o senhor fosse outro
homem nunca me resolveria a pedir-lhe to grande favor, senhor Ernesto,
mas do senhor espero tudo, porque se tanto fr preciso, lanar-me-hei a
seus ps at que o consiga, porque o senhor no querer que nos meus
olhos nunca mais sequem as lagrimas, nem vr-me desprezada pela
maledicencia e odeiada de meu marido a quem tanto amo; porque se o
senhor no cede acontecer indubitavelmente uma desgraa.

Ernesto fixou em Amparo um olhar intenso, profundo, como se pretendesse
lr-lhe no fundo d'alma, e depois disse:

--O senhor conde de Loreto  um homem valente, um dextro atirador que
tem provado a sua habilidade e o seu valor em mais de uma occasio. Sei
que se eu recusar terminantemente ao que me pede nos bateremos, e no
sendo eu um espadachim, ser d'elle o melhor partido. Tambem no terei
grande trabalho para lhe provar, minha senhora, que a ideia de um duello
de morte pouco me preoccupa. A vida s  preciosa para os que so
felizes e a senhora destruiu toda a minha felicidade. De mais ha j
algum tempo que goso de pouca saude, e por conseguinte  desnecessario
pensar em mim. S temo que em Madrid me tomem por um cobarde;  epitheto
que no mereo e por isso me recusei a satisfazer os pedidos do senhor
conde.

--E quem ousar chamar-lhe cobarde? disse Amparo. Para que os seus
amigos fizessem similhante apreciao, seria preciso que houvesse alguma
cousa que no fosse natural. Acaba de chegar de Roma com o quadro de
Esther; em Roma estive este vero e l esteve tambem meu marido. Nada
to facil e to interessante para a sublime obra que expz n'um dos
sales da Exposio de pintura, como inventar uma d'essas anecdotas que
fazem na posteridade parte da historia de um quadro. Por exemplo: o
senhor precisava de um modelo para Esther; encontrou-me com o conde,
ento meu noivo e seu amigo, e encontrando nas minhas feies tudo
quanto sonhava para a figura de Esther, pediu a Fernando para que eu
servisse de modelo. O conde annuiu com uma condio: a de comprar-lhe o
quadro pelo preo em que o senhor o avaliasse; e effectivamente
fechou-se o negocio por vinte e cinco mil duros. Tudo isto  o mais
natural do mundo. Ninguem depois de lr nos jornaes a historia da
parecena de Esther com a condessa de Loreto, assignado por si, ser
capaz de dizer que semelhante declarao foi escripta pela mo de um
medroso.

--Effectivamente, minha senhora, respondeu Ernesto, d'esse modo, na
minha historia, haveria um episodio fabuloso, o de vender um quadro no
seculo da photographia pela fabulosa quantia de meio milho, e estou
certo de que to vantajosa venda produziria inveja a muitos. Mas
ignorando todos que conheci em Roma e que acompanhei a Florena D.
Amparo d'Aguillar, ninguem suppor qual a verdadeira historia da
parecena de Esther com a condessa de Loreto; e para mim, basta-me que a
senhora o saiba e que o no ignore o senhor conde. Tambem julgo que a
senhora no querer fazer-me o aggravo de me julgar interesseiro. O meu
quadro no vale vinte e cinco mil duros e por isso no posso ceder aos
seus desejos.

--Meu Deus! disse a joven juntando as mos, e derramando abundantes
lagrimas. Julgava que este homem me amava, mas enganei-me.

Ernesto fez-se pallido at ficar livido, os olhos brilharam-lhe de um
modo terrivel, pegou bruscamente em uma mo de Amparo, e disse:

--Senhora, o meu amor  to grande, que no encontraria palavras com que
podesse narrar-lh'o.

E pondo uma mo sobre o peito, continuou:

--Aqui, desde o momento em que perdi a esperana de realisar os meus
sonhos, sinto como que uma tempestade infernal que rebentar em breve,
despedaando-me o peito. Oh! Como  insensato todo o homem que no sabe
ser superior s paixes que o dominam. Eu nunca amara seno minha me e
a gloria. A que me deu o ser deixou de existir. Fiquei orpho, e a
gloria desde esse dia foi minha me, minha amada, minha vida; mas um dia
o destino ou a fatalidade collocou-a ante mim, e amei-a com toda a minha
alma. Este amor ento foi correspondido, sellado com um beijo que ainda
me queima nos labios, que ainda abraza a alma, e depois...

Ernesto soltou uma gargalhada hysterica e ajuntou:

--Mas para que recordar-lhe o que a senhora esqueceu? Que deseja a
senhora? Fiz-lhe o sacrificio da minha felicidade, talvez o da minha
vida, farei tambem o da minha honra, estou disposto a tudo. O quadro 
seu, minha senhora; escreverei a noticia, e entregarei ao senhor conde
de Loreto o documento com que poder retiral-o quando a Exposio
terminar. Depois, se quizerem, podem queimal-o, pois era esse o fim a
que o destinava.

Ernesto poz-se de p, fazendo um esforo supremo, e como se as suas
ultimas palavras tivesse esgotado as foras, dirigiu-se para a porta.

Amparo olhava-o absorta, commovida, sem coragem para detel-o. Viu-o
partir, e notou que aquelle homem tremia como um ebrio.

Apenas sahira do gabinete, ouviu-se na antecamara um ruido como o que
produz um corpo ao cahir desamparado. A condessa soltou um grito e D.
Ventura sahiu da alcova.

-- um rapaz que vale quanto pesa, disse o commerciante.

--Meu pae, corra, succedeu qualquer cousa a Ernesto.

D. Ventura foi por onde o pintor tinha sahido, e effectivamente
encontrou-o estendido no cho.

Soltou um grito e pediu soccorro. Ernesto estava desmaiado com a cara e
o peito manchados de sangue.

Quando Amparo chegou, julgou que Ernesto se suicidara; os creados
levantaram-n'o e transportaram-n'o para a cama de D. Ventura, e quando
chegou o medico, soube-se a verdade: Ernesto tivera um grande vomito de
sangue que o obrigara a perder os sentidos.

Uma hora depois, quando voltou a si e abriu os olhos, o conde de Loreto,
Amparo, Ventura e o medico estavam em volta da cama.

O pintor estava extremamente pallido, mas com essa palidez mate,
melancholica, dos doentes de peito, e dirigindo um olhar vago e fatigado
em volta de si, disse com voz debil:

--Quanto me penalisa, senhores, este contratempo. Senti-me mal
repentinamente, como se se tivesse rompido qualquer cousa dentro do
peito; quiz evitar  senhora condessa um desgosto, e retirei-me 
pressa, mas ao chegar  antecamara, perdi os sentidos. Espero que me
desculparo o susto que lhes causei.

--O mais importante, meu amigo, disse o conde,  a sua saude, e desejo
que me faa o favor de permanecer em minha casa at que se encontre
completamente restabelecido.

Havia tanta doura, tanto interesse n'aquella voz, que Ernesto, fixando
o conde com um olhar replecto de agradecimento, respondeu:

--Um doente nas minhas condies, senhor conde,  demasiadamente
importuno. Agradeo-lhe reconhecidissimo o seu offerecimento, mas no
devo acceital-o e peo-lhes que to depressa o medico diga que me
encontro em estado de ir para minha casa, me concedam licena.

--No ser hoje nem manh, respondeu o medico, e por conseguinte creio
que no nos devemos occupar d'outra cousa que no seja fortalecer o
nosso doente.

--No se fala mais n'isso, disse D. Ventura, Ernesto  mais bem tratado
aqui do que em sua casa. Eu, em nome da nossa amizade, prohibo-lhe que
se levante da cama. Quando estiver restabelecido, quando estiver forte,
far ento o que lhe aprouver. Hoje mando eu.

Ernesto fez um movimento d'olhos indicando que se resignava. Sentia-se
to fraco, que lhe seria impossivel ter-se de p.

Ficou, pois, resolvido que ficaria no quarto de D. Ventura.

Quando o medico sahiu, Amparo deteve-o para lhe perguntar pelo doente.

-- grave, disse o facultativo. Mais tarde ou mais cedo morre. Deve ter
soffrido muito.

Amparo retirou-se para os seus aposentos, e, fechando a porta, chorou.

O remorso comeava a preoccupar-lhe o espirito.




CAPITULO XIX

Pagar a hospitalidade


D. Ventura mandou pr uma cama no quarto de Ernesto.

--Serei o seu enfermeiro, disse, Amparo, e o conde ajuda-me n'esta
tarefa. Animo, pois, amigo Ernesto, e no pense n'outra cousa que no
seja em restabelecer-se.

Desde aquella occasio o pintor encontrou uma familia carinhosa,
solicita, que lhe prodigalizou todo o bem estar. Nem elle mesmo podia
explicar o que se passava em redor de si.

Muitas vezes era Amparo quem lhe dava os remedios, limpando-lhe o
copioso suor que com frequencia lhe inundava a fronte, e isto fazia-o
mesmo deante do marido e com a amorosa solicitude de uma irm.

D. Ventura logo ao segundo dia comeou a tratar o enfermo por tu com a
ternura e o interesse de um pae.

Assim se passaram cinco dias. Ernesto falava pouco, no s porque o
medico lh'o prohibira, como tambem porque pensava muito em todos estes
acontecimentos.

O seu amor por Amparo era immenso. O conde indubitavelmente conhecia
esse amor, e comtudo, dedicado e obsequioso, consentia que sua mulher
passasse horas inteiras sentada a cabeceira da sua cama.

Em vo Ernesto perguntava a si mesmo porque era que aquella familia se
mostrava to attenciosa, to obsequiadora para com elle, e o seu corao
generoso repellia algum pensamento pouco favoravel para ella. O conde
parecia-lhe um homem digno e honrado, Amparo uma irm, D. Ventura um
pae, e at o medico era para elle um amigo.

Desde que recuperra os sentidos, durante os dias em que se achava
n'aquella casa, ninguem lhe tornra a falar do quadro. Ernesto
sentindo-se mais alliviado, aproveitou um momento em que estava s, pois
desejava demonstrar quella familia o seu reconhecimento.

Levantou-se da cama, chegou com algum custo a uma mesa onde estavam os
apetrechos de escripta, e poz-se a redigir um artigo.

Passada uma hora tinha acabado.

Ento, voltou para a cama, tocou a campainha e disse ao creado que se
apresentou:

--Faa favor de dizer ao senhor D. Ventura que desejo falar-lhe.

O creado obedeceu e poucos momentos depois entrava o commerciante,
sorrindo como sempre.

--Bravo, bravo, disse elle. J te vejo esse parecer mais animado e gosto
d'isso. Mas, saibamos o que quer o meu doente.

--Que leia isto, que mande tirar copias e que as remetta aos jornaes que
quizer.

E Ernesto entregou uns linguados de papel em que pouco antes escrevera.
D. Ventura leu para si. Quando acabou a leitura lanou-se nos braos de
Ernesto, exclamando com voz commovida:

--Obrigado, Ernesto, obrigado. Estas linhas traro a paz a um lar e o
socego a um pae; s o homem mais generoso do mundo.

D. Ventura tinha os olhos cheios de lagrimas.

Ernesto estava impressionado ante a profunda satisfao do velho.

--Demais, disse o pintor, fingindo grande naturalidade, essa declarao
que destruir por completo a maledicencia, vale bem pouco, e no vejo
motivo para que o senhor m'o agradeca. Em poucos dias estarei
completamente restabelecido, e sahirei de Madrid, e nem o senhor conde,
nem a senhora condessa me tornaro a vr. Tenho um plano de vida que me
ser proveitoso. Emquanto s nossas excurses artisticas por Florena, e
Roma s me resta julgl-as um encantador sonho, filho d'uma imaginao
viva e impressionavel, e como os sonhos se esquecem procurarei
esquecl-as tambem.

--Oh! Tu no dizes o que sentes, Ernesto, soffres e tentas occultal-o.

--E quem no soffre n'este valle de lagrimas? Existe porventura homem
feliz n'este mundo? Creio que no. A vida no  outra cousa seno um
castigo que Deus impe  humanidade pelo peccado original;
resignemo-nos, pois e paguemos esse tributo ao Creador.

--Mas isso no me tranquillizou por completo. Dizes no teu artigo
que o quadro  propriedade do conde de Loreto, que o comprou em Roma,
com a condio de que Esther fosse o retrato de sua futura mulher, e
isso no  verdade.

--Meu amigo, s vezes a mentira, que tem alguma cousa de santa, 
indispensavel.

--Comtudo o conde no te comprou o quadro.

--Mas se eu lh'o offereo.

--Isso no pde ser. Tu s pobre e nos no consentimos...

--Mau! O quadro, dado o caso de ser premiado pelo governo, poder
render-me quando muito cinco ou seis mil duros. Com essa quantia  rico
um homem como eu.

--Mas ns podemos dar-te pelo quadro vinte mil duros.

--Isso seria roubar o dinheiro, e no creio que o senhor me faa a
offensa de me julgar interesseiro.

--Demais sei eu que todos os homens de talento desprezam o dinheiro.

--Pois ento consinta que a minha pobre Esther salvando os filhos de
Israel fique em paga da carinhosa hospitalidade que me concederam, e no
se fala mais no assumpto. Mas no percamos tempo;  preciso que manh
saia em alguns jornaes o meu communicado.

D. Ventura no poude convencer Ernesto a que acceitasse qualquer quantia
pelo quadro.

--Para todos, disse o pintor, o quadro foi comprado pelo conde de Loreto
pela importancia que lhe aprouver dizer, e eu no o desmentirei; para
ns, o quadro ser uma offerta que eu fao ao esposo de D. Amparo de
Aguillar.

No dia seguinte, ao levantar-se, Amparo, viu varios jornaes sobre uma
pequena mesa de pau rosa.

--Que  isto? perguntou. Cuidam que me vou dedicar  politica?

--No sei, minha senhora, mas o pap disse-me que os puzesse ahi e que
dissesse da sua parte  senhora condessa, quando se levantasse, que
lesse um communicado que trazem os jornaes.

Amparo suspeitou do que tratava o communicado, pegou no jornal e leu em
voz baixa o que se segue:


                                                  Senhor director do...

    Espero da sua amabilidade que publicar esta carta no seu
    acreditado jornal que to dignamente dirige, pois importa ao senhor
    conde de Loreto e ao que subscreve a presente carta, desvanecer
    certas equivocas apreciaes que uma parte do publico que visita a
    Exposio de pintura tem feito sobre o meu quadro de Esther.

    Ha alguns mezes estava em Roma pintando o quadro de Esther quando
    tive a honra de ser visitado por Fernando del Villar, conde de
    Loreto, com a ento sua futura esposa, hoje condessa de Loreto.

    Verdadeiro enthusiasta pela pintura, o conde de Loreto, protector
    dos artistas, propz-me comprar o quadro por uma quantia bastante
    elevada; attendendo ao pouco ou nenhum merecimento da minha tela,
    acceitei o negocio e ficou desde ento o quadro de Esther sendo
    propriedade do conde de Loreto.

    A partir d'ahi o conde passou a visitar-me todas as manhs,
    passando algumas horas no meu atelier vendo-me pintar.

    Um dia, ao ter quasi terminada a minha obra, occupava-me em retocar
    a figura de Esther, quando o conde me disse:

    --Meu amigo, tenho um capricho de homem rico que desejava
    satisfazer. Se o senhor no se escandalizasse e quizesse, a cabea
    da rainha Esther poderia ser o retrato da senhora que em breve ser
    minha mulher. Ha algum inconveniente n'isso?

    --Nenhum, senhor conde, lhe respondi. Nem conheci a celebre judia
    da tribu de Benjamin, a bondosa sobrinha de Mardoques, nem vi mesmo
    algum retrato d'ella, mas desde j aposto qualquer cousa em como a
    mulher do rei Assuero no foi mais bella do que a joven que d'entre
    em pouco ser a condessa de Loreto.

    Poucos dias depois, a cabea de Esther era um retrato bastante
    parecido da senhora D. Amparo de Aguillar, condessa de Loreto.

    Assim fica explicada a similhana que com a esposa do senhor conde
    de Loreto tem a figura principal do meu quadro.

    Peo-lhe me desculpe o incommodo que lhe causo, mas a rectido do
    meu caracter e o agradecimento a isso me obrigam, e antecipadamente
    agradece, o que 

                                                       De V. S.

                                                Att. V.or Cr. e Obrg.

                                                    _Ernesto Alvarez._


Quando Amparo acabou a leitura ouviu a voz do marido que lhe pedia
auctorizao para entrar. Entrou com o jornal na mo.

--Entra, Fernando. No precisas auctorizao para entrar no meu quarto,
lhe respondeu.

O conde approximou-se da mulher e depois de lhe ter dado um carinhoso
beijo na face e dirigir-lhe um sorriso amoroso, disse:

--Bom dia, querida Amparo, bom dia. Vejo que ambos lemos o communicado
de Ernesto.

--Sim; meu pae mandou-me estes jornaes.

--Tambem m'os mandou a mim, e vinha perguntar-te se sabes o que se
passou entre teu pae e Ernesto.

--No sei.

--Fosse o que fosse, a conducta d'esse rapaz no pde ser mais nobre.
Bem vs que nos offerece o quadro, porque tu bem sabes que lh'o no
comprei.

--Sim,  um rasgo de generosidade pouco vulgar n'um homem que no tem
outro patrimonio seno os pinceis.

--Mas ns no podemos consentir em similhante offerta.

--Ou pelo menos compensal-o com outra.

--Dizes bem. N'este assumpto convm proceder com toda a delicadeza.
Vinha lr-te isto mas como j lste, retiro-me e vou vr Ernesto.
Almoamos juntos?

--Sim, meu Fernando, espero-te aqui para me contares tudo o que resolveres.

Fernando tornou a abraar a mulher e sahiu.

Amparo ao vr-se s, deixou-se cair n'uma cadeira e leu pela segunda vez
o jornal.

--Ah! exclamou, exhalando um suspiro que brotava do mais fundo da sua
alma. Ernesto vale cem vezes mais do que eu. Causei toda a sua desgraa.
O corao tambem me diz que serei a causa da sua morte. Que Deus me
perde o mal que fiz a esse homem.

E, cobrindo o rosto com as mos, deu livre curso s lagrimas.




CAPITULO XX

Abnegao


Quando o conde entrou no quarto de Ernesto, acabava este de se vestir.

Pallido, com o parecer cadaverico, o semblante do pintor tinha
impressos os profundos vestigios da enfermidade que lhe minava o peito.

O conde admirou-se de o vr levantado. Ernesto, sorrindo, veiu-lhe ao
encontro.

--O medico j lhe deu auctorizao para se levantar? perguntou Fernando.

--Os medicos so uns ignorantes. Se seguisse os seus conselhos, ficaria
ainda um mez na cama, mas tenho esperanas de me restabelecer d'outra
maneira sem auxilio da medicina.

--Senhor Ernesto, disse o conde com voz carinhosa, ignoro o que tenciona
fazer para se curar, mas reprovo que abandonasse a cama.

--O meu plano de vida  muito simples, senhor conde, reduz-se a ir viver
no monte, a respirar o ar puro e livre do campo, longe da balburdia da
cidade, do bulicio dos homens;  o remedio mais efficaz para os doentes
do peito. Em outros tempos fui um enthusiastico amador da caa. Quando o
governo me fez seu pensionista, quando parti para Roma, offereci os meus
ces e as minhas espingardas e abandonei a minha distraco favorita. Em
poucos dias adquirirei todos os apetrechos e partirei para os montes de
Toledo onde conheo um caador de profisso, viverei com elle, caando
umas vezes, pintando outras, e quem sabe se a vida semi-selvagem que vou
emprehender me restabelecer a saude.

O pintor procurava dissimular o cansao que a conversao lhe causava.

O conde, que o conhecia, disse com commoo:

--Ernesto, offender-se-ha commigo se lhe falar com a franqueza de irmo?

--Pelo contrario, senhor conde, julgar-me-hei muito honrado.

--Pois bem, o senhor cr que essa viagem, essa vida semi-selvagem, como
acaba de dizer, lhe ser to proveitosa, como diz?

--Sem perceber de medicina, comprehendo que a vida do campo  muito
proveitosa aos doentes do peito.

--Comtudo a vida de caador  agitada e precisa de corpos robustos e
fortes.

--Quem sabe se o meu se fortalecer?

--Duvido!

-- preciso dar-se tempo ao tempo.

--Mas ainda que assim seja o senhor no  rico e precisa trabalhar para
viver.

--To pouco precisa um caador de profisso! disse Ernesto sorrindo-se.
lm d'isso pintarei quadros pequenos, que, vendendo-os baratos, sempre
terei quem m'os compre; por exemplo, assumptos de caa, paisagens
tiradas do natural. Oh! tenho esperanas que nada me faltar.

--Est ento resolvido a emprehender essa nova vida e eu no me opponho,
mas quero propor-lhe um negocio.

--Qual?

--O senhor precisa de quem lhe compre os quadros que pintar.

--Certamente.

--Pois bem, compro-lh'os eu. Como v no tenho muitos quadros bons nas
minhas paredes, e por isso espero que me permitta pagar-lhe o que est
na Exposio das Bellas-Artes.

--Emquanto a esse creio que o senhor j leu a carta que enviei aos
jornaes, e como digo que recebi em Roma antes de concluir...

--Mas isso no  verdade.

--Que importa? O quadro  seu, senhor conde, e no falemos mais de
similhante assumpto. Emquanto  venda dos que pinte de futuro, isso 
diverso e no vejo inconveniente em que o senhor m'os compre.

--Fixemos ento desde j o preo, ficando assente que recebo todos
quantos o senhor pintar.

--Isso  offerecer muito.

--Compro todos. Marque preo.

--Marcarei quando lh'os mandar, a no ser que o senhor me indique desde
j os assumptos e os tamanhos.

--Isso fica  sua escolha.

--Pois ento fica desde hoje sendo o meu unico comprador.

--E o senhor o meu pintor. Mas repito que  uma loucura abandonar os
recursos da capital quando a saude no esta sufficientemente restabelecida.

--Pelo contrario, senhor conde,  muito conveniente abreviar a minha
partida.

Fernando encolheu os hombros conhecendo que Ernesto estava firmemente
resolvido a sahir de Madrid.

--No insisto mais, apezar de lamentar que nos deixe to depressa,
porque de amigos to generosos, to nobres como o senhor,  sempre
custosa a separao.

--Senhor conde, antes de nos separarmos tomarei a liberdade de lhe falar
com a rude franqueza de um homem que sempre foi dominado pelos impulsos
do seu corao. Odiei-o de morte durante algum tempo. Ento no conhecia
o conde de Loreto mais do que de nome; hoje  diverso: tive occasio de
tratar comsigo, de apreciar o que vale, e a minha alma, sempre generosa,
arrepende-se de haver abrigado, ainda que por pouco tempo, sentimentos
perversos. A carta que mandei aos jornaes no  outra cousa que o
descargo da minha consciencia. Preciso, pois, partir e esquecer. O
senhor sabe que amei Amparo, e tambem no ignora que ainda a amo.
Tratou-me como a um bom amigo, e nada mais. Sei que so felizes, e que
se amam muito. Uma imprudencia minha esteve a ponto de destruir toda
essa felicidade, que no tem preo entre dois esposos. Reparei essa
imprudencia e tranquillizou-se um tanto a minha consciencia. O passado
ser um sonho para mim, o presente, a soledade dos montes, at ao dia em
que Deus queira apagar o meu nome do grande livro dos vivos.

Ernesto calou-se. O conde fixou n'elle um profundo olhar que demonstrava
a admirao que sentia ouvindo expressar-se com to nobre franqueza,
julgando inverosimil que na corrupta sociedade ainda se pudesse
encontrar n'um homem um rival to generoso.

--V, disse o conde, depois de uma pausa, parta, mas nunca esquea que
tem em todas as occasies que precisar um irmo, em Fernando del Villar.

--Obrigado, senhor conde, no esquecerei o seu offerecimento. Peo-lhe
me desculpe para com a senhora condessa, pois no me posso despedir
d'ella, e que mande que uma das suas carruagens me leve a minha casa.

--Como! Partir sem apertar a mo a minha mulher, sem lhe dizer adeus?
No, senhor Ernesto. Julga porventura que sou um d'esses maridos zelosos
e ridiculos que desconfiam da mulher a quem deram o nome? Julga-me capaz
de lhe fazer a offensa de duvidar de si, o homem mais generoso que
conheo, o melhor dos meus amigos? No. Amparo vir despedir-se de si;
peo-lhe que no deixe esta casa sem que assim succeda.

--No insisto mais. J que assim deseja despedir-me-hei da senhora
condessa.

--Vou eu mesmo chamal-a.

O conde sahiu, murmurando em voz baixa:

--Este homem venceu-me  fora de generosidade.

..........................................................................
..........................................................................

A condessa acabava de se pentear: estava vestida com uma simples bata
branca.

Ao vr entrar o marido exclamou:

--Tu, outra vez aqui!

--Sim, Amparo, venho annunciar-te a partida de Ernesto.

--No  possivel, ainda est muito doente, segundo diz o medico.

--Isso mesmo lhe disse eu, mas insiste em se querer restabelecer no
campo, e est resolvido a abandonar hoje mesmo a nossa casa. Pedi-lhe
que se no fosse, sem primeiro se despedir de ti e de teu pae. 
preciso que meu sogro, que tem mais confiana com elle, o convena a que
receba o valor do quadro que to generosamente nos offerece.

--Ser inutil; no receber nada.

--Comtudo espero que teu pae insista pela ultima vez. No pdes calcular
o quanto me interessa esse pobre rapaz, pobre como Diogenes e generoso
como Lucullo. Fala-lhe, fala-lhe sem perda de tempo; eu, entretanto vou
 loja de Manuel Arenas fazer umas compras.

Fernando tocou uma campainha e disse ao creado:

--Avise o senhor Ernesto de que a senhora condessa deseja vl-o.

E depois, abraando Amparo, continuou:

--Adeus, minha amiga. Procura convencer esse tresloucado. No me demoro.
Vou comprar umas cousas para Ernesto.  preciso presenteal-o como a um
principe que pensa em passar uma grande temporada no monte, dedicando-se
a caa.




CAPITULO XXI

Abandonando Madrid


Amparo, depois do conde sahir, ficou immovel, preoccupada. Ia
despedir-se de Ernesto, talvez para no mais o vr; ia ter uma
entrevista sem testemunhas com o homem a quem to desgraado fizera, e
esta entrevista era proporcionada, pedida pelo marido.

Por um momento Amparo receou que aquillo fosse um lao, mas rapidamente
affastou similhante pensamento, conhecendo a nobreza com que procederam
Ernesto e o conde de Loreto.

--No, no; Fernando no pde ter ciumes; tem confianca absoluta,
sabe que o amo com toda a minha alma, disse Amparo, falando comsigo.
Comtudo quer que me despea de Ernesto a quem to desgraado fez uma
leviandade, filha do coquettismo. Devo obedecer-lhe, ainda que me seja
dolorosa esta entrevista.

E como n'aquelle momento entrasse o creado para annunciar que o senhor
Ernesto esperava a condessa, Amparo encaminhou-se para o quarto do pintor.

Ernesto, ao vr entrar Amparo, pz-se de p, mas foi-lhe preciso
encostar-se ao espaldar d'uma cadeira.

A condessa no se commoveu menos, vendo a extrema pallidez do seu antigo
apaixonado.

-- verdade, senhor Ernesto, o que o meu marido acaba de me dizer? Pensa
em deixar-nos?

--Senhora condessa, respondeu o pintor com uma tranquillidade que
assombrou Amparo, sinto-me muito melhor, e resolvi restabelecer-me no
campo. Dentro em pouco as brisas do outomno annunciaro o inverno, e
creio que me  conveniente fortalecer-me primeiro.

--Se a sua resoluo  inabalavel, no nos devemos oppr, nem meu marido
nem eu, mas creia, senhor Ernesto, que ambos sentimos do corao que o
senhor deixe to depressa esta casa, que podia considerar como sua.

Ernesto sorriu-se amargamente, fez um movimento de indifferena com os
hombros, e ajuntou:

--Ha creaturas, minha senhora, para quem o mundo  um deserto, um campo
de tristes saudades. Ssinhos na terra, vivem, sem uma affeio que os
console, sem um peito carinhoso onde possam reclinar a fronte nas horas
d'amargura. Para estes seres, a sociedade dos homens  demais, porque
desconhecendo o embuste e a falsidade, so sempre enganados; eu talvez
pertena a essa desgraada familia de orphos das grandes cidades. Por
isso estou resolvido a nunca mais pisar as suas ruas, por isso me vou
encerrar como um selvagem nos montes de Toledo esperando no meio
d'aquelles agrestes barrancos o ultimo momento da minha vida, que
felizmente no se far esperar muito.

Amparo inclinou tristemente a cabea sobre o peito. As palavras eram uma
terrivel accusao, um castigo ao seu coquettismo.

--Porque me no odeia, senhor Ernesto? tartamudeou Amparo. Porque me no
despreza?

--Senhora, a minha alma no pde nem odiar, nem desprezar, nem esquecer.
As noites de Florena e de Roma imprimiram n'ella uma impresso
demasiadamente profunda.

A condessa comprehendeu que a conversa ia seguindo um rumo perigoso.

--Pois bem, senhor Ernesto, disse, peo-lhe em nome da amizade que
apague da memoria essas noites.

--Impossivel;  uma recordao que faz parte da minha vida; e por assim
dizer a minha segunda natureza. Quando der o ultimo suspiro, quando
deixar de existir, ento, sim, ento  que se extinguir do meu peito.

--Mas sente-se assim to doente? perguntou Amparo, que, aturdida ante as
sentidas recriminaes do pintor, no sabia que dizer.

--Quem sabe se serei um d'esses ridiculos apprehensivos que  fora de
pensarem na morte sempre d'ella vo escapando!

E sorrindo com um ar triste, continuou:

--O ar saudavel das montanhas talvez me restabeleca.

E puxando o cordo da campainha, disse a um creado:

--Diga ao senhor D. Ventura que me vou embora immediatamente e que o
espero para me despedir.

Amparo, ante aquella resoluo inesperada, que punha fim  entrevista de
uma maneira brusca, levou as mos  cara para occultar as lagrimas que
lhe fra impossivel suster.

--Pde-me odear, se assim lh'o apraz, disse a condessa; mereo-o, porque
no ha palavra com que possa desculpar o meu procedimento.

E sahiu precipitadamente do quarto.

--Ah! exclamou Ernesto, vendo-a sahir. No posso esquecer esta mulher!...

Deixou-se cair n'uma cadeira, como se o abandonassem as foras para
suster-se de p.

Em vo D. Ventura procurou persuadir Ernesto de que a vida de caador
montez, quando se carece de saude,  uma temeridade. O pintor estava
resolvido, e sahiu de casa do conde.

Quando chegou a sua casa da rua do Prado, quando os seus amigos Andr e
Marcial o viram entrar pallido como um cadaver e fraco como um
convalescente, depois de oito dias de ausencia, no puderam conter um
grito de assombro.

Ernesto explicou-lhes a ausencia e participou-lhes o plano que concebra
para se curar.

N'aquella mesma noite escreveu uma carta a Mauricio, caador de
profisso, que vivia nos montes de Toledo.

Tres dias depois, Mauricio respondeu a Ernesto, offerecendo-lhe a sua
casa, participando-lhe que se casra, e que, por conseguinte, podia
estar com alguma commodidade.

Ernesto fra caador n'outros tempos, antes de partir como pensionista
para Roma. Era d'aquella epocha que conhecia Mauricio, com quem entrra
em algumas caadas.

Resolvido a emprehender a viagem, principiou a dispr tudo, isto , pz
n'um caixote alguns quadros, o cavallete, a caixa das tintas e os
pinceis; n'outra metteu alguns livros de estudo e de recreio.

S lhe faltavam os apetrechos de caa, quando uma manh em que se
dispunha a sahir para comprar todos esses artigos, viu entrar o mordomo
do conde de Loreto, seguido de dois creados que traziam duas caixas e
dois bellos ces inglezes, um Setter e outro Pointer.

O mordomo avanou com o seu costumado ar grave, e, entregando uma carta
a Ernesto, disse-lhe:

--Meu amo, o senhor conde de Loreto, manda-me entregar esta carta,
estas caixas e estes ces, ao senhor, encarregando-me de lhe pedir o
desculpe de no vir pessoalmente, mas -lhe inteiramente impossivel.

A um signal do mordomo, os creados arriaram no cho as duas caixas e
amarraram os ces ao p de uma mesa.

--Creio que o senhor no deseja mais nada, ajuntou o mordomo, vendo que
Ernesto guardava silencio.

--Diga ao senhor conde que lhe agradeo reconhecidissimo a offerta que
se digna fazer-me, e que lhe falarei ou escreverei antes de partir.

O mordomo cumprimentou e sahiu seguido dos creados.

Ento Ernesto fez uma caricia aos ces, que se acercaram, meneando a
cauda, e exclamou:

--Aqui esto os meus novos amigos. Oh! Estes sim, que no me vendero!

E sentando-se n'uma cadeira, abriu a carta do conde e leu:


Meu bom amigo

    Deixou-me com o quadro de Esther uma recordao que conservarei
    emquanto viver; permitta-me que lhe remetta tambem como uma
    lembrana, os meus melhores ces e algumas armas e objectos que
    podem ser de muita utilidade no campo.

    Carlos I de Inglaterra offereceu a Rubens, em pleno parlamento, a
    espada que levava cingida  cinta, um diamante que trazia no dedo e
    uma banda de diamantes que lhe cruzava o peito. Tudo isto foi a paga
    do magnifico retrato d'aquelle monarcha que mais tarde to maus
    boccados fez passar a Luiz XVI. Permitta, pois, que eu, sem ser rei,
    tome a liberdade de offerecer alguns apetrechos de caa, de
    pouco valor, e no esquea que espero com anciedade noticias da sua
    saude e algum quadro dos que me prometteu.

    Minha mulher e meu sogro cumprimentam-n'o e desejam vl-o
    brevemente em Madrid restabelecido da sua doena

                                                    Seu amigo

                                                _Fernando del Villar._


Ernesto leu duas vezes a carta, e, soltando um suspiro, murmurou em voz
baixa:

--Eis-me amigo do conde de Loreto, de um homem com quem estive a ponto
de me bater.

Ernesto abriu as caixas, encontrando n'ellas tudo quanto pde necessitar
no campo um caador de dinheiro.

S a mo de uma pessoa intelligente teria sido capaz de reunir todos
aquelles objectos.

Ernesto encontrou duas espingardas, uma de Scotte de dois canos, do
systema Lefaucheux, outra de Greener para tiro de bala, uma excellente
botica de viagem, uma barraca de campo, uma mala de couro da Russia com
quinhentos cartuchos carregados com chumbo, e outra com duzentos
carregados com bala; um fato completo de camura, botas de cautchouc,
facas de matto, um rewolver Flaubert de doze tiros, com ornamentaes de
ouro, um estojo com todas as peas em prata, duas mantas inglezas e
varios artigos todos diversos e uteis.

Indubitavelmente o conde de Loreto gastra mais de cinco mil duros com o
presente.

Ernesto contemplou tudo com profunda melancholia.

-- preciso acceitar, disse. Ia para Toledo com um equipamento mais
modesto. Emfim, tanto melhor para o pobre Mauricio, que se se portar
bem, ser o meu herdeiro no dia em que eu morrer.

Como se v, Ernesto, no deixava nem um s momento a ideia da morte.

N'aquella noite Ernesto escreveu a seguinte carta:


Senhor conde

    A opportunidade produz sempre bom resultado no animo impressionavel
    das creaturas. Dispunha-me a sahir de casa com teno de comprar
    alguns apetrechos de caa, quando vi entrar o seu creado com o que
    me enviou.

    Sem ter nada de Pedro Paulo Rubens, no agradecerei menos os
    presentes que me fez, do que agradeceu o pintor flammengo os
    donativos de Carlos I.

    Obrigado, pois, senhor conde, pela sua delicada offerta. manh
    parto e talvez nos no tornemos a vr, apezar dos bons desejos que
    tem pelo meu restabelecimento. Ha doenas que cada hora qua passa
    nos leva uma parte da existencia, so as incuraveis; e a minha 
    d'essas que se chamam de morte.

    No  o medo nem a apprehenso que me fazem dizer isto; sei bem
    qual  o mal que me consome, e s terei illuses, quando tiver sido
    tocado pelos dedos gelados da morte. Deus quer que os doentes do
    peito sonhem com a vida nos ultimos momentos.

    Adeus, senhor conde. Em breve lhe enviarei por pessoa da minha
    confiana o primeiro quadro que pintar, e assim o irei fazendo
    successivamente, mas no receio, que a colleco seja muito grande.

    Cumprimentos  senhora condessa e ao senhor D. Ventura, e no
    esquea este desterrado voluntariamente, que prefere a solido do
    campo ao ruido e bulicio dos homens.

                                                    Sempre seu amigo

                                                    _Ernesto Alvarez._


No dia seguinte, Ernesto, depois de fazer varias compras, entre as quaes
se contava um vestido para a mulher de Mauricio, despediu-se dos amigos
e entrou n'uma carruagem de primeira para Toledo.

Ernesto possuia por uma unica fortuna, ao partir de Madrid, dez mil
reales que lhe produziram os objectos e quadros que vendeu.

lm dos quinhentos duros e dos presentes do conde de Loreto, levou uma
grande caixa com garrafas de champagne, rhum, cognac, aguardente e bom
caf.

--Esta caixa ser a minha alegria, disse Ernesto, sorrindo-se para os
amigos. O rhum concilia o somno e o champagne alegra os pensamentos.

..........................................................................
..........................................................................

Mauricio esperava-o em Toledo.

Carregou-se toda a bagagem em varios animaes e partiram para os montes,
onde o caador morava.




CAPITULO XXII

Vida de recordaes


A mulher de Mauricio no conhecia Ernesto; mas vendo-o chegar com o
marido e toda aquella bagagem, disse:

-- um principe que entra para nossa casa.

E effectivamente, o pintor foi para aquelle honrado casal tanto como um
principe, a julgar pela generosidade com que pagava os servios que
recebia.

Petra ficou louca de contentamento, vendo sobre uma cadeira o presente
que Ernesto lhe trouxera, e que constava de um vestido de l, um leno
de seda e uns brincos de ouro e coral.

Mauricio examinava tambem com satisfao uma espingarda de dois canos,
de fabrico belga, e uma forte e boa faca de matto.

--Mauricio, disse Ernesto, depois de entregar os presentes; estou muito
doente e venho passar algum tempo comtigo. Sei que vives da caa.
Nomeio-te meu caador, e dou-te um duro por dia. Aqui tens
adeantadamente dois mezes.

Ernesto pz na mesa sessenta duros.

Mauricio e Petra olharam para o dinheiro, sem comprehenderem uma palavra
de tudo aquillo.

--A caa que matarmos, exceptuando algumas peas que Petra cosinhar, 
tua e pdes vendl-a e guardar o dinheiro. Eu comerei com vocs. Nada de
cerimonias, o modesto cosido e uma vez por outra uma perdiz com molho de
villo ou um coelho  caadora, de que muito gsto, e por isso para
prato darei doze reales diarios. O caf e o vinho ficam por minha conta.
Por agora aqui tem esse caixote, onde esto varias garrafas. Preciso
que me cedam a sala, porque tenciono pintar alguns boccados. Tambem
virei a precisar que de vez em quando vs a Madrid levar os quadros que
pintar e comprar varias cousas que me tornem mais ameno este deserto.
Emfim, meu caro Mauricio, sei que vou dar-te muitos incommodos, que vaes
ter muitos carinhos para commigo, mas eu procurarei recompensar-te o
melhor que puder.

--Offerece-me muito, disse o caador, visto poder vender uma parte da
caa que matarmos, e ento com o senhor que atira to bem ou melhor do
que eu!...

--Mas estou doente, e j no tenho as infatigaveis pernas d'outros
tempos; e muitos dias deixaremos de matar por causa d'ellas.

Durante aquelle dia, Ernesto, Mauricio e Petra occuparam-se em
arrumaes, transformando a sala em atelier para o pintor.

--Agora, meus amigos, s me falta advertil-os d'uma cousa, disse
Ernesto. Estou doente, e como todos os doentes tenho as minhas
rabugices. Quando estiver no meu quarto, depois de me chamarem duas
vezes para comer e eu no vier, comam sem esperarem por mim.

Mauricio e Petra notaram que Ernesto estava muito pallido e com mau
parecer, que tinha uma tosse to scca e importuna que no prophetisavam
nada de agradavel para o seu hospede.

Quando Mauricio e sua mulher recolheram ao quarto, ella disse:

--Uhn! Parece-me que o senhor Ernesto no viver por muito tempo.

--O mesmo penso eu.

--Sabes, Mauricio, que me parece que deve haver algum mysterio em tudo
isto?

--Anh! As mulheres no pensam n'outra cousa. Aqui no ha outro mysterio
seno que o senhor Ernesto est doente e que se vem restabelecer.

--Seja como fr, que seja bem vindo, porque com elle veiu a fortuna.

Mauricio no respondeu. Como a mulher, suspeitra que algum desgosto
atormentava o seu hospede, mas mais prudente que Petra, disse de si para
comsigo:

--Dmos tempo ao tempo que saberemos a verdade. Emfim, seja como fr,
Ernesto  bom rapaz e sinto-me satisfeito por vl-o em minha casa.

..........................................................................
..........................................................................

Ernesto estava fechado no quarto. Seriam onze horas da noite. O luar
entrava pela janella que se conservava aberta. A brisa nocturna levava
at elle, de envolta com as suas invisiveis pregas, o perfume das
silvestres plantas do monte.

Aos ps da cama, sobre duas pelles de carneiro, dormiam os dois ces que
Ernesto baptisra com os nomes de Roma e Florena.

O pintor, sentado junto de uma mesa, tinha na sua frente uma garrafa de
cognac e um copo.

No illuminava o quarto outra luz seno a do astro da noite.

De vez em quando Ernesto bebia um gole de cognac e levava a mo ao
peito, respirando com difficuldade.

--Ah! Sim, sim, dizia, falando comsigo. A solido dos montes,  o que me
convm, porque longe da importuna charlatanice dos homens poderei
dedicar a ella todos os momentos da minha vida. Quizera apagar da minha
alma a recordao d'aquellas noites de Florena e arrancar dos meus
labios o beijo de fogo que me queima o corao. Mas  impossivel! Cada
vez a amo mais. Que seja feliz j que eu o no posso ser!

Ernesto bebeu de um s trago o contedo que ainda tinha no copo e
encheu-o novamente.

--A embriaguez sempre me repugnou, continuou, mas  o meu unico recurso
para esquecer. Que feliz  o homem que esquece!

E Ernesto esvasiou o segundo copo, fazendo um gesto de repugnancia; mas
dominando-se a si mesmo encheu-o pela terceira vez, despejando-o
rapidamente.

--Abraza-se-me a garganta, murmurou, mas  preciso que durma e que esquea.

E, levantando-se tirou uma garrafa de champagne do armario onde as
arrumra, fez-lhe saltar a rolha, e bebeu com avidez, dizendo:

--Este  que  o grande vinho! Vinde, sonhos cr de rosa! Vinde, ainda
que seja uma mentira, uma illuso, fumo que desapparea ao sopro
terrivel da realidade!

E depois de exgotar a garrafa, deixou-se cahir na cama, onde no tardou
muito que adormecesse, porque estava completamente embriagado.

..........................................................................
..........................................................................

Mauricio e Petra levantaram-se com o sol, e viram, com grande assombro,
ao passarem pelo quarto de Ernesto, que as janellas estavam abertas.

--Sahiria to cedo? disse Mauricio.

E entrou no quarto.

Ernesto dormia. Mauricio fechou a janella e sahiu nos bicos dos ps
para o no despertar, mas toda a precauo foi inutil, porque Ernesto
abriu os olhos e viu-o.

--Ah! s tu? disse elle. Bons dias, Mauricio. Que bem que dormi.

Mauricio reparou ento que o seu hospede no se despira, e que sobre a
mesa estavam duas garrafas despejadas.

--Sabes, Mauricio, que estou com vontade de experimentar os meus ces?

--Podemos dar uma volta, se quizer.

--Mas  preciso ter alguma contemplao.

--Andaremos s o que quizer.

--Ento vamos.

E Ernesto poz a cartucheira, pegou na espingarda e chamou os ces.

A uns quinhentos passos de casa, Roma e Florena levantaram os focinhos
e moveram a cauda com mais viveza do que a usual.

--Parece que os ces se sentem satisfeitos, disse Ernesto.

--Tem bom faro. J sabem que este terreno  muito abundante de caa; e
estou crente que algum dia vou encontrar as perdizes dentro de minha casa.

Os ces deram signal: Roma todo curvado com o focinho junto ao matto,
Florena extendido. Roma encontrra uma pea de surpreza e Florena o
rasto verdadeiro.

Um bando de perdizes levantou-se ento com estrepito do meio do matto 
investida dos ces.

Mauricio disparou, matando com o segundo tiro um perdigoto. Ernesto ia
to distrahido que no teve tempo de fazer fogo.

Desde o rei ao batedor, desde o caador ao armador, todos quantos
abandonam as commodidades da sua casa e se dedicam aos prazeres da caa,
so inimigos irreconciliaveis da perdiz; por isso a natureza a dotou com
uma vista melhor que a do lynce, de um ouvido superior ao da lebre, e de
um instincto de conservao to grande que no ha animal que lhe ganhe.

Se a perdiz fosse to dorminhca como o arganaz e to indolente como a
codorniz, teria desapparecido do reino animal antes de se inventar a
polvora.

O arganaz tem, comtudo, tanto engenho como somno; diga o ardil
maravilhosamente inventado por elle para apanhar o incauto passarinho
que vae pr sobre elle, satisfeito por ter encontrado um ninho onde
guardar os ovos.

Mas deixemos esta digresso. Se algum dia as minhas occupaes
permittirem, escreverei um livro para os caadores que contenha a parte
agradavel e ridicula da caa, consignada na pratica de muitos annos de
experiencia passados na agreste e grata solido dos montes.

Voaram as perdizes, surprehendidas no seu doce bem-estar,  sombra de um
sobreiro, e como o violento e rapido vo da perdiz excita e pe nervoso
o caador aficcionado, Mauricio exclamou:

--Vamos a ellas, senhor Ernesto.

--Sim, sim, vamos, j que no disparei.

Mauricio esqueceu n'aquelle momento que levava por companheiro um doente
fraco, e foi depressa, ou melhor dizendo, a correr pela encosta de um
barranco.

Ernesto fez esforos para o seguir mas a meio caminho largou a
espingarda, extendeu os braos e cahiu desamparado. Tinha desmaiado.

Mauricio deteve-se assustado, pegou no seu hospede ao collo e deitou a
correr at casa, que no era longe. Petra ao vl-o entrar, trazendo
Ernesto nos braos, no poude conter um grito.

Mauricio continuou o seu caminho e deitou Ernesto na sua cama, o qual,
pouco depois, abriu os olhos, enviando um sorriso de agradecimento ao
caador.

--Diabo! Que susto que me pregou, senhor Ernesto! Julguei que se
despenhava pelo barranco.

--Bem vs, Mauricio, que no presto para nada, nem mesmo para caar. J
estou melhor. Mas em quanto no estiver em estado de te acompanhar,
dedicar-me-hei a caa de espera. Agora tranquilliza-te, hoje em vez
de caar, pintarei.  preciso matar o tempo.

Uma hora depois, Ernesto mais alliviado, tomava algum alimento e punha
uma tela n'um cavallete.

Pensou alguns minutos qual o assumpto de que trataria primeiro, e acabou
por decidir-se, esboando a scena que pouco antes succedra no barranco.




CAPITULO XXIII

Uma caada


Durante oito dias Ernesto no tornou a pegar na espingarda. De manh,
pintava,  tarde, seguido pelos ces dirigia-se a um monte proximo de
casa, sentava-se na parte mais alta e como gozava disfructando o
panorama que aquelle sitio apresentava, passava largas horas immovel
como uma estatua.

Algumas vezes, j noite, Mauricio ia buscal-o e ambos regressavam a casa.

Ao nono dia, Ernesto chamou Mauricio.

--Desejo que vs a Madrid, disse-lhe, entregar este quadro  pessoa que
te indicarei, mas preciso primeiro que matemos um javali, para offerecer
 mesma pessoa.

--Para isso  preciso fazermos uma espera toda a noite, e como o senhor
est muito fraco...

--No te inquietes com a minha fraqueza; esperaremos. Preciso de um javali.

--Posso matal-o ssinho, se quizer.

--No, no; quero acompanhar-te. Quando pde ser?

--Esta noite; sei onde se vae banhar uma manada d'elles, e  infallivel
matar-se algum.

--Um s chega.

--Pois matar-se-ha.

--Ento prepara tudo para esta noite.

--Devo advertil-o de que o sitio onde vamos fazer a espera, fica a tres
quartos d'hora de caminho d'aqui.

--No faz mal, iremos com antecedencia. Sahiremos cedo.

--Bem, bem.

Mauricio sahiu do quarto de Ernesto, meneando a cabea em signal de
desgosto, chegou  cosinha, onde estava sua mulher, e disse-lhe:

--Petra, esta noite o senhor Ernesto quer que vamos  espera dos
javalis: tem desejos de matar um. Por isso cearemos uma hora antes de
pr o sol. Talvez no voltemos em toda a noite.

--Mas isso  uma loucura. O sr. Ernesto no est em estado de passar
tantas horas ao relento da noite.

--Ento que queres, embirrou que me ha de acompanhar!

--Mas no acho ba a vida que leva para quem precisa restabelecer-se.

Mauricio encolheu os hombros, e, sentando-se num banco, enrolou um cigarro.

--Estamos em quarto minguante. Para matar uma ou duas peas  preciso ir
aos charcos do barranco da Culebra, pois vo ali de noite beber agua e
fossar no barro. O caminho no  dos melhores. Queira Deus que possa l
chegar.

--J lhe disseste isso? Porque no vae a cavallo?

--J, mulher, j; mas diz que quer ir a p e quando elle teima no ha
outro remedio seno obedecer.

Petra approximou-se do marido, e, baixando a voz, disse:

--Dize-me, Mauricio. Tu conhcel-o ha muito tempo?

--Sim, cacei com elle muitas vezes e sempre foi o melhor e o mais
generoso homem do mundo.

--E tinha o vicio que tem agora?

--No, Petra, antigamente no bebia bebidas brancas, bebia smente
vinho, e isso mesmo pouco. Hoje, como sabes, quasi todas as noites...

Mauricio deteve-se, dirigiu um olhar para a porta, e depois continuou:

--Hontem reprehendi-o amigavelmente, dizendo-lhe que no lhe podia
fazer bem beber tanto rhum, e elle, pondo-me uma mo no hombro, e
sorrindo-se com expresso bondosa, respondeu-me:

--Caro Mauricio, ha dres to terriveis, desgostos to profundos, que
para os esquecer algumas horas  preciso embriagarmo-nos. A minha doena
no tem cura; deixa-me, pois, beber, esquecer, dormir.

--Quando eu disse que havia aqui algum mysterio!... disse Petra.

--Tambem me parece que tens razo; aqui deve haver mysterio.

--Sabes o que calculo? Que tudo isto deve ser obra de mulher.

--E porque calculas que seja obra de saias?

--Vaes vr. Outro dia entrei no quarto para o tratar, como de costume, e
encontrei debaixo da almofada uma fita de seda, e um boccado de tela,
onde estava pintada uma cabea de mulher extremamente formosa. No tive
tempo para mais do que olhar rapidamente para estes objectos e tornal-os
a pr no mesmo sitio em que os encontrei quando o vi entrar,
precipitadamente, dirigir-se para a cama, pegar n'elles e sahir do
quarto do mesmo modo, olhando-me de um modo estranho, como se quizesse
adivinhar se eu tinha visto. Fiz-me desentendida, e continuei arrumando
o quarto.

--Que curiosas so as mulheres.

--Juro-te que s por casualidade...

--Emfim, seja como fr, visto que elle nada nos disse, nos no lh'o
devemos perguntar.

Como se v a conducta de Ernesto causava viva curiosidade ao honrado
casal.

Ao cair da tarde Ernesto e Mauricio levantaram-se da mesa.

--Levamos Roma e Florena? perguntou o pintor.

--Parece-me melhor deixal-os em casa, respondeu Mauricio; no esto
costumados s esperas, e podero espantar-nos a caa. Levarei antes o
meu podengo para que procure a presa no caso de ficar ferida. _Currito_
(assim se chamava o co de Mauricio) deita-se a meus ps e no se move
d'ahi.

--Vamos quando quizeres.

Mauricio carregou com escrupuloso cuidado a espingarda e guardou um
frasco de rhum no bolso. Ernesto pegou na sua e sahiram.

O sol comeava a declinar.

--Temos tempo, disse Mauricio. D'aqui at aos charcos levaremos quando
muito tres quartos de hora. Reconheci esta manh o terreno e calclo
pelas pgadas que so uma femea com sete a oito filhos, e dois machos
que no devem ter menos de dez annos. Os machos veem ss, antes ou
depois da femea. Parece-me que nos divertiremos, mas  preciso ter muita
paciencia, porque apezar de todas as rezes abandonarem as tocas quasi 
mesma hora, umas esto mais longe do que outras do barranco e chegam por
conseguinte mais tarde. Tenha cuidado em fazer fogo sobre a pea antes
d'ella entrar n'agua. Se cair morta fique quieto, porque quando o charco
estiver silencioso, em poucos minutos apresentar-se-nos-ha outra, e
assim successivamente se podem disparar alguns tiros durante a noite. O
sitio onde vamos  bom, e estaremos perfeitamente collocados.

Ernesto ouvia satisfeito as lies que lhe dava aquelle homem
experimentado.

Mauricio que como todo o caador de profisso tinha uma vista
privilegiada, deteve-se, inclinou-se para reconhecer o caminho, e disse:

--Ola! Por aqui passou um veado de _dez pontas novas_; aqui ha pgadas
recentes; os crtes na herva so frescos. A femea caminhava mais 
direita: passou por aqui.

--Mas como diabo conheces se  femea ou macho? perguntou Ernesto,
admirado da certeza com que Mauricio falava.

--Isso salta bem a vista. Um montanhez practico nunca se engana. O veado
tem o passo maior do que a cora, e deixa a pgada mais profunda,
caminha com mais regularidade, e colloca a pata trazeira sobre a pgada
da pata deanteira. A cora tem o p mal feito, os seus passos so mais
curtos, e por conseguinte, no chega com as patas trazeiras s pgadas
das patas deanteiras. Emquanto ao conhecimento pelas pgadas, 
unicamente devido  grande practica. Quando se segue um rasto pelas
pgadas, o caador deve conhecer se o veado que persegue  _estaquero_,
isto , se lhe comeam a sahir os paus, tem um anno; _enodis_, tem tres
a quatro annos, _diez condiles nuevos_, se entrou nos seis annos, ou
_ciervo viejo_, se tem mais de dez annos. A estes conhece-se facilmente;
tem os ps deanteiros mais desenvolvidos do que os trazeiros.

Depois d'estas explicaes que deixaram Ernesto satisfeito, receou no
as poder pr em practica sem commetter grandes erros.

De vez em quando o caador dirigia um olhar furtivo ao seu companheiro,
cuja pallidez e difficil respirao o inquietavam.

A meio da ladeira, que tinham que transpr para chegarem aos charcos,
situados em um dos barrancos, Mauricio deteve-se e disse com manifesto
interesse:

--Senhor Ernesto, vejo que est muito canado. Quer encostar-se ao meu
brao?

--No preciso, mas vamos mais devagar, se te parece.

Como quizer.

Quando chegaram ao cume, Ernesto teve necessidade de se sentar e,
encostando os cotovellos sobre os joelhos, deixou cahir a fronte entre
as mos.

O caador no disse nada; de p, immovel, ficou contemplando Ernesto com
tristeza.

Mauricio no tinha palavras, mas sobrava-lhe corao para compadecer-se
do seu hospede, a quem julgava gravemente enfermo.

--Podemos continuar, disse Ernesto, levantando-se.

--Agora o caminho  mais facil, respondeu Mauricio. Os charcos esto
n'esse barranco; antes de um quarto de hora estaremos commodamente
sentados nos nossos postos.

Mauricio seguiu por uma vereda aberta entre a matta. Ernesto caminhava
atraz.

De vez em quando o caador voltava a cabea para vr se o seu
companheiro o seguia.

Quando chegaram aos charcos ainda restavam alguns instantes de dia. As
magestosas sombras da noite avanavam com rapidez, mas a lua ia
rapidamente tornal-as menos escuras, pois o seu disco despontava j no
horisonte.

--Parece-me conveniente que fiquemos juntos, porque assim quando estiver
canado voltaremos para casa, disse Mauricio.

--Mas mataremos menos caa.

--Quem sabe! Podem entrar juntas e ento cada qual escolhe a sua.

Mauricio conhecia varios esconderijos em torno do charco e escolheu,
pelas recentes pgadas dos javalis, o que lhe pareceu melhor; dobrou o
capote, e estendeu-o no cho para que Ernesto estivesse mais
commodamente e esperaram calados.

A noite  mais magestosa, mais imponente, mais bella no meio do Oceano
ou n'uma montanha, do que nas ruas de Madrid. Nas grandes cidades v-se
por toda a parte a mo do homem, mas no mar ou na montanha v-se a de Deus.

Ernesto e Mauricio esperavam no mais profundo silencio. O pintor
entretinha-se contemplando o magnifico astro da noite que subia
magestosamente pelo cu enchendo o espao de poetica e melancholica
luz, que cahindo como chuva de perolas sobre as armadas das arvores
e sobre as silenciosas aguas do charco, dava um tom encantador  paisagem.

Ernesto, como pintor, pensava em fazer um estudo d'aquelle logar e
pintar depois um quadro; mas ao mesmo tempo pensava na mulher do homem
que se compromettera a comprar-lhe tudo quanto pintasse durante a sua
estada nos montes de Toledo.

A presena da lua, o imperceptivel movimento das ramadas dos azinheiros,
o silencio da noite que o rodeava, fizeram-lhe recordar Florena. Fechou
os olhos para sonhar acordado, e os seus labios entreabriram-se em doce
extasis, como se fsse a dar e receber um apaixonado beijo de amor.

N'aquelle momento para elle no existia mais do que o presente. A sua
vida era uma recordao; a sua alma apaixonada apresentava-lhe com todas
as cres da verdade as scenas apaixonadas e perdidas para sempre, causa
da sua desgraa, origem da sua morte.

Se tivesse entrado no charco um bando de cincoenta rezes, Ernesto no
ouviria; mas, felizmente tinha ao seu lado Mauricio, caador de
profisso, que sem ter a imaginao preoccupada com outra cousa que no
fosse o fim para que fra at alli, estava com o olhar fixo, o ouvido
attento e a espingarda prompta a despedir a morte e como o verdadeiro
caador que quando faz uma espera tem o ouvido e a vista to perspicaz
como a da perdiz, e por isso sem duvida Ernesto sentiu que o seu
companheiro lhe tocava no brao.

Ernesto abriu os olhos.

--Acorde, que j as ouo.

--No estou a dormir, respondeu o pintor, mas no ouo nada.

--Pois j se approximam, tenha a certeza, ainda esto longe, e so
femeas; conhecem-se pelo barulho que fazem. Os machos veem sempre mais
silenciosos.

Ernesto applicou o ouvido, e, depois de um segundo de immobilidade,
meneou a cabea dizendo:

--Pois eu no ouo nada.

--Sim? Pois tenha paciencia que no tardar muito que tenha de tapar os
ouvidos, porque a musica d'ellas, quando andam em manadas, no  por
certo das mais agradaveis. Veem a entrar por aquella clareira que est
na nossa frente. Antes de se metterem n'agua, de que tanto gostam, param
para conhecerem o terreno. Ento deve fazer fogo, apontar  maior que
ficar a sua esquerda; eu entreter-me-hei com a direita a vr se,
disparando ao mesmo tempo, matamos duas.

E Mauricio, collocando o bico do p esquerdo sobre o de Ernesto, disse:

--Quando carregar com o meu p, faa o _gosto ao dedo_ e faa fogo. E
agora silencio que j esto perto.

Dois minutos depois, Ernesto ouvia a algazarra que Mauricio lhe annuncira.

Esperaram, pois, pelo momento opportuno que se no devia fazer esperar
muito.

No sitio que Mauricio indicra appareceu de repente uma femea muito
grande seguida de seis javalis pequeninos cujas desegualdades de tamanho
indicavam ser de duas ninhadas differentes.

Ernesto pudra ter feito fogo  femea; estava uns cinco passos afastada
dos filhos, levantando a cabea em direco aos charcos.

O pintor olhou para o seu companheiro como que a interrogl-o, mas o
caador indicou com um movimento de olhos que esperasse. E
effectivamente a uns vinte metros de distancia do logar em que estava a
femea, abriu-se uma clareira e appareceu um javali quasi do dobro do
tamanho da femea.

A lua estava to clara que os caadores viram perfeitamente os animaes.

Ernesto sentiu o p de Mauricio comprimir o seu, e como tinha a
espingarda apontada, disparou.

As duas detonaes produziram no espao um s echo.

A bala de Mauricio foi to bem apontada que o javali deu um salto,
caindo sem vida depois de soltar um grunhido de raiva. A femea, a que
Ernesto apontra foi ferida na cabea; deu duas voltas, quiz fugir, mas
foi cair junto ao charco; depois fez um esforo supremo, levantou-se
novamente, entrou na agua para tornar a cair revolvendo-se nas ancias da
morte, soltando grunhidos desesperados que pouco a pouco foram
enfraquecendo.

Os demais tinham desapparecido como por encanto.

Mauricio ouvia as palpitaes do corao de Ernesto cujo ruido e
precipitao o assustaram.

--Est peor? lhe perguntou.

--No, no;  o prazer que experimento n'este momento. Se tornasse a
renascer em mim a paixo da caa, talvez esquecesse uma historia que me
assassina, que ser a causa da minha morte.

O pintor revelra a Mauricio n'um arranco de enthusiasmo, a causa da sua
melancholia, a origem da sua doena.

--E que fazemos agora? perguntou Ernesto.

--Primeiro que tudo castrar o macho para que sangre e a carne perca o
gosto a bravo.

Mauricio levantou-se, tirou a faca de matto da bainha, e sahiu do
esconderijo, dirigindo-se para o sitio onde estava o javali.

Ernesto segui-o, examinando com o mais particular interesse todas as
operaes que Mauricio fazia s duas peas mortas.

O caador depois de lhe abrir todo o ventre e de lhe tirar os
intestinos, pendurou-os pelos ps para que sangrassem e ficassem limpos.
Depois lavou as mos na agua do charco, e disse:

--Agora diga-me se quer dar por terminada a caada ou quer fazer nova
espera, apezar de me parecer melhor, o primeiro caso, pois  preciso
esperar pelo menos duas horas at que volte outro javali.

--Vamos para casa. E as rezes?

--Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.

--Ento d-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.

Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa
onde o pintor chegou bastante fatigado.




CAPITULO XXIV

Uma carta e um annel


Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento
occupou-se de Amparo.

--manh, disse, falando comsigo, ouvir pronunciar o meu nome, e no
fundo da sua alma renascer a recordao das noites de Florena. Os seus
labios, vermelhos como bagos de rom, recordar-se-ho tambem d'esse
beijo fatal que me fez o mais desgraado dos homens, e pela mente do
conde de Loreto cruzar debil, mas ameaador, o phantasma de uma duvida,
a sombra de uma suspeita.

Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu
o brao, pegou na garrafa e bebeu um gole.

--Ha quasi um mez sem a vr, continuou, e comtudo a ausencia no apagou
o fogo devorador d'esta paixo que me abraza. O conde de Loreto tinha
mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente no a ama
tanto. E que importa isso s mulheres? O conde  rico, nobre, e a
vaidade  o dominio tentador do bello sexo. Se o amor  o fogo d'alma
que transmitte calr s ideias dos homens de genio, devo fazer grandes
quadros.

E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente na garrafa, e
quasi a despejou de um trago.

Na sua physionomia, no seu olhar, assomaram os symptomas da embriaguez
produzida pelo alcool.

Com a lingua, presa e balbuciante, comeou a falar em voz alta.

--A luz dos seus bellos olhos  o unico reflexo que illumina as
profundas trevas da minha alma, a que acompanha a fria soledade do meu
corao; as seis lettras do seu nome, as notas mais harmoniosas que
resam no fundo do meu peito. Insensato! A tua vida no  mais do que um
sonho, que se desvanece ante o sopro da realidade. Tu recebeste tres
beijos, durante tres noites de luar; aquelles beijos encerravam o veneno
do teu sangue. A tua vida no  vida; o teu amor  s uma recordao.
Onde est a morte? Porque tarda tanto? Porque no chega, quando a espero
de braos abertos?

Ernesto fechou os olhos. Os seus labios entreabriram-se para deixar
passar um suspiro, e ficou dormindo pensando em Amparo.

..........................................................................
..........................................................................

Mauricio entrou no quarto do seu hospede s cinco da manh.

Ernesto levantou-se.

--Est tudo prompto para partires? perguntou.

--Sim senhor; tenho o javali grande preso convenientemente ao cavallo. 
femea, segundo as suas ordens, tirei-lhe a cabea e o lombo; o resto
fica em casa.

--Espera, disse Ernesto.

E pegando n'uma carta que estava sobre a mesa e n'uma tira de papel,
continuou:

--Entregas esta carta, o javali grande e estes dois quadros ao senhor
conde de Loreto, rua do Barquillo, n...., e comprars tudo o que vae
mencionado n'esta lista.

Ernesto abriu uma gaveta da commoda, tirou dez moedas de cinco duros e
entregou-as a Mauricio.

Depois escreveu rapidamente n'uma folha de papel:


Meus bons amigos

                                                          Marcial e Andr

    Remetto-lhes uma cabea de javali que cosinharo no restaurante do
    _Armio_ para almoarem com alguns amigos, bebendo por este caador
    _selvagem_ que se no esquece de vocs.

                                                            Sempre amigo

                                                            _Ernesto._

--A cabea e o lombo da femea entrega-os onde diz este envellope, rua do
Prado. Vae com Deus e vem manh, se te fr possivel.

Mauricio sahiu, despedindo-se da mulher, e encaminhou-se para Toledo,
onde devia tomar o comboio de Madrid.

Ernesto pegou na espingarda, chamou os seus ces Roma e Florena, e
sahiu tambem em busca de perdizes, prevenindo Petra de que no viria
almoar antes do meio dia.

..........................................................................
..........................................................................

O conde de Loreto, Amparo e D. Ventura estavam almoando quando entrou
um creado dizendo-lhes que estava  porta um homem que parecia um
montanhez, que trazia uma carta, um javali e uns quadros.

--Ah! exclamou o conde, Ernesto cumpriu a sua palavra. Dize a esse homem
que suba e tragam vocs o javali para o vrmos.

Dois creados trouxeram o javali para cima de uma mesa.

--Soberbo animal! exclamou Fernando. Pelas cerdas e pelos dentes bem se
v que deve ser velho.

--Oito annos, respondeu Mauricio. Vale bem a ona de chumbo que lhe deu
a morte.

--Pelo que vejo, Ernesto diverte-se pelos montes?

--Diverte-se, exclamou o caador, tudo menos isso; est muito
doente, dorme pouco e no tem appetite. A bem dizer que se alimenta s
com caf e rhum. Tenho c um palpite em que no morrer de velho.

Todos escutavam com interesse as palavras de Mauricio.

--Disseram-me que traz uma carta e uns quadros, disse Fernando.

--A carta est aqui: os quadros deixei-os n'aquella casa.

O conde leu em voz alta o seguinte:


Senhor conde de Loreto

    Ignoro ainda se  proveitosa ao meu corpo esta soledade em que vivo
    ha vinte dias, mas conheo que  ao espirito.

    No cume d'estas montanhas no se vem homens, no se encontra a
    animao nem o bulicio das grandes cidades, mas o ar  mais puro, o
    horisonte mais limpido, o ambiente mais perfumado e respira-se com
    mais facilidade.

    Seja como fr, espero sem sobresalto que se resolva o problema da
    minha enfermidade, sem me occupar muito se ser ou no vantajoso o
    desenlace.

    Com o portador d'esta, caador infatigavel e amigo leal, em casa de
    quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o
    primeiro javali que matmos e dois quadros sobre assumptos de caa,
    genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver foras para
    sustentar o pincel.

    No marco preo aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos
    depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje no preciso
    de dinheiro, mas avisl-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu
    banqueiro.

    Para lhes provar que no os esqueo, desejava que me concedessem
    auctorizao para fazer trez retratos de memoria, ainda que se
    admire ao vl-os, o meu leal amigo D. Ventura.

    Deponha aos ps da senhora condessa os meus respeitos, d um abrao
    em seu sogro e no esquea que n'este deserto fica esperando
    occasio de lhe ser util

                                                    o seu amigo e obrg.

                                                    _Ernesto Alvarez._


Amparo ouvira lr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do
fundo da alma a frma delicada como estava escripta.

S lhe prendeu a atteno a auctorizao que pedia para pintar os tres
retratos, entre os quaes devia figurar o seu.

--Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caador.

--Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus
affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a
algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma
cabea de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.

--Tem algum inconveniente em me dizer que objectos o senhor Ernesto o
encarregou de comprar.

--No, senhor; aqui est a relao.

E Mauricio entregou-a ao conde que depois de lr, disse:

--Meu amigo, tenho em casa tudo quanto Ernesto deseja; no precisa,
pois, ir comprar cousa alguma. Agora v almoar emquanto escrevo uma
carta, depois ir levar a cabea a esses senhores, e meia hora antes do
comboio partir encontrar na estao, despachado para Toledo, tudo
quanto Ernesto pede.

Mauricio com sinceridade natural, ia entregar ao conde o dinheiro que
Ernesto lhe dera.

--No, esse dinheiro entregue-o a quem lh'o deu, e demais, far-me-ha o
favor de acceitar esta _onza_,[2] para comprar um presente a
sua mulher.

Mauricio tentou recusar a _onza_, mas o conde obrigou-o a acceitl-a.

Depois, conduziram-n'o a outra casa onde lhe serviram o almoo.

O conde escreveu entretanto a seguinte carta.


Amigo Ernesto

    Os quadros so bellos e o javali soberbo. Quando os homens tem
    talento trabalham em todos os generos. Obrigado pela sua boa
    memoria, obrigado, porque se no esqueceu de ns, apezar do mal que
    lhe temos feito.

    Pede-me auctorizao para fazer tres retratos; concedo-lh'a
    satisfeito no s por lhe ser agradavel a si como tambem s pessoas
    que vo ser retratadas nas telas.

    Desejava passar uma temporada na sua companhia para caarmos
    juntos, e para vr se o convencia a abandonar essa vida solitaria,
    principalmente durante os quatro mezes de rigoroso inverno.

    At ento veremos o que posso conseguir. Hei de fazer a diligencia.

    Fico esperando os doze quadros que me annuncia na sua carta, o que
    me prova que se sente animado para o trabalho.

    Adeus, meu amigo, e no esquea que lhe desejamos todas as
    propriedades.

                                            Sempre seu amigo,

                                            _Fernando del Villar._


O conde leu a carta  mulher e disse:

--Agora, minha querida, escreve quatro linhas ao nosso amigo; talvez
isso lhe faa bem.

Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma
inteno pouco agradavel.

O conde sorriu-se porque comprehendra a duvida da mulher. Mas
rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:

--Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiana, e sinto-o; isso
indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a
Ernesto, sou eu que t'o peo. Quatro palavras tuas far-lhe-ho bem, o
desgraado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraado o fizemos. No
sejamos egoistas at ao ponto de sermos malvados gozando com a sua
agonia, com a sua dr, que s ter fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o
que quizeres, Amparo.

O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa,
continuou:

--No lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e
entrega-a tu mesma a esse homem.

E o conde sahiu.

Amparo ficou com a carta na mo e como que pregada ao cho.

Aquella confiana que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um
lao?

Amparo no podia crr na hypothese de um lao n'um homem to generoso
como Fernando.

O conde de Loreto no era um homem vulgar. Amava a mulher, perdora-lhe
o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as
dres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devras e por isso
dissra  mulher que escrevesse.

Amparo sentou-se, pegou na penna e durante dez minutos no soube como
comear.

De subito teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe, o semblante
reanimou-se-lhe: dir-se-hia que receava transmittil-a ao papel, mas
fazendo um esforo, e com mo mal segura, escreveu:


Senhor Ernesto

    Ja que meu marido o auctoriza a fazer os tres retratos, e julgando
    que d'elles um ser o meu, peo-lhe, (queira perdoar este capricho
    de mulher), que se no esquea do vestido que tinha em Roma quando
    veiu offerecer-me o que fizera, e que ainda conservo sobre o fogo
    do meu gabinete.

    Trate-se, porque desejamos em breve vl-o completamente restabelecido.

                                                            _Amparo._


A condessa fechou a carta e foi entregl-a a Mauricio, que j tinha
acabado de almoar.

--Entregue esta carta ao senhor Ernesto, mas s a elle, disse-lhe.

--Sim, senhora condessa.

Amparo ia a sahir, mas deteve-se.

-- casado? perguntou.

--Sim, minha senhora.

--Ento faa favor de dar da minha parte este annel a sua mulher, e
recommendar-lhe que trate do senhor Ernesto com todo o carinho.

E Amparo como que envergonhada por aquelle arranco, tirou um annel do
dedo, entregou-o a Mauricio e sahiu, dizendo para comsigo:

--Assim comprehender que me no  indifferente o seu soffrimento e que
a sua morte me ha de custar algumas lagrimas.

Mauricio ficou um momento immovel. Pensava se aquella mulher to formosa
teria alguma coisa que vr com os padecimentos do seu hospede.

..........................................................................
..........................................................................

 hora indicada pelo conde, Mauricio estava na estao, onde um
creado lhe entregou uma guia do caminho de ferro.

--Que  isto? perguntou elle.

--Da parte de meu amo, o senhor conde de Loreto. Com esta guia lhe
entregaro em Toledo, pois que foram expedidas em grande velocidade,
duas caixas e um caixote grande. N'ellas vae tudo quanto o senhor
Ernesto encommendou.

Mauricio guardou a guia na carteira e entrou para a _gare_, tomando
ento logar n'um compartimento de terceira classe.

Durante a viagem, o caador olhou muitas vezes para o annel, e pensava
em quem lh'o dera, dizendo de si para comsigo:

--Parece-me que vou descobrindo alguma cousa do segredo!




CAPITULO XXV

O regresso de Mauricio


Quando Ernesto sahia s, afastava-se pouco da habitao de Mauricio.

Muitas vezes pendurava a espingarda no ramo de um azinheiro, e, subindo
com difficuldade ao mais alto monte, sentava-se ahi, ficando largas
horas a contemplar a paisagem; outras, sem temer o perigo, descia ao
mais fundo dos barrancos, agarrando-se s plantas, gozando tambem
n'aquella silenciosa soledade, onde o menor suspiro faz na concavidade
das rochas um echo como se repetisse a voz humana.

Ento esquecia os ces, a espingarda e a caa, e a recordao
inolvidavel de Florena preenchia-lhe por completo a sua imaginao.

O seu amor por Amparo era to constante, to verdadeiro, to grande,
que, enchendo todo o seu ser, formra n'elle uma segunda natureza to
poderosa que era impossivel separar-se d'elle sem perder a vida.

Conhecia, comtudo, toda a loucura da sua paixo, e acceitra-a como se
acceita uma d'essas doenas que se no procura e que nos causa a morte.

Se Ernesto tivesse encontrado uma Heloisa, a terra para os dois amantes
teria sido um paraiso, mas encontrra uma _coquette_ que lh'a
converteu em pantanoso charco, que lhe envenenou o sangue ao aspirar os
maleficos miasmas que exhalava.

O seu mal era irremediavel. O amor tem muitas vezes a sua dose de veneno
que causa a morte.

Mas, apezar d'isso, o corao de Ernesto era to grande, to nobre, to
generoso, que no odiava aquella que era seu tormento, antes pelo
contrario, amava-a cada vez mais.

Talvez que ainda lhe restasse um pouco de esperana, e d'essa esperana
emanava a doce compaixo que sentia por Amparo.

Por outro lado, o conde de Loreto era um homem digno de ser amado. Quo
doloroso teria sido para Ernesto vr-se preferido por um homem indigno,
por um ser desprezivel, como acontece tantas vezes na vida!

Quantos exemplos se podem citar de levianas mulheres que espesinham a
honra de homens illustres nos braos de amantes despreziveis!

Ernesto reconhecia no conde grandes qualidades, e isto fazia-lhe menos
culposa a conducta de Amparo. Conhecia tambem que, se o conde no fosse
um homem superior e menos conhecedor do mundo, sabendo os antecedentes
de Roma e Florena e a parecena de Esther com a mulher, tomaria isso
por uma grave offensa e o assumpto no teria ficado assim. Talvez um
duello, e, por conseguinte, o escandalo que segue casos d'esta natureza,
teria augmentado as difficuldades a Ernesto para chegar at Amparo,
para ser talvez amado por ella com a vertiginosa paixo do adulterio.

Com a conducta prudente, digna e sabia do conde, evitou todos os perigos
que ameaavam o marido, a mulher e o amante, cortando com um s golpe a
cabea  repugnante maledicencia, que j comecava a levantar-se,
sorrindo-se de uma maneira satanica.

Por isso, Amparo e Ernesto admiravam o procedimento do conde de Loreto,
e este por seu lado, podia dormir tranquillo, com a segurana de que sua
mulher no o trahiria. E emquanto a Ernesto, sabia que de rival
intransigente se convertra em amigo leal.

Amparo, comtudo, passou mal algumas noites. Amava com delirio o marido,
mas convencida de que ella era a causadora da doena de Ernesto, temia o
momento em que uma carta participasse a sua morte, isto , que em seu
peito entrasse o remorso, que tira o somno, que entristece a alma, que
pe uma nuvem no corao.

..........................................................................

Mauricio chegou ao monte ao amanhecer do dia seguinte; Petra acabava de
se levantar, e ouvindo assobiar correu a abrir a porta.

O caador no vinha s. Acompanhava-o um homem com tres burros
carregados com os objectos que o conde envira a Ernesto.

--Tudo isto  para nos? perguntou Petra, depois de abraar o marido.

-- para o senhor Ernesto, que lh'o manda um amigo de Madrid. Mas tambem
trago um presente para ti.

--Isso j eu esperava porque os bons maridos no se esquecem das
mulheres quando vo s grandes cidades.

O homem comeou a descarregar as caixas e o caixote, deixando tudo junto
da porta.

Mauricio entretanto metteu dois dedos da mo direita no bolso do collete
e tirou a _onza_ que o conde lhe dera, dizendo em voz baixa:

Pega: isto offereceu-me aquelle senhor a quem levei o javali e os
quadros como gorgeta.  para comprares o que quizeres.

--Uma _onza_! Fizeste bem em a no trocares, porque a mulher cuidadosa
pensa sempre no dia de manh, e, quando apanha  mo uma moeda d'estas,
guarda-a como um remedio contra as necessidades da vida.

--E o senhor Ernesto? perguntou Mauricio.

--Ainda dorme.

--Hontem sahiu?

--Sim, um boccadito de manh. Voltou muito canado e comeu pouco.
Coitado! est cada vez mais triste. Esta noite entrei no quarto para vr
se queria tomar alguma coisa, e encontrei-o com os olhos inchados,
enegrecidos, como se tivesse chorado. Muito grande deve ser o seu desgosto.

Mauricio guardou silencio; e como o homem j tinha descarregado todos os
objectos pagou-lhe, dizendo:

--Petra, d a este homem alguma coisa de comer e de beber.

Mauricio entrou em casa, dirigindo-se ao quarto de Ernesto, e, como
reinava o mais profundo silencio, pensou que se no respondesse,
chamando baixinho, seria melhor deixal-o dormir.

Chamou, pois,  porta suavemente, mas a voz do hospede respondeu:

--Quem ?

--Sou, eu, senhor Ernesto.

--Ah! Mauricio! Espera que vou abrir.

Ernesto saltou da cama, abriu a porta e tornou a deitar-se.

--Bem vindo sejas, Mauricio. No te esperava to cedo. Abre a janella e
d-me conta da tua misso.

--O conde de Loreto  um sujeito muito generoso, disse Mauricio. Depois
de me receber muito bem e de me dar de almoar como a um principe,
deu-me uma _onza_ em ouro.

Mauricio continuou contando tudo quanto se passra em casa do conde e
terminou:

--Emquanto a senhora condessa entregou-me esta carta para si e
perguntando-me se era casado, disse-me: Pois d este annel da minha
parte a sua mulher para que tratem com muito cuidado o senhor Ernesto.

O pintor sentiu-se commovido at ao fundo d'alma. Mauricio comprehendeu
o effeito das suas palavras, e, tirando a carta e o annel, entregou tudo
ao hospede.

--Mas este annel  para tua mulher, disse Ernesto, fixando-o com um
olhar penetrante.

Mauricio sorriu-se e disse:

--Isso  uma joia ba de mais para quem est todo o dia a trabalhar.
Pde guardal-a. E de mais, Petra no sabe de nada, e olhos que no vem
corao que no sente.

Ernesto no poude conter a sua alegria e lanou-se nos braos de
Mauricio, cujo procedimento delicado lhe causou profunda admirao.

--Ah! j me esquecia, disse Mauricio. Tambem os seus amigos da rua do
Prado me deram esta carta para si.

E, entregando a carta, sahiu do quarto afim de deixar s o seu hospede,
de quem comeava a descobrir o segredo.

Ernesto, ao vr-se s, beijou repetidas vezes o annel, apertando-o
depois com delirio de encontro ao peito.

Leu a carta do conde e o post-scriptum da condessa, guardou-a juntamente
com o annel n'uma gaveta da commoda, e, procurando serenar, disse:

--Ella no me esqueceu; isto sempre serve de consolao para o meu
peito. Vejamos o que me dizem Marcial e Andr, os meus bons amigos.

Ernesto ento leu:


Illustre Robinson dos montes de Toledo

    Recebemos a _tua cabea_ e o _teu lombo_. e manh brindaremos 
    tua saude no restaurant do _Armio_.

    No deves admirar-te de que te tenhamos na conta de um animal
    feroz, pois que outro nome no merece o homem que deixa as delicias
    de Madrid pelos selvagens barrancos dos montes de Toledo.

    Agora outro assumpto. Tens todas as probabilidades que te concedam
    o primeiro premio ao teu celebre quadro de Esther. Se assim fr,
    iremos entregar-te a medalha de ouro, e beber comtigo uma duzia de
    garrafas de Champagne.

    Procura, comtudo, restabelecer-te rapidamente e voltares, porque
    ns preferimos comer sentados em volta de uma mesa, pisando
    alcatifas, recebendo o calor de foges e a luz do gaz, do que comer
    no campo sobre o duro cho, acariciado pelas formigas e outros
    animaes importunos.

    Estimando-te sempre e admirando como nunca.

                                                    Somos teus amigos

                                                    _Marcial e Andr._


Ernesto sorriu-se tristemente quando acabou a leitura da carta.

--Ah! exclamou. Que feliz que  o mortal que encontra uma mulher que o
ama e dois amigos leaes e carinhosos! Mas a felicidade nunca  completa
para o homem. S encontrei os amigos. Onde acharei a mulher?

E deixando cahir a cabea sobre o peito melancholicamente, ficou immovel
como uma estatua.




CAPITULO XXVI

Uma caada s raposas


Se nos entretivessemos detalhando dia a dia a vida de Ernesto desde que
chegou a casa de Mauricio at ao dia em que deixou de existir, fariamos
um livro interminavel. Procuraremos, pois, tocar smente nos pontos que
julgamos mais importantes.

Ernesto, como dissmos, canava-se muito a subir as encostas, e o ponto
que escolhera para caar no era dos mais commodos.

Um doente de peito pode caar sem perigo, mas em terrenos planos que no
cancem os pulmes; porm os montes de Toledo, os de Almenara e outros
no tem nada de hygienicos para um caador de pouca saude.

Poder-se-ha matar muita caa, respirar-se ar puro mas so fatigantes em
demasia! Ernesto, pois, escolhra mau sitio para se restabelecer, mas,
como a vida lhe importava pouco, era o mais apropriado para lhe dar cabo
dos seus arruinados pulmes.

Ernesto tratava-se pouco. Quando sentia a mente cheia de ideias tristes,
pegava na espingarda, chamava os ces e sahia. Se tropeava com um bando
de perdizes, segui-as at que, canado, se deixava cahir no cho,
permanecendo s vezes mais de uma hora soffrendo angustias de morte.

Muitas vezes a noite surprehendeu-o nos barrancos, e Mauricio,
sobresaltado, sahia em sua procura; e ento o honrado caador trazia-o
s costas at casa. Petra e Mauricio lamentavam em voz baixa a teimosia
de Ernesto em no querer que se chamasse o medico do povoado proximo.

--Est claro, dizia Mauricio. A dr que o afflige  tal que deseja
acabar depressa com a vida, e quando menos pensarmos encontramol-o morto
no monte.

Demais Ernesto, cuja fraqueza era em extremo, ia perdendo as foras e o
appetite, e tinha caprichos extraordinarios que faziam estremecer Mauricio.

Certa manh do mez de maro (nevra muito durante a noite anterior e o
sol que comeava a elevar-se no horisonte convertia o gelo em brando
rcio que tornava difficil o transito pelas ladeiras dos barrancos).
Mauricio e Ernesto estavam no cume de um monte, quando se aperceberam de
que andava uma raposa n'um monte proximo. Ernesto disparou, e o arisco
animal soltou um grunhido.

O tiro ferira a raposa nas patas trazeiras; mas com o instincto da
conservao arrastou-se at a borda de um barranco, deixando-se cair
para a frente.

Ernesto correu at chegar  mesma borda do precipicio.

Mauricio gritou-lhe:

--Cuidado, cuidado, senhor Ernesto. Por ahi no ha passagem.

Ernesto dirigiu um olhar para o abysmo, viu a raposa que fazia esforos
desesperados para chegar a uma toca, onde por fim se metteu.

--Indubitavelmente tem alli a femea e os filhos. Se pudessemos descer...
disse Mauricio.

--E porque no? respondeu Ernesto, avanando intrepidamente at a
abertura do abysmo.

--O terreno est escorregadio;  uma temeridade descer por este
despenhadeiro. Um p em falso, uma tontura, precipital-o-hia a
quinhentas varas de profundidade, sobre um leito de pedras.

Ernesto inclinou-se, e, agarrando-se a uma matta que vegetava na borda
do abysmo, comeara descendo, procurando appoio para os ps nas
saliencias da rocha e nos arbustos que cresciam entre as fendas.

Mauricio advertiu segunda vez do perigo imminente que o seu hospede
corria, mas Ernesto, detendo-se na sua descida e levantando a
cabea, disse sorrindo-se:

--No receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se
succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me
no abysmo, previno-te de que na minha carteira achars um testamento que
te livra de toda a responsabilidade.

E continuou descendo.

Mauricio sustinha com trabalho os ces, olhando com admirao para Ernesto.

No faltava valor ao caador para descer por aquelle difficil e perigoso
caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz,
augmentava muito o perigo do pintor.

Mauricio era um bom christo, acreditava nos destinos da Providencia, e,
calculando que d'aquelle perigo s Deus podia salvar Ernesto,
encommendou-o com fervor ao Altissimo.

A descida de Ernesto at chegar ao penedo onde se havia refugiado a
raposa ferida, durou quatro minutos.

O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:

--Mais profunda  a soledade da minha alma.

Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia
despenhar-se, quando ao pr o p ou a mo em algum appoio este cedia.

Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro,
mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita
fora nos pulsos.

De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de
Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o
sustentavam, dando com a cabea n'um sovereiro, que providencialmente o
salvou de uma queda fatal.

Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse
para o abysmo, e ento era indubitavel que o seu corpo, feito em mil
pedaos, no pararia seno quando chegasse ao fundo. Com grande
surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha
deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava
immovel e como morto e que da bcca sahia algum sangue.

Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso corao, confiado nas suas
herculeas foras desceu rapidamente at onde estava Ernesto,
completamente desmaiado.

Durante dez minutos fez todos os esforos imaginaveis para o tornar a
si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as
fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.

Ento, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a
ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, comeou
a trepar pela ladeira levando suspenso  cintura o inanimado corpo do
seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.

Se a ba Petra tivesse chegado n'aquella occasio e visto o perigo que o
marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que v
e premeia as bas-aces, deu n'aquelle momento foras a Mauricio para
chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.

Quando se viu fra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o
peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu
graas  Providencia, que os salvara de to imminente perigo.

O pintor continuava sem voltar a si.

Mauricio pz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus
robustos braos Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que
no ficava muito longe.

Petra ao vl-o entrar pallido, coberto de suor, a respirao offegante e
com Ernesto desmaiado nos braos, cujo rosto estava manchado de sangue,
soltou um grito de espanto e disse:

--Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?

--No, no morreu, respondeu Mauricio, est apenas desmaiado. No te
assustes e ajuda-me a mettl-o na cama.

Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago
em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mos e
disse com difficuldade:

--Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeo-lhes de toda a
minha alma, porque no quero morrer emquanto no concluir os tres
retratos que prometti ao conde de Loreto.

--Mau! mau! disse o caador.  verdade que o perigo foi grande, mas j
l vae. Que maldita raposa.

Ernesto no respondeu, mas, pegando na mo de Mauricio, apertou-a de
encontro ao peito com fraternal carinho.




CAPITULO XXVII

O anjo da morte


Durante quinze dias, Ernesto no sahiu de casa; pintava de manh e de
tarde. S alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um
passeio em frente de casa.

Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respirao
fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente
a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.

Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre
mos o de Amparo.

s vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:

--Conhcel-os? Parecem-se?

--Oh! Muito! So elles por uma penna.

Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o
fumo lhe causava, e continuava pintando.

No quarto do pintor, graas s offertas do conde de Loreto,
encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leo
almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braos forradas de
marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.

Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogo e tomando uma
chavena de caf:

--Isto no  viver n'um monte:  ter um oasis no meio d'um deserto.

Certa manh recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e Andr,
dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam
levar a medalha: que mandasse um homem  estao de Toledo para os
acompanhar ao monte.

Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:

--manh devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar
alguns dias commigo.  preciso que os vs esperar  estao, que
arranjes cavallos para o que fr preciso e que os tragas para aqui.
Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.

Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos no vissem. Era
avaro do seu thesouro, no queria que o profanasse a publicidade.

Marcial e Andr no eram caadores; mas a caa  agradavel a todos os
homens, sem duvida porque os coelhos no usam revlver para se
defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.

Dizem que a caa  a imagem da guerra, sem duvida porque se queima
polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra  caa
vae muita differena e bem crente estou de que o governo no passaria
todos os annos trinta e seis mil licenas de caa se o caador corresse
tanto perigo como o soldado deante do inimigo.

Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as
ladinas perdizes e as ligeiras lebres, no  para admirar que qualquer
habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caa e tendo
 sua disposio uma espingarda, no tente derramar sangue, ainda que
no seja seno para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.

Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraos e das exclamaes
ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoaram,
tomaram caf, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caar
visto haver espingardas e caa.

Mauricio propoz uma batida e se bem que os caadores no fossem muito
felizes, em compensao viram correr e voar muita caa.

 noite, Petra serviu uma ceia, seno muito variada, pelo menos muito
abundante.

A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor.
Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:

--No penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui
perfeitamente. Convenci-me de que a solido do campo e o ar saudavel
d'estas serras me so muito mais proveitosas do que a vida agitada da
cidade.

Todas as reflexes de Marcial, todos os conselhos de Andr no
conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria
inutil falar em similhante assumpto.

Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da
partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e no podia retardar o seu
regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez
de maio, se Ernesto at ento no tivesse abandonado os montes.

Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e
cantando o cro das bruxas de Macbeth.

--Aquelles so felizes, disse com tristeza, porque em seus coraes vive
a alegria da juventude, a esperana da gloria. Ide em paz, meus
amigos, a quem nunca mais verei, a no ser que exista alguma cousa da
vida occulta ao olhar do homem para l d'esse cu azul que se extende
sobre a minha cabea.

Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a
quem, como acabava de dizer, no tornaria a vr.

Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.

Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou
o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pz-se a pintar.

..........................................................................
..........................................................................

Quando algum conhecido de Mauricio ia caar aos montes, Ernesto
fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.

Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e
os auxilios da sciencia.

Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa.
Passou o vero um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas
vezes mandra Mauricio a Madrid levar quadros de caa ao conde, ficando
em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:

--Isto ser a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de
outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu
por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira
e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias
vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.

-- inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faa mais
falta um sacerdote.

Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar,
montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.

Ernesto, ao vl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros,
dirigiu um olhar de gratido a Mauricio, e disse:

--Tudo isso  inutil. O que preciso manh  de um sacerdote.

O medico viu effectivamente que a doena de Ernesto era incuravel,
receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse
mais alguma novidade.

Ao sahir, disse a Petra:

--Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de
vida.

Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.

Estavam verdadeiramente impressionados.

Quando Mauricio  noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este
estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.

Ardia um bom fogo no fogo e, apezar do frio no ser muito, Ernesto
queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avanava a passos
gigantescos para se apoderar do corao, para extinguir a vida n'aquelle
corpo, para separar a alma da materia.

--Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu
lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e no temos tempo
a perder.

Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. S de quando em quando olhava
para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que j tinha visto
defuntos com muito melhor parecer.

--Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz
fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A
vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, est sujeita
 vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal,  uma loucura, uma
temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga
com toda a fora do seu desespero: No quero morrer. Assim, pois, 
preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a
grandeza do homem no  sufficiente para prolongar um segundo sequer a
sua vida. Alexandre como Cesar, Aristoteles como Cicero, morreram
quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha
approxima-se e  preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.

Ernesto deteve-se, respirou, levou a mo ao peito e fixou os olhos em
Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua
alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem
estimava como a um pae, o affligiam.

--Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia
seguinte ao da minha morte, que no est longe. Por isso, te pedi para
te sentares e que me prestasses atteno. Dei grandes incommodos tanto a
ti como a tua mulher; tem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos
favores, e  por conseguinte meu dever no os esquecer na hora da minha
morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha
fortuna, pois bem sabes que no tenho herdeiros forados; mas, apezar de
ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de
todos os beneficios que recebi.

--Mas, senhor Ernesto, ns  que devemos estar agradecidos ao senhor,
disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vr entrar para
nossa casa, tem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do
que os insignificantes servios que lhe temos prestado. Por isso no
temos que falar sobre esse assumpto.

--O interesse e o carinho que tem dispensado a este pobre doente, nunca
o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.

Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:

--Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens
duas commisses a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os
meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para
o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente todos, ao saberem que
deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o
que vires, a verdade. E agora s me falta dizer-te que encontrars
escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herana,
como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto , tudo isto
que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta
da commoda,  teu e de tua mulher.

Mauricio que havia j um boccado luctava para suster as lagrimas, levou
as mos aos olhos.

--Vamos, no te afflijas; da-me um abrao e vae-te deitar. S tenho
ainda a pedir-te para que manh cedo me tragas um padre, porque  bom
pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos
occupando-se smente dos pygmeus da terra.

Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente;
entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passra e acabaram por
desatar em amargo pranto.

N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.

De quando em quando vinham em bicos de ps at a porta do quarto de
Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.

Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os
cotovellos encostados na borda da meza, e a cabea appoiada nas mos.

Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.

s sete da manh, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e
cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce
expresso d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presena
o pastor das almas d'algum povoado proximo.

O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram
pertence ao segredo inviolavel da confisso.

Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.

Ernesto disse-lhe:

--Faze favor de pr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta
cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.

Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque no podia
trabalhar de p, principiando a esboar uma Nossa Senhora das Dres.

Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.

A febre da morte guiava-lhe a mo.

Em dia e meio pintou uma formosa me do Nazareno, de corpo inteiro; mas
aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um
perfeito retrato da condessa de Loreto.

Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito s
portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.

Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.

--Ah! Que pena um homem assim morrer to novo! exclamou o rude caador
n'um arranco de sublime enthusiasmo.

--Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregars este quadro ao
sacerdote que me ouviu em confisso, e diras que, j que os francezes
roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das
Dres, eu offereo-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de no
valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.

No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.

O sol entrava pela janella.

O enfermo permaneceu crca de meia hora com o olhar fito no cu e as
mos postas em religioso recolhimento.

Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, no se atreviam a
interrompel-o d'aquelle doce extasis.

--Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braos e, pegando nas mos
de Petra e de Mauricio, vem aquella nuvemsinha branca que est suspensa
no espao?

Os dois olharam para o cu, mas no viram nuvem nenhuma, contudo Petra
respondeu com voz fraca:

--Sim.

--Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! 
mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes so brancos como o disco
da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos so negros e de um
brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um
sorriso frio que penetra at a medulla dos ossos. Sobre a fronte l-se a
palavra _Perdo_, e os seus braos extendem-se at mim como para me
receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. D-me a
paleta e os pinceis! Pe uma tela no cavallete!

Ernesto apertava as mos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os
e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:

--No posso!... No posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!...
Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...

Os braos do pintor cairam sem foras, estremeceu todo o corpo,
abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil
suspiro se lhe escapou do peito.

Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.

A alma do pintor abandonra a materia.

Ernesto j no existia.

Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu
futuro, por um beijo.

Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e
com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descano d'aquelle
desventurado moo que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e
entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a
morte que lh'o produzira.




CAPITULO XXVIII

Concluso


O sacerdote, que ouvira o pintor em confisso, em signal de
agradecimento pela bellissima Senhora das Dres que elle offerecera 
sua egreja, resou uma missa cantada pelo descano da alma do artista.

Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.

Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispz-se a cumprir
as ultimas vontades do seu hospede.

Preparou tudo para a viagem e disse  mulher:

--manh vou a Madrid desempenhar-me das commisses de que me encarregou
o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se no queres ficar s
levar-te-hei at Toledo. Calculo no me demorar mais de tres dias.

--Vae socegado e sem pressa; eu no deixo a casa onde esto os nossos
haveres. Demais, os pastores tem as choas aqui perto, e se tivesse
necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.

Mauricio partiu.

A carta que Ernesto escrevra aos seus amigos da rua do Prado,
resumia-se a uma terna despedida.

Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.

Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava  porta, descia a
escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros
perfeitamente empacotados.

O conde parou ao reconhecer o caador dos montes de Toledo.

--Ah!  o senhor? lhe disse. Como est Ernesto?

--Morreu! respondeu Mauricio.

--Como? Morreu?

--Ha quatro dias, senhor conde.

--Pobre rapaz! Mas suba, suba.

O conde comeou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio,
atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso
escriptorio.

--Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre
Ernesto! No esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo,
e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa
do que annunciar-me to irreparavel desgraa.

--O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao
senhor conde estes tres retratos e esta carta.

O conde levantou-se, desatou o cordo que prendia os quadros, e,
collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que
entrasse mais luz.

Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa,
no poude conter uma exclamao, um grito de assombro.

--Isto  admiravel! Isto  admiravel! Que pena que homens assim vivam
to pouco!

E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.

O conde era um conhecedor de pintura. Viajra muito e vira muitissimo;
conhecia toda essa colleco de retratos celebres, que honram os seus
auctores, pendurados em exposio nas paredes dos museus; mas nenhum
ainda lhe produzira tanta admirao como a tela que tinha ante si.

O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e
sobretudo pela parecena.

Demais a bcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma
expresso tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios
humidos, de uma cr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e
de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam para sempre a
alma do homem que o recebe.

Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas
exprimiam tambem amor e melancholia.

Ao conde de Loreto nunca parecra to formosa a mulher como n'aquelle
momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato,
onde a mo do pintor, sem se servir da adulao, possuia alguma cousa
mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma
do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bcca encantadora.

Ninguem, ao vr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos
divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor no violra nem
uma s linha, nem na mais delicada sombra, a posio natural d'aquella
incomparavel bcca.

O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e,
amante da arte que immortalizou Raphael, no podia desviar os olhos do
quadro.

Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado.
Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.

Quando se canou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mo. Era a
que pouco antes lhe entregra o honrado Mauricio.

Rasgou o envellope e leu:


Senhor conde de Loreto.

    Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo  terra, pego na penna
    com mo fraca para lhe enviar as minhas despedidas.

    Quando receber a minha carta j terei deixado de existir. Um sr a
    menos na terra, uma particula de p a mais em algum ignorado
    cemiterio d'estas regies; mas em compensao, outros seres nascem,
    emquanto o vento levanta o p dos que morrem. O mundo segue o
    seu caminho: esta  a cadeia da humanidade.

    Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. So as minhas ultimas
    obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis no offendero mais a
    arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se
    lhe poder attribuir ser a parecena, e isso, sem duvida por que
    eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me no esqueci nem
    um s instante dos meus amigos.

    Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra,
    isto , o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doena
    dois irmos carinhosos. Se eu fosse to rico como Salomo,
    deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo no
    lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e s posso pagar-lhes
    com amor e agradecimento os beneficios recebidos.

    Assim, pois, senhor conde, peo-lhe que entregue a Mauricio o valor
    que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma
    recompensa do muito que lhes devo.

    Mauricio  um honrado caador de profisso que me serviu com
    desinteresse e sem esperana de recompensa: no sabe portanto que me
    occupo d'elle n'esta carta.

    Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e no se esquea
    de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.

    Apresente os meus respeitos  senhora condessa e d um abrao de
    eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.

                                                            _Ernesto._


O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na
algibeira.

Nos olhos havia uma certa humidade, devida s lagrimas.

Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com
aquella visita, disse:

--Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta
noite regressar a Toledo.

O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um
momento, comeou a contar notas de banco.

--Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a misso de que o meu
amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.

--S me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.

--Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe
devo.

--A mim? disse admirado o caador.

--Sim, a si.

--Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.

--Guardl-os para si.

-- impossivel! Seis mil duros  uma fortuna para um pobre como eu.

O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento,
e ajuntou:

--Desculpe-me; enganei-me.

--Eu logo vi que no podia ser, disse Mauricio quasi contente.

--Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil
duros so dez mil.

Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.

O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil
_reales_, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de
Mauricio, dizendo:

--Isto  o que Ernesto Alvarez deixa como herana a Mauricio e Petra
pelo seu generoso comportamento, pelos seus bellos sentimentos. Agora
eu, o conde de Loreto, offereo a Mauricio, quando se fartar de ser
caador, o logar de administrador em um monte nas Asturias, com
vinte e cinco reales por dia, casa, lenha e mais vantagens que me no
recordam agora.

E o conde, apertando a mo ao honrado montanhez, ajuntou:

--V a Toledo, diga a sua mulher o que o senhor Ernesto dispz na sua
ultima carta, pense socegadamente o que mais lhe convm, que aqui me
encontrar sempre disposto a cumprir a minha palavra.

Mauricio pegou com a mo trmula nos dez mil reales, apertou depois de
encontro ao peito a mo do conde e, com olhos marejados de lagrimas e o
parecer bastante commovido, disse:

--Mas que fiz eu para merecer tantos favores?

--Foi um homem de bem, um homem justo, respondeu o conde.

--Ah! a minha pobre Petra vae enlouquecer de alegria. Ella que dentro em
pouco vae ser me! Ella, que nunca viu cem mil reales! Ella que  to
boa! Todos os nossos filhos aprendero a bem dizerem os nomes do senhor
Ernesto e do senhor conde de Loreto.

Fernando acompanhou Mauricio at  porta, depois voltou para o
escriptorio e, sentando-se em frente do retrato da mulher, disse:

--Ernesto no existe, mas nos labios d'este retrato, n'aquella bcca
doce, apaixonada, amorosa como um beijo, deixou escripta a historia da
sua morte.





FIM





    [1] Um duro corresponde a 900 ris e um real a 50 ris,
    approximadamente.

    [2] Moeda de ouro, que vale approximadamente 14$500 ris.

                                                _N. do T._



    Indice

    CAPITULO I--Uma chavena de caf
    CAPITULO II--Uma noite no Colyseu
    CAPITULO III--Sonhos cr-de-rosa
    CAPITULO IV--O pintor e o judeu
    CAPITULO V--O grupo de Niobe
    CAPITULO VI--Um beijo
    CAPITULO VII--Separao
    CAPITULO VIII--Caminho de Hespanha
    CAPITULO IX--De Florena a Paris
    CAPITULO X--A rosa de brilhantes
    CAPITULO XI--Mais um
    CAPITULO XII--Como se pede
    CAPITULO XIII--Os tres amigos
    CAPITULO XIV--Curiosidade no satisfeita
    CAPITULO XV--Carta interrompida
    CAPITULO XVI--Propostas
    CAPITULO XVII--Confiana
    CAPITULO XVIII--A golfada de sangue
    CAPITULO XIX--Pagar a hospitalidade
    CAPITULO XX--Abnegao
    CAPITULO XXI--Abandonando Madrid
    CAPITULO XXII--Vida de recordaes
    CAPITULO XXIII--Uma caada
    CAPITULO XXIV--Uma carta e um annel
    CAPITULO XXV--O regresso de Mauricio
    CAPITULO XXVI--Uma caada s raposas
    CAPITULO XXVII--O anjo da morte
    CAPITULO XXVIII--Concluso





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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