The Project Gutenberg EBook of Memrias, by Ral Brando

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Title: Memrias

Author: Ral Brando

Release Date: April 3, 2011 [EBook #35762]

Language: Portuguese

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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                           Rita Farinha (Abril 2011)




Direitos reservados




MEMORIAS




DE RAUL BRANDO



A PUBLICAR:

Theatro cinematographico
A historia humilde





RAUL BRANDO

Memorias

1.^o VOLUME


EDIO DA

RENASCENA PORTUGUESA

PORTO




AOS MORTOS




[Figura]




PREFACIO


                                                      Janeiro de 1918.


Se tivesse de recomear a vida, recomeava-a com os mesmos erros e
paixes. No me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas
horas diante do que  eterno, embebido ainda n'este sonho podo. No me
habituo: no posso vr uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a
vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo
esplendido, at as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. No
sei--nem me importo--se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do
meu sr agradeo a Deus ter-me deixado assistir um momento a este
espectaculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o
para a cova, para remoer durante seculos e seculos, at ao juizo final.
Nunca fui homem de aco e ainda bem para mim: tive mais horas
perdidas... Fugi sempre dos phantasmas agitados, que me metem medo. Os
homens que mais me interessaram na existencia foram outros: foram, por
exemplo, D. Joo da Camara, poeta e santo, Correia d'Oliveira, um chapeu
alto e nervos, nascido para cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e
alguns desgraados que mal sabiam exprimir-se. Conheci muitos ignorados
e felizes. Meio doidos e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme sobre a
mesma rima de jornaes?... Outro andava roto e dava tudo aos pobres. O
homem  tanto melhor quanto maior quinho de sonho lhe coube em sorte.
De dr tambem.

A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De
tudo o que se passou comigo s conservo a memoria intacta de dois ou
tres rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem l no fundo e
enebriam-me, como um pouco d'agua fria embacia o copo. S de pequeno
retenho impresses to nitidas como na primeira hora: ouo hoje como
hontem os passos de meu pae quando chegava a casa; vejo sempre diante
dos meus olhos a mancha azul ferrete das hydranjas que enchiam o
canteiro da parede. O resto esvae-se como fumo. At as figuras dos
mortos, por mais esforos que eu faa, cada vez se afastam mais de
mim... Algumas sensaes, ternura, cr, e pouco mais. Tinta. Pequenas
coisas frivolas, o calor do ninho, e sempre dois traos na retina, o
cabedelo d'oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel
da vida e da morte, assisti a muitos factos historicos, e essas
impresses vo-se desvanecidas. Ao contrario este facto trivial ainda
hoje o recordo com a mesma vibrao: a morte daquella laranjeira que, de
velha e tonta, deu flr no inverno em que seccou. O resto usa-se hora a
hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre.

L est a velha casa abandonada, e as arvores que minha me, por sua
mo, dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, o mesmo barco
archaico sobe o rio, guiado  espadela pelo mesmo homem do Douro, de p
sobre a gaiola de pinheiro. S os mortos no voltam. Dava tudo no mundo
para os tornar a vr, e no ha lagrimas no mundo que os faam
resuscitar.

Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida e doirada, a Cantareira, no
alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou
colerico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morreu a minha av;
no armario, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu
av, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulao do seu brigue,
e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me da av e da tia Iria, de
saia de riscas azues, sentadas no estrado da sala da frente, e possuo
ainda o volume desirmanado do Judeu que ellas liam, com o _Feliz
Independente do mundo e da fortuna_ e as _Recreaes philosophicas_ do
padre Theodoro d'Almeida. Ouo, desde que me conheo, sahir do negrume,
alta noite, a voz do moo chamando os homens da companha:-- s Manuel
c p'ra baixo p'r'o mar!--Vi envelhecer todos estes pescadores, o Bil,
o Mandum, o Manuel Arraes, que me levou pela primeira vez, na nossa
lancha, ao largo. Ha que tempos!--e foi hontem... A quarenta braas
lana-se o ancorote. Na noite cerrada uma luzinha  pra; do mar
profundo--chape que chape--s me separa o cavername. Deito-me com os
homens sob a vela estendida. Primeiro livor da manh, e no distingo a
luz do dia do p verde do mar. Nasce da agua, mistura-se na agua, com
reflexos baos, a claridade salgada que palpita, o ar vivo que respiro,
o oceano immenso que me envolve.--Ia! ia!--e as redes sobem pela pol,
cheias de algas e de peixe, que se debate no fundo da catraia. Voltamos.
J avisto,  vela panda, o farolim, depois Carreiros; um ponto branco,
alem no areal,  o Senhor da Pedra, e a terra toda, roxa e diaphana,
emerge emfim, como uma apario, do fundo do mar. A onda quebra. Eis a
barra. Agora o leme firme!... As mulheres, de perna nua, acodem  praia
para lavar as rdes, e o velho piloto mr, de barba branca, sentado 
porta da Penso, fuma inalteravel o seu cachimbo de barro. O azul do
mar, desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que o co derrete. Mais
barcos vo aparecendo, vela a vela: o _Vae com Deus_, a _Senhora da
Ajuda_, o _Deus te guarde_, e os homens, de p, com o barrete na mo,
cantam o _bemdito_, tanta foi a pesca.--Quantas duzias?--Um cento! dois
centos!--Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo,
a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, a sardinha
que os bateis carreiam do mar inexgotavel, estivando de prata todo o
caes. s vezes o peixe miudo e vivo  tanto, que no bastam os
almocreves com os seus burros canastreiros, as varinas com os seus
gigos, nem as mulheres de saia ensacada e perna  mostra, para o
levarem, apregoando-o, por essa terra dentro. D-se a quem o quer,
faz-se o quinho dos pobres. Em setembro so as mars vivas. Mais tarde
cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se
para o sul uma parede compacta que tem legoas de espessura. A voz 
outra, clamorosa, e,  primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela
costa fra, anunciando o inverno que vem proximo. O quadro muda, e os
homens morrem  bocca da barra, na Pedra do Co, agarrados aos remos,
sacudidos no torvelinho da resaca, o velho arraes de p, as duas mos
crispadas no leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, e todo o
mulherio da Povoa, de Matosinhos, da Afurada--vento sul, camaroeiro
iado--com as saias pela cabea, salpicadas de espuma e molhadas de
lagrimas:--Ai o meu rico homem! o meu filho que o no torno a ver!--E
chamam por Deus, ou insultam o mar, que, inverno a inverno, lh'os leva
todos para o fundo.

O que sei de bello, de grande ou de util, aprendi-o n'esse tempo: o que
sei das arvores, da ternura, da dr e do assombro, tudo me vem desse
tempo... Depois no aprendi coisa que valha. Confuso, balburdia e mais
nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equivocas, ou, com raras excepes,
sentimentos baos. Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca Londres ou a
floresta americana me incutiram misterio que valesse o dos quatro palmos
do meu quintal. Nunca caa s feras no canavial indiano foi mais fertil
em emoo e aventura, que a armadilha aos passaros na poa do Monte, com
o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a agua empapada, e, entre as
hervas gordas como bichos, pgadas de bois cheias de tinta azul,
reflectindo o co implacavel de agosto. Os passaros com as azas abertas
desconfiam e hesitam: a sde aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na
armadilha agarramol-os com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve
l no alto um circulo perfeito, e vem, no vo desferido, arripiar com o
bico a agua estagnada. Toca n'uma palheira de visco-- nossa! J tiveste
nas mos uma andorinha?  pennas e vida phrenetica. E essa vida
pertence-te!... S ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos
cheios de rans e os olhos deslumbrados. Nenhuma figura trva, nem o
Anti-Christo, me communicou terror semelhante ao do inofensivo Manco da
esquina, que escondia de manh a barba que lhe chegava ao umbigo, entre
o peito e a camisa, para a sacar de noite, quando sahia  estrada... Sou
capaz de te dizer qual o tom verde de certos dias, quando o pecegueiro
bravo encostado ao muro floresce. O murmurio da minha bica no me sae
dos ouvidos at  hora da morte. Quasi todos os meus amigos--o Nel, que
no tornei a ver...--so d'essa epocha. D'outras impresses mais tardias
no restaro vestigios, mas tenho sempre presentes os mesmos pinheiros
mansos--que j no existem--acenando para a barra, e alta noite acordo
ouvindo o rebramir do mar longinquo. Nos dias de desgraa  sempre a
mesma voz que chama por mim... Olha, olha ainda e extasia-te: o rio
parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta
azul, com laivos esquecidos do poente. Boia espuma na agua viva que a
mar traz da barra... E no ha cheiro a flores que se compare a este
cheiro do mar.


                                                       Agosto de 1910.


Aos 23 do mez passado morreu meu pae amachucado, exhausto e pobre.
Encontro de um, repelo de outro, assim foi at  cova. Tinha 67 annos
incompletos. No podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Ha
muitos annos que se arrastava, e s tinha de seu uma alegria e um
repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calava uns
chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas sem fim sobre um velho romance
de Camillo. Minha me pouco mais durou, com um olhar de pasmo. L ficou
a velha casa abandonada...

Sobe a lua no co, e a sombra no monte. Seis arvores, quatro
paredes--tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas
outras sdes se apagaro n'aquella agua. Outros viro tambem sentar-se
no banco de pedra... S me resta a tua mo querida, que a meu lado
segura a minha mo. Os mortos chamam por ns cada vez mais alto... Olho
para ti e os teus primeiros cabellos brancos fazem-me chorar.


                                                     Setembro de 1910.


Hoje acordei com este grito: eu no soube fazer uso da vida!

O que me pesa  a inutilidade da vida. Agarro-me a um sonho;
desfaz-se-me nas mos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me
repete:-- inutil!  inutil!

A aquiescencia, o sorriso:--pois sim... pois sim...--a necessidade de
transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este sr inutil, que no
sabe viver e que j agora no pode viver. No grito de desespero porque
nem de desespero sou capaz.

A vida antiga tinha raizes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa
epocha  horrivel porque j no cremos--e no cremos ainda. O passado
desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos ns, sem
tecto, entre ruinas,  espera...

No entendo nada da vida. Cada dia que avana entendo menos da vida.
Contudo ha horas, as horas perdidas--e s essas--que queria tornar a
viver e a perder.

Deus, a vida, os grandes problemas, no so os philosophos que os
resolvem, so os pobres vivendo. O resto  engenho e mais nada. As
coisas bellas reduzem-se a meia duzia: o tecto que me cobre, o lume que
me aquece, o po que como, a estpa e a luz.

Detesto a aco. A aco mete-me medo. De dia pdo as minhas arvores, 
noite sonho. Sinto Deus--toco-o. Deus  muito mais simples do que
imaginas. Rodeia-me--no o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de
mortos que se ergue em tempestades, e esta mo que me prende e sustenta
e que tanta fora tem...

Como em ti, ha em mim varias camadas de mortos no sei at que
profundidade. s vezes convoco-os, outras so elles, com a voz to
sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna:
s num silencio mais profundo ainda, conto ouvil-os a todos.

Nunca os meus me chamaram to alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me, e
pouco a pouco o circulo da minha vida restringe-se a um ponto--a cova.

Teimo: ha uma aco interior, a dos mortos, ha uma aco exterior, a da
alma. A inteligencia  exterior e universal e faz-nos vibrar a todos
d'uma maneira diferente. Destas duas aces resulta o conflicto tragico
da vida. O homem agita-se, debate-se, declama, imaginando que constroe e
se impe--mas  impelido pela alma universal, na meia duzia de coisas
essenciaes  Vida, ou obedece apenas ao impulso incessante dos mortos.

A minha alegria em velho consistiria em ter aqui meu pae para falar com
elle. No  s saudade que sinto:  uma impresso physica. Agora  que
acharia encanto at s lagrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao
p do lume e morrermos ao mesmo tempo...


                                                    Fevereiro de 1918.


Isso que ahi fica no so memorias alinhadas. No teem essa pretenso.
So notas, conversas colhidas a esmo, dois traos sobre um
acontecimento--e mais nada. Diante da fita que a meus olhos absortos se
desenrolou, interessou-me a cr, um aspecto, uma linha, um quadro, uma
figura, e fixei-os logo no canhenho que sempre me acompanha. Sou um mero
espectador da vida, que no tenta explical-a. No afirmo nem nego. Ha
muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me
parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. No
aprendo at morrer--desaprendo at morrer. No sei nada, no sei nada, e
saio d'este mundo com a convico de que no  a razo nem a verdade que
nos guiam: s a paixo e a chimera nos levam a resolues definitivas. O
papel dos doidos  de primeira importancia neste triste planeta, embora
depois os outros tentem corrigil-o e canalisal-o... Tambem entendo que 
to dificil asseverar a exactido de um facto como julgar um homem com
justia. Todos os dias mudamos de opinio, todos os dias somos
empurrados para leguas de distancia por uma coisa phrenetica, que nos
leva no sei para onde. Succede sempre que, passados mezes sobre o que
escrevo--eu proprio duvido e hesito. Sinto que no me perteno...  por
isso que no condemno nem explico nada, e fujo at de descer dentro de
mim proprio, para no reconhecer com espanto que sou absurdo--para no
ter de discriminar at que ponto creio ou no creio, e de verificar o
que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter
opinies no  facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forado a
reconhecer que eram falsas ou erroneas. Sou talvez uma arvore que cresce
 sua vontade, pernada para aqui, pernada para acol,  chuva e ao
vento. No admitto poda. Perco horas com inutilidades, e passo alheado e
frio diante do que os outros contemplam extasiados. Admiro, por exemplo,
muito mais, perdoem-me, a vida ignorada do meu visinho, o senhor Crasto,
que morreu de oitenta annos, curvado, a lavrar a terra, do que a do
senhor Hintze Ribeiro, que considero inutil e destituida de toda a
belleza.

Por isso, repito, muitas folhas destes canhenhos sero mal
interpretadas, talvez alguns tipos falsos. S vemos mascaras, s lidamos
com phantasmas, e ninguem, por mais que queira, se livra de paixes. No
que o leitor deve acreditar  na sinceridade com que na ocasio as
escrevi. Podero objectar-me:--Ento com que destino publico tantas
paginas desalinhadas, de que eu proprio sou o primeiro a duvidar?  que
ellas ajudam a reconstituir a atmosphera d'uma epocha; so, como dizia
um grande espirito, o lixo da historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre
com a legenda que se construiu a vida. Sei perfeitamente que a historia
viva tanto se faz com a verdade como com a mentira--se no se faz mais
com a mentira do que com a verdade. Para gerar um acontecimento 
preciso crear-lhe primeiro a atmosphera propicia. Algumas palavras sob
caricaturas grosseiras dispersas pelos campos, formaram uma lenda na
imaginao popular, concernente ao rei,  rainha, ao conde de Artois, a
madame Lamballe, ao pacto da fome, _aos vampiros que sugam o sangue do
povo_, etc. Dessa lenda, que elle acha util, sahiu a grande
revoluo--diz um historiador. A gente nunca sabe ao certo se da
infamia podero nascer coisas bellas... A mentira, o boato, o que se diz
ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta fora tem, a meada de odio, de
ambio e de interesses, que no cabe na historia com H grande, tem o
seu logar n'um livro como este de memorias despretenciosas. Eis uma
razo. Tenho outra ainda: torno a vr e a ouvir alguns mortos. Recordo,
o que  necessario a quem cada vez mais se isola com o seu sonho e as
suas arvores. Isto aquece quasi tanto os primeiros annos da minha
velhice, como o lume que arde at junho na lareira d'esta casa[1].

Cantareira, Foz do Douro--1918.




ALGUMAS FIGURAS


                                                        Janeiro--1900.


Urbano de Castro, com um olho trto e um chapelinho afadistado, na
aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os
seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do _Correio
da Manh_. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de
classicos--conhece muito a lingua--e uma forma ironica e precisa: em
meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os
politicos temem-no tanto, que uma das condies impostas pelo Jos
Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na
_Tarde_ com o _Espirito de S. Ex.^a_.

Eis algumas maximas de Urbano de Castro:


     --A paciencia  uma virtude de capote e leno.

     --Quanto mais leve  a cabea da mulher, mais pesada  a do marido.

     --Os homens publicos so como os papeis de credito--o que hoje tem
     uma alta cotao, amanh no vale, e inversamente.

     --Quando tiveres muitos argumentos, no empregues seno os
     melhores. Quando no tiveres nenhum, emprega todos.

     --A paternidade , muitas vezes, um rotulo. A garrafa  a mesma,
     mas o vinho  outro.

     --Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.

     --No corao mora-me Deus, no figado o diabo.

     --Mortal  o contrario de imortal. Imortal  o que  sempre. Logo,
     mortal-- o que no  nunca.

     --Theologia--a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que
     ns no entendemos.

     --De todas as armas, a mais dificil de manejar  o pau... de dois
     bicos.

     --Jornalista--fabricante da opinio publica. Cada um afirma que a
     unica genuina  a da sua lavra.

     --Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus
     actos ho de reconhecer que no teem juizo nenhum.

     --O suicida tem para mim um lado sympathico--no se julga
     insubstituivel.



                                                          Junho--1903.


Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um
ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?
No, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado
fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasies em que todos os
theatros do Rio representaram peas com o seu nome. Est cheio de
dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflies
de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta--pan!
pan! pan!--e dinheiro atirado a rodos,  um casebre no campo, duas
arvores n'um retalho de horta viosa e uma nora pingue que pingue no
fundo do quintal. Paz. E no escrever uma linha.

Um agiota no o larga.  este velhinho paternal, de cabellos brancos,
que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo.
Parece inofensivo. Comeou a vida por creado de servir e esfolou os
patres. Afirma que o Garrido  capaz de arrancar dinheiro a um morto:

--Este senhor Garrido d-me cada aflio! At me faz crear caspa!


                                                      Fevereiro--1900.


A paixo d'este homem  no ter um livro de geito. G... s escreveu trez
folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido no deu mais nada. 
no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo
curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu
ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas at ante manh, dispersando
com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de
bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma
noite, no caf, G... aludiu  sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu:

--A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos
pedindo vinte e cinco tostes emprestados.

G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo,
para perguntar com indiferena ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico
com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia:

--O Fialho fazes favor de me dizer que horas so... no relogio do teu
sogro?


                                                      Fevereiro--1903.


Vejo sempre diante de mim o D. Joo da Camara, j cansado e e asmathico,
olhando por cima das lunetas, e falando baixinho com receio, uma
modestia no dizer, e um medo de magoar... A barba espessa, a grenha
espessa e um chapelinho psto ao lado, completam a figura um pouco
molle.  quasi um santo. Joga e jejua. D tudo o que tem. Exploram-no.

--O que me perdeu na vida foi no ter energia. Nunca me decido.--E mais
baixo:--Isto vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive alguns
condiscipulos que so homens notaveis e ninguem d por elles.

Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, nos bastidores dos theatros,
ou encantado com uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco da
Bandeira. Se encontra o Pinturas est perdido: no se largam mais. Vae
sempre para casa de manh, e a sua vida  to aflictiva que desejaria,
como o Schwalbach, que o metessem algum tempo no Limoeiro, para no
pensar no dia seguinte.

Hontem contou-me isto que  encantador:

--No me importava nada de ter quatorze filhos em vez de sete. So muito
meus amigos. O Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. Eu estou
sempre a dormir... Esta manh--estava acordado, mas fingi que dormia,
quando aquelle rapago me entrou no quarto, p ante p, para no me
acordar, e beijou-me...

E fica extatico.

s vezes fala-me das peas que ha-de fazer, do _Sermo da Montanha_ e de
outra com tipos de sonhadores, que se alimentam de mentira e de um
passado que nunca existiu, forjado ponto por ponto. Assobia-se, por
exemplo, um trecho d'opera, e logo este atalha:--Bem sei  da
_Dinorah!_... Tempos que j l vo! O que eu vivi com Fulano e Sicrano,
e as ceias que demos juntos!--Tudo iluso! tudo sonho! Vae-se a ver nem
sequer conheceram as pessoas de quem falam... Outras vezes conta-me a
sua vida:

--O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias d'angustia... N'essa noite _O
Pantano_ cahira. Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores a intriga
fervia com a Lucinda  frente. Sahi do theatro a pensar no que havia de
empenhar no dia seguinte. Fui para casa muito tarde.--No haveria que
pr no prgo?--Por fim descobri uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi
com o embrulho debaixo do brao, n'um papel de jornal. O papel amolecia,
a casaca rompia para fra, e eu batia de prgo em prgo. Sete horas da
manh... Estavam todos fechados. N'um disseram-me com seccura:--No
emprestamos sobre casacas.--Fui a outro e esperei no portal que abrisse.
Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. Defronte, estava uma
carroa, com um cavallo branco. Era um burro pelle e osso, a cabea
metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, com o embrulho j todo
roto debaixo do brao, invejei aquelle cavalo!...

J no joga. Mas antigamente ia todos os dias para casa s cinco horas,
tendo perdido tudo:--Foi n'essas noites que imaginei as minhas melhores
peas...--Cuidadosamente punha sempre de lado um tosto para o
americano--e quasi sempre succedia tambem que um velho fidalgo, das suas
relaes, lhe pedia o tosto emprestado para um calice de vinho do
Porto, que se habituara a beber ahi pelas tres da madrugada. O D. Joo
dava-lh'o, e l ia a p para a Junqueira, a sonhar nas peas, sob a
lufada, molhado at aos ossos, de casaco de alpaca.


[Figura: _Columbano._--Auto-retrato.]


                                                          Junho--1903.


Passei a noite em casa do Columbano, com o Raphael Bordalo Pinheiro.
Durante o jantar falou sempre. Todo elle mexe, todo elle  caricatura e
imprevisto: os olhos, o nariz, as mos e at o bigode que se encrespa,
desenham e imitam.--Era um homem com um lho assim...--E logo o lho se
lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. Chegou a ter lies do
Rosa pae. Est um pouco cansado. Queixa-se muito. Amua.--Ninguem faz
caso de mim...--Estranha quando o no vo esperar  estao--e est
sempre a chegar das Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se e
pe-se a rir. Depois torna:--Eu no jogo, mas l em casa todas as noites
jogam e pedem-me dinheiro emprestado.--Agora arremeda este e aquelle de
quem fala. Conta que em Paris ouviu o rei dizer:--Isto aqui  uma terra,
l  uma piolheira.--E que o infante, quando lhe perguntaram:--Ento em
Londres que tal, com aquelles principes todos?--Mal, mal... eu sou um
principe aza de mosca...

E acaba-- nas vesperas do jantar que lhe vo oferecer no theatro D.
Maria--por dizer:--Veja o senhor que desgraa a minha! Daqui a pouco no
posso fazer a caricatura de ninguem!

Efectivamente l estavam no banquete todos os homens imponentes, os
conselheiros, os politicos decorativos, a serie completa das figuras do
_Antonio Maria_. No faltou ninguem  chamada. E nos camarotes
aplaudiram-no com delirio as lisboetas palidas de que troou em tantas
paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. Creio que foi a
primeira vez que perdeu a linha.

Gostou sempre de fazer partidas.  o Schwalbach que conta:

--O imperador do Brazil logo que chegava ao theatro metia-se no
camarote, descalava as botas e calava com regalo uns chinelos. Uma
noite o Raphael, que estava ento no Rio, foi p ante p, meteu a mo
pela cortina e roubou-lhe as botas. O pobre homem no se desconcertou:
sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a multido, saudando para a
direita e para a esquerda, desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos na
carruagem.


                                                       Dezembro--1900.


Latino Coelho, contado por Maximiliano d'Azevedo:

Tinha coisas absurdas: estava sentado a conversar e levantava-se sem
mais nem menos, compunha a trumpha, e ia espreitar  janella. Era todo
de enguios. Nunca sahia de dia. E que memoria! Dizia-se-lhe qualquer
banalidade, e elle, d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra.
Discursos que revelam o conhecimento inteiro d'uma epocha, como o de
Cames, que leu na Academia, e que foi escripto das sete s onze da
manh, e lido ao meio dia, compunha-os com extrema facilidade.

D'uma vez estava elle em casa politicando com alguns amigos reformistas,
o Mariano, o Lopo Vaz e no sei quem mais. Discutia-se a revoluo de
onze de maio. O Latino, dando um geito  trumpha, chegou  janella e viu
o carro, puxado a mulinhas, do Saldanha:

--Ahi vem o duque... E aposto que vem para c.

Efectivamente o carro parou  porta. Era o Saldanha. O Latino foi
recebel-o n'outra sala, e, depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha
perguntou-lhe:

--Sabe a que venho? Venho saber a sua opinio sobre o dia de hontem.

--Mas no tenho opinio nenhuma...

--No se recuse, Latino. Peo-lho como amigo.

--Ento, marechal, deixe-me dizer-lhe que quem como V. Ex.^a conquistou
um nome glorioso com a espada, no deve servir-se da canalha para fazer
o que fez. A sua situao  deploravel.

--No me diga isso! E se eu aproveitasse a situao para firmar de vez a
liberdade em Portugal e salvar o paiz?

--Se V. Ex.^a quizesse...

--Mas  que quero, e para isso venho ter comsigo.

Combinaram que o Latino redigiria os decretos ampliando as liberdades
publicas, tornando-as efectivas, e convocando constituintes com poderes
amplissimos.

--O maior segredo...--recomendou o Latino.

N'essa noite no dormiu. Acompanhado d'um amanuense do ministerio,
redigiu os decretos, que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,
metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que os amigos que l estavam em
casa tivessem desconfiado; fosse que o Saldanha dsse  lingua, o que 
certo  que o rei foi prevenido a tempo por alguem que lhe disse:

--O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. V. Magestade no os assigne ou
est perdido.

Quando o Saldanha chegou ao Pao o rei abraou-o:

--Pois o duque ajudou a conquistar-me o throno e no quer que meus
filhos reinem? Nem talvez eu chegue at ao fim da vida no poder...

Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a dias encontrou-se com o Latino
que lhe disse:

--V. Ex.^a no podia deixar-me dormir a minha noite socegado?

Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino me contou isto. J tenho
querido descobrir os decretos. Devem estar em casa do irmo, n'um quarto
interior, onde a traa vai roendo os papeis do grande escriptor...

       *       *       *       *       *

Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a revoluo ao Latino:

--Mas ha-de ser tudo assassinado--toda a familia real.

--Isso no!--protestou logo o Latino.

       *       *       *       *       *

Morreu virgem, como Newton. No dia de sua morte, estava o cadaver na
cama, apenas coberto com um lenol. Alguem disse para o Maximiliano:

--Bastaria arrancar aquelle lenol para descobrirmos o segredo de toda a
sua existencia.

       *       *       *       *       *

Junqueiro dizia de Latino:

--Sim,  um homem admiravel, que em logar de c... tem duas castanhas
piladas!


                                                           Maio--1903.


Um jornal publica hoje esta noticia:


     POVOA DE LANHOSO, 29--Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr.
     Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilio,
     bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de
     Coimbra.

     O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christs.
     Tinha 92 annos de edade; o falecido fra frade agostinho.


O homem, a quem estas seccas linhas se referem, era na verdade um santo.
Deixou tudo para viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre
cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. Vi-o muitas vezes
passar na estrada, todo branco, minguado, com o burel, que nunca quiz
largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente formado em
philosophia e direito, e at por vezes fra convidado para lente da
Universidade de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, preferindo a
convivencia com a gente do povo e com a natureza que o rodeava. Ha entre
as duas povoaes, S. Bento e S. Martinho, que ficam  beira da estrada
da Povoa de Lanhoso, uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto
fica a ermida. Alli se costumava o santo homem sentar, horas e horas
embebido nas suas meditaes. Em que scismava? Decerto no passado
longinquo...

Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre Herculano, que se chama, creio
eu, O ultimo dia de convento? Um frade chora ao deixar para sempre a
cella caiada, onde passou a vida inteira.  s isto, afra a ternura, as
lagrimas, a prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da Boa Morte
contava tambem as ultimas horas de convento. Velhinho, tremulo, vivendo
de esmolas, recolhido por caridade em casa de duas mulheres, que o
cuidavam, nunca esqueceu o convento, a cella, o dia de separao. E, ao
p da arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais d'uma vez
contar o que sofrera.

--E dos seus companheiros lembra-se? Teve mais tarde noticias?

E elle, com os olhos razos de lagrimas:

--Viveram ainda dispersos por esse mundo. Ha annos, ha muitos annos,
recebi, dum d'elles um recado, esta palavra:--Adeus! Foi o ultimo!

Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. Com a vida, ia-se-lhe desfeito
o burel, rtos os sapatos. Deixra de dizer missa, mas o povo d'aquelles
logares, que  ingenuo e crente, consultava-o nas suas doenas e nos
seus sofrimentos.  que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de sorrir...
O milagre  uma comunicao entre pessoas que tm radicada e viva esta
fora enorme:--a f. D. Joaquim da Boa Morte curava as creaturas
simples, as mulheres, as creanas e os homens da serra que o iam
visitar, com boas palavras, e, quando muito, com alguns cachos de uvas,
que elle proprio colhera e lhes distribuia, depois de benzidos.

Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado na manta coada que
pertencera a sua me e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha manta
como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo assim, com um resto de calor e de
ternura, que eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a eternidade das
eternidades, nem o isolamento, nem o frio dos frios, conseguiriam jamais
trespassal-a.

Que descance em paz. Quem escreve estas linhas deve-lhe uma das maiores,
mais elevadas e puras impresses que tem recebido na vida. A sua grande
figura s desaparece da terra, depois de ter feito muito bem e estancado
muitas lagrimas.


                                                          Julho--1903.


O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha tres dias, em plena mocidade,
meteu uma bala no corao:

--Eu no fao como elle, no me vou embora, porque tenho duas creanas,
o Mario e o Raul. Era de certo a isto que o Manuel se referia ao
escrever: No fao falta a ninguem. Isto atura-se l a sangue frio e
determinadamente! Matava-me para me ver livre d'estes bandalhos!

E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta a perna apegado  bengala,
e sacode a cabelleira branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente
ainda:--Arre bandidos!

De repente, sem transio, pe-se a rir:

--Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, que tinha uma lingua
viperina e dizia mal de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este e
naquelle, disse mal de todos. Por fim:--Sempre me refugio em Victor
Hugo, para ver se voc tambem diz mal d'elle...

E o mestre:

--Esse velho no era nada tolo!

Ri-se. Depois fica outra vez triste:

--Aquellas paginas de Hugo quando o av v entrar o neto ferido pela
porta dentro!

       *       *       *       *       *

O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, insinuante e
espontaneo, que aos dezanove annos se lembra de estourar o corao com
uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta e dous annos--o
Fialho diz:

--...era isto e aquillo e uma mo enorme atirada p'ra aqui e p'ra acol
a toda a gente, apertando a nossa.

O que nunca mais me esquece so aquelles olhos tristes e a bocca moa
sempre a sorrir!...


                                                      Fevereiro--1904.


Hoje almoo em casa do Schwalbach com o Bulho Pato, o Camara, Joo
Chagas, Antonio Bandeira, etc. O Bulho Pato  um homensinho secco e
resistente, de cabeleira e pera branca--miniatura do alentado Pato
caador que todos ns imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no
dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer desaparece com elle
toda uma epocha:--Meu rapaz podes ter lido todos os philosophos, que se
no tiveres sentimento... Minha mulher, uma velhinha l fica... No vae
comigo, porque recolhemos em casa uma pequena pobre, pobrissima, e
queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a  nossa meza... Bem
sei que ha por ahi uns moos que dizem mal de mim. No me importo.
Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe logo os braos.

No fim do almoo, beija a mo s senhoras. Conviveu com o Herculano,
ouviu-lhe dizer:--Isto d vontade de morrer! Que faria--accrescenta--se
vivesse hoje!--O Conservatorio lembra-lhe o Palmeirim--que foi da
minha creao-- simpathico, vivo e cheira a outros tempos: conserva,
como o linho guardado no fundo d'um armario, o perfume da ma. E que
contraste com os outros, com o Chagas, com o Schwalbach, sempre aflicto
e sempre despreocupado, com o Antonio Bandeira, que, sob uma aparencia
futil,  pratico como o diabo, e que conta que foi uma noite em Roma,
com alguns portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado para as
ruinas do Colyseo! Depois, por _blague_, sustenta com o Chagas, que
ninguem devia ter mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.


                                                          Maro--1904.


Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas,
barba com muitas brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha curta e
olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e secco.

--A gente quando chega a certa edade tem de se isolar para no viver
n'uma perpetua irritao. Olhem agora se eu encontrava o Pequito
ministro, o Pequito de quem a gente fazia troa em rapaz! E muitos
outros, que aos quarenta annos comeam a desafinar-nos os nervos... Vivo
no Cartaxo, n'um descampado: a quinta fica entre duas estradas. No
passa l ninguem... Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro
acrescentei-lhe uma cozinha, depois um quarto: agora tenho l uma casa.
E j no posso viver sem o ruido das ms. O meu quarto fica mesmo por
cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras em flr, aquillo 
adoravel...


                                                          Abril--1903.


Vi o Marianno nas camaras.  um cadaver, com uma sobrecasaca riquissima
de gola de veludo. Nunca phisionomia exprimiu maior cansao, indiferena
ou desprezo, a palpebra cahida, o olhar vazio de expresso.--Que me
importa! que me importa!...--Parece um morto, farto de sofrimento e de
goso, e, sob aquella apparencia de sceptico raros se magoam como elle.
Toda a vida tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa horas a
descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e tiras de papel, a tarefa do
jornal, sem dizer palavra nem levantar a cabea. D'uma vez chamou-lhe
tudo quanto lhe veio  bocca, e elle inalteravel, curvado sobre os
linguados, sem lhe dizer palavra... Por fim ella, desesperada,
berrou-lhe:

--s um estupido!

Elle ento parou, ergueu a cabea, e muito calmo:

--Teem-me chamado tudo, mas estupido  a primeira vez!

E continuou a escrever.

Por fra uma aparencia de sceptico, por dentro uma sensibilidade enorme.
Anda sempre metido em complicaes e negocios, em caminhos de ferro, em
pedaos de Africa, bahia de Lobito, etc., e afinal no passa d'um
sonhador que tem as propriedades de Azeito hipothecadas em quatorze
contos de reis.


                                                       Setembro--1903.


O Antonio Jos de Freitas, homem de lettras mediocre,  um conversador
admiravel. Se conseguisse escrever como fala, e dsse  prosa aquella
vida que d  palavra, seria um grande escriptor. Pequeno, branco, na
ponta dos ps, sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:

--Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um dia comeou a imaginar que
estava pobre, porque no Banco de Portugal lhe no quizeram, como sempre
se fez, descontar uma lettra s com o nome d'elle. Disse ao Barros
Gomes:--Vae beber da merda!--E sahiu furioso. D'ahi comeou a imaginar
que tinha cahido na pobreza e alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma
vez sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o a
casa.--Sobe.--Tenho ainda que escrever para o Brazil...--Insistiu,
subi--e eil-o a clamar no quarto:--Que diriam meus avs se vissem alli o
circo e os palhaos!...--Estava desesperado. Descompul-o.

Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o n'aquelle mesmo
quarto, e, altas horas da noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o
circo Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo do cadaver,
iluminado pelo claro do incendio, alli onde o ouvira evocar com
desespero os seus mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e
quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar no caixo, veio de roldo
uma chusma de cocheiros e vadios, que nol-o arrancaram das mos, e,
erguendo-o no alto dos braos, levaram-no at  cova...

       *       *       *       *       *

--O Ea usou toda a vida bentinhos ao pescoo. Vi-lhos eu, que dormi por
diferentes vezes com elle no mesmo quarto...

       *       *       *       *       *

Depois fala no Resende:

--Se vivesse era decerto o chefe do partido conservador. Que homem
encantador, polido e sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia
magnetica sobre ns todos. O medico, j quando elle estava muito mal,
recomendou-lhe ares do mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes ia eu
com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe botijas com agua quente,
porque sentia sempre um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com uma
botija em cada mo. O _Rabeco_, um jornal de caricaturas do tempo,
disse que ns iamos emborrachar todas as noites para o rio. Muito nos
rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, morreu como um crente.

Foi elle que se esmurrou com o Ea n'uma das piramides do Egypto. Nessa
viagem ouviram ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. O Ea cahiu
logo de joelhos; quando levantou a cabea para ver o quadro, dois ou
trez mil peregrinos tinham como elle ajoelhado sob o mesmo impulso
irresistivel: s a seu lado, de badine e sobretudo no brao, se
conservava de p, sem perder a serenidade nem a linha, um unico homem: o
Resende.

       *       *       *       *       *

Os _vencidos da vida_, depois que se juntaram diziam mal uns dos outros.
No se podiam ver.


                                                          Maro--1900.


Ha mezes que Junqueiro no aparecia na Praa, onde outrora era certo 
noite, rodeado de esbirros, e discutindo politica ou arte com alguns
amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, depois de umas febres
palustres apanhadas n'essa longinqua quinta que replanta de vinha l
para a Barca d'Alva.

Vem curioso. Teem por acaso os senhores noticia d'um Junqueiro adunco e
janota, mephistophelico, com ditos em braza explodindo sobre o ultimo
acontecimento, e conhecem talvez a lenda da casa de hospedes celebre da
rua dos Retrozeiros, d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,
pamphletos, versos, theorias philosophicas, satyras e revistas do anno,
e onde--consta dos archivos da policia--morou o proprio Diabo em pessoa,
na intimidade do poeta?... Lembram-se? Depois, n'outra phase da vida,
viram-no talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em bico d'aguia,
sob um chapo molle e gasto, atacar o velho Padre Eterno?... Pois ahi o
teem agora philosopho e christo. Parece um prgador
socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta: traz
ainda terra pegada nas mos e uma roupa velha, a que s faltam alguns
remendos cosidos  ultima hora... Usa uma camisola de l e diz
assim:--Eu no me visto: cubro-me.

Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme l para a raia, entre pantanos,
que reuniu leira a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo 
Balzac.  elle mesmo que a evoca em meia duzia de traos, e a gente v
logo d'um lado os cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o Senhor
Poeta, como elles lhe chamam, com um livro de cheques na algibeira,
encafuando-os a todos na sala do cartorio:--Se chegam a concertar-se era
uma discusso para seculos. Pediam-me uma fortuna!--Um a um compareceram
diante do tabelio:--Quanto quer? Assigne!--E sahiam logo por outra
porta.

J pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se a nova thebaida, que
d'aqui a annos ser visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram
os nossos grandes escriptores, desde Herculano a Fialho, na natureza,
que pouco nos d em troca do muito que lhe damos? Afastar-se dos outros
ou esquecer-se a si proprios? Talvez as arvores e os montes nos preparem
melhor para o sepulchro e para o verme, ainda que eu julgue que no ha
como um 6.^o andar, com livros e papeis, e um cinematographo no rez do
cho, para acabar com a vida.

Seria um curioso estudo aquelle que comparasse Valle de Lobos, Seide e a
quinta de Junqueiro, a decorao escolhida por tres homens superiores--o
fundo de tres grandes retratos. Na Barca tem o poeta uma casota de co,
com os muros ainda em osso, e uma varanda onde passeia todo o dia
infatigavelmente. De quando em quando escreve na cal da parede versos ou
contas. Seide, n'um cahir de tarde outomnia, lembra a alma de Camillo.
Ha l um calvario d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha l uma casa
tragica, pintada d'amarello. Um ermo, que, a meia legoa da estrada, fica
ao cabo do mundo, e que parece escolhido de proposito para esconder uma
desgraa ou combinar um crime. Peor: ficou na casa abandonada, no
ambito, nas pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada de sceptico e
de crente, mixto doloroso que s tinha como soluo o infortunio. O que
se ouve so risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... Parece que
elle anda ainda por aqui, sardonico e immenso, desgraado e immenso.
Valle de Lobos, se uma vez o avistaram, no emociona de uma forma toda
diferente, e no diz bem com a alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,
a sua paizagem querida  indubitavelmente a trasmontana, grave, revolta
e grandiosa como o seu genio.

Camillo no encontrou decerto resignao nas arvores, nem nos montes,
porque, para o mestre, em toda a natureza s o homem existia:--No ha na
sua obra uma arvore, nota o poeta...--Nem Guerra Junqueiro por ora se
isola. Est na lucta, com os seus livros, as suas theorias, a sua
maneira suprema de discutir e de encarar os problemas do universo.

--Para viver na aldeia  preciso, diz elle, ser Joo Brando ou S.
Francisco d'Assis.

De forma que a Barca d'Alva no  bem uma thebaida para o poeta. Os
senhores vo agora conhecel-o sob este aspecto novo--agricultor. A Barca
-lhe mais que um refugio:  (palavras que fazem bater o corao de
todos os homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, agricultor, tem
ainda genio: inventa e descobre. Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a
terra, que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito propaga a febre.
O jornaleiro macilento bate o queixo com sezes. Elle ordena, dirige e
resolve as questes agricolas muito melhor que os lavradores da regio,
de quem diz:

--Plantam vinhas, como quem joga na batota--ao acaso!

Ouam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem logo uma vida
extraordinaria, as boccas que no falam, a Maria Colhna, que tem filhos
de toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, filhos para
a desgraa, os sres deformados e enormes, os tipos que se transformam
em simbolos... Descobriu um novo processo para evitar que a enxertia,
essa operao cirurgica, como elle lhe chama, falhe, e, sob as suas
ordens, trabalham alguns centos de homens, que se encostam s enxadas
para ouvirem o Senhor Poeta... No  raro vel-o subito, tempo humido,
perigo para as vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.
Adivinha, presente melhor a natureza que os sabios--e cria. Tudo o que
toca toma sob as suas mos um aspecto novo, to certo  que os homem de
genio, como quer Carlyle, so sempre superiores e ineditos.

E de que maneira paradoxal elle expe as suas theorias! Nervoso,
pequeno, calcando o lagedo da Praa, a mordiscar a ponta do charuto, que
giganteas formas de sonho no vae creando aquella magica palavra!... A
sua phantasia  eminentemente decorativa.

--Sabem--dizia o poeta uma noite--sabem que scismo na frma de
transformar toda a agricultura? Acabaram-se os pobres, a fome, os annos
tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, no bastaro toneis como torres
e para o po arcas como predios. Uma carrada de bois ser apenas
suficiente para carregar uma abobora, e um simples cacho de uvas dar
vinho para duzias de borraches. Como? Aplicando s arvores, s vides,
s plantas emfim, o methodo de Brown-Squard. O sabio d a um organismo
gasto uma vida assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.
Calculem o resultado d'esse sistema aplicado na agricultura...

Um castanheiro dura seculos, tem uma vida extraordinaria.  mais que uma
arvore-- uma fora. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, os
seus ramos tocam no co. Imagine que injecto polen de castanheiro n'uma
vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promisso. D'um p de
melancia tiro um fructo capaz de carregar um carro. Tres mas metem no
fundo uma nu.

E eis, por uma noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder
da phantasia e do sonho. Flores so arvores abrindo l em cima no co em
parasoes roxos; pinheiros transformam-se em montanhas; monstros erguem
as suas corolas de veludo, e na verdade no passam de humildes flores
bravias. Uma petala desaba com o fragor de penedos, e multides sobre
multides sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo colossal:--o
morango. Ha que tempos que eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de
papoulas!...

Junqueiro na intimidade  prodigioso de genio, de imprevisto, de
elevao. V os factos mais simples com um olhar que os engrandece.
Assombra de pitoresco e de inedito. O homem de genio , como todos os
homens, filho da mesma lama, mas, por acaso, vo n'esse humus lagrimas,
aguas correntes, detrictos de florestas, restos de nuvens e a emoo
profunda da natureza. Por isso sabem tudo, sentem tudo...  pena que as
suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaos de sonho e de vida,
atirados com febre, perdidos, e decerto esquecidos, se no possam
juntar, porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios do seu genio.
Seria esse talvez o seu melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes
de Hespanha, onde Jesus est preso e a ferros, a explicao prodigiosa
dos Christos de madeira--o Christo dos soldados, o dos ladres, o dos
cavadores, da sua sala de jantar, unicas obras d'arte de que no quer
desfazer-se, e a sua philosophia, a maneira superior como encara o
universo e ilumina o desconhecido...

Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba hisurta, embrulhado n'um
casaco coado, com um ar iluminado de Santo. Direis que vae prgar s
multides. Demais j ha annos que elle escrevia:


     Tolstoi o meu sapateiro...


E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo com noites de sombrio
desespero, palpando a coronha do revlver, no foi de proposito
procural-o para lhe prgar Deus?

Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, de que o grande escriptor
fala nos _Seres_. A natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge
batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem  que o chama? Atormentado de
dores, ouve vozes, v phantasmas, e sae do horror com blasphemias e
sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do
crepusculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado,
desesperado, o rosto marcado de dedadas, esboado n'uma argila cr de
mel, segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta
tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola theorias,
explicaes, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... J o
julga abalado e convertido, quando d'essa figura s osso e dor, saem
emfim estas palavras ironicas:

...--Sim, sim, Junqueiro, voc convencia-me se eu no tivesse ainda no
estomago, desde o almoo, tres bolinhos de bacalhau, que me esto aqui
como tres Voltaires.


                                                          Maro--1904.


Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro, o
poeta Guerra Junqueiro.  outro homem, que perdeu talvez em
exterioridades mas ganhou em funda emoo. Tendo-se-lhe um dia deparado
universaes interrogaes no caminho; tendo encontrado frente a frente,
ao meio da vida, idas abaladoras, que s o homem de genio pode encarar
sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistrio comunica--as raizes
do universo--elle mudou de rumo, to simplesmente como se praticasse o
acto mais banal da existencia. Sendo j um dos maiores poetas da
Europa--quiz ser tambem um santo... Durante annos procurou como Fausto o
segredo da vida no fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu
espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder do genio, novas veredas
a tentar, seguiu-as, fazendo experiencias que a sciencia d'hoje
plenamente confirma.

Guerra Junqueiro est na mesma: alguns fios brancos a mais na grande
barba de santo, comeo de calva amarelada no alto da cabea, chapo
baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem com a simplicidade
verdadeira ou ficticia da sua alma. E sobre isto os olhos terriveis que
nos fitam e nos adivinham at ao fundo. A conversa  prodigio que evoca,
ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e
novos aspectos que entontecem.

Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, no palidamente, nem
decerto com as inexactides com que reproduzo, o seguinte:

-- um livro interessante. O autor conseguiu deixar falar a parte de
inconsciente que cada um de ns traz comsigo... Porque, meu amigo, a
poro de infinito que cabe a cada homem  exactamente a mesma. O
camiseiro alli defronte e um homem de genio teem na alma identico
quinho. Smente o camiseiro no consegue encontral-a nem pode
exteriorisal-a. Porque? Porque s pensa em camisas. O homem  o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar--e teriamos a mais
maravilhosa historia do mundo!...

E como incidentemente se refira  sciencia, eil-o que se desvia por
outro esplendido caminho:

--As ultimas descobertas modificaram completamente a sciencia. Foi um
terremoto. E eu entrevi isto mesmo: ha annos que chegra ao seguinte
resultado:--radiao universal e desassociao dos atomos. Fiz
experiencias, que me deram resultados incompletos, procurei homens de
sciencia que no me quizeram atender. Um dia vim de proposito a Lisboa
falar a Sousa Martins e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... Quando
me fui embora encolheu decerto os hombros. E no emtanto, passados annos,
vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
Faltavam-me como comprehende os meios de verificao. Precisava de
factos.

[Figura: _D. Joo da Camara._]

Cala-se um momento e depois continua:

--Hei-de publicar, depois da _Orao  luz_, que sae brevemente, uma
serie de memorias, com os resultados dessas experiencias. A vida-- o
Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis tudo. Seguir-se-ha a minha
theoria philosophica. Adivinhei todo este terremoto que se deu
ultimamente na sciencia. Hoje a materia no existe: j a
definem--associao d'energias. O que  feito dos materialistas? A
sciencia futura ser portanto o estudo de energias. Por ultimo
publicarei uma introduco  sciencia, visto que no posso escrever essa
obra: seria a reviso dos trabalhos de Spencer--a tarefa de toda uma
vida.

--E tem muitos documentos?

--Tenho tudo prompto. Necessito apenas de encontrar a frma precisa, a
frma mathematica, para exprimir as minhas idas.

Incansavel.  de ferro. Pequeno e mirrado passeia horas e horas, a
conversar... No conversa--monologa.

       *       *       *       *       *

Da Barca d'Alva diz:

A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras de pinho. Depois de
comer, quando quero um palito, corto-o na meza.

       *       *       *       *       *

Ramalho definido por Junqueiro:--um pinheiro com uma melancia em cima.

       *       *       *       *       *

Junqueiro na redaco do Mundo:

--D'aqui a pouco reparto a minha fortuna com as minhas filhas e o que me
restar dou-o aos pobres.

       *       *       *       *       *

Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, o Junqueiro do
_bric--brac._ O Junqueiro que a m lingua do Porto afirma que percorre
disfarado as ruas de Hespanha, com um burro pela arreata
apregoando:--Ha por ahi quem tenha loua para vender?--O Junqueiro que
foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:--Est c o grande poeta
Guerra Junqueiro?--No conheo,--disse o porteiro.--Mas elle vem sempre
para aqui.  um homem de barbas...--teimou, explicou o outro.--Esse es
Guerra el antiquario!...

Mas at no Junqueiro caricatural algumas linhas so indispensaveis para
completar o retrato. Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto uma parte
que se deve ao arranjo--e que  a inferior e outra em que elle obedece 
raa e que  a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: o homem 
sempre um tablado onde varios phantasmas se despedaam. Ha mos que nos
puxam para o fundo, ha outras que nos procuram levantar cada vez mais
alto. Deus nos livre de julgar os mortos!

       *       *       *       *       *

Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:

--E no aparecer um doido, com um grande martelo, que deite tudo aquillo
abaixo! Qualquer dia botam as arvores a terra e pem pedraria at 
Pampilhosa!


                                                       Dezembro--1907.


Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com um velho casaco comprado n'um
adelo, e muitas rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, como o
Jos de Figueiredo lhe fale no Rodin:

-- verdade, passei um dia inteiro com o Rodin, a explicar-lhe a sua
obra. Disse-lhe: voc  um grande artista, mas exactamente, como em
todos os grandes artistas, a melhor parte da sua obra  inconsciente.
Porque em todos ns a razo  nada, o que  grande  o inconsciente.
Aquella cabea que voc tem no Luxembourg, emergindo da pedra-- assim,
 aquillo... Mas falta-lhe no sei qu de simbolico que ligue a cabea 
pedra. Assim choca,  brutal.  como o _Pensador_, a estatua que est no
Pantheon. Toda a critica franceza tem tentado explicar aquella estatua,
e ainda ninguem disse as palavras necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo
no  o _Pensador_, nem o _Pensamento_:  o primeiro pensamento em
cabea de homem. Dispa voc um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o
Dante, por exemplo, e encontra um corpo deformado. Porque o pensamento
peza mais de que montanhas. Devora. O que voc fez foi uma besta, um
gorilha, um homem capaz de arrastar calhos: Pois bem: inconscientemente
fez uma grande obra d'arte: o primeiro pensamento na cabea d'homem.
Esse primeiro homem athletico, ao deparar com o primeiro pensamento,
essa flor abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o Atlas em cima e
esmaga-o... E adeus, so horas de partir para o comboio.

       *       *       *       *       *

D. Carracida, professor de chimica biologica na Universidade de Madrid,
homem ilustre e que conhece perfeitamente a literatura portugueza, diz
assim de Junqueiro... (D. Carracida fala portuguez pausadamente).

--O senhor Junqueiro, grande poeta,  um mistico... Est agora no
misticismo. O senhor Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de
Villa do Conde, de c para l--e o senhor Junqueiro prgava a piedade e
o amor. Uns rapazinhos acendiam bales para uma festa, e eu e o senhor
Junqueiro passeavamos de c para l... O senhor Junqueiro prgava a
piedade e o amor, e um dos bales cahiu na cabea do senhor Junqueiro,
que levantou a bengala e deu com ella no rapazinho... E ns continuamos
a passear de c para l, e o senhor Junqueiro a prgar a piedade e o
amor...


                                                          Maro--1903.


Fialho no  este janota de palio rico, com uma joia to grande que
parece falsa na gravata de veludo. Fialho era outro estranho tipo,
intratavel e pobre, com o plo ralo e a bocca enorme cheia de sarcasmo.
Um principe de gabinardo, que fazia cahir as peas do alto do
galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita de
matulas suspeitos e jornalistas de ocasio, que deslumbrou de sonho e
atascou em sonho.--Fialho! Fialho!...--Esses aplaudiram-no e
amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, no despregavam os olhos
d'aquelle sonho desconforme.--Fialho! Fialho!...--Depois sumia-se n'um
terceiro andar, ou procurava os pobres que no pedem: s a mo sae da
noite e implora. Havia uma velha--nunca mais me esquece--alli  porta do
Monte Pio, que fazia parte do muro alto e espesso, e a quem elle, ao
dar-lhe esmola, lhe afagava a cabea... Depois, amargo, feroz,
insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, transtornando as figuras
decorativas, cheias de veneras, que  sua voz desatavam s cambalhotas
como palhaos. Vi-o exasperado, vi-o atordoado de phrases, como quem
quer fugir ao proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpo
dolorosa, e desaparecer na noite em correrias que duravam at de manh
pelos bairros escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate perpetuo
de que sahia livido, exhausto, e com a mascara transtornada. Este que
fala do seu vinho:--Livros?... O que eu trato de editar  um vinhinho
branco l de Cuba...--este, que vem, de quando em quando, a Lisboa
deslumbrar-nos com um novo e horrivel fato,  outro Fialho, que talvez
tenha saudades d'essa vida absurda de outros tempos...

Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e diante de mim desfila o
assombro, pamphletos, a obscenidade e o genio--farrapos arrancados a
ferro e to vivos que mal ouso tocar-lhes--o estoiro d'uma bexiga
d'entrudo--ironia e esgares. E logo gritos! e agora gritos!... Ouo a
dor, sinto a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, d'uma
audacia e d'um rithmo incomparavel, escorrendo sonho, aflio, miseria,
sinto-a at nos impetos de mo gosto, nos pontaps aos leitores
surprehendidos e irritados. Est aqui diante de mim aquella bocca
enorme, aquella figura de gabinardo e chapeu molle que nas noites de
tristeza e abandono me dizia:--O que eu sofri! o que eu
sofri!...--Vejo-o sempre invejar o barqueiro louro e sardento, de que
fala nos _Gatos_, bello como um ephebo  pra do seu barco.--Como eu
queria ter saude e ser forte!--Deu-lhe Deus o mais rico quinho que
imaginar se pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera e a dor,
e, esse macaco sem f, esbanjou-a com o mais absoluto impudor:
serviu-lhe para a chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de
tudo. As descripes perderam a proporo, as figuras a realidade,
transformadas em figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade
resurgiu a uma tinta livida de antemanh, com a casaria a escorrer vicio
e aspectos tetricos...  isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e
desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem lhe ouviu.--E maior!
ficou maior! A sua obra s tem outra que se lhe compare, a de Camillo.
Exigem-lhe um livro harmonico--_Os cavadores_. Porque  que toda a gente
reclama dos outros aquillo de que elles so incapazes? A obra de Fialho
no podia ser seno esta, aos arrancos e enorme. Fialho via os
pormenores atravez d'uma lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando
genio  propria obscenidade. Nunca conheceu Barjona, nunca viu Barjona,
e, com duas ou tres anecdotas, creou uma figura com um relevo que falta
ao mediocre Barjona da realidade. Precisou sempre de se exagerar para se
encontrar. Sacrificou o seu melhor amigo a um dito,  certo, mas comeou
por se sacrificar a si prprio. Foi sempre o primeiro a sofrer. Houve
tempo em que alguem o definiu um doente com inveja das doenas dos
outros... Desatou ento a gargalhar com lagrimas nos olhos. Perdeu o p.
Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as com maldade no
enxurro.--Encharcou-as de lama e empoou-as de estrellas... O vestido
ficou mas era o d'um espectro... No nos podemos medir todos pela mesma
craveira. Fialho tem de tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia
reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os pequenos nadas que
gastam, desgastam e transformam, e uma alma vibratil, um feixe de nervos
(capaz de tempestades que se domam com uma palavra) ligado a uma
enchente de sonho e a um orgulho doentio, como os que sentem dentro de
si, e o suportam, um mundo desconhecido e nunca dantes navegado. Fialho,
se o virassem do avsso, escorria ternura...  tambem um timido capaz de
todas as audacias, e que sae da doena e do isolamento com desespero e
escarneo. Esta figura to conhecida de todos ns, no  a exacta
expresso da sua alma. Ainda hoje ninguem se entende...

[Figura: _Ea de Queiroz._--Desenho de Antonio Carneiro.]

Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho aplicado e mediocre,
que se chamava Jos Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez quem se
recorde d'um moo de botica reservado e triste; e, o que  mais
extraordinario, de outro Fialho respeitoso, que no podia suportar o
exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, com risadas estridulas de
sarcasmo--e de outro, de outro maior, de outro espectro, que vem aqui
sentar-se a meu lado na sua tragica mudez. No fundo talvez tudo aquillo
fosse dor. No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma phrase cruel,
no era aos outros que dilacerava, era a si proprio que se dilacerava, e
to a serio que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a pouco a figura
range de dor. Arfa atravez da sua obra.  o filho do professor
d'instruco primaria, d'aquelle homem severo, de quem dizia
baixinho:--O meu pae foi duro! o meu pae foi to duro! Era um homem sem
ternura...-- o praticante de botica alheado e transido, o neto
deformado de cavadores, que inveja a sociedade distante, e que s aos
impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. Que inveja o grande
escriptor, o desgraado Fialho, o homem de genio que passou a vida a
fazer chacota das veneras, das academias, das elegancias, dos grotescos
cobertos de patacos--que lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero
calcado e recalcado, tanta contradio e pobreza, e uma lucta de noites
e noites de que sae amarfanhado--e com paginas soberbas! Mas tu no vs
que no dia em que te roares por elles ests perdido, como no dia em que
a cobra perde o veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...--No, eu
rio-me, eu sofro...--Tantas paginas bellas!--Se soubesses como isso se
paga!--Ento explica-te...--No posso, no sei. At dos idolos postios
que deito abaixo me ficam saudades... Nem eu proprio sei o que
quero.--Pobre Camillo, que estoirou a cabea de desespero, pobre
Anthero, exilado e em debate com uma sombra com que no podia arcar;
pobre Fialho, pobre cavador de genio, em perpetua discusso com os seus
mortos, em lucta comsigo e com os outros e no fundo um reverente--foi-o
sempre--sahindo em farrapos d'este inferno a que se chama a vida!...

Da sua existencia oculta faz parte uma figura de dor calcada e
recalcada, sobre a qual outra se encarnia com desespero. Talvez seja a
verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou tres aparencias, apontando
n'este canhenho algumas anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar
gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam farrapos--mas que
farrapos! d'essa lucta suprema existem vestigios, que nunca encarei sem
espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, n'um 3.^o andar do Arco da
Bandeira, quando elle cahia exhausto sobre a banca de tortura,  luz
d'um candieiro de petroleo, com um frasco d'alcool ao lado e o cobertor
enrodilhado nos ps. A mascara livida estava de todo mudada. Era outro!
era outro! Surprehendi-o em noites, nos giros sem destino pela Graa,
pela Penha, pelo Monte--quando o seu dedo apontava boqueires de treva,
tropeis de casaria, sitios ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se
ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, nas horas de amargo
descalabro, em que, dorido e sem phrases, procurava fugir de si proprio
para muito longe. No queria ento que ninguem o seguisse nas caminhadas
que duravam at ao dia--elle e a dor, elle e a noite! Amigos,
silencio...

       *       *       *       *       *

--O que eu sofri!--dizia elle.--Tiveram-me preso oito annos n'uma botica
alli na Bemposta, ao p da Escola do Exercito, na idade em que queria
viver. Estragaram-me a vida, encheram-me de desespero. Quando me
soltaram no imagina a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter saude,
ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, no _Reporter_, o Martins
mandou-me escrever um artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz
uma troa, e elle rasgou-me os linguados na cara. Para me vingar,
tirando um bocado s noites, escrevi um artigo formidavel para publicar
em folheto. Era na occasio em que essas peidorreiras arranjavam um
bazar para os pobres, que rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri
por acaso um gallego, que se juntava com outros e tiravam todas as
semanas meio dia de ganho, para irem ao domingo ao hospital dar cigarros
aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, untar-lhes a cabea com
banha de porco.  um velho, de barba de passa piolho, que est sempre no
largo de Cames. Homem de poucas falas. Tratou-me mal. Tive prompto o
folheto em que comparava essas mulheres, cheias de snobismo, com
adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... Imagine... Perdi o
artigo.

E depois, falando da mulher Oliveira Martins:--No era a mulher que
convinha quelle homem. E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o fez
confessar  hora da morte. Contou-me o Sousa Martins que a sacudira de
ao p de si ao morrer...

       *       *       *       *       *

Fala do livro _A Cloaca_, um d'estes livros que se sonham e nunca se
chegam a escrever:

O primeiro capitulo est feito:  uma festa da alta sociedade no
claustro da Batalha... Aproveito a epoca do Burnay e do marquez da Foz,
a lucta da finana, quando o Foz tinha palacios e o Moser carro a duas
parelhas. Deram-se festas esplendidas... Tenho as figuras todas, homens
de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... Um dia alugam um
comboio especial e vo dar uma festa no claustro da Batalha.  uma ceia
formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, literatos, e, dentro
do claustro, entre a grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem de
bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. O principe tambem l est,
com o conde de Maricas--fedes: no fim do banquete,  sahida, a babar-se,
escreve nas paredes monumentaes esta palavra obscena: p... Os outros
riem-se, as mulheres aplaudem. Fora a multido apupa. Outro capitulo ha
de ser a noite em que os jornaes apregoaram em suplemento o escandalo
Foz e a sua priso:--Foi n'essas horas--dizia a marqueza--que os
cabellos se me puzeram brancos da noite para o dia.

       *       *       *       *       *

Nunca terminou outro livro _A Quebra_, que chegou a trezentas paginas
impressas, no editor Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou
por o inutilisar:--A minha dificuldade  a falta de propores. Perco-me
n'um incidente, e quando mal me percato estou em quatrocentas
paginas.--Sei tambem que escreveu alguns capitulos d'_Os Cavadores_.
Talvez d'_Os Ceifeiros_ pertencessem a esse livro, em que elle queria
pegar no homem do campo e leval-o, sempre explorado, desde o baptismo
at  morte...

       *       *       *       *       *

Inventou este nome para o conde de Arnoso, a _rainha Draga_, e diz do
retrato a oleo que o Columbano lhe pintou:

--O Columbano  to cortezo que lhe poz um velho olho do Ea de
Queiroz.

       *       *       *       *       *

Contemplando o cadaver do Cardia:

--S aos quarenta anos  que se sabe o que  isto!

_Isto_  a morte,  qual tem horror, assim como  velhice.

       *       *       *       *       *

E falando a proposito do Cardia:

--Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que
fr da cabea. Sinto a mesma impresso de vasio que o Cardia sentia.
Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaos destacados que me matam
de desespero para ligar. E se no escrever logo, passadas horas j no
posso, no sei... Varreu-se-me tudo!

       *       *       *       *       *

Est furioso com a inaugurao do monumento ao Ea. No fundo nunca o
pode vr: faltou-lhe o carinho, a considerao--e isso maguou-o
muito--que rodeou o grande escriptor dos _Maias_. Elle proprio diz:
ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco _A
Tribuna_ escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as
seguintes notas com o titulo


     O MONUMENTO

     J noticiamos n'outro numero do nosso jornal com todos os seus
     detalhes e pormenores, como foi a festa d'inaugurao do monumento
     a Ea de Queiroz. Damos hoje um reflexo do humor da multido que
     assistiu ao acto. Porque, emfim, a nosso vr, tudo  documento para
     a historia.

       *       *       *       *       *

     --_Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia_.
     Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Ea. Mas
     olha c. Estando a _Verdade_ completamente nua do ventre para cima,
     e s rebuada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se
     guarda  indecente.

     --Ahi est a razo porque a alegoria  flagrantissima.

       *       *       *       *       *

     --Tu, se fosses casado, davas o _Primo Bazilio_ a lr a tua mulher?

     --L isso no. Mas no tinha a mais pequena duvida em o dar  tua.

       *       *       *       *       *

     --Que lhe parece a _Verdade_ do monumento?

     --Um calix de _bitter_ para fazer bocca ao _Chat Noir_, que fica em
     baixo.

       *       *       *       *       *

     --Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual d'elles  o
     conde d'Avila?

     --O conde d'Avila so todos.

       *       *       *       *       *

     --Este Monteiro Milhes, que inconveniencia! Consentir que das suas
     cavallarias um burro esteja a interromper os oradores!

     --Condessa,  o echo.

       *       *       *       *       *

     --O que eu n'esta consagrao sobretudo admiro,  o grande corao
     do conde d'Arnoso. O Municipio devia premiar to nobre musculo.

     --Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV?

     --Com uma urna no. Com uma travessa.

       *       *       *       *       *

     --Seria interessante conhecer todos os tramites do trabalho de
     creao do esculptor, at ao momento da estatua apparecer.

     --Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, na sua
     qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e por isso, o grupo
     do Ea e da Verdade cheiram um pouco  scena da Paixo. Veio depois
     o Arnoso a lembrar se dessem ao monumento reminiscencias mais
     contemporaneas, ex.: o Genio perguntando  Verdade quantos dentes
     queixaes queria tirar. D'esta dualidade d'inspirao resulta o
     _mysterio_, que faz com que o monumento seja o que v. ex.^a quizer,
     sendo o melhor--no perguntar.

       *       *       *       *       *

     Apparece no estrado o Conselheiro Antnio Candido.

     --Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula.

     --...no povo portuguez ainda ha o grande brio dos feitos altos,
     (_sussurro_). Se manh esta Verdade to na fr ter ao Pelourinho,
     ninguem sabe at onde o amor da Ptria ha-de crescer! (_ovao_).

       *       *       *       *       *

     Interview com o conselheiro Barahona.

     --V. Ex.^a leu alguma vez o Ea?

     --Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do thesouro, e at
     por causa d'isso vim ao Principe Real ver-lhe um drama de ladres,
     que estava mesmo escripto ao meu sabor.

     --Mas isso no  o Ea de Queiroz,  o Ea Leal.

     --O que?! No  o mesmo? Ai, os meus ricos dois contos de ris!

       *       *       *       *       *

     _Interview_ com o Snr. Monteiro Milhes.

     --V. Ex.^a que pensa do monumento?

     --Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa, para o
     Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos esto constantemente a
     perguntar quem  aquella senhora sem camisa. J o outro dia lhes
     disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos,
     educados na compaixo, no me largam para que lhe mande dar um
     cobertor.

     --E que impresso faz das suas janellas a barriga da Verdade?

     --Aqui entre ns (_arregalando o olho_)  uma d'aquellas barrigas
     que est mesmo a glorificar a sensao nova (_irritado_). No era
     mais condizente  minha camoneana, transferirem o epico immortal
     aqui para o meu largo, e levarem _aquelle senhor_ para as
     proximidades do Bairro Alto?

     --De modo que V. Ex.^a, irritado, nem chega  janella?

     --Emquanto a Camara no mandar pr, de roda da figura um resguardo
     pintado de cinzento.

       *       *       *       *       *

     --Tu ouviste os discursos. Que opinio por elles se pode ter da
     capacidade mental dos oradores?

     --Metade d'aquelles senhores no leu o Ea, e a outra metade no
     tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de snobs; o
     monumento que ali est, no foi erguido  memoria do Ea litterato:
      a glorificao do conde Reinaldo e da Alfonsine.

     --E se o flamejante garoto agora c tornasse? Mettia-os a todos
     n'um romance endiabrado.

     --J esto mettidos. Mas o que tu acabas de vr  os _Maias_ em
     quadro vivo.

       *       *       *       *       *

     Duas guapissimas, na turba.

     --_Pero Ea de Queiroz, quien s?_

     --_Un caballero que escribi del minuete._


       *       *       *       *       *

G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo d'uma
biblioteca, diz assim a proposito da livraria do grande escriptor[2]:

Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. So apenas quatro mil
volumes ou pouco mais, mas--vae surprehendel-o esta minucia--estam quasi
todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, Ea e Ibaez, os Goncourt e
Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta
litteratura de costureiras e guarda-portes era para as grandes horas
amarguradas.

Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes o proprio drama para
os amargurar. Anthero, nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado n'um
sof, s lia Gaborieu. Para tragedia chegava-lhe a sua.

O Fialho tinha uma admirao extraordinaria pela obra camiliana.
Imagine que at n'um livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, em
que dizia: acabo de lr toda a sua obra. E quasi nada lra a esse
tempo... Afora as obras portuguesas, na biblioteca de Fialho s ha
volumes em espanhol e em francez. Nos ultimos anos merecera-lhe uma
ateno particular a literatura espanhola.

E a proposito de Fialho intimo assevera:

O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos e perversidades
femininas--repito-o no era bem o Fialho que se v atravez dos seus
livros admiraveis. Era o _outro_. As suas irreverencias das paginas
rubras eram fundamentalmente apenas o odio do plebeu que inveja o
fidalgo. Sim, porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora
_s_ porque no tinha nela um lugar. Uma infantilidade de homem de
genio.

E explica:

Como se sabe o Fialho no tinha meios de fortuna nem ascendencias
nobres. Fez a sua vida ali no Martinho, vivia de noite e era um
_blageur_ incorrigivel, e apezar de valer bem os seis milhes de
portugueses que existem sobre esse solo, a Monarquia, o Pao, os
conselheiros, no lhe achavam _qualidades_ para triunfar nessa sociedade
formalisada e cheia de convencionalismos. Est explicado o Fialho dos
_Gatos_--foi a revolta. Meteu-lhes medo--oh sim, um medo terrivel com as
suas _blagues_ sangrentas--fazia-os passar de largo, mas ainda mais se
afastou do _ancien rgime_. Entre os republicanos, onde se lanou de
alma e corao, sentiu-se depois desconsiderado. O Fialho continuava a
ser... o _blageur_. Nunca lhe deram um cargo de confiana. Que pena teve
o Fialho de no ficar na Comisso da subscrio nacional a quando do
_ultimatum_!

E termina com esta nota inedita:

Sabe que o Fialho era um orador. Nunca ouviu dizer talvez que elle
fizesse um discurso? Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante
longos annos. A sua timidez invencivel nunca o deixou falar em publico
apesar de, como ninguem, sentir a necessidade do aplauso. Muita vez me
disse que desejaria ser actor, ser um grande actor, para ouvir bem de
perto o som das palmas com que o saudariam, para viver intensamente,
ruidosamente, uma grande hora de triunfo. Tinha coisas o Fialho...
Registe esta nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, orando
alucinado para um auditorio de tres amigos intimos no alto da Avenida,
ou noite alta,  beira do Tejo.

       *       *       *       *       *

 figura que se senta ao p de mim falta-lhe talvez a rigidez das
estatuas. O gabinardo, reparem, est amachucado e encardido, a
phisionomia retrae-se no escuro e s a bocca se salienta, enorme e
prestes a escorraar-nos com gritos e apupos. Atravessou a vida: foi
injusto, foi cruel por vezes, foi amargo. Desatou a rir para no chorar.
Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi incoherente. Obedeceu ao
impulso. No se pde furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos e
nos deixam prostrados, reclamando da morte que nos apavora--enfim!
enfim!--o primeiro dia de descano bem ganho, ao termo desta discusso
que nunca cessa e em que nos despedaamos, sem nos comprehendermos a ns
proprios quantos mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou
fragmentada em varias figuras, em todas as paginas dos seus livros, nos
retratos, nos tipos, nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo
ou na manh do Tejo, se condensa enfim n'esta bocca amarga capaz ainda
de nos fulminar de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe foi
impiedosa...  assim que te vejo ao p de mim, com detrictos,
escorrencias, lama, mas to grande, to vivo, to humano, que para
sintetisar a tua vida, s me servem as palavras com que um espectador
ilustre sauda o Hamlet no fim da representao:--Boas noites, meu
principe, s um homem, o homem e todo o homem!


                                                   4 de Janeiro--1908.


Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. Joo da Camara. Tinha feito
annos no dia 27. Conheci-o sempre, at nos maiores frios, de casaco
d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpr e, em dois acessos
de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou,
disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos
papeis e nos bolsos: s lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de
desgraados pedindo esmola.

Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O
senhor D. Joo? o senhor D. Joo?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E
partiam a chorar.

Agora  que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a
olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. No soube o valor
do dinheiro. Desceu aos desgraados com uma ternura e uma simplicidade
de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de
reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. At de madrugada o procuravam para lhe
pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de
ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras
admiraveis, uma pea incompleta, com poucas scenas escriptas--_As
comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de
outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermo da Montanha_.


                                                    18 de Maro--1900.


Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de
poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco
afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus
versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e
sofregos, uma Biblia para repousar a cabea quando o levassem no
caixo... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela
janella da casa  beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira j
imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e to dominador, que,
quando entrava em casa dos outros, comeava por os convencer a
desarrumar os mveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio
Nobre usava uma abotoadura de cabeas de pregos e sorria com um modo e
um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o _S_; os
poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o _S_. Ser diferente
dos outros  j uma desgraa; ser superior aos outros  uma desgraa
muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul
quizeram reprov-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao
jury quem era o poeta Antonio Nobre. No pde formar-se em Coimbra, e
at os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha
vivido--s. At Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de
irmo quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por
elle, que o tratava como uma creana, ou feril-o em pleno corao:--A
nossa amizade  de tal ordem que no admite que lhe desam dois ou trez
pontos  craveira. Ou mante-la ou quebra-la.--Quebrou-a. O ilustre
escriptor possue d'esse tempo um caixo enorme, to pesado como o que
levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio
Nobre, as cartas que tem obrigao de publicar, com um prefacio que s
elle pode e deve escrever.

Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. No
lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sr
diferente. No agradava a ninguem. S as mulheres o amaram. Era um
Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e
uma superioridade que se no podia aturar. Estavamos todos mortos por
nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado,
d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia
sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no
mundo e que ficou no mundo--que nos ficou na alma...

[Figura: _Antonio Nobre no caixo._]

Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade,
a afectao e o desdem infantil de Antonio Nobre.

Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como
este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como
uma creana. Quantos estavam alli  beira do tumulo? Meia duzia escassa,
o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu--e quem mais? quantos mais? Os
jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se.

Hoje  um dos poetas portuguezes com mais admiradores.  um poeta de
simpathia. Nunca teve sorte seno depois de morto. Porqu? Porque no
misturou, como ns todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario,
raros homens tero posto to de acordo a vida com o sonho. Fez mais:
suprimiu a vida. Correu o globo e s a si proprio se encontrou. Viu o
mundo e nunca assistiu a outro drama que no fosse o da sua alma. E
poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no corao como
espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma to sua o universo. Que
universo dirs? O meu? o teu?... No, o que elle descobriu, scismando
como um navegador,  pra do seu barco... Por isso nunca ho-de faltar
sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez
atravessou a terra, soluou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no
sepulchro.


                                                  30 de Janeiro--1911.


Janota e coado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez
reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem no viu n'outro tempo este homem
extraordinario, no conheceu um verdadeiro, um authentico poeta
satanico. Passou nas ruas de chapo alto, falando com intimidade s
estrellas e tocando no co com as guias do bigode. Escreveu as paginas
das _Claridades do Sul_, da _Traio_ e do _Anti-Christo_. Viveu
alheado, como  indispensavel a quem convive todo o dia, tu c, tu l,
com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos
aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro,
apontando altivo o cravo vermelho da lapela:

--Amigos, as flores so as condecoraes dos poetas!

Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia
acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, at
onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa
escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praa, com um desdem
supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria
da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este
mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri
com humildade para ns, avelhantado e timido... As janellas no teem
vidros, a roupa  pouca, mas tu viveste o que no vive um rei, e o
imperio deslumbrante, que creaste  custa de dr, cheio de obscuridades
e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras;
essa mescla de gritos, de paixo; esse sonho confuso e immenso,
pertence-te, e no ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de
par em par. Deixa entrar o frio--e sorri...


Agora vae todas as manhs ouvir missa  Pena ou ao Resgate.  um homem
encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as
moedas fra de curso que se fartaram de correr de mo em mo, e ainda ha
dias o encontrei no Porto, n'uma manh de sol, de casaco de borracha e
colarinho suspeito. Ia pregar  Associao Catholica, e atravessava a
Praa entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem
fora um deus, sem repararem que s levavam um simulacro. No sonho de
outrora no ha mos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com
o eterno charuto ao canto da bocca.

A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio
sonho entra s vezes no dominio da chacota. Onde, porm, Garrett chega
ao ridiculo, com tres cabelleiras postias, Gomes Leal, de casaco de
borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a
tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dr. A figura que
cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a
plena luz, faz rir e faz chorar. No esforo para no ir ao fundo, no
gesto de naufrago que se apga com desespero, quando a dr estala por
todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha l: o peor  tu ousares
tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor  tu transformares-me o
sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo  tu atreveres-te a
tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda,  que eu continuo a sorrir
como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro
passo e reduzes-me  condio de trapo. Deitas-te commigo, acordo
comtigo ao meu lado, e ha occasies em que at o som da minha voz me
sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o corao opresso, fingindo
que no existes, mas ha j terror no meu sorriso, e, quando me ouo,
ouo-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel
depende de um unico trao de separao--agora, j, d'aqui a bocado...

Ests por traz de mim e o minuto grotesco ser quando eu deixar de te
conhecer e quando sentir a tua mo gelada... Ests por traz de mim!
ests por traz de mim! Bem sei que ests por traz de mim, e que vaes ser
a minha companhia at  cova. Confesso-te: o que me aterra no  o
momento que passou, nem o que ha-de vir-- o momento, que vale um
seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda
digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que ?  um cifro cortado.--Mas
como o digo!...

...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se
introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem
de papelo: est alli presente, no como uma figura de theatro, mas
monstruoso, real e patente, como o Destino,  espera de intervir. Desde
ento perco o fio da pea, no sigo mais os bonecos que se agitam no
tablado, s ouo o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos
n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que no ha foras
humanas que lhe detenham a marcha. Comea ento a tragedia...

 este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras
conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas at as palavras mirraram.
Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim
proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase
de outro poeta: Sinto que no posso trabalhar! sinto que no posso
trabalhar!  com esta angustia que te ouo os passos mais perto. J no
 s a scena que tu enches,  a sala toda, figura invisivel, unico
personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto
os bonecos teimam em pronunciar palavras que no ouo, que no teem
significao nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer no queira,
a sorrir com enlevo  propria banalidade.

       *       *       *       *       *

A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece
arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e
um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas no teem
vidros. Conheo-a. J l morei ha annos no mesmo quarto que d para um
quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde
nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho
range, e o poeta surge com o velho chapeu s trez pancadas, luvas
pretas--at de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha
luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas
no tecto. O leito  um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de p de
gallo, e no soalho apodrecido, montes de jornaes e de livros. Na
parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o
retrato da me de Gomes Leal.

--Vivo s, no tenho familia. Minha me morreu-me e aqui estou como um
orpho.

--Vive isolado sempre?

--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e
pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoo e janto onde calha.
Quando tenho bebo para esquecer,  noite escrevo, deito-me cedo e
durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_,
continuao da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de
Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do
mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso.
Conservo as minhas ideias religiosas, que no so incompativeis com a
republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha
vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se no dissolva como
uma bola de sabo na cabea d'um prego...

E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae l fra. A noite e um frio,
uma humidade de poo, trespassam-me...


No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeou,
ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um
momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e
uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se
chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura
que toda a vida o envolveu--e que comeou a falar-lhe baixinho. N'esse
momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar
com um phantasma...


                                                       Setembro--1907.


Antonio Corra d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os
cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes
profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos
estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega  noite eil-a comea a
cumprir o seu fadario: leva at  madrugada a dar de beber
indistinctamente s plantas do seu quintal e s dos quintaes vizinhos,
n'uma aflico, n'uma piedade que se estende at s hervas ignoradas e
ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que no fique alguma com
sede--com o regador nas mos, at que a manh a encontra exhausta,
feliz, encharcada at aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho
phrenetico de ternura... Toda a emoo do poeta est aqui, do grande
poeta que diz:--Sinto em mim uma fora da natureza... hei-de
aproveital-a.--Os avs deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava s
suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas.
A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para no
pezar  me escreveu  raza n'um tabelio e foi proposto de recebedor em
Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores
pedir-lhe perdo das decimas; e nunca na memoria de homem se viu
recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres,
da desgraa, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma
mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu no sabia o que
eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troaram-me tanto que
estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade
Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me!

[Figura: _Corra d'Oliveira em 1903._]


                                                        Janeiro--1911.


Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho
bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras
antigas. Bom como o po arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um
homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a
traa entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e
tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por
cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mos e desata a chorar:

--Tenho sido um martir!

 roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaos
preciosos. So duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis
por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem
sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando
sempre em coisas faceis.

--No imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanas...
Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braos. Minha me
um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher,
ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.
Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por fora
para a Africa.

E pe-se a chorar como uma creana, com a cabea branca pousada sobre os
livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentao cerrada
e inutil, que tem sido a razo da sua vida.


                                                       1 de Fevereiro.


Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve um ataque apopletico. Est
hemiplegico, deitado n'um sof, somnolento e tremulo. Nunca encontrei
bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em ensinar, seno este... 
outro homem adoravel que morre, mas felizmente no sabe que morre. 
beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje um catalogo da guerra
peninsular. E diz-me de Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca
se puderam vr...):

--Pode crer que nunca passou necessidades como elle diz. Conheo-o de
Coimbra, morava em casa do conde de Valena. Todos os mezes o pae lhe
mandava pelo correio duas libras em oiro n'uma caixinha de madeira. Ora
n'esse tempo valiam tanto como hoje quatro...




P DA ESTRADA


                                                          Maro--1902.


Este homem immenso e louro, o Alpoim, no tem um minuto de seu: no
descansa, no pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do
_Janeiro_, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina
do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso
aberto:--Meu querido amigo...--e, mal se fecha por dentro, arranca os
ultimos plos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:--Ai que
filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu no posso! eu morro!--Nem para
ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforo.

No fundo  um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o
distingue dos outros que conheo, do espesso Ferreira d'Almeida, por
exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:--Hei-de ser ministro
porque quero mandar! gosto de mandar!-- um fidalgo com talento, e tanto
serve um amigo como um desgraado de quem nada tem a esperar. O esforo
 identico.--Vou ao inferno por um amigo...--Ha ainda quem se lembre dum
Alpoim de chapeu desabado e capa  espanhola, mas o amor fel-o janota...

Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um
trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheo. Sabe tudo, pode tudo
com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o Jos
Luciano entrega-lhe nas mos a meada politica:--Nada se faz sem mim. Sei
tudo!--diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza
 o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este
que lhe sorri atraioa-o--e elle fala-lhe amavelmente:--No me podem vr
porque lhes fao sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do
que elles podem dar.--Conspira. Tem nas mos os mil fios da emaranhada
teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... No sei, mas  talvez a
isso que elle se refere quando afirma:--Ninguem sabe a que portas vou
bater!

Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo
regenerador. Reuniam-se j ha tempos alguns ps de boi em casa de Jos
Luciano, que um dia sae-se com esta:

--Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto seno cahimos no
ridiculo. A tomar ch no fazemos nada. Que  que os senhores resolvem?

--A revoluo! queremos a revoluo!--concluiram todos.

--Eu disponho de seis mil homens.

--Vamos para a rua!

--Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.^a: 
que se responsabilize a que a guarda municipal no atire sobre ns...

O Jos Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:

--Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal no precisava dos meus
amigos para nada!

--O Jos Luciano o que tem tido toda a vida  sorte,--observa alguem do
lado.

--Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim--que 
um homem inteligentissimo. E seno vejam como elle conseguiu arredar e
vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a
eleio do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que
succedeu?... O Jos Luciano tinha em segredo conseguido pr o pao de
seu lado. Na vespera da eleio o Mariano disse-me:--Est tudo perdido,
votem no Jos Luciano...--Se no o elegessemos, o rei nunca mais chamava
o partido progressista.

Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia,  um homem d'uma alta
inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo
destino, e elle, no sendo nem um grande jornalista nem um grande
orador, sem brilho mas solido--e com caracter! com tenacidade e
caracter!--pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.


Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:--Essa
vil alforreca...--Diz-se que no salo dos Navegantes se dava tudo o que
se podia dar--e que no lhe pertencia: logares, negocios e empregos.
Talvez. Mas se no teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os
interesses fataes dentro de certos limites. No podendo ser nem um santo
nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde,
a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma
sociedade a liquifazer-se, resistiu at  ultima, e adquiriu relevo e
grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou
a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas
phrases que a historia ter de registar...


                                                          Junho--1902.


Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha
quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. Joo VI
tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. Joo VI, ia de sege para Cintra,
Queluz, ou no sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis
annos, cavalario do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma
nuvem de p, e o rei, deitando a cabea de fra da sege, brada:

--Parem! para traz que ahi vem a p...!

A p...--era a mulher. As palavras so textuaes.

[Figura: _Fernandes Thomaz._]


                                                          Maro--1903.


Diz o Abel d'Andrade:

Dos oito mil contos de deficit, quatro mil  a casa real que os gasta.
Que ministerio tem fora para se impr ao rei? Ambos os chefes esto com
medo ao Joo Franco...

       *       *       *       *       *

Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para
o dissuadirem...

       *       *       *       *       *

Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.

       *       *       *       *       *

O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado
com um malandro. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de
leve ao caso, achando-o improprio.  noite encontrou na mezinha de
cabeceira uma carta do rei com estas palavras: _Dispenso-te do meu
servio_. Seis meses no fez servio; agora, antes da rainha partir,
pediu-lhe apoquentadissimo a sua interveno. Outra carta do rei com
estas palavras: _Entra outra vez de servio, mas nunca mais me ds
conselhos sem t'os pedir_.


                                                          Maro--1903.


Alpoim:

--Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...

--?

--Um governo fra dos partidos, uma dictadura feroz.

E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:

--Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da
espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam
descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e
matando-o. Entravam lentes e estudantes...

       *       *       *       *       *

O Alpoim:

--O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:--O unico homem com
quem eu poderia ser ministro era com o Jos Luciano.--Dantes dizia muito
mal d'elle. D'uma vez estava no Pao, no vo d'uma janella, a dizer
cobras e lagartos de Jos Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o:

-- Mousinho cala-te.

--Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.

--No, podes estar, mas acaba l com a conversa.

       *       *       *       *       *

--E porque  que o rei no gostava do Mousinho?

--Se lhe parece! Vr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem
palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais
d'uma vez foi a rainha.


                                                          Abril--1903.


O Adrio de Seixas, secretario do Banco de Portugal:

--J por diferentes ocasies o Estado tem corrido o risco de ir a pique.
Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar  tropa, e mais
que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar
trezentos contos de reis.

       *       *       *       *       *

Um architecto do Pao conta que a rainha D. Maria Pia fuma
constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha,
sobre os sofs e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de
farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Pao.

--E no volto sem estar tudo prompto.

Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fra,
lembrou-se das obras--e mandou deitar tudo abaixo.

--No volto sem estarem concluidas.

As provas dos vestidos so um martirio para as pobres costureiras, que
mantm de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as
v cahir exhaustas, arranca tudo, despedaa tudo...

       *       *       *       *       *

O Alpoim conta:

O rei  muitissimo bem educado, mas no gosta nada que ponham a rainha
em primeiro logar. No se importa com o paiz e julga-se um grande rei
constitucional. Os ministros para elle no existem: s ouve e atende o
presidente do conselho.  to governamental que trata delicadamente os
politicos quando estam na oposio, mas no conversa com elles. No 
como o D. Luiz, que s vezes fazia-se com os ministros contra o
presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o Jos Luciano,
partidario da aliana ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
Alemanha. s vezes andava uma hora de brao dado com o Mariano e Emydio
Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles
sahirem, perguntava-lhe:

--Olha l, quando  que tu pes fra estes gatunos?

O D. Carlos no  assim: para elle os ministros no existem. Trata-os
sempre por tu, menos quando  da assignatura. No conserva odios. E fica
contentissimo se os ministros descompem a oposio. Quando foi da
exhonerao do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
queixou-se ao Jos Luciano:

--No Pao todos me fazem m cara.

O Jos Luciano disse-o ao rei, que protestou:

--No, por mim no  verdade. Quanto  rainha que a trate com todas as
atenes, mas que no faa caso.

E para reforo traz o caso Oliveira Martins: O Jos Dias Ferreira nunca
chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
que manejava facilmente o velho rabula--e escolheu-o para taboleta.
Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins,
sem manha politica, teimou no Jos Dias. Pois ao fim de dois mezes era
elle quem mandava e que o queria alijar... No Pao, nem este rei nem o
D. Luiz, gostavam do Jos Dias; apezar d'isso, quando o Martins,
aborrecido, se fingiu doente, e o Jos Dias se queixou, o D. Carlos
disse ao Arnoso:

--Olha l, diz ao Joaquim Pedro--era assim que elle o tratava--que se
levante ou que se demita. Isto no  vida.

       *       *       *       *       *

Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em
restaurar a monarchia no Brazil.


                                                           Maio--1903.


Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia no quiz receber o
presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como  muito religiosa
respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:

--Viajo incognita.

--Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar
para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O
governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em
Livorno--para sahirem uma hora antes da entrada do _yacht_...

       *       *       *       *       *

Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:

O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas  condessa d'Edla,
pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e
imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E
mandava-lhe s vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
atelier de Columbano...

--Ento este velho  que ?!...

E no lhe deu mais vintem.


                                                           Maio--1903.


Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de no
ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou.

Comentario do Alpoim:

--Que havia elle de responder? Mentiu como um co!

De resto o discurso foi cheio de aluses. Chegou a isto: a lanar
suspeitas sobre as relaes do Soveral com a rainha. Que est fazendo o
snr. Soveral em Paris? Faam-no recolher imediatamente a Londres[3]!

--Triste simptoma--afirma o D. Joo de Alarco--n'um paiz monarchico
ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia
foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o Jos Luciano, sahiram dos
seus logares e chegaram-se mais para perto, para no perderem pitada.

       *       *       *       *       *

--O que ns fazemos no  discursos,  historia--diz o Arroyo.

       *       *       *       *       *

Diz-se:

O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno...

       *       *       *       *       *

O Alpoim:

O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladres. Eu sempre
queria que me dissessem o que elle ...

       *       *       *       *       *

A quinta da Bacalha--continua o Alpoim--foi comprada pela casa de
Bragana. Quem faz as obras  a Casa Real, isto  o Estado.


                                                           Maio--1903.


O rei--diz hoje D. Joo d'Alarco em conversa com o Alpoim--no se
importa nada com isto. Tomra elle ser kkediva d'este cantinho,
defendido pelas baionetas inglezas.

       *       *       *       *       *

O rei tem uma lista celebre a que chama _a lista dos ladres_.

       *       *       *       *       *

O Arroyo volta  discusso e, a proposito, conta-se de novo a historia
dos tapetes:

--Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que est hoje em
Vila-Viosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
at que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre
com a impresso de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe:

--V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse...

--Ora adeus!

Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o
homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber:
a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo.
No vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa
real: Vossa Magestade manda, obedeo.

Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e
comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e est hoje n'uma
parede do palacio de Vila-Viosa.

       *       *       *       *       *

Conversa entre o Soveral e o Alarco:

--Ninguem diga d'este Soveral no beberei. Ainda has-de ser presidente
do conselho.

--Para qu? Ento tu imaginas que deixo a minha situao l fra por
isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez...

E o Alarco conclue:

--Acredito que elle no queira. S se fr para arranjar algum negocio,
que elle anda muito precisado de dinheiro...


                                                           Maio--1903.


 certo que o rei falou ao Jos Luciano na dissoluo da camara dos
pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para
os jornaes para assustar o Arroyo--que quer fazer outro discurso
sensacional contra o rei.

       *       *       *       *       *

O Jos Luciano procurou o Arroyo em casa:--Venho pedir-lhe que no faa
o discurso contra o rei.  um homem na minha edade, perto da cova, que
lhe pede isto em nome d'interesses superiores.--Sim senhor... se V.
Ex.^a me assevera que por traz d'isto no est o sr. Hintze Ribeiro...

E chorou.

       *       *       *       *       *

--O rei--diz o Alpoim--est contentissimo. O discurso era tremendo. O
Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu
mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas
vezes dinheiro.--Aqui estam as provas!--E apresentava-as.--O primeiro a
ser castigado devo ser eu, porque delinqui.


                                                          Junho--1903.


Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no _yacht_ D.
Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa.

O rei safou-se de proposito para o mar, para o no receber. Do Pao
mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos
de Paris com a rainha se relacionavam com imposies da familia Orleans.

...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.--Mas houve o
diabo!...--diz o Alpoim.

       *       *       *       *       *

--O Navarro defende-o, senhor Alpoim...

--O Navarro diz hoje bem de mim, como amanh diz mal--por doze vintens.


                                                          Junho--1903.


O _Diario de Noticias_ publica hoje esta curiosissima informao:


     As recepes em casa do sr. conselheiro Joo Arroyo, constituem
     sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento
     multiforme do illustre parlamentar, que  um artista de raa,
     converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias
     mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decorao
     dos sales, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
     colleces de arte ornamental que elles encerram.

     No se encontra ali um "bibelot" que no seja um objecto de arte ou
     no faa parte de uma colleco, paciente e sabiamente reunida e
     disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros
     objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e
     dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
     vitrines, resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o
     criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento
     esthetico. A sala dos xares e dos cobres e bronzes esmaltados e
     cloisonns  por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e
     s por si basta para aferir o elevado grau que occupa o
     colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, to
     bom ou melhor que admirar nas salas do sr. Joo Arroyo, as quaes
     do aos gourmets do bric-a-brac a impresso de verdadeiros
     escrinios de arte. Nestes casos esto a graciosa colleco de
     figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposio de leques, cujos
     pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes
     do seculo XVIII ou so apenas formados de finissimas rendas a
     ponto, de Allenon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia
     e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianas da China, e de
     Saxe; as soberbas boiseries da casa de jantar, bello trabalho
     decorativo no estylo Renascena, do architecto Bigaglia, com o seu
     fogo monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as
     prateleiras dos lambris repletas de exquisitas pratas, faianas e
     cristaes.

     Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada
     at s salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana,
     flamenga, hollandeza e franceza, tapearias de Gobelins e do
     Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e
     criterioso esforo de um artista e o bom gosto de um homem elegante
     poude colleccionar, tudo chama a nossa atteno, que s encontra
     ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de
     casa, a sr.^a D. Maria Thereza Pinto de Magalhes (Arriaga) e na
     conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e
     interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido
     naquella senhora uma valiosa collaborao artistica, assignalada em
     mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella
     residencia.

     Por tudo isto, o raout de hontem esteve concorridissimo e
     encantou todos os convidados dos illustres amphitries, entre os
     quaes estavam:

     Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justia, obras
     publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e
     secretarios, Rouvier, ministro da Frana e esposa, ministro de
     Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e
     esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D.
     Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell,
     marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e
     esposa, conselheiro Jos Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos
     Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, Jos
     Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
     Sequeira e esposa, condes de Pa Vieira, almirante conde de Pao
     d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa,
     conselheiro Jos de Azevedo e esposa, conselheiros Jos e Antonio
     Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de
     Sabroso, conselheiro Jos Ribeiro da Cunha e esposa, Jos E. de
     Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, Joo de Freitas Rego,
     F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
     Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
     conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e
     esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D.
     Elisa Pinto de Magalhes e D. Luiza Pinto de Magalhes, Alberto
     Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio
     Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas,
     conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro
     Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e
     esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
     Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poas Falco e esposa, Jos
     Fernando de Sousa, baro de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa,
     condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M.
     Emygdio da Silva, etc., etc.


       *       *       *       *       *

O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a
obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforo, as transigencias,
o talento gasto e o fel gasto, at chegarem ao poder--Navarro, filho
d'um mestre de musica de Bragana, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem
que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica
que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da
_Morgadinha_, at ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o
ultimo suspiro:--A vida  uma comedia!--Alguem que nos mostrasse Arroyo
e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus
phantasmas.

Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece--se lhe falta
ideal, paixo, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve!
No, a vida no  uma comedia. A vida  profunda. Elles  que lidaram
apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi
desprezado. O talento no lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse...
Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que Joo Chrisostomo
d'Abreu e Souza l em plena camara a declarao, em seu nome e no dos
seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares
praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo,
livido--com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o
sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golpho de desprezo, por
si e pelos outros, na bocca, com um golpho de negrume!... Jamais me
esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da
camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vr, ouvindo sem ouvir,
e no tendo podido realisar nenhuma das suas ambies:--Deixem-me!
deixem-me!--Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse
na musica um refugio... Navarro, porm, acabou no mesmo abatimento.
Temiam-no--mas s o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e
horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica.
Apegara-se--mau simptoma--aos netos. Desconfio que o celebre estadulho
no passava d'um espantalho, e que era grande a sua
sensibilidade:--Sinto-me ferido em pleno corao--Do corao morreu, sem
nunca o deixarem realisar as suas ambies.

[Figura: _Guerra Junqueiro._]

Metidos n'aquella roda de navalhas foram at ao fim do combate, luctando
sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o
cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara
livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de p. Oh quem me
dera um momento, s um momento para vr a srie de phantasmas em que se
desdobrou cada um destes sres, para os lr at ao amago, para lhes
descobrir o instante de cansao e o ponto vulneravel--rodeados de
invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e no perdoavam
um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e
cravando as unhas na carne at ao sangue, como Rodrigo da Fonseca
Magalhes, outros respondendo  audacia com audacia, outros sucumbindo
ao nojo, com estas palavras que j surprehendi a alguem n'um momento
supremo:--No, no valia a pena!

       *       *       *       *       *

O mundo politico  to curioso! O que est  vista no tem importancia,
o que se mostra no passa de scenario. Para viver aqui dentro  preciso
habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara
perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz
nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser
comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porqu?
Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no 
metropole. O artigo _D. Folio_ do Colen fez successo... J se
diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe no despachou uma
pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar,
antes de cahir, um logar no sei onde. Ha politicos que se servem de
todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece
at que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos
corredores das camaras, cerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro
 o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na
minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta
em que elle se confessa ladro!--Este mundo tem as suas leis, as suas
convenes, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal 
o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas crtes  apenas aparato: o Jos
Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas
surge s vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A
atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do
conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze
teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro
explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi
barafunda... O Jos Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que no
fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que
lhe afirmo que no est inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o
discurso com aluses  rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por
causa do Pao... Os chefes ainda conservam certa linha, mas c em baixo
vm-se referver os interesses, as ambies, os despeitos. O D. Carlos
mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e  talvez por isso mesmo
que o atacam e o acusam. No intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz
ao Jos Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
ministerio:--Isso no, meu senhor! E vou j d'aqui dizel-o ao
Braamcamp.--Tudo parece confuso, todos os dias a teia se emaranha.
Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por
interesse, por camaradagem, seja pelo que fr, mas j no ha ninguem que
defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, s se fala no
rei... O rei! o rei! o rei!...


                                                          Junho--1903.


--Os Braganas, dizia o Latino Coelho, ou so pedantes ou fadistas.

A este proposito o D. Joo da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um
discurso  me, dizendo-lhe ella no fim:

--O menino ha-de sahir um bom pedante.

Se tarda em morrer acabava odiado.


E acabava. As grandes figuras moraes so sempre uma calamidade para si e
para os outros. O universo  amoral, e no ha como os acomodaticios, com
alguma hipocrisia ao seu dispr... Os outros s fazem a sua desgraa e a
desgraa dos que os rodeiam.


                                                          Junho--1903.


Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de
casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra
luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli
os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de
trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. L no fundo
morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros
diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascena,
experimentou o _fresco_, as tapearias, os trabalhos em cra e prata. A
senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e
dizia:

--Quando meu pae morreu ficamos sete irmos. Criei-os a todos.

--E o Columbano?

--Esse  meu irmo, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os
maiores homens de Portugal, de quem o Columbano s vezes fala:

--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para
o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
transtornada:

--Salve-nos! salve-nos!

Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou
escreveu--no me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e
abandonou tudo.

So curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou.
Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para
se lhe no ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia,
desaparecia logo: no pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano
ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem j cansado, de
grossos sapates, apegado a uma bengala, que parecia um bordo de
pedinte:

--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...

Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de l azul--mas
quando falava!... Nunca olhou para o retrato.

--Est prompto?

Foi-se embora como viera...


                                                          Junho--1903.


O Jos de Figueiredo diz-me:

--Copiei por minhas mos, para o Antonio Candido, a carta em que o
Soveral  durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
se no tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.


                                                          Junho--1903.


--Ninguem me mete na cabea que esta rainha  boa pessoa--diz o Alpoim
ao vel-a descer o Chiado.

Mas, quando passa, toda a redaco do _Dia_ corre  janella, para a
cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixo,
pe  pressa o chapeu na cabea, para se ir desbarretar n'uma grande
cortezia.

       *       *       *       *       *

Fala-se hoje do Soveral na redaco do _Dia_, e da amizade que o liga ao
rei d'Inglaterra.

--So to amigos que por occasio do ultimatum, ainda Eduardo VII era
Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam
ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e
s lhe disse estas palavras:--A Alemanha est comnosco...

O Soveral correu ao telegrapho.


                                                          Junho--1903.


O Adrio de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas
combinaes de finana, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
etc.:

--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o.
Todos estendiam a mo. Duma vez trouxe para um, um aparelho de ch,
magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o
assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:-- magnifico... s lhe
falta o assucar.--Eu, que j ia prevenido, tirei das algibeiras alguns
rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora est
optimo.--E concluiu:--Voc  uma mercearia ambulante!


                                                          Junho--1903.


O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:

-- que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forado a
viver em Portugal, fazia-me revolucionario.

       *       *       *       *       *

Tambem o Alpoim diz hoje:

--Quem me dera uma revoluo!

E, deante do nosso espanto, explica:

--Para pr o rei no seu logar... Eu no tenho nada a perder, meus filhos
esto colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um
fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas qu! Agora com a
aliana ingleza  muito peor. Ainda outro dia dizia o Jos
Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de c e os de
Hespanha, que no fazem nada.  da aliana que, se houver qualquer
movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.

E acrescenta:

--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.

       *       *       *       *       *

--Elle  mau, --diz o Alpoim do rei--mas a gente no tem outro.


                                                          Junho--1903.


O Abel d'Andrade:

--Conheo muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem,
pessimas n'um chefe.  delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe
que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades,
que vo crescendo  medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme;
no  capaz de dizer _no_ peremptoriamente a ninguem.


                                                          Junho--1903.


O Emygdio Navarro est furioso com o rei. Sentiu immenso que o no
convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando
foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliana anglo-portugueza.


                                                          Junho--1903.


Estive hoje em casa do juiz Veiga, l para o Rato, por causa d'uma
querela do _Dia_.  um homem atarracado e forte, com um ar de falsa
bonhomia. Ha n'elle no sei qu de inquisidor e de satiro, e  to
desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria
uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras
doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios
mostrengos em exposio: o retrato delle e retratos de familia,
temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro no sei de quem,
ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de
mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em
plo...

 este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das
familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a
entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se
mais casos curiosos.  omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos
ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo  sua
disposio para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraados.
Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos
politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que
ao Jos do Valle no o deixaram dormir sem elle confessar tudo...-- uma
especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua
autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha at quem o diga uma especie de
Providencia.  incontestavelmente um homem esperto, que
protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente no
sabe ou no quer defender-se...

Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem
no encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiados, que do
de comer, s escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e
deitam a fugir quando me vem.


                                                          Junho--1903.


O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio
d'aluses ao rei, fez sensao. E dizia-se por ahi:

--Quando se faz c o mesmo?

--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim.

       *       *       *       *       *

O Beiro:

--O Alpoim no quer vr que o partido do Joo Franco, apezar de pequeno,
 um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e d-lhe os mesmos
poderes que tem dado ao Hintze ou ao Jos Luciano.


                                                          Junho--1903.


Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito
do rei e do poder pessoal:

--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo,
pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que no parea
_poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D.
Augusto meteu-se-lhe em cabea casar com uma infanta d'Hespanha. Era no
tempo em que se falava muito na unio iberica. O Corvo opoz-se, apesar
da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e
disse-lhe:

--Escusa de insistir, que no casa.  pelo bem do paiz.

       *       *       *       *       *

O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no
seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e
estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel
n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do
Congo, etc. Avanavamos um seculo, se elle no cae por causa do tratado
de Loureno Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera
milhes. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...

Nas camaras o governo d'ento declarou que o tratado no tenha ido a
conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotaes
do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse
hoje!...


                                                          Junho--1903.


--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro
e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peo-lhe que desista.--O
infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa
inventou uma doena d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de
ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--C ha um bom
especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia no tinha
nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio
Lencastre. O rei tem pensado...

--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim.


                                                          Junho--1903.


Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procisso do
Corpo de Deus. Todos  janella cahiram de joelhos--quando o bispo de
Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no
alto da cabea, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:

-- que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um
dia: Ajoelhe a meus ps! Pea perdo!--Tinha hypothecado l fra os
rendimentos do curia por noventa annos!


                                                          Junho--1903.


O D. Joo da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas
dois retratos--o de Joo de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que
um tio de Coelho de Carvalho levava j a galope o comutamento da pena do
Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto  neta do
Remexido. Aposto que no sabiam!


                                                          Julho--1903.


--Vou pedir um logar que est vago no Supremo Tribunal--disse um patusco
ao Maral Pacheco.

--De juiz?!

--Isso.

--Mas voc endoideceu! No lh'o do!

--Isso sei eu.

--Mas ento porque  que o pede?

--J pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, j
sei, mas  _capital_ de queixa que amonto.

       *       *       *       *       *

O Alpoim:

--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos
bispos. So jantares que nunca acabam, de quinze pratos, servio
esplendido--e no calcula a impresso que eu senti, no fim, quando elles
se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
charutos enormes e com as saias arregaadas...


                                                       Setembro--1903.


O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Pao
por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle no continuar com
os ataques nas _Novidades_.


                                                        Outubro--1903.


O Alpoim recomenda no _Dia_ que se no publique nada que possa ferir as
susceptibilidades da crte hespanhola. Afonso XIII est
desconfiadissimo. Alm d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha no se
podem ver: tem um pelo outro odio figadal.

       *       *       *       *       *

Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vr em
que estado tinhamos as fortificaes de Lisboa. Examinou tudo.

[Figura: _Jos Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de
Celso Herminio.]

       *       *       *       *       *

Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da
iluminao da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o
Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...

       *       *       *       *       *

Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam
troaram tudo isto: o paiz, a crte, as festas. De manh, no quarto,
emquanto elle tomava caf ou chocolate, os particulares e os intimos
maldiziam, n'uma chacota pegada... S o rei, fracamente, se opunha.


                                                        Outubro--1903.


O D. Joo da Camara conta o seguinte:

--O D. Luiz deu, at pouco antes de morrer, trezentas libras por mez 
Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem
libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo  Rosa.
Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o
dinheiro.--E o Brazo?--Cuido que no so casados, apezar do que por ahi
se diz. O que  certo  que antigamente, as coisas arranjavam-se por
forma que a Rosa e o Brazo nunca entravam na mesma pea, e um d'elles
ia sempre passar a noite ao Pao. O D. Luiz dizia do Brazo:-- o meu
melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situao: apenas empregou dois ou
tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe
a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou
no quarto do Pao onde a Rosa costumava ficar, um leno de rendas a
tapar a fechadura. s vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella
escolher e depois levava-as  Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para
que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.


                                                        Outubro--1903.


--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio Jos de Freitas--o Oliveira Martins,
n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentao d'um janota qualquer,
d'um janota banal.


                                                       Dezembro--1903.


O Adrio de Seixas, secretario do Banco de Portugal:

--No se fazem descontos, porque no ha dinheiro e o Banco j recorreu
s reservas de prata. O governo est sempre a pedir dinheiro. Imagine o
meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem
tem a coragem de dizer as coisas como ellas so e por isso se faz um
oramento falsificado. Resultado: como o oramento  falso, pode-se
roubar  vontade!

       *       *       *       *       *

O Jos Luciano est a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido
progressista! Ao Antonio Candido no o tragam os progressistas, ao
Beiro no o quer o Pao, nem o Navarro, nem o Mariano. Lana-se o nome
de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do
conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.

Mathias de Carvalho  uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e
de miolos empedernidos, que ficar na presidencia e estrangeiros. Esta
soluo  preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se
sabe que  incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as
relaes com a Italia.

--Se o Jos Luciano morrer   facada!--exclama o Alpoim.

Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma soluo... Peor ser conserval-o
na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros  espera
do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este
leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje
deitou um litro de pus pela pelle.--Est salvo!--Morre!--Fica
invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza,  elle
quem manda tudo. Que o diga, o Jos d'Azevedo, por exemplo, que o no
pode vr, porque o Jos Luciano o no deixou realizar as suas
pretenes.  na sua casa que se resolvem as questes maximas. A
politica  pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada
nos bastidores... Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae
a casa do Jos Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as
emendas do codigo civil passem. No passam e elle fica no ministerio! O
Teixeira de Souza vae l todas as semanas. No, este Hintze... Eu
palavra de honra antes queria ser ladro d'estrada!...

Outro facto extraordinario da nossa politica:  sempre no campo adverso
que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
nitidamente que no fundo da lucta s ha uma fora, o rei. Por isso mesmo
o rei  sempre o culpado. Quem tudo manda  o Pao--dizem todos os
politicos--e tanto mais que no ha um nucleo de resistencia no paiz. Os
republicanos no esto organizados e o Pao nem sabe o que pde. Uma
revoluo no paiz , segundo a opinio geral, impossivel, a no ser que
se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau  o rei quem
o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao
Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro.  el-rei que no quer.
Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e
inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito
d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no
_Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo
no estrangeiro, conta-se que  um negocio de acordo com a casa Fonseca,
Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza
de conivencia. Mas j a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem no deixa
passar o emprestimo  o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabea cortada.
No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinaes no
estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de
Portugal, na Companhia Real.  uma desgraa que o emprestimo no passe.
Temos ns de o fazer e em que condies!... E tudo isto com que fim? E o
Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A
esta trapalhada juntem a doena do Jos Luciano e as ambies, que
levantam a cabea, a guerra de sapa que se encarnia.--Hoje deitou mais
pus!--Morre!--Com quem est o Pao?--O Moreirinha com a algalia no lhe
sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O Joo Franco?

--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me
caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, danar! danar!... So
mil os interesses, mil as ambies.--Tudo menos o Beiro, que s tem por
si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_.

Mas o velho teimoso e perspicaz, no admite sequer a ida de que alguem,
que no seja elle, v ao poder. At  ultima--ambio ou
grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, at ao ultimo
suspiro, ha-de conspirar. Aqui,  roda d'esta agonia, no se discutem
apenas os interesses d'uma familia. O drama  maior: so os interesses
dos partidos, com mil e uma ambies e enredos que nem sequer se
suspeitam. A confuso augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o
ataque,  frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que
ainda hontem atacava o Joo Franco, j hoje (Janeiro 1904) diz, depois
do conluio feito pelo Silva Graa:--Com esse me entendo eu!


                                                      Fevereiro--1904.


Hontem, tera-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos.
Estava tudo, o rei, a rainha, a crte... Senhoras decotadas com os
vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho.
Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar
dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos ps. Mas a risota, a
chalaa, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mo em
mo, por entre as grosserias, que  do uso antigo as senhoras dizerem
umas s outras na tera-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da
mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro,
soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve
um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de
borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio
entre aquellas cabeas empoadas, na gente da alta roda de que se contam
baixinho os escandalos.

Ouam um destes rapazes que esto na plateia, e que falam das senhoras,
como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente
no se sabe aonde vae buscar o dinheiro.  um misterio. Aquelle louro e
correcto, que est alm n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz
extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro
s vive da roleta. Mais alm, o herdeiro de um nome ilustre, tem um
modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos.
Aquelle, acol, to decorativo,  conhecido pelo conde de Monta-a-Velha.
So raros os que no tm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano
chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella
diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande
escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com
aquella, mais alm, fina como uma cobra, e que ostenta um colar
magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma
carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus
amantes. A mulher do J... deixa o marido, p de boi rico que s lhe
serve para puxar  nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis
esta me viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes.
Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que
n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...

Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo
da crte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_.

       *       *       *       *       *

O general Lencastre de Menezes:

--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas no se tinham passado
assim...


                                                          Maro--1904.


Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por fora passar por
branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum
tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima:
lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre at ao fundo. Depois inventavam-lhe
processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe  vaidade
incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim.
Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto,  farta,
pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da
noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a crte e o enredavam n'uma
vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.

Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou
um _yacht_ de luxo para ir a S. Thom. Cincoenta contos. Na volta no
havia carvo a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os
doirados do barco, as portas, os sales, as molduras. E o preto sorria.
Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma cdea.

Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis,
pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e
procuraes para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralho
foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do
preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto,
falavam-lhe logo  vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama
o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que no comprehendia e que se
sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfao por
fazer parte d'esta raa ilustre e respeitada de brancos, por ser
visconde, por pertencer  crte e  alta sociedade elegante.

...Antes de morrer l lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos
ficaram-lhe com as roas, e as propriedades de S. Thom foram
transferidas para uma sociedade por quotas.  o que consta por ahi,
emquanto o negralho estoira com uma pneumonia dupla--e l em casa se
toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.


                                                          Maro--1904.


As obras da sala de jantar do Pao das Necessidades custaram 180 contos.

       *       *       *       *       *

O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a
mulher do Hintze lhe devia l uma capa ha mais dum anno.


                                                          Maro--1904.


O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o
caixo chegou ao p da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no
vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeas amarellas dos
malmequeres. Os passaros comearam a cantar. E viu-se logo o Brito
Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O
amigo... o camarada... descana em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na
nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma
banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postio. Mas os passaros no
cessavam de cantar--e a meu lado o D. Joo da Camara suspirou baixinho:

--Quem me dera que quando eu morrer s o saibam meia duzia de amigos!...


                                                          Abril--1904.


O Ovidio d'Alpoim cerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:

--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o Jos Luciano estavamos a discutir
umas alteraes  Carta Constitucional e ella comeou do lado a dar a
sua opinio. O Jos Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de
casa do Jos Luciano com o Antonio Candido e vinhamos  porta da sala
grande, quando ella do alto da galeria:

-- senhor Antonio Candido ento agora  que vae para Amarante, quando 
c preciso? E  para isto que ns os fazemos pares e os enchemos de
honrarias?...

O Antonio Candido no respondeu. Ficou to vexado que, de casa at 
baixa, no trocamos palavra.


                                                          Maro--1904.


As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepo de duas, eram tal qual
como a me. O Camara conta que a duqueza de Loul, que foi casada com o
mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira,  janella,
quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, j vestido de
oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle
subiu--e depois desceu e foi tourear...

O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D.
Carlota Joaquina.


                                                          Abril--1904.


A Hespanha concentra tropas na Galliza. Ns no podemos mobilisar quinze
mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao
Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a
que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve
apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal
chega para uma hora de combate!


                                                          Abril--1904.


O dr. Antonio Centeno protesta:

--Isto no pode ser! O ministro deu pela iluminao electrica do Pao de
Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a
iluminao electrica de todos os paos por trezentos contos. Ha quem a
faa por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia
do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questo para a
camara e para os jornaes.


                                                          Abril--1904.


Quem faz a politica externa  o rei e o Several. O ministro dos
estrangeiros chancela.


                                                          Abril--1904.


Isto  um paiz para estrangeiros. No ha nenhum que no enriquea. Hoje
afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas 
Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil.
O Croneau, director do Arsenal, tambem est rico.


                                                          Abril--1904.


Diz o Alpoim:

--O rei no ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz,
que era nosso amigo. Agora no: s ouve os presidentes do conselho.
Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu
pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.


                                                           Maio--1904.


O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do
campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois
comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e
Menezes, ento comandante do 18, no sahiu com o regimento emquanto no
viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...

--Eu disse-o depois ao rei.

       *       *       *       *       *

A proposito de 31 de Janeiro sei pelo Jos de Figueiredo, que o ouviu
por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Pao
queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto
durante muitos annos.


                                                          Junho--1904.


Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado
d'_entente_ entre a Inglaterra e a Frana.  hoje um dos melhores amigos
de Delcass.


                                                          Julho--1904.


A Maria Pia, que quer ir por fora ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro
aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do
Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma
pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios
serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia
pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.

       *       *       *       *       *

Do Antonio Jos de Freitas:

O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D.
Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da
aristocracia conversando com o marquez:

--Fui visitar el-rei que me disse:--No queres vr a condessa?--Falei
com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante...

[Figura: _Celso Herminio._]

E o marquez logo:

--A senhora j tinha,  claro, relaes anteriores com a condessa...


                                                       Dezembro--1904.


O Joo da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor
do _Amor de Perdio_. Os filhos de Nuno nem po tinham no dia em que
receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou
duzentos e tantos mil reis, escreveu  viuva e mandou-lhe
metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--no tinha que lhes
dar de comer.

       *       *       *       *       *

O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos so, uns n'um
extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...


                                                       Dezembro--1904.


O velho obstinado teima... No lhe falem na successo! Ainda n'outro dia
fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das
_Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe l o Sebastio Telles ou o
Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese no a admito
eu!--protestou logo. O Hintze est gasto, o Joo Franco foi acolhido no
norte como um Messias. O Beiro fez um discurso nas camaras--talvez
proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que no admitia
direitos adquiridos seno dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--
um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do
Beiro--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e
indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. J em Abril, no
conselho d'estado, taes coisas disse que,  sahida, afirmou:--Acabo de
dar uma enxadada na minha reputao!--Quanto ao Alpoim desconfia que o
Jos Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear foras
dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar
no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
porqu...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situao politica
agrava-se.

Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no
Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
 bailarina Imperio, que ahi est na zarzuella... As questes
prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos s se fala em
escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um
amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos
Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os
republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto,
aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:


     ...Ha uma lei que domina todas as outras na historia da
     humanidade: nenhuma instituio vive, se sustenta e se radica seno
     pelo amor  liberdade. A lei, em virtude da qual existem
     instituies liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos.
     De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um
     periodo de ascenso liberal.

     Aboliu-se a pena de morte, e s por esse feito se proclamou pela
     lei o direito  Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua
     elevao, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas
     colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir
     espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a
     liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil.
     Alargou-se a liberdade economica pela extino dos bens de mo
     morta, pela abolio dos monopolios e pela criao legal das
     associaes de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as
     liberdades politicas com a extenso do sufragio e representao das
     minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas
     franquias aos distritos e at se exarou na Constituio o principio
     liberal da eleio parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que
     comeou ouvindo-se a voz do grande tribuno Jos Estevo, parece que
     resoaram at ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.

     Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e
     Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande
     obra de pacificao e de liberdade, est em que foi o conservador
     Fontes quem mais contribuiu para ella.

     Os partidos de governo definem-se pela sua concepo da
     constituio nacional: Constituio liberal, partido liberal;
     Constituio arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio pde
     ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim
     em absolutismo.

     No periodo de iniciao liberal fez-se a Constituio quasi
     republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da
     Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a
     carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do
     imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opresso com D. Maria
     II. Em oposio  carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas
     fizeram a democratica constituio de 1838, decretada pela vontade
     da nao.

     No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com Jos
     Estevo e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que
     inaugura entre ns o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os
     actos adicionaes de 1852 e de 1885, que so verdadeiros pactos
     constitucionaes, e no intervalos historicos, mas reformistas,
     constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos,
     qual delles mais avanado, da reforma constitucional.

     De 1886 at hoje sopra um vento imperialista. A inspirao, em vez
     de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido
     progressista faz a centralisao dos servios materiaes.
     Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a
     centralisao dos servios espirituaes na instruco, e depois
     dissolve as associaes, rasga as liberdades municipaes, acaba com
     as representaes das minorias, legisla dictatorialmente... E, por
     fim, para que toda esta centralisao no suscite uma revoluo
     violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que  uma ameaa
     sempre suspensa sobre todos os liberaes.

     Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza,
     no era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a
     Republica, e no haveria ninguem to insensato que sonhasse fazer
     uma revoluo para conseguir pela fora o que se conseguiria, num
     prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Alm disso, ninguem faz
     revolues por meras frmas. Ns, os verdadeiros liberaes,
     duvidamos se no  preferivel uma monarchia, com todas as
     liberdades efectivas, com todas as descentralisaes vivas, ou uma
     Republica como a francesa, em que o Poder central  omnimodo, e o
     regimen autonomo local nulo.

     Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao
     antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e
     derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em
     bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte
     restabelecida para os delictos militares e at para certos delictos
     civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu
     auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella no  j uma
     questo de mera frma mas sim um problema organico de vida ou de
     morte para Portugal...

       *       *       *       *       *

     A anarchia da nao demonstra-se: no interior pelo desencadeamento
     das foras dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitao
     do clericalismo e fra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se
     seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da
     dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invaso
     congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irm
     Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio
     definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso
     Calmon.

     Os partidos esto em dissoluo. O regenerador, com dois chefes; o
     progressista, com a perspectiva tremenda de uma herana
     tempestuosa. Mas poder-se-ho reconstituir dentro da monarchia?
     Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira,
     visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo
     d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porm, o caso da monarchia
     rodear-se d'esses homens de positivo merito? So convidados sequer
     para as suas festas, que so oficiaes e no particulares?

     Entender e querer a monarchia apoiar-se nas classes
     trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o
     sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do
     militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia
     no soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins
     morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
     Mousinho de Albuquerque no chegou sequer aos conselhos da Cora, e
     suicidou-se. A monarchia tinha para a realizao desse programma,
     alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de
     Antonio Candido, successor de Jos Estevo, que teria sabido
     conquistar as massas populares, e para captar as simpathias
     internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
     maneiras e espirito,  da raa dos Palmellas. Aproveitou-os,
     porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de
     Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.

     Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como
     tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe
     atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da
     monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confuso dos dois
     erarios, e at o jesuitismo, se bem que no se imputa ao rei, 
     comtudo imputado aos que o rodeiam.

     No  licito pois esperar a salvao dentro da monarchia. Por
     grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o
     seu valor, a empreza da nossa regenerao no  para um individuo
     s. S a nao  que pode erguer sobre os seus hombros to imenso
     peso.

     E no se diga que a monarchia est identificada com a
     independencia da patria. A nao foi, com efeito, sempre
     monarchica; mas desgraadamente a monarchia tem-se encarnado na
     monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot,
     no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel
     soberano no comeo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente
     divorciando do povo.

     E as nossas alianas? Essas no so dos reis, mas dos povos. A
     aliana da Inglaterra  com Portugal, e no com as suas frmas de
     governo.

       *       *       *       *       *

      indispensavel organisar as foras vivas da nao portugueza.
     _Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nao_. 
     preciso que o partido republicano se transforme em partido do
     governo, e que cesse com a sua obra de demolio, j feita. Se no
     pode alcanar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios;
     se no pode intervir no municipio, intervenha na parochia. No
     deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faa
     sobretudo por apoiar todas as justas reivindicaes dos pobres e
     dos humildes.

     Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando
     os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem
     homens de governo, podem estar certos de que a Republica se far em
     Portugal como se fez no Brasil, e  maneira do que succedeu em
     1871, em Frana, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de
     monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grvy e para chefe
     do Estado Thiers, que era um monarchico convertido  Republica.

     A Republica em Portugal  necessaria para elevar a sua cultura,
     para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar
      educao do povo. O estado actual o demonstra: _tanto  certo que
     quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instruco_.

     A Republica em Portugal  necessaria para que a religio seja a
     unio das almas pelo amor, como na economia social o  pelo
     trabalho. As ordens religiosas atacam no s o Estado como a
     verdadeira religio, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da
     familia, a cooperao economica e o progresso politico da
     sociedade. O primeiro  combatido e negado pelo voto de celibato; o
     segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia
     servil.

     Torna-se necessario defender a religio como um principio
     immanente de justia e de bem, e no como uma superstio e um
     instrumento politico. O partido republicano no pretende destruir a
     religio; o que ns pretendemos  tornal-a sincera e pura,
     tornando-a voluntaria e livre.

     A aspirao do partido republicano encerra-se nestes tres
     principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade
     religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e no podem,
     oprimidos pela reaco politica, essa infinidade de creaturas
     analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e no podem,
     oprimidos pela reaco economica, essa infinidade de proletarios;
     em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
     reaco religiosa lana a semente de odio; em nome dessa infinidade
     de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e
     arrastar para fra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes,
     pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que
     hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_.

     Se a Republica que no pede seno o restabelecimento e o respeito
      lei, no vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o
     santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de
     paciencia e de resignao que existem sobre a face da terra.


D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questo dos tabacos:
os homens esto cada vez mais divididos por ambies e interesses. D'um
lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o
Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o
Jos Luciano, dizendo depois  familia:--O Jos Luciano est cada vez
mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vo dia a
dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta
anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do
Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambio: queria ser ministro
depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande
escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava
a unio iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questo durou tres
dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta
da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a
lr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o
tempo do governo.

--Tu j sabes, se queres alguma coisa  como se fosses ministro.

--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas to triste, to
sereno, que o outro ficou gelado...


                                                       Dezembro--1907.


O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:

--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D.
Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos.
A mim, que era ento sargento, deram-me seis contos, para distribuir
dezoito tostes por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse
hoje gastava-os no brodio.

--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.

--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graa, mais tarde
celebre como major Graa, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as
actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o
sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.


                                                       Dezembro--1907.


O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o Joo Franco,
das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos:

--Tu ouvel-os falar, no  verdade? Pois se lesses as cartas que todos
os dias me escrevem, e que esto alli n'aquella gaveta, enchias-te de
nojo!


                                                       Dezembro--1907.


Conta-me o D. Joo da Camara:

--A rainha era amicissima do meu irmo, o conde da Ribeira Grande.
Visitou-o seis vezes durante a sua doena. N'uma das ultimas noites elle
puxou-a a si, beijou-a, e explicou:

-- como se fosse minha filha.

J na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe,
n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:

--Os politicos! Cautela com os politicos!

E ella respondeu-lhe:

--Descanse, no ha-de ter duvida, se Deus quizer.

       *       *       *       *       *

Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi
dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um
filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade
e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dr, passou a
consolal-a...


                                                        Janeiro--1908.


O Fialho conta, indignado, que a viuva do Ea de Queiroz, a quem o
Estado d uma penso, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento
e tantos contos.

--Veja voc que pouca vergonha! So uns poucos de kilometros de terra de
semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de
cevados! Bem sei que metade da propriedade  da irm, da mulher do Luiz
Osorio... Ainda assim so cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo
o que o senhor Arnoso quer!...


                                                        Janeiro--1908.


Um oficial d'armada, ao Jos de Figueiredo:

--Todos os oficiaes d'armada,  excepo de meia duzia, no podem vr o
rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento
republicano, secundavam-no logo.

       *       *       *       *       *

Diz-se por ahi:

--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre
d'isto!


                                                        Janeiro--1908.


No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O
conde de... l vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club
Tauromachico_, o visconde de... tambem l perdeu uma fortuna.


                                                        Janeiro--1908.


Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalha_.
Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_,  o ultimo descendente, pelo
pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela me, do grave, do douto
Joo de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de
provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de
loua da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de
aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caou no Cabo com lords, tocou
guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalaes electricas na Italia.
Agora  jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo,
em que a rainha, Senhora na mais alta acepo da palavra,  posta de
rasto... Mas faa-se-lhe justia: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de
bocca em bocca ha muito tempo. E no vem de baixo--vem de cima...

       *       *       *       *       *

Do Pao mandaram buscar um exemplar  livraria Ferreira.


                                                        Janeiro--1908.


O rei em Villa Viosa caa; o Joo Franco em Carnide dorme com a casa
cercada de policia. Fala-se em conspiraes, na tropa, em transferencias
d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria
ao Bernardino Machado:

--Isto cheira a cadaver...

--Cheira a polvora,  que --respondeu lhe elle.

Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prises--fala-se em
mais prises ainda e os jornaes esto garrotados.

       *       *       *       *       *

O Maximiliano d'Azevedo:

-- falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey.
Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmo
do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte  Manuela. Ella aceitou-lha, e
uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para
a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do
theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.

Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:

--No! No!

Chorou--e morreu. J estava tisica ha muito tempo.

       *       *       *       *       *

E conta-me tambem:

--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por
acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lr
e toda a vida deu sylabadas.


                                                        Janeiro--1908.


O governo retira as munies a alguns regimentos e  marinha: s tem
confiana na guarda. Diz-me o Schwalbach:--Ouvi-o da bocca do oficial
encarregado d'esse servio. A noite passada retiraram as munies a um
regimento da capital. Corre com insistencia que o coronel Albano da
Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob
pretexto de estudo de renovao e adaptao das munies, que se
removeram para o servio de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que
varias peas do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios
de guerra.

[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.]

       *       *       *       *       *

O Fialho est um franquista ferrenho:

--O Joo Franco j me mandou chamar tres vezes.

E, como eu me espante de o vr conservador, elle diz:

--Fui-o sempre. J esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu
respeito:-- um bohemio que trata a roupa com nephetalina!

       *       *       *       *       *

A Angela Pinto est com um preto que lhe poz automovel.

-- Angela, ento tu agora?!

--Vocs que querem? No andam todos os dias ahi a prgar que o futuro de
Portugal est nas nossas colonias?


                                                        Janeiro--1908.


Prenderam hontem o Antonio Jos de Almeida. O Joo Barreira conta-me que
a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas no
descobriu os depositos d'armamento. O Joo Pinto dos Santos diz:

--A priso de Antonio Jos d'Almeida  um ensaio. Se virem que as massas
populares no protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou
aqui estou preso: o Joo Franco odeia-me.

       *       *       *       *       *

Um livreiro:

Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalha_. J ha quem tenha dado
por um exemplar tres mil reis, e o preo corrente  agora de dez a
quinze tostes... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais
que toda a gente sabia onde era impresso.


                                                  28 de Janeiro--1908.


A atmosphera  electrica.--Isto no pode ser! isto no pode
ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato
corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei
que no podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no
Porto e Villa Real; est assignado um decreto expulsando do paiz
republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento  preparado
pelo Joo Franco para tomar medidas d'excepo... O Coelho de Carvalho,
de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria
Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado
inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotao augmentada em cento e
sessenta contos, pagos em oiro.

s sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que
ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco
da Bandeira....--S?--E arranca-me das mos o _Correio da Noite_:--Vem
feroz! vem optimo!...--No comercio no se desconta uma letra. A rua do
Oiro no tem metade do movimento habitual. Consta que o Joo Franco
disse hontem:--D-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e
sei-o por uma senhora de relaes intimas do Joo Franco--diz o
Fialho,-- que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revoluo? As
mulheres vo buscar os maridos s reparties e aos bancos, outras, na
previso de acontecimentos, fornecem-se  pressa nas lojas. Ha nervos na
atmosphera. A questo dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o
rei. Ha muito que o D. Carlos  visado, discutido e injuriado.
Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
Hintze com desgostos. Os Braganas so todos ingratos. Que quer o rei? O
rei s quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_,
o rei  um ladro. Dizem-no at os cavadores d'enxada da provincia:--O
rei  um ladro! o rei  um ladro!--Gera-se no sei que excitao que
se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma presso a que no ha
fugir. Nas esquinas ainda se vem farrapos de cartazes, anunciando o
folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira...

O que os jornaes de grande circulao no se atrevem a dizer, o
_Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou
publica-o o _Correio da Noite_, do velho Jos Luciano, que ataca com
violencia o rei e o governo.--Que h? Que h?--Um policia aliciado pelo
Joo Chagas denunciou a revoluo; o juiz ao lr o depoimento do Antonio
Jos d'Almeida, exclamou:--Ora at que emfim encontro um homem!--O Cunha
e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocs
que querem? Est tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com
este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro,
outro municipal lia _A Lucta_.

E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites
enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as
noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo
as suas manias, as suas ambies, os seus interesses...

       *       *       *       *       *

Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que
queria matar o Joo Franco, entrou n'um caf. A policia tentou
apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem,
fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os
guardas. Havia um plano de revoluo?  fra de duvida. Lanaram-se
bombas que no explodiram a varias esquadras-- do Campo de Sant'Anna,
por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo
de dissidentes, Alpoim, Joo Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o
elevador da Bibliotheca, no intuito de lanar um fogueto, que desse o
signal  esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes
pontos, deviam assaltar os quarteis. S o Alpoim e o Ameal conseguiram
fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e
telegraphos. No forte de Caxias esto presas 93 pessoas, e presos esto
tambem o Afonso Costa, o Joo Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A
policia desandou ento a prender a trto e a direito. O Jos de
Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu
isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--J
prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua.

 revoluo adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos
decididos a correr a municipal  bomba, e todo o trabalho do directorio
parece que foi sustel-os  ultima hora. Varios bandos foram prevenidos
logo que o signal falhou. Os que esperavam no caf do Rato, a hora do
assalto  casa do Joo Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral,
que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graa--e
deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas
bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em
casa d'um negociante, foi uma irm dum actor de D. Maria.

       *       *       *       *       *

--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal.


                                                  30 de Janeiro--1908.


Corre com insistencia que o Joo Chagas morreu d'uma pleurizia no
hospital.

       *       *       *       *       *

Os _bufos_ so aos centos. Pra-se a conversar--tem-se logo um _bufo_ 
perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:

--Eu no conspiro; portanto no me mandem espionar, seno corro os
_bufos_ a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei.
E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores no ho-de ser sempre
ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu
lhes tomarei as responsabilidades.--Ao que o ministro respondeu:--Se
soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!...

       *       *       *       *       *

Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz
_blague_:

--Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a
escripturao completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas
dobradas. Uma revoluo burocrata!


                                                  31 de Janeiro--1908.


Sabem qual  a impresso geral? Pena de que o movimento gorasse.

       *       *       *       *       *

At as mulheres esto furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:--Eu vou
matal-o!--Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro
foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do
Ouro:

--Eu at agora dizia que o Joo Franco tinha uns c... que no cabiam em
Lisboa. Agora no, agora digo bem alto: o Joo Franco tem uns c... que
no cabem em Portugal!

       *       *       *       *       *

O Bernardino Machado:

--Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao Joo Franco,
entregando-lhe uma carabina:--Joo arranja-me dinheiro.--O Joo Franco
executa.--Joo torna a levar a carabina e traz mais dinheiro.--E a
atitude vergonhosa das naes estrangeiras que assistem com aplauso a
este espectaculo! Porqu? Pelo que eu disse um dia d'estes a um
negociante francez:--Ha um dictado em Portugal que explica
tudo:--Ladres no se encobrem de graa!


                                                 1 de Fevereiro--1908.


O Joo Franco responde aos clamores e  revolta com o decreto d'hoje:


     Senhor--So bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos
     ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos
     revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida
     politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pr em
     perigo a segurana das pessoas e das propriedades.

     Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar
     a aco das medidas de circumstancia  esphera restricta de
     legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem
     afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperana de que
     essa publicao fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse
     aviso efficaz aos agitadores.

     D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre
     publicaes attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro
     sobre crimes contra a segurana do Estado, das pessoas e das
     propriedades.

     Factos dos ultimos dias vieram, porm, demonstrar que as tentativas
     e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido
     obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o
     rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e
     instigadores d'esta pertinaz conspirao contra a paz publica e
     segurana do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham
     accrescentar se s desgraas j occasionadas e, porventura,
     originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e  fortuna
     nacional.

     Ha poucos dias ainda, o governo da Nao vizinha apresentou s
     crtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por
     deliberao do conselho de ministros, sob prvia informao das
     auctoridades locaes, as pessoas que pertenam a associaes hostis
      ordem social e que de semelhantes principios faam propaganda, e
     como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente no o
     so mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercusso em
     toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta
     e criminosamente a forma de governo de Estado.

     N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar
     tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer
     transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez
     reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe
      segurana do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes
     da Nao afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e
     tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.

     No podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que
     contra a segurana do proprio Estado se manifestam ou que como
     inimigos da sociedade se apresentam.

     Taes so, Senhor, as principaes disposies do diploma que tenho a
     honra de submeter  apreciao de Vossa Magestade.

     Pao, em 31 de Janeiro de 1908. _Joo Ferreira Franco Pinto
     Castello Branco_--_Antonio Jos Teixeira d'Abreu_--_Fernando
     Augusto Miranda Martins de Carvalho_--_Antonio Carlos Coelho
     Vasconcellos Porto_--_Ayres d'Ornellas de Vasconcellos_--_Luciano
     Afonso da Silva Monteiro_--_Jos Molheira Reymo_.


       *       *       *       *       *

O Alpoim fugiu para a Hespanha.

       *       *       *       *       *

O Cunha e Costa:

--Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o Joo Franco. Isto
acaba por um atentado pessoal.


                                                 1 de Fevereiro--1908.


Est uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria
Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
de Mello, que conheo do Porto, e diz n'um espanto, ainda
transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O qu?!--Eu vi, ouvi os
tiros, deitei a fugir...

Fecham-se  pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo
exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois l
estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabea
despedaada!...--Ha palmas para o lado da praa da Figueira. Anoitece.
Um esquadro desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um
empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia
correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era
calvo. O policia varou-o com um tiro.

E pela narrao do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram,
reconstituo assim a tragedia:

O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei no
fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
demonstrou mais tarde que no tinha comido n'esse dia.

O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viosa, o rei
jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chamin um grande brazeiro.
Trouxeram-lhe uma carta. Para a lr melhor, levantou-se, chegando-se 
janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em
bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na
sombra...--El-Rei no joga?--perguntou o principe.--Jogo,
jogo...--Sentou-se, jogou, mas to preocupado que quasi no jantou
n'esse dia nem almoou no seguinte.

Nem uma nuvem. Tarde sem par--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma
bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estao. Havia, 
natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de Joo
Franco:--No haver perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovao!--Tinha-lha
preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha
detiveram-se uns minutos, com o Joo Franco e o Vasconcellos Porto, que
queria mandar vir um esquadro de cavalaria para acompanhar o rei. D.
Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia
real junta. Ao p da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns
policias, e, sentado n'um banco da praa um homem de varino, que veio,
sem precipitao, colocar-se  porta do ministerio do reino[6].

Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram
tantos, que se no conheciam uns aos outros.--Eu assisti--diz o
Navarro.--Fui para l uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas
cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo
desorientado. Os policias deitaram a fugir... Um negociante da rua de
S. Julio teve de os sacudir da escada. Eu estava a quatro
passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu s trazeiras do carro,
olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho
branco sahir-lhe do pescoo. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva,
nunca mais me esquece a expresso de espanto d'aquella mascara. Disse
uma palavra que no percebi bem...--Ao primeiro tiro--continua o
Navarro--a cabea do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para
o lado. O Buia, que tirra a carabina debaixo do gabo, apontava e
descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca
de dr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Ento no
acodem?! No ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buia:
sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu
 cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara
intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se
ento os tiros sem interrupo. Muita gente falou em descargas... A
policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de
Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me
valeu!... Um policia avanou direito a mim com o rewolver apontado,
exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!

       *       *       *       *       *

Correu hoje que o Joo Franco se suicidra e que o tinham acabado a tiro
quando sahia do Pao.

       *       *       *       *       *

O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em
punho, dizendo:

--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da me!

Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve
este movimento colerico: bater no Joo Franco.

       *       *       *       *       *

Acusam  boca cheia o Joo Franco--que no tomou precaues para o
rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
tarde, endireitar por uma cavalaria, para se enfiar na carruagem. De
alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no soto
dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.

       *       *       *       *       *

A rainha no Arsenal disse ao Joo Franco:

--Veja a sua obra...

       *       *       *       *       *

O rei chegou ao Arsenal j sem vida; ao principe custou-lhe muito a
morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre no teve escrupulos,
porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios
artificiaes.

       *       *       *       *       *

Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a
rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
conseguiram meter l dentro, e que o oficial de servio amparava, e, no
ultimo, o duque de Bragana. Que se iria seguir? A revoluo? Um
negrume, o terror do inesperado, afasta do Pao todos os que l deviam
estar quella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para
deante do Pao a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se
o peor. E cada um trata de no se comprometer, ou de se comprometer o
menos possivel...

       *       *       *       *       *

Phrase cruel d'um popular:

--Foi caado como elle caava os javardos--e em tempo defezo.

       *       *       *       *       *

No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis,
evidentemente chamando as tropas  revoluo. Em artilharia os soldados
sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes no os puderam conter.
Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas
vinte e tantas pessoas.

       *       *       *       *       *

A caminho do Pao, depois do atentado, o pequeno dizia:

--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...

E a rainha:

--Has-de cumprir o teu dever at ao fim.

[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]

O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior
da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.

       *       *       *       *       *

Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas  espanhola e
as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos
postados nas esquinas at s Necessidades.

       *       *       *       *       *

A rainha, quando o Joo Franco chegou ao Pao:

--Foram portuguezes?

--Foram.

--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.

E a Maria Pia, que h muito o no pode ver:

--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor
foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!

Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se,
inventam-se outras mais.

       *       *       *       *       *

O Joo Franco tinha perdido a cabea. S elle mandava: no queria ouvir
ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo
fabrico de bombas, o juiz d'instruco criminal foi-lhe dar parte do
caso. Ficou furioso:

--V beber da merda!

--Digo a V. Ex.^a que a policia no teve culpa...

--V beber da merda o senhor e a policia!

--Mas...

--V beber da merda! v beber da merda! v beber da merda!

       *       *       *       *       *

Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que
fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.

       *       *       *       *       *

Pa Vieira:

--Na noite do regicidio fui ao Pao, com o Campos Henriques. O Julio de
Vilhena, a quem procurei em casa, no foi porque lhe faltava um boto na
braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do
carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa
desagradavel ao Joo Franco no Arsenal, no Pao no lhe disse palavra. A
Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei ser muito
sentida?--Estava tudo preparado para uma revoluo. O Afonso Costa no
deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente
authentico: o Joo Franco ainda se ofereceu para governador civil de
Lisboa.

--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no
Pao. Estavam l tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais
ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a
revoluo. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os
corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de c para l,
infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio
Candido?--Elle no respondeu e ella continuou a passear de c para l
como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma
palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou
horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de c
para l, infatigavelmente...


                                                 3 de Fevereiro--1908.

Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impresso geral  d'alivio.
Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o Joo Barreira, o Armando
Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano
d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram
os homens que o assassinaram.

--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado
no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas  propria
mulher--afirma o Joo Barreira.

--Foi um grande exemplo e uma tremenda lio.

--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!

S o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:

--A memoria do rei h-de ser rehabilitada.

       *       *       *       *       *

No conselho d'estado o Joo Franco foi absolutamente inconsciente. Por
proposta do Julio de Vilhena no se leram as actas da sesso anterior,
como  costume, para lhe no ser completamente desagradavel.

       *       *       *       *       *

O Joo Franco teimou at  ultima, agarrou-se a tudo, para meter um
ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe:

--Mas no pode ser, bem v que o governo tem de revogar a maior parte
das suas medidas.

--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo at uma carta concordando com
isso.

       *       *       *       *       *

A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:

--Ento V. Ex.^a no faz testamento?

--No, o rei tambem o no fez...

       *       *       *       *       *

O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o
principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um
dos assassinos.

       *       *       *       *       *

Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma
esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.

       *       *       *       *       *

No Pao, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da
rainha est agora de cima.

       *       *       *       *       *

Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe.
Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os
homens, dizia de D. Carlos:--Nunca o pude perceber.

       *       *       *       *       *

Agora voltam-se as atenes para o novo rei. Dizem:-- Saboia.--No
conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mos dos que o
ouviam:--No estou preparado para reinar.

Os irmos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe
chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este 
mais impetuoso--mas tem melhor corao.


                                                      Fevereiro--1908.


Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.

       *       *       *       *       *

A impresso no Porto foi curiosa: Quem s onze horas da noite passava na
praa de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada
um. Ninguem discutia, no se falava alto. Era um borborinho de quem
conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia
soube-se pelo telephone do Borges & Irmo.

       *       *       *       *       *

Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a
Hespanha.

       *       *       *       *       *

As Anjos contaram  D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos
tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao
rebordo do camarote no theatro.

O homem suicidou-se quando se viu descoberto.

       *       *       *       *       *

O novo rei no gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em
pequeno dizia:

--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do
publico, isso sim,  que  gloria!...

As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:

--Isso so _mariquices_ do senhor infante.

       *       *       *       *       *

Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:

--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E no estava
estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E no
era porque elle no _tivesse vontade_, era porque _o no deixavam!_...

       *       *       *       *       *

Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.

       *       *       *       *       *

Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:

--Conheo uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os
nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella
deu-lhes uma desanda tremenda.

       *       *       *       *       *

O Joo Franco j tinha organisado listas de proscripes. A alguns
administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome
dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.

       *       *       *       *       *

O pae do Joo Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos
do Suisso.

       *       *       *       *       *

Trindade Coelho conta que Joo Franco, nas vesperas dos acontecimentos,
foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que
ahi est em Lisboa.

       *       *       *       *       *

J ha seis contos para a familia do Buia. Muita gente lhe arrancou
botes, cabellos, bocados de vestido. Joo de Deus Guimares foi vel-o 
_morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o
guarda:

--Ah! O Buia tem ainda o brao rigido!

--Qual!

--Parece...

--J teve, j, mas agora est lasso.

--Mas olhe que...

E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mo pelo brao, como quem
apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mo_.

O _frigorifico_  um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por
cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaos de gelo. Toda a
gente tira o chapu e fala baixinho. O regicida est amarfanhado, com
lama na barba e nos cabellos. Seus olhos no so olhos de
morto--exprimem espanto e colera, e a figura  sria,  tremenda. Tem
rasges, feridas na cara, e mos nervosas, mos delicadas de mulher.

       *       *       *       *       *

Diz hoje um professor que conheceu o Buia:

--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera,
quando se lhe falavam em politica:--No me falem em politiquices! no me
falem em politiquices!

       *       *       *       *       *

O Joo Pinto dos Santos:

--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos
primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros
serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de
Lemos:--O ar no! o ar no m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peo
que quando bater  porta m'a abram logo, seno no aguento. Antes duas
balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,
calas de vero, d'inverno, etc.--para ter a sensao de que estava
livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens
na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E
aquillo fez-me chorar, to certo  que a desgraa nos aproxima dos
desgraados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio
francez de philosophia, sete calhamaos de economia politica--e fui
quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque est preso?--No sei.--H uma
testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.-- falso. Estava n'uma
casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a
nossa atitude perante as prises que estavam sendo feitas.--Chamou-se um
policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. Joo Pinto dos
Santos?--No senhor.--Diante d'isto  claro que o juiz tinha de me
mandar embora. Que imagina que fez o Joo Franco? _O Joo Franco avocou
o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na
municipal fui sempre bem tratado.

--E souberam?

--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de
Campo d'Ourique. Supozemos uma revoluo gorada. Se atiram bombas ao
quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as
tropas, carregaram com precipitao as armas, um oficial passou a correr
e diante do meu quarto bradou  sentinella:--Cuidado com esse
sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou  janella, um
soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes  que continham a
soldadesca--mas at onde?

--E disse no seu depoimento que havia de matar o Joo Franco?

-- falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu
respondi-lhe:--Bem v V. Ex.^a que no quero que meus filhos possam
dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso no! Mas se um dia, depois de o
insultar bem insultado, n'uma discusso em plena camara, elle avanar
para mim, deito-lhe as mos s guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda
municipal m'o arrancam das unhas!

       *       *       *       *       *

Ha quem diga do Joo Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a
valentia vinha-lhe do Jos Lobo e dos irmos, uns tipos d'aquelle
feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o
tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que
tinha as costas quentes.

       *       *       *       *       *

Joo Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.


                                                 8 de Fevereiro--1908.


 hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fra para assistir ao
funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, est cheia de medo. E
por ahi diz-se  bocca cheia:

--Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei.  a primeira
vez que um rei portuguez morre s mos do seu povo. At agora acabavam
s mos das camarilhas.

       *       *       *       *       *

No me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os
sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de
luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem
apregoa:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_--Mais
carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma
escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o
matem. Tropas em fila, carroas de gala, generaes, diplomatas glabros,
com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a
carroa com o sceptro e a cora, e outra com crepes a rasto como se
levasse o luto da monarchia.--_O ultimo granadeiro!_...--Mais coches, e
aqui e alli o desfile cortado pela multido irrespeitosa. Um laivo de
grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvo que fazem medo...
Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decoraes, gente que mal se
atreve a olhar a plebe temerosa--silencio e um largo ah! a que se segue
uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por
largarem n'uma abalada de pavor--carros funerarios passando entre a
indiferena gelada--farrapos de multido que atravessam o prestito
propositalmente, tropas esbandalhadas, coras que parecem velhas... E
por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:--_O ultimo granadeiro!_
quem quer _O ultimo granadeiro?_...

Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam  beira das pessoas que
deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troa:--Ento morreu-lhe
alguem da familia?...

       *       *       *       *       *

O Correia d'Oliveira:

--Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou...
A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.

       *       *       *       *       *

Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:


     Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os
     Verdadeiros Assassinos

     DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.


E outros, escriptos  machina, atribuindo o crime a este e quelle...

       *       *       *       *       *

A preocupao do rei  esta:

--N'este caso que faria D. Pedro V?

       *       *       *       *       *

O Joo Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos
em diferentes secretarias.

       *       *       *       *       *

O dr. Curry Cabral, que  um homem ponderado, disse em casa das
Thomares:

--Ha cinco annos que o Joo Franco est doido.

E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:

--s vezes avanava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi.
Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mos  cara ou desatava aos
berros--e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e
vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e
sem interrupo, colera, despreso, ambio, serenidade, medo, orgulho,
riso, ferocidade, paz, vertigem...

       *       *       *       *       *

E outro:

--Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Smente o Martins
dissera, arrependido, a Junqueiro:

--Nas penitenciarias est gente muito melhor que o rei.


                                                11 de Fevereiro--1908.


Espalha-se que, se isto no socegar, o rei e a rainha se vo embora e o
estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se represso. Diz-se que h
oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma _intentona_--e
os politicos j se no entendem por causa das nomeaes dos governadores
civis!

       *       *       *       *       *

O Joo Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casaco
alvadio:

--Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de
liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz  minha
disposio. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem
bombas ao quartel, eramos despedaados. E eu, que sabia que alguns
grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema--dizia
comigo:--Se esses diabos no tm a caridade de se lembrarem de ns,
estamos perdidos!--Um dia  noite tive a impresso nitida de que iamos
ser fusilados. Ouvi rebolio, as tropas carregaram as armas, e at senti
que, com a precipitao, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei
espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse 
sentinela:--Cuidado!--O frio era mortal. O soldado encostou-se 
porta--no pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e
s s quatro horas da manh sucumbi de cansao... Que horas!  horrivel
morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...

[Figura: _Oliveira Martins._--Desenho de Antonio Carneiro.]

E o Joo Pinto dos Santos:

--Pude ver d'uma vez o _Diario Illustrado_, nas mos d'um soldado, com o
retrato do rei, mas calculei:--chegaram de Vila Viosa.

--Mas nem sequer reparou na tarja de luto?

--Eu no. O Antonio Jos d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que
o rei tinha sido morto.

--Os oficiaes--continua o Chagas--trataram-me muito bem, mas  despedida
disse-lhes:--Agradeo-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas
para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. L talvez chegue algum
rumor.

E conclue:

--Acalmao sim, acalmao, se assim o entenderem, _durante alguns
mezes_. Ah no foi em vo que trabalhamos vinte annos!...

       *       *       *       *       *

Fui hoje ao caf do Gelo ver o sitio onde o Buia se reunia com os
amigos. O caf  j de si curioso, com duas salas d'aspecto
completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas
trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua
do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto,  direita quem entra
pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam
horas a conversar baixinho.

--Eram muitos?

--s vezes doze ou quinze--diz o creado.--E ficavam at tarde em grandes
discusses...

       *       *       *       *       *

Todos os politicos so concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos
annos, alem da dotao, dez ou doze mil contos.

       *       *       *       *       *

E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda
hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias
da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o Jos Luciano disse
logo:--Escusam de procurar, isso  d'El-Rei.

       *       *       *       *       *

O _Seculo_, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000
exemplares.


                                                      Fevereiro--1908.


Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a
contra revoluo.

--Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou j
d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.


                                                20 de Fevereiro--1908.


Era hoje que devia rebentar a contra revoluo, para impr ao Pao uma
dictadura militar.

       *       *       *       *       *

Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e loua
das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramancho
pelo Augusto Pina. O homem est aqui:  uma revista de
anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e
de ternura a envolver tudo isto...

Conheceu o rei e explica-o:

--Quando queria era um _charmeur_. s vezes ninguem o podia aturar e
mentia como uma cesta rta. Ultimamente dra nesta: quando se falava
d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um
sorriso:-- minha filha.

E conclue:

--Era um grande pantomimeiro!


                                                      Fevereiro--1908.


O Antonio Jos de Freitas, amigo do Pao, do Arnoso e do Sabugosa:

--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e
de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom corao, artista, no
soube ou no quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que
pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para c o caso
explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e
sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua...
Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da
vida palaciana que se no comprehendem.

--E como artista?

--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboos. Mas, como no
tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei s teve um
mal--comeou a sel-o apenas ha um anno.


                                                      Fevereiro--1908.


Todos os dias no Pao se recebem cartas anonimas com ameaas de morte. O
medo  enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso,
e, se acorda de noite, quer por fora vr o filho.

       *       *       *       *       *

O Manuel Ramos:

Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe
arrancarem medidas de represso. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa
Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu no!--E assignava tudo. E
fique voc sabendo: no foi elle s que comeu: a maior parte do
dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos
politicos.


                                                      Fevereiro--1908.


A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque
de armas e munies.

       *       *       *       *       *

Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a
urna do rei era coberta de escarros!


                                                      Fevereiro--1908.


O Joo Chagas:

--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno
com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaos do _Janeiro_ e do
_Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo
estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta presso sobre ns como
agora... Impe-nos um governo--e esse governo, no podendo ser rotativo,
ha-de sahir da praa publica. Ora no sendo republicano,  maneira do
que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E ver! ver!...
Eu j disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se
elle e os seus amigos nos atraioarem--os seus amigos, que, diante de
mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes
procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver
servirem-se da policia contra ns. Oh, mas eu hei-de declarar que elles
 que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer s nossas mos!


                                                          Maro--1908.


O Brazo conta que na _premire_ do _Othelo_, o irmo de Augusto Machado
foi cumprimental-o ao camarim:

--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para ns) a
pea  uma grande borracheira...


                                                     9 de Maro--1908.


Na recepo de ante-hontem a ranha tinha os olhos cheios de lagrimas
sufocadas e disse:

--No tenho medo por mim,  por elle...

--Os politicos, agora vo ter juizo...--disse alguem. E ella respondeu:

--Os politicos no teem corao.

E o rei dizia a um e a outro:

--Seja bom portuguez e meu amigo.


                                                          Maro--1908.


--Vou a Lisboa--diz o Columbano ao conde d'Arnoso.

--Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos  solta.


                                                          Maro--1908.


Antonio Jos de Freitas:

--O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e,
conversando com Rouvier, perguntou-lhe:

--Se se fizer a republica em Portugal?...

--Que me importa! Que me importa mesmo que se faa a republica em
Hespanha. Mas se se fizer a federao iberica, ento alto l! fazemos a
federao latina.


Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:

--Que familia! O melhor de todos  o cego--mas esse mesmo, se tivesse
olhos, era preciso furar-lhos!


                                                          Maro--1908.


O Joo Chagas:

--O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revoluo. Foi o que
elle fez. Ns tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de
reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida,
que disse:--Eu no s no sou republicano, mas sou
anti-republicano.--Quando sahiamos das reunies, eu e o Afonso Costa
riamos s gargalhadas.

Este Joo Chagas to facil, to insinuante, com o riso prompto nos
labios grossos e sua ppa branca no alto da cabea, nunca conversa,
nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fr, conspira logo.
Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e
correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta
alma, sob este riso e esta ppa que parece pintada, s existe uma
vontade que nunca esmorece, uma ambio tenaz e um egoismo feroz.

--Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, no passa d'ahi!  um conflicto
inevitavel. Que me importa o Porto?

E como eu duvide:

--Temos o exercito comnosco. At na municipal. Na provincia ha terras em
que os regimentos so completamente nossos.


                                                          Abril--1908.


Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a
proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no _Jornal do
Commercio_, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fra
procurar ao Porto e lhe dissra do D. Carlos:

--D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios
seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as
armas reaes.


                                                       Novembro--1908.


A rainha no disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual
ouvida pelo Batalha Reis:

--Os outros no os conheo, mas aquella cara do homem das barbas nunca
mais me sae dos olhos[7].


                                                       Dezembro--1908.


O caso do dia  este:--Um alferes da guarnio no Pao, quando assistia
ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as
conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:--Vossa
Magestade anda iludido. Esta gente que o cerca engana-o. A situao do
paiz  deploravel, etc.

Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente,
interrompida pela primeira vez naquella representao em que o
formulario  respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o
que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas
poz o dedo na ferida. O rei est rodeado de fices e de mentiras. No
soube assumir as responsabilidades do pae, com deciso e coragem, nem
totalmente repelil-as.

Enredam-no. Os politicos do-se o ar de o proteger e  elle quem os
protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...


                                                        Janeiro--1909.


--Esta vida artificial como lhe sinto a falta!--exclama o Fialho ali ao
p do Suisso.

--E porque no vive em Lisboa?

--No posso! no posso! Se soubesse!... Tenho um irmo epileptico, que
meu pae me legou  hora da morte. No devo abandonal-o, nem entregal-o a
mos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente
cria amor...--Uma pausa triste, uma hesitao, uma duvida e acrescenta
isto:--No tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!

Falamos de politica:

--Isto est a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo no ha
republicanos--ha odios. O pobre no pode vr o rico.  uma gente roda
de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiar um
campo...

       *       *       *       *       *

O Joo Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:

--A revoluo abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos
presos. O Chagas tinha nas mos as chaves do movimento.

       *       *       *       *       *

Quem so os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio,
declarou que no tinha apurado nada de definitivo. Diz:--Eu bem sabia,
por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os
fazer...--Porqu, almirante?--A situao no me era agradavel.

       *       *       *       *       *

Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reaco. Agora
 certo!... Os regicidas vo ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira
dissera:--Vendi a carabina a Fulano.--O ministerio Amaral cahiu, porque,
dispondo de todos os elementos, no quiz prender os assassinos. Um dos
regicidas est em Frana, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.

       *       *       *       *       *

O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi
correu, de que o rei se confessa todas as semanas.

       *       *       *       *       *

Larga distribuio d'estes papelinhos:[ver nota de editor]


                                                        Janeiro--1909.


Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de
lisboeta--caf, conversa e parodia, cheio de graa popular e literaria.
J reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um
cabaz no brao e um chalemanta s costas... Esteve amigado com uma
mulher j _fanne_, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que
ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais
ilustres familias de Hespanha. A mulher no tinha dinheiro, mas alguem
presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella
iam vivendo dos trastes, hoje um trem vendido, amanh uma comoda,
depois um sof...

--E que tal, Munhoz?

--Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje
almoamos ns um _bidet_--e por signal que no estava nada mau!...

       *       *       *       *       *

L no alto, no friorento Pao d'Ajuda, entre gente caduca e algumas
damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma
figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o
filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pra de regar conta:--Um... dois...
trs...--A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos
assassinados? Senta-se  meza e diz a figuras imaginarias ou aos
phantasmas que se sentam a seu lado:--Come, Luiz? No queres d'este
prato, Carlos?--E l torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores
que no reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher
elegante, que despertou paixes e inspirou poetas, parece uma velha
actriz, cheia de rugas, sem contracto, fra do seu meio e da sua poca.
Ao vel-a passar, baixando a cabea para aqui e para acol, no mesmo
gesto machinal, a gente supe que o passado sahiu do sepulchro e teima
em sorrir-nos, com os dentes postios e o cabelo pintado a escorrer
amarelo...

       *       *       *       *       *

O D. Afonso adora o sobrinho. Afiana:--Se m'o matarem quero ser rei uma
hora, mas n'essa hora hei-de mandar...

       *       *       *       *       *

--E o rei?

--O rei...--diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Pao--O rei  um
fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de
orgulho.--E acrescenta:--No trata, como o pae, a gente por tu, mas por
voc.


                                                        Janeiro--1909.


Fala-se com o Antonio Jos de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:

--Era um pedante.

--Se era! O que vocs no sabem  que deixou vinte e tantos calhamaos
sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros
no se apura uma pagina...

Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...

--O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Pao--e algumas por causa
do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o _Hamlet_ commigo--elle que me
roubou duzentas e tantas phrases!--e eu disse-lhe:--Pois sim, vamos l
discutir, mas V. Magestade no ha-de extranhar que eu me defenda com
quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor
de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem
nervoso...--E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle
disse-me:--Pois sim, Freitas, mas voc o que no pde  conceber o
_Hamlet_ como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque no tem a
minha categoria. S um principe sabe o que  dissimular...

E eu respondi logo:

--Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria,  porque  um
diplomata; se  por organisao  porque  um histerico...

E elle mandou-me embora.

       *       *       *       *       *

Quem os pe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do
Brazil, so os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os
incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os
classicos musicaes, mas, como no estudava, tocava mal. Pois um dia o
Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:--Vou organisar um
concerto em minha casa, para que V. Magestade, que  um dos melhores
musicos que conheo, seja ouvido e apreciado.

       *       *       *       *       *

O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com
gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a crte, ficava com os
particulares, com a gente que lhe chamava _doutor Tavares_, e ento
regalava-se de escandalo, de ditos, de m lingua ordinaria.

       *       *       *       *       *

No me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher
_caline_, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde
que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.

       *       *       *       *       *

A Maria Pia  uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada,
sem me. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se
anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:

--Casa por amr. Fez a crte  mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe
flres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o
camarote.

       *       *       *       *       *

No sei quem fala do Saldanha...

--Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vr
livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de l responderam
que no era _persona grata_. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse 
rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:--Mandem l esse velho
pecador.


                                                      Fevereiro--1909.


O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guin no tempo
do Hintze:

--No, no me falem em dictaduras nem em governos de represso! Quando
fui governador da Guin apareceram-me l um dia cem homens mandados pelo
governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicao
de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria
desfazer. Que lhes havia de fazer na Guin? Sentei-lhes praa, e d'esses
_criminosos_, aos quaes nunca tive ocasio de aplicar um castigo, seis
mezes depois tinham morrido _cincoenta_ de febres!...

       *       *       *       *       *

No outro dia--diz o Freitas--estive com a rainha D. Amelia. Est uma
mulher amarella e feia, enorme, com as mos do tamanho do Maximiliano
d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei,
perguntei e explicaram-me:--So os aneis de brilhantes, que ella
arrancou aos cadaveres do marido e do filho--e que traz sempre comsigo.

       *       *       *       *       *

Um empregado da fazenda:

--Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de
dividas  fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e
como quer. S os desgraados so penhorados. Isto representa muitas
centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por
desleixo.


                                                      Fevereiro--1909.


O Pad'Z contado pelo Vicente da Camara:

--O extravagante Pad'Z era no fundo um homem methodico. Quando chegava
a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama
para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado ser dizer que, meia
duzia de dias depois, dormia no cho. Mas  cabeceira l estavam sempre
muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se
matou, na propria hora em que deitou a mo ao rewolver, alguem o
convidasse para uma ceia,--adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por
uma guitarrada.

       *       *       *       *       *

No dia em que fugiu para Badajoz o D. Joo da Camara encontrou-o: levava
para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis
emprestados.

       *       *       *       *       *

Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os s vezes
aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na exploso foi
encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador
seis peras do Fundo. Trazia-as s vezes pela rua n'uma malinha de
mo, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo
intimo, para lha segurar:--Mas tem cuidado que so ovos!...--observava
sempre.

       *       *       *       *       *

Dizem por ahi que se matou, para no matar... Tinha-lhe cahido em sorte,
n'uma _loja_, executar um alto personagem...


                                                25 de Fevereiro--1909.


Visita ao Coelho de Carvalho, que est doente, e mora n'um velho
palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com
golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes
d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso
azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados.
So restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre,
fala-se em politica. No se fala n'outra coisa...--A policia tem o
processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia
21, n'uma _loja_ maonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim
esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo
com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinao
politica com o Joo Franco? Disse-mo elle a mim:--O acordo esteve feito
para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e
Beltrano decidimos perdel-o...--Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle
proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graa.
Tinham at ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os
adiantamentos. E foi por isso que o Joo Franco pde responder como
respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mos provas d'essa
combinao.

Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e
dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma
existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista
acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado
que foi muito tempo no ministerio da justia,  hoje alli n'uma meza do
Martinho. Desconfio que mistifica os clientes--para se divertir... As
dificuldades da sua vida so talvez invenciveis, mas a desgraa
encontra-o sempre de p, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas
brancas enquadrando uma face moa, e oculos redondos de tartaruga, que
lhe do uma aparencia de retrato de Holbein.--Os oculos de
Spinoza...--como elle lhes chama.


                                                          Maro--1909.


O Armando Navarro:

--D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a
forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que
conheo, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar 
Hespanha,  o primeiro passo...


                                                     6 de Maro--1909.


Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a
alguem a chorar:

--D'esta vez  certo! Sinto que vou morrer... E a vida  to linda!

Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa
enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas
da sua terra. O monologo comeava assim: Boas noites, meus
senhores.... Entrou no palco e disse a phrase:


     Boas noites, meus senhores...


E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e
responderam  uma:

--Muito boas noites, senhor Taborda!

A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos
Calafates, entre a conveno e a mentira, andar por cima, andar por
baixo, coras secas, photographias e recordaes de bastidores. Um velho
tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando
sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... So
mais felizes.


                                                          Maro--1909.


As declaraes do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram
autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:--A
reaco envolve o rei.--Acrescenta-se c fra que  um jesuita
hespanhol quem dirige o rei e o Pao, e parece certo que o Ferreira do
Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas  missa--fazendo-o
visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...

       *       *       *       *       *

Espalha-se que foi a rainha quem pz fra o Ferreira do Amaral, e que
elle quer l voltar para lhe dar uma lio.


                                                          Maro--1909.


Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta.  um
velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretenses e os
cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A
mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas--e ficou pobre: so as
Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e s sae
de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale  a creada, uma
destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que
j disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias para o
senhor visconde no passar necessidades. O senhor visconde vive n'um
cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com
magnificas encadernaes.


                                                          Maro--1909.


Fuschini, que fui hoje visitar, est velho e tem uma doena de corao
muito adiantada.

--Porque no escreve as suas memorias?

--No sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia...
Depois deixo-me d'isso.

E conta-me:

--Quando foi da converso da divida externa fui eu e poucos mais que
obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto.
Creia... Chegaram a dizer-me:--No faa questo, que ser um dos membros
da junta.

E diz:

--Ao tempo da dictadura do Joo Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um
congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o
Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relaes cortadas
com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me
o peor que  possivel do rei e acrescentou:--Aceito a sua ida... E tem
casa?--Tenho.--E se a policia intervier?--Resistimos e apelamos para o
povo.--Bem, v falar ao Jos Luciano.--Procurei essa _vil alforreca_,
que exclamou:--Mas isso  a revoluo!... Preciso de falar primeiro com
o Hintze. Tenho uma ida melhor...--Dias depois o Hintze dizia-me:--O
Jos Luciano no quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos
para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.--Tambem me lembrei de
escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos
estadistas portuguezes.--Excelente, disse-me logo o Hintze, venha c
amanh... Olhe, amanh no, que  o enterro do Casal Ribeiro. Depois de
amanh.--No dia seguinte estava morto.


                                                          Maro--1909.


Eis a impresso geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do
Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros
regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Pao. Toda
a gente diz que a rainha est feita com os reaccionarios. O D. Carlos,
emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo s primeiras investidas--festas de
Santo Antonio, etc.--poz-se do lado dos que combatiam a reaco. Agora
manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Pao
e perguntou pelo rei.--Est com o seu director espiritual.--Ento
preciso de falar  rainha.--Est tambem com o seu director espiritual.

       *       *       *       *       *

A rainha--dizem-no todos--arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na
de deitar a perder o rei.


                                                          Maro--1909.


Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do
general Baracho para se pr  frente d'um movimento.

--Bem sei, vocs querem que eu tire as castanhas do lume, para que os
outros as comam!


                                                          Maro--1909.


O Cunha e Costa:

--O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao
Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou
ao Amaral:--So os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco
de Abril...--Vou indagar.--Meia hora depois:--Est? Sou o Amaral.--E
muito placidamente:-- Bernardino, olhe que aquelles homens que os
senhores mandaram para o Campo Grande ainda l no chegaram...--!!!--Os
republicanos do _Mundo_, quando lhes constou que iam ser
atacados:--Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...--A casa do
cidado  inviolavel e todos teem o direito de se defender.--Ao Pimentel
Pinto, cheio de dividas e que no paga a ninguem, respondendo  acusao
de jantar com os makavenkos:--Janto, janto, mas pago, meus senhores,
pago sempre.--Ao Arroyo, quando lhe dizia:--Enganaram-no, almirante.--
que eu sou um ingenuo.


                                                          Abril--1909.


Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima  amante da
rainha D. Amelia.

       *       *       *       *       *

O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:

--Um orgulho desmedido, uma deciso rapida, e uma insensibilidade, como
nunca vi, ao frio,  fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer
questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfao  Alemanha. Que
scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas
as condecoraes--todas. S l deixou a Aguia Vermelha que obriga o
alemo a conservar-se de p diante dos que a teem. Poz o _bonnet_ s
tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos--e
elle,  porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase
protocolar:--O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me,
etc.--E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao
_bonnet_ e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.

       *       *       *       *       *

Jayme de Seguier encontra o Joo Franco no estrangeiro. So amigos. E
Joo Franco que no queria, que jurra no tornar a falar em politica,
durante duas longas horas no conversou, no falou n'outra coisa.

--Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu no
previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabea...

--Mas o que eu no comprehendo  que dissolvesse as crtes estando
aliado com os progressistas...

--Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso
 que no. No podendo tel-os como amigos, ento antes como inimigos
declarados.

Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um Joo Franco cheio,
de sensibilidade e de corao, capaz de ir at ao fim...--P'ra diante!
p'ra diante contra tudo e contra todos!--Era um convencido. Diz-se que
os outros o empurravam. A verdade  que ninguem o podia deter: nem
palavras nem aces o faziam recuar; ia como uma bala na sua
trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros Joo
Franco expoz a situao: o movimento revolucionario, as medidas que
tomra, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinio
e concluiu:

--Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de
vencermos, governaremos...

Ao que Joo Franco respondera:

--No, podendo evitar-se o sangue--evitamol-o.

E Jaime Victor conclue:

--A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicaes. Elle,
por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca
mais se far. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o
receber.


                                                       Novembro--1909.


Guerra Junqueiro desalentado:

--Isto est liquidado, a ocasio passou. Agora o rei casa com uma
ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra
por traz da cortina. No reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei
que os auctorisa a vender inscripes.  a bancarrota adiada por muito
tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna  reduzido, mas vae-se
vivendo e paga-se ao estrangeiro, que  o principal.

       *       *       *       *       *

Do Joo Franco diz:

--Mentia com o corao nas mos... Ento  que era ocasio. O Franco e o
rei eram dois ces damnados... A ocasio passou, a republica passou.

       *       *       *       *       *

O Carneiro de Moura:

--Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para _O
Portugal_, vinte contos. J l vo em pagodes!

[Figura: _Dantas Baracho._--Caricatura inedita de Celso Herminio.]


                                                       Novembro--1909.


Conta hoje o Fuschini--sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a
caminho da S, com o chapeu sobre os olhos e um rlo de papeis debaixo
do brao, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o corao cada
vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade
e dos cabelos todos brancos:

--O Soveral  um homem de negocios[8]. O que elle quer  dinheiro. J
tive todos os fios d'essa meada nas mos... Obrigou agora o rei a ir 
Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois
mezes esteve em Lisboa um correspondente do _Dail Maily_, que contou 
Alice que o proprio duque de Fife mandra ao jornal o seu secretario
desmentir a noticia do casamento.

       *       *       *       *       *

O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:

--Quem deu o dinheiro para _O Portugal_ foram as beatas. Um padre
lazarista  que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. S a
viscondessa de Sarmento deu seis.

       *       *       *       *       *

Um artigo curioso do _Corriere de la Sera_, assignado pelo Gomes dos
Santos:


     Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma
     conspirao de aventureiros que punham o seu brao ao servio do
     radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em
     nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do
     regicidio e cujos auctores at agora tinham ficado envoltos no
     mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um
     caminho seguro para a liquidao das responsabilidades. Hoje
     ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a
     aparencia de loja maonica,  o verdadeiro poder executivo do
     partido revolucionario, o brao sempre prompto a ferir, a espada
     que cae traioeiramente sobre as victimas designadas pelos
     dirigentes da politica radical?

     Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o
     regicidio. Na confuso da tarde tragica, a policia cae sobre dois
     dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre
     firme a convico de que os regicidas no eram smente Buia e
     Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convico
     fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes no
     havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia
     d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido
     organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova
     material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a
     carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e
     observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos
     quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver
     fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua,
     confundindo-se depois com a multido espavorida que fugia do logar
     do crime.

      um vulgar principio de investigao judiciaria que os deliquentes
     se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora
     quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se
     houvesse produzido uma mudana politica, aproveitavam evidentemente
     os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se
     tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituio
     de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos
     quaes Joo Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os
     seus principaes chefes e ameaada toda a sua organisao, os
     republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mo, as
     posies primitivas. No ha outras hypotheses a considerar, visto
     que o crime no podia ter sido perpetrado por uma conspirao de
     monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque
     os regicidas no eram anarchistas.

     O Buia e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas
     ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam 
     sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os
     criminosos politicos. Homens de aco, pertenciam a uma loja
     secreta, a Montanha, mixto de instituio maonica e de comit
     revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um
     simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se
     compe de homens _capazes de tudo_. Tudo deixa crer que o regicidio
     foi ahi deliberado e que, como  costume, os executores foram
     tirados  sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha
     d'um dos regicidas, cujo passado se no ilustra com actos de grande
     coragem individual.

     Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida srie de delictos
     politicos, no mais se tratou de fazer luz. No se chegou a apurar
     quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou
     esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar
     silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que
     vieram documentar melhor a existencia d'uma organisao que
     liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraar
     o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um
     humilde engraxador apresentava-se  policia perfeitamente apavorado
     e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lanar uma
     bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A
     declarao era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois
     mencionados instigadores, um dos quaes  fulminado por uma
     congesto cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara
     para colher do denunciante novos esclarecimentos, v o engraxador
     morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflices. O
     desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por
     falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a
     imprensa revolucionaria, que j se dispunha a desviar a opinio
     publica com um diversivo.

     Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita.
     Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento
     revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves
     pelo tribunal, graas ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que
     se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento
     passeava um dia em Setubal, para onde fra transferido, quando um
     revolucionario se lanou contra elle e lhe cravou um punhal no
     corao. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia
     inverosimil de rivalidade que as investigaes policiaes
     desmentiram. Quanto  opinio da auctoridade e dos que conhecem de
     perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha
     revolucionaria,  clara e expressa: o sargento foi condemnado 
     morte por ter denunciado a existencia da conspirao.

     Dois suicidios mysteriosos--um sob o comboio de Cascaes, outro na
     redaco d'um jornal revolucionario--parecem ter intimas relaes
     com a existencia da Mo Negra local.

     Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos,
     preferiram escapar pela morte s intimaes d'uma implacavel
     organisao secreta. No fao aqui meno do caso das bombas
     explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas,
     depois da execuo de Ferrer. No ha provas da interveno da Mo
     Negra, mas simples indicios de presumpo. Mas o que acabou de
     esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa
     associao secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes
     independentes dedicaram longas columnas.

     Vo decorridos alguns mezes depois que na administrao das
     alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam
     para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de
     armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela
     captura d'um cumplice--um dos implicados na revoluo republicana
     de 28 de janeiro--que era o receptador das armas roubadas. J a
     policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a
     complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario,
     quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito
     kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o
     empregado da alfandega, auctor do furto.

     Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as
     indicaes fornecidas pela familia do assassinado, a policia
     reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo
     descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido
     e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpr a
     fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem
     refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta;
     as promessas no so mantidas e o refugiado escreve aos que o
     haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como no obtivesse
     resposta, ameaa-os com declaraes. A Mo Negra destaca para
     Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com
     promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasio
     levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo
     destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do
     alto das ribas.

     O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em
     Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois
     de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em
     contradio, no sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no
     fato, confessa finalmente que cometera o crime,--e que, alm de ser
     antigo empregado n'um centro republicano,  membro da associao
     secreta a Montanha, como os regicidas, como os auctores dos
     outros crimes politicos.  a existencia da Mo Negra averiguada e
     confessada.

     Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta
     sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio;
     jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante
     acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle.
     Depois, desesperados por no poderem conservar-se calados,
     comearam a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaar a
     imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou
     dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha
     assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios
     tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o
     transferir do deposito de segurana para uma caserna militar, onde
     est de sentinella  vista.

     Por outro lado, diz-se que as declaraes relativas ao crime de
     Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e
     a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros
     da Mo Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a
     fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mo
     Negra  uma especie de comit executivo, dentro do qual se encontra
     todo o elemento revolucionario. Dispor o Estado de fora para
     resistir a esta formidavel organisao que nem sequer hesita ante o
     crime?

     A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder
     aps o regicidio, no auctorisa a responder tranquilamente a esta
     interrogao...



                                                       Dezembro--1909.


Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiaes
carbonarias.


                                                       Dezembro--1909.


O A... que se suicidou hontem tinha-se alcanado em no sei
quanto--outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcanou-se em
dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.

       *       *       *       *       *

Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia
um companheiro de repartio:

--Tenho l em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito
negro que queria que voc visse.

Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos,
lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de
Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e est
hoje na galeria do Pao d'Ajuda.


                                                       Dezembro--1909.


O Avelino d'Almeida:

--A verdadeira razo por que o _Seculo_ se fez republicano?...  que no
Pao, das ultimas vezes que o Silva Graa l foi, receberam-no mal,
trataram-no d'alto.

       *       *       *       *       *

--Um homem muito honesto o Hintze--diz o Carneiro de Moura--um homem
muito honesto que fazia assim:-- Val-Flr, empreste-me vinte contos.--E
o Val-Flr emprestava-lhos--e recebia do Estado compensaes que valiam
o dbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do
Estado o valor de cincoenta mil reis.


                                                       Dezembro--1909.


Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno
Chiado:--O rei mentiu-nos! o rei  um imbecil! o rei tinha-nos prometido
o poder!

E o Vilaa conta:

--O Jos Luciano reuniu-nos hontem  noite, a mim, ao Beiro, ao Dias
Costa, ao Moreirinha e disse-nos:--Se os senhores esto no partido
apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto
acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. No podem recusar
as pastas que eu lhes indicar.--Todos se curvaram, o Vilaa, que perde
dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria
ser outra vez ministro.


                                                 23 de Dezembro--1909.


O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador.
Conta o Joo Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabea
alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima
entrevista, dizendo a alguem:--S lhe faltou bater-me...


                                                       Dezembro--1909.


O Mardel  um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como
as suas mos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar
uma figura. Sabe tudo e inventa o resto.  um prazer ouvil-o. Constroe
genealogias, negoceia em _bric--brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a
um figuro que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava
desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala,
perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte
quadra:


Do Imperador, de quem diz que  filho,
Tem o retrato na sala,
Mas da p... que o pariu
No tem retrato nem fala...


       *       *       *       *       *

Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto
venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas
a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois
fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive
hoje arredado em Torres Novas.

--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos
Pombaes, os que fizeram a liquidao, pediram-me para lhes ceder um
andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se
fazer o leilo. Cedi e antes da praa fui l, agradaram-me diferentes
coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas
iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram
precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se
as armas de Pombal. Quatro coloquei-os  entrada da minha casa, o outro
levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia
reparei: por causa do calor o verniz estalra. Levantei-me, olhei: sob a
casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquel_--e debaixo
das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! To certo  que
at os grandes homens esto sujeitos a estas miserias...

Depois trata da baixela do Pao, que no tempo de D. Luiz estudou a
fundo, e que ento andava a trouxe-mouxe pelos armarios. So peas
magnificas, _sign Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez
disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar
com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma crte da Europa
apresenta uma sala assim.--Ainda hoje no ha crte nenhuma, nem a da
Russia, que tenha uma baixela to rica. So mil e tantas peas
admiraveis.  falso que l esteja tambem a baixela do duque de Aveiro.
Vi as contas todas, photographei tudo...

       *       *       *       *       *

--Um dia fui ao Leito ourives, a esse artista...--e sorri com
ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata
antiga a um canto.--Que  aquillo?--Est alli para derreter.--Deixem-me
vr.--Eram trs peas esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma
salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos
magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festes
d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--So para derreter?
Ento venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou
seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma
tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me
alguns contos de reis.

Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peas que
tinham pertencido ao D. Fernando e nas quaes alguem fez mo baixa...

       *       *       *       *       *

Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou
sempre na tradio da sua familia:

--O D. Joo VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota
Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em
Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella no cede. Pede,
suplica--perde o seu tempo. A rainha est renitente. Ento retira-se
depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e
d com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso
manguito...

       *       *       *       *       *

Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto
Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.-- o
_pendant_ do que est no Museu. E estou em vesperas de comprar mais
quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
todos estes quadros pertenceram  galeria do duque d'Aveiro.


                                                        Janeiro--1910.


Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente,
de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha  cabeceira. Os
creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram
foram dar com elle morto, agarrado  campainha, n'um ultimo desespero...


                                                        Janeiro--1910.


O juiz d'instruco criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:

--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer
quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas
automaticas. Meteram-no no calabouo--e confessa, no confessa... o
homem nada! Ento o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Ns vamos
alli para a porta do calabouo e tu diz-me a tudo que sim. Vamos l.--E
comeou:--Carrega l essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que
vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do
calabouo o preso atirou-se-lhe aos ps:--No me matem que eu confesso
tudo.--Ento quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a
participao para o governo civil--mas s chegou s mos do juiz depois
da morte do rei...

[Figura: _Jos Maria de Alpoim._]

       *       *       *       *       *

O juiz:

--Estamos sobre um vulco. Prendi varios homens das associaes
secretas, podia prender mil. J ninguem salva isto a no ser uma forte
dictadura militar. E eu vou-me embora porque no quero incorrer nas iras
populares.

       *       *       *       *       *

O dr. Antonio Emilio ao Beiro:

--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa  espera que
os chacinem.

E garante que a exploso de outro dia na Baixa, atribuida a gaz
extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.


                                                        Janeiro--1910.


Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu  mulher do Jos
Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,
diz-se...


                                                      Fevereiro--1910.


O Pao est rodeado de piquetes. Foras vigiam a Tapada. Garante-se por
ahi que, emquanto os regicidas no forem presos, o rei no casa. O
Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as
foras do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens
do general de diviso e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro
aviso.

       *       *       *       *       *

O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido,  tremendo. Diz-se
o que _O Povo d'Aveiro_, que est tendo tiragens enormes, publicou nos
ultimos numeros[9].

       *       *       *       *       *

O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o
Alpoim, e j se tem gabado que  elle um dos auctores do _Diz-se_...

       *       *       *       *       *

O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:

--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente
preparado para a deposio de D. Carlos--marinha, tropa, organisaes,
tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa no quiz dar o signal sem que
o Joo Franco estivesse morto.


                                                          Maro--1910.


 reunio celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei,
assistiram trinta pessoas.

       *       *       *       *       *

Pa Vieira:

--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio
cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu
lhe conto: um dia estava em Pa, quando o Hintze me chamou. Parti logo,
corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel
na mo.--Desculpe e obrigado. J no  necessario. Recebi hoje esta
carta do rei que me levou a pedir a demisso.--Repliquei-lhe:--Sei
perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por
phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso
Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa
carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fra mandada pelo rei aos
republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao
Hintze.


                                                          Maro--1910.


Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fra! Este,
de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se
conseguiram apoderar, agarrado  terra, conservador, discutindo com o
padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este --emfim!
emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As
suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a
escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma
revolta:

-- horrivel a minha vida na aldeia. Se no fossem os livros j me tinha
suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial
de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, no falo com ninguem, no tenho ninguem
com quem comunicar. So de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais
pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente no tem
dinheiro, estamos perdidos!...

--Fuja.

--No posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse s
oliveiras que plantei,  vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em
que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli
ando  roda toda a noite a falar ssinho como um condenado!


                                                          Maro--1910.


Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S.
Boaventura diz-me que, pela av materna,  ainda parente de
Herculano.--Que eram seus avs?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato
Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano
descende de pedreiros e toda a sua obra , na realidade, a d'um homem
que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios
montantes que metem o ferro at  raiz da fraga, racham o penedo,
afeioam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano
edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis
lavores... A seriedade, a obstinao, e at o amr  terra, ao azeite e
ao po, seu ultimo ideal e refugio, so caracteristicos e o ideal tambem
d'essa legio de trabalho imensa e obscura, cuja alma,  fora de lidar
com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, s osso e
pelle, descarnadas, que partem de manh com o saquitel e a bora, que s
pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam
o pedao sco de po com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar
um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o
universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de
edificar com alicerces para seculos. Tudo, at a falta de phantasia e
imaginao, at o miudo lavor pacientemente trabalhado, at a casa
simples, vulgar e mal repartida, at a companheira, at a austeridade,
veio a Herculano d'essa grande gerao de pedreiros portuguezes, que
antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no
p--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a
grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes
mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem,
sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra
do pedreiro maximo de toda a sua gerao.


                                                          Maro--1910.


Jos d'Azevedo:

--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da Unio
Vinicola. Disse-lhe logo:--No, meu senhor, no voto. E V. Magestade
pede-me isso porque no sabe de que se trata. O projecto  ruinoso.


                                                          Abril--1910.


O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso
Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve
estes dias para se suicidar. A mulher no dorme e o irmo d'ella entrou
hoje n'_O Imparcial_ e disse ao Jos d'Azevedo:--Se isto assim continua
minha irm endoidece, e se minha irm endoidece eu mato o Afonso
Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos
negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus
vencimentos suspensos...

       *       *       *       *       *

Porque o Jos d'Azevedo no foi ministro com o Hintze:

--O Hintze tinha por mim uma grande admirao, mas nunca me fez
ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia
em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes
estava o meu nome, eu disse:--Mas isso no  uma lista de pares-- uma
lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou.

       *       *       *       *       *

Quem roubou ao Pa as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu
no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues
vendo um rapaz de dezeseis annos na redaco d'_O Imparcial_,
disse:--Este  o creado do Pa, que vae muito ao _Mundo_ e pertence s
associaes secretas.

       *       *       *       *       *

--O Jos Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o Jos d'Azevedo.

--Emquanto fr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E
acrescenta:--Quem manda  o seu _salo_ onde se fazem os negocios mais
escuros e mais porcos d'este paiz.

       *       *       *       *       *

--Esse ministro italiano que ahi est--conta o Jos d'Azevedo--foi um
dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, ento secretario
de legao em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da
inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe
disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--No se importou. Procurou
Bernard Lazare, que o recambiou para o Jos Reinach.--Isso 
extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e
examinaram os documentos da legao italiana. Dos papeis no s se
deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta
preciosa informao: o adido encarregado da espionagem alem possuia a
esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau
partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicao das
cartas. O imperador opoz-se. Paulucci no desanimou: foi a Roma, bateu 
porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza
de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel
triumphante no mundo; falou emfim a Leo XIII, a quem s arrancou boas
palavras. (E d'ahi veio o combate da Frana republicana contra o
clericalismo. Que outro no seria o papel da Egreja se Leo XIII se
manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu
tio tem nas suas mos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e
pode dormir descanado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador
conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo.
Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questo
Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de
Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre!

       *       *       *       *       *

Jos d'Azevedo:

--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a
terra. Tinha-me feito um agravo que, se  directo, m'o pagava n'um
conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O Jos Luciano no queria.
Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma
tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Pa, que encontrra o
Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do Jos
Luciano), carta em que lhe dizia: Ouvi que vae formar ministerio com
estes nomes... O Campos Henriques mostrou a carta  mulher:--Olha o que
me diz o Pa...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Pao e
organisava o ministerio, tal qual o Pa lhe dizia na carta. Ordens de
Jos Luciano.


                                                      1 de Maio--1910.


Jos d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--No so
sessenta contos que faltam, so oitocentos! A escripta est toda
viciada. Venderam-se obrigaes, deram-se juros entrando-se pelo
capital, emfim um descalabro medonho, que se no podia fazer sem
auctorisao dos governadores.

       *       *       *       *       *

 um politico reservado e frio? No sei.  um homem audacioso e
inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.
Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda,
linguado atraz de linguado; nem hesitaes nem duvidas e um prazer que
synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... No escrevo, babo-me...--No
cr seno em si mesmo, e no deve ter um amigo, como todos os que contam
apenas com as suas proprias foras. A mulher d'um diplomata que viajou
com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me
medo.--So os olhos dos Brocas.

--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui
com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes
primeiro a carne dos ante-braos, depois a das pernas, depois os seios,
depois os braos e as pernas pelas articulaes; do-lhes emfim um golpe
no corao e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz,
os desgraados no deram um unico grito, um s gemido: erguiam a cabea
e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a
que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o
degolar...

       *       *       *       *       *

Uma phrase camilliana de uma tia, irm de Camillo:--Sobrinho, Deus no
existe... ou embarcou!

       *       *       *       *       *

E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza
Martins, para o sacudir, comeou ralhando muito. Camillo, para o Jos
d'Azevedo, depois do medico sahir:

--V, meu sobrinho, v, no me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos
de boticario!

       *       *       *       *       *

Camillo para o Jos d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que j estava no
primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraado... Era um rapaz
inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porqu,
sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.


                                                          Junho--1910.


Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana.
Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:


                       ||  Ide escravos quebrar os grilhes,
                       ||  As algemas da fome homicida;
                       ||  Armas promptas contra esses ladres,
                       ||  Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)
                       ||  Nova aurora de Paz, Redempo,
                       ||  V doirar nossos valles e cerros,
PROPAGANDA ELEIOEIRA  ||  Libertando os captivos dos ferros,
  DO BLOCO PREDIAL     ||  Dando aos pobres a luz e o po.
  ----------------     ||
(Musica--A MARSELHEZA) ||            Avante! Lusitanos!
                       ||            Largae a servido!
                       ||      Unir! Unir! contra os tyramnos,
                       ||            Salvemos a Nao!
                       ||            Avante Lusitanos,
                       ||            Salvemos a Nao.
                       ||
                       ||
                       ||                                  Tareco.



E o folheto Os Barbades[11]:


     O rei D. Joo I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha
     de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O
     Barbado_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de
     Barcellos e primeiro duque de Bragana; casando este com uma filha
     do condestavel Nun'Alvares, deu origem  nobre casa que ha 267
     annos reina em Portugal.

     A casa de Bragana foi-se engrandecendo  custa de doaes regias,
     bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o
     capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer
     voltar ao seu legitimo proprietrio: *A Nao*.

     No foram os servios relevantes que engrandeceram esta casa, mas
     as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o
     glorioso infante D. Pedro  chacina de Alfarrobeira.

     Com a revoluo de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o
     oitavo duque de Bragana foi aclamado rei com o nome de Joo IV;
     beato e poltro liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o
     titulo de rei, no hesita em negociar por intermedio do padre
     Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz  Frana, ou
     novamente  Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil;
     a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores
     do Estado foram lanados em prises ou conduzidos ao cadafalso (o
     ministro Lucena, o marquez de Montalvo, Mathias d'Albuquerque
     vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente
     que fez  Inglaterra, como dote de sua irm, das cidades de Bombaim
     e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou
     prezas ao seu vestido de noiva!

     Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as
     ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidados
     indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmo _Pedro II_
     para lhe tirar a cora e... a mulher, com o consentimento do papa;
     este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de
     Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou
     Portugal da dominao espanhola), e celebra com a Inglaterra o
     vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e
     nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.

     *Joo V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na
     construo de conventos, em festas de egreja e em presentes ao
     padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias
     da India, Ceylo e Oceania, porque o dinheiro era pouco para
     presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez
     lacaio.

     *Jos I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de
     horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na
     conspirao do duque de Aveiro, o que se no provou, sendo a causa
     verdadeira a oposio que essa familia fazia aos seus amores
     adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario:
     nem velhos, nem mulheres, nem creanas. Para dignamente coroar o
     seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em
     Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.

     [Figura: _Teixeira de Sousa._]

     *Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e
     endoidece; seu filho _Joo VI_ que em seu nome governou e lhe
     sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que
     era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em
     Lisboa  frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os
     francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e s
     brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos
     peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as
     nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impem-nos os vergonhosos
     tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes
     Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas,  enforcado
     em S. Julio da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no
     Campo de Sant'Anna, a sua dedicao patriotica. A revoluo popular
     de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar
     ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por
     oficiaes inglezes.

     *D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de
     fora,  semelhana do que desejam actualmente alguns idiotas
     barriguistas; nada lhe faltava: as aladas, as forcas, o cacete,
     80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em
     todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato
     figurava nos altares, e as mes pediam-lhe a honra de lhes
     desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente
     de que suspeita, mas com toda a sua fora, deixa que uma esquadra
     estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um s tiro
     partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu
     pedestal de sangue,  corrido do throno pela _revoluo_
     triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando,
     vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao comear
     a guerra civil tinha 80.000 homens s suas ordens, perde a batalha
     de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que at esse momento lhe
     ficaram fieis.

     *Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra
     Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os
     soldados portuguezes  traio; corrido do Brazil, volta a Portugal
     a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmo; emquanto
     esta se no decide a seu favor, no tem vergonha de offerecer 
     Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do
     nosso imperio indiano.

     *Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e
     30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o
     seu povo, para satisfao do seu orgulho de rainha _liberal_.

     *Pedro V* no poude passar sem irms de caridade, e deixa que
     mansamente de novo se estabeleam entre ns as congregaes
     religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o
     mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.

     *Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira;
     deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do
     nosso territorio Africano, e conduz o paiz  bancarrota que estala
     pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este,
     esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama
     piolheira  nao que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu
     dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos
     territorios nas nossas colonias de Moambique, Angola e Guin. O
     seu ultimo ministro Joo Franco, que queria pr tudo isto no _xo_
     atirou com elle ao cho. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu,
     com sua bella e radiosa mocidade, j deu a seu povo uma explendida
     amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14
     mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu
     que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda no roubou como o
     pap, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mo,
     envergando a roupta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas
     femeninas reaccionario-palatinas.

     At hoje 14 reis da casa de Bragana teem governado o Paiz, e como
     se v so os legitimos representantes duma nao de idiotas,
     barriguistas e poltres; tambem no resta duvida que esta dynastia
     , como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso
     imperio ultramarino. Grandes so os beneficios que a Nao lhe
     deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas
     industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um
     povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos  merc dos
     pontaps estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao
     abandono e bufos com fartura, taes so as fontes de riqueza que os
     Braganas nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho:
     *365 contos* por anno s para elle, mais *60 contos* para a mam,
     *outros 60* para a vv e *16* para o titi; tem tambem para
     alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe
     deu, pagamos tambem  sua guarda real de archeiros,  orchestra da
     sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto  pouco, damos-lhe
     dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros
     nas nossas casas e pela licena que nos deu de utilisarmos em
     servio do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido,
     nada tem com os rendimentos da casa de Bragana que disfructa.
     Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais
     *60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos?
     ento morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada
     pimpolho.

     Como veem, no  pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino
     do ceu pela mo do nosso radioso soberano, com a beno de Pio X,
     as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr.
     patriarcha e do reverendo bispo de Beja.

       *       *       *       *       *

     Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua
     historia de Portugal: Fora  reconhecer que na familia dos
     Braganas no vingou a semente da nobre raa dos Nun'Alvares;
     viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da
     filha do _Barbado_.

       *       *       *       *       *

     *Portuguezes!* faamos votos pela conservao d'esta gloriosa
     dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*.


                                                          Junho--1910.


Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. No sae
ainda com medo aos republicanos.  pequeno, inteligente, arguto. Est
livido.

--A rainha D. Amelia  que quiz forosamente que o ministerio Joo
Franco fsse abaixo e at se opunha a que se lavrassem os decretos como
habitualmente.

--E o rei?

--O rei, como dizia o Totenbach, no  um homem... Oh, vivemos dias
horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos
quizeram assassinar o Joo Franco, quando elle viesse de Carnide no
automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroa surgia,
fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...


                                                          Julho--1910.


Do Joo de Menezes:

--Possuo documentos (que ho-de aparecer a seu tempo) e que provam que
foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de
Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas
que deram dinheiro para jornaes e o resto.

       *       *       *       *       *

A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram
golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Est efectivamente
tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instruo
criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que
se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do
exemplo de Joo Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma
ordem necessaria porque a mo lhe tremia... O que resta de p no
passa de fico. Quem manda, quem governa, mesmo na oposio, so os
republicanos, que o Alpoim leva pela mo at s questes importantes.--O
exercito  nosso.--E o Joo Chagas, para convencer um oficial incredulo,
manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por
senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos,
mas a fora  outra, que se sente por traz do scenario... O Jos
d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em qu? O pacto de Vila
Viosa efectivamente existe?[12] J o Joo Franco dizia tambem com
arrogancia:--Se podem fazer a republica faam-na depressa, porque d'aqui
a dois annos garanto-lhes que a no fazem.--Mas ser este rei um
chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos
respondem d'esta forma n'_O Liberal_:


     O rei de Portugal est exautorado, est reduzido a uma chancella
     de quem lhe bate os ps.

     Podia ser um rei, e  um simulacro da realeza.

     Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaas de qualquer
     natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos
     protestos e juramentos a que est ligada a propria dignidade e a
     honra de uma nao.

     Pde asseverar-se que o snr. D. Manuel no chegou a ser rei. No
     momento em que se esqueceu do que devia  sua dignidade de ns
     todos, *que lhe confiamos um cargo, que  incapaz de conservar sem
     o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*.


A excitao politica no tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder,
ignora tudo que o juiz d'instruco repete a quem o quer ouvir:--Estamos
sobre um vulco!--A audacia dos republicanos todos os dias
augmenta:--Lisboa  nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos
fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a
republica estava feita!--afirma o Silva Graa--E o Porto e a
provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que
importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo
telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha est toda comnosco. Tem havido
ocasies em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial
mais graduado at ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido
contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitao popular augmenta
pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revoluo, o
terror, mortes?...--No, soceguem, quando se fizer a republica--j o
anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de
ouvir no  um grande ruido de espadas,  um grande ruido de talheres...




A SOCIEDADE ELEGANTE


Rodeiam a rainha o Figueir e a Figueir, e algumas relaes intimas da
Figueir e Sabugosa; e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio na
crte, como o marquez d'Alvito, o conde de Villa Nova de Cerveira, que,
ao que se disse, morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa, por
influencia da rainha--o que  redondamente falso: D. Pedro de Noronha,
vulgo o Pao d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem cultura, e tinha
oitenta e seis annos quando foi preciso nomear novo mordomo mr por
morte do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando de Serpa, o
Manuel Figueira, o Pinto Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz,
que passou por ser a alma danada do pao; e que na realidade tinha um
certo geito para disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas
de touros--e mais nada; algumas vezes o major Santos, feitor da
Bacalha, e o Soveral que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito
da corte, onde tinham influencia o Bernardo Pindella, o Caldeira,
comandante do yacht, e poucos mais.

A seguir ao pao podem citar-se os Palmellas, em casa de quem se dava
beijamo aos creados e s creadas, se isto no  uma lenda como muitas
outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza, viveu sempre entre
coisas bellas; elle, o duque, era um apagado guarda livros[14]. S
recebiam raros parentes, e a duqueza toda a vida detestou os Sousa
Holstein. No tempo de D. Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma
grande linha, que se foi pouco a pouco apagando: os Penafieis que ento
fizeram uma vida brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se vendeu
ao marquez da Praia.--Aquella gente nem sabe acender um lustre, dizia o
velho marquez ao falar d'esses morgadotes da ilha... Os condes de
Lumiares davam bellas festas no palacio quasi pegado, onde  hoje o do
Marquez da Fz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os milhares de
lustres e continuava-se a conversa ate  missa das almas na capella
proxima.

Chamavam-se essas festas rosas divinas. Debutou ahi, nas salas de
Lisboa, o snr. Luiz de Soveral. No rez do cho do mesmo palacio davam
pequenas partidas os Castellos Melhor. Tocava o seu amigo Bomtempo e
juntavam-se alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz Preto. No fim
do reinado de D. Luiz j a maior parte dos palacios de Lisboa ou tinham
sido alugados ou mudado de dono. No palacio de Tancos estava o colegio
do dr. Sicuro; nos dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde de
Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes de Mura transformou-se
n'uma escola; o do marquez de Abrantes--que ocupava apenas um
recanto--foi alugado pela legao da Frana; o dos condes Baro, no
largo do mesmo nome, passou a uma familia de judeus, baro de Villa de
Fosca; o dos Almadas Carvalhaes, senhores d'Ilhavo,  Empreza Editora;
no do conde da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem mais honesto
do seu tempo, e que morava na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio
Arriaga. J os Angejas, representados pelo conde de Peniche, tinham
deixado o palacio de S. Lazaro, que depois ardeu, e o visconde de
Sampaio mudra para a rua de S. Vicente. Os condes Valladares e Povolide
haviam vendido ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo Anto e
retirado para a provincia. O palacio dos condes de Paraty  hoje escola
municipal, no dos condes da Ponte,  Boa Morte, habitou o general
Palmeirim, e no dos condes de Farrobo mra o snr. Monteiro Milhes, que
tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois successivamente at
cahirem nas mos do snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos Melhor
passou s mos do marquez da Fz, que alli deu algumas festas
sumptuosas. Mas a mais brilhante, a que deixou grande impresso na gente
da epoca, foi o celebre baile das Chagas, na antiga residencia, antes de
mudar para o palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram todas as
preciosidades que o marquez adquirira--quadros, baixelas Germain, etc.
Romperam-se os tectos da sala de baile, para se construir uma galeria
onde tocaram os musicos, acompanhados pelo cro de S. Carlos. Ahi
comeou tambem o marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... S as grades
de ferro do corrimo do palacio da Avenida custaram noventa e cinco
contos. O marquez chegou a ter cem contos de renda.

Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas da vida mundana, os
seus palacios: o conde de Alcaovas, na rua da Cruz dos Poiaes, o
marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes de Penalva, etc. Os
condes de Sabugosa, n'uma residencia que o conde tornou encantadora,
recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa existia tambem o salo da
snr.^a D. Maria Kruz Brito, que no seu genero foi o unico comparavel aos
sales da Restaurao e 2.^o Imperio, de Paris. Sua filha, a senhora
condessa de Ficalho, no solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos
Caetanos, reunia a fina flor da elegancia em certos dias da semana
(segundas-feiras).  o palacio ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria
de Mello, condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel palacio da
Rosa, solar dos viscondes de Villa Nova de Cerveira, marquezes de Ponte
de Lima, resurgiu pelos esforos do actual marquez de Castello Melhor,
visconde da Varzea pelo seu casamento com a herdeira das casas Castello
Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e do esplendidas festas.


Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa epoca--fim do reinado de D.
Luiz e principio de D. Carlos--a duqueza de Palmella, a condessa de
Penamacr, a condessa de Ficalho, a condessa de Villa Real e Mello, e a
formosissima D. Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de Linhares,
portanto neta da Senhora Infanta D. Anna de Jesus Maria, dama da rainha,
e pelo espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior (me), a marqueza
sua nora, filha dos marquezes de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e
tantas outras sumidas ou desaparecidas no turbilho da vida.

Uns pobres, outros mortos, outros arredados, deram logar a esta
sociedade mais mesclada, a gente de dinheiro, a gente que enriquece,
alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes feitos  ultima hora, e a
uma certa roda que se diverte, citada nos jornaes, e que constitue em
toda a parte o que se chama a sociedade elegante. Uma senhora de
espirito dividia a sociedade portugueza em aristocracia, _smart set_,
alto pirismo (pirismo,  claro, vem de Pires), baixo pirismo e povo.
Esta ideia veio-me--diz ella--d'uma visita que recebemos um dia e que
muito nos impressionou: num grupo d'automobilistas do Monte Estoril
nossos conhecidos, tinha vindo a F..., aquelle sitio apartado 
beira-mar, onde j o nosso pae costumava passar o vero, uma menina da
boa sociedade de Cascaes. Essa menina, dizia minha irm cheia de
extranhza, que nunca tinha vindo quella casa, esteve durante toda a
tarde exclusivamente a namorar um dos taes automobilistas, e nem antes
nem depois nem nunca, esboou para com os donos da casa um leve sorriso
de agradecimento! Porqu n'uma menina to fina tanto falta de ch!...?
Porqu, entre ellas, e as meninas finas nossas conhecidas com mais
intimidade, tamanha diferena?... Foi assim por comparaes
estabelecidas e dedues tiradas, que concluimos em dividir as classes
da sociedade actual em aristocracia, _smart set_, _alto pirismo_, _baixo
pirismo_ e povo.

 inutil explicar o que se entende por aristocracia e povo. Cada uma
dessas classes, no seu extremo oposto, est suficientemente definida por
sua propria natureza. _Baixo pirismo_  nome novo para a baixa
burguezia, classe de que tanto, com tanta graa, e tanta verdade, se
ocupou Gervasio Lobato. _Alto pirismo_... alto pirismo, somos ns, por
exemplo, as manas da descoberta, muito bem acompanhadas por todas as
nossas amigas e por quasi todos os nossos conhecimentos, mais ou menos
endinheirados (ha de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura.
Classe numerosissima, em que est incluida toda a boa gente que cuida de
ser bem educadinha e agradavel e que trata de sustentar, por um
alevantado valor civico--que muitas vezes  inconsciente...!--as regras,
os preconceitos, as convenes, de que uma sociedade bem organisada no
pode prescindir.

Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo agradaveis--se n'elle
incluimos tanta gente!...--em que se cultiva ainda a boa conversa, em
que, sem sombra de pedantismo, se discutem livros, ideias, arte, e em
que ninguem sente saudades de jogar o bridge. Mas ha outros grupos, em
que nas festas os homens no esto na mesma sala em que esto as
senhoras, festas em que s dana, e pouco, a gente muito nova, e em que
as meninas, nada interessantes, mas com aquelle ar de timidez e de
recato, que tanto agrada aos portuguezes  volta d'uma viagem pelo
extrangeiro, namoram pelos processos archaicos, sob os olhares mais ou
menos adormecidos da mam. Festas essas em que, a alturas tantas, ns,
com a certeza absoluta de que o relogio est parado, comeamos a sentir
verdadeiro odio pelas begonias artificiaes--ainda se encontram!--que
ornamentam a tagre, e que cresceram em leque de dentro d'uma especie
de musgo sco, muito mal imitado; festas em que s pela muita fra da
boa educao recebida nos obrigamos a trocar umas palavras vazias de
interesse por uma contorso dificil e dolorosa do corpo, com a senhora
gorda que est sentada no _borne_ atraz de ns! (Tambem ainda se
encontram muitos _bornes_!!)

So estes grupos do alto pirismo,  preciso dizer a verdade toda, que
nos enchem precocemente a cabea de cabelos brancos.

A _smart set_ (c est a tal menina que apareceu na F...) foi certamente
organizada em Cascaes. Deve ter nascido na Parada...--e foi fundada
provavelmente por um pequeno grupo de aristocratas neurasthenicos e
comodistas, aos quaes logo, muito contentes, se agregaram por
facilidades de convivencia e porque os souberam imitar, alguns membros
do alto pirismo. Hoje  uma classe bastante numerosa e certamente a mais
_chic_. Distingue-se das outras por varias coisas; por exemplo: desprezo
absoluto pela prudente instituio do chaperon (esses entreteem-se com
o bluff)--desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortezia corrente
(s se cumprimentam as pessoas que passem perto e essas mesmas com
marcada indiferena)--ignorancia completa das regras da gramatica (isso
seria falar dificil!) e da orthographia. Cultivam s o corpo
diplomatico e a religio; vestem bem, jogam muito, danam muito e bem, e
flirtam na perfeio. Votaram ao ostracismo algumas palavras que ns
dizemos e que so _pessidonias_ como: chavena, trem, pharmacia, carnaval
etc. etc. etc. Tratam-se todos por voc; alguns teem muita _piada_ e
usam todos um ar muito _chateado_. ( da praxe, o calo.) A _smart_
diverte-se... mas no sabe sorrir.

Esta sociedade, que anda todos os dias nos jornaes, vem do alto at
baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindavel, tem um
chronista celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista s tardes no
_Dia_ e de manh no _Diario Nacional_. Dessa lista destaca outro
informador algumas senhoras: Branca de Gonta Colao, poetisa distincta,
voz de ouro, herdada do pae, bonita a valer e sempre apaixonada pelo
marido, o artista Jorge Colao; Magdalena Trigueiros de Martel Patricio,
pequenina, vivissima compleio d'artista, gostos aristocraticos,
fazendo versos em francs e d'uma alegria comunicativa; Elisa Baptista
de Sousa Pedroso, pianista eximia, sempre em concertos, em recitas de
caridade, em festas que d em sua casa e onde reune uma sociedade
mesclada de artistas, diplomatas, aristocratas e politicos; Sarah da
Motta Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar, s rivalisando com
a sciencia de receber: o seu salo pode considerar-se um dos poucos
refugios dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos; Adelaide
Coelho da Cunha, esposa do director do _Diario de Noticias_, grande
organisadora de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora, festas
dramaticas d'uma grande riqueza de apresentao e mise-en-scne; a
malograda Ada Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando
maravilhosamente, vestindo com suprema distinco, bonita, elegante,
cheia de _charme_; Candida da Nova Kendall, formosura triumphante, que
passou pela sociedade lisboeta como um meteoro louro, cantou como um
rouxinol, e voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella a bem dizer
tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda Decken Lino, figurinha de madona,
de bands negros e olhos transparentes, mulher do architecto Raul Lino;
Maria Emilia Macieira Lino, cantora e organisadora de soires artisticas
com representaes de autos de Gil Vicente; Alice Munr dos Anjos, dando
festas na sua casa da Praa dos Restauradores, onde se dana
alegremente, presididas pelas suas filhas, a linda condessa de Arnoso e
a simpathica condessa de S. Loureno; Luzia Patricio de Balsemo, grande
linha de elegancia, certa em todas as premires; Irene Gilman, filha de
Thomaz Ribeiro, loura, inteligente, maliciosa e danando
maravilhosamente; Christina Rezende da Silva, d'uma belleza e elegancia
patricias; Elisa Baerlein; Conceio de Carvalho, filha de Mariano,
organisadora de festas artisticas, para que escrevia peas, em casa de
seus sogros os Viscondes de Carnaxide, bonita e intelligente; Zulmira
Franco Teixeira, pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo versos,
como sua irm a condessa de Almeida Araujo, etc. etc.

       *       *       *       *       *

A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes de contacto--Cascaes e
o theatro de S. Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam,
procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente os recebia.


De 1880 para c as emprezas succedem-se em S. Carlos como os ministerios
progressistas e regenerador e Valdez disputa com Freitas Brito a vinda a
Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez traz Masini, Patti, Devris,
Vidal, Castel Mary, Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina
Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante d'uma rainha (vr
Fialho), os irmos Andrades, etc.; Freitas Brito apresenta Varesi,
Gayarre, Rapp, irmos De Reske, Navarrini, Tetrazzini, Theodorini,
Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah Bernhard, Marini, Ristori,
Salvini, Rossi, Desreins, Sherie, Belincioni, Ferrani Darcle, Tamagno,
Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri, Pandolfini, Saloni, Arkel,
maestro Gula, Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e tantos
outros. Os partidarios de Freitas Brito pateavam sempre na epoca de
Valdez, os de Valdez na epoca de Freitas Brito--o que no os impedia de
se juntarem em jantares semanaes, a que assistiam os dois emprezarios...
A estas duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna. Foi n'essa epoca
que S. Carlos se transformou n'um grande salo. Vem a Lisboa os reis e
presidentes de republicas. O numero de recitas augmenta, a assignatura
augmenta. Paccini d cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro
extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que o publico chama dos
_Sebasties_, e no palco desfilam Belincioni, Krucinisky, De Lerma,
Renaud, Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory, com a
carruagem, o charuto, Wagner--e o desastre.

Ahi est todo o mundo literario e elegante, nos camarotes ou na plateia,
toda a Lisboa como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome, antigo
diletanti, e que se julgava pae da Patti, Freitas Rego, o Principe
Negro, conquistador irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde de
Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam um grupo, de que Bordallo
fez tres medalhes para distribuir pelos assignantes de S. Carlos;
Joaquim Pessoa, do _Diario de Noticias_, apaixonado da Baresi; Jos
Saragga, critico do _Jornal do Commercio_; o phantastico Eduardo Cheira;
Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos de S. Carlos, elle muito
baixo, ella muito alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica, com
uma paixo assolapada pela cantora Pasqua; Antonio da Costa e Silva, um
dos mais elegantes rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado da
Devris, e que na noite do seu beneficio lhe mandou compor um
deslumbrante jardim natural para o 3.^o acto do Fausto; Francisco da
Fonseca Benevides e esposa, o auctor da Historia do Theatro de
S.Carlos (recitas impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha),
Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur da Costa Pinto, que foi
director da sociedade lyrica que se fundou em S. Carlos com o Paccini
pae; Motta Marques, que casou com a cantora Meccoci; May Figueira, o
exotico marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres adoradores do
corpo de baile; Custodio Borja, Jos Bacellar e Ottolini da Veiga, com
mania de canto e voz de _basso_--e que, d'uma vez, corrido pelo publico,
a quem fizera um manguito, fugiu no comboio para o Porto, ainda vestido
de frade, com o fraque enfiado por cima--Eduardo Cordeiro e Augusto
Ribeiro, enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho; Eduardo
Tavares; Espregueira e mulher n'uma frisa; Jos Martinho da Silva
Guimares; o Guerra, pae das meninas Guerras; o baro da Regaleira,
Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho Franco, Jos d'Alpoim, Rufino
d'Almeida, o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc. e n'uma
torrinha, que ficou na tradio, a 115, o Antonio Manuel Teixeira,
depois secretario de S. Luiz de Braga, o Luiz Campeo e o Oliveira,
chamado das _cautelas_ de _25_: era d'ahi que partiam sempre os aplausos
ou as pateadas monumentaes.

Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas do marqus de Franco,
Falcarreras; a lindissima baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher
de todos os tempos, j velha e sempre decotada, a duqueza de Avila e
Boiama; Espregueira, que foi a primeira que se apresentou com vestidos
sem hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes; Moreira
Marques; a condessa de Figueir; a condessa de Taveira, acompanhada pelo
marido, sempre de casaca com botes amarellos; a condessa d'Edla, o
gentilissimo pagem do _Baile de Mascaras_,--da cantora a rainha--;
Poitier, loira ideal, que casou com o filho de Monteiro Milhes; a
duqueza de Palmella; a condessa de Alferrarede; a condessa de Alverca; a
viscondessa de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc. e no camarote
de bocca de 3.^a ordem n.^o 70--esta Lisboa foi sempre monumental!--a
Antonia Moreno com as suas espanholas, pilar do estado, necessario e
decerto muito mais util que a Junta de Credito Publico. Essa mulher
acabou deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que repudiou a
fortuna que ella lhe legou, e depois de passar para alguns camarotes
brazonados de fresco uma ou outra das suas mais lindas pupilas...


Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,--diz-me um frequentador--era a
crte na intimidade, em robe-de-chambre, mais faceis as relaes, mais
accessiveis e amaveis, tu c, tu l. Quasi tudo gente do rei, que ia
para l cedo, por meiados de setembro, cansados de Cintra onde D. Carlos
raro pernoitava, fugindo, a pretexto de tudo e de nada,  convivencia da
rainha e da Figueir. A separao do rei e da rainha, segundo me
informaram, porviera de certa dama, que lanou entre elles a sizania.
Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco rolia, de olhos aveludados e
labios vermelhos: nos ultimos annos engordra, e banalisara-se. Tinha a
furia do dominio, e rodeava-a uma crte de gente em que ella mandava e
da qual fazia parte um diplomata mais tarde em evidencia. Passava por
ter relaes anormaes com a rainha... O marido pouco esperto, s tinha
como ideal ser ministro plenipotenciario e par do reino.

Em Cascaes, a rainha no se vulagrizava. Saa a cavalo emquanto poude
montar. Tinha varizes nas pernas,--informou um dia o D. Afonso. No meu
tempo no passeava de barco, passeava de carruagem, descendo s vezes
para andar a p. Dava as suas recepes  tarde, principalmente em
vespera de festa, para serem apresentadas pessoas que desejavam ir aos
bailes, e que em Cascaes mais facilmente obtinham o convite e a
apresentao preliminar indispensavel, que o conde da Ribeira, quando
estava de servio, facilitava extraordinariamente. A Figueir voltava
para Cintra logo que acabava servio.

O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador, tirava photographias,
pintava ligeiramente algumas marinhas, _sentindo_ o mar. Logo de manh,
saa de carro ou a cavalo, com chuva ou com sol (demorava-se at meiados
de novembro em Cascaes), ou ia  procura de senhoras que elle perseguia.
Tivera, pelo menos um anno, n'uma vila do Mont'Estoril, uma amante, mas
isso no o dispensava de querer que o julgassem homem de boas fortunas.
Escrevia a miudo a outras damas, em caligraphia disfarada, cartas em
prosa e verso  mistura, quasi sempre em francez. Eram muito tolas. Vi
algumas e podia ter guardado uma, que rasguei. Serviam-no dois
alcoviteiros ilustres, que o faziam encontrado com as mulheres que lhe
agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que o rei conhecesse uma
senhora da burguezia media atraz de quem andou annos.

Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela Parada, jogar o tennis. No
havia escolha nos pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava
com o sobretudo do rei no brao, emquanto elle jogava. D. Carlos era um
timido, falava pouco, nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros
evitavam sempre os dos outros.

A Parada era a capital do reino de Cascaes. Ahi se reunia a flor da
aristocracia e o ingresso no era facil, como socio. S nos ultimos
tempos  que o Tompson, a quem chamavam moo fidalgo, facilitou a
entrada. Aos domingos davam-se salsifrs  noite, e todos os annos um
grande baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros e
danava uma contradana. A rainha, se ia, no se demorava. Nos dias de
semana, poucas pessoas l estavam, preferindo os casinos  beira-mar,
principalmente o Estoril.

O rei, todas as tardes, ia para a Boca do Inferno e quedava-se ali, se
encontrava algumas senhoras que o interessassem. Por isso chegaram a
chamar ao D. Carlos o _balo cativo_...

O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia logo que lhe era
possivel. No se demoravam em Cascaes, no os convidava para assistir,
sequer, s partidas. Teve d'uma vez, como hospede, o Soveral. No lhe
conheci nenhum outro.

O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril, para a vila sobre o mar, que
ali possuia a me. Descia a praia, com uma grande simplicidade de
maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior manifestao
intelectual que lhe conheci foi anti-clerical. Vestia-se sumariamente:
uma camisola azul, casaco e cala da mesma cr e bonet. Assim andava, de
manh at  noite. s vezes ia ao mar, e os barqueiros gostavam d'elle.
Nunca tinha vintem. Os ajudantes ou oficiaes s ordens no lhe
emprestavam dinheiro, porque sabiam que elle no lhes pagava.

No era dado a senhoras--preferia as outras... Certa condessa  que
conseguiu ser amante d'elle, porque conhecia todas as maneiras de
conquistar um homem. Deu um baile para que convidou o infante e a fina
flr. O marido estava encantado. Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle
era muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer. Ella queria gozar a
vida. O A... que foi seu amante, contou-me que em Madrid ella dissera
d'uma vez ao marido, que no tinha um ceitil quando casou: Tu, para
chulo, s caro de mais!

Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto com uma mulher. Meio
pequeno, coscovilheiro, maldoso, maldizente. No se falava seno nesta
ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos de ouvido para ouvido
ou acentuando-se as infamias. A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes
n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro descarado ao rei... Mas as
coisas arranjavam-se para Lisboa. Vinham ao dentista, s compras, etc. A
forada e grande intimidade estabelecida, de manh na praia,  tarde na
Boca do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do vento e da poeira, na
Parada ou  boquinha da noite no passeio Maria Pia, junto  cidadela,
onde s vezes fazia uma ventania infernal,  noite nos casinos, ou
nalguma partida de bridge, a vida quasi em comum e os namoros travados,
o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna os amores exigentes,
fizeram tecer muitas aventuras escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com
a mulher, que j madura, esteve em vesperas de cair... Nunca mais voltou
a Cascaes.

As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso at no Pao. Uma descendente de
D. Joo IV, vi-a eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. Em
certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma madrugada, num baile do M...,
chegou a iniciar-se a lucta... A alta sociedade era, em regra, pelintra.
As grandes familias tinham gasto as fortunas, e muitas no queriam, ou
no podiam, dar bailes. S tinham dividas. No era possivel deixar d'ir
a S. Carlos e de satisfazer outras exigencias. Havia-os com actrizes com
dezasseis annos de assignatura... Fra o Palmella e poucos mais, no
recebiam porque de todo no podiam. E, se o faziam, era sem-cerimonia.
No havia dinheiro! no havia dinheiro!

Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se sempre em _parecer_. Um
oficial jogador e pae de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar
D. Carlos... Todos os seus famulos lhe extorquiam dinheiro, quanto
podiam. Choravam, punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes ou
falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca com prata para fugir a uma
penhora iminente... Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu
os creados--mas nunca pagou a nenhum. Outro chegou a no ter que jantar,
porque o mercieiro no lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia todos os
dias garrafas de champagne.

Havia mancebias antigas e to respeitaveis, como o casamento, assim, por
exemplo, F... e F... J ninguem convidava uma sem o outro.

Quer que lhe fale tambem da gente que fingia de nobre, da burguezia
vaidosa e que fazia mexerico para ser convidada? A mulher d'um grande
industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo, onde ia toda a gente,
da grande e da baixa. Convidou-a para jantar, para o theatro e andava
contente como um cuco. Um dia no a convidou mais. Chorou. Isto foi-me
afirmado por uma amiga que o viu. Era uma dama, muito linda, com um
soberbo colo, mas com o cerebro d'uma arara...

Ahi fica o quadro levemente esboado por um frequentador de Cascaes.
Tudo isto  frivolo e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia, dos
ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia e do encanto, se gerou
parte da athmosphera donde devia sahir o descredito da rainha e o
assassinato do rei.




O MUNDO POLITICO


                                                       Novembro--1918.


Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me sempre faltos de
logica e de nexo. Esto talvez muito perto de ns ainda: precisam de
perspectiva que os coloque nos seus devidos logares. S o historiador
poder crear mais tarde, com documentos e memorias, e certa aparencia de
verdade, o romance da nossa vida. Ns, por ora no sabemos nada, nem
mesmo dar resposta plausivel s perguntas que nos obsidiam... Porque
foi, por exemplo, morto D. Carlos?  fora de duvida que at os
monarchicos receberam com alegria a sua morte. No vi lagrimas--diz
Julio de Vilhena. Eu avano mais: s vi aplausos. E no entanto j hoje
se pode afirmar sem erro que D. Carlos no foi morto pelos seus
defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!--o que
no impede que, a cada anno que passa, esta figura cresa, a ponto de me
parecer um dos maiores reis da sua dinastia. J redobra de propores e
no se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade
defeitos, mas--diga-se! diga-se!--no foram os seus defeitos que o
mataram, foram as suas qualidades. S o assassinaram quando elle tomou a
serio o seu papel de reinar, e quando, com Joo Franco, quiz realisar
dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em
que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um
crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das
prises, congraando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos
dos dois desventurados.


O D. Luiz pde ir at ao fim do seu reinado, porque elle proprio o
disse--um principe  um dissimulador. Mas D. Carlos  que no foi
nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia:--Tu
ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de
nojo.--Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da
politica e desprezava os politicos: s elle os no podia desprezar. 
authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a
gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em
que foi moda dizel-o. S elle no devia dizer mal do paiz. Realmente
pediu muito dinheiro aos politicos, mas os politicos pediram muito mais
dinheiro  nao, dando cabo d'elle com as suas clientelas. E ninguem
lhes tomou nunca contas: todos morreram honrados. Hintze passou por ser
um homem integro. Jos Luciano tambem. Pessoalmente decerto, mas com o
que ambos elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto a baixo. O
partido regenerador tinha tal fama que se dizia em Lisboa: quem no 
regenerador  ladro de si mesmo. Na realidade no havia a esse
tempo--porque hoje tudo mudou de figura--seno um partido em Portugal
capaz de sacrificios, o partido republicano: os outros, para me servir
da phrase to justa de Homem Christo, eram apenas quadrilhas
politicas. Ser politico em Portugal foi a mais rendosa de todas as
industrias. Logo que chega ao poder um chefe de partido no pensa seno
em explorar o paiz em proveito das suas clientellas. O Estado  a preza
dos politicos... Se eu podesse encontrar um homem integro que podesse
modificar tudo isto dar-lhe-hia todo o meu apoio.

Parecia que o proprio paiz na verdade s queria comer:--Pedem tudo!
pedem as maiores poucas vergonhas!--exclamava o Alpoim; e o dr. Antonio
Cabral escrevia:


     No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e
     pedinchona, s conhecia o caminho dos ministrios para ir
     importunar os secretarios de Estado com solicitaes de empregos,
     de benesses, de estradas, de favores, at de escandalos. No ia
     levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrana de um
     beneficio para o pas. Ia procurar interesses, buscar comodidades,
     exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava,
     muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e s causava prejuizos 
     nao.

     Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam
     em trno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela
     e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as
     imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que
     impuzera, contra os rros de administrao que imperiosamente
     reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os
     culpados de tudo--criminosos execrandos!--eram o Rei, os ministros,
     os deputados, todos, emfim, que tinham na mo as rdeas da
     governao publica. Ella, a maioria exigente e dificil de
     contentar, era inocente e de tudo lavava as mos.

     Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos
     compadres, dos despoticos senhores do pas, que hoje se encolhem,
     transidos de pavor, e ento barafustavam do alto do seu pedestal de
     mandes; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que
     sabia impr-se com arrogancia--ella, de nada era culpada e escondia
     o rosto pdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!...

     Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traio de
     muitos e a incompetencia de tantos. A _maioria dos portugueses_, se
     no delirou de contentamento, remeteu-se ao cmodo e discreto
     silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidados, para
     s os interromper com murmurios de reprovao, soprados nos centros
     de conversa contra os politicos... que ella empurrra para o mau
     caminho e ajudara a despenhar no precipicio.

     Oh! a maioria dos bons cidados de larga pana!...


Hintze e Jos Luciano tinham-se congraado no reinado de D. Carlos, e s
elles podiam tudo, s d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e
interesses. Antonio Cabral est certo que foi pelos seus meritos--que
no so poucos--que chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse.
Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com as obras da S para o
arredarem da politica; ao Jos Dias Ferreira, que foi dos raros homens
de governo comezinho do seu tempo, nem sequer o ouviam nas camaras. Toda
a gente lhe voltava as costas quando falava. Sabia-se que o Pao o
detestava. O Jos Luciano e o Hintze sucederam-se, d'acordo, no governo
do paiz e no governo do Credito Predial, com identico sucesso!

Ambos elles eram pessoalmente muito boas pessoas, ambos elles tiveram um
fraco extraordinario pelos tratantes. O Hintze, o _homem que no ri_, o
_casaca de ferro_, era um homem um pouco cansado e com um lindo sorriso
para toda a gente:--Pois sim, pois sim...--Trato encantador. Nas camaras
era vel-o! Ninguem apresentava assim as questes: tinha tudo catalogado,
arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe da carteira por arte
magica. O Jos Luciano, mais bonacheiro e ao mesmo tempo mais caustico,
conhecia como poucos os homens que lhe tinham passado em fita pelo salo
da sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, os seus rancores e
os seus vicios, e tocava-lhes sempre no ponto fraco. Pessoalmente
honesto,--quem o duvida?--mas tendo cada vez mais imperiosa a
necessidade de satisfazer clientelas cada vez mais sofregas--ambos
acabaram de corromper o paiz, j meio corrompido, at  medula. Importa
pouco que o snr. D. Luiz de Castro diga: Hintze vendeu todo o seu
patrimonio e o de sua mulher para servir o reino e o rei (_Dia_,
fevereiro, 1917). Sim, mas Hintze distribuiu a rodos o dinheiro da
nao, principalmente depois da sciso Joo Franco, e colocou toda a
gente a comear pelos seus[15].

No resistiu. Delapidou, principalmente depois da sciso Joo Franco,
sem conta nem pezo nem medida. Anselmo Vieira diz: Jos Maria dos
Santos entregou  viuva do Hintze, no dia do enterro, 21 contos de
lettras vencidas. Ora a questo do alcool entre o norte e o sul foi
sempre adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 contos ao Jos Maria dos
Santos. Na sua phrase pitoresca a politica portugueza estava condemnada
porque era um regimen de validos e _badamecos_. E cita este e aquelle e
aquelloutro, que, na sua opinio, e todos juntos, no valiam um
estadista. O Hintze no resolvia um problema, arredava-o, e as
complicaes augmentavam sempre; se tinha a escolher entre dez homens,
escolhia sempre o peor... O honradissimo capito Machado, duro como o
silex, chegou a par, porque, quando atacavam o Jos Luciano na camara
alta, dizia sempre:--Viessem elles c para os deputados e quem os
ensinava era eu.--O pobre monsenhor inutil, que se chamou Santos Viegas,
achou outro _truc_ para o Hintze o elevar  mesma cathegoria: quando o
chefe do partido regenerador falava, cahia n'um assombro, de que no
havia arrancal-o!...--Chegaram a ministros seres destituidos de todo o
miolo. O honradissimo Pequito, santissima creatura, foi um dia para uma
comisso, a que o Jos Dias presidia, com o Contracto dos Tabacos, que
elle s tinha assignado e mais nada. Havia um artigo redigido de forma
que cincoenta milhes de francos ficavam encobertos, para se poderem
pagar as dividas da Casa Real. Jos Dias pediu explicaes, o outro
embrulhou-se, Jos Dias insistiu, o outro ficou de bocca aberta, com
cara de pasmo--at que o velho rabula lhe disse com soberano
desprezo:--Comprehendo, comprehendo... o snr. ministro da fazenda
precisa de ouvir os seus colegas para depois responder...--Se o Jos
Dias tem deixado passar aquella trapalhada talvez D. Carlos no tivesse
sido assassinado.

A politica portugueza chegra a estar apenas nas mos e dependente da
vontade dos chefes. O Jos Luciano dizia:--O meu partido no  que me
leva ao poder--sou eu que levo o meu partido ao poder. Dois homens e
clientelas. Alguem se filiou jamais n'um destes partidos por principio,
por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, por simpathias
pessoaes?

E assim a fora desses dois homens chegra tambem a ser ficticia:--no
provinha do paiz--provinha do rei... As camaras mero scenario; os
discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a decidir no se decidia
alli. Tudo estava resolvido, preparado de antemo, nos sales, nas ante
camaras, nos gabinetes ou nos corredores, entre os chefes. O resto era
um espectaculo com as suas regras e os seus figurantes, absolutamente
inutil--absolutamente falso--absolutamente fra de toda a realidade...

       *       *       *       *       *

As camaras... Por l passou Junqueiro, que de l sahiu um dia
dizendo:--Vo quella parte--; por l passou o grande, o pobre Joo de
Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros homens ilustres. De l
sahiu Fuschini, que se foi embora fazendo-lhes um manguito, quando
Arroyo n'uma sesso celebre lhe disse:--Ajoelhe a meus ps!--Oliveira
Martins, exhausto de trabalho; o romantico Chagas, cujas ultimas
palavras foram estas:--A vida  uma comedia.--J no os ouvi, mas vi e
ouvi ainda o pachydermico Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e
taciturno Beiro, sempre alheado, o grande orador Antonio Candido, o
canarim Elvino de Brito, que manejava a palavra como quem maneja um
florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico Baracho, cujos
discursos no tinham fim, o Campos Henriques, _lyrio pendente_, o
theatral Arroyo, o Jos d'Azevedo, o Eduardo Villaa to amavel para
todos, to afavel que ficou para sempre o Villacinha, o Chanceleiros,
com a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno Dias Costa, que
morreu de desgosto, tendo cumprido o seu dever como um soldado, a
nobilissima figura do conde de Arnoso, que vejo sempre diante de mim,
bradando por justia, e que acabou envolto em treva, jungido  sua dor,
o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas resistente e teimoso, o Joo
Franco, o decorativo Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto dos
seus taces, o Albano de Mello, to admirador do Jos Luciano que chegou
a ponto de se parecer com elle na atitude, na voz e at no rosto, e, na
outra camara, a um lado o pitoresco conego Jos Dias, apopletico e
jovial, l das bandas de Monso, o torrencial Oliveira Mattos, que, a
primeira vez que falou, fez rebentar os cs das calas ao Chagas, que
perguntava entre spasmos de riso:--Mas quem  este homem? onde foram
buscar este homem?--e a quem ouo ainda invectivando o ministro da
guerra:--Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!--os Cabraes, um polido e
soturno, que o Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes assanhados,
como um galo de combate; o Jos d'Alpoim, impulsivo, terrivel na
replica; o Joo Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para cada
caso futil do dia, j branco, de punhos solidos, e sempre o mesmo
aprumo, a mesma linha, a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e o
juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer (estou a ouvil-o) me
disse assim:--Tenho pena de no ter roubado como os outros...--E, diante
do meu espanto, concluiu:--Quando morrer deixo a minha filha pobre e os
outros esto ricos.--E a outro lado, o elegante, o frivolo conde de Pa
Vieira, o lustroso conde de Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a
debater finanas, sempre  espera das grandes ocasies, sempre esquecido
 ultima hora na lista do ministerio, o estrabico Dias Ferreira, falando
baixinho para dois fieis que lhe restavam; o Matoso dos Santos, sempre
enfronhado em algarismos, o Sergio de Castro, o D. Alberto Bramo e
outros jornalistas da _Tarde_, o Schwalbach aparecendo, desaparecendo,
atarefado, e tantos outros sumidos l para o fundo na obscuridade e no
silencio.

Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se
comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que 
necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers e o Foz, predominando
com o Mariano, a casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e o
impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da monarchia, a casa
Wernestein, Alfredo da Silva e a casa alem Ernest George. Entre essas
figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instruco,
mas d'um grande senso pratico. No raro o encontravam em mangas de
camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos quartos de papel e depois
dizia:--Ponham-lhe l a gramatica!--Acabou j velho e amoroso, fazendo
todos os dias compras de legumes e peixe, na Praa da Figueira, que
depois ia distribuir de _coup_ por casa das amantes, pescada aqui,
pescada alli... Juntem a isto as redaces dos jornaes, em forja rubra a
certas horas da tarde ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a
crte ao senhor conselheiro... Era peor o que se dizia do que o que se
fazia... Era o descredito lanado sobre tudo e todos, a tal ponto que um
dia, mais tarde, quando um juiz monarchico (Pa Vieira) foi despachado
para a provincia, o delegado disse-lhe muito a serio:--Mas como queria
V. Ex.^a que se sustentasse um regimen em que as filhas do Jos Luciano
eram apalpadeiras da alfandega com cem mil reis por mez?--Nos comicios
asseverava-se que a rainha D. Amelia comprava no estrangeiro vestidos
por vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da republica o Eduardo
Villaa encontrou-se com Joo Chagas em Paris e perguntou-lhe com
ironia:--Ento esses famosos inqueritos da republica, com que fizeram
tanto espalhafato, no deram nada?--Ao que o outro, lpido,
respondeu:--Vocs que querem? Tanto se acusaram de ladres uns aos
outros, que a gente acreditou...

       *       *       *       *       *

--Um homem! um homem!--reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitao e
de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de
transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz.
Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.

Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha
homens que se nos afiguram d'uma s pea. Desconfiem d'elles: andam
mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:--Era encantador.--Todos
esto de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial
afirma:--Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com
extrema bondade.--Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que
se curvou para lhe servir de secretria; outro dia, j a cavalo para uma
ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu
servidor:--Guarda l isso!--D'outra vez dispoz o ministerio  chuva para
lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens
que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo
d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder.
Era um valente. Escrevia cartas anonimas  mulher. Media tudo pela mesma
bitola--e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua
dinastia. Acabou  bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia
enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e
d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, s tem
uma explicao: timidez e orgulho--timidez e orgulho...

Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e
dos homens, desencadear paixes, era lanar-se n'um combate de que no
podia esperar seno contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos
os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia.
Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos
colocara o paiz n'uma situao externa admiravel, e que os dois ou tres
actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica aco
grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar
as tropas portuguezas para a frente europeia--quando os inglezes
reclamavam apenas o nosso esforo em Africa[16]. As viagens a Paris, a
Berlim, a Londres coram o anno de 1895. A aliana ingleza  um facto.
Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae comear uma grande poca.
Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio
incita, comprehendendo que o grande Portugal  outro, e que esta facha
de terreno, com um clima agricola horrivel, s pode ser uma vinha e um
logar de repouso e prazer. De l, d'esse novo Brazil--dos extensos
planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo--tem de nos
vir o oiro e o po. O resto  viso de pequenos estadistas de trazer por
casa. S elle concebe e incita. S elle fala e sonha n'um Portugal
maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado,
fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil,
que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente,
ou jamais, se conseguir. Foi este homem que assassinaram como ladro a
uma esquina de Lisboa...


Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo
traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que
no me canso de repetir:--Ns tambem queremos comer...--Smente para ser
justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:--E no
cabemos todos!

No, os partidos no cabiam todos, no podiam caber todos, e estavam
completamente desacreditados. A grande fora de Joo Franco foi, na
realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se j, no foi o rei, foi
Joo Franco; quem no esteve  altura do seu papel, no foi D. Carlos,
foi o dictador. Joo Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso
(as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico.
Os franquistas de hontem so ainda hoje franquistas. No perdem a f, e
nem agora nem nunca despegam um olho do Fundo, embora lancem o outro,
com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... 
preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais
para conseguir tal poder de dominao. Era um impulsivo: grande fraqueza
e grande fora. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma
energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com
espanto:--Este homem s levanta carrapatas!--Ora caava no seu terreno,
ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasio
de o mostrar--depois da morte do rei. Ahi  que era vel-o!... Valente e
calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasio grave da sua vida. Os
republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua priso logo
depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da
Boa-Hora. C fra o Frana Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a
sua vingana e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta
escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha
vermelha, vinham de quando em quando trocar no sei que impresses com
elle. Pela porta aberta vi o Joo Franco de p, sereno e palido: parecia
enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o
interrogatorio:-- talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo
mata-o!...--o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:--Eu s saio por
a porta por onde entrei.--Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas
escadinhas, a meter-se s escondidas no automovel, que o esperava na
calada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto
alguem--juro-o--prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos
de--morra! morra!--a esperal-o em baixo,  esquina. Um borborinho. Tiros
de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o
automovel, que s a custo arrancou--emfim! emfim!--pela calada
acima.--Morra o Joo Franco!...--E as vozes colericas gritavam:--Morra!
matem-no!...--Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos
partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques
sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos
chefes, ameaavam ingressar no partido republicano, que todos os dias
ganhava em numero, coheso e audacia. O proprio Jos Luciano perdia a
serenidade:


     Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lio da
     historia a cada instante repete:  revoluo do alto, pode muito
     bem suceder que responda a revoluo de baixo. (_Correio da
     Noite_, 14 de Maio de 1907).

     O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem
     duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinio publica, que
     tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque
     ha-de chegar e oxal que chegue a tempo o momento em que El-Rei se
     recorde das suas palavras de ha um anno:

     A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente s acto do
     poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos ho
     de pedir a responsabilidade da sua assignatura. (_Correio da
     Noite_, 15 de Maio de 1907).


E a 24 de Maio vociferava: A monarchia precisa dos monarchicos... a
monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da
monarchia. Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de
excitao. Barafunda, prises, protestos. N'uma reunio celebre, por um
triz que os regeneradores no passam em massa para o campo republicano.
E o _Correio da Noite_, no acesso do delirio, apelava j para a
linguagem biblica: O que tem ouvidos para ouvir oua; o que tem olhos
para ver veja...


     Do alto deve descer o exemplo, e quando as aces dos que governam
     so de preverso e de crime, de corrupo e de suborno, de
     desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos
     governados no podem ser de venerao e de paz, de obediencia e de
     acatamento.

     ...................................................................

     Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com
     oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo. (_Correio da
     Noite_, 1 de Junho de 1907).


Que faziam os dissidentes, o mais avanado dos partidos monarchicos? Os
dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do
Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a
revoluo.--Foi o senhor que fez a republica.--E elle dizia, com o olho
esperto a luzir:--Levei-os pela mo.--Julgando conquistar o poder,
perdeu-o para sempre. Baralhou para dar, como aconselhava o Maral
Pacheco--mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do Jos Luciano
nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo
tremendo: o Joo Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o
pratico Centeno, mola distendida sabe Deus at onde; o Queiroz Ribeiro,
o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir
os passos--mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da
politica, conspirador e politico at  medula; o Moreira d'Almeida,
capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento,
enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas
vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle
escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questes, e com um grupo
de amigos _a latere_, que conheciam a fundo as colonias e as finanas;
mais este e aquelle, e outras raizes lanadas ao acaso, e ligaes no
Porto com um mercante espertissimo, como nas discusses ouvi chamar a
Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario...
Agitao perpetua. Orador admiravel, sobretudo na rplica, em que perdia
a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e
seria um escriptor ilustre: no teve um momento de seu para rever as
provas. Com a paixo, a colera, o arrebatamento, um grande corao.
Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender at o seu
maior inimigo, o Jos Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: ...O Jos
Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos,
contando com elle proprio Alpoim . (_Documentos politicos_). E quem
conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu so mais que
exactas, so phonographadas.  elle a falar d'este e d'aquelle, dos
amigos, dos inimigos--de Deus e do Diabo. Uma ambio do poder que o
leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento
excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos--meios
aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de Jos Luciano,
lhe deixavam. Acusaram-no de tudo--acusaram-no da morte de D. Carlos...
At disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!
(_Documentos politicos_). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus
ultimos annos no sei que tristeza o envolve... A figura parece maior,
as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros
teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: Na minha defeza, que
teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma aco subterranea
por outras, excessos cometi de que me penitenceio--mais do que se
imagina... E repete e insiste: Em muitos actos da minha vida de lucta,
por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado--e errei. De
muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha
inteligencia e peo perdo  minha propria consciencia e at aos
homens! Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos--tendo todos
juntos concorrido para a morte de D. Carlos--o acusaram a elle s, com a
tinta do _Correio da Noite_ ainda fresca?


     Aqui d'El-Rei--se nos pode ouvir El-Rei--contra quem mandou
     assassinar o povo de Lisboa. (_Correio da Noite_, tarjado de
     luto). Aparecem hoje, segundo ameaas do governo e segundo as suas
     notas oficiosas sempre irritantes  imprensa, decretos esmagadores.
     Tanto peor para o Rei e para as Instituies. *As responsabilidades
     d'esses decretos, ainda que aparentemente s do poder executivo
     recairo mais uma vez sobre o Rei, a quem todos ho-de pedir a
     responsabilidade da sua assignatura.* (_Correio da Noite_, 20 de
     Junho de 1907).


       *       *       *       *       *

Quem reina agora em Portugal no  o senhor D. Manuel,  sua Magestade o
Mdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a
crte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos _Documentos
politicos_, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios
e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A
politica portugueza gira sobre este fulchro: O Jos Luciano, no
podendo governar por se achar impossibilitado... e no querendo
substituir-se para no perder o comando de que  muito cioso[17]
emprega at ao fim todos os esforos para inutilisar o Julio de Vilhena.
S pela v ambio de mandar? O velho  perspicaz e teimoso, o velho
conhece, como poucos, os homens e entende que s elle pode e sabe
governar.  teimosia e grandeza. No abdica, no pode. Toda a vida foi
obedecido. Aferra-se. O que elle quer  ser o Deus ex-machina da nossa
politica sem se mexer da sua _chaise-longue_. Que tipo! Governou
sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade,
que at no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes,  o unico
que no perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira,
teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha,
um conhecimento dos homens, a que os outros no chegam. Desde o
principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador.
Isto--diz a velha rapoza-- uma lucta de politicos que se querem
inutilisar e desacreditar uns aos outros.  assim--e nenhum d'elles se
lembrou que s os republicanos lucravam. At os franquistas. Os
franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos
republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos
rotativos (T. do Amaral ao rei). At os nacionalistas. Entretanto o rei
ouve-os e toma notas... A sua vontade  acertar. Passa a vida a acertar,
o que no  bem a misso d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. No creio
que os homens se governem s pelo interesse ou pelo terror, como queria
Napoleo, mas creio que se no governam com pannos quentes, e que mais
vale tomar uma deciso m do que no tomar nenhuma. O povo, como o
soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei so
boas intenes. Mal ousa dar um passo, no se resolve nunca--e atraz
d'elle est a me, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos
olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso  ella propria que o incita a
passear  luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre
uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Pao... Arrisca-o. Procura
congraar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e
perdularia, agradou sempre: at os seus ditos se repetiam:--O senhor 
um merda!--ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposies do Saldanha;
at os seus vestidos, a sua ostentao, a atmosphera de rainha
extravagante, que s sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que
mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estao; at a sua
desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam.
E quando foi para o exilio, j doida, com um po debaixo do brao e uma
manta pela cabea, s ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia
no. Essa senhora, de quem alguem disse:-- um grande homem de
bem!--subiu todo o calvario da vida. Era religiosa--o que s a
honra--chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus
criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso
anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D.
Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a
mos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e
dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de
Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundao do Instituto
Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem
dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em
segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:--Aqui, porque
seno vem tudo amanh no _Mundo_.--E vinha. At o homem dos telephones
era carbonario... Estou em dizer que  o acaso que governa a vida: a
razo no , com certeza.

Ponham agora  roda d'estas figuras, os politicos e as paixes falando
cada vez mais alto.  o momento em que todos  uma querem ser chefes!
Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o
Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e at o pobre, o inculto
Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um
deslumbramento e sonha na candidatura. Elle  o Vilhena muito
afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder; elle  o Teixeira
de Souza, todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma
situao que no seja inferior  do Campos Henriques--retrata-os o
Wenceslau, que  o unico que sobe, como um balo cheio de vento, no
conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um
espelho.--E o Jos Luciano teima: O Vilhena est quasi abandonado pelos
seus marechaes. Todos  uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem
 incompetente.-- um homem de talento--afirma um ex-ministro
graduado--mas nunca vi incompetencia maior como politico.--Porqu?  o
que resta saber. Elle  dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano
e que o apresenta (_Antes da Republica_)-- tambem o unico com
superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto,
conserva, at nas ocasies criticas, serenidade e firmeza. Mas todos
concordam na sua inferioridade politica...

Se s pelo triumpho  que se demonstra tino politico, como quer
alguem--na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os
meios lhe serviam, e em Portugal no existem correntes de idas ou de
principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinio no se
pronuncia. Os chefes de partido so simples chefes de bando. O Pao 
que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um
se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe
n'uma occasio em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle
estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos
Henriques e a astucia de Wenceslau.--Esse sim, chame V. Magestade o
Wehceslau--diz o Alpoim.--O Wenceslau sim--concorda o Jos Luciano. Elle
 o homem do Pao e dos politicos. Comea a ser indispensavel. O outro
tropeo no lhes sae da frente. Era a occasio de governar quem
governasse, mas ao Jos Luciano s lhe convm governos mixtos em que
elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graas  sua
disposio. (P. Pinto). E todos ou quasi todos s pensam no Wenceslau,
que promete muito, que sorri a toda a gente, e que no tem nada l
dentro.  o optimista necessario. Impe-se pela parte decorativa, pela
boa educao, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a
oferecer o governo a um, tendo-o j oferecido a outro... (J. de
Vilhena). S o lunatico no entende... Elle bem protesta: Quem o
conhece tem obrigao de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso,
nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos
para obter quaesquer posies. Mas foi exactamente isso que o perdeu!
Num paiz onde no ha opinio, no pode haver chefes de partido. Que
diferena entre elle e o Teixeira de Souza, espadado e forte,
abundante, abrindo logo os braos a toda a gente:--Tu que queres,
filho?!--D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do
norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle
em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de
Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os
borres. Nenhum homem mais _souple_ nem mais agradavel, sempre a
mastigar e a sorrir. Est nas antecamaras quando o rei conferenceia, e
ha um momento em que s elle pe e dispe, e em que aconselha ao
rei:--Chame-me a mim, para eu declinar!--E o rei chama-o. As duas
grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o
Soveral. O proprio Jos Luciano estava condemnado...

Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e
diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambies
abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo est o odio do
Jos Luciano, esto as paixes do Alpoim, que sonha no poder, e que na
manh de 5 d'Outubro ainda dizia:--Agora, sufocada a revoluo, o rei
no pode deixar de me chamar a mim...--Interesses e homens, tendo cada
um a sua policia, como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no
palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis,
incitando-os s vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que
est para vir  superficie. Quando  noite se apanha s, abre a gaveta e
desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a
galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais
altas, obstinaram-se:--No pode haver ordem nem tranquilidade com o
Alpoim no paiz--exclama um.--Elle  um espirito claro e nada mais!
protesta outro.-- uma cambada! A propria dissidencia que ?  um
inferno!--conclue o Alpoim.-- um idiota! O mal foi elegel-o para
chefe.--E o Teixeira do Amaral observa cerca d'um grupo:--So
pescadores d'aguas turvas...

Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve,
escreve sempre... O Credito Predial desaba:--Foi ento que os burguezes,
vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...--asseverou
Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os
acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens est uma fora monstruosa
que parece empurral-os a todos--at ao rei, que, de quando em quando,
pra de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima
da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do
Soveral--e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para
o desenlace fatal.

Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram at ridiculos. Mas,
apezar de tudo, no ultrapassavam determinada linha, apegados a
preconceitos e a formulas, de que no havia arrancal-os... Vae o senhor
D. Manuel, no tarda, porque a monarchia ha-de voltar--tudo sucede
vertiginosamente n'este paiz--conhecer outros, com muito menos
escrupulos, que o ho-de encher de desgostos. V. Magestade ver.


FIM DO 1.^o VOLUME





INDICES




LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.^o VOLUME



A

Abel d'Andrade
Abrantes (Marquez de)
Ada Weinstin
Adelaide Coelho da Cunha
Adrio de Seixas
Affonso Costa
Affonso (Infante D.)
Affonso VI
Affonso XII
Affonso XIII
Agostinho Franco
Albano de Mello
Albano da Fonseca (Coronel)
Alberto Bramo (D.)
Alberto Braga
Alberto Pimentel
Alberto d'Oliveira
Albuquerque (Alexandre)
Alcaovas (Conde de)
Alda Decken Lino
Alexandre Herculano
Alferrarede (Condessa de)
Alexandre Cabral
Alfredo Anjos
Alfredo Costa
Alfredo da Silva
Alice Lawrence
Alice Munr
Alpoim
Almada Carvalhais
Almeida Araujo (Condessa de)
Alvito (Marquez de)
Ameal (Conde do)
Amelia (D.)
Anna de Sousa Coutinho (D.)
Angejas
Anibal Soares
Anjos (As)
Anna de Jesus
Antonio Azevedo
Antonio Bandeira
Antonio de Brito
Antonio Cabral
Antonio Candido
Antonio Centeno
Antonio Emilio
Antonio da Costa e Silva
Antonio D. da Cruz Pinto
Antonio Ennes
Antonio Jos d'Almeida
Antonio Jos de Freitas
Antonio Manuel Teixeira
Antonia Morena
Antonio Moreira da Camara Coutinho
Antonio Nobre
Angela Pinto
Anselmo Vieira
Antero
Armando Navarro
Arnaldo Fonseca
Arnoso (Conde de)
Arnoso (Condessa)
Arroyo (Antonio)
Arroyo (Joo)
Arthur de Mello
Asseca (Viscondes de)
Augusto Cymbron
Augusto Machado
Augusto Pina
Augusto Ribeiro
Avelino d'Almeida
Aveiro (Duque de)
Avila e Bolama (Duqueza de)
Avila (Conde de)
Ayres de Gouveia


B

Baltar
Baro (Condes)
Barahona
Barbosa Colen
Barbosa du Bocage
Barjona
Barros Gomes
Batalha Reis
Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)
Beiro
Bernard Lazare
Bernardino Machado
Bernardo Pindella
Bomtempo
Borges & Irmo
Bourbon de Menezes
Braamcamp
Branca de Gonta Colao
Brazo
Brito Aranha
Brouillard (Madame)
Buia
Bulho Pato
Burnay


C

Caldeira
Camillo
Campos Henriques
Candida da Nora Kendall
Candido dos Reis
Capelo (Almirante)
Cardia
Carlos (D.)
Carlos de Freitas Jacome
Carlos Lobo d'Avila
Carlos Mayer
Carlota Joaquina (Dr.)
Carnaxide (Visconde de)
Carneiro de Moura
Carracida
Carrilho
Casal Ribeiro (Conde de)
Castello-Melhor
Castilho
Castro Solla (Conde de)
Celso Herminio
Chancelleiros
Chapuy
Christina Rezende da Silva
Cipriano Jardim
Coelho de Carvalho
Columbano
Conceio de Carvalho
Correia de Barros
Correia d'Oliveira
Costa Pinto
Costa Santos
Croneau
Cunha e Costa
Curry Cabral
Custodio Borja


D

Dantas Baracho
Delcass
Dias Costa
Dreyfus
Duval Telles


E

Ea de Queiroz
Ea Leal
Edla (Condessa de)
Eduardo Burnay
Eduardo Cheira
Eduardo Cordeiro
Eduardo de Sousa
Eduardo Pimenta
Eduardo Tavares
Eduardo VII
Egas Moniz
Elisa Baerlein
Elisa Baptista de Sousa Pedroso
Elvino de Brito
Emidio Navarro
Emilia Adelaide
Emilia das Neves
Ernest George
Espregueira
Eugenio de Castro


F

Falcarreras
Fernandes Thomaz
Fernando (D.)
Fernando de Serpa
Fernando Martins de Carvalho
Ferreira d'Almeida
Ferreira do Amaral
Fialho
Ficalho (Conde de)
Ficalho (Condessa de)
Ficalho (Marquez de)
Fife (Duque de)
Figueir (Conde de)
Figueir (Condessa de)
Fonseca, Santos & Viana
Fontes
Foz (Marquez da)
Frana Borges
Francisco Figueira
Francisco Medeiros
Franco (Marquez de)
Francisco da Fonseca Benevides
Frederico Arouca
Frei
Freitas Branco
Freitas Brito
Freitas Rego
Fronteira (Marquez da)
Fumega (Major)
Fuschini


G

Garrett
Garaty (Mr. e M.{me})
Garrido
Guerra Junqueiro
Gervasio Lobato
Gomes dos Santos
Gomes Leal
Gomes Netto
Graa (Major)
Guilherme de Azevedo


H

Heitor Ferreira
Henrique de Vasconcellos
Hintze Ribeiro


I

Idanha (Viscondessa de)
Imperador do Brazil
Irene Gilman


J

Jacintho Candido
Jayme Arthur da Costa Pinho
Jayme de Seguier
Jayme Victor
Joo d'Alarco (D.)
Joo Barreira
Joo Chagas
Joo Chrisostomo
Joo da Camara (D.)
Joo de Deus
Joo de Deus Guimares
Joo Franco
Joo Pinto dos Santos
Joo de Menezes
Joo VI (D.)
Joaquim da Boa Morte Alves de Moura
Joaquim Pessoa
John Burnay
Jorge Colao
Jorge O'Neill
Jos d'Azevedo
Jos Bacellar
Jos Dias (conego)
Jos Dias Ferreira
Jos de Figueiredo
Jos Lobo
Jos Luciano
Jos Maria dos Santos
Jos Nunes
Jos Paulo Menano
Jos Reinach
Jos Saragga
Julio de Vilhena
Judeu
Judice Bicker
Julia Bordallo
Justino


L

Latino Coelho
Leo XIII
Leito (Ourives)
Lencastre de Menezes (General)
Lima Junior
Linhares (conde de)
Lopo Vaz
Loubet
Loul (Duqueza de)
Luciano Monteiro
Lumiares (condes de)
Luiza Patricio de Balsemo
Luiz (D.)
Luiz da Camara (D.)
Luiz Campeo
Luiz de Castro (D.)
Luiz Fillipe (D.)
Luiz Osorio
Luiz Trigueiros


M

Machado (capito)
Malaquias de Lemos
Manuela Rey
Manuel (D.)
Manuel Bordallo Pinheiro
Manuel Figueira
Manuel Hintze Ribeiro
Manuel Ramos
Manuel Ribeiro Borges
Manuel Vaz Preto
Maral Pacheo
Magdalena Trigueiros
Mardel
Maria Augusta (D.)
Maria Emilia Seabra (D.)
Maria Emilia Macieira Lino (D.)
Maria (Infanta D.)
Maria II (D.)
Maria Kruz Brito (D.)
Maria Pia (D.)
Maria Tereza Pinto de Magalhes (D.)
Marquez da Foz
Marcelino de Mesquita
Mariano
Martins de Carvalho
Mathias de Carvalho
Matoso dos Santos
Maura
Max Nordau
Maximiliano d'Azevedo
May Figueira
Mello Barreto
Mesquitella (conde de)
Monpensier (Duqueza de)
Moreira d'Almeida
Moreira Marques
Moreirinha
Monteiro Milhes
Motta Marques Meirelles (Juiz)
Moser
Moura Cabral
Mousinho
Munhoz
Mura (condes de)


N

Napoles
Navarro
Nazareth
Norton de Mattos
Nuno Castello Branco


O

Oliveira (das _cautellas_)
Oliveira Martins
Oliveira Mattos
Ottolini da Veiga
Ouguella (Visconde de)
Ovidio d'Alpoim


P

Paccini
Pa Vieira (conde de)
Pad' Z
Padre Matos
Palmeirim
Palmeirim (General)
Palmella (Duqueza de)
Paraty (condes de)
Paris (condessa de)
Patrocinio (D.)
Paulucci
Pedro d'Araujo
Pedro Martins
Pedro de Noronha (D.)
Pedro IV (D.)
Pedro V (D.)
Pedro Victor
Penalva (Marquez de)
Penamacor (condessa de)
Penha Garcia (conde de)
Peniche (conde de)
Pequito
Pereira das Neves
Pimentel Pinto
Pinheiro Chagas
Pinto Basto
Poitier
Pombal (Marquez de)
Ponte de Lima (Marquezes)
Povolide (conde de)
Praia (Marquezes da)
Prim


Q

Queiroz
Queiroz Ribeiro


R

Ramalho
Rangel de Lima
Raphael Bordalo
Rebello da Silva
Regaleira (Baroneza da)
Ressano Garcia
Rezende
Ribeira Brava (Visconde da)
Ribeira Grande (conde da)
Ricardo Jorge
Rio-Maior (condessa de)
Rodin
Rodrigo da Fonseca Magalhes
Rosa Damasceno
Rosa pae
Rossini
Rufino d'Almeida


S

Sabugosa (conde de)
Saldanha (Duque de)
Sampaio (Visconde de)
Santos (Major)
Santos Viegas
Sarah da Motta Vieira Marques
Saraiva de Carvalho
Schwalbach
Sebastio Telles
Sergio de Castro
S. Boaventura
S. Loureno (condessa de)
S. Luiz de Braga (Viscondes de)
Silva Bastos
Silva Canellas
Silva Carvalho
Silva Graa
Silva Pinto
Silva Telles
Sousa Holstein
Sousa Martins
Soveral (Marquez de)


T

Taborda
Tavares Festas
Taveira (condessa de)
Teixeira de Sousa
Teodoro d'Almeida
Theophilo Braga
Thomaz Ribeiro
Tompson
Torlades (casa)
Torre da Murta (Visconde da)
Totenbach
Trindade Coelho


U

Urbano de Castro
Urbano Rodrigues


V

Valbom
Valdez
Valena (conde de)
Val-Flr (Marquez de)
Vallada (Marquez de)
Valladares (conde de)
Varzea (Visconde da)
Vasconcellos Porto
Vianna (Marquez de)
Vicente da Camara
Victor Hugo
Victoria (Rainha)
Vilaa
Villa de Fozcoa (Baro de)
Villa Nova de Cerveira (conde de)
Villa Real e Mello (condessa de)
Vimioso (conde de)


W

Wenceslau de Lima
Wernestein


Z

Zola
Zulmira Franco Teixeira





INDICE DOS CAPITULOS



                                     Pags.

Prefacio                                 9
Algumas Figuras                         27
P da Estrada                           93
A Sociedade Elegante                   267
O Mundo Politico                       289





INDICE DAS GRAVURAS



                                     Pags.

Columbano, Auto--retrato                33
Fialho d'Almeida                        49
D. Joo da Camara                       57
Ea de Queiroz                          65
Antonio Nobre no caixo                 81
Correia d'Oliveira                      89
Fernandes Thomaz, no seu gabinete       97
Guerra Junqueiro                       113
Jos Luciano encerra o Parlamento      129
Celso Herminio                         145
Gomes Leal                             161
D. Carlos I de Portugal                177
Oliveira Martins                       193
Papelinhos sobre o regicidio           206
Dantas Baracho                         225
Jos Maria d'Alpoim                    241
Teixeira de Sousa                      257






ACABOU DE SE IMPRIMIR
NA TIPOGRAFIA DA RENASCENA PORTUGUESA
RUA DOS MRTIRES DA LIBERDADE, 178,
AOS 21 DE JANEIRO DE 1919.
PORTO





Notas:

[1] Estas _Memorias_ devem formar quatro volumes:--2.^o vol.--Os
bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro por dentro; 3.^o
vol.--A Republica. O comercio e a finana. Jornaes e jornalistas; 4.^o
vol.--A Republica e os seus homens. Vida militar.

[2] _Republica_, 23 de Fevereiro de 1915.

[3] Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe que se lembre da
recepo de Afonso XII em Paris, e que ponha Sua Magestade a coberto de
qualquer manifestao que possa porventura nascer, da atitude da Rainha.
Limem-se as dificuldades, empreguem-se todos os esforos, nossos e
alheios; lancemos mo da nossa situao privilegiada com a Inglaterra;
ponhamos todos os elementos disponiveis em aco, para que o co serene.
Por exemplo: que est fazendo o sr. Soveral em Paris? Faam-no recolher
imediatamente a Londres.

[4] Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao Navarro, que 
absolutamente falso que elle se oponha a que o nomeiem par do reino.
Seriam os politicos capazes de armar a intriga?...

[5] Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, do qual
extracto os seguintes periodos:

No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se traduzia por uma
profunda afabilidade na vida intima e por uma indulgencia estranha no
julgamento dos homens. Jmais acreditou em malevolas intenes e nunca
da sua bocca saiu uma insinuao maliciosa. Confiava sempre na bondade
dos outros, no hesitando, nos momentos de agitao popular, em
atravessar serenamente as ruas da capital revoltada, como sucedeu em 5
de outubro e 14 de maio. E quando a familia, naturalmente receiosa, lhe
solicitava para no sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: a
mim ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem.

As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava trabalhos de
jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava as mais belas obras de
literatura. Dotado de uma memoria privilegiada, sabia de cr longos
trechos de versos, e at nos ultimos horriveis momentos da sua
existencia, arquejando no leito de dr, ora recomendava pontos
importantes dos processos que trazia entre mos, ora citava frases de
grandes poetas e filosofos referentes  hora suprema que rapidamente se
aproximava. E quando a noite cahia, tudo envolvendo no seu manto de
tristeza, era com uma anciedade estranha que esperava, na longa vigilia
dolorosa, a chegada do sol radiante. E foi com uma preciso rara que
previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias e tudo estar
acabado. E, de facto, assim sucedeu!

Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos tempos antes de
morrer, apesar da sua avanada idade de 75 anos, vergado sobre obras da
especialidade e, nas horas silenciosas das serenas noites de vero,
passeando na sua quinta dos Covas, ou encostado s amplas janelas da sua
biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as constelaes e
descobria entre os inumeros astros que recamavam o firmamento, aquelles
que os seus auctores haviam indicado.

[6] Effectivamente, segundo nos informam... o homem das _barbas e da
carabina no sahiu debaixo da Arcada_ (sic) do Ministerio do Reino,
visto, que com outro individuo se encontravam juntos da aludida
arvore.--Para qu?... por Jos Nunes.

[7] Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro poder arrancar,
bater nos cavalos, por ordem da condessa de Figueir, e aquilo seguir,
com os mortos e a rainha louca de dr:--Mortos! mortos! e ninguem para
os salvar!--N'um gesto maternal debruara-se cobrindo o filho com o
proprio corpo.


--Quem matou o rei... O grupo foi em parte organisado durante o dia 31
e s 3 horas da madrugada do dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos
arredores de Lisboa decidiu-se que s fossem cinco os individuos a
executar o plano do Boulevard Poissonire.--Para Qu? por Jos Nunes.

...Se na tarde do 1.^o de fevereiro de 1908 no se dsse mais que o
primeiro tiro que se deu, e esse foi de carabina, ficariam vivas todas
as pessoas reaes, excepto o rei. No obstante o tiroteio ter-se
desenvolvido momentaneamente, assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem,
foi ento que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, alguns
d'elles mortaes.--Para Qu? por Jos Nunes.


...--Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buia e o Costa teriam
cumplices?

E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma:

--Tinham varios amigos...?--E hesita.--O que lhe posso garantir,  que o
Buia no foi o heroe principal; quem preparou tudo foi o Alfredo Costa
na Loja Obreiros do Trabalho. O Costa tinha uma grande influencia
sobre varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio de ser
desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz da Costa foi
assassinado por mo occulta, quando vinha, preso e vivo, para o posto da
Camara Municipal. Note que as suas ultimas palavras foram estas.--Ai
minha me, que me trahiram!--E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia,
no pde vr quem lhe descarregra a arma, matando-o... No meu modo de
vr, os novelleiros encartados, dizem coisas sobre coisas, sem
conhecerem o _fio  meada_, e  exactamente o que tem prejudicado tudo e
todos.

Revelaes sobre o regicidio--Entrevista com o sr. Rodrigues Larangeira
publicada no _Imparcial_ de 1 de julho de 1910.

[8] Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho de 1892 a 12 de
Novembro de 1910, recebera o seguinte:


1892-1893                           10.833$890
1893-1894                           12.841$593
1894-1895                           16.699$006
1895-1896 (10 de Junho a 30
  de Setembro)                       2.163$750
1896-1898                           17.264$456
1896-1897 (26 de Abril a 26 de
  Julho)                             2.441$625
1898-1899                           15.618$168
1899-1900                           15.835$443
1900-1901                           12.976$500
1901-1902                           14.211$412
1902-1903                           21.807$881
1903-1904                           15.963$505
1904-1905                           35.481$112
                                  ------------
           A transportar           194.138$341


              Transporte           194.138$341
1905-1906                           21.437$118
1906-1907                           25.749$787
1907-1908                           20.447$868
1908-1909                           11.802$562
1909-1910                           12.487$687
1910-1911 (de 16 de Julho a 12
   de Novembro)                      3.515$680
                                  ------------
                                   289.679$044

Recebeu mais:

  Pela rubrica de adeantamentos      5.743$815
  Pela rubrica de suprimentos          226$035
  Pela rubrica de adeantamentos        450$000
  Pela rubrica da visita aos Reis
     d'Inglaterra, 1904-1905.       21.042$935
                                  ------------
                  Total--Reis      317.041$828


--As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 ris por anno.
V-se como eram excedidas!

--Segundo o oficio do ex-ministro Vilaa para o ministro da fazenda,
pedindo mais dinheiro para Soveral, este, no almoo e ornamentao da
legao, na visita do rei Carlos, consumira mais o seguinte:


Almoo, libras                       325-12-0
Vinho, libras.                        49- 6-6
Decoraes, libras                 1.760- 1-0
                                 ------------
               Total, libras.      2.134-19-6


--Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da thesouraria,
Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita do rei Carlos, Soveral
recebera mais:


Em 30 de Novembro de 1904,
  libras                                1.500
Em 10 de Dezembro do mesmo
  anno, libras                          1.000
                                 ------------
               Total, libras.           2.500


Todas estas quantias, em libras, ou em ris, foram calculadas ao cambio
par. Como n'aquellas pocas houve subido agio sobre o ouro, e calculando
esse agio n'uma media de 15%, v-se que notavel aumento ha nas despezas
descritas!

Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas extraordinarias no
anno economico de 1909-1910, sem qualquer justificao, ris 1.934$855;
e pela verba destinada  viagem a Londres do rei D. Manuel, ris
4.468$900.

Na liquidao e pagamento dos direitos de merc, emolumentos e sellos,
houve enorme trapalhada durante muitos annos, d'onde resultou Soveral
esquivar-se ao cumprimento das leis fiscaes.

Deve os direitos de merc e emolumentos e sello pelo titulo de Conselho,
pelo titulo de Marquez, pelo cargo de secretario da legao em Londres,
pelo cargo de ministro em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada,
etc.

Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a habilidade de em
17 mezes, s  sua parte, consumir em despezas reservadas, ris
37.757$515, sem deixar no ministerio qualquer documento, explicando ou
justificando o emprego de qualquer verba!--_Intransigente_, de 31 de
Maro de 1911.

[9] Escrevem-nos de Braga:

Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel Coelho dos Santos,
penhorista, so pessoas de bem e residem em Espinho.

Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa curar uma molestia
hospedando-se em casa de seu irmo Frederico, negociante, chefe graduado
do alpoinismo. D'ali escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha
negocios, quando na capital comeou a agitao para derrubar o Franco,
dando em cada carta uma noticia politica, que o Coelho lia em toda a
parte onde se lia politica. Na quarta-feira ou quinta da semana do
regicidio, essa noticia era d'este theor: _Disseram hoje a Frederico, no
escriptorio forense... que Joo Franco seria assassinado em 24 horas_.
Quando chegou a Espinho a carta que continha esta noticia, tinham
passado as taes 24 horas, por isso o valor da noticia estava
prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e na quarta-feira seguinte a
carta habitual dava esta noticia:

_Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela priso dos chefes,
reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes d'aco, e
resolveram a morte da familia real. Propoz-se que os executores fossem
tirados  sorte, mas o professor Buia protestou, oferecendo-se
voluntariamente, sendo o seu alvitre secundado por muitos que se
promptificaram a auxilial-o_.

Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos Henriques logo depois
da formao do gabinete Amaral. Foram em carta anonyma, mas acompanhados
d'um grande numero de testemunhas que viram e leram as taes noticias,
figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, d'Elvas, que na
ocasio residia em Espinho e dava a semelhantes noticias um grande valor
para a investigao.

Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira e chamou o outro
da Meda, fez de conta que nada era com elle. N'esta pista ninguem
mexeu.

       *       *       *       *       *

A reunio, afirma-se, teve logar na Costa do Castello. Tomaram parte
n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana e de todas as quadrilhas
monarchicas...[9a]

[9a] Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de lr e
consultar a coleco d'_O Povo d'Aveiro_.  indispensavel. Essa voz
tremenda e colrica prga, ha annos, sem um desfalecimento, meia duzia
de verdades essenciaes ao paiz. Alm d'isso Homem Christo  o maior
jornalista portuguez e um pamphletario que s tem outro na nossa
literatura que se lhe compare--Jos Agostinho de Macedo.

[10] Essa extraordinaria sesso, em que o parlamento parecia estar no
banco dos rus e o Afonso Costa, theatral, surgia como um acusador
triumphante!... O ministerio tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia
do que se ia tratar: esperava-se peor, muito peor... A impresso real,
patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas  vista,
acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? Quando leu os
documentos houve uma impresso de alivio, quasi a exclamao:--Era s
aquillo?...--E quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa que
acusava--ninguem soube aproveitar o momento, o erro, a oportunidade...
Ninguem se quiz comprometer... A defeza feita pelo Pa foi fragil,
risonha, quasi pedindo desculpa...

[11] Folheto de 10 paginas, com este titulo: _Os Barbades, resumo
historico por D. Sebastio de Vasconcellos, Bispo de Beja, Par do Reino
e Comendador da Nobilissima Ordem de N. S. da Conceio de Villa Viosa.
Propriedade da Empreza Editora do Jornal Portugal Limitada_.

[12] Carta publicada n'_O Norte_ de 1 de Setembro de 1918 pelo snr.
Bourbon e Menezes:


                                                           Meu Senhor:


Tenho a honra de communicar a V. Magestade que, nos termos assentados,
escrevi ao seu encarregado de negocios em Berlim para fazer-lhe saber a
conveniencia q. haveria em retro-trahir _(sic)_ a data da visita de V.
Magestade para 20 de novembro e nesta orientao lhe expuz, para levar
ao conhecimento do Ministerio dos Negocios Estrangeiros allemo, os
argumentos e razes que me pareceram apropriados ao fim que se pretende.
Julgo q. isto merecer a aprovao de V. Magestade.

Quanto ao assunto da nossa conversao no Pao das Necessidades, entendi
hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns
informes que  natural que V. Magestade j conhea pelo conde de
Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a
conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relaes
politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum--a invaso da
onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle
recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao
conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho.
Fiz-lhe notar que esta idea era apenas _pessoal_ e _minha_, que sobre
ella no tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve
suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as
duas naes por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo
auxilio, no caso de irrompessem _(sic)_ movimentos revolucionarios que
puzessem l e c em risco a segurana das instituies.

Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a
vantagem e lhe parecia que seria grato ao corao de S. Magestade o Rei
D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente
das estipulaes da nossa alliana com a Inglaterra. Entendi pr n'este
p a questo porq. tinha opurtunidade _(sic)_ e corresponde a uma
necessidade que no  _s nossa_ mas tambem d'elles. O ministro
comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha,
a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe
sentir que seria bom pr s a questo _em principio_ e quanto  extenso
e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o
governo conhecessem o assumpto. No quiz ir mais longe para me no
envolver em dissertaes sobre acordos economicos que me parecem pouco
convenientes agora para ns. Eis o que fiz e o que me parece que diviria
_(sic)_ fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto s outras
naes, carece de opurtunidade _(sic)_ e entrados na via de explicaes
correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista.

O que se me affigura necessario e conveniente  ligar os dois paizes
n'uma deffeza _(sic)_ commum, visto que as vantagens e riscos so
communs e no julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais
quanto as suas informaes se referem a um movimento revolucionario nos
dois paizes, com dinheiro vindo de Frana.

Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovao
de V. Magestade, pois que outro no  o meu desejo se no de
corresponder  sua confiana com a pratica de actos meus que sejam
acertados.

Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que
fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada
sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era _ l'insu_
do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada,
lhe no faltaria com essa confidencia.

Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia s sucessivas
perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano.

_Forse che si: forse che n._

Beijo respeitosamente as mos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o
devido respeito, as ordens que se dignar dar ao


                                               seu ministro
                                            e subdito obediente

Lisboa, 19-7-910.

                                 (a) _Jos d'Azevedo Castello Branco_.


[13]

             PREO DA VIDA

Po--kilo                                  90
Carne de segunda qualidade                300
Carne limpa                               600
Vitella                                   800
Carne de porco                            480
Toucinho                                  320
Banha                                     320
Assucar pil                              240
Bacalhau                                  200
Massas                                    150
Manteiga                                  800
Ovos--duzia                               250
Feijo branco--litro                       70
Petroleo                                   90
Leite                                     100
Feijo frade                               50
Feijo da ilha (manteiga)                 100
Azeite                                    400
Carvo--arroba                            300
Uma pescada                               500
Um vestido de senhora                  30$000
Um fato de homem                       20$000
Um par de botas                         4$000
Mdia do aluguer d'um andar, por
  semestre (casa para uma familia
  da mediania)                        120$000

[14] Foi oficial na marinha ingleza, condecorado na campanha do Baltico
com a medalha militar, e um excelente administrador. Diz-se que graas a
elle  que a casa da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que
chegra  data do casamento. Por isso talvez  que passou por um apagado
guarda livros...

[15] Do _Correio Nacional_, na sua seco _Ecos_:


     O sr. Hintze Ribeiro  d'uma grande generosidade para com a sua
     familia.

     Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeioada sob
     informes do _Diario do Governo_:

     Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi
     transferido o sr. dr. Jos Paulo Menano, de 24 annos de edade,
     casado com uma cunhada do sr. Hintze.

     Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas
     da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr.
     Hintze.

     O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmo do sr. Hintze, foi graduado em
     inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de
     1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral.

     O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze,
     foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de
     reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi.

     O sr. Manuel Rebello Borges, 2.^o oficial da alfandega de S.
     Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto
     seiscentos e vinte mil reis.

      uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze no seja mais
     numerosa.

     Aliaz, no haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar
     tantos encargos...


[16] De passagem apontemos a figura de Norton de Matos, o maior ministro
da guerra contemporaneo, organizador capaz d'um trabalho de ferro, que
s os technicos sero capazes de avaliar em toda a sua extenso.

[17] Todas as palavras entre comas so dos _Documentos politicos_.

[18] Introduziu a ordem no Pao.--At o preo do peixe quer
saber!--dizia-se c fra com indignao. Quando do 5 d'outubro todos os
creados diziam bem do rei--todos diziam mal da rainha. O pequeno quadro
que segue explica talvez muita coisa:

Havia familias das proximidades do Pao que se alumiavam s com as
vellas do palacio real, compradas por vil preo. As contrabandistas
andavam pelas casas dos seus freguezes oferecendo roupas, desde os
vestidos da rainha e dos fatos do rei at s roupas brancas, meias de
seda e sapatos de setim com a cora real, para no oferecer duvidas
acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento de sciencia
certa, por vivermos n'esse tempo perto do Pao e nos terem vindo
oferecer por mais de uma vez os espojos do saque, que no aceitamos por
varias razes, sendo uma d'ellas a falta de vocao para receptadores de
roubos. A vocao nasce com a pessoa. Da ucharia do Pao banqueteavam-se
os parentes dos empregados e cremos que at os amigos.

A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei D. Luiz
caar  Tapada e tendo morto tres coelhos, ao chegar ao Pao lembrou-se
de os mostrar  rainha.

Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, porque os dois
restantes tinham desaparecido durante o breve precurso da Tapada at 
Ajuda.

Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um ataque epileptico que
os obrigava a saltar das caixas sem que se soubesse para onde tinham
desertado. Chegou o descaramento a ponto de no deixarem um charuto para
o rei fumar.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   91| iuutil              | inutil               |
  |#pg.  263| esqueeeu            | esqueceu             |
  |#pg.  291| eomer               | comer                |
  +----------+---------------------+----------------------+

Identificou-se a no existncia nos dois originais de uma figura que se
encontraria entre as pginas 206 e 207. Presume-se que por no se
encontrar em ambas as obras da mesma edio, que se trata de um erro de
impresso que afectou esta edio em particular.

Foram efectuadas correces na numerao das pginas no indce de forma
a coincidir com a localizao correcta no livro.

As figuras no original encontram-se entre pginas.





End of the Project Gutenberg EBook of Memrias, by Ral Brando

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