The Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova Heresia, em verso, by 
Guilherme Braga and Jos Pereira de Sampaio (Bruno)

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Title: O Bispo: Nova Heresia, em verso

Author: Guilherme Braga
        Jos Pereira de Sampaio (Bruno)

Release Date: January 15, 2011 [EBook #34961]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA HERESIA, EM VERSO ***




Produced by Mike Silva





                             Guilherme Braga


                                 O BISPO

                         NOVA HERESIA, EM VERSO

                ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
                Il faut donc la sonder a toute profondeur,
                Et, pour seul antidote, taler sa hideur.

                                                MILE DESCHAMPS.



                       Segunda edio com o retrato
           e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
                       J. PEREIRA SAMPAIO (_Bruno_)





                                  PORTO
                   LIVRARIA CAMES DE FERNANDES POSSAS
                        136, Rua das Flores, 138
                               M DCCC XCV




                                 O BISPO




                                  PORTO
                          TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
                            Rua da Fabrica, 80
                                  1895



                       [Retrato de Guilherme Braga]




                             Guilherme Braga


                                 O BISPO

                         NOVA HERESIA, EM VERSO

                ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
                Il faut donc la sonder a toute profondeur,
                Et, pour seul antidote, taler sa hideur.

                                                MILE DESCHAMPS.


                       Segunda edio com o retrato
           e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
                        J. PEREIRA SAMPAIO (Bruno)




                                  PORTO
                   LIVRARIA CAMES DE FERNANDES POSSAS
                        136, Rua das Flores, 138
                               M DCCC XCV




AOS

LIBERAES

PORTUGUEZES E BRAZILEIROS

DAS TERRAS DE SANTA CRUZ;

A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIES
ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS



                                 _Offerece_

                este humilimo testemunho d'adheso s suas ideas
                         e de sympathia pelo seu esforo

                             _Guilherme Braga,
                 o condemnado auctor dos Falsos Apostolos. _




_ADVERTENCIA_

AO

Bispo do Par

    Embora sobre mim peze
    O teu anathema, ahi,
    Eu, bispo d'outra diocse,
    Tambem te excommungo a ti!




Antes de lr


Prope-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras
patrias inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade
dos exemplares d'uma edio limitada parecia indefectivelmente votal-o,
o pamphleto poetico a que estas linhas servem de preambulo explicativo.

As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso
pensado escriptas; e em curtos dizeres ellas podero ser interpretadas
segundo a modestia real das suas propores.

 claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, merc do
plano proprio da pouco custosa publicao, lhe so concedidas, o
redactor d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que em
competencia lhe escasseia, no poderia abalanar-se  critica d'uma
individualidade litteraria to viva, espontaneamente accentuada como a
de Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpresso.

Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas
mais altas culminancias,  categoria esthetica que o critico parisiense
Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados
_Poetas de combate_--ociosa banalidade seria, que no primava sequer
pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi
simultaneamente um poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera
emotividade, admiravel n'essa sublime elegia _Cadaveres_, que  uma das
raras paginas supremas, definitivas, em nossa moderna litteratura.

Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem no parece
tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordaes de Pedro de Lima,
melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe,
trespassa de lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam
abundantes de factos, acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas
apreciaes as laudas que  gloria de Guilherme Braga consagrou o dr.
Rodrigues Cordeiro.

Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria at
cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido
historico da composio que reapparece perante um publico novo,
differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da
elaborao poetica.

Na verdade, o _Bispo_, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua
leitura, algumas notas que o reintegrem nas condies peculiares da sua
primitiva produco, poder, talvez, a espiritos prevenidos ou
scepticos, (pois que os extremos se toquem), poder a esses espiritos,
indifferentes ou hostis, parecer a aberrao d'uma phantasia, forte e
alta, mas desproporcional, e afflictivamente torcionada pela perseguio
d'um delirio.

, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens
torna-se indispensavel desde que a actual gerao est j bem longe da
flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da
vivacidade sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao
aspero egoismo que hoje  norma e criterio, lemma e regra, principio e
concluso, alpha e omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de
quaesquer crises subjectivas.

Isto, j se v, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evoluo
que vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo
amplo que, com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se
prende na vida collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes,
se perfiguram, derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos
e complexos.

Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi
apocalyptico do genio de Victor Hugo, por ento em vulcanicas erupes
consecutivas, atropellantes, os circummandou em trno do seu paiz,
d'esta viagem moral elles regressaram desmoralisados, desfolhados, da
desesperadora desilluso, to deprimente se lhes antolhara o espectaculo
observado.

Com effeito, entre ns, como, de resto, em todos os povos continentaes,
o constitucionalismo gorra. Os seus theoristas ou tinham morrido,
anonymamente, como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam
mergulhado na atonia d'um desespero quieto e mrno. Os que quedaram na
brecha, aos poucos, foram sendo envolvidos na vaga da corrupo politica
dimanada das altas regies; ou, ainda, cansados de tantos, tantos annos
de batalhas, incapazes, de resto, de grandes idas de conjuncto,
almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe, como Jos Estevo com
os interesses da sua terra natal, como S da Bandeira, nobre,
ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso
da escravido colonial.

A conveno de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria
impotencia. Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha,
 f e merc do facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as
consciencias que a causa proxima da vasta catastrophe publica, Costa
Cabral, veio a ter de se affastar da politica e do paiz, menos pelo
irrisorio conluio da Regenerao do que porisso que, doutrinario
fiel aos seus chimericos principios de crear uma nacionalidade,
progressiva e forte, pelo influxo descendente do factor da auctoridade,
elle j no tinha presa sobre a nao. No havia mais nem amigos firmes
nem inimigos estimulantes.

A ra dos homens de convico, logicos n'um concebido plano renovante,
sobranceiros s miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades
do concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes,
visando a um stadio moralistamente caracterisado, passra.

A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as
contemporisaes, para os sophismas grossos, para as communs, as
triviaes patuscadas, para as opposies fingidas, para os votos comprados.

Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e
nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa
Cabral, era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de
chatins, escravos ventrudos e satisfeitos. No luziam j as estrellas,
claras e ardentes, para os grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu
pardo, era o instante dos chacaes, das hyenas, dos lobos, das raposas.
Logicamente, entrou em scena Rodrigo da Fonseca Magalhes.

Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mos, poz a
mordaa das conveniencias; a tribuna papagueou o taramellar
radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom independente;
cada cidado encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se pela
sentena, volvida regra da conducta, de que _to bons so uns como os
outros_; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se,
estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem
a educao dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria,
mineira, fabril; emfim, as amplas reclamaes doutrinaes cessaram, e o
silencio, o bem-amado, o suspirado silencio fez-se.

Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a Frana seja a
promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel
successo consagrara-se definitivamente na Europa.

A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a
romper do moroso torpr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmo,
o duque de Morny, pudera assegurar, alegremente,  curiosa dama que o
interrogava, na Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que,
em qualquer hypothese, _dado que vassourada houvesse, elle se poria do
lado do cabo da vassoura_.

Um ingurgitante refluxo de retrogradao se produziu nos destinos da
humanidade, e uma reaco theocratica, cynicamente mystica da banda de
antigos carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e
logicamente, de tatear o desfecho nos medos supersticiosos, _ad usum
Delphini_ procurados na propaganda jesuitica.

Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento
do imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedio de
Roma, as ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos,
esmagados em Mentana, onde os _chassepots fizeram maravilhas_, no
revestiram um caracter sporadico. Tudo  concordante no mundo; ellas
representaram o estado moral de todo o conjuncto das instituies a de
l dos Pyrineus.

Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de l e a de c.

A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se
sentir entre ns, logo desde o primeiro instante; e seria curioso,
n'este ponto de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a
incredulidade lunatica de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e
idealista, procurava dissipar os echos lusitanos das retumbosas
conferencias do padre Ventura de Raulica em Ntre-Dame.

Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito,
povoado de boas, vagas intenes, convergindo a realisar entre ns o
typo d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno
do virus dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a
investigao, historica e fria, do emphatico Pelletan.

Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido, no pondo ao
servio das suas aspiraes mais do que a mediania d'um talento
inconsistente, D. Pedro V pertencia  especie corrente d'esses
incomprehendidos romanescos que, como Jos II, d'Austria, fluctuam entre
os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e
as reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que
lhes acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente
improliferas.

De volta da costumada viagem de educao emprehendida pelos herdeiros ao
estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das
facticias pompas com que despontara o 2. imperio; e o seu anhelo de
imitao d'um modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos
insignificantes pormenores, como na introduco do uso do _kpi_.

Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas
imaginaes promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela
irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva,
inconstitucional proteco votada aos humildes, para cujo servio
instituir, na famosa _caixa verde_, um meio, facil e seguro, de sempre
communicarem com as altas regies. A affeio com que vestia as suas
relaes pessoaes, buscando occultar sob doces familiaridades a
supremacia da sua situao excepcional, como no baile celebre da Sala do
Risco para com o duque de Loul, abria-lhe uma immensa zona de
sympathias. Na verdade, tal  a monstruosa educao secular do
preconceito da realeza que, d'entre os proprios homens cultos, nem mesmo
os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo das condies
politicas idneas  extirpao das dynastias, se furtam a este effeito,
atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e
transcendentemente fra da humanidade.

A lenidade, a doura do temperamento, a candidez de corao succedera ao
irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas,
intractando no seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha
impopularisavel, a favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar
o bruto tio, toureiro e forudo, to sympathico  plebe pelo seu bestial
feitio genuinamente portuguez.

Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em
torno do moo monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos,
se encontrou, sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a
effeito quaesquer idas positivas, se porventura elle podesse emergir da
nevoa dos semi-pensamentos, em que se esfarrapava, dissolvia a sua alma
chimerica.

O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado
imperador, com o typo physico, a similhana mental. De sorte que a
utopia que latejara no crebro do av revivia a dentro do craneo do
neto: ideologos, um e outro, as mesmas frmas da chimera, como no
sonho iberico, reproduziam-se, por descendencia.

Era-lhes analoga a feio moral; egualmente possessos d'um identico,
insaciavel desejo de saber, de vr tudo, de conhecer tudo, de alterar
tudo, de remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funco de
reformadores, a um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas
concretos da vida progressiva dos povos, a pr todo o empenho nos
remodelamentos das concepes abstractas que regulam a existencia moral
das naes.

Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da
constituio do seu paiz, introduzir a nova noo da realeza, referida
ao poder moderadr por Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do
embaixadr hespanhol Pastor Diaz, por uma especie de monomania
metaphysica, que lhe tomava as attenes para os mais abstrusos,
estereis pontos da philosophia transcendental. N'este pendr, no  de
estranhar a pretenso, que comeou a patentear-se no monarcha, a rehaver
um mando, supremo e incondicional, nem ser absurdo o suppr que o pobre
idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia
silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo
particular das naturezas moraes como a de El-Rei , com effeito, o da
innovao, da interveno, da substituio, o afan era refazer um povo
por meio de decretos. O que longos annos d'um desenvolvimento
continuo e previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado,
e substituir-se a immediata vontade autocratica  vontade tardia da
historia; utilisar aos homens, mas como se creanas fossem, incapazes de
formular racionalmente um voto para a melhoria das suas condies, gente
a servir, como Louis Blanc o discriminou nos accidentes do abortado
austriaco, sem que se receie, sem que se ame, tractando-a como cartas
adscriptas s combinaes do jogadr.

Que idas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porm, o
rei? Que planos amadurecra pela reflexo e pelo estudo? A que alvo
visavam os seus esforos?

Tudo nos indica hoje que nenhuma ida, nitida, clara, precisa, o
monarcha se formava da sua situao e da do paiz, e que lhe seria
impossivel redigir n'um programma de doutrina ou n'um projecto de actos
as apparencias de pensamento que eram a miragem do seu corao, enganado
de si-mesmo.

D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu
poder foi grande; pois que, nas affeies creadas, o enthusiasmo
meridional, excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, no
conheceu limites ao seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com
elle conviveram, que accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios
philosophantes os quaes, no propicio silencio da noite, se lanam, a
todo o vapor, no phantasmagorico mundo das previses do futuro,
acabaram por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha,
fanatismo tanto mais perigoso quanto elle se no isolava do sentimento
publico, que manifestara a sua f nas virtudes reaes por meio d'esses
inacreditaveis cartazes pregados nas esquinas das ruas das cidades,
bradando: _Viva D. Pedro V, rei absoluto._ Theophilo Braga ainda os viu,
amarellecidos das chuvas, nas paredes de Coimbra.

Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no
vasio onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com
phraseologias symbolicas, como as lanadas  mocidade universitaria que
o saudava:--_Tanto vale a alma quanto a intelligencia_, profisso de f
dos egoismos intellectivamente orgulhosos. E no se humilhava de fazer
publica confisso de ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino
positivo, consoante nas curtas inquiries, ao engenheiro Mousinho de
Albuquerque propostas no Porto. O rei era um metaphysico, um doutrinario
retardado, e assim se explica o seu desdem pelo problema das grandes
linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma economia infantil.

A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos
aspectos, curiosamente dotadas, no cessou, attrahindo-o, de o
ludibriar. Esse foi o triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu
ardor em se crear uma f, no encontrou em torno de si seno o
desanimo que, na bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se
penitencia por se encontrar maior do que o do rei.

Abandonado a si proprio, desamparado at nas suas acanhadas iniciativas,
oriundas d'uma primeira educao, humanista e litteraria, como lhe
succedeu no tentamen do _Curso superior de lettras_, o monarcha acabou
por derivar no plano inclinado que leva  traio da liberdade. As suas
usurpaes constitucionaes foram successivamente accumulando os
aggravos, ao ponto de prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades
dos serventuarios do principio dynastico.

Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do _Rei
de Sio_.

Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para
um confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o
presente. Tudo o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos to
atrophiadas raizes embebia no resistente terreno da dura razo que,
celebre pela philanthropia, s escondidas assignava ignoradas sentenas
de morte, para os longes coloniaes, como a do rebelde indiano. De modo
que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio de aspiraes cerce
amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto; quando,
acabrunhado, partido, no tendo havido n'elle de sublime seno o desejo,
finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz do
seu transcurso terrestre. A sua durao mais larga assignalar-se-hia,
porventura, de terriveis catastrophes, visto como a ignorancia publica,
que o idealisara, tendia a oppl-o, symbolo de reaco, aos restos da
iniciativa civica das classes liberaes e cultas.

Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na
resignada quietao dos grupos intermedios que, junto aos poderes
publicos, servem a multido, o povo comeava a formar, em volta do nome
do seu rei, a legenda piedosa que fundamenta e alicera os despotismos.

A historia inicia-nos na psychologia das multides; nada  menos
democrata, no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idas
condul-a sempre  auctoridade d'um s, facto moral naturalissimo desde
que se pense em que, apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a
tendencia ser para se entregar nas mos da competencia, tanto mais
comprehensivel e tanto mais responsavel quanto mais centralisadamente
reduzida. Ora, no paiz, tradiccionalmente monarchico e catholico, a
soluo estava encontrada desde que o seu rei se inspirasse,
representativamente, dos sentimentos da populao, trabalhada no momento
por uma recrudescencia espantosa do religiosismo missionario. O monarcha
chegara  crise e, pela tremenda peste que assolou Lisboa, o espirito
soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse golpe em que
Buckle buscou o coefficiente da exaltao mystica dos povos
peninsulares.

Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso,
pela abnegao; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento
francez, pela introduco dos lazaristas, das irms de caridade no
reino; mergulhou nas leituras symptomaticas, como as que lhe deu o
conhecimento do Dante, conforme se revela da sua bella carta posthuma ao
conselheiro Viale.

A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido,
porm, to longe que nem os alarmes que sobre os progressos do
ultramontanismo procurou, n'um collectivo manifesto eloquente,
communicar ao paiz Alexandre Herculano, nem a rude, a furiosa campanha
de Jos Estevo, que, leo dormente, um instante restituiu ao parlamento
essa interessada vehemencia que tanto surprehendera o principe de
Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara multido. To certo  o
erro dos que no querem reconhecer que a monarchia  o producto, directo
e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das massas,
degeneram estas logo em suas escravas.

Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear
o seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como
elle se no conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos,
haviam-o envenenado, ao misero!

O novo reinado comeou, pois, desconsoladamente; a lembrana do
bem-amado estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos
olhos humanos. O principe successor feria pelos modos bruscos de homem
do mar, repentinamente avocado a um meio que, por completo, desconhecia.
Se, em sua estupidez, as calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um
ultimo sopro de recto bom-senso, envergonhado da infame torpeza, o certo
 que as tristes apprehenses ficavam, escorias no fundo do cadinho. O
que seria? O que viria?

E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, to em contraste com a
docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos,
como n'essa primeira, gelada recepo da segunda cidade do paiz. Os
politicos temiam pelo futuro; os cortezos debalde explicavam a conducta
de seu amo; e os poetas, inconscientes interpretes do sentimento
popular, atravez os subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia
respeitadora das conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto,
debruar-se da beira dourada dos camarotes dos theatros, a apontar ao
principe, pallido da audacia, o espectro arsenicado de seu irmo,
gritando-lhe n'um terror:

    _Imita-o, imita-o bem!_

Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente
colleando, seguiu de rastos, ao cantocho ultramontano, at  beira
do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra lutulenta, os homens
de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia tomou para zona
da sua revista de foras, para terreno das insolentes paradas o mesmo
palacio de civilisao que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do
espirito que o fundou diz: _Progredior_, eu avano.

Ento, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello
adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a
mercearia contemporanea, ergueu, elle s, um formidavel grito, de dr,
de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nme.

A reaco alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade,
intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem  a unica
apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:

    _La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore!_

Na sua faina concordante, o bispo do Par (contra cuja obra nefasta
comeava a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha
Marinho, recem-fallecido) no conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho
publico do joven poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que
v agora as honras, tardias, da reimpresso.

Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta
hora triste, de nova reaco jesuitica, o seu actual editor, sobre se
fazer benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da
respeitosa sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.

                                                                BRUNO.




O BISPO


I

*Na cathedral.--Revelaes d'um satyro*

    No claro azul d'um frio cu d'inverno,
    Sobre a collina onde a cidade dorme,
    Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme
              D'antiga cathedral;
    Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,
    --Velho epigramma ao lugubre edificio,
    --Largo covil doirado, aberto ao vicio,--
              O pao episcopal...

    Bate o luar nos porticos escuros,
    Abrigo  noite de sinistras aves;
    L dentro, as altas, magestosas naves
              Envolve a solido.
    Sobem, crescem mil sombras pelos muros,
    D'um bronzeo lampadario  luz distante,
    Sob as curvas da abobada ondulante
    Que estampa os arcos no marmoreo cho.

    O cro  largo e bello. Ali se abriga,
    D'um capitel nos rendilhados folhos,
    Um satyro, que ri, piscando os olhos,
              Lascivo como Pan.
    Dizer parece  cathedral antiga:
    Porque me tens aqui, mostras-te ufana?
    Pobre igreja catholica-romana!
              Pobre igreja christ!

    Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:
    Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,
    Ao vr-te assim crucificado e morto,
               dspota dos meus!
    No desejo ser Deus... se Deus  isto:
    --Um cadaver perpetuo exposto ao frio--
    E, velho fauno desdentado, eu rio,
    Eu rio-me de ti!--de ti, que s Deus!

    Vs alem, por detraz do lampadario,
    Um satanaz assoberbando um globo?
    Deitado aos ps de Deus, parece um bobo
              Deitado aos ps d'um rei.
    Ao v-lo assim, tristonho e solitario,
    Tive d d'aquell'alma taciturna,
    E, na mudez da escurido nocturna,
              Com elle me liguei.

    Vago rumor de vozes mal distinctas
    Nos guiou para os porticos do pao:
    Eu, sabendo que o bispo era um devasso,
              Previa a bacchanal...
    Escuta,  Christo, escuta, embora sintas
    Chammejante de pejo o rosto frio,
    Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,
    No infame lupanar sacerdotal:


II

*A humildade do bispo*

              Era um bello aposento,
    Que Faublas prezaria sem desdouro...
    --Ninho d'abutres, perfumado e ffo,
    A que dava um revrbero sangrento,
     froixa luz d'um candelabro d'ouro,
    A adamascada purpura do estfo.--

    Molles coxins, em largas ottomanas,
    Convidavam a languidas posturas
    As Aspasias catholicas-romanas,
              As lbricas sultanas
    D'aquelle _harem_ christo, meio s escuras!

    Mil fragrancias subtis no morno ambiente;
    Ao centro a meza,--o impuro altar da orgia;--
    Sobre a meza a baixella resplendente...
    A baixella roubada  sacristia:
    Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,
    Todo esse lustre a espaos reflectido,
    Da luz da orgia  froixa claridade...

    Satanaz debruou-se ao meu ouvido
    Para dizer-me, a rir-se: Os Evangelhos
    Aconselham ao bispo esta humildade!


III

*Dolores*

    Sentado  meza, o principe da Igreja
    Inclina a calva fronte aos seios tumidos
    D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,
              E em cujos labios humidos,
    Rindo, o prazer de beijos s'enebria!

              Ao vr-te assim, myrrada
    Pelos impuros halitos da orgia;
    Ao vr-te assim, na sombra, arremessada
    Dos canteiros nataes a impura alcva,
              Quem ha que se commova,
    Pobre flr dos jardins da Andaluzia?

              Tem por nome _Dolores_...
    Por officio, vender a quem lh'os paga,
    Como no tem amor, os seus amores.

               soberba e formosa!
    Brilhante e seductora!--imagem vaga
              D'Eva... j criminosa,
    Escondendo a nudez por entre as flores!

    Mixto de sombra e luz, de lava e glo,
    D'den occulto e precipicio aberto,
    Prende, fascina, attrahe, cga, arrebata!
    Para quem dorme, em extasis, coberto
    Pelas ondas gentis do seu cabello,
               como no deserto
    A mancenilha, que adormenta e mata!

    Os braos nus da joven messallina
    Cingem o padre, que, sorrindo, oscla
    A carne branca, avelludada e fina,
    Que lhe  dado gosar... mesmo sem _bula_.

              Collam-se, em longo beijo,
    As duas bocas vidas, famintas...

    Escuta,  Christo, escuta, embora sintas
    O rosto frio a chammejar de pejo!


IV

*Supplicas e promessas.--Caracter
evangelico do bispo*

    DOLORES

    Prende-me s tranas formosas,
    Se tu s o meu amante,
    As joias mais preciosas
    Da tua mitra brilhante!

    Fulgiro co'as pedras tuas,
    Cheias de raios inquietos,
    Meus soltos cabellos pretos
    Nas alvas espaduas nuas!

    Haja depois quem se affoite
    A julgar outras mais bellas...
    So tranas da cr da noite,
    Precisam d'essas estrellas!


    O BISPO

    Rainha das feiticeiras!
    Venus, que sahes d'este mar!
    Pede tudo o que tu queiras,
    Tudo o que eu te possa dar.

    Louca, aos meus beijos entrega
    Teus hombros, teus seios nus!...
    Dou-te a igreja, o pao, a adega,
    O bculo, o annel, a cruz;

    As altas seges vermelhas
    Que tem cem annos, ou mais,
    E as gordas, rijas parelhas
    Das mulas episcopaes...

    Toda a riqueza que brilha
    No pomposo altar de Deus,
    E um dos meus cnegos, filha,
    Por cada beijo dos teus!...


    DOLORES

    Eu gosto de sentir nos braos froixos
    O enorme pezo do teu corpo exangue,
    Mas, se te collo a boca aos labios roixos
    Acho em teus labios um sabor a sangue!...

    Amas o sangue?


    O BISPO

                             Adoraria a gloria
    De ter sentido, eu s, n'esta existencia,
    Todo o sangue dos martyres da historia
    Cair-me, gota a gota, na consciencia!

    Quizera ter colhido o goso ardente
    De vr no circo, em Roma, as feras brutas;
    Nero a rir-se feroz, brio e contente,
    Nos braos ns das brias prostitutas!

    Os pallidos christos,--torpes escravos,--
    Expirando entre as garras das pantheras,
    E a turba inquieta prerompendo em bravos...
    Em bravos ao tyranno, a Roma, s feras!

    Quizera, quando as sombras da heresia,
    Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,
    Rasgava, escurecendo a luz do dia,
    Do Santo Officio o pavoroso facho.

    Quizera dar a humanidade inteira
     nossa chamma augusta, aos ptros nossos,
    E, dos ptros no horror, e na fogueira,
    Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!

    Mil peonhentas viboras no seio
    A infame contra ns, sem medo, abriga.
    Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,
    A humanidade, a nossa escrava antiga!

    Podesse eu ter,  pallida Dolores,
    Do sangue d'ella trasbordando o calix!...
    Era um rebanho vil; ns, os pastores,
    E a Realeza era o _canis pastoralis_...

    Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,
    Bculos, sceptros, esmagou n'um'hora!
    Quebrou, raivando, as solidas algemas,
    E a fronte, ergueu, sem medo,  luz da aurora!

    Mas que aurora, mulher! que vasto incendio
    Nos sombrios dominios do passado!
    Que opprobrio para ns! que vilipendio!
    Que roubo infame ao _senhorio herdado_!

    E assim ficamos ns, sem que lavasse
    De sangue um rio a nodoa!...--escura ideia!
    E assim trazmos na orgulhosa face
    Perpetua a marca vil da mo plebeia!


V

Movimentos de fera.--Risos longinquos

    Ergueu-se, febril, d'um salto,
    Como um tigre nos juncaes;
    Seus olhos chispavam lume
    Como os dos lobos cervaes;
    Crispava as mos como garras;
    Tinha rugidos na voz!
    --Satanaz tremia, ao vr-lhe
    O rude aspecto feroz.

    Correu  larga janella
    E, abrindo-a de par em par,
    D'um anthema ruidoso
    Fez os espaos vibrar...
    --Ouvia-se, ao longe, ao longe,
    O rir convulso do mar.


VI

*O anthema, fragmento do Syllabus.--
Angustias d'uma alma piedosa*

    Malditos sejaes vs, Progresso e Liberdade!
    Gmeos filhos do Mal, irmo e irm do Crime;
    Tu, que s um sacrilgio, abrto da impiedade;
    Tu, que ds fora  plebe e esmagas quem a opprime!

    Vde: por toda a parte as hydras do peccado
    Erguem altivo o collo, iradas contra ns,
    E o nosso bom cutello esconde-se embotado
    Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!

    Por vs andam na sombra, errantes, perseguidos
    Como as feras no matto, os reis d'origem pura;
    Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...
    E assim chamaes aurora  noite escura... escura!

    Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;
    Rebrame o vendaval no espao onde rugis,
    --Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,
    E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!

    Erguendo para os cus a pavorosa fronte
    O anjo da Assolao atraz de vs caminha;
    Quando o incendio alumia a extrema do horisonte
    Sois vs que perpassaes n'essa abrazada linha!

    E para que desmaie o fogo da heresia,
    O fogo a que se aquenta a sordida rel,
    Debalde sopra o clero  cinza inutil, fria,
    Aos ultimos carves do extremo auto-da-f!

     pavidos heroes da lugubre tragedia
    Que a historia do passado aos seculos ensina!
     despotas feudaes da torva idade-media!
     soffregos irmos das aves de rapina!

    Padres, em cuja mo fulgia a na espada
    Co'as mil scintillaes d'um raio abrazador,
    E em cujo ferreo peito a veste consagrada
    Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!

    Monges de frio aspecto e d'animo impassivel
    Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;
     drviches de Roma, a cuja voz terrivel,
    Como  voz de Jehovah, tremiam reis e povos!

    Que  de vs? onde estaes? Que brao vos subjuga,
    Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,
    Ao vr passar assim, na vergonhosa fuga,
    O clero envilecido, os infamados reis?

    No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,
    --A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,
    E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,
    Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.

    Da Liberdade aos ps rola, vilipendiada,
    Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,
    E do eterno Voltaire a eterna gargalhada
    Persegue a Virgem-Me que chora aos ps da cruz!

    Fervem inda no espao os odios implacaveis
    De que innundra a terra uma sinistra ideia,
    --A ideia que do lodo exalta os miseraveis
    E inspira Oitenta e nove,--a tragica epopeia!

    Para que espante os cus, para que o mundo aterre,
    Quantos ccos talvez de novo accordar,
    Fria como uma espada, a voz de Robespierre,
    Ardente como um raio, o grito de Marat?!

    Esse tempo em que a plebe, os rtos, os descalos,
    A ignobil multido, potente em seu reinado,
    Tumulta, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,
    Onde expia a Realeza as glorias do passado;

    Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!
    Cedo as vagas fataes d'immensa revol'o,
    Como as ondas do ri', massa d'espuma e neve,
    Passando sobre a terra, a terra assolaro!

    Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha
    Que peza sobre ns, de tanto horror transidos;
    Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha
    Que  fulgido Sini aos crentes perseguidos!

    Fluctuam j sobre elle a tempestade e a morte:
    Vla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,
    E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,
    Das barbaras legies a marcha triumphal!

    Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,
    Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,
    Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada
    Nos braos varonis dos povos da Germania...

    Em vo,  sacro asylo, em vo inda retumbas
    Co'a sussurrante voz das santas oraes:
    Os servos do Senhor descem s catacumbas;
    Acolhem-se do _nada_ s frias solides!

    Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,
    Se eu no cedo ao martyrio os fros da opulencia?
     tarde! disse alguem.--No! inda no  tarde!
    Seja a lucta sem d, sem tregoas, sem clemencia!

    Os que so contra ns inspiram medo e asco,
    --Venenosos reptis  flr d'um lodaal...
    Ah! podesse eu punir,--punir, como o carrasco!
    Ah! podesse eu vencer,--vencer, como o chacal!

    Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,
    Approveitando o amor, o lubrico pretexto,
    Encher pelos festins as taas de veneno!
    Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!


VII

*Remeniscencias da cano dum proscripto*

    Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,
    Ia a lanar-lhe ao hombro as encruzadas mos,
    Quando julgou ouvir, d'emtorno  lauta meza,
    Vibrarem mil clarins ao som da _Marselheza_,
    E erguer-se um grito ardente: s armas, cidados!

                   Loucuras da hespanhola,
    Que uma vez, n'um caf da Andaluzia,
    Tinha ouvido soltar-se aquelle grito
    Dos labios d'um francez, moo e proscripto,
    Que depois de cantar pedia esmola...


VIII

*Orgia.--Amor e vinho.--
Ainda o caracter evangelico do bispo.--
Mane, Thezel, Phares!*

    Eil-os de novo no calor da orgia:


    O BISPO

              O symbolo da F,
              O largo calix d'oiro
              Do velho altar da S,
    Enche-o de vinho transparente e loiro!

    Bebamos! Quem bebe acalma
    Todas as mguas que tem.
    C dentro, s vezes, noss'alma
    Parece beber tambem.

    No sabes como eu abranjo
    Os mundos que tu no vs?
    Colla aos teus hombros d'archanjo
    As azas da Embriaguez!

    Ai! vers como te elevas
    Nos sonhos que ella produz...
    Passars da luz s trevas!
    Irs das trevas  luz!

    Ha de abrazar-te em desejos
    Que ella mesma apagar;
    Has de sentir muitos beijos
    Sem nunca vr quem t'os d!

    Ora, a nudez, que enthusiasma,
    Pelo abysmo encobrirs,
    Fugindo como um phantasma
    Aos braos de Satanaz;

    Ora, ante os olhos do Eterno,
    Rolars sem um s vu,
    Tentando, em nome do inferno,
    A castidade do cu!

    Ai! bebe, flr do serralho,
    Como a rosa, a tua irm,
    Bebe as perolas do orvalho
    De que se enfeita a manh!

    Molha os labios  vontade
    No santo vinho hespanhol:
    As gtas d'essa humidade
    Hei de eu seccar, como o sol!

    Quanto prazer se resume
    Nem tu calculas, talvez,
    No suavissimo perfume
    Do _Madeira_ e do _Gerez_!

     justo que me acompanhe
    Tua alegria sem par:
    Venha o _Champanhe_! o _Champanhe_!
    Saltem as rolhas ao ar!

    Canta,  deusa, que me abraas
    Cheia d'indomito ardor!
    D'entre o tinido das taas
    Solte-se um canto d'amor!

    Qu'importa o grito da plebe
    Que a miseria escravisou?
    Eu folgo; tu canta e bebe!
    s quem s: eu sou quem sou!

    Dizem que por essas ruas
    Andam vagando, ao desdem,
    Descalas e quasi nuas,
    Umas crianas sem me;

    Que, onde a miseria rebrame
    Contra a nossa ostentao,
    Avulta uma cousa infame
    Chamada prostituio;

    Que a sombra  vasta e profunda
    Nos desherdados casaes,
    Que a espaos a chuva innunda
    E abalam os temporaes;

    Que, entre a noite escura e triste,
    Por terem fome, uns atheus
    Perguntam se Deus existe,
    E, se existe, onde est Deus?;

    Que uns velhos, a quem se deve
    Profiqua gloria sem fim,
    Dormem, cobertos de neve,
    s portas do meu jardim;

    Que, sem tecto onde se acoite,
    Um bando de paes e mes
    Inveja, durante a noite,
    A casota dos meus ces;

    Que a Justia, em vis calvarios
    Onde  vergonha morrer,
    Crucifica os operarios
    Que j no tem que fazer!

    Ser, pde ser verdade...
    Mas, to distante do cu,
    O archanjo da caridade
    Decerto que no sou eu!

    Canta! Bebamos! Scintille
    Noss'alma d'amor jovial!
    Haja um quarto do _Mabile_
    No palacio episcopal!

    Quando, nas lagens marmreas
    D'igrejas, ditas christs,
    J se exaltaram as glorias
    E o nome das certezas,(1)

    Qu'importa que n'estes paos,
    Longe do olhar de Jesus,
    Morra, na cruz de teus braos,
    Um sacerdote da Cruz?

    Canta, como as filomelas!
    Canta, como os roixinoes,
     flr, ao lago, s estrellas
    Dos teus jardins hespanhoes!

    Mas no cedes ao meu rgo?
    Filha, em que ests a scismar?

    DOLORES

    Scismo nas letras de fogo
    Dos muros de Balthazar...


IX

*Pejo do satyro.--Satanaz e Deus.--
A immobilidade de Jesus.*

    No posso dizer mais... no sei... no quero!
    Satanaz, a tremer, tomou-me o brao,
    E ambos, deixando o tenebroso pao,
              Voltamos para aqui:

    Rudes convivas dos festins de Nero!
    Sardanaplo!  torvos seids d'Asia!
    Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!
              Vs sabeis o que eu vi!

     Christo! Aos ps de Deus l dorme o vulto
    Do eterno tentador... N'aquella orgia,
    Se l coubesse Deus, Deus rolaria
              Aos ps de Satanaz!...

    Calou-se de repente e, meio occulto
    Do capitel nos rendilhados folhos,
    Ria cada vez mais, piscando os olhos,
              O fauno,--o hereje audaz.

    Jesus, no entanto, immovel, silencioso,
    A fronte morta para o cho pendia,
    Na terrivel postura da agonia
              A que o forra a cruz...

    E ha quem espere um grito doloroso
    D'aquell'alma sublime? Ha quem espere
    Vr passar o sorriso de Voltaire
              Nos labios de Jesus!


X

*Na immensidade*

    Longe, ao longe, na abobada do espao
    Calma, impassivel, luminosa e fria,
    Pairava ancioso, vigiando o pao,
    Das orgias o archanjo,--a Apoplexia...




AO POVO INGENUO


    Bem cedo,  triste povo,  pobre gente!
    Bem cedo eu te hei de vr, em magua absorto,
    Ir, de joelhos,  capella ardente
    Beijar os santos ps ao bispo morto...

    No p, na cinza,  povo, a fronte roja,
    Ao vr no esquife o Patriarcha austero...
    Tu, que poisas na mo que te despoja
    Mil sculos d'amor crente e sincero!

    Se elle houvesse o direito do mais forte
    Arrastarias vergonhosa algema;
    Vivo, odiou-te: adral-o na morte!
    Derradeira abjeco! baixesa extrema!

    Quando has de tu deixar as vis doutrinas,
    As vis supersties dos tempos velhos,
    E fazer cathedraes das officinas,
    E procurar na Sciencia os Evangelhos?

    Quando has de tu surgir calcando arminhos,
    Nos sales onde, altivos do seu _nada_,
    Ri a mitra da c'roa dos espinhos,
    E o sceptro inutil da prestante enxada?

    Quando has de tu entrar na grande lia,
    E, saccudindo o teu grilho desfeito,
    Dizer ao Padre: Eu chamo-me a Justia!
    Dizer ao Rei: Eu chamo-me o Direito!?

    Succeda  farda a blusa; o ganho  esmola;
    As armas do trabalho  carabina!
    Onde estava a priso surja uma eschola,
    E um theatro onde estava a guilhotina!

    Da liberdade atalayando o asylo,
    S magestoso e bom, s grande e puro;
    Toma, nas rijas mos, bravo e tranquillo,
    A sagrada bandeira do futuro!

     j longo o caminho do Calvario
    Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...
    Desfaz, quebra, estilhaa o teu rosario!
    Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!

          Porto, 12 de novembro de 1873.




NOTA


        (1) Quando nas lagens marmoreas
            D'igrejas, ditas christs,
            J se exaltaram as glorias
            E o nome das cortezs...

        ... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara
    (Roma), o tumulo da afamada cortez Imperia, to celebre no tempo de
    Leo X. Haviam-lhe gravado no marmore a seguinte inscripo,
    exaltadora da formosura d'aquella mulher:

        _Imperia cortisana romana, qu digna tanto nomine rar inter
    homines form specimen dedit, vixit annos XXVI, diis XII, obiit
    1511, die 15 Augusti._

        A ninguem causava espanto vr este preito de admirao tributado
     memoria d'uma mulher que viveu na devassido e na crpula!

            EUGNE BRIFFAULT--_Le secret de Rome au XIX.me sicle._




          EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA

                 doce e affavel companheira dos meus actuaes
            dias de soffrimento,
                 companheira affectuosa de oito annos, at
            19 do corrente, e dos muitos outros que decorrero
            mais felizes, numa modestissima existencia--se o
            Destino quizer--
                Offerece
                    para guardar como segredo
                            GUILHERME.


    _Sabes que o meu amr  teu por toda a vida,
    E inda no tens um_ Bispo? _Ha mezes!... que preguia!
    So cousas da cabea, um tanto distrahida,
    Pois quanto ao corao fazes-lhe tu justia!_

        _23--maio, de 1874._





End of the Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova Heresia, em verso, by 
Guilherme Braga and Jos Pereira de Sampaio (Bruno)

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA HERESIA, EM VERSO ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
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Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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Literary Archive Foundation

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