Project Gutenberg's Memorias Postumas de Braz Cubas, by Machado de Assis

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Title: Memorias Postumas de Braz Cubas

Author: Machado de Assis

Release Date: June 2, 2017 [EBook #54829]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***




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MEMRIAS PSTHUMAS

DE

BRAZ CUBAS

POR

MACHADO DE ASSIS

RIO DE JANEIRO

TYPOGRAPHIA NACIONAL

1881




OBRAS DO AUTOR

    Memrias Psthumas de Braz Cubas
    Helena, romance
    Yay Garcia, romance
    Resurreio, romance
    A mo e a luva, romance
    Historias da meia noite
    Contos Fluminenses
    Americanas, poesias
    Phalenas, poesias
    Chrysalidas, poesias
    Tu s, tu, puro amor, comdia
    Os deuses de casaca, comdia
    Desencantos, comdia
    Theatro




AO LEITOR


Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o
escripto para cem leitores, cousa  que admira e consterna. O que no
admira, nem provavelmente consternar  se este outro livro no tiver
os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito,
dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa,
na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a frma livre de um Sterne, de
um Lamb, ou de um de Maistre, no sei se lhe metti algumas rabugens
de pessimismo. Pde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da
galhofa e a tinta da melancholia; e no  difficil antever o que poder
sair desse connubio. Accresce que a gente grave achar no livro umas
apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola no achar
nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos
graves e do amor dos frivolos, que so as duas columnas maximas da
opinio.

Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinio, e o meio efficaz
para isso  fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo
 o que contm menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e
truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que
empreguei na composio destas _Memrias_, trabalhadas c no outro
seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e alis desnecessario ao
entendimento da obra. A obra em si mesma  tudo: se te agradar, fino
leitor, pago-me da tarefa; se te no agradar, pago-te com um piparote,
e adeus.

BRAZ CUBAS.



                               AO VERME

                                  QUE

                     PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES

                            DO MEU CADAVER

                                DEDICO

                        COMO SAUDOSA LEMBRANA

                                 ESTAS

                          MEMRIAS PSTHUMAS




CAPITULO I


Obito do autor


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou
pelo fim, isto , se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a
minha morte. Supposto o uso vulgar seja comear pelo nascimento, duas
consideraes me levaram a adoptar differente methodo: a primeira  que
eu no sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para
quem a campa foi outro bero; a segunda  que o escripto ficaria assim
mais galante e mais novo. Moyss, que tambem contou a sua morte, no a
poz no introito, mas no cabo: differena radical entre este livro e o
Pentateuco.

Dito isto, expirei s duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de
agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta
e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de
tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos.
Onze amigos! Verdade  que no houve cartas nem annuncios. Accresce
que chovia--peneirava--uma chuvinha miuda, triste e constante, to
constante e to triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora
a intercalar esta engenhosa ida no discurso que proferiu  beira de
minha cova:--Vs, que o conhecestes, meus senhores, vs podeis dizer
commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de
um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar
sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o
azul como um crepe funereo, tudo isso  a dor crua e m que lhe re 
natureza as mais intimas entranhas; tudo isso  um sublime louvor ao
nosso illustre finado.

Bom e fiel amigo! No, no me arrependo das vinte apolices que lhe
deixei. E foi assim que cheguei  clausula dos meus dias; foi assim que
me encaminhei para o _undiscovered country_ de Hamlet, sem as ancias
nem as duvidas do moo principe, mas pausado e tropego, como quem se
retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove
ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,--minha irm Sabina, casada
com o Cotrim,--a filha, um lyrio do valle,--e... Tenham pacincia!
daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de
saber que essa anonyma, ainda que no parenta, padeceu mais do que as
parentas.  verdade, padeceu mais. No digo que se carpisse, no digo
que se deixasse rolar pelo cho, epileptica. Nem o meu bito era cousa
altamente dramatica... Um solteiro que expira aos sessenta e quatro
annos, no parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E
dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De
p,  cabeceira da cama, com os olhos estpidos, a boca entreaberta, a
triste senhora mal podia crr na minha extinco.

--Morto! morto! dizia comsigo.

E a imaginao della, como as cegonhas que um illustre viajante viu
desferirem o vo desde o Illysso s ribas africanas, sem embargo das
ruinas e dos tempos,--a imaginao dessa senhora tambem voou por
sobre os destroos presentes at s ribas de uma Africa juvenil...
Deixal-a ir; l iremos mais tarde; l iremos quando eu me restituir aos
primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente,
ouvindo os soluos das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que
tamborila nas folhas de tinhoro da chacara, e o som estridulo de uma
navalha que um amolador est afiando l fra,  porta de um correeiro.
Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que
podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa.
A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha,
esvaia-se-me a consciencia, eu descia  immobilidade physica e moral,
e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do
que uma ida grandiosa e util, a causa da minha morte,  possivel que o
leitor me no creia, e todavia  verdade. Vou expor-lhe summariamente o
caso. Julgue-o por si mesmo.




CAPITULO II


O emplasto


Com effeito, um dia de manh, estando a passear na chacara,
pendurou-se-me uma ida no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez
pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas
cabriolas de volantim, que  possivel crer. Eu deixei-me estar a
contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braos e as
pernas, at tomar a frma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa ida era nada menos que a inveno de um medicamento sublime, um
emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica
humanidade. Na petio de privilegio que ento redigi, chamei a
atteno do governo para esse resultado, verdadeiramente christo.
Todavia, no neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam
resultar da distribuio de um producto de tamanhos e to profundos
effeitos, Agora, porm, que estou c do outro lado da vida, posso
confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver
impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas
caixinhas do remedio, estas tres palavras: _emplasto Braz Cubas._ Para
que negal-o? Eu tinha a paixo do arruido, do cartaz, do foguete de
lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porm que esse
talento me ho de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha
ida trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico,
outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sde
de nomeada. Digamos:--amor da gloria.

Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da
gloria temporal era a perdio das almas, que s devem cobiar a gloria
eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos teros
de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente
humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feio.

Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.




CAPITULO III


Genealogia


Mas, j que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto
esboo genealogico.

O fundador da minha familia foi um certo Damio Cubas, que floreceu
na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural
do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade,
se smente exercesse a tanoaria. Mas no; fez-se lavrador, plantou,
colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, at que
morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas.
Neste rapaz  que verdadeiramente comea a serie de meus avs--dos
avs que a minha familia sempre confessou--, porque o Damio Cubas era
afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o
Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos
particulares do vice-rei conde da Cunha.

Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria,
allegava meu pae, bisneto do Damio, que o dito appellido fra dado a
um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da faanha que
praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de
imaginao; escapou  tanoaria nas azas de um _calembour._ Era um bom
caracter meu pae, varo digno e leal como poucos. Tinha,  verdade, uns
fumos de pacholice; mas quem no  um pouco pachola nesse mundo? Releva
notar que elle no recorreu  inventiva, seno depois de experimentar
a falsificao; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu
famoso homonymo, o capito-mr Braz Cubas, que fundou a villa de S.
Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo  que me deu o nome de
Braz. Oppoz-se-lhe porm a familia do capito-mr; e foi ento que elle
imaginou as tresentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia,
por exemplo, o lyrio do valle, que  a flor das damas do seu tempo;
vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas no anticipemos os
successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.




CAPITULO IV


A ida fixa


A minha ida, depois de tantas cabriolas, constituira-se ida fixa.
Deus te livre, leitor, de uma ida fixa; antes um argueiro, antes uma
trave no olho. V o Cavour; foi a ida fixa da unidade italiana que o
matou. Verdade  que o Bismark no morreu; mas, cumpre advertir que
a natureza  uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira.
Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro
banana,--ou uma abobora como lhe chamou Seneca, e um Tito, que
mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou
meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos,
e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi
o abobora de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um
poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius
incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se no vieste a
lyrio, tambem no ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o
sabio.

Viva pois a historia, a voluvel historia que d para tudo; e, tornando
 ida fixa, direi que  ella a que faz os vares fortes e os doudos;
a ida mobil, vaga ou furta-cor  a que faz os Claudios,--formula
Suetonio.

Era fixa a minha ida, fixa como... No me occorre nada que seja assaz
fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez
a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparao que melhor lhe
quadrar, veja-a e no esteja dahi a torcer-me o nariz, s porque ainda
no chegmos  parte narrativa destas memorias. L iremos. Creio que
prefere a anecdota  reflexo, como os outros leitores, seus confrades,
e acho que faz muito bem. Pois l iremos. Todavia, importa dizer que
este livro  escripto com pachorra, com a pachorra de um homem j
desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de
uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que
no edifica nem destre, no inflamma nem regla, e  todavia mais do
que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos l; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a
historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de ns pelejou
a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confisso do Augsburgo; pela
minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell,  s pela ida de que
Sua Alteza, com a mesma mo que trancara o parlamento, teria imposto
aos inglezes o emplasto Braz Cubas. No se riam dessa victoria commum
da pharmacia e do puritanismo. Quem no sabe que ao p de cada bandeira
grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras
modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam  sombra daquella,
com ella cahem, e no poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, 
como a arraia-miuda, que se acolhia  sombra do castello-feudal; cahiu
este e a arraia ficou. Verdade  que se fez grada e castell... No, a
comparao no presta.




CAPITULO V


Em que apparece a orelha de uma senhora


Vae se no quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha
inveno, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e no me
tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a ida fixa dos
doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do cho das turbas, e
remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e no  deante de to excelso
expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia
estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem
cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe 
eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio
haver provado que foi a minha inveno que me matou. Ha demonstraes
menos lcidas e no menos triumphantes.

No era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um
seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude
e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lanando os alicerces de
uma inveno pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma
instituio politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente
do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e l se ia tudo. Um
sopro de ar foi portanto o meu gro de ara de Cromwell. Assim corre a
sorte dos homens.

Com esta reflexo me despedi eu da mulher, no direi mais discreta, mas
com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do
primeiro capitulo, a tal, cuja imaginao  semelhana das cegonhas do
Illysso... Tinha ento 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina.
Imagine o leitor que nos ammos, ella e eu, muitos annos antes, e que
um dia, j enfermo, vejo-a assomar  porta da alcova...




CAPITULO VI


Chimne, qui l'eut dit?--Rodrigue, qui l'eut cru?


Vejo-a assomar  porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto,
e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida
pela presena de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia,
contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de
fazer nenhum gesto. Havia j dous annos que nos no viamos; e eu via-a
agora no qual era, mas qual fora**, quaes foramos ambos, porque um
Ezechias mysterioso fizera recuar o sol at os dias juvenis. Recuou
o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de p, que a morte
ia espalhar na eternidade do nada, pde mais do que tempo, que  o
ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples
saudade.

Cream-me, o menos mau  recordar; ninguem se fie da felicidade
presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado
o espasmo, ento sim, ento talvez se pde gozar deveras, porque entre
uma e outra dessas duas illuses, melhor  a que se gosta, sem doer.

No durou muito a evocao; a realidade dominou logo; o presente
expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste
livro, a minha theoria das edies humanas. O que por agora importa
saber  que Virgilia--chamava-se Virgilia--entrou na alcova, firme,
com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu at o meu
leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava
todos os dias para fallar do cambio, da colonisao e da necessidade de
desenvolver a viao ferrea; nada mais interessante para um moribundo.
Saiu; Virgilia deixou-se estar de p; durante algum tempo ficamos a
olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous
grandes namorados, de duas paixes sem freio, nada mais havia alli,
vinte annos depois; havia apenas dous coraes murchos, devastados pela
vida e saciados della, no sei se em egual dse, mas emfim saciados.
Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal;
estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa
de S. Joo, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, s agora
comeavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.

--Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.--Ora, defuntos! respondeu
Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mos:--Ando a ver se
ponho os vadios para a rua.

No tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e
doce. Sentou-se. Eu estava s, em casa, com um simples enfermeiro;
podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas
noticias de fra, narrando-as com graa, com um certo travo de m
lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia
um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que no deixava nada.

--Que idas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que
eu no volto mais. Morrer! Todos ns havemos de morrer; basta estarmos
vivos.

E vendo o relogio:

--Jesus! so tres horas. Vou-me embora.

--J?

--J; virei amanh ou depois.

--No sei se faz bem, retorqui; o doente  um solteiro e a casa no
tem senhoras...

--Sua mana?

--Ha de vir c passar uns dias, mas no pde ser antes de sabbado.

Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com
gravidade:

--Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas,
virei com o Nhonh.

Nhonh era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade
de cinco annos, fra complice inconsciente de nossos amores. Vieram
juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha
alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder
logo s palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao
filho:

--Nhonh, no repares nosso grande manhoso que ahi est; no quer
fallar para fazer crer que est  morte.

Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura
galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das
vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse
denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominao
sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos,
casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados,
vi-a fallar com desdem e um pouco de indignao da mulher de que se
tratava, alis sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo
aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam
de ns os gavies, se Buffon tivesse nascido gavio...

Era o meu delirio que comeava.




CAPITULO VII


O delirio


Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; fao-o eu,
e a sciencia m'o agradecer. Se o leitor no  dado  contemplao
destes phenomenos mentaes, pde saltar o capitulo; v direito 
narrao. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que 
interessante saber o que se passou na minha cabea durante uns vinte a
trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro,
escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com belisces e
confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na _Summa Theologica_ de S. Thomaz,
impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e
estampas; ida esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade;
e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mos os fechos do livro,
e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de
certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituido  frma humana, vi chegar um hippopotamo, que
me arrebatou. Deixei-me ir, calado, no sei se por medo ou confiana,
mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que
me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me
parecia sem destino.

--Engana-se, replicou o animal, ns vamos  origem dos seculos.

Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo no me
entendeu ou no me ouviu, se  que no fingiu uma dessas cousas; e,
perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo
de Achilles ou da asna de Balao, retorquiu-me com um gesto peculiar a
estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os
olhos e deixei-me ir  ventura. J agora no se me d de confessar que
sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava
a origem dos seculos, se era to mysteriosa como a origem do Nilo, e
sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummao dos
mesmos seculos; tudo isto reflexes de um cerebro enfermo. Como ia de
olhos fechados, no via o caminho; lembra-me s que a sensao de frio
augmentava com a jornada, e que chegou uma occasio em que me pareceu
entrar na regio dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que
o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra
montanha de neve, vegetao de neve, e varios animaes grandes e de
neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas
apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:

--Onde estamos?

--J passmos o Eden.

--Bem; paremos na tenda de Abraho.

--Mas se ns caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha
cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e
extravagante, o frio incommodo, a conduco violenta, e o resultado
impalpavel. E depois--cogitaes de enfermo--dado que chegassemos ao
fim indicado, no era impossivel que os seculos, irritados com lhes
devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser to
seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho,
e a planicie voava debaixo dos nossos ps, at que o animal estacou, e
pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar smente; nada
vi, alm da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio
ceu*, at alli azul. Talvez, a espaos, me apparecia uma ou outra
planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O
silencio daquella regio era egual ao do sepulchro: dissera-se que a
vida das cousas ficra estupida deante do homem.

Cahiu do ar? destacou-se da terra? no sei; sei que um vulto immenso,
uma figura de mulher me appareceu ento, fitando-me uns olhos
rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastido das frmas
selvaticas, e tudo escapava  comprehenso do olhar humano, porque os
contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz
diaphano. Estupefacto, no disse nada, no cheguei sequer a soltar um
grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e
como se chamava; curiosidade de delirio.

--Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua me e tua inimiga.

Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A
figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de ns o effeito de
um tufo; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das
cousas externas.

--No te assustes, disse ella, minha inimizade no mata;  sobretudo
pela vida que se affirma. Vives: no quero outro flagello.

--Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mos, como para
certificar-me da existencia.

--Sim, verme, tu vives. No receies perder esse andrajo que  teu
orgulho; provars ainda, por algumas horas, o po da dr e o vinho
da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua
conscincia rehouver um instante de sagacidade, tu dirs que queres
viver.

Dizendo isto, a viso estendeu o brao, segurou-me pelos cabellos e
levantou-me ao ar, como se fra uma simples pluma. S ento pude
ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma
contorso violenta, nenhuma expresso de odio ou ferocidade; a feio
unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna
surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas
no corao. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expresso glacial, havia um
ar de juventude, mescla de fora e vio, diante do qual me sentia eu o
mais debil e descrepito dos seres.

--Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua
contemplao.

--No, respondi; nem quero entender-te; tu s absurda, tu s uma
fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se  verdade que enlouqueci, tu
no passas de uma concepo de alienado, isto , uma cousa v, que a
razo ausente no pde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que
eu conheo  s me e no inimiga; no faz da vida um flagello, nem,
como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque
Pandora?

--Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a
esperana, consolao dos homens. Tremes?

--Sim; o teu olhar fascina-me.

--Creio; eu no sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu ests
prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a
voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra echoou, como um trovo, naquelle immenso valle,
afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos;
pareceu-me sentir a decomposio subita de mim mesmo. Ento, encarei-a
com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.

--Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes
de vida? Para devorar e seres devorado depois? No ests farto do
expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei
menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da
tarde, a quietao da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o
maior beneficio das minhas mos. Que mais queres tu, sublime idiota?

--Viver somente, no te peo mais nada. Quem me poz no corao este
amor da vida, se no tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear
a ti mesma, matando-me?

--Porque j no preciso de ti. No importa ao tempo o minuto que passa,
mas o minuto que vem. O minuto que vem  forte, jocundo, suppe trazer
em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o
tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, no tenho outra lei.
Egoismo, conservao. A ona mata o novilho porque o raciocinio da
ona  que ella deve viver, e se o novilho  tenro tanto melhor: eis o
estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos
a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe,
atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma
reduco dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raas todas,
todas as paixes, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e
dos odios, a destruio reciproca dos seres e das cousas. Tal era
o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem
e da terra tinha assim uma intensidade que lhe no podiam dar nem
a imaginao nem a sciencia, porque a sciencia  mais lenta e a
imaginao mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensao
viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o
relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilho, e, no obstante,
porque os olhos do delirio so outros, eu via tudo o que passava diante
de mim,--flagellos e delicias,--desde essa cousa que se chama gloria
at essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a
miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobia
que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a
penna, humidas de suor, e a ambio, a fome, a vaidade, a melancholia,
a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, at
destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora
mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as
suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia
alguma vez, mas cedia  indifferena, que era um somno sem sonhos,
ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Ento o homem, flagellado e
rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura
nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro
de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario,
com a agulha da imaginao; e essa figura,--nada menos que a chimera
da felicidade,--ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar
pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e ento ella ria, como um
escarneo, e sumia-se, como uma illuso.

Ao contemplar tanta calamidade, no pude reter um grito de angustia,
que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e no sei por
que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,--de um riso
descompassado e idiota.

--Tens razo, disse eu, a cousa  divertida e vale a pena,--talvez
monotona--mas vale a pena. Quando Job amaldioava o dia em que fra
concebido,  porque lhe davam ganas de ver c de cima o espectculo.
Vamos l, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa  divertida, mas
digere-me.

A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os
seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as geraes
que se superpunham s geraes, umas tristes, como os Hebreus do
captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas
ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma fora mysteriosa me
retinha os ps; ento disse commigo:--Bem, os seculos vo passando,
chegar o meu, e passar tambem, at o ultimo, que me dar a decifrao
da eternidade. E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que
vinham chegando e passando, j ento tranquillo e resoluto, no sei
at se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua poro de
sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o
seu cortejo de systemas, de idas novas, de novas illuses; em cada
um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam
depois, para remoar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma
regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisao, e o
homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e
o palacio, a rude alda e Thebas de cem portas, creava a sciencia,
que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico,
philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia
 esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que
entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu
olhar, enfarado e distrahido*, viu emfim chegar o seculo presente, e
atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio
de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo to miseravel
como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a
mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de atteno; fitei a vista;
ia emfim ver o ultimo,--o ultimo!; mas ento j a rapidez da marcha
era tal, que escapava a toda a comprehenso; ao p della o relampago
seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se;
uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um
nevoeiro cobriu tudo,--menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que
alis comeou a diminuir, a diminuir, a diminuir, at ficar do tamanho
de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato
_Sulto_, que brincava  porta da alcova, com uma bola de papel...




CAPITULO VIII


Razo contra Sandice


J o leitor comprehendeu que era a Razo que voltava  casa, e
convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de
Tartufo:

     La maison est  moi, c'est  vous d'en sortir.

Mas  sestro antigo da Sandice criar amor s casas alheias, de modo
que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a faro despejar. 
sestro; no se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora,
se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez,
outras durante as suas estaes calmosas, concluiremos que esta amavel
peregrina  o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi
um disturbio  porta do meu cerebro, porque a adventicia no queria
entregar a casa, e a dona no cedia da inteno de tomar o que era seu.
Afinal, j a Sandice se contentava com um cantinho no soto.

--No, senhora, replicou a Razo, estou canada de lhe ceder sotos,
canada e experimentada, o que voc quer  passar mansamente do soto 
sala de jantar, dahi  de visitas e ao resto.

--Est bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um
mysterio.

--Que mysterio?

--De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peo-lhe s uns
dez minutos.

A Razo poz-se a rir.

--Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a
mesma cousa...

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fra; depois
entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda
grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de
fra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente
andar at  consummao dos seculos.




CAPITULO IX


Transio


E vejam agora com que destreza, com que fina arte fao eu a maior
transio deste livro. Vejam: o meu delirio comeou em presena
de Virgilia; Virgilia foi o meu gro peccado da juventude; no ha
juventude sem meninice; meninice suppe nascimento; e eis aqui como
chegamos ns, sem esforo, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.
Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a atteno pausada
do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens
do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto
de methodo, sendo, como , uma cousa indispensavel, todavia  melhor
tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco  fresca e  solta,
como quem no se lhe d da visinha fronteira, nem do inspector de
quarteiro.  como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma
arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao
dia 20 de Outubro.




CAPITULO X


Naquelle dia...


Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci;
recebeu-me nos braos a Pascoela, insigne parteira minhota, que
se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma gerao inteira de
fidalgos. No  impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declarao;
creio, todavia, que o sentimento paterno  que o induziu a gratifical-a
com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da
nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe
quadrava ao sabor. Meu tio Joo, o antigo official de infantaria,
achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae no pde ouvir
sem nauseas; meu tio Ildefonso, ento simples padre, farejava-me conego.

--Conego  o que elle ha de ser, e no digo mais por no parecer
orgulho; mas no me admiraria nada se Deus o destinasse  um bispado...
 verdade, um bispado; no  cousa impossivel. Que diz voc, mano
Bento?

Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alava-me
ao ar, como se intentasse mostrar-me  cidade e ao mundo; perguntava a
todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...

Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro
a mr parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhana
veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras
semanas muitas foram as visitas em nossa casa. No houve cadeirinha
que no trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calo; e se ho
conto os mimos, os beijos, as admiraes, as benos,  porque, se os
contasse, no acabaria mais o capitulo, e  preciso acabal-o.

Item, no posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram
a tal respeito, a no ser que foi uma das mais galhardas festas do
anuo seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma tera
feira de maro, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel
Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas
familias do norte e honravam devras o sangue que lhes corria nas
veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes
de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia
com muita graa, ou revelava algum talento precoce, porque no havia
pessoa extranha diante de quem me no obrigassem a recital-os.

--Nhonh, diga a estes senhores como  que se chama seu padrinho.

--Meu padrinho?  o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza
Rodrigues de Mattos; minha madrinha  a Excellentissima Senhora D.
Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.

-- muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.

--Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de
orgulho, e elle espalmava a mo sobre a minha cabea, fitava-me longo
tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, no sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez
por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar s cadeiras,
pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pu.--S s, nhonh, s s,
dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha me
agitava diante de mim, l ia para a frente, cahe aqui, cahe acol; e
andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.




CAPITULO XI


O menino  pai do homen.


Cresci; e nisso  que a familia no interveiu; cresci naturalmente,
como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos so menos
matreiros, e, com certeza, as magnolias so menos inquietas do que eu
era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino  pae do homem. Se
isto  verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de menino diabo; e
verdadeiramente no era outra cousa; fui dos mais malignos do meu
tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um
dia quebrei a cabea de uma escrava, porque me negra uma colhr do
doce de coco que estava fazendo, e, no contente com o maleficio,
deitei um punhado de cinza ao tacho, e, no satisfeito da travessura,
fui dizer a minha me que a escrava  que estragra o doce por
pirraa; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa,
era o meu cavallo de todos os dias; punha as mos no cho, recebia um
cordel nos queixos,  guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma
varinha na mo, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle
obedecia,--algumas vezes gemendo,--mas obedecia sem dizer palavra,
ou, quando muito, um--ai, nhonh!--ao que eu retorquia:--Cala a
boca, besta!--Esconder os chapos das visitas, deitar rabos de papel
a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar belisces
nos braos das matronas, e outras muitas faanhas deste jaez, eram
mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expresses
de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admirao;
e se s vezes me reprehendia,  vista de gente, fazia-o por simples
formalidade: em particular dava-me beijos.

No se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a
quebrar a cabea dos outros nem a esconder-lhes os chapos; mas
opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se no
passei o tempo a esconder-lhes os chapos, alguma vez lhes puxei pelo
rabicho das cabelleiras.

Outrosim, affeioei-me  contemplao da injustia humana, inclinei-me
a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a,
no segundo um padro rigido, mas ao sabor das circumstancias e
logares. Minha me doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns
preceitos e oraes; mas eu sentia que, mais do que as oraes, me
governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que
a faz viver, para se tornar uma v formula. De manh, antes do mingu,
e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como
eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manh e a noite fazia uma
grande maldade, e meu pae, passado o alvoroo, dava-me pancadinhas na
cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!

Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que  um
simples e forte impulso da carne; amor que a razo no contrasta
nem rge. Minha me era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito
corao, assaz credula, sinceramente piedosa,--caseira, apezar de
bonita, e modesta, apezar de abastada; temente s trovoadas e ao
marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaborao dessas duas
creaturas nasceu a minha educao, que, se tinha alguma cousa boa, era
no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego
fazia s vezes alguns reparos ao irmo; dizia-lhe que elle me dava
mais liberdade do que ensino, e mais affeio do que emenda; mas meu
pae respondia que applicava na minha educao um systema inteiramente
superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmo,
illudia-se a si proprio.

Havia em minha me uma sombra de melancholia, que eu herdei, como
herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a
natural tendencia. Tinha corao de mais, uma sensibilidade melindrosa,
exigente, doentia.

De envolta com a transmisso e a educao, houve ainda o exemplo
extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles,
o Joo, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca.
Desde os onze annos entrou a admittir-me s anecdotas, reaes ou no,
eivadas todas de obscenidade ou immundicie. No me respeitava a
adolescencia, como no respeitava a batina do irmo; com a differena
que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu no;
deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e
emfim achando-lhe graa. No fim de certo tempo, quem o procurava era
eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em
casa, quando l ia passar alguns dias, no poucas vezes me aconteceu
achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas
que batiam roupa; e ahi  que era um desfiar de anecdotas, de ditos,
de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque
o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga
no ventre, a arregaar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do
tanque, outras fra, inclinadas sobre as peas de roupa, a batel-as, a
ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo s pilherias do tio
Joo, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:

--Cruz, diabo!... Este sinh Joo  o diabo!

Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e
pureza; taes dotes, comtudo, no realavam um espirito superior,
apenas compensavam um espirito mediocre. No era homem que visse a
parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as
preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexes. Vinha antes da
sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que
uma infraco dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia,
no estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de
Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nica;
mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das
cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambio de
sua vida; e dizia de corao que era a maior dignidade a que podia
aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das
regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que
era exemplar, mas carecia absolutamente da fora de as incutir, de as
impr aos outros.

No digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e alis era a
pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differenava-se
grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia,
uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos no merecem a pena
de ser citados; no tivemos uma vida commum, mas intermittente, com
grandes claros de separao. O que importa  a expresso geral do meio
domestico, e essa ahi fica indicada,--vulgaridade de caracteres, amor
das apparencias rutilantes, do arruido, frouxido da vontade, dominio
do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume  que nasceu esta
flr.




CAPITULO XII


Um episodio de 1814


Mas eu no quero passar adeante, sem contar summariamente um galante
episodio de 1814; tinha nove annos.

Napoleo, quando eu nasci, estava j em todo o explendor da gloria
e do poder; era imperador e grangera inteiramente a admirao dos
homens. Meu pae, que  fora de persuadir os outros da nossa nobreza,
acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio
puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa,
porque meu tio Joo, no sei se por espirito de classe e sympathia de
officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre
era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as
controversias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quda de Napoleo,
houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou
remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais
decoroso o silencio; alguns foram alm e bateram palmas. A populao,
cordialmente alegre, no regateou demonstraes de affecto  real
familia; houve illuminaes, salvas, _Te-Deum_, cortejo e acclamaes.
Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no
dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim
do que a quda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca
mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim  sempre maior do que
a espada de Napoleo. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era
vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idas e maiores palavras, mas
no sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, l
echoava alguma vez este conceito de experimentado:

--Vae-te embora, tu s cuidas do espadim.

No se contentou a minha familia em ter um quinho anonymo no regozijo
publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituio
do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamaes
chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus
ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do
meu av Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras
da India; matou-se um capado; encommendaram-se s madres da Ajuda as
compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas,
escadas, castiaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os
apparelhos do luxo classico.

Dada a hora, achou*-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fra,
tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados,
varios funccionarios da administrao, uns com suas mulheres e filhas,
outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria
de Bonaparte no papo de um per. No era um jantar, mas um _Te-Deum_;
foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o
Dr. Villaa, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o
acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver
erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma
esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote,
e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois
tossir, alar a mo direita, toda fechada, menos o dedo indice, que
apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote
glosado. No fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses no
acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente,
e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
presentes no pde calar a sua grande admirao.

--A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaa, porque nunca
ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do sculo, em Lisboa. Aquillo sim!
que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no
botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso
talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de
Cadaval...

E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram
em toda a assembla um fremito de admirao e pasmo. Pois esse homem
to dado, to simples, alm de pleitear com poetas, discreteava com
duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as
damas sentiam-se superfinas; os vares olhavam-n'o com respeito,
alguns com inveja, no raros com incredulidade. Elle, entretanto,
ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre
adverbio, a desfiar todas as rimas de _tyranno_ e de _usurpador._ Era
 sobremeza; ninguem j pensava em comer. No intervallo das glosas,
corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos;
os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiavam-se ou
saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas,
aqui o ananaz em fatias, alli o melo em talhadas, as compoteiras de
crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como
uma gemma,--ou ento o melado escuro e grosso, no longe do queijo
e do car. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado,
um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete.
No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos
e particulares. As moas fallavam das modinhas que haviam de cantar
ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que
promettesse bailar um oitavado de compasso, s para mostrar como
folgra nos seus bons tempos de criana. Um sujeito, ao p de mim, dava
a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo
cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia
ter j negociado cerca de quarenta cabeas, e outra-carta em que...
Trazia-as justamente na algibeira, mas no as podia ler naquella
occasio. O que afianava  que podiamos contar, s nessa viagem, uns
cento e vinte negros, pelo menos.

--Trs...trs...trs...fazia o Villaa batendo com as mos uma na
outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra,
e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe
aconcheava a mo atraz da orelha para no perder palavra; a mr parte,
antes mesmo da glosa, tinha j um meio riso de applauso, trivial e
candido.

Quanto a mim, l estava, solitario e deslembrado, a namorar uma
certa compota da minha feio. No fim de cada glosa ficava muito
contente, esperando que fosse a ultima; mas no era, e a sobremeza
continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu
pae,  cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas,
mirava-se todo nos cares alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se
com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo
de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota
para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse;
mas fazia-o em vo. Elle no via nada; via-se a si mesmo. E as glosas
succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e
o pedido. Pacientei quanto pude; e no pude muito. Pedi em voz baixa o
doce; emfim, bradei, berrei, bati com os ps. Meu pae, que seria capaz
de me dar o sol, se eu lh*'o exigisse, chamou um escravo para me servir
o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancra-me da cadeira e
entregra-me a uma escrava, no obstante os meus gritos e repelles.

No foi outro o delicto do glosador: retardra a compota e dera causa
 minha excluso. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingana,
qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira
o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaa, medido
e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. No me contentava o
rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor.
Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara,
aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irm do
sargento-mr Domingues, uma robusta donzellona, que se no era bonita,
tambem no era feia.

--Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.

--Porque?

--Porque ... no sei porque ... porque  a minha sina ... creio s
vezes que  melhor morrer...

Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O
Villaa levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.

--Deixe-me, disse ella.

--Ninguem nos v. Morrer, meu anjo? Que idas so essas! Voc sabe que
eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixo, de
saudades...

D. Eusebia levou o leno aos olhos. O glosador vasculhava na memoria
algum pedao litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de
uma das operas do Judeu:

--No chores, meu bem; no queiras que o dia amanhea com duas auroras.

Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir;
uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais
medroso dos beijos.

--O Dr. Villaa deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela
chacara.

Foi um estouro esta minha palavra; a estupefaco immobilisou a todos;
os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos,
segredos,  socapa, as mes arrastavam as filhas, pretextando o sereno.
Meu pae puxou-me as orelhas, disfaradamente, irritado devras com
a indiscrio; mas no dia seguinte, ao almoo, lembrando o caso,
sacudiu-me o nariz, a rir:--Ah! brejeiro! ah! brejeiro!




CAPITULO XIII


Um salto


Unamos agora os ps e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha
eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas,
apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde
quer que fosse propicio a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lies
arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. S era pesada a
palmatoria, e ainda assim...  palmatoria, terror dos meus dias pueris,
tu que foste o _compelle intrare_ com que um velho mestre, ossudo e
calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o
mais que elle sabia, benta palmatoria, to praguejada dos modernos,
quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as
minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, to
superior  espada de Napoleo! Que querias tu, afinal, meu velho mestre
de primeiras lettras? Lio de cr e compostura na aula; nada mais,
nada menos do que quer a vida, que  a mestra das ultimas lettras;
com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga.
Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro
branco, capote, leno na mo, calva  mostra, barba rapada; vejo-te
sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos
depois  lio. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado,
obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar
o mundo com a tua mediocridade, at que um dia dste o grande mergulho
nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,--ninguem, nem
eu, que te devo os rudimentos da escripta.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta
pagina: Ludgero Barata,--um nome funesto, que servia aos meninos de
eterno mote a chufas. Um de ns, o Quincas Borba, esse ento era cruel
com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na
algibeira das calas,--umas largas calas de enfiar--, ou na gaveta
da mesa, ou ao p do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava
ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes,
dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados,
moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porm,
deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.

Uma flr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a
minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era
a flr, e no j da eschola, seno de toda a cidade. A me, viuva,
com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado,
enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear
a eschola, ir caar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no
morro do Livramento e da Conceio, ou simplesmente arruar,  toa,
como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o
Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De
resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei,
ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o
traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios.
Quem diria que... Suspendamos a penna; no adeantemos os successos.
Fujamos sobretudo desse passado to remoto, to coberto, ai de mim! de
cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia
politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.




CAPITULO XIV


O primeiro beijo


Tinha dezesete annos; pungia-me um buosinho que eu forcejava por
trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feio
verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, no se
distinguia bem se era uma criana com fumos de homem, se um homem
com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garo, lindo e audaz, que
entrava na vida de botas e esporas, chicote na mo e sangue nas veias,
cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas
balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar
com elle nas ruas do nosso seculo. O peor  que o estafaram a tal
ponto, que foi preciso deital-o  margem, onde o realismo o veiu achar,
comido de lazeira e vermes, e, por compaixo, o transportou para os
seus livros.

Sim, eu era esse garo bonito, airoso, abastado; e facilmente
se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte
pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiosos. De todas porm a
que me captivou logo foi um ... uma ... no sei se diga; este livro 
casto, ao menos na inteno; na inteno  castissimo. Mas v l; ou se
ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola,
Marcella, a linda Marcella, como lhe chamavam os rapazes do tempo.
E tinham razo os rapazes. Era filha de um hortelo das Asturias;
disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinio aceita
 que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invaso franceza,
ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze
annos. _Cosas de Espaa._ Quem quer que fosse, porm, o pae, lettrado
ou hortelo, a verdade  que Marcella no possuia a innocencia rustica,
e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moa, lepida,
sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe
no permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas;
luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno,
morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e
tisico,--uma perola.

Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo
que constou a declarao da independencia, uma festa de primavera, um
amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos
da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir
de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante,
um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.
--Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, to pagem como o outro,
como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio
das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe linda Marcella,
lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio Joo, e fiquei, confesso que
fiquei tonto.

Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma
ceia de moas, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier,
com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que
eu pouco ou nada comi, porque s tinha olhos para a dona da casa.
Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia
de mulheres,--todas de partido--, e bonitas, cheias de graa, mas a
hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso,
estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica;  sahida, 
porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a
subir as escadas.

--Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de p, no patamar.

--O leno.

Ella ia abrir-me caminho para tornar  sala; eu segurei-lhe nas mos,
puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. No sei se ella disse alguma
cousa, se gritou, se chamou alguem; no sei nada; sei que desci outra
vez as escadas, veloz como um tufo, e incerto como um ebrio.




CAPITULO XV


Marcella


Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao corao de Marcella,
no j cavalgando o corsel do cgo desejo, mas o asno da pacincia,
a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de
grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa,
e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae,
tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fra da moda, ahi ficam
trocados no cavallo e no asno. No direi as traas que urdi, nem
as pitas, nem as alternativas de confiana e temor, nem as esperas
baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes
que o asno foi digno do corsel,--um asno de Sancho, deveras philosopho,
que me levou  casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe
na anca e mandei-o pastar.

Primeira commoo da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia
ser, na creao biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse
effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor.
Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito
annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas phases a nossa paixo, ou ligao, ou qualquer outro nome,
que eu de nomes no curo; teve a phase consular e a phase imperial.
Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle
jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a
credulidade no pde resistir  evidencia, o Xavier depoz as insignias,
e eu concentrei todos os poderes na minha mo; foi a phase cesariana.
Era meu o universo; mas, ai triste! no o era de graa. Foi-me preciso
colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as
larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem
reprehenso, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz
e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle
restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Ento
recorri a minha me, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava s
escondidas. Era pouco; lancei mo de um recurso ultimo: entrei a saccar
sobre a herana de meu pae, a assignar obrigaes, que devia resgatar
um dia com usura.

--Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda,
alguma joia; na verdade, voc quer brigar commigo... Pois isto  cousa
que se faa... um presente to caro...

E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar
melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma
reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe
a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vl-a assim. Gostava
muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia
obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro,
cuja chave ninguem nunca jmais soube onde ficava; escondia-a por
medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria.
Eram solidos e bons os moveis, de jacarand lavrado, e todas as
demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,--uma linda baixella da
India, que lhe dora um desembargador. Baixella do diabo, deste-me
grandes repelles aos nervos. Disse-o muita vez  prpria dona;
no lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos
dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expresso
candida,--candida e outra cousa, que eu nesse tempo no entendia bem;
mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia
ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare
com um seraphim de Klopstock. No sei se me explico. E porque tinha
noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os aular mais.
Assim foi que um dia, como eu lhe no pudesse dar certo collar, que
ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que
o nosso amor no precisava de to vulgar estimulo.

--No lhe perdo, se voc fizer de mim essa triste ida, concluiu
ameaando-me com o dedo.

E logo, subita como um passarinho, espalmou as mos, cingiu-me com
ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de
criana. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo,
com simplicidade e franqueza. Jmais consentiria que lhe comprassem os
affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a
para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amra
devras, dous annos antes, s a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de
valor, como me acontecia a mim; ella s lhe aceitava sem reluctancia os
mimos de escasso preo, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de
festas.

--Esta cruz...

Dizia isto, mettendo a mo no seio e tirando uma cruz fina, de ouro,
presa a uma fita azul e pendurada ao collo.

--Mas essa cruz, observei eu, no me disseste que era teu pae que...

Marcella abanou a cabea com um ar de lastima:

--No percebeste* que era mentira, que eu dizia isso para te no
molestar? Vem c, _chiquito_, no sejas assim desconfiado commigo...
Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...

--No digas isso! bradei eu.

--Tudo cessa! Um dia...

No pde acabar; um soluo estrangulou-lhe a voz; estendeu as mos,
tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao
ouvido:--Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos
humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.

--Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.

Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto
magnifico: tentou atirar o collar  rua. Eu retive-lhe o brao;
pedi-lhe muito que no me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia.
Sorriu e ficou.

Entretanto, pagava-me  farta os sacrifcios; espreitava os meus mais
reconditos pensamentos; no havia desejo a que no acudisse com alma,
sem esforo, por uma especie de lei da consciencia e necessidade
do corao. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma
criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este
vestido e no aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia
a tudo, risonha e palreira.

--Voc  das Arabias, dizia-me.

E ia pr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de
encantar.




CAPITULO XVI


Uma reflexo immoral


Occorre-me uma reflexo immoral, que  ao mesmo tempo uma correco de
estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores
pelo Xavier. No morria, vivia. Viver no  a mesma cousa que morrer
assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista
na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se no fossem os
vossos dixes e fiados? Um tero ou um quinto do universal commercio
dos coraes. Esta  a reflexo immoral que eu pretendia fazer, a qual
 ainda mais obscura do que immoral, porque no se entende bem o que
eu quero dizer. O que eu quero dizer  que a mais bella testa do mundo
no fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos
bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita,
Marcella amou-me...




CAPITULO XVII


Do trapezio e outras cousas


... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de ris; nada
menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se
devras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

--Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma
Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e no
para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:--Gatuno,
sim, senhor; no  outra cousa um filho que me faz isto...

Saccou da algibeira os meus titulos de divida, j resgatados por elle,
e sacudiu-m'os na cara;--Vs, peralta?  assim que um moo deve zelar o
nome dos seus? Pensas que eu e meus avs ganhmos o dinheiro em* casas
de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou
ficas sem cousa nenhuma.

Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e
nada oppuz  ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a
ida de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e
fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder
logo; como insistisse, disse-me que ficava, que no podia ir para a
Europa.

--Porque no?

--No posso, disse ella com ar dolente; no posso ir respirar aquelles
ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleo...

--Qual delles: o hortelo ou o advogado?

Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;
depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de alu. Trouxe-lh'o
a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos.
Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar
com a mo no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regao, a
preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a ss,
derramei todo o desespero de meu corao; disse-lhe que ella era um
monstro, que jmais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem
ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios,
fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixra-se estar sentada,
a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedao de marmore. Tive
impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus
ps. Ia talvez fazel-o; mas a aco trocou-se n'outra; fui eu que me
atirei aos ps della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei
aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes
queridos de outro tempo, sentado no cho, com a cabea entre os joelhos
della, apertando-lhe muito as mos; offegante, desvairado, pedi-lhe com
lagrymas que me no desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a
olhar para mim, calados ambos, at que brandamente me desviou e, com um
ar enfastiado:

--No me aborrea, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a
alcova.--No! bradei eu; no has de entrar... no quero... Ia a
lanar-lhe as mos: era tarde; ella entrra e fechara-se.

Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais
excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando
o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as
horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles
eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim
mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Ento resolvia
embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e
deleitava-me com a ida de que Marcella, sabendo da partida, ficaria
ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de
sentir alguma cousa, uma lembrana qualquer, como do alferes Duarte...
Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no corao; e toda a natureza
me bradava que era preciso levar Marcella commigo.

--Por fora... por fora... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.

Emfim, tive uma ida salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados,
trapezio das concepes abstrusas! A ida salvadora trabalhou nelle,
como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a,
fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por
um meio mais concreto do que a supplica. No medi as consequencias;
recorri a um derradeiro emprestimo; fui  rua dos Ourives, comprei a
melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente
de marfim; corri  casa de Marcella.

Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e canado, uma das
pernas pendentes, a ver-se-lhe o psinho calado de meia de seda, os
cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.

--Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro,
ters tudo o que quizeres...Olha, toma.

E mostrei-lhe o ponte com os diamantes, Marcella teve um leve
sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavio faminto; ella ergueu
metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante
alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado.
Ento, eu lancei-lhe as mos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os 
pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o
pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as
madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella
desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de me.

--Prompto, disse eu.

--Doudo! foi a sua primeira resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o
mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e
o lavor, olhando a espaos para mim, e abanando a cabea, com um ar de
reprehenso:

--Ora voc! dizia.

--Vens commigo?

Marcella reflectiu um instante. No gostei da expresso com que
passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia;
mas toda a m impresso se desvaneceu, quando ella me respondeu
resolutamente:

--Vou. Quando embarcas?

--Daqui a dous ou tres dias.

--Vou.

Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros
dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu
descia a escada.




CAPITULO XVIII


Viso do corredor


No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes
para respirar, apalpar-me, convocar as idas dispersas, rehaver-me
emfim no meio de tantas sensaes profundas e contrarias. Achava-me
feliz. Certo  que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade;
mas no  menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos
e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia
ter defeitos, mas amava-me...

--Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.

E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que
pouco antes me dera uma sombra de desconfiana, o qual chispava de
cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu.
Pobre namorado das _Mil e uma noites!_ Vi-te alli mesmo correr atraz da
mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse,
e tu a correr, a correr, a correr, at a alameda comprida, donde
sahiste  rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Ento
pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a
de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calada, tres dos
correeiros, um de batina, outro de libr, outro  paisana, os quaes
todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braos, metteram-me
n'uma sege, meu pae  direita, meu tio conego  esquerda, o da libr
na bola, e l me levaram  casa do intendente de policia, donde fui
transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se
resisti; mas toda a resistencia era inutil.

Tres dias depois segui barra fra, abatido e mudo. No chorava sequer;
tinha uma ida fixa... Malditas idas fixas! A dessa occasio era dar
um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.




CAPITULO XIX


A bordo


Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous
rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu
pae recommendou-me a todos, comeando pelo capito do navio, que alis
tinha muito que cuidar de si, porque, alm do mais, levava a mulher
tisica em ultimo gru.

No sei se o capito suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou
se meu pae o poz de sobreaviso; sei que no me tirava os olhos de cima;
chamava-me para toda a parte. Quando no podia estar commigo, levava-me
para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir
muito, e a afianar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa.
No estava magra, estava transparente; era impossivel que no morresse
de uma hora para outra. O capito fingia no crer na morte proxima,
talvez por enganar-se a si mesmo. Eu no sabia nem pensava nada. Que
me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O
mundo para mim era Marcella.

Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para
morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capito, que junto  amurada,
tinha os olhos fitos no horizonte.

--Algum temporal? disse eu.

--No, respondeu elle estremecendo; no; admiro o explendor da noite.
Veja; est celestial!

O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a
locues rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto.
No fim de alguns segundos, pegou-me na mo e apontou para a lua,
perguntando-me porque no fazia uma ode  noite; respondi-lhe que no
era poeta. O capito rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a
mo no bolso, saccou um pedao de papel, muito amarrotado; depois, 
luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da* vida
maritima. Eram versos delle.

--Que tal?

No me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mo
com muita fora e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous
sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da
mulher.--L vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa,
com amor.

Fiquei s; mas a musa do capito varrera-me do espirito os pensamentos
mus; preferi dormir, que  modo interino de morrer. No dia seguinte,
acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente,
menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava
buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fra a causa da loucura.
No, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no
meio do tumulto das gentes e dos uivos do furaco, a cantarolar e a
bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta,
descomposta. s* vezes parava, erguia ao ar as mos ossudas, fazia
umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria
muito, desesperadamente. A mulher no podia j cuidar delle; entregue
ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do cu.*
Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi
uma diverso excellente  tempestade do meu corao. Eu, que meditava
ir ter com a morte, no ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.

Amainou o temporal, o capito veiu perguntar-me se tivera medo, se
estivera em risco, se no achra sublime o expectaculo; tudo isso com
um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do
mar; o capito perguntou-me se no gostava de idyllios piscatorios; eu
respondi-lhe ingenuamente que no sabia o que era.

--Vae ver, respondeu elle.

E recitou-me um poemasinho, depois outro,--uma egloga,--e emfim cinco
sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No
dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capito que s
por motivos graves abraara a profisso maritima, porque a av queria
que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas;
no chegou a ser padre, mas no deixou de ser poeta, que era a sua
vocao natural; e em prova de que tal era a sua vocao, recitou-me
logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os
ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o
capito, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo,
que no viu nem ouviu nada.

Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem
passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do
almoo, disse-me o capito que a enferma talvez no chegasse ao fim da
semana.

--J! exclamei.

--Passou muito mal a noite.

Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de
descanar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque
era seu proposito levar-me  Universidade. Deixei-a consternado; fui
achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado
do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a
historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicao da
mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto
vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse
e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi
ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o
capito, sentado n'um mlho de cabos, com a cabea nas mos; disse-lhe
alguma cousa de conforto.

--Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras
no pudessem ser levadas  conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu
a cabea, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.--Vamos,
continuou, entreguemol-a  cova que nunca mais se abre.

Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lanado ao mar,
com as ceremonias do costume. A tristeza murchra todos os rostos;
o do viuvo trazia a expresso de um cabeo rijamente lascado pelo
raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,
fechou-se,--uma leve ruga,--e a galera foi andando. Eu deixei-me estar
alguns minutos,  popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em
que ficava um de ns... Fui dalli ter com o capito, para distrahil-o.

--Obrigado, disse-me elle comprehendendo a inteno; creia que nunca me
esquecerei dos seus bons servios. Deus  que lh'os ha de pagar. Pobre
Leocadia! tu te lembrars de ns no ceu.

Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na
poesia, que era a paixo delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera,
e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capito animaram-se um
pouco.--Talvez aceite, disse elle; mas no sei... so bem frouxos
versos. Jurei-lhe que no; pedi que os reunisse e me dsse antes do
desembarque.

--Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver...
o mar... o ceu... o navio...

No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que
estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da
mulher; leu-m'o com a voz commovida devras, e a mo tremula; no fim
perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.

--So, disse eu.

--No haver estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem
me negar sentimento, se no  que o proprio sentimento prejudicou a
perfeio....

--No me parece; acho os versos perfeitos.

--Sim, eu creio que... Versos de marujo.

--De marujo poeta.

Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar
a composio, mas j ento sem tremuras, accentuando as intenes
litterarias, dando relevo s imagens e melodia aos versos. No fim,
confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim;
elle apertou-me muito a mo e predisse-me um grande futuro.




CAPITULO XX


Bacharelo-me


Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia
eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma ida
expellia outra, a ambio desmontava Marcella. Um grande futuro?
Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou at
bispo,--bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia,
uma grande reputao, uma posio superior. A ambio, dado que fosse
aguia, quebrou nessa occasio o ovo, e desvendou a pupilla fulva e
penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias
sem preo, vida sem regimen, adeus. C me vou s fadigas e  gloria;
deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e no sei
se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi
o gru de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, aps
os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de
saudades,--principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra
uma grande nomeada de folio; era um academico estroina, superficial,
tumultuario e petulante, dado s aventuras, fazendo romantismo pratico
e liberalismo theorico, vivendo na pura f dos olhos pretos e das
constituies escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em
pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no
cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que
orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava
a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens
do Mondego, e vim por alli fra assaz desconsolado, mas sentindo j
uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de
influir, de gozar, de viver,--de prolongar a Universidade pela vida
adeante...




CAPITULO XXI


O almocreve


Vae ento, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle
deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu
fra da sella, e com tal desastre, que o p esquerdo me ficou preso no
estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas j ento, espantado,
disparou pela estrada fra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente
deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de
lhe pegar na redea e detel-o, no sem esforo nem perigo. Dominado o
bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de p.

--Olhe do que vosmec escapou, disse o almocreve.

E era verdade; se o jumento corre por alli fra, contundia-me
devras, e no sei se a morte no estaria no fim do desastre; cabea
partida, uma congesto, qualquer transtorno c dentro; e l se me
ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida;
era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o corao. Bom
almocreve! emquanto eu tornava  consciencia de mim mesmo, elle cuidava
de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi
dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; no porque
tal fosse o preo da minha vida,--essa era inestimavel; mas por que era
uma recompensa digna da dedicao com que elle me salvou. Est dito,
dou-lhe as tres moedas.

--Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.

--Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda no estou em mim...

--Ora qual!

--Pois no  certo que ia morrendo?

--Se o jumento corre por ahi fra,  possivel; mas, com a ajuda do
Senhor, viu vosmec que no aconteceu nada.

Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco
moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se no era excessiva a
gratificao, se no bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma
moeda era bastante para lhe dar estremees de alegria. Examinei-lhe
a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro.
Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir  luz do sol; no a viu o
almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o
talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe
conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o senhor doutor podia
castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! at ouvi estalar um
beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.

--Ol! exclamei.

--Queira vosmec perdoar, mas o diabo do bicho est a olhar para a
gente com tanta graa...

Ri-me, hesitei, metti-lhe na mo um cruzado em prata, cavalguei o
jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco
incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braas de distancia,
olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes
mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu
pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso
do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os
vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em
prata. Porque, emfim, elle no levou em mira nenhuma recompensa ou
virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do
officio; accresce que a circumstancia de estar, no mais adeante nem
mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o
simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o
merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta
reflexo, chamei-me prodigo, lancei o cruzado  conta das minhas
dissipaes antigas; tive (porque no direi tudo?) tive remorsos.




CAPITULO XXII


Volta ao Rio


Jumento de uma figa, cortaste-me o fio s reflexes. J agora no digo
o que pensei dalli at Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e
em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia
remoar. No, no direi que assisti s alvoradas do romantismo, que
tambem eu fui fazer poesia effectiva no regao da Italia; no direi
cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e no umas
memorias, como estas so, nas quaes s entra a substancia da vida.

Ao cabo de alguns annos de peregrinao attendi s supplicas de meu
pae:--Vem, dizia elle na ultima carta; se no vieres depressa, achars
tua me morta! Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava
minha me; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima
beno que ella me dera, a bordo do navio. Meu triste filho, nunca
mais te verei, soluava a pobre senhora apertando-me ao peito. E
essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord
Byron; l estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito,
crendo-me na Serenissima Republica.  verdade; uma vez aconteceu-me
perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.--Que doge,
_signor mio?_ Cahi em mim, mas no confessei a illuso; disse-lhe que
a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou
comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas.
Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte
dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei
tudo, e disparei como uma bala na direco do Rio de Janeiro.

Vim... Mas no; no alonguemos este capitulo. s vezes, esqueo-me a
escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que
sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesades; e
ns no somos um publico _in-folio_, mas _in_-12, pouco texto, larga
margem, typo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente
vinhetas... No, no alonguemos o capitulo.




CAPITULO XXIII


Triste, mas curto


Vim; e no nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensao nova.
No era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia,
a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto
do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada
menos que uma renascena. O espirito, como um passaro, no se lhe deu
da corrente dos annos, arrepiou o vo na direco da fonte original, e
foi beber da agua fresca e pura, ainda no mesclada do enxurro da vida.

Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente
commum, foi a consternao da familia. Meu pae abraou-me com
lagrimas.--Tua me no pde viver, disse-me elle. Com effeito, no era
j o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz
padecia de um modo cr, porque o cancro  indifferente s virtudes do
sujeito; quando re, re; roer  o seu officio. Minha irm Sabina, j
ento casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moa! dormia
tres horas por noite, nada mais. O proprio tio Joo estava abatido e
triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras l estavam tambem, no
menos tristes e no menos dedicadas.

--Meu filho!

A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da
enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do
que uma caveira; a belleza passra, como um dia brilhante; restavam os
ossos, que no emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou
nove annos que nos no viamos. Ajoelhado, ao p da cama, com as mos
della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque
cada palavra seria um soluo, e ns temiamos avisal-a do fim. Vo
temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o
na seguinte manh.

Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,
repisada, que me encheu de dor e estupefaco. Era a primeira vez
que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito,
tinha-a visto j petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei
ao cemiterio, ou trazia-lhe a ida embrulhada nas amplificaes de
rhetorica dos professores de cousas antigas,--a morte aleivosa de
Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Cato. Mas esse duello do
ser e do no ser, a morte em aco, dolorida, contrahida, convulsa,
sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada,
essa foi a primeira vez que a pude encarar. No chorei; lembra-me
que no chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a
garganta presa, a conscincia boquiaberta. Que? uma creatura to
docil, to meiga, to santa, que nunca jamais fizera verter uma
lagrima de desgosto, me carinhosa, esposa immaculada, era fora que
morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doena
sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro,
incongruente, insano...

Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.




CAPITULO XXIV


Curto, mas alegro


Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de
trivialidade e presumpo. Jamais o problema da vida e da morte me
opprimira o cerebro; nunca at esse dia me debruara sobre o abysmo do
Inexplicavel; faltava-me o essencial, que  o estimulo, a vertigem...

Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opinies de um
cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por no as
ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada
que fosse a operao do toucado, no enfadava nunca; elle intercalava
as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de
um sabor... E no tinha outra philosophia. Nem eu. No digo que a
Universidade me no tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe s
as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o
latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia
de locues moraes e politicas, para as despezas da conversao.
Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as
cousas a phraseologia, a casca, a ornamentao, que eram para o meu
espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, so as
conchas do mar e os dentes de pessoa morta.

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realo a
minha mediocridade; advirta que a franqueza  a primeira virtude de um
defunto. Na vida, o olhar da opinio, o contraste dos interesses, a
luta das cobias obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarar
os rasges e os remendos, a no estender ao mundo as revelaes que
faz  conscincia; e o melhor da obrigao  quando,  fora de
embaar os outros, embaa-se um homem a si mesmo, porque em tal caso
poupa-se o vexame, que  uma sensao penosa, e a hypocrisia, que 
um vicio hediondo. Mas, na morte, que differena! que desabafo! que
liberdade! Como a gente pde sacudir fra a capa, deitar ao fosso as
lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar
lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, j no ha
visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; no
ha plata. O olhar da opinio, esse olhar agudo e judicial, perde a
virtude, logo que pisamos o territorio da morte; no digo que elle se
no estenda para c, e nos no examine e julgue; mas a ns  que no
se nos d do exame nem do julgamento. Senhores vivos, no ha nada to
incommensuravel como o desdem dos finados.




CAPITULO XXV


Na Tijuca


Ui! l me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples,
como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras
semanas depois da morte de minha me.

No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda,
alguns livros, roupa, charutos, um moleque,--o Prudencio da capitulo
XI,--e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu
pae forcejou por me torcer a resoluo, mas eu  que no podia nem
queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum
tempo,--duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar
 fina fora. Era um bom rapaz este Cotrim; passra de estroina a
circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manh
at  noite, com ardor, com perseverana. De noite, sentado  janella,
a encaracolar as suias, no pensava em outra cousa. Amava a mulher e
um filho, que ento tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam
que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por ento 
que comeou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella,
solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.--Que bom
que  estar triste e no dizer cousa nenhuma!--Quando esta palavra
de Shakespeare me chamou a atteno, confesso que senti em mim um
echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um
tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mos, e o espirito ainda
mais cabisbaixo do que a figura,--ou jurur, como dizemos das gallinhas
tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensao
unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia
do aborrecimento: decora esta expresso, leitor; guarda-a, examina-a,
e se no chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das
sensaes mais subtis desse mundo e daquelle tempo.

s vezes caava, outras dormia, outras lia,--lia muito,--outras emfim
no fazia nada; deixava-me atoar de ida em ida, de imaginao em
imaginao, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam
pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha
e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me
deixassem s. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada
assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fra
e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava
farto da solido; a dor applacra; o espirito j se no contentava com
o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu.
Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bah o problema da vida
e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditaes, as
gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma
pessoa do meu conhecimento se mudra na vespera para uma casa roxa,
situada a duzentos passos da nossa.

--Quem?

--Nhonh talvez no se lembre mais de D. Eusebia...

--Lembra-me...  ella?

--Ella e a filha. Vieram hontem de manh.

Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que
os acontecimentos tinham-me dado razo. Na verdade, fra impossivel
evitar as relaes intimas do Villaa com a irm do sargento-mr; antes
mesmo do meu embarque, j se boquejava mysteriosamente no nascimento
de uma menina. Meu tio Joo mandou-me dizer depois que o Villaa, ao
morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que
fallar em todo o bairro. O proprio tio Joo, guloso de escandalos, no
tratou de outro assumpto na carta, alis de muitas folhas. Tinham-me
dado razo os acontecimentos. Ainda porm que m'a no dessem, 1814 l
ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaa, e o beijo da moita;
finalmente, nenhumas relaes estreitas existiam entre mim e ella. Fiz
commigo essa reflexo e acabei de fechar o bah.

--Nhonh no vae visitar sinh D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio.
Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasio da morte e
do enterro; ignorava porm que ella houvesse prestado a minha me esse
derradeiro obsequio. A ponderao do moleque era razoavel; eu devia-lhe
uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.




CAPITULO XXVI


O autor hesita


Sbito ouo uma voz:--Ol, meu rapaz, isto no  vida! Era meu pae, que
chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bah e recebi-o
sem alvoroo. Elle esteve alguns instantes de p, a olhar para mim;
depois estendeu-me a mo com um gesto commovido:

--Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

--J me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mo.

No tinha almoado; almomos juntos. Nenhum de ns alludiu ao triste
motivo da minha recluso. Uma s vez fallmos nisso, de passagem,
quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi ento que
alludiu  carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a
carta comsigo, j bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas
outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a
duas vezes.

--J lhe fui agradecer este signal de considerao, concluiu meu pae, e
acho que deves ir tambem...

--Eu?

--Tu;  um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago
commigo uma ida, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous
projectos, um logar de deputado e um casamento.

Meu pae disse isto com pausa, e no no mesmo tom, mas dando s palavras
um geito e disposio, cujo fim era caval-as mais profundamente no
meu espirito. A proposta, porm, desdizia tanto das minhas sensaes
ultimas, que eu cheguei a no entendel-a bem. Meu pae no fraqueou e
repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.

--Aceitas?

--No entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto 
noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.

--Mas os ursos casam-se, replicou elle.

--Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.

Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me
necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razes,
que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos
de pessoas do nosso conhecimento. Quanto  noiva, bastava que eu a
visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um
dia. Experimentou assim a fascinao, depois a persuaso, depois a
intimao; eu no dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia
bolas de miolo de po, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem
docil nem rebelde  proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim
mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posio politica eram
bens dignos de apreo; outra dizia que no; e a morte de minha me me
apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeies, da
familia...

--No vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae.
De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.

Bebeu o ultimo gole de caf; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo,
do senado, da camara, da Regencia, da restaurao, do Evaristo, de um
coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu
deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um
pedao de papel, com uma ponta de lapis; traava uma palavra, uma
phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes,
sem ordem, ao acaso, assim:

                         arma virumque cano
     A
     Arma virumque cano
               arma virumque cano
          arma virumque
                         arma virumque cano
               virumque

Machinalmente tudo isto; e, no obstante, havia certa lgica, certa
deduco; por exemplo, foi o _virumque_ que me fez chegar ao nome
do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever
_virumque_--e sae-me _Virgilio_, ento continuei:

     Vir                         Virgilio
          Virgilio       Virgilio
                 Virgilio
                                 Virgilio

Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferena, ergueu-se, veiu
a mim, lanou os olhos ao papel...

--Virgilio! exclamou. s tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente
Virgilia.




CAPITULO XXVII


Virgilia?


Virgilia? Mas ento era a mesma senhora que alguns annos depois...? A
mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas
mais intimas sensaes. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou
dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raa,
e, com certeza, a mais voluntariosa. No digo que j lhe coubesse
a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto no
 romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos
s sardas e espinhas; mas tambem no digo que lhe maculasse o rosto
nenhuma sarda ou espinha; no. Era bonita, fresca, sahia das mos da
natureza, cheia daquelle feitio, precario e eterno, que o individuo
passa a outro individuo, para os fins secretos da creao. Era isto
Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia
de uns impetos mysteriosos; muita preguia e alguma devoo,--devoo,
ou talvez medo; creio que medo.

Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa
que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis
annos. Tu que me ls, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem
 luz,--tu que me ls, Virgilia amada, no reparas na differena entre
a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Cr que
era to sincero ento como agora; a morte no me tornou rabujento, nem
injusto.

--Mas, dirs tu, se voc no guardou na retina da memoria a imagem do
que fui, como  que pde assim discernir a verdade daquelle tempo, e
exprimil-a depois de tantos annos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas  isso mesmo que nos faz
senhores da terra,  esse poder de restaurar o passado, para tocar a
instabilidade das nossas impresses e a vaidade dos nossos affectos.
Deixa l dizer o Pascal que o homem  um canio pensante. No; 
uma errata pensante, isso sim. Cada estao da vida  uma edio,
que corrige a anterior, e que ser corrigida tambem, at a edio
definitiva, que o editor d de graa aos vermes.




CAPITULO XXVIII


Contanto que...


--Virgilia? interrompi eu.

--Sim, senhor;  o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem
azas. Imagina uma moa assim, desta altura, viva como um azougue, e uns
olhos... filha do Dutra...

--Que Dutra?

--O Conselheiro Dutra; no conheces; uma influencia politica. Vamos l;
aceitas?

No respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei
depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o
casamento, comtanto que...

--Comtanto que?

--Comtanto que no fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso
ser separadamente homem casado ou homem publico...

--Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente
meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a
vista far f. Demais, a noiva e o casamento so a mesma cousa... isto
, no... sabers depois... V; aceito a dilao, comtanto que...

--Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.

--Ah! brejeiro! Comtanto que no te deixes ficar ahi inutil, obscuro,
e triste; no gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te no ver
brilhar, como deves, e te convem, e a todos ns;  preciso continuar
o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com
sessenta annos, mas se fosse necessrio comear vida nova, comeava-a
sem hesitar um s minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que 
infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais
seguro de todos  valer pela opinio dos outros homens. No estragues
as vantagens da tua posio, os teus meios...

E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me
faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria
recolheu-se ao boto para deixar a outra flor menos amarella, e nada
morbida,--o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.




CAPITULO XXIX


A visita


Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia
e a camara dos deputados.--As duas Virgilias, disse elle n'um assomo
de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraos.
Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente,
o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de
linho e mos nos bolsos. Havia ento nos olhos de meu pae alguma cousa
do velho Cid; era a alma que colligira n'uma s flamma todas as ultimas
scentelhas.

--Desces commigo?

--Deso amanh. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...

Meu pae torceu o nariz, mas no disse nada; despediu-se e desceu. Eu,
na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender
um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um
alvoroo, um prazer to sincero, que me desacanhou logo. Creio que
chegou a cingir-me com o seu par de braos robustos. Fez-me sentar ao
p de si, na varanda, entre muitas exclamaes de contentamento.

--Ora, o Brzinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarro! E
bonito! Qual! Voc no se lembra bem de mim...

Disse-lhe que sim, que no era possivel esquecer uma amiga to
familiar de nossa casa. D. Eusebia comeou a fallar de minha me, com
muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto
me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rdea
 conversao; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os
namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha
patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaa, a
moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouo um ranger de
porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

--Mame... mame...




CAPITULO XXX


A flor da moita


A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve 
porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e
constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resoluo e franqueza:

--Vem c, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do
Sr. Cubas; veiu da Europa.

E voltando-se para mim:

--Minha filha Eugenia.

Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe
fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira
da me. A me arranjou-lhe uma das tranas do cabello, cuja ponta se
desmanchara.--Ah! travessa! dizia. No imagina, doutor, o que isto
... E beijou-a com to expansiva ternura que me commoveu um pouco;
lembrou-me minha me, e,--direi tudo,--tive umas cocegas de ser pae.

--Travssa? disse eu. Pois j no est em edade propria, ao que parece.

--Quantos lhe d?

--Dezesete.

--Menos um.

--Dezeseis. Pois ento!  uma moa.

No pde Eugenia encobrir a satisfao que sentia com esta minha
palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e
muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria
criana nos seus folgares de moa; mas assim quieta, impassivel,
tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe
diminuia um pouco da graa virginal. Depressa nos familiarismos; a me
fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria,
com os olhos fulgidos, como se l dentro do cerebro lhe estivesse a
voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...

Digo l dentro, porque c fra o que esvoaou foi uma borboleta preta,
que subitamente penetrou na varanda, e comeou a bater as azas em
derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou
umas palavras soltas:--T'esconjuro!... se, diabo!... Virgem Nossa
Senhora!...

--No tenha medo, disse eu; e, tirando o leno, expelli a borboleta. D.
Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha,
pode ser que pallida de medo, dissimulava a impresso com muita fora
de vontade. Apertei-lhes a mo e sa, a rir commigo da superstio
das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior.
De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um
pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me
lisongeei com a ida de que, alguns passos adeante, ella voltaria a
cabea para traz; mas no voltou.




CAPITULO XXXI


A borboleta preta


No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou
no meu quarto uma borboleta, to negra como a outra, e muito maior do
que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar
na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar
delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaar muito em torno
de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraa; e,
porque eu a sacudisse de novo, sau* dalli e veiu parar em cima de um
velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando
com que, uma vez posta, comeou a mover as azas, tinha um certo ar
escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu
muito. Dei de hombros, sa do quarto; mas tornando l, minutos depois,
e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repello dos nervos, lancei
mo de uma toalha, bati-lhe e ella cau.

No cau morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabea.
Apiedei-me; tomei-a na palma da mo e fui depol-a no peitoril da
janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei
um pouco aborrecido, incommodado.

--Tambem porque diabo no era ella azul? disse eu commigo.

E esta reflexo,--uma das mais profundas que se tem feito, desde a
inveno das borboletas,--me consolou do maleficio, e me reconciliou
commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma
sympathia, confesso. Imaginei que ella sara do mato, almoada e feliz.
A manh era linda. Veiu por alli fra, modesta e negra, espairecendo
as suas borboletices sob a vasta cupula de um co azul, que  sempre
azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e d commigo.
Supponho que nunca teria visto um homem; no-sabia, portanto, o que era
o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que
me movia, que tinha olhos, braos, pernas, um ar divino, uma estatura
collossal. Ento disse comsigo: Este  provavelmente o inventor das
borboletas. A ida subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que  tambem
suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador
era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por
mim, foi pousar na vidraa, viu dalli o retrato de meu pae, e no 
impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae
do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. No lhe valeu a immensidade
azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
uma toalha de rosto, dous palmos de linho cr. Vejam como  bom ser
superior s borboletas! Porque, * justo dizel-o, se ella fosse azul,
ou cr de laranja, no teria mais segura a vida; no era impossivel
que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. No
era. Esta ultima ida restituiu-me a consolao, uni o dedo grande ao
polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi
vinham j as providas formigas... No, volto  primeira ida; creio que
para ella era melhor ter nascido azul.




CAPITULO XXXII


Coxa de nascena


Fui dalli acabar os preparativos da viagem. J agora no me demoro
mais. Deso immediatamente; deso ainda que algum leitor circumspecto
me detenha para perguntar se o capitulo passado  apenas uma sensaboria
ou se chega a empulhao... Ai de mim! No contava com D. Eusebia.
Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para
transferir a descida, e ir l jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas
instou tanto, tanto, tanto, que no pude deixar de aceitar; demais,
era-lhe devida aquella compensao; fui.

Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por
minha causa,--se  que no andava muita vez assim. Nem as bichas de
ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas
orelhas finamente recortadas n'uma cabea de nympha. Um simples vestido
branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um
boto de madreperola, e outro boto nos punhos, fechando as mangas, e
nem sombra de pulseira.

Era isso no corpo; no era outra cousa no espirito. Idas claras,
maneiras chs, certa graa natural, um ar de senhora, e no sei se
alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da me, a qual me
lembrava o episodio de 1814, e ento dava-me impetos de glosar o mesmo
mote  filha...

--Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a me, logo que exgotmos o
ultimo gole de caf.

Samos  varanda, dalli  chacara; e foi ento que notei uma
circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, to pouco, que eu cheguei a
perguntar-lhe se machucara o p. A me calou-se; a filha respondeu sem
titubear:

--No, senhor, sou coxa de nascena.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseiro. Com
effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe
no perguntar nada. Ento lembrou-me que da primeira vez que a vi na
vespera--a moa chegra-se lentamente  cadeira da me, e que naquelle
dia j a achei  mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito;
mas por que razo o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia
triste.

Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;--no me foi difficil, por
que a me era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente
travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores,
tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me
ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava
os olhos de Eugenia...

Palavra que o olhar de Eugenia no era coxo, mas direito, perfeitamente
so; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres
vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres
vezes smente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem
biocos.




CAPITULO XXXIII


Bemaventurados os que no descem


O peor  que era coxa. Uns olhos to lcidos, uma boca to fresca, uma
compostura to senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a
natureza  s vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque
coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo
ao voltar para casa, de noite; e no atinava com a soluo do enigma.
O melhor que ha, quando se no resolve um enigma,  sacudil-o pela
janella fra; foi o que eu fiz; lancei mo de uma toalha e enxotei essa
outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e
fui dormir. Mas o sonho, que  uma fresta do espirito, deixou novamente
entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem
explical-o.

Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manh
era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, no menos que
no terceiro dia, e no quarto, at o fim da semana. Manhs bonitas,
frescas, convidativas; l em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e
o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao p da minha
Venus Manca. Enlevado  uma maneira de realar o estylo; no havia
enlevo, mas gosto, uma certa satisfao physica e moral. Queria-lhe,
 verdade; ao p dessa creatura to singela, filha espuria e coxa,
feita de amor e desprezo, ao p della sentia-me bem, e ella creio que
ainda se sentia melhor ao p de mim. E isto na Tijuca. Uma simples
egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade
com a conveniencia; e a filha, nessa primeira exploso da natureza,
entregava-me a alma em flr.

--O senhor desce amanh? disse-me ella no sabbado.

--Pretendo.

--No desa.

No desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:--Bemaventurados
os que no descem, porque delles  o primeiro beijo das damas. Com
effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,--o primeiro que
nenhum outro varo jamais lhe tomra, e no furtado ou arrebatado, mas
candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre
Eugenia! Se tu soubesses que idas me vagavam pela mente fra n'aquella
occasio! Tu, tremula de commoo, com os braos nos meus hombros, a
contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na
moita, no Villaa, e a suspeitar que no podias mentir ao teu sangue, 
tua origem...

D. Eusebia entrou inesperadamente, mas no to subita, que nos
apanhasse ao p um do outro. Eu fui at  janella: Eugenia sentou-se a
concertar uma das tranas. Que dissimulao graciosa! que arte infinita
e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, no
estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor!
D. Eusebia no suspeitou nada.




CAPITULO XXXIV


A uma alma sensivel


Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma
sensivel, que est de certo um pouquito agastada com o capitulo
anterior, comea a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim,
talvez, l no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma
sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com
sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. No, alma
sensivel, eu no sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado
em que se deram peas de todo o genero, o drama sacro, o austero, o
piegas, a comedia lou, a desgrenhada fara, os autos, as bufonerias,
um pandemonium, alma sensvel, uma barafunda de cousas e pessoas,
em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna at a arruda do teu
quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra at o recanto da praia
em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos
de varia casta e feio. No havia alli a atmosphera smente da aguia
e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a
expresso, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,--que isso
s vezes  dos oculos,--e acabemos de uma vez com esta flor da moita.




CAPITULO XXXV


O caminho de damasco


Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho
de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da
Escriptura (_Act._, IX, 7): Levanta-te, e entra na cidade. Essa voz
saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava
ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devras, e
desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, no
ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de
uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manh viria para
baixo.--Adeus, suspirou ella estendendo-me a mo com simplicidade; faz
bem.--E como eu nada dissesse, continuou:--Faz bem em fugir ao ridculo
de casar commigo. Ia dizer-lhe que no; ella retirou-se lentamente,
engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por
todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que no
deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou
sem dizer nada.

--Acredita-me? perguntei eu no fim.

--No; e digo-lhe que faz bem.

Quiz retel-a, mas o olhar que me lanou no foi j de supplica, seno
de imperio. Eu desci da Tijuca, na manh seguinte, um pouco amargurado,
outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo
obedecer a meu pae, que era conveniente abraar a carreira politica...
que a constituio... que a minha noiva... que o meu cavallo...




CAPITULO XXXVI


A proposito de botas


Meu pae, que me no esperava, abraou-me cheio de ternura e
agradecimento.--Agora  devras? disse elle. Posso emfim....?

Deixei-o nessa reticencia, e fui descalar as botas, que estavam
apertadas. Uma vez alliviado, respirei  larga, e deitei-me a fio
comprido, emquanto os ps, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma
relativa bem-aventurana. Ento considerei que as botas apertadas
so uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os ps,
do azo ao prazer de as descalar. Mortifica os ps, desgraado,
desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos
sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta ida me trabalhava no famoso
trapezio, lanava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha
perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu corao no
tardaria tambem a descalar as suas botas. E descalou-as o lascivo.
Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e
incoercivel momento de gozo, que succede a uma dr pungente, a uma
preoccupao, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida  o mais
engenhoso dos phenomenos, porque s agua a fome, com o fim de deparar
a occasio de comer, e no inventou os callos, seno porque elles
aperfeioam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a
sabedoria humana no vale um par de botas curtas.

Tu, minha Eugenia,  que no as descalaste nunca; foste ahi pela
estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os
enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, at que vieste tambem
para esta outra margem... O que eu no sei  se a tua existncia era
muito necessaria ao sculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos
fizesse patear a tragedia humana.




CAPITULO XXXVII


Emfim


Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir  casa do Conselheiro Dutra,
perguntei a meu pae se havia algum ajuste prvio de casamento.

--Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito,
confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo
fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o far.
Quanto  noiva,  o nome que dou a uma creaturinha, que  uma joia, uma
flr, uma estrella, uma cousa rara...  a filha delle; imaginei que, se
casasses com ella, mais depressa serias deputado.

--S isto?

--S isto.

Fomos dalli  casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho,
jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas no
desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era
legitima; convinha, porm, esperar alguns mezes. E logo me apresentou 
mulher,--uma estimavel senhora,--e  filha, que no desmentiu em nada
o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relde o Cap. XXVIII.
Eu, que levava idas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo;
ella, que no sei se as tinha, no me fitou de modo differente; e o
nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez
estavamos intimos.




CAPITULO XXXVIII


A quarta edio


--Venha c jantar amanh, disse-me o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no
largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos
ainda a minha theoria das edies humanas? Pois sabei que, naquelle
tempo, estava eu na quarta edio, revista e emendada, mas ainda
inada de descuidos e barbarismos; defeito que, alis, achava alguma
compensao no typo, que era elegante, e na encadernao, que era
luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o
relogio e ce-me o vidro na calada. Entro na primeira loja que tinha 
mo; era um cubiculo,--pouco mais,--empoeirado e escuro.

Ao fundo, por traz do balco, estava sentada uma mulher, cujo rosto
amarello e bexiguento no se destacava logo,  primeira vista; mas logo
que se destacava era um expectaculo curioso. No podia ter sido feia;
ao contrario, via-se que fora bonita, e no pouco bonita; mas a doena
e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graas. As bexigas
tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias
e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensao de lixa grossa,
enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e alis
tinham uma expresso singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo
que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava
ruo e quasi to poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mo
esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era
Marcella.

No a conheci logo; era difficil; ella porm conheceu-me apenas lhe
dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expresso usual
por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para
esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que no durou mais de
um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.

--Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mo.

No respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (no
era difficil), e s hesitou, creio eu, em decidir o que dominava
mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma
cadeira, e, com o balco permeio, fallou-me longamente de si, da vida
que levra, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos
desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do
tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade 
que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a
amra outr'ora, e lhe morreu nos braos, deixara-lhe aquella loja de
ourivesaria, mas, para que a desgraa fosse completa, era agora pouco
buscada a loja--talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em
seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em
dizer-ll'a; no era longa, nem interessante.

--Casou? disse Marcella no fim de minha narrao.

--Ainda no, respondi seccamente.

Marcella lanou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou
relembra; eu deixei-me ir ento ao passado, e, no meio das recordaes
e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino.
No era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro
tempo valia uma tera parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava
saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que no; ao
mesmo tempo os olhos me contavam que, j outr'ora, como hoje, ardia
nelles a flamma da cobia. Os meus  que no souberam ver-lh'a; eram
olhos da primeira edio.

--Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo
daquella especie de torpor.

--No, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um
vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.

Marcella suspirou com tristeza. A verdade  que eu me sentia pungido
e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fra daquella casa.
Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar
da minha opposio, mandou-o, a uma loja na visinhana, comprar o
vidro. No havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella ento que
desejava ter a proteco dos conhecidos de outro tempo; ponderou que
mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afianou que me
daria finas joias por preos baratos. No disse _preos baratos_, mas
usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que
no padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro
a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir  paixo do
lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que
me disseram depois.




CAPITULO XXXIX


O visinho


Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexo, entrou na loja um
sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mo uma menina de quatro annos.

--Como passou de hoje de manh? disse elle a Marcella.

--Assim, assim. Vem c, Maricota.

O sujeito levantou a criana pelos braos e passou-a para dentro do
balco.

--Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava
anciosa por vir c, mas a me no tinha podido vestil-a... Ento,
Maricota? Toma a beno. .. Olha a vara de marmelo! Assim... No
imagina o que ella  l em casa; falla na senhora a todos os instantes,
e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?

--No, diga, no, papae.

--Ento foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da
menina.

--Eu lhe digo; a me ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso
e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem
veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria
offerecel-os a Santa Marcella.

--Coitadinha! disse Marcella beijando-a.

-- um namoro, uma paixo, como a senhora no imagina ... A me diz que
 feitio...

Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, at que
saiu levando a menina, no sem deitar-me um olhar interrogativo ou
suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.

-- um relojoeiro de visinhana, um bom homem; a mulher tambem; e a
filha  galante, no? Parecem gostar muito de mim...  boa gente.

Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de
Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...




CAPITULO XL


Na sege


Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo;
j me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse
a Marcella que voltaria n'outra occasio, e sa a passo largo. Para
dizer tudo, devo confessar que o corao me batia um pouco; mas era
uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impresses
oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao
almoo, repetiu-me, por anticipao, o primeiro discurso que eu tinha
de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem,
que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo
que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do
almoo. Vae se no quando, ce-me o vidro do relogio; entro na primeira
loja que me fica  mo; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera
e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e
bexigas...

L o deixei; metti-me s pressas na sege, que me esperava no largo
do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas
ruas fra. O boleeiro atiou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me,
as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a
chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. No ha, s vezes,
um certo vento, morno que no bochorno, no forte nem aspero, mas
abafadio, que nos no leva o chapo da cabea, nem rodomoinha nas
saias das mulheres, e todavia  ou parece ser peior do que se fizesse
uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os
espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me
soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o
presente, almejava por sair  planicie do futuro. O peior  que a sege
no andava.

--Joo, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou no anda?

--U! nhonh! J estamos parados na porta de sinh Conselheiro.




CAPITULO XLI


A allucinao


E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor,
fronte nublada. A me, que era surda, estava na sala com ella. No fim
dos comprimentos disse-me a moa com sequido:

--Esperavamos que viesse mais cedo.

Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um
amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico
tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moa? Fitei-a
muito; e a sensao foi to penosa, que recuei um passo e desviei a
vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle,
ainda na vespera to fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella,
stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os
olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste
e a attitude canada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mo, e chamei-a
brandamente a mim. No me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um
gesto de repulsa.

Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no soph. Eu fiquei algum tempo
a olhar para os meus proprios ps. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o
primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para
Virgilia, que l estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca,
a juvenil, a florida Virgilia. Em vo procurei no rosto delia algum
vestigio da doena; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.

--Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistncia.

--To bonita, nunca.

Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas.
Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao
incidente; ella porm no me respondia nada, nem olhava para mim. Menos
o estalido, era a estatua do Silencio. Uma s vez me deitou os olhos,
mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo
as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas
dava-lhe ao rosto uma expresso media, entre comica e tragica.

Havia alguma affectao naquelle desdem; era um arrebique do gesto.
L dentro, ella padecia, e no pouco,--ou fosse magua pura, ou s
despeito; e porque a dor que se dissimula de mais,  mui provvel que
Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que
isto  metaphysica.




CAPITULO XLII


Que escapou a Aristoteles


Outra cousa que tambem me parece metaphysica  isto:--D-se movimento a
uma bola, por exemplo; rla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe
o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.
Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,-- uma simples
supposio; a segunda, Braz Cubas;--a terceira, Virgilia. Temos que
Marcella, recebendo um piparote do passado rolou at tocar em Braz
Cubas,--o qual, cedendo  fora impulsiva, entrou a rolar tambem at
esbarrar em Virgilia, que no tinha nada com a primeira bola; e eis
ahi como, pela simples transmisso de uma fora, se tocam os extremos
sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar--solidariedade
do aborrecimento humano. Como  que este capitulo escapou a
Aristoteles?




CAPITULO XLIII


Marqueza, porque eu serei marquez


Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se
querem, mas era-o, e ento...

E ento appareceu o Lobo Neves, um homem que no era mais esbelto
do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e
todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de
poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. No precedeu
nenhum despeito; no houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu
dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura
de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o
comeo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo
Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.

--Pela minha vontade, j; pela dos outros, daqui a um anno.

Virgilia replicou:

--Promette que algum dia me far baroneza?

--Marqueza, porque eu serei marquez.

Desde ento fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavo, e
elegeu a aguia, deixando o pavo com o seu espanto, o seu despeito, e
tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que
fossem no queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem no  como
a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; 
justamente o contrario.




CAPITULO XLIV


Um Cubas!


Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que no
morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhra, tantos
e tantissimos os sonhos, que no podia vel-os assim esboroados, sem
padecer um forte abalo no organismo. A principio no quiz crel-o. Um
Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal
convico, que eu, j ento informado da nossa tanoaria, esqueci um
instante a voluvel dama, para s contemplar aquelle phenomeno, no
raro, mas curioso: uma imaginao graduada em conscincia.

--Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manh, ao almoo.

No foi alegre o almoo; eu proprio estava a car de somno. Tinha
velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; no se ama duas
vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois,
no lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, alm de uma
phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto
basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como
ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras
truncadas, at romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.

Mas eu era moo, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae  que no pde
supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que no morresse
precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas
dores,  positivo. Morreu dahi a quatro mezes,--acabrunhado, triste,
com uma preoccupao intensa e continua,  semelhana de remorso, um
desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve
ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou.
Vi-lhe,--lembra-me bem,--vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos
olhos uma concentrao de luz, que era, por assim dizer, o ultimo
lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de
morrer sem me ver posto em algum logar alto, como alis me cabia.

--Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manh de maio,
entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu
cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso
amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de
morrer, morreu.

--Um Cubas!




CAPITULO XLV


Notas


Soluos, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem
que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixo, caixo,
ea, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo
surdo, e apertavam a mo  familia, alguns tristes, todos serios e
calados, padre e sacristo, rezas, asperses d'agua benta, o fechar
do caixo, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da ea, e o
levantam, e o descem a custo pela escada, no obstante os gritos,
soluos e novas lagrimas da familia, e vo at o coche funebre, e o
collocam em cima, e traspassam e apertam as corras, o rodar do coche,
o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario,
eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente
succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta
do sol; porquanto:--_a_) a natureza no inventou a morte, seno
com o fim de dar vida a algumas industrias,--armadores, segeiros,
emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente
previu;--_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana,
no  improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que
dava na mesma. Mas tudo isto so apenas notas de um capitulo, que no
escrevo.




CAPITULO XLVI


A herana


Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,--minha
irm sentada n'um soph,--pouco adiante, o Cotrim, de p, encostado a
um consolo, com os braos cruzados e a morder o bigode,--eu a passeiar
de um lado para outro, com os olhos no cho. Luto pezado. Profundo
silencio.

--Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais pde valer de trinta
contos; demos que valha trinta e cinco...

--Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...

--Podia custar at sessenta, tornou o Cotrim; mas no se segue que
os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Voc sabe que as casas,
aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos,
quantos no vale a que voc deseja para si, a do Campo?

--No fale nisso! Uma casa velha.

--Velha! exclamou Sabina, levantando as mos ao tecto.

--Parece-lhe nova, aposto?

--Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do
soph; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo,
o Cotrim no aceita os pretos, quer s o boleeiro de papae e o Paulo...

--O boleeiro no, acudi eu; fico com a sege e no hei de ir comprar
outro.

--Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.

--O Prudencio est livre.

--Livre?

--Ha dois annos.

--Livre? Como seu pae arranjava estas cousas c por casa, sem dar parte
a ninguem! Est direito. Quanto  prata... creio que no libertou a
prata?

Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. Jos I, a
poro mais grave da herana, j pelo lavor, j pela vetustez, j pela
origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando
vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisav Luiz Cubas.

--Quanto  prata, continuou o Cotrim, eu no faria questo nenhuma,
se no fosse o desejo que sua irm tem de ficar com ella; e acho-lhe
razo. Sabina  casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Voc
 solteiro, no recebe, no...

--Mas posso casar.

--Para que? interrompeu Sabina.

Era to sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer
os interesses. Sorri; peguei na mo de Sabina, bati-lhe levemente na
palma, tudo isso com to boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto
como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.

--Que  l? redargui; no cedi cousa nenhuma, nem cedo.

--Nem cede?

Abanei a cabea.

--Deixa, Cotrim, disse minha irm ao marido; v se elle quer ficar
tambem com a nossa roupa do corpo;  s o que falta.

--No falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata,
quer tudo. Olhe,  muito mais summario citar-nos a juizo e provar com
testemunhas que Sabina no  sua irm, que eu no sou seu cunhado, e
que Deus no  Deus. Faa isto, e no perde nada, nem uma colherinha.
Ora, meu amigo, outro officio!

Estava to agastado, e eu no menos, que entendi offerecer um meio de
conciliao; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia
o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou
que teriamos tempo de liquidar a preteno, quando menos em juizo.
Entretanto, Sabina fra at  janella que dava para a chacara,--e
depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto,
com a condio de ficar com a prata; eu ia dizer que no me convinha,
mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.

--Isso nunca! no fao esmolas! disse elle.

Jantmos tristes. Meu tio conego appareceu  sobremeza, e ainda
presenciou uma pequena altercao.

--Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmo deixou um po bem
grande para ser repartido por todos.

Mas o Cotrim:

--Creio, creio. A questo, porem, no  de po,  de manteiga. Po
secco  que eu no engulo.

Fizeram-se finalmente as partilhas, mas ns estavamos brigados. E
digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos
to amigos! Jogos pueris, furias de criana, risos e tristezas da
edade adulta, dividimos muita vez esse po da alegria e da miseria,
irmmente, como bons irmos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal
qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.




CAPITULO XLVII


O recluso


Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os
contrastes, como se esses nomes e pessoas no fossem mais do que modos
de ser da minha affeio interior. Penna de mus costumes, ata uma
gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois
sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me
embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de
meu pae at 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, no
cuides que o mandei derramar para meu regalo;  um vestgio da N. ou
da Z. ou da U.--que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua
elegante abjeco. Mas, se alm do aroma, quizeres outra cousa, fica-te
com o desejo, porque eu no guardei retratos, nem cartas, nem memorias;
a mesma commoo esvaiu-se, e s me ficaram as lettras iniciaes.

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro,
ou palestra, mas a mr parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia;
deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora
bolioso, ora apathico, entre a ambio e o desanimo. Escrevia politica
e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas,
e cheguei a alcanar certa reputao de polemista e de poeta. Quando
me lembrava do Lobo Neves, que era j deputado, e de Virgilia, futura
marqueza, perguntava a mim mesmo porque no seria melhor deputado e
melhor marquez do que o Lobo Neves,--eu, que valia mais, muito mais do
que elle,--e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...




CAPITULO XLVIII


Um primo de Virgilia


--Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz
Dutra.

O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as
musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas
elle tinha necessidade da sanco de alguns, que lhe confirmasse o
applauso dos outros. Como fosse acanhado, no interrogava a ninguem;
mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreo; ento criava novas
foras e arremettia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria  minha casa,
e entrava a girar em volta de mim,  espreita de um juizo, de uma
palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente produco, e eu
falava-lhe de mil cousas differentes,--do ultimo baile do Cattete, da
discusso das camaras, de berlindas e cavallos,--de tudo, menos dos
seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animao,
depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto
delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu
dizia-lhe que sim ou que no, mas torcia a redea para o outro lado, e
l ia elle atraz de mim, at que empacava de todo e saa triste. Minha
inteno era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E
tudo isto a olhar para a ponta do nariz...




CAPITULO XLIX


A ponta do nariz


Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... J
meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicao
do doutor Pangloss  que o nariz foi creado para uso dos oculos,--e
tal explicao confesso que at certo tempo me pareceu definitiva; mas
veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de
philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicao.

Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor
que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com
o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na
ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se
no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra,
dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimao do ser pela ponta do nariz
 o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter no
pertence ao fakir smente;  universal. Cada homem tem necessidade
e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz
celeste; e tal contemplao, cujo effeito  a subordinao do universo
a um nariz smente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os
narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano
no chegaria a durar dois sculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouo daqui uma objeco do leitor:--Como pode ser assim, diz elle,
se nunca jamais ninguem no viu estarem os homens a contemplar o seu
proprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um
chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus;  a loja de
um rival, que a abriu ha dois annos; tinha ento duas portas, hoje tem
quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraas ostentam-se os chapeus
do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro
compara aquella loja com a sua, que  mais antiga e tem s duas portas,
e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual
preo. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os
olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade
do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro  muito melhor
chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante  que os olhos
se fixam na ponta do nariz.

A concluso, portanto,  que ha duas foras capitaes: o amor, que
multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo.
Procreao, equilibrio.




CAPITULO L


Virgilia casada


--Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo
Neves, continuou o Luiz Dutra.

--Ah!

--E s hoje  que eu soube uma cousa, seu magano...

--Que foi?

--Que voc quiz casar com ella.

--Idas de meu pae. Quem lhe disse isso?

--Ella mesma. Falei-lhe muito em voc, e ella ento contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor,  porta da typographia do
Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; s
a reconheci a poucos passos, to outra estava, a tal ponto a natureza
e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejmo-nos; ella seguiu;
entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu
fiquei attonito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegmos a trocar
duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em
casa de uma senhora, que ornara os sales do primeiro reinado, e no
desornava ento os do segundo, a aproximao foi maior e mais longa,
porque conversmos e valsmos. A valsa  uma deliciosa cousa. Valsmos;
e no nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e
magnifico, tive uma singular sensao, uma sensao de homem roubado.

--Est muito calor, disse ella, logo que acabmos. Vamos ao terrao?

--No; pode constipar-se. Vamos a outra sala.

Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos,
cerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia
dos litterarios, por no entender delles; mas os politicos eram
excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes
esmeros de cortezia, e separmos-nos contentes um do outro.

Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunio
intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:--O senhor
hoje ha de valsar commigo.--Na verdade, eu tinha fama e era valsista
emerito; no admira que ella me preferisse. Valsmos uma vez, e mais
outra vez. Um livro perdeu Francesca; c foi a valsa que nos perdeu.
Creio que nessa noite apertei-lhe a mo com muita fora, e ella
deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraal-a, e todos com os olhos
em ns, e nos outros que tambem se abraavam e giravam...Um delirio.




CAPITULO LI


 minha!


-- minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e
confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a ida entranhando
no espirito, no  fora de martello, mas de verruma, que  mais
insinuativa.

-- minha! dizia eu ao chegar  porta de casa.

Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se
lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me
no cho uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de
ouro, uma meia-dobra.

-- minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.

Nessa noite no pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o
caso, senti uns repelles da consciencia, e uma voz que me perguntava
porque diabo seria minha uma moeda que eu no herdara nem ganhara, mas
smente achara na rua. Evidentemente no era minha; era de outro,
daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum
operario que no teria com que dar de comer  mulher e aos filhos; mas
se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e
o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio
ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe
o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse
devolvel-o s mos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranquillo, posso at dizer que jubiloso.
Minha consciencia valsra tanto na vespera, que chegou a ficar
suffocada, sem respirao; mas a restituio da meia dobra foi uma
janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de
ar puro, e a pobre dama respirou  larga. Ventilae as conscincias!
no vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras
circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo
escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha
dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo;  o que ella me
dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.

--Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar no  s puro, 
balsamico, e uma transpirao dos eternos jardins. Queres ver o que
fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi,
claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida,
multiplicando-se por si mesma,--ser dez--depois trinta--depois
quinhentas,--exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e
na morte o simples acto da restituio. E eu espraiava todo o meu
ser na contemplao daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom,
talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que  ter valsado um
poucochinho mais.

Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia
das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada
 abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a
consciencia. Talvez no entendas o que ahi fica; talvez queiras uma
cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso.
Pois toma l o embrulho mysterioso.




CAPITULO LII


O embrulho mysterioso


Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um
embrulho, que estava na praia. No digo bem; houve menos tropeo que
pontap. Vendo um embrulho, no grande, mas limpo e correctamente
feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa,
lembrou-me bater-lhe com o p, assim por experiencia, e bati, e o
embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava
deserta; ao longe uns meninos brincavam,--um pescador curava as redes
ainda mais longe,--ninguem que pudesse ver a minha aco; inclinei-me,
apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas no sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive ida de
devolver o achado  praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco
adeante, desandei o caminho e guiei para casa.

--Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o
receio da pulha.  certo que no havia alli nenhuma testemunha externa;
mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar,
guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me
visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenos velhos ou
duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava
aguada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi...
achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada
menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e
dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as
de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com
os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e
conclui que no. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei
o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco
contos,--eu, que era abastado.

Para no pensar mais naquillo fui de noite  casa do Lobo Neves,
que instra muito commigo no deixasse de frequentar as recepes
da mulher. L encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado;
elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera
alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu
procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota
analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que
pude nos cinco contos, e at confesso que os deixei muito quietinhos
na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de
dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia no era crime
achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance
da Providencia. No podia ser outra cousa. No se perdem cinco contos,
como se perde um leno de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil
sentidos, apalpam-se a miudo, no se lhes tiram os olhos de cima, nem
as mos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma
praia,  necessrio que... Crime  que no podia ser o achado; nem
crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem.
Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas
de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e at direi que a minha
felicidade era merecida, porque eu no me sentia mu, nem indigno dos
beneficios da Providencia.

--Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de
empregal-os em alguma aco ba, talvez um dote a alguma menina pobre,
ou outra cousa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. L me receberam com
muitas e delicadas alluses ao caso de meia dobra, cuja noticia andava
j espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado
que a cousa no valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me ento
a modestia,--e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era
simplesmente grande.




CAPITULO LIII


..........

Virgilia  que j se no lembrava da meia dobra; toda ella
estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu
pensamento;--era o que dizia, e era verdade.

Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras so tardias
e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta
seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante
creatura dos bosques. No lhes poderei dizer, ao certo, os dias
que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,
abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo
que ella me deu, tremula,--coitadinha,--tremula de medo, porque era
ao porto da chacara,  vista das estrellas,--das castas estrellas de
Othello,--_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,--breve como
a occasio, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de
terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflices
que desabrochavam em alegria,--uma hypocrisia paciente e systematica,
unico freio de uma paixo sem freio,--vida de agitaes, de coleras,
de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava  farta e de sobra;
mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar 
tona as agitaes e o resto, e o resto do resto, que  o fastio e a
saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.




CAPITULO LIV


A pendula


Sa dalli a saborear o beijo. No pude dormir; estirei-me na cama,
 certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.
Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito
mal; esse _tic-tac_ soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada
golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava ento um velho
diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as
moedas da vida para dal-as  morte, e a contal-as assim:

--Outra de menos...

--Outra de menos...

--Outra de menos...

--Outra de menos...

O mais singular  que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para
que elle no deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os
meus instantes perdidos. Invenes ha, que se transformam ou acabam;
as mesmas instituies morrem; o relogio  definitivo e perpetuo. O
derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um
relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.

Naquella noite no padeci essa triste sensao de enfado, mas outra, e
deleitosa. As phantasias tumultuavam-me c dentro, vinham umas sobre
outras,  semelhana de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor
das procisses. No ouvia os instantes perdidos, mas os minutos
ganhados; e de certo tempo em diante no ouvi cousa nenhuma, porque o
meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fra e bateu
as azas na direco da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma
janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra.
Ns a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os
dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Ado e Eva.




CAPITULO LV


O velho dialogo de Ado e Eva


BRAZ CUBAS

   .   .   .   . ?

VIRGILIA

.   .

BRAZ CUBAS

           .      .      .   .   .   .      .      .   .

    .         .       .


VIRGILIA

    .       .  . !

BRAZ CUBAS

    .         .

VIRGILIA

.   .   .     .            .       .       .   .   .
.   .   .  .  .         ?  .   .       .   .   .
.   .   .  .  .            .   .   .   .   .   .   .

BRAZ CUBAS

.   .   .   .     .   .


VIRGILIA

.   .   .   .

BRAZ CUBAS

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .         .   .   .

.   .   .   .   .   .       .   .   .   .     .   .   .

.   .   .   .   .       .   .   .   .         !   .   .

.   .   !   .       .   .   .   .   .             .   .

.   .   .   .   .   .   .       .   .      .   .      !

VIRGILIA

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .      .   .?

BRAZ CUBAS

.   .   .   .   .!

VIRGILIA

.   .   .   .   .!




CAPITULO LVI


O momento opportuno


Mas, com a breca! quem me explicar a razo desta differena? Um dia
vimo-nos, tratmos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio,
sem dor, porque no houvera paixo nenhuma; mordeu-me apenas algum
despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro
giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza
de Virgilia chegra,  certo, a um alto gru de apuro, mas ns eramos
substancialmente os mesmos, e eu,  minha parte, no me tornra mais
bonito nem mais elegante. Quem me explicar a razo dessa differena?

A razo no podia ser outra seno o momento opportuno. No era
opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de ns estava verde
para o amor, ambos o estavamos para o _nosso_ amor: distinco
fundamental. No ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos.
Esta explicao achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um
dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que l ia e
tenazmente a galanteava.

--Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a indignao era sincera; ento occorreu-me
que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e
comprehendi logo toda a grandeza da minha evoluo. Tinha vindo de
importuno a opportuno.




CAPITULO LVII


Destino


Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam,
agora  que nos amavamos devras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro,
como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:

    Di pari, come buoi, che vanno a giogo;

e digo mal, comparando-nos a bois, porque ns eramos outra especie de
animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem
saber at onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou,
durante algumas semanas, mas cuja soluo entreguei ao destino. Pobre
Destino! Onde andars agora, grande procurador dos negocios humanos?
Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro
nome, e no  impossivel que... J me no lembra onde estava... Ah!
nas estradas escusas. Disse eu commigo que j agora seria o que
Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim no fora, como
explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um
dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe
dissesse que, se tinha remorsos,  porque me no tinha amor, Virgilia
cingiu-me com os seus magnificos braos, murmurando:

--Amo-te,  a vontade do ceu.

E esta palavra no vinha  toa; Virgilia era um pouco religiosa. No
ouvia missa aos domingos,  verdade, e creio at que s ia s igrejas
em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas
rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha
medo s trovoadas; nessas occasies, tapava os ouvidos, e resmoneava
todas as oraes do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho
de jacarand, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens
dentro; mas no falava delle s amigas; ao contrario, taxava de beatas
as que eram s religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo
vexame de crer, e que a sua religio era uma especie de camisa de
flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.




CAPITULO LVIII


Confidencia


O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illuso!
Como adorasse a mulher, no se vexava de m'o dizer muitas vezes;
achava que Virgilia era a perfeio mesma, um conjunto de qualidades
solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiana
no parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia
confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe
a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle
ouviu com aquella unco religiosa de um desejo que no quer acabar de
morrer; ento comprehendi que a ambio delle andava canada de bater
as azas, sem poder abrir o vo. Dias depois disse-me todos os seus
tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas;
contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos,
intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma
crise de melancolia; tratei de combatel-a.

--Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. No pde imaginar o
que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por
ambio, e um pouco por vaidade. J v que reuni em mim s todos os
motivos que levam o homem  vida publica; faltou-me s o interesse de
outra natureza. Vira o theatro pelo lado da plata; e, palavra, que era
bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graa na representao.
Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar
com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinaes. Creia que tenho
passado horas e dias... No ha constncia de sentimentos, no ha
gratido, no ha nada... nada... nada...

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo no
ouvir cousa nenhuma, a no ser o echo de seus proprios pensamentos.
Aps alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mo:--O senhor ha de
rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um
negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste;
depois pediu-me que no referisse a ninguem o que se passara entre ns;
ponderei-lhe que a rigor no se passara nada. Entraram dous deputados
e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria,
a principio um tanto postia, mas logo depois natural. No fim de meia
hora, ninguem diria que elle no era o mais afortunado dos homens;
conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.




CAPITULO LIX


Um encontro


Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair
da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, at que na rua dos
Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro
de collegio. Cortejmo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui
andando... andando... andando....

--Porque no serei eu ministro?

Esta ida, rtila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o padre
Bernardes,--esta ida comeou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me
estar com os olhos nella, a achar-lhe graa. E no pensei mais na
tristeza de Lobo Neves; senti a attraco do abysmo. Recordei aquelle
companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e
travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo
porque no seria eu como elle. Entrava ento no Passeio Publico;
e tudo me parecia dizer a mesma cousa.--Porque no sers ministro,
Cubas?--Cubas, porque no sers ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma
deliciosa sensao me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me
n'um banco, a cavar commigo aquella ida. E Virgilia que havia de
gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que
me no pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.

Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e
pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro
de Babylonia; o chapu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem
agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,--ou,
litteralmente, os ossos da pessoa; a cr preta ia cedendo o passo a
um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito
primitivos botes restavam tres. As calas, de brim pardo, tinham duas
fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo taco de um
botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoo fluctuavam as pontas de
uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de
oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura,
roto a espaos, e desabotoado.

--Aposto que me no conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.

--No me lembra...

--Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet
ou de Vieira, para contar tamanha desolao! Era o Quincas Borba, o
gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, to
intelligente e abastado. O Quincas Borba! No, impossvel; no pode
ser. No podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba
pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina
fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expresso de
outro tempo; e o sorriso no perdera certo ar escarninho, que lhe era
peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim
de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparao
acabrunhava.

--No  preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha
tudo. Uma vida de miserias, de attribulaes e de lutas. Lembra-se
das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolho! Acabo
mendigo...

E alando a mo direita e os hombros, com um ar de indifferena,
parecia resignado aos golpes da fortuna, e no sei at se contente.
Talvez contente. Com certeza, impassivel. No havia nelle a resignao
christ, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe
callejra a alma, a ponto de lhe tirar a sensao da lama. Arrastava os
andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graa indolente.

--Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.

Um sorriso magnifico lhe abriu os lbios.--No  o primeiro que me
promette alguma cousa, replicou; e no sei se ser o ultimo que no
me far nada. E para que? Eu nada peo, a no ser dinheiro; dinheiro
sim, porque  necessario comer, e as casas de pasto no fiam. Nem as
quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintns de ang, nem isso
fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu
amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje no
almocei.

--No?

--No; sa muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degru das
escadas de S. Francisco,  esquerda de quem sobe; no precisa bater na
porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois sa cedo, e ainda no
comi...

Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil ris,--a menos
limpa,--e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de
cobia. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.

--_In hoc signo vinces!_ bradou.

E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e to ruidosa
expanso, que me produziu um sentimento mixto de njo e lastima. Elle,
que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e
pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que no
via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil ris.

--Pois est em suas mos ver outras muitas, disse eu.

--Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.

--Trabalhando, conclui eu.

Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me
positivamente que no queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa
abjeco to comica e to triste, e preparei-me para sair.

--No v sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle,
escarranchando-se diante de mim.




CAPITULO LX


O abrao


Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando
elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que
eu trazia no dedo. Senti-lhe na mo uns estremees de cobia, uns
pruridos de posse.

--Magnifico! disse elle.

Depois comeou a andar  roda de mim e a examinar-me muito.

--O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e...
Compare esses sapatos aos meus; que differena! Podera no! Digo-lhe
que se trata. E moas? Como vo ellas? Est casado?

--No...

--Nem eu.

--Mro na rua...

--No quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos
virmos, d-me outra nota de cinco mil ris; mas permitta-me que no a
v buscar a sua casa.  uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo
que est impaciente.

--Adeus!

--E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraou-me com tal impeto, que eu no pude evital-o.
Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do
abrao, enfadado e triste. J no dominava em mim a parte sympathica da
sensao, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, no
pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora,
entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanas de um tempo
da realidade de outro tempo...

--Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.

Metto a mo no collete e no acho o relogio. Ultima desilluso! o Borba
furtra-m'o no abrao.




CAPITULO LXI


Um projecto


Jantei triste. No era a falta do relogio que me pungia, era a
imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criana, e outra
vez a comparao, e a concluso... Desde a sopa, comeou a abrir em
mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e ento jantei depressa,
para correr  casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria
refugiar-me nelle, para escapar s oppresses do passado, porque o
encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, no qual fora
devras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.

Sa de casa, mas era cedo; iria achal-os  mesa. Outra vez pensei no
Quincas Borba, e tive ento um desejo de tornar ao Passeio Publico,
a ver se o achava; a ida de o regenerar surgiu-me como uma forte
necessidade. Fui; mas j no o achei. Indaguei do guarda; disse-me que
effectivamente esse sujeito ia por alli s vezes.

--A que horas?

--No tem hora certa.

No era impossivel encontral-o n'outra occasio; prometti a mim mesmo
l voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao
respeito de sua pessa enchia-me o corao; eu comeava a sentir um
bem-estar, uma elevao, uma admirao de mim proprio... Nisto caa a
noite; fui ter com Virgilia.




CAPITULO LXII


O travesseiro


Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia
era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido,
aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle
costumava repousar de todas as sensaes ms, simplesmente enfadonhas,
ou at dolorosas. E, bem pesadas as cousas, no era outra a razo da
existencia de Virgilia; no podia ser. Cinco minutos bastaram para
olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplao
mutua, com as mos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E
l se foi a lembrana do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do
passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros,
se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos
e dormir?




CAPITULO LXIII


Fujamos!


Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo  casa de
Virgilia,--eram quatro horas da tarde,--achei-a triste e abatida. No
me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:

--Creio que o Damio desconfia alguma cousa. Noto agora umas
exquisitices nelle... No sei... Trata-me bem, no ha duvida; mas o
olhar parece que no  o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei,
aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illuso,
mas eu penso que elle desconfia...

Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos.
Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e
nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a
chacara, onde trocramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava
entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei
a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhra o binoculo da
imaginao; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um
mundo nosso, em que no havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem
nenhum outro liame, que nos tolhesse a expanso da vontade. Esta ida
embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, no haveria
mais do que penetrar naquella habitao dos anjos.

--Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.

--Que ?

--Amas-me?

--Oh! suspirou ella, cingindo-me os braos ao pescoo.

Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente.
Com os braos ao meu pescoo, calada, respirando muito, deixou-se
ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam
uma sensao singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a
namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte.
A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que no possuira
antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor
nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas no
apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas,
e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o
sobretudo naquella occasio, em que exprimia mudamente tudo quanto
pde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mos,
peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.

--De que?

--De fugir. Iremos para onde nos fr mais commodo, uma casa grande ou
pequena,  tua vontade, na roa ou na cidade, ou na Europa, onde te
parecer, onde ninguem nos aborrea, e no haja perigos pra ti, onde
vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle pde
descobrir alguma cousa, e estars perdida... ouves? perdida... morta...
e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.

Interrompi-me; Virgilia empallidecra muito, deixou cair os braos
e sentou-se no canap. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer
palavra, no sei se vacillante na escolha, se aterrada com a ida da
descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe
todas as vantagens de uma vida a ss, sem zelos, nem terrores, nem
afflices. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:

--No escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo
modo.

Mostrei-lhe que no. O mundo era asss vasto, e eu tinha os meios de
viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle no chegaria at
l; s as grandes paixes so capazes de grandes aces, e elle no a
amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia
fez um gesto de espanto e quasi indignao; murmurou que o marido
gostava muito della.

--Pde ser, respondi eu; pde ser que sim...

E fui at a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no
peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus
zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli  mo...
Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. No tremas
assim, leitora pallida; descana, que no hei de rubricar esta lauda
com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara,
fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia
retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.

--Est c ha muito tempo? disse-me elle.

--No.

Entrra serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido,
costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expanso de
jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonh, o futuro bacharel do
cap. VIII; tomou-o nos braos, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes.
Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou 
sala.

--Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiosamente no soph.

--Canado? perguntei eu.

--Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra
na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..

--Que ? perguntou Virgilia.

--Um... Adivinha!

Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mos, compoz-lhe
a gravata, e tornou a perguntar o que era.

--Nada menos que um camarote.

--Para a Candiani?

--Para a Candiani.

Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar
de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o
camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa,
acerca da _toilette_ que faria, da opera que se cantava, e de no sei
que outras cousas.

--Voc janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.

--Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que voc possue o
melhor vinho do Rio de Janeiro.

--Nem por isso bebe muito.

Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos
do que era preciso para perder a razo. J estava excitado, fiquei urn
pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia.
No olhei uma s vez para ella durante o jantar; falei de politica, da
imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse,
ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e
dignidade, e at com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me
irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me
apenas nos levantmos da mesa.

--At logo, no? perguntou o Lobo Neves.

--Pde ser.

E sai.




CAPITULO LXIV


A transaco


Vaguei pelas ruas e recolhi-me s nove horas. No podendo dormir,
atirei-me a ler e escrever. s onze horas estava arrependido de no
ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e sar.
Julguei, porm, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
Evidentemente, Virgilia comeava a aborrecer-se de mim, pensava eu.
E esta ida fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a
esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote,
com os seus magnificos braos ns,--os braos que eram meus, s
meus,--fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia
de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bands,  maneira do
tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a
assim, e doa-me que a vissem outros. Depois, comeava a despil-a,
a pr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mos
sofregas e lascivas, a tornal-a,--no sei se mais bella, se mais
natural,--a tornal-a minha, smente minha, unicamente minha.

No dia seguinte, no me pude ter; fui cedo  casa de Virgilia; achei-a
com os olhos vermelhos de chorar.

--Que houve? perguntei.

--Voc no me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de
amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse
o que  que fiz! Mas no sei. No me dir o que foi?

--Que foi o que? Creio que no houve nada.

--Nada? Tratou-me como no se trata um cachorro...

A esta palavra, peguei-lhe nas mos, beijei-as, e duas lagrimas
rebentaram-lhe dos olhos.

--Acabou, acabou, disse eu.

No tive animo de arguir, e, alis, arguil-a de que? No era culpa
della se o marido a amava. Disse-lhe que no me fizera cousa nenhuma,
que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia
supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito
de dissimulao, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e s
dissenses era aceitar a minha ida da vespera.

--Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha s nossa, solitaria,
mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, no ? Acho a ida boa;
mas para que fugir?

Disse isto com o tom ingenuo e preguioso de quem no cuida em mal, e o
sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expresso de
candidez. Ento, afastando-me, respondi:

--Voc  que nunca me teve amor.

--Eu?

--Sim,  uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias...  uma
egoista sem nome!

Virgilia desatou a chorar, e para no attrahir gente, mettia o leno na
boca, recalcava os soluos; exploso que me desconcertou. Se alguem a
ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos,
susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o
perigo; o terror apaziguou-a.

--No posso, disse ella dahi a alguns instantes; no deixo meu filho;
se o levar, estou certa de que elle me ir buscar ao fim do mundo. No
posso; mate-me voc, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus!
meu Deus!

--Socegue; olhe que podem ouvil-a.

--Que ouam! No me importa.

Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse,
que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella
acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mo. Sorrimos
ambos; minutos depois, tornvamos ao assumpto da casinha solitaria, em
alguma rua escusa...




CAPITULO LXV


Olheiros e escutas


Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer
que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.

--Se a senhora est assim com dor de cabea, disse eu, parece que o
melhor  no receber.

--J se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.

--J se apeou; diz que precisa muito de falar com sinh!

--Que entre!

A baroneza entrou dahi a pouco. No sei se contava commigo na sala; mas
era impossivel mostrar maior alvoroo.

--Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que no
apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me no o ver no
theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani?
 natural. Os senhores so todos os mesmos. O baro dizia hontem, no
camarote, que uma s italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo!
e desaforo de velho, que  peor. Mas porque  que o senhor no foi
hontem ao theatro?

--Uma enxaqueca.

--Qual! Algum namoro; no acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se,
porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... No
tem quarenta annos?

--No lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me d licena,
vou consultar a certido de baptismo.

--V, v... E estendendo-me a mo:--At quando? Sabbado ficamos em
casa; o baro est com umas saudades suas...

Chegando  rua, arrependi-me de ter sado. A baroneza era uma das
pessoas que mais desconfiavam de ns. Cincoenta e cinco annos, que
pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante
e maneiras finas. No falava muito nem sempre; possuia a grande arte
de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se ento na cadeira,
desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os
outros, no sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
que ella olhava s, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de
olhar s vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras;
mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio,
remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de
setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo
teimoso, de uma asthma no menos teimosa e de uma leso do corao: era
um hospital concentrado. Os olhos porm luziam de muita vida e sade.
Virgilia, nas primeiras semanas, no lhe tinha medo nenhum; dizia-me
que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava
simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.

Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto,
desarmava  fora de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar
aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome  pessoa, se mostravam
contentes da apresentao, no ha duvida que o Luiz Dutra exultava de
felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperana de que elle
nos no denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras,
vrios gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim
da condio servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta
de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a
tactica e maciez das cobras.




CAPITULO LXVI


As pernas


Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando,
ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei  porta do hotel
Pharoux. De costume jantava ahi; mas, no tendo deliberadamente andado,
nenhum merecimento da aco me cabe, e sim s pernas, que a fizeram.
Abenoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferena.
Eu mesmo, at ento, tinha-vos em m conta, zangava-me quando vos
fatigaveis, quando no podieis ir alm de certo ponto, e me deixaveis
com o desejo a avoaar,  semelhana de gallinha atada pelos ps.

Aquelle caso, porm, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vs
deixastes  minha cabea o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes
uma  outra:--Elle precisa comer, so horas de jantar, vamos levai-o ao
Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique l com a dama,
tomemos ns a outra, para que elle v direito, no abalroe as gentes e
as carroas, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue so e
salvo ao hotel. E cumpristes  risca o vosso proposito, amaveis pernas,
o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.




CAPITULO LXVII


A casinha


Jantei e fui  casa. L achei uma caixa de charutos, que me mandra o
Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cr de
rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

    Meu B...

    Desconfiam de ns; tudo est perdido; esquea-me para
    sempre. No nos veremos mais. Adeus; esquea-se da infeliz

    V...a

Foi um golpe esta carta; no obstante, apenas fechou a noite, corri 
casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vo de uma janella,
contou-me o que se passra com a baroneza. A baroneza disse-lhe
francamente que se falra muito, no theatro, na noite anterior,
a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham
commentado as minhas relaes na casa; em suma, eramos objecto da
suspeita publica. Conclui dizendo que no sabia o que fazer.

--O melhor  fugirmos, insinuei.

--Nunca, respondeu ella abanando a cabea.

Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam
inteiramente ligadas: o nosso amor e a considerao publica. Virgilia
era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as
vantagens; e a fuga s lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa
semelhante a despeito; mas as comoes daquelles dous dias eram j
muitas, e o despeito morreu depressa. V l; arranjemos a casinha.

Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um
recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro
janellas na frente e duas de cada lado,--todas com venezianas cr de
tijolo,--trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solido.
Um brinco!

Convencionmos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia,
em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella
verdadeira fascinao. No se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente
o resto.

Para mim era aquillo uma situao nova do nosso amor, uma apparencia
do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria
adormecer a consciencia o resguardar o decoro. J estava canado das
cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canap, de todas essas
cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade.
Agora podia evitar os jantares frequentes, o ch de todas as noites,
emfim a presena do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa
resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria  porta;--dalli para
dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso,
somente nosso, sem leis, sem instituies, sem baronezas, sem olheiros,
sem escutas,--um s mundo, um s casal, uma s vida, uma s vontade,
uma s affeio,--a unidade moral de todas as cousas pela excluso das
que me eram contrarias.




CAPITULO LXVIII


O vergalho


Taes eram as reflexes que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fra,
logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento;
era um preto que vergalhava outro na praa. O outro no se atrevia a
fugir; gemia somente estas unicas palavras:

--No, perdo, meu senhor; meu senhor, perdo! Mas o primeiro no
fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

--Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdo, bebado!

--Meu senhor! gemia o outro.

--Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada
menos que o meu moleque Prudencio,--o que meu pae libertra alguns
annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a beno;
perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

--E, sim, nhonh.

--Fez-te alguma cousa?

-- um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na
quitanda, em quanto eu ia l embaixo na cidade, e elle deixou a
quitanda para ir na venda beber.

--Est bom, perdoa-lhe, disse eu.

--Pois no, nhonh. Nhonh manda, no pede. Entra para casa, bebado!

Sa do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas.
Segui caminho, a cavar c dentro uma infinidade de reflexes, que sinto
haver inteiramente perdido; alis, seria materia para um bom capitulo,
e talvez alegre. Eu gsto dos capitulos alegres;  o meu fraco.
Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas s exteriormente.
Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo
gaiato, fino, e at profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de
se desfazer das pancadas recebidas,--transmittindo-as a outro. Eu,
em criana, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem
compaixo; elle gemia e soffria. Agora, porm, que era livre, dispunha
de si mesmo, dos braos, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir,
desagrilhoado da antiga condio, agora  que elle se desbancava:
comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de
mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!




CAPITULO LXIX


Um gro de sandice


Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e
dizia ser Tamerlo. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa
maneira de a explicar.

--Eu sou o illustre Tamerlo, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas
adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei
Tartaro, e at rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer
Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas  provavel que o leitor
no se ria, e com razo; eu no lhe acho graa nenhuma. Ouvida, tinha
algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho
recebido e transferido, fora  confessar que  muito melhor voltar 
casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.




CAPITULO LXX


D. Placida


Voltemos  casinha. No serias capaz de l entrar hoje, curioso leitor;
envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo
para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito
menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvo de
telhado  o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos
espaos, como uma lancha de naufragos, que vae dar  costa: dorme hoje
um casal de virtudes no mesmo espao de cho que soffreu um casal de
peccados. Amanh pode l dormir um ecclesiastico, depois um assassino,
depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abenoaro esse canto de
terra, que lhes deu algumas illuses.

Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e
dispol-as com a intuio esthetica da mulher elegante; eu levei para
l alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e,
a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejra a inteno, e doia-lhe o
officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo
de si mesma. Ao menos,  certo que no levantou os olhos para mim
durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, sria,
carrancuda, s vezes triste. Eu queria angarial-a, e no me dava por
offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a
benevolencia, depois a confiana. Quando obtive a confiana, imaginei
uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior
ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e no sei que
outros toques de novella. D. Placida no rejeitou uma s pagina da
novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo
de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida
era minha sogra.

No fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,--os cinco
contos achados em Botafogo,--como um po para a velhice. D. Placida
agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por
mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no
quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.




CAPITULO LXXI


O seno do livro


Comeo a arrepender-me deste livro. No que elle me cance; eu no tenho
que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse
mundo sempre  tarefa que distre um pouco da eternidade. Mas o livro
 enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contraco cadaverica;
vicio grave, e alis infimo, porque o maior defeito deste livro s tu,
leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a
narrao direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e
o meu estylo so como os ebrios, guinam  direita e  esquerda, andam e
param, resmungam, urram, gargalham, ameaam o ceu, escorregam e cem...

E cem!--Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como
quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia
uma lagrima de saudade. Esta  a grande vantagem da morte, que se
no deixa boca para rir, tambem no deixa olhos para chorar... Heis
de cair. Turvo  o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos
allumia, com ser de toda a gente,  um sol opaco e reles, de cemiterio
e carnaval.




CAPITULO LXXII


O bibliomano


Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas
ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu no
quero dar pasto  critica do futuro.

Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que
no ama nenhuma outra cousa alm dos livros, inclina-se sobre a pagina
anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; l, rel, tresl,
desengona as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra,
e as restantes, examina-as por dentro e por fra, por todos os lados,
contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica
sempre o mesmo desproposito.

 um bibliomano. No conhece o autor; este nome de Braz Cubas no vem
nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no
pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos ris. Indagou,
pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar,
unico... Unico! Vs, que no s amaes os livros, seno que padeceis a
mania delles, vs sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes,
portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a cora das
Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os
houvesse de trocar por esse unico exemplar; e no porque seja o das
minhas _Memorias_; faria a mesma cousa com o _Almanak_ de Laemmert, uma
vez que fosse unico.

O peor  o desproposito. L contina o homem inclinado sobre a pagina,
com uma lente no olho direito, todo entregue  nobre e aspera funco
de decifrar o desproposito. J prometteu a si mesmo escrever uma
breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da
sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo,
no descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o,
remira-o, chega-se  janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico!
Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell,
a caminho do poder. Elle d de hombros, fecha a janella, estira-se
na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar
unico!




CAPITULO LXXIII


O lunch


O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor no era dizer
as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! J comparei o meu
estylo ao andar dos ebrios. Se a ida vos parece indecorosa, direi
que elle  o que eram as minhas refeies com Virgilia, na casinha da
Gamboa, onde s vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso _lunch._
Vinho, fructas, compotas. Comiamos,  verdade, mas era um comer
virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices,
uma infinidade desses apartes do corao, alis o verdadeiro, o
ininterrupto discurso do amor. s vezes vinha o arrufo temperar o
nimio adocicado da situao. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto
do canap, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida.
Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a
narrao, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror
ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a
sentar-se comnosco  meza; mas D. Placida no aceitava nunca.

--Voc parece que no gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.

--Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alando as mos para o
tecto. No gosto de Yay! Mas ento de quem  que eu gostaria neste
mundo?

E, pegando-lhe nas mos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, at
molharem-se-lhe os olhos, de to fixo que era. Virgilia acariciou-a
muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.




CAPITULO LXXIV


Historia de D. Placida


No te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia
de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu
a achasse s em casa, travmos palestra, e ella contou-me em breves
termos a sua historia. Era filha natural de um sacristo da S e de
uma mulher que fazia doces para fra. Perdeu o pae aos dez annos. J
ento ralava cco e fazia no sei que outros misteres de doceira,
compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate,
que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva,
com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e
a me, canada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia
doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com
affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianas do
bairro, a dez tostes por mez. Com isto iam-se passando os annos, no
a belleza, porque no a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros,
propostas, seduces, a que resistia.

--Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me
teria casado; mas ninguem queria casar commigo.

Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; no sendo, porm, mais
delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois
de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fra e a escumar
os tachos. A me tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da
necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de
emprestimo e de occasio, que lh'a pediam. E bradava:

--Queres ser melhor do eu? No sei donde te vem essas fiducias de
pessoa rica. Minha camarada, a vida no se arranja  toa; no se
come vento. Ora esta! Moos to bons como o Polycarpo da venda,
coitado...Esperas algum fidalgo, no ?

D. Placida jurou-me que no esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria
ser casada. Sabia muito bem que a me o no fra, e conhecia algumas
que tinham s o seu moo dellas; mas era genio e queria ser casada.
No queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito,
queimando os dedos ao fogo, e os olhos ao candieiro, para comer e no
cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a me, enterrou-a por subscripo,
e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era
muito fraquinha, e no fazia nada, a no ser namorar os capadocios
que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados,
levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das
lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava
para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graolas, faziam
comprimentos; a me chegou a receber propostas de dinheiro...

Interrompeu-se um instante, e continuou logo:

--Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber...
Deixou-me s, mas to triste, to triste, que pensei morrer. No tinha
ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo
que conheci a familia de Yay; boa gente, que me deu que fazer, e at
chegou a me dar casa. Estive l muitos mezes, um anno, mais de um anno,
aggregada, costurando. Sa quando Yay casou. Depois vivi como Deus
foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mos... E mostrou-me as
mos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.--No
se cria isto  toa, meu senhor; Deus sabe como  que isto se cria...
Felizmente, Yay me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um
medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se
tornasse a si, pareceu attentar na inconvenincia daquella confisso
ao amante de uma mulher casada, e comeou a rir, a desdizer-se, a
chamar-se tola, cheia de fiducias, como lhe dizia a me; enfim,
canada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a
ponta do botim.




CAPITULO LXXV


Commigo


Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo
anterior, observo que  preciso lel-o para entender o que eu disse
commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi
isto:

--Assim, pois, o sacristo da S, um dia, ajudando a missa, viu entrar
a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a
outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graa,
pisou-lhe o p, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou
delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunco de luxurias vadias
brotou D. Placida.  de crer que D. Placida no falasse ainda quando
nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:--Aqui
estou. Para que me chamastes? E o sacristo e a sacrist naturalmente
lhe respondi riam:--Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos,
os olhos na costura, comer mal, ou no comer, andar de um lado para
outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e
sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanh resignada, mas
sempre com as mos no tacho e os olhos na costura, at acabar um dia
na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de
sympathia.




CAPITULO LXXVI


O estrume


Subito deu-me a conscincia um repello; accusou-me de ter feito
capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe,
depois de uma longa vida de trabalho e privaes. Medianeira no era,
melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio,  custa
de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu
fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou
que eu me aproveitra da fascinao exercida por Virgilia sobre a
ex-costureira, da gratido desta, emfim da necessidade. Notou a
resistncia de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras
feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar
tudo isso, at vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e
nervoso.

Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida
estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensao. E
raciocinei ento que, se no fossem os meus amores, provavelmente
D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se
poderia deduzir que o vicio  muitas vezes o estrume da virtude. O que
no impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e s. A conscincia
concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.




CAPITULO LXXVII


Entrevista


Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os
sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias,
envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma
especie de manteu, que lhe disfarava as ondulaes do talhe. Da
primeira vez deixou-se cair no canap, offegante, escarlate, com os
olhos no cho; e, palavra! em nenhuma outra occasio a achei to bella,
talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porm, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as
entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor
era a mesma; a differena  que a chamma perdera o tresloucado dos
primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo
e constante, como nos casamentos.

--Estou muito zangada com voc, disse ella sentando-se.

--Porque?

--Porque no foi l hontem, como me tinha dito. O Damio perguntou
muitas vezes se voc no iria, ao menos, tomar ch. Porque  que no
foi?

Com effeito, eu havia faltado  palavra que dera, e a culpa era toda de
Virgilia, Questo de cimes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e
gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera,
em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois
de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava to
alegre! to derramada! to cheia de si! Quando descobriu, entre as
minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaadora, no teve nenhum
sobresalto, nem ficou subitamente sria; mas deitou ao mar o peralta
e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o brao, e levou-me
at outra sala, menos povoada, onde se me queixou de canao, e disse
muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas
occasies, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe
o motivo da minha ausencia... No, eternas estrellas, nunca vi olhos
mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma
estupefaco visivel, tangivel, que seno podia negar, tal foi a
primeira replica de Virgilia; abanou a cabea com um sorriso de piedade
e ternura, que inteiramente me confundiu.

--Ora voc!

E foi tirar o chapo, lepida, jovial, como a menina que torna do
collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na
testa, com um s dedo, a repetir;--Isto, isto;--e eu no tive remedio
seno rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganra.




CAPITULO LXXVIII


A presidencia


Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria
talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que
empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:

--A modo que no gostaste, Virgilia?

Virgilia abanou a cabea.

--No me agrada muito, foi a sua resposta.

No se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto,
um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois
declarou  mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia no
pde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia
a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:

--No posso recusar o que me pedem;  at conveniencia nossa, do
nosso futuro, dos teus brazes, meu amor, porque eu prometti que
serias marqueza, e nem baroneza ests. Dirs que sou ambicioso? Sou-o
devras, mas  preciso que me no ponhas um peso nas azas da ambio.

Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa
da Gamboa,  minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava
consolal-a, como podia. No fiquei menos abatido.

--Voc hade ir comnosco, disse-me Virgilia.

--Est douda? Seria uma insensatez.

--Mas ento...?

--Ento,  preciso desfazer o projecto.

-- impossvel.

--J aceitou?

--Parece que sim.

Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um
lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e no achei
nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da
mo; D. Placida foi  janella.

--Nesta pequenina mo est toda a minha existencia, disse eu; voce 
responsavel por ella; faa o que lhe parecer.

Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo
fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos smente
o latir de um co, e no sei se o rumor da agua, que morria na praia.
Vendo que no falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no
cho, parados, sem luz, as mos deixadas sobre os joelhos, com os
dedos cruzados, na attitude da suprema desesperana. N'outra occasio,
por differente motivo,  certo que eu me lanaria aos ps della,
e a ampararia com a minha razo e a minha ternura; agora, porm,
era preciso compellil-a ao esforo de si mesma, ao sacrificio, 
responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a,
deixal-a, e sar; foi o que fiz.

--Repito, a minha felicidade est nas tuas mos, disse eu.

Virgilia quiz agarrar-me, mas eu j estava fra da porta. Cheguei a
ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de
voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sai.




CAPITULO LXXIX


Compromisso de gato


No acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas
primeiras horas. Vacillava entre um querer e um no querer,
entre a piedade que me empuxava  casa de Virgilia e outro
sentimento,--egoismo, supponhamos,--que me dizia:--Fica; deixa-a a
ss com o problema, deixa-a que ella o resolver no sentido do amor.
Creio que essas duas foras tinham egual intensidade, investiam e
resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia
definitivamente. s rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me
que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada
sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular,
vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava
irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me
levasse a compartir a responsabilidade da soluo.

Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria
vel-a em casa, e s em casa, em presena do marido, para lhe no dizer
nada,  espera do effeito da minha intimao. Deste modo, poderia
conciliar as duas foras. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que
o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um frma de
egoismo, e que a resoluo de ir consolar Virgilia no passava de uma
suggesto de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um
naturalista,--no me lembra qual,--mas era um naturalista,--em quem li
esta observao curiosa: O gato no nos affaga, affaga-se em ns.
Vejo que eu fazia um compromisso de gato.




CAPITULO LXXX


Do secretario


Na noite seguinte fui effectivamente  casa do Lobo Neves; estavam
ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu
certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de
curiosidade e ternura; e no direi o que senti, porque isso j ficou
expresso no capitulo anterior, _in fine._ O Lobo Neves contou-me os
planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as
esperanas, as resolues; estava to contente! to esperanado!
Virgilia, ao p da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina
olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.

--O peor, disse-me de repente o Lobo Neves,  que ainda no achei
secretario.

--No?

--No, e tenho uma idia.

--Ah!

--Uma ida... Quer voc dar um passeio ao norte? No sei o que lhe
disse.

--Voc  rico, continuou elle, no precisa de um magro ordenado; mas se
quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente
deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver
se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar
vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, no violenta,
uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e no tive animo de
olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me
pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um
presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um
modo administrativo.




CAPITULO LXXXI


A reconciliao


E comtudo, ao sair de l, tive umas sombras de duvida; cogitei se no
ia expor insanamente a reputao de Virgilia, se no haveria outro
meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. No achei nada. No dia
seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a
aceitar a nomeao. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na
sala uma senhora, coberta com um vo. Corro; era minha irm Sabina.

--Isto no pode continuar assim, disse ella;  preciso que, de uma vez
por todas, faamos as pazes. Nossa familia est acabando; no havemos
de ficar como dous inimigos.

--Mas se eu no te peo outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os
braos.

E sentei-a ao p de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios,
de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido
viria mostrar-m'a, se eu consentissse.

--Ora essa! irei eu mesmo vel-a.

--Sim?

--Palavra.

--Tanto melhor! respirou Sabina.  tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais moa. Parecia ter vinte annos,
e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento,
nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mos seguras,
falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia
que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as
fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno,
e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas.
Supportei a recordao com algum esforo; mas um barbeiro da visinhana
lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,--porque at
ento a recordao era muda,--essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a
tal ponto me commoveu, que...

Os olhos della estavam seccos. Sabina no herdra a flor amarella e
mrbida. Que importa? Era minha irm, meu sangue, um pedao de minha
me, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouo bater
 porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.

--Entra, Sra, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do cho, beijei-a muitas vezes; a
pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mosinha, quebrando
o corpo para descer... Nisto, apparece-me  porta um chapu, e logo
um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava to commovido,
que deixei a filha e lancei-me aos braos do pae. Talvez essa effuso
o desconcertou um pouco;  certo que me pareceu acanhado. Simples
prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma
alluso ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em
casa um do outro; e no deixei de dizer que essa troca de jantares
podia ser que tivesse uma curta interrupo, por que eu andava com
idas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para
Sabina; ambos concordaram que essas idas no tinham senso commum.
Que diacho podia eu achar no norte? Pois no era na crte, em plena
crte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes
do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle,
Cotrim, acompanhava-me de longe, e, no obstante uma briga ridicula,
teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o
que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de
louvores e admiraes. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na
provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que no fosse
politica...

--Justamente poltica, disse eu.

--Nem assim, replicou elle dahi a um instante--E depois de outro
silencio:--Seja como for, venha jantar hoje comnosco.

--Certamente que vou; mas, amanh ou depois, ho de vir jantar commigo.

--No sei, no sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Voc
precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?

O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que no entendi bem. No importa; a
reconciliao de uma familia vale bem um gesto enigmatico.




CAPITULO LXXXII


Questo de botanica


Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida  uma cousa
doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha
descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas
para cima, onde eu ficava--no patamar,--a dizer-lhes outras tantas
para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me
uma mulher, tinha a confiana do marido, ia por secretario de ambos, e
reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro
horas?

Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar
que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de
realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na
rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro.
Alguns, ligando a minha nomeao  do Lobo Neves, que j andava em
boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro
disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura.
Referia-se s bellas frmas de Virgilia.

Mas a alluso mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres
dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgio, pequenino, trivial
e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos,
sem adquirir jamais aquella compostura austera, que  a gentileza do
ancio. A velhice ridicula , porventura, a mais triste e derradeira
sorpresa da natureza humana.

--J sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.

--Cicero! exclamou Sabina.

--Pois ento? Seu mano  um grande latinista. Traduz Virgilio de
relance. Olhe que  Virgilio, e no Virgilia... no confunda...

E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e
olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu
sorrir, e voltou o rosto para disfaral-o. As outras pessoas olhavam-me
com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que
no acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava
mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso
curto, fugitivo e guloso,--palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia
era um bello erro, e  to facil confessar um bello erro! Costumava
ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma alluso aos nossos
amores; mas, palavra de honra! sentia c dentro uma impresso suave e
linsongeira. Uma vez, porm, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o
das outras vezes. No sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que
explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento,
sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado;
andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do
proximo. Simples questo de botanica.




CAPITULO LXXXIII


13


O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me  janella.--Voc quer que
lhe diga uma cousa? perguntou elle;--no faa essa viagem;  insensata,
 perigosa.

--Porque?

--Voc bem sabe porque, tornou elle: , sobretudo, perigosa, muito
perigosa. Aqui na crte, um caso desses perde-se na multido da gente
e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de
personagens politicos,  realmente insensatez. As gazetas de opposio,
logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras,
e ahi viro as chufas, os remoques, as alcunhas...

--Mas no entendo...

--Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me
negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito,
no faa semelhante viagem; supporte a ausencia, que  melhor, e evite
algum grande escandalo e maior desgosto...

Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no
lampio da esquina,--um antigo lampio de azeite,--triste, obscuro e
recurvado, como um ponto de interrogao. Que me cumpria fazer? Era o
caso de Hamlet: ou dobrar-me  fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a.
Por outros termos: embarcar ou no embarcar. Esta era a questo. O
lampio no me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos
ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez.
Talvez o Cotrim tivesse razo: mas podia eu separar-me de Virgilia?

Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando.
Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina
esteve um instante calada.--O que voc precisa, sei eu;  uma noiva.
Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para voc. Sa de l oppresso,
desorientado. Tudo prompto para embarcar,--espirito e corao,--e eis
ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o carto de
ingresso. Dei ao diabo as convenincias, e com ellas a constituio, o
corpo legislativo, o ministerio, tudo.

No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por
decretos de 13, tnhamos sido nomeados presidente e secretario da
provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia,
e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava
cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se
a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas
eu proprio precisava de consolaes; a objeco do Cotrim affligia-me
profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha;
mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.

--Que aconteceu?

--Vacillo, disse eu; no sei se devo aceitar...

Virgilia deixou-se cair, no canap, a rir.--Porque? disse ella.

--No  conveniente, d muito na vista...

--Mas ns j no vamos.

--Como assim?

Contou-me que o marido ia recusar a nomeao, e por motivo que s disse
a ella, pedindo-lhe o maior segredo; no podia confessal-o a ninguem
mais.-- pueril, observou elle,  ridiculo; mas em summa,  um motivo
poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e
que esse numero significava para elle uma recordao funebre. O pae
morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze
pessoas. A casa em que morrera a me tinha o n. 13. Et ctera. Era um
algarismo fatidico. No podia allegar semelhante cousa ao ministro;
dir-lhe-hia que tinha razes particulares para no aceitar. Eu fiquei
como ha de estar o leitor,--um pouco assombrado com esse sacrifcio a
um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero...
E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstio dos homens.




CAPITULO LXXXIV


O conflicto


Numero fatidico, lembras-te que te abenoei muitas vezes? Assim tambem
as virgens ruivas de Thebas deviam abenoar a egua, de ruiva crina,
que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,--uma donosa egua, que
l morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe dsse nunca uma
palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, no s pela morte
havida, como porque, entre as donzellas escapas, no  impossivel
que figurasse uma av dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa
salvao. No me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem
que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que
eu o escutei, fez honra  dissimulao humana. Elle  que mal podia
encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se,
mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e ento conversava e
ria muito, com estrepito e affectao. Opprimiam-n'o duas cousas,--a
ambio, que um escrupulo desazra, e logo depois a duvida, e talvez
o arrependimento,--mas um arrependimento, que viria outra vez, si se
repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava
da superstio, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um
sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de
alguma atteno. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida,
quando confessava no poder ver um sapato voltado para o ar.

--Que tem isso? perguntava-lhe eu.

--Faz mal, era a sua resposta.

Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete
sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criana, sem outra explicao;
e ella contentava-se com a certeza do mal. J no acontecia a mesma
cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia
perfeitamente que era caso de crear uma verruga.

Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem no perde uma
presidencia de provincia? Tolera-se uma superstio gratuita ou barata;
 insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo
Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo.
E mais este outro accrescimo, que o ministro no acreditou nos motivos
particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos,
illuso complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a
desconfiana aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo,
o presidente resignatario foi para a opposio.




CAPITULO LXXXV


O cimo da montanha


Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei
a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a
perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia no
fez mais do que avivar a affeio primitiva; foi a droga de Malabar,
com que tornmos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos
primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a
dr da separao, se houvesse separao, a tristeza de um e de outro,
 proporo que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando
entre ns; e, semelhantes s crianas, que se achegam ao regao das
mes, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo,
apertando-nos com abraos.

--Minha boa Virgilia!

--Meu amor!

--Tu s minha, no?

--Tua, tua...

E assim reatmos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos
seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo
da montanha, donde por algum tempo divismos os valles de leste e de
oeste, e por cima de ns o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo,
comemos a descer a encosta, com as mos presas ou soltas, mas a
descer, a descer...




CAPITULO LXXXVI


O mysterio


Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, no sei se abatida
ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de
enfado, de mu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um
fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensao forte; rapida,
singular, que eu no chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das
mos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza
de zephyro e uma gravidade de Abraho. Ella estremeceu, colheu-me a
cabea entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um
gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de
decifrar este mysterio.




CAPITULO LXXXVII


Geologia


Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou
ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados
de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma leso de corao por
quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia
nutria grandes esperanas em que esse velho parente, avaro como um
sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se
o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os.
Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental,
uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras,
as camadas de cima, terra solta e ara, levou-lh'as a vida, que 
um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII,
observar que  agora a segunda vez que eu comparo a vida a um
enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe
um adjectivo--perpetuo. E Deus sabe a fora de um adjectivo,
principalmente em paizes novos e clidos.

O que  novo neste livro  a geologia moral do Lobo Neves, e
provavelmente a do cavalheiro, que me est lendo. Sim, essas camadas
de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a
resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu no
escrevo, por no alongar a narrao. Digo apenas que o homem mais
probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob
Valladares, no me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues;
em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um
pequenino escapulo, e no quiz; deixou ir pelas mos fra nada menos de
uns quatrocentos contos; tinha a probidade to exemplar, que chegava
a ser miuda e canativa. Um dia, como nos achassemos, a ss, em casa
delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um
sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que no estava em casa.

--No pga, bradou uma voz do corredor; c estou de dentro.

E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo  porta da sala. O
Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e no
elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos
rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou
o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe ento se ia sair.

--Com minha mulher, disse o Jacob.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao
Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas:
a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presena do
importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando
que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a
justeza da minha observao, mas desculpou-se dizendo que a veracidade
absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz
das cidades s se podia obter  custa de embaadellas reciprocas... Ah!
lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.




CAPITULO LXXXVIII


O enfermo


No  preciso dizer que refutei to perniciosa doutrina, com os mais
elementares argumentos; mas elle estava to vexado do meu reparo,
que resistiu at o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para
atordoar a consciencia.

O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos
escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanas que
trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenes
e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente,
adulava-o; mas eu observei que a adulao das mulheres no  a mesma
cousa que a dos homens. Esta ora pela servilidade; a outra confunde-se
com a affeio. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma
fraqueza physica do  aco lisonjeira da mulher uma cr local, um
aspecto legitimo. No importa a edade do adulado; a mulher ha de ter
sempre para elle uns ares de me ou de irm,--ou ainda de enfermeira,
outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecer sempre
de um _quid_, um fluido, alguma cousa.

Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em
affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o  porta, falando e rindo,
tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o brao e levava-o at uma
cadeira, ou at  cadeira, porque havia l em casa a cadeira do
Viegas, obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anci.
Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se
estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe no dsse um
golpe de ar.

--Ento? hoje est mais fortesinho...

--Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma no me deixa.

E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do canao da entrada e
da subida, no do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco
mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mos
nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonh chegava  sala, sem os
pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito
delle.

--Vem c, nhonh, dizia-lhe; e a custo introduzia a mo na ampla
algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava
outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram
muito boas.

Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas,
Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as
pedras com a mo frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na
chacara, dando-lhe ella o brao, que elle nem sempre aceitava, por
dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam
a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de
uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava
construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a
delle era das antigas, contempornea de el-rei D. Joo VI,  maneira
de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S.
Christovo, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o
casaro em que morava podia ser substituido, e j tinha encommendado
o risco a um pedreiro de fama. Ah! ento sim, ento  que Virgilia
chegaria a ver o que era um velho de gosto.

Falava, como se pde suppr, lentamente e a custo, intervallado de uma
arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando,
vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o leno  boca, e
investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia
ter taes e taes quartos, um terrao, cocheira, um primor.




CAPITULO LXXXIX


In extremis


--Amanh vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez.
Coitado! no tem ninguem...

O Viegas cara na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera
justamente agora, e no podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia l
de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo
aquelle dia ao p della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O
Viegas tossia com tal fora que me fazia arder o peito; no intervallo
dos accessos debatia o preo de uma casa, com um sujeito magro. O
sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador
instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o
Viegas no cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois
mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe
tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito,
arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.

--Nunca! gemeu o enfermo.

E mandou buscar um mao de papeis  escrivaninha; no tendo foras
para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os
deslaasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construco da
casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da
sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas
das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mo
tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

--Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a pea. Dobradias
francezas... Veja,  de graa, concluiu elle depois de lida a ultima
conta.

--Pois bem... mas...

--Quarenta contos; no lhe dou por menos. S os juros... faa a conta
dos juros...

Vinham tossidas estas palavras, s golfadas, s syllabas, como se
fossem migalhas de um pulmo desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os
olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob
o lenol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous
lugares, nos joelhos e nos ps; a pelle amarellada, bamba, rugosa,
revestia apenas a caveira de um rosto sem expresso; uma carapua de
algodo branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.

--Ento? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe signal para que no insistisse, e elle calou-se por alguns
instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito;
Virgilia empallideceu, levantou-se, foi at  janella. Suspeitara a
morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro
contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

--Trinta e oito contos, disse elle.

--Am?... gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mo, e sentiu-a
fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa,
se queria tomar um calice de vinho.

--No... no... quar... quaren... quar... quar...

Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle,
com grande consternao do sujeito magro, que me confessou depois a
disposio em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era
tarde.




CAPITULO XC


O velho colloquio de Ado e Caim


E nada. Nenhuma lembrana testamentaria, uma pastilha que fosse, com
que do todo em todo no parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia
tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, no pela
cousa em si, seno porque entendia com o filho, de quem sabia que eu
no gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que no devia pensar mais em
semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa,
um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por
exemplo.

L me escapou a decifrao do mysterio, esse doce mysterio de algumas
semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que
era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupao
exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do
Viegas, nada me interessava por ento, nem conflictos politicos,
nem revolues, nem terremotos, nem nada. En s pensava naquelle
embryo anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia:
 teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa
voluptuosidade indefinivel, e no sei que assomos de orgulho. Sentia-me
homem.

O melhor  que conversvamos os dous, o embryo e eu, falavamos
de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra
gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mosinhas gordas, ou
ento traava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel,
e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma
tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez
 escola, pequenino, lousa e livros debaixo do brao, ou ento caa no
bero para tornar a erguer-se homem. Em vo buscava fixar no espirito
uma edade, uma attitude; esse embryo tinha a meus olhos todos os
tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era
o interminvel nos limites de um quarto de hora,--_baby_ e deputado,
collegial e pintalegrete. s vezes, ao p de Virgilia, esquecia-me
della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia
que eu j lhe no queria nada. A verdade  que estava em dialogo com
o embryo; era o velho colloquio de Ado e Caim, uma conversa sem
palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.




CAPITULO XCI


Uma carta extraordinaria


Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um
objecto no menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:

    Meu caro Braz Cubas.

    Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo
    um relogio. Tenho a satisfao de restituir-lh'o com esta
    carta. A differena  que no  o mesmo, porm outro, no
    digo superior, mas egual ao primeiro. _Que voulez-vous,
    monseigneur_,--como dizia Figaro,--_c'est la misre._ Muitas
    cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as
    pelo miudo, se me no fechar a porta. Saiba que j no trago
    aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca
    cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau
    da escada de S. Francisco; finalmente, almo.

    Dito isto, peo licena para ir um dia destes expor-lhe
    um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de
    philosophia, que no s explica e descreve a origem e a
    consummao das cousas, como faz dar um grande passo adeante
    de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco
    de crianas ao p da minha receita moral.  singularmente
    espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano,
    supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa
    gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de _Humanitas_,
    principio das cousas. Minha primeira ida revelava uma grande
    enfatuao; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominao
    vaidosa, alm de rude e molesta. E com certeza exprimia
    menos. Ver, meu caro Braz Cubas, ver que  devras um
    monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer
    as amarguras da vida,  o gosto de haver emfim apanhado
    a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mo essas
    duas esquivas; aps tantos seculos de lutas, pesquizas,
    descobertas, systemas e qudas, eil-as nas mos do homem. At
    breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do

    Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.

Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo
um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase:
_Lembrana do velho Quincas._ Voltei  carta, reli-a com pausa, com
atteno. A restituio do relogio excluia toda a ida de burla;
a lucidez, a serenidade, a convico,--um pouco jactanciosa, 
certo,--pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente
o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a
abastana devolvera-lhe a primitiva dignidade. No digo tanto; ha
cousas que se no podem rehaver integralmente; mas emfim a regenerao
no era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a
philosophia.




CAPITULO XCII


Um homem extraordinario


J agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a
carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meo, com um
bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado
com uma irm do Cotrim, chegra poucos dias antes do norte, chamava-se
Damasceno, e fizera a revoluo de 1831. Foi elle mesmo que me disse
isto, no espao de cinco minutos. Sara do Rio de Janeiro, por
desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os
ministros que serviram com elle. De resto, a revoluo estava outra
vez s portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idas politicas
um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas
preferencias: era um despotismo temperado,--no por cantigas, como
dizem alhures,--mas por pennachos da guarda nacional. S no pude
alcanar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de
tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento
do trafico dos africanos e a expulso dos inglezes. Gostava muito
de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um
drama soberbo, a _Maria Joanna_, e uma comedia muito interessante,
_Kettly, ou a volta  Suissa._ Tambem gostara muito da Deperini, na
_Sapho_, ou na _Anna Bolena_, no se lembrava bem. Mas a Candiani!
sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o _Ernani_, que a filha
delle cantava em casa, ao piano: _Ernani, Ernani, involami..._--E dizia
isto levantando-se e cantarolando a meia voz.--No norte essas cousas
chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha
uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava
ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. J havia corrido a cidade toda,
com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar.
Mas no embarcaria mais. Enjora muito a bordo, como todos os outros
passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes!
Isto no ficava direito sem irem todos elles barra fra. Que  que a
Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de
boa vontade, era obra de uma noite a expulso dos taes _godemes_...
Graas a Deus, tinha patriotismo,--e batia no peito,--o que no
admirava porque era de familia; descendia de um antigo capito-mr
muito patriota. Sim, no era nenhum p-rapado. Viesse a occasio, e
elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde,
ia dizer que eu no faltaria ao jantar, e l me esperava para
maior palestra.--Levei-o at  porta da sala; elle parou dizendo
que sympathisava muito commigo. Quando casra, estava eu na Europa.
Conheceu meu pae, um homem s direitas, com quem dansra n'um celebre
baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se
tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a
porta... Uf!




CAPITULO XCIII


O jantar


Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao p
da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nh-ll,
moa bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas s a principio.
Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram
soberbos e s tinham o defeito de se no arrancarem de mim, excepto
quando desciam ao prato; mas Nh-ll comia to pouco, que quasi no
olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae,
muito mimosa. No obstante, esquivei-me. Sabina veiu at  porta, e
perguntou-me que tal achra a filha do Damasceno.

--Assim, assim.

--Muito sympathica, no ? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de
corte. Mas que corao!  uma perola. Bem boa noiva para voc.

--No gosto de perolas.

--Casmurro! Para quando  que voc se guarda? para quando estiver a
cair de maduro, j sei. Pois, meu rico, quer voc queira quer no, ha
de casar com Nh-ll.

E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e
ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo
da reconciliao? Fiquei um pouco desconsolado com a ida, mas uma voz
mysteriosa chamava-me  casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e s
suas ameaas.




CAPITULO XCIV


A causa secreta


--Como est a minha querida mame?

A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma
janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas
quando lhe falei no nosso filho amuou-se. No gostava de semelhante
alluso, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes.
E eu, para quem ella era j uma pessoa sagrada, uma ambula divina,
deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryo, esse perfil
do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a
conscincia do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais
expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido.
No eram remorsos. Imaginei tambem que a concepo seria um puro
invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que
talvez comeava de opprimil-a. No era absurda esta hypothese; a minha
doce Virgilia mentia s vezes, com tanta graa!

Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e
vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro
filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte,
dava-lhe j imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao
vexame, complicava-se ainda da forada privao de certos habitos
da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender,
reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia
fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.




CAPITULO XCV


Flores de antanho


Onde esto ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas
de gestao, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes.
Foi-se o embryo, naquelle ponto em que se no distingue Laplace de
uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na
sala, e acompanhou o medico  alcova da frustrada me. Eu encostei-me
 janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem
flores. Onde iam ellas as flores de antanho?




CAPITULO XCVI


A carta anonyma


Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns
instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos
a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma
carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mo tremula.
Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim;
mas no me lembra bem. O que me lembra claramente  que durante os dias
seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo,
dahi a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era
anonyma e denunciava-nos. No dizia tudo; no falava, por exemplo, das
nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha
intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a
carta e disse com indignao que era uma calumnia infame.

--Calumnia? perguntou o Lobo Neves.

--Infame.

O marido respirou; mas, tornando  carta, parece que cada palavra della
lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a
indignao da mulher. Esse homem, alis intrepido, era agora a mais
fragil das creaturas. Talvez a imaginao lhe mostrou, ao longe, o
famoso olho da opinio, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha;
talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle
escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse
tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava
salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte
s ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum
namorado sem ventura. E citou alguns,--um que a galantera francamente,
durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda
outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando
os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para no dar margem 
calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu no voltaria l.

Ouvi tudo isto um pouco turbado, no pelo accrescimo de dissimulao
que era preciso empregar de ora em diante, at afastar-me inteiramente
da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela
falta de commoo, de susto, de saudades, e at de remorsos. Virgilia
notou a minha preoccupao, levantou-me a cabea, porque eu olhava
ento para o soalho, e disse-me com certa amargura:

--Voc no merece os sacrifcios que lhe fao.

No lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero
e terror daria  nossa situao o sabor caustico dos primeiros dias;
mas se lh'o dissesse, no  impossivel que ella chegasse lenta e
artificiosamente at esse pouco de desespero e terror. No lhe disse
nada. Ella batia nervosamente com a ponta do p no cho; aproximei-me e
beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.




CAPITULO XCVII


Entre a boca e a testa


Sinto que o leitor estremeceu,--ou devia estremecer. Naturalmente
a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexes. Veja bem o
quadro: n'uma casinha da Gamba*, duas pessoas que se amam ha muito
tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a
outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver.
Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e
depois do beijo, ha ahi largo espao para muita cousa,--a contraco de
um resentimento,--a ruga da desconfiana,--ou emfim o nariz pallido e
somnolento da saciedade..




CAPITULO XCVIII


Supprimido


Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situao. A carta
anonyma restituia  nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do
perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia no perdesse naquella crise a
posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se
uma grande pea, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro
os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia.
Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de
explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e
dahi, talvez fosse por isso mesmo.

No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas
palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nh-ll, no tirou
mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que
no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido
das frmas terrenas:--expresso vaga, e condigna de um capitulo em
que tudo ha de ser vago. Realmente, no sei como lhes diga que no me
senti mal, ao p da moa, trajando garridamente um vestido fino, um
vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo
casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a
saber, que a natureza previu a vestidura humana, condio necessaria
ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a
multiplicao das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar
os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando
a natureza, agua e attre as vontades, activa-as, reprodul-as, e
conseguintemente faz andar a civilisao. Abenoado uso que nos deu
_Othello_ e os paquetes transatlnticos!

Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive  perigoso.
Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e no as tuas, leitor pacato.
Ao p da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensao dupla
e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal,
_l'ange et la bte_, com a differena que o jansenista no admittia a
simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem
juntinhas,--_l'ange_, que dizia algumas cousas do ceu,--e _la bte_,
que... No; decididamente supprimo este capitulo.




CAPITULO XCIX


Na plata


Na plata achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falmos
por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte,
prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que
no havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso,
puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente
elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe
pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversao
para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera
causa da differena; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta
do camarote.

No ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem
as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os
retalhos da conversao do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e
concluia que era muito melhor a nova situaao. Bastava-nos a Gamboa. A
frequencia da outra casa aguaria as invejas. E rigorosamente podiamos
dispensar-nos de falar todos os dias; era at melhor, mettia a saudade
de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e no
era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa,
ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o
meu nome... Creio que nessa occasio houve grandes applausos, mas no
juro; eu pensava em outra cousa.

Multido, cujo amor cobicei at  morte, era assim que eu me vingava s
vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana,
sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos.
Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua
indifferena, ou da tua agitao? Frageis cadeias, amiga minha; eu
rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa  ir considerar no
ermo. O voluptuoso, o exquisito,  insular-se o homem no meio de um
mar de gestos e palavras, de nervos e paixes, decretar-se alheiado,
inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a
si,--isto , quando torna aos outros,-- que baixa do mundo da lua; mas
o mundo da lua, esse desvo luminoso e recatado do cerebro, que outra
cousa  seno a affirmao desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.




CAPITULO C


O caso provavel


Se esse mundo no fosse uma regio de espiritos desattentos, era
escusado lembrar ao leitor que eu s affirmo certas leis, quando
as possuo deveras; em relao a outras restrinjo-me  admisso da
probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente
capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo
dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e no  improvavel, existe
entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa aco
reciproca, regular, e talvez periodica,--ou, para usar de uma imagem,
ha alguma cousa semelhante s mars da praia do Flamengo e de outras
egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia,
alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com
variavel fora, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que ter de
tornar como a primeira. Esta  a imagem; vejamos a applicao.

Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de
provincia, recusou a nomeao por motivo da data do decreto, que era
13; acto grave, cuja consequncia foi separar do ministerio o marido de
Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o
phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um
acto politico determinou na vida particular uma cessao de movimento.
No convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro
phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes
depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio;
facto que o leitor no deve perder de vista, se quizer penetrar a
subtileza do meu pensamento.




CAPITULO CI


A revoluo dalmata


Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido,
certa manh de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reunies, de
conversas, de um discurso...

--De maneira que desta vez fica voc baroneza, interrompi eu.

Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabea a um e outro lado;
mas esse gesto de indifferena era desmentido por alguma cousa menos
definivel, menos clara, uma expresso de gosto e de esperana. E no
sei por que imaginei que a carta imperial da nomeao podia attral-a 
virtude, no digo pela virtude em si mesma, mas por gratido ao marido.
Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de
nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legao,--da
legao da Dalmacia, supponhamos,--o conde B. V., que a namorou durante
tres mezes.

Esse homem, vero fidalgo de raa, transtornara um pouco a cabea
de Virgilia, que, alm do mais, possuia a vocao diplomatica. No
chego a alcanar o que seria de mim, se no rebentasse na Dalmacia
uma revoluo, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi
sangrenta a revoluo, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio
que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue,
contavam as cabeas; toda a gente fremia de indignao e piedade...
Eu no; eu abenoava interiormente essa tragedia, que me tirra uma
pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era to longe!




CAPITULO CII


De repouso


Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou
dahi a tempos... No, no hei de contal-o nesta pagina; fique esse
capitulo para repouso do meu vexame. Uma aco grosseira, baixa, sem
explicao possivel... Repito, no contarei o caso nesta pagina.




CAPITULO CIII


Distraco


--No, senhor doutor, isto no se faz. Perdoe-me, isto no se faz.

Tinha razo D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde
ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia
tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperra muito, que
se irritara, que chorara, que jurra* votar-me ao desprezo, e outras
mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me
que no desamparasse Yay, que era ser muito injusto com uma moa que
me sacrificara tudo. Expliquei-lhe ento que um equivoco... E no era;
cuido que foi simples distrao. Um dito, uma conversa, uma anecdota,
qualquer cousa; simples distraco.

Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para
outro, abanando a cabea, suspirando com estrepito, espiando pela
rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas,
bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginao
fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,--os
bons doces de outros dias,--e muito riso, muito affago, um riso e um
affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa
aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa
confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia
suspiros e saudades que no presencira; nada, nem a calumnia, porque
uma vez chegou a attribuir-me uma paixo nova.--Voc sabe que no
posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me
falou em semelhante cousa. E esta s palavra, sem nenhum protesto ou
admoestao, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.

--Est bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade
reconhecer que no tive culpa nenhuma... Quer voc levar-lhe uma carta
agora mesmo?

--Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu no desejo a morte
de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yay,
ento sim,  que hade ver o anjo que ella !

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao cho. Recommendo
este gesto s pessoas que no tiverem uma palavra prompta para
responder, ou ainda s que receiarem encarar a pupilla do outros olhos.
Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos _Lusadas_,
outros adoptam o recurso de assobiar a _Norma_; eu atenho-me ao gesto
indicado;  mais simples, exige menos esforo.

Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou
um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramra
naquella triste occasio; e no me lembra se interiormente as attribui
a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao
vel-a desapontada, e, por um phenomeno da viso, as lagrimas que tinha
nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse
como fosse, tudo estava explicado, mas no perdoado, e menos ainda
esquecido. Virgilia dizia-me uma poro de cousas duras, ameaava-me
com a separao, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno,
muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeio; 
o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braos fincados nos
joelhos, olhava para o cho, onde uma mosca arrastava uma formiga que
lhe mordia o p. Pobre mosca! pobre formiga!

--Mas voc no diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de
mim.

--Que heide dizer? J expliquei tudo; voc teima em zangar-se; que
heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que voc est enfastiada,
que se aborrece, que quer acabar...

--Justamente!

Foi dali pr o chapu, com a mo tremula, raivosa...--Adeus, D.
Placida, bradou ella para dentro. Depois foi at  porta, correu o
fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.--Est bom, est bom, disse-lhe.
Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse,
que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canap.
Sentei-me ao p della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes,
outras graciosas. No affirmo se os nossos labios chegaram  distancia
de um fio de cambraia ou ainda menos;  matria controversa. Lembra-me,
sim, que na agitao caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a
apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a
formiga no p. Ento eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso
sculo, puz na palma da mo aquelle casal de mortificados; calculei
toda a distancia que ia da minha mo ao planeta Saturno, e perguntei
a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio to mofino. Se
conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um
grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca
farejou a minha inteno, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca!
pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.




CAPITULO CIV


Era elle!


Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e
preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava
esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasio idonea para
a sada, fecha subitamente a janella e exclama:

--Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yay!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da cr*
das rendas do vestido, correu at a porta da alcova; D. Placida, que
fechra a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me
a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou
a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse 
janella; a confidente obedeceu.

Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamaes de
pasmo:--O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faa
favor. Adivinhe quem est c... No tem que adivinhar: no veiu por
outra cousa... Apparea, Yay.

Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os
pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido,
frio, quieto, sem exploso, sem arrebatamento, e circulou um olhar em
volta da sala.

--Que  isto? exclamou Virgilia. Voc por aqui?

--Ia passando, vi D. Placida  janella, e vim comprimental-a.

--Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas no valem alguma
cousa... Olhae, gentes! Yay parece estar com ciumes. E acariciando-a
muito:--Este anjinho  que nunca se esqueceu da velha Placida.
Coitadinha!  mesmo a cara da me... Sente-se, senhor doutor...

--No me demoro.

--Voc vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.

--Vou.

--D c o meu chapu, D. Placida.

--Est aqui.

D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha
o chapu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido,
que no respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um
modo de disfarar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro
instante, tornra  posse de si mesma.

--Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; no se esquea de apparecer,
ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.




CAPITULO CV


Equivalencia das janellas


D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei
immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair  rua, com o fim
de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse,
porque D. Placida deteve-me por um brao. Tempo houve em que eu cheguei
a suppor que no dissera aquillo seno para que ella me detivesse;
mas a simples reflexo basta para mostrar que, depois dos dez minutos
da alcova, o gesto mais genuino e cordial no podia ser seno esse. E
isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive
a satisfao de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar
a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o
gesto de sair, e respirei.




CAPITULO CVI


Jogo perigoso


Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamaes e
lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se
no era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas
adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o
fogo  polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas
depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido?
espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogaes
percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas
escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e
vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu no podia agarrar um
dellos e dizer: s tu, tu e no outro.

De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fra dentro,
enfira a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir  casa do Lobo
Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da
visita to proxima.

--Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle
estiver em casa no entro.

Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao
cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se
no era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro do _whist._
E ento senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de
canalizar a vida. Porque no? Meu corao tinha ainda que explorar;
no me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade,
as aventuras so a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto , a
excepo; eu estava enfarado dellas; no sei at se me pungia algum
remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginao; vi-me
logo casado, ao p de uma mulher adoravel, deante de um _baby_, que
dormia no regao da ama, todos ns no fundo do uma chacara sombria
e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul,
extremamente azul...




CAPITULO CVII


Bilhete

    No houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; est muito
    serio e no fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para
    nhonh, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. No me
    tratou mal nem bem. No sei o que vae acontecer; Deus queira
    que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.




CAPITULO CVIII


Que se no entende


Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse
retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mos, era um
documento de analyse, que eu no farei neste capitulo, nem no outro,
nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto
de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas
linhas traadas  pressa; e por traz dellas a tempestade de outro
cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita,
por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?

Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes,
naquelle dia, accreditai-o, que  verdade; se vos disser mais que o
reli no dia seguinte, antes e depois do almoo, podeis crel-o,  a
realidade pura. Mas se vos disser a commoo que tive, duvidai um pouco
da assero, e no a acceiteis sem provas. Nem ento, nem ainda agora
cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e no era medo;
era d e no era d; era vaidade e no era vaidade; emfim, era amor
sem amor, isto , sem delirio; e tudo isso dava uma combinao asss
complexa e vaga, uma cousa que no podereis entender, como eu no
entendi. Supponhamos que no disse nada.




CAPITULO CIX


O philosopho


Sabido que reli a carta, antes e depois do almoo, sabido fica que
almocei, e s resta dizer que essa refeio foi das mais parcas
da minha vida: um ovo, uma fatia de po, uma chicara de ch. No
me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa
importante obliterada escapou esse almoo. A razo principal poderia
ser justamente o meu desastre; mas no foi; a principal razo foi
a reflexo que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle
dia. Disse-me elle que a frugalidade no era necessaria para entender
o Humanitismo,  menos ainda pratical-o; que esta philosophia
acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa,
o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia
indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expresso
acabada da tolice humana.

--Veja S. Joo, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto,
em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o
pharisaismo na synagoga.

Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que alis ouvi
toda naquella triste occasio, uma historia longa, complicada,
mas interessante. E se no conto a historia, dispenso-me outrosim
de descrever-lhe a figura, alis mui diversa da que me appareceu
no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal
caracterstico do homem no so as feies, mas o vesturio, elle
no era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general
sem farda, um negociante sem _deficit._ Notei-lhe a perfeio da
sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz,
roufenha outr'ora, parecia restituida  primitiva sonoridade. Quanto
 gesticulao, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, no
tinha j a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu no quero
descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no boto de ouro que trazia ao
peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripo,
que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de
verniz. Saibam mais que elle herdra alguns pares de contos de ris de
um velho tio de Barbacena.

Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparao de criana!) meu
espirito era n'aquella occasio uma especie de peteca. A narrao do
Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair,
o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo
arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o
com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que no nasci
para situaes complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas,
desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo
Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de
presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narrao do nosso
philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observao com que
descrevia a gestao e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as
capitulaes vagarosas, o uso da lama.

--Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S.
Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque?
Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto
proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez 
rua...

Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que no.--Estou
assaz preocupado hoje e no poderia attendel-o; venha depois; estou
sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez
soubesse da minha aventura, mas no accrescentou nada. S me disse
estas ultimas palavras  porta:

--Venha para o Humanitismo; elle  o grande regao dos espiritos, o
mar eterno em que mergulhei para arrancar de l a verdade. Os gregos
faziam-na sair de um poo. Que concepo mesquinha! Um poo! Mas
 por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos,
anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruado sobre
o poo, para ver sair a verdade, que no est la. Gastaram cordas e
caambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu
fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.




CAPITULO CX


31


Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia.
Agarrei-me  esperana da recusa, se o decreto viesse outra vez datado
de 13; trouxe, porm, a data de 31; e esta simples transposio de
algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que
so as molas da vida!




CAPITULO CXI


O muro


No sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta
pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando
em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um
bilhete de Virgilia; dizia que me esperava  noite, na chacara, sem
falta. E conclua: O muro  baixo do lado do becco.

Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente
audaciosa, mal pensada e at ridicula. No era s convidar o escandalo,
era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro,
embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me
agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda.
O muro  baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia no
soube o que fez; era possivel que j estivesse arrependida. Olhei para
o papel, um pedao de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comiches
de o rasgar, em trinta mil pedaos, e atiral-os ao vento, como o ultimo
despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame
da fuga, a ida do medo... No havia remedio seno ir.

--Diga-lhe que vou.

--Aonde? perguntou D. Placida.

--Onde ella disse que me espera.

--No me disse nada.

--Neste papel.

D. Placida arregalou os olhos:--Mas esse papel, achei-o hoje de manh,
nesta sua gaveta, e pensei que...

Tive uma sensao exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na
verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no comeo dos nossos
amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a
saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma
sensao exquisita.




CAPITULO CXII


A opinio


Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas
horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor,
e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro
conhecido que nos passou  ilharga, e deixou-me, depois de muitos
comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento
que forcejava por dissimular. Pareceu-me ento (e peo perdo 
critica, se este meu juizo fr temerrio!) pareceu-me que elle tinha
medo--no medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia;
tinha medo da opinio. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel,
em que cada membro accusa e julga, era o limite posto  vontade do
Lobo Neves. Talvez que elle j no amasse a mulher; e, assim, pde ser
que o corao fosse estranho  indulgencia dos seus ultimos actos.
Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle
estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se ter separado
de muitas relaes pessoaes; mas a opinio, essa opinio que lhe
arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito
cerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias,
antecedencias, induces, provas, que as relataria na palestra das
chacaras desoccupadas, essa terrivel opinio, to curiosa das alcovas,
obstou  disperso da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o
desforo, que seria a divulgao. Elle no podia mostrar-se resentido
commigo, sem egualmente buscar a separao conjugal; e teve ento
de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deduco, eguaes
sentimentos.

Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo
que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e  outro ponto em que eu
espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a
sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os
annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse
os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva
cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinio se occupasse um
pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer
as ambies do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso,
e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a
doena, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e
estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.




CAPITULO CXIII


A solda


A concluso, se ha alguma no capitulo anterior,  que a opinio 
uma ba solda das instituies domesticas. No  impossivel que eu
desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem no 
impossivel que o deixe como est. De um ou de outro modo,  uma ba
solda a opinio, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns
metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples
producto da gente chocha ou mediocre; mas  evidente que, ainda quando
um conceito to extremado no trouxesse em si mesmo a resposta, bastava
considerar os effeitos salutares da opinio, para concluir que ella  a
obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior numero.




CAPITULO CXIV


Fim de um dialogo

--Sim,  amanh. Voc vae a bordo?

--Est douda?  impossvel.

--Ento, adeus!

--Adeus!

--No se esquea de D. Placida. V vel-a algumas vezes. Coitada! Foi
hontem despedir-se de ns; chorou muito, disse que eu no a veria
mais...  uma boa creatura, no?

--Certamente.

--Se tivermos de escrever, ella receber as cartas. Agora at daqui a...

--Talvez dous annos?

--Qual! elle diz que  s at fazer as eleies.

--Sim? ento at breve. Olhe que esto olhando para ns.

--Quem?

--Alli do soph. Separemo-nos.

--Custa-me muito.

--Mas  preciso; adeus, Virgilia!

--At breve. Adeus!




CAPITULO CXV


O almoo


No a vi partir; mas  hora marcada senti alguma cousa que no era dor
nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em
eguaes doses. No se irrite o leitor com esta confisso. Eu bem sei
que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande
desespero, derramar algumas lagrimas, e no almoar. Seria romanesco;
mas no seria biographico. A realidade pura  que eu almocei, como nos
demais dias, acudindo ao corao com as lembranas da minha aventura, e
ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...

...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel
Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido
nos famosos Vry e Vfour, de Paris, e mais nos palacios do conde
Mol e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de
Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos
estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordaes daquelle
tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.

Eram, e naquella manh parece que o diabo do homem adivinhra a nossa
catastrophe. Jmais o engenho e a arte lhe foram to propicios. Que
requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de frmas!
Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. No guardei a conta
desse dia; do contrario,  mui provavel que a deixasse nestas paginas.
Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os
meus amores. Elles la iam, mar em fra, no espao e no tempo, e eu
ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos
annos, to vadios e to vazios; ficava-me para os no ver nunca mais,
porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manh quem  que
o pediu ao crepsculo da tarde?




CAPITULO CXVI


Philosophia das folhas velhas


Fiquei to triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de no
escrever este, descanar um pouco, purgar o espirito da melancolia que
o empacha, e continuar depois. Mas no, no quero perder tempo.

A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros
dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se no mente
o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos.
Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede,
com um livro aberto entre as mos. Era tudo: saudades, ambies, um
pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse
intervallo; item, dous primos; e eu no me dei por abalado; levei-os ao
cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva
cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao
carteiro o cuidado de as entregar em mo propria. Foi tambem per esse
tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns,
nasciam outros: eu continuava s moscas.

Outras vezes agitava-me. Ia s gavetas, entornava as cartas antigas,
dos amigos, dos parentes, das namoradas, (at as de Marcella), e
abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor
ignaro, se no guardas as cartas da juventude, no conhecers um dia
a philosophia das folhas velhas, no gostars o prazer de ver-te, ao
longe, na penumbra, com um chapu de tres bicos, botas de sete leguas
e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica.
Guarda as tuas cartas da juventude!

Ou, se te no apraz o chapu de tres bicos, empregarei a locuo de um
velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as
cartas da juventude, achars occasio de cantar uma saudade. Parece
que os nossos marujos do este nome s cantigas de terra, entoadas no
alto mar. Como expresso poetica,  o que se pde exigir mais triste.




CAPITULO CXVII


O Humanitismo


Duas foras, porm, alm de uma terceira, compelliam-me a tornar  vida
agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irm encaminhou a
candidatura conjugal de Nh-lol de um modo verdadeiramente impetuoso.
Quando dei por mim estava com a moa quasi nos braos. Quanto ao
Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia
destinado a arruinar todos os demais systemas.

--Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, no  outro seno o
mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas;
a _statica_, anterior a toda a creao; a _expansiva_, comeo das
cousas; a _dispersiva_, apparecimento do homem; e contar mais uma,
a _contractiva_, absorpo do homem e das cousas. A _expanso_,
iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi
a _disperso_, que no  mais do que a multiplicao personificada da
substancia original.

Como me no apparecesse assaz clara esta exposio, o Quincas Borba
desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas
do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao
Brahmanismo, a saber, na distribuio dos homens pelas differentes
partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religio indiana
tinha apenas uma estreita significao theologica e politica, era no
Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito
ou dos rins de Humanitas, isto , ser _um forte_, no era o mesmo que
descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de
cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles no foi seno um
symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou
que o paganismo poderia ter chegado  verdade, se se no houvesse
amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecer
com o Humanitismo. Nesta egreja nova no ha aventuras faceis, nem
quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo,  um
sacerdocio, a reproduco um ritual. Como a vida  o maior beneficio
do universo, e no ha mendigo que no prefira a miseria  morte (o
que  um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmisso
da vida, longe de ser uma occasio de galanteio,  a hora suprema da
missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha s uma desgraa:  no
nascer.

--Imagina, por exemplo, que eu no tinha nascido, continuou o Quincas
Borba;  positivo que no teria agora o prazer de conversar comtigo,
comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma s palavra:
viver. Nota que eu no fao do homem um simples vehiculo de Humanitas;
no, elle  ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle 
o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si
proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla
a inveja. No ha moralista grego ou turco, christo ou mussulmano,
que no troveje contra o sentimento da inveja. O accordo  universal,
desde os campos da Iduma at o alto da Tijuca. Ora bem; abre mo dos
velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja,
esse sentimento to subtil e to nobre. Sendo cada homem uma reduco
de Humanitas,  claro que nenhum homem  fundamentalmente opposto a
outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por
exemplo, o algoz que executa o condemnado pde excitar o vo clamor
dos poetas; mas substancialmente  Humanitas que corrige em Humanitas
uma infraco da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que
estripa a outro;  uma manifestao da fora de Humanitas. Nada obsta
(e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste
bem, facilmente comprehenders que a inveja no  seno uma admirao
que luta, e sendo a luta a grande funco do genero humano, todos os
sentimentos bellicosos so os mais adequados  sua felicidade. Dahi vem
que a inveja  uma virtude.

Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposio, a
logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia
superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns
minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal
podia encobrir a satisfao do triumpho. Tinha uma aza de frango no
prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda
alguma objeces, mas to frouxas, que elle no gastou muito tempo em
destruil-as.

--Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa no esquecer
nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha:
a guerra, que parece uma calamidade,  uma operao conveniente,
como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle
chupava philosophicamente a aza do frango), a fome  uma prova a que
Humanitas submette a propria viscera. Mas eu no quero outro documento
da sublimidade do meu systema, seno este mesmo frango. Nutriu-se de
milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de
Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe,
um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze
homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar
a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango,
que eu almocei agora mesmo,  o resultado de uma multido de esforos e
lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.

Entre o queijo e o caf, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu
systema era a destruio da dr. A dr, segundo o Humanitismo,  uma
pura illuso. Quando a criana  ameaada por um pu, antes mesmo de
ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa _predisposio_  que
constitue a base da illuso humana, herdada e transmittida. No basta
certamente a adopo do systema para acabar logo com a dr; mas 
indispensavel; o resto  a natural evoluo das cousas. Uma vez que o
homem se compenetre bem de que elle  o proprio Humanitas, no tem mais
do que remontar o pensamento  substancia original para obstar qualquer
sensao dolorosa. A evoluo porm  to profunda, que mal se lhe
podem assignar alguns milhares de annos.

O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro
volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e
citaes latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico,
fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema,
posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a
sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra,
a insurreio, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as
doenas; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do
entendimento, porque no passariam de movimentos externos da substancia
interior, destinados a no influir sobre o homem, seno como simples
quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia no
impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que
era radicalmente falso) correspondessem no futuro  concepo acanhada
de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous
motivos: 1. porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta,
cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se
ao principio de que descende; 2. porque, ainda assim, no diminuiria o
poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu
recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo.
Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, no era to tolo como o
pintou Voltaire.




CAPITULO CXVIII


A terceira fora


A terceira fora (Veja a primeira linha do capitulo passado) a
terceira fora que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir,
e, sobretudo, a incapacidade de viver s. A multido attrahia-me, o
applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos
objectos de seduco. Se a ida do emplasto me tem apparecido nesse
tempo, quem sabe? no teria morrido logo e estaria celebre. Mas o
emplasto no veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com
alguma cousa e por alguma cousa. _Tout notre mal vient de ne pouvoir
tre seuls._ Esta maxima de la Bruyre sempre me pareceu um grande
disparate. No ha duvida que a sociabilidade  a primeira virtude dos
homens, a segunda  a curiosidade, a terceira  a pontualidade dos
pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.




CAPITULO CXIX


Parenthesis


(Haver uma critica to perversa que possa attribuir a minha opinio
sobre la Bruyre  inveja das suas maximas? Eu aparo desde j esse
golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e
rasguei logo depois, por no me parecerem dignas do prlo. Fil-as n'um
periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornra a abrir; eram
bocejos de enfado. E se no vejam:

    Supporta-se com pacincia a colica do proximo.

    Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

    Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da
    carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

    Cr em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

    No se comprehende que um botocudo fure o beio para
    enfeital-o com um pedao de pu. Esta reflexo  de um
    joalheiro.

    No te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das
    nuvens, que de um terceiro andar.)




CAPITULO CXX


Compelle intrare


--No, senhor, agora quer voc queira, quer no, ha de casar, disse-me
Sabina. Que bello futuro! Um solteiro sem filhos.

Sem filhos! Eis o dardo secreto. A ida de ter filhos deu-me um
sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria
ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas
seriam tenues, e compradas a troco da solido. Sem filhos! No;
impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliana do
Damasceno. Sem filhos! Como j ento depositasse grande confiana no
Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da
minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroo; declarou-me que
Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou
que eram mais alguns convivas que batiam  porta, etc. _Compelle
intrare_, como dizia Jesus. E no me deixou sem provar que o apologo
evangelico no era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente
interpretado pelos padres.




CAPITULO CXXI


Morro abaixo


No fim de tres mezes, ia tudo  maravilha. O fluido, Sabina, os olhos
da moa, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam
ao matrimonio. A lembrana de Virgilia apparecia de quando em quando,
 porta; e com ella um diabo negro, que me mettia  cara um espelho,
no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo
vinha, cr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de
Nh-lol, terna, luminosa, angelica.

No falo dos annos. Eu no os sentia; acrescentarei at que os deitra
fra, certo domingo, em que fui  missa na capella do Livramento. Como
o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes 
missa. O morro estava ainda n de habitaes, salvo o velho palacete do
alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nh-lol pelo
brao, no sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos,
alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo,
estava com vinte annos apenas, to lpidos como elles tinham sido.

Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno,
basta-lhes ler este capitulo at o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae
e eu. No meio do morro achmos um grupo de homens. O Damasceno, que
vinha ao p de ns, percebeu o que era e adiantou-se alvoroado; ns
fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e
cres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em
sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de ccaras, outros
com as mos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles
encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas
debruadas das pupillas.

--Que ? perguntou-me Nh-lol.

Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos
me foram cedendo espao, sem que positivamente ninguem me visse. O
centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous
contendores, dous gallos de esporo agudo, olho de fogo e bico afiado.
Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava
desplumado e rubro; invadia-os o canasso. Mas lutavam ainda assim,
olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe
daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno no sabia mais de nada; o
espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vo lhe disse que
era tempo de descer: elle no respondia, no ouvia, concentrara-se no
duello. A briga de gallos era uma de suas paixes.

Foi nessa occasio que Nh-lol me puxou brandamente pelo brao,
dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por
alli abaixo. J disse que o morro era ento deshabitado; disse-lhes
tambem que vinhamos da missa, e no lhes tendo dito que chovia, era
claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. To forte que eu
abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por
modo que ajuntei uma pagina  philosophia do Quincas Borba: Humanitas
osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro
abaixo.

Ao sop detivemo-nos alguns minutos;  espera do Damasceno; elle
veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a
briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho mao
de notas de dez tostes, que os triumphadores recebiam duplamente
alegres. Quanto aos gallos vinham sobraados pelo respectivo dono. Um
delles trazia a crista to comida e ensanguentada, que vi logo nelle o
vencido; mas era engano,--o vencido era o outro, que no trazia crista
nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados.
Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes
commoes da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas
de ambos. Eu fui andando, vexado; Nh-lol, vexadissima.




CAPITULO CXXII


Uma inteno mui fina


O que vexava a Nh-lol era o pae. A facilidade com que elle se mettra
com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades
sociaes; e Nh-lol chegra a temer que tal sogro me parecesse indigno.
Era notavel a differena que ella fazia de si mesma; estudava-se e
estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente
porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas.
Nh-lol observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao
esforo de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porm,
a manifestao do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu
busquei ento divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanas e
motes de bom tom; vos esforos, que no a alegravam mais. Era to
profundo o abatimento, to expressivo o desanimo, que eu cheguei a
attribuir a Nh-lol a inteno positiva de separar, no meu espirito,
a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande
elevao; era uma affinidade mais entre ns.

--No ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este
pantano.




CAPITULO CXXIII


O verdadeiro Cotrim


No obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia
da familia, entendi no tratar o casamento sem primeiro falar ao
Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que no tinha opinio
em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se
acaso louvasse, as raras prendas de Nh-lol; por isso calava-se. Mais:
estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixo, mas se
ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. No era levado por
nenhum odio; apreciava as minhas bas qualidades,--no se fartava de
as elogiar, como era de justia; e pelo que respeita a Nh-lol, no
chegaria jmais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar
o casamento ia um abysmo.

--Lavo inteiramente as mos, concluiu elle.

--Mas voc achava outro dia que eu devia casar quanto antes...

--Isso  outro negocio. Acho que  indispensavel casar, principalmente
tendo ambies politicas. Saiba que na politica o celibato  uma
rmora. Agora, quanto  noiva, no posso ter voto, no quero, no devo,
no  de minha honra. Parece-me que Sabina foi alm, fazendo-lhe certas
confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella no  tia carnal
de Nh-lol, como eu. Olhe... mas no... no digo...

--Diga.

--No; no digo nada.

Talvez parea excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem no souber que
elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto
com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae.
Reconheo que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que
tinham razo; mas a avareza  apenas a exagerao de uma virtude,
e as virtudes devem ser como os oramentos: melhor  o saldo que
o _deficit._ Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que
chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste
particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouo, donde
elles desciam a escorrer sangue; mas, alm de que elle s mandava os
perversos e os fujes, occorre que, tendo longamente contrabandeado em
escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que
esse genero de negocio requeria, e no se pde honestamente attribuir 
indole original de um homem o que  puro effeito de relaes sociaes.
A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu
amor aos filhos, e na dr que padeceu quando lhe morreu Sra, dalli a
alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e no unica. Era thesoureiro
de uma confraria, e irmo de varias irmandades, e at irmo remido de
uma destas, o que no se coaduna muito com a reputao da avareza;
verdade  que o beneficio no cara no cho: a irmandade (de que elle
fra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. No era perfeito,
de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a
noticia de um ou outro beneficio que praticava,--sestro reprehensivel
ou no louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bas
aces eram contagiosas, quando publicas; razo a que se no pode negar
algum peso. Creio mesmo (e nisto fao o seu maior elogio) que elle
no praticava, de quando em quando, esses beneficios seno com o fim
de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, fora
 confessar que a publicidade tornava-se uma condio _sine qua non._
Em summa, poderia dever algumas attenes, mas no devia um real a
ninguem.




CAPIULO CXXIV


V de intermedio


Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. No obstante, se eu
no compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz
damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, pde
ser real e commum; o leitor, entretanto, no se refugia no livro, seno
para escapar  vida. No digo que este pensamento seja meu; digo que
ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a frma  pittoresca. E
repito: no  meu.

V de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no
tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e
lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Ento, disse
um:--O governo no deve esquecer que o dinheiro  o nervo da guerra. Ao
que eu redargui que no, que o nervo da guerra eram os bons soldados.
Um dos ouvintes coou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro
tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala,
o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa ida,
inteiramente justa, no era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia
que levou o primeiro a no coar o nariz, o segundo a no consultar o
relogio, o terceiro a no tamborilar sobre o joelho, e o quarto a no
dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito,
e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabea approvando,
saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idas
justas. Mas vamos ao epitaphio.




CAPITULO CXXV


Epitaphio


                      AQUI JAZ

            D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO

                       MORTA

             AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE

                   ORAI POR ELLA!




CAPITULO CXXVI


Desconsolao


O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de
Nh-lol, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo
que morreu; accrescentarei que foi por occasio da primeira entrada
da febre amarella. No digo mais nada, a no ser que a acompanhei at
o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que
talvez no a amasse devras.

Vejam agora a que excessos pde levar uma inadvertencia; doeu-me um
pouco a cegueira da epidemia que, matando  direita e  esquerda, levou
tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e no cheguei
a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte.
Creio at que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras
mortes. O Quincas Borba, porm, explicou-me que as epidemias eram uteis
 especie, embora desastrosas para uma certa poro de indivduos; e
fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia
uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a
perguntar-me se, no meio do luto geral, no sentia eu algum secreto
encanto em ter escapado s garras da peste; mas esta pergunta era to
insensata, que ficou sem resposta.

Se no contei a morte, no conto igualmente a missa do setimo dia.
A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma
ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e
dizia que a dor grande com que Deus o castigra fora ainda augmentada
com a que lhe infligiram os homens. No me disse mais nada. Tres
semanas depois tornou ao assumpto, e ento confessou-me que, no no
meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolao da presena dos
amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim,
acompanharam  cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera
expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram to geraes
que bem se podia desculpar essa desatteno apparente. O Damasceno
abanava a cabea de um modo incrdulo e triste.

--Qual! gemia elle, desampararam-me.

O Cotrim, que estava presente:

--Vieram os que devras se interessam por voc  por ns. Os oitenta
viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacas
dos boticarios, do preo das casas, ou uns dos outros...

O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabea, e suspirou:

--Mas viessem!




CAPITULO CXXVII


Formalidade


Grande cousa  haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom
de achar as relaes das cousas, a faculdade de as comparar e o talento
de concluir! Eu tive essa distinco psychica; eu a agradeo ainda
agora do fundo do meu sepulchro.

De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno,
no se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para
uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram
seis damas de Constantinopla,--modernas,--em trajos de rua, com a
cara tapada, no tapada  outra maneira, com um espesso panno que as
cobrisse devras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir
somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei
graa a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o
rosto,--e cumpre o uso,--mas no o esconde,--e divulga a belleza.
Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se
tu s um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues
isso), comprehenders que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a
orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...

Amavel Formalidade, tu s, sim, o bordo da vida, o balsamo dos
coraes, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu
enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta;
e se a dr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, seno a
ti, devero esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na
cabea no diz nada  alma; mas a indifferena que corteja deixa-lhe
uma deleitosa impresso. A razo  que, ao contrario de uma velha
formula absurda, no  a lettra que mata; a lettra d vida; o espirito
 que  objecto de controversia, de duvida, de interpretao, e
conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para
socego do Damasceno e gloria de Muhammed.




CAPITULO CXXVIII


Na camara

E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras
de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande
borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commisso de
oramento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro 
escusado encarecer a minha satisfao, e para os outros  igualmente
inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira,
entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a
lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o
Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos  mesma praia, como duas botelhas
de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu
remorso; e emprgo esta frma suspensiva, dubitativa ou condicional,
para o fim de dizer que effectivamente no continha nada, a no ser a
ambio de ser ministro.




CAPITULO CXXIX


Sem remorsos


No tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste
livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso at
os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e
concludente, por que razo Achilles passea  roda de Troya o cadaver
do adversario, e lady Macbeth passea  volta da sala a sua mancha de
sangue. Mas eu no tenho apparelhos chimicos, como no tinha remorsos;
tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este
capitulo, direi que no quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a
ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que
a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita
reputao militar e litteraria. Eu no ouvia as supplicas de Priamo,
mas o discurso do Lobo Neves, e no tinha remorsos.




CAPITULO CXXX


Para intercalar no cap. CXXIX


A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi
n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgoro azul, e
ostentava s luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. No era a
frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa,
de uma formosura outonia, realada pela noite. Lembra-me que falamos
muito; e lembra-me que no alludimos a cousa nenhuma do passado.
Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou ento um olhar, e mais
cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas,
e no sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me
os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra
profundamente retrospectiva:

--Magnifica!

Convm intercalar este capitulo entre a primeira orao e a segunda do
cap. CXXIX.




CAPITULO CXXXI


De uma calumnia


Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,--o
que era simples opinio e no remorso,--senti que alguem me punha a mo
no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha,
jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e
disse-me:

--Seu magano! Recordaes do passado, hein?

--Viva o passado!

--Voc naturalmente foi reintegrado no emprego.

--Salta, pelintra! disse eu, ameaando-o com o dedo.

Confesso que este dialogo era uma indiscrio,--principalmente a ultima
replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres 
que tem fama de indiscretas, e no quero acabar o livro sem rectificar
essa noo do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei
homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico,
etc., ao passo que as parceiras no davam por si, e jurariam aos
Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razo desta differena
 que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por
amor, ou seja o amor-paixo de Stendhal, ou o puramente physico de
algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres,
e pde ser que outras raas civilisadas; mas o homem,--falo do homem
de uma sociedade culta e elegante,--o homem conjuga a sua vaidade ao
outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos),
a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e
portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia;
ao passo que o homem, sentindo-se causa da infraco e vencedor de
outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro
sentimento menos rispido e menos secreto,--essa meiga fatuidade, que 
a transpirao luminosa do merito.

Mas seja ou no verdadeira a minha explicao, basta-me deixar escripto
nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrio das mulheres
 uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas so
um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por
inquietas, por no saberem resistir aos gestos, aos olhares; e  por
isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou
algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a
descobrir-se por fora, mais tarde ou mais cedo: no ha cachorrinho
to adestrado, que alfim lhe no ouamos o latir.




CAPITULO CXXXII


Que no  serio


Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo,
quando uma pessoa v outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe:
Gentes, quem matou seus cachorrinhos? como se dissesse:--quem lhe
levou os amores, as aventuras secretas, etc. Mas este capitulo no 
serio.




CAPITULO CXXXIII


O principio de Helvetius


Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a
confisso dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de
Helvetius,--ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar;
confirmar a suspeita de uma cousa antiga fra provocar algum odio
supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputao
de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio
de Helvetius de um modo superficial, isso  o que devia ter feito.
Mas eu j dei o motivo da indiscrio masculina: antes daquelle
interesse de _segurana_, havia outro, o do _desvanecimento_, que 
mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um
syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das
entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto,
o segundo proximo. Concluso: o principio de Helvetius  verdadeiro
no meu caso;--a diferena  que no era o interesse apparente, mas o
recondito.




CAPITULO CXXXIV


Cincoenta annos


No lhes disse ainda,--mas digo-o agora,--que quando Virgilia descia a
escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta
annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,--ou a
melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitaes, de
sustos,--capeada de dissimulao e duplicidade,--mas emfim a melhor,
se devemos falar a linguagem usual. Si, porm, empregarmos outra mais
sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes
dizer nas poucas paginas deste livro.

Cincoenta annos! No era preciso confessal-o. J se vae sentindo que o
meu estylo no  to lesto como nos primeiros dias. Naquella occasio,
cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu,
confesso que fiquei um pouco triste. Voltei  sala, lembrou-me dansar
uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos
bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares.
E no me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei
do baile, s quatro da manh, o que  que fui achar no fundo do carro?
Os meus cincoenta annos. L estavam elles os teimosos, no tolhidos
de frio, nem rheumaticos,--mas cochillando a sua fadiga, um pouco
cobiosos de cama e de repouso. Ento,--e vejam at que ponto pde ir
a imaginao de um homem, com somno,--ento pareceu-me ouvir de um
morcego encarapitado no tejadilho:--Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia
estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,--emfim, nos outros.




CAPITULO CXXXV


Oblivion


E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o
livro e no l as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da
minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! No  ainda a invalidez,
mais j no  a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um
inglez dizia, entenderei que cousa  no achar j quem se lembre de
meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.

Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo  que se dem todas as
honras a um personagem to desprezado e to digno, conviva da ultima
hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e
mais dolorosamente a que ostentou suas graas em flor sob o ministerio
Paran, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente j que
outras lhe tomaram o carro. Ento, se  digna de si mesma, no teima em
espertar a lembrana morta ou expirante; no busca no olhar de hoje a
mesma saudao do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam
a marcha da vida, de alma alegre e p veloz. _Tempora mutantur._ E
ella comprehender que este turbilho  assim mesmo, leva as folhas do
mato e os farrapos do caminho, sem excepo nem piedade; e se tiver um
pouco de philosophia, no invejar, mas lastimar as que lhe tomaram o
carro, porque tambem ellas ho de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION.
Espectaculo, cujo fim  divertir o planeta Saturno, que anda muito
aborrecido.




CAPITULO CXXXVI


Inutilidade


Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo intil.




CAPITULO CXXXVII


A barretina


E dahi, no; elle resume as reflexes que fiz no dia seguinte ao
Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil
outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de
que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
melancolia.

--Meu caro Braz Cubas, no te deixes vencer desses vapores. Que diacho!
 preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir!
dominar! Cincoenta annos  a edade da sciencia e do governo. Animo,
Braz Cubas; no me sejas palerma. Que tens tu com essa successo de
ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica
sabendo que a peor philosophia  a do choramigas que se deita 
margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O
officio dellas  no parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de
aproveital-a.

Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande
philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condo de sacudir
o torpor moral e mental em que andava. Vamos l; faamo-nos governo.
Crel-o-eis, posteros? Eu no havia intervindo at ento nos grandes
debates. Cortejava a pasta por meio de rapaps, chs, commisses e
votos; e a pasta no vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.

Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o oramento da
justia, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro
se no julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. No
tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei
que no era indigno das cogitaes de um homem de Estado; e citei
Philopemen, que ordenou a substituio dos broqueis de suas tropas,
que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanas, que
eram demasiado leves; facto que a historia no achou que desmentisse
a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava
pedindo um crte profundo, no s por serem deselegantes, mas tambem
por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor
produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos
de Hippocrates era trazer a cabea fresca, parecia cruel obrigar um
cidado, por simples considerao de uniforme, a arriscar a saude e
a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo
deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade
e da independencia, e que o cidado, chamado a um servio gratuito,
frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus,
decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina,
por seu peso, abatia a cabea dos cidados, e a patria precisava de
cidados cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do
poder; e conclui com esta ida: O choro, que inclina os seus galhos
para a terra,  arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, 
arvore do deserto, das praas e dos jardins.

Vria foi a impresso deste discurso. Quanto  forma, ao rapto
eloquente,  parte litteraria e philosophica, a opinio foi s uma;
disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem
ainda conseguira tirar tantas idas. Mas a parte politica foi
considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um
desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam j
em opposio, entrando nesse numero os opposicionistas da camara,
que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moo de desconfiana.
Repelli energicamente tal interpretao, que no era s erronea, mas
calumniosa,  vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete;
accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, no era
tamanha que no pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso,
eu transigiria na extenso do crte, contentando-me com tres quartos
de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha ida no fosse
adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.

O Quincas Borba, porm, no fez restrico alguma. No sou homem
politico, disse-me elle ao jantar; no sei se andaste bem ou mal;
sei que fizeste um excellente discurso. E ento notou as partes
mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse
comedimento de louvor que to bem fica a um grande philosopho; depois,
tomou o assumpto  sua conta, e impugnou a barretina com tal fora,
com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu
perigo.




CAPITULO CXXXVIII


A um Critico


    Meu caro critico,

    Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos,
    accrescentei: J se vae sentindo que o meu estylo no  to
    lesto como nos primeiros dias. Talvez aches esta phrase
    incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu
    chamo a tua atteno para a subtileza daquelle pensamento. O
    que eu quero dizer no  que esteja agora mais velho do que
    quando comecei o livro. A morte no envelhece. Quero dizer,
    sim, que em cada phase da narrao da minha vida experimento
    a sensao correspondente. Valha-me Deus!  preciso explicar
    tudo.




CAPITULO CXXXIX


De como no fui ministro de estado

.               .   .       .   .   .   .   .   .   .   .
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CAPITULO CXL


Que explica o anterior


Ha cousas que melhor se dizem calando; tal  a materia do capitulo
anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixo
do poder  a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o
desespero, a dr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara
dos deputados. Iam-se-me as esperanas todas; terminava a carreira
politica. E notem que o Quincas Borba, por induces philosophicas
que fez, achou que a minha ambio no era a paixo verdadeira do
poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinio delle, este
sentimento, no sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais,
porque ora pelo amor que as mulheres tem s rendas e toucados. Um
Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os
queima a paixo do poder, l chegam  fina fora, ou pela escada da
direita, ou pela da esquerda. No era assim o meu sentimento; este,
no tendo em si a mesma fora, no tem a mesma certeza do resultado;
e dahi a maior afflico, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu
sentimento, segundo o Humanitismo...

--Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de
philosophias que me no levam a cousa nenhuma.

A dureza da interrupo, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a
um desacato; mas elle proprio desculpou a irritao com que lhe falei.
Trouxeram-nos caf; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de
estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros,
objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que
nessa occasio parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me
olhava, o ladro; cadeiras excellentes; fra, o sol, um grande sol,
que o Quincas Borba, no sei se por chalaa ou poesia, chamou um dos
ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente
azul. De cada janella,--eram trez--pendia uma gaiola com passaros,
que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de
uma conspirao das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse
na _minha_ sala, olhando para a _minha_ chacara, sentado na _minha_
cadeira, ouvindo os _meus_ passaros, ao p dos _meus_ livros, allumiado
pelo _meu_ sol, no chegava a curar-me das saudades daquella outra
cadeira, que no era minha.




CAPITULO CXLI


Os ces


--Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas,
indo pr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.

No sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado,
aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e no sou
nada.

--Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignao.

Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho
Velho. Iamos a p, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o
beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a fora. A palavra
daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu
no podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir
um jornal. Chegou a usar uma expresso menos elevada, mostrando assim
que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no
calo do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e desmancha toda esta
egrejinha.

--Magnifica ida! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...

--Lutar. Pdes escachal-os ou no; o essencial  que lutes. Vida 
luta. Vida sem luta  um mar morto no centro do organismo universal.

Dahi a pouco demos com uma briga de ces; facto que aos olhos de um
homem vulgar no teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar
os ces. Eram dous. Notou que ao p delles estava um osso, motivo da
guerra, e no deixou de chamar a minha atteno para a circumstancia
de que o osso no tinha carne. Um simples osso n. Os ces mordiam-se,
rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala
debaixo do brao, encostou o queixo no casto, e parecia em extasis.

--Que bello que isto ! dizia elle de quando em quando.

Quiz arrancar-me dalli, mas no pude; elle estava arraigado ao cho,
e s continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um
dos ces, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte.
Notei que ficra sinceramente alegre, posto contivesse a alegria,
segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do
espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os ces tinham
fome; mas a privao do alimento era nada para os effeitos geraes da
philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo
o espectaculo  mais grandioso: as creaturas humanas  que disputam
aos ces os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se
complica muito, porque entra em aco a intelligencia do homem, com
todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.




CAPITULO CXLII


O pedido secreto


Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga
de ces! Mas eu no era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de
fazer uma ou outra objeco adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma
duvida; no estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos ces.
Elle respondeu-me com excepcional brandura:

--Disputai-a aos outros homens  mais logico, porque a condio dos
contendores  a mesma, e leva o osso o que fr mais forte. Mas porque
no ser um espectaculo grandioso disputal-o aos ces? Voluntariamente,
comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel;
logo, o ruim  comivel; resta saber se  mais digno do homem
disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para
obedecer a uma exaltao religiosa, isto , modificavel, ao passo que a
fome  eterna, como a vida e como a morte.

Estavamos  porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma
senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrio propria de um
philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu
lia a carta, que era de Virgilia:

    Meu bom amigo,

    D. Placida est muito mal. Peo-lhe o favor de fazer alguma
    cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcana
    metei-a na Misericrdia.

    Sua amiga sincera,

    [signature]

No era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o
V da assignatura no passava de um rabisco sem inteno alphabetica;
de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe
a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe
deixado os cinco contos da praia da Gamba, eno podia comprehender
que...

--Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.

--O que? perguntei espantado.

--Vaes comprehender que eu s te disse a verdade. Pascal  um dos meus
avs espirituaes; e, omquanto a minha philosophia valha mais que a
delle, no posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle
nesta pagina?--E, chapu na cabea, bengala sobraada, apontava o logar
com o dedo.--Que diz elle? Diz que o homem tem uma grande vantagem
sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo
ignora-o absolutamente. Vs? Logo, o homem que disputa o osso a um co
tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e  isto que
torna grandiosa a luta, como eu dizia. Sabe que morre  uma expresso
profunda; creio todavia que  mais profunda a minha expresso: sabe
que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o
entendimento humano; a consciencia da extinco dura um breve instante
e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
de prolongar o estado consciente. Parece-me (se no vae nisso alguma
immodestia), que a frmula de Pascal  inferior  minha, sem todavia
deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.




CAPITULO CXLIII


No vou


Emquanto elle restituia o livro  estante, relia eu o bilhete. Ao
jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir,
fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma
mosca invisivel, disse-me elle:--Tens alguma cousa; aposto que foi
aquella carta?--Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com
o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de ris;
duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto.
Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fra, comeu-os
em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve!
Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu no sabia, ou no me
lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum
recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de l ir, chamar a atteno
dos visinhos, bater  porta, etc. Que massada! No vou.




CAPITULO CXLIV


Utilidade relativa


Mas a noite, que  boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava
obedecer aos desejos da minha antiga dama.

--Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.

Depois do almoo fui  casa de D. Placida; achei um mlho de ossos,
envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo;
dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a
Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
morta; saiu da vida s escondidas, tal qual entrra. Outra vez
perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o
sachristo da S e a doceira trouxeram D. Placida  luz, n'um momento
de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se no fosse D. Placida,
talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou
immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a
utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que
diacho ha absoluto nesse mundo?




CAPITULO CXLV


Simples repetio


Quanto aos cinco contos, no vale a pena dizer que um canteiro da
visinhana fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe
os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes
inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. No
vale a pena.  o caso dos ces do Quincas Borba. Simples repetio de
um capitulo.




CAPITULO CXLVI


O programma


Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicao
politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba no houvesse
ainda publicado o livro, (que aperfeioava de anno em anno) assentamos
de lhe no fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma
declarao, autographa e reservada, de que alguns principios novos
applicados  politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.

Era a fina flr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir
os abusos, defender os sos principios de liberdade e conservao;
fazia um appello ao commercio e  lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin
e acabava com esta ameaa, que o Quincas Borba achou mesquinha e
local: A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar
o actual ministerio. Confesso que, nas circumstancias politicas da
occasio, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaa do fim, que
o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do
mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o
Humanitismo no excluia nada; as guerras de Napoleo e uma contenda
de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a
differena que os soldados de Napoleo sabiam que morriam, cousa que
apparentemente no acontece s cabras. Ora, eu no fazia mais do que
applicar s circumstancias a nossa frmula philosophica: Humanitas
queria substituir Humanitas para consolao de Humanitas.

--Tu s o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba,
com uma nota de ternura, que at ento lhe no ouvira. Posso dizer
como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua,
no recuarei das minhas idas. Cr, meu caro Braz Cubas, que esta  a
verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.




CAPITULO CXLVII


O desatino


Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta, dizendo que
provavelmente comearia a publicao de um jornal opposicionista, dahi
a algumas semanas, redigido pelo Dr. Braz Cubas. O Quincas Borba, a
quem li a noticia, pegou da penna, e acrescentou ao meu nome, com uma
fraternidade verdadeiramente humanistica, esta phrase: um dos mais
gloriosos membros da passada camara.

No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado,
mas dissimulava, affectando socego e at alegria. Vira a noticia
do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me
de semelhante ida. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia
collocar-me n'uma situao difficil, e de certa maneira trancar as
portas do parlamento. O ministerio, no s lhe parecia excellente,
o que alis podia no ser a minha opinio, mas com certeza viveria
muito; e que podia eu ganhar com indispol-o contra mim? Sabia que
alguns dos ministros me eram affeioados; no era impossivel uma vaga,
e... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditra muito o
passo que ia dar, e no podia recuar uma linha. Cheguei a propr-lhe a
leitura do programma, mas elle recusou energicamente, dizendo que no
queria ter a minima parte no meu desatino.

-- um verdadeiro desatino, repetiu elle; pense ainda alguns dias, e
ver que * um desatino.

A mesma cousa disse Sabina,  noite, no theatro. Deixou a filha no
camarote, como Cotrim, e trouxe-me ao corredor.

--Mano Braz, que  que voc vae fazer? perguntou-me afflicta. Que ida
 essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia....

Expliquei-lhe que no me convinha mendigar uma cadeira no parlamento;
que a minha ida era derrubar o ministerio, por no me parecer adequado
 situao--e a certa frmula philosophica; afiancei que empregaria
sempre uma linguagem cortez, embora energica. A violencia no era
especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos,
abanou a cabea, e tornou ao assumpto com um ar de supplica e ameaa,
alternadamente; eu disse-lhe que no, que no, e que no. Desenganada,
lanou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e
invejosas aos della e do marido.--Pois siga o que, lhe parecer,
concluiu; ns cumprimos a nossa obrigao. Deu-me as costas e voltou ao
camarote.




CAPITULO CXLVIII


O problema insoluvel


Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, apparecia em outros
uma declarao do Cotrim, dizendo, era substancia, que posto no
militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a patria, achava
conveniente deixar bem claro que no tinha influencia nem parte directa
ou indirecta na folha de seu cunhado, o Dr. Braz Cubas, cujas idas
e procedimento politico inteiramente reprovava. O actual ministerio
(como alis qualquer outro composto de eguaes capacidades) parecia-lhe
destinado a promover a felicidade publica.

No podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas
vezes, e reli a declarao inopportuna, insolita e enigmatica. Se
elle nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente to
vulgar como a publicao de uma folha? Nem todos os cidados que acham
bom ou mau um ministerio fazem declaraes taes pela imprensa, nem
so obrigados a fazel-as. Realmente, era um mysterio a intruso do
Cotrim neste negocio, no menos que a sua aggresso pessoal. Nossas
relaes at ento tinham sido lhanas e benevolas; no me lembrava
nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliao.
Ao contrario, as recordaes eram de verdadeiros obsequios; assim, por
exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o
arsenal de marinha, fornecimentos que elle continuava a fazer com a
maior pontualidade, e dos quaes me dizia algumas semanas antes, que
no fim de mais trez annos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois
a lembrana de tamanho obsequio no teve fora para obstar que elle
viesse a publico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo
da declarao, que o fazia commetter ao mesmo tempo um destempero e uma
ingratido; confesso que era um problema insoluvel...




CAPITULO CXLIX


Theoria do beneficio


... To insoluvel que o Quincas Borba no pde dar com elle, apezar de
estudal-o longamente e com boa vontade.--Ora adeus! concluiu; nem todos
os problemas valem cinco minutos de atteno.

Quanto  censura de ingratido, o Quincas Borba rejeitou-a
inteiramente, no como improvavel, mas como absurda, por no obedecer
s concluses de uma boa philosophia humanistica:

--No me pdes negar um facto, disse elle;  que o prazer do
beneficiador  sempre maior que o do beneficiado. Que  o beneficio? 
um acto que faz cessar certa privao do beneficiado. Uma vez produzido
o effeito essencial, isto , uma vez cessada a privao, torna o
organismo ao estado anterior, ao estado indifferente. Suppe que tens
apertado em demasia o cs das calas; para fazer cessar o incommodo,
desabotas o cs, respiras, saboreas um instante de gozo, o organismo
torna  indifferena, e no te lembras dos teus dedos que praticaram o
acto. No havendo nada que perdure,  natural que a memoria se esvaea,
porque ella no  uma planta aerea, precisa de cho. A esperana de
outros favores,  certo, conserva sempre no beneficiado a lembrana do
primeiro; mas este facto, alis um dos mais sublimes que a philosophia
pde achar em seu caminho, explica-se pela memoria da privao, ou,
usando de outra frmula, pela privao continuada na memoria, que
repercute a dor passada e aconselha a precauo do remedio opportuno.
No digo que, ainda sem esta circumstancia, no acontea, algumas
vezes, persistir a memoria do obsequio, acompanhada de certa affeio
mais ou menos intensa; mas so verdadeiras aberraes, sem nenhum valor
aos olhos de um philosopho.

--Mas, repliquei eu, se nenhuma razo ha para que perdure a memoria do
obsequio no obsequiado, menos ha de haver em relao ao obsequiador.
Quizera que me explicasses este ponto.

--No se explica o que  de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas
Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistencia do beneficio na
memoria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do beneficio
e seus effeitos. Primeiramente, ha o sentimento de uma boa aco, e
deductivamente a consciencia de que somos capazes de boas aces; em
segundo logar, recebe-se uma convico de superioridade sobre outra
creatura, superioridade no estado e nos meios; e esta  uma das
cousas mais legitimamente agradaveis, segundo as melhores opinies,
ao organismo humano. Erasmo, que no seu _Elogio da Sandice_ escreveu
algumas cousas boas, chamou a atteno para a complacencia com que dois
burros se coam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observao de
Erasmo; mas direi o que elle no disse, a saber, que se um dos burros
coar melhor o outro, esse ha de ter nos olhos algum indicio especial
de satisfao. Porque  que uma mulher bonita olha muitas vezes para
o espelho, seno porque se acha bonita, e porque isso lhe d certa
superioridade sobre uma multido de outras mulheres menos bonitas
ou absolutamente feias? A consciencia  a mesma cousa; remira-se a
miudo, quando se acha bella. Nem o remorso  outra cousa mais do que o
trejeito de uma consciencia que se v hedionda. No esqueas que, sendo
tudo uma simples irradiao de Humanitas, o beneficio e seus effeitos,
so phenomenos perfeitamente admirveis.




CAPITULO CL


Rotao e translao


Ha em cada empreza, affeio ou edade um cyclo inteiro da vida humana.
O primeiro numero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora,
coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis mezes
depois batia a hora da velhice, e dahi a duas semanas a da morte, que
foi clandestina, como a de D. Placida. No dia em que o jornal amanheceu
morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que,
se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais
ou menos ephemeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio
no dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para no arriscar essa
figura menos nitida e adequada, prefiro uma imagem astronomica: o homem
executa  roda do grande mysterio um movimento duplo de rotao e
translao; tem os seus dias, deseguaes como os de Jupiter, e delles
compe o seu anno mais ou menos longo.

No momento em que eu terminava o meu movimento de rotao, concluia o
Lobo Neves o seu movimento de translao. Morria com o p na escada
ministerial. Correu ao menos, durante algumas semanas, que elle ia ser
ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritao e inveja, no
 impossivel que a noticia da morte me deixasse alguma tranquillidade,
allivio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer  muito, mas  verdade;
juro aos seculos que  a pura verdade.

Fui ao enterro. Na sala mortuaria achei Virgilia, ao p do feretro, a
soluar. Quando levantou a cabea, vi que chorava deveras. Ao sair o
enterro, abraou-se ao caixo, afflicta; vieram tiral-a e leval-a para
dentro. Digo-vos que as lagrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemiterio;
e, para dizer tudo, no tinha muita vontade de falar; levava uma pedra
na garganta ou na consciencia. No cemiterio, principalmente quando
deixei cair a p de cal sobre o caixo, no fundo da cova, o baque surdo
da cal deu-me um estremecimento passageiro,  certo, mas desagradavel;
e depois a tarde tinha o peso e a cr do chumbo; o cemiterio, as roupas
pretas...




CAPITULO CLI


Philosophia dos epitaphios


Sa, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitaphios. E, alis,
gosto dos epitaphios; elles so, entre a gente civilisada, uma
expresso daquelle pio e secreto egoismo que induz o homem a arrancar
 morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Dahi vem, talvez,
a tristeza inconsolavel dos que levam os seus mortos  valla commum;
parece-lhes que a podrido anonyma os alcana a elles mesmos.




CAPITULO CLII


A moeda do Vespasiano


Tinham ido todos; s o meu carro esperava pelo dono. Accendi um
charuto; afastei-me do cemiterio. No podia sacudir dos olhos a
ceremonia do enterro, nem dos ouvidos os soluos de Virgilia. Os
soluos, principalmente, tinham o som vago e mysterioso de um problema.
Virgilia trahira o marido, com sinceridade; e agora chorava-o com
sinceridade. Eis uma combinao difficil que no pude fazer em todo
o trajecto; em casa, porm, apeando-me do carro, suspeitei que a
combinao era possivel, e at facil. Meiga Natura! A taxa da dor 
como a moeda de Vespasiano; no cheira  origem, e tanto se colhe do
mal como do bem. A moral reprehender, porventura, a minha complice;
 o que te no importa, implacavel amiga, uma vez que lhe recebeste
pontualmente as lagrimas. Meiga, tres vezes meiga Natura!




CAPTULO CLIII


O alienista


Comeo a ficar pathetico; e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era
nababo, e acordei com a ida de ser nababo. Eu gostava, s vezes,
de imaginar esses contrastes de regio, estado e credo. Alguns dias
antes tinha pensado na hypothese de uma revoluo social, religiosa e
politica, que transferisse o arcebispo de Cantuaria a simples collector
de Petropolis, e fiz longos calculos para saber se o collector
eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o collector, ou
que poro de arcebispo pde jazer n'um collector, ou que somma de
collector pde combinar com um arcebispo, etc. Questes insoluveis,
apparentemente, mas na realidade perfeitamente soluveis, desde que se
attenda que pde haver n'um arcebispo dous arcebispos,--o da bulla e o
outro. Est dito, vou ser nababo.

Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que
olhou para mim com certa cautella e pena, levando a sua bondade a
communicar-me que eu estava doudo. Ri-me a principio; mas a nobre
convico do philosopho incutiu-me certo medo. A unica objeco contra
a palavra do Quincas Borba  que no me sentia doudo, mas no tendo
geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal objeco ficava
sem valor. E vde se ha algum fundamento na crena popular de que os
philosophos so homens alheios s cousas minimas. No dia seguinte
mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado.
Elle porm houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se
to alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me no achava
doudo.

--No, disse elle sorrindo; raros homens tero tanto juizo como o
senhor.

--Ento o Quincas Borba enganou-se?

--Redondamente. E depois:--Ao contrario, se  amigo delle... peo-lhe
que o distraia... que...

--Justos ceus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espirito! um
philosopho!

No importa; a loucura entra em todas as casas. Imaginem a minha
afflico. O alienista, vendo o effeito de suas palavras, reconheceu
que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da
advertencia. Observou que podia no ser nada, e accrescentou at que um
grosinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico  vida. Como
eu rejeitasse com horror esta opinio, o alienista sorriu e disse-me
uma cousa to extraordinaria, to extraordinaria, que no merece menos
de um capitulo.




CAPITULO CLIV


Os navios do Pireu


--Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco
atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram
de sua propriedade. No passava de um pobreto, que talvez no
tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos
navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos
ns um maniaco de Athenas; e quem jurar que no possuiu alguma vez,
mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, pde crer que jura
falso.

--Tambem o senhor? perguntei-lhe.

--Tambem eu.

--Tambem eu?

--Tambem o senhor; e o seu criado, no menos, se  seu criado esse
homem que alli est sacudindo os tapetes  janella.

De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto
ns falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou ento que elle
escancarra as janellas todas, desde longo tempo, que alra as
cortinas, que devassra o mais possivel a sala, ricamente alfaiada,
para que a vissem de fra, e concluiu:--Este seu criado tem a mania do
atheniense: cr que os navios so delle; uma hora de illuso que lhe d
a maior felicidade da terra.




CAPITULO CLV


Reflexo cordial


--Se o alienista tem razo, disse eu commigo, no haver muito que
lastimar o Quincas Borba; e uma questo de mais ou de menos. Comtudo,
 justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de
outras paragens.




CAPITULO CLVI


Orgulho tem servilidade


O Quincas Borba divergiu do alienista em relao ao meu
criado.--Pde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado
a mania de atheniense; mas imagens no so idas nem observaes
tomadas  natureza. O que o teu criado tem  um sentimento nobre
e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo:  o orgulho
da servilidade. A inteno delle  mostrar que no  criado de
_qualquer._--Depois chamou a minha atteno para os cocheiros de casa
grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja
solicitude obedece s variaes sociaes da freguezia, etc. E concluiu
que era tudo a expresso daquelle sentimento delicado e nobre,--prova
cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas,  sublime.




CAPITULO CLVII


Phase brilhante


--Sublime s tu, bradei eu, lanando-lhe os braos ao pescoo.

Com effeito, era impossvel crer que um homem to profundo pudesse
chegar  demencia; e foi o que lhe disse aps o meu abrao,
denunciando-lhe a suspeita do alienista. No posso descrever a
impresso que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou
muito pallido.

Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem
chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliao opportuna,
porque a solido pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim
a peor das fadigas, que  a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui
convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu no fiz
sem consultar o Quincas Borba:

--Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de
annexar  minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O
Humanitismo ha de ser tambem uma religio, a do futuro, a unica
verdadeira. O christianismo  bom para as mulheres e os mendigos, e as
outras religies no valem mais do que essa: oram todas pela mesma
vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christo  um digno emulo do paraiso
mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha no passa de uma concepo de
paralyticos. Vers o que  a religio humanistica. A absorpo final,
a phase _contractiva_,  a reconstituio da substancia, no o seu
anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; no esqueas, porm, que s o
meu califa.

E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***,
exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha
vida. No obstante, calo-me, no digo nada, no conto os meus servios,
o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi,
nada, no digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse
como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio
subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar
neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia so de difficil
analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que
a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia.
Affirmo smente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os
quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraa, que  to
aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se d 
alma dos doentes e dos pobres,  recompensa de algum valor; e no me
digam que  negativa, por s recebel-a o obsequiado. No; eu recebia-a
de um modo reflexo, e ainda assim grande, to grande que me dava
excellente ida de mim mesmo.




CAPITULO CLVIII


Dous encontros


No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio,
e deixei-o, no sem um donativo importante, que me deu direito ao
retrato na sacristia. No acabarei, porm, o capitulo sem dizer que vi
morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e
vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortio, para distribuir
esmolas, achei... Agora  que no so capazes de adivinhar... achei a
flr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaa, to coxa
como a deixara, e ainda mais triste.

Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra
de um instante. Ergueu logo a cabea, e fitou-me com muita dignidade.
Comprehendi que no receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe
a mo, como faria  esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se
no cubiculo. Nunca mais a vi; no soube nada da vida della, nem se a
me era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que
continuava coxa e triste. Foi com esta impresso profunda que cheguei
ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia
hora depois, feia, magra, decrepita...




CAPITULO CLIX


A semi-demencia


Comprehendi que estava velho, e precisava de uma fora; mas o Quincas
Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a
melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em
casa, certa manh, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico.
A differena  que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que,
para o fim de aperfeioar o Humanitismo, queimra o manuscripto todo e
ia recomeal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora no escripta;
era a verdadeira religio do futuro.

--Juras por Humanitas? perguntou-me.

--Sabes que sim.

A voz mal podia sair-me do peito; e alis no tinha descoberto toda
a cruel verdade. O Quincas Borba no s estava louco, mas sabia que
estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina
no meio das trevas, complicava muito o horror da situao. Sabia-o,
e no se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda
uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me
longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou
at a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do
Humanitismo. A graa lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas
era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os
olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um
raio persistente da razo, triste como uma lagrima...

Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre
que a dor era uma illuso, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, no
era to tolo como o suppoz Voltaire.




CAPITULO CLX


Das negativas


Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos
narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a inveno
do _emplasto Braz Cubas_, que morreu commigo, por causa da molestia
que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os
homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa
inspirao do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes
eternamente hypocondriacos.

Este ultimo capitulo  todo de negativas. No alcancei a celebridade do
emplasto, no fui ministro, no fui califa, no conheci o casamento.
Verdade  que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de no
comprar o po com o suor do meu rosto. Mais: no padeci a morte de D.
Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e
outras, qualquer pessoa imaginar que no houve mingua nem sobra, e
conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginar mal; porque ao
chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo,
que  a derradeira negativa deste capitulo de negativas:--No tive
filhos, no transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.

FIM



NDICE


Ao leitor v

Dedicatria vii

Capitulo


             I    Obito do auto
            II    O emplasto
           III    Genealogia
            IV    A ida fixa
             V    Em que apparece a orelha de uma senhora
            VI    Chimne, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru?
           VII    O delirio
          VIII    Razo contra Sandice
            IX    Transio
             X    Naquelle dia
            XI    O menino  pae do homem
           XII    Um episodio de 1814
          XIII    Um salto
           XIV    O primeiro beijo
            XV    Marcella
           XVI    Uma reflexo immoral
          XVII    Do trapezio o outras cousas
         XVIII    Viso do corredor
           XIX    A bordo
            XX    Bacharelo-me
           XXI    O almocreve
          XXII    Volta ao Rio
         XXIII    Triste, mas curto
          XXIV    Curto, era alegre
           XXV    Na Tijuca
          XXVI    O autor hesita
         XXVII    Virgilia?
        XXVIII    Contanto que
          XXIX    A visita
           XXX    A flor da moita
          XXXI    A borboleta preta
         XXXII    Cxa de nascena
        XXXIII    Bem aventurados os que no descem
         XXXIV    A uma alma sensivel
          XXXV    O caminho de Damasco
         XXXVI    A proposito de botas
        XXXVII    Emfim!
       XXXVIII    A quarta edio
         XXXIX    O visinho
            XL    Na sege
           XLI    A allucinao
          XLII    Que escapou a Aristoteles
         XLIII    Marqueza, porque eu serei marquez
          XLIV    Um Cubas!
           XLV    Notas
          XLVI    A herana
         XLVII    O recluso
        XLVIII    Um primo de Virgilia
          XLIX    A ponta do nariz
             L    Virgilia casada
            LI     minha!
           LII    O embrulho mysterioso
          LIII    . . . . . .
           LIV    A pendula
            LV    O velho dialogo de Ado e Eva
           LVI    O momento opportuno
          LVII    Destino
         LVIII    Confidencia
           LIX    Um encontro
            LX    O abrao
           LXI    Um projecto
          LXII    O travesseiro
         LXIII    Fujamos!
          LXIV    A transaco
           LXV    Olheiros e escutas
          LXVI    As pernas
         LXVII    A casinha
        LXVIII    O vergalho
          LXIX    Um gro de sandice
           LXX    D. Placida
          LXXI    O seno do livro
         LXXII    O bibliomano
        LXXIII    O _lunch_
         LXXIV    Historia de D. Placida
          LXXV    Commigo
         LXXVI    O estrume
        LXXVII    Entrevista
       LXXVIII    A presidencia
         LXXIX    Compromisso de gato
          LXXX    De secretario
         LXXXI    A reconciliao
        LXXXII    Questo de botanica
       LXXXIII    13
        LXXXIV    O conflicto
         LXXXV    O cimo da montanha
        LXXXVI    O mysterio
       LXXXVII    Geologia
      LXXXVIII    O enfermo
        LXXXIX    _In extremis_
            XC    O velho colloquio do Ado e Caim
           XCI    Uma carta extraordinaria
          XCII    Um homem extraordinario
         XCIII    O jantar
          XCIV    A causa secreta
           XCV    Flores de antanho
          XCVI    A carta anonyma
         XCVII    Entre a boca e a testa
        XCVIII    Supprimido
          XCIX    Na plateia
             C    O caso provavel
            CI    A revoluo dalmata
           CII    De repouso
          CIII    Distraco
           CIV    Era elle!
            CV    Equivalencia das janellas
           CVI    Jogo perigoso
          CVII    Bilhete
         CVIII    Que se no entende
           CIX    O philosopho
            CX    31
           CXI    O muro
          CXII    A opinio
         CXIII    A solda
          CXIV    Fim do um dialogo
           CXV    O almoo
          CXVI    Philosophia das folhas velhas
         CXVII    O Humanitismo
        CXVIII    A terceira fora
          CXIX    Parenthesis
           CXX    _Compelle intrare_
          CXXI    Morro abaixo
         CXXII    Uma inteno mui fina
        CXXIII    O verdadeiro Cotrim
         CXXIV    V de intermedio
          CXXV    Epitaphio
         CXXVI    Desconsolao
        CXXVII    Formalidade
       CXXVIII    Na camara
         CXXIX    Sem remorsos
          CXXX    Por intercallar no cap. CXXIX
         CXXXI    De uma calumnia
        CXXXII    Que no  serio
       CXXXIII    O principio de Helvetius
        CXXXIV    Cincoenta annos
         CXXXV    _Oblivion_
        CXXXVI    Inutilidade
       CXXXVII    A barretina
      CXXXVIII    A um critico
        CXXXIX    De como no fui ministro d'Estado
           CXL    Que explica o anterior
          CXLI    Os ces
         CXLII    O pedido secreto
        CXLIII    No vou
         CXLIV    Utilidade relativa
          CXLV    Simples repetio
         CXLVI    O programma
        CXLVII    O desatino
       CXLVIII    O problema insoluvel
         CXLIX    Theoria do beneficio
            CL    Rotao e translao
           CLI    Philosophia dos epitaphios
          CLII    A moeda de Vespasiano
         CLIII    O alienista
          CLIV    Os navios do Pireu
           CLV    Reflexo cordial
          CLVI    Orgulho da servilidade
         CLVII    Phase brilhante
        CLVIII    Dous encontros
          CLIX    A semi-demencia
           CLX    Das negativas





End of the Project Gutenberg EBook of Memorias Postumas de Braz Cubas, by 
Machado de Assis

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS ***

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Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
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Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
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